Obras Literárias

maio, 2017

  • 23 maio

    Marina

    Vinícius de Moraes Lembras-te das pescarias Nas pedras das Três-Marias Lembras-te, Marina? Na navalha dos mariscos Teus pés corriam ariscos Valente menina! Crescia na beira-luz O papo dos baiacus Que pescávamos E nas vagas matutinas Chupávamos tangerinas E vagávamos… Tinhas uns peitinhos duros E teus beicinhos escuros Flauteavam valsas Valsas …

  • 23 maio

    Mar

    Vinícius de Moraes Na melancolia de teus olhos Eu sinto a noite se inclinar E ouço as cantigas antigas Do mar. Nos frios espaços de teus braços Eu me perco em carícias de água E durmo escutando em vão O silêncio. E anseio em teu misterioso seio Na atonia das …

  • 23 maio

    Malditos

    Vinícius de Moraes (A aparição do poeta) Quantos somos, não sei… Somos um, talvez dois, três, talvez, quatro; cinco, talvez nada Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze terras Quantos, não sei… Só sei que somos muitos – o desespero da dízima infinita E …

  • 23 maio

    Lopes Quintas (a rua onde nasci)

    Vinícius de Moraes A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge E tem casas baixas que ficam me espionando de noite Quando a minha angústia passa olhando o alto… A minha rua tem avenidas escuras e feias De onde saem papéis velhos correndo com medo do …

  • 22 maio

    A Anunciação

    Vinícius de Moraes Virgem! filha minha De onde vens assim Tão suja de terra Cheirando a jasmim A saia com mancha De flor carmesim E os brincos da orelha Fazendo tlintlin? Minha mãe querida Venho do jardim Onde a olhar o céu Fui, adormeci. Quando despertei Cheirava a jasmim Que …

  • 22 maio

    Lenda da Maldição

    Vinícius de Moraes A noite viu a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras E pousou como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam. A criança era o príncipe-poeta que a música ardente fizera subir à última torre E a noite era a camponesa que …

  • 22 maio

    Legião dos Úrias

    Vinícius de Moraes Quando a meia-noite surge nas estradas vertiginosas das montanhas Uns após os outros, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos Passam os olhos brilhantes de rostos invisíveis na noite Que fixam o vento gelado sem estremecimento. São os prisioneiros da Lua. Às vezes, se a tempestade Apaga …

  • 22 maio

    Leão – Vinícius de Moraes

    Vinícius de Moraes Leão! Leão! Leão! Rugindo como um trovão Deu um pulo, e era uma vez Um cabritinho montês. Leão! Leão! Leão! És o rei da criação! Tua goela é uma fornalha Teu salto, uma labareda Tua garra, uma navalha Cortando a presa na queda. Leão longe, leão perto …

  • 22 maio

    Lápide de Sinhazinha Ferreira

    Vinícius de Moraes A vida sossega Lírios em repouso Adormecestes cega Na visão do esposo. A paixão é pouso Que a treva não nega A morte carrega E o sono dá gozo. Não vos vejo em paz Nem vos penso bem Na minha saudade. Sinto que vagais Ao lado de …

  • 22 maio

    Lamento Ouvido não sei Onde

    Vinícius de Moraes Minha mãe, toma cuidado Não zanga assim com meu pai Um dia ele vai-se embora E não volta nunca mais. O mau filho à casa torna Mãe… nem carece tornar Mas pai que larga a família Pra que desgraça não vai! Rio de Janeiro, 1938 Fonte: www.4shared.com