Patrício, apresento-te Blau, o vaqueano.
- Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezigue. Já senti
a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras
ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana;
molhei as mãos no soberbo Uruguai; tive o estremecimen-to do medo nas
ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas
planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do
Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de
Santa Tecla, pousei em São Gabriel, a forja rebrilhante que tantas
espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas
possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupaceretã, o
nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos
onde repousou a mãe de Deus...
- Saudei a graciosa Santa Maria, fagueira e tranqüila na encosta da serra,
emergindo do verde-negro da montanha copada o casario, branco, como um fantástico
algodoal em explosão de casulos.
- Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha,
retrovim para a merencória Soledade, flor do deserto, alma risonha
no silêncio dos ecos do mundo; cortei um formigueiro humano na zona
colonial.
- Da digressão longa e demorada, feita em etapas de datas diferentes,
estes olhos trazem ainda a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza,
da uberdade, da hospitalidade.
- Vi a colméia e o curral; vi o pomar e o rebanho, vi a seara e as
manufaturas; vi a serra, os rios, a campina e as cidades; e dos rostos e das
auroras, de pássaros e de crianças, dos sulcos do arado, das
águas e de tudo, estes olhos, pobres olhos condenados à morte,
ao desaparecimento, guardarão na retina até o último
milésimo da luz, a impressão da visão sublimada e consoladora:
e o coração, quando faltar ao ritmo, arfará num último
esto para que a raça que se está formando, aquilate, ame e glorifique
os lugares e os homens dos nossos tempos heróicos, pela integração
da Pátria comum, agora abençoa-da na paz. -
E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da amizade
e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia. e segundo o benquisto
tapejara Blau Nunes, desempenado arcabouço de oitenta e oito anos,
todos os dentes, vista aguda e ouvido fino, mantendo o seu aprumo de furriel
farroupilha, que foi, de Bento Gonçalves, e de marinheiro improvisado,
em que deu baixa, ferido, de Tamandaré.
Fazia-me ele a impressão de um perene tarumã verdejante, rijo
para o machado e para o raio, e abrigando dentro do tronco cernoso enxames
de abelhas, nos galhos ninhos de pombas...
Genuíno tipo - crioulo - rio-grandense (hoje tão modificado),
era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria
e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável;
e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de
imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco
dialeto gauchesco.
E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias;
dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados
que atravessou; das cousas que ele compreendia e das que eram-lho vedadas
ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo com os homens, das erosões
da morte e das eclosões da vida, entre o Blau - moço, militar
- e o Blau - velho, paisano -, ficou estendida uma longa estrada semeada de
recordações - casos, dizia -, que de vez em quando o vaqueano
recontava, como quem estende, ao sol,para arejar, roupas guardadas ao fundo
de uma arca.
Querido digno velho!
Saudoso Blau!
Patrício, escuta-o.
- Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca
empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por
me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.
- Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato,
que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos
pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos,
fiz uma sesteada morruda.
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa
e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até
para quebrar a lombeira… e fui-me à água que nem capincho!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes;
e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha
para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância
cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.
- Ah!…esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino,
um cusco mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes
dava-me para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia
cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado,
sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isto é outra cousa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada
e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo
e troteava um pouco sobre o rastro; - parecia que o bichinho estava me chamando!...
Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para dai a pouco recomeçar.
- Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra
na ramada da estância, ao tempo que dava as - boas-tardes! - ao dono
da casa, agüentei um tirão seco no coração... não
senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento de
gados que ia levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos
tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre - e ainda hoje, é como vancê sabe... -; estava
começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador,
sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
- Então patrício? está doente?
- Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença;
é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...
- A la fresca!...
- É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele pensar agora de
mim!...
- É uma dos diabos, é...; mas não se acoquine, homem!
Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo,
e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava
a latir...
Ah!... E num repente lembrei-me bem de tudo.
Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação
das roupas nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por
cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei
uma última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada
num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul,
que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um
só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem.
Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrinho pegou a retouçar,
numa alegria, ganindo - Deus me perdoe! - que até parecia fala.
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.
Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por
diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos
tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau enfiado.
Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli
a língua.
Amaguei o corpo e penicando de esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já
mui comprida.
A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se
a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente,
manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite;
à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa
de nuvens de beiradas luminosas.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira,
piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz
que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a
brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas,
como numa despedida triste, em que a gente também não sacode
os braços...
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande, em tudo.
O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio
de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo
e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio
num pajonal; depois o lusco-fusco; depois; cerrou a noite escura; depois,
no céu, só estrelas..., só estrelas...
O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem
por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão
vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar..., lembrei-me dos meus
filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, de
meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já
as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. - Amigo! Vancê
é moço, passa a sua vi-da rindo...; Deus o conserve!…,
sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração
pena!...
- Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas...,
devagarinho, como gateando, subi-ram... tremiam sobre as pestanas, luziam
um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caíam
elas na polvadeira da estrada, como um pingo d'água perdido, que nem
mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro,
passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:
Quem canta refresca a alma,
Cantar adoça o sofrer;
Quem canta zomba da morte:
Cantar ajuda a viver!...
Mas que cantar, podia eu!...
O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o
bagual tinha reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia
respeito... que medo, não, que não entra em peito de gaúcho.
Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando
no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do
sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; cor-ri as mãos
por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...
Então, senti frio dentro da alma…, o meu patrão ia dizer
que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder
as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me,
para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho..., benzi-me, e encostei no
ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...
- Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias
luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava
me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima,
na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de
um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...
- Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava
no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos
arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo
lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não
vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora,
estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era
luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei
um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.
E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha
perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia
como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das cousas. Agora...
era vender o campito, a ponta de gado manso ¾ tirando umas leiteiras
para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores - vender
a tropilha dos colorados… e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e
caso mermasse a conta..., enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém
matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!
E d'espacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou,
mastigando o freio.
Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo,
acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro
outros relinchos vieram.
Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou,
com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o - Louvado seja Jesu-Cristo; boa-noite!
- e entrei, e comigo, rente o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quatro
paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saía; corria o amargo.
Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca
na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas
onças, dentro.
- Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal
le foi de susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva,
arrolhadito aos meus pés...
Se o negro era maleva? Cruz! Era um condena-do!... mas, taura, isso era,
também!
Quando houve a carreira grande, do picaço do major Terêncio e
o tordilho do Nadico (filho do Antunes gordo, um que era rengo), quando houve
a carreira, digo, foi que o negro mostrou mesmo pra o que prestava...; mas
foi caipora.
Escuite.
A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos. Um cajetilha da cidade duma vez que a viu botou-lhe uns versos mui lindos - pro caso - que tinha um que dizia que ela era uma
"............................................... chinoca airosa,
Lindaça como o sol, fresca como uma rosa!...
E o sujeito quis retouçar, porém ela negou-lhe o es-tribo,
porque já trazia mais de quatro pelo beiço, que eram dali, da
querência, e aquele tal dos versos era teatino...
Alta e delgada, parecia assim um jerivá ainda novinho, quando balança
a copa verde tocada de leve por um vento pouco, da tarde. Tinha os pés
pequenos e as mãos mui bem torneadas; cabelo cacheado, as sobrancelhas
finas, nariz alinhado.
Mas o rebenqueador, o rebenqueador..., eram os olhos!...
Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá, assustado:
pretos, grandes, com luz dentro, tímidos e ao mesmo tempo haraganos...
pareciam olhos que estavam sempre ouvindo.., ouvindo mais, que vendo...
Face cor de pêssego maduro; os dentes brancos e lustrosos como dente
de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval,
doces como mi-rim, frescos como polpa de guabiju...
E apesar de arisca, era foliona e embuçalava um cristão, pelo
só falar, tão cativo...
No mais, buenaça, sem entono; e tinha de que, por-que corria à
boca pequena que ela era filha do capitão Pereirinha, estancieiro,
que só ali, nos Guarás, tinha mais de não sei quantas
léguas de campo de lei, povoado, O certo é que o posto em que
ela morava com a mãe, a sia Fermina, era um mimo; tinha de um tudo:
lavoura, boa cacimba, um rodeíto manso; e a Tudinha tinha cavalo amilhado,
só do andar dela, e alguma prata nos preparos.
Parecenças, isso, tinha, e não pouco, com a gente do capitão...
O velho, às vezes, ia por lá, sestear, tomar um chimarrão...
Pois para a carreira essa, tinha acudido um povaréu imenso.
E ela veio, também, com a velha. Velha, é um dizer, porque a
sia Fermina ainda fazia um fachadão...
E deu o caso que os quatro embeiçados também vieram, e um, o
mais de todos, era o Nadico.
E sem ninguém esperar, também apareceu o negro Bonifácio.
É assim que o diabo as arma...
Escuite.
O negro não vinha por ela, não; antes mais por farrear, jogar
e beber: ele era um perdidaço pela cachaça e pelo truco e pela
taba.
E bem montado, vinha, num bagual lobuno rabicano, de machinhos altos, peito
de pomba e orelhas finas, de tesoura; mui bem tosado a meio cogotilho, e de
cola ata-da, em três tranças, bem alto, onde canta o galo!...
E na garupa, mui refestelada, trazia uma chirua, com ar de querendona...
Eta! negro pachola!
De chapéu de aba larga, botado no cocuruto da cabeça e preso
num barbicacho de borlas morrudas, passado pelo nariz; no pescoço um
lenço colorado, com o nó republicano; na cintura um tirador
de couro de lontra debruado de tafetá azul e mais cheio de cortados
do que manchas tem um boi salino!
E na cintura, atravessado com entono, um facão de três palmos,
de conta.
Na pabulagem, andava sozinho: quando falava, era alto e grosso e sem olhar
para ninguém.
Era um governo, o negro!
Ora bem; depois de se mostrar um pouco, o negro apeou a chirua e já
meio entropigaitado começou a pastorejar a Tudinha... e tirando-se
dos seus cuidados encostou o cavalo rente no dela e aí no mais, sem
um - Deus te salve! -sacudiu-lhe um envite para uma paradita na carreira grande.
A piguancha relanceou os seus olhos de veado assustado e não se deu
por achada; ele repetiu o convite da aposta e ela então - depois explicou
- de puro medo aceitou, devendo ganhar uma libra de doces, se ganhasse o tordilho.
O tordilho era o do Nadico.
Ficou fechado o trato.
O negro - era ginetaço! - deu de rédea no lobuno, que virou
direito, nos dois pés, e já lhe cravou as chilenas, grandes
como um pires, e saiu escaramuçando, meio ladeado!
Os quatro brancos se olharam… o Nadico estava esverdeado, como defunto
passado...
A Tudinha pegou logo a caturritar, e a cousa foi passando, como esquecida.
Mas, quê!... o negro estava jurado...
Escuite.
Entraram na cancha os parelheiros, todos dois pisando na ponta do casco, mui
bem compostos e lindos, de se lavar com um bochecho d'água.
Fizeram as partidas; largaram; correram: ganhou, de fiador, o do Nadico, o
tordilho.
Depois rompeu um vozerio, a gente desparramou-se, parecia um formigueiro desmanchado;
as parcerias se juntaram, uns pagavam, outros questionavam.... mas tudo se
foi arreglando em ordem, porque ninguém foi capaz de apontar mau jogo.
E foi-se tomar um vinho que os donos da carreira ofereceram, como gaúchos
de alma grande, principal-mente o major Terêncio, que era o perdedor.
E a Tudinha lá foi, de charola.
No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam,
foi que apareceu aquele negro excomungado, para aguar o pagode. Esbarrou o
cavalo na frente do boliche; trazia na mão um lenço de sequilhos,
que estendeu a Tudinha: havia perdido, pagava...
A morocha parou em meio um riso que estava rindo e firmou nele uns olhos atravessados,
esquisitos, olhos como pra gente que já os conhecesse.., e como sentiu
que o caso estava malparado, para evitar o desaguisado, disse:
- Faz favor de entregar à mamãe, sim?!...
O negro arreganhou os beiços, mostrando as canjicas, num pouco caso
e repostou:
- Ora, misturada!..., eu sou teu negro, de cambão!... mas não
piá da china velha! Toma!
E estendeu-lhe o braço, oferecendo o atado dos doces.
Aqui, o Nadico manoteou e no soflagrante sopesou a trouxinha e sampou com
ela na cara do muçum.
Amigo! Virge' nossa senhora!
Num pensamento o negro boleou a perna, descascou o facão e se veio!...
O lobuno refugou, bufando.
Que peleia mais linda!
Vinte ferros faiscaram; era o Nadico, eram os outros namorados da Tudinha
e eram outros que tinham contas a ajustar com aquele tição atrevido.
Perto do negro Bonifácio, sentado sobre um barril, sem ter nada que
ver no angu, estava um paisano tocando viola: o negro - pra fazer boca, o
malvado! - largou-lhe um revés, tão bem puxado, que atorou os
dedos do coitado e o encordoamento e afundou o tampo do estrumento!...
Fechou o salseiro.
O Nadico mandou a adaga e atravessou a pelanca do pescoço do negro,
roçando na veia artéria; o major tocou-lhe fogo, de pistola,
indo a bala, de refilão, lanhar--lhe uma perna.., o ventana quadrava
o corpo, e rebatia os talhos e pontaços que lhe meneavam sem pena.
E calado, estava; só se via no carão preto o branco dos olhos,
fuzilando...
Ai!...
Foi um grito doido da Tudinha... e já se viu o Nadico testavilhar e
cair, aberto na barriga, com a buchada de fora, golfando sangue!...
No meio do silêncio que se fez, o negro ainda gritou:
- Come agora os meus sobejos!…
Depois, roncou, tal e qual como um porco acuado... e então, foi uma
cousa bárbara!...
Em quatro paletadas, desmunhecando uns, cortando outros, esgaravatando outros,
enquanto o diabo esfrega o olho, o chão ficou estivado de gente estropiada,
espirrando a sangueira naquele reduto.
É verdade também que ele estava todo esfuracado: a cara, os
braços, a camisa, o tirador, as pernas, tinham mais lanhos que a picanha
de um reiúno empacador: mas não quebrava o corincho, o trabuzana!
Aquilo seria por obra dalguma oração forte, que ele tinha, cosida
no corpo.
A esse tempo, era tudo um alarido pelo acampa-mento; de todos os lados chovia
gente no lugar da briga.
A Tudinha, agarrada ao Nadico, com a cabeça pousando-lhe no colo, beijando-lhe
ela os olhos embaciados e a boca já morrente, ali, naquela hora braba,
à vista de todo o mundo e dos outros seus namorados, que se esvaíam,
sem um consolo nem das suas mãos nem das puas lágrimas, a Tudinha
mostrava mesmo que o seu camote preferido era aquele, que primeiro desfeiteou
e cortou o negro, por causa dela...
Foi então que um gaúcho gadelhudo, mui alto, canhoto, desprendeu
da cintura as boleadeiras e fê-las roncar por cima da cabeça…
e quando ia a soltá-las, zunindo, com força pra rebentar as
costelas dum boi manso, e que o negro estava cocando o tiro, de facão
pronto pra cortar as sogas... nesse mesmo momento e instante a velha Fermina
entrou na roda, e ligeira como um gato, varejou no Bonifácio uma chocolateira
de água fervendo, que trazia na mão, do chimarrão que
estava chupando...
O negro urrou como um touro na capa...; a rumo no mais avançou o braço,
e fincou e suspendeu, levantou a velha, estorcendo-se, atravessada no facão
até o esse...; ao mesmo tempo, mandado por pulso de homem um bolaço
cantou-lhe no tampo da cabeça e logo outro, no costilhar, e o negro
caiu, como boi desnucado, de boca aberta, a língua pontuda, mexendo
em tremura uma per-na, onde a roseta da chilena Unia, miúdo...
Patrício, escuite!
Vi então o que é uma mulher rabiosa...: não há
maneia nem buçal que sujeite: é pior que homem!...
A Tudinha já não chorava, não; entre o Nadico, morto,
e a velha Fermina estrebuchando, a morocha mais linda que tenho visto, saltou
em cima do Bonifácio, tirou-lhe da mão sem força o facão
e vazou os olhos do negro, retalhou-lhe a cara, de ponta e de corte... e por
fim, espumando e rindo-se, desatinada - bonita, sempre! - ajoelhou-se ao lado
do corpo e pegando o facão como quem finca uma estaca, tateou no negro
sobre a bexiga, pra baixo um pouco - vancê compreende?... - e uma, duas,
dez, vinte, cinqüenta vezes cravou o ferro afiado, como quem espicaça
uma cruzeira numa toca... como quem quer estraçalhar uma causa nojenta...
como quem quer reduzir a miangos uma prenda que foi querida e na hora é
odiada!...
Em roda, a gauchada mirava, de sobrancelhas rugadas, porém quieta:
ninguém apadrinhou o defunto.
Nisto um sujeito que vinha a meia rédea sofrenou o cavalo quase em
cima da gente: era o juiz de paz.
Mais tarde vim a saber que o negro Bonifácio fora o primeiro a... a amanonsiar a Tudinha; que ao depois tomara novos amores com outra fulana, uma piguancha de cara chata, beiçuda; e que naquele dia, para se mostrar, trouxera na garupa a novata, às carreiras, só de pirraça, para encanzinar, para tourear a Tudinha, que bem viu, e que apesar dos arrastados de asa daquela moçada e sobretudo do Nadico, que já a convidara para se acolherar com ele, sentira-se picada, agoniada da desfeita que só ela e o negro entendiam bem...; por isso é que ela ficou como cobra que perdeu o veneno...
Escuite.
Até hoje me intriga, isto: como uma morena, tão linda, entregou-se
a um negro, tão feio?...
Seria de medo, por ele ser mau?... Seria por bobice de inocente?... Por ele
ser forçudo e ela, franzi-na?... Seria por...
Que, de qualquer forma, ela vingou-se, isso, vingou-se...; mas o resto que
ela fez no corpo do negro? Foi como um perdão pedido ao Nadico ou um
despique tomado da outra, da piguancha beiçuda?...
Ah! mulheres!...
Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa... tudo é bicho
caborteiro...; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho!...