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Cancioneiro guasca

João Simão Lopes Neto

Pró-memória

Como uma velha jóia, pesada e tosca, que a moda repulsa e entende arcaica, assim a antiga estirpe camponesa que libertou o território e fundou o trabalho social no Rio Grande do Sul, assim, essa - velha jóia pesada e tosca - acadinhada pelo progresso, transmutou-se.

Usos e costumes, asperezas, impulsos, e logo, aspirações, tão outras que as primevas e incompassíveis formam, agora, diferente maneira de ser dos descendentes dos continentistas.

Nada impede, porém, que carinhosa, a filial piedade procure construir um escrínio onde fulgir possa o metal - duro e puro - que é herança sua.

Seja este livrinho o escrínio pobre; mas, que dentro dele resplandeça a ingênua alma forte dos guerrilheiros, campesinos, amantes, lavradores; dos mortos e, para sempre, abençoados Guascas!

Razão do título

"GUASCA, subs. f.: tira ou corda de couro: - subs. m.: o rio-grandense e mais especificamente o camopônes do Rio Grande. Baseado no fato dos filhos do Rio Grande, em geral, dedicarem-se à indústria pastoril, em cujos variados trabalhos usam sempre de cordas de couro (guascas), dão-lhe os filhos do Norte aquela denominação, que os próprios rio-grandenses habitantes das cidades mais importantes dão aos da campanha, que são os que se entregam à vida pastoril. Assim, pois, se é termo genuinamente rio-grandense, na primeira acepção acima, não o é de todo na segunda; pois os nortistas, especialmente, foram os que começaram a empregá-lo para designar os rio-grandenses, que não pejam de aceitar essa denominação, aliás também por eles aplicadas aos seus coestaduanos"...

I - Antigas danças

"Os antigos habitantes deste território usavam de danças próprias ou, para melhor dizer, sui generis, que pelos seus traços parecem haver resultado de uma combinação das danças dos primitivos paulistas, mineiros e lagunenses, com as danças dos açoritas e dos indígenas, mais a meia-canha e o pericon, danças que se usavam nas repúblicas do Prata, especialmente em Corrientes, Entre-Rios e Estado Oriental.

A razão que nos leva a assim supor é que nessas danças se nota não só os sapateados dos antigos povoadores da província, de origem pportuguesa, como também certos meneios e passados de mão entre a dama e o cavalheiro na meia-canha e no pericon, acontecendo que muitas delas têm nomes indígenas. Eram estas danças variadas e tomando as denominações de - tirana, anu, tatu, cará, feliz-amor, balaio, xará, chimarrita, chico, ribada, cerra-baile, galinha morta, quero-mana, serrana, dandão, sabão, bambaquerê, pinheiro, pagará, pega-fogo, recortada, retorcida e outras.

Estas danças, apesar de serem um tanto toscas, apresentavam certos meneios delicados, revestidos de muita graça e estavam longe de assemelhar-se às danças grosseiras e de umbigadas dos sertanejos do norte do Brasil.

Os bailes em que eram elas dançadas denominavam-se fandangos, os quais, nos primeiros tempos, devido talvez à falta de música na província, ou mesmo pelas suas belezas em harmonia com aquelas épocas, construíam os divertimentos dos salões das altas classes (antigos estancieiros); descendo até as senzalas dos peões, que mais tarde com suas chinas eram os únicos apologistas dessas danças, cujos vestígios ainda se encontram na região serrana e na Serra Geral.

Entre as altas classes o fandango, que até pelos anos de 1839 e 1840 ainda era muito usado, foi sendo substituído pelas danças vindas da Europa.

As danças do fandango, apesar de serem bastante limitadas, não deixavam, no entanto, de manifestar muitos traços da estética e uma tendência inicial para a civilização de um povo que lutava com os seus próprios esforços, achando-se, por assim dizer, isolado do mundo polido.

Cada uma dança do fandango tinha duas músicas correspondentes, que eram tocadas na viola: uma servia para dançar-se e outra para cantar-se nos pequenos intervalos que havia no decurso da dança.

Com a viola também se faziam os cantos do desafio.

Nas sapateadas do fandango havia certos puxados de pé, cuja execução dependia de uma ginástica bem difícil, pois que cerravam todos a um tempo a sapateada, batiam com o salto do botim ou com a roseta da espora sem interromper a dança e no mesmo tempo faziam o puxado. Quando algum dos dançantes erravam, o que era motivo de risos, o cantador atirava-lhe logo esta quadrinha:

- Meu senhor que está dançando,
me queira, pois, dispensar,
se o pelego for de venda,
me traga quero comprar.
e, reincindindo, esta outra ou semelhante:
- Já tenho a ramada cheia
de pelegos enrolados:
nunca vi tanto pelego
assim e tão mal tirados.

Para dançar, formavam os cavalheiros com seus pares uma grande roda; as senhoras não sapateavam, se limitando a imprimir ao corpo certos meneios assistidos de castanholas, como nas fieiras atuais, fazendo a tudo isto frente aos seus pares ou aos cavalheiros que na roda lhes ficavam ao lado. Eram então as danças em ordem e debaixo de marcas como nas quadrilhas atuais e começavam assim: depois da roda feita no anu, por exemplo, dizia o marcante - roda grande - a esta voz todos se davam as mãos; o marcante: - tudo cerra! - e, a um tempo, de mãos dadas, cerravam a sapateada; à voz de - cadena! - faziam os dançantes mão direita de dama, como na quadrilha. Então cantava o tocador de viola (duas, três quadras):

O anu é pássaro preto,
passarinho de verão;
quando cant'à meia-noite
dá uma dor no coração...

Folga, folga, minha gente,
que uma noite não é nada.
Se não dormires agora,
dormirás de madrugada!

Durante o canto cada cavalheiro tomava a mão de sua dama e passava-lhe o braço por cima da cabeça como na meia-canha e no pericon, e assim dispostos cumprimentavam-se com a cabeça, mutuamente. Começando em seguida de tudo isto, a roda grande cessava logo, e dizia o par marcante: - olha o dois! - o que todos executavam batendo palmas e dando uma sapateada harmônica para um lado e em seguida para outro; e a estas seguiam-se muitas outras marcas, como: três, seguido, olha o bicho, um bichinho, cerra a trava, cerra e manca, tudo cerra, furta par, tira espinho, sobre cincha; - e todas estas marcas eram repetidas à voz de - outra vez que ainda não vi. - A seguir ai verso do cantador alguns faziam o estribilho seguinte:

- Anda a roda,
o tatu é teu;
voltinha no meio,
o tatu é meu!

Tais eram as danças singelas que serviam de divertimento às almas nobres dos nossos antepassados, que ainda no berço embalavam esta província tão rica de glórias e tradições honrosas.

O tatu

Eu vim p'ra contar a história
Dum - tatu - que já morreu,
Passando muitos trabalhos
Por este mundo de Deus.

O tatu foi muito ativo
P'ra sua vida buscar;
Batia casco na estrada,
Mas nunca pôde ajuntar!

Ora pois, todos escutem
Do tatu a narração,
E se houver quem saiba mais,
Entre também na função.

Ande a roda,
o tatu é teu;
voltinha no meio,
o tatu é meu! -

O tatu foi homem pobre,
Que apenas teve de seu
Um balandrau muito velho
Que o defunto pai lhe deu!

O tatu é bicho manso,
Nunca mordeu a ninguém
Só deu uma dentadinha
Na perninha do meu bem.

O tatu é bicho manso
Não pode morder ninguém;
Inda que queira morder.
O tatu dentes não tem.

O tatu saiu do mato
Vestidinho, preparado;
Parecia um capitão.
De camisa de babado!...

O tatu saiu do mato
Procurando mantimento!...
Caiu numa cachorrada
Que o levou cortando vento!...

O tatu me foi à roça
Toda a roça me comeu...
Plante roça quem quiser,
Que o tatu quero ser eu!

A chimarrita

Vou cantar a Chimarrita
Que hoje ainda não cantei;
Deus lhes dê as boas noites,
Que hoje ainda não lhes dei.

Vou cantar a Chimarrita
Que uma moça me pediu;
Não quero que a moça diga:
Ingrato! Não me serviu.

A Chimarrita que eu canto,
Veio de cima da Serra,
Rolando de galho em galho
Até chegar nesta terra!

Chimarrita quando nova,
Uma noite me atentou...
Quando foi de madrugada
Deu de rédea e me deixou!

A Chimarrita é uma velha
Que mora no faxinal
Comendo a triste canjica
E grão de feijão sem sal.

Chimarrita é mulher pobre,
Já não tem nada de seu;
Só tem uma saia velha
Que a sogra lhe deu.

Chimarrita no seu tempo
Já muito potro domou:
Agora quer uma sotreta,
Nem um rodilhudo achou!

Chimarrita é altaneira,
Não quebra nunca o corincho:
Diz que tem trinta cavalos,
E não tem nem um capincho.

Chimarrita diz que tem
Dois cavalinhos lazões:
Mentira da Chimarrita,
Não tem nada, nem xergões!

Chimarrita diz que tem
Quatro cavalos oveiros:
Mentira da Chimarrita,
Só se são quatro fueiros!

Chimarrita diz que tem
Sete cavalos tostados:
Mentira da Chimarrita,
Nem perdidos, nem achados!

Chimarrita diz que tem
Dois zainos e um tordilho:
Mentira da Chimarrita,
Nem um cupim p'ro lombilho!

Chimarrita diz que tem
Três cavalos tobianos:
Mentira, tudo mentira
Nem garras, pingos, nem panos!
Tironeada da sorte
A Chimarrita rodou;
Logo veio a crua morte
E as garras lhe botou.

Chimarrita morreu ontem,
Ontem mesmo s'enterrou:
Quem chorar a Chimarrita
Leva o fim que ela levou.

Coitada da Chimarrita,
Vou rezar por ser cristão:
A pobre da Chimarrita
Viveu como um chimarrão!

Chimarrita morreu ontem,
Ontem mesmo s'enterrou:
Na cova da Chimarrita
Fui eu quem terra botou!

Chimarrita morreu ontem,
E ainda hoje tenho pena;
Do corpo da Chimarrita
Vai nascer um'açucena!

Chimarrita morreu ontem,
Mas p'ra sempre há de durar;
As penas da Chimarrita
Fazem a gente pensar...

Aragana e caborteira
A Chimarrita mentiu;
Não censure a dor alheia
Quem nunca dores sentiu!...

Quem sabe se a Chimarrita
Na alma criou cabelos...
Quem vê uma bagualada,
Vê mais vultos do que pêlos...

Quanta maldade se disse
Da Chimarrita, coitada!
A pedar grande faz sombra...
E a sombra não pesa nada!

Chimarrita generosa,
Oh! Chimarrita, perdoa!
Quem te chamava má,
Não era melhor pessoa!...

Aqui paro, na saída,
Do fim dessa narração,
A moça, se está contente,
Me dê o seu galardão!

Eu disse o que a bisavó
Da minha avó ensinou;
Se alguém sabe mais que eu,
Já não 'stá'qui quem falou!

Chimarrita morreu ontem,
Inda hoje tenho dó;
Na cova da Chimarrita,
Nasceu um pé de cidró.

Chimarrita, mulher velha,
Quem te trouxe lá do Rio?
- Foi um velho marinheiro
Na proa de seu navio!

A Chimarrita no campo
Co'os bichos todos falou;
Na morte da Chimarrita
O bicharedo chorou.
O trevo de quatro folhas
Da Chimarrita é feitura:
Com ele se quebra a sina
Que o mal sobre nós apura.

- E outros muitos. -

A tirana

Eu amei uma tirana,
E ela não me quis bem! (ai)
Agora vou desprezá-la,
Vou ser tirano também! (ai)

Todos gostam da tirana
Mas é só para dançar;
Porque, de uma tirania
Ninguém deve de gostar.

Tirana, feliz tirana,
Tirana, de tirania
Já não morre por amores
Quem de amores não morria.

Tirana, feliz tirana,
Tirana, vamos andando;
A minha licença é pouca,
O tempo 'stá se acabando.

Tirana, feliz tirana,
Tirana, que bom fandango!
De tudo vou me esquecendo,
Só de ti vou me lembrando.

Tirana, feliz tirana,
Tirana, o sol 'stá nascendo!
E quando o sol se apagar
Nas estrelas 'stou te vendo!

Tirana, feliz tirana,
Tirana, vamos embora
Juntinhos de braço dado,
Antes de romper a aurora...

Tirana, tira, tirana,
Tirana de fagagoza,
Assim como ela é bonita,
Também há de ser gostosa.

Tirana, tira, tirana,
Tirana, que eu vi, bem vi:
Meu amor em braços doutro!...
Não sei como não morri!

Tirana, tira, tirana,
Tirana, vou te deixar:
Tirana, juraste falso,
Tirana - p'ra me enganar!

Tirana, bela tirana,
Tirana do arvoredo:
Se teu pai te degradar
Comigo seja o degredo!

Tirana, bela tirana,
Tirana do pé pequeno,
Eu te levo nos meus braços
E não te molha, o sereno!

Tirana, bela tirana,
Tirana, não chores, não;
Não dormirás ao relento,
Teu leito é meu coração!

A Tirana é mulher velha,
Já não é mais rapariga,
Por isso ela já não quer
Que lhe metam em cantiga.

A Tirana é mulher brava,
E mora num faxinal,
Socando sua canjica,
Comendo feijão sem sal.

A Tirana quando olha
P'ra gente, de atravessado,
É sempre muito melhor,
Não s'esperar o recado!...

A Tirana quando puxa
As pelancas da papada,
Adeus! minhas encomendas!
Vai roncar a trovoada!...

A Tirana é capivara
Velha, de má condição:
Quando ela fica zangada,
Bate co'a bunda no chão!

Tirana, velha Tirana,
Tirana do ariru:
A mulher matou o marido
Co'a pá de mexer angu!

A galinha morta

Vou cantar a galinha morta:
Por cima deste telhado.
Viva branco, viva negro,
Viva tudo misturado!

Eu vi a galinha morta,
Agora, no fogo fervendo...
A galinha foi p'ra outro,
Eu fiquei chorando e vendo!

Minha galinha pintada...
Ai! meu galo carijó...
Morreu a minha galinha,
Ficou o meu galo só.

Minha galinha pintada...
Ai! meu galo garnisé!...
Morreu a minha galinha,
Fica o galo sem mulher...

Minha galinha pintada,
Com tão bonito sinal!
Meu compadre me roubou
Pelo fundo do quintal.

Minha galinha morta
Bicho do mato comeu:
Fui ao mato ver as penas,
Dobradas penas me deu.

A galinha e a mulher
Não se deixam passear:
A galinha o bicho come...
A mulher dá que falar!

Eu vi a galinha morta,
A mesa já estava posta;
Chega, chega, minha gente,
A galinha é p'ra quem gosta!

Minha galinha pintada,
Pontas d'asas amarelas:
Também serve de remédio
P'ra quem tem dor de canelas...

A polca mancada

A mancada 'stá doente,
Muito mal, para morrer;
Não há frango nem galinha
Para a mancada comer.

A dita polca mancada
Tem mau modo de falar:
De dia corre co'a gente,
À noite manda chamar.

A mancada está doente,
Muito mal, para morrer;
Na botica tem remédio
P'ra mancada beber.

Quero-mana

Tão bela flor digo agora,
Tão bela flor quero-mana.

Que passarinho é aquele
Que está na flor da banana,
Co'o biquinho dá-lhe, dá-lhe,
Co'as asinhas, quero-mana!

Tão bela flor digo agora,
Tão bela flor quero-mana.
Quando eu ando neste fado,
A própria sombra m'engana.

Tão bela flor quero-mana,
As barras do dia aí vêm.
Os galos já estão cantando,
Os passarinhos também.

O pinheiro

Quem tem pinheiros tem pinhas
Quem tem pinheiros tem pinhões,
Quem tem amores tem zelos
Quem tem zelos tem paixões.

Quem tem pinheiro tem pinha
Quem tem pinheiro tem pinhão,
Do homem nasce a firmeza,
Da mulher a ingratidão.

Oh! que pinheiro tão alto,
Com tamanha galharada;
Nunca vi moça solteira
Com tamanha filharada...

Oh! que pinheiro tão alto,
Que por alto se envergou,
Que menina tão ingrata,
Que d'ingrata me deixou!

O boi barroso

Meu boi barroso,
Que eu já contava perdido,
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido.

Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora
E gritei - aperta, gente,
Que o meu boi se vai embora!

No cruzar uma picada,
Meu cavalo relinchou,
Dei de rédea p'ra esquerda,
E o meu boi me atropelou!

Nos tentos levava um laço
Com vinte e cinco rodilhas,
P'ra laçar o boi barroso
Lá no alto das coxilhas!

Mas no mato carrasquento
Onde o boi 'stava embretado,
Não quis usar o meu laço,
P'ra não vê-lo retalhado.

E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré,
P'ra laçar meu boi barroso
No redomão pangaré.

Eu mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga,
P'ra laçar meu boi barroso
Lá no paço da restinga.

E mandei fazer um laço
Do couro da capivara,
P'ra laçar meu boi barroso:
E lacei de meia cara.

Pois era um laço de sorte,
Que quebrou do boi a balda
Quando fui cerrar o laço,
Só peguei de meia espalda!

O balaio

Mandei fazer um balaio
P'ra guardar meu algodão;
Balaio saiu opequeno;
Não quero balaio, não.

Corta, meu bem, recorta,
Recorta o teu bordadinho;
Depois de bem recortado,
Guarda no teu balainho.

O guaraxaim

Lá vem o guaraxaim
Com cara de disfarçado;
Ele vem comer galinha
E soltar cavalo atado!

O anu

O anu é pássaro preto,
Passarinho de verão;
Quando canta à meia-noite
Oh! que dor no coração!...

E se tu, anu, soubesses,
Quanto custa um bem querer,
Oh! pássaro, não cantarias
Às horas do amanhecer.

O anu é pássaro preto,
Páss'ro do bico rombudo:
Foi praga que Deus deixou
Todo negro ser beiçudo!...

Sr. Zorrilho

Onde vai, Sr. Zorrilho,
Em tamanha galopada?
- Vou m'embora p'ra cidade,
Dançar a polca mancada.

Não vá lá, Sr. Zorrilho,
Para não ser caçoado!
- Não me importa, lá se avenham,
Que eu sou mui relacionado.

Tenência, Sr. Zorrilho,
Quem não sabe não se meta,
- Menos sabe quem se apura
P'r'agarrar-me sem gambeta!

Veja lá, Sr. Zorrilho,
Na cidade há seus perigos!
- Não vive ninguém no mundo
Sem ter os seus inimigos...

Trovas dos foliões

Aqui chegou o Divino
que a todos vem visitar;
vem pedir-vos uma esmola
p'ra o seu império enfeitar.

O Divino Esp'rito Santo
não pede por carestia,
pede somente uma esmola
p'ra festejar o seu dia.

O Divino Esp'rito Santo
agradece a sua oferta,
que lhe deram seus devotos,
para fazer sua festa.

O Divino agradece
aos senhores e senhoras,
e também aos inocentes
que lhe deram sua esmola.

A pombinha do Divino
de voar já vem cansada,
vem pedir aos seus devotos
que lhes dêem uma pousada.

O Divino Esp'rito Santo
vai seguir sua jornada;
agradece aos seus devotos
que lhe deram esta pousada.

Se despeçam, nobre gente,
que a pombinha do Divino
vai seguir sua jornada,
visitar outros vizinhos.

Quadras - Descantes e desafios

Eu já sei que tens no peito
Assunto pr'argumentar,
Mas para apanhar um coxo,
O melhor é vê-lo andar;
Por isso vais já dizer-me
Qual a flor pretendida
Que se dá de amor em graça,
Porém que nunca é vendida?

- Mais devagar pelas pedras,
Não se apure que é lançante:
Quem anda fora dos pagos
Não deve ser arrogante.
Mas, mesmo assim, eu te afirmo,
Cá na minha opinião,
Todas as flores se vendem:
Só os suspiros se dão!

- Ah! velho, se és tão ladino
e te julgas bom cantor,
respondendo a esta pergunta,
te declaro vencedor:
quero que digas, de pronto,
ligeiro, sem titubear,
se sabes quantas estrelas
estão no céu a brilhar?...

- Ninguém abuse dos outros
por mais que seja pimpão,
pois suceder ver-se um cuera
a pé, de freio na mão.
E pois, te digo, as estrelas,
no céu imenso espalhadas,
são a - metade e outro tanto
das mesmas por Deus criadas;
e, se imaginas que minto
na quantidade que dei,
te desafio a contá-las...
para ver que não errei!

III - Poemetos

Hino da República Rio-Grandense

(Cantado pela primeira vez em 30 de abril de 1839)
Nobre povo Rio-grandense,
Povo de Heróis, Povo Bravo,
Conquistaste a independência!
Nunca mais serás escravo!

Avante oh! Povo Brioso!
Nunca mais retrogradar,
Porque atrás fica o Inferno
Que vos há de sepultar!

O Majestoso Progresso
É Preceito Divinal,
Não tem melhor garantia
Nossa ordem social.

O Mundo que nos contempla,
Que pesa nossas ações
Bendirá nossos esforços,
Cantará nossos Brasões!

Da gostosa Liberdade
Brilha entre nós o clarão:
Da constância e da coragem
Eis aqui o galardão!

Variante

(Também foi muito cantada.)
Avante oh! Povo Brioso!
Nunca mais retrogradar,
Porque atrás fica o abismo
Que ameaça nos tragar...

Salve oh! vinte de setembro,
Dia grato e soberano
Aos livres continentistas,
Ao Povo Republicano.

Salve oh! dia venturoso
Risonho trinta de abril,
Que aos corações patriotas
Encheste de gostos mil!

CORO

Da gostosa Liberdade
etc.

Outra variante

Como a aurora precursora
Do farol da divindade,
Foi o Vinte de Setembro
O precursor da Liberdade.

Entre nós reviva Atenas
Para assombro dos tiranos,
Sejamos Gregos na glória
E na virtude, Romanos.

Mas não basta p'ra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo;
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo.

CORO

Mostremos valor, constância,
Nesta ímpia e injusta guerra,
Sirvam as nossas façanhas
De modelo a toda terra.
(Francisco Pinto da Fontoura)

Iriema

(O Vaqueano - Revista do "Parthenon Literário" - 1892)
MOTE

Pode o céu produzir flores,
A terra estrelas criar:
Não pode o meu coração
Ser vivente sem te amar.

GLOSA

Pode do mundo a grandeza
Reduzir-se, em tudo, a nada
E ver-se também mudada
A ordem da natureza,
Esta vasta redondeza
Matizada de mil cores,
Pode o autor dos autores
Tornar em caos de repente
E deste modo igualmente
Pode o céu produzir flores.

Pode esse sol que alumia
Parar-se na grande altura,
Deixar de haver noite escura,
Sendo sempre claro o dia,
Pode também água fria
Ferver sem fogo e queimar,
Podem os montes falar,
Tornar-se planície a serra,
O peixe viver sem terra
A terra estrelas criar.

Podem as águas correr
Às avessas do costume,
Subindo ao mais alto cume
E não poderem descer,
Podem as brenhas gemer
Amar e sentir paixão
Quando trago à coleção
Tudo pode acontecer,
Mas deixar de te querer
Não pode o meu coração.

Pode esse Deus das alturas
Secar as águas do mar,
O pau no forro contar,
A neve no fogo arder,
Também pode acontecer
O vento nunca reinar
E enquanto o mundo durar
Seja parado e não rode
Mas meu coração não pode
Ser vivente sem te amar.

Rio Grande do Sul

Nascido desse amor ardente e puro
Que tem cada um de nós à sua terra,
Ó Província do Sul! aqui procuro
Sagrar-te o que por ti minh'alma encerra.

Oh! quem pudera recontar a glória
Que em tuas tradições fulge incessante!
Lançar nela o fulgor de um diamante!
Cinzelar co'a palavra a tua história.

Sentinela avançada do Sul do Império,
Jamais ante o perigo hás descorado:
Os teus filhos aqui neste hemisfério
Assz o seu valor já têm provado.

Nas lutas pela pátria ameaçada
Onde é que se encontrou maior civismo?
De santo e pátrio amor aureolada,
Quem acaso venceu-te no heroísmo

Quando ousado agressor te ofende os brios,
A voz da dignidade é quem te impele:
Contra a demência de baldões sombrios
Não há quem mais altiva a honra zele.

És a terra fecunda em que nasceram
_ Bento Gonçalves, Canabarro e Neto -
As águias a quem sempre alvoreceram
Belas auroras de porvir dileto!...

Oh! já muito mais longe esteve a esp'rança
De remir-nos da velha monarquia!
Aqui, de trinta e cinco a idéia avança
E de hora em hora engendra o grande dia.
--------------------------------------------------------------------------------
Mas não é só no meio dos combates
Que sabes perlustrar entre fulgores;
Se ao rugir da metralha não te abates,
Também sabes da paz colher as flores.

Também aqui no crânio de teus filhos
Cintila a doce luz que eleva a mente;
Por ela és impelida a novos trilhos
E adoras do progresso a flor virente.
Por ela não te alias à indolência,
Conheces quanto pode a atividade,
O trabalho - esse símb'lo da paciência
Que eleva e nobilita a humanidade!

Por ela vais prestando um nobre culto
Às belezas que a arte dissemina;
Mil preitos tributando ao grande vulto
Da ciência, a espancar atra neblina...

Por ele, enfim, prossegues no caminho
Em que da vida - além! - a flor viceja...
Jamais o teu porvir será mesquinho,
Porque nunca é pigmeu quem livre almeja.

Ó Pérola do Sul! berço d'encantos!
Esplêndido jardim de flores lindas!
Os primores que encerras aí! são tantos,
Quais nos céus as estrelas são infindas!

Aqui a rio-grandenses é sedutora,
Atrai, cativa com suave enleio;
Em seus olhos a chama é tentadora,
Tem pér'las divinas no belo seio.

Ó ProvÍncia do Sul! se a natureza
Mulheres tão formosas concedeu-te,
Para as lutas da vida a fortaleza,
A bravura e o valor dos homens deu-te!

O gaúcho forte

Sou gaúcho forte, campeando vivo
Livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha
Por leito o pala, ao dormir a sesta.

Monto a cavalo, na garupa a mala,
Facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo?
Quem, atrevido, me pisou no poncho?

Por Deus, eu digo! que já fiz, um dia,
Uma gauchada de fazer pasma:
De - ginetaço - ela deu-me o nome;
Tinha razão; eu lhes vou contar:

Foi que num dia numa bagualada,
Passei o laço num quebra, um puava;
Montei; ferrei-lhe na paleta a espora;
Ele ia às nuvens, porém eu brincava!

Mas, de repente, o animal se atira:
E sai correndo, pela várzea fora;
E eu, que, folheiro, lhe pisei a orelha,
Maneei as bolas, e o bagual estoura.

Gauchadas detas, tenho feito muitas,
Por isso ela me chamou um dia,
Rei dos monarcas, gauchão em regra!
Por Deus! te digo: que ela não mentia!

E, se duvidam, eu já marco a raia,
E que se enfrene parelheiro ousado;
Tiro ou parada; não reservo guasca;
E sou o juiz... de facãozinho ao lado!...

Lá no fandango, de botas e esporas,
Danço a tirana, o folgazão balaio;
E ainda mesmo que me dêempechadas,
Saio rolando, porém; qual! não caio!

Lá na cidade, qualquer um baiano,
Pode, sem susto, me passar buçal;
Mas, tenho consolo, que cornetas desses,
Cá nos meus pagos têm passado mal!...

Se lá me perco nas encruzilhadas;
Eles sorriem por me ver assim;
Aqui eu monto num cuerudo desses,
E rio, mesmo sem lhe dar mau fim.

Isto é que é vida; o demais é história;
E nem invejo do monarca a sorte;
Se a fronte cinge-lhe uma c'roa de ouro
Eu cinjo a c'roa de um gaúcho forte...

Se ele adormece em florido leito,
Sobre os arreios, é meu sono igual;
Se ele se nutre de iguarias mil,
Eu de churrasco, muita vez sem sal!

Não tenho trono onde vá sentar-me,
Nem falsa corte de adulação servil:
Mas sou a glória, perenal e eterna,
Da minha terra, do feliz Brasil!

Amigo Juca

Cá cheguei,
Da marcha um pouco delgado,
Mas os pastos da cidade
Já me têm embarrigado.

Achei encosto e abrigo,
E mui regular aguada;
Para um homem da coxilha
Não é má esta invernada.

Mas assim um pouco arisco,
Sempre as orelhas trocando,
Vejo coisas mui estranhas
Que vão me ressabiando.

Como avestruz na macega,
Nas ruas vivo enredado,
Sem querer, gambeteando,
Para um e outro lado.

Usam aqui as muchachas
Uma tal saia e balão;
Coisa feia, amigo Juca,
Por Deus e um patacão!

São tão duras as tais saias.
Como a casca do tatu;
Tem mais voltas que a mangueira
Lá do cerro do Baú.

Quando passeia uma moça
Vai rodando como a lua...
Se ela fica embarrancada...
Adeus, caminho; adeus, rua!

Corcoveando mui feio
Anda sempre o tal balão;
Prega às vezes cada tranco
Que nem bagual quebralhão!...

Por vida! que toma campo
Capaz de dar um potreiro;
Em caso de temporal
Pode servir de telheiro!

Essa madama tem feito
Muito mal, meu bom amigo;
E já de golpe vou dar-te
A razão do que te digo.

Tu não ignoras, amigo,
Que mesmo eu sendo um gaúcho,
Lá nessas coisas de amor
às vezes dou o meu puxo.

A tua prima Nicota
Desses pagos era a luz,
E sempre entre guapas moças
Fazia primeira ou flux.

Por Deus, que nesse rincão
Não encontrava parelha;
Em prendas e formosura
Ninguém lhe sacava orelha!

Quando ao rufo da viola
A tirana aí dançava,
Era um gosto, amigo, ver
Como ela se maneava!...

Com saudade inda me lembro
De um dia em que lá cantei,
E de amores abombado,
Este verso lhe botei:

- És branca como jasmim,
Colorada como a rosa
Por treu amor eu daria
Um terneira barrosa! -

Que o pealo era p'ra ela,
Logo a menina entendeu:
E sem cortar-me a partida,
Ligeiro, me respondeu:

- Não sou jasmim nem sou rosa,
Eu sou no mais um botão;
Guarda lá tua terneira,
Só quero teu coração! -

Como um changueiro na cancha
Alegre fiquei, amigo,
E fresco retouçaria
Inda que visse o perigo!

Qual aspa de boi brasino
Nessa hora me senti...
Só lhe disse - Deus lhe pague!
Pois quase a fala perdi!...

Louco e cheio de amor,
Andava como um demônio,
E já queria meter-me
No curral do matrimônio...

Qual um mancarrão cansado
Que mal apenas tranqueia
Fico hoje abichornado,
Quando me vem tal idéia...

Parece que a minha bela
Por lá sentiu a mutuca,
Deixou a querência velha,
Ficou perdida, meu Juca.

Encontrei-a um dia destes;
- Caramba, que bicho feio! -
Era uma saia que andava...
E ela, fincada no meio!

Andei-lhe por de redor,
Como boi lá na atafona,
E gritei-lhe bem de rijo:
- Deus lhe dê saúde, Dona!...

A mão lhe quis apertar
Espichando bem o braço;
Cuê-pucha! se estava longe!
A um comprimento de laço!...

Mais triste que um reiúno,
Nessa hora me senti...
Tinha a menina mais bojo
Que o cerro do Botovi!

- Entonces, fica de largo?...
(Me diz ela, meio arisca)
Seu Manduca, não me acha
Um tanto ou quanto faísca?... -

Cuê-pucha!... (lhe retruquei)
Como hei de arrimar,
Se só tiro de bolas
Daqui lhe posso chegar?...

Nisto chega um cajetilha
Mui alegre e rufião
Acolherou-se com ela...
E já me ganhou de mão!

Fiquei boqueando, amigo,
Enquanto a minha adorada,
Levava tudo por diante,
Como tropa em disparada!

De certo o tal roseteiro
Daquele lado, tem rasca...
Hei de escorá-lo... e talvez
Lhe faça engolir a masca...

Escarvando como um touro
Ali havia ficado;
De repente me senti
P'ra diante repontado:

Era uma ponta de moças.
Cada qual com a tal saia...
Podia uma só cobrir
O cerro de Sapucaia!...

E de golpe se elevando
Uma forte ventania,
Por esses ares, amigo,
Eu pensei que tudo ia.

Quis fugir a toda rédea,
Porém mui feio rodei,
E, como sorro manhoso,
Aí, deitado, fiquei.

Os tais balões das muchachas
Redemoinhavam à toa,
E vi, meu Juca, perninhas,
Como junco de lagoa!...

Os tais balões, meu amigo,
Trazem smpre grande mal,
Às vezes, de couro fresco,
Nos fazem levar buçal...

Com eles as vivarachas
Ganhando vão a parada...
E depois o que encontramos?...
Casca, só casca, mais nada?...

Pois vou esbarrar o pingo
Que já vai meio aplastado;
Por outra vez te direi
Um mais comprido recado.

Memórias à tia Rosa
E à comadre Maruca;
E no mais, manda a quem é,
O teu compadre, Manduca.

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