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Memórias da Rua do Ouvidor

 

Joaquim Manuel Macedo

Como a atual Rua do Ouvidor, tão soberba e vaidosa que é, teve a sua origem em um desvio, chamando-se primitivamente Desvio do Mar, e começando então (de 1568 a 1572) do ponto em que fazia ângulo com a Rua Direita, neste tempo com uma só linha de casas e à beira do mar. Como em 1590, pouco mais ou menos, o Desvio do Mar recebeu a denominação de Rua de Aleixo Manoel, sendo ignorada a origem dessa denominação; o autor destas Memórias recorre a uns velhos manuscritos que servem em casos de aperto, e acha neles a tradição de Aleixo Manoel, cirurgião de todos e barbeiro só de fidalgos; começa a referi-la, mas suspende-a no momento em que vai entrar em cena a heroína, que é mameluca, jovem e linda, e deixa os leitores a esperar por ele sete dias.

A Rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro, fala, ocupa-se de tudo; até hoje, porém, ainda não referiu a quem quer que fosse a sua própria história.

Se tão elegante, vaidosa, tafulona e rica no século atual, por ventura lhe apraz esquecer o passado, para não confessar a humildade de seu berço, pois que é do Ouvidor, cerre bem, os ouvidos; porque tomei a peito escrever-lhe a história, mas com tanta verdade e retidão que se lembrando-lhe seus tempos primitivos ela tiver de amuar-se pelo ressentimento de sua soberba de fidalga nova, há de sorrir depois a algumas saudosas e gratas recordações que avivarei em seu espírito perdidamente absorvido pela garridice e pelo governo da moda.

As Memórias da Rua do Ouvidor têm, em falta de outras, um incontestável, grande e precioso merecimento, pois começa já e imediatamente, sendo os seus hipotéticos leitores poupados aos tormentos do prólogo, proêmio, introdução, ou coisa que o valha, em que, de costume, o autor, abismado em dilúvios de modéstia, abusa da paciência do próximo com a exibição de sua própria pessoa afixada no frontispício do monumento.

*

Salvo o respeito devido à sua atual condição de rica, bela e ufanosa dama, tomo com a minha autoridade de memorista-historiador, e exponho ao público a Rua do Ouvidor em seus coeirinhos de menina recém-nascida e pobre.

A atual rainha da moda, da elegância e do luxo nasceu…

É indeclinável principiar por triste confissão de ignorância: não sei, não pude averiguar a data do nascimento da rua que desde 1780 se chama do Ouvidor, do que a ela disso não resulta prejuízo algum, e pelo contrário ganha muito em sua condição de senhora; porque, isenta de aniversário natalício conhecido, não há quem ao certo lhe possa marcar a idade, questão delicadíssima na vida do belo sexo. Que afortunada predestinação dessa Rua do Ouvidor!

São menos felizes que ela as próprias senhoras nascidas no último dia de fevereiro ano bissexto, as quais têm o condão de aniversário natalício só de quatro em quatro anos…

Mas memorista-historiador que sou, não hesito em atraiçoar o segredo da idade aproximada da Rua do Ouvidor, que tão louçã, namoradeira e galante conta com certeza mais de trezentos janeiros.

Sabem todos que a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por Mem de Sá em 1567, teve o seu assento sobre o monte de S. Januário (depois chamado de Castelo); mas, perdido o receio de ataques inopinados dos Tamoios, começaram, logo, os colonos a descer do monte e a estabelecer-se na planície.

Primeiramente levantaram à beira do mar casas e choupanas com uma só linha, formando o que alguns anos mais tarde recebeu o nome de Rua da Misericórdia; em seguida foram adiantando suas rudes construções pela praia de Nossa Senhora do Ó, que a mudar de denominação se foi chamando Lugar do Ferreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço, Largo do Paço, e enfim Praça D. Pedro II.

Da praia de Nossa Senhora do Ó (onde logo depois de 1567 um devoto erguera pequena capela com essa santa invocação) as casas e palhoças continuaram a levantar-se mais ou menos separadas uma das outras e ainda á beira do mar, e também em uma só linha, que muito em breve formaram a primitiva Rua Direita que é desde 1870 Rua Primeiro de Março.

Tudo isso foi obra de 1568 a 1572, e não admira, porque as primeiras casas eram de construção muito ligeira e evidentemente provisória.

Mas em ano que correu entre o de 1568 e o de 1572 alguns colonos abriram à pouca distância do começo da rua que se denominou Direita uma entrada em ângulo reto com ela, e cada qual foi improvisando grosseiro ubi para si e para sua família aos lados dessa aberta feita sobre areias e por entre mesquinha vegetação denunciadora de antigo domínio do mar.

E, curiosa, interessante, notável, notabilíssima idéia ou inspiração daqueles colonos portugueses tão bisonhos e tão sem malícia!… como aquela aberta ainda não era rua, e eles precisavam designá-la por algum nome, chamaram-na Desvio do Mar. Desvio!…

Eis o berço da bonita, vaidosa e pimpona atual Rua do Ouvidor! Fica, pois, historiado que ela nasceu de um desvio, e desvio da Rua Direita, ou do caminho direito, o que, a falar a verdade, não era de bom agouro.

Todavia foi ali aumentando logo o número dos tetos abrigadores; como, porém, se já estivesse prevendo e prelibando seus destinos futuros, o Desvio do Mar ostentou desde os seus primitivos anos suas duas séries de cabanas de aspecto rústico, mas agradável, e perfeitamente alinhadas e paralelas.

O Desvio teve por primeiros moradores gente pobre, no trabalho, porém ativa; peões que exerciam misteres, operários, e um cirurgião que era barbeiro dos nobres.

Mas no ano de 1590 e sem intervenção nem audiência da Câmara Municipal, o Desvio do Mar por acordo geral dos colonos subiu ao grau honorífico de rua urbana com o nome de Aleixo Manoel.

Tal foi a primeira denominação que recebeu, deixando de chamar-se – Desvio – a rua, cujas Memórias escrevo, Aleixo Manoel! nome masculino, feio, ingrato, peão sem raiz de fidalguia, nem carta de nobreza.

Procurei nas crônicas do tempo, e nas obras de Monsenhor Pizarro e de Baltazar da Silva Lisboa algum Aleixo Manoel que tivesse deixado nome na história; mas foi trabalho baldado, não encontrei entre os fidalgos da nascente colônia esse positivo e irrecusável avô da atual Rua do Ouvidor; não há, porém, meio de dissimular o parentesco, porque em livros que escaparam ao incêndio do arquivo da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro em 1791 se acha escrita e mencionada a tal denominação de Rua de Aleixo Manoel.

Ah! que nem por isso se arrepie ressentida, e que não maldiga do seu memorista a Exma. Rua do Ouvidor.

Até aqui o pouco que deixo relatado é seriamente tradicional quanto ao Desvio, e em tudo mais positivamente histórico; quero, porém, em honra e glória da Rua do Ouvidor dar a todo transe, em falta de origem aristocrática impossível, origem romanesca a denominação de Aleixo Manoel que ela teve no outro tempo.

Para casos de aperto como este, o memorista, que se reserva direitos confessos de imaginação, deve ter sempre velhos manuscritos ricos de tradições que expliquem o que se ignora.

Não exijo dos meus leitores que tenham por incontestável a tradição que apanhei nos meus velhos manuscritos. Liberdade ampla de aceitá-la ou não.

Aleixo Manoel, colono português, era cirurgião e também barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos; morava no monte de S. Januário perto do colégio dos padres jesuítas; como porém poucos doentes tivesse, e ainda menos fidalgos a barbear, lembrou-se um dia de procurar fortuna, explorando a guerra.

Neste ponto a minha tradição se aproveita de uma lúgubre página da história.

Como os índios Tamoios, irreconciliáveis e odientos inimigos dos portugueses, hostilizassem a estes quase constantemente, atacando e destruindo seus estabelecimentos rurais na capitania de S. Vicente, e ainda mais na do Rio de Janeiro, o Governador Antônio Salema, resolvendo exterminar aquela tribo selvagem, fez partir contra ela duas colunas expedicionárias, uma de S. Vicente e outra da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, para nesta capitania levarem a ferro e fogo o extermínio a essa tribo funesta e indomável.

Aleixo Manoel alistou-se voluntário na coluna expedicionária fluminense, que foi comandada por Cristóvão de Barros.

A história guarda a lembrança da justificada, mas horrorosa, guerra: o incêndio devorou dezenas de aldeias de índios, e destes mais de dez mil foram mortos, mais de sete mil prisioneiros e reduzidos à escravidão, e os Tamoios que puderam escapar meteram-se pelas florestas, emigrando para muito longe, e para sempre.

Mas o que a história não diz, e a minha tradição informa, é que a tremenda expedição rendeu a Aleixo Manoel dois escravos tamoios, a quem ele generoso e a Custo salvara da medonha hecatombe de uma horda apanhada de surpresa em sua aldeia, nas proximidades de Cabo Frio.

Os dois escravos eram um índio quase sexagenário, e uma índia, sua neta, de três anos de idade; – um homem já a envelhecer, e uma menina a criar; mas para conseguir salvá-los da morte, Aleixo Manoel os tomou à sua conta.

A menina evidentemente não era de raça pura tupi; era uma linda mameluca: a aldeia selvagem estabelecida perto de Cabo Frio ocupado por franceses e as relações amigas e freqüentes destes com os tamoios das vizinhanças, seus aliados, explicavam o cruzamento das duas raças naquela bonita e interessante criança.

De volta á cidade, Aleixo Manoel não quis continuar a residir no monte de S. Januário, e, fazendo construir boa e espaçosa cabana no Desvio do Mar, nela se estabeleceu como cirurgião e ainda barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos.

Os dois escravos receberam o batismo: o índio já meio velho chamou-se Tomé, e a menina ainda criança Inês.

Deus abençoa sempre as boas ações e sobre todas as virtudes, a caridade.

Aleixo Manoel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do monte do Desterro (depois de Santa Tereza) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais por experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião, a quem indicava as moléstias em cujo tratamento elas aproveitavam.

Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manoel começou, graças ao pobre escravo, a distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama; teve clínica extensa e rendosa, reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal.

E com todo esse luxo o cirurgião não teve ânimo de privar-se da glória de barbear fidalgos.

No entanto, Inês ia crescendo a traquinar pela casa e pelo jardim, e o senhor de dia em dia cada vez se deixava enfeitiçar mais pela escrava.

Mas Aleixo Manoel já era notabilidade, cirurgião famoso, o mais considerado dos moradores do Desvio do Mar, e não havia quem pensasse em dar ao Desvio a denominação de Rua Aleixo Manoel.

Ao correr do ano de 1590 o cirurgião principiou a observar certa mudança de costumes em alguns fidalgos, que em vez de mandá-lo chamar a suas casas, como dantes, vinham barbear-se na dele.

Nos primeiros dias ufanou-se muito daquela alteração de costumes, atribuindo-a à honraria e consideração pessoal que lhe queriam prestar pelo crédito e pela estima que gozava.

Depois notou que os fidalgos que para barbear-se vinham a sua casa eram Gil Eanes, Lopo de Melo e mais quatro ou cinco, todos de nobres famílias mas também todos célebres na cidade por vida licenciosa e pervertida.

Tendo notado isso, desconfiou logo de fregueses tais, pôs-se de observação dissimulada e cuidadosa, e bem depressa certificou-se de que os seus fidalgos, quando chegavam para barbear-se, metiam os olhos pela porta do interior da casa, e que afora essa curiosidade impertinente faziam ronda diária e suspeita pelo Desvio do Mar.

Aleixo Manoel não levou muito tempo a procurar a explicação do fenômeno, mas caiu das nuvens, lembrando-se de Inês.

A mameluca fulgurava então entre os 17 e os 18 anos de idade, e com seus belos olhos negros, sua boca lindíssima, seu rosto encantador e seu corpo de contornos admiráveis maravilhava pela formosura. Era uma arrebatadora morena esperta, faceira, e – sem o pensar, voluptuosa.

Aleixo Manoel caiu das nuvens, porque só então refletiu do que já sabia, só então reconheceu muito séria e gravemente que a menina sua escrava já era mulher.

Ele adorava Inês com enlevos e cultos de amor inocente e santo: até esse dia, porém, da queda do alto das nuvens onde se iludia nos segredos ainda não manifestos da natureza da sua afeição, ou deveras só amava Inês com o ardor e a pureza de pai estremecido.

Os fidalgos libertinos lhe alvoroçavam o ânimo: sabia que seus escândalos e atentados ficavam sempre impunes, quando as vitimas eram gente do povo.

Gil Eanes, Lopo de Melo e os outros que o procuravam para barbear-se que intenções trariam?… Nenhum por certo pensava em casar com uma moça que, além de filha de índia, era escrava; que queriam então fazer dela?…

Nessa aflitiva e revoltante conjuntura, Aleixo Manoel apenas escapou de ter sido o primeiro republicano da Rua do Ouvidor, e aí o mais antigo patriarca das idéias do meu bom amigo o Sr. Otaviano Hudson.

Mas que havia de fazer Aleixo Manoel?… era impossível, ou seria loucura meter-se em briga com fidalgos.

Fidalgos! a classe humana super-humanizada, privilegiada e purificada, a classe do seu culto e da sua paixão!… quem diria que o seu maior tormento lhe viria de fidalgos?

Aleixo Manoel velou uma noite inteira a meditar, e a imaginar; mas na manhã seguinte achou-se senão tranqüilo, ao menos, porém, esperançoso do bom resultado do plano que forjara.

Nesse plano a primeira e essencial condição era em casa a defesa e a segurança de Inês, quando ele estivesse ausente.

O cirurgião não procurou auxílio fora da família: tinha sob seu teto cão fiel, velho, mas robusto e forte; um índio, o avô de Inês.

Pôs de sobreaviso, mas em segredo absolutamente recomendando o já octogenário Tomé, que se endireitou garboso, como o jacatirão, e murmurou surda e ameaçadoramente:

– Deixa eles!

Além das instruções que deu ao velho índio, o que mais fez Aleixo Manoel, ele lá o soube e nós provavelmente o iremos sabendo; continuou, porém, respeitoso e humilde a receber em casa os tais fidalgos, e a barbeá-los, como dantes, salva a idéia sinistra e repulsada, que às vezes lhe vinha, de experimentar o corte da navalha nas gargantas dos privilegiados sedutores de donzelas pobres.

Entretanto, o cirurgião muitas vezes ficava cismando, e a lembrar-se e relembrar-se de que não era nem pai, nem tio, nem irmão, nem primo de Inês, e que por conseqüência não havia impedimentos…

É verdade que ele tinha cinqüenta anos e a menina dezessete; mas por isso mesmo! velho que se apaixona por menina perde logo com o coração a medida do tempo, principalmente futuro, para ela a florescer, e para ele a murchar.

Inês estava percebendo mil coisas, mas era uma inocentinha que não via coisa alguma; divertia-se muito assim; mimo e princesa de casa, a linda escrava era, desde pequenina, a senhora de seu senhor.

Uma tarde Inês…

Evidentemente é este o momento em que a linda mameluca entra, manifesta-se em cena, e pois que a minha tradição da Rua de Aleixo Manoel não pôde caber toda neste folhetim, eu seria o mais inexperiente e insensato dos folhetinistas, se não interrompesse a narração, deixando os meus leitores curiosos de contemplar a bela e voluptuosa Inês em sua primeira hora de travessa, viva e um pouco maliciosa revelação.

Esperar é o tormento do desejo, mas vale a pena esperar sete dias pela contemplação de uma jovem formosa.

CAPÍTULO 2

Continuação e fim da tradição achada nos velhos manuscritos. Como Inês, a mameluca depois de pentear e despentear a cabeleira do seu senhor de direito e seu escravo de fato e depois de rir e de zombar muito dele, vê e ouve, fingindo não ver nem ouvir os pervertidos fidalgos que a namoravam, fica cismando, deixa de cismar, apura-se em feceirice, e Aleixo Manoel põe-se de cabeleira nova. Conseqüências do apuro da feceirice, da cabeleira nova e das denuncias confidenciais de João de Pina e da mãe Sebastiana. Casamento e ceia com dois convidados em desapontamento e contra vontade á mesa, e outras coisas que saberá, quem ler este capítulo, e etc. Fim da tradição da romanesca origem da denominação de Rua de Aleixo Manoel que em 1590 recebeu a atual de Rua do Ouvidor.

Era uma tarde…

Convém não esquecer os costumes do tempo.

No século décimo sexto e ainda até quase o fim do décimo oitavo, os antigos colonos portugueses não tinham no Brasil café para tomá-lo com a aurora, mas almoçavam com o sol às seis ou sete horas da manhã, e jantavam com ele em pino ao meio-dia, salvo o direito de merendar (hoje se diz fazer lunch) às dez horas da manhã.

Atualmente a sociedade civilizada almoça à hora em que os velhos portugueses jantavam, e jantam de luzes à mesa à hora em que se levantavam da ceia aqueles nossos avós.

História de progresso e de civilização, que levam e estendem o sol de seus dias até depois da meia-noite com a iluminação a gás, e, ainda preguiçosos, saúdam o rompimento de suas auroras às 9 horas da manhã, quando abrem as cortinas dos seus macios leitos, e tomam, ainda bocejantes, o seu café madrugador.

Portanto, a tarde tem hoje horas novas, que se confundem com a noite, e eu começava este capítulo, indicando a tarde do outro tempo, que atualmente é a hora em que almoçam a começar o dia o progresso e a civilização.

Estamos entendidos.

Era uma tarde (em 1590), uma hora depois do meio-dia, meia hora depois de suculento jantar. Aleixo Manoel sentado em grande cadeira de encosto desejava, empenhava-se debalde em dormir sua sesta eminentemente portuguesa; mas com a cabeça levemente inclinada, com os olhos meio cerrados queria e não conseguia adormecer excitado pela lembrança dos fidalgos libertinos, e pelos cuidados ansiosos do objeto do seu amor já um pouco anacrônico; em erupções porém irresistíveis, embora ainda contidas pelos vexames do anacronismo sentimental.

E quando mais de olhos cerrados, e mais de alma em vigília ativa estava Aleixo Manoel, Inês, a linda mameluca, sua escrava de direito, e sua soberana de fato, Inês que sabia bem o que de fato era, entrou na sala pé por pé, bem de manso, e parando atrás da cadeira do velho em suposta sesta, travessa a brincar, e certa da impunidade do abuso traquinas, começou a pentear e a despentear, a arranjar e a desarranjar com seus dedos mimosos a cabeleira e o rabicho da cabeleira do seu senhor.

Aleixo Manoel sentia, gozava o contato das mãos ou de asas de anjo a traquinar suave e deliciosamente em sua cabeleira feliz, e após alguns minutos quase animado por aqueles afagos de mãos de cetim quase esquecido de que qüinquagenário bem pudera ter sido avô da mameluca, menina de dezessete para dezoito anos, sem mover a cabeça que conservava meio curva, e abandonada às travessuras dos dedos da bela mameluca, perguntou com voz comovida, e um pouco hesitante por aquele vexame, que é a consciência do desmerecimento, e que poderia chamar-se o pudor da velhice:

– Inês, se eu te desse a liberdade, tu me deixarias?…

A mameluca puxou pelo rabicho da cabeleira do senhor seu escravo, como subitamente impulsada pela impressão de idéia insólita e súbita:

– A liberdade?… que história é essa?… de que liberdade é que eu preciso?…

– Tu és minha escrava, Inês.

– Pois não sou!… disse a mameluca rindo e dando com os dedinhos leve piparote no nariz do velho.

Aleixo Manoel riu-se também daquele sinal de reconhecimento da escrava, e logo depois tornou, dizendo:

– Falemos seriamente, é necessário.

Inês, curiosa, respondeu:

– Vamos!… seriamente…

– Dize a verdade: tens visto a rondar-nos a casa… certos fidalgotes vadios e insolentes…

– Tenho, tenho; às vezes, quando estou no jardim, vejo-os…

– E eles?… vêem o teu rosto… as formas de teu corpo?…

– É possível… provável… quase certo…

– Ah!… tu te mostras a eles, Inês?…

– Eu?… que aleive me levanta!… que pecados me quer pôr em cima do coração inocente!… está virado em rabugento padre confessor…

– Mas então como é que os perversos te vêem o rosto, e…

– Ah!… é o vento…

– A que vem aqui o vento?…

– Vem como o único pecador; o vento às vezes levanta o véu que esconde o rosto, desarranja a mantilha que esconde as formas do corpo.

– Inês, tu te confessas vaidosa; o vento é a tua vaidade.

A mameluca pechou pelos cabelos do senhor e disse-lhe:

– Que velho impertinente!… suponhamos que assim seja: então a gente há de ser bonita e viver e morrer sem amigo vento que levantando-lhe o véu e desarranjando-lhe a mantilha dê testemunho da sua boniteza?…

– Ah! portanto gostas de algum daqueles fidalgos libertinos, sedutores malvados…

– Não, não! eu gosto somente de que eles e todos me achem bonita.

– Inês!

– Tal e qual; não nego, nem dissimulo.

– E eu?… eu te acho bonita, Inês?

– Sim! sim! e muito! e a escrava beijou docemente a fronte de seu senhor.

Aleixo Manoel estremeceu todo, e disse:

– Inês! tu és filha de índia, e minha escrava: aqueles fidalgos desmoralizados, embora elegantes mancebos e fingidos namorados, só pensam em seduzir-te e lançar-te depois no desprezo da ignomínia…

– Também eu desconfio disso…

– Ah! pois bem: Inês, tu precisas de protetor legítimo…

– E não o tenho já?

– Falta-lhe condição essencial!

– Qual é?… eu ainda não senti a falta.

– Inês, queres passar e subir de minha escrava à minha legítima esposa?..,.

A dominante e leviana mameluca desatou a rir.

– De que te ris, doida?

– De três tolices na sua proposta: primeira, a escrava, que é senhora, passar a senhora escrava; – segunda, uma menina casar com um velho; – terceira, filha da segunda, por ser menina casada com velho usar dois véus em lugar de um e de duas mantilhas em vez de uma.

– E se a escrava que é senhora se tornasse ainda mais soberana, sendo esposa?…

– Não é muito seguro.

– E se o velho esposo fosse a proteção salvadora e o amor mais extremoso?…

– Isso eu creio.

– E se perfeitamente confiado na virtude da esposa o velho esposo só lhe impusesse véu e mantilha quando ela saísse à rua?…

– Oh! duvido!…

Aleixo Manoel pôs-se em pé, voltou-se para a mameluca, e, vendo-lhe nos lábios zombeteiro riso, disse-lhe triste:

– Apesar do meu amor e da minha proteção, tu és filha da índia e escrava: pensa!

– E, tendo ajustado a cabeleira, saiu.

Inês foi passear no jardim.

Gil Eanes e logo depois Lopo de Melo, que eram os mais assíduos, passaram e tornaram a passar por junto da cerca do jardim, olharam e sorriram para Inês, que não os olhou nem lhes sorriu.

Gil Eanes, demorando os passos, disse-lhe:

– Linda tamoia, se queres ser minha catecúmena, eu te ensinarei a cultivar as flores em lições de amor: queres?…

Lopo de Melo passou pouco depois e disse-lhe:

– Bela selvagem, resolve-te a fugir comigo para as florestas que eu juro tornar-me selvagem também.

A mameluca fingiu não os ter ouvido, como fingira não tê-los visto. Era a primeira vez que eles lhe falavam.

Inês sentiu o desprezo da sua condição no modo por que lhe falaram os dois fidalgos que a namoravam.

E lembrou-se que Aleixo Manoel tinha acabado de dizer-lhe: – pensa.

E sem o pensar Inês pensou.

Nos seguintes dias quem mais cismava não era Aleixo Manoel, era Inês.

Quase logo famílias da amizade do cirurgião principiaram a visitá-lo a miúdo, vindo cear com ele, e, enquanto os homens conversavam com Aleixo Manoel, as senhoras, em círculo separado, tinham sempre a contar casos escandalosos de seduções e de raptos de meninas pobres, vítimas de Gil Eanes, de Lopo de Melo e de seus companheiros de libertinagem.

Inês escutava essas histórias sinistras, fingindo-se indiferente a elas, se bem que às vezes dissimulada sorrisse, adivinhando a encomenda, não menos se sentia impressionada.

Gil Eanes e Lopo de Melo fizeram mais e melhor do que as comadres de Aleixo Manoel.

Gil Eanes mandou propor a Inês que em noite aprazada fugisse da casa do cirurgião para doce retiro, onde ele lhe assegurava, além do. seu amor, felicidade e riqueza. Lopo de Melo mandou oferecer-lhe a liberdade por dinheiro, prestando-se ela a ficar para sempre sob sua amorosa proteção.

Inês repeliu as proposições; mas desde que lhas trouxeram, deixou de cismar, voltou ao seu natural caráter alegre e travesso, e ainda mais faceira se mostrou.

E por isso ou por alguma outra razão Aleixo Manoel pôs-se de cabeleira nova.

Entretanto ele não perdia de vista os libertinos rondantes do Desvio do Mar.

Cirurgião caridoso e com numerosa clínica gratuita, Aleixo Manoel tinha corações agradecidos entre a gente pobre e desgraçada de quem era benfeitor.

Uma noite veio um embuçado falar-lhe: entrou meio atarantado e descobriu o rosto.

– Oh! és tu João de Pina?… temos história?…

João de Pina era um degradado, vadio e desordeiro valentão, que muitas vezes servia a Gil Eanes em suas empresas mais arriscadas.

– Temos… respondeu João de Pina: amanhã é domingo de entrudo, não é?…

– É.

– Pois amanhã, às onze horas da noite, venho eu e mais meia dúzia, aqui com o Sr. Gil Eanes, e arrombada a sua porta com berraria de entrudo, havemos de roubar-lhe a menina sua escrava, a pesar seu e dela.

– Podes ter mais dez vezes ataques de fígado e de bofes, que eu te hei de curar, como já o fiz o ano passado, e neste: vai-te embora, bom tratante, e toma lá para molhar a garganta…

João de Pina recebeu uma moeda de prata, embuçou-se bem, cobrindo o rosto, e disse, saindo:

– Até amanhã às onze horas da noite…

Aleixo Manoel tomou o chapéu e a bengala, e pôs-se em marcha; mas ao dobrar pela Rua Direita, tomou-lhe o braço uma mulher de mantilha, que lhe disse:

– Sr. Aleixo, eu ia lá… a sua casa…

– Inútil; nem que fosse o Sr. Capitão-mor Governador; morra quem morrer, esta noite não vejo doentes…

– Más não é caso de doença… é do seu crédito… eu sou a velha Sebastiana…

– Oh! mãe Sebastiana! então que há?

– Amanhã não é domingo de entrudo?…

– É, que diabo!…

– Foi meu filho que me mandou em segredo…

E a velha agarrou-se ao cirurgião, que lhe curava as erisipelas e ao filho tinha curado de uma vômica, e disse-lhe baixinho ao ouvido:

– Amanhã às onze horas da noite o senhor não estará em casa…

– Eu?… pode ser… mas… por quê?…

– Porque meia hora antes hão de bater-lhe à porta, e chamá-lo para acudir a um ataque de cabeça do Sr. Governador…

– E depois que eu sair a acudi-lo?

– Meu desgraçado filho e outros sequases do Sr. Lopo de Melo (que conta com o seu escravo Tomé), entrando pela porta que abre para o jardim de sua casa tomarão e à força levarão, não sei para onde, a menina Inês, sua escrava.

– Obrigado, mãe Sebastiana; eu lhe darei notícias minhas… agora tenho pressa…

E Aleixo Manoel foi dizendo consigo:

– Dois à mesma noite e à mesma hora!… Que canalha de fidalgos!… mas… Tomé… duvido.

Era quase meia-noite quando Aleixo Manoel, de volta do monte do Castelo, recolheu-se à sua casa. Estava tranqüilo e contente; mas, ao entrar, disse a Tomé, que lhe abrira e depois trancara a porta:

– Vem cá.

E na sala perguntou-lhe:

– Inês?…

– Dorme.

– E que há de novo?…

– Lopo hoje me pagou traição: amanhã onze horas da noite ele vem roubar a menina. Deixa ele!…

– Queres que deixe roubá-la?…

O velho índio riu-se horrivelmente, saiu da sala, e quase logo voltou, trazendo na mão uma clava de gentio, a tacape pesada e terrível:

– Deixa! repetiu Tomé; eu mato!

– Vai dormir, disse Aleixo Manoel: amanhã te direi o que hás de fazer.

No dia seguinte, domingo de entrudo, e do entrudo selvagem e delirante daqueles tempos, era pouco antes das onze horas da noite, quando bateram fortemente à porta da casa do cirurgião, e o chamaram a alto bradar em socorro do governador, o venerado Salvador Correia de Sã, que se achava em perigo de morte.

O índio Tomé abrindo uma janela despediu os emissários, dizendo-lhes que seu senhor ia partir imediatamente, e com efeito, minutos depois, saiu apressado da casa um homem embuçado, que era sem dúvida o famoso cirurgião da cidade.

Às onze horas da noite gritaria infernal rompeu em frente à casa de Aleixo Manoel, cuja porta cedeu, quebrada a fechadura.

Mais minuto, menos minuto, a porta do jardim abriu-se a toque de sinal dado por gente que entrava pelos fundos do quintal.

E, penetrando no interior da casa, esbarraram-se em face um do outro, Gil Eanes e Lopo de Melo, cada qual seguido de seus cúmplices.

Aleixo Manoel e Inês estavam ausentes; na sala de jantar, porém, achava-se servida a mais profusa e rica ceia que então se podia dar na colônia.

O índio Tomé, arrimado à sua dava, disse aos dois fidalgos:

– Senhor tem ceia… e convida senhores… não tarda.

Gil Eanes e Lopo de Melo mediam-se furiosos: mas não tiveram tempo nem de trocar palavras e provocações, porque sentiu-se logo ruído de gente que entrava.

Os cúmplices saíram todos para o jardim, e dali fugiram, vendo quem chegava.

Os dois fidalgos libertinos ficaram como fulminados, quando lhes apareceram o Governador Salvador Correia, e o Prelado Simões Pereira, precedendo a Aleixo Manoel e Inês, de cujo casamento acabavam de ser testemunhas, e seguidos de alguns dos principais da nobreza da colônia, e entre eles dois respeitáveis parentes de Gil Eanes e de Lopo de Melo.

– Os Srs. Gil Eanes e Lopo de Melo serão também meus convidados, se o Sr. Governador o permitir, disse Aleixo Manoel.

O venerando Salvador Correia de Sã olhou para os dois com sobrolho carregado, como o traziam também os parentes deles.

– Ceemos! disse o governador.

Sentaram-se todos, ficando o prelado à direita, e Inês e Aleixo Manoel à esquerda de Salvador Correia.

Só Gil Eanes e Lopo de Melo, abatidos e trêmulos, tinham-se conservado em pé.

O Governador lhes disse com voz severa:

– A empenho de Aleixo concedo-vos perdão do crime desta noite; mas só deixais de servir-nos à mesa como baixos criados; porque devo poupar mais vergonhas a estes dois ilustres fidalgos, que bem quereriam não ter parentes como vós. Sentai-vos à mesa!…

A ceia começou: na ocasião do primeiro brinde Salvador Correia falou ainda a Gil Eanes e a Lopo de Melo.

– Enchei vossos copos!…

Os dois obedeceram.

– Agora de pé! e saudai e bebei à felicidade dos noivos!…

E cumprida a sua ordem, Salvador Correia pôs a mão espalmada sobre a cabeça de Inês, e disse aos dois:

– Lembrai-o bem!… é minha afilhada.

Logo depois expandiu o rosto, e acrescentou alegremente:

– Senhor Gil Eanes, senhor Lopo de Melo, tudo está esquecido. Não haja tristezas nem vexames a perturbar o júbilo dos noivos e o nosso!…

E a ceia continuou e acabou vivamente animada.

Desde o dia seguinte propalou-se a notícia das duas escandalosas tentativas de rapto de Inês, e da famosa logração que habilmente preparara aos indignos e pervertidos fidalgos Aleixo Manoel.

O povo aplaudiu muito o ardil do cirurgião, e o seu feliz casamento: nas noites da segunda e terça-feira foi numeroso bando de colonos cantar à porta da casa dos noivos, e creio que as serenatas teriam ainda continuado, se a quarta-feira de cinzas não fosse começo da quaresma, que era muito respeitada.

Aleixo Manoel, porém, subira ao galarim da fama e da moda; fizeram-lhe cantigas, e no fim de poucos dias o povo sem audiência da Câmara nem licença do Governador deu ao Desvio do Mar a denominação de Rua de Aleixo Manoel.

CAPÍTULO 3

Como a Rua de Aleixo Manoel estendeu-se para o interior até a dos Latoeiros, ficando por muitos anos, onde começara em Desvio do Mar, e viu ali nas tardes de verão moças a pescar no mar e em terra. Como se aterrou aquele mar da Rua Direita, a de Aleixo Manoel já com a denominação de Rua do Padre Homem da Costa avançou até a atual do Mercado, e aí na praia se estabeleceu o primitivo mercado com o nome de Quitanda das Cabanas que depois se trocou pelo de Praia do Peixe. Refere-se uma tradição duvidosa do Padre Homem da Costa, e diz-se, como se abriu a vala da Carioca, e a rua daquele leio nome, até á qual se alongou a do Padre Homem da Costa; fala-se dos inconvenientes da vala e dos aplausos que por mandar cobri-la de grossos lajedos recebeu o Vice-Rei Conde da Cunha, que aliás pouco influíra na obra, tendo sido esse melhoramento determinado por grotesco e infeliz caso, história romanesca que se contará no capítulo seguinte.

Adiantava-se o século XVII e a Rua de Aleixo Manoel que peio lado de terra não se estendia além da dos Latoeiros que a corta em ângulos retos, e que hoje se denomina de Gonçalves Dias, pelo lado do mar ainda começava onde rompera em Desvio.

Na Rua Direita a praia era em pouco irregular: em alguns pontos o mar muito baixo sem a menor dúvida se mostrava retirante, e acumulava aqui e ali areias, formando ilhotas brancas e privadas de vegetação.

Mas entre esses pontos o mar ainda investia menos baixo sobre o continente, como teimoso a negar-se ao recuamento de suas águas.

E naqueles tempos a praia e o mar (onde ele era mais fundo ou menos entupido de areias) serviram de lugares de recreio, se o recreio não servia de pretexto para exibições ardilosas.

Envolvidas em suas mantilhas, e cobrindo o rosto com seus véus, as senhoras da Rua Direita, e principalmente (dizem) as da de Aleixo Manoel, tinham por costume ir à tardinha nos meses de verão pescar de caniço sentadas ou em pé na praia. As mães ou as tias já velhas acompanhavam as filhas e sobrinhas moças, zelando sua pundicícia e o seu decoro.

Todavia as pescadoras jovens sabiam perfeitamente o segredo de Inês – a mameluca, e ao deitarem os anzóis ao mar, o amigo vento vinha sempre desarranjar suas mantilhas e levantar seus véus, de modo que os observadores curiosos podiam ver e admirar olhos formosos, bonitos semblantes e soberbos colos.

E muitas vezes as vaidosas arteiras eram tão felizes na pesca que chegavam a pescar duplamente – peixes no mar e corações em terra.

Vejam como se mudaram os costumes!…

Naquele tempo, as jovens da Rua de Aleixo Manoel iam pescar para se mostrar; e hoje freqüenta a Rua do Ouvidor certo bando de pescadoras que andam se mostrando para pescar.

Mas não há bem que sempre dure!…

Tratando-se de construir a fortaleza da Lage à custa do povo, e, achando-se este sobrecarregado de impostos, a Câmara Municipal (que ainda não era ilustríssima), como não bastassem para essa obra algumas rendas que propusera aplicar à fortaleza, deliberou vender alguns terrenos das marinhas da cidade, sendo o produto da venda destinado àquele fim.

Uma das marinhas vendidas foi a que fazia frente à primitiva linha de casas da Rua Direita.

E assim lá se foi a praia de exposição ardilosa de bonitas pescadoras.

Ganharam com isso as Ruas Direita e de Aleixo Manoel.

Em poucos anos aterrou-se o mar que ajudava o aterro, amontoando areias, e tão rapidamente que no fim do mesmo século décimo sétimo já era regular e contínua a edificação e série de casas fronteiras às da única linha antiga da Rua Direita. Em 1698 já estava construída a casa que por ordem régia então se comprou para residência dos governadores e que é aquela onde desde anos se achavam estabelecidos o Correio Geral e a Caixa da Amortização.

É casa histórica: em 1710 Carlos Duclerc atacando por terra a cidade do Rio de Janeiro entrou com a sua falange nesta casa, e em rígido combate foi dela expelido por Gurgel do Amaral com os seus estudantes e paisanos armados.

Agora a casa dos governadores vai ser demolida. Que haja ao menos quem lhe assista às últimas horas de existência e lhe escreva a necrologia.

(Prevenção ao Instituto Histórico).

Mas a Rua de Aleixo Manoel, vendo aterrado o mar do qual fora Desvio, atravessou a Rua Direita, ou foi além dela estender-se até ao lugar que ficou sendo então praia, e que era pouco mais ou menos onde hoje a Rua do Mercado corta em ângulo reto a do Ouvidor.

No fim do mesmo século décimo sétimo essa praia tornou-se lugar de mercado de peixe, de verduras e de algumas frutas, que se vendiam não debaixo de barracas de lona, mas sob pequenas palhoças, pelo que foi denominado e conhecido por

Quitanda das Cabanas – primeiro nome da atual Praça do Mercado.

Assim, pois, a rua que desde um século menos dois anos se chama do Ouvidor começava então em face da Quitanda das Cabanas.

Quitanda das Cabanas! Apesar de Quitanda, graças porém às Cabanas, era nome rústico, mas um pouco lírico o tinha laivos de poesia de civilização primitiva; a mais chata e infeliz das lembranças eivada de maresia mais tarde trocou essa denominação pela de Praia do Peixe.

Mil vezes antes Quitanda das Cabanas!

É certo que naquele mercado o que predominava era o peixe, e peixe ótimo e a fartar baratíssimo a cidade, e peixe miúdo que se vendia então a cinco réis por quantidade abundante.

As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram além das do país?… Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores juro-o, porque havia senhoras.

Mas, em todo caso, não há desculpa que aproveite a quem mandou rebaixar a Quitanda das Cabanas para Praia do Peixe.

Em memórias históricas o anacronismo é naufrágio, e eu estava deveras naufragando em anacronismo.

A rua chamada de Aleixo Manoel quando atravessou a Rua Direita e foi parar na Quitanda das Cabanas não tinha mais aquele nome, pois que desde o ano de 1659 se denominou Rua do Padre Homem da Costa.

Certamente o cirurgião Aleixo Manoel já tinha morrido sem deixar filhos ricos, e a linda mameluca Inês, se ainda vivia, era viúva maior de oitenta anos, e por isso desde muito esquecida do amigo vento, que outrora oportunamente lhe desarranjava a mantilha e lhe levantava o véu, e portanto um por morto sem herdeiros de seu nome com herança de áureo prestígio e a suposta viúva já por velha, ex-adorada mameluca, foram despojados da glória daquela denominação da rua.

Quem foi porém na ordem das coisas, e qual o merecimento do Padre Homem da Costa positivamente morador à rua que tomou o seu nome?… Não sei.

Naqueles tempos encontro um Padre Pedro Homem Albernaz que foi Vigário da freguesia da Candelária, e Prelado do Rio de Janeiro; mas, embora fosse Homem, não foi da Costa; além disso, descobri um Padre Pedro Homem da Costa que depois de paroquiar por alguns anos a freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Angra dos Reis entregou-a em 1636 ao Padre Roque Lopes de Queirós, e recolheu-se à cidade do Rio de Janeiro.

Seria esse o padre cujo nome passou à rua que se chamava de Aleixo Manoel?… ignoro-o, e não devo expor-me a falsos juízos.

Sei de uma tradição – que não se encontra nos meus velhos manuscritos, mas que me foi transmitida por um antigo fluminense honradíssimo, carpinteiro e mestre-de-obras, a quem devi curiosíssimas informações de coisas do fim do século passado e do princípio do atual; esta tradição, porém, que é a do Padre Homem da Costa, só a esse meu amigo ouvi, e portanto é apenas individual, e não popular, e, tratando-se de caso passado há duzentos anos, não a posso reproduzir sem previamente declará-la muito duvidosa.

Quando imagino episódios para suavizar a leitura destas Memórias,
indico-os sempre com bastante clareza: Agora não imagino, não
invento a tradição, mas refiro-a, porque se não é
verdadeira é bem achada.

O Padre Homem da Costa (que só esses dois nomes tinha) era padre de
letras gordas, mas passava por bom cantoconista, porque sabia um pouco de
música: indulgente, agradável e de benigno coração,
era geralmente estimado, e como gostasse de cantar modinhas e lundus, todos
o queriam nos seus saraus; tinha ele porém uma fraqueza ou uma paixão
predominante – a da gastronomia.

Padre e já velho, mas ainda rei da viola ou do cravo acompanhadores
de suas cantigas nas sociedades, as senhoras o festejavam à porfia;
e por fim de contas as moças solteiras e desejosas de casar descobriram
nele a mais preciosa qualidade, um talento sublime.

O Padre Homem da Costa era maravilhoso a facilitar e promover casamentos.

Qual foi a primeira ardilosa que fez a descoberta de tão rico tesouro
não se sabe e isso pouco importa: o certo é que conhecido o
milagre do padre as moças o tomaram em devoção.

Mas a candidata a casamento e o padre firmavam a rir e brincar, contrato
que aliás era cumprido sem falha.

A candidata abria seu coração ao Padre Homem da Costa, dizia-lhe
o nome do seu namorado, e, expondo-lhe as dificuldades que se opunham ao seu
casamento, pedia intervenção protetora.

O Padre Homem da Costa respondia rindo e como a gracejar:

– Bem, bem: mas eu quero uma garopa de forno no dia do ajuste do noivado
e convite para o banquete do casamento.

Não havia nada mais barato!

E o padre a entender-se com os pais do namorado e depois com os pais da candidata
era tão persuasivo e hábil que acabava sempre por ganhar a garopa
de forno, e ir ao banquete do casamento.

E era sempre feliz nos empenhos tomados; porque, quando a pretensão
lhe parecia inconveniente ou desajuizada, não hesitava em desenganar
a candidata.

É claríssimo que se multiplicavam as candidatas a casamento
e os contratos de aparência zombeteira e de realidade gastrônoma.

As confidências e as expansões das candidatas eram pouco mais
ou menos semelhantes, edições mais ou menos corretas e emendadas
do mesmo romance de amor.

Nos contratos gastrônomos havia alguma variedade, mas sem importância
para as candidatas: em vez de garopa de forno, vinha neste peru recheado -;
naquele um prato de chouriço, etc.; mas em regra predominavam em primeiro
lugar a garopa de forno e em segundo o peru recheado.

Em pouco tempo o Padre Homem da Costa promoveu e abençoou ou fez abençoar
mais casamentos do que o prelado do Rio de Janeiro, e os vigários das
freguesias da cidade.

E as noivas e casadas agradecidas e as novas candidatas em devoção,
querendo honrar o milagroso casamenteiro, começaram a chamar a rua
onde ele morava, que era a de Aleixo Manoel, Rua do Padre Homem da Costa.

Não houve nem Câmara Municipal, nem clero, nobreza e povo que
pudessem resistir àquela proclamação do belo sexo.

A Rua de Aleixo Manoel passou a denominar-se – Rua do Padre Homem da Costa.

E o velho padre continuou a adotar e proteger candidatas a casamentos, até
que no fim de alguns anos, em uma noite, morreu de apoplexia fulminante, depois
de uma ceia em que devorara metade de uma garopa de forno, uma fritura de
camarões e ostras, e um pratarraz de chouriço.

Não se pôde levantar da mesa, e expirou sem agonia, sentado,
risonho e provavelmente a pensar no almoço do dia seguinte.

Se esta tradição pudesse correr com fundamentos de veracidade,
o Padre Homem da Costa, pondo-se de lado a sua paixão gastrônoma,
que não foi nociva senão a ele, deveria ser aplaudido pela sua
influência benigna, moralizadora e social, e bem merecera a honra de
passar seu nome à rua onde morava e onde enfim morreu.

Ah! se hoje em dia florescesse algum padre como aquele Homem da Costa, certamente
o preço das garopas e dos perus seria já fabuloso na Praça
do Mercado; porque o número das devotas do padre casamenteiro chegaria
pelo menos a igualar ao dos candidatos a empregos públicos: mas também
seria menor o número daquelas mártires, a quem chamam solteironas.

Mas enfim a Rua de Aleixo Manoel passou a chamar-se do Padre Homem da Costa,
nome que conservou por cento e vinte anos, tendo trocado a casaca e a cabeleira
do cirurgião pela batina e pelo solidéu do padre, e faz vontade
de rir imaginar beata e clerical durante um século e anos esta Rua
do Ouvidor filósofa sensualista, e até rua um pouco ou muito
endemoninhada pela multiplicação das tentações.

Em meados do século XVIII a Rua do Padre Homem da Costa estendeu-se
um pouco mais para o lado do continente, avançando até a rua
que se chamou da Vala; deveras, porém, que não devia aplaudir-se
desse prolongamento.

Construída a fonte ou chafariz da Carioca no lugar; depois largo e
hoje Praça da Carioca, nome que tomou do das vertentes ótimas
que recebeu canalizadas, sobravam tanto as águas que, para dar-lhes
esgoto, abriu-se grande vala com leito e paredes de pedra desde a Carioca
(chafariz) até o mar no sítio chamado Prainha.

(Entre parênteses: carioca quer dizer em língua tupi – casa
do homem: – donde proveio semelhante denominação?… quem era
o homem da casa?… pretendiam os selvagens tamoios que aquelas águas
como as da fabulosa Cabalina tinham a virtude de inspirar estro poético:
donde provinha essa falsa crença?… o homem da casa teria sido algum
pajé poeta, algum tamoio solitário, homem notável pelo
talento poético que os índios julgassem devido às águas
que corriam perto da sua – oca -?… deixo aos meus ilustrados amigos os Srs.
Drs. Brigadeiro Couto de Magalhães e Batista, os juizes mais competentes
que conheço na matéria, o empenho de resolver este problema,
e fecho o parênteses).

A vala foi de considerável utilidade, porquanto serviu para dar vazão
àquelas águas que caíam sobrepujantes da fonte e dos
tanques de pedra, e também às das chuvas então muito
freqüentes e algumas torrenciais, que tornavam como rios as ruas, e inundavam
as casas da cidade.

Além disso a vala teve durante anos certa importância administrativa,
porque foi considerada muro da cidade, ou linha extrema urbana.

Entretanto a vala ficou exposta, destapada, e como de tudo se abusa, abusaram
da inocente e benfeitora os colonos moradores das vizinhanças que a
fizeram servir, para o despejo de quanto de pior serviço de suas casas
era preciso despejar.

Em breve e necessariamente a desvirtuada vala tornou-se imunda, repugnante,
fétida e foco de miasmas, e a Rua do Padre Homem da Costa que avançou
até ela devia ser nesse seu novo limite de habitação
muito desagradável e anti-higiênica.

Mas apesar das ruins condições determinadas pelo abuso que
ficou mencionado, casas se foram construindo aos lados da vala e principiou
a formar-se a rua que tomou dela o nome e que hoje se chama de Uruguaiana.

Além da vala, o espaço que se estendia entre o monte de Santo
Antônio e o mar, e dessa linha para o centro até a depois chamada
cidade nova inclusive, tudo era campo do Rosário.

Em 1764 ou 1765 o Vice-Rei Conde da Cunha ordenou à Câmara Municipal
da cidade que fizesse cobrir com lajes grossas a vala fétida e pestífera;
a obra executou-se prontamente, e para que não fosse de todo prejudicado
o esgoto das águas das chuvas, a vala recebeu ralos de pedra no encruzamento
das ruas.

E todavia ainda houve abuso de ralos!

Em todo caso foi considerável o melhoramento olfativo e higiênico,
sendo o Conde da Cunha muito aplaudido e louvado por isso nas memórias
do tempo.

E eis aí como se escreve a história!

O Vice-Rei Conde da Cunha, doente e velho, que raro se mostrava, passeando
pelas ruas da cidade, porventura nunca tinha recebido em seu vice-real nariz
o gasoso testemunho das exalações da vala aberta, e entrou na
obra melhoradora apenas com a sua indispensável assinatura na ordem
expedida para que a vala fosse coberta com lajes grossas.

O que inspirou e determinou esse melhoramento foi noturno e ridículo
caso, cuja história parece romance, e há de divertir os meus
leitores no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 4

Como e por que o ajudante oficial da sala do Vice-Rei Conde da Cunha meteu-se
a jogar a banca na casa de João Fusco; desenvolve-se a história
que parece romance, e na qual são personagens João Fusco e a
Sra. Helena, a menina Águeda, a mãe Jacoba, o cão Degola,
o oficial da sala, o sacristão da Igreja de S. José e um lobisomem
que uma noite põe em desordem a banca, e perseguido pelos jogadores
escapa abismado na vala, enquanto o sacristão de S. José, aproveitando
o ensejo, bate a linda plumagem com a menina Águeda, logo depois sua
esposa: diz-se como o banho do lobisomem foi o motivo de se cobrir a vala
com lajedos; o oficial da sala faz prender por falsas suspeitas de pasquineiro
o sacristão, que é solto por intervenção do vigário,
e transcreve-se um pasquim que apareceu em frente à Rua do Padre Homem
da Costa junto da vala.

O Vice-Rei Conde da Cunha foi mas não foi quem mandou que a Câmara
Municipal fizesse cobrir com lajedos a vala nauseabunda e pestífera.
Este foi mas não foi parece absurdo; é, porém, uma das
verdades mais verdadeiras, que ainda às vezes se revelam em fatos.
Foi – porque assinou a ordem, mas não foi – porque de outrem partiu
a iniciativa e a determinação.

O Conde da Cunha, velho, achacado e sem atividade, era o Vice-Rei; via, porém,
pelos olhos, e governava pela cabeça de seu ajudante oficial da sala,
o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso de Menezes, que por muito hábil,
inteligente e insinuante ganhara sua inteira e cega confiança e se
tornara o vice-rei de fato.

Infelizmente Alexandre Cardoso era de mau caráter, de costumes dissolutos,
jogador, libertino, desenfreado em suas paixões, e tanto mais perigoso,
que além de valente e corajoso, dobravam-lhe a ousadia, o poder de
que dispunha e a certeza da impunidade.

No tempo do vice-reinado do Conde da Cunha jogava-se muito, jogava-se demasiadamente
na cidade do Rio de Janeiro, muito e apenas um pouco menos do que atualmente.
O jogo dominante era então a banca.

Alexandre Cardoso jogava quase todas as noites; mas só em rodas de
gente rica e a mesas cobertas de ouro; uma vez, porém, fez exceção
a essa regra.

Uma noite, em 1764 ou em 1765, passando ele pela Rua da Vala, entrou como
por acaso na loja de João Fusco e pediu ao caixeiro biscoitos de carimã,
balas, e mais ia pedir quando se interrompeu perguntando:

– Que fazem lá dentro?

– Jogam a banca; sim senhor.

– Chama João Fusco.

João Fusco correu logo ao chamado.

– Eu também quero jogar, disse Alexandre Cardoso.

E entrou sem-cerimônia, dizendo aos jogadores que respeitosos e surpresos
se levantaram.

– Não h&aaacute; nada de novo, é apenas mais um parceiro.

Alexandre Cardoso mostrou-se agradável, desfez o acanhamento da companhia,
jogou, perdeu duzentos cruzados, e alegre, e brincalhão levantou-se
e disse:

– Basta por hoje, voltarei porém à desforra, João Fusco!
na tua casa joga-se liso. Adeus.

E saiu.

Agora breve explicação.

João Fusco, a quem tinham alcunhado Fusco pela cor muito trigueira,
era ilhéu açoriano, e morava na Rua da Vala, logo além
da Rua do Cano (hoje Sete de Setembro) em pequena casa de duas portas e com
sótão, a qual abria portão do quintal para a Rua dos
Latoeiros.

João Fusco tinha consigo uma irmã, a Sra. Helena, ilhoa como
ele, e que no Brasil enviuvara, ficando-lhe do casamento uma filha, a menina
Águeda, então com 18 anos, carioca lindíssima, mas previamente
condenada a casar com o tio já qüinquagenário, – homem
de bem, mas genioso, desconfiado, ciumento e terrível como um turco.

Aproveitando a habilidade e prática da irmã e da sobrinha,
que eram doceiras magistrais, João Fusco abrira na frente da casa loja
de doces, espécie de confeitaria daquele tempo, e ali vendia excelentes
biscoitos, bolos, amêndoas de castanhas de caju, balas e confeitos,
e em vez de sorvetes, que somente setenta anos mais tarde se tornaram na cidade
do Rio de Janeiro, o refrigerante e saboroso aloá.

Além de Helena e Águeda, João Fusco tinha em casa o
caixeiro que o ajudava no serviço da loja, mas que era absolutamente
privado de comunicação com a família, uma negra sexagenária
escrava de Águeda, cuja ama-de-leite fora, e enfim um grande cão.

A mãe Jacoba (a escrava) e Degola (o cão) eram os guardas do
quintal e do portão, do qual em todo o caso João Fusco à
noite guardava a chave.

Helena e Águeda de dia trabalhavam na sala de jantar e na cozinha,
e às oito horas da noite se recolhiam ao sótão, que constava
de uma saleta na frente, e outra no fundo: a primeira era ocupada por Helena,
a segunda pela menina. As janelas das saletas eram fechadas de cima a baixo
por varões de ferro.

Águeda tinha em horror o tio, e a idéia de lhe pertencer como
esposa fazia o tormento da sua vida; no entanto dissimulada e sonsa ela ria,
e cantava de dia, e rezava muito de noite; mas Santo Antônio sabia o
que a menina, sua devota, nas rezas e em promessas lhe pedia.

Coitadinha! todos contra ela: Helena, que era a ilhoa mais áspera
e desalmada, querendo-a todo o transe casada com o irmão, vigiava incessantemente
a filha e não a deixava pôr pé em ramo verde.

As moças aproveitam ainda o mais fraco recurso para satisfazer sua
vaidade de boniteza, e o único recurso de Águeda era, duas ou
três vezes por dia, e quando a mãe se achava mas atarefada, correr
por minutos à sua saleta do sótão, e pondo-se à
grade da janela, mostrar seu rosto, seu colo e seus ombros aos que por acaso
passavam pela Rua dos Latoeiros.

Quase sempre atrás da menina era mandada a escrava, que, ao vê-la
à janela, benzia-se, dizendo:

– Ah, Nené! você faz pecado! olha senhô João!

Águeda ria-se.

Oh! mas é claro, que Jacoba era mais vigilante e mais terrível
do que o dragão das Hesperides, e tanto que João Fusco para
experimentá-la já tinha pago falazes tentativas de sedução
para recados à Águeda, e a negra se mostrava sempre incorruptível
e ameaçadora de denunciar à mãe e ao tio da menina.

Que escrava modelo!… ela porém quase tanto como Helena criara em
seu colo Águeda, e amava-a com idolatria de quase avó.

Ainda mesmo com os seus varões de ferro as duas janelas do fundo do
sótão da casa de João Fusco tornaram célebre a
beleza de Águeda, na cidade do Rio de Janeiro.

Fora daquelas janelas, e aí mesmo, através das grades, e só
por breves minutos, ninguém conseguia ver a sabida noiva de João
Fusco, que apenas aos domingos saia com a irmã e com a sobrinha para
ouvir missa na Igreja de S. José; mas então irmã e sobrinha
levavam mantilhas e véus impenetráveis.

E nem a simples hipótese de amigo vento em socorro de Águeda!

Ao entrar na igreja era sempre o sacristão (santo rapaz, sobrinho
do vigário, e que não levantava os olhos do chão) quem
apresentava às duas senhoras o hissope para que elas se persignassem
com água-benta.

Foi num desses momentos rápidos de oferecimento e tomada de água-benta
que o libertino Alexandre Cardoso, sem poder apreciar bem, adivinhou a beleza
de Águeda.

Dias depois ele viu-lhe o rosto à janela do sótão, e,
aceso em criminosas flamas, resolveu seduzi-la e apoderar-se dela.

Perdeu tempo, mandando tentar a todo o preço a conivência e
o concurso da negra Jacoba.

Perdida a esperança de entrar pelo portão, determinou introduzir-se
pela porta da frente.

E foi jogar na casa de João Fusco.

A roda dos jogadores não era indigna; toda, porém, de gente
da classe média, e de banca modesta, estava longe de satisfazer o oficial
da sala, freqüentador de sociedade aristocrática e jogador delirante.

Todavia, Alexandre Cardoso voltou a jogar em casa de João Fusco mais
de dez vezes, perdendo quase sempre cem, duzentos e muitos mais cruzados.

O jogo durava ali até muito depois da meia-noite; mas de ordinário
Alexandre Cardoso, quando perdia, retirava-se antes de terminada a banca.

Já se desenganara do esperançoso plano de chegar a introduzir-se,
mercê do jogo, no interior da casa, porque a banca tinha por limite
absoluto o fundo da saleta contígua à loja, e a porta de comunicação
interna sempre estava trancada; já estava disposto a libertar-se do
sacrifício daquele jogo plebeu, quando uma noite, saindo pouco antes
da meia-noite da banca de João Fusco, ao tomar no Largo da Carioca
a Rua da Cadeia viu um vulto de homem embuçado ao portão do
quintal da casa que era o seu objetivo.

Alexandre Cardoso recuou, e, pregando-se à quina da Rua dos Latoeiros,
estendeu o pescoço, adiantou a cabeça até os olhos, e
apurando a vista, e no silêncio geral aproveitando o ouvido, observou
curioso…

O vulto bateu de leve e compassadamente três vezes no portão,
que quase logo se abriu com abafado ruído da chave…

O vulto entrou, e o portão se trancou com o mesmo cuidado.

Alexandre Cardoso estava informado de que havia bravíssimo cão
no quintal, mas não ouviu nem latido, nem enfezado rosnar de cão.

– É um amante feliz! disse entre si com ciúme e contusão
o soberbo oficial da sala do vice-rei.

Havia explicável erro no pensamento íntimo de Alexandre Cardoso.
Águeda não era vítima de um sedutor; mas, graças
à segunda chave fabricada por artifícios de exaltado amor, e
confiada à velha escrava protetora, a menina recebia algumas vezes
em entrevistas o escolhido de seu coração, e seu desejado noivo.

Helena cansada dos trabalhos do dia inteiro, desde que dormia, era sono de
pedra; João Fusco, desde que começava a jogar, e tinha no bolso
a chave do portão, só ia aos fundos da casa, se o Degola rosnava,
ou assanhava-se no quintal; a negra Jacoba velava protegendo o amor da menina:
em noites ajustadas, ouvindo os três toques de sinal, abria o portão
que outra vez trancava depois de dar entrada a um mancebo, e enquanto ia anunciá-lo
a Águeda, o Degola festejava o seu já conhecido, que lhe trazia
sempre algum regalo à gulodice canina.

No entanto, Águeda chegava, mas a sua entrevista com o namorado nunca
se estendia além de um quarto de hora, nunca se passava livre da presença
da escrava, nisso ao menos prudente.

O namorado de Águeda era o sacristão, sobrinho muito querido
do Vigário da freguesia de S. José.

Mas Jacoba precauta a preparar defesa para si, ou fonte de astúcias
para os seus protegidos amantes, andava a fingir-se assustada, dizendo a João
Fusco e a Helena que havia lobisomem a correr de noite pelas vizinhanças.

A crença insensata nos lobisomens era muito comum então entre
a gente rude; João Fusco deu a coisa por certa, e Helena chegou a assegurar
que o lobisomem de que Jacoba falava devia necessariamente ser um meirinho
que morava na Rua do Cano e que era muito amarelo.

Pelo medo que o lobisomem causava Jacoba se presumia de domínio mais
seguro no quintal durante as noites.

Nem tudo, porém, havia de ir correndo á medida dos desejos
da velha escrava que, ao amanhecer de um dia, achou morto no pé do
portão o bravo Degola, que era tão amigo do sacristão.
Debulhada em lágrimas correu ela a dar parte do caso, e João
Fusco, tendo examinado o corpo do pobre animal e não encontrando nem
ferimento, nem contusão, declarou o cão morto de peste e consolou
a escrava, prometendo dar-lhe em breve um outro Degola, o que aliás
era do seu interesse.

Quem sabia perfeitamente de que mal tinha morrido o Degola era Alexandre
Cardoso.

O extravagante e dissoluto oficial da sala descobrira depois de algumas noites
de espreita que o ama e suposto sedutor de Águeda era o sacristão
e sobrinho do Vigário de S. José.

Alexandre Cardoso delineou então atrevido ou antes adoidado plano
só explicável em quem muito contava com o respeito que impunha
a sua posição oficial, além de confiar não menos
na própria valentia.

Continuou a jogar na casa de João Fusco; mas às 11 horas da
noite saía, indo encontrar-se no Largo da Carioca com um soldado do
seu regimento, que ali o esperava.

Perdeu três noites assim; na quarta, porém, viu o embuçado,
reconheceu o sacristão que dobrava da Rua da Cadeia para a dos Latoeiros.

– É aquele… murmurou.

O soldado avançou rápido e, chegando ao pé do embuçado,
disse-lhe vivamente:

– Sr. Sacristão, o reverendíssimo Sr. Vigário o manda
chamar já e já à igreja.

O sacristão atarantado por terem-no reconhecido, e não sabendo
que pensar do que àquelas horas tinha de fazer na igreja, voltou apressadamente.

Alexandre Cardoso despediu o soldado, chegou-se ao portão da casa
de João Fusco e bateu de leve três vezes.

O portão abriu-se, e ele que não se arreceava mais do Degola
entrou imediatamente.

Jacoba trancou de novo o portão, e tão escura estava a noite,
que ela não deu logo pela troca do namorado da menina.

Mas Alexandre Cardoso, sentindo-a tirar a chave do portão, e querendo
ter saída livre, disse baixinho e disfarçando a voz:

– Dê-me a chave.

A negra recuou desconfiada, e perguntou:

– Você quem é?… fala!

Alexandre Cardoso, em vez de falar, avançou dois passos, e Jacoba
recuou quatro, e um a avançar, e a outra a recuar chegaram, isto é,
a negra meteu-se pela cozinha, e o tresloucado substituto do sacristão
parou à porta, e à fraca luz de ruim candeia mostrou uma bolsa,
sacudindo-a para assinalar que estava cheia de ouro.

Jacoba, verificando que não era o sacristão, soltou um grito,
e, atirando-se para dentro da casa, começou a bradar:

– Tem lobisomem em casa!… lobisomem entrou!

Alexandre Cardoso sentiu alvoroço na sala de jogo, e não tendo
retirada pelo quintal, perdida a cabeça, lançou-se além
da cozinha pela sala de jantar, tomou por estreito corredor, e ao ouvir o
ruído que faziam os jogadores, que acudiam aos gritos da negra, foi
subindo uma escada que achou no fim do corredor sem saída…

Mas no tope da escada apareceram Helena e Águeda a bradar:

O lobisomem vem para o sótão!… o lobisomem está aqui!…

Alexandre Cardoso precipitou-se pela escada abaixo, tornou à sala
de jantar, viu os jogadores que voltavam apressados do quintal, tomou por
outro corredor, chegou à saleta do jogo, e enfim, orientado, saiu veloz
pela porta ainda entreaberta da loja.

Estava livre do maior perigo; não querendo, porém, que o reconhecessem,
e certo de ser perseguido, como de fato logo o foi, fugiu, correndo pela Rua
da Vala, e aturdido pela vozeria dos jogadores já a segui-lo, ao chegar
diante da extrema da Rua do Padre Homem da Costa, deu infeliz salto para vencer
a vala, e caiu dentro dela.

Pior do que isso! João Fusco e os companheiros da banca aproximaram-se,
e Alexandre Cardoso, furioso, sem medo, mas envergonhado do ridículo
de sua situação, e para escapar à publicidade do seu
escandaloso procedimento, abismou-se até o pescoço na vala nauseabunda
e mal cheirosa.

Os perseguidores o procuravam… alguns diziam que ele se escondera dentro
da vala, já falavam em mandar vir luzes e archotes, o poderoso oficial
da sala do vice-rei estava em torturas, quando angustioso brado veio salvá-lo.

O lobisomem carregou com Águeda!… gritava Helena desesperada.

João Fusco e seus amigos acudiram ao clamor de Helena.

O caso era simples.

O sacristão achara a igreja fechada e a casa do vigário seu
tio também de porta trancada, e amante apaixonado a imaginar traição,
voltara à Rua dos Latoeiros, ouvira grande ruído na casa de
João Fusco, e apreensivo se dirigira para a Loja de Doces.

Quando ali chegava, Helena saía como espavorida agarrando-se ao irmão
que com os sócios da banca iam em perseguição do lobisomem.

À porta da loja ficaram somente Águeda e Jacoba que lhe contaram
quanto se passara.

O sacristão, adivinhando pela ousadia da tentativa algum poderoso
rival, disse com ansiedade a Águeda:

– Oh!… em tal caso, ou já ou nunca!

E ofereceu a mão à menina.

Águeda o compreendeu, e, tomando-lhe a mão, fugiu com ele.

Pouco depois Helena menos aterrada, lembrando-se da filha, voltou cuidadosa
para casa; mas debalde procurou Águeda, encontrando apenas Jacoba caída
no chão e em terríveis contorções.

Tudo obra do lobisomem!

João Fusco e os outros chegaram para reconhecer a triste verdade.

Águeda tinha desaparecido.

Alexandre Cardoso, aproveitando a súbita retirada dos perseguidores,
saiu da vala, e desapontado e prestes recolheu-se à sua casa, onde,
livre da roupa imunda, só depois de três sucessivos banhos, foi
no leito pedir ao sono o esquecimento das suas extravagâncias e do seu
desastre dessa noite.

O epílogo desta tradição tem o merecimento de dois bonitos
quadros: um o da felicidade de dois jovens amantes; outro o de um benefício
público.

O Vigário de S. José perdoou facilmente a travessura do sobrinho,
casando-o com Águeda, a despeito dos impedimentos que João Fusco
protestava que ia apresentar, mas que não ousou fazer.

Alexandre Cardoso, o ajudante oficial da sala do vice-rei, tomara em aversão
a vala, e sem dúvida para obviar iguais e possíveis desastres
futuros fez com que o Conde da Cunha ordenasse à Câmara Municipal
que a mandasse cobrir com lajedos.

Precaução de useiro salteador amoroso noturno.

Veio ex-fumo a luz, do mal o bem; de um banho fétido na vala a pétrea
coberta desta.

Meses depois de realizada a obra beneficiadora da cidade, e de quase de todo
esquecida a famosa história do lobisomem na casa de João Fusco,
lobisomem de que principalmente as velhas davam testemunho até jurado
da aparição, da correria e do desaparecimento misterioso por
arte diabólica, Alexandre Cardoso que era vingativo e mau, explorando
a freqüência de pasquins injuriosos que amanheciam pregados nas
esquinas das ruas contra ele próprio, e contra o Vice-Rei Conde de
Cunha, um dia mandou prender o sacristão da Igreja de S. José
como suspeito de pasquineiro.

Era suspeita imaginada, calúnia indigna e perversa, vingança
de opressor cruel.

Mas, ainda bem que a vítima, o sacristão, era sobrinho de padre,
e ainda mais e melhor, sobrinho de padre vigário.

O marido de Águeda tinha averiguado, ponto por ponto, a história
toda do lobisomem; guardara-a, porém, consigo a medo do oficial de
sala.

O tio vigário, sabendo da prisão do sobrinho, foi ter com ele
à cadeia, e ouvindo-o então narrar o caso do lobisomem, que
explicava a injusta prisão, correu logo a referi-lo ao Bispo D. Frei
Antônio do Desterro, e o bispo deu conhecimento de tudo ao Conde da
Cunha, que mandou soltar o sacristão, bem que não acreditasse
no que diziam contra o seu ajudante oficial de sala.

Propalou-se logo a história do lobisomem, e dias depois amanheceu
em frente da rua do Padre Homem da Costa, junto da vala, fincado um poste
e nele pregado o seguinte pasquim:

Mude-se o nome da rua,
Tenha outro nome e mais gala;
Seja, em vez de Homem da Costa;
Do Ajudante da sala,
Que uma noite um lobisomem
Aqui se banhou na vala.

Horas depois vieram soldados arrancar o pasquim, e derrubar o poste; muitas
pessoas, porém, já tinham lido e decorado o malicioso versinho,
que a tradição popular conservou.

Graças ao medo das perseguições do terrível oficial
de sala do Vice-Rei Conde da Cunha, a atual tafulona Rua do Ouvidor escapou
ao vexame de passar então a denominar-se não – Rua do Ajudante
Oficial de Sala, como propusera o pasquim, mas Rua do Lobisomem, conforme
alguns mancebos janotas do tempo, e mais atrevidos pela influência de
suas famílias nobres ou ricas, durante semanas a chamaram por zombaria
ao aborrecido Alexandre Cardoso.

A rua manteve a sua denominação de Padre Homem da Costa; mas
parece que a proposição do pasquim e a alcunha sarcástica
dada por aqueles mancebos destemidos já eram prenúncios da próxima
deposição do Padre Homem da Costa no seu domínio denominativo
da rua, que começava a ser anacrônica pela batina e o solidéu
que ele usara.

A rua vai receber nome novo, e é de honra e de etiqueta que o receba
em novo capítulo nestas Memórias.

CAPÍTULO 5

Como a Rua do Padre Homem da Costa chegou pele lado de terra em seu – plus
ultra – abrindo-se na atual Praça de S. Francisco de Paula: referem-se
os tormentos de Cabido de Rio de Janeiro, e a história da Sé
Nova, que nunca chegou a ser Sé. Transformação da cidade
de Rio de Janeiro nos vice-reinados do Marquês de Lavradio e de Luís
de Vasconcelos; diz-se como a Rua do Padre Homem da Costa andou, ou permaneceu
pouco lembrada até que e Marquês de Lavradio que, como Henrique
IV, era devoto do belo sexo, fez nela das suas costumadas proezas noturnas,
amando a viuvinha Zezá, cunhada de Amotinado verdadeiro, que foi logrado
pelo falso Amotinado. Como houve idéia e questão de mudança
da denominação da rua, que acabou chamando-se do Ouvidor, em
honra de Dr. Berquó. Anuncia-se a festa do primeiro centenário
da Rua do Ouvidor e promete-se e programa da grandiosa solenidade.

Quando o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso, oficial de sala, perseguido como
lobisomem na noite desastrosa, caiu dentro da vala no encruzamento da rua
deste nome com a do Padre Homem da Costa, já esta há dezessete
ou dezoito anos tinha pelo lado de terra chegado à extrema, onde pudera
escrever – plus-ultra -; pois que acabara em sua embocadura na atual Praça
de S. Francisco de Paula.

Breves explicações me parecem necessárias.

A Rua do Padre Homem da Costa fora obrigada a fazer alto quando chegou a
Rua da Vala (hoje Uruguaiana): porque, além desta, o campo era do logradouro
público, e não se permitiu o prolongamento da rua, e nem ainda
um pouco mais tarde, bem que perto do campo que lhe vedavam já estivesse
edificada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de particular devoção
dos homens pretos livres, libertos e escravos.

Mas enfim veio o Cabido do Rio de Janeiro resolver o problema da revogação
daquele logradouro público.

O Cabido do Rio de Janeiro desde muito que reclamava Sé própria
e condigna.

Arruinada a Sé primitiva, a Igreja de S. Sebastião do Castelo,
hospedou-se o Cabido na então simples Capela de S. José; mas,
faltando-lhe aí cômodos, invadiu quase à força
a Igreja da Santa Cruz dos Militares.

É curiosa, mas triste, a história da campanha dos cônegos
contra as irmandades donas da casa, estas a empurrar para fora os hóspedes,
e os hóspedes a resistir, e opor-se à despedida; não
cabe, porém, nestas Memórias a narração de quanto
se passou nesse longo pleito.

Vencido na luta, e perdida a esperança de estabelecer-se na Igreja
da Candelária, o Cabido acolheu-se a pesar seu na de Nossa Senhora
do Rosário.

A prova do pesar do Cabido é dada pelo Monsenhor Pizarro, que em suas
Memórias repete sem caridade a queixa do forçado e inevitável
contato com os pretinhos, aliás seus e nossos irmãos em Deus.

Mas o governo da Metrópole (reinado de D. João V), aprovando
o plano apresentado, mandou construir nova igreja para Sé do Rio de
Janeiro, e o Governador Gomes Freire de Andrade, o bispo, e o engenheiro diretor
das obras de acordo escolheram para o templo lugar no Campo do Rosário
a curta distância da Rua da Vala, defronte da extrema imposta à
Rua do Padre Homem da Costa.

No assinalado histórico dia aniversário, 20 de janeiro de 1749,
foi lançada com aparatosa solenidade a primeira pedra da Sé
nova, cujos alicerces e grossas paredes haviam de servir não para ela,
vic vos nos vobis, mas para o edifício de que é última
herdeira a Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Para o solene lançamento da primeira pedra limpara-se, aterrara-se
em alguns pontos, e todo se igualara o terreno fronteiro à futura igreja,
o qual, ou no mesmo dia 20 de janeiro, ou pouco depois, recebeu a denominação
de Largo da Sé Nova.

E então a Rua do Padre Homem da Costa, vendo um largo aberto no campo
do logradouro público, usou do seu bom direito, saltando a vala, e
estendendo ou continuando suas duas filas de casas até abrir-se no
Largo da Sé Nova.

As obras da Sé, que ficaram em provérbio popular perpetuadas,
após ativo ardor dos primeiros meses, caíram em desalento, e
ora interrompidas, por faltar azeite à lâmpada, ora continuadas
muito preguiçosamente, chegaram por isso a excitar o ridículo
que feriu a negligência e a desídia do governo com aquele provérbio
fulminador das obras em que se consome o dinheiro público e nunca chegam
ao fim.

Mais afortunada que a Sé, a Igreja de S. Francisco de Paula, começada
a construir-se em 1759 (dez anos depois daquela) no mesmo largo, em 1801 já
estava acabada pelos seus Mínimos, que assim deram quinau aos máximos
do governo, e em prêmio do seu zelo o povo mudou o nome do largo, que
ficou sendo chamado de S. Francisco de Paula.

A Rua do Padre Homem da Costa desde 1749 não teve mais prolongamento
a aspirar; ainda, porém, era cedo para as glórias que a esperavam
com outro nome.

De 1770 a 1791 a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro se transformou
como por metamorfose rápida. Era feia lagarta, e o Vice-Rei Marquês
de Lavradio fez sair do casulo a borboleta, asseando, calçando as ruas
e praças, abrindo novas ruas, banindo as rudes peneiras das portas
e janelas, e removendo para longe dos centros urbanos a aglomeração
pestífera dos míseros negros trazidos da África para
imundos recintos de mercado de escravos.

O Vice-Rei Luís de Vasconcelos, achando a borboleta fora do casulo
e a ensaiar as asas de seda, deu-lhe água e flores em chafarizes, na
Fonte das Marrecas, e no Jardim Público, e deu ainda à cidade
novas ruas, uma das quais foi a das Belas Noites, então a romanesca
das noites de luar crescente e pleno.

A Rua do Padre Homem da Costa não recebeu nesses vinte e um anos de
florescimento na cidade melhoramento algum, à exceção
do banimento das peneiras que a afeavam, como as outras; dois anos porém,
depois do começo do vice-reinado de Luís de Vasconcelos, perdeu
o nome que lhe tinham dado em 1659.

Escapara à denominação de Rua do Lobisomem no vice-reinado
do Conde da Cunha, e como se vai ver, escapou de outras que lhe quiseram dar,
para denominar-se Rua do Ouvidor.

O Marquês de Lavradio, o Vice-Rei estadista, era varão de alto
saber, de grande experiência e de virtudes; tinha, porém, a fraqueza
de Henrique IV, e pecou não pouco por apaixonado do belo sexo. No seu
tempo o doido Romualdo dizia que o vice-rei limpava as ruas e sujava as casas.

O ilustre Marquês estava muito longe de ser ostentoso, delirante e
corrompido perversor, como fora o ajudante da sala do Conde da Cunha; foi,
porém, conquistador famoso, e teve ligações amorosas
que o prenderam muito, e amores furtivos e passageiros que autorizaram o mordaz
epigrama do doido Romualdo.

A princípio, e a supor-se cauto, ele dissimulou suas fraquezas de
um modo singular e espirituoso.

O Marquês adotara o costume de sair sob diversos disfarces depois das
dez horas da noite em passeio pela cidade para zelar a polícia e ver
com os seus olhos o que se passava, e ouvir com os seus ouvidos o que se dizia.

Em suas rondas ou passeios levava ele sempre por companheiro único
um oficial de milícias, o Tenente João Moreira, conhecido pela
alcunha de Amotinado pelos fáceis arrebatamentos de seu gênio
ardente e desordeiro.

O Tenente Amotinado era de prodigiosa força, de ânimo inflamável
e talvez o mais antigo capoeira do Rio de Janeiro, Jogando perfeitamente a
espada, a faca, o pau e ainda e até de preferência a cabeçada
e os golpes com os pés.

Não se temia de dois ou de dez inimigos, multiplicava-se na defesa
e ataque pela agilidade. Tinha medo somente do Vice-Rei e do Ouvidor da comarca.

Era delicadíssimo como ufanoso escravo do Marquês de Lavradio,
a cujo serviço não punha limites.

O Marquês, quando tinha de pescar por devoção ao belo
sexo, aproveitava para isso os seus disfarces e horas de passeio noturno,
pondo em ridículo e abusivo tributo a baixa condescendência do
Tenente.

À noite e a prazo dado, batendo de leve à porta que havia de
se abrir a sinal de ajuste, se fraca voz perguntava:

– Quem é?…

– Tenente Amotinado, respondia sempre o Marquês.

E o Tenente não protestava.

Durante alguns meses por isso, e pelos falsos boatos que se faziam espalhar
para explicação de amorosas travessuras, cujo mistério
era malguardado, ou por acaso descoberto, o Tenente Amotinado gozou na cidade
do Rio de Janeiro imerecida celebridade de feliz conquistador de invejados
amores e de traquinas beija-flores inconstantes em jardins pouco vedados.

Em breve, porém, o ardil foi conhecido e o Tenente Amotinado caiu
no ridículo, que devia ser o seu primeiro castigo.

O povo que amava o seu bom e sábio vice-rei era indulgente, repetindo
a rir as notícias indiscretas de suas travessuras amorosas, e, a zombar
do cúmplice desbrioso, continuava já então malicioso
a nomear como autor das noturnas traquinadas o Tenente Amotinado.

Mas todos sabiam bem que nome e que titulo se escondiam na pobre alcunha
do Amotinado.

Mas acontecem coisas neste mundo!…

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário
do Marquês de Lavradio em seus passeios noturnos, era casado e tinha
em sua companhia uma cunhada, Josefa, chamada em família Zezé,
viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais
moça, mais bonita ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da
dos Ourives, e sua casa de um só pavimento tinha além da porta
da entrada uma outra em curto muro contíguo, a qual só se abria
para o serviço dos escravos.

Ora, no último ano do seu vice-reinado o Marquês, apanhado uma
noite na Rua do Padre Homem da Costa por súbita e grossa chuva, aceitou
o oferecimento do Tenente, recolheu-se à casa deste, e viu Leonor,
ou Lolora, como o marido e parentes a chamavam, e a Zezé, sua irmã.

O Marquês ficou encantado, e creio que só em lembrança
dos serviços que devia ao Amotinado não pensou em apaixonar-se
por ambas.

Enamorado da Zezé, e castigando assim e sem idéia de castigo
as vis cumplicidades do Tenente, fez chegar seus recados e proposições
amorosas à linda viuvinha, conseguindo comovê-la com a ternura
prestigiosa e com a sua singular beleza de Vice-Rei.

Não sei como o Amotinado descobriu o namoro e os projetos do Marquês,
e pôs-se alerta para impedir que o vice-real namorado penetrasse em
sua casa.

O cem vezes baixo e aviltado cúmplice de entradas noturnas em casas
alheias não queria graças pesadas na sua: com outro qualquer
teria logo posto fim à história, rompendo em escandaloso conflito
do seu costume; com o vice-rei, porém, o caso era outro, e o Tenente
sabia que a mais pequena cabeçada levá-lo-ia à forca
ou pelo menos ao desterro, ficando não só Zezé mas também
Lolora indefesas e à mercê do Marquês, e de outros depois
dele.

O Amotinado não fez bulha na família, guardou o seu segredo,
e esperou, zelando vigilante e desconfiado a casa.

O Marquês tinha, no entanto, chegado a sorrir a mais tenra esperança.

Uma noite o Tenente achou o Vice-Rei de cama em conseqüência de
um resfriamento e em uso de sudoríficos.

– Tenente, disse o Vice-Rei com voz trêmula, eu hoje não posso
sair; vai rondar até à meia-noite, e vigia bem o Jogo da Bola
e a cadeia. Amanhã às oito horas vem dar-me parte do que houver.

O Amotinado saiu.

Às onze horas da noite em ponto, o Marquês, disfarçado
em oficial de marinha, parou na Rua do Padre Homem da Costa junto à
porta do muro contíguo à casa do Tenente e bateu de leve cinco
vezes.

Uma voz comprimida e como ansiosa perguntou de dentro.

– Quem é?…

O Marquês respondeu sorrindo:

– Sou o Tenente Amotinado.

O portão abriu-se, e o Marquês recuou um passo, vendo o Tenente
que trazia na mão uma lanterna, e disse logo

– Perdão, Sr. Vice-Rei! eu sei que há dois Amotinados na cidade,
mas nessa casa só entra sem pedir licença o Amotinado verdadeiro.

E trancou a porta.

O Marquês quase que se encolerizou, mas faltou-lhe o quase; porque
imediatamente desatando a rir voltou sobre seus passos e foi dormir e sonhar
com a linda viuvinha Zezé.

No outro dia recebeu às oito horas da manhã o Tenente, tratou-o
com a maior bondade, riu-se, lembrando-lhe o desapontamento por que passara
no portão, louvou-lhe o zelo pela honra da Zezé, e, a rir ainda
mais, recomendou-lhe que tivesse cuidado com o falso Amotinado.

Continuaram como dantes em noites determinadas Os passeios noturnos do Marquês
e do Tenente; este, porém, velava sempre em desconfiança daquele.

Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo
o toque das dez horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a
essa hora que o Marquês costumava sair. Chegou, bateu à porta
que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia entrando,
o Tenente sentiu leve ruído… voltou a chave, fingindo ter trancado
a porta e esperou…

Quase logo a ponta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.

O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando
com os dentes cerrados:

– Sr. Vice-Rei!…

– Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês;
há dois homens; mas, se o achas melhor, há o falso Amotinado
a sair pela porta do muro quando o verdadeiro entra pela porta da casa. E
vê lá! não ofendas aquela que protejo!…

O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva
estéril.

Um vice-rei deveras fazia medo.

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre
Homem da Costa, e no dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas
e dos dois Amotinados. Apareceram pasquins, compuseram-se cantigas e lundus,
que eram as armas da censura popular do tempo, e alguns malévolos propuseram
que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou
grupo de dez ou doze maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente
a exagerada e servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de
ouro; este, porém, pediu-lhe com ardor a patente de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

– Pobre Amotinado!… os postos do exército são do rei, que
os confere a quem presta serviços a seu governo; os teus serviços
foram prestados só à minha pessoa e eu não posso pagá-lo
senão com o meu dinheiro. Vejo que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lha, e o miserável aceitou-a.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem
todos perdoavam as travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito
governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante
a boniteza para achar, como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação
envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão
e espalha-brasas em querer chamá-la Rua do Amotinado.

Acresceu logo depois a pretensão de alguns cônegos e de gente
devota, que propunham a denominação de Rua do Cabido ou Rua
da Sé Nova, em honra da Sé Nova que então, embora já
desanimadamente, se construía no largo ainda desse nome, e onde se
abria a Rua do Padre Homem da Costa.

E quando mais fervente se achava esta contenda, chegou de Lisboa nomeado
ouvidor da comarca para o Rio de Janeiro o Dr. Francisco Berquó da
Silveira (da família Berquó da qual foi membro ulteriormente
o Marquês de Cantagalo, amigo dedicadíssimo e estimado de D.
Pedro I), e logo ou pouco depois de sua chegada à capital do Brasil
colônia foi morar em 1780 à Rua do Padre Homem da Costa, na casa
de sobrado, que é hoje de n.º 62-A, e ocupada pela loja de papéis
pintados do Sr. Anacoreta.

Um ouvidor de comarca era naquele tempo muito mais do que um simples mortal,
era um potestade, que o povo respeitava mais do que hoje respeita ao presidente
do Supremo Tribunal de Justiça, e não havia quem deixasse de
pôr-se de chapéu na mão quando ele passava.

Desde que o Dr. Berquó estabeleceu sua residência à Rua
do Padre Homem da Costa; desfizeram-se as pretensões denominativas
de Rua do Amotinado e do Cabido, e todos de acordo a chamaram Rua do Ouvidor.

E, portanto, o defunto Padre Homem da Costa, muito depois de morto, deu em
1780 à costa, não nos baixios, mas nas alturas do ouvidor da
comarca.

1780!… não esqueçam a data, que marca o começo da
época que tinha de ser tão gloriosa para a rua por excelência
poliglota e enciclopédica, labirinto, vulcão, mina de ouro e
abismo de fortunas, rainha dos postiços e das artes arteiras, fonte
de belos sonhos, armadilha de enganos, et coetera, et coetera, et coetera,
somando tudo – Torre de Babel.

Principiara sendo – Desvio – desvio do caminho reto, e essa origem não
foi lisonjeira.

Passara de Desvio à Rua de Aleixo Manoel, plebeu raso, que, embora
só de fidalgos, era barbeiro, segundo os meus velhos manuscritos.

Subiu, tomou solidéu e batina, entrou para a categoria do clero, elevando-se
à Rua do Padre Homem da Costa.

E enfim exaltou-se, mostrando-se com a toga da magistratura em sua nova e
última denominação de Rua do Ouvidor.

E notem: o ouvidor chamava-se Berquó, nome cujas letras combinadas
de outro modo formam o presente do indicativo do verbo quebrar, isto é
– quebro, o que quer dizer: não resisto, rendo-me.

O Berquó, o tal ouvidor, tinha pois nas letras do seu nome cabalisticamente
encerrado o segredo dos encantos da rua, a que ninguém resiste, a que
todos se rendem; porque todos quebram, e até se requebram escravos
do seu poder.

Mas não o esqueçam, a rua começou a denominar-se do
Ouvidor em 1780.

Mais dois anos passados, e fulgirá esplendíssimo e supermemorável
o primeiro centenário da brilhante e famosa Rua do Ouvidor.

Que festa! quem viver em 1880 verá o que há de haver.

Em 1880 – o centenário!…

Preparai-vos, ó modistas, floristas, fotografistas dentistas, quinquilharistas,
confeitarias, charutarias, livrarias, perfumarias, sapatarias, rouparias,
alfaiates, hotéis, espelheiros, ourivesarias, fábricas de instrumentos
óticos, acústicos, cirúrgicos, elétricos e as
de luvas, e as de postiços, e de fundas, de indústria, comércio
e artes, e as de lamparinas, luminárias, faróis, e os focos
de luz e de civilização e vulcões de idéias que
são as gazetas diárias e os armazéns de secos e molhados
representantes legítimos da filosofia materialista, e a democrata,
popularíssima e abençoada carne-seca no princípio da
rua, e no fim Notre Dame de Paris, a fada misteriosa de três entradas
e saídas e com labirintos, tentações e magias no vasto
seio – preparai-vos todos para a festa deslumbrante do centenário da
Rua do Ouvidor!…

A festa é de nosso dever e de nossa honra!…

Preparai- vos!

O centenário é em 1880!…

Se eu tiver paciência, animação e confiança, proporei
no fim destas Memórias que ainda têm muito que dar de si, o programa
da grande festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor.

Vejam lá se me deixam ficar mal.

CAPÍTULO 6

Como se revela em burlesca proeza o primeiro ou mais antigo herói
da Rua do Ouvidor; conta-se a história de duas ceias no fundo da taberna
de Manoel Gago e como pela sua singular habilidade pregou famosa logração
a três amigos o Belo Senhor, interessante celebridade do Rio de Janeiro,
rematando-se esta tradição com o conselho um pouco profético
dado por Agostinho Fuas, um dos logrados, ao Belo Senhor.

A rua que em 1780 recebeu a denominação do Ouvidor teve por
seu primeiro herói em burlesca proeza o Belo Senhor.

Talvez que bem poucos dos meus leitores saibam quem foi o Belo Senhor; aliás
a mais famosa personagem travessa e infelizmente muito pior do que travessa
da cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século passado
e que acabou ignorado morrendo não sei em que ano do princípio
do atual.

O Belo Senhor chamava-se José Joaquim de…; nascera na cidade do
Rio de Janeiro, onde seus pais (creio que pelo menos o pai era de Portugal)
o fizeram receber limitada instrução acima da primária,
mostrando-se ele, porém, muito inteligente, e sobretudo, maravilhoso
em caligrafia.

Era de tanta beleza varonil no rosto como bem talhado de corpo; de espírito
sutil, de gênio alegre e folgazão, dançando com o maior
primor, cantando agradavelmente, merecera por tudo isso a desvanecedora alcunha
de Belo Senhor, que por certo não foram os homens que lhe puseram.

Em sua juventude gozou o Belo Senhor a vida, esbanjando o tempo, e só
ocupado de folguedos e de prazeres; ao menos, porém, isento de abusos
e de atos criminosos que mancham o homem.

É nessa idade louçã, de alegrias e de devaneios, que
se apresenta o mais antigo herói de travessura curiosa passada na Rua
do Ouvidor.

O que passo a referir é tradição que ouvi não
só a um, mas a alguns velhos que conheceram o Belo Senhor, e entre
esses há um respeitável e estimadíssimo cirurgião
que em idade muito avançada faleceu em 1877.

Nesta tradição pertencem-me os nomes dos tafuis amigos do Belo
Senhor, a data precisa da segunda ceia, e os diálogos; porque não
fui informado daqueles nomes, e nem da data que marquei para dar certa vida
à tradição.

Tudo mais, isto é, a primeira e a segunda ceia, as fivelas e a casaca
novas, e a surpresa causada pela presença da Rosinha, atriz da casa
da ópera, devem considerar-se, e pelo menos eu reputo de tradição
verdadeira.

E agora conto a proeza do Belo Senhor, sem mais prelúdios, nem cerimônias.

Companheiro assíduo dos mais elegantes e ricos tafuis do seu tempo,
o Belo Senhor; que, muitas vezes, por seus dotes naturais, pelo seu espírito
e por suas prendas ganhava, mais do que eles, agrados das senhoras nas reuniões
e saraus, quase sempre baldo ao trunfo não os podia igualar no luxo
dos vestidos sempre novos, e na magia do ouro, com que era posto em derrota
na disputa de certos amores.

Uma noite, em 1783, ou pouco depois, em companhia de alguns desses tafuis,
todos de boas e ricas famílias, o que não os impedia de render
vassalagem à extravagância, que também é rainha
da mocidade, ceava o Belo Senhor peixe frito com pimentões, chouriço
de porco e rim de vaca assado e bebia vinho do Ponto, em saleta reservada
do fundo da famosa taberna de Manoel Gago, sita à Rua do Ouvidor; esquina
da Rua dos Latoeiros.

Ninguém se admire da escolha de uma taberna para uma ceia desses tafuis.

Ainda depois de estabelecidos os hotéis e em anos que chegavam ao
termo da primeira metade do nosso estupendo século, não faltavam
hóspedes muito sérios às saletas dos fundos de certas
tabernas para cear sardinhas fritas com pimentões, e rim assado com
o indispensável molho de pimenta de cheiro.

Era costume do século passado, que se conservava no atual, e as tabernas
preferidas só admitiam nas saletas fregueses conhecidos e de boa companhia.

Trata-se, porém, da ceia dos tafuis.

Em ajuntamento de mancebos que só pensam em divertir-se e rir, há
de ordinário uma vítima de escolha ocasional.

Nesta noite a vítima era o Belo Senhor.

Afonso Martinho tinha dito que ele trazia nos sapatos o testemunho de impostura
e falsidade; porque as fivelas que tinham passado por ser de ouro já
estavam por velhas perdendo o dissimulo e denunciando a prata que nem era
de lei.

O Belo Senhor comia então uma posta de pescada, e não respondeu.

As fivelas dos sapatos do Belo Senhor estão em harmonia com a sua
casaca de uso ordinário, como hoje, e que, como todos vêem, já
está perdendo o pêlo! exclamou Domingos Lopo.

– É avareza desse demônio: devemos castigá-lo; proponho
que de hoje a oito dias o Belo Senhor seja obrigado a pagar-nos aqui mesmo
ceia dez vezes melhor do que esta, que eu hoje pago; disse a zombar Antônio
Pereira.

Mas quando Domingos Lopo falava, o Belo Senhor estava-se regalando de chouriço
com farinha de mandioca; e quando Antônio Pereira o emprazou para a
ceia que havia de pagar, ele saboreava o rim assado, temperando-o no molho
de pimenta de cheiro, e não deu resposta nem a um, nem a outro, e menos
ainda pareceu ressentir-se.

Não havia maligna intenção nos gracejos dos três
amigos; mas realmente era pouco generoso, e de mau gosto em mancebos ricos
zombar do que era manifesta prova dos poucos recursos pecuniários da
vítima do ridículo.

Risadas acompanhavam, no entanto, os remoques provocadores de reação
que o Belo Senhor não costumava conter.

Mas então ele comia, e não falava.

Agostinho Fuas tomou por sua vez a palavra e disse:

– O Belo Senhor está hoje triste, silencioso e abatido: querem saber
por quê? Há um mês que apaixonado, perdido de amor pela
Rosinha Feitiço, a mais bela dama da Casa da Ópera, cantava-lhe
de noite modinhas à porta e de dia mandava-lhe ramalhetes de rosas,
e de não-me-deixes; mas coitado! soube ontem que eu sem modinhas nem
flores, e só com uma chave, que tirei da minha bolsa, abri a porta
que não lhe abriam, e tomei-lhe a namorada!… Tem paciência,
Belo Senhor! espera dois ou três meses pelo termo do meu capricho: eu
te pus no purgatório, mas não te condenei ao inferno.

Gargalhadas gerais agravaram a zombaria de Agostinho Fuas, tanto mais cruel,
quanto era absolutamente expresso de verdade.

O Belo Senhor por acaso ou por abafado ímpeto de ira cobriu de pimentas
de cheiro uma garfada de rim e comeu, parecendo regalar-se.

Agostinho Fuas, um pouco picado da indiferença da vítima, tirou
do bolso uma carta e mostrou-a aos companheiros.

– Ai está um bilhete que a Rosinha me escreveu hoje…

– Mas que diabo! ela escreve Gostinho em vez de Agostinho? disse Afonso Martinho.

– É assim que me trata: vê agora a assinatura…

– Feitiço…

– É como eu a chamo. E tu, Belo Senhor; não queres ver a carta
da Rosinha Feitiço?

Era demais.

O Belo Senhor que inalterável não tinha levantado os olhos
do prato saboreou o último pedaço de rim assado, encheu de vinho
o copo, bebeu vagarosa e deliciosamente, depôs o copo na mesa e disse
com perfeita serenidade:

– Agora eu.

Todos os olhos se fitaram no Belo Senhor que, voltando-se primeiro para Antônio
Pereira, disse-lhe:

– Antônio Pereira! de hoje a oito dias cearemos nesta taberna profusa
e grandiosamente!… convide a todos os presentes e a mais alguns amigos,
mas eu juro que tu, Antônio Pereira, hás de pagar a ceia.

– Eu?… aposto que não!…

– E nessa noite de ceia, de hoje a oito dias, eu me apresentarei de ricas
fivelas de ouro nos sapatos, e tu, Afonso Martinho, hás de pagar as
fivelas.

– Eu?… também aposto que não!

– E tu, Domingos Lopo, hás de pagar a casaca nova com que me apresentarei
a honrar a ceia!

– Terceira aposta!… juro que não.

– Quanto a Agostinho Fuas, não pretendo que ele me pague coisa alguma;
pelo contrário, serei eu quem o há de felicitar com a mais agradável
surpresa.

– Explica-te, Belo Senhor!

– Impossível! será o encantamento da ceia; mas é segredo
que guardarei comigo até de hoje a oito dias.

– São, portanto, quatro apostas, disse Antônio Pereira; vê
em que te metes, Belo Senhor!

– Não faço aposta alguma; respondeu este: contento-me com a
ceia profusa, com as fivelas de ouro, com a casaca nova e com o surpreendente
efeito do meu segredo.

Levantaram-se todos para sair.

– A propósito! exclamou o Belo Senhor; quero saber a hora precisa
da ceia: Antônio Pereira é quem deve marcar a hora, porque as
despesas correrão por sua conta.

– O Belo Senhor paga-nos aqui boa ceia, de hoje a oito dias, às nove
horas da noite precisas, disse Antônio Pereira.

– Muito bem! de hoje a oito dias, 20 de julho de 1783, às nove horas
da noite em ponto, disse o Belo Senhor.

E logo acrescentou:

– Daqui até lá nem mais meia palavra sobre este assunto.

E todos se retiraram da taberna a rir e a gracejar, como amigos que eram.

Passaram-se os oito dias do prazo marcado, chegou a noite de 20 de julho,
e ainda antes das nove horas já se achavam reunidos na saleta do fundo
da taberna de Manoel Gago, além de alguns outros todos os mancebos
que ali tinham ceado oito dias antes.

Faltava somente o Belo Senhor.

Havia curiosidade como que ansiosa.

Nenhum dos convidados ousava supor que ele faltasse ao prazo e à ceia.

A questão do pagamento da ceia, das fivelas de ouro, da casaca nova,
e enfim a surpresa prometida a Agostinho Fuas preocupavam a todos.

A ceia já estava servida e era na verdade profusa para a habilidade
culinária de Manoel Gago, o dono da taberna, que até então
se limitara a dar aos seus fregueses peixe frito, camarão, chouriço
e rim de vaca.

Os nossos leitores dispensam a descrição da ceia.

Ao toque de nove horas entrou pela taberna o Belo Senhor trajando fina casaca
nova e trazendo nos sapatos ricas fivelas de ouro.

Os amigos nem tiveram tempo de aplaudi-lo, porque logo em seguida dois robustos
negros se mostraram conduzindo elegante cadeirinha que depuseram a entrada
da saleta.

– Agostinho Fuas, disse o Belo Senhor, sem dúvida que eu devia começar
pela agradável surpresa que te prometi.

E, abrindo as cortinas da cadeirinha, ofereceu a mão e ajudou a sair
dela uma bonita moça morena.

– Apresento-lhes a linda e mimosa Rosinha Feitiço, que nos dará
a glória de cear conosco, se Agostinho Fuas o permitir.

A surpresa foi realmente grande, e até a bela Rosinha também
a partilhou, vendo Agostinho Fuas confundido e amuado.

– Antônio Pereira! podemos sentar-nos à mesa?

– Eu não me sentarei à mesa com a senhora Rosinha sem que ela
me explique como se apresenta aqui!… disse Agostinho Fuas.

– Camarada! que ciúmes de mau gosto!… observou o Belo Senhor a sorrir.

– Então isso é Ópera do Judeu?… perguntou a bonita
morena.

E tirou do bolso e entregou a Agostinho uma carta.

O amante ciumento leu alto com admiração e ainda com maior
surpresa:

"Feitiço: – Quero que venhas cear comigo em boa companhia; como
porém não me é possível ir buscar-te, entendi-me
com o meu amigo Belo Senhor, que vai receber-te às oito e meia horas
da noite, levando cadeirinha para te conduzir. Podes confiar-te a ele, e vem
sem falta; eu o exijo: é questão de honra! até logo,
Feitiço. – Teu Gostinho."

– E então? perguntou a atriz da casa da ópera.

– O mesmo tratamento que me dás, e que te dou!… e a minha letra!…
porque é a minha letra… a minha assinatura.. é, juro que é;
mas juro também que não escrevi esta carta! exclamou Agostinho
Fuas.

– Oh! ceemos, Agostinho Fuas! disse o Belo Senhor.

Sentaram-se todos; mas imediatamente Manoel Gago chegou-se a Antônio
Pereira, e entregou-lhe a conta da ceia.

– Que diabo é isso?… que tenho eu com o rol e com a conta da ceia?
disse Antônio Pereira.

Manoel Gago nem pode falar; mas, correndo a taberna, tirou da gaveta um papel
e veio apresentá-lo a Antônio Pereira.

O papel dizia assim:

"Sr. Manoel Gago, a 20 de julho de 1783 quero que às 9 horas
da noite precisas tenha pronta e servida à mesa para 20 pessoas ceia
constante dos pratos e vinhos seguintes… (estendia-se o rol): não
olhe as despesas; quero, porém, que, logo ao começar a ceia,
me apresente a conta diante de todos, é caso de aposta. – Seu freguês,
Antônio Pereira."

O papel correu pela mão de todos, e todos deram testemunho de que
a letra e a assinatura eram de Antônio Pereira, que puxou pela bolsa
e pagou a ceia a rir alegremente, dizendo aos amigos:

– Tal e qual como Agostinho Fuas!… reconheço por minhas a letra
e assinatura… não há questão… mas leve-me o demo,
se eu escrevi e assinei isso!…

O Belo Senhor ceava gulosamente e sem falar.

Mas antes das dez horas entraram na saleta um alfaiate e um ourives, que,
desfazendo-se em desculpas, e protestando que se mostravam ali só por
obediência às ordens escritas e positivas, entregaram o primeiro
a Domingos Lopo a conta de uma casaca do mais fino pano e o segundo a Afonso
Martinho a de primorosas fivelas de ouro, que também por ordem escrita
e assinada um tinha feito e o outro entregado ao Belo Senhor; sob a condição
de cobrança realizada naquela noite e àquela hora na taberna
de Manoel Gago, e durante a ceia que ali se daria.

O ourives e o alfaiate, fregueses dos dois ricos tafuis, tinham obedecido
ao extravagante capricho de mancebos notáveis por devaneios e originalidades
travessas de juventude, e, além disso, seus fregueses de maiores despesas
e do mais pronto pagamento.

Afonso Martinho e Domingos Lopo riram-se ainda mais do que Antônio
Pereira, e todos com eles verificaram, depois de acurado exame, que era impossível
negar a letra das ordens e as assinaturas dos dois pagantes da casaca de pano
fino e das fivelas de ouro do Belo Senhor.

E Domingos Lopo e Afonso Martinho pagaram ao som dos aplausos da companhia
ao alfaiate e ao ourives.

Tanto eles como Antônio Pereira podiam negar-se aos pagamentos que
fizeram; eram porém cavalheiros amigos do Belo Senhor, e julgaram de
bom-gosto dar-se por vencidos pela habilidade caligráfica daquele,
a quem aliás tinham provocado com as suas zombarias.

O Belo Senhor foi o herói da ceia que se prolongou até a meia-noite.

A essa hora, e ao dissolver-se a reunião, o Belo Senhor ainda zombeteiro
perguntou a Agostinho Fuas:

– Queres que eu me encarregue de acompanhar a tua bela Rosa ao seu jardim?…

Rosinha Feitiço fez um momo a indicar negativa.

– Não, respondeu Agostinho Fuas, quero porém que saiamos juntos.

E saíram.

A pequena distância da taberna de Manoel Gago, e vendo-se livre de
ouvidos indiscretos, Agostinho Fuas deixou o braço de Rosinha, a quem
conduzia, e, afastando-se dela alguns passos com o Belo Senhor; apertou as
mãos deste e disse-lhe em voz muito baixa:

– Belo Senhor! gosto de ti e vou dar-te boa prova disso.

– Que é?…

– Lembra-te sempre do conselho de Fuas, na Rua do Ouvidor!…

– Mas… enfim!.. falas tão sério!…

– Desdenha e perde a tua admirável e extraordinária perfeição
imitativa da escrita e da assinatura alheias.

– Ah!… o que fiz hoje…

– O que fizeste hoje foi simples, mas lamentável brinquedo com amigos,
e mais tarde o que poderás fazer será crime. Lembra-te!

E Agostinho Fuas voltou a tomar o braço da bonita atriz da casa da
ópera.

O Belo Senhor ficou parado e quase triste.

E mais tarde lembrou-se muito, e lembrou-se em dias sinistros – do conselho
de Fuas na Rua do Ouvidor.

Provavelmente hei de ter ocasião de lembrar também a sabedoria
do conselho de Agostinho Fuas, dando, embora de passagem, notícia de
lamentável crime, e de adversa fortuna à que a maravilhosa habilidade
caligráfica levou o Belo Senhor, já infelizmente corrompido.

CAPÍTULO 7

Como o vice-reinado do Conde de Rezende obumbrou a cidade do Rio de Janeiro
e nesta a Rua do Ouvidor com sinistras perseguições, e com o
terror que espalhou, fala-se da conspiração dos inconfidentes
de Minas Gerais, e refere-se a uma tradição que não saiu
toda dos velhos manuscritos suspeitos de tradições imaginárias.
Como e por que Perpétua Mineira veio em 1784 morar à Rua do
Ouvidor e aí, não ganhando bastante a costurar, abriu em sua
casa saleta de pasto à mineira, acontecendo que depois de certo tempo
ela começou a rir fora de propósito, cultivou perpétuas
roxas, teve muitos amores, até que se apaixonou pelo Tiradentes, e,
enfim, desapareceu na noite de 21 de abril de 1792, depois de ter andado à
roda da forca, onde fora morto o seu amante, a procurar uma perpétua,
achando somente ensangüentado um pedaço de lenço que reconheceu
e guardou.

O último decênio do século passado e os primeiros dez
meses do ano de 1801 marcaram obumbrado e sinistro período na história
da cidade do Rio de Janeiro, e deixaram triste episódio às Memórias
da Rua do Ouvidor.

Em 1789 tinha sido denunciada a conspiração dos inconfidentes
de Minas Gerais, estes presos e a devassa posta em andamento.

Em 1790 (a 4 de junho) começou o vice-reinado do Conde de Rezende
para tormento do Rio de Janeiro. Suspeitoso, aterrador, desapiedado, o Conde
de Rezende, ainda depois de enforcado o Tiradentes, e de saídos em
desterro os principais chefes da conspiração, isto é,
ainda depois de abril de 1792 até o fim do seu vice-reinado, foi cruel
opressor do povo, e implacável perseguidor de poetas e de literatos,
a alguns dos quais encerrou por longo tempo em negras prisões pelo
crime de se reunirem em palestras literárias e científicas,
às quais ele atribuía injustamente dissímulos de clubes
revolucionários e reincidências em tramas republicanas.

A Rua do Ouvidor sofreu, como toda a cidade, a influência sinistra
do governo do Conde de Rezende, obumbrando-se pela desconfiança e pelo
terror, e para dar idéia dessa triste situação, preciso
lembrar a famosa conspiração chamada do Tiradentes, as perseguições
e abusos do vice-rei, e vou fazê-lo, vestindo com as roupas, isto é,
com as cores e com os costumes do tempo, uma tradição que colhi
nos meus velhos manuscritos.

É a tradição-romance de Perpétua Mineira, que
aliás não saiu toda desses manuscritos já suspeitos de
fonte imaginária.

Dois amigos meus que tinham sido jovens no primeiro quartel do século
atual, e que se presumiam de sabedores de coisas dos fins do último
século, informaram-me em anos que me viram atarefado recolhedor de
notícias do nosso passado na cidade do Rio de Janeiro, informaram-me,
repito, da seguinte historieta:

– Uma mulher moça e bonita, a quem chamavam Perpétua Mineira,
vivera durante anos dos vice-reinados de Luís de Vasconcelos e do Conde
de Rezende morando na Rua do Ouvidor entre as ruas Direita e Detrás
do Carmo (hoje do Carmo), e que em sua casa abrira saleta de pasto, ou de
jantar e ceias de cozinha á mineira.

Perpétua, a princípio de costumes irrepreensíveis, tornara-se
depois fácil em amar e inconstante em amores, contando entre os seus
felizes apaixonados o Tiradentes, e enfim subitamente desaparecera, sem que
houvesse dela mais notícia alguma, no mesmo dia em que subiu à
forca, seu capitólio da história, aquele impávido conjurado,
de quem ela fora amante.

Atiçado e impelido pelo interesse romanesco de tais informações,
procurei então com ardor no processo dos inconfidentes de Minas, em
publicações, em documentos arquivados, em conversações
com amigos fluminenses e mineiros distintos, e curiosos investigadores destas
coisas da pátria, alguns vestígios da existência ao menos
daquela Perpétua Mineira, que floresceu ou murchara na Rua do Ouvidor.

Perdi o meu tempo.

Os meus dois informantes continuavam a asseverar o que me diziam sobre a
interessante Perpétua Mineira; mas em falta de testemunho mais seguro,
limitei-me a tomar notas das informações sem poder aceitá-las
como incontestáveis.

Agora, escrevendo as Memórias da Rua do Ouvidor e chegando nelas à
época da conjuração dos inconfidentes de Minas Gerais,
das perseguições e do terror do vice-reinado do Conde de Rezende,
lembrei-me daquelas informações, e tomando-as por base, recorri
sem cerimônia aos meus velhos manuscritos e achei logo neles a tradição
completa, a tradição-romance de Perpétua Mineira, que
passo a contar.

Não asseguro, mas inclino-me a crer, a admitir ao menos o fato da
existência de Perpétua Mineira com a saleta de pasto, ou de jantar
e ceias, na sua casa da Rua do Ouvidor; admito a probabilidade dos amores
de Perpétua e do Tiradentes. O mais vai sair dos meus velhos manuscritos
por conta e risco exclusivamente deles e sem responsabilidade do memorista
consciencioso.

É tradição-romance de Perpétua Mineira para diante.

Em pequena casa térrea de porta e janela que em princípio do
século atual ainda se via, na Rua do Ouvidor ao lado direito e pouco
antes da quina da Rua Detrás do Carmo, como triste amostra das acanhadas
e rudes construções dos primeiros tempos da cidade, morava uma
mulher a quem chamavam Perpétua Mineira.

Perpétua era com efeito o seu nome de batismo; o de família
ninguém o conhecia, porque ela não o tinha e a alcunha de mineira
lha puseram no Rio de Janeiro pela sua naturalidade da capitania de Minas
Gerais.

Era ainda mais infeliz do que se fora órfã, era ou fora enjeitada,
e nunca a procuraram os pais. No seio da família caridosa que a recolhera,
aprendera ao menos a trabalhar; aos dezoito anos de idade, porém, fora
segunda vez enjeitada, expulsa da casa beneficente pelo crime de ter sido
seduzida pelo filho mais velho dos seus protetores.

O sedutor apaixonado amante da enjeitada quis, a despeito da oposição
de seus pais ricos e presunçosos de nobre sangue, desposá-la,
e dar-lhe, como devia, o seu nome; Perpétua, porém, a chorar
e a maldizer de sua fraqueza, lembrou quanto por ela tinham feito os caridosos
adotadores da inocente e mísera recém-nascida exposta, abandonada
à porta de estranhos, e agradecida até ao sacrifício
de sua honra, impôs ao filho revoltado obediência aos pais, deu-lhe
em despedida um, o último beijo, e, fugindo à capitania do seu
berço, veio para a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1784, e quase
logo foi ocupar a casa da Rua do Ouvidor, que ficou mencionada, e que houve
a preço de seis cruzados de aluguel por mês.

Perpétua pôs-se a costurar, foi ela a primeira, não modista,
mas costureira da Rua do Ouvidor; tão pouco, porém, rendiam-lhe
as costuras, que para viver começou a explorar outro recurso, abrindo
ao concurso do público na pequena saleta de sua casa mesa muito asseada,
na qual vendia lombo de porco em vários guisados primorosamente preparados,
lingüiças e bolos, e diversos acepipes culinários de farinha
de milho.

Em linguagem moderna combinada com a antiga, inglesa abrasileirada, a pobre
e infeliz Perpétua abriu casa de lunch – à mineira.

Foi daí que começou a sua alcunha Perpétua Mineira.

E sem o pensar ela foi ali na Rua do Ouvidor a precursora de Mme Joséphine,
costurando, e do Sr. Guimarães, fazendo lunch à mineira.

De estatura alta, e bem talhada de corpo, Perpétua tinha negros e
belos os cabelos e os olhos, o rosto branco e de encantador oval, trazendo
nas faces as pulcras rosas de além das serranias do Ocidente.

Apenas lhe amesquinhavam as graças físicas, as mãos
trigueiras e ásperas pela rudeza do trabalho e os modos e falas agrestes
que denunciavam a sertaneja, pouco afeita aos costumes e aos lavores da sociedade
urbana.

Bonita como era, Perpétua adquiriu logo boa freguesia freqüentadora
da sua saleta de pasto, onde muitos dos mineiros que vinham à cidade
do Rio de Janeiro também e de preferência iam para jantar ou
cear à moda da capitania.

Tão jovem que ainda se poderia dizer menina, Perpétua, vivendo
só, manteve durante um ano procedimento irrepreensível, foi
casta depois de seduzida, bem que não lhe faltassem namoradores e apaixonados
entre os fregueses da saleta de pasto.

Mas um dia alguns mineiros chegados da capitania deram à pobre enjeitada
a notícia do casamento do seu querido sedutor. Por explicável
contradição de sentimentos em alma exaltada, ela, que generosa
impusera ao amante obediência à vontade dos pais, ao saber que
a obediência se cumprira, sentiu o peso da morte no coração,
adoeceu gravemente, foi levada para a Santa Casa da Misericórdia, donde
no fim de dois meses saiu restabelecida da moléstia cerebral que lhe
ameaçara a vida, mas trazendo alteração lamentável
em seu caráter.

Restaurando a sua saleta de pasto, Perpétua Mineira não zelou
mais e como dantes o seu proceder honesto, e ainda o repetirei casto depois
do erro: fingida ou realmente alegre, faceira e garrida escapou apenas às
abjeções do vício venal, mas desceu às baixezas
da impudicícia por amores, cuja duração era marcada pela
sua inconstância e pelo seu capricho.

A jovem mineira parecia feliz; era tão fácil e freqüente
o riso em seus lábios, que às vezes até ria fora de propósito;
além disso, notava-se que ela, tendo mandado preparar no quintalzinho
de sua casa canteiros de jardim, só cultivava nesses canteiros perpétuas,
a flor do seu nome; exclusivamente, porém, perpétuas roxas,
a flor das sepulturas ou da morte.

Entretanto, Perpétua Mineira adquiriu celebridade imodesta na cidade
do Rio de Janeiro, e entre os seus sucessivos amantes contou o Belo Senhor,
e dizem que (muito às escondidas e com imposição de segredo)
o Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que foi sempre muito mais cauto do
que o Marquês de Lavradio.

Por fim, em 1787, apareceu-lhe em casa José Joaquim da Silva Xavier,
o Tiradentes, que já não era moço, nem distinto por beleza
varonil, mas que impressionava a quase todos por arrebatamentos apaixonados,
pelas expansões francas e ardentes do sentimento, pela coragem, pelo
entusiasmo fácil, e até pelas leviandades e estouvamentos de
seu ânimo imprudente, e a que faltava sobretudo o bom-senso.

O Tiradentes inflamou-se de amor pela bela Perpétua, e esta perdidamente
se apaixonou por ele.

Capricho ou predileção de mineira?…

É quase ou de todo insensato pretender arrasar segredos de sentimento.

Perpétua amou o Tiradentes, amou-o terna e fiel, e desde então
ria-se ainda; mas só a propósito: nenhum outro homem pôde
mais passar além da saleta de pasto para o interior da casa, nem mesmo
(dizem) aquele que a horas mortas de noite às vezes entrava misterioso.

Pode-se amar deveras mais de uma vez na vida?… pode haver outro depois
do primeiro amor que enche e perfuma completa e perfeitamente o coração?…

Perpétua não ousaria responder, porque depois do seu primeiro
amor amava ternamente o Tiradentes; mas, cumpre dizê-lo, amante estremecida
e fiel do Tiradentes, ela continuou sempre a cultivar no seu quintalzinho
perpétuas e exclusivamente perpétuas roxas.

As ligações de Perpétua e do Tiradentes duravam com
interrupções longas pelas ausências deste, mas com exemplar
fidelidade respeitadas por ela já há dois anos, quando em 1789
aquele conspirador indiscreto chegou à cidade do Rio de Janeiro e no
fim de alguns dias, na véspera de sua volta para Vila Rica, revelando
à amante o segredo da conspiração mineira, em terna despedida,
pediu-lhe que colhesse e lhe desse uma perpétua, a flor do seu nome,
como lembrança de amor.

A bela jovem cortou um basto anel de seus cabelos, e, dando-o ao Tiradentes,
disse-lhe:

– Dou-te melhor lembrança: a perpétua não, não!
olha: só tenho perpétuas roxas, as flores da morte.

O Tiradentes beijou e guardou o anel de cabelos, mas exigiu com tanta insistência
a flor, que a amante colheu e entregou-lhe uma perpétua, dizendo:

– Leva-a, é porém de mau agouro. Sê feliz! Adeus! Qualquer
que seja o teu destino, eu te amarei perpétua. Lembra-o bem: perpétua!…

No mesmo ano o Tiradentes tornando ao Rio de Janeiro, mas já perseguido
para ser preso, como em Minas o tinham sido os outros conspiradores, não
ousou ir à casa de Perpétua Mineira, mas ainda assim caiu em
poder dos agentes do governo.

A generosa e exaltada amante, a pobre Perpétua Mineira, sonhou, imaginou
planos doidos para salvar o Tiradentes, facilitando-lhe a fuga dos cárceres
subterrâneos da ilha das Cobras, para onde o tinham levado, e, desatinada
e vaidosa, começava a calcular com repugnantes traições
ao seu amor, com sublimes sacrifícios já para ele horríveis,
contando com o poder dos seus encantos a fazer milagres no coração
de Luís de Vasconcelos, aliás severo e inflexível no
cumprimento do seu dever, quando a 4 de junho de 1790 o vice-reinado passou
ao Conde de Rezende.

Adeus, embora ilusórias, vaidosas esperanças de Perpétua
Mineira!…

O Conde de Rezende chegava carrancudo, ameaçador, e temendo conspirações
a tramar-se em toda a cidade, e para mais se agravarem suas turvas suspeitas,
e as sinistras prevenções do seu ânimo, logo na noite
de 20 de junho, incêndio violento devorou a casa onde a Câmara
Municipal celebrava suas sessões e tinha o seu arquivo (casa do Teles
na Praça de Pedro II, até à quina da Rua do Mercado).

O Vice-Rei passou a noite em ânsias, vendo no incêndio ensejo
preparado para pronunciamento revolucionário, ao mesmo tempo que o
povo só via na horrível fogueira mau agouro do novo governo.

Não foi possível ao Conde de Rezende descobrir a origem do
incêndio; mas por isso mesmo o atribuiu aos revolucionários,
e multiplicou precauções aterradoras.

Perpétua por ter sido amante do Tiradentes, e porque recebia mineiros
a jantar e a cear em sua saleta de pasto, foi objeto de incessante espionagem,
e teve a casa por vezes varejada, de modo que em breve temerosos e espantados
quase todos os freqüentadores da saleta de pasto dela desertaram, e a
Rua do Ouvidor cobriu-se com o véu da tristeza e anuviou-se pelo medo.

Mas a corajosa Perpétua deixou-se ficar em sua casa à espera…

À espera de que?… ela nem podia ter notícias do Tiradentes,
considerava como os seus companheiros do infortúnio em segredo nas
masmorras da ilha das Cobras.

E todavia ela esperou quase dois anos… esperou até abril de 1792.

A 19 deste mês, o Belo Senhor, que nunca a abandonara, embora Perpétua
desde que amara o Tiradentes só lhe permitisse inocentes relações,
foi triste anunciar-lhe a horrível sentença proferida pela alçada
no dia antecedente.

A pobre moça nem pôde chorar nos primeiros momentos, e convulsa
e como atônita, murmurou estupidamente:

– Eu lho disse: foi a perpétua roxa!…

– Que perpétua roxa?… perguntou o Belo Senhor a temer que a infeliz
moça começasse a delirar.

– Eu o sei… e ele o sabe: respondeu a amante do Tiradentes.

Horas depois Perpétua Mineira, que não pudera chorar, pálida
e abalada por estremecimentos nervosos, tornou-se muda e ficou de novo à
espera… ficou alerta.

Não se alimentou, nem dormiu, ficou à espera…

Às onze horas da noite de 20 de abril Perpétua Mineira ouviu
sinistro ruído de gente aliás silenciosa quê descia pela
Rua Direita, e saiu para ver o que era.

Todas as casas estavam fechadas.

Perpétua Mineira chegando à Rua Direita apoiou-se à
parede da quina da Rua do Ouvidor.

E viu… e ouviu…

Viu quase na sombra… viu mal distinto lúgrube préstito de
soldados e de presos, e ouviu o tinir das correntes…

Viu pelos ouvidos os soldados em sua marcha compassada e regular, e os presos
no gemer das cadeias…

Quando presos e soldados foram em fúnebre silêncio passando
diante dela, a mísera e exaltada mulher, adivinhando entre aqueles
o amante, que não podia distinguir na escuridão, disse alto,
bastante alto para ser ouvida, mas com voz pungente:

– Perpétua!…

As cadeias de um dos condenados retiniram, agitadas por forte tremor, aliás
apenas momentâneo.

O Tiradentes tinha reconhecido a voz de Perpétua.

No outro dia, 21 de abril, José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes,
subiu à história subindo à forca no campo do Rosário.

Quando o seu corpo caiu no patíbulo sob os pés do carrasco,
os repiques festivos dos sinos das igrejas e as aclamações oficiais
obrigadas abafaram profundíssimo gemido de dor, e a comoção
geral não deixou ver, ou o instinto generoso do povo escondeu o crime
de um corpo de mulher que tombara como sem vida.

Essa mulher, porém, não estava morta; levaram-na, ou ela tornou
a si, e pôde retirar-se… fugir…

A cidade obedeceu à imposição de manifestações
de festa e de exultação até as luminárias que
se apagaram às dez horas da noite.

Depois reinou na cidade silêncio sepulcral.

Pouco depois da meia-noite uma mulher alta e envolta em negra mantilha avançou
misteriosa pelo campo do Rosário até chegar à forca ainda
em pé.

O campo estava solitário, era profunda a escuridão… e na
escuridão a forca se escondia, como o remorso que se abisma no fundo
enegrecido do seio em torturas…

Chegada junto da forca, a mulher tirou das amplas e protetoras dobras de
sua mantilha uma lanterna furta-fogo e curvando-se, com os olhos abaixados
para o chão, pôs-se a andar em torno do patíbulo e como
a procurar algum objeto… sonhado…

A mísera sonhara achar… mas não achou uma – perpétua
roxa…

Achou… vestígios de sangue que a terra absorvera…; finalmente,
porém, achou… quase um trapo… um pedaço de lenço
branco e ensangüentado.

Perpétua, porque era ela, recolheu o pedaço de lenço
e, examinando-o à luz da lanterna, descobriu em um dos ângulos
as letras J.J.S.X. bordadas à seda…

Ela tinha bordado essas mesmas letras em um lenço do Tiradentes.

Perpétua Mineira beijou dez vezes o pedaço de lenço
ainda úmido de sangue, depois guardou-o no seio e sobre o coração.

Quase logo apagou a lanterna, largou-a no chão e pôs-se a caminhar
em retirada do campo do Rosário.

Mas então Perpétua Mineira vacilava em sua marcha, e sentia-se
extenuada de forças. É que ela não se alimentava nem
dormia desde 19 de abril, e já há uma hora tinha começado
o dia 22.

A saleta de pasto da Rua do Ouvidor não se tornou a abrir.

Desde a noite de 21 de abril Perpétua Mineira desaparecera e não
se soube o destino que levara.

Houve quem dissesse que se encontrara na estrada de Minas Gerais e junto
de poste, onde se deixara exposto um dos quartos do corpo de Tiradentes, o
cadáver de uma mulher.

CAPÍTULO 8

Como a Rua do Ouvidor ainda entra na história da conspiração
dos inconfidentes de Minas Gerais por curioso episódio que se refere
sob a denominação de episódio ou de tradição
da maçã, que, plenamente provada, seria preciosa luz histórica.
Conta-se a viagem da maçã que o Coronel Francisco de Paula Freire
de Andrade por triste e aborrido não quis comer, e mandou-a ao Vigário
Padre Toledo, que, ao saboreá-la, achou-lhe miolo muito melhor do que
poderia ter imaginado. Terminada a tradição da maçã,
diz-se enfim como o Belo Senhor teve de lembrar-se do conselho que Agostinho
Fuas lhe dera na Rua do Ouvidor, depois da segunda ceia na saleta do fundo
da taberna de Manoel Gago, e como escapando do degredo o Belo Senhor morreu
pobre e ignorado na cidade do Rio de Janeiro.

Referindo no capítulo antecedente a tradição de Perpétua
Mineira, declarei positivamente que eu a encontrara completada nos meus velhos
manuscritos, como estes, porém, não trazem nome de autor, nem
baseiam em documentos suas informações, é claro que só
me aproveitam para enfeitar estas Memórias; porque fora abuso condenável
expor-me a falsificar a história, dando por fatos averiguados alguns
devaneios de imaginação.

Podem severos críticos achar de mau gosto o meu repetido recurso aos
velhos manuscritos, mas hei de teimar nele: escrevo as Memórias da
Rua do Ouvidor; que em seu caráter de rua das modas, da elegância
e do luxo merece e deve ser adornada e adereçada condignamente.

Não vendo gato por lebre, desde que previamente declaro a origem e
a natureza das tradições, que vou contando a salvar sempre a
verdade histórica.

Este cavaco serve de preâmbulo a uma outra e bem curiosa tradição,
que pertence um pouco à Rua do Ouvidor; e que seria, na hipótese
de chegar por algum modo a averiguar-se, interessante episódio da história
da conspiração mineira, que ficou sendo chamada do Tiradentes.
É um episódio que eu chamarei da – maçã.

A tradição que passo ao conhecimento dos meus leitores não
é das tais dos velhos manuscritos: há sete ou oito anos passados
eu a ouvi (como diversas informações sobre alguns inconfidentes)
a um bondoso e inteligente fazendeiro de Minas Gerais, com o qual entretive
passageiras, mas saudosas, relações aqui no Rio de Janeiro.

O episódio me sorri, me agrada muito, porque vem apoiar o meu juízo
sobre os motivos determinantes da Carta Régia de comutação
da pena de morte em degredo para os verdadeiros e principais chefes da conspiração
mineira em 1789.

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