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Filomena Borges – Aluísio de Azevedo




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I – FLORES DE LARANJEIRA

O Borges não cabia em si de contente no dia de seu consórcio com a filha
de D. Clementina.

Estava a perder a cabeça – ia e vinha por toda a casa, radiante, cheio, abraçando
os convidados, forçando-os a participarem daquela felicidade que marcava a
melhor e a mais extraordinária época de sua vida.

Era homem de meia idade, quarenta a quarenta e cinco anos, robusto, socado,
fisionomia franca e extremamente bondoso, movimentos acanhados de quem não
convive em alta sociedade, e um perene sorriso de dentes puros e perfeitos.

Usava o bigode rapado e uma barbinha de orelha a orelha, por baixo do queixo,
o que o fazia parecer mais feio e mais velho. Nunca saía de suas calças de
brim mineiro, do seu invariável paletó de alpaca, dos seus sapatões de bezerro
e do seu chapéu do Chile. Um enorme guarda-chuva sempre debaixo do braço.

Todo ele estava a revelar a sua infância no campo, descalço, o corpo à vontade,
as madrugadas feitas de pé, ao primeiro sol.

Nascera em Paquetá, onde se criou à larga com leite de jumenta, e onde residiu
até à ocasião de perder o pai, um afamado e rico mestre de obras, português,
antigo, econômico e ríspido, que, ao morrer, lhe legou uma dúzia de prédios
bem edificados, alguns terrenos, que mais tarde valeriam muito, e o inestimável
hábito de ganhar a vida.

Borges sucedeu ao pai no trabalho, fez-se construtor como ele, e, em poucos
anos, tornou-se um dos proprietários mais ricos da Corte. Todavia, o muito
dinheiro, se não conseguiu fazer dele um extravagante, muito menos logrou
precipitá-lo no orgulho e na avareza – o coração do bom homem continuou tão
franqueado às virtudes, quanto sua bolsa fechada às loucuras e às vaidades.

Além desses dotes, tinha uma saúde de ferro e dispunha de urna força física
de tal ordem, que se tornou lendária entre as pessoas que o conheciam de perto.

Citavam anedotas a esse respeito: Um dia, estando a administrar umas obras,
escapara dos andaimes um dos pedreiros, e o Borges apanhou-o no ar, como quem
apanha um chapéu de palha; outra vez, tratando-se de safar um pobre diabo,
que ficara entalado entre uma andorinha e uma parede – o nosso Borges arranjou
um ponto de apoio, meteu os ombros contra a andorinha, e esta virou e caiu
imediatamente para o lado oposto. 1

E, como estes, muitos outros fatos, verdadeiros ou não, corriam de boca em
boca; a respeito do possante mestre de obras.

Verdade é que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles
pulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pescoço nervoso e duro,
para que a gente fizesse logo uma idéia justa do que seria capaz o Borges
em matéria de forca muscular.

Contudo, ninguém era menos amigo de questões. Nunca se metia em barulho;
às vezes até, coitado, suportava em silêncio certos desaforos: mas também,
quando lhe chegasse a mostarda ao nariz, o contendor podia entregar o seu
ao boticário, porque o esborrachamento havia de ser memorável.

Devido a essa pujança excepcional, davam-lhe a alcunha significativa de João
Touro.

João Touro era geralmente tido e havido pelo mais completo modelo de bondade
e de bom senso. Ninguém lhe fosse pedir manifestações brilhantes de talento,
concepções artísticas, descobertas científicas; ele, coitado! não era “homem
de estudos” e nunca também lhe “puxaram muito pela memória”. Aos doze anos,
saíra da aula de primeiras letras para se meter logo no trabalho; mas tinha
muito “bom pensar” e um tino admirável para os negócios. Seu único vício consistia
no rapézinho Paulo Cordeiro – nada de charutos! – nada de bebidas! – e grande
aversão às mulheres que não fossem tão puras como ele.

Antes do casamento, ninguém lhe conheceu uma inclinação amorosa, uma fraqueza;
e nunca ninguém lhe descobriu outra preocupação que não fosse a do seu trabalho
e a do seu “Urso”.

Urso vinha a ser um enorme cão de São Bernardo, que o acompanhava, havia
muitos anos. Animal bonito, todo negro, e de uma aparência tão feroz, que
lhe dava inteiro direito de usar do nome.

Todavia, o mestre de obras fora algumas vezes requestado pelas mulheres.
Várias trintonas lhe lançaram a rede, mas ele sempre se desviara – sorrindo…
e corando…

Entre essas, distinguia-se D. Chiquinha Perdigão, mulher de firma comercial;
negociante, muito rica, com um bonito nome na praça – Viúva Perdigão &
Cia.

O Borges, porém, não queria outros negócios com ela, além dos de puro interesse
pecuniário, e embalde o demônio da viúva empregava todos os meios para obrigá-lo
a desistir de tal resolução.

Uma vez, chegou a tomar-lhe as mãos, confessar que o amava, que só ele a
podia fazer feliz; e o bom homem, sem ter uma resposta, pôs-se a suar, a suar,
até que fugiu. atônito e espavorido, como se levasse uma fera atrás de si.

Só a filha de D. Clementina, a flor das moças do Catete, a bela Filomena,
teve o dom de acordar naquele coração encruado as fibras adormecidas do amor.

Ele próprio não atinara como “aquilo” se dera: Um dia, a convite de Guterres,
foi à casa de D. Clementina, viu a pequena, ouviu-a cantar ao piano um romance
de Tosti, e desde esse momento não ficou mais senhor de si.

E o amor, o desejo, a paixão, rebentaram-lhe por dentro, como um monstro
que se levanta, espedaçando a velha calma de quarenta anos.

Era a primeira vez que amava. O Borges, que até aí vivera para as suas propriedades
e para os seus prédios em construção, desde que viu Filomena, desde que concebeu
a idéia de possui-la, nunca mais pode compreender a existência sem a companhia
dessa formosa criatura, por quem logo se sentiu capaz de todos os sacrifícios.

Lamentava, contudo não ser mais novo; não dispor de mais atrativos, para
melhor merecê-la. Desejava ser mais fino, mais terno, mais civilizado; temia
assustá-la com a sua medonha figura de touro. Receava o contraste formidável
de sua grossa corpulência, do seu abdome redondo e farto, de suas mãos curtas
e vermelhas, de seus pés enormes, postos em confronto com aquele corpinho
tão delicado, tão bem feito, com aquela pele tão branca, com aqueles pézinhos
tão sutis.

– Oh! aquele casamento realizava o melhor sonho de sua vida! Ele queria-a
tanto!…

Os amigos ficaram pasmados quando tiveram notícia do fato:

– Que?!… – Pois o Borges, o “João Touro”, aquele pax vobis ia casar! e
logo com quem?… – com a filha de D. Clementina – a moça mais romântica e
mais cheia de fumaças que havia no mundo!… Oh! – O João Touro com certeza
não estava em seu juízo! – Ninguém lhe dizia que não casasse; mas, que diabo!
fosse buscar uma mulher mais própria para isso e não uma cabecinha de vento,
que só cuidava em patacoadas e maluquices!

O seu amigo mais íntimo e mais antigo, o Borroso, não se pode conter>
quando o Borges lhe falou nisso:

– Enlouqueceste, homem de Deus?! Não vês que vais fazer uma reverendíssima
asneira?! Não vês que aquilo não e mulher que te convenha?! Não desconfias,
pedaço d’asno, que aquela sirigaita e mais a raposa da mãe estão a farejar-te
os cobres?!… Não compreendes que elas te querem, porque tens para mais de
quinhentos contos?! Ora vai deitar um caustico na nuca?!

João Touro, porém, não estava em circunstâncias de pensar. Todo ele era pouco
para a sua paixão e, depois de uma conversa agitada com o Barroso, concluiu,
perdendo a paciência:

– Homem! queres saber de uma coisa?! Vocês podem rosnar como entenderem;
o que lhes afianço é que só a própria D. Filomena seria capaz de me fazer
desistir do casamento. Só ela! Entendes tu?! só ela!

– Bem, filho! respondeu o Barroso com o gesto de quem solta alguma coisa
das mãos. – Tua alma, tua palma! Assim o queres, assim o terás. – Ora essa!
Na certeza de que – para mim – se levares a cabo a tua doidice – perdeste
tudo!

– Pois que perca! É boa!

– E desde então não contes comigo para coisa alguma!

– Vai para o diabo! gritou-lhe o Borges, enterrando o chapéu na cabeça, e
saindo furioso.

* * *

Entretanto a Filomena custou bastante resolver-se a dar o “sim”.

Muito sonhadora, muito saturada de romantismo não se conformava com a idéia
de se ligar a um burguês ratão como o Borges.

Tinha lá o seu ideal, seu tipo e, só com muito sacrifício, desistiria da
esperança de encontrá-lo no mundo.

Sempre fora muito dessas coisas. Aos quinze anos, perdia noites a ler novelas,
várias vezes foi a mãe encontrá-la assentada no jardim, olhos no céu, a cismar,
a cismar, perdida nos seus devaneios.

Era então franzina, muito descorada, e tinha grandes pupilas negras de um
rebrilhar de tísica. Quase nunca expunha o colo, e seus vestidos, sempre afogados,
cosidos à garganta por um estreito colarinho de rendas, davam-lhe o ar passivo
e contrafeito de uma pensionista das irmãs de caridade.

Quando ria, o que era raro, mostrava dentes grandes, alinhados e extremamente
claros. De perto, bem examinada, notava-se-lhe no canto dos olhos, estalando
o pó de arroz, uma redezinha de pequenas rugas trêmulas, que se espalhavam
pelas fontes, até à entrança dos cabelos. Em torno das sobrancelhas, finas
e delgadas, nas mucosas das pálpebras, das orelhas, do nariz e da boca – um
tom arroxeado de umidade serosa e doentia. As pestanas, muito escuras e rama1hudas,
pareciam despregar e cair a cada movimento dos olhos.

Nas soirées fazia impressão vê-la assentada horas esquecidas a um canto da
sala; mito direita no seu espartilho, o corpo teso, os longos e vagarosos
braços cruzados sobre o ventre, os ombros empinados e contraídos, como por
uma sensação de medo, trazia sempre o cabelo com singeleza; quando não era
solto, apenas enrodilhado na nuca, acentuando o desenho puro de sua cabecinha
e deixando lobrigar parte do pescoço, que já então principiava a ser belo
na sua cor de camélia fanada.

Perdera o pai por essa idade, e sua mãe D. Clementina de Araújo, uma senhora
magra e comida de desgosto, impacientava-se silenciosamente por ver casada
“aquela filha que Deus lhe dera”.

Era essa toda a sua preocupação e também toda a sua esperança: – “Só um bom
casamento as salvaria da triste situação em que se achavam”.

O chefe da casa – o defunto conselheiro – não fora homem previdente, e gastara-se
quase todo em procurar luzir; os bens, que sobejaram da política, caíram na
voragem do jogo e das confeitarias. Ainda assim, durante a vida, nunca lhe
perceberam sombra de dificuldades, nem houve jamais quem melhor soubesse guardar
as conveniências de sua posição social. Os chás do defunto conselheiro eram
deliciosos.

Quando uma apoplexia veio chamá-lo para a cova, os amigos tiveram que se
cotizar para o fim de lhe pagarem as dívidas, a viúva teve que trabalhar para
manter decentemente a filha – essa pobre filha, que da existência apenas conhecia
alguns noturnos ao piano e alguns romances traduzidos do francês; essa filha,
que crescera à luz do gás, dançando desde os quatro anos, e arruinando o estômago
com os mesmos doces que arruinaram a fortuna do pai.

Trabalhar! Trabalhar seria o menos; esconder a precisão do trabalho é que
era mais difícil! Felizmente, o prédio em que moravam pertencia à órfã, e
o imperador, que fora amigo do defunto – amigo e compadre – havia de ajudá-la.

Assim foi: Sua Majestade não negou o seu augusto auxílio à comadre, e esta,
por sua vez, tratou de alugar q prédio e refugiar-se com a filha em uma casa
mais em conta.

– Não seria, porém, metidas entre quatro paredes, que a menina arranjaria
um bom casamento! – Era preciso aparecer! – Mas os bailes, os teatros, os
passeios, custavam tanto! – As modistas e os armarinhos “pediam os olhos da
cara por qualquer trapo mais no tom!”

Todavia, não desertaram da boa sociedade.

Mas quanto sacrifício! Quanta luta! Quanto heroísmo ignorado! Que de lágrimas
não havia escondidas naqueles vestidos enfeitados pela quarta vez! Quanta
amargura naqueles penteados, naquelas capas, naqueles chapéus! Quanto sofrimento,
quanta resignação naqueles leques, naqueles sapatinhos e naqueles sorrisos
de amabilidade?

As vezes, tinham ambas que passar pior de boca, para não faltarem ao baile
do Sr. Conde de tal ou à soirée do Sr. Barão de tal e tal. Uma verdadeira
campanha, um verdadeiro martírio, principalmente para a rapariga, que, em
constante revolta com a realidade, estava sempre a sonhar coisas extraordinárias
e regalias de alto preço.

A longa peregrinação pelas salas e pelas ruas dera-lhes um grande tato, uma
grande experiência. Conheciam a gente à primeira vista. Mãe e filha entravam
já familiarmente pelas almas dos indivíduos e iam devassando o que lá estava
por dentro, como se bisbilhotassem uma gaveta franqueada.

Para a velha, então, não havia coração, por mais fechado, que se não traísse.
Embalde procuravam outros, em idênticas circunstâncias, dissimular a falta
de certos recursos; embalde se endomingavam caixeiros pobres, literatos necessitados,
doutores sem meios de vida, procurando iludir, aparentar grandezas: – era
bastante que D. Clementina corresse por qualquer deles uma olhadela de alto
a baixo, para ficar sabendo quanto o sujeito pesava ao certo – quanto ganhava,
quanto possuía, que lugar, enfim, devia ocupar na bitola de sua consideração.

Porque, é preciso notar, a viúva do conselheiro tinha já uma bitola para
aferir os pretendentes da filha. Essa bitola marcava desde o marido “ótimo”
até ao marido “péssimo”. Quando a velha se referia a algum deles dizia secamente
“regular” ou “bom”, “sofrível para bom”, etc. E essas simples palavras, ditas
à socapa, determinavam as maneiras que Filomena devia usar para com o tal
sujeito, se este se apresentasse.

O fato é que muita gente a cortejava. D. Clementina de vez em quando abria
a casa aos seus amigos.

Que talento desenvolvido nesses modestos chás de família! Nada deixava perceber
o mecanismo posto em ação para que não viesse a faltar coisa alguma no melhor
da festa. Havia sempre piano, canto, recitativos, e às vezes dança, muita
dança.

Mas tudo isso era por conta, peso e medida. Não se gastava um fósforo que
não estivesse inventariado. Acabada a festa, procedia-se a um balanço minucioso;
guardava-se com todo o cuidado o que pudesse servir para outra vez, e, antes
de se deitarem, as duas senhoras arrumavam tudo, escovavam as roupas, acondicionavam
as botinas, os leques e as jóias falsas.

Filomena lançava-se depois aos travesseiros, devorada por um estranho desgosto
da vida, por uma vaga necessidade de horizontes largos, um desejar pungente
de coisas imprevistas e grandes, uma sede indefinida de empresas arriscadas
e situações transcendentes, que sua louca imaginação mal podia delinear.

E chorava muito aflitivamente, sem saber porque. No outro dia, eram suspiros
e mais suspiros, queixas, tristezas, e um fastio e um tédio de causarem dó.

A mãe caía-lhe em cima, a ralhar, a aconselhar. “Filomena que se deixasse
de bobagens, que os tempos não davam para isso!” E dizia-lhe tintim por tintim
o que lhe convinha praticar, como devia proceder. Ensinava-lhe os segredinhos
de agradar a todos, de prender, de “prometer sem dar, de negar, sem desistir”.

– Agüenta-te, minha filha’ Agüenta-te como vais, e um belo dia, quando menos
o esperares, cai-te do céu um noivo “dos bons”, que nos indenizará de todos
estes sacrifícios.

O belo dia chegou com efeito, e o Borges caiu.

– Hem? que te dizia eu?… perguntou a velha, abraçando-se à filha, com as
lágrimas nos olhos. – Chegou ou não chegou a tua vez?

Filomena abaixou o rosto e fez um gesto de descontentamento.

– Ora, deixa-te dessas coisas, minha filha! Observou mãe, apanhando no ar
a intenção daquele desgosto. Quem dera a muitas a tua fortuna!

A outra soltou um grande suspiro.

– Que mais querias tu, então?!… volveu D. Clementina entre meiga e repreensiva.
– Quem sabe se preferias por algum bonifrates, que nos viesse atrapalhar ainda
mais capítulo? …

A filha emplumou-se com altivez, franziu o nariz, e estalou um muxoxo desdenhoso.

– Então?! prosseguiu a viúva do conselheiro. – Borges não é de certo nenhum
Adónis; mas é um marido que vale quanto pesa!

E engrossando a voz, respeitosamente:

– Muito benquisto, muito bem relacionado… não é nenhum pé de boi. tem sua
educaçãozinha… e, olha, filha que aquilo tudo é sólido!

– Ora, faça-me o favor! … disse a rapariga, impacientado-se – sólido será,
mas não me venha dizer, que o Borges tem educação!… É um bruto! É mesmo
um “João Touro”!

– Não é tanto assim, menina!

– E o que fez ele outro dia aqui em casa?! Aquilo é quem tem educação?! Um
homem que come com a faca! Ora minha mãe!…

_ De acordo de acordo, mas tu também deves fechar olhos a umas certas coisas,
oh!… Os bons maridos fazem-se, preparam-se – os diamantes não se encontram
já lapidados! E, então, aquele, coitado! que a gente o leva para onde quer…
Ali, é teres um pouco de paciência e o porás a teu jeito!

– Não acredito que daquele lorpa se possa fazer alguma coisa! retrucou a
menina com desdém.

– Parece-te agora, verás depois que é justamente o contrário!… Em questões
de casamento, minha filha, as aparências quase sempre enganam muito! Em geral
os maridos que nos parecem mais fáceis de tragar, são justamente os ma amargos;
ao passo que os outros, os tipos, os “Borges”, esses são os bons, os doces!
Cá por mim, nunca aconselharia mulher alguma a unir-se a um homem, que julgasse
o seu espírito superior ao dela. Nada! Para haver perfeito equilíbrio num
casal, é sempre indispensável que o marido conheça alguma superioridade na
mulher; seja essa superioridade de fortuna, de inteligência, de educação ou
mesmo de forca física. Desgraçada da tola que não pense sobre isso antes do
casamento – não será uma esposa, será uma escrava!

E D. Clementina, depois de dar uma pequena volta na sala terminou, batendo
com ternura no ombro da filha: – Não te queixes da sorte, ingrata! O que no
Borges agora se te afigura defeitos, são justamente qualidades muito aproveitáveis!
Não avalias o tesouro que ali está! Digo-te com experiência! E, se duvidas,
deixa correr o tempo, e dir-me-ás depois!

* * *

Filomena não se decidiu logo; porém, daí a poucos dias, a morte inesperada
da mãe obrigou-a a tomar uma deliberação. Seis meses depois, voltava ela de
uma igreja, casada com o Borges.

Seguiram logo para Botafogo, onde iam morar, segundo exigira a noiva. João
Touro não poupara esforços para festejar o seu casamento, e, como sujeito
considerado, que era, conseguiu reunir uma sociedade bem escolhida. Só o Barroso
não quis comparecer: – tinha lá a sua opinião sobre o fato e não havia quem
o demovesse daí.

Os convivas, não obstante, estavam todos de acordo em que o Borges não poderia
encontrar mulher mais formosa e mais simpática.

Filomena, com efeito, apesar dos dissabores, já não lembrava aquela rapariga
seca e descorada de outros tempos. Toda ela se carneara: a pele, atufada pela
gordura, estendeu-se numa transparência macia e provocadora: o colo abriu-se
em deliciosas curvas; a garganta enformou-se completamente; os braços encheram-se;
os quadris ampliaram-se; a voz acentuou-se, e os olhos amorteceram com os
cruentos mistérios da puberdade.

– E que ar de inocência! comentavam em voz baixa, a contemplá-la no seu rico
vestido de chamalote branco – que candura!…

– Não! dizia o Borges, que estava perto. – Não! nisso não tenho que invejar
ninguém! – fui feliz!…

E esfregando as mãos:

– Fui muito feliz! A respeito de gênio, não há outra: dócil, meiga, modesta,
incapaz de uma exigência, de uma recriminação! Nunca lhe vi o narizinho torcido,
nunca lhe ouvi uma palavra mais áspera, um arremesso, uma impertinência! Sempre
aquele mesmo sorriso de bondade, aquele mesmo arzinho de santa! É um anjo!
É uma pomba de doçura a minha Filoca! a minha rica Fíloquínha!

E o Borges, sem poder conter os ímpetos da felicidade, andava de um lado
para outro, a contar os segundos, dando repetidas palmadinhas na barriga.

A casa tinha dois andares. Estava combinado que, à meia-noite, os noivos
fugiriam para o de cima, enquanto no primeiro a festa continuaria, até entrar
pela madrugada. Mal os ponteiros do relógio se reuniram nas doze horas, o
Borges, impaciente, aproximou-se da esposa e, com a voz trêmula, o olhar suplicante
e o hálito em brasa, disse-lhe ao ouvido:

– Podemos fugir… São horas… não acha?…

Ela ergueu os olhos e sorriu; depois levantou-se, deu-lhe o braço, e ambos
desapareceram pelos fundos da sala de jantar. A madrinha já estava à espera
da noiva, para a cerimonia do despojamento das roupas.

Mas o Borges, quando atravessava a sala contígua à alcova nupcial, ficou
muito surpreendido com a mudança brusca, que acabava de se operar na desposada.
O tal arzinho de santa fora substituído por uma expressão dura de má vontade.
E a surpresa de João Touro aumentou ainda na ocasião em que, tentando segurar
Filomena pela cintura para dar-lhe o primeiro beijo, ouviu-lhe dizer com um
repelão enérgico: – Deixe-se disso, homem!

E ainda aumentou quando, depois que a madrinha a deixou só no quarto, ele
– o noivo – querendo também recolher-se, levou com a porta no nariz, e ouviu
ranger um ferrolho que a fechava por dentro.

– Ora esta! resmungou o Borges, sem saber que fizesse…

E bateu, a princípio devagarinho, depois mais forte, mais forte ainda. Só
resolveu abandonar o posto, quando Filomena lhe gritou da cama:

– Com efeito! O senhor não tenciona acabar com isso?! Vá dormir, e deixe-se
de imprudências! Se espera que eu lhe abra a porta, perde o seu tempo. Boa
noite!

– Bonito! disse o pobre noivo, cruzando os braços.

II – O FERROLHO

O Borges passou toda a noite na tal saleta contígua à alcova da mulher, estirado
num divã, a ouvir o coaxar insuportável de um velho relógio suspenso na parede,
justamente sobre sua cabeça.

Que noite, coitado! Que terrível situação para um pobre homem que, durante
os seus calmos quarenta anos, nunca passou uma noite fora de sua cama,. nunca
dormiu menos de sete horas, deitando-se invariavelmente às onze e acordando
às seis.

Ele! Ele, que nunca entrara numa pândega, passar uma noite inteira enfronhado
em calças pretas, camisa bordada e gravata branca!

E o pior é que o infeliz, no cego empenho de parecer agradável aquela noite
à esposa, metera-se num banho de perfumes, e sentia por todo o corpo, atabafado
na roupa preta, uma comichão desenfreada.

Pobre noivo! Quanto não sofreste essa noite!

O Borges, mesmo no tempo de rapaz, fora o protótipo da ordem, do arranjo
e do método. Gostou sempre das coisas no seu lugar – o almoço às tantas, o
jantar às tantas, o seu chá com torradas antes de dormir – e nada de se afastar
desse regime.

Não podia compreender como houvesse no mundo quem, por gosto, perdesse as
horas sagradas do sono, vergado sobre uma banca de jogo, a beber numa taverna,
ou a fumar em companhia de mulheres.

Santo homem! uma simples palavra mais decotada era bastante para fazer refluir-lhe
às faces o mais pronto e legítimo rubor. Por isso, alguns amigos lhe faziam
troça, às vezes; mas, no fundo, todos o respeitavam, todos o amavam. Sabiam
já que daquela boca cor de rosa, os dentes imaculados, daquela boca sem vícios,
não sairiam a calúnia ou a intriga. Tinham certeza que daquele coração, virgem
de paixões, não poderiam brotar o ódio, a inveja e a perversidade.

Conheciam, por longa experiência, a sinceridade daqueles olhos doces e compassivos,
que muita vez se umedeceram com as desgraças alheias, e que, aos domingos,
nos espetáculos da tarde, iam chorar três horas ao S. Pedro de Alcântara,
defronte de um dramalhão de D’Ennery.

Pobre homem! Foi preciso que te casasses para passares mal a tua primeira
noite! Tu! que vias no casamento “a última expressão da paz e da estabilidade”.
Tu! que procuravas no matrimonio “o sossego completo, a dignidade do teu lar
e o cumprimento de teus deveres de homem com a sociedade e para com a natureza”!
Oh! como não te devias sentir indignado!

Não estava, porém, no seu gênio o revoltar-se. – Não gostava de contendas
– não queria estrear por uma desavença a sua vida de casado.

Além disso, amava-a tanto! — adorava-a de tal forma, que se sentia perfeitamente
incapaz de reagir.

– Não fez aquilo com má intenção! … pensou ele. – Foi talvez por pudor,
coitada! ou, quem sabe? talvez tivesse medo desta minha figura!

– É isso! com certeza não foi outra coisa! — concluiu de si para si, a
coçar-se, quando a aurora já lhe invadia a sala pelos vidros da janela.

E foi nas pontas dos pés acordar um criado.

– Arranja-me um banho morno quanto antes! gritou – e vê se descobres por
aí alguma roupa, aquilo lá por cima está ainda tudo fechado! Olha! vê também
se me dás café e algumas bolachinhas; estou a cair de fraqueza!

O criado. tonto de sono, porque o baile havia acabado pouco antes, ergueu-se
a roncar, resmungando, muito intrigado por ver o amo já tão cedo às voltas
com ele e, o que era mais ainda, com a roupa da véspera e a dar ordens com
uma tal impertinência, que não parecia o mesmo.

– Já vai! Já vai! respondeu, ouvindo novas reclamações do Borges. E pôs-se
em movimento, a parafusar no que diabo teria sucedido ao amo, para andar tão
cedo à procura de banhos mornos, de roupas e cafés com bolachinhas! – Aquilo
foi grande espalhafato lá por cima! resolveu ele, tratando de executar as
ordens. Ora, queira Deus que este casamento ainda não lhe venha a dar na cabeça!
… Eu nunca achei grande coisa a tal senhora D. Filomena! Pode ser que me
engane… mas aquela boneca de engonços há de dar água pela barba ao patrão!

Daí a pouco o Borges, já restaurado, metido numa fatiota de brim branco,
a barbinha feita, o seu farto cabelo bem penteado, lia o Jornal do Comércio,
no salão do segundo andar, à espera de que a mulher se levantasse.

Quando Filomena, às dez horas da manhã, saiu do quarto para o salão, encontrou-o
repímpado na cadeira de balanço, dormindo de papo para o ar, a boca aberta,
a barriga espipando por dentro do colete e do rodaque de brim, os braços soltos,
e numa das mãos o jornal.

Schocking! exclamou ela, arrevezando um olhar de nojo.

O marido bocejou, despertado por aquela exclamação. E, ao dar com a mulher,
endireitou-se atrapalhadamente, contendo os bocejos, as carnes a tremerem-lhe
e os olhos sumidos na rápida congestão do estremunhamento.

Ela vinha formosa a mais não ser. O sono completo dera-lhe às feições a olímpica
serenidade das Vênus antigas. Trazia a rastros um longo penteador de linho
bordado; o cabelo preso ao alto da cabeça, como dantes, mas agora enriquecido,
à moda japonesa, por um gancho encastoado de pedras preciosas. Em volta do
mármore sem brilho de seu pescoço, reluziam pérolas e toda ela respirava um
cheiro bom de saúde e de asseio.

– Como passou? disse, aproximando-se do marido e estendendo-lhe a mão.

Borges adiantou-se cerimoniosamente para cumprimentá-la. Um acanhamento espesso
tolheu-o dos pés à cabeça. Quis responder e apenas gaguejou algumas palavras
sem sentido. Naquele instante lhe passava pela idéia o receio de que a mulher
desconfiasse do ressentimento, que porventura nele tivesse produzido o fato
da véspera. – Como chegara a imaginar, pensou num relance – que aquela mulher,
tão delicada e tão altiva, consentisse em recebê-lo ao seu lado, na sua cama,
logo na primeira noite do casamento! – Onde tinha ele a cabeça para esperar
semelhante coisa?!

Filomena, como se adivinhasse o pensamento do marido, expediu-lhe generosamente
um sorriso de indulgência e disse-lhe, devagar, enfiando o seu braço no dele:

– O senhor seria muito amável se quisesse fazer-me companhia ao almoço…

E vendo um gesto de surpresa no Borges. – Isto significa que desejo almoçar
aqui, no segundo andar, sozinha com o senhor, sem a presença de estranhos,
nem mesmo a dos criados – um verdadeiro tête-a-téte… Não acha boa a idéia?

– Oh!… se acho!… Eu não ousava ambicionar tanto!… Sim, quero dizer…
eu…

– Pois então tenha a bondade de dar as providências para isso. Quanto às
nossas visitas de hoje – só me pilharão ao jantar.

E no fim de uma pausa, tocando-lhe no ombro:

– Então! Vá! Mexa-se!

O Borges, encolheu a cabeça e precipitou-se de carreira para o primeiro andar.

* * *

Só se tornaram a ver à mesa do almoço.

– É bom que esteja tudo à mão para não termos de chamar pelos criados, observou
ela, acomodando-se na sua cadeira, defronte uma pilha de ostras cruas.

E desdobrando o guardanapo sobre o peito:

– É uma providência dispormos deste segundo andar; fica-se aqui perfeitamente
à vontade. É tão desagradável mostrar-se a gente a visitas logo pela manhã,
depois de um casamento!

O Borges sorriu. É desagradável… é! disse ele corando levemente.

– É brutal! emendou Filomena, passando o copo de vidro, para que o marido
lhe servisse o Sauterne que tinha ao lado.

E depois de beber:

– Não compreendo como ainda se conservam na sociedade moderna certos costumes
verdadeiramente bárbaros. As cerimônias do casamento estão nesse caso. Nada
há mais grotesco, mais ridículo, do que essa espécie de festim pagão em que
se celebra o sacrifício de uma virgem. Horroriza-me, faz-me nojo, toda essa
formalidade que usamos no casamento – a exposição do leito nupcial, os clássicos
conselhos da madrinha, o ato formalista de despir a noiva, e, no dia seguinte,
os comentários, as costumadas pilhérias dos parentes e dos amigos… Oh! é
indecente! Mas agora reparo: o senhor não come!…

De fato, enquanto Filomena falava, o marido era todo olhos sobre ela, não
se fartava de contemplar aquele adorável busto que tinha defronte de si. Causavam-lhe
estranhos arrepios o modo desembaraçado, a graça natural, com que a mulher
prendia uma ostra na pontinha dos dedos cor de rosa para levá-la à boca, numa
riqueza de braços arremangados, onde tilintavam dois portebonheurs de metal
branco.

– Ao menos beba! replicou ela, vendo que o Borges não se resolvia a comer.

E encheu-lhe o copo.

O pobre homem teve acanhamento de confessar que nunca toda a sua vida, bebera
o mais pequeno trago de vinho.

– Então… fez a mulher. – Vamos! E tocando o seu copo no dele: – Ao nosso
casamento!

Borges emborcou o seu de um fôlego, com uma careta.

Filomena não se pôde conter, e soltou uma dessas risadas retumbantes, que
chegam para encher toda uma casa. Aquele ar esquerdo do mestre de obras, engasgado,
roxo de tosse, fazia-lhe cócegas pelo corpo inteiro. E ela ria, ria, ria,
sem se dominar, cobrindo o rosto com as mãos,. torcendo-se como uma cobra,
enquanto o Borges, muito enfiado, procurava posições na cadeira, ardendo por
sair daquela situação que o torturava.

– Coma sempre alguma coisa! disse-lhe por fim a esposa, fazendo inúteis esforços
para reprimir a hilaridade – olhe que não é cedo!… uma hora, creio eu.

– Obrigado! Não tenho apetite… respondeu ele, cada vez mais confuso, a
limpar o suor que já lhe sobrevinha ao rosto.

Ela continuava a rir.

– Há de ser porque passei mal a noite… acrescentou o Borges. Não preguei
olho!… Isto para quem nunca saiu de seus hábitos…

– Mas, meu amigo, acudiu Filomena, solicitamente, tornando-se séria – para
que faz o senhor loucuras dessa ordem? Isso pode causar-lhe mal!… Lembre-se
de que já não tem vinte anos, e a sua saúde, na sua idade, é coisa muito preciosa!

O Borges desta vez perdeu de todo o bom humor. Ou fosse por efeito do vinho,
que ele bebia pela primeira vez, ou fosse que as palavras da mulher o irritassem
deveras, o caso é que fechou o rosto e respondeu quase com azedume:

– Eu não perdi a noite pelo gostinho de a passar em claro! Não foi minha
a culpa!…

– De quem foi, nesse caso?… indagou Filomena, já com o riso a espiar pelos
cantos da boca.

– Ora, minha senhora!…

– Quer dizer que foi minha?!

– A senhora bem o sabe…

– Perdão, meu amigo, convém que nos entendamos! O senhor terá bastante bom
senso para compreender o que lhe digo: ouça…

– Tenho até para mais… apartou o Borges, encavacado.

– Tenho para compreender o papel ridículo que a senhora quer me fazer representar!…

– Ridículo? Por quê?!

– Por quê?! Porque eu não tinha a menor necessidade de passar a noite no
sofá e ainda por cima servir de galhofa! Ora aí tem porque?

– Mas que queria o senhor que eu lhe fizesse?!…

– Ora, minha senhora! Por amor de Deus!

– Pois acha que devo ter plena confiança em um homem que mal conheço?! Um
homem, que eu não sei se me ama, ou que, pelo menos, ainda não me deu provas
disso?!…

– Não dei provas! exclamou Borges ofendendo-se. – Não dei provas!… Homessa!…
Quer então uma prova superior ao casamento!… Então o fato de me fazer seu
esposo, não vale nada?!

– Vale tanto como o de fazer-me eu sua esposa. Foi uma permuta, uma troca.
E por ora é só o que há – estamos quites – nem o senhor por enquanto tem direitos
adquiridos, nem eu! Salvo se entende que o noivo vale muito mais que a noiva!…

– Eu não entendo nada! respondeu ele, triste; – sei apenas que me casei com
a senhora porque a estimo muito…

E baixando a voz, ainda com mais amargura: – A senhora, sim! é que nunca
me teve afeição, e principio a duvidar que isso venha a suceder algum dia…

– Depende unicamente do senhor, meu amigo!… retrucou Filomena.

Agora parecia comovida. Estava muito séria; o olhar ferrado no prato.

Houve um silêncio. Ela, afinal, continuou a falar, imóvel, sem descravar
os olhos donde estavam, e a bater compassos na mesa com a faca.

– O coração de uma mulher nas minhas condições, disse, medindo as palavras
e recitando, como se tivesse os períodos decorados – não é coisa que se conquiste
assim com um simples casamento: não haveria nada melhor! O senhor, se quer
ter a minha confiança plena, a minha dedicação, a minha ternura, faça por
merecê-las… Não será de certo com esses modos e com essa cara fechada, que
conseguirá abrir-me o coração! Eu, até, se soubesse que o senhor havia de
se portar desta forma, não o teria convidado para almoçar em minha companhia…
O senhor fala de farto!… Em vez de agradecer à sua boa estrela a bela ocasião
que lhe faculto para principiar a conquistar-me, põe-se nesse estado e parece
disposto a incompatibilizar-se comigo por uma vez!

Borges ouviu tudo isso, vergado na cadeira, sem um movimento, os olhos corridos,
o rosto anuviado por uma funda expressão de mágoa resignada. Quando a mulher
terminou, ele estendeu-lhe um olhar de súplica e tentou agarrar-lhe as pontas
dos dedos.

Filomena retirou a mão com um movimento rápido, e voltou-se para o outro
lado, dando as costas ao marido. Este arrastou-se com a cadeira para junto
da esposa, e, em segredo, a voz medrosa e submissa, perguntou-lhe o que então
queria que lhe fizesse?…

– Tudo! respondeu Filomena na mesma posição, a sacudir uma perna, que havia
dobrado sobre a outra.

– Mas tudo, como?… perguntou Borges, tentando acarinhá-la.

Ela ergueu-se, demovendo o corpo, e acrescentou, encarando-o:

– Ouça! – Por ora, meu amigo, pertenço-lhe de direito, porque nos casamos,
e isso tornava-se inevitável na situação em que o senhor me achou; mas declaro-lhe
abertamente que só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor tiver conquistado
o meu amor à custa de dedicação e de perseverança! Só lhe pertencerei de fato
no dia em que o senhor se houver cabalmente habilitado para isso! Compreende,
agora?…

O marido deixou cair a cabeça e ficou a pensar, enquanto a mulher atravessava
o gabinete, depois ~ saleta, e fora assentar-se no divã do salão. No fim de
cinco minutos, Borges levantou-se resolutamente e foi ter com ela:

– De sorte que a senhora tenciona continuar com a porta do seu quarto fechada,
até que eu…

– A porta e o coração, acudiu Filomena – até que o senhor os consiga abrir
com os seus desvelos!

– Quer então que lhe faça a corte?…

– De certo.

– Pois tomo a liberdade de declarar a V. Ex. que foi justamente por não ter
jeito para essas coisas ~ que me casei! Se eu tivesse gênio para atirar-me
aos pés de uma mulher e fazer-lhe a minha declaração com palavreados de romance,
se eu tivesse queda para galante, não procuraria uma esposa, bastava-me ter
uma…

Filomena não lhe deu tempo de concluir a frase. Ergueu-se num só movimento,
e, depois de medi-lo de alto a baixo com um olhar de rainha ofendida, afastou-se
lentamente em silencio, os passos firmes, a cabeça altiva.

Borges correu logo atrás dela e segurou-lhe uma das mãos.

– Solte-me! exclamou Filomena, arrecadando o braço.

E fugiu para a saleta, atirou-se sobre o divã em que o marido passara a noite,
e aí rompeu a soluçar com um frenesi histérico.

Borges ajoelhou-se-lhe aos pés e cobriu-lhe as mãos de beijos e de lágrimas.

– Não leves a mal aquilo, minha santa! Desculpa, exclamou ele, escondendo
o rosto no colo da esposa. Reconheço que não fui muito delicado excedi-me,
mas não sei onde tenho a cabeça – não estou em mim! É que me pões doido com
tuas palavras! Oh! mas não fiques zangada, não chores; tudo aquilo prova justamente
o bem que eu te quero, minha vida, minha mulherzinha do coração!

Filomena não respondia e continuava a chorar, toda prostrada no divã: a cabeça
vergada para trás, o rosto encoberto por um lenço de rendas, que ela segurava
em uma das mãos, ao passo que abandonava a outra aos beijos apaixonados do
marido. Agora os soluços eram espaçados e mais secos, como os últimos rumores
de uma tempestade que acalma.

De repente, ergueu-se. Fitou por instantes o marido, que jazia a seus pés
ajoelhado, a encará-la lacrimoso e súplice; depois estendeu os braços, deu-lhe
um empurrão e fugiu para o seu quarto, fechando-se logo por dentro, violentamente.

O Borges ficou meio assentado e meio deitado no chão, amparando-se às mãos
e aos pés.

– E esta – balbuciou ele dai a pouco, erguendo-se de mau humor. É gira ou
não é gira?…

E pôs-se a percorrer todo o pavimento, rondando o quarto fechado da mulher,
como um gato que fareja o guarda-petiscos… No fim de uma hora de exercício,
indo e revindo incessantemente, de lá, para cá, as mãos nas algibeiras das
calças, o olhar cravado na esteirinha do soalho, Borges estacou no meio do
salão:

É de mais! pensou ele. – É para um homem perder a cabeça!

E atirou-se prostrado à cadeira de balanço, passando uma revista mental a
todas as contrariedades e decepções que o afligiam desde a véspera.

– Ora aí estava para que se tinha casado!… Passar por tudo aquilo!… Ele!
Ele, que em sua longa vida de solteiro nunca amargara uma noite tão má e um
dia tão levado da breca! – Quem te mandou, João Borges, meter em camisa de
onze varas?… Maldito fosse o Guterres, que o levou à casa da defunta Clementina!
Antes tivessem ambos quebrado as pernas nessa ocasião! Maldito Guterres!

E, acabrunhado por esses raciocínios, sentindo perfeitamente que não tinha
forças para arrancar de si a paixão enorme que lhe inspirava a esposa, levantou-se
de novo, foi e veio por todo o segundo andar, suspirando e tossindo todas
às vezes que passava defronte da porta de Filomena. Afinal, no fim de outra
hora de passeio, convencido de que a mulher não aparecia, desceu ao primeiro
pavimento.

Os amigos já lá estavam para o jantar. Guterres foi o primeiro que correu
ao seu encontro, abrindo-lhe os braços.

E, discretamente, enquanto o estreitava: – Você está abatido, seu maganão!

Borges sorriu, protestando vagamente:

– Uma enxaqueca!… Uma pequena enxaqueca!…

– E sua senhora?… perguntou um dos amigos.

– Vem já, vem já… Ela, também, coitadinha!… não passou lá para que digamos!…

– Outra enxaqueca?…

– Naturalmente! Considerou um terceiro a rir.

– Ah! estes noivos! estes noivos!… volveu o Guterres a bater no ombro do
Borges. – Não precisa fazer-se vermelho, que diabo! Já sei o que isso é, meu
amigo, já passei duas vezes por esses transes!…

O Borges teve um novo sorriso, ainda mais amarelo que o primeiro, e foi continuando
a receber os parabéns dos outros convidados, cujas pilhérias, cujas pequenas
frases de sentido dúbio e malicioso, ditas aliás com a intenção de lisonjeá-lo,
mais a mais o indispunham e frenesiavam.

III – COMEÇAM AS PROVAÇÕES

O jantar correu melhor do que se podia esperar; Filomena mostrou-se muito
amável às suas visitas e, sem se dar mais a uma do que a outra, sempre risonha,
afável e cheia de espírito, dividindo-se por todas elas a um só tempo, mostrou
quanto era profunda na complicada ciência de agradar em casa, na mesma ocasião,
muita gente reunida.

Fez-se música; houve canto e conversou-se a valer.

Ao retirarem-se às dez e meia, iam todos penhorados pela dona da casa e plenamente
convencidos de que não havia no mundo inteiro um marido mais feliz do que
João Touro.

O que, entretanto, não obstou que o pobre homem três dias depois caísse numa
melancolia taciturna e pesada, que lhe tirava o gosto para tudo, até para
o trabalho. Emagrecia a olho visto, e com as suas gorduras fugiam-lhe as belas
cores do rosto e escapava-lhe dos lábios aquele calmo sorriso de felicidade,
seu bom companheiro de tantos anos.

É que a portinha do quarto da esposa continuava fechada por dentro.

– Aquilo não era mulher para o Borges! murmuravam os maldizentes, ao vê-lo
tão puxado e abatido.

– Olhe que ela o tem derreado! considerava outro.

E a verdade é que o infeliz estava apaixonado e apaixonado deveras. Para
fazer as pazes (restritas, bem entendido> com a mulher, depois do primeiro
arrufo do almoço, teve que lançar mão de todos os recursos da humildade e
da súplica.

– Procure ser-me agradável! aconselhou Filomena, e o senhor obterá de mim
tudo quanto quiser!…

– Mas em que lhe posso ser agradável, minha querida… A senhora bem vê que
faço para isso tudo que está nas minhas mãos!…

– Talvez assim lhe pareça, mas juro-lhe que o não é! Por exemplo – por que
razão não se resolve desde já o meu caro esposo a abandonar esse hábito insuportável
de rape… hábito, que, só por si. é quanto basta para o incompatibilizar
comigo?

Borges corou e prometeu nunca mais tomar rapé: – Não fosse essa a razão!…

– Aí tem já o senhor por onde principiar: – Eu tanto abomino o vil e baixo
rapé, quanto gosto do aristocrático perfume do charuto. Experimente fumar
um! Eu mesmo posso encarregar-me de prepará-lo. Já vê que não sou tão má –
até lhe aponto os meios, que o seu coração devia ser o único a descobrir para
conquistar o meu.

E, depois de fazer vir uma caixa dos melhores charutos que se encontraram,
tomou um, trincou-lhe graciosamente a ponta, e disse, passando-o ao marido:

– Vamos lá! Sente-se aqui ao pé de mim… Muito bem.

E, riscando um fósforo: – Principiemos!

Borges hesitava.

– É que eu nunca fumei, filhinha… objetava ele timidamente.

– Oh! que grande sacrifício! E encheu a boca com a frase – “Nunca fumou!”
E os outros?… os que fumam?… acenderam o primeiro charuto só depois de
habituados a fumar?!…

– Isto pode fazer-me mal…

– Pois então não fume! Ora essa! respondeu ela, erguendo-se já amuada. Quando
para fumar é isto, quanto mais…

– Vem cá, menina, vem cá! Oh! Tu também te esquentas por qualquer coisa!
Eu não disse que não fumava!…

– Pois então vamos lá! tornou a formosa mulher corri uma pontinha da faceirice.
– Acenda…

– Tu és os meus pecados!… disse o Borges obedecendo.

– Acenda direito… recomendou Filomena, fazendo-se amável. – Não chupe com
tanta força! Assim… assim! Veja como vai bem agora!

E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado,
sem dar vencimento à saliva que lhe acudia.

– É horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com
ambas as mãos. – Faz-me vir água aos olhos!

– É delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para trás, aspirando
voluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.

Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores
frios.

– Continue, continue, que em breve se habituará! disse-lhe a mulher, enquanto
ele se afastava para o quarto muito pálido, cheio de calafrios, agarrando-se
às cadeiras.

E desde então Filomena não consentiu que o marido se aproximasse dela, sem
vir fumando.

– E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?… perguntou
ele na ocasião de submeter-se ao sacrifício do segundo charuto.

– Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa – a testa! – no dia em que
fumar o último charuto da caixa.

* * *

Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou
pela primeira vez a fronte da esposa.

Ela, porém, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que pôr
abaixo a sua barbinha à portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar
as suas queridas calças de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar
cosméticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato
de homem duro. O que, porém, mais lhe custou, o que atingiu as proporções
de um verdadeiro sacrifício, foi ter de submeter-se a “usar pastinhas”. Ele!
o Borges! de pastinhas! – que não diriam os seus velhos e respeitáveis amigos
do comércio?!… Que não suporia o Barroso?!.

Mas enfim… usou.

– Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabeça
aos ferros quentes do cabeleireiro.

– Deus me dê paciência!

A dois passes, o criado observava-o em silêncio, com um ar de compaixão.

– A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos demônios. Quando eu
digo as coisas!…

E de uma feita, vendo os esforços que o amo fazia por disfarçar o abdome
com um espartilho, ficou tão indignado, que saiu do quarto, para não cometer
alguma imprudência. Em baixo foi desabafar a sua indignação com o copeiro
e o cozinheiro.

– Eu é que já não estou disposto, disse este, a suportar as impertinências
da patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri
o que me fazem aqui. Todo o dia são reclamações e mais reclamações! Não há
meio de agradar! Se faço assim, é mau; se não faço, é pior! E nada presta!
e “tudo é uma porcaria!” Hoje é com a sopa, amanhã com o assado! Vá para o
diabo um tal sistema!

– Além disso, acudiu o copeiro – não há horas certas para a comida! Uma vez
querem o almoço às sete da manhã e já do dia seguinte só o reclamam às duas
da tarde. O jantar, tanto pode ser às quatro, como às seis, como às oito e
até como às onze da noite! E eu que me amole! Não! Assim também não se atura!

– E comigo, então?! perguntou a criada, que se havia metido já na conversa
– comigo é que são elas! – Falte água no jarro, falte qualquer coisa, não
corra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque
quebrei o braço de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a cômoda, deu-me
um tal pescoção que me fez cair de encontro à quina da secretária! Ainda estou
com este quadril todo roxo! Bruta!

O jardineiro, que também se achegara do grupo, contou que, não havia uma
semana, a senhora varrera com um pontapé os vasos da escada do jardim, só
porque uma das begônias parecia mal tratada. – É uma mulherzinha de gênio!…

– E agora vão ver! tornou a criada. – Para ralhar e atirar com as coisas
na gente, é isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos pedaços que
ela não se incomoda. Se o patrão que é aquele mesmo, não der as providências
ninguém as dará!

– Não! Que ela tem pancada na bola, não resta dúvida!

E os comentários da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram
aos ouvidos de Filomena.

– Tudo na rua! Já! disse esta, sem se alterar. – Não quero semelhante súcia
nem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. – Despede-os, e anuncia,
quanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!

O Borges tratou de executar as ordens da mulher.

– Então, o senhor põe-me fora?… perguntou-lhe o criado, quando recebeu
a intimação para sair.

– É verdade, Manuel, sustentou o Borges – tem paciência, mas não há outro
remédio… Reconheço que és um bom rapaz, mas não podes continuar ao meu serviço.
Vai-te e acredita que não é por meu gosto.

– Mas por que sou despedido? Há seis anos que estou ao serviço de vocemecê,
e creio que até agora ainda não dei motivos para ser posto na rua como um
cachorro.

– Tens razão! tens razão, mas, já te disse, filho! Não há outro remédio!…

– É que é duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro,
quando aliás…

– Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. Não ficarás desamparado. E se te vires
em algum aperto, procura-me…

– É duro! insistia Manuel. – É muito duro! Ah! mas vocemecê me despede porque
lhe foram encher os ouvidos a meu respeito!

– Homem, rapaz, é melhor que te vás logo e não me estejas a causticar a paciência.
Se te despeço é porque assim o entendo, sebo!

– Qual o que! vocemecê despede-me a mandado da patroa!

– Ó seu mariola! gritou o amo. – Ponha-se já na rua!

–Isto é uma casa de S. Gonçalo… principiou ainda o criado, quando o Borges,
perdendo de todo a paciência, saltou sobre ele, e tê-lo-ia rachado com um
pontapé, se o respondão não tratasse de ganhar a porta da rua.

– Atrevido! rosnou o Borges. – Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!

No dia seguinte, principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, já bastante
importunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma
de cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas
as nacionalidades, que choviam de sul e norte, entre uma algazarra infernal.

A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha – queria gente especial,
fora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir
nem mugir; ainda que com isso custasse muito mais caro.

Para a cozinha preferia um chim; para o serviço da copa um inglês, um groom
legitimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola,
uma criada, enfim, que não fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.

– Oh! os portugueses eram incompatíveis com a sua fantasia!

Mas não encontrou gente nessas condições, e, enquanto esperava por ela, resignou-se
a tomar para seu serviço uma Cecília, tão brasileira como um Roberto, que
foi substituir o Manuel e também como o novo jardineiro, e como o novo copeiro,
e como o novo cozinheiro. – Uma lástima! – todos brasileiros!

– Está agora mais satisfeitinha com seu marido?!… perguntou-lhe o Borges
meigamente.

– Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a mão. Vais muito bem. Continua,
continua dessa forma, que um dia, talvez… consigas captar-me a estima.

– Ora!… balbuciou o mestre de obras, já meio desanimado. – É só “continua!
continua!” e as coisas é que vão continuando na mesma!…

E o bom homem, no desespero de merecer as graças da esposa, transformava-se
pouco a pouco.

O Guterres, indo visitá-lo, três meses depois do casamento, soltou um grito
de estupefação e abriu grandes olhos espantados:

– Que! Pois é o João Borges?!… que metamorfose, meu Deus! que mudança!

E contemplando-o de alto a baixo. Sim senhor! sim senhor! – Está moço e bonito!
Onde foi você, seu maganão, arranjar esses bigodes tão pretos e tão petulantes?!

– É que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me…
respondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.

– Mas agora reparo! tornou o outro. – Fraque à inglesa! colarinho da moda!
prastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor à gola! – Bravo!
seu João! Bravo! Não há como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!

E vendo o amigo acender um charuto. – Também fuma?!… Ó senhores! estou
maravilhado!

– É… gaguejou o janota à força; – o rapé ultimamente, não me fazia bem…
Dou-me muito melhor com o charuto!…

– E digam mal do casamento!… considerou o Guterres.

– Queria que se mirassem neste espelho!

E em resposta a um gesto de impaciência do Borges:

– Não, meu amigo, isto tenha paciência! Em três vidas que você vivesse não
me pagaria o serviço que lhe prestei, levando-o à casa da defunta D. Clementina!

– Sim, sim… respondeu o outro, cortando a conversa.

– Mas que ordena afinal, o meu amigo?

O Guterres, mudando logo de aspecto, disse então o motivo de sua visita;
– se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil réis, seria um grande
favor…

O Borges coçou a cabeça. – Era o diabo!… As coisas não iam lá muito bem…
O casamento trouxera despesas consideráveis!… Agora o negócio fiava mais
fino; tinha de pensar no futuro!… os filhos não tardariam por aí…

– Bom, senhor! retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. – Bom! Eu
também não exijo sacrifícios!…

E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a
raiva que se lhe desenvolvia por dentro.

– Desculpe! Desculpe! – Pensei que você fosse o mesmo homem!… ou que pelo
menos o fosse para mim… a quem… digo-lhe então!… devia trazer nas palminhas,
se… se soubesse ser mais reconhecido!

– Ora, vá plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha
para dizer a respeito dos tais favores do Guterres. – Não esteja ai a dizer
barbaridades!

– Você nega então que só a mim deve estar casado?

– Homem! não me amole, homem de Deus! Se, para – o ver pelas costas, tenho
de dar duzentos mil réis – aqui estão! mas, por quem é, deixe-me em paz! –

– Ingrato!

Aí os tem, leve-os e não se incomode em voltar cá para restitui-los! Vá,
vá – com Deus!

– Sim! disse o Guterres com ênfase, tomando o chapéu e a bengala – sim! levo
comigo o vil dinheiro, porque desgraçadamente não tenho outro remédio; mas
também sabendo que, de sua parte, é uma covardia aproveitar o aperto em que
me acho, para injuriar-me desse modo!

– Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.

* * *

O outro, desde aí, não o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde
se falava do mestre de obras, teve ocasião de lhe meter as botas. – Além de
um grande pedaço d’asno, é um impostor! bradou e]e. Pensa, lá por ter os seus
mil réis, que é superior a todo o mundo! Um tolo!

E apontou as toucas do Borges, as transformações que sofrera o basbaque depois
do casamento. Mas quase todos lançaram esses comentários à conta da inveja,
e o marido da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputação
de um homem completamente feliz.

Entretanto, as exigências daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava
a submeter-se, estribado sempre na grata esperança de possuí-la um dia.

Vieram as festas, os bailes; Filomena principiou a luzir nas salas, a ofuscar.
Sua beleza, sua vivacidade espiritual e romanesca, postos agora em relevo
pelos mil réis do marido, tomaram proporções dominadoras.

Era sempre a rainha dos lugares onde se achava; a mais querida, a mais falada,
a mais desejada.

Todos viam no Borges um cúmulo de fortunas – os homens invejavam-no, mas
nenhum deles se podia gabar de ir um ponto além de sua inveja. Filomena a
todos prendia igualmente na mesma rede de atrações, sem dar a nenhum direito
de avançar, nem ânimo de fugir. Se o sorriso prometia – o olhar negava; e
se de seus olhos escapava porventura uma dessas faunas satânicas, que acendem
no coração mil esperanças a um tempo – era uma frase, enérgica e pronta, que
vinha destruir de chofre a indiscreta promessa dos olhos.

E o Borges, apesar de marido, não estava ileso dessas condições; feliz aos
olhos de todos, ia arrastando ele o seu desgosto, sem poder confessar a pessoa
alguma os tormentos que o devoravam. Esta circunstancia ainda o fazia sofrer
mais.

– És um felizardo! Repetiram-lhe a todo o instante. E essa maldita frase
produzia-lhe o efeito de um ferro em brasa. Evitava já ficar a sós, nas janelas
ou nos cantos da sala, com os amigos mais chegados, para não ouvir a constante
glorificação daquela felicidade, que só existe na imaginação deles.

– Para você é que é esta vida!… diziam-lhe. – Meu caro. quem nasce sob
uma boa estréia, não tem que se apoquentar com a sorte!

E o Borges sacudia os ombros, sorrindo contrafeito. Mas a sua tristeza aumentava;
o seu vigor descrecia, e todo ele ia parecendo vítima de uma grande enfermidade.

– Você precisa ter um pouco de cuidado, segredou-lhe uma vez o médico. –
Olhe que o mundo não se acaba, meu amigo! Isso pode prejudicar mesmo a sua
senhora, que, em todo o caso, é uma mulher e tem a constituição mais delicada!
Não convém abusar! Não convém abusar!

– E isto é dito a mim! a mim! exclamava o Borges, a bater no peito, chorando,
logo que se achava só. Mas não desanimava, certo de que os sacrifícios dedicados
à cruel deusa de seus sonhos teriam, mais cedo ou mais tarde, uma recompensa.
– Oh! só de pensar em tal, o coração saltava-lhe por dentro.

Não obstante, as exigências continuavam a surgir, e ele continuava a render-se,
cada vez mais submisso e mais vencido.

Agora já lhe não custava suportar os bailes de cerimônia, e recebia duas
vezes por mês. Aquele homem, que dantes, ao bater das onze, se recolhia invariavelmente
aos seus travesseiros, passava agora todas as noites em uma roda de etiquetas,
a cortejar para a direita e para a esquerda, a rir, a lisonjear, a fazer-se
fino. Suas reuniões tornavam-se famosas pela suntuosidade, profusão bem escolhida
dos vinhos, excelência dos bufetes, boa música e esplêndida variedade de convivas
de ambos os sexos.

– Não há dúvida! E um felizardo! insistiam os amigos.

– Que mulher possui o ladrão! – formosa, distinta, elegante, inteligente
e, além de tudo, honesta! Parece que só vive para o marido! Definitivamente,
não há outro mais feliz!…

Só o mísero esposo não pensava dessa forma. Agora os caprichos da mulher
impunham-lhe uma provação terrível para ele, e a pior de todas que até aí
cometera; Filomena exigiu que o desgraçado aprendesse a valsar.

Valsar o Borges! O Borges! o homem mais incompatível com a dança!

Foi preciso arranjar um professor discreto, que lhe desse as lições em casa,
às ocultas, todos os dias, das três às cinco da tarde.

Que luta, santo Deus! Que longas horas de tormento! Que heroísmo para não
desanimar no meio da empresa!

Foi uma campanha formidável! Seus vastos e pesados pés não se queriam sujeitar
àquela violência implacável dos passos e dos saltinhos; seus nodosos tornozelos,
grossos como troncos de árvore, protestavam energicamente contra os inquisitoriais
ritornelos das valsas puladas. Recalcitravam-se os joanetes, revoltavam-se
os calos; tremia o soalho; vinham abaixo as bugigangas que estavam sobre os
consolos da sala; o Borges suava, afogueava-se e não conseguia passar das
primeiras figuras.

Mas Filomena estava ali para lhe dar coragem, como nos cavalheirescos torneios
da idade média. A imagem dela animava-o, como a presença de um grande prêmio
ambicionado. Só valsando conseguiria transpor o limiar daquele paraíso.

Pois bem! Valsaria, custasse o que custasse!

– Oh! ela adorava a dança! Não podia sofrer um homem que não soubesse valsar.
A dança foi sempre uma de suas paixões mais fortes; em pequena chegou a imitar
vários passos difíceis que vira no teatro. Sabia o solo inglês, a gavota1
o minuete, a cachucha e muitos outros.

O Borges, no fim de cinco meses de estudo acérrimo, conseguia dançar, não
só a valsa, como a polca, a mazurca, o schottisch, os lanceiros e as quadrilhas
francesas. Filomena então exigiu que ele, enquanto descansava da última campanha,
se entregasse à leitura escolhida de certos poetas e romancistas. Apresentou-lhes
os livros e marcou as lições que o marido havia de decorar.

– Quero que tenhas de memória um bom repertório de versos, para m’os recitares
nas ocasiões de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!

O Borges obedeceu, como de costume, e daí a pouco tempo atroava nas salas
a sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamatórios de Manha,
de Gonzaga.

Um amigo, que ia visitá-lo, não se animou a tocar a campainha, intimidado
por aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o
e foi logo contar o fato à senhora.

– Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declamação,
ordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia
e caíam no recitativo.

Filomena, que tinha muitos versos de memória, lembrou-se de dialogar com
o marido as poesias mais próprias para isso. Depois veio-lhe a idéia de recorrer
às tragédias de Gonçalves Dias e fazer a coisa mais ao vivo; tomando cada
um o traje e o característico que exigia o papel.

– Queres saber de uma coisa?!… disse ela afinal. O verdadeiro é arranjarmos
um teatro.

O Borges levou as mãos à cabeça.

– Um teatro! Pois eu tenho de representar?!…

– E que há nisso de extraordinário?… Na Europa o teatro em família é um
divertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar
– o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. Vê-se também o Chico
Serra, Gonçalves, o Morais, chama-se a viúva Perdigão…

– A viúva Perdigão?!… perguntou o marido, sentindo um arrepio.

– Sim! há de dar uma excelente dama central. E muito desembaraçada e tem
graça. Enfim, não faltará quem nos ajude. O teatro pode ser na chácara; estende-se
mais aquele pavilhão que lá está e rouba-se um pouco do jardim para a platéia.

O Borges ainda tentou algumas objeções; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores,
e as obras principiaram.

IV – VEREMOS QUEM VENCE

Foi esse um tempo magnífico para Filomena; vivia muito entretida com a construção
de seu teatrinho. Era ela própria quem dirigia as obras; quem arranjava os
desenhos decorativos da sala e do frontispício; quem administrava e conduzia
os trabalhos do cenógrafo.

Quinze dias depois, estava em ensaios a primeira peça. A casa tomou um caráter
boêmio de atelier; encheu-se de amadores dramáticos, de músicos. Havia certo
movimento, certa agitação alegre, feita de conversas em voz alta, de risadas,
de afinações de instrumentos. Viam-se carpinteiros, de cachimbo ao canto da
boca, trabalhando e cantarolando em mangas de camisa; panos enormes, estendidos
no chão, cobertos de tinta; costureiras, aderecistas, operários de todos os
gêneros, a entrar e a sair, numa atividade ruidosa.

O Borges andava muito atrapalhado com tudo aquilo, e principalmente com o
seu papel.

– Ora que diabo me havia agora de cair na cabeça!… dizia ele consigo. Eu
nunca tive queda para ator. Esta só a mim sucede!

Mas a peça ficou ensaiada; expediram-se os convites, e no dia do espetáculo
o teatrinho de Filomena encheu-se de amigos.

O Barradinhas era o melhor dos curiosos, e fazia de galã. Devia ir muito
bem; tinha enorme talento para a cena; “uma figura de arrebatar”! Bonito,
cabelos crespos e uma voz “que nem um tenor italiano”! Filomena representava
a sua amante; ele caía-lhe aos pés, várias vezes, e dizia-lhe longas frases
retoricamente apaixonadas.

O Borges é que não ficava muito satisfeito com a história. – Ele, para que
o havia de negar?… não morria de amores por – aquele gênero de divertimento!…

E cuidava muito mais em vigiar o galã do que em estudar o seu papel. Pode
ser que se enganasse… mas ia jurar que aquele pelintra não tinha por ali
muito boas intenções!… Ah! ele sabia perfeitamente que a mulher não era
das mais fáceis… (Oh! se sabia!) não estava, porém, em suas mãos afastar
os olhos de cima do tal galã! Era lá uma cisma!…

– Também! Pobrezinho dele, se me cai na arara de tentar alguma! jurava o
mestre de obras. Racho-o de meio a meio!

E – rachava. Mas o bonito curioso, bem a contragosto, não tinha achado ainda
uma boa ocasião para dizer em particular a Filomena o que lhe repetia todos
os dias, ajoelhado a seus pés, defronte do marido. Por várias vezes estivera
até “vai-não-vai”, chegara a supor que a coisa se decidia; mas o diabo do
Borges apresentava-se de repente, e… lá se ia a ocasião.

– Por ela, coitada! estou garantido! considerava o Barradinhas, pensando
nos olhares prometedores de Filomena. Está caídinha! Assim dispusesse eu de
um momento!… Não queria mais que um momento!… Dizer-lhe uma palavra; entregar-lhe
uma carta; fazer-lhe um sinal – bastava!

Mas o demônio do marido nem isso permitia!

A peste não fazia outra coisa senão vigiar a mulher! – Cacete!

Chegou o dia do espetáculo, sem que o Barradinhas tivesse oportunidade de
ouvir dos lábios de Filomena aquilo que havia tanto tempo diziam os olhos
indiscretos da formosa criatura.

– É para maçar! pensava ele indignado. É para fazer um homem perder a paciência!
Sei que sou amado por uma mulher que adoro; caio-lhe aos pés, tomo-lhe as
mãos, bebo-lhe nos olhos a confissão de sua ternura, – e, a despeito de tudo
isso, não consigo estar com ela um só instante; porque essa mulher tem um
marido impossível, um marido único, um marido que não a larga, um marido que
não vai cuidar de seus negócios, um marido-calamidade! Diabo leve quem inventou
semelhante homem!

E o lindo curioso dramático, quando fazia esses raciocínios, ficava colérico,
furioso, a passear no lugar em que estivesse, com as mãos nos bolsos, o coração
oprimido como por uma injustiça.

– Oh! ela será minha! Isso juro eu! Para que serve então ter talento e ser
moço e bonito?…

* * *

Às oito horas da noite estava o teatrinho completamente cheio; a orquestra
havia já tocado a sua sinfonia, e esperava o sinal para lançar a música com
que tinha de principiar a peça. Corria nos espectadores um suspiro de impaciência.
Filomena, nervosa, trêmula, esperava atrás de um bastidor que o pano subisse,
para mostrar-se ao público, esplêndida na sua roupa de caráter, com o seu
papel na ponta da língua. O contra-regra corria de um para outro lado, perguntando
se todos estavam prontos e declarando que ia principiar o espetáculo. “Fora
de cena! Fora de cena!” O ponto correu a esconder-se no seu buraco. E, na
confusão que se fazia na caixa, cada um tratou de tomar o seu lugar. Mas ninguém
sabia dar notícias do Borges.

– Ora, onde diabo se foi meter este homem?!… perguntou o contra-regra,
aflito.

Por esse tempo, o Barradinhas, que vira Filomena pela primeira vez sem o
marido, meio oculta no vão sombrio de um bastidor, concebeu logo a idéia de
aproveitar a ocasião; deu uma volta pelo fundo da caixa, e, surgindo misteriosamente
por detrás dela, ia a segurar-lhe a cintura e ferrar-lhe um beijo, quando
a bela mulher vira-se de súbito, recua dois passos e solta em cheio no lindo
rosto do galã a mais sonora bofetada.

O regente, supondo ser aquela palmada o sinal que ele esperava, rompeu a
orquestra, o pano ergueu-se logo, e os espectadores viram o seguinte:

Filomena, sem poder conter as gargalhadas, torcia-se num divão; o Barradinhas,
vestido de calção e meia, procurava uma saída, perseguido pelo Borges, que,
em mangas de camisa e botas, de montar, numa cabeleira a escapar-lhe pelo
pescoço, cercava-o por toda a parte, a dordejar bengaladas. No meio do palco
uma das amadoras escabujava com um ataque de nervos, entre o grupo assustado
dos curiosos, que iam e vinham, num fluxo e refluxo de encontrões promovidos
pelo Borges.

O público, defronte daquela cena tão agitada e tão ao vivo, tomou a resolução
de aplaudir; enquanto o dono da casa, repetindo as bengaladas, bramia possesso:

– Pensava que eu não te via, grande velhaco? Não sabias que trago há muito
a pulga atrás da orelha, grande maroto?!

O Borges, com efeito, não perdera de vista o galã, na ocasião em que se vestia
no camarim, farejou-lhe os planos e tanto bastou para ir, munido de bengala,
esconder-se sorrateiramente perto da mulher, por detrás de uma empanada, sem
mais pensar no drama, e surdo completamente aos reclamos do contra-regra.

Entretanto, o Barradinhas, vendo que não conseguia fugir pelos fundos do
teatro, arremessa-se sobre a orquestra, salta por cima dos rabequistas, enfia
pela platéia e ganha a chácara, e afinal a rua, onde se lançou de carreira,
na frente do populacho, que a sua estranha roupa de veludo chamava e atraía.

É inútil acrescentar que este fato cortou pela raiz a idéia das representações,
e induziu o Borges a fazer um bom conceito da mulher. Esta circunstância em
parte o consolou de seus duros infortúnios; mas… desgraçado! uma nova provação
já o esperava.

* * *

Filomena descobriu que o Urso lhe fazia mal aos nervos, e declarou positivamente
não estar disposta a sofrer em casa semelhante bicho.

– Porém, que mal te fez o pobre cão?… perguntou o Borges, sobressaltado
com a idéia de separar-se daquele fiel amigo de tanto tempo.

– Ora! respondeu ela. É um animal feio! feio, e está sempre a pregar-me sustos!
Ainda não há dois dias, achava-me eu descuidada na sala de jantar, quando
o maldito surge-me pelas costas. Não imaginas que susto apanhei! Demais, só
gosto dos cães em certas e muitas determinadas circunstâncias: – como acessório
pitoresco de uma paisagem, não são maus; na qualidade de guia de cego, ao
longo da rua, num dia chuvoso, também não desgosto; ou então dentro de casa
num gabinete de trabalho – um cãozinho felpudo, asseiado, muito gordinho,
um king-charles esquecido sobre as cadeiras – tem sua graça. Mas o Urso não
está em nenhum desses casos; é um cão detestável, feio, sem pitoresco, sem
razão de ser, sem pés nem cabeça de cão; parece um monstro, é grande de mais,
é bruto, não se lhe vêem os olhos, não vai bem em parte alguma; tão mal fica
sobre o tapete da sala, como sobre a grama da chácara! Além disso, enche-me
a casa de pulgas e tem uma morrinha insuportável! Se soubesses como ficas
repulsivo depois de brincar alguns instantes com ele!…

Esta última consideração resolveu o Borges a separar-se do querido Urso.
Mandá-lo-ia para a casa de um amigo, morador do Engenho Novo, visto que na
ocasião não dispunha em Paquetá de alguém que se pudesse encarregar disso.

Foi com os olhos cheios d’água que o bom homem viu no dia seguinte partir
o seu fiel companheiro.

– Vai! disse consigo. Vai, meu pobre Urso! Não contavas naturalmente que
eu te enxotasse de casa, como se enxotam os Guterres e os Barradinhas – tu!
que sempre foste bom e verdadeiro!

– Pobre animal! pobre animal! dizia o Borges, fechando-se no quarto. Como
tudo se vai transformando em minha vida! Já não possuo os meus dois melhores
amigos, os únicos que me restavam – o Barroso e o Urso!

E chorava. O Barroso fora o seu companheiro de infância, em Paquetá. Principiaram
a vida trabalhando no mesmo serviço e às ordens do mesmo patrão, pois que
o Barroso era neste tempo caixeiro do pai de Borges; antes do casamento, nunca
tinham tido a mais ligeira rusga – foram sempre unha com carne, unidos – inseparáveis;
mas depois… esfriaram, nunca mais se deram, e por conseguinte só restava
o outro – o Urso, o fiel, o sempre o mesmo, o único que lhe não fazia recriminações!…

E agora era este que se ia também… talvez para sempre! Oh! quantas vezes
não passaram juntos, horas esquecidas, como dois iguais!… Com que prazer
o Borges, ao voltar do trabalho, não recebia no ombro as patas do companheiro
e não lhe corria a mão pelo enorme lombo felpudo?…

Ah! Mas ele, sem que Filomena o soubesse, havia de ir visitá-lo, pelo menos
duas vezes em cada mês.

E desde então, efetivamente, o Borges, quando lhe apertavam as saudades do
Urso, metia-se no trem e lá ia passar com ele alguns instantes. – Que idílios
nessas curtas visitas clandestinas! Que festas não trocavam entre si os dois
amigos!

O animal parecia compreender aquela afeição do Borges, porque, mal o via
apontar ao longe, disparava a correr para ele, grunhindo, a sacudir a cauda,
a fazer-lhe negaças, a cercá-lo, a pular, a morder-lhe os calcanhares, num
alvoroço de prazer. Mas um belo dia em que o mestre de obras foi visitá-lo,
disseram-lhe que o dono da casa havia na véspera fugido aos credores, e ninguém
sabia dar notícias dele, e muito menos do Urso.

O Borges voltou muito triste, e assim se conservou durante o resto do dia.
A mulher veio a saber a causa dessas mágoas, e, para o consolar, tomou-lhe
a cabeça, entre as mãos e deu-lhe um beijo em plena boca; mas fugiu logo,
deixando o marido na doce esperança de ver terminar ali as suas provações
e com elas o longo suplício de Tântalo, que o devorava.

Assim não sucedeu.

Nem só o trinco permanecia corrido, como a paixão de Filomena pelas festas
e pelos requintes de luxo exacerbara-se de um modo assustador. Agora, não
se passava um dia, uma hora, que lhe não acudissem novos meios de gastar “carradas
de contos”. Ela quis carruagens, parelhas de raça, lacaios gordos à moda parisiense,
grooms de cara raspada, que servissem o chá de gravata branca e casaca; quis
as esquisitices do gosto, os Sêvres, as sedas de Macau, os móveis caprichosos
e as jóias empobrecedoras para quem as dá.

O Borges principiava a temer uma ruína. Ele era rico… mas; afinal, que
diabo! não tinha à sua disposição as Índias Inglesas! Daquele modo onde iriam
parar?… Verdade é que ultimamente, instigado pela mulher, que desejou sentir
as comoções comerciais, arriscara na Bolsa grandes quantias que lhe trouxeram
lucros consideráveis.

Mas a fortuna também cansa! refletia o capitalista. E se me desanda a roda,
posso dar com os burros n’água.

Por esse tempo exercitava-se ele no bilhar. Já sabia tomar grogs, dizer mal
dos cantadores do lírico, e perder dinheiro nas corridas do Prado.

– Contudo, ainda te falta uma coisa, observou-lhe a mulher uma vez em que
ele queria valer os seus progressos.

– Ainda! Qual?

– Um título.

– Mas para que um título?

– Não posso compreender um homem sem qualquer distinção. Um título serve
para disfarçar a nulidade do nome. Creio que não terás a pretensão de imaginar
que possuís um nome!

– Como assim?! Pois eu não…

– Teu nome não existe; não tens uma individualidade, não tens por onde te
possas distinguir dos outros! Se se disser o – João Borges – é como se se
dissesse o – José da Silva; ninguém sabe quem é, ninguém conhece!

– Mas, filha, cada um é conhecido na sua roda. Eu sou conhecido na praça!…

– Que praça!…

– A praça do comércio.

– Ora! fez a mulher com desdém – isso não é ser conhecido; ainda se fosse
na praça pública, vá!

O Borges fez um gesto severo.

– Se tivesse talento, acrescentou a mulher, lançar-te-ias na literatura,
ou na política, ou no teatro, ou na guerra de qualquer país. Mas nem é bom
pensar nisso! Tuas ambições limitam-se a uma patente da guarda-nacional, a
uma faixa de subdelegado ou à presidência de alguma irmandade religiosa; coisinhas
que eu abomino, como a expressão mais chata e mais ridícula da estupidez burguesa!

– Mas, filha, nem eu sou subdelegado, nem nunca prestei serviço à guarda-nacional;
e, desde que torceste o nariz às irmandades, nunca mais aceitei cargos, tanto
da ordem de Nossa Senhora da Candelária, como do Sacramento e da de S. Francisco!

– Grande fúria! exclamou a mulher. O que sei é que não tens um título, e
é preciso que o tenhas!

– Isso é o que menos custa! disse o Borges. – Serei comendador, arranjarei
a comenda da Rosa!

– Comendador! Estás doido! Isso não é um título! Eu só aceito de barão para
cima. Comendador! Comendador todo o mundo o é! Ora, comendador! Com efeito!

– E se eu arranjar um baronato? Hem?! Se eu o arranjar, prometes ser mais
condescendente?…

Filomena respondeu passando-lhe os braços em volta do pescoço, e dando-lhe
um beijo na face.

– Pois juro-te que serás baronesa ou coisa que o valha. Hoje tudo isso se
obtém com muita facilidade do governo português…

– Mas receio a demora! volveu Filomena. Ardo de impaciência por ser alguma
coisa – baronesa! condessa! viscondessa! oh! como é bonito! como é poético.
“A Sra. condessa quer se dar ao incômodo de entrar?… A Sra. baronesa já
se retira?…” Oh! ~ excelente! ~ encantador! Lamento apenas não ter me lembrado
disto há mais tempo; a estas horas podíamos estar já no gozo do titulo! Receio
a demora!

– Não; talvez não demore muito, Sra. viscondessa! disse o marido galhofeiramente,
tomando as mãos da mulher.

– E se fôssemos a Portugal tratar disso?… lembrou ela. Ainda não fizemos
uma viagem!…

– Pois vamos lá a Portugal! disse o Borges.

E ficou resolvido que partiriam, logo que estivessem dadas as providências
necessárias para a compra do título.

Durante o resto desse dia, Filomena mostrou-se muito chegada ao marido. À
noite, às costumadas visitas, não se cansaram de falar na próxima viagem.
Borges estava radiante, a mulher nunca o tratara tão carinhosamente. Os amigos
chegavam a estranhá-lo. Abriram-se garrafas de um Tokai magnífico, que o futuro
titular recebia diretamente da Hungria, e o mestre de obras bebeu entusiasmado
à sua felicidade.

– É agora! dizia consigo esfregando as mãos. É agora que se decide o negócio!

Mas o ferrolho ainda não se abriu dessa vez.

– Pois veremos quem vence, exclamou ele, atirando-se furioso na sua cama
de solteiro. Ou eu conseguirei, quanto antes, entrar naquele quarto, ou leva
tudo o diabo nesta casa! Arre! Nem sei até o que me parece semelhante coisa!

* * *

Não pôde dormir o pouco que lhe restava da madrugada, e, mal surgiam no horizonte
os primeiros raios do dia, já o Borges estava de pé.

– Cecília! gritou ele, vendo passar a criada por defronte da porta do seu
quarto. Espere aí, que tenho o que lhe dizer.

A criada fez um gesto de surpresa, vendo o marido de sua ama tão sobressaltado.

– Você é uma boa rapariga! principiou ele. É fiel, bem procedida e diligente!…

Cecília olhou-o espantada.

– Eu sempre tive boas intenções a seu respeito, continuou o Borges. Minha
mulher está satisfeitíssima com o seu serviço!

– São bondades… balbuciou a rapariga, abaixando os olhos.

– Não! A verdade diz-se!… Sou-lhe grato, sou! Para que negar?… e fique
sabendo que hei de ajudá-la no seu casamento!…

A fisionomia da criada iluminou-se, e, sem dizer palavra, ela pôs-se a torcer
e destorcer o seu avental de algodão.

– Sei das suas intenções com o Roberto, e estimo que se casem. Pode contar
com o enxoval!

Cecília quis beijar-lhe a mão.

– Não tem que agradecer. Olhe! guarde isto para comprar um vestido novo.

E o Borges meteu-lhe nos dedos uma nota de vinte mil réis.

– Oh! meu rico amo! exclamou ela com os olhos úmidos de comoção – como vocemecê
é bom! Eu e mais o Roberto havemos de lhe agradecer por toda a vida!

– Bem, bem! disse o Borges, mas preciso que você me preste um serviço, um
pequeno serviço…

Cecília adiantou-se mais, cheia de solicitude.

– É quase nada!

E abaixando a voz depois de olhar cautelosamente para os lados:

– Desejo penetrar hoje no quarto de minha mulher.

A criada recuou estupefata. Agora o seu rico amo lhe parecia simplesmente
doido. Que diabo queria dizer aquilo?!…

O Borges compreendeu o espanto da rapariga e disfarçou:

– Sim; sim! Não era uma simples questão de lá ir!… Isso seria o menos.
Puf!

– Então? animou-se a perguntar Cecília.

Mas é que eu queria entrar sem que minha mulher contasse comigo, percebe?…

A criada fez-se vermelha.

– Vosmecê então desconfia de minha ama?! Que aleive, meu Deus! Uma injustiça
assim! Desconfiar de uma senhora que é mesmo um anjo! Uma senhora que…

– Não! não é isso, filha! Quem lhe falou aqui em desconfiança?! Ninguém desconfia
de sua ama. Está a tomar o pião à unha! – ninguém conhece melhor minha mulher
do que eu!

– Ah! respirou a criada, credo! até me deu uma coisa na boca do estômago!

– Está claro que sua ama, nesse sentido, é o beijinho das esposas! Não tenho
que me queixar, graças a Deus! Mas eu queria lá ir, sem que ela me esperasse;
percebe? É uma fantasia como outra qualquer!… Vocemecê nem tem que se comprometer
com isso… Ela, no fim de contas, é minha mulher, que diabo!

– Meu amo quer que eu lhe arranje a chave do quarto?…

– Qual! Isso não adianta nada! Ela tem um ferrolho, fechadinho por dentro.

– É exato, é! disse a criada, lembrando-se de já ter visto o tal ferrolho.

– Pois aí é que bate o ponto! Trata-se de arranjar os modos de abri-lo por
dentro, sem que ela o saiba, compreende?

A criada ficou a pensar. Mas para que exigia o amo semelhante coisa?… A
senhora podia ficar massada e voltar-se contra ela!…

– Não tenha receio! disse o Borges. Eu respondo por tudo! Valha-me Deus!
não é nenhum crime querer um homem entrar no quarto da sua mulher!…

– Vocemecê então promete?…

– Que a não deixo ficar mal? Ora! nem tem que saber!…

– Não e isso… digo: ajudar-me no meu…

– No seu casamento?… Pode ir descansada, contanto que arranje o que lhe
disse.

Ficou assentado que Cecília nessa noite se esconderia no quarto da senhora,
e, quando esta já estivesse dormindo, abriria cautelosamente o tal ferrolho,
que ela, por cautela, untaria previamente com azeite. E se a criada guardasse
bem o segredo de tudo isso, nem só teria o seu enxoval prometido, como ainda
havia de chimpar um par de brincos à moda.

– Mas veja lá agora se vai dar com a língua nos dentes!…

Foram as últimas palavras de Borges.

A criada saiu dali para ir ter com o Roberto.

– Esta noite não te posso aparecer senão mais tarde, disse-lhe ao vê-lo.
Tenho que ficar no quarto da senhora.

– Há alguma novidade?

– Não! É cá uma coisa. É cá um negócio com o patrão! – E ria-se. – Eu não
te posso dizer mais nada!…

– Olé! Então, é coisa de segredo?…

– Estou a dizer que é, homem!

– Segredo! Você tem segredos com o patrão?!

– Mau, que me tomas o pássaro no ar! Eu nada tenho com o patrão! Tenho é
de ficar no quarto da senhora!

Roberto mordeu a ponta do bigode:

– Tu premeditas alguma, raio de uma peste! Já! dessem bucha p’r’aí, se não
queres que eu te faça falar por outro modo!

– Mas é, que eu não te posso dizer nada! Só o que te afianço, é que as coisas
vão mudar de figura! Não tens mais razão de demorar o nosso casamento; o amo
cai com o enxoval e ainda com uma ajuda de custas! Hem? que te parece?

– Parece que tudo isso me cheira a patifaria! Donde saiu agora essa bondade
do patrão?!

E vendo que a criada não respondia:

– Não tencionas desembuchar, criatura?!

– É que se dou com a língua nos dentes, vai tudo por água a baixo!

– Ora, deixa-te de tolices e conta lá o que houve! Bem sabes que entre nós
não há segredos!

– E antes houvesse! Mal fiz eu em permitir umas certas coisas antes do casamento!…
Se não fosse isso, você com certeza não me trataria desse modo, e já teria
me levado à Igreja!

O Roberto sacudiu os ombros.

– É! fez Cecília, muito queixosa. Até aqui toda a dificuldade era o enxoval;
venho dizer-lhe que o patrão se encarrega disso, e você, em lugar de despachar-se
por uma vez, ainda me dá muxoxos e põe-se a desconfiar de mim! Tola fui eu
em ir atrás de cantigas! Diabo do traste!

– Deixa-te tu de cantigas e vamos ao que interessa!… Despeja p’r’aí o que
houve!

– Não despejo nada! Você não me merece coisa alguma, é um velhaco; enquanto
eu me fiz tesa, não lhe faltaram maneiras; agora é isto que se vê!…

E começou a chorar:

– É preciso não possuir um bocado de consciência para enganar desta forma
uma pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.

– Guarda as lamúrias para outra ocasião, filha!

– Pois se é como eu digo!… Ingrato! Se eu não o quisesse tanto, não estava
agora aqui me arreliando!

– Deixa-te de asneiras… fez o criado, passando-lhe por condescendência
a mão na cabeça. Não te podes queixar – eu também gosto de ti!

– Sim, sim: mas o casamento não ata nem desata! dizia ela, soluçando.

– Ora! E que teríamos lucrado nós em nos termos já casado?…

– Que teríamos lucrado! Olha o disparate! Você talvez não lucrasse nada,
mas eu?! Penso nisso todos os dias! Até estou mais magra! Lembrar-me só de
que você é muito capaz de deixar-me neste estado… dá-me venetas de acabar
com a vida!

– Não digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, às mãos te chegará!

E depois de beijá-la, sem carinho:

– Mas vamos lá. Conta o que houve entre vocês, tu e o basbaque do patrão!…

– Prometes guardar segredo?… perguntou Cecília, fazendo por esticar as
carícias do noivo!

– Ora!

– Então, lá vai! O patrão quer entrar, sem ser esperado, no quarto da patroa!

– Com que fim?!

– Sei cá! Diz ele que é uma fantasia como outra qualquer!…

– Mas daí?… Que diabo tens tu a ver com isso?…

– Pois aí é que bate o ponto. A patroa fecha-se por dentro; eu fico escondida
no quarto para abrir a porta ao marido! Creio que aquilo é arrufo entre os
dois!

Roberto coçou a parte inferior do queixo:

– Hun-hun! resmungando. Não sei, não sei! Queira Deus que essa história não
te de na cabeça!… Olha que não se encontram duas casas como esta!… Isto
aqui, filha, vale mais que o céu!…

– Ora o que! fez a criada. – Não é crime introduzir um marido no quarto de
sua mulher!… Aquilo foi arrufo com certeza; ela não quer dar o braço a torcer;
mas eu que a conheço, sei que não lhe vou cair em desagrado; ao contrário
– verás como me agradece!

– Isso é lá entre vocês, mulheres, que se entendem! Em todo o caso, é bom
pensares antes no que vai fazer!

– Deixa correr o barco por minha conta!

* * *

Entretanto, o Borges, à proporção que a noite se aproximava, sentia o coração
pulsar-lhe com mais força. Ah! desta vez, sem dúvida, iam acabar os seus tormentos.
Aquele novo plano não poderia falhar!

Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre no antegozo de
uma aventura. Nunca uma alma apaixonada ansiou tanto pela entrevista de seu
ideal; nunca os segundos foram contados com tanta impaciência; nunca o momento
supremo da ventura foi atraído com tanta sofreguidão.

Borges, assim que viu a casa completamente recolhida, tratou de tirar as
botas e subiu pé ante pé ao segundo andar.

Não se pode conceber o sobressalto em que ia o pobre homem; tremiam-lhe as
pernas; a cabeça andava-lhe à roda; o sangue afluía ao coração, que parecia
querer saltar-lhe pela boca.

– Filomena já devia ter pegado no sono, ou pelo menos estar adormecendo.

Esperou mais um instante. Nada, porém, de aparecer a criada!

Decorreu mais algum tempo – um quarto de hora, uma hora talvez; ele não o
podia determinar: sua impaciência fazia parecer uma noite inteira, uma eternidade.

– Oh! Como o torturava aquela tardança!

E Cecília nada de aparecer; Borges principiava a desesperar. Haveria alguma
novidade… Ela teria ido contar tudo à senhora? pensou o namorado, rangendo
os dentes e fechando os punhos!

– Se me traíste, miserável, verás o que te sucede! Verás o que te sucede!

Mas um rumor quase imperceptível veio nesse instante do lado do quarto de
Filomena; a porta abriu-se muito de mansinho, e a criada saiu cautelosamente,
às apalpadelas, como se não quisesse tocar com os pés no chão.

– Está dormindo?… perguntou-lhe o Borges em segredo, indo ter com ela.

– Está respondeu Cecília no mesmo tom. Pode entrar. Mas veja se me vai comprometer…

– Descansa. Aí tens para os teus alfinetes…

Deu-lhe mais dinheiro.

A rapariga afastou-se, pensando no pobre noivo, o Roberto, que àquelas horas
já devia estar farto de esperá-la; e o Borges, cheio de mil cautelas, penetrou
no quarto perfumado e virginal de sua esposa.

Uma dúvida claridade de lamparina aquarelava meias sombras vagas e transparentes
em torno do leito, onde Filomena se aninhava entre nuvens de linho branco.
Ouvia-se um respirar tranqüilo e cadenciado, que vinha da cama.

Quando o marido sentou o primeiro pé no tapete da alcova, a mulher estremeceu,
encolhendo-se toda com um suspiro.

Borges retraiu-se maquinalmente, e procurou esconder-se atrás do reposteiro
da porta; mas o arfar ansiado de seu peito denunciou-o.

Filomena virou-se em um novo arrepio, e, depois de algum silêncio, perguntou
com a voz alterada:

– Quem está ai?…

Borges não tugiu nem mugiu.

– Quem está aí? Não ouve?! tornou ela, erguendo a cabeça e fitando a porta.

O marido viu-a levantar a meio, desembaraçar um braço dos lençóis e procurar
tateando alguma coisa na gavetinha do velador; ele, porém, não respondeu,
e apenas se traiu por um estalo seco das juntas do joelho.

– Quem está aí, fale, com os diabos, se não quer receber uma bala nos miolos!

E engatilhou um revólver, fazendo pontaria ao reposteiro.

V – LUTA ABERTA

– Sou eu! disse o Borges, correndo para ela. – Não dispares! É teu marido!

Filomena, ao senti-lo perto da cama, repeliu a arma e, embrulhando-se no
lençol, saltou pelo lado contrário, prestes a fugir.

– Não sairás! gritou o esposo, cortando-lhe a passagem.

– É então uma violência?! perguntou a mulher.

– Seja o que for, mas não me escaparás desta vez!

– Socorro! gritou ela. Socor…

Não pôde continuar, porque o marido tomara-a nos braços e abafava-lhe com
os beijos a voz.

Filomena debatia-se violentamente; afinal, soltou um grito desesperado, e
caiu sem sentidos.

– Ora, mais esta!… resmungou o Borges, depondo a mulher sobre um divã.
Filomena! Filomena! Então?! Que é isso?!

Ela não respondia.

– Ora senhores! – Ó Filoquinha! Anda! Volta a ti!

Filoquinha estrebuchava. Borges correu à procura de sais. Acudiram os criados.
Cecília, aflita, andava de um para outro lado, sem saber que fizesse, a olhar
espavorida para o amo, como quem olha para um bandido.

No entanto, o pobre esposo não saía de ao pé da mulher. Só no fim de meia
hora, esta voltou a si, olhando estranhamente para os lados e a passar a mão
repetidas vezes pela fronte.

– Ah! exclamou, dando com o marido. E escondeu o rosto, gritando entre soluços
– que estava perdida, desonrada, chamando-se infeliz, pedindo a morte.

– Mas, meu amor, dizia-lhe o marido. Lembra-te de que sou teu esposo! Lembra-te
de que não estou cometendo um crime!

– Deixa-me! Deixa-me! respondia Filomena desorientada, em soluços. – Fuja!
Retire-se! Já! Não quero que o vejam aqui! Vá! Vá-se embora! Siga esta mesma
noite para longe! Saia do Rio de Janeiro! do Brasil! da América! Saia, se
não quer que eu lhe de cabo da vida! Infame! Sedutor!

E chorava, desesperada, como se lhe tivesse sucedido uma grande desgraça
O marido dizia-lhe palavras de ternura, animando-a; ela, porém, não se queria
conformar com a situação, e soluçava cada vez mais fortemente.

O Borges, afinal, também se pôs a chorar. O dia veio encontrá-los numa orgia
de lágrimas.

– Aí tem a minha bela vida de casado!… dizia ele entre dentes, na ocasião
de abandonar a alcova de sua mulher. Esta, ainda em cima, o queria ver pelas
costas!… Que vida a sua! Que vida, santo Deus!

Retirou-se para o seu quarto, desesperado, e atirou-se à cama, sem se despir,
soluçando, escondendo o rosto entre os travesseiros.

Ia a pegar no sono, quando foi surpreendido por alguém, que chorava e gritava
desesperadamente ao seu lado.

* * *

Era Cecília, que acabava de entrar no quarto, dizendo a berros que o Borges
havia causado a sua desgraça; que a senhora pusera-a no olho da rua e que
ela, pobre de si! desse momento em diante não tinha onde cair morta! Que o
patrão fora a causa única de tudo aquilo! Que, infeliz que era! ia separar-se
do Roberto, do homem destinado a ser seu marido e a quem dera por conta o
seu coração e a sua ternura! E que agora…

Uma explosão de soluços sufocou-a.

– Sou muito desgraçada! berrava. – Sou muito desgraçada!

Ora, não me amoles tu também! gritou o Borges, erguendo-se da cama.

– Mas é que a senhora me despediu!

– Pois que a despedisse. Vão todos para o diabo! Eu também estou despedido
e não me queixo! Arre!

– Mas a questão é que, se eu me for embora, o Roberto será muito capaz de…

– Pois o Roberto que se vá também! Está despedido! Sou eu que o ponho na
rua!

Roberto, que escutava tudo isso atrás da porta, entrou por sua vez no quarto
e correu ao patrão, implorando-lhe piedade. – Que seria uma revoltante injustiça
pô-lo na rua! Ele! que cumpria tão bem com os seus deveres! Ele! que, por
amor dos amos, era capaz de ir às profundas do inferno! – Oh! Uma coisa assim
até bradava aos céus!

E cada um dos criados agarrou-se a um dos braços do Borges, e principiaram
ambos a choramingar, implorando-lhe compaixão por tudo que ele mais amasse
nesta vida.

– Olhem que vocês me estão fazendo um berreiro nos ouvidos! bradou o amo,
querendo arrancar-se daquela posição.

– Arre! Pois tenho também de aturar este par de galhetas?! Vão para o diabo!
Deixem-me! Deixem-me! Súcia de doidos!

E o Borges de um salto agarrou o chapéu, enterrou-o na cabeça, e ganhou em
três pernadas a porta da rua.

– Safa! Safa! dizia ele a marche marche pela calçada. – Que inferno! Isto
lá é vida!

E assim andou até às dez horas pela cidade; tonto, sem destino. furioso,
a abalroar com todo o mundo, a dar encontrões nas quitandeiras, e meter os
pés no que encontrava, a praguejar, a promover barulhos.

Num restaurante, onde entrou para almoçar, à primeira réplica do servente,
atirou-lhe com o sifão e fez voar a mesa diante de si com um soco. Um sujeito,
que a recebeu pelas pernas, desafrontou-se, arremetendo contra o Borges o
prato que tinha mais à mão.

Levantou-se grande desordem, e a coisa teria acabado na polícia, se o marido
de Filomena, depois de lançar uma nota de cem mil réis ao dono do hotel, não
distribuísse vários ponta-pés para os lados e não ganhasse a rua, levando
na sua frente todos os obstáculos que se lhe antepunham.

Chegou à casa ao meio-dia, esbaforido, aniquilado, sem querer a presença
de ninguém, disposto a fechar-se no quarto e deixar que aquela maldita vida
girasse em torno dele, como bem entendesse.

Mas o aspecto revolucionado de seu “lar doméstico” o surpreendeu logo à entrada.
Tudo estava em reviravolta. Cecília e Roberto arrastavam malas, despejavam
a roupa dos gavetões da cômoda, empacotavam objetos de uso, acumulavam trouxas.

– Que é isto? perguntou o Borges.

– A senhora deu-nos ordem de preparar o necessário para uma viagem…

– Viagem de quem?!

– Nossa não é, com certeza, porque nós já estamos despedidos

– Quem vai viajar?! Desembuchem, com os diabos!

– A senhora, naturalmente; pelo menos esta roupa é dela.

Borges subiu ao segundo andar; encontrou a mulher muito tranqüila, sentada
no divã, a ler.

– A senhora tenha a bondade de explicar que desordem é aquela lá em baixo?
Que significam aquelas malas, aqueles preparativos de viagem?!

– O que vê. Trata-se justamente de uma viagem.

– Viagem de quem?

– Minha. Vou, uma vez que o senhor não quis ir. Juntos é que não ficaremos
por coisa alguma! Não me quero arriscar a uma segunda agressão! Não posso
ficar numa casa, onde não tenho a menor garantia, onde nem o meu quarto de
dormir é respeitado!

– Mas a senhora esquece-se de que é minha esposa? A senhora não vê logo que
eu não a deixo sair assim, sem mais nem menos?…

Filomena ergueu-se em silêncio, sacudiu os ombros e retirou-se da sala.

O Borges acompanhou-a.

– Filomena! disse ele.

– Que é?

– A senhora não tencionará acabar com essas coisas por uma vez?…

– Que coisas?

– Esses caprichos! Então está sempre resolvida a fazer a viagem?

– Estou.

– Pois nesse caso irei também! Acompanhá-la-ei ainda que seja para o inferno.
Roberto! ó Roberto do diabo! Corre! arranja-me uma mala!

– Bem! Nesse caso não irei, disse Filomena, fechando o livro, que tinha entre
as mãos.

– É então um propósito firme de contrariar-me em tudo?! perguntou o marido,
trêmulo de raiva.

– O senhor é que está nesse propósito! Parece que anda inventando meios e
modos de mortificar-me! É bastante que eu mostre gosto em qualquer coisa para
o senhor fazer logo justamente o contrário! Isso prova que o senhor não me
ama! Que o senhor não deseja ter uma esposa; deseja éter uma mulher às suas
ordens! Animal! Bruto! Estúpido!

E, possuída de um violento sobressalto de nervos, atirou-se de bruços no
divã a soluçar, a morder-se.

Borges correu para junto dela; tomou-a nos braços, fê-la encostar a cabeça
no seu colo, e, com muita ternura, os olhos úmidos, começou a acarinhá-la,
a dizer-lhe todas as meiguices que lhe inspirava o amor.

– Oh! Mas para que havia de se mortificar daquela forma?… Para que se maltratar
assim? para que nodoar com os dentes aquelas mãozinhas tão formosas?… O
fato da véspera não justificava semelhante desespero! Se algum dos dois devia
estar ressentido, era ele de certo, porque…

– Não! Não! Tu procedeste como um selvagem!,.. Tu foste violento! Tu foste
brutal!

– Porque te adoro, minha vida!

– E juras que me amas?! Juras que não conheces outro ideal, outra preocupação,
que não seja eu?! Juras que serás capaz de todos os sacrifícios por minha
causa?!

– Ainda o duvidas?!

– Bem! Iremos juntos nesse caso; faremos os dois a viagem!…

– Sim, mas não é bonito, nem há razão para sairmos tão precipitadamente!

– Mau! Já principias tu com as objeções do costume!… Dessa forma não teremos
nada feito!

– Mas, vem cá, minha santa, é que não há a menor necessidade de irmos como
dois criminosos, que fogem à justiça! Para que havemos de nos sujeitar a umas
certas coisas, quando, graças a Deus, não nos faltam recursos para termos
todas as comodidades?…

– Oh! Eu mesmo faço muito caso das comodidades!…

– Sim, mas hás de confessar que…

– Ah! meu amigo! se tens medo de sair de teus hábitos, o melhor é desistirmos
da viagem! Quem quer estar a gosto fica em casa!…

– Não é isso! não é isso! Já não está quem falou! Oh! Tu também te espinhas
por qualquer coisa!…

– Pois então, nem mais uma palavra sobre o assunto, e, no primeiro vapor
que sair para a Europa…

– Estamos de partida!

– Ora muito bem!

VI – PRIMEIRA DESILUSÃO

Não obstante, o Borges ainda não se podia considerar feliz. A mulher, depois
da cena da alcova, tornou-se mais esquiva; enquanto que a paixão dele, como
se recebesse um novo impulso, recrudescia de um modo fantástico. Mas continuava
a ser o seu amante platônico, o seu namorado, disputando um sorriso, um olhar
de ternura, à custa de enormes sacrifícios.

Durante os dias que precederam à viagem, o mísero não fez outra coisa além
de procurar meios engenhosos de seduzir a esposa. Certo de que a violência
não produzia bons resultados, tentou captá-la com presentes de grande valor;
punha, a todo momento, à disposição dela, jóias caríssimas, cortes de seda
do que havia de melhor. Depois, desiludido também por esse lado, lançou mão
de outros recursos – tentou fasciná-la com a grandeza, falou-lhe em belas
posições sociais, falou no seu título, que não devia demorar muito; mas, ainda
assim, nada conseguiu: o maldito ferrolho estava, inabalável e frio, como
uma lei da natureza.

Ele, porém, em vez de sucumbir, redobrava de coragem. Procurou afinar os
seus gostos pelos dela; fazia-se triste, propenso às melancolias e aos êxtases;
apertava muito a roupa ao corpo para figurar mais magro: fingia-se poeta –
roubava os versos dos almanaques, torcendo-lhes os nomes e às vezes o sentido,
versos que ele copiava pacientemente durante a madrugada e que deixava, como
esquecidos, no seu escritório, sobre a pasta, molhados de pingos d’água, que
representavam lágrimas arrancadas do coração. Outras vezes. quando a via de
bom humor, fazia-se muito estouvado, cheio de rapaziadas, risonho, com fumaças
de estroinice fidalga.

– Creio que agora se decide o negócio!… pensava ele esfregando as mãos
– desta vez parece que vai.

Efetivamente, se tudo isso não conseguia logo a abolição do tal ferrolho,
não deixava, entretanto, de modificar as reservas de Filomena e de faze-la
mais dócil e mais chegada ao esposo. Mostrava-se agora muito agradecida às
finezas que dele recebia; mostrava-se amável e prometedora; ao jantar, tocavam
os pés por debaixo da mesa; tinham apertos de mão ligeiros e assustados, beijinhos
furtados e longos idílios ao luar, nos bancos do jardim ou debruçados no balcão
da mesma janela.

– A bordo é que eu te quero pilhar!… dizia o Borges de si para si, mentalizando
planos de ataque. – A bordo é que serão elas!

E tratou de realizar a viagem. A casa ficaria entregue aos criados.

Dias depois embarcavam num paquete francês, que seguia para Lisboa.

– Ora até que afinal!… considerou ele, quando viu a mulher já instalada
no beliche. – Ora até que afinal estou livre do maldito…

E, de fato, pelo seu ar condescendente, por sua linguagem doce e pelas maneiras
de tratar agora o esposo, Filomena parecia muito pouco disposta a morrer de
saudades pelo ferrolho.

* * *

Mal, porém, começou a caminhar o paquete, que um terrível enjôo apoderou-se
do pobre marido apaixonado e o prostrou no fundo de seu beliche, inútil e
arquejante.

Filomena não lhe perdoou semelhante coisa. Enjoar!… enjoar em sua companhia!
Oh! o Borges acabava de perder todo o prestígio que ultimamente havia conquistado!

– Mas não é culpa minha! lembrou ele, sem ânimo para erguer a cabeça.

– Reagisse! Tivesse mais domínio sobre si! Os espíritos fortes governam a
matéria! Enjoar! Oh! Shocking!

E só acalmou um pouco a sua indignação, lembrando-se de que D. Juan, de Byron,
enjoara também na primeira viagem que empreendeu. Todavia, em Lisboa, foram
ocupar aposentos separados no Hotel de Bragança.

Apenas se demorariam o tempo necessário para tratar do título e seguiriam
logo caminho de Espanha, porque Filomena declarou que aquela cidade lhe fazia
mal aos nervos.

Todo o seu ideal era a Itália; sonhava-a através das descrições que lhe depararam
centenas de romances. Queria Nápoles, com o clássico Vesúvio em plena erupção,
o seu golfo lendário, o seu famoso céu azul, estrelado de pombos.

Exigia Veneza. Veneza com todos os seus acessórios pitorescos – as suas serenatas
em gôndola, o seu palácio dos Doges, os seus romances debaixo de velhas e
melancólicas abóbadas, consagradas pelos séculos. Reclamava excursões ao Lido,
às ilhas decantadas da Laguna, a S. Lázaro dos Armênios, a Murano, a Torcelo.
Queria saturar-se bem da “filha gentil do Adriático”, mergulhar nas sombras
azuis de seus canais, onde rebrilham de espaço a espaço as competentes lanternas
dos gondoleiros; não morreria sem passar algumas horas de concentração mística
e deliciosa sob a melancólica ponte dos Suspiros. – Oh! a ponte dos Suspiros!

Depois, Gênova, “cidade de mármore!”, com a sua acumulação de palácios célebres,
seus jardins silenciosos, suas colinas fortificadas! – Oh! a Itália, a Itália
era então toda a sua ambição, todo o seu viver!

E deixaram-se os dois seguir o itinerário comum das viagens à Europa. Atravessaram
a Espanha, a ruidosa França, percorreram a Suíça, “a livre Helvécia”, como
poeticamente a classificou Filomena, e, afinal, depois de uma semana de Mônaco,
onde ela teve a fantasia de ver o marido perder dinheiro ao jogo, acharam-se
em caminho de Nice, da qual, mediante nove horas de mar, passaram-se a Gênova.

Chegaram às oito da manhã, quando um sol esplêndido punha em relevo as magnificências
da cidade de mármore. Filomena, porém, estava sequiosa de Nápoles e, como
seu vaporzinho seguia para aí, mal deu um passeio em terra, tornou a embarcar
com o esposo.

– Oh! Nápoles! Nápoles, dizia ela, entusiasmada, ao chegar à famosa cidade.
Como desejava eu viver e morrer sob o teu sol dourado, passando os dias e
as noites a contemplar o teu céu azul, o teu golfo da cor do teu céu!… E
ter perto de mim, ao alcance de meus olhos, Capri, Ischia e o Vesúvio, e essa
extensa costa, que vai de Portici a Castellamare e aos belos penhascos de
Sorrento! Ó Nápoles!

O Borges escutava essas e outras declamações com um profundo silencio de
respeito. – Sim senhor! Não fazia a mulher tão entendida em geografia!…
pensava ele, ensoberbecendo-se.

Não obstante, a romântica senhora sofreu uma triste decepção ao saltar na
desejada cidade. Não era o seu Nápoles que tinha defronte dos olhos; não o
reconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse – um certo pitoresco, um certo encanto,
que ela, por mais que procurasse, não encontrava ali.

– Não! decididamente não era aquele o Nápoles de seus sonhos! O que ela via
defronte de si era uma população agitada e desordeira, que a acotovelava grosseiramente,
obrigando-a a segurar-se ao braço do marido, o qual, por mais de uma vez,
esteve a cair com os encontrões que recebia de todos os lados.

– Safa! gritou o Borges, tonto. – Assim nem a praia do Peixe!

Sobre o cais e nas longas ruas agitadas, que vão a Chiaja, a Santa Luzia,
à rua de Toledo, ao Forte de Sant’Elmo – o mesmo formigar, o mesmo borborinho
impertinente e grosseiro.

E que confusão de pescadores, camponeses, frades, mercadores, garotos nus
e lazarones de todos os feitios e de todas as cores.

– Isto parece uma cidade de doidos! observou Filomena ao marido – isto nunca
foi Nápoles.

E aquela multidão irrequieta parecia justamente um bando enorme de doidos,
que iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos outros, metendo-se pelas
pernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a bolsa e as algibeiras com olhares
de ganância, e, às vezes, com os dedos. Vendedores d’água, de frutas e de
peixe, passavam a gritar como perdidos; burros carregados de legumes seguiam
a trote, chocalhando guizos barulhentos; transeuntes de todos os matizes sociais,
conversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a galope cortavam as
ruas, em várias direções, num estardalhaço febril de matracas, ferragens e
campainhas. E tudo, até as casas, as árvores e as pedras da rua, pareciam
gritar, mover-se, espolinhar-se num frenesi estrepitoso, sem tréguas.

Filomena declarou que estava roubada!

– Qual! Pois aquilo era lá um Nápoles! Impossível! Bem longe estava de ser
o Nápoles que ela queria – o seu rico Nápoles! – Aquele era um Nápoles de
segunda mão! Um Nápoles pulha! Antes não tivesse lá ido! Mil vezes antes!

Que lhe mostrassem as belas cenas napolitanas, que ela vira em pequena nas
litografias coloridas! Que lhe apontassem os bem conhecidos e muito pitorescos
pescadores napolitanos, com as suas Calezoni, a perna nua, a faixa e o gorro
vermelho, e o amuleto ao pescoço.

A excursão ao Vesúvio, como um passeio que fez à Torre d’el Greco, impressionou-a
mediocremente. No Vesúvio não viu erupção de espécie alguma; não percebeu
vestígios de salteadores. – A Calábria desacreditou-se para ela. Nada encontrou
de tudo aquilo que reclamava a sua terrível sede de comoções

– Experimenta a tal Pompéia! aconselhou o marido, incomodado por vê-la contrariada.
Pode ser que te dês bem… E lembrou também Herculanum, de cujo nome não se
recordava.

– Qual Pompéia, nem qual histórias! respondeu a mulher furiosa contra os
seus poetas e romancistas. Canalhas! Súcia de empulhadores!

E, muito indignada, abandonou Nápoles, para tomar a direção de Veneza, à
qual sua imaginação insistia em agarrar-se como a um recurso extremo.

Mas a bela filha do Adriático, a pátria do amor e do arrepio, a sede da comoção
e da poesia, a cidade dos palácios de abóbadas mouriscas a terra, enfim, das
patrícias apaixonadas, também não correspondeu à expectativa de Filomena.

Lá estava a ponte triangular do Rialto; o cais dos Escravos; as cúpulas de
S. Marcos; os indispensáveis pombos; as ramalheteiras, que vendem flores aos
estrangeiros; os oficiosos cicerones; os gondoleiros, encapotados como monges,
que passeiam tristemente por baixo das pontes; lá estava tudo isso de que
constavam as notas de Filomena, mas, valha-me Deus! – nada a satisfazia, nada
a saciava, nada correspondia ao que ela julgara encontrar, nada realizava
o que anteviera nos seus sonhos cheios de impaciência e de sobressalto.

Passearam em carruagem de Burgano a Leco, sobre as margens do lago de Como;
foram depois a Menaggio, na margem oposta, e daí partiram resolutamente para
a calma Suíça, fartos de Itália, cujos nomes de grandes e pequenas cidades,
aqueles mesmos que dantes arrebatavam Filomena e lhe punham no espírito uma
nostalgia doce e melancólica, já nem ao menos tinham para ela a mesma sonoridade
de então. Livurnia, Cività-Vechia, Chija, Bellinzona, Ischia, Gaeta, nada,
nada possuía já o primitivo encanto!

E um grande vácuo abriu-se nas suas aspirações; um de seus sonhos acabava
de esfacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E Filomena, desde que
se convenceu de que, se quisesse a comoção e a aventura, tinha de prepará-las
por suas próprias mãos, caiu num estado sombrio de atonia e desânimo.

O Borges, sobressaltado com essas tristezas, procurava cercá-la de mil cuidados,
fazia-se meigo, muito seu camarada, seu amigo, adivinhando-lhe as vontades,
correndo ao encontro de seus caprichos.

– Que tens tu, meu anjo, minha vida? Fala! Conta-me tudo.

Ela, em vez de responder, atirava-se-lhe nos braços e escondia entre soluços
o rosto no peito dele.

VII – O RAPTO

Mas, uma noite, achavam-se então em Sevilha – sultana do Guadalquivir – como
lhe chamava Filomena, sempre fecunda nas suas paráfrases poéticas; Borges,
familiarizado já com os gostos românticos da mulher, resolveu pôr de parte
uns certos escrúpulos e assaltar-lhe o quarto pela janela.

– Era impossível que Filomena resistisse ao encanto de uma violência tão
pitoresca!…

Moravam em Triana, num modesto e confortável hotelzinho. A caprichosa, segundo
o louvável costume, exigira que o marido alugasse dois quartos bem separados,
e não teve grande empenho em declarar-se casada; ao Borges, por outro lado,
também não convinha dizer a verdade, receioso de que esta o tornasse ridículo
aos olhos de todos, como havia já sucedido em várias partes.

O terno marido, depois de bem estudar o seu plano de ataque, tratou de realizá-lo.
Vestiu-se como os do povo, arranjou uma escada e, logo que só ouviu em todo
o quarteirão a voz longínqua dos serenos, meteu mãos à obra.

E, com certeza, teria obtido o melhor êxito, se alguém, que o vira tentando
penetrar de um modo tão suspeito no hotel, não fosse denunciar o fato aos
tais serenos, que sem demora acudiram armados de suas lanternas e de seus
chusos.

Houve escândalo; reuniu gente, e o Borges escapou de ser catrafilado, graças
à lógica de sua algibeira, que conseguiu provar ao honesto estalajadeiro a
conveniência de arranjar-lhe em menos de dois minutos um esconderijo no próprio
hotel.

Por esse tempo, Filomena, tendo chamado em vão pelo marido, e talvez até
desconfiando ser ele o autor do malogrado assalto, exigia do oficial de ronda
(estavam em épocas revolucionárias) que lhe deparasse um lugar decente, onde
uma estrangeira honesta ficasse ao abrigo do primeiro malfeitor, que lhe quisesse
entrar pela janela.

O oficial tinha família e pôs a sua casa à disposição da queixosa, até que
o juiz designasse, com as devidas formalidades, o sítio onde ela devia ser
depositada judicialmente.

O fato ganhou logo circulação no bairro e, à falta de esclarecimentos verdadeiros,
Inventou-se toda sorte de legendas. Uns juravam que Filomena não era mulher
e sim um grande sonso que namoriscava a esposa do oficial e usara daquele
expediente para ir ter com ela; outros afiançavam que a tal estrangeira era
pura e simplesmente uma cocotte, sequiosa por chamar sobre si a atenção do
público; outros lhe atribuíam intenções políticas. Este notara que ela trazia
no corpo as mais belas jóias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no colo
brilhantes de um tamanho fabuloso; aquele protestava que nunca ouvira uma
voz tão estranha e todavia tão melodiosa como a dela; outro dava a sua palavra
de honra em como a tal sujeitinha era de uma formosura e de uma graça, que
nem as virgenes de Murilo.

Porém a opinião mais seguida rezava que a encantadora e misteriosa estrangeira
era nada menos do que a filha de rico negociante português, de cuja companhia
desertara por não querer casar com um fidalgo velho e debochado que o pai
lhe impunha. Pelo menos era esta a versão que mais se compadecia com o que
noticiavam a esse respeito os jornais do dia seguinte:

“GRANDE ATENTADO CRIMINAL, dizia um. A noche a las doce poco más o menos
um malhechor de los muchos que infelizmente ínfestan esta hermosa ciudad,
intentó introducirse por la ventana de una de nuestras mas acreditadas fondas,
com ei fin perverso de raptar una joven extrangera que ali residia esperando
su anciano padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar
por motivos fáciles de comprender.

La belia nifia, que casi fue víctima de tanta atrocidad, hallase, a su ruego,
depositada em casa dei oficial Sr. D. José Nuflez, hasta que eI competente
juez decida de su destino.

Debido aí delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la seflorita
aludida aun no ha podido explicar los pormenores dei crimen dei cual fue objeto.

El malvado desapareció, pero la policia emplea todos los medios para alcarzarlo
y cremos que sus esfuerzos no seran defraudados.

A medida que nos lheguem nuevos pormenores los transmitiremos a nuestros
lectores.”

Outros jornais iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas considerações
sobre o fato estranho de se achar “desacompanhada num hotel já por si suspeito
(o dono do hotel era federalista e o jornal apoiava o governo) uma senhora
tão distinta, tão bem tratada e com todas as aparências de donzela! Não estaria
aí a ponta de algum importante enigma político?… Em épocas de revolução
é preciso desconfiar de tudo e de todos”.

Estas notícias excitaram a curiosidade geral. Não faltou quem deixasse de
enxergar no misterioso homem da escada um malhechor ordinario – como diziam
algumas folhas, e atribuir-lhe fins de grande alcance político.

O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, não lhe
podia passar despercebido que o seu misterioso hóspede usava um lenço de seda
encarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o lenço; não podia deixar
de notar que nas caixinhas de fósforos do seu protegido encontrara sempre
o retrato de alguns dos chefes dos cantões – encontrou o retrato do general
Contreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Grulíleu.

– Não há dúvida! pensou ele. Não há dúvida que o homem é dos nossos!

E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligionário
gastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o incógnito
em que se fechara esse homem, estrangeiro sem dúvida, mas estrangeiro amigo
e respeitável, não vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa
federal, e resolveu pôr-se discretamente ao seu serviço.

– Talvez, quem sabe?… considerou o cantonalista com os seus botões. – Mais
tarde, quando subirem os nossos homens, isto até me venha a render um lugar
importante na política!

E foi logo ter com o Borges.

– Cidadão! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de
refugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!…

Borges recuou de boca aberta.

– Descanse! volveu o outro em tom de mistério. Pode ficar tranqüilo! Não
tem de que temer aqui – eu sou seu correligionário.

– Mas, senhor! … ia a protestar o Borges.

– Nem quero que me diga quais são as suas intenções – as intenções de um
cantonalista são sempre as melhores!

O que eu desejo é saber em que lhe posso ser útil! Tenha confiança em mim
e fale com franqueza.

E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete frígio, que ele possuía para
as ocasiões de levantamento, meteu-o na cabeça e perfilou-se defronte do Borges.

– Bem vejo, bem vejo!… respondeu este, compreendendo a situação e hesitando,
na qualidade de homem sério, se devia ou não aproveitá-la em seu favor. Bem
vejo, mas…

E franziu o sobrolho. – Era o diabo! Aquilo não lhe podia ficar bem!…

– Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento.
Fui indiscreto!…

– Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui
um inimigo!…

– Este federal é chefe com certeza de algum cantão! disse consigo o estalajadeiro.
E sabe Deus qual não será a importância de sua presença por estas alturas!…

– Em todo caso… acrescentou o Borges, tomando uma resolução, não me despeço
de seus favores, talvez precise deles.

E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:

– Preciso fazer chegar uma carta às mãos daquela senhora que…

– Já sei; de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha
portuguesa. Bem tinha eu cá um pressentimento!… Preparai o amigo a carta,
que eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver
mais cinco companheiros, tão bons como eu, com os quais podemos contar para
a vida e para a morte!

– Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.

E logo que terminou a carta, chamou o seu correligionário, e entregou-lha
juntamente com algumas libras esterlinas.

O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnegação
heróica. E, com tão boa vontade se pôs em ação, de tal modo providenciou as
coisas, que pouco depois uma correspondência cerrada se estabelecia entre
o Borges e a mulher.

Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido,
nas frases mais poéticas que conseguiu arranjar, suplicava à esposa que desistisse
do abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos
daquela maldita cidade, que só lhes trazia canseiras e dissabores.

Filomena, porém, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido,
mas não queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.

“É inútil insistires”, terminava a visionária, em seguida a uma exposição
minuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcançá-la.

“Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro
amor não conhece dificuldades! Não encontra obstáculos quando se precipita
em torrentes vertiginosas de um coração apaixonado! Vem! Vem conquistar-me
à força de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida e
eu serei tua, eu viverei para beijar os grilhões com que me prenderes ao teu
destino! Tua, F.”

O Borges ficou irresoluto, coçou a cabeça, passeou longas horas com as mãos
cruzadas atrás. – Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: – ter de perpetrar
um rapto! Eu! – Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabeça a idéia
de casar! Ah! que se não fosse a esperança de que as coisas não durarão neste
belo gosto por muito tempo, eu… eu nem sei o que faria!…

Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situação
que o tornava ridículo aos seus próprios olhos, deliberou fazer a vontade
à mulher. – Já agora seria o que Deus quisesse!…

* * *

Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das intenções do seu ilustre
protegido, tratou de dar as providências para o rapto.

Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profissão
que exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem
do raptor pela maneira que mais convinha à conjuntura, isto é, reduzindo-a
o melhor que pôde, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria
a boléia; e, depois de erguer com os outros vários brindes ao Cantonalismo,
à Espanha, à Liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratidão que
o Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos
a caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a última gota de sangue
em prol da gloriosa empresa que cometiam.

E quem os visse, tão formidáveis nos seus capotes de conspiradores, os colones
convictamente puxados sobre a orelha, os gestos ameaçadores e trágicos, não
seria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ninguém
senhora de seu nariz.

Filomena, ébria de prazer com a idéia de ser furtada, palpitante de comoção,
fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando incômodos para
dissimular os seus projetos de fuga.

À meia-noite, chegava o terrível grupo dos conspiradores, acompanhando o
coche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicadíssima. Borges
separou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão
armada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. Não
foi difícil, porque, felizmente, o portão achava-se apenas encostado.

Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de
metal e apitou devegarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clarão da lua,
apareceu o vulto romântico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos,
os braços nus.

– Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as mãos à boca em forma
de porta-voz.

– Trouxeste a escada?… perguntou Filomena no mesmo tom.

– Trouxe. Arreia o barbante.

– Aí vai.

– Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cordão.

Filomena daí a pouco lançava-se nos braços do marido, a exclamar: – Fujamos,
meu amor! Fujamos!

– Não grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!

E, com efeito, alguém abria já uma janela.

– Estamos perdidos! bradou a fugitiva.

O Borges, porém, havia já alcançado a rua com a mulher nos braços, quando
o sujeito da janela berrou com uma voz de trovão:

– Ó da guarda! Ó da guarda!

Ouviu-se um estardalhaço de portas que se abrem precipitadamente fechaduras
que rangem e vozes que se altercam.

Mas Filomena, trêmula e sobressaltada, achava-se já dentro do carro, ao lado
do raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.

Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de
gritos e de apitos, simulavam uma alteração na rua, atraindo sobre si os serenos,
que acudiam de vários quarteirões.

O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-del-rio.
A cidade desaparecia atrás deles, vertiginosamente. Mal avistavam já o cume
quadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.

No fim de três horas de carreira, penetravam no campo.

– Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo não seremos alcançados!

– Ao contrário, respondeu o estalajadeiro, o campo e menos favorável à fuga,
porque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.

Não tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.

– Quem vai lá?! gritou um deles.

O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em
direção contrária ao lugar donde vinha aquela voz.

– Alto! gritou o guarda campestre.

Novas e mais fortes chicotadas.

– Faça alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.

O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do
campo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a
frente, sobre as coxas.

Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois
outro; mas as bestas não afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras
de um olival que nascia a algumas braças daí.

– Ânimo! gritou o intrépido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos
livres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!

E fustigou as bestas com energia.

Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito,
que aterrou os companheiros. Na sua precipitação, invadira, sem dar por isso,
as terras de um tal marquês de Saltilio, e agora, auxiliado pela aurora, que
ia repontando, via-se no meio de uma vasta dehesa, cujos touros gozavam da
fama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.

– Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de
medo, espiavam pelas portinholas.

– Que é?! perguntaram.

– É que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando
de fugir ao perigo.

A dehesa era enorme, estendia-se até muito longe; nessa ocasião, por felicidade,
os touros achavam-se entretidos para o lado contrário ao do carro, e o estalajadeiro
não precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes fariscando logo o risco
que corriam, abriram a rinchar e, mau grado da fadiga, desembestaram para
as bandas do campo.

Ma]ditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando
a cabeça nas pernas dianteiras, corria assanhado na direção do carro.

O federal chicoteou os cavalos com toda a força e o pobre coche rodou por
entre o mato como uma bala perdida.

– Anda! Anda! berrava o Borges de pé, a tocarolar as costas do cocheiro.
– Olha que o diabo do bicho aí vem!

Com efeito, o touro perseguia-os na distância de uns cinqüenta passos.

– Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que há é lutar.

Mal terminava essa frase, quando se sentiu decair com o marido para a direita;
uma das rodas do carro estava por terra, em pedaços.

– Jesus! fez ela, agarrando-se à portinhola.

– Já aí vem o conocedor e já ouço o chocalho do cabestro. Estamos salvos!

De fato, três homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham
com os seus cajados em punho à pista da rês que se desgarrara da dehesa. O
touro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e
foi humildemente emparelhar-se ao cabestro.

– Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre
carro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!…

Felizmente já não estavam muito longe da estação de Lora, e o Borges, se
não quisesse tomar aí o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde
com facilidade arranjaria meios de condução para o lugar que melhor entendesse.

Mas Filomena declarou logo que não se sentia disposta, por coisa alguma,
a passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. Não foi para
isso que viera à Espanha! Queria um sítio pitoresco, ignorado, poético, silencioso…
O marido que tivesse paciência; ela, porém, não descansaria antes de encontrar
um lugarzinho nessas condições.

– Pois tranqüiliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu
o Borges. Já agora, com mais um empurrão leva-se a caixa ao porão!

Durante esse diálogo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais
com a bagagem dos fugitivos. E os três, seguidos das cavalgaduras, puseram-se
corajosamente a caminho, dispostos a não acampar, sem terem descoberto o tal
sítio indispensável para os amores de Filomena.

VIII – ENFIM

Foram dar com os ossos a Cordova, num destroço de castelo árabe, construído
à margem de um braço do Guadalquivir, ainda nos tempos do domínio muçulmano,
e em cujas ruínas se aboletavam agora os pescadores do lugar e um ou outro
gitano, que a fome e a fadiga trouxessem de rastros até aí.

Filomena ficou arrebatada; confessou que o lugar não podia ser melhor para
uma lua de mel e resolveu instalar-se nas ruínas.

– Que?! exclamou o Borges, assustando-se. Ficar aqui?! Ficar neste covil
de vagabundos?!.. – Ora, qual! A mulher com certeza estava gracejando!

– Não! disse ela, sem se alterar, não gracejo, nem admito que te queiras
fazer insensível a estas magnificências do belo! Olha! Contempla estas abóbadas
lascadas, tudo isto é maravilhoso! Onde mas tu descobrir um lugar mais propício
aos nossos amores?…

Borges ainda tentou despersuadi-la de semelhante idéia. Opôs-lhe os mais
sensatos argumentos, apresentou-lhe com todo o peso de seu bom senso os inconvenientes
que os esperavam – o sol, a chuva, os mosquitos, os insetos venenosos, talvez
a morte nas mãos daqueles bárbaros! Filomena que pensasse um instante, que
refletisse um momento, antes de dar aquele passo! porém, nada obteve – a mulher
não cedia uma polegada; e o infeliz, disfarçando o seu desgosto e auxiliado
pelo cantonalista, procurou entrar em bom acordo com os pescadores.

Tudo arranjado pelo melhor que foi possível, o estalajadeiro descansou um
pouco, depois embolsou a recompensa de seus trabalhos e a indenização de seus
prejuízos, abraçou o suposto correligionário, jurou ainda uma vez que estaria
sempre disposto a derramar a última gota de sangue pela pátria, e afinal retirou-se.

O Borges então cuidou de resignar-se às circunstâncias. Aquele capricho da
mulher não poderia deitar muito longe! … Que a deixassem lá com as suas
ruínas, o primeiro pé d’água que caísse havia de ensiná-la!…

Contudo, aí ficaram três semanas, expostos ao sol e ao sereno, quase ao relento,
alimentando-se sabe Deus como, e dormindo sob as velhas abóbadas lascadas
e cheias de verdura. Felizmente tinham consigo alguma roupa, uma boa mala
e ainda bastante dinheiro.

Foi aí, nesse canto ignorado da velha Espanha despojada, ao ciciar das brisas
do Guadalquivir e à sombra murmurosa dos gigantescos loureiros e dos sicômoros,
que Filomena se identificou pela primeira vez com o marido. E fê-lo sem a
mais leve reserva, nem o mais ligeiro rebuço, chegando até a amá-lo com transporte,
com delírio, chamando-lhe “seu raptor, seu amante!” Refugiando-se nos braços
dele, cheia de ternura e de medo, unidos, sobressaltados, como dois criminosos
que ardessem na chama da mesma paixão clandestina,

O bom homem não desejava melhor; “assim não fosse ela tão caprichosa”!

Filomena agora o obrigava a longos passeios por entre canaviais bravios por
entre matagais de cactos, escolhendo lugares difíceis, quase intransitáveis,
onde às vezes era preciso que ele a carregasse nos ombros para vadear pequenos
regatos, coalhados de nenúfares, ou levá-la ao colo pelo meio de barrancos
perigosos, cobertos de limo e salsas espinhosas. Outras vezes lhes sucedia
perderem-se, e os dois tinham de descansar sobre a relva, sofrendo sede e
fome, sempre foragidos, evitando as vistas de quem quer que fosse, como se
fugissem de inimigos implacáveis.

Borges, temendo contrariá-la, submetia-se a tudo isso de cara alegre. Fingia
desfrutar o mesmo encanto que ela desfrutava; fazia-se entusiasmado pela natureza,
amando as águas do regato, admirando os passarinhos, correndo atrás das borboletas
e deitando-se de bruços à beira do rio; o queixo na palma das mãos, a balbuciar
versos; os olhos perdidos no serpentear monótono da corrente.

Mas no fundo sentia-se muito mal à vontade e extremamente contrariado. –
Por que não havia sua mulher de ser como as outras?… Seria tão bom que os
dois, àquela hora, estivessem gozando juntos, numa boa casa, em plena segurança
e em plena dignidade do lar, a mais completa e a mais doce felicidade a que
tinham direito por todos os motivos! Oh! ele, porém, amava-a tanto, tanto,
que seria capaz de todos os sacrifícios para vê-la alegre e satisfeita! –
Além de que, Filomena com o tempo havia de mudar de gênio!… Estava ainda
muito moça, muito cheia de fantasias, porém tinha o principal, que era – boa
índole e bom coração.

E ele subordinava-se, abafando os seus ressentimentos, sem um olhar de queixa,
sem um gesto de desgosto, sem nunca desmentir aquele bom humor primitivo,
aquela mesma condescendência delicada e simples, aquela mesma extrema amizade,
leal e generosa.

Mas os caprichos de Filomena multiplicavam-se a cada momento. Era já a idéia
de acompanhar os pescadores ao rio, à noite, munidos de archotes e vestidos
como eles; era já a fantasia de uma caçada pela Serra-Morena, em horas de
calor, ou então a mania de uma pastorada nos vales sombrios e pacíficos, acompanhando
o gado, a cantarem de mãos dadas pelas ribanceiras, ou então deitados na grama,
nos braços um do outro, à espera que o sol acabasse de descer no horizonte
a sua escadaria de fogo.

* * *

De repente veio-lhe uma febre de viajar – viajar muito, sem destino, não
pelas cidades muito conhecidas e palmilhadas cotidianamente por centenas de
estrangeiros taciturnos, encapotados nos seus ulsters, de binóculo em bandolin
e chapéu de sol encapado de verniz. – Não! nada disso! Queria lugares totalmente
imprevistos, que ainda não tivessem sido muito decantados pelos poetas como
a “sua Itália” e que lhe deparassem comoções inesperadas. – Queria os verdadeiros
perigos, as fadigas dos desertos arenosos, a cólera dos simouns, o risco das
florestas virgens, as jornadas por ínvios sertões desconhecidos, os horizontes
eternos e as longas noites perdidas nos cumes silenciosos das montanhas, ouvindo
o sanhudo sibilar dos ventos e os roncos desesperados das feras que tem fome!

O Borges sentiu um calefrio percorrer-lhe o corpo inteiro ao receber dos
lábios da mulher aquela terrível sentença.

– Precisamos de uma vida mais agitada! explicou ela, vendo o gesto surpreso
do marido.

– Mais agitada?!… ….. – balbuciou este.

– Sim! mais agitada! Sinto-me morrer de inanição! Basta de repouso! É preciso
dar começo a uma nova existência!

O Borges esteve a perder os sentidos.

– Pois agora é que ia principiar o exercício?! pensou ele numa verdadeira
vagabundagem?!… Mas então que não será ela?! – Se até aqui descansei, qual
não será minha pobre vida de hoje em diante?!…

Filomena não percebeu o sobressalto do marido, porque estava já a cismar
no Oriente.

Julgava-o numa desordem de impressões recebidas de Antony Rich, René Menard
e principalmente de Lady Anna Brunt, cuja originalidade e cujo espírito másculo
a fascinavam. Não lhe era estranho também o Dicionário Arqueológico de E.
Bosc e por mais de uma vez folheara o itinerário do Dr. Emilio Isambert.

Com todo esse combustível a fumegar-lhe dentro da cabeça, via-se já dentro
das muralhas venerandas de Jerusalém; sonhava o consagrado Sinai, a Abissínia,
Malta, a Núbia e – o Egito.

O Egito! o longo e tortuoso Egito, cheio de passado e reslumbrante de tristeza.

Imaginava-se já de sandália e bombachas de brocado, assentada á japonesa
no dorso empírico de um camelo, ao lado do Borges, que sumido no seu albornoz
característico, as mãos esquecidas sobre o adequado kandyjar, e também de
canelas em cruz, toscanejava orientalmente sobre o macio shedad. A imitação
de sua querida Lady Brunt, sentia-se já preada por um formidável ghazú e conduzida
aventurosamente ao castelo de Djot.

No dia seguinte, estavam de partida.

IX – VÔOS ALTOS

Desde então, foi um peregrinar sem tréguas.

Viram muito, atravessarem regiões inóspitas, extensões selvagens, participando
de caçadas temerárias, fazendo léguas sobre elefantes, experimentando o enjôo
de mil paquetes, a indiferença de mil povos diversos a monotonia das cidades
desconhecidas, a dura insociabilidade dos hotéis e o tempestuoso embate de
todas as paixões humanas.

E Filomena Borges tomou notas, escreveu memórias, fez apontamentos, criou
gosto pelas investigações, pelo estudo; enfim, tornou-se filósofa e sentiu
necessidade de compendiar em volume as impressões que recebia.

“O Egito”, contava ela depois de longas considerações filosóficas, “desenrolou-se
debaixo de meus pés, triste como um sudário. Ajoelhei-me com o meu companheiro
(o companheiro era o Borges) defronte dos Spéus arruinados de Ibsambul e dos
esborcinados templos d’Efu! Percorri os imensos labirintos subterrâneos de
Silsilis, o templo d’Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei
a esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma
de granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra
fitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera!
Que esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu
olhar imóvel de pedra?!”

“Minhalma”, afirmava ela em ponto das memórias, “como que se dilatou ao sopro
embalsamado das melancólicas lendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos
no espaço, os últimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e
o cântico venerando dos escribas reais…”

Ouvisse ou não ouvisse, o fato é que, uma vez, depois da costumada excursão
pelas ruínas, ela tomou de repente as mãos do marido e perguntou-lhe em segredo,
com a voz trêmula de comoção:

– Meu amigo, não sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste
vasto e profundo azul do deserto? …

O Borges vergou a cabeça para o lado donde vinha o vento, concheou as mãos
nas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por
condescendência. – Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa – assim como unia
espécie de zunido! – Que vinha a ser isso?… perguntou ele, estimulado pelo
olhar estranho da mulher.

– É, respondeu Filomena muito grave – é a alma errante do passado que chora
as suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos
salmos das adoradoras de Hathor!

– Ah!… fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.

* * *

E, enfronhados nas suas roupas egípcias, já iam aquelas duas almas perdidas,
a jornadear dia e noite, de sol a sol, de ruína em ruína; ela em busca de
comoções; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus
de instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terrível mania
de andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto
feliz e calmo de sua terra.

Contudo não se revoltava, nem lhe fugia às mais caras exigências. Na ocasião
em que visitavam a quase extinta Menfis. ela mostrou desejos de que o marido
chorasse defronte do colosso mutilado de Ramsés II, que jazia estendido na
areia e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram
no Luqzor, à margem direita de Tebas “a cidade de cem portas, decantada pelo
sublime cego de Smyrna” como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre
homem já estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, não admitiu que
se esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse
suma atenção às maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.

– Sabes?… disse-lhe ela> atravessando com um passo solene o corpo principal
do despojado templo de Luqzor – foi daqui que o solitário de Santa Helena
levou o obelisco que orna hoje a praça da Concórdia, em Paris!

– Boa pedra para construção! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta
ferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas
de Secos. Boa pedrinha! Isto deita séculos!

Felizmente, a mulher não o ouvia, graças ao encanto melancólico daquelas
relíquias, que a arrebatavam para as épocas esplendorosas de Sesostris e a
faziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental
de Tebas,

Neste dia, não houve um momento de descanso. Filomena não tinha ânimo de
abandonar as ruínas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. – Oh!
Ó Karnak! Ó Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os monólitos
gloriosos de Amenhotep III !

No fim de cinco horas de êxtases e exclamações desse gênero, o Borges cujo
estômago reclamava os seus direitos disse, batendo-lhe meigamente no ombro:

– Não te apetece agora uma costelazinha com batatas?… Creio que não será
mal lembrado… hein?…

– Não! disse Filomena, repreensivamente. – O que me apetece neste instante
é o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prodígio de sete séculos
valerá sempre mais alguma coisa que uma costeleta!…

– Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto já a seguir
a esposa, sem o menor vestígio de oposição.

Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe a miúdo dos lábios.

– Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus botões. – Triste
fado!

E lá ia caminhando, de cabeça baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico
e o da mulher.

* * *

O desgraçado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrinação
pelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babilônia, na qual, segundo vagas
recordações de Herôdoto e Deodoro de Sicília, pensava encontrar panos para
as mangas nas estátuas de ouro e nos palácios de Korsabad e Nemrod e nos baixos
relevos e nos caracteres da escritura assíria.

Ah! só encontrou de tudo isso indícios, quase apagados – ruínas e deserto!
sempre o deserto! sempre o deserto!

Veio-lhe então a idéia de recorrer à Grécia. “aí com certeza encontraria
alguma coisa; pelo menos os sublimes destroços do Acropólio, do Partenon,
do Agora!”

Já vejo que não é tão cedo que isto acaba!… considerou o Borges, quando
a mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Argólida.

E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almoço no tesouro de Atréus
como fizera seu padrinho!…

– Que padrinho é esse? perguntou o Borges.

– D. Pedro II, o nosso imperador.

– Ah!…

Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava destinado
a exercer na sua vida!…

– Bem! disse o Borges, depois do passeio à Grécia. Agora, creio que basta
de ruínas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena,
as saudades que tenho de meu querido Paquetá!… Aquilo, sim, é que é terra!
Estou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar…
Que bom, meu Deus! que coisa boa1….

– Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois nós havemos de voltar sem conhecer a
Índia?!… A fanática! A terra das superstições brutais! dos faquires sobre-humanos!
A Índia, com todos os seus formidáveis budas! A Índia, com o seu Both-Jattrá,
essa deslumbrante festa dos carros! Oh! não! isso seria impossível!

O Borges empalideceu.

E depois da Índia, acrescentou ela por que não um pouco da Arábia, onde faremos
belas peregrinações ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares,
estudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas
de ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasião de apreciar os dançados
das donzelas de Shakik?!… E a África?! A África então?! Esquecia-se o Borges
de que a África era a única paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar
regiões desconhecidas? E, além disso, não valeriam a pena de alguns passos
as famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, tão estimada pelos
naturalistas?! E as caçadas dos elefantes pretos nas terras dos Aponos, e
a caçada dos leões de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!… Acaso não reconhecia
o Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!…

– Lá se vai tudo quanto Marta fiou!… disse o pobre homem, gemendo debaixo
daquele bombardeamento.

Mas não reagiu. E, no fim de algum tempo; ia-se já habituando ao viver boêmio
que a mulher lhe impunha. Dócil, como era, para escravizar-se aos hábitos,
afez-se pouco a pouco àquele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir
Filomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho
sobre o nariz.

X – DE VOLTA A PÁTRIA

E assim se transformava completamente sem dar por isso. Não parecia o mesmo;
sabia montar a cavalo, atirar várias armas, bater-se em duelo, andar em velocípede,
correr no gelo, jogar o soco e a bengala e até servir-se do terrível bowie-knife
de dois gumes.

E no fim de algum tempo, quem o visse à tolda de um paquete inglês, numa
dessas madrugadas cor de pérola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chapéu
ao lado, a toalha caída sobre as costas, o bigode retorcido, monóculo no olho,
binóculo a tiracolo, e tão pronto ao prazer como ao perigo, lépido, terrível,
namorador; quem o visse – seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo
Borges, aquele pacato João Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas
comerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de
suas calcinhas de brim mineiro?!…

Onde iria já o casto, o puro, o doce João Touro do outro tempo?…

As repetidas viagens, o atrito com as populações estranhas, a familiaridade
com os costumes de mil povos diversos, a experiência das comoções transcendentes,
deram-lhe grande desembaraço aos movimentos, certa elegância máscula, de trappeur,
que de alguma forma dizia bem com os seus músculos atléticos. Agora tinha
exclamações em todas as línguas, anedotas de toda a espécie, termos e frases
de todo o mundo. E as correrias, os exercícios, os perigos, fizeram-no intrépido,
aventuroso, despejado de maneiras, enérgico como um herói do romantismo.

Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do espírito
acabara por dominá-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara
alegre certos prazeres delicados, como a música dos clássicos, a conversa
sutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas
misteriosas da arquitetura, os primores de estatuária e o valor dos quadros
célebres.

Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho
do Syena – boa pedra para construção! – Quem o diria?…

Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insistência;
as mulheres descobriam-lhe já na elegância do todo e no espírito da conversa,
pretextos de amor e elementos de sedução.

De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado
em tudo; descobriram-lhe novos dotes e novos defeitos, porém estes em número
muito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e más ausências.

O Borges, o querido Borges, que até aos quarenta anos não conhecera o gostinho
de uma inimizade sequer, ficou pasmado quando, alguns dias depois de sua chegada
à pátria, começou de redominhar em torno dele um enxame de maledicentes, que
o intrigavam, descompunham e malqueriam, tecendo intrigas, publicando mofinas,
remetendo-lhe cartas anônimas, cheias de injúrias, procurando covardemente,
por todos os meios e modos, injetar-lhe o fel e a amargura no coração, como
se, ofuscados pelas aparências, não pudessem admitir um tão completo exemplo
de felicidade. As injúrias versavam principalmente sobre o caráter da mulher.

Então um desgosto sombrio principiou a persegui-lo; abominou a pátria – esse
covil de maus e de invejosos – qualificou ele, revesando o seu tédio!

Em breve, qualquer maledicência a seu respeito, que lhe chegava aos ouvidos,
punha-o num estado lastimável de irritação. E, no despenhadeiro de seu azedume,
tudo foi aos poucos lhe parecendo mau e mesquinho; chegou a desconfiar da
mulher; e supô-la sem amor, sem gratidão, capaz talvez de uma deslealdade;
suspeitou de todos que o cercavam, detestou a sociedade, e, por não encontrar
sobre quem descarregasse diretamente o seu ressentimento, bramou contra o
atraso do Brasil, contra a falta de distrações, contra a ignorância geral
do público, contra a incompetência dos poderes, contra toda a “podridão social
enfim”!

Uma terra de bugres! dizia e repetia ele aos amigos, que o visitavam todas
as noites. Uma terra de bugres! Aqui, um homem, para não morrer de tédio,
para divertir-se um bocado, precisa atirar-se aos vícios, ou não sair de casa!
– País de lama!

E para esquecer-se de seu desgosto, jogava.

* * *

De resto, o governo português acabava de o fazer barão de Itassu, e o Rio
de Janeiro fariscava em torno de sua casa, atraído pelo som da música e pelo
barulho dos pratos.

A casa! A casa, ou antes o museu do Borges, que outra coisa não era esse
ninho de raridades de que se falava em toda a Corte, dessas magnificiências
do luxo antigo e moderno, desses ricos objetos da arte de todos os tempos
e de todas as paragens. A casa transformara-se, como o dono.

Tudo foi reformado. Exibiram-se novos trastes, novas cortinas, tapeçarias,
peles, cachemiras, bronzes, faianças, cristais, porcelanas, quadros, estatuetas,
aquários, álbuns, mosaicos, vasos florentinos, lustres de vermeil, espelhos
venezianos talhados à bisseau, cariátides de Jean Goujon, servindo de peanhas
a esculturas de Germam Pilou, e uma variedade interminável de tetéias e relíquias,
que a baronesa colecionara por todo o mundo. Expuseram-se velhas cadeiras
com espaldar e assento de couro de Córdova, lavrado, e tacheado de metal amare]o;
leitos à Renascença de colunas retorcidas e métopes talhados em madeira fusca;
jarras do Oriente, sarapintadas de hieróglifos; objetos preciosos de marfim,
manufaturados na China; molduras delicadíssimas de porcelana, a Luiz XIV,
representando grinaldas coloridas; consolos de brêche-antique, sustentados
por delfins de olhos e barbatanas douro, luzido; sem contar as otomanas asiáticas,
os divãs, os fauteuils, as etagères de xarâo, de palissandra, de ébano; enfim
o que podia haver de raro, de singular, de extraordinário. Não era uma casa,
era um prolongamento do Hotel Cluny. Cada objeto, cada móvel, cada peça representava
uma época, um reinado, uma escola.

Mas o barão, quando ficava a sós no meio de tudo isso, sentia-se acabrunhar
por uma espécie de remorso; afigurava-se lhe fugir debaixo dos pés o chão
sólido e áspero do dever, para dar lugar aos tapetes felpudos e voluptuosos;
parecia-lhe ouvir uma voz austera, que se levantava de tudo aquilo para o
argüir e reprovar.

– Pois foi nisto que esbanjaste o teu dinheiro, João Borges?!… Foi nestas
quinquilharias que enterraste essa fortuna, que teu pai, à custa de tanto
sacrifício, conseguiu juntar para ti, insensato? Perdulário! … E agora vão
ver!… Tudo por que? – Porque o pedaço d’asno adora cegamente uma mulher,
um demônio, a quem se entrega de corpo e alma e que faz dele o que bem entende,
sem talvez lhe dedicar um pouco de afeição, pois, se dedicasse não seria a
primeira a cavar-lhe deste modo a ruína!… Oh, sim! dizia o infeliz, deixando-se
cair em uma de suas cadeiras preciosas. – Oh, sim! sou um miserável, mas amo-a
tanto! adoro-a tão extremosamente, que ainda seria capaz de muito mais para
conservá-la sempre ao meu lado!

E procurando fugir ao ferretear dessas considerações, refugiava-se no entorpecimento
da embriagues, nos sobressaltos do jogo e na conversa agitada dos amigos,
que o iam cardando e descodeando todas as noites.

Filomena, por outro lado, não se mostrava, apesar do titulo, completamente
feliz.

– Mas que te falta ainda?… perguntou-lhe o marido, sem se poder conter,
uma vez que a viu mais triste e desconsolada. – Creio que até hoje tenho cumprido
à risca, e com sacrifício de nosso futuro, todos os teus desejos e todos os
teus caprichos! Possuís uma casa como ambicionaste; és requestada pela melhor
sociedade; ostentas um título, e tens plena certeza de que eu, teu marido,
teu amante apaixonado, só vivo por ti, e para ti! Sabes perfeitamente que
não há em todo o mundo, por toda a parte onde estivemos, uma única mulher,
escrava ou rainha, que me fizesse esquecer um instante de ti, minha querida
Filomena! E, no entanto, eu, tu! que és a minha única preocupação, o meu cativeiro,
tu, nem por isso te mostras mais satisfeita e mais agradecida! Mas, com todos
os demônios! Se te falta ainda alguma coisa, fala com franqueza! Exige! ordena!
Mas por amor de Deus não me tortures com essas tristezas e com esses suspiros
que me desesperam! Bem sabes que és tudo quanto possuo? És a minha vida! a
minha felicidade! Vamos! Fala! fala! dize o que te oprime, Filomena de minhalma

– Nada! Não tenho nada! respondia a mulher com um esgar fastidioso. Quero
apenas que me deixem!… Que me não apoquentem com perguntas! …

– Tudo isso prova que nunca me amaste!… disse o Borges retraindo-se.

– AI temos outra! observou Filomena, e, depois de um novo gesto de tédio,
afastou-se, resmungando – que não estava disposta àquilo!

Borges atirou-se sobre uma das tais cadeiras, e escondeu o rosto nas mãos.

– Que desgraça a sua! Que desgraça! … pensava. Ora vissem se era possível
haver um homem mais infeliz do que ele!..- Pois a despeito de tudo que fazia
pela mulher, ainda não merecia amor! Mas então Filomena estaria disposta a
ser sempre a mesma ingrata? …

– Não! bradou ele, erguendo-se. Não! decididamente é preciso fazer-se forte!
É preciso reagir! Talvez até seja este o meio de lhe cair em graça por uma
vez!

Mas daí a duas horas, vendo que a mulher não saia do quarto, foi ter com
ela.

– Então? Ainda dura a rabugem? …

– Deixe-me! respondeu Filomena com uma voz de choro.

– Mas o que te aflige, meu amor? Fala, fala com franqueza! Não sou eu porventura
o teu amiguinho, o teu confidente, o teu íntimo?… Olha, se estás aborrecida,
procura meios de distrair-te; bem sei que aqui não há muito aonde ir, mas
inventa! Vê se descobres alguma idéia. É verdade – tu ainda não festejaste
o nosso título… aí tens! Porque não dás tu um baile, um jantar ou coisa
que o valha?

Filomena abraçou o marido, balbuciando palavras de reconhecimento.

– Ainda bem! Ainda bem! disse ele, sem mais se lembrar das apoquentações.
E, sentindo que a mulher animava-se-lhe aos beijos. – Assim! assim é que te
quero ver sempre?

Começaram a falar, muito amigavelmente, sobre os projetos da festa. Aproximava-se
o entrudo. – E se dessem um baile de máscaras?!…

Esta idéia trouxe a Filomena uma alegria convulsiva. – Um baile de máscaras!
um baile de máscaras! exclamava ela fora de si. – Mas como já não me tinha
eu lembrado disto?!…

E saltou ao pescoço do Borges, radiante. – Que belo! que belo! Um baile de
máscaras!

Deram logo princípio aos preparativos da festa, e durante esses dias, Filomena
não deixou transparecer sinal de aborrecimento. Ao contrário, muito animada,
muito contente de sua vida, era ela própria quem tomava as providências para
a função. – Ah! mas havia de ser uma festa sem exemplo no Brasil! Uma festa
que desse que falar por muito tempo.

Todavia, Borges andava meio atrapalhado nos seus negócios, e, para não desgostar
a mulher, escondia-lhe, sabe Deus com que heroísmo, certas dificuldades de
dinheiro, que o principiavam a perseguir.

– Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de máscaras!…

XI – QUAL DOS DOIS MARIDOS SERÁ O MAIS INFELIZ?

Nas vésperas do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando
de pôr em prática as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma
noite em que entrava no Passeio Público.

Em outra ocasião, é possível que os dois companheiros de infância nem se
cumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da resinga do casamento;
mas encontrados assim, de supetão, ambos colhidos de surpresa, não puderam
conter o clássico- Oh! – dos momentos de circunstância, e, quando deram por
si, já estavam nos braços um do outro.

Ah! eles haviam sido tão camaradas, tão parecidos nos gostos e nos costumes!
usando da mesma moral e dos mesmos princípios! Durante quarenta anos tinham
seguido sempre a mesma linha tesa das conveniências comerciais: – O Borges,
como sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso,
não senhor! – foi cada vez mais acentuando a sua circunspecção e enrijando
os seus créditos de homem sério.

De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste
– o Barroso tão grave, tão ríspido, tão Invulnerável dentro de seu paletó
saco, fiel ao seu permanente chapéu alto de pelo e ao seu guarda-chuva desenrolado;
– e o Borges, tão catita tão gamenho, tão moderno nos seus sapatões ingleses
e na sua bengalinha de junco – não podiam fugir ao mais completo embaraço.

Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro. sem uma palavra,
mudos como dois frades de pedra.

Borges, no fim de alguns instantes de completo silêncio, caiu de novo nos
braços do amigo e abriu a chorar copiosamente.

Não era o barão de Itassu quem chorava ali, era o João Touro, o primitivo,
o bom João Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, à
vista de um companheiro de seu doce passado, tão tranqüilo e singelo.

Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumulação
de contrariedade, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no
coração desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, há muito
tempo represado à falta de uma ocasião para rebentar.

O Barroso recebia no peito as lágrimas do antigo camarada, sem fazer um movimento,
nem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por
explicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lamúria com
a jubilosa aparência do amigo.

– Não és então feliz com tua mulher? … perguntou-lhe afinal.

– Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.

– Então?…

– Mas é que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda
não o disse a ninguém, digo-te a ti, que és o único amigo em quem deposito
confiança. Ah! não imaginas! não imaginas, Barroso, o que tenho experimentado!
Não calcules de que força é minha mulher… Bem me dizias tu…

– Mas por que não a pões a teu jeito, filho?

– Porque a adoro, como te disse. Porque só a idéia de lhe cair em desagrado
me faz tremer! Pô-la a meu jeito – dizes tu! É que não a conheces! É que,
felizmente para ti ~, nunca te deixaste arrastar por uma paixão como a minha!

E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expansão sentimental:

– Pô-la a meu jeito!… foi ela quem me pôs ao seu! Foi ela que me torceu
a seu bel-prazer!

– Ora essa! E quem te mandou consentir?

– Repito! nunca amaste, que se já o houvesse feito, não estranharias a minha
fraqueza.

E, baixando a voz, disse-lhe alguma coisa no ouvido.

O Barroso fez um gesto de indignação.

– Desaforo! Não havia de ser comigo, juro-te!

– Ah! Só Deus sabe pelo que tenho passado!…

– Não! contradisse o Barroso. Não! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente
plantar batatas!

– Impossível! Se te estou a dizer que a adoro!

O outro sacudiu os ombros:

– Não era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por ai, ia jurar que o
Borges era o homem mais feliz do mundo!

– É o que todos julgam… tugiu o barão com tristeza.

– Pelo menos é o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para
cá! São só pagodes e mais pagodes! Eu… confesso-te – sempre estranhei!…

– Ah! gemeu o outro. Só Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo, vês-me
a cara e não me vês o coração…

– Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo
na direção do botequim. Creio que agora já bebes…

– Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!

E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.

– Pois muito me contas!… prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.

– E ainda não te disse nada!… acrescentou o Borges, a olhar muito sério
para um buraco que fazia no chão com a ponta da bengala.

E depois, encarando o amigo:

– Mas olha! Isto que não passe daqui. Imagina que pape1 faria eu, se viessem
a saber que…

– Ó Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda
sou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Por que estás mudado e
porque já não dás idéia do que foste, não se segue que os mais também se tenham
transformado! Oh!

– Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai sábado lá à casa;
a mulher arranjou uma festa… leva contigo quem quiseres.

– Sempre as festas! censurou o Barroso acremente. Sempre as festas!…

– Que queres tu? Filomena obriga-me a estas coisas! Hoje, creio até que eu
próprio já não poderia passar sem isso! Tudo vai do hábito!

– É imperdoável, mas irei, irei à tua casa…

E meneando a cabeça: –

– Pobre Borges! Pobre Borges!…

– Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.

– Pois vais beber ainda?… observou o outro admirado.

– Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!

– Seja; mas eu não te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta é um
copo…

– Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos
da venda do Sampaio, não fiz caretas ao teu copinho de cerveja!… Então era
eu quem se admirava de que “houvesse no mundo alguém que a bebesse por gosto…”
entretanto… tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo
que eu…

– Todas as noites… confirmou o Barroso. É o meu vício! Com a diferença
de que agora, em vez de a tomar na casa do Sampaio, tomo-a quase sempre ao
lado de minha mulher.

– É verdade! Não me lembrava que havias também casado. E como vais te dando
com a vida?

– Bem! Não tenho razão de queixa! A Sabina, justiça se lhe faça, é uma excelente
mulher! Bom gênio… acomoda-se com tudo… não gosta de festas!… Às vezes
até é preciso que eu a obrigue a sair de casa para distrair-se um bocado,
coitada!

– Sim? hein?…

– Vivemos como Deus com os anjos!…

Houve uma pausa.

– Já temos um pequeno, sabes?… acrescentou ele depois.

Borges continuou silencioso, a cabeça derreada numa taciturnidade invejosa.
Só mudou de posição para esgotar o copo e tornar a enche-lo.

– Ainda?! censurou o outro.

– Que queres, homem?!…

E depois de alguns goles:

– Com que então, és feliz?… E suspirou.

– Sou, graças a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-se na cadeira. Lá
a minha Eva não é nenhuma senhora que meta vista, lá isso não é!… Ao contrário,
coitada! não serve para se haver com etiquetas e cerimônias; porém, no que
se diz – arranjo de casa, doçura de gênio, tratamento do filho e mimos cá
com o nhonhô… nisso não quero que haja segunda! Meiguice ali! Ela é incapaz
de uma resinga! Sempre a mesma! Sempre! Além disso muito asseiada, muito amiga
de arrumar e ativa, ativa que faz gesto! Ainda há pouco tempo ficamos três
dias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina, arregaçou as mangas,
meteu-se na cozinha, agarrou-se a uma vassoura, e, tantas voltas deu, tanto
virou, que a criada não fez falta! Foi preciso que eu ralhasse para a ver
sossegar um instante! Não! como dona de casa não quero que haja outra!…
mas também podes ver de que maneira a trato!…

– Ai. ai! suspirou o Borges. Garçon!, mais cerveja.

– Não bebas mais!, aconselhou o Barroso.

– Deixa-me!, balbuciou o outro limpando os olhos. Deixa-me!

Quando se levantaram para sair, o marido de Filomena, muito atacado dos nervos,
muito excitado pela cerveja, chorava como uma criança.

Consola-te, homem! dizia o amigo, batendo-lhe no ombro. Consola-te! Mais
tem Deus para dar que o diabo para tomar!

* * *

Porém, no dia seguinte, quem fosse à casa do Sr. barão de Itassu, das nove
da noite às seis da madrugada e o visse fantasiado de chicard no meio da dança,
não seria capaz de acreditar que ali estivesse o mesmo homem da véspera.

Era de um cômico o Borges de cabeleira de arminho e capacete com penacho
vermelho. O seu vigoroso tipo de montanhês não se acomodava bem dentro da
extravagante camisola de seda cor de rosa, franjada de ouro, que lhe mostrava
os ombros e os grossos braços nus, e parecia reagir contra as pitorescas botas
de montar, que lhe iam até ao joelho.

– Falta-te qualquer coisa!… dissera-lhe a mulher a considerá-lo de alto
a baixo, na ocasião em que ele lhe perguntou que tal o achava. Deves dar mais
elasticidade aos movimentos; não trazer esse capacete assim caído sobre a
nuca, e puxar o canhão das botas mais para cima.

Ela é que apareceu encantadora numa fantasia espanhola, que lhe deixava bem
patente o rijo desenho do corpo e mostrava um princípio de pernas, parte do
colombino seio, e completo aquele famoso pescoço cor de camélia, tormento
de muita gente nas poucas vezes que se expunha.

Os adoradores crivavam-no à ponta de olhares gulosos, e desfaziam-se em galanteios.

A festa foi no primeiro pavimento, e toda ela de um brilho original e deslumbrante.

Plantas e flores por toda parte, entre decorações de bandeiras e galhardetes;
longos rosários de pequenas lanternas redondas, desenhando os mais graciosos
arabescos em uma bela variedade de cores; palmeiras, tinhorões, grutas artificiais,
repuxos, sátiros e faunos, engendravam grupos artisticamente distribuídos.

A música, que não se sabia donde vinha, chegava às salas tépidas, abafada
e voluptuosa, como gemidos, beijos e soluços errantes pelo ar. A luz, à feição
da música, era também distribuída suavemente, em tons opalinos e duvidosos.

Tudo era morno e misterioso: os tapetes de seda fina, Imitando relva, bebiam
o som dos passos; os coxins de damasco da Ásia, os divãs bojudos e rasteiros,
como bonzos deitados de bruços no chão, tinham a maciez fofa e mole de carnes
gordas; enquanto que dos maciços de verdura se desprendia, numa sutil pulverização,
um delicioso chuvisco de perfumes, que adoçava e refrescava o ambiente e punha
nos sentidos um vago entorpecimento de volúpia.

Como para contrastar com toda essa suavidade de tons e sons, havia no fundo
do salão principal um enorme tímpano de metal polido, em forma de quadrante
de relógio, que servia para marcar as várias peças da dança. Era bastante
que o regente da orquestra tocasse, lá do seu esconderijo, num botãozinho
elétrico, que tinha ao lado, para que o grande tímpano, nem só com um ponteiro,
mas em badaladas sonoras, anunciasse por toda a casa a quadrilha ou a valsa
que se ia dançar.

Um terraço, iluminado à luz elétrica, estabelecia comunicação entre as salas
e a chácara, onde pequenos quiosques transparentes, como gigantescas lanternas
de papel pousadas sobre a grama, ofereciam aos convidados a mais completa
variedade de vinhos e refrescos.

Com efeito! disse o Barroso, olhando com um ar de censura para tudo aquilo.
Com efeito! É até onde pode chegar a maluquice de um homem!…

E não conseguiu reprimir a sua indignação ao ver o Borges aproximar-se dele
aos saltos, agitando o irrequieto e escandaloso penacho do seu ofuscante capacete
cor de prata:

– Que diabo é isso?!… exclamou, deste para maluco! Pois não vês, homem,
que já não te ficam bem essas coisas?!… Queres acabar num hospício?!…
Ora, o que parece um marmanjão da tua idade a pular no meio da casa, vestido
de princês?!…

– Que queres, meu amigo?… o amor! o amor! disse o Borges, procurando ser
grave e conseguindo apenas ficar mais cômico debaixo da sua cabeleira a Luís
XV.

– Qual o amor, nem qual carapuça! retrucou o outro, ralhando.- Eu amo muito
minha mulher, e, ai dela se me viesse para cá com pantominices dessa ordem!

– É por que não estás nas minhas condições! Fosses tu casado com Filomena
e dir-me-ias depois!…

– Qual o que!, contradisse o Barroso. Tu o que precisavas era de um cáustico
na nuca!

– Mas, com a breca! querias então que eu contrariasse minha mulher?!… repontou
o Borges, perdendo a paciência. Que diabo! eu desejava estar casado de outro
modo!… juro-te que preferia uma esposa como dizes ser a tua! … Mas a sorte
não quis assim; que lhe hei de eu fazer? … Agora é levar a cruz ao Calvário!
Se eu não a estimasse, bem! mas eu adoro-a, como já te confessei um milhão
de vezes; e ela, meu amigo, formosa, querida, desejada como é, vendo-se contrariada,
seria, em represália, muito capaz de fugir dos meus braços para os de outro
qualquer!

– Pois que fugisse! É boa!

– Que fugisse, não! bradou o Borges encolerizando-se. Vai para o diabo com
o teu agouro! Prefiro tudo a ver-me privado da sua companhia! Serei um louco,
um libertino, um criminoso, se preciso for, contanto que a tenha sempre ao
meu lado, que a veja, que a sinta, que a ame, que a possua! Deixá-la ir! E
nesse caso de que me serviria a vida?!… Sem ela de que me serviria a posição
social, a estima pública e todas as grandezas da terra?!

– Não era dessa forma que me falavas há poucos dias… observou o Barroso,
deveras surpreso com a transformação rápida que se acabava de operar no amigo.

– É que então não me aconselhavas que a deixasse fugir de meus braços!…
respondeu o marido de Filomena.

– O que te afianço, acrescentou o outro, é que, se desconfiasse que havias
de mudar tão depressa, não teria vindo à tua casa…

– Estás arrependido?…

– Não, filho! não estou arrependido… mas é que ainda há tão poucos dias
tu te queixavas daquela forma de tua mulher, e hoje saltas-me com três pedras
na mão, só porque eu…

– Ah! tornou o Borges, passando o braço na cintura do amigo e procurando
falar-lhe em segredo. Ah! … é que nesse momento eu estava longe de Filomena,
fora do alcance de sua fascinação, do perfume de seus cabelos, do eco de sua
voz, da reflexão de seus olhos!…

O Barroso fitou-o assombrado, e fez um gesto para fugir-lhe do braço. Que
diabo de palavrório era aquele?!…

O outro não fez caso e segurou-o melhor.

– Vê!… disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava
a sala próxima. Olha! Vê como vai formosa! Contempla aquela garganta de mármore,
aquele porte de rainha egípcia, aqueles olhos mais formosos que as estrelas!
Contempla-a toda, e dir-me-ás depois, desgraçado! se há no mundo coisa alguma
que valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!… se há coisa
alguma, seja ela a doçura do lar, as glórias do talento, a consolação do trabalho,
as honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor
de uma geração inteira – se há alguma coisa que possa corresponder à suprema
ventura de ser seu escravo!…

– Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-lhe
dos braços.

– Ainda não bebi demais! respondeu o barão, fazendo um gesto dramático.

– Mas lembraste a propósito: Champanhe! exclamou para um criado. Champanhe!
Depressa!

E depois, erguendo a taça, que se lhe entornava sobre os dedos: – Ao amor,
Barroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!

– Estás insuportável! resmungou o amigo, pensando já em escamugir-se na primeira
ocasião.

E mal pilhou uma escapula, foi-se.

* * *

Em casa, a mulher, que ainda estava de pé, admirou-se de o ver entrar tão
cedo.

– Pois eu estou lá disposto a aturar bebedeiras de quem quer que seja?!…
exclamou ele, desabridamente, a desenfiar a sobrecasaca. O Borges está insuportável!
Está um libertino! A mulher faz dele o que quer. Eu, se adivinhasse semelhante
coisa, até nem lhe tinha falado quando o vi! Um pancada!

– Mas que fez ele?… perguntou D. Sabina, emperrando com as palavras do
marido.

– Ora! Faz todas as loucuras que vem à cabeça da mulher! Não Imaginas! -..
É bastante que ela mostre desejo de uma coisa, seja qual for, a mais extravagante,
a mais irrealizável, aí está o homem tratando de pô-la em prática! Deus te
livre!

– Então, faz-lhe todas as vontades? …

– Pois se ele está apaixonado loucamente pela mulher! se está mesmo pelo
beiço!

E o Barroso passou a contar tudo o que presenciara a respeito do Borges.

– Sim senhor! disse D. Sabina, quando ele terminou. Sim senhor! É um marido
ás direitas! Assim é que eu os entendo – ou bem que um casal se ama ou bem
que se não ama!

– Que é lá isso?… perguntou Barroso espantado. – Pois achas que aquele
idiota procede bem, fazendo todas as vontades à mulher?!…

– De certo! acudiu Sabina – de certo. E há de ser muito amado e muito respeitado
pela esposa… Eu, no caso dele, faria o mesmo! Pois se a mulher é todo o
seu encanto, todo o seu feitiço… nada mais natural que o homem lhe faça
as vontades para vê-la feliz e satisfeita! Não tem que saber – gosto do Borges!
É um marido que me enche as medidas!

– Ora! ora! ora! fez o Barroso, sacudindo a cabeça – ora esta!…

Sabina prosseguiu:

– De uma mulherzinha como a dele é que você precisava para o ensinar, seu
unha de fome! Não devia ser uma toleirona, como eu, que levo aqui a matar-me,
às vezes até fazendo o despejo! e, quando quero ir a qualquer divertimento,
quando apeteço um teatro, um passeio, uma visita, ou quando preciso de um
vestidinho mais assim ou de um chapéu mais assado, você nunca está pela coisa!

– Porque não sou doido! respondeu o Barroso com mau modo. – Estaria bem servido
se fosse a fazer-te todas as vontades! – a estas horas não teria onde cair
morto!

– Ora, não me venha contar histórias, seu Barroso! Não haviam de ser essas
misérias que o poriam mais pobre! Hoje, por exemplo… por que não me levou
à casa de seu amigo?… Eu tinha tanta vontade de lá ir!… Dizem que estava
tudo preparado com tanto luxo, tão bonito!… E você, só para não me fazer
a vontade, deixou-me ficar em casa!

– Pergunta antes se tinha dinheiro para te levar!

– Lá vem a tal história do “Pergunta se eu tenho dinheiro!” O mesmo não diz
você aos procuradores dessas sociedades, que não lhe largam a porta! Principalmente
a tal Maçonaria! Meu Deus, é um cesto roto para comer dinheiro! Entretanto,
o mais insignificante objeto de que eu precise…

– Olha! queres saber de uma coisa?! exclamou o Barroso, interrompendo-a.
– Não estou disposto a ouvir essa lengalenga! Por hoje já basta de maluquices!
Se te não levei à casa do Borges foi porque não quis, entendes tu! Porque
não quis! e não tenho que te dar satisfações! Ora, vamos a ver se temos aqui
a Filomena Borges!…

– Ah! fale assim! retrucou a mulher enraivecendo-se. – Fale desse modo e
não venha para cá com fingimentos! Você não me levou à casa do barão, porque
teve pena de comprar um vestido! porque não teve coragem para alugar um carro!
Somítico!

– O’ mulher! berrou o marido. – Já te disse que não estou disposto a essa
seringação!

– Pois que não esteja! Eu também não estou disposta a muita coisa e vou agüentando!
Só não pilho o que desejo! há mais de uma semana pedi-lhe que comprasse um
tapete, ali para o pé da cama, que, sempre que me levanto, é uma constipação
certa… e, que é dele?!

– Aí temos outra!

– Pois se é assim mesmo! Eu nada lhe peço que você faça!

– Não tenho onde cavar dinheiro! Arre!

– Mas tem por fora onde enterrá-lo! Quem sabe se o Borges é mais rico do
que você?!

– Mulher! mulher! mulher! Estás a fazer chegar-me a mostarda ao nariz! …

– Diabo do sovina!

– Cala esta boca, demônio! trovejou o Barroso; ameaçando a mulher com o punho
fechado.

– Bate, malvado! guinchou ela, empertigando-se com as mãos nas cadeiras,
lívida, defronte do marido. Bate! Também é só para que serves, ordinário!

E, voltando-se com desprezo. – Um pulha desta ordem a querer falar dos outros!…
Por isso é que se vê tanta coisa por aí!…

– Hein?! berrou o marido, saltando para junto da mulher. Que é que se vê
por aí? Hás de dizer o que se vê por aí!

E cego de cólera, a sacudir um braço de Sabina:

– Hás de dizer! hás de dizer!

– Solte-me o braço, seu bruto!

– Atrevida! Quero só que vejam a intenção perversa daquela ameaça!

E empurrando-a: – Vai-te, peste! Vocês tão todas a mesma súcia! E ainda há
quem de os homens como culpados das patifarias das mulheres! …

– E são! respondeu Sabina. E são! E fazem elas muito bem! Era do que você
precisava para não ser bruto!

O Barroso, que se havia afastado, voltou rapidamente ao ouvir a nova ameaça,
e com tal força arremessou um pé contra a mulher, que a fez ir aos trambolhões
de encontro à mesa de jantar.

– Bate, danado! bate! que não me hás de tapar a boca!

O pequeno, no quarto, acabava de despertar com o barulho e pôs-se a fazer
berreiro.

A mulher correu logo para junto dele e foi lhe assistindo palmadas nas perninhas
tenras, a exclamar:

– Tu também, pestezinha? tu também queres entrar no sarilho?! Pois toma!
Toma!

E o pequeno redobrava a gritaria na proporção das palmadas.

– Não mates a criança! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo braço e fazendo-a
cair por terra. Ela não tem culpa que a acordasses tu com os teus berros!

– Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esganiçando-se. É meu filho! não é seu!

– Não é meu, cachorra?!

E a pancadaria recomeçou.

Mas afinal, a desgraçada foi deitar-se, a chorar, a maldizer-se, e o marido
daí a pouco fez o mesmo, ao lado dela, resmungando.

Algumas horas depois, dormiam profundamente nos braços um do outro.

– Vivemos como Deus com os anjos! … balbuciava ele, sonhando, a conversa
que tivera com o Borges no Passeio Público. – Meiguice ali!… Mas também
podes ver de que maneira a trato!…

Ah! hipócritas! hipócritas!

XII – AMOR DE FILOMENA

Por esse tempo, a festa do Borges atingia o seu apogeu.

Chegava ao momento do completo delírio, do prazer sem bordas que embala e
arrebata os sentidos, como um vasto oceano de delícias, sem horizontes. Chegava
ao ponto em que a gente perde a noção justa das coisas e cai num doce modorrar
voluptuoso e alheiado; quando tudo o que nos cerca vai-se confundindo, dissolvendo,
perdendo os contornos num esbatimento de sonho; quando todos os hálitos se
misturam no ar; quando os perfumes das mulheres, os gemidos das rabecas, e
todas as cintilações da carne, e todas as rebrilhações dos diamantes se fundem
e confundem numa atmosfera opalina, que nos penetra até os mais íntimos refolhos
da alma.

Mas, no meio de tanta delícia, Filomena recebeu em pleno coração uma abalo
que ela estava longe de prever.

Este abalo foi causado por uma carta caída do cinto do marido. Filomena apanhou-a,
refugiou-se no quarto, abriu-a e leu-a.

Era dirigida por aquela célebre viúva rica, a Chiquinha Perdigão, a mulher
de firma comercial, a mesma que em algum tempo tentara seduzir o Borges e
que, afinal, a julgar pelo sentido do que vinha escrito, conseguira pouco
mais ou menos os seus desígnios.

Eis o que dizia ela, à tinta encarnada, numa pequena folha de papel de seda,
rescendente a couro da Rússia:

“Querido barão.

Em data de ontem, recebi a sua amável cartinha e tenho o mais vivo prazer
em cumprir com o que ela me determina.

Não sei o que vou ouvir de seus lábios, mas adivinha-me o coração que não
será nada de mau.

Durante a sexta quadrilha estarei à sua espera no caramanchão, que fica ao
fundo da avenida de bambus.

A essa hora ninguém se lembrará de lá ir, e poderemos então conversar à vontade,
sem que D. Filomena, venha a suspeitar de nossa entrevista.

Por mais cautela levarei um dominó escuro, que previamente ficará depositado
no gabinete das senhoras, e acho que o barão deve também se disfarçar com
outro dominó.

Por conseguinte, não se comprometa com pessoa alguma para a sexta quadrilha
e, à hora marcada, esteja no ponto, sem falta.

Aquela que o estima e sempre o estimou,

C . Perdigão.

– Miseráveis! exclamou Filomena, amarrotando a carta. – Miseráveis!

E, depois que o seu pensamento percorreu num vôo toda a órbita do fato que
ali estava provado naquele pedaço de papel, sentiu uma grande indignação pelo
marido.

– Trair-me! Trair-me o infame! E logo com quem?… Com a Chiquinha!… uma
mulher que pinta os cabelos e usa enchimentos de algodão! Oh! É indigno!

E, sem se poder dominar, deixou-se possuir de um desespero sombrio, de uma
aflitiva sede de vingança; mas, caiu logo em si, e circunvagou olhares sobressaltados,
como se receasse ser apanhada na intimidade daquele sofrimento.

Desconheceu-se.

– Pois que… Teria ela ciúmes do marido?… Seria crível que ela – Filomena
Borges! – amasse aquele homem, aquele impostor?! Oh! não! não era possível!

Ergueu-se da otomana, em que se havia prostrado, e pôs-se a passear pelo
quarto, rindo nervosamente, a afetar que não ligava “a menor importância àqueles
amores ridículos do marido”.

– Que amasse! que amasse à vontade a quem melhor entendesse, que diabo tinha
ela com isso?!…

E, sentindo um novelo enrodilhar-se-lhe na garganta, foi à janela e abriu-a
bruscamente de par em par.

Sua fantasia fugiu logo noite fora, como ave ominosa e amiga das trevas e
do silêncio. E ela ficou, ficou a olhar, a olhar para o espaço, como se acompanhasse
com a vista o doido remigiar do pássaro fantástico e agoureiro.

A noite era calma e de uma transparência azul. Sentiam-se no ar emanações
balsâmicas que se despediam do jardim, onde ainda bruxuleavam tristemente
os últimos balõezinhos venezianos; ao passo que das salas do primeiro andar,
em um tom cansado e arquejante, subiam de rastros longos gemidos de outras
valsas alemãs.

Filomena apoiou os cotovelos no balcão da janela, cobriu o rosto com as mãos
e pôs-se a chorar.

Nisto, a lua, afastando a cortina de nuvens que a velava, entornou da concha
de prata a sua luz tranqüila e misteriosa, que é, como um doce orvalho refrigerante
para os corações abrasados na febre do amor.

Então, uma infinidade de considerações veio grupar-se no espírito magoado
de Filomena Borges.

Agora, que pela primeira vez o esposo lhe aparecia capaz de esquecê-la por
outra, é que ela o desejava e queria como nunca. As palavras da viúva enchiam-na
toda de um amor inesperado e punham-lhe no espírito o sobressalto de quem
dá de repente pela falta de um objeto precioso que trazia consigo; enquanto
a pontinha sorrateira de um nascente remorso aproveitava a perturbação em
que ela estava para ir desfibrando, um por um, todos os véus que escondiam
as qualidades simpáticas do marido.

E o vulto do Borges, à proporção que se descobria aos olhos da mulher, ia
crescendo, crescendo, e tomando dimensões extraordinárias.

Filomena já o via generoso, bom, intrépido e apaixonado. – Sim!… murmurou
ela, como se despertasse de um longo entorpecimento. – Sim!… Ele era digno
de muito mais amor! É um homem completo, um coração enorme, um caráter sublime!
Eu, só eu, fui a culpada de o haver perdido: nunca o apreciei devidamente!
nunca lhe paguei em amor bastante tudo que a sua dedicação punha aos meus
pés! Imprudente que fui!… Mas ele?!… Ele! como pôde esquecer-se de mim
por aquela mulher detestável?! Oh! Eu detesto-o! Eu abomino-o!

E, escondendo de novo o rosto, abriu de novo a chorar.

Estava agora mais formosa na sua fantasia espanhola: toda vergada sobre o
balcão da janela, os quadris empinados, suspendendo um pouco mais a saia de
seda amarela, guarnecida de rendas pretas; as pernas cruzadas, os ombros vagamente
iluminados pela lua, faziam estranha harmonia naquela expressão de angústia,
casada com o salero de seu tipo a Fortúnio.

Mas um beijo à queima-roupa, recebido em cheio no pescoço, fê-la soltar um
grito e voltar-se rápida como uma espada em duelo.

* * *

A seu lado tremulava o irrequieto penacho vermelho do marido, cujas mãos
lhe haviam já empolgado a cinta e a puxavam brandamente sobre ele.

Filomena, em vez da costumada resistência, passou-lhe os braços em volta
do pescoço e começou a disparar-lhe beijos por todo o rosto, com um tal ardor
e com uma tal obstinação, que o pobre homem, pouco habituado àqueles ataques,
esteve a perder o fôlego.

– Upa! exclamou ele afinal, atordoado e cheio de espanto.

A mulher fitou-o por alguns segundos e, de repente, atirou-se-lhe de novo
nos braços como uma descarga. O Borges, ainda desorientado com a primeira,
hesitou entre a resolução de fugir ou implorar graças. Daquela forma a mulher
dava-lhe cabo do canastro!… Que menina!

– Tu amas-me Borges?! interrogou ela, segurando-lhe as mãos com transporte.

– Ora, que pergunta! Pois ainda tens alguma dúvida a esse respeito?…

– Não sei! Quero que respondas! Quero que digas se me amas, se és só meu!

– Oh! Tu até me ofendes com isso, filhinha! Bem sabes que sim… Mas, anda
daí. Há meia hora que estou à tua procura. – alguns dos nossos convidados
já se querem raspar. Anda, vem daí!

– Não! Espera, espera um instante! Desejo ter-te ainda algum tempo nos meus
braços! Não me fujas! Vem cá!

O Borges, cada vez mais surpreso, não teve forças para resistir, e os dois,
assentados no mesmo divã abraçados como dois amantes de quinze dias, juravam
e tornavam a jurar uma afeição eterna, quando, no fim de meia hora, o sinal
da sexta quadrilha os foi interromper.

– Ouviste? exclamou ele, pondo-se de pé. – Vão tocar uma quadrilha; não devemos
ficar aqui. A caminho!

– É’ a sexta, disse Filomena.

– É! é a sexta… repetiu ele.

– Pois vamos. Serás o meu par; ainda não dançaste hoje comigo…

– Impossível, balbuciou o Borges, já tenho par. Dançaremos a seguinte.

– Não quero! Quero esta!

– Mas meu amor, se te estou dizendo que…

– Quem é o teu par?!

– É…

– A Chiquinha… Aposto!

– É exato, é justamente a Chiquinha, disse o marido enrubescendo.

– Pois vai! Vai!, respondeu a mulher repelindo-o. Eu fico.

– Ficas aqui?

– Fico.

– E os nossos convidados?…

– Que esperem.

– Acho que fazes mal; devias dançar.

– Só dançaria contigo…

– Então, até logo.

– Até já.

E ele foi-se.

A mulher, mal o viu pelas costas, correu ao guarda-roupa, abriu-o, sacou
um dominó preto, enfiou-o rapidamente no corpo, pôs máscara, tomou o seu chicote
de montaria, e, depois de vencer ligeira o segundo andar, ganhou as escadas
do fundo e desapareceu.

Atravessou a chácara como um pássaro que foge, entrou na avenida de bambus
e dirigiu-se ofegante, trêmula, para o ponto da entrevista.

A fronde compacta de árvores e o tear das trepadeiras acumulavam sombras.
Filomena embrenhou-se por entre elas, só diminuiu a força da carreira nas
proximidades do caramanchão.

Ao entrar, sentiu dois braços prenderem-lhe o pescoço, ouviu uma voz que
se queixava de medo, enquanto um corpo de mulher procurava unir-se ao dela.

Filomena recuou incontinenti, e, puxando da chibata, remeteu duas vergatadas
contra o dominó que tinha defronte de si.

Este soltou um grito, menos de raiva que de dor e, arrancando a máscara,
exclamou:

– Barão!

– Não é o barão, é a baronesa!, respondeu a outra, tirando também a sua máscara.

– A senhora?!

– Sim! A quem queria trair, miserável!

– É falso!

– Nem uma palavra, e some-te daqui, já!

– Mas ouça-me!

– Não quero ouvir nada! Sai já de minha casa! Traidora! Põe-te já daqui para
fora, se não queres ser desfeiteada lá em cima, na presença de todos os meus
amigos. Rua!

A viúva soltou uma rebanada e fez menção de entrar na avenida de bambus.

– Não! disse a baronesa, cortando-lhe a passagem. Não hás de sair pela frente;
passarás por onde sai a gente de tua espécie!

E levou-a aos empurrões até os fundos da chácara, onde havia um portão, que
Filomena abriu, dizendo:

– Vai, e quando me vires em qualquer parte, abaixa os olhos!

– Havemos de nos encontrar!… ameaçou a viúva, depois de atravessar a porta.
Juro-te que me pagarás tudo isto!

– Rua! insistiu Filomena, fechando a porta com estrondo; e, já de volta ao
caramanchão, disse entre dentes:

– Agora o outro!…

Ao chegar aí, um calafrio percorreu-lhe o corpo – já lá estava o marido.

Não disfarçado de dominó, como recomendava a carta, mas com a sua camisa
cor de rosa, as suas botas de montar e o seu penacho vermelho. E passeava
de um para outro lado, cheio de preocupação, as mãos cruzadas atrás, o capacete
na nuca, o ar de quem espera no corredor que lhe abram a porta da sala.

Filomena armou a máscara no rosto, conteve, a melhor que pode, a sua cólera,
e avançou de braços abertos para o chicard.

Mas qual não foi a sua surpresa ao ver-se repelida brandamente por ele!

– Perdão, disse o Borges, a senhora pelo que parece, compreendeu mal o meu
convite.

E oferecendo-lhe lugar num banquinho que havia perto:

– Tenha a bondade de sentar-se. Não levarei muito tempo a dizer o que me
obrigou a incomodá-la. Devia ter ido procurá-la em casa, mas é que se trata
de um negócio urgente, um verdadeiro aperto! Um aperto sério! Se amanhã não
conseguir levantar vinte contos, estou perdido! Não me convém recorrer aos
bancos por todo este ano…

E, vendo que a suposta viúva não ia ao encontro de seu pedido:

– Podemos arranjar uma hipoteca – se não lhe convém o n.0 6 das Laranjeiras,
vê-se outro, contanto que…

E já incomodado com o silêncio do dominó:

– Creio que a proposta é razoável!… Que acha?… A senhora pode servir-me,
se… Não quis falar ao Fontes, o seu sócio, sem saber de antemão se podia
contar com o seu apoio.

Novo silêncio.

O Borges, já enfiado, caiu então nas minudências comerciais. Falou de letras,
transações, lembrou firmas, com que ele podia contar.

Porém o silêncio continuava.

– Então?! Que diz?! perguntou ele, muito desconcertado.

Filomena arrancou a máscara e atirou-se-lhe nos braços desfeita em soluços.

– Tu?! Que significa isto?!

Ela puxou do bolso a carta da viúva e entregou-a ao marido.

– Pois imaginaste que eu seria capaz de… Oh!…

E ferido de súbito por uma idéia:

– E ela?! A viúva Perdigão, que fim levou?!

Filomena contou-lhe o que se havia passado.

Borges deixou cair a cabeça entre as mãos:

– Fizeste-a bonita!… exclamou ele. – Vais ver as conseqüências!

– Que queres? Tive ciúmes! balbuciou a mulher. Dizem tanta coisa de Chiquinha,
que…

– Tolinha! interrompeu o marido, abraçando-a de novo.

– E por que não me falaste com franqueza?… acrescentou ela.

– Temia afligir-te…

– Fizeste mal! Se me tivesses prevenido, nada disto sucederia!…

E notando o acabrunhamento do esposo:

– Mas, enfim que há?! Creio que agora já posso saber! De que apuros falavas
tu ainda há pouco?…

– Estou sobre um abismo! disse o Borges, afinal – sobre um abismo, minha
querida!… Se não arranjar certos negócios até o vencimento de umas letras
que tenho, creio que irá tudo por água abaixo! A ruína será inevitável!…

– Pois que venha a ruína! respondeu Filomena erguendo-se. – Eu terei bastante
coragem para afrontá-la!

XIII – NOVAS TORTURAS

O Borges não conseguiu arranjar os tais negócios de que tratava, e a roda
de sua fortuna recebeu o primeiro impulso para desandar.

Desde então tudo lhe foi contrário; todas as suas especulações falharam;
todos os capitais que arriscou foram-se pela correnteza.

A idéia de uma ruína completa torturava-o principalmente por causa de Filomena.

– Que seria, se lhes viessem a faltar os elementos do luxo e do prazer?…
Desgraçado que sou! pensava ele. Agora que possuo a confiança e a dedicação
de minha esposa, é que a fortuna entende de se ir embora! De que me serve
uma coisa sem outra?!

E na sua febre de agarrar pela nuca a deusa que lhe fugia, arriscou tudo
que lhe restava: vendeu casa, empenhou títulos e atirou-se ao jogo como a
uma tábua de salvação. As suas propriedades foram desaparecendo a pouco e
pouco, passando a outros; as suas ações de várias companhias foram-se dissolvendo;
as suas apólices derretiam-se; os seus últimos recursos evaporavam-se.

Viúva Perdigão & Cia. Faziam-lhe uma guerra atroz; para qualquer lado
que se voltasse o Borges encontrava logo a sanha implacável do inimigo. E
tudo parecia apostado para destruí-lo, para matá-lo por uma vez. Um jornal
diário, de grandes proporções, comercial, amigo do governo, em cuja fundação
Borges arriscara cinqüenta contos, acabava de estalar, como estalou o Banco
Mauá, onde ele possuía em depósito o duplo dessa quantia.

Porém, o seu maior desastre foi com as empresas teatrais: o Borges, que ultimamente
freqüentava todos os teatros, aparecendo familiarmente nas caixas, não podia
passar despercebido aos empresários vazios de dinheiro e transbordantes de
projetos e planos gigantescos.

Vira-se em breve cercado de homens de todos os matizes e nacionalidades,
que desejavam associá-lo em mil empresas diversas. Um queria estabelecer um
grande “jardim-recreio”, no qual, à moda do antigo Trivoli parisiense, se
encontrasse toda sorte de divertimentos – representação, sala de tiro, dança,
concerto, apostas, e uma infinidade de jogos para toda espécie e categoria
de gente: outro pretendia inaugurar o teatro nacional “levantar a pobre arte
dramática brasileira, que João Caetano plantara com tanto gênio!”; outro queria
desenvolver o Alcazar, fazer vir uma boa companhia francesa; outro queria
a ópera em português, com música nacional e cantores estrangeiros; este trazia
o plano de um circo de cavalinhos; aquele o projeto de uma tourada; aquele
outro a idéia de um Skating-Rink.

E na fúria de ganhar dinheiro às pressas, Borges, se não aceitou todas aquelas
propostas, aceitou grande parte. E tudo isso rebentou, e tudo isso deu com
os burros n’água, e os capitais do marido de Filomena acompanharam os burros.

Afinal, restava-lhe apenas uma empresa; também, essa a mais importante e
felizmente nada tinha de comum com os teatros: – Tratava-se pura e simplesmente
de explorar o carneiro.

– Essa indústria completamente desconhecida no Brasil, dizia o proponente,
espanhol sagaz e viajado – essa indústria, Sr. Barão, está destinada a representar
um papel importantíssimo neste belo país. Ela virá fornecer ao povo elementos
novos de riqueza; aumentará o valor das terras, equilibrará os capitais, reformará
a vida dos agricultores, educará o fazendeiro, dando-lhe novos conhecimentos
zootécnicos, novos costumes e novas necessidades: enfim, essa indústria está
destinada a fazer aqui uma revolução econômica e social, e levar à posteridade
o nome daquele que entre nós a firmar corajosamente,. como em Buenos Aires
sucedeu com o cônsul norte-americano Haley.

O Borges podia, se quisesse, nem só fazer uma fortuna colossal, como ainda
imortalizar-se.

Aí estavam os exemplos da Austrália, do Cabo da Boa Esperança e da República
Argentina, os três grandes fornecedores de lã para o mundo inteiro. Ora, por
que razão o Brasil, situado tão perto dessas regiões, o Brasil que não está
sujeito aos frios da Austrália e aos bochornos do Cabo, por que razão o Brasil
não havia de explorar o carneiro?! A alimentação desse precioso animal seria
muito mais fácil aqui do que em outra qualquer parte!… Aqui, com as nossas
vastas campinas, sempre cobertas de verdura, não se daria o que se dá na Europa,
onde a carestia de feno constitui o maior tormento dos criadores de gado lanígero.

E fazia cálculos, apresentava cifras muito bonitas – três tosquias por ano
– mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros preferíveis
ao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos métodos
zootécnicos, o merino da Saxônia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino
Soyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montcavrel, o negretti eleitoral!
E se o Borges também quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar
da Inglaterra os Soutdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo
nome de – raça precoce, e cujo esqueleto diminui na razão do aumento das banhas
e da carne.

Acumulava termos técnicos; fazia divisões de espécies, lembrava os carneiros
braquicéfalos e os carneiros dolicocéfalos.

O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.

– E o leite?! gritava o espanhol. – Quem poderia Impedir que o Barão, com
o leite de suas ovelhas, viesse a fazer concorrência aos célebres queijos
de Roquefort?… E o comércio das peles?… Para o cortume das peles bem se
podia aproveitar com vantagem a casca de certas árvores brasileiras muito
abundantes e não fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto.

– Enfim, Sr. Barão, para V. S. ter Idéia do lucro fabuloso que vamos fruir
com os nossos carneiros, basta considerar que, só com o produto do esterco,
vendido pela mínima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente!
Leia o grande veterinário Sanson! Leia José Hernandez!

* * *

O Borges só compreendeu que era o único carneiro explorado naquela empresa,
no dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe
pôde apanhar.

Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou
o caminho dessa província; mas os seus esforços foram baldados – ninguém lhe
soube dar notícias do gatuno.

Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em
S. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a mão, e
dispôs-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.

– O mesmo ardor!… Ah! mas nesse tempo não conhecia ele outra preocupação
que não fosse o seu trabalho! Nesse tempo não tinha vícios, não tinha desgosto,
não tinha inimigos, não tinha responsabilidades sociais!

– Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resignação que dantes possuía?!…
Como levantar-se às seis da manhã e só deixar o serviço às seis da tarde?!

Entretanto, estava disposto a principiar de novo a existência; chegou mesmo
a fazer algumas propostas de construção; agora toda a dificuldade era descobrir
o tal amigo que o ajudasse!

Voltou à corte; percorreu os bancos, consultou vários negociantes – nada!
A viúva Perdigão cortava-lhe todas as vasas.

Mas ainda havia o Barroso. – Era Impossível que este também lhe virasse as
costas.

Procurou-o.

– Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina. – Para falar-te com
franqueza, não vieste bater a muito boa porta – não estou, para que digamos,
em estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim… havemos de ver…

– Porém é necessário tratarmos disto quanto antes!… observou o Borges.
Estou com a corda no pescoço; tenho de seguir de muda para S. Paulo até o
fim do mês; não posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!

– Havemos de ver!… Havemos de ver!… E como vais tu com tua mulher?

– Assim, assim… Ela ultimamente está mais meiga e menos caprichosa. Mas
então prometes que para a semana realizamos o negócio?

– É possível! É possível! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois lá a minha
Sabina continua no mesmo. Não! nisso tenho sido feliz…

O barão tornou a puxar a conversa para o seu negócio. O outro afinal, prometeu
ajudá-lo.

Mas, desde esse dia, Borges principiou a não encontrá-lo em parte alguma,
até que uma vez, indo procurá-lo em casa, antes das sete da manhã, e tendo
penetrado familiarmente pela chácara, ouviu o amigo ordenar à mulher em tom
misterioso:

– Dize-lhe que não estou. Ora sebo! Não gastasse o que tinha! Ninguém está
disposto a se amolar pelos outros!… Fosse mais poupado, fizesse como eu!
É boa!

Borges voltou na ponta dos pés, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.

– Pois até o Barroso?!… O único amigo em que ele ainda depositava confiança!
o seu velho camarada dos primeiros anos! o seu companheiro de lutas! o seu
“outro eu”! também lhe voltava o rosto, também o repelia?! Oh! Com efeito!

Chegou à casa desorientado, perdido. Já lá estava uma carta anônima à sua
espera, para mais lhe envenenar a ferida.

– Era do Guterres, naturalmente; talvez da viúva Perdigão, talvez do Barradinhas!

O pobre homem, depois de lê-la, atirou-se à cama, desesperado, mordendo os
travesseiros para abafar os soluços e não ser ouvido pela esposa.

Esta, porém, correu ao encontro dele, tomou-o nos braços, consolou–o com
os seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.

– Não desanimes! bradava-lhe. – Não desanimes, que o mundo é vasto e havemos
de descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus há de proteger-nos!…
Enquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, não
nos devemos revoltar contra o destino!

Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, tudo,
despedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os
carros, as telas preciosas, as porcelanas de Sèvres, os talheres de vermeil.

– Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos braços do marido. Que levem
tudo, contanto que tu fiques!

E com a estreiteza da situação redobrava o seu amor pelo Borges, como se
o reflexo de toda aquela desgraça o tornasse maior e mais brilhante aos olhos
dela.

E, na ocasião de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes
desarrrumados para o leilão, na desordem daquela casa esplêndida que eles
iam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a última garrafa
de Champanhe que havia na sua adega, outrora tão rica, quebrou-lhe o gargalo
de encontro ao mármore secular de um móvel, e, enchendo uma taça, e colando
os lábios nos do marido, e chorando de prazer, brindou à nova existência que
se ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.

XIV – MISÉRIA

Seguiram para S. Paulo, quase sem recursos, levando as jóias na algibeira
e, todavia, satisfeitos, cheios de esperança, orgulhosos daquela situação
extraordinária, que os unia mais, que os identificava e como que os tinha
abraçados e enlelados pela mesma desgraça, cosidos dentro da mesma mortalha.

Hospedaram-se no Grande Hotel, fazendo uma existência difícil, vivendo de
expedientes, empenhando diamantes, jogando.

Foi então que se manifestaram em Filomena os primeiros sintomas de gravidez,
e este fato, que noutro tempo teria causado a felicidade do pobre Borges,
agora representava nada menos que um novo obstáculo a vencer.

Ah! O bom homem fazia esforços supremos para não deixar transparecer o quanto
sofria com aquele viver tão contrário ao seu gênio! Mostrava-se forte, resignado,
seguro numa fé que não existia, falando a cada instante de fortunas imprevistas,
sonhando acasos de grande felicidade que, de um momento para outro, lhe restituísse
a sua antiga posição.

Mas passavam-se os dias, e a fortuna sempre esquiva. Embalde furava o Borges
por todos os lados, à procura de trabalho, à procura de emprego. Ninguém o
queria.

Vinham-lhe então grandes desânimos, que o desgraçado já não podia esconder
da mulher. Às vezes, até, depois de um dia de inútil campanha em busca de
serviço, ou quando, em vez de ganhar, perdia tudo ao jogo, ou quando se gastava
pelos cafés e pelas ruas, cansando-se na convivência dos vadios, tinha acessos
de desespero. Entrava em casa brutalmente aniquilado, dando com a cabeça pelas
paredes, blasfemando, pedindo em berros a morte e atirando-se tragicamente
ao chão, lívido e arquejante.

Oh! mas como Filomena o amava nesses momentos! Com que transporte o recebia
no colo, beijando-lhe os olhos em chama, afagando-lhe os cabelos empastados
de suor, ameigando-lhe o grosso bigode conspurcado de cerveja e nicotina.

Estranha existência a dessas duas criaturas, que a natureza fez tão diversas.
tão contrárias, mas que o acaso lançou no mesmo destino. abraçadas a uma só
onda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde
principiava a dor, onde terminava o gozo.

A mesma coisa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria.
Daí esse equilíbrio da lágrima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem
e de toda a sua força. Não podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre
de pé para amparar o companheiro, quando este porventura vacilasse.

E assim se passaram meses, sem que o Borges conseguis-se arranjar meios seguros
de vida. Entretanto, os recursos iam decrescendo; o circulo apertava-se em
torno deles, à medida que se desenvolvia a gravidez de Filomena.

Tiveram que deixar o primeiro hotel por um outro mais modesto, depois este
por outro, até que afinal, sempre fustigados por uma terrível adversidade,
refugiaram-se numa hospedaria de terceira ordem, no largo de S. Bento.

Era uma casa térrea, mal frequentada, abafadiça, tresandando a cocheira.

Quando o Borges se apresentou com a mulher, os quartos estavam quase todos
ocupados por uma companhia de saltimbancos, que trabalhava daí a dois passos,
todas as noites, em uma barraca armada no largo. Um inferno de cães e macacos
sábios!

De vez em quando uma briga. Então vinha a polícia: dava-se bordoada, fazia-se
muita bulha; mas tudo, no fim de contas, acabava em boa paz.

Imagine-se agora como viveria o Borges nesse meio; ao passo que Filomena,
longe de acompanhar o ressentimento do marido, descobria em tudo aquilo um
sedutor aspecto de aventura e de boêmia, inteiramente novo para a sua fantasia.
Aquela miserável espelunca, habitada por gente de circo, mascates e engraxadores,
vista pelo prisma de sua loucura, tomou as dimensões românticas de um antro
misterioso a Eugênia Sue.

Não obstante, o implacável circulo mais e mais se contraia em torno deles;
as pequenas necessidades de todos os dias multiplicavam-se, trazendo cada
uma a sua gota de fel, como uma praga de insetos venenosos. A necessidade
principiava a transpirar o seu fétido horrendo, que a todos revolta e afugenta;
enquanto que a inimizade, a desconsideração, a antipatia, o ódio, o desprezo
vinham-se chegando para eles, como um bando de corvos ao cheiro da carniça.

O dono da casa, ao ver o Borges, fazia já uma careta de raiva; a lavadeira
de Filomena escrevia-lhe bilhetes grosseiros, exigindo o pagamento de seu
trabalho, e todos, todos os que os cercavam, tinham para eles palavras duras,
olhares maus, gestos de desconfiança ou sorrisos de desprezo.

Então, o Borges, pela primeira vez, compreendeu que a pureza de seu caráter
e a bondade de seu coração não eram dotes naturais, mas uma simples resultante
das circunstâncias felizes de sua vida.

– Ah! dinheiro! dinheiro! pensou ele, tu és o único que nos dás o direito
de sermos bons, generosos e abençoados pelos nossos semelhantes. Tu és o único
que conquistas a simpatia e o respeito do mundo inteiro! Tudo me perdoavam
– a estupidez, a brutalidade, a doçura, a fraqueza, até os crimes, se os cometesse;
só não me perdoara já te não possuir. Ó meu chorado companheiro de tanto tempo!
Que importa que do nosso dinheiro não participe ninguém? Que importa que ele
só preste ao egoísta que o possui; que importa? O dono será sempre “um homem
honesto!” Terá quem o defenda, quem o elogie, quem o ame, quem o proteja,
quem lhe ofereça e dê aquilo que ele não pede e do que não precisa. “Não ter
onde cair morto”. Isto é que ninguém perdoa! Furta, mata, prostitui-te; mas,
se deres à tua mãe o dinheiro que furtaste, serás “um bom filho”; se deres
à tua mulher o fruto de tua prostituição serás “um bom marido”; se o deres
à tua amante, serás “um fidalgo, um excelente cavalheiro, um homem de bem”.
E todos te abençoarão! Terás em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja,
porque és, ou porque podes ser “bom”. Porque o teu dinheiro vale pelo destino
que há de ter e não pela procedência que teve!

Depois de semelhantes considerações, o Borges sentiu um profundo rancor pelo
gênero humano e uma pesada indiferença pelo bom cumprimento do dever.

– Ilusão! tudo ilusão!… dizia ele, a sacudir a cabeça, sem se lembrar de
que no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquilo que ele mais
estimava no mundo, havia-se enfolhado e frutescido.

Mas o maldito círculo está prestes a esmagá-los.

Vendeu-se a última jóia; esgotou-se o último recurso.

Filomena, entretanto, não se mostrava aflita; não amaldiçoava o marido e,
quando o via entrar da rua com a barba por fazer, a roupa esgarçada, os sapatos
rotos, a camisa cheia de pó e de suor, e a cara transformada por um desespero
supremo; ela, igualmente transfigurada, cheia de prenhez e mau trato, descarnada,
sem cor, caía-lhe nos braços freneticamente, louca, ressuscitando-lhe, com
os seus beijos de fogo, todas as feras adormecidas do amor.

Um belo dia, acordaram sem um real. O dono da casa negou-se logo a fornecer
comida, enquanto não pagassem o que já deviam.

– Ao menos hoje! disse-lhe o Borges, tomando-o de parte. – não quero nada
para mim, é só para ela, para minha mulher!… coitada! Ainda se não estivesse
naquele estado… mas, assim a menor contrariedade pode lhe ser fatal! Tenha
paciência!… o senhor receberá depois tudo o que ficarmos a dever!…

– É o diabo!… resmungou o estalajadeiro. – É o diabo! os gêneros não me
vem de graça para casa!…

– Mas também eu não estou lhe pedindo que nos dê de graça! Ora essa! Apenas
quero que espere um instante mais pelo pagamento!

– E qual é a garantia que tenho eu disto?! interrogou o locandeiro, picado
já pelo tom em que lhe falava o hóspede.

– Eu não sei se o senhor pagará ou não!

– Ó homem! bradou o Borges. – Não hei de carregar minha mulher naquele estado,
sem ter ainda para onde ir! Descanse, que hoje mesmo hei de dar um jeito às
coisas!

– Pois dê primeiro o tal jeito, que eu cá estou para o servir do que quiser…

– Mas você não vê que ela não pode ficar sem comer até que eu volte?!…

O estalajadeiro sacudiu os ombros.

– Você não vê que isto é um caso sério?!… tornou o Borges.

– Nada tenho com isso, respondeu aquele.

– Mas você não vê que é uma questão de vida?! Você quer matá-la?!

– Que a leve o diabo!

– Maroto! exclamou o Borges, perdendo de todo a paciência e erguendo o estalajadeiro
pela braguilha. Nem mais uma palavra. tratante! se não queres ficar em pedaços!

O homenzinho, à volta do passeio aéreo que deu, estava já disposto à atender
às reclamações do Borges.

– Uf! gemeu ele, quando se pilhou no chão. – Olha que o senhor também é de
um gênio! Safa! não se lhe pode dizer nada!… Toma logo o pião à unha! Pois
eu era lá capaz de maltratar uma senhora, que se acha em um estado tão melindroso!…

– E maltrate, para ver o que lhe sucede! berrou o Borges, mostrando-lhe o
pulso fechado. – Experimente que verá o bom e o bonito!

E saiu furioso, a praguejar.

– Ladrão! rosnou o outro, quando o calculou já na rua – o que tu merecias
era uma facada nesse bandulho, grandíssimo sem-vergonha!

E, passando enfurecido pela porta do quarto de Filomena, acrescentou de modo
a ser ouvido por ela:

– Diabos dos cafres! Arranjam galinhas chocas e querem que os mais as sustentem!
Vão roubar para o inferno! Súcia de vagabundos!

Filomena, que estava de cama, porque nesse dia amanhecera mais incomodada,
ergueu-se lívida e lançou-se instintivamente para a porta.

– É contigo mesmo, peste de uma bruxa! replicou o locandeiro, cuspindo sobre
ela um olhar insolente.

– Canalha! gritou Filomena, correndo ao fundo do quarto para tomar o chicote.
Mas, em meio do caminho, parou, levando com um gemido as mãos ao ventre.

– Ai! gritou ela, e deixou-se cair aos pés da cama, desfeita em sangue. Tinha
abortado.

Uma acrobata americana, sua vizinha, que lhe ouvira o grito, acudiu logo
em seu socorro.

* * *

Por esse tempo o Borges vagava de rua em rua, Inquieto, tonto, à procura
de um conhecido, de alguém, de qualquer dinheiro, com que pudesse tapar a
boca do maldito usurário.

Mas as horas Iam-se e vinham, sem trazer em nenhum de seus sessenta minutos
uma só moeda de vinte réis… E, contudo não podia voltar à casa com as mãos
vazias. Era preciso obter dinheiro, fosse como fosse – tratava-se da segurança
de Filomena!

Deram quatro horas – nada; deram cinco – nada; nada! seis – ainda a mesma
coisa!

Borges deixou-se cair exausto sobre um banco do Passeio Público. Ai! Como
se sentia fatigado e como lhe doía todo o corpo! Palmilhara a cidade desde
pela manhã, sem comer nem descansar, alimentando-se apenas com o fel de seus
desgostos.

Começava a fazer-se noite. A hora melancólica do crepúsculo ainda mais lhe
ensombrava o coração.

Sentia necessidade de morrer, desertar do mundo, lançar fora aquela existência,
que lhe pesava sobre os ombros.

Escondeu o rosto nas mãos, fechou os olhos, e um torpor voluptuoso o foi
invadindo a pouco e pouco.

Achou-se como num sonho; a realidade esbatia-se em torno de seus sentimentos
amodorrados, espalhando-se até o pleno domínio da fantasia.

E toda a sua vida principiou então a lhe deslizar pelo espírito, como um
interminável cordão de espectros, que se precipitavam vertiginosamente. Viu-se
de todos os efeitos e em todas as idades; desde antes de se conhecer, até
uma época que ainda não conhecia; desde a primeira infância, até a completa
decrepitude.

Viu-se em Paquetá, descalço, em mangas de camisa, a cabeça ao sol; depois,
ao serviço do pai, ajudando-o no trabalho, fazendo cobranças no fim do mês,
perseguindo os maus pagadores; depois, homem sério, já estabelecido, de calças
brancas, paletó de alpaca, chapéu do Chile; depois, de casaca, luvas de pelica,
à espera da noiva; viu-se, no dia seguinte ao casamento, enfronhado no seu
rodaque de brim, ajoelhado aos pés de Filomena; viu-se fumando o seu primeiro
charuto e bebendo o seu primeiro trago de vinho; viu-se de barba raspada,
bigode retorcido, fraque à moda; de espanhol, a raptar a esposa; de albornoz,
a percorrer o Egito; de túnica, a passear na Índia; de touriste, a bordo dos
paquetes; de chicard1 a dirigir o cotillon; viu-se de todos os modos; viu-se
reduzido a boêmio, empenhando jóias; mendigo, a sentir fome, e afinal sonhou-se
velho, arrastando-se pelas ruas, a pedir uma esmola por amor de Deus.

E toda essa variada coleção de tipos, todos esses Borges, giravam e rodopiavam
de mãos dadas uns aos outros, saltando, esperneando, fazendo caretas, em torno
de uma mulher esplêndida, coberta de diamantes, que se torcia de riso com
uma taça na mão, a transbordar de champanhe, e olhava para todos eles, atirando
a cada um, simultaneamente, frases de amor e de ironia, beijos e muchochos,
suspiros e reviretes.

Foi surpreendido nesse ponto da vertigem por dois grossos pulsos que lhe
batiam no ombro. Borges acordou sobressaltado; porém, mal voltou a si, um
grito de prazer escapou-lhe dos lábios.

Defronte dele estava o Urso, a fitá-lo, de orelha em pé, a sacudir a cauda.

– Meu amigo! meu verdadeiro amigo! exclamou o pobre homem abraçando-se ao
cão, enquanto lhe corriam dos olhos as mais verdadeiras lágrimas de ternura.

Urso respondia a lamber-lhe as mãos, a farejá-lo todo, a grunhir.

– Bom e fiel amigo, acrescentou o Borges, sem se fartar de contemplá-lo.
Bem se vê que não és um homem! Injusto fui eu em não contar contigo na miséria,
apesar de te haver abandonado no tempo da minha ventura! Mas que te hei de
dar agora, fiel camarada; eu, que nada tenho para mim?!… Em todo caso, sinto-me
mais forte! Vamos lá – havemos de viver!

E, dizendo isto, levantou-se, passou ainda uma vez a mão na cabeça do Urso
e seguiu na direção do hotel. Talvez tenha fome!… pensava ele. Mas é impossível
que eu não descubra alguma coisa para lhe dar.

* * *

 porta da estalagem, quando o Borges se aproximou com o Urso, estava o empresário
da companhia de saltimbancos, de pernas cruzadas, a fumar cachimbo.

Era um italiano calvo, muito magro, alto, de grandes barbas negras, chamava-se
Bela.

– Bom animal para um circo! pensou ele, atentando no Urso; se o tivessem
ensinado valeria quanto pesa!

E os olhos do funâmbulo cresceram sobre o cão.

– Quer dez mil réis pelo bicho? perguntou, tocando no ombro do Borges.

Este fitou o italiano, sem responder.

– Dou-lhe quinze.

– Não, respondeu o outro secamente, penetrando já na estalagem.

– Vinte.

– Não! não! disse o Borges, fugindo a uma idéia que lhe acabava de atravessar
o pensamento. – Não! seria infame!

– Pois se quiser vinte, é meu; mais não dou! gritou ainda da porta o empresário.

Borges já não o podia ouvir, porque a acrobata americana vinha de lhe comunicar
o estado de Filomena.

Correu ao quarto da mulher. Encontrou-a estendida no leito, a gemer, a voltar-se
incessantemente de um lado para outro.

– Que é isto?! perguntou ele, desvairado.

E, mal disseram a causa do acidente, precipitou-se, como louco, para a sala
de jantar. O estalajadeiro, assim que o viu, calculou o risco que corria,
e tratou de fugir; mas só teve tempo de se esconder dentro de um armário despratelado,
que jazia a um canto da sala.

Este jogo de cena fez alguma bulha e atraiu todos os de casa. Quiseram logo
impedir que o Borges se aproximasse do armário.

Vão esforço. João Touro, com o primeiro arranco, lançou por terra os que
o tentavam segurar e atirou-se contra o armário.

Não se deu ao trabalho de abri-lo, abarcou-se sobre o peito, ergueu-o, e,
depois de sacudi-lo duas ou três vezes, arremessou-o pela sala, varando tudo
que estava no caminho.

Um clamor estrepitoso rebentou em volta dele. No meio do barulho, ouviam-se
os gritos do estalajadeiro, o ladrar do Urso, que acompanhava aos saltos os
movimentos do amo e, de todos os lados, um coro terrível de exclamações cheias
de assombro, de raiva e de terror.

Mas os que ficaram machucados logo ao primeiro encontro acudiam já contra
o Borges, armados de cadeira; a companhia em peso, tomando as dores pelo dono
da casa, não tardou igualmente a lançar-se sobre ele, e, em menos de dois
segundos, travou-se o mais formidável sarilho.

Foi uma coisa horrorosa!

O Borges, fora de si, ia agarrando o que lhe caía nas mãos e arremessando
para frente. Voaram mesas, cadeiras, estantes, aparadores, garrafas, tudo!

A sala, em breve, ficou completamente vazia, e ele, só ele, passeava de um
para outro lado, rugindo e fungando como um verdadeiro touro.

XV – COISAS EXTRAORDINÁRIAS

– Foi o empresário da companhia, o Belo, o primeiro que se animou a voltar
à sala… Mas não trazia aspecto de briga; ao contrário, aproximou-se do Borges
com toda a calma, e disse-lhe em voz baixa:

– Tenho uma proposta a fazer-lhe…

– Que é?! gritou o marido de Filomena.

– Contratá-lo para a minha companhia. O senhor, com a força de que dispõe
e com o seu Urso, pode fazer chicanas. Dou-lhe duzentos mil réis por mês.
Aceita?

– Aceito, respondeu o Borges, sem vacilar. Mas com a condição de que o senhor
pagará imediatamente o que devo nesta casa.

– Está dito, respondeu o italiano. É só fecharmos o contrato; isso faz-se
num instante.

E o estalajadeiro, uma vez embolsado, declarou que retirava o que dissera
pela manhã, e pediu que lhe perdoassem o mal que havia causado e afiançou
que sua casa e os seus serviços estavam sempre às ordens de Borges.

Este tratou logo de pôr a esposa ao corrente do passo que acabava de dar.

– Magnífico! exclamou ela. Oh! magnífico! Contanto que o italiano esteja
disposto a me arranjar igualmente um lugar na sua companhia.

– Hem?! Um lugar… um lugar para ti? Estás gracejando com certeza!…

– Juro-te que não. E desde já te previno de que só nesse caso consentirei
que cumpras o teu contrato!

– Mas, meu amor, aquilo não te pode convir… do que iria te encarregar numa
companhia de acrobatas?! É preciso ver a coisa por este lado!

– Ora! E o meu talento coreográfico, e a minha voz de contralto, a minha
beleza, e o meu espírito, não valem tanto como a tua força e o teu cão?!

No dia seguinte, Filomena estava também contratada. Esperariam apenas que
se restabelecesse completamente para metê-la em serviço.

– Diabo era se iam encontrar na platéia algum velho conhecido dos bons tempos!…
Ainda se fosse eu só!… pensava o Borges. Mas a questão é minha mulher!

O empresário cortou essa dificuldade lembrando que Filomena, para não ser
conhecida, podia muito bem se disfarçar em índia, pondo uma cabeleira e pintando-se
de cabocla, e que o Borges, ainda com mais facilidade podia caracterizar-se
de inglês. – Um pouco de vermelhão, um par de suíças ruivas, e aí teriam o
mais legítimo e completo atleta deste mundo! Quanto ao Urso – pouco seria
necessário para reduzi-lo a um urso verdadeiro.

Ficou tudo combinado.

Borges lutaria com a sua fera e com os homens que se apresentassem; faria
exercícios de força, suspenderia barras de ferro, carregaria e dispararia
uma peça ao ombro, jogaria enormes balas de cinco arrobas, etc… etc… Filomena
dançaria vários passos difíceis e cantaria os seus tangos e as suas cançonetas.

Convinha é que ela se restabelecesse quanto antes, para poder abandonar aquela
maldita estalagem e cuidar dos primeiros ensaios. Felizmente a cura foi rápida
e, graças aos novos recursos, de que dispunham, Filomena, a primitiva, a formosa,
a deslumbrante Filomena Borges, surgiu da cama ainda mais bela, mais petulante,
como se a idéia de farandulagem que a esperava lhe fizesse ressaltar os encantos,
ajuntando-lhes uma nota diabólica de desordem e de boêmia.

O empresário esfregava as mãos de contente, quando a viu no dia da mudança.
Ou ele muito se enganava, ou aquela mulherzinha ia fazer uma revolução no
público!

Principiaram os ensaios, logo depois que saíram da estalagem. Filomena, as
primeiras tentativas, revelou uma tal habilidade para a sua nova profissão,
que o Bela ficou deveras encantado.

Ninguém seria capaz de dançar e cantar um tango brasileiro com mais graça
nem com mais originalidade.

Em corpo algum de mulher diziam tão bem as penas sensuais da tanga, as axorcas
orientais e o emplumado e pitoresco cocar indígena.

– Achei a sorte grande, não há dúvida! considerava o Bela com os seus botões.

É que, além de Filomena, o Borges enchia-lhe as medidas. A luta deste com
o Urso faria furor! O cão efetivamente, depois de certos arranjos no focinho,
nas patas e na cauda, não deixava, nem de leve, suspeitar a sua modesta procedência.

Espalharam-se logo por todas as esquinas imensos cartazes, anunciando os
“dois célebres artistas, que acabavam de chegar de Paris, contratados para
o Pavilhão Chinês”.

Pavilhão Chinês era o circo de Bela.

“- Grande sucesso do dia! A linda Vênus Americana, o invencível Hércules
Inglês e o indomável e terrível Urso Negro”…

Acompanhava esses nomes um pomposo programa de espetáculo, onde vinham as
mais provocadoras considerações a respeito daquelas três celebridades.

Apesar, porém, de tudo isso e das bandeiras e luminárias com que o Bela enfeitou
seu pavilhão, a estréia dos novos artistas não foi muito concorrida. Mas,
da segunda noite em diante, a formosura irresistível de Filomena principiou
a atrair extraordinária concorrência.

Não tardou a rebentar em toda a cidade um entusiasmo apoplético por aquela
Vênus cor de amêndoa, que parecia ter furtado às serpentes do Brasil o segredo
de suas curvas sensuais, quando ao som dos lundus e das habaneras, quebrava
e retorcia o corpo, como numa agonia de amor.

A Faculdade de Direito em peso não abandonou mais as galerias do Pavilhão
Chinês: os jornais acadêmicos apareceram repletos de artigos, crônicas, versos,
o diabo! a respeito de Filomena. E o povo, o grosso povo, acudia de todos
os lados, a um mil réis por cabeça.

Ah! mas Filomena tinha um corpo admirável e excepcionalmente correto. Ela
não punha espartilhos e, com uma simples camisa de meia cosida à pele, principiava
a sapatear, a torcer-se toda aos gemidos das habaneras, fazendo e desfazendo
as curvas magnéticas dos rins, expondo corajosamente a pureza grega de sua
cintura elástica e vibrante, como se a alma de uma danseuse da Grande ópera
tivesse tido a fantasia de encarnar-se num dos velhos mármores do Partenon.

Era um delírio, quando a banda de música rompia o tango, e Filomena, vestida
de índia, saltava ao meio do circo, a jogar o corpo para a direita e para
a esquerda, ora num pé, ora no outro, os braços no ar, a cabeça bamba, a boca
a sorrir, os olhos a requebrarem-se.

– Bravo! Bravo a Vênus! Quebra! gritavam de todos os cantos.

E choviam flores. E os chapéus, os lenços e as bengalas juncavam o tapete
que ela pisava.

* * *

Por outro lado, o Hércules Inglês ia conquistando as simpatias do público.
A sua melhor sorte era a que ele executava com o bom Urso: “a vida pelo combate
ou a luta terrível do homem com a fera”, segundo diziam os anúncios.

Consistia no seguinte:

Seis homens arrastavam para o meio do circo uma enorme gaiola de grossos
varões de ferro, pousado sobre quatro rodas, na qual vinha o pobre animal,
arvorado em fera e preparado de modo a iludir os mais espertos.

Logo depois, com as suas suíças ruivas, as suas faces cor de sangue, aparecia
o Borges, vestido de guerreiro romano, cheio de escamas e cintilante de lantejoulas:
na cabeça um grande capacete de folha de Flandres e na mão uma pequena vara
de ponta encarnada.

A terrível fera, ao ver surgir o domador, começava a agitar-se, a espolinhar-se
como sequiosa de sangue.

Ouviam-se então por todo o circo uns rugidos medonhos e atroadores, que Bela,
escondido debaixo da gaiola, soltava com o auxílio de uma trombeta de sua
invenção.

Todos emudeciam. E, entre o resfolegar ansiado do público, caminhava o domador
a passos firmes para a jaula. Abria a portinhola, entrava, e de carreira ia
lançar-se ao monstro, que se erguia logo nas pernas de trás e roncava com
mais força.

Principiava a luta.

Por vezes caía o homem, quase vencido, mas de pronto se levantava e de novo
investia contra o formidável adversário, até conseguir domá-lo, segurando-lhe
o pescoço com uma das mãos e paralizando-lhe com os pés o movimento das pernas.

Nisto, de todas as curvas da barraca, rompiam os aplausos. E, dentre a enorme
gritaria, só se destacava uma palavra, que era repetida por mil bocas:

– Basta! Basta! Basta!

E o Hércules, inalterável e frio como se tivesse plena consciência de seu
valor, saía da jaula, fechava bem a cancela, cumprimentava o público e recolhia-se
modestamente ao interior do circo.

Quando porventura aparecia alguém que quisesse lutar, ele nunca se negava;
e, quando não aparecia, era o Bela que desfrutava essa honra, deixando-se
vencer no fim de um quarto de hora, e retirando-se depois para os fundos do
barracão debaixo de uma tremenda vaia do público.

* * *

O fato é que, dentro de pouco tempo o empresário levantou a cabeça, graças
aos seus novos artistas, que eram já considerados os primeiros da troupe.
Mas, se quis conservá-los, e conseguir que eles o acompanhassem numa excursão
pelas outras províncias, teve que lhes dobrar o ordenado, oferecendo-lhes
depois novas vantagens, e, afinal, associá-los à empresa.

Borges e a mulher faziam progressos admiráveis. Depois de percorrerem Bahia,
Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas, achavam-se
possuidores de alguns contos de réis e podiam, como desejava o marido, abandonar
a vida de saltimbancos e abraçar uma carreira menos repugnante.

Mas, no coração romanesco e aventureiro de Filomena, o prazer do aplauso,
o gozo da nomeada, encontraram terreno propício e haviam já cravado bem fundo
as suas raízes.

Entretanto, a vaidade de artista festejada pedia-lhe horizontes mais largos
e conquistas mais nobres. Agora toda sua ambição era ligar o seu verdadeiro
nome, o. seu nome de batismo, às glórias que conquistava em público.

Não hesitou em separar-se do Bela, contratar por sua conta novos artistas,
formar um novo plano de trabalho e, com o seu vasto repertório de lundus,
tangos e modinhas brasileiras, que ela colecionara pelas províncias, e, com
as vestimentas indígenas, que trouxera do Amazonas, levantou ferro para as
repúblicas vizinhas.

Mau grado os conselhos de Borges, que ardia por um momento de descanso, percorreu-as
de Patagônia a Venezuela. Seguiu depois para a América do Norte, onde, durante
um ano, ganhou rios de dinheiro, e por fim, aguilhoada pela idéia de aparecer
na Europa, despediu todo o pessoal e, apenas acompanhada pelo marido e pelo
Urso, levantou a proa sobre Paris.

XVI – SEGREDOS DE BASTIDOR

O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou
um momento.

Aprendeu a executar os jogos malabares, exercícios no trapézio, ginástica
sobre o cavalo, mágicas e prestidigitação.

De Hércules Inglês passou a equilibrista japonês, fazendo-se anunciar com
o nome de Tchím-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande
mitra encarnada, um leque na mão, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que
ninguém pudesse suspeitar que aquelas pantomímices escondiam um coração puro
e singelo, talhado para o amor da família, para a dignidade do lar doméstico
e para os exemplos da honra e da perseverança no trabalho.

E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o
palhaço vulgar, de cabeleira ponteaguda e cor de fogo, a cara empastada de
alvaiade, até o empresário de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra
os cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.

Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseudônimo
de Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impressão nos
anúncios.

A mulher conservaria as suas roupas indígenas, mas não havia de pintar mais
o rosto, nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: “Filomena Borges
– A Brasileira”.

O Urso é que ficara de melhor partido – ia deixar a cena e recolher-se à
sua primitiva e sossegada posição de animal doméstico. Já não era sem tempo,
coitado! O pobre cão estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as
faculdades.

Estrearam no Cirque d’hiver.

Que sucesso! Os parisienses cansados de boa música e fartos de artistas célebres;
os parisienses desiludidos, esgotados, blasés, ainda tiveram fibra para um
arrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Pará, gemidos
em português por aquela deliciosa filha dos trópicos, que não precisava de
espartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem clássica e singela
das curvas carnais toda a velha sensualidade paradisíaca.

O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, não tinha mais que afetar
grande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos beiços e nas
orelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio único que descobriu
o pobre homem para não se fatigar em extremo, pois várias vezes teve de sair
de seu sossego e ameaçar com as suas flechas de ubá e com os seus guinchos
atroadores os gommeux embeiçados pela mulher.

Ingleses silenciosos e tradicionais excêntricos, russos viajantes, príncipes
de várias partes do mundo, vinham Cirque d’hiver atirar o coração e a bolsa
aos pés da formosa brasileira. Filomena, porém, não era mulher que sucumbisse
a tais seduções e, já com a tática que apanhara nos teatros, já com os conselhos
que em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores
tudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares
de ternura e os seus belos sorrisos de esperança. Só nas ocasiões supremas
é que o terrível botocudo se mostrava, armado, de tamarana, uirupara e esgaravatana,
e, tal gritaria e tais ameaças punha em jogo, que ninguém levaria a sua intrepidez
a ponto de avançar.

Não obstante, ele às vezes ficava sobressaltado e receoso.

– Não acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em
segredo à mulher – podes vir a cair em algum laço… Conhecemos muito pouco
esta cidade, e os parisienses, minha vida, gozam a esse respeito de uma fama
terrível!… Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta
maldita vida de teatro e irmos descansai a um canto sossegado e feliz da nossa
terra!… O que já possuímos, com alguma economia, chegar-nos-á perfeitamente
para o resto da existência, e, confesso-te, minha santa, desde que me casei,
não faço outra coisa senão suspirar por um momentozinho de repouso!…

Filomena sorriu.

– Ora, queira Deus que te não venhas a arrepender!… acrescentou o Borges.
Tenho pressentimentos horríveis com esta cidade infernal!

– Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. São de todo infundados os
teus receios! Descansa, eu sei o que faço; não me há de suceder coisa alguma!

– Hum, hum!… resmungou o botocudo, sacudindo a cabeça. Não sei que te diga!…
Olha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante
negro, não me passa da garganta! É de todos o que mais me incomoda! Não sei
que diabo acho na cara de semelhante homem!

* * *

Nesta noite, já no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e
o marido metia no pescoço o seu barulbento aiucará. feito de búzios e dentes
de animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim,
dizia no melhor português:

– É permitido cumprimentar a formosa brasileira?…

– Pois não! respondeu esta, ordenando à criada que fizesse entrar a visita
na pequena sala próxima.

E, quando apareceu, já pronta: – Oh! o duque!… Não sabia que V. Ex. falava
português, e com tanta perfeição!

– Pois se eu sou português…

Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.

Dir-se-ia um alemão. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba à Cavaignac,
cabelos de um amarelo frio e seco.

– Não falemos nisso, interrompeu ele – tratemos de outra qualquer coisa!…
De seu esplêndido país, por exemplo.

– O Sr. duque conhece o Brasil?…

– Não. Nunca fui ao Brasil, mas tenho lá muitos parentes e amigos.

Parentes! Na corte ou nas províncias?

– Na corte.

– Ah! Então devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.

– É inútil insistirmos: não conhece com certeza… é uma família de estrangeiros…

– Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cortês, porque havia já suspeitado
quem vinha a ser aquela incógnita visita. – É ele, com certeza… pensou de
si para si.

Mas, nesse momento, o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu
papel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerimônias.

– Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o
ao duque.

O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita,
franzindo as sobrancelhas.

– Ainda não conseguiu familiarizar-se com as línguas estranhas, explicou
Filomena.

E percebendo no duque um gesto de contrariedade:

– Pode conversar à vontade em português; Bu-ru-cu-lu-lu não entenderá uma
palavra do que ouvir. Só eu posso fazer-me compreender por ele, graças ao
pouco que sei do tupi.

– Mas como foi a senhora, tão bonita e tão delicada, descobrir esse monstro
para seu marido?… quis saber o fidalgo.

– Devo-lhe a vida!… respondeu Filomena. – Se não fosse esse bravo indígena,
teria sido devorada pelos seus compatriotas numa lamentável excursão que fiz
ao Alto Amazonas…

– Ah! E sabe o que o levou a salvá-la?

– O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros,
correu-me aos pés, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os
que me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este
instante me segue como um cão. É de supor que me tomasse por alguma divindade!…
Pelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!

– Ah!

– De resto, não tem absoluta consciência do que faz – é uma espécie de bicho!
Não sabe a razão por que aparece em público; não compreende nada do que o
cerca. Uma ocasião, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia
Paris, e, pela resposta que deu, concluí que o tolo se supõe numa existência
de além túmulo, julga-se no paraíso de sua religião.

– Como assim? perguntou o duque intrigado.

Filomena apressou-se a explicar:

– É que, na ocasião de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou
muito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres tão fortes, que
o fizeram delirar três dias consecutivos. Pois bem, o toleirão imagina que
sucumbiu à moléstia e que voou logo às mansões siderais, onde eu represento
para ele a veneranda encarnação do poder altíssimo e da suprema divindade!

– De sorte que ele se julga já falecido?… perguntou o duque com interesse.

– Em plena bem-aventurança eterna. Julga-se como alma do outro mundo. Paris,
que é o édem terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! é nada menos que
o paraíso celeste!

– É singular!

– Singular e extremamente cômodo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando
do efeito que as suas palavras produziam na visita. – Imagine o Sr. Duque
que o fato de meu marido se julgar morto faz que ele me tenha comigo a menor
exigência e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, é o
meu guarda, é a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, não tenho que recear
qualquer agressão, venha ela de um leão das salas ou de um leão das florestas!

– É muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a
grossa e taciturna figura do Borges, acocorado ao canto da sala. Sim, senhora!
Está garantida!

– Ah! perfeitamente garantida! Já vê o Sr. Duque que eu não poderia encontrar
melhor marido em parte alguma do mundo!

– Ele então não consente que lhe toquem sequer com o – dedo?… perguntou
o louro, fazendo um ar de desgosto.

Experimente! disse Filomena, faça que me vai prender o braço.

O duque estendeu a sua mão calçada de luva da Escócia e fingiu que ia tocar
no carnudo braço da artista.

O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabeça para os lados, com
movimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.

– E se eu me arriscasse a dar-lhe um abraço?… perguntou o duque.

– Deus o defenda! Nem é bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangulá-lo
no mesmo instante! Não queira experimentar, que eu não respondo pelas conseqüências.

– E não havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presença desta
alimaria?!

– Pode haver, mas é muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de
qualquer cão de caça!… Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me
escondesse!

– E por que não se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas,
deve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.

– Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o demônio do bicho tem faro!

– Era fazer presente dele ao museu zootécnico de França, em nome do Imperador
de seu país, que é um sábio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante
serviço à biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter à comissão que
recebe os donativos.

– Não! disse Filomena, por ora não. Mais tarde pode ser que aceite o seu
oferecimento.

– Pois, quando quiser, estou às suas ordens, acrescentou a ilustre visita,
erguendo-se e tomando a mão de Filomena para depor um beijo.

Mas o Borges afastou-se da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.

– Este animal não me deixa pôr o pé em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo
contrariado, depois de cortejar a brasileira.

Borges acompanhou-o até fora da porta e, ao voltar para junto da mulher,
disse-lhe esta:

– Conheces?

– Quem? Este tipo? Não!

– Oh! o D. Luís, homem!

– Que D. Luís?

– O D. Luís, de Portugal.

– Ora essa!

– Pois é ele

– Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça!… observou
o botocudo.

– Deixa-te de receios, meu selvagem – e vem daí, que já deu o segundo sinal
para principiar o espetáculo!

XVII – SUPREMA EXIGÊNCIA

Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada
com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de
seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento
de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob as singularidades de
seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais
ela não o poderia suportar.

As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por
uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta
é para o sopro – o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.

Queria todos os beijos do esposo, sim! contanto que não viessem naturalmente,
sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse
necessidade de escondê-los de alguém, de obtê-los com sacrifício de alguma
coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças,
promover comentários.

Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse
ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível,
quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação
tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.

O botocudo intrigava muita gente: – Seria crível que uma mulher, tão formosa
e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?… O monstro
seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?…

E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d’hiver
à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada
e menos condescendente.

Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre
escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhada
de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes
para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista
da brasileira.

Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.

Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns
momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas;
tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no
quarto, por alta noite, a tripetrepe, quando não fosse pressentido por nenhum
dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera
do primeiro escândalo.

E tudo isso o torturava abertamente. – Maldita fosse a hora em que ele se
fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.

* * *

Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris
invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os
cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes
costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.

Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e trolets,
publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.

E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricatura, em fotografias, em cromos,
em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevíns de terre
culte. E por toda a parte a pareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena
Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócios; suas toillettes serviram
de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas. traduzidas
em todas as línguas.

Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía
em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto
de sua vida.

Por outro lado, o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo
papel de botocudo e retomara o seu titulo de barão de Itassu, rogava-lhe com
instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com
ele a um cantinho feliz da pátria – a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que
ele tinha as mais vivas saudades!

– Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era
mais que tempo de regressarem! Ele estava farto de nunca ser aquilo que era,
de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito!… Para
que ir mais longe?… Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado
todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana – riram-se
com os felizes, choraram com os desgraçados – sofreram e gozaram; tiveram
o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!

A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:

– Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser
precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com
ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população,
desencaxilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola,
que tinha i suprema honra de lhe haver dado o berço!

– Não iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e
vaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos;
nunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha;
não seria a indígena que tantos corações fez pulsar, mas em compensação havia
de ser a “Exma. Sra. Baronesa de Itassu”. Enorme cauda de veludo! jóias deslumbrantes!
luvas até o ombro!

E só se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na
melhor sociedade; ou então, lá uma vez por outra para quebrar o seu tédio
de mulher célebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos pés,
mostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse
de mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado
num programa de espetáculo, esse nome que os parisienses decoraram, seria
o bastante para encabrestar a população da corte e traze-la de rastros aos
degraus de seu trono.

E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquetá!…

– Mas, santo Deus! estaria nas suas mãos porventura sumir-se por uma vez,
desaparecer, fugir?!… Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento
em vida!

Do que havia experimentado até ali, do que havia sentido, do que sofrera,
do que gozara – nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer
coisa! No seu coração ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!

– Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as mãos à cabeça. – Valha-me Jesus
Cristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda não é desta vez que sossego?

– E para que sossegar?! interrompeu Filomena. – Que significa o repouso?
Pensarás que eu hoje seria capaz de resignar-me à morbidez estúpida de uma
existência sem idéias nem aspirações? Pensarás que eu consentirei em abandonarmos
a vida pública, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas
conquistado um nome digno de mim e digno de teu mérito?!…

– Hem?! Como é lá isto?!… exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas
fazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um “grande homem”?!

– Certamente! certamente! Ao contrário não valeria a pena gastarmos tanto
tempo e tanto esforço em preparar o teu espírito!

– Ora essa! De sorte que até agora… eu nada mais fiz que preparar-me?…

– Para conquistar uma posição eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperança
que te dediquei a minha vida e o meu amor!…

– Mas Filoquinha de minhalma! eu não disponho de aptidões para isso!… Bem
vês que até hoje tenho feito por ti tudo que está nas minhas mãos… Como,
porém, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa
dose de talento?!…

– Isso é o que pensas, e a modéstia com que te julgas é mais uma prova de
tua competência! O verdadeiro mérito é sempre assim!

– Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como não tenho o menor talento!
Acredita que é esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que não serei jamais
um “grande homem”!

– Se sentisses o contrário, é que nunca o poderias ser!

– Ora, que desgraça a minha!… considerou o Borges de si para si. – Ora,
que eu não consiga entrar um momento nos seus eixos, sem ter de contrariar
minha mulher! De que havia agora de se lembrar – querer que eu seja um “grande
homem”. Eu, que não sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade,
o escândalo, o ruído! eu, que já me impacientava de a ver tão conhecida, e
suspirava todos os dias por sair desta inferneira!

– Não! disse ele em voz alta. Não! Tem paciência! Isso é impossível! Pede
o que quiseres, mas não exijas de mim uma coisa de que eu não disponho!

– Entretanto, assim é preciso, respondeu Filomena, a não ser que estejas
resolvido a destruir num segundo a única esperança que me resta!…

– Mas a questão é que a gente não é “grande homem” quando quer!… Ora essa!
replicou o Borges.

– E muito menos quando não quer! volveu a outra. – Não exijo de ti mais do
que um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!

– De boa vontade?!

– Sim, de resolução. Contento-me com isso!

– Mas se tenho toda a certeza de que esse esforço será baldado!… Eu bem
me conheço, minha mulher!…

– Seja ou não seja baldado, ele é necessário para a minha felicidade e para
a segurança do amor que te dedico! Agora, se entendes que não vale a pena…

– Eu não disse semelhante coisa!… Valha-me Deus! Teu amor está acima de
tudo, e creio já ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza:
eu, isto aqui entre nós, eu nem sei em que consiste o tal esforço de que me
falas; não sei os passos que é preciso dar; não sei como a gente se faz célebre
ou o que melhor queres que eu seja!

– Não é tão difícil como te parece à primeira vista. – Se o Brasil estivesse
em guerra, sentarias praça quanto antes e dentro em pouco tempo poderia alcançar
um posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!

– Deus me livro!

– Mas, continuou Filomena – desgraçadamente estamos numa paz absoluta, e,
por conseguinte, só nos resta a política.

– A política?…

– Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora
é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!

– Uma causa?!

– Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada
aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que
defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te
vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás
de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador
te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não
obterás o que não quiseres. Entendes tu?

Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:

– É difícil!

– Que difícil o que! retrucou a mulher. – Difícil era conquistar o meu coração
e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho;
conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! Faze-te
célebre! coloca-te ao meu lado! Sobe à minha altura! acompanha-me no vôo!

– Veremos, veremos… prometeu o marido vagamente. – Hei de fazer a diligência!

Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto
na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender;
o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos;
isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava
disposto a empregar a diligência. – Já agora, seria o que Deus quisesse!…

E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.

XVIII – CELEBRIDADES

Filomena não se enganara quanto à previsão do entusiasmo que havia de causar
no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha aí a famosa cancionista, tão apreciada
de Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instantânea.

E desde então até a sua chegada foi ela a ordem do dia; não se falava noutra
coisa. Esperavam-se contando os minutos; um sussurro uníssono de elogios evolava-se
da opinião pública, sem que ninguém pudesse explicar a causa de semelhante
alacridade.

Afinal, chegou.

Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vê-la. O cais Pharoux parecia
diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos,
por aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres.
Nas ruas faziam-se comentários a respeito da baronesa de Itassu; os jornais
pregavam na parede notícias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas
as proporções; inventavam-se biografias.

Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era
uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por baixo, num hotel;
aquele dizia que ela fora sempre riquíssima, e que só trabalhava em público
por amor à arte. Aqui afiançavam havê-la visto, em tal época dançar uma habanera
em casa de tal figurão; logo, ali, negavam: – Que não! que essa Filomena era
outra, falecida havia já coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro,
não tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos
bailes, por tão luxuosos e originais, ainda se conservavam na memória de toda
a gente!

E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.

Entretanto, no meio desse borborinho que se fazia no cais, dois homens, depois
de se abalroarem, soltaram exclamações de reconhecimento.

– Olá! Você também por aqui, Sr. Barroso?…

– É verdade. Como vai o amigo Guterres?

Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contrário,
dizia-se feliz. Graças a Deus continuava às mil maravilhas com a sua cara
mulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupação,
eram o seu enlevo!

– O senhor é quem goza esta vida! considerou o outro.

– É. Deus louvado não tenho de que me queixar!… sustentou o Barroso. Sou
feliz, não nego! Coube-me por sorte uma esposa que é um anjo, um verdadeiro
anjo de bondade! Também, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda… trato-a
como vocemecê não imagina!

– Mas faço uma idéia! faço uma idéia!… respondeu o Guterres, cheio de acordo.

E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:

– Ora, diga-me cá uma coisa, seu Barroso; tire-me de uma dúvida: – Quem vem
a ser esta Filomena Borges?… Dir-se-ia a mulher do João Touro!…

– Pelo menos, o nome é o mesmo e foi justamente essa dúvida o que me trouxe
por cá!

– O nome e o título! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de
Itassu. Afianço-lhe, porque vi!

– Então não é outra com certeza! disse o Barroso – e se duvido, quero que
me rachem de meio a meio!

– Ora o diabo!

– Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia
de caprichos e de fantasias!

– Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante
um espalhafato desta ordem?… Isto até faz desconfiar!

– Pois então você não sabe que o Borges sempre foi um barão pela mulher?…
Ela faz dele o que bem entende!

– Sim, mas segundo me consta, o João Touro não saiu lá muito recheado aqui
do Rio!… considerou o Guterres.

– Recheado saiu ele, mas foi de dívidas!…

– E então?…

O Barroso Ia responder, mas Interrompeu-se:

– Olhe! Aí chegam eles! São os mesmos – é a Filomena e o pancada do marido!

– Ora, para que havia de dar aquele maluco!… exclamou Guterres, considerando
o casal que o outro lhe mostrava.

– E como vêm tão esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!

* * *

Filomena, com efeito, vinha tão a européia pelo braço do marido, que não
parecia a mesma.

E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!

A quantidade de curiosos que os cercavam era tão grande, que os dois mal
podiam caminhar.

Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou àquele auge. As ruas, por onde seguia
a desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam.
De todos os lados, choviam versos; duas sociedades filarmônicas acudiram com
a pancadaria de sua música. Um verdadeiro delírio!

Começaram a surgir as ovações.

Do dia seguinte à chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo
de mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos
os sentidos. Os apaixonados calam-lhe em redor aos bandos, como pássaros prostrados
pelo calor.

E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada além
de vagas esperanças, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos
e de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.

Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno
para a concorrência que havia. As senhas atingiram o valor de jóias. Viam-se
casacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, não pela
arte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela
originalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente
com os requebros dos tangos e das modinhas.

– Não há francesa! Não há nada que se compare a isto!… dizia-se.

Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de
uma comissão diplomática, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espetáculo,
por quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de sândalo, incrustada
de ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de
papel de arroz, escrito a pincel, que no melhor francês, punha à disposição
de Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.

Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia três semanas estava
ancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe
um dote de meio milhão de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido
e acompanhar o sedutor à Inglaterra, onde casariam sob a religião protestante.

E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe
defronte dos olhos; e- ela sempre meiga, sempre amável, nunca dizia que “não”
e também nunca dizia que “sim”, justamente como em pequena lhe ensinara a
velha D. Clementina.

O Borges, coitado! é que já não podia agüentar com aquele demônio de vida.

Quando não era o teatro, eram as visitas, os jornalistas, as repetidas festas
– um jamais acabar de maçadas! é certo que já não pisava no palco, mas em
compensação as suas lides de empresário, de caixa e de gerente, absorviam-lhe
todos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar
contas, contratar empregados, administrar o serviço do teatro, escriturar
a receita dos espetáculos – um inferno de preocupações.

E quando afinal, pela manhã, ganhava a cama, moído e prostrado, lá estava
a mulher para perguntar-lhe pela “idéia”, para perguntar-lhe como iam “as
suas ambições políticas”. Se o Borges havia já deliberado alguma coisa a esse
respeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. – que fizera,
afinal, depois que estavam na corte.

– Matar-me! É o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansaço.
– Esta vida dá-me cabo da pele! Não sirvo para isto!… Como queres tu que
eu pense, que eu escreva, se não tenho um momento de repouso, se todas as
minhas horas são poucas para o tal teatro?!

– Entretanto, é mister que te resolvas a principiar!… Não podes de forma
alguma permanecer no estado em que te achas!…

– Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. – Hei de dar um jeito…

– Tenho uma idéia! exclamou a mulher de uma dessas vezes – tenho uma excelente
idéia! – Está a chegar o verão; iremos passá-lo em Petrópolis e, durante esse
tempo de completo repouso, tu farás o que já combinamos. Hein? que tal te
parece?

– Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a idéia daquele
descanso. – Irei para Petrópolis, irei de muito boa vontade, mas hás de afiançar
primeiro que não voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo
nem sequer pensaremos em teatro!

– Podes ficar descansado! prometeu a mulher.

O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que,
à chegada do Borges, o procurou.

Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas
– que recebera do amigo.

E, desde essa visita, não lhe deixou mais a casa. Jantava lá quase todos
os dias e à noite era infalível no teatro.

Borges apenas conseguiu suportá-lo, mas Filomena tinha-o em certa estima.
Guterres não se cansava de elogiá-la; ao lado dela só falava nos sucessos
extraordinários que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa
experimentava certo gostinho em sentir a seus pés aquele constante incensador,
aquele louvaminheiro incansável, que a glorificava sempre no mesmo diapasão,
como uma caixa de música que não precisasse de corda, mas que só tivesse uma
peça.

Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar lá a seu modo, fazia-se muito
solícito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele.
Passava os dias no teatro, querendo ajudá-lo em tudo e não fazendo coisa alguma;
assentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e
a despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os músicos, tomando
contas às costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios,
apaixonando-se nas discussões a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo
desculpas aos espectadores que porventura ficavam mal acomodados na platéia,
e indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria
o negócio.

Quem o visse ali, tão inquieto, tão empenhado, tão comprometido com aquele
serviço, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.

Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre: “O João, o nosso amigo João”.
Mas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito,
como para justificar aquela amizade: “O Barão de Itassú”!

Borges no fim de contas já não o achava tão ruim, e aos poucos o ia admitindo
nos seus particulares. Um dia de mais expansão, chegou a falar-lhe muito em
segredo, nos projetos políticos, que ultimamente o preocupavam.

– Não é coisa minha! disse, justificando-se. – São histórias lá de minha
mulher! Deu-lhe p’r’aí. Acha que devo meter-me na política!…

O outro recebeu a notícia com um acolhimento cheio de assombro.

– E por que não?!

– Achas então que a coisa é exeqüível? perguntou o Borges.

– Mas certamente! Dessa massa é que eles se fazem! Nas condições em que estás
e dispondo da influência de tua mulher, seria um crime até não cuidares do
futuro! O]há…

E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: – Eu estou aqui para te
ajudar’ Depressa!

Mas o Borges não podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe
muito pouca confiança, continuava a ver nele o mesmo preguiçoso vulgar, o
mesmo “pobre diabo”, o mesmo parasita incorrigível.

– Então é certo que vais para Petrópolís?… perguntou-lhe o amigo na véspera
da viagem…

– É, respondeu o marido de Filomena; – sigo amanhã.

– Diabo, antes fosses mais tarde! não me convinha sair daqui sem acabar o
mês…

– Mas que necessidade tens tu de sair?… ponderou o Borges, temendo que
o outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.

– Pois eu havia lá de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!…

– Não, não! não te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges.
Agradeço-te do fundo do coração a boa vontade; mas acredita que não há a menor
necessidade de…

– Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, João?… Bem sei
que és escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos
obséquios; eu, porém, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que
disseres.

– Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido
se não fores! oh!

– E eu dou-te também a minha palavra que, nem a tiro, conseguirás que eu
mude de resolução!

– Nesse caso ê birra! exclamou o Borges, sem poder disfarçar a impaciência.

– Será o que tu quiseres! bradou o teimoso. – Mas eu considero do meu dever
não te deixar ir só!

E com orgulho:

– Não! Que não sou desses amigos que só aparecem pelo bom tempo!… Não senhor!…
Sei que vais doente, cansado, prostrado… sei que hás de precisar de um bom
amigo ao pé de ti, que te dê coragem, que te anime! Sei que levas projetos
de escrever artigos políticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltarão
as forças para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir só. Oh!
não te mereço semelhante injustiça! Eu supunha, João, que fizesses de mim
um melhor juízo!…

– Ora essa!…

– Não! não! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu não te acompanhasse!…

Borges ainda protestou, não, porém, com o mesmo ardor; as palavras do amigo
a respeito dos tais projetos políticos o interessaram sobremaneira. O Guterres
gozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente. Verdade
é que seria difícil citar-lhe as obras; Borges não se lembrava de haver posto
os olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho
de imprensa, mas, por várias vezes ouvira conversar a respeito do talento
do Guterres: – “Se não fosse tão preguiçoso, diziam, seria a nossa primeira
pena!”.

– Bem podia ser que o demônio do homem entendesse deveras do riscado e viesse
a prestar-lhe muito bons serviços!… Em tricas de política, pelo menos, ninguém
lhe podia negar competência.

Borges ainda se lembrava perfeitamente das formidáveis discussões, em que
o vira por inúmeras vezes empenhado com os grandes da matéria. – Ora, se assim
era, valia a pena abrir mão de umas certas coisas e aceitar abertamente o
auxílio que lhe oferecia o tipo!…

– O diabo seriam as despesas!

Borges já não era o mesmo algibeiras rotas em questões de dinheiro: depois
das suas adversidades, ficara econômico e desconfiado. – Mas enfim! ora adeus!…
Quem precisa tem que puxar pela bolsa!

E resolveu agüentar a carga.

XIX – PETRÓPOLIS

Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha
ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.

Principalmente a subida da serra, com a sua estrada muito branca, em ziguezague,
que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica
de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.

Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte
de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num multicor ideal, vaporoso e fugitivo.
As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes
de neblina, que se iam rasgando as primeiras irradiações do sol, como trêmulas
cambraias sopradas pelo vento.

E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto
de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes
adormecidos de pé, e lá em baixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a
baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando
largos horizontes cor de pérola.

– Esplêndido! balbuciou Filomena, com a boca meio aberta, os olhos iluminados
de inspirações, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. – Esplendido!

E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se
de plano em plano, derramando-se até ao fundo misterioso dos vales ou voando
aos alcantis que se perdiam no céu.

Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão
poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão
fundo a alma apaixonada e contemplativa.

Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia
com este os seus projetos políticos.

– Agora só o que me falta é a “idéia”! disse o barão ao ouvido do outro.

– Idéia? de quê? .. perguntou o Guterres, sem compreender. A idéia, homem,
a Causa que eu tenha de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por
alguma!

O amigo olhou multo sério para ele:

– Tu ainda não tens partido?!

E depois de um gesto negativo do outro:

– Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuís! O Imperador
dá a vida pelos homens nessas condições!

– Achas, hem!…

– Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém,
é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar
com o poder… não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E,
se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas
na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta
é a prática, são as relações políticas. – Isso obterás rapidamente, juro-te
eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!…

– Enfim, não te faltam os elementos! … segredou depois uma pausa, piscando
o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro.

– Não é tanto como supões! respondeu o Borges.

E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o
costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados
dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.

De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.

Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete
da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou
o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.

* * *

Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que
produziu em Filomena.

Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um paraíso
da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas
encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa
distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo,
a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.

A acumulação dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do céu, a frescura
do ar, prontamente impressionaram o seu espírito, sempre voltado ao pitoresco,
ao recreativo, ao Ideal. Além disso, as criancinhas louras, descalças, caminhando
em bando para a escola, as criadas alemãs, de olhos azuis, a boca vermelha
e a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, o africano e repulsivo
aspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da lendária
e melancólica Germânia.

E no Borges as primeiras impressões foram justamente o contrário de tudo
isso. Espirito prático, e por demais ferrenho, não se cegou logo pelas aparências
do mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petrópolis friamente, com todo
o peso do seu bom senso grosseiro e burguês.

O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos,
supondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando aliás Sua Majestade,
astro sem brilho próprio, não podia emprestá-lo a quem quer que fosse.

Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios,
ele, o Borges, notava que Petrópolis, com os seus decrépitos laudêmios, com
as suas sesmarias, as suas enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais,
continuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante
tocar em qualquer coisa, que lá estivesse, para se sentir logo a dois passos,
o olho vigilante e repreensivo do proprietário, do dono.

Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestígio do “Senhor”. A mesma impertinência
do “Amo”.

– Bela rua! exclamou o barão, considerando a rua D. Afonso, depois de percorrer
as ruas do Imperador e da Princesa Januária.

– É, exato! responderam-lhe – o Imperador acha-a bonita!…

– Não morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra
vez.

– Não! contradisseram-lhe, esta cerveja é magnífica – o Imperador gosta!…

E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer
informação. As idéias, as frases giravam sempre sobre o mesmo parafuso – o
Imperador. Era ele sempre o ponto da partida, o termo de comparação, a base,
o princípio, o fim, o meio.

– Ora bolas! exclamou o Borges, afinal já importunado com aquele servilismo.
– Para qualquer lado, que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo!
No fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? Não estou aqui por
obséquio, não estou na casa de ninguém; estou num hotel, a tanto por dia!
Ora essa! pago com o meu dinheiro!

O Guterres então contrapunha argumentos cheios de prudência e reflexão. –
O amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! Não era isso que mais convinha
aos seus projetos políticos! Que diabo! Não custava coisa alguma guardar umas
tantas conveniências!…

– Estou vendo é que mando para o inferno a tal idéia de minha mulher e musco-me
daqui quanto antes! – Ah! meu Paquetá! meu Paquetá!

Não sabia porque, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha!
Faziam-lhe mal aos nervos aquela elegância convencional, aquele falso luxo,
aquela preocupação de “parecer rico”, que notava em quantos iam passar ali
o verão.

– Súcia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de tédio.

E experimentava arrepios de indignação quando, à tarde, num alvoroço postiço,
reuniam-se à porta do Bragança grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando
uma aristocracia que não tinham, fazendo uma existência fina e superior, que
mal conheciam de tradição. Por debaixo daquelas roupas à inglesa, daquelas
rendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia
endinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portuguesão, meticuloso,
ruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de vícios.

Os phaetons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e três
tiros de cavalos, as corridas à marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa
dos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que
não tinha o cunho do hábito e o caráter de coisa adquirida insensivelmente
com a educação, com o berço, tudo isso se lhe afigurava tacanho, ridículo,
insuportável.

E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de negócio, nos costumes,
nas toilettes, na linguagem, nas relações, nos amores, em tudo descobriu o
mesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupação de mostrar uma grandeza
que não havia.

Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confidência com o Guterres
– cheira-me assim a mulata forra com pretensões a cocotte.

E o Borges, aquele paz vobis, aquele homem que não sabia quais eram os passos
necessários para entrar na política, resolveu ao fundo do seu bom senso burguês
que Petrópolis não passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa,
que se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes
um parélio, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.

E profetizou, o toleirão?. que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria
de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas
do prazer e do vício como Mônaco ou Monte Cano, alimentadas pelo jogo, pagando
o “barato” ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom tom.

Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam
ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras,
vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.

Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o “tépido retiro das almas delicadas,
a fina corte do espírito e da elegância”. Uma espécie de ninho artístico,
feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas
de ylang-ylang.

Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam
de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestigio do monarca, por exemplo,
longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessavam.
E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser mais
completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da Idade média.

Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais moço e mais bonito, amando os
combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo;
supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos,
suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.

Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão
de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas.
Preferia-o de longos cabe-los da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo,
o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.

A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas,
a testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um desgosto profundo. Não
lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial
honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e turgido pela
vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam
no espirito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às
magnificências da coroa.

– Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação.

– Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!…

Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava
a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a
realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!

E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido
de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios
de um belo infante apaixonado, que vivia a bater nas suas terras o javali
bravio.

E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos
tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados
de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste
som de retorcidas trompas de metal.

E formosas damas, pálidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafréns
cobertos de pedrarias, o amazona desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos,
e pajens, lindos como arcanjos, e donzéis de falcão ao dedo, e ligeiros batedores,
e nuvens ululantes de cães que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava
vertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmagórico de opulências.

* * *

Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas
matas e a natureza se recolhe na concentração mística e voluptuosa da sesta,
Filomena furtava-se de todas as vistas e saía a bordejar silenciosamente os
largos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada
dos caminhos de bambus.

Em um desses passeios, encontrou-se com o monarca. Ele caminhava em direção
contrária à dela, inteiramente desacompanhado.

Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e lá se foi
por diante, muito sombrio, com a cabeça enterrada nos ombros, as mãos cruzadas
atrás, os olhos presos na terra.

Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contemplá-lo. Depois fez
um gesto de impaciência com a boca, sacudiu as espáduas e continuou o seu
passeio.

XX – VOLTA-SE A DANÇA

Naturalmente, o monarca falou a alguém do seu ligeiro encontro com a afilhada,
porque esta, se até então conseguira em Petrópolis furtar-se um pouco ao borborinho
das salas, daí em diante não foi mais senhora de si.

Viu-se logo cercada de manifestações, querida, reclamada a todos os instantes,
servindo de alvo a todas as atenções, discutida, invejada, luzindo e ofuscando
com a sua beleza, com os seus gostos, com o seu espírito e com o seu nome,
que se impunha aos ouvidos de toda gente, alta ou baixa, como o título de
uma canção popular.

Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto,
de a obsequiar. Os seus gostos foram imitados, as suas toilettes decretaram
a moda da estação, as suas frases mais insignificantes converteram-se em apótemas.

– Isto vai mal!… considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes,
em vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. – Isto vai muito
mal!… muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda não
tive um momento de verdadeiro descanso, e já pressinto aliás que as coisas
vão tomando um caráter ameaçador! Confesso que não estou nada satisfeito!

– Não sou dessa opinião, contrapôs o Guterres. – Entendo que o negócio caminha
às mil maravilhas! Nós, o que precisamos é não dormir com o trabalho!

– Ó homem! exclamou o outro. – Pois você acha que temos trabalhado pouco?
Você acha que é pouco o que temos feito?! Ainda não abandonei a pena senão
para comer e dormir algumas horas!

– É pouco! é quase nada!

– É um artigo!

E com efeito, os quatro dias que tinham de Petrópolis foram devorados na
confecção de um artigo político, uma espécie de autobiografia a jeito de programa
ao mesmo tempo, peça original e divertida, na qual criticava o autor a lamentável
situação econômica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo
outras com entusiasmo, fazendo-se muito patriótico e empenhado na salvação
desse “pais esplêndido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente
vítima todos os dias do egoísmo e do desamor daqueles que, se compreendessem
os seus deveres, deviam ser os primeiros a defendê-lo e honrá-lo perante o
século dezenove e não procurar precipitá-lo no aviltamento e na vergonha”.

O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua
mesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais,
não parecia ter quatro dias naquele serviço; parecia ter vinte anos.

E ele, todo vergado sobre a pasta, a olhar carrancudo, a ponta da língua
a brincar fora da boca, como a cabeça de um boneco de engonço, enchia e reenchia
centenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicionários, consultando
o código, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta .0 que ficava escrito,
declamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.

O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balanço,
o copo de cerveja ao lado, a cabeça envergada para trás, a fisionomia cheia
de preocupação, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os
dedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.

Ou então passeava pelo quarto, fitando o soalho, as mãos nas algibeiras das
calças, o charuto fumegando a um canto da boca. E só se alterava para fazer
uma visita ao copo ou dar uma vista d’olhos ao que escrevia o Borges.

Às vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em silêncio
a pena das mãos do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de
novo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.

“Patriota e defensor acérrimo da Carta Constitucional”… bradava ele, destacadamente,
acentuando a frase com um movimento de braço: “sempre tive por único objeto
de meus esforços a prosperidade e a glória de meu país!” Escreva!

O Borges escrevia.

“No meu livro sobre o Oriente” (É bom falar nisso!) “escrito de colaboração
com minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve verá
a luz da publicidade, hei de provar o que há pouco avancei!”.

E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:

“Na política espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as últimas
revoluções do Cantonalismo…”

– Mas, filho, eu não tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena
e limpando o suor da testa. – O que se passou foi só aquilo que te contei!
Para que havemos nós de dizer uma coisa que não é verdade?!…

– Cala a boca, homem de Deus!

– Não! Hás de convir que…

– Mau! Se você conta escrever só a verdade, esta bem servido nas suas pretensões!
É melhor então cuidar de outra coisa!

O Borges coçou a cabeça, sem responder…

– Em política, meu amigo, disse o outro – verdadeiro é só aquilo que nos
convém. Que diabo há de então você dizer, no caso que esteja resolvido a alegar
em seu favor somente os seus serviços reais prestados à política?… Sim!
Queres saber o que foi que você já fez por este ou por aquele partido! Se
há qualquer coisa, diga, porque, olhe! não me conta!

O Borges olhou para ele, sempre a coçar a cabeça.

– Por conseguinte deixe-se de histórias, e escreva! Escreva, que o resto
fica por minha conta!

Dai há pouco, suscitou a mesma questão a respeito de D. Luís de Portugal.
O Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em
Paris gozado “a estima e a confiança do bom e afável Duque do Porto”.

– Não! Essa agora é que não passa! reagiu o Borges energicamente. – Ainda
com o Cantonalismo – vá! porque enfim o basbaque do estalajadeiro, tomou-me
por um correligionário; mas com o D. Luís valha-me Deus! a coisa é muito diversa!
Homem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que até supunha
que eu não entendesse o português!… Eu estava de botocudo!…

– Mas é a mesma coisa, João! Você não entende disto! Faça o que lhe digo
e deixe-se de escrúpulos sem razão de ser!

Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria
levá-lo pessoalmente ao Jornal do Commércio.

– Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. – Deste estou livre!

Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia
seguinte, antes de principiar o baile do Cassino, organizado no próprio hotel
Bragança, onde havia um teatrinho, ela dançaria um de seus tangos e cantaria
uma de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.

– Está tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo.

– Adeus sossego! O diabo é dançar a primeira vez!

E o pobre homem tinha razão. A noticia de que Filomena ia dançar levantou
entusiasmo. Petrópolis assanhou-se; o hotel Bragança encheu-se de curiosos;
por toda a cidade só se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar
nos preparativos da festa; foi preciso fechar o salão do baile para conseguir-se
fazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.

No dia da função, às sete horas da noite, já se não podia transitar na rua
do Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo
o comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os corações.

E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a platéia, distribuídos
os lugares, o monarca já instalado com o seu seminário, ergueu-se o pequeno
pano do teatrinho e Filomena principiou a dançar o tango, o entusiasmo difundiu-se
de tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para contê-lo.

Era a primeira vez que o salão do frio e sisudo Cassino experimentava uma
febre daquela ordem.

Terminado o ato, o Imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa
artista e prometeu que dançaria com ela uma quadrilha francesa.

Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justiça.

Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da platéia, desembaraçando-se o
salão para a dança e, daí a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme
de baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por várias
vezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o barão e que mais tarde
havia de dar provas dessa simpatia.

Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela
irresistível afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.

Verdade é que, depois do primeiro baile, não se passava um dia em Petrópolis,
sem que D. Pedro tivesse ocasião de se encontrar com ela; e, quando havia
dança, o bom príncipe não lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois
dedos de palestra.

– Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por aí toleirões
que falavam em república e revolução! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano,
mais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele?… um verdadeiro
amigo de seu povo!

– E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defendê-la.
Se, em sua presença, alguém se animava a falar no suposto namoro de Filomena
com o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lamúria:

– Não, coitado! é uma injustiça! O pobre homem não pode se divertir um instante!…
Ah! também vocês de tudo querem armar escândalo’.

O Borges é que não se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse
todos os meios para convencê-lo de que tais sobressaltos não tinham o menor
fundamento.

Mas não era só por causa disso que ele se apoquentava – é que a despeito
do esforço que fazia o infeliz para evitar as convivências ruidosas e resignar-se
à maçadora companhia do Guterres, não conseguia fugir às constantes visitas
de cerimônia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas
e mortificações.

– Já vejo que é mesmo sorte minha!… resmungava ele. – E eu que supunha
vir encontrar aqui, neste inferno de intrigas, um momento de repouso!…

A presença do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos
incompreensíveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade
que empregasse, não podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.

– Não nascera para aquilo!

Burguês completo, amigo sincero do povo, donde safra e onde crescera, livre
por hábito e por princípio, conhecendo o governo apenas pelos seus impostos,
pelas suas exigências, pelas suas opressões, era, sem nunca o ter dito, talvez
até sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucionário
moderno, um verdadeiro, um puro republicano.

Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a política de seu país; nunca
se declarou mais simpático a este ou àquele partido. Até aos quarenta anos
cedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente
aos atos do governo, aos negócios do estado, chegando até a evitá-los instintivamente,
como uma mulher honesta evita por impulso natural o contato de certas pessoas.

Amava os homens pela pureza do caráter e não pela cor do partido ou pela
posição social. Se a mulher não o tivesse obrigado a comprar um título, não
seria ele de certo quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.

Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo,
a quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma
forma trabalhador e independente, Borges nunca se lembrou de pôr a sua consciência
em leilão, nunca precisou dobrar aquela grossa cabeça de plebeu às conveniências
desta ou daquela idéia. Além disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado
na mais dura miséria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo cérebro,
menos a lembrança de que possuía uma pátria, para a segurança da qual tinha
ele contribuído, durante muitos anos, com o seu esforço e com a sua coragem.

De sorte que, lançado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos pés
de um soberano, que, até ai, era para ele simplesmente um princípio, que a
gente aceita, para não se dar ao trabalho de dizer a razão por que não aceita,
atirado assim de improviso aos degraus de um trono, que nada de comum podia
ter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu próprio, o Borges
sentiu-se como esmagado por uma desgraça que o humilhava, sentia-se coagido,
preso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.

Entretanto, obedecia à fatalidade das circunstâncias que o arremessavam àquela
posição falsa e constrangedora.

Ia tudo suportando, sem ânimo de reagir: fazia-se cortesão a pouco e pouco,
habituava-se ao sorriso do Paço; acompanhava os outros na adulação e no servilismo;
até que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou
talvez como recompensa do seu aviltamento, a nomeação de “superintendente
dos trabalhos privados do Paço”, com um bonito ordenado, casa, comida, roupa
lavada e engomada.

A mulher atirou-se-lhe ao pescoço: – Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!

– Mas eu, em consciência, não devo aceitar este cargo… objetou o Borges
muito atrapalhado. – Eu não entendo nada disto! Não sei o que é ser superintendente,
não sei quais sejam as atribuições desse lugar! Não sei finalmente o que tenho
de dar em troca do ordenado que me oferecem!

Feriu-se uma tremenda discussão entre os dois.

– Está bom, está bom! disse afinal a baronesa. – Acho que deves guardar essas
discussões para quando estivermos em casa – neste hotel ouve-se tudo o que
se diz um pouco mais alto!

Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu à procura do
Guterres. – Precisava desabafar! Arre!

– Não dês com o pé na fortuna’ disse-lhe o amigo. – Que diabo queres tu então,
homem de Deus?!…

– Eu sei cá o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, já se
vê, sem me colocar na crítica situação em que me acho! Eu lá sei p’ra que
lado fica o serviço de que me querem encarregar!…

– E que necessidade tens tu de entender disso?… Acaso alguém te reclama
habilitações?… Alguém te pede competência?… Porventura os mais que são
nomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenhá-los?…
Ora, por amor de Deus! Estás na aldeia, e não vês as casas? Quem sabe se pretendes
reformar os costumes!… Quem sabe se queres ser a palmatória do mundo!…

– Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilitações
para exercê-lo!

– Mas, João, vem cá, repara que estás no Brasil e lembra-te de que aqui os
empregos de confiança do governo, sejam eles de que gênero for, nada tem que
ver com as aptidões individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! Não
vês aí todos os dias ministros da guerra, que não conhecem patavina do militarismo?
Não vês que os ministros da agricultura não sabem para que lado fica a lavoura;
que o ministro do império, a cargo de quem está a instrução pública, já faz
muito quando sabe ler e escrever corretamente?… Não vês que o ministro da
fazenda não pesca nada de economia política; que o da pasta de estrangeiros
não entende coisa alguma de política internacional? E assim o da marinha!
e assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!

Essas razões, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.

– Não! bradou ele, furioso. Não! Não posso, não devo aceitar semelhante cargo!
seria uma velhacaria! Não quero!

– Bem diz o provérbio que Deus dá nozes a quem não tem dentes! sentenciou
o outro. – Ah! se fosse eu o nomeado; havia de te mostrar que…

– Queres tu ficar com o emprego?!… perguntou o barão, limpando o rosto,
que se inundava o suor.

– Ora! Se fosse possível, que dúvida!…

– Vais ver se é ou não possível!

E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o Imperador, foi-se atravessando
defronte dele e dizendo abertamente que não podia aceitar o cargo de superintendente,
mas que designava o Guterres para o substituir.

– É um pouco difícil de contentar seu marido! observou D. Pedro a Filomena,
quando se encontrou com ela.

– Não sabia que era tão exigente!

– Exigente?!… perguntou a baronesa.

– Não se dá por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora
é quase impossível dar-lhe coisa melhor!…

Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca:
– Pois seria possível que o Borges já fizesse daquilo?… Ah! Não julgava
que o marido fosse capaz de um rasgo de ambição!

– Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opinião
do esposo. – No fim de contas, ele não deixa de ter alguma razão, coitado!
Vossa Majestade há de concordar que o tal cargo é muito insignificante para
um homem de aspirações e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!

Bom! bom! Já sei! já sei o que devo fazer enquanto não lhe arranjo melhor
emprego! Vou trocar-lhe o título por outro, por um título brasileiro e mais
alto – vou fazê-lo visconde! Não ficará ele satisfeito?!

Filomena apressou-se a beijar a mão de seu augusto padrinho: – Oh! Vossa
Majestade é magnânimo!

– Engana-se! Não sou: – faço-me, para dar-lhe o exemplo disse o monarca piscando
o seu olho azul do lado esquerdo.

Mas teve logo de disfarçar, porque alguém se aproximava.

XXI – TORNIQUETES

Foram inúteis todos os novos esforços do Borges para recusar o cargo. Teve
de entrar logo em exercício de suas funções.

Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do Imperador.
Ter de entrar na carreira pública depois dos cinqüenta anos de idade! Esta
só a mim sucede!

Sua Majestade não tardou a puxá-lo bem para junto de si fazê-lo dos do seu
peito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consultá-lo em questões
completamente estranhas ao pobre homem. Ás vezes, pedia-lhe conselhos.

– Homem, majestade!… para falar com franqueza, eu…

– Já sei, já sei! Não lhe é simpático o negócio! Eu também sou quase desse
parecer…

Perdão, perdão! não é isso!… mas é que…

E o Borges, a contragosto, ia pesando nas coisas do Estado, ia-se articulando
às engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as
sutilezas da política.

Eu, jurava ele com os seus botões – eu, quando menos o esperarem, fujo! desapareço
por uma vez, e ninguém saberá para onde fui! Posso lá com semelhante modo
de vida!

Não obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era já o melhor
empenho para o Sr. D. Pedro de Alcântara. Pretendente que se apadrinhasse
com ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.

De suas mãozinhas aristocráticas saíram nomeações importantíssimas, licenças
escandalosas, remoções, transferências, acessos de empregos, privilégios de
companhias, concessões de engenhos centrais. Muita questão importante se resolveu
com um simples sorriso.

Quando regressaram de Petrópolis foram habitar em S. Cristóvão, perto do
palácio de sua Majestade. O monarca não queria o visconde de Itassu muito
longe de si.

A casa deste transformou-se logo em um centro político. Aí, todas as noites
se reuniam as figuras mais volumosas dos poderes públicos; aí se discutiam
as mais graves questões do Estado; formavam-se e destruíam-se gabinetes; criavam-se
e resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.

– Ora, dá-se por isso?… Será crível que eu nunca mais obtenha um momento
de repouso?… pensava o Borges.

Com efeito, sua pobre vida jamais esteve tão cheia de preocupações e tão
carregada de responsabilidade. Quando o desgraçado saía do quarto, depois
de uma noite mal dormida, já uma enorme selva o esperava, transbordante de
jornais de cartas, requerimentos, ofícios, comunicados e o diabo, cujo expediente
era preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento de seu augusto
amo.

Depois, tinha audiências; negócios inteiramente fora de sua competência vinham-lhe
suplicar um parecer, pedir um auxílio.

Que luta!

Mas, além de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos
políticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De certo, era preciso
constantemente envergar à farda, suportar as exigências do cargo, acompanhar
o monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou às reuniões particulares
dos ministros.

E o Borges em vão se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.

Filomena, ao contrário, à semelhança de certas plantas caprichosas, que só
vingam bem nos abrasados e altaneiros píncaros do rochedo, cada vez mais e
mais se identificava às exigências do seu novo meio.

E protegia o marido à sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe
um lugar no, ginete de suas ambições e cedendo-lhe liberalmente todas as armas
do seu espírito e toda a força da sua vontade.

O Imperador não disfarçava o bom conceito em que tinha a opinião do experimentado
e sensato visconde de Itassu.

– É um homem de peso… dizia. – Não tem fulgurações de talento, mas sobra-lhe
o tino! Homem de gabinete!

O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu então circularem ao redor de
si os mais lisonjeiros comentários a respeito de qualidades, que ele nunca
desconfiara que possuía. Viu atribuírem-lhe competência, das quais ele podia
jurar que não dispunha; viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande tática
política, dos quais só chegara ao conhecimento pelas notícias do “Diário Oficial”.

Mas, em compensação, os jornais ilustrados, os órgãos republicanos e algumas
folhas diárias surgiam pejados de sátiras, de pilhérias e de caricaturas contra
ele, a mulher e o monarca.

Deram-lhe alcunhas ridículas, inventaram-lhe biografias vergonhosos, crivaram-no
de triolets insultuosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz
do Brasil; que ela, se não reinava sobre a nação, reinava sobre o monarca;
que Sua Majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse
a viscondessinha de Itassu, e que esta, abusando da posição, pintava o diabo
com o pobre país, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com
que armava e desfazia os seus penteados e… os do marido.

Borges não sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto perder a cabeça
quando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a própria fraqueza, atirava
sua indignação sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia se prendendo
cada vez mais.

– Não dês a menor importância! acudiu o Guterres. – Deixa ladrar a inveja!

– Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?…

– É uma questão de hábito, filho! Bem se vê que ainda não estás calejado
nesta coisa! Pois querias fazer posição sem ouvir descomposturas?… Serias
aqui o primeiro! – Quem tem mérito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais
já não disserem nada a teu respeito, hás de sentir até a falta desses mesmos
desaforos que hoje te mortificam!

Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia se enterrando
progressivamente no azedume e no tédio; deixava-se tomar de um desespero irritativo
e constante assanhava-se já por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada,
tinha palavras duras e gestos desabridos3 até com o próprio Imperador.

O Imperador!…

Pobre homem! bem longe estava ele de merecer as acusações que lhe faziam
a respeito da afilhada!

Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser; mas é que o diabrete
arranjava as coisas de tal jeito; que o bom monarca não conseguia ir além
de seus desejos, se é que os tinha.

Por mais esforços que empregasse, se os empregava, a viscondessinha fugia-lhe
por entre os dedos, com desculpas banais, como por exemplo a da circunstância
de ser sua afilhada, deixando o coração do soberano ainda mais abrasado e
ansioso, o que é possível, porque desgraçadamente os imperadores são feitos
da mesma carne fraca e tilitante de que se formam as outras criaturas suscetíveis
ao amor.

Por esse tempo, era o Borges indigitado para exercer fora do país um importante
cargo diplomático, que acabava de vagar.

– Não é que este homem embirrou deveras comigo?!’.. exclamou ele, quando
lhe chegou aos ouvidos tal notícia.. – Agora quer me fazer ministro plenipotenciário
lá por onde o diabo perdeu o cachimbo! Ora, os meus pecados!

Filomena preferia ficar na corte, mas declarou logo que, se o marido aceitasse
o cargo, ela o acompanharia, fosse lá para onde fosse.

Cassou-se imediatamente a nomeação do visconde, e, à noite, quando este teve
ocasião de ver o amo, notou-lhe na fisionomia um certo ar de má vontade.

Lá se ia por água abaixo o prestígio do Borges e mais da mulher.

XXII – DISSOLVEM-SE AS ÚLTIMAS ILUSÕES

Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido
no poder, à frente de um ministério; ordenanças atrás do carro, casaca resplandescente
de galões amarelos, chapéu armado, espada à cinta e comenda ao peito.

Queria vê-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! – por uma
semana, por um dia ao menos!

– Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante – teu marido já não
pode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto,
estou seco, sem uma pitada de miolo! – mais uma semana – estouro! levo o diabo!

– Oh! Por amor de Deus não desanimes! exclamava a viscondessa, lançando-se-lhe
nos braços. – Concentra todas as tuas forças e luta mais um instante! Juro-te,
meu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres
e farei tudo o que me ordenares! Não penses em abandonar covardamente o posto
de honra, agora que à custa de sacrifícios, conseguimos vencer a parte mais
difícil da ladeira! Ânimo, visconde de Itassu! Não cedas o terreno aos teus
adversários, que nos cobrem de ultrajes e calúnias! Não queiras realizar o
que eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te
merece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho
até hoje conduzido o teu nome, não faças uma fugida vergonhosa’ Não queiras
ser o meu algoz, porque eu não saberia resistir a tanta humilhação!

– É o diabo!… respondeu o Borges, coçando a cabeça. É o diabo! Se tudo
isso dependesse só de minha vontade, já cá não estaria quem falou! Mas a questão
é que eu já não sei a quantas ando!… já não tenho cara para mostrar a todos
esses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que eu nunca
esperei! – É o diabo! Não calculas o quanto me pesa esta responsabilidade;
não imaginas com que impaciência desejo atirar para longe as cangalhas que
me puseram nas costas, e fugir, contigo para um canto obscuro, onde não haja
preocupações políticas, compromissos, artigos a responder, e onde não tenhamos
que amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah,
meu Paquetá! meu belo e tranqüilo Paquetá, como te desejo, como te ambiciono!…

– Não! Nós não nos enterraremos em Paquetá, não nos condenaremos ao ostracismo,
sem que tenhamos triunfado dos nossos esforços! Hás de governar! Juro-te eu!
Hás de ser grande e poderoso!

Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do único elemento com que
lhe era dado realizar tudo isso – a proteção do padrinho. Não desconfiava
ainda, a visionária! que já não tinha às suas ordens essa vontade maravilhosa;
que tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua
impotência, teve ímpetos de estrangular-se.

Todavia procurou iludir-se. Não desanimou logo e, a despeito dos protestos
do marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em
um último esforço, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o
seu contrato de fidelidade conjugal.

– Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. –
As principais influências conservadoras estão conosco! Havemos de vencer ou
morreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!

O Borges tomou fôlego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e
declarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranqüilamente
em um canto obscuro e feliz.

– Pensa em quanto é tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto
antes, porque, para falar com. franqueza, desconfio que as coisas não vão
boas; creio que teremos novidade lá por cima! E, assim por assim, é muito
melhor que a bomba rebente quando já estivermos longe! Que te parece?…

Filomena não respondeu às considerações do marido e jurou que estava “disposta
a lutar até ao último momento”.

* * *

Mas um fato inevitável, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio
tolher-lhe as asas logo no começo do vôo, e decidir a derrota de Filomena:
– declarou-se no ministério conservador a memorável crise que produziu a situação
de 5 de Janeiro de 78.

O velho partido estalou nas raízes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu
por terra, como um carvalho secular, esmagando de uma só vez a caterva de
políticos que dormiam à sombra dele.

Foi um charivari furioso.

O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formidável do poder.
Mil existências desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram;
mil esperanças espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram…
Os liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum
de dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando
pela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de egoísmos.

E tudo veio à superfície d’água; velhas misérias abafadas ressurgiam. E os
corpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros,
a lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de náufragos.

O Borges nunca experimentara um dia tão levado dos diabos; viu-se tonto,
perdido, naquele labirinto de paixões políticas e conveniências particulares;
labirinto de que ele não conhecia o norte, nem o sul, nem lugar de entrada,
nem o lugar da saída. O Imperador virou-lhe as costas à primeira pergunta;
o Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.

Todavia exigiam dele a explicação de fatos cuja existência o pobre homem
até ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios à sua
competência; fizeram dele um bode expiatório; envolveram-no em uma rede de
intrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de mão em mão crivado de pilhérias,
de dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de ridículo, cuspido por
todas as bocas da publicidade.

Safa! safa! bufava o desgraçado, quando afinal se viu em caminho de casa.

– Vão todos para o diabo que os carregue, súcia de bandidos! Agora, haja
o que houver, não os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paciência,
mas em coisas que cheire a política, nunca mais meterei o bedelho! Nada! hei
de ver-me livre daquele inferno e ainda me parecerá um sonho!

Só à noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, já tarde e caindo de fome,
porque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.

Encontrou-a toda vergada sobre a secretária, a cabeça entre as mãos, os cabelos
despenteados e soltos ao ombro.

– Então, hem?!… Que me dizes tu à brincadeira?.. exclamou ele, indo ter
com a mulher.

– Peço-te que não me dês uma palavra a respeito da situação política! respondeu
Filomena, erguendo-se muito triste

* * *

E a partir dai deixou-se tomar de uma grande melancolia,

Foi preciso chamar um médico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena
sentia-se mal, vieram-lhe irritações nervosas, derramamento de bílis, e depois
febre, acompanhada de delírios.

Assim levou três dias, sem obter melhoras de espécie alguma.

Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa
existência. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Cristóvão,
de S. Cristóvão para casa, arranjando a sua demissão e ao mesmo tempo servindo
de enfermeiro à esposa.

Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabeça para tanta coisa. Já não podia
suportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do paço, fugia-lhe
a paciência, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que
lhe exigiam explicações, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que
o despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.

Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de demência e talvez também
porque já estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demissão,
e ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a não pensar
noutra coisa que não fosse restituir-lhe a saúde, a força, a alegria, que
eram igualmente a sua alegria e a sua força.

Chegou à casa caindo de fadiga. A mulher estava tão fraca, abatida, que não
parecia a mesma.

Ele ajoelhou-se a seus pés, tomou-lhe uma das mãos entre as suas e cobriu-a
de beijos.

A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.

– Como te sentes? … perguntou ele. Estás melhorzinha, não é verdade?

Filomena respondeu que sim com a cabeça.

– Isso nada vale!… Diz o médico que ficarás boa, logo que mudes de ar.
Agora mesmo venho de estar com ele; amanha tratarei da viagem.

E, chegando-se mais para a esposa, principiou com multa ternura a dizer os
seus projetos:

– Seguiriam juntos e mais o Urso para um lugar que escolhessem no campo.
– Paquetá, por exemplo, “Paquetá, que ele não via há quanto tempo!… e da
qual sentia tamanhas saudades!…”

– Ah! que bom! uma existência calma e despreocupada nessa querida ilha, onde
ele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada,
sempre multo limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim,
de que eles próprios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca
de leite, algumas cabras, carneiros, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos
e patos tomassem banho, muita criação de galinhas e pombos, pombos a perder
de vista. A casa seria à beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e
para os passeios à tarde pela costa ou até a ilhota de Brocoió!…

– Que gosto em ter a gente à mesa as frutas que viu crescer no seu quintal!…
dizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que é seu,
consertando, indireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali não tens
que fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita,
o teu chapéu de palha, o cabelo à vontade, que ninguém repara nisso!

E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade
tranqüila:

– Isso que sentes agora nada vale… Hás de ver como ficas esperta logo que
estivermos em nossa casinha de Paquetá!… E que passeios não havemos de fazer
ao ar livre, pela praia, nas manhãs de sol ou nas noites de luar!… Havemos
de ter pequenas reuniões de amigos; tu tocarás o teu piano, cantarás, enquanto
eu estiver cuidando da chácara!…

– Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava
o bom homem, já transportado mentalmente à sua terra, e sentindo-se em pleno
gozo daquela doce existência que ele tanto ambicionava.

Filomena ouvia-o em silêncio, a olhar imóvel, a boca levemente arqueada pelo
esforço que ela fazia para sorrir às palavras carinhosas do marido.

– Mas não fiques triste desse modo, que me matas… suplicava ele, com a
voz trêmula e os olhos embaciados. – Espalha essas mágoas, que são a causa
única de tua moléstia, minha querida Filomena! Se não quiseres vir para a
roça, como aconselhou o médico, se Paquetá não te agrada, dize então o que
te apetece, o que te serve… bem sabes que todo o meu empenho é só fazer-te
a vontade, é só ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!

– Não, meu amigo, não! Eu irei para onde quiseres; tenho obrigação de acompanhar-te…
respondeu Filomena em voz baixa, fazendo esforços para conter as lágrimas.

XXIII – PAQUETÁ

Borges não descansou mais um instante, sem ter arranjado o necessário para
abandonar a cidade.

Obteve uma casa em Paquetá; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da
mulher, pois que esta se obstinava a guardar silêncio, e não se pronunciava
por coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.

– Faze o que entenderes..- respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres
será bem feito. Tudo me agradará.

– Mas não fiques desse modo!… pedia o esposo afagando-a.

Ela sorria tristemente e não dava mais palavra.

Partiram na manhã seguinte para Paquetá.

Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava às carícias da luz; um panorama
radiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre
grandes almofadas.

Os horizontes iam fugindo e azulando; as águas da baía estendiam-se a perder
de vista, refletindo nas suas lâminas de prata as pequenas ilhas verdejantes
que surgiam de todos os lados. E a serra dos órgãos aparecia ao longe, apunhalando
o céu com as suas pontas cor de aço, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe
aos pés, formando grupos de nuvens paralisadas.

Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que
dantes a arrebatavam.

Embalde o marido fazia por chamá-la às antigas impressões; embalde procurava
despertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: – Filomena, muito abatida, os
olhos mortos, as mãos esquecidas sobre o regaço, queixava-se ficar no seu
entorpecimento doentio.

Já não era a mesma Filomena de dois meses atrás. Seu sorriso agora era triste
e cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabeça de uma rola,
caía-lhe sobre o peito em uma prostração de luto e viuvez.

O resto da viagem correu fúnebre.

Ao chegarem à casa, Filomena não se mostrou interessada por coisa alguma;
entrava ali como se entrasse para um hospital; a criada, que encontrou às
suas ordens, pareceu-lhe uma irmã de caridade. Em vão o marido pedia a sua
opinião sobre o que tinha preparado para recebê-la ou sobre a beleza natural
do lugar, a esplêndida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.

Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; o Urso em vão lhe farejava os
pés, à espera de uma carícia.

Veio o almoço. Borges, para chamar a mulher ao bom humor, lembrava tudo que
lhe parecia ter graça: e inventava anedotas, recorria a todos os meios de
distraí-la, fazendo-se pilhérico, fingindo-se alegre, procurando reconstruir
as mesmas fisionomias, os mesmos movimentos ridículos, com os quais ele, dantes,
sem querer, fazia-a rebentar de riso. – Engasgava-se com o vinho, tossia,
fingia-se parvo, imbecilizava-se propositadamente.

Mas tudo era baldado. E o infeliz, sentindo acudirem-lhe as lágrimas, fugia,
abafando os soluços com as mãos, para que a mulher os não percebesse.

* * *

E no entanto, a melancolia de Filomena avultava de instante a instante, como
uma nuvem que se espalha no céu. E tudo se foi tornando sombrio, carregado,
trevoso, até que a última réstia de azul desapareceu totalmente.

Então, a. enferma deixou-se ficar de cama, sem querer ouvir falar de coisa
alguma desta vida, nem querer suportar outra companhia que não fosse a do
marido.

Ele, só andava na ponta dos pés, só falando em segredo, tresnoitado, aflito,
como louco, servindo a um tempo de enfermeiro e de criado. Não queria que
ninguém se aproximasse do quarto da mulher, com receio de incomodá-la. Ela
não podia ouvir a menor bulha; o mais leve som de passos eqüivalia marteladas
na cabeça.

E o Borges, em meias, com pisadas de ladrão, o ar sobressaltado, não ficava
quieto num lugar, andava por toda a casa, evitando o que pudesse contrariar
a doente. E quando se punha ao lado dela, seguia-lhe os movimentos da pálida
fisionomia, como um cão ao lado do senhor, pronto a lançar-se de carreira
para a direita ou para a esquerda, conforme o decrete o olhar do dono.

– Ó minha Filomena! minha querida companheira, dizia em segredo, sem poder
distrair as lágrimas que lhe transbordavam dos olhos. – Que tens?… que sentes…
Que te falta? Dize! fala, minha vida! Pode ser que isso te faça bem!… Desabafa,
ordena – eu sou o teu escravo, estou aqui para te obedecer! Vamos, por quem
és! dize o que queres!…

Filomena desviou o rosto vagarosamente, pedindo ao marido, com um gesto,
que se afastasse, e dois grossos fios luminosos principiaram a lhe correr
pela nublada palidez do rosto. Depois, no fim de alguns minutos, como se ganhasse
alívio com aquele choro, fechou os olhos e adormeceu tranqüilamente. Borges,
encostado à porta do quarto, vigiou todo esse sono, que durou mais de cinco
horas.

Só se animou a entrar, quando a sentiu novamente acordada.

Eram seis da tarde: de uma tarde melancólica de Julho.

Ouvia-se grunhir lá fora, o vento nos flabelados ramos das palmeiras, e o
mar estrebuxava em soluços pela extensão da costa.

No aposento da enferma crescia o silêncio escuro das igrejas. Tudo era triste
e concentrado; ao longe, vozes de crianças rezavam em coro a Ave-Maria.

Borges parou defronte do leito da mulher.

Viu-a toda branca, destacando-se do claro-escuro dos lençóis como uma figura
de cera. Mas a fisionomia dela repousava numa expressão de inefável doçura.

Aproximou-se lentamente, sonâmbulo, e foi ajoelhar-se aos pés daquela imagem
adorada; tomou-lhe uma das mãos, que pendia fora da cama.

– Meu amigo, disse Filomena com dificuldade, derramando sobre o marido um
suplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quisesse pedir perdão. –
Meu bom amigo, sinto que morro, e só me punge a idéia do bem que não te fiz
e do muito que merecias!…

– Ó minha querida! não penses nessas coisas!… – Espalha essas idéias de
morte!…

Filomena meneou a cabeça.

– Não, não! disse-lhe o marido, tomando-a nos braços. – Tu não morrerás!
Havemos de viver ainda muito! – felizes! – eternamente unidos como dois pombos!
Eu continuarei a ser o teu escravo, o teu amante, o teu fiel companheiro;
tudo aquilo que entenderes! Voltarei alegre para onde quiseres! Tornaremos
à agitação da corte, à febre das paixões; principiarei de novo a minha vida!
Saltimbanco, touriste, superintendente, jornalista, homem célebre, serei tudo
de novo, contanto que tu vivas, meu amor, minha felicidade! Contanto que não
te deixes assassinar por essa tristeza, que te abafa a existência, ó minha
vida! ó minha doce esposa!

E o Borges, tomado de um desespero febril, estorcia-se ao lado da cama, desfazendo-se
em lágrimas.

– Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal modo te
habituaste às minhas quimeras e à minha loucura, que não podes acreditar que
eu tenha um momento lúcido antes de morrer.

– Não! não! não penses em morrer, minha querida!

Filomena, em resposta passou os braços em volta do pescoço do marido e repousou
a cabeça no colo dele.

– Só tu és bom!… dizia arquejando – só tu mereces todas as bênçãos do céu!…
Como eu te adoro e como eu te amo, meu…

Não pôde acabar. E, depois de uma breve aflição, retesou as pernas e os braços,
exalando, num estremecimento geral, o último suspiro.

– Filomena! Filomena! bradou o esposo, sem a largar das mãos, mas afastando-a
rapidamente a toda a distância dos braços e encarando-a desvairado e sôfrego:
– Fala! fala! Dize por amor de Deus que não estás morta!

Ela, porém, em vez de responder, deixou pender a cabeça para um dos lados
e, assim, ficou na sua imobilidade de cadáver.

Borges ainda a encarou em silêncio, arquejante. Depois, sacudiu-a toda, com
impaciência; chegou repetidas vezes ao seu rosto esfogueado o lábio frio da
morta, para ver se lhe descobria um último sopro de vida. E, afinal, soltando
um bramido formidável, repeliu-a de súbito e atirou-se ao chão, a espolinhar-se,
a rolar por todo o quarto, entre gargalhadas de louco.

* * *

Entretanto, lá fora continuava o surdo marulhar das vagas; zumbia ainda o
vento nos palmares; e as crianças, no seu coro de arcanjos, pediam à Virgem
Santíssima que as amparasse neste vale de lágrimas.

* * *

Dias depois, no modesto cemitério de Paquetá, à sombra de um velho cajueiro,
via-se uma pobre sepultura, em cuja lápide dois nomes se entrelaçavam com
o mesmo apelido. E defronte, estático e silencioso, como uma esfinge de mármore
negro, um enorme cão velho e trôpego, fitava-a, deitado, sobre a relva.

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