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Til – José de Alencar

 

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José de Alencar

I

CAPANGA

Eram dois, ele e ela, ambos na flor da beleza e da mocidade.

O viço da saúde rebentava-lhes no encarnado das faces, mais
aveludadas que a açucena escarlate recém aberta ali com os orvalhos
da noite. No fresco sorriso dos lábios, como nos olhos límpidos
e brilhantes, brotava-lhes a seiva d’alma.

Ela, pequena, esbelta, ligeira, buliçosa, saltitava sobre a relva,
gárrula e cintilante do prazer de pular e correr; saciando-se na delícia
inefável de se difundir pela criação e sentir-se flor
no regaço daquela natureza luxuriante.

Ele, alto, ágil, de talhe robusto e bem conformado, calcando o chão
sob o grosseiro soco da bota com a bizarria de um príncipe que pisa
as ricas alfombras, seguia de perto a gentil companheira, que folgava pelo
campo, a volutear e fazendo-lhe mil negaças, como a borboleta que zomba
dos esforços inúteis da criança para a colher.

Caminhavam por uma rechã, bordada de ilhas de mato, que emergiam aqui
e ali do verde gramado. Pela ramagem frondente das árvores e renovos
que abrolhavam, percebia-se a proximidade de uma grande manancial, e entre
as crepitações da brisa nas folhas, como um tom opaco desse
arpejo da solidão, ouvia-se o múrmure soturno do Piracicaba,
que leva ao Tietê o tributo caudal de suas águas.

Sete horas da manhã haviam de ser. A luz de um sol esplêndido
fluía no éter, que a trovoada da véspera tinha acendrado.
O céu arreava-se do azul diáfano onde a fantasia se embebe com
a voluptuosidade casta da criança a aconchegar-se dentro, tão
dentro do grêmio materno.

Bem longe do céu, porém, e bem presos à terra andavam
os olhos dos nossos dois amiguinhos, que nem haviam reparado sequer na limpidez
da atmosfera. Ainda estavam na sazão feliz, em que respira o céu,
como o ar da vida, e o aroma do campo, quase sem sentir.

As flores, que a noite desabrochara; aos frutos silvestres que enfeitavam
a copa das árvores; aos passarinhos que trinavam embalando-se nas franças
dos coqueiros; ao que era da terra e bem da terra, iam os impulsos desses
jovens corações, quando não se volviam um para o outro,
a reverem-se entre si.

O céu, essa imensa tela azul, que foi cúpula de um berço,
o da luz, e será mais tarde véu de um leito, o da vida; a alma
só o procura, só o contempla, quando a dor a prostra. Mas para
aquela que sorri e folga, o firmamento é uma terra por descobrir e
debuxa-se vagamente na imaginação, como a montanha azul desse
vale de lágrimas.

Alguma vez deixava o rapaz de seguir com o passo a menina, para acompanhá-la
com a vista. De braços cruzados sobre a coronha da clavina de caça,
fitava os grandes olhos pardos com tal possança d’alma, que mais
parecia absorver e entranhar em si o gracioso vulto, do que enlevar-se em
sua contemplação.

Acaso, em uma dessas ocasiões, voltou-se de chofre a menina para ver
onde ficara o companheiro e deu com ele a fitá-la daquele modo estranho.

– Que me está olhando aí? Nunca em viu? exclamou com surpresa,
mas travada sempre da petulância que animava-lhe todos os movimentos.

– Não era para você! respondeu rápido o moço,
baixando a cabeça de modo a ocultar o rubor que lhe afogueava o rosto.

Para confirmar o disfarce, armou a clavina e fez pontaria a um cardeal que
se embalava no topo de uma palmeira.

– Miguel!…

Esta súbita exclamação rompeu dos lábios da menina,
trêmula de susto, a cobrir com as mãos pequeninas as conchinhas
das orelhas para não ouvir o ribombo do tiro.

Riu-se o rapaz e abaixou a arma:

– Dengosa!

– Deixe! Replicou ela com um amuo.

E deitou de novo a correr, já esquecida do susto, espanejando-se com
a mesma alegria, que não se estancava nunca, e alguma vez represa,
borbulhava depois com força maior.

De repente parou; imóvel, quase estática, uma lividez mortal
jaspeou-lhe as feições, enquanto os olhos se pasmavam em um
ponto além.

À orla do mato assomara o vulto de um homem de grande estatura e vigorosa
compleição, vestido com uma camisola de baeta preta, que lhe
caía sobre as calças de algodão riscado. Apertava-lhe
a cintura rija e larga faixa do couro mosqueado do cascavel, onde via-se atravessada
a longa faca de ponta com bainha de sola e cabo de osso grosseiramente lavrado.

Em uma das bandoleiras trazia o polvarinho e munição; na outra
suspendia um bacamarte, cuja boca negra e sinistra aparecia-lhe na altura
do joelho esquerdo, como a face de um dragão que lhe servisse de rafeiro.

As mangas da camisa, tinha-as enroladas até o cotovelo, bem como a
parte inferior das calças que arregaçava cerca de um palmo.
Usava de alpargatas de couro cru e chapéu mineiro afunilado, cuja aba
larga e abatida ocultava-lhe grande parte da fisionomia.

Vinha ele em direção oblíqua ao caminho dos dois jovens,
e mal avistou a menina, logo desviou-se do rumo que levava no intuito de evitá-la;
mas achando-se por isso fronteiro com Miguel, escapou-lhe o gesto de contrariedade
e tomou o partido de parar à espera que os outros se fossem, deixando-lhe
passagem livre.

De seu lado estremecera o rapaz ao dar com os olhos no homem da camisola,
e tal foi a comoção produzida pelo encontro, que derramou-lhe
no semblante a expressão de um asco misto de horror, arrancando-lhe
involuntariamente dos lábios esta exclamação:

– Jão Fera!…

Não se abalou o mal encarado sujeito; e Miguel, corrido do primeiro
assomo de terror, que lhe embotava os brios de valente e galhardo, reagia
com uma travessura de rapaz.

Levou ao rosto a espingarda fingindo armá-la, e apontou para o outro.

– Atire! disse aquele com a voz arrastada e indolente.

E promovendo um passo, apresentou com desgarro o peito à mira da espingarda
de Miguel, que já arrependido do gracejo, abaixava a arma.

– Pois olhe! tornou o homem da camisola com a mesma voz de arrasto: fazia
um bem a mim… e a outros!

– Por que, Jão?

Fora da menina esta pergunta. Colocada além de Miguel não vira
a menção do tiro, feita de brinquedo por este, e só voltou-se
e compreendeu o que passara, ao ouvir as últimas palavras.

– Esta vida me cansa! respondeu Jão com arquejo.

– Estás com saudade da forca? retorquiu Miguel com chasco de desprezo.

Ouviu-se um fungar, como o das narinas da onça quando bufa, e arrepia
ao mais bravo caçador, que sente lhe estar ela tomando faro ao sangue
tépido. De um pulo achou-se o facínora a rosto com o rapaz,
que armara intrepidamente a espingarda, preparado a morrer com denodo.

II

NA TRONQUEIRA

Atalhou a menina o ímpeto a Jão, arrojando-se em frente, e
cobrindo com o talhe delgado o corpo de Miguel. Seu olhar cintilante trespassou
o olhar fero do capanga como a lâmina de um estilete cravando uma couraça.

– Vai embora! disse ela com império; e a voz parecia ranger-lhe nos
lábios pálidos.

Foi a pupila inflamada e sanguinária do assassino a que abateu-se.

Recolhendo o passo, quedou-se um instante perplexo, absorto por uma luta
que se renhia dentro, procela a subverter o pélago insondável
dessa consciência.

Rompeu-lhe do seio uma sublevação contra o poder misterioso
e incompreensível, que lhe agrilhoava com um fio de cabelo as pujanças
terríveis do coração, até aí indomável
e sedento como a sanha do tigre.

Levantou os olhos carregados de cólera.

– Já! impôs-lhe a menina, que pressentira a reação,
e como da primeira vez, a retalhava com o gume do seu olhar.

Ainda hesitou o facínora; mas afinal, vencido por ignoto poder, curvou
a cabeça, e de um arranco visível afastou-se vagarosamente com
um passo tão pesado que lhe custava a arrancar do chão a palma
do pé. Duas ou três vezes, antes de encobrir-se na alta capoeira,
voltou a cabeça; mas encontrava os olhos cintilantes da menina; e,
apesar do grande esforço, vergava ante a inflexível repulsa.

– Foi-se! disse Miguel.

O rapaz assistira imóvel à rápida cena, partido entre
o pensamento da defesa e a admiração pela coragem da linda companheira,
que afrontava-se com o terrível facínora.

Vendo este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lábios aquela exclamação
de surpresa, e acompanhou-a logo de um gesto que não era de vã
ameaça, mas de firme resolução.

– Algum dia nos havemos de encontrar!

– Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir.

Em seu lindo semblante já não restavam traços da comoção
que nela produzira a cena anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante
a asa negra da borrasca e logo após reflete a bonança do céu,
era seu olhar sereno e meigo.

Ninguém diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara
poucos momentos antes e parecia espedaçar o frágil e delicado
invólucro; ninfa celeste a romper a argila de sua formosa crisálida.

– Que me fez, Inhá? repetiu Miguel surpreso da pergunta.

– Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado.

– Para a tocaia!

– De quem? interrogou a menina assustada.

– Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao
faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o
nome que tem. E faz gabo disso!

– Então você cuida que ele anda atrás de alguém?

– Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se
encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda.

Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista
inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa.

– Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à
casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça.

– É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe
na cola.

– Coitado! Se o prendem!

– Ora qual. Dançará um bocadinho na corda!

– Você não tem pena?

– De um malvado, Inhá!

– Pois eu tenho!

– Mas por que é que este demônio que não faz caso de
ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá,
como ainda há pouco? Por que é?

– Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade.

– Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas
da fazenda.

– E tenho mesmo! Olhe! aqui está! exclamou a menina a rir-se, mostrando
um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão
de ouro.

– Então é encanto; não há dúvida, replicou
Miguel sorrindo.

– E eu digo que não.

– Ora, todos sabem!

– Ninguém sabe, nem eu mesma, só Deus; mas eu cuido uma coisa.

– O que?

– É porque não tenho medo dele.

– Qual!…

– Nenhum; nenhum!

– Mas você ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi.

– De raiva só! respondeu a menina com expressão.

Tinham os dois companheiros chegado ao lugar, onde a vereda que seguiam atravessava
um carreador. Perto dali ficava a tronqueira de bater, a qual dava entrada
às terras de uma fazenda, cercadas pelo fosso largo e profundo, que
serve para resguardar a cultura contra o gado daninho.

Inhá, que de uma corrida alcançara a tronqueira, subiu de salto
pelas travessas, como faria se fossem os degraus de uma escada, e sentou-se
na última bem concha de si. Levantando então a aldraba de ferro
e empurrando com o pé a cancela, começou a balançar-se
com um prazer infantil.

Parado em meio do caminho ficara Miguel contemplando-a com uma expressão
de contrariedade. Parecia afligir-se de ver sua graciosa companheira fazer-se
criança, e trocar pelas afoitezas de um traquinas as cintilantes vivacidades
da mocinha faceira.

Sentia ele dentro em si uma ânsia incompreensível, qual tem-na
o artista olhando o toro de mármore de que seu cinzel vai criar uma
estátua. Mas essa, que lhe vive e palpita n’alma, ainda o mármore
não a recebeu, e quem sabe se poderá ele nunca moldá-la
como a desenhou a imaginação.

Tal era Miguel ante aquele esboço da mulher que sonhava e, já
alguma vez, entrevira em realidade, mas como uma luz efêmera, quase
instantânea, bruxuleando entre as cismas de seus passeios solitários
pelos campos. Os mesmo ímpetos do artista, cortados pelo desânimo,
tinha-os ele nos momentos em que via, como agora, transformar-se de repente
a fada gentil de seus sonhos em uma capetinha de mil pecados.

Sua alma refrangia-se, ferida pela decepção; e por isso, desviando
a vista da menina, atravessou o carreador e trilhou a vereda que embrenhava-se
pela mata fechada, a pequena distância daí.

– Psiu!… Onde vai? perguntou Inhá surpresa.

Miguel parou.

– Já se esqueceu do caminho? continuou ela a rir. É por aqui!

– O meu não! respondeu o rapaz.

E partiu.

Nesse momento soou a distância um agudo assobio, e Inhá viu
resvalar entre a folhagem, à orla da mata, um vulto que lhe pareceu
Jão Fera.

III

ELA

A embalançar-se na tronqueira, Inhá seguia com os olhos o rapaz
que afastava-se.

Miguel tinha razão. Tão ardilosa era a expressão do
rostinho da menina e tão brejeiro seu olhar, que a transfiguravam completamente.
Quem assim a visse, julgaria ter diante de si, a chasqueá-lo, o trejeito
garoto de um caipirinha.

Para essa ilusão muito concorriam o tipo e o traje da moça.

Era ela de pequena estatura e tão delgada e flexível no talhe,
que dobrava-se como o junco da várzea. As formas da graciosa pubescência,
que um corpinho justo debuxaria em doce e palpitante relevo, as dissimulava
o frouxo corte de uma jaqueta de flanela escarlate com mangas compridas, e
desabotoada sobre um camisote liso, cujos largos colarinhos se rebatiam sobre
os ombros, à feição dos que usavam então os meninos
de escola.

Servia-lhe de toucado um chapéu de palha de coco trançada,
sob o qual escondia os lindos cabelos negros cacheados, que às vezes,
com os saltos, escapavam da prisão e vinham folgar sobre as espáduas.
Calçava grossos coturnos de couro de veado, mas tão altos que
mais pareciam botas; e comparando com as de Miguel, se diriam irmãs
na forma, a não ser o tamanho, onde aliás afogava-se o pezinho
buliçoso.

Ainda assim não estava Inhá contente, pois metiam-lhe inveja
o pala e as calças de brim do companheiro; mas sobretudo a clavina
de caça que ele trazia ao ombro.

Para tê-la, e carregá-la assim, daria ela naquele momento sem
hesitar as soberbas tranças de seus longos cabelos, que lhe estavam
metendo figas e zombando das duas pretensões a rapaz.

Se a estreita saia de chita dava a esse vestuário um traço
feminino, acusando um contorno harmonioso, por isso mesmo ela em seus momentos
de luta com a natureza parecia caprichar em destruir aquele vestígio
de seu sexo. Os pulos que soltava, a firmeza de seu passo gentil que ela de
propósito fazia rijo, imprimiam com efeito certa aspereza e nervura
a seus movimentos sempre encantadores, apesar de tudo.

Os grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso
na sombra, não podiam negar que fossem de mulher: tinham a diáfana
profundidade do céu, cheia de enlevos e mistérios.

A boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do
sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe
a harmonia das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a máscara
do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dúvida, se a natureza
não lhe trocasse o destino.

Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela
alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme
o raio de luz que a fere.

Contradição viva, seu gênio é o ser e o não
ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento
do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a
imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação.
A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em
quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos
lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao
radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.

Cheia de carícias e gentilezas no princípio do passeio, fechara
de repente a flor de sua graça e envolvera-se naqueles ares zombeteiros,
que pungiam como espinhos o coração de Miguel. Poucos momentos
antes, estremecera de susto vendo armar-se uma espingarda para atirar a um
passarinho; e logo após arrostara sem hesitar a sanha de um assassino
feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrépidos.

E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante,
sua existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação
dessa alma, como no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra
apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos
de si própria.

Teria o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque:

– Escute!… Nhô Miguel, ora escute!

Como não a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras
zangado, Inhá saltou da tronqueira, e alcançando o rebelde de
uma corrida, tomou-lhe o caminho.

– Onde vai?

– Caçar.

– Depois; agora vamos à fazenda.

– Eu não! disse Miguel prontamente.

– Que pirraça é esta?

– Não tenho que fazer lá.

– Mas tenho eu.

– Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador.

– Se eu gosto!

Essa ingênua confissão, fê-la a menina com um gesto encantador,
rasgando os grandes olhos puros e brandos, como se abrisse os seios d’alma
ao pensamento suspeitoso do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se
encadeado e cego com a reverberação; e o rubor queimou-lhe as
faces, enquanto a menina banhava-se em um sorriso de canduras.

– Pois vá só! replicou o rapaz virando.

– Para Linda agastar-se comigo?

– Não tenha susto.

– Você é um ingrato, nhô Miguel: não paga o bem
que lhe querem.

– Deixe-se desses brinquedos, Inhá. É por isso mesmo que eu
não vou mais à fazenda e também para… não ver
certas coisas.

– O que?… Mecê, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o
rapaz.

– Cuida que eu não reparo como Afonso brinca tanto com mecê?

– Mecê, hein?…

– Que me importa! Hei de dizer mecê.

– Está disfarçando! Não quer que se fale dos segredinhos
com o Afonso?

– E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa.

Aumentou-se o vexame de Miguel, que mordia os beiços com o desejo
de soltar uma palavra, e se continha pelo receio do desagrado da menina.

– Mas não vê que Afonso gosta de você.

– Estimo bem! disse Inhá dando uma pirueta.

– Então?…

– Acabe!

– Então Inhá também gosta dele?

– Também!

– Ah!

– Tanto como de você, nhô Miguel!

– Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco.

– Por isso agora ficou aí todo amuado?

– Até logo; já me vou.

– Não vai, que eu não quero! Exclamou a menina com despeito,
e impedindo-lhe o passo.

– Então voltemos para a casa.

Inhá aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.

– Olhe! se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão
bonita, com aqueles olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e
aquele rostinho de redoma, que é mesmo uma santa quando se ri no céu.
Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel.

Fascinado estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá,
senão pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice
de seu olhar e na ternura de seu carinho.

– Mas eu não gosto dela, balbuciou o moço.

Pois não fale mais comigo, disse a menina arrufada.

– Escute, Inhá!

– Vem?

O rapaz hesitava.

– Você promete?…

– Não prometo nada.

– Se Afonso quiser brincar com você…

– Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!

Cada um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão
no chão.

– Então não vou!

– Não venha! Quem lhe pede?

Caminhou ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda.

IV

MONJOLO

Cerca de uma légua abaixo da confluência do Atibaia com o Piracicaba,
e à margem deste último rio, estava situada a fazenda das Palmas.

Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa,
das que então contava a província de São Paulo, e foram
convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens
do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Itu, ainda restam grandes matas,
cortadas de roças e cafezais. Mas dificilmente se encontram já
aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes
canoas, que serviram à exploração de Mato Grosso. Daí
partiam pelo caminho d’água as expedições que os
arrojados paulistas levavam às regiões desconhecidas do Cuiabá,
descortinando o deserto, e rasgando as entranhas da terra virgem, para arrancar-lhe
as fezes, que o mundo chama ouro e comunga como a verdadeira hóstia.

No ano de 1846 era de recente fundação a fazenda das Palmas,
que Luís Galvão, seu proprietário, recebera de herança
paterna, ainda nas condições de simples situação,
com um velho casebre de caipira, dois cafezais e alguma pouca roça.

Tinha Luís Galvão o gênio empreendedor e gosto para a
lavoura; casando com a filha de um capitalista de Campinas, que lhe trouxe
de dote algumas dezenas de contos de réis, além do crédito,
pode ele, dando alas à sua atividade, fundar uma importante fazenda,
que a muitos respeitos servia de norma e escola ao agricultor brasileiro.

Ao passo que ia se adiantando a lavra das terras, erguia-se na chapada fronteira
ao rio uma bela casa de morada em dois lances abarracados, com um pequeno
mirante no centro, sobreposto à larga portada; esta abria para o patamar,
ladrilhado, de uma pequena escada de seis degraus, que descia ao terreiro.

Formava o edifício uma face da vasta quadra, onde se fora levantado
sucessivamente casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos,
o engenho de cana, a fábrica do café, tulhas de feijão
e milho, além de outros acessórios do grande estabelecimento
rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas.

Do terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia
pelo espigão da colina, e bifurcava-se de espaço a espaço
para serventia das várias jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo
os alagados e descrevendo uma grande curva, ia entroncar-se, a meia légua
de Santa Bárbara, na estrada geral da Constituição a
Campinas.

No ponto em que esse carreador transpunha o valado principal da fazenda,
aí fechando também por uma tronqueira, um cavaleiro embuçado,
oculto no carrasco, levou ambas as mão à boca e imitou o canto
do curiau, soltando um apito longo e cheio; o mesmo que ouvira Inhá.

Imediatamente o próximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro
moço, com o corpo nu até a cintura e a camisa atada aos quadris
à guisa de tanga. Os lanhos das faces indicavam a casta monjola do
africano, em cujo rosto se desenhava a astúcia do gambá e alguma
coisa do focinho deste animal.

– Quem és tu? perguntou o cavaleiro vendo o negro dirigir-se a ele.

– Monjolo, meu branco. Faustino mandou dizer a senhor que tudo se arranjou
como ele prometeu.

– Mas por que não veio ele mesmo?

– Pois o branco não vê que ele está lá em casa
ocupado!

– Pedaço dum tratante!

– Gente desconfia; então essa cambada de pajens e crioulos, que é
mesmo da pele do cão.

– O patife quer trapacear!

– Branco está de orelha em pé; pois olha, Monjolo é
negro de bem; quando ele dá sua palavra e aperta dedo mindinho, está
acabado, é como rabo de macaco: quebra, mas não solta galho,
por nada desta vida, nem que arrebente.

– Anda lá, bruto, desembucha duma vez o recado, que não estou
para aturar-te.

– Ixe!… disse o preto fazendo um momo de pouco caso.

– Falas ou não!

– Que é que o senhor quer saber?

– O diabo sempre vai hoje à vila?

– Vai, meu branco; o diabo vai, mas não é capaz de cair no
inferno, não!

– Alguém o há de empurrar. A que horas sai ele da fazenda?
É mesmo de manhã?

– Não tarda. Cavalo já está selado; capanga só
vai um, mofino como o quê! Os outros, Faustino arranjou, como branco
sabe.

– Então só leva duas pessoas?

– Duas só, sim senhor. Paje e capanga.

– Está bom; toma lá, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe
um pataco de prata. Agora vê se vais dar com a língua nos dentes.

– Eh!… Monjolo mesmo!… Branco não conhece este negrinho da carepa,
não!

Já não o ouviu o embuçado que, dando rédeas ao
animal, afastou-se na direção da estrada geral.

Era acidentado o terreno, que atravessava esse caminho, cortado no maciço
de uma mata virgem, tão exuberante, que todos os anos fechava com os
renovos da vegetação a picada aberta no inverno. O solo aí,
como em toda a cercania, cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na
província por sua espantosa fertilidade. Em verdade, quando se deixa
Campinas, e a pata dos animais começa a triturar essa terra ferruginosa,
tão fácil de converter-se em pó sutilíssimo como
em profundo tremedal, a natureza muda de aspecto; arrea-se de galas, e aos
campos tão monótonos, embora célebres, de Piratininga,
sucedem os bosques frondosos de Piracicaba.

Não obstante ser o caminho em toda a sua extensão, desde a
extrema da fazenda, coberto e sombrio, havia contudo um lugar, cujo torvo
aspecto correspondia ao terror supersticioso que inspirava e à sinistra
reputação que adquirira.

Pouco além da interseção de outra picada, coleava o
caminho algum tempo entre marachões cobertos de arvoredo, e por fim
metendo-se pela garganta de um rochedo escabroso, descia em ziguezagues para
remontar a oposta rampa de profunda grota. Como se não bastasse essa
conformação cavernosa do terreno, a vegetação
nutrida pelo humo vigoroso que as enxurradas depositavam nesses barrocais,
exuberava sua maior pujança, e frondeava as árvores seculares,
embastindo as sebes de verdura que vestiam os grossos troncos e lastravam
pelos penhascos.

Da gente da vizinhança era conhecido aquele lugar por Ave-Maria, talvez
de não passar alguém ali, sem romper-lhe dos lábios trêmulos
aquela imprecação de susto. Nem sempre fora com eficácia
invocada a divina padroeira, pois a tradição conservava o nome
das vítimas, que aí haviam sucumbido.

Nenhum sítio em verdade se encontrara tão azado para uma emboscada.
Ali oculto, um sicário conseguiria a salvo dar conta de uma comitiva,
sem que os companheiros se pudessem mutuamente defender, nem mesmo aperceber-se
da sorte que os aguardava, tal era a estreiteza do sinuoso desfiladeiro.

Dizia a gente do lugar que ouvia-se na azinhaga funesta um incessante gemido
de agonia; e não faltava quem o atribuísse às almas penadas
dos infelizes que aí se finavam insepultos e devorados pelos urubus.

V

A TOCAIA

Ao sumir-se na espessura, Jão Fera voltou o rosto e por entre a basta
ramagem esteve a contemplar o vulto esbelto da menina.

Ao passo que se engolfava nessa fascinação, ia-se operando
a transfiguração completa de sua fisionomia.

O perfil adunco e chanfrado, que revestia a beleza feroz e sinistra do abutre,
embotou a rispidez, saturando-se de uma bruteza alvar. Intumesceram-se as
faces, pouco antes crispadas pela cerração habitual das maxilas,
e tomou a tez um tom fouveiro, indício da ebulição do
sangue a ferver-lhe em bolhas no coração.

As fulvas papilas que se encovavam pelas têmporas, como tigres nas
furnas, saltaram das órbitas, dilatadas por um fluido espesso que tinha
a fosforescência felina. De ordinário avincava-lhe a fronte uma
ruga saliente, que depois de fender-lhe o sobrolho, partia-se em duas plicas
profundas como gilvazes, a lhe cortarem o rosto. A temulência da paixão
injetando os músculos e insuflando as narinas, apagou todos aqueles
sulcos rasgados pela sanha; e até os lábios sempre cosidos à
feição de uma cicatriz, agora túrgidos arregaçavam,
mostrando pela estreita comissura os dentes agudos.

Assim o aspecto do homem ralado por uma sede intensa ou calcinado pela chama
violenta que ardia interiormente, afinal tomara a fisionomia da sensualidade
brutal, onde como na brama do tigre, ressumbrava a ferocidade do amor.

Oculto no mato, foi o capanga, qual ao arrasto de uma cadeia, seguindo maquinalmente
Inhá, através do campo. Muitas vezes, na absorção
que ia, mostrou-se a descoberto, não o tendo percebido os dois companheiros,
por estarem com a atenção presa na conversa.

Quando, porém, a menina sentou-se na tronqueira, voltada para o lado
donde viera, aconteceu de vê-lo na ocasião de atravessar a nesga
de campina, que separava os dois bosques. Turbado com aquele acidente, irritado
por se ter mostrado naquele instante, Jão Fera rompeu o encanto da
fascinação que o atava e embrenhou-se na floresta.

Era justamente a ponto, que ao longe estrugira o assobio do curiau, repercutindo
pelos recessos da mata e algares das barrancas.

Estugando o passo, chegou o capanga à Ave-Maria. Ali encostado ao
tronco de uma árvore, com os braços cruzados e a cabeça
fincada ao peito, submergiu-se nas profundezas daquela alma, que devia ter
cavernas tremendas e insondáveis abismos.

– Amanhã quando souber, pensará que fui eu!…

Murmurando estas palavras, uma expressão de angústia derramou-se
pelo semblante do facínora, que se confrangeu, como se uma tenaz lhe
estivesse a triturar o coração. Que medonha era a dor nessa
natureza sanguinária, que se apascentava de cruezas e homicídios!…
O eu humano é como sua besta: manso, quando frugal; rábido,
se o fazem carnívoro; por isso em casa sentimento há o trasunto
da história de nossa alma.

Naquele momento Jão Fera sofria a suma de todos os sofrimentos que
derramara em seu caminho; de todas as ânsias, que sua mão levantara.
Tudo nesse homem, a dor como a alegria, a raiva como o amor, a gula como a
embriaguez, revestia a natureza da fera; tinha fauce para devorar, e garras
que lhe dilaceravam o chão da alma, como a pata da suçuarana
escarva a terra no arremessar do pulo.

Durou rápido trato essa agonia moral; e não podia prolongar-se
que o rijo coração, vaso frágil para contê-la,
embora acrisolado ao fogo das paixões tempestuosas, ia estalar.

Abalou-se o corpo vigoroso com um forte calafrio, que sacudiu-lhe a terrível
obsessão; e o facínora surgiu outra vez audaz e ameaçador.
Rebatendo o chapéu com um revés de mão, descobriu a fronte
rija e alta, que se escalvava entre uma floresta de cabelos negros. Outra
vez se descarnou a sua fisionomia com a expressão dura, ríspida
e incisiva, que lhe dava a aparência de um perfil talhado em gume de
aço.

– É sina! proferiu no tom implacável do fanatismo.

Com pouco reboou das barrocas da azinhaga o tropel de um cavalo. Jão
Fera acostumado a distinguir nos rumores da mata as várias notas que
formavam a surdina da floresta, inclinou o ouvido à escuta. Não
se enganara; o animal vinha naquela direção e aproximava-se
rapidamente.

Galgando então pelos socalcos do imbê, que descia dos galhos
de um prócero jequitibá, alcançou o tope no rochedo,
donde se descortinava entre o rendado das folhas uma volta do caminho.

Não tardou que apontasse ali, para sumir-se logo na curva da estrada,
um cavaleiro.

Era o mesmo embuçado que falava pouco antes com Monjolo. Orçava
pelos cinqüenta anos; barroso da cara que lhe cobria uma barba ruiva
e áspera como as cerdas da capivara; de mediana estatura e excessivamente
magro; vinha trajado ao uso da terra: chapéu mineiro de feltro pardo,
sob o qual via-se o lenço de Alcobaça que lhe servia de rebuço;
poncho de pano azul forrado de baetilha, com a gola de belbute levantada;
botas de bezerro armadas de chilenas de prata.

Os lábios do capanga, onde flutuava um sorriso de desprezo, contraíram-se
logo, e arrojou-se o corpo à frente para não desprender a vista
assanhada do cavaleiro, que sumira-se na curva do caminho. Desceu rápido
ao rés da azinhaga, por onde breve meteu-se o desconhecido.

Mal que assomou este no alto da rampa, a pupila injetada do capanga cravou-se-lhe
no semblante e o atraía como a garra do abutre; a par, os dedos da
mão direita afagavam com certa volúpia feroce o longo cabo da
faca, passada à cinta, e já a meio fora da bainha.

Não parecia o embuçado muito senhor de si e tranqüilo
de ânimo; pois lançava a um e outro lado olhos inquietos e investigadores,
à feição de quem temia e perscrutava algum perigo oculto
naquelas brenhas que o cercavam. Alguma vez hesitou, como incerto da resolução
que devia tomar; olhou para trás, ou enfrestou pela vereda que serpejava
diante dele vistas impacientes. Dir-se-ia que vacilava, entre continuar e
retroceder; ou quiçá julgava-se transviado, e procurava afirmar-se
no caminho para ele desconhecido.

De chofre empinou-se o cavalo, arremessando o homem sobre a escarpa da barranca,
donde rolou ao trilho, como um corpo inerte.

VI

O EMPENHO

O capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos
pés.

A faca brandida com força vibrava ainda no tronco do jequitibá,
onde cravara a cabeça de um urutu, que estorcia-se de fúria
e dor.

Fora a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma
lança, fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes
de ver altear-se o negro colo, o cavalo rodara sobre os pés; e a cobra
ameaçada pelos cascos elou-se ao tronco, onde a alcançara a
mão certeira de Jão Fera, que já tinha apunhado a faca.

Recobrando-se do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar
o corpo um tanto pisado e a sacudir a roupa.

– Apre! resmungou ele. Escapei de boa.

O capanga lançou-lhe um sorriso esguardo:

– Desta vez escapou, disse ele com surda entonação.

Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça
da urutu.

– Que diabo é isso? perguntou o embuçado.

– Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da
faca.

– Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me!

Cuidando então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe
cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que
tornou ao lugar, onde havia deixado o capanga.

Este o esperava impassível, mas um tanto absorto.

– Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.

– Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.

– Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não
me disse como se chamava.

– Porque não era preciso.

– Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se.
Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.

– Para que? Desde que a gente paga… Ou desconfia o senhor de mim?

– Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca.
Tenho este fiador. O ponto é outro; só avanço com quem
conheço.

– Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!

– Nunca morou aqui em Santa Bárbara?

Com essa interrogação ferrou o capanga olhar perscrutador no
semblante do cavalheiro.

– Eu?… Que esperança!… De Sorocaba todo inteiro! É a primeira
vez que botei-me cá para estas bandas.

Isto, disse-o Barroso com segurança e desplante.

– E por que tem gana ao homem?

– Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.

– História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.

– Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão!
Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte
que, se lhe passasse a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão
por seus negros e surrar-me com um calabrote!

– Ah! Ele disse isto?

– Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem
aí; não tarda.

– Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso!

– Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá
sou do governo!… Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um
capanga e o pajem; por conseguinte desta vez não tem desculpa.

O capanga levantou os ombros com ar de indiferença.

– Já sei; vá andando.

– Posso ficar aqui mesmo.

– Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço
quem está perto de mim.

– Safa!… Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico
Tinguá. Lá o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onças,
das suçuaranas, bem amarelinhas, ou três canários, à
vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio. Já
o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido.

Às últimas palavras de Barroso o capanga abaixou o olhar, e
um repentino enleio atou aquela organização robusta e audaz,
que difundia em torno de si a plenitude da sua pujança. Alguma fibra
vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural
orgulho e arrojo do caráter.

– Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme
e grave.

– Mas está custando a cumpri-la; confesse-se!…

Franziu ainda mais o sobrolho a Jão Fera, que mordeu os beiços
a tirar sangue. Acabava de estrangular a jura, que a destra já se preparava
para cravar no corpo de quem ousava duvidar de sua palavra.

– Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse
logo dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem
recebia os seus vinte patacões para tomar o empenho que tomei.

– Por que então?

– Basta que eu saiba. Só depois é que me disse, quando eu já
tinha gasto seu dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia
deixando a coisa para mais tarde, pois o senhor há de lembrar-se, que
minha promessa foi dar conta do homem até São João que
vem cair lá para a outra semana. Sou senhor de minha vontade, fazer
hoje ou amanhã, quando me parecer, desde que naquele dia minha palavra
estiver cumprida. Aí está a razão…

– Quem duvida que o camarada é um homem honrado? Então eu não
sei com quem lido?

– Deixe-me acabar. Aí está a razão de não ter
eu dado conta ainda da sua obra. Queria ver se me vinha alguma prata para
livrar-me deste empenho. O senhor não vê diferença em
mim?

– Alguma, para falar a verdade.

– Pareço um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas
não ajuntei senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca,
veja. Quer recebê-los, e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha
vida para pagamento do resto?

– Isso nunca! O trato está em pé!

– Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possança de si
mesmo:

– Estou ciente. O senhor cobra a sua dívida; eu pago-lhe na moeda
que tenho, nesta, disse batendo na bainha da faca. Vá descansado; hoje
ficamos quites.

– Esse falar agora me agrada mais; e até, olhe lá, por cima
do prometido, sempre a gente há de escorregar uma molhadura, se a obra
for bem feita.

– Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa concisão.

– Ande lá. Então na venda do Chico? perguntou Barroso com o
pé no estribo.

– Já disse.

– E logo que despachar o diabo?

– Sim!

– Boa mão, camarada.

Ganhando a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcançada
a planície, afastou-se a galope do sítio mal-assombrado.

Entretanto, o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distância,
murmurava consigo:

– Aquela cisma que eu tive há pouco!… Se não fosse o urutu!…
No cabo não era ele, sem falar que estou lhe devendo…

E acrescentou:

– É preciso acabar com isto! Há de ser o que Deus quiser.

Suspendendo o corpo do urutu à ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele,
para gastar o tempo da espera, quando alguma coisa suspeita fê-lo erguer
de pronto a cabeça e aplicar as ouças.

Ressoava ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte
de madeira.

VII

O MARMANJO

No terreiro da fazenda das Palmas, junto à escada da casa de morada,
os animais de montaria mordiam os freios de prata, raspando o chão
com a ponta do casco.

Tinha-os pelas rédeas um mulato de libré cor de pinhão,
avivada de preto e escarlate, com botas envernizadas de canhão amarelo,
e chapéu de oleado a meia copa. Recostado ao socalco do patamar com
ares de capadócio, o pajem fazia sinais para uma janela, onde aparecia
amiúde a trunfa riçada de uma crioula.

Vinha chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava
o último bocado do almoço, e preparava o cigarro de palha. Aceso
o pito e tomada a primeira fumaça, passou revista primeiro nos arreios
do baio e da rosilha, depois nos cascos; e não achando coisa de maior,
foi contudo, para mostrar a sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando
uma cilha e repuxando uma correia da cabeça.

– Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento,
só serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e não aprendem.

– Corja é súcia, sô Mandu. Olhe lá! rebateu o
pajem.

Nisto apontou a mucama à janela.

– Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.

– Já está acabando. Não tem tempo de ir mais à
roça, ver Florência, não, rapaz.

– Ai, que dor de canela!

– Ixe! Quem conta com pajem!

– Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpão.

– Sai daí! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinhá é
lá para o beiço de caipira? Vá comer sua broa de milho,
homem, e deixe de partes.

A mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxão que
de dentro lhe deu o pajem Faustino.

– Assim é que serve a mesa?

– Salta, moleque! Menos confiança comigo.

– Hô xente! Moleque como nós. Tenho muita xibança nisso.
Não é como esse mestiço do inferno, cor de burro; mas
você não tem vergonha mesmo de vir engraçar com ele na
janela.

– Sinhá está ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaça.

– Melhor pra mim! Eu cá não me embaraço.

Este curto diálogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino
veio pilhar a mucama, que escapulira do serviço da mesa para se faceirar
com o mulato. Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou à
sala de jantar, onde ninguém dera pela sua falta.

Ali, estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá,
coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como
de ordinário, por cinco pessoas.

A cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora
de 38 anos, e não formosa; porém tão prendada de inata
elegância, que seus traços e toda sua pessoa tomava um particular
realce. Se não tinha bonitos olhos, ninguém sabia olhar como
ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso inteligente
e a palavra brilhante.

Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio
inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural
distinção de seu espírito. Recolhida à sua província,
teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele
tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de
um dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão
polir.

À expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto
que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local
que se notava senão em toda casa, ao menos na família. Aquela
esfera que recebia a influência imediata da dona da casa, não
era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão retocada
já pelo apuro escocês e pela graça francesa.

Aos verdadeiros paulistas da têmpera antiga, de antes quebrar que torcer,
aos grandes turrões, nutridos de lombinho de porco e couve crua, não
deixava de escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por
isso, já desconfiados de natureza, mostravam-se espantadiços,
quando entravam na casa das Palmas.

À direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão,
cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era
um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava
em sua compostura digna a consciência do próprio mérito.

Do comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava
o influxo da suprema distinção do espírito de sua mulher.
Naturezas há que têm a força de imprimirem o seu cunho
naqueles que o cercam; outras se apoderam da índole alheia insinuando-se
nela pelo afeto, impregnando-a de sua essência.

A de D. Ermelinda era destas últimas. Fora por uma lenta filtração
moral, que ela conseguira transmitir ao marido um toque do seu garbo nativo,
embotando as asperezas de uma educação grosseira e extirpando
hábitos da infância descurada.

À esquerda da mãe ficava o filho, como à direita do
pai a filha, ambos na flor da juventude. Chamava-se o primeiro Afonso, como
o avô. À Segunda tratavam todos pelo apelido, senão diminutivo,
de Linda, formado das últimas sílabas de seu nome, que era o
mesmo da mãe.

Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moça via-se um
menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro
daquela família, que respirava a graça e a inteligência.

Era feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto
em seus gestos. Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila
baça coava-se um olhar morno, a divagar pelo espaço com expressão
indiferente e parva.

Curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos
revoltos, abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava
abaixo do queixo; e escancarando a boca enorme para sorver de um bocado a
grande broa de milho, ensopada no café, mastigava a tenra massa a fortes
dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando um couro.

Percebia-se logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara
nesse membro enfezado da família, refratária a todo o preceito
de ordem e arranjo. Por isso a dona da casa, quando presidia a mesa de seu
lugar de honra, observando o serviço e ocupando-se de todos, não
transpunha aquele ângulo, onde sentava-se o pequeno. Se acontecia a
seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia com
desgosto.

Naquele momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias,
virando com o queixo a xícara, que entornou-lhe todo o café
no peito da camisa.

– Hô, hô, hô!… fez ele com um riso gutural e apatetado.

Acudiu a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele não
se mexia.

– Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não
sabe comer na mesa.

Um raio maligno lampejou na pupila baça do pequeno.

– Nhô Brás! gritou a rapariga tomada de dor.

O menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.

VIII

PRESSENTIMENTO

Passou despercebido para as pessoas da família o acidente do café
entornado.

D. Ermelinda parecia preocupada; sem tomar parte no almoço, acompanhava
os movimentos do marido com uma inquietação nervosa, que procurava
reprimir, porém ressumbrava-lhe da fisionomia assustadiça. Não
se difundiu, portanto, em sua expressão o tédio, que ordinariamente
lhe inspiravam, quando assistia à mesa, àqueles desasos de Brás.

O marido estava a partir para Campinas, onde ia demorar-se três dias
afim de concluir alguns negócios, que talvez o levassem a São
Paulo. Apesar do hábito dessas e até de maiores ausências,
a senhora não podia eximir-se à repugnância que lhe causava
semelhante viagem, e empregava todos os esforços para desmanchá-la.

Mas Luís Galvão não era paulista debalde; ele se deixara
imbuir da influência da mulher naquela parte da existência do
homem que pertence exclusivamente à esposa, e onde, portanto, aceitava
como legítima supremacia feminina, tinha contudo sua ponta de birra,
e quando, em matéria de lavoura e negócio, ou coisa que não
entendia o regime doméstico, se decidia por um alvitre, não
havia demovê-lo.

Por causa da viagem se tinha posto o almoço tão cedo, quando
o costume era às 9 horas, para dar tempo aos longos passeios que D.
Ermelinda recomendava aos filhos, e de que ela muitas vezes dava exemplo com
o marido. Ainda nisso havia uma inovação aos usos da terra,
onde moça rica, filha de fazendeiro, não anda a pé, a
não ser na vila.

Luís Galvão comia com boa disposição e, de vez
em quando, replicava ao olhar inquieto da mulher com um sorriso e um gesto
de carinhoso motejo, o que chamava aos lábios da elegante senhora uma
fugaz enfloração, logo apagada. Quanto a Linda e Afonso, apesar
da hora, só para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite, pronto
sempre, da juventude.

Nenhum destes fez reparo no desastre acontecido com Brás, naturalmente
porque semelhantes desaguisados eram tão freqüentes, que já
se contava com eles. E então buscavam todos modos de disfarçar,
não só para não contrariar ainda mais D. Ermelinda, como
para evitar as represálias de que servia-se o pequeno contra qualquer
ralho ou motejo.

Dessa vez ficou na garfada à perna da Rosa, que lá se foi coxeando
para a camarinha, examinar o arranhão. Entanto o Brás, rachando
a meio um pão e metendo em cada bolso uma banda, levantava-se da mesa
para ganhar o quintal pela porta da cozinha.

Repetindo Luís Galvão o seu amoroso remoque à inquietação
da mulher, esta não se conteve, que não lhe replicasse.

– Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança;
e eu mesma não cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso
consigo livrar-me dos receios que me assaltam.

– Disposição em que você está, Ermelinda. Que
perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até
mais longe e com maior demora?

– Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego.
Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto
sinto hoje um desassossego, um aperto de coração.

– É nervoso.

– Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há.
Essas esperas, que andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou
o administrador…

– E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e
a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se
de mim.

– Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo
de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.

– Quem se atreveria?…

O altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios
de Afonso que alçou a fronte já naturalmente erguida, com um
assomo bizarro.

– São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio
dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si.

– Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos.
No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la
à toa, eu fui a Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse
o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu.
Se havia espera, não era decerto para mim.

Pareceu D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom
persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o coração
perscrutava objeções para resistir à razão.

– E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda?
Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um
rasto de sangue. Por isso deram-lhe o nome de fera!

– Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda.
Jão Bugre ou Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de
outros, foi criado em nossa casa; era afilhado de meu pai e até chegou
a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porém lembra-se
dos benefícios que recebeu de nossa família, e, embora se mostrasse
altaneiro comigo, acredito que me respeita.

– Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao
contrário, o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra
o que chama uma injustiça do mundo.

O Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades;
porém esse homem de más entranhas tem um resto do consciência
e probiedade. Não há exemplo de haver atirado a alguém
por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se
ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando o perseguem.
Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso
apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.

– E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes?

– Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista
desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham
prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não
se animaram, tal é o temor que inspira.

– Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso
desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.

– Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro,
acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la.
Não é verdade, Afonso?

– Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá!

– Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não
estaria tão inquieta, disse a senhora com um leve reproche.

– Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando.

– Então fique!

– Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda.

– Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não
se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaça. Levo
uma certa encomenda de vestidos e enfeites, que só eu sei escolher.

A moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo
da mãe.

– Papai compraria outra vez.

– E a festa? Perguntou o pai sorrindo.

A pêndula soou oito horas.

IX

AS AMOSTRAS

Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio
de algibeira e ergueu-se:

– São horas!

Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança,
que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente
qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida,
empalideceu:

– Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me
grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la
tão sobressaltada.

– Confesso que esta emoção faz-me mal; já não
me sinto boa.

– Então fico: está decidido.

Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia
não escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa
da moça.

– Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de
contas, meus sustos não têm razão de ser. Você precisa
concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se não
tiver os presentes prometidos.

– Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração.
O que eu desejo é vê-la sempre contente.

– E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça
como tu; nessa idade a ventura é uma flor, uma fita. Só depois
se compreende o que ela vale e o que ela custa, minha filha. Não te
envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la senão tu?
Deus fez as estrelas para brilharem.

– Então o que decidem? perguntou Luís Galvão.

– Vá; eu lhe peço.

– Por minha causa, não! contestou Linda.

– Pela minha, disse D. Ermelinda.

Calçadas as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se
o viajante da família e montou a cavalo.

No momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe
o peito, e ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso
do casaco. Não obstante, custou-lhe muito essa despedida; seus vagos
terrores se alvoroçaram de novo, e foi preciso grande esforço
para dominar-se.

Entretanto Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse
o último adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro.
Acompanhava-o de perto, a meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante
ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio,
solto, mas de todo arreado e pronto para o revezo.

– Logo hoje é que seu pai leva um camarada só.

– Por que, mamãe? perguntou Linda.

– O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda.

– Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção
de dirigir-se à cavalariça. Em um instante o alcançarei.

– Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se
não viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de
entrar, voltou-se para os filhos:

– Vão passear!

– E mamãe fica só?

– Preciso descansar um pouco até a hora do almoço.

– Sente alguma coisa, minha mamãe?

– Nada, fadiga apenas. Até logo.

– Quer ir, Afonso?

– Se você quiser, Linda!

– Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe.

D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude
dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes
a tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força.

Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com
os olhos ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera
e onde se perdia de todo a vista da casa.

Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam
de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com
o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada,
que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir.

A angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis
que lhe crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez
em anos de sua vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele
havia de atendê-la, ou então de arrastá-la abraçada
a seus joelhos.

Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente
à casa onde Luís Galvão apeou rijo.

– Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.

– Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar
da Linda com a lista das encomendas.

Outra vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus
imaginários terrores. Esse coração de mãe sacrificava
às inocentes alegrias da filha o seu sossego; é uma banalidade
sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de que já ninguém
se ocupa.

Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos;
e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o
segredo da secretária e tirou um papel, que rápida e furtivamente
escondeu no bolso.

Era este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto.
Apenas teve Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à
sorrelfa um pequeno embrulho do outro, exclamou:

– Aqui está!

– Aonde achou?

– Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo.
Foi quando enchi a carteira.

Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro
a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade,
que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e
a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que
se acanhava.

O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou
menos é infalível em todo o coração por magnânimo
que seja, como da ânfora onde por muito tempo se guardou o vinho puro
e generoso, há sempre lia no fundo.

Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava
de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a
quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior
suplício para o homem de brios.

O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação
ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação
para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem
conseqüências, e que talvez a outros nem mais lhe roçassem
na memória, o estavam remordendo interiormente.

Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado
guarantã, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada
sobre as altas ribanceiras de um córrego, que regava parte das terras
lavradas.

Aí estava a última tronqueira da fazenda.

Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher,
que lhe acenava com o lenço, e desapareceu.

X

OS GÊMEOS

Deixando a mãe, separaram-se os dois irmãos para se encontrarem
no pátio interior, donde também havia passagem para as jeiras
da fazenda.

Linda fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné
e o bastão de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a
par, garrulando como um casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem
pela grama ensaiando os primeiros vôos.

– Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei
se vinha passear, respondeu-me “se quiser” e estava morrendo!

– Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá
para a figueira.

– Que história! disse Linda corando.

– Eu respondi “se quiser” mesmo de propósito; para ver sua
tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai
todos os dias para aquele lado?

– E é, sim.

– Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto.

– Não, meu maninho do coração, não se zangue.
Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando.
Vamos; sim?

– Primeiro há de por as mãos e dizer comigo: – “Meu Afonsinho…”

– “Do meu coração…”

– “Eu lhe peço e rogo… que me leve… onde está…”

– Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra
do irmão.

– “Onde está” insistiu o rapaz uma e duas vezes.

Afinal Linda cedeu:

– Onde está…

– “Meu benzinho!” concluiu o rapaz.

Banhou-se a menina em ondas de púrpura.

– Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume.

– Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir.

– Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta.
Tenho um certo segredo a para contar a Berta…

– Segredo de mulher! galhofou o irmão.

– Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só
eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá
para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear.

– Você é capaz?

– Sou.

– Uma aposta?

– Não quero; você logra-me sempre.

– Também tenho uma coisa para dizer.

– A quem?

– Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel.

– O que é?

– Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei… que essa pessoinha
me pediu para… para dar um… a ele já se sabe… um…

– Mano! Não gosto destas graças!

– Um beliscão, menina!

– Você ia dizer outra coisa.

– Ou é você que queria ouvir outra coisa?

– Está bom; me deixe.

Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão.

Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se
devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço
o corpo gentil da moça.

– Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou
sua pena, minha rola? Prrru!… Coitadinha! Deixe ver o biquinho!

Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à
irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe
a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa
dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como
estavam com o gracioso amuo.

Não se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina,
do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético
do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente
curvas, pelo recato, as mão recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti
quando arrufa a doce e macia penugem.

À medida porém que a envolvia a carícia do irmão,
ia ela outra vez acetinando-se; o talhe delicado esbeltava-se ao natural;
as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos
pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa
da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o
formoso semblante da menina uma luz de leite.

Só não sabe o que isto é, quem não admirou a
espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo
os orvalhos da manhã.

Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era
tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos
de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe
um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta,
onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas,
respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.

Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação
esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque
ela tem a santidade do amor.

Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos
tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole
jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro
e nas cascatas do riso cordial e folgazão.

Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos,
Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã,
e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha
visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu
abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram
pontualmente retribuídos.

Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça,
e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando
a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada
da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela
a trazia solta no passeio da manhã.

Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com
o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não
beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe no rosto e os cabelos, para certificar-se
que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.

Depois tornou-se impossível a confusão, porque não só
o talhe do moço hasteou-se com a têmpera viril, como o fino buço
começou a assombrear-lhe o lábio superior e as faces.

XI

NO TANQUINHO

Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos
o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio
até a hora habitual do almoço.

Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas
e carreadores mais estreitos.

Nessa ocasião, não repararam como de costume no verde-gaio
e risonho daquelas ondas de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da
brisa; nem ouviram os brandos cicios, tão doces ao ouvido, como é
ao paladar a polpa deliciosa dos gomos.

Entraram em seguida na roça, onde o feijão estava em flor e
o milho espigava, agitando os seus louros pendões. Logo adiante ficavam
os vastos cafezais, recentemente carpados e já frondosos para mais
tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaçados
pela folhagem de brilhante esmeralda.

Aí à sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos
recebendo a ração do almoço, que as rancheiras de cada
turma dividiam pelas gamelas e palanganas que lhes apresentavam.

Passaram os dois irmãos apressadamente e sem dar-lhes mostra de atenção,
para não perturbar-lhes o descanso e a refeição.

Além, na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras
de diversas espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus
lindos penachos. Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à
fazenda.

Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava
onde já se começara o trabalho da derrubada, e se afolhavam
as terras destinadas à lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartéis,
como os partidos de canas.

Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se até
a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos já estava convertida
em capoeira, que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho
batido pela constante passagem.

Por essa vereda meteram-se os dois irmãos, Afonso adiante, malhando
com o bastão os tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda
no encalço, rocegando a fímbria da saia de musselina para guardá-la
dos orvalhos. Foram sair em pequeno gramado, de um pitoresco encantador.

Parecia esmero de arte o sítio aprazível; não que possa
o gênio do homem jamais atingir os primores da criação;
ordenara, porém, muitas vezes e resume em breve quadro cenas que a
natureza só desdobra em larga tela; e colige em uma só paisagem
cópia de belezas que andam esparsas por vários sítios.

Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra
de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava
como panos de muralha, cobertos de verdes tapeçarias e vistosas colgaduras,
apanhadas em sanefas e bambolins de flores. À face oposta assomava
a soberba colunata do Palmar que estendia-se até ali, formando arcarias
góticas, fustes elegantes em estilo dórico e arabescos rendados
de maravilhoso efeito.

À margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão,
que saía gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava
meandros entre as palmeiras para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava
os ramos, em esparavel, ensombrando a pelúcia de relva.

Aí próximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda
de juncos floridos, donde borbulhava também um fio d’água
que alimentava o lago. De seu tope descortinava-se a casa das Palmas e toda
a várzea até a margem do Piracicaba.

Ao entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco
da figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmãos
trocaram um sorriso displicente.

– Não vieram, disse Afonso.

– Já foram.

– Não há tal.

Levou o moço as mãos à boca e apitou. Não teve
resposta.

– Então?

– É que já estão longe!

– Não tinham tempo.

– A culpa é sua.

– Quem primeiro buliu com o outro?

– Eu hei de contar à Berta.

Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de
voltar do insípido passeio que tão malogrado fora.

Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme
o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou,
Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.

Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma
inflexão sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete,
surgira de repente a mulher em toda a brilhante fascinação,
na plenitude da graça irresistível que rapta a alma, e a arrasta
após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e feliz de
rojar-se-lhe aos pés.

Miguel levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma
visão, e deslumbrado foi seguindo a menina sem consciência do
que fazia.

Não voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de
que o moço a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo
flexuoso requebro de seu talhe donoso.

Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava
caminho para o prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga
e camarada de infância, cuidando já encontrá-la no lugar
emprazado, à sombra da figueira.

Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão
que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.

Chegou Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos
iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.

– Linda!

– Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!

– Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!

– Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum
sério petulante.

– Deveras! Pois estamos mal.

– Veio sozinha?

– Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!

Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.

– Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso
como ele só; parece com certa pessoazinha que cá sei.

– Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.

– Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para
a viagem. Aqui tens.

E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá
se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.

– Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.

– Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido… Acaso
viram borboleta preta no caminho?

– Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão
direita fechada na palma da mão esquerda. Eu cá já estou
contente; vi um passarinho verde!

– Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está
zangado, diga a razão. Que lhe fiz eu?

Tão franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras,
e tão cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de
seu injusto ressentimento contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração
os ressaibos de ciúme, que o pungiam.

– Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando
em uma coisa desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com
um sorriso de efusão, apertando comovido a mão do camarada.

– Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece,
Linda?

– Não sei; por que haviam de brigar?

– Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no
caminho e ir caçar!

– Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria
vir!

– Mas era só para me fazer pirraça! tornou Inhá. E senão
veja, Linda; como eu lhe disse que não me importava com isso e vinha
mesmo, logo ele não falou mais em caça, e veio pescar seu peixãozinho!…

– Berta!… murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.

– Uma piabinha do rio, não é, Inhá? dissera Afonso de
envolta com uma gargalhada gostosa, que Inhá acompanhava com os trilos
argentinos de seu riso fresco e puro.

– Não sei de que estão a rir com tanto gosto, observou Miguel
enleado, sem ânimo de erguer os olhos para Linda.

– Acham graça em uma coisa à toa.

Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha,
ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em
uma gama estridente este clamor incompreensível:

– Til!… Til!… Til!… Oh! Til!…

XII

IDÍLIOS

Eram freqüentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no
Tanquinho.

Vinham semanas em que se repetiam todas as manhãs, a menos que as
chuvas não permitissem, ou que Berta e Miguel fossem à casa
das Palmas, o que sucedia regularmente aos domingos e dias de festa.

O amor, tão bonina dos prados, quanto rosa dos salões, quando
o orvalham risos da mocidade; o amor puro e suave, como a cecém daquele
prado, tinha já florido os corações que lhe respiravam
pela manhã os agrestes perfumes.

Nem isto é mais segredo; e, pois, não se comete uma indiscrição
em contar o que só não sabiam D. Ermelinda e seu marido.

Afonso, este namorava Berta às escâncaras, com o recacho e brinco
próprios de seu gênio. Essa mesma sinceridade e desplante de
seu afeto eram véu para ocultá-lo a olhos suspicazes. Quem o
via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso não passava
de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.

Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o
tímido coração bater apressado. Não raro, o instinto
de delicadeza que recebera de sua mãe, advertia-lhe da distância
que separava dela o moço pobre e de mesquinha condição.

O amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão,
onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo não
a encontra, divide-se ela própria para ser duas: uma, esperança;
outra, saudade.

As confidências do irmão; as longas e constantes conversas a
propósito do mesmo tema, sempre novo; os episódios singelos
do idílio, arrufos ou encantadores segredos; essas asas fagueiras do
amor roçavam a todo o instante o coração da moça
e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel não
se apercebia disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa
de Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade
d’alma e fina educação.

Assim, voltava ele à menina um respeitoso afeto, ungido pela gratidão
que nele acendia as maneiras singelas e benévolas da moça; e
também repassado da serena admiração de artista que sentia
ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas não lhe pulsava o coração
com os ímpetos da paixão; nem a imagem graciosa de Linda flutuava
nas cismas de sua fantasia.

A presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento,
embora de grata deferência; era como a palma do jeribá que fecha
com os relentos da noite, e somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.

Para Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não
eram tanto esses passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos
e mais lembrados em que sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea
na ida e na volta.

De Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se
de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado. Em roda ferviam os
ciúmes de muitos que a ansiavam só para si, e penavam-se de
vê-la desejada e querida de tantos. Mas como um sorriso ela trocava
tais zelos em extremos de dedicação, e o pleito já não
era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em sacrifício.

O gracioso e ingênuo sorriso de seus lábios, era o mesmo, desfolhando
beijocas na face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel.
Não fora o recato da educação, que ela seria muito capaz
de fechar os olhos e à sorte lançar o beijo, como um pombinho,
para qual dos três mais ligeiros o apanhasse.

Se D. Ermelinda soubesse das freqüentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse
dos tácitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo já
teriam eles cessado; pois não escaparia à inteligente senhora
o perigo de expor o tenro coração de sua filha a uma paixão,
bem possível senão provável de gerar-se dessa íntima
convivência, que não perturbavam outras diversões próprias
para ocupar o espírito de uma menina.

Na casa das Palmas, porém, ignorava-se o habitual encontro; não
que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se;
eis todo seu pecado. De volta do passeio, em família, falavam várias
coisas que tinham feito ou observado; mas não tocavam em Berta e Miguel,
ou faziam-no de longe.

Em Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lábio, ainda
não o tinha pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso
o murmurava baixinho dentro do coração. Daí provinha
que vendo Afonso o vexame da irmã, por sua parte sofreava nesse particular
o seu gênio zombeteiro, e não tugia sobre as entrevistas no Tanquinho.

Quando D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos,
estes por um natural acanhamento não dirigiam a excursão para
o sítio favorito; no que os ajudava o fazendeiro, mais solícito
em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura, que lhe estava
prometendo abundantes messes.

Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que
os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de
longe pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas
de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.

Eis como ignorava D. Ermelinda os idílios, que estavam compondo seus
filhos, naquele sítio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce
efúlvio da natureza. Tudo ali penetrava o coração de
emoções deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante
espreguiçava-se a imaginação, a sonhar o dossel de um
divã. Os sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das
sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.

Quem estivesse nesse lugar a sós cuidaria que aproximava-se uma virgem
mimosa, de fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de
suave fragrância. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria
por certo que ela se transfundira nesse sítio nemoroso, como em um
grêmio do amor; e nas auras embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso
a bafejar-lhe as faces; no lago dormente seus olhos límpidos a refletirem-lhe
o céu de sua alma; nas hastes das palmeiras, seu talhe mil vezes esboçado
com a mesma inata elegância; nas laçarias e festões de
trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na pelúcia da grama
cambiante às depressões do terreno, a voluptuosa flexão
das formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possível
não amara naquela mansão, onde tudo cantava, sorria, palpitava
e respirava amor?

A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio
entre o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?

Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho
com a flor, do sol com a sombra, do céu com a terra.

XIII

SUSTO

Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio
um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.

Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí
distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da
colina, curiosa que estava de saber donde partira o clamor.

– Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel
como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos.

Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas
se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes?
Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume
pela preferência dada a uma distração que ela não
partilhava?

– É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.

– Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo,
que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe… Mano podia emprestar-lhe.

– Já li; disse simplesmente Miguel.

– Não é tão bonito?

– Muito.

– Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.

Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se
em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam
perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço.

– O senhor não deseja formar-se?

– Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual
sossego:

– Mas para que pensar nisto?

– Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para
se ajudarem.

– Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é
preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.

– Papai lhe empresta.

– Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.

– Por que razão?

De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:

– Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não
pretende pagar.

– É verdade!

Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta;
e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não
era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa
de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna.
Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia
prática, rara em mancebos.

– Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse,
teria ambições que não são para mim, e viria talvez
a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo
junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas
que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por
aí?

Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar
em Berta uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente
entre a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera
a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a atenção,
desceu a correr para a figueira e veio interromper o colóquio.

– Onde vai o sr. Galvão?

– Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.

– Você não me disse nada.

– Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou
tão assustada.

– Por que? perguntou Migue.

– Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu
junto da fazenda um homem muito mau.

– O bugre!

– Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá.

– Isso mesmo.

Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu
o seio como para reter o coração que lhe fugia.

– Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação
da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não agoniar
mamãe ainda mais do que ela estava; porém quando me lembro que
papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trêmula.

– Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão
já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como
se faz com as crianças, para não terem medo do calhambola.

– Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse
Miguel.

– Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia
estar bem longe.

Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho.
Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno
a fim de não redobrar o susto da moça. Entretanto não
deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que
tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente
calar-se.

– Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação
de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora.

Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era
ele tão natural que ocorreu a Miguel.

– Talvez tivesse esquecido alguma coisa.

– Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas.

– Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes.

– Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.

– Berta! chamou Linda.

– Aqui não está. Já corri tudo.

– Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar; já
é tarde.

– Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.

– Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel.

Os dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas,
mas não viram sombra de Berta.

Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas
desta vez gania a voz com tal ímpeto e frenesi que estrangulava-se.

– Til! Til! Til…

Na roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no
manejo da enxada batiam a cadência de um canto monótono, com
que amenizavam o trabalho:

Do pique daquele morro
Vem descendo um cavaleiro
Oh! Gentes, pois não verão
Este sapo num sendeiro?

Adubavam o mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um
riso gutural:

– Pxu! Pxu!

Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos,
que muitas vezes encerram epigramas e alusões. Bem desconfiavam, pois,
o feitor de que a tal cantiga bulia com ele, e o sapo não era outro
senão um certo sujeito bojudo e roliço, de seu íntimo
conhecimento; mas fingia-se despercebido da coisa.

Quando passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça de eito,
os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mão
esquerda, e com a direita pediram a benção.

XIV

A VESPA

Onde sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado
e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?

Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem
de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou
quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga,
a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas.

No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente
haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre
acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.

É verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o
de tais idéias, costumava ela encontrá-lo naquelas mesmas paragens,
durante as longas excursões que fazia pelos campos. Mas, recordando-se
do aspecto e modo com que nessas ocasiões lhe aparecia Jão,
reconheceu que nessa manhã trazia o capanga no vulto e no semblante
o que quer que fosse de soturno e ameaçador.

– Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me a crer
todo o mal que dizem dele; e até as vezes dava-me na vontade perguntar-lhe
se era verdade. Mas tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. São
coisas ruins as que por aí contam. Meu Deus! É possível
que se mate gente assim com tamanha barbaridade?… Aquela cara amarrada que
ele tinha hoje; e os olhos fundos, e os modos arrebatados… Bem se via que
levava uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por dentro
do mato até junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a banda da
Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde o sr. Galvão
não tarda a passar?… Ah! o coração me diz: Ele está
na tocaia, e é para o sr. Galvão mesmo!

Estas reflexões tumultuavam no espírito de Berta, que rompia
o mato, fustigando o rosto pelos ramos das árvores e magoadas as mãos
em partir as enrediças.

Ao recobrar-se do soçobro que tivera, escutando as palavras de Linda,
ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da
altura em que iam os viajantes. Descendo porém rapidamente a outra
encosta, penetrou na floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso já
à cata, seguir-lhe a pista.

Valia a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas vezes antes
percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava
o caminho, levando rumo direto por entre a brenha e ao longo do costão
que alombava o penhasco até a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava
pelo dorso do espigão e saía no tope da garganta.

A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão, descrevia
uma larga curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar
em pequena distância à direita do Tanquinho, cerca de uma milha
da casa das Palmas, situada no recosto da esplanada.

Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço
e podia alcançar antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a
passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer modo, que a menina
não podia imaginar.

Para isso, porém, era indispensável que o mato não lhe
tolhesse o passo nem embaraçasse a carreira; e pois buscava ela descobrir
o trilho no alto do espigão.

Não pode achá-lo. A perturbação em que a deixara
em choque, aumentada com a convicção de estar Jão na
tocaia, lhe roubara a calma necessária para orientar-se no meio daquele
dédalo inextricável, tecido pelas guitas dos cipós e
vergônteas das árvores.

De súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência
despedaçados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abóbadas
da floresta o estrupido de um passo duro e pesado.

Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida
carreira, que não encontrava obstáculo para detê-lo.

Dir-se-ia a disparada de uma anta, se não fosse uma certa ondulação
do rumor que indicava não levar a corrido alvo certo, mas desviar-se
para um e outro lado, fazendo voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa
no rumo, embora impetuosa na investida.

Parando para concentrar um momento a atenção convenceu-se a
menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade.
Chamando a si toda a energia de seu caráter e todas as forças
de sua fina têmpera, Berta de novo arremessou-se, e rompeu o mato com
o desespero de escapar à perseguição.

Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada;
e aí ficou enleada pelas meadas de enrediças que fazia entre
os galhos das árvores um tecido de folhagem. Debalde tentou a menina
desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.

Entretanto se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e não
tardaria muito que chegasse ali.

Ocorreu então a Berta uma idéia, encolhendo-se dentro do esconderijo,
que lhe deparara tão propício acaso, quedou-se à espera,
sem rumor, cortando sutil com os dentes as cordas dos cipós que a enleavam.

Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças
do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto
pardo, que bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele
tropel serpejou cerca, até que perdeu-se na distância.

Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não só
a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranças
daqueles sítios. Lá não muito longe, vira ela sob as
crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.

Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou
à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do
despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria
a tempo? Não seria frustrada a louca esperança que a trouxera?

A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto
dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão
para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos
arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.

Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas l&oocirc;bregas
socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo
à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não
podia ser outro.

Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção
para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se
um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre
a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão
preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de
cabeça vira o colo musculoso distender-se como serpente.

Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava,
com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.

Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não
feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O
bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao
chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com
o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.

Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror,
que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito,
nem dar um passo para preveni-lo.

Chegara o fatal momento.

Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou.
A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão
invisível que lhe travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido
uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:

– Malvado!…

O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa.
Estava em face de Berta.

XV

O RELICÁRIO

Era medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.

A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida
da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se
daquela fisionomia intumescida pela fúria.

Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi
precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu,
porém, a altivez de sua alma e a fé que a inspirava.

Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás
da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço brandidas,
conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em
face aquela rábia formidável, que terrificaria ao mais bravo.

Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue
que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não
abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A
ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas
do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes.

Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se
trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração
nobre e puro, sublevado pela indignação. De repente começaram
a tremer-lhe os músculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos
pela borrasca; e as pálpebras caíram-lhe, vendando-lhe a pupila
ardente e rúbida.

– Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre
de voz, semelhante ao ringir do vidro.

Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios,
aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.

– Estava.

– Que mal te fez essa pessoa?

– Nenhum.

– E ias assassiná-la?

– Pagaram-me.

– Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia
do horror, que lhe causava essa torpe exploração do crime.

– É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz calma, ainda
que grave e triste.

– E não te envergonhas?

Com um assomo de soberba indignação foram proferidas estas
palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicário.
Este erguera a fronte num ímpeto de revolta, pungidos os brios pela
humilhação:

– Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum de emboscada,
às ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato
é porque sou mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas
quantas vezes, bem mais do que esses a quem despacho, pois sou um só
contra muitos.

– Que importa isso? A miséria está em venderes a vida de teu
semelhante, se acaso és tu homem e não fera como te chamam.

Um riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.

– E a vida é coisa que não se venda? Aí estão
comprando-a todos os dias e até roubando. A minha, não a queriam,
quando me recrutaram? Foi preciso barganhar por outra, senão lá
ia acabar em alguma enxovia.

– Assim não te causa a menor repugnância derramar o sangue de
teus semelhantes em troca de alguns vinténs?

– Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem a mesma
cor, e a mesma maldade. Já estou acostumado com ele. Sente-se a fumaça
do churrasco. Eu gosto! Disse o sicário dilatando as narinas, como
se esquisito aroma lhe prurisse o olfato.

– Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão de
horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz
de cometer toda a espécie de atrocidade, eu não queria crer;
porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro;
e também porque tantas vezes te vi tão sossegado e cuidados
comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e
tranqüilo, tendo-se dentro do coração uma caninana.

A estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com
uma entonação afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com
íntima e rija vibração, como o prócero ibiratã
quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na expansão
violenta de sua alma, arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe
de joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:

– Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais
horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que
por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és
como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e
outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que
te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste
criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende;
porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez,
e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.

– Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei
me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém,
escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava,
como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que
ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um
pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre
por ela.

– Para ti, portanto, não há gratidão?

– Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me
quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas!
Acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo. Assim não era
por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.

O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças
de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão:

– Foi por mecê, disse a voz submissa.

– Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?

– Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não
tenho para restituir…

– Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!

Jão Fera estremeceu:

– Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade.

– Desempenha!

– Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:

– Não tenho quarenta mil réis!

Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta.

– Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se
de sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah!
Ah! Ah!…

A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz
estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:

– Jão Bugre é um homem de honra!

– Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que
escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste
sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome!

Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se
horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das
pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma.

– Jura que o respeitarás!

– Não posso! murmurou o capanga com um arranco.

– Jura!

– Minha palavra!…

Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia
do coração, e tamanha desolação cobria aquela
organização possante e indômita, agora esmagada sob a
mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente.

– Toma, vende e desempenha a tua palavra!

E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço
e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.

– O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto,
tão cedo estava da agonia daquele transe.

– O relicário de minha mãe!

Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera,
que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.

Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano,
que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar
e os dentes a ranger.

Berta o reconheceu.

Era Brás, o idiota.

XVI

A SURA

Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se
outrora à margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.

Era uma antiga construção de taipa; e mostrava com pouca diferença
o aspecto comum às habitações medianas que, naquela parte
da província de São Paulo, se encontram de espaço em
espaço pela beira do caminho e à distância dos arraiais
e povoados.

A porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em vez de
vidro. Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas de uma pintura
cor de ferrugem, que destacava na parede da frente, branquejada com tabatinga.

A um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China e um
pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio da ervagem couves
gigantes, já com pretensões a arbustos, de tão velhas
que eram.

Mais longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra costumavam
se abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro, uma vaca e alguns bacorinhos,
que levavam o resto do dia a roer o capim já tosado até a raiz.

Mediavam três dias depois que Berta salvara a vida a Luís Galvão,
retendo o ímpeto de Jão Fera.

Amanhecera de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte cerração
cobria o vale, condensando-se ao longo do rio. A trechos, grossos borbotões
de neblina mais espessa desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da viração,
e rolavam como vagas por esse mar de névoas.

Vistas através do véu, as árvores tomavam um aspecto
pavoroso e fantástico, e às vezes figuravam os espectros, de
que a abusão povoa os ermos, a fugirem espancados com os primeiros
albores do dia.

Abriu-se a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da casa, e assomou
o vulto gentil e esbelto de uma moçoila que trazia ao braço
um saco de chita. Apesar da cerração, era fácil de conhecer
Berta, pela garridice petulante dos gestos e meneios.

Aos saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim, se
tal nome cabe a moitas de roseiras, manjericão e malmequeres plantados
de mistura e sem arte dentro de um cercado de varas, entre as quais estavam
suspensos alguns cacos de barro com pés de craveiros.

Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo
de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha
pés a pobre, que lhos havia roído à noite os ratos; andavam
aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la,
a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia
ainda.

Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo,
deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da
sua pitança, levou-a Berta à bica, para matar-lhe a sede e lavar-lhe
as penas sujas de poeira e cisco.

Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrição
e asseio, a menina deitou numa palhoça, que a seu rogo fizera Miguel
num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.

Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava
a travessa alacridade que cintilava de ordinário em seus movimentos;
e era, pode-se bem dizer, a radiação de seu gênio. Sua
graça então era séria; havia em seu lindo semblante uma
serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados
e dos lábios descerrados por um riso gentil.

Bem se conhecia, ao vê-la embebida naquela ocupação,
que não havia aí para ela unicamente o atrativo de uma afeição
de criança, como todos na meninice sentimos, uns pelas bonecas, outros
pelos cães ou passarinhos. Impulso mais forte era o que movia o coração
de Berta para aquele mísero ente, como para todo o infortúnio
que encontrava em seu caminho.

Ninguém na casa se importava com essa galinha, a não ser para
fazer-lhe mal. Antes de perder os pés, por ser feia e arisca perseguiam-na
a pedradas, quando aparecia no quintal. Depois que a roeu a ratazana, esteve
ameaçada da panela, donde a salvou Berta, que desde esse dia a tomou
a seu cuidado.

Daí em diante, não houve mais quem bolisse com a sura; porque
sabiam que não o sofreria sua linda protetora. E como todos queriam
a Berta de coração, o ponto era mostrar ela predileção
por alguma pessoa, ou mesmo objeto, que porfiavam por lhe adivinharem os pensamentos.

Tendo acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado a água
do caco, a menina que derramara pelo chão um punhado de milho e couve,
entreteve-se alguns instantes a ver suas flores, umas já de véspera
abertas, outras botão como ela, esperando o primeiro raio de sol para
desabrocham.

Entre eles, colheu um de rosa que entrelaçou nos cabelos; e deixando
o quintal, sem demorar-se com as outras galinhas que a cercavam cacarejando,
e às quais atirou de passagem o resto do milho, ganhou o campo.

Estendia-se este com pequenas ondulações até a margem
do rio, que ficava a umas cem braças da casa. Entre as pitas e crautás,
que formavam touças aqui e ali, em torno de algum arvoredo, serpejavam
trilhos, cruzando-se em várias direções.

Seguiu Berta por aquele que estendia-se na direção do rio.
Não tinha, porém, dado vinte passos, que voltou-se rapidamente,
ouvindo rumor da porta da varanda que outra vez se abria.

Por entre a folhagem e através da neblina viu ela o vulto de Miguel,
que parara no quintal, volvendo o rosto de um a outro lado, como indeciso
no rumo que devia tomar. Adivinhou logo a menina que o rapaz lhe percebera
a saída e vinha disposto a acompanhá-la.

Ocultou-se então em uma das touceiras, que embastiam as cortinas de
erva-de-passarinho, pendentes das ramas de uma velha laranjeira do mato. Daí
observou Miguel, o qual depois de vagar um instante perplexo pelo campo, meteu-se
pela vereda paralela ao rio, e pouco depois desapareceu por detrás
de uma ponta de capoeira.

Continuou então Berta o seu caminho; mas receosa de que o rapaz a
estivesse espreitando ou voltasse de repente, ora avançava trêmula
de susto, hesitando a cada passo e de chofre escondendo-se atrás das
árvores, ora disparava a correr para encobrir-se no mato que bordava
o sopé da colina.

XVII

ZANA

Ao passar pela garganta de dois outeiros pedregosos, que formavam abraçando-se
uma estreita e úmida charneca, Berta bateu com força as palmas
das mãos breves e delicadas.

Ouvia-se de perto um ornejo soturno, que mais parecia gemido; e logo depois
surdiu dentre o maciço da folhagem a enorme orelha de um burro, que
a muito custo movia o passo trôpego. De magreza extrema, ressaltavam
os ossos a modo que pareciam prestes a furar-lhe o couro. Era propriamente
uma carcaça, coberta com espessa crosta de lama, onde o animal estivera
deitado e lhe secara no pelo.

A outra orelha, que aparecia, a perdera ele na mesma ocasião em que
de uma foiçada lhe vazaram o olho esquerdo, levando-lhe boa parte da
cabeça. Parece que o arteiro do burro conseguira furar a cerca da roça
de um caipira, e regalava-se de milho verde e tenra fava. Mas saiu-lhe cara
a gulodice.

No mísero estado em que o pusera o caipira, pode, arrastando-se, chegar
àquela charneca, onde se deitou, quase moribundo, em um brejal. Com
pouco os urubus vieram pousar nas ramas da imbaúba.

Acaso passou Berta pelo caminho e ouvindo gemidos, foi guiada pelos abutres,
dar com o animal agonizante no meio de uma touça de junça. Movida
de compaixão, venceu a natural repugnância que lhe devia causar
o aspecto da ferida para lavá-la e cobrir com folhas de fumo atadas
por embira.

Do fumo sempre ouvira falar como remédio para todos os achaques. Se
não servisse para ferimentos, em todo o caso guardava o talho contra
as moscas e tavões.

Repetiram-se estes cuidados, até que afinal começou a ferida
a cicatrizar; mas deixara o burro em tal lazeira, que ainda era duvidoso se
escaparia. Não desanimou Berta, em cuja alma se produziam na maior
efervescência os transportes dessas abnegações veementes,
que são para certas naturezas uma necessidade irresistível de
expansão.

– Coitado do cotó! Ainda está muito magricela?… disse a menina
com um carinho compassivo.

E tirou do saco meia dúzia de espigas de milho, que o animal devorou
com uma gana de convalescência.

Debulhado o último sabugo, farejou o burro o saco, donde se escapavam
umas exalações que lhe pruiam agradavelmente o olfato.

Rindo, outra vez meteu Berta a mão no seu inesgotável saco
e trouxe um punhado de farinha que o burro lambeu-lhe das palmas. Dando então
um ligeiro tapa na belfa do animal, deitou a correr pelo campo fora seguindo
a mesma vereda.

Atrás de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do rio, abrolhando-lhe
a corrente, existia naquele tempo uma casa em ruína. Já tinha
desabado metade da parede do sótão e o telhado abatia aos poucos,
rompendo os caibros podres.

Da cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceção
da porta já tombada ao chão pela ferrugem das dobradiças,
saía um som roufenho e soturno, como o grunhido de um porco. Acocorada
a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao peito cerrando a cara,
descobria-se uma criatura humana, dobrada sobre si a modo de trouxa.

Era uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que resmoneava,
batendo a cabeça com um movimento oscilatório semelhante ao
do calangro. De tempo em tempo desdobrava um dos braços descarnados,
insinuava ligeiramente a mão pela espádua, e fazia menção
de matar uma pulga que imaginava ter presa entre o polegar e o indicador.

Havia algum tempo já que Berta parara à porta da cozinha, sem
que a estranha criatura desse o menor sinal de a ter percebido.

– Zana! disse afinal a menina.

Estremeceu a negra, e pôs-se a escuta daquela voz, como se viesse de
longe, de bem longe, e só mui de leve lhe ferisse as ouças.
Não se repetindo o chamado, voltou à primeira posição
e continuou a resmonear, abanar a cabeça coberta de uma carapinha grisalha
da cor de lã churra do carneiro.

Entretanto Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede, junto
ao fogão, para esvaziar ali o resto do saco. No velho alguidar esborcinado,
deitou a farinha de milho; e sobre a tábua algum feijão e torresmos
de carne de porco, embrulhados em folhas de couves.

Recostando-se então à aba da prateleira, a menina com os olhos
fitos na preta começou em um tom brando e suavíssimo a repetir
este acalanto:

Cala a boca, anda, nhazinha,
Ai-huê, lê-lê!
Senão olha, canhambola,
Ai-huê, lê-lê!
Vem cá mesmo, Pai Zumbi,
Toma, papanha Bebê!

À proporção que a menina cantava, à preta desrugava-se
o rosto contraído por um espasmo, que lhe deixara impressa no semblante
alguma profunda angústia. Uma vaga expressão de sorriso chegou
a iluminar aquela fisionomia bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baços
e quase extintos desferiram um lampejo, e vagando um instante pelo aposento,
se fixaram enfim no vulto de Berta.

– Bebê!… regougaram os grossos beiços da negra com uma voz
que não parecia humana, embora repassada de extrema doçura.

Depois arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas palavras
truncava por forma que somente se percebia delas a sonância confusa
e estranha. Dir-se-ia que ela cantava em algum dialeto africano, tão
bárbara era a pronúncia com que se exprimia.

Entretanto fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por tê-la
ouvido repetir muitas vezes. Imagine-se que esforço de paciência
e atenção não fora necessário à menina
para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados, as palavras da
cantiga, que ela dantes nunca ouvira.

Mas a pobre louca era uma das misérias sobre que se derramava como
bálsamo a alma de Berta. Desde criança se habituara a passar
aí algumas horas, de quando em vez; tornando-se moça vinha regularmente
duas vezes por semana visitar a sua protegida e trazer-lhe o sustento.

Esperou Berta com a maior paciência que Zana acabasse de cantar; e
então mostrando-lhe as provisões conseguiu que ela comesse alguns
bocados dados por sua mão. Para que a doida abrisse a boca, porém,
era necessário que a menina estivesse a repetir de momento a momento
duas palavras que pronunciadas por sua voz carinhosa produziam sobre esse
espírito enfermo um efeito mágico.

– Zana, bebê!…

XVIII

A VISÃO

Sentara-se Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea
que partira do galho seco de um marmeleiro, traçava letras no chão
do quintal.

Eram iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou na memória;
e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta com as recordações
de sua modesta existência, à qual estavam entrelaçadas.

De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que já
completamente alheia e despercebida de sua presença, continuava a menear
a cabeça com a mesma incompreensível surdina; ou arrancava da
taipa um torrão de barro, que mastigava com avidez.

Nessas ocasiões fitava Berta os olhos em uma réstia de sol,
que, penetrando pela fresta praticada no alto da parede exterior, cortava
obliquamente o aposento com uma faixa de luz. O raio esbatido na taipa do
fundo se inclinava gradualmente com a elevação do sol no horizonte,
e descia vertical sobre o canto onde se acocorava habitualmente a louca.

A folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de homem ou
animal a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas e ameaçava
afogá-las sob a basta ramada.

Olhava a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando na balsa
fronteira lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrás do tapigo,
e cujo ofego sussurrava entre as folhas.

Ligeira escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia no aposento
próximo, outrora dispensa, espreitou o circuito. Mas um incidente a
distraiu desse propósito, chamando sua atenção para o
interior.

A réstia de sol, descendo, batera na cabeça de Zana, que se
ergueu esfregando os olhos, e aproximou-se do fogão. Agachada em frente
ao bueiro, começou a soprar, como se houvesse ali nas grelhas algum
brasido coberto pelo borralho; entretanto o tijolo gretado, que servia de
lareira, já não conservava nem restos de cinzas.

Depois de algum tempo empregado na quimérica operação
de acender um fogo ausente, a louca foi à prateleira buscar uns cacos
de telha, que se lhe afiguravam panelas ou frigideiras; e fez menção
de lavar o trem de cozinha, para preparar a comida.

Em meio dessa ocupação, de chofre voltou ela a cabeça,
aplicando o ouvido, à guisa de quem escuta um chamado, e para acudir
arrancou do peito um grito áspero e gutural:

– Inhá!…

Imediatamente deixou o fogão, depois de por os testos às panelas,
e dirigiu-se pelo corredor à sala da frente, donde passou à
alcova próxima. Não havia aí ninguém; as paredes
esboroavam-se; o teto de fasquias de taquara caía aos pedaços,
e as tábuas do soalho rangiam sobre os barrotes carcomidos.

Zana tinha parado junto à porta, em atitude de escutar outra pessoa,
que por ventura ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes, mas expressivos;
os esgares vivos e rápidos, que lhe cambiavam a móbil fisionomia,
indício eram das impressões encontradas que abalavam esse espírito
embotado.

Seguira Berta com ansiosa atenção os passos da louca, decorando
seus menores movimentos e observando-lhe amiúde a expressão
do rosto. Cosida a ela como a sombra ao corpo, roçando-a muitas vezes
a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto com o hálito, quando acaso se
inclinava para espiar-lhe o semblante, nem assim Zana dava fé de sua
presença.

Desde algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular mímica
da doida, e de princípio não viu nisso mais do que um efeito
natural da loucura. Mais tarde, porém, notando a insistência
com que a negra repetia os mesmos movimentos, e ordem em que eles se sucediam,
suspeitou a menina um mistério.

Não seria essa pantomima a representação muda de uma
cena que ali, naquela casa em ruínas, passara outrora, e abalara a
alma da negra a ponto de a subverter e alucinar?

Assim como dizem que a pupila conserva a imagem da última visão,
não sucederá o mesmo com o espírito, e não ficará
nele gravado, como em estereótipo, o quadro que iluminaram os últimos
clarões da razão extinta?

Foi este pensamento de Berta, que, atraída pelo encanto desse mistério,
empenhou-se em perscrutar esse ermo onde jazia no seio de uma casa e de uma
consciência, ambas em ruínas, o arcano impenetrável.

De tantas vezes que assistira àquele esboço rude e taciturno
de uma tragédia ignota, já conhecia Berta de todos os seus episódios
e incidentes, que mais tarde ela reproduzia de memória com o afã
de penetrar-lhes o sentido oculto.

Até o momento em que Zana entrava na alcova, era fácil de compreender
o fato que a reminiscência da doida retraçava tão ao vivo.

A preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo sol,
do costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoço, quando
ouviu chamarem-na do interior. Deixou a ocupação, e acudiu alguém,
que estava na alcova.

Aí ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa, e, achegando-se
à janela na ponta dos pés, enfiou os olhos na direção
que lhe fora indicada. Assim permaneceu algum tempo, até que recuou
espavorida, com a máscara do terror no semblante e os ossos dos joelhos
a estalarem, batendo um contra o outro.

O que vira ela?

Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação
desse terror, nem com o resto da história, que de mais se complicava.

No meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braços
crispados, parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se
quisesse esconder ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um ímpeto
de horror que a levava até um cubículo da cozinha, onde fazia
sua dormida.

Dir-se-ia que deitava o fardo no chão e corria ao fogão para
tirar dali alguma coisa, que depois de moída espalhava nas palmas das
mãos para ir esfregar o objeto escondido no cubículo.

Saía então ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os
modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião que,
balançando o corpo, com os braços arredondados ao peito, ela
entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira decifrar.

De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema
volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo em suas
reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia
com a expressão do idiotismo.

Nesse estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa, até
que parava automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoço
para dentro. Devia de ser de ser horrível o espetáculo que ali
surgira a seus olhos, porque depois de tantos anos, a só imagem a fulminava.

Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha
estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao chão, como
uma pedra.

XIX

O DESCONHECIDO

Tal era o esboço grosseiro do misterioso drama, que ali se representara
e do qual Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.

Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança a tinham
arredado da casa em ruínas, já inspirando-lhe um terror supersticioso
da louca, já recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.

Também quando a menina queria saber a história de Zana e a
razão por que a negra doida ali vivia abandonada numa casa em ruínas,
que devia ter pertencido a pessoa abastada, ninguém lhe respondia;
mas procuravam uma evasiva para não falar sobre tal assunto.

Tudo isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao contrário
desenvolvia nela uma dessas tentações de criança que
não conhecem obstáculos. A pouco e pouco, de susto em susto,
animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se das ruínas e observar
Zana em distância, até que afinal se convenceu que era uma criatura
inofensiva a mísera doida.

Já tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da
idade também ganhara mais largueza e desenvoltura da ação
para sair de casa e demorar-se fora sem inspirar cuidados.

Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam. Fora
a mãe de Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera e criara com
o maior desvelo. Na casa, porém, onde se achava emprestada e por comiseração,
era ela a verdadeira senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam
em adivinhar-lhe as vontades para satisfazê-las.

Sem dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho de suas
entranhas; mas não tinha para ele os extremos, as debilidades e carinhos,
que fazia por essa filha de criação, a enjeitadinha. De seu
lado, Miguel, embora se estremecesse pela mãe, decerto que pensava
mais em Berta, sua colaça.

Sentindo a sedução que exercia em torno de si, não abusava
todavia a menina, transformando-se em uma pequena tirania doméstica,
à imitação de certas crianças dengosas. A não
ser para conservar a liberdade, a que a habituara uma educação
campestre, no mais esquivava-se quanto podia ao império que lhe deferiam
os súditos de sua graça e gentileza.

Assim explica-se como podia Berta passar horas e horas nas ruínas,
observando Zana e esforçando por desvendar o mistério dessa
louca solitária, que ali vivia ao desamparo, completamente esquecida
e nutrindo-se de terra de raízes cruas, antes que a menina se incumbisse
da tarefa de prover a sua subsistência.

No dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua visão
diária.

Quando se aproximava pé ante pé da janela da alcova, em atitude
de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os de um homem. Era o Barroso
que assomara de dentro do mato, pouco antes, e dirigiu-se passo a passo para
as ruínas.

Estremeceu a doida, e tão violenta foi a propulsão, que a fez
saltar sobre si. Com os olhos esbugalhados, a boca escancarada e os beiços
arregaçados, ficou banza um instante; mas logo, espancada pelo terror,
precipitou-se para fora tão desastradamente que errou a porta e bateu
em cheio na taipa.

De novo arremeteu, e rechaçada pelo choque, andou aos embates contra
a parede, até que acertando com o vão da porta fugiu estremunhada
de pavor.

Advertida pelo primeiro sintoma de estupefação da louca, Berta
seguindo-lhe a direção do olhar, avistara também o Barroso,
que nesse momento parado em face da janela, a alguns passos apenas, a encarava
com uma expressão de profundo rancor.

Teve medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada a correr
só os campos vizinhos, onde freqüentemente encontrava caipiras
e toda a casta de gente malfazeja, de quem aliás nunca se receara.
Esse homem, porém, inspirava-lhe uma indefinível repugnância
e terror.

Esteve Barroso a considerá-la alguns instantes, com ar de quem se
resolve. Por fim, mascando um riso mau, que revia-lhe dos lábios, afastou-se
murmurando:

– Eu hei de saber! Ah! se fosse!…

Com a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de espírito
e volvia os olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando lhe feriram
o ouvido gritos esganidos e sufocados, que vinham do terreiro.

Precipitando-se da alcova, a preta viera até o terreiro da cozinha,
onde, faltando-lhe as forças, abateu-se como um fardo a que retiram
o apoio.

Imediatamente de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um gato do
mato uma estranha criatura cuja roupa de grosso brim escorria para a ilusão.
Acocorando-se em cima do corpo inerte da louca, apertava-lhe ao pescoço
as mãos crispadas, procurando esganá-la, enquanto com os pés
e os joelhos malhava-lhe o ventre.

Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à porta da
cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto ao terreiro,
seus lábios lançaram com um tom de severa exprobração
o nome do perverso, que espancava tão barbaramente uma criatura inofensiva.

– Brás!

Não se animou o rapaz a erguer a cabeça, tão acabrunhado
ficara, e tão corrido de sua barbaridade. Naquele instante não
havia forças para obrigá-lo a fitar o semblante de Berta, e
afrontar a cólera de seu olhar.

Agachado, como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele antes
que a menina chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e foi esconder-se
por detrás de um marachão da taipa, que esboroara da parede
do outão.

Cuidou Berta de levantar a cabeça da doida, na esperança de
reanimá-la, o que só conseguiu depois de muito tempo. Quando
a preta se pode erguer, ajudou-a ela a ganhar o cubículo, onde à
noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que trouxera a menina uma esteira,
sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma voltar logo mais com aguardente
e pano para deitar sobre a contusão que tinham deixado as mãos
de Brás.

Este continuava agachado por trás do medão de taipa; espiando
à sorrelfa os movimentos de Berta, quedava-se com a humildade do rafeiro
quando espera que a mão do senhor o fustigue pela falta cometida. Ao
rumor dos passos da menina, que vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais;
parecia concentrar-se todo para o transe difícil.

Trazia Berta no olhar uma profunda repulsão, e o lábio frisado
por um assomo de cólera. A perversidade do rapaz contra a mísera
doida a revoltara dolorosamente a ponto de esquecer que também esse
ato cruel era de um espírito enfermo, e quem sabe se mais digno de
lástima.

Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no castigo
que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios um sorriso de
desprezo e afastou-se rapidamente.

Esperava o rapaz uma severa repreensão. Este desprezo e repentino
abandono, o trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr após
a menina, e as pernas lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele soltara,
o viu Berta de joelhos, estorcendo as mãos súplices e esforçando
arrancar das fauces uma palavra que o sufocava.

– Não! disse a menina.

Esta palavra fulminou Brás, que estrebuchou no chão, estorcendo-se
em uma convulsão medonha, que dobrou-lhe o corpo hirto, como se fosse
uma verga de chumbo. Espumava-lhe a boca, e os dentes rangiam com horríveis
contrações, que deformavam-lhe o semblante.

Vencida pela compaixão dessa agonia, Berta correu a ele; e sentada
sobre a relva, o tomou ao colo para amimá-lo como o faria a uma criança,
acalentando-a com meiguices e carinhos.

XX

A POUSADA

Quem transitava pela estrada de Campinas via, meia légua antes de
Santa Bárbara, dois casebres unidos por uma espécie de rancho
ou telheiro.

Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém ambos de
grosseira fábrica, sem reboco nas paredes mal emboçadas, que
mostravam entre os torrões de barro as varas atadas com cipó
aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou qualquer espécie
de soalho, estava cheio de buracos e poças; de pintura não havia
traços, nem mesmo de uma simples caiação.

Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie
de taberna, a julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento a meio,
e por duas ou três ordens de prateleiras, onde se viam alguns rolos
de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha de milho, e uma dúzia
de garrafas arrumadas em fila.

Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo
que, em sendo preciso, servia de pousada.

Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se
uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco estreito.
Em cada canto havia uma cama, cuja barra era feita de tiras de couro cru entretecidas
a modo de esteira.

Era já sol fora.

Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto da habitação.
Ao menos quem passava na estrada, acertando de enfiar os olhos pela porta,
não via no meio da silenciosa imobilidade do interior outro sinal de
vida a não ser o vôo das moscas pousando sobre o balcão
para sugarem o mel de umas farpas de rapadura, que ali tinham deixado os viajantes
da véspera.

Não era, porém, tão absoluta como parecia, nela a solidão.

Na venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão
e de bruços neste, cochilava um sujeito com a cabeça posta sobre
os dois braços cruzados em cima da tábua. Quando algum tropel
soava na estrada, levantava ele a meio a testa, e enfrestava pela aberta que
havia entre a parede e o bojo da quartola uma vista encadeada pela claridade.
Passado que fosse o viajante, voltava à contínua modorra.

Ainda moço e robusto, derramava-se não obstante no físico
desse homem certo ar de indolência, que nesse momento mais se carregava
com a sonolenta expressão do rosto seco, pálido, baço,
e levemente sombreado por alguns raros fios de barba. O cunho especial dessas
feições, e particularmente o viés dos olhos com os cantos
alçados para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano
com a casta boêmia.

Do lado oposto da habitação, em um compartimento, que tinha
jeito de varanda, cozinha e pátio de criação, tudo ao
mesmo tempo, fervia a panela posta em uma trempe de pedra no meio do chão.
O fogo, apenas alimentado por gravetos, mal cozia o feijão e couves,
destinados ao sustento daquele dia.

Fronteira à janela, sentada ao chão, com os joelhos levantados
e os braços caídos sobre eles, estava uma rapariga de seus vinte
e cinco anos, que parecia muito e muito ocupada em observar a fervura da panela;
pois não tirava dela os olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam,
espalhados pelo chão, ou dentro de uma gamela, vários pratos
brancos de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.

Diferentes vezes já, a rapariga lançara um olhar de enfado
para a louça ainda suja do serviço da véspera, e alongava
depois a vista pela porta afora até lá embaixo no brejal, onde
passava o rego da água, e media a distância a percorrer. Abria
então a boca em um interminável bocejo, espreguiçava
o lombo estirando os braços; e, quando parecia levantar-se para cuidar
na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no chão, murmurando:

Tem tempo!

Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça
para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna habitual,
um gesto de aborrimento e agastadura, produzido pela vista do viajante que
se aproximava.

Era este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe que se curvava
ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda, ou talvez pelo hábito
de cavalgar derreado à banda, como usam os caipiras. Sua fisionomia
grosseira nada tinha de notável, a não ser a malha que lhe marchetava
de nódoas brancas a tez acobreada, bem como as costas das mãos.

Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça de brim
de listra. O chapéu era novo e de meio castor; as botas de couro de
veado com chilenas de prata. Trazia no arção da sela uma espingarda
de dois canos, e na cinta uma garrucha.

Parando a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o cabo de rebenque
na porta, gritando:

– Oh! de casa!… Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?… Querem ver
que o diabo do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?… Foi
volta de samba esta noite, e samba grosso que deu de si até a madrugada.
Não tem dúvida! Oh! lá de dentro! basta de dormir! Já
deve estar bem cozida a camueca!

Desenganado de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal o sujeito
da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se em um ruidoso
bocejo, estirou a cabeça por fora do bojo da quartola.

– Quem é?… Ah! nhô Gonçalo!

– Ora, bem aparecido!… Parece que por cá anoiteceu de madrugada!…

– Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora. Tenho cismado
que seja dureza. Levo só a dormir!…

No rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão
aborrida que provocara a presença do Gonçalo. Ao contrário,
com o riso postiço e a oficiosidade própria dos estalajadeiros,
que sabem seu ofício, se erguera para falar ao freguês; e, apenas
o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu serviço.

Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceção à habitual
indiferença com que de ordinário via chegarem à sua casa,
e nela posarem, viajantes de posição muito superior à
do Gonçalo. Haveria por ventura a respeito deste alguma razão
particular.

– Bebe-se café por aqui, ou não se usa?

– Sempre há de se arranjar!

– Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho. Aqui onde
vê este degas, já desanquei uma capangada! Quiseram se meter
de gorra!…

– Nhanica!… bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!

Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou da trempe
a panela de feijão para deitar o boião d’água;
e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera, que servia
para dois dias, correu a buscar água para lavar a louça.

Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava com
o Chico sobre o que vinha a pelo:

– E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.

– Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não dão
cabo dele, que não tarda muito!…

– Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com um alvoroto
de prazer, que mal disfarçou.

– É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.

– Ora, isso há muito tempo!

– Mas um dia chega a caipora.

– Como? Se ninguém sabe onde ele vive?…

– Lá isso é verdade! ninguém!

– Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!

De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse para
fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento, debruçado
sobre o tampo do balcão, onde fincava os cotovelos, parecia inteiramente
absorvido em examinar as ferraduras da mula.

– Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando para
o casco do animal.

– É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da mula. Pincha-me
cá o martelo.

Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda pela rampa
de uma colina, apareceu uma troça de caipiras. Vinham a pé,
com as espingardas ao ombro; e diante deles trotavam a cruzar o caminho e
farejar as moitas, dois cães de caça.

XXI

O BACORINHO

No inverno costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores
que demandam o sertão para a montearia das antas e veados que ainda
abundam nos campos de Araraquara e Botucatu.

Parecia uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras que parou
fronteiro à venda, e para lá encaminhou-se depois de combinarem
entre si os companheiros.

Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência,
adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente a testada
da casa.

– Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!

– Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem mexer-se
do balcão onde continuava debruçado.

Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram por si
tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se estiravam nas camas,
e outros já sentados no banco junto à mesa esperavam o almoço
com uma fome de caçador.

– Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar a barriga
do espinhaço! exclamou um dos companheiros.

– E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar o
peito! acudiu outro.

– Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.

Dirigindo-se ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras
e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre
arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho.

– Pode nos das café? perguntou ao Chico.

– Há de se poder! tornou o vendeiro.

Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois de terem
molhado a garganta com um copázio de boa cachaça de Piracicaba,
a fim de escorregar-lhes bem o bocado, e não os engasgar.

Na extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café, observando
os caçadores com a curiosidade natural à vida monótona
do interior, mas também com um recacho de arrogante fatuidade. Sem
dúvida tinha-se ele por um grande personagem, incógnito àqueles
pobres diabos.

– Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.

Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca cheia não
estavam dispostos à palestra. Apenas o Filipe correspondeu com um meneio
de cabeça.

Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.

– É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.

– Nada, obrigado.

– Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?

– De Campinas!

– E anda caçando? Por estas bandas há muito veado e paca: mas
como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo uma praga!

– Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça!
atalhou um dos caipiras a rir.

– Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.

– E é suçuarana!

– Qual! Tigre verdadeiro!

Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do companheiro.
Não compreendendo a pilhéria, o Gonçalo estava a olhá-los
meio desconfiado e com um riso insosso.

– O patrício não lobriga?

– Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana
é o sobrenome cá do degas; por causa de ser malhado como a bicha.
Não vê?…

E mostrou as manchas da cara.

– Sem falar da munheca!… Talvez o amigo não acredite; mas onde a
vê, já pegou queda de braço com uma; e mais era um bichão
da altura daquela porta, sem exageração! Agora quanto às
risadas dos patrícios, a falar verdade não avento!

– Já vê que é caça gorda.

– É cá uma história!

– Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?

– Conheço bem!

– Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar. Parece que
a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos dar notícia?

– Mas então os camaradas andam-lhe na pista?

Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as palanganas
que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal da entrada, com a
perna trançada e a mão no quadril.

– Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?… Um fazendeiro,
que o tal Bugre arrumou com duas facadas, há de andar por uns dois
meses?

– Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.

– O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre com
uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.

– É um temível!

– Marcado como ele só!

– Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por causa dessa
morte que os camaradas vêm prendê-lo?

– O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.

– Não digo que não!

– Se quer entrar na festa?

Relanceando um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado à
ombreira da porta, respondeu o Gonçalo com frouxidão:

– Nada; tenho obra mais fina.

– Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?

-Pois que dúvida!

– Será mesmo o durão que dizem?

– É conforme. Eu cá não conto com ele.

– Hum!…

– O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?

– Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde anda
o cujo. Oh! psiu!…

– Nhô Pinta… Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá
querendo engolir as primeiras palavras escapadas.

– Não sabe que rumo levou o Jão?

– Tanto como mecê.

– Ora, ande lá.

– Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não conta
onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.

– Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça.
Cem bicos!

Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote miúdo,
mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa até a pousada,
onde conversava a capangada. Aí começou a fossar nas pernas
do Chico Tinguá, que, arrancando-se à balorda posição,
desfechou no importuno animal um pontapé.

– Arre, patife.

Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra vez pela
venda e foi sair no quintal, onde pôs-se a grunhir com o focinho ao
vento e os olhos na porta da cozinha.

– Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana mesmo no
Bugre? observou o Gonçalo que não tirava os olhos do Chico.

Pudera não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!

– Xô!… Eh! Baia!… xô!… Diabo de mula canhambola!

Partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu com
braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que sua imaginação
figurava estar furando a cerca do pasto, ao lado direito da casa. Entretanto
o inocente animal assim caluniado pelo dono restolhava pacatamente a grama
tosada, em companhia de uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao
do outro.

Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro, e quebrando
o canto desapareceu.

O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se pronto
da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o campo oculto pela
quina da parede.

O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe as pegadas,
o Chico Tinguá estugava o passo.

Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:

O patrício faz favor?

XXII

O TRATO

O tal Gonçalo era um valentão; e tinha-se na conta do mais
façanhudo espoleta de toda aquela redondeza.

Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas de arromba
que blasonava o pábulo, nem tomava ao sério as roncas e bravatas
com que andava sempre a azoinar aos mais.

Para dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo tempo
disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo sagazmente
o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava à barba
dos outros, mostrando as pampas da cara.

Mas à exceção dele, ou de algum súcio que lhe
filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido senão pela
alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o distinguir de outro Gonçalo
carafuz, também morador no lugar.

Não aturava, porém, o valentão esse desaforo; e disparatava
com quem o tratasse pela alcunha. Para não se meter em rixas, evitava
a gente de o chamar daquele modo na presença, ainda que muitas vezes
pelo costume lá escapava a palavra; mas o Gonçalo fingia não
ouvir. Também, segundo contavam, já por vezes lhe tinham chimpado
com o Pinta de propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.

Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão Fera,
de quem invejava não só a força e valentia, como o apelido,
que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava aquele nome, e até
as mortes de que acusavam o outro, eram para ele façanhas de estrondo.

Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando ouvia mencionar
o Bugre como o maior criminoso de toda a província de São Paulo.
Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente; e andava pelas vendas e
ranchos com a canseira de provar que ele, Gonçalo Suçuarana,
merecia cem vezes mais a forca do que Jão; pois as perversidades cometidas
por este eram travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.

O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei o substituíra.
Deixava bem descansado de seu o Gonçalo Pinta, que assim podia a salvo
gabar-se de ser um fama sem segundo na arte de matar gente.

Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão que o nome
deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda aquela redondeza,
e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do serviço, que lhe prestara
o Bugre, havia anos, livrando-o de um recruta que o levava preso.

Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se
atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe
o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do
Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido.

Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o
Filipe para dizer-lhe em particular:

– O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele.

– Mas decerto, homem!

– E não sabe onde ele se encafua?

– Que esperança! Pois ainda estava aqui?

– E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?

– Abra o preço, amigo.

– Duzentos bicos?

– Topado.

– Mas há de ser com um ajuste…

– Diga lá.

– Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não
serve.

– É assim mesmo.

– Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem.
Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por
aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um
rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio
aqui outro negocinho.

Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde
havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que
ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente
distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto
decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com
a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema.

Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica,
mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido na
ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros.

Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope.
Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho,
veio parar à porta da venda.

– Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava
no terreiro.

– Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de grelar!
tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.

– Pois bom proveito lhe faça a roça!

Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:

– Quedê este homem?

– Ele não está, nhor, não!

– Onde foi?

– Na vila, nhor, sim.

– Quando volta?

– Volta logo.

– O diabo o leve e mais quem o ature.

Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá
que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele;
mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.

– Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.

– É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre.

– O patrão também tem negócio com esse danado? disse
Gonçalo.

– Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata;
e já a coisa me cheira a caçoada.

– Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver!

– Então não é o que dizem?

– Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso
é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com
este braço. Não é debalde que me chamam de suçuarana!

– Com tanto que me avie o diabo depressa.

– Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta.
Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não
está feito, que eu já ando com a obra em meio.

– Pois vamos acabar com isto de uma vez.

Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção
que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça.

Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia
por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos,
se alongaram pelo caminho além.

– Eh! Branco mesmo!… resmungou uma voz trôpega.

XXIII

NHÁ TUDINHA

Era pela volta das oito horas.

Nhá Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro,
na labutação do costume. Não por necessidade, que só
por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira desde que amanhecia
até o escurecer.

Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia
estar um momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma
coisa; e para que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já
estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo.

Nunca sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam
de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar
portas, acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso
consistia o seu maior prazer nesse mundo.

Quem a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado
de seu ar lépido e agudo; pois decerto não se podia esperar
semelhante volubilidade naquele corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas
e socadas.

Achava-se então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São
João estava à porta; e ela, que tinha, e com muita razão,
o seu garbo de doceira afamada, por costume antigo se pusera na obrigação
de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mãos, no que estava
o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava necessariamente
pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel.

Por isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar
e o forno.

Sentada na varanda sobre uma esteira e rodeada de todos os petrechos, estava
mui atarefada e, anaçar ovos e amassar fubá mimoso para fazer
as broas saborosas e os bolos de milho que ninguém preparava como ela.

Ajudava-a neste mister a Fausta, preta de meia-idade. Eram, essa escrava
e a casinha, os restos da abastança de que outrora gozara em vida de
seu finado marido, Eugênio de Figueiredo, companheiro e amigo de Luís
Galvão. Más colheitas e juros enormes, tinham consumido os modestos
haveres.

Quando estava nhá Tudinha mais embebida em fazer um passarinho de
biscoito, de repente lho arrebataram sutilmente da mão, e uma voz brejeira
que arremedava tanto quanto podia abocanhar de um cãozinho, gritou:

Nhau!…

Voltou-se a rechonchuda mulherzinha debulhando-se em uma risada gostosa,
porque adivinhava o autor da travessura, que não era outra senão
a ardilosa da Berta, em quem ela achava uma graça imensa, Não
fazia a menina um trejeito, nem dizia uma facécia, que a viúva
não se desfizesse em gargalhadas. Era a efusão de sua ternura
pela pequena. O coração de nhá Tudinha só tinha
para exprimir o amor dois vocábulos, o riso, ou então o choro
nos dias de tristeza e luto.

– Ai, menina!… Quiá!… quiá!… quiá!… Já
se viu, que ladroninha?

– Uh! pumbu!… dizia entretanto a Berta, beijando o biquinho da rola de
biscoito; e acrescentou voltando-se para a viúva. Quer ver como voa?

Começou então a traquinas a fazer voar o biscoito, no meio
das cachinadas de nhá Tudinha, que de tanto se estorcer, afinal arrebentou
o cós da saia.

Cansada Berta, ou antes aborrecida daquele brinco infantil, e curado o frouxo
riso da viúva, levantou-se esta para o almoço, que já
estava posto à mesa, e frio de esperar.

– Que mãezinha má! tornou Berta com faceirice. Fez tantos biscoitos
e não me guardou um só!

– Pois então! Não me deixaram sozinha? Cuidei que não
voltavam mais hoje. E o almoço esfriando!

– Bem bom! Não queima a gente!

– E o outro?… perguntou a rir a viúva. Por onde anda?

– Quem sabe se perdeu-se?… Coitadinho do Miguel!…

– Ai, que já não posso! Quiá, quiá, quiá!…
Mas você, aposto que foi ver a Zana!

– Que tem?

– Eu fico mesmo tão assustada quando Inhá vai para aquelas
bandas! Não é graça, não!

– Por que?… Tem medo que o tutu me pape? Ele que se meta em bulir comigo
e verá! Olhe, mãezinha, eu agarro-o pelas orelhas, assim; e
meto-lhe um cipozinho, zás, zás, zás, que ele vai por
aí gritando, ui, ui, ui!…

Nova gargalhada de nhá Tudinha, que já sentada no banco junto
à mesa foi obrigada a erguer-se para apertar as ilhargas temendo estalassem
com as embigadas que lhe fazia dar o frouxo riso.

A esse tempo chegara Berta à porta e chamou o Brás, que se
deixara ficar no meio do quintal, a alguns passos da casa, com os olhos fitos
no lugar onde sumira a menina a quem ele acompanhava.

Depois que Berta com seu desvelo e afago dissipou os violentos paroxismos
da convulsão em que se estorcia o rapaz, e foi-se a crise acalmando,
procurou ela adormecê-lo, cerrando-lhe docemente as pálpebras.

Da posição em que estava junto à tapera da Zana, descobria-se
uma volta da senda tortuosa que enredava-se pelas faldas ensombradas de um
serrote. Desde algum tempo seus olhos voltavam-se a espaços naquela
direção, e agora, amiúde, com certa impaciência.

Vendo o rapaz quase adormecido, repousou-lhe a cabeça em uma leiva
de grama, e adiantou-se pelo trilho além, parando às vezes,
para depois continuar.

Havia andado já grande extensão, quando reparou que fazia-se
tarde; e malograda sua esperança retrocedeu ao lugar onde tinha deixado
o Brás. Este porém já ali não estava; apenas se
afastara a menina, que ele abrira os olhos, e agachado, lhe seguira sorrateiramente
e de longe os passos.

Quando viu o rumo que ela tomava, um movimento de ira escapou ao monstrengo,
que atirou ao vento os murros das punhadas convulsas, arquejando de raiva.
Rastejou então como um réptil, por meio da relvagem, e sumiu-se
nas entranhas da terra.

Metera-se ele em uma espécie de fojo que tinha recentemente praticado
em um barranco atufado de junças, e a cuja borda passava o trilho.
Aí cavava o chão, com as unhas aduncas, e como tomado de um
frenesi; até que percebeu, por uma repercussão da cova, o passo
de Berta que voltava.

Vendo-o com as mãos cheias de terra, e a roupa suja de arrastar-se
pelo chão, a menina o ralhou brandamente e conduziu-o à casa
onde acabava de chegar.

– Venha almoçar! disse Berta da porta.

– Não quero!

Esta resposta do menino, deu-a ele com sua fala particular, que era uma rouca
explosão da voz, despedida em ásperas e bruscas articulações,
como o rugido de um animal, ou a blateração de um surdo-mudo.

A quem não estivesse muito habituado com essa pronúncia desabrida
e selvagem, seria impossível discernir de pronto os vocábulos,
pela velocidade com que eram arremessadas as sílabas incisas e truncadas.

Aproximara-se nhá Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava,
e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância.
Mas um olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la
em agasalho.

– Ande, Brás! disse a viúva com afabilidade. Tome uma coisa
que lhe guardei.

Desta vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma
careta má a nhá Tudinha e voltou-lhe as costas.

– Brás!…

Nesse monossílabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa,
percebia-se uma vibração íntima que destoava no meio
daquela harmonia. Era como o brandimento da corda que estalava, ou como o
áspero triscar do diamante no vidro.

Voltou-se Brás e veio dócil e humilde, acompanhando a indicação
do gesto de Berta, colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as
mãos e cortar-lhe as unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. Aí
tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora
um tanto hirtos, que ia copiando da moça. Ninguém diria que
fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão metia o queixo na
xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de
sopa e manteiga.

Foi rápido o almoço.

Nhá Tudinha não tirava o sentido do forno onde assava um bolo
de mandioca puba; além de que de prova em prova já petiscara
seus biscoitos bons. Berta, essa comia como um passarinho, aos beliscos. Antes
de sair de casa pela alvorada, tomara café, e de caminho trincara as
roscas de goma que levava para Zana.

O Brás também não tinha fome. O constrangimento, em
que o punha a presença da menina e a sua fascinação,
deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que de ordinário
devorava quanto lhe deixassem.

XXIV

A LIÇÃO

Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o
oitão voltado ao poente.

Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís
já enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava.
Daí avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos,
o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina.

Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí
tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras
tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra roupa lavada,
que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuão.

Adiantando a sua tarefa diária, que pelo hábito já os
dedos ágeis faziam às cegas e com uma presteza admirável,
escutava com atenção ao Brás, ajoelhado ao outro lado
do balaio, na esteira de tábua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro
para a roupa já consertada, a fim de não misturar-se com a outra
da cesta.

Com as mãos postas, e um modo sério, repetia o rapaz de cor
a Salve-Rainha, sem titubear. Dir-se-ia que estava lendo no formoso semblante
de Berta por mágica influição aquelas palavras ignotas,
tal era a fixidez da pupila e a absorção de sua alma no hausto
desse olhar.

Era sem dúvida a primeira vez que o Brás dizia certa a oração,
pois no gesto da menina, onde vislumbrara uma vaga inquietação,
derramou-se grande contentamento pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que
encadeava aquele espírito bronco.

– Assim, Brás! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina,
em ledos sorrisos.

– Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz,
que desvanecia o tom brusco e explosivo.

– Muito!…

E a menina cingiu com o braço esquerdo a cabeça do rapaz e
a estreitou ao seio com efusão. O sentimento de bem- aventurança
que difundiu-se pela fisionomia do idiota; o êxtase de felicidade, no
qual se embeberam suas feições, sempre transtornadas pela imbecilidade,
e agora consertadas por um plácido sopitamento; essa elação
ao toque da meiga carícia, não há traços para
esboçar.

A transição súbita de um informe toro em estátua
acabada, somente pode dar uma idéia da transfiguração,
que um supremo gozo havia operado nessa infeliz criatura, cujo vulto descomposto
e mal-amanhado negava muitas vezes a forma humana.

Esteve Berta a espiar-lhe por entre os revoltos cabelos essa expressão
inefável de rosto que ela conservava unido ao seio; e de seus olhos
um tanto amortecidos e brandos naquele instante, manava uma ternura santa
e imensa, na qual ressumbravam extremos da maternidade.

– Agora a Ave-Maria! disse Berta afastando a cabeça do rapaz, e tornando
à anterior posição.

Arrancando ao enlevo, como um galho decepado que rola ao chão, ou
como a lasca do penedo que se alteava no píncaro do alcantil e vai
sumir-se no abismo, sentiu o idiota romper-se-lhe o coração
e estalar com dores cruas e dilacerantes. Era a alma arremessada do céu
ao báratro.

Foi muda porém essa angústia, que afundou-se pelo íntimo,
nos recessos insondáveis dessa consciência vedada ao mundo; e
não reçumou um ai dos lábios nem lentejou uma lágrima
as pálpebras. Os bolhões, que por ventura levantou lá
nos mais escusos refolhos, como a rocha tombando nos pegos e tremedais, só
os denunciou a crispação pungente das feições.

Reparando naquele espasmo doloroso, quase arrependeu-se Berta de haver quebrado
ao pobre idiota o encanto em que o tinha. Mas o seu carinho, ameigado, não
embotava contudo as energias d’alma da mais fina têmpera, que
semelhante a lâmina de aço, dobrava-se com a flexibilidade de
uma fita de seda, mas também, quando brandida, cravaria o bronze, sendo
preciso, como o buído fio de um estilete adamascado.

Naquele instante ela era sobretudo mestra; ou mais que mestra, pois não
ensinava somente, senão que tirava do caos dessa animalidade confusa
e revolta o balbuciar de uma razão sopita. Era quase uma criação
a obra sublime, a que se dedicava, de plasmar do mostrengo um ser humano.

– Reze!… insistiu Berta com autoridade.

Engalfinhou o rapaz outra vez as mãos e começou a recitar com
a mesma concentração de espírito a Ave-Maria, passando
sucessivamente às orações do catecismo. Terminava a reza
uma tenção particular, como se usa em muitas casas, e na qual
se implora a proteção divina a favor das pessoas da família,
dos entes mais queridos.

Chegado a este ponto estacou Brás.

– Virgem Puríssima… proferiu a voz insinuante de Berta.

Vendo pintar-se no semblante do idiota as vacilações da memória
prestes a apagar-se, articulava a menina mudamente as palavras que se desenhavam
em seus lábios mimosas e fagueiras, donde o Brás as recebia
como imagens a se refletirem no espelho da alma.

– Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança nossa,
Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei…

Aqui fez o menino uma reticência, e fechando um instante os olhos para
não ver o rosto gentil da moça que servia de página àquela
súplica singela, terminou abrupto por um modo teimoso e rebelde:

– Intercedei por Til, só, só, só, só!… Til
muito feliz! Til muito bonita, muito tudo!…

Ressumbrou aos lábios de Berta um meigo sorriso, que ela escondeu
sob um gesto severo:

– Diga direito!

– Ele ruim… ela ruim!… Morde nele… nos outros… Bem eu?… tu só!

– Há de querer bem a todos, Brás, que eu mando!

A expressão de rancor, derramada na feição do rapaz,
sublevou-se em assomos de fúria selvagem. Parecia que desse bolônio
informe e labrusco surgira por estranha mutação uma vípera
terrível, que um instante subjugada pela fascinação,
silvava de raiva e assanhava-se contra o encanto que a entorpecera.

Erguera, porém, Berta a mão direita, e com o indicador fez
ao rebelde um gesto de ameaça, estendendo a unha rosada quase a cravá-la
no meio do sobrolho espesso do idiota.

– Diga, senão…

O confrangimento de uma vasca estampou-se na figura do infeliz; mas apesar,
os dentes rangiam-lhe de cólera.

– Não sou mais Til! disse a menina lentamente.

Caiu-lhe então aos pés, outra vez humilde e cativo, rojando
como um verme, o mísero idiota, de cujo corpo rompia em arquejos e
contorções o pranto, que não sabia exprimir como os homens
em lágrimas e lamentos.

Acalentou-o Berta, amimando-lhe as faces, e depois que o viu calmo, trouxe-o
de novo à reza e o fez recitar a prece interrompida.

“- Virgem Puríssima, Rainha do Céu, Bem-aventurança
nossa, Mãe de Jesus e dos aflitos, intercedei por meu tio, minha tia
e meus primos; por mim, por Berta e aqueles a quem ela quer bem, e fazei-nos
a todos felizes.”

– Vamos à lição! Disse Berta.

Repetiu então o Brás de cor o abecedário e uma parte
da carta de sílabas e nomes.

XXV

O IDIOTA

Tirando do balaio uma varinha de peroba em forma de flecha, que lhe servia
para esticar o pano, quando tomava o ponto às meias ou cerzia a mais
roupa, Berta começou a traçar no chão as letras do alfabeto.

À proporção que Brás acertava com o nome de cada
letra, a ia apagando a mestra gentil com a ponta do pé buliçoso
e faceiro, para escrever outra e outra até o fim do abecedário,
como se costuma nas escolas sobre a ardósia.

O grande esforço, que faz o idiota para decifrar as letras e sílabas,
ressalta-lhe do rosto contraído. As feições de ordinário
balordas e flácidas, como abandonadas à sua materialidade pela
ausência do espírito, as confrange neste momento a tensão
violenta do bestunto porfiando romper a rija crosta que o empederniu.

Assim pasmam-se, em uma fixidez espantosa, as pupilas vagas e amortecidas;
a belfa caída sempre como a mandíbula de um animal, a arreganhar
a boca, dava-lhe uma expressão lorpa; mas agora comprime fortemente
o lábio superior, e a ponto que rangem-lhe os dentes e nas ventas sibila
o sopro da respiração ofegante.

Às vezes parecia que, extenuado por esse afã, o bronco entendimento
do rapaz ia desfalecer e sucumbir; pois perpassava-lhe no semblante uma ânsia
repentina e seus olhos apagavam-se, como se a enorme cabeça vacilasse.

Nesses momentos de obliteração, porém, o doce olhar
de Berta sustinha aquele espírito titubeante prestes a submergir-se
nas trevas. Entrelaçando o rude labor da lição com sorrisos
e meiguices, que orvalhavam a alma enferma do mísero idiota, a carinhosa
mestra não só incutia-lhe o ânimo de perseverar no insano
esforço, como iluminava com um vislumbre de sua alma a densa caligem
daquele cérebro granítico.

– Esta letra, Brás!… Não se lembra?… Olhe para mim, olhe
bem! O que estou fazendo?…

– Rindo!

– Então que letra é?

– Erre?… dizia o rapaz depois de lenta cogitação.

– Isso mesmo.

Outras vezes, para dirigir o entendimento de Brás e despertar-lhe
a embotada reminiscência, contava Berta uma história, imitava
o canto de um pássaro, ou inventava um brinquedo que suscitasse a noção
esquecida.

Embora já tivesse Brás percorrido quase toda a carta de leitura,
de súbito, e não obstante esse adiantamento, faziam-se em seu
entendimento profundos eclipses. Dir-se-ia que apagava-se de todo o morno
lampejo da inteligência bruta, e que esse crânio vazado em molde
humano descia abaixo de uma caveira suína.

Por isso Berta o obrigava a repetir constantemente tudo quanto já
havia aprendido, no intuito de, à força de hábito, por
uma espécie de atrito contínuo, gravar-lhe profundamente no
boçal engenho os rudimentos que tinha ensinado com admirável
paciência. Só de tal sorte conseguira ela inserir nessa bruta
animalidade algumas idéias, que ali permaneciam como inscrições
lapidárias abertas em lousa.

Era Brás filho de uma irmã de Luís Galvão, a
qual falecera três anos antes, ralada pelos desgostos que lhe dera o
marido, e pelo suplício incessante de ver reduzido ao lastimoso estado
de um sandeu o único fruto de suas entranhas.

Quando morreu, já era de muito viúva a infeliz senhora; e,
pois, com a sua perda, ficou Brás sem outro arrimo, a não ser
por Luís Galvão, seu tio e mais próximo parente, que
o trouxe imediatamente para casa e desvelou-se como pode, pela sorte da mísera
criança.

Compreende-se quanto devia custar a D. Ermelinda, ciosa em extremo da morigeração
de seus filhos, o receber no íntimo seio da família um menino
até certo ponto estranho, e não só baldo de toda a educação,
como incapaz de recebê-la. Mas compenetrara-se a digna senhora que seu
marido, recolhendo o sobrinho órfão e servindo-lhe de pai, cumpria
um rigoroso dever; e tanto bastou para que não suscitasse a menor objeção.
Resignada ao mal inevitável, socalcou sua repugnância.

Somente exigiu de Luís Galvão, e isso o fez com autoridade
de mãe, que, recebido Brás e tratado como filho da casa, se
evitasse contudo seu íntimo contato com Afonso e Linda, conservando-os,
quanto possível, alheios à existência do primo, e impedindo
o menor trato e convivência com ele.

Consentia D. Ermelinda em ser-lhe mãe e cercá-lo de toda a
solicitude, apesar da natural repulsão que deviam causar à sua
índole tão delicada os modos brutais e parvos do idiota. Não
lhe sofria porém o coração que seus filhos vissem nesse
menino mal-amanhado e grosseiro um camarada e um parente, quanto mais um irmão.

Apesar de convencido da inutilidade de seus esforços, não os
poupava Luís Galvão para reparar a desgraça do sobrinho
ou pelo menos atenuá-la. Havia em Santa Bárbara uma aula pública
de primeiras letras, a qual ainda o vulgo pelo costume antigo tratava de escola
régia. Servia de mestre um latagão de verbo alto e punho rijo,
que fora outrora ferrador e a quem chamavam de Domingão.

Fiel às tradições da antiga profissão, entendia
ele lá de si para si que um bom processo de ferrar bestas devia ser
por força excelente método de ensinar a leitura e a tabuada:
e fossem tirá-lo dessa idéia! Assim encaixava o abecê
na cachola do menino com a mesma limpeza e prontidão com que metia
um cravo na ferradura. Era negócio de dois gritos, um safanão
e três marteladas.

Tal era o professor, a quem foi incumbida a tarefa de ensinar a ler ao Brás.
Depois dos três primeiros dias de indulgência, pôs o ferrador
em prática o seu método repentino, que desta vez, com pasmo
seu, falhou completamente. “Nunca, em sua vida, dizia ele, tinha encontrado
um jumento de casco tão rijo”.

Debalde o Domingão brandiu a pesada palmatória de guarantã,
e ferrou uma chuva de formidáveis carolos na cabeça do Brás;
não conseguiu dele em um mês que repetisse o nome das três
primeiras letras. Quando lhe puseram nas mãos a carta pregada em uma
tábua, o menino percorreu todos aqueles hieróglifos com olhos
pasmos e botos, e só deu sinal de atenção, em descobrindo
o til.

Então expandiu-se-lhe o estúpido semblante com um riso alvar,
que estertorou na gorja, e, tomado por súbita alacridade, ele, de ordinário
soturno e pesado, começou a fazer trejeitos e gatimonhas ao pequeno
sinal ortográfico, procurando imitá-lo a uma com os dedos, com
a boca, e até com todo o corpo nos saltos extravagantes que dava pela
casa.

Toda a escola disparou a rir; e o mestre no primeiro momento não se
pode conter; mas logo refazendo a carranca magistral, pôs cobro ao escândalo.

Sem embargo, repetiu-se ele ao outro dia, e em todos que se lhe seguiram.
Em apresentando-se a carta ao marmanjo, era a mesma indiferença para
tudo, e a mesma festa grotesca ao til.

Com as mãos doídas das palmatoadas e a cabeça empolada
dos coques de régua, fugia o pobre do Brás para o mato, onde
ia descobri-lo o pajem, que diariamente o acompanhava pela manhã da
fazenda à escola e vinha buscá-lo por volta de uma hora da tarde.

XXVI

O ABECÊ

Em uma das escapulas que fez o Brás da escola, sucedeu encontrá-lo
Berta, acocorado, a soprar as palmas inchadas e rosnando contra o Domingão,
a quem ameaçava de longe com murros ao vento.

Consolou-o ela e o levou consigo até a casa para deitar-lhe panos
de aguardente nas mãos e distraí-lo da exasperação
em que o via.

De todas as pessoas que Brás encontrara nas Palmas, fora Berta a única
de quem não o afastara o seu natural bravio, nem a aversão instintiva
que lhe inspirava toda criatura humana com quem se achasse em contato. A gratidão,
que logo mostrara pelo modo compassivo e meigo da menina, redobrou com aquele
incidente.

Quis Berta, para livrar o pobre rapaz dos bolos e repelões do mestre,
ensinar-lhe todas as manhãs a lição; e nesse desígnio
preparou-lhe uma carta. Continuaram as cenas da escola; e repetiram-se as
visagens e gaifonas à vista do til; porém desta vez em maior
escala, pela liberdade em que estava o parvalhão do rapaz. No seu afã
de imitar o sinal, que tanto lhe dera no goto, virava cambalhotas e corcoveava
pela grama.

Trabalhava a enjeitadinha com toda a meiguice para aplicar às letras
o boto engenho daquele órfão, ainda mais que ela desamparado
da fortuna. Vão esforço, em que, não obstante, porfiava
com uma perseverança incrível naqueles tenros anos e em tão
humilde condição.

De seu lado também não descoroçoava o Domingão
de meter o abecê nos cascos do Brás, ainda que para isso fosse
necessário abri-los de meio a meio:

– Burro! gritava ele com uma voz de trompa, esgrimindo a férula. Ou
te racho o quengo com este bodoque, ou pões em achas o guarantã!…

Afinal teve Berta uma inspiração. Desenganada de obter que
o menino pronunciasse ao menos o a, deixou-o lançar-se aos costumados
esgares e gambitos. Observando então o pobre sandeu com um dó
profundo, pensava ela que Deus, em sua infinita misericórdia, concedia
a essa alma tão atribulada e sempre confrangida por terrível
angústia, um breve instante de alegria.

Nisso o Brás pulando como um boneco de engonço, passava a ponta
do dedo mui de leve pelas sobrancelhas negras de Berta, por seus lábios
finos, pela conchinha mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o
til na carta do abecê, repinicava as risadas e os corcovos.

Iluminou-se de súbito o coração de Berta. A impressão
estranhas que no idiota produzira aquele insignificante objeto, e cuja causa
escapava à sua compreensão, não era a trepidação
de um raio, tênue embora, de inteligência, que filtrava daquele
cérebro denso como o frouxo bruxuleio de uma estrela através
do nevoeiro?

A camada profunda que soterrava o espírito do Brás, tinha um
interstício por onde coava-se alguma chispa, que rareava as trevas
carregadas dessa noite sem manhã. E por singular coincidência
o primeiro balbucio da inteligência bôta se dirigia a ela, como
o primeiro vagido da criancinha no berço chama pela mãe.

Ninguém sabe o que passou então no íntimo de Berta,
que tinha suas venetas, e de quem se referiam casos que a gente velha do lugar,
e especialmente as pretas da fazenda, atribuíam a uma influência
misteriosa e sobrenatural.

Associando-se a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina,
ajudando a palavra com mímica expressiva e apontando para a carta.

– Eu sou til!

Esteve Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar
da ânsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando
a sua parva risada.

– Eh!… eh!… eh!… Berta, umh!… Berta, umh!…

Daí em diante aquele sinal, que para o idiota era símbolo de
graça, da gentileza e do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e não
se cansava Brás de o repetir, não por palavras, mas por acenos
com os meneios mais extravagantes.

Dias depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe:

– Não me chamo mais Berta; meu nome agora é Til.

– Hanh!… fez o idiota com essa interjeição ou bocejo, que
na sua bruta linguagem exprimia uma interrogação embasbacada.

– Til!… tornou Berta com a pronúncia clara e vibrante.

Forcejou o infeliz para articular o monossílabo; mas só a custo,
e ajudado por Berta, o conseguiu. Causou-lhe isso tão intenso prazer,
que a todo o instante proferia o nome, e amiudando-o trinava com ele, a modo
dos pássaros quando em seu crebro gorjeio repicam a mesma nota.

Assim identificava com a carta pela estranha afinidade que inventara a estultice
do menino, Berta recobrou a esperança que já a ia abandonando.

Um dia, Brás com violento esforço e após funda concentração,
arrancou dos beiços grossos e flácidos estas palavras truncadas:

– Brás… bem Til… muito… muito!…

Sorriu-se Berta, e agradeceu-lhe com um carinho.

– E Til?… interrogou o idiota com ar ansiado.

– Til quer bem…

Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a .

– A este!…

– Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou
na memória.

– Hanh?… tartamudeou ele ofegante.

– Afonso!

Arreganhou-se a estólida cara do idiota na terrível catadura
de um sabujo de furor. Arrebatando o abecedário da mão de Berta,
despedaçou-o para arrancar o a, que trincou nos dentes com sanha.

À princípio atemorizou-se a menina; mas logo, revoltando semelhante
fraqueza as energias de sua alma, tranqüilamente e com ar de indiferença
observou aquela cólera brutal, que atingiu a maior exasperação.

Como se esperasse justamente esse momento culminante do acesso, chamou Berta
o idiota para junto de si com um aceno; e bastou-lhe pousar a mãozinha
afilada sobre o ombro para aplacar-lhe a exacerbação.

– Til gosta deste!

Estas palavras, disse-as a menina mostrando com a unha rosada o b e repassando-as
de uma voz tão doce, que derramou na alma ulcerada do mísero
um ignoto consolo. Voltou ele para Berta os olhos baços, que iluminaram-se
com um reflexo vítreo.

Compreendeu Berta a muda interrogação, e a satisfez.

– É Brás!

– Til?… balbuciou a voz trôpega, enquanto o dedo convulso apontava
a letra.

– Sim! disse Berta.

Caiu Brás em um novo acesso, porém este de alegria, que chegava
ao delírio. Atirando-se ao chão, estrebuchou de prazer, soltando
gritos descompassados e risos sibilantes, que mais pareciam guinchos de um
animal bravio.

Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas
as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam.
Pondo em jogo as broncas paixões do idiota, e colhendo os rudes germes
de idéia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar
a carta do abecê em uma família, em um mundo, para a existência
enfezada dessa mísera criatura.

Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário. Que
inauditos esforços de paciência, que sublimes intuições
não foram necessárias para vencer esse impossível!

Só Berta o poderia conseguir. A fascinação que exercia
sobre o idiota era uma sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele
corpo, como se fosse o espírito que o animava. Brás sentia e
pensava unicamente pela alma dela, que lhe transmitia as impressões
no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso fagueiro.

Dir-se-ia que se tinha operado a misteriosa transfusão d’alma
do anjo na grosseira bestialidade do mostrengo. Quando nos acessos epilépticos,
estrebuchando o infeliz em medonhas contorções, não bastavam
as forças de três homens possantes para sopear os ímpetos
formidáveis, nem as mais enérgicas aplicações
para superar a crise violenta, o simples toque dos dedos de Berta ou sua fala
maviosa, subjugava aquele furor e aplacava logo a horrível convulsão.

XXVII

A COTIA

Percebendo que a fadiga abatia as forças de Brás, suspendeu
Berta a lição.

Descanse agora!

Ajoelhado como estava, deixou-se Brás cair sentado sobre os calcanhares;
de corpo bambo, os braços pendurados, e o queixo caído, quedou-se
o estafermo em pasmatório, com os olhos dormidos no gentil semblante
de Berta.

Ocupada com sua tarefa, já não lhe dava atenção
a menina, cujo pensamento andava agora enleado em outras cismas.

Nisso apareceu Miguel, que voltava afinal, e, procurando Inhá pela
casa, veio a sair na porta do oitão.

– Sempre chegou?… disse Berta a rir.

– Não faço falta, respondeu Miguel com um motejo tristonho.

– Mecê está hoje tão macambúzio, nhô Miguel!
replicou a menina galhofando com a intenção de desanuviar o
semblante do moço.

– Nem sempre faz bom tempo! Às vezes amanhece a gente com uma cara,
que mete medo aos outros, e os obriga a se esconderem! Não é
assim?

Com a alusão de Miguel atalhou-se Inhá, enrubescendo de leve,
pois logo acudiu-lhe a sua graciosa petulância:

– Ora que caçador!… exclamou a rir. Não deu com a pista!…

– Não quis, e para não agoniá-la.

– A mim?

– Cuida então que eu não percebi desde muito tempo? Quando
você vai ver a Zana, não gosta que ninguém a acompanhe!

– Ah! descobriu isso? Está muito adiantado! Berta com um modo agastado
e concentrando-se em sua tarefa.

– Zangou-se?

– Eu não ando espiando o que os outros fazem!

– Não faça caso do que eu disse, Inhá! Desculpe!…
tornou Miguel enleado e aflito.

Berta, de todo absorta no conserto da roupa, parecia ter esquecido a presença
do colaço, o qual a contemplava com um enlevo apaixonado, que rompia
dentre a expressão abatida de sua figura. Pesaroso por ter ofendido
a menina e acanhado com a presença dela, queria falar, e não
achava a palavra para desvanecer o enfado, que havia causado.

Brás, que desde a chegada de Miguel se agachara sobre as patas como
um cão de fila, rosnava surdamente, saltando com o olhar do semblante
de Berta ao vulto de Miguel, como se esperasse um gesto da senhora para filar
a presa e abocanhá-la.

Os agastamentos de Berta eram cóleras do colibri, que tão depressa
belisca e arrufa-se, como cintila aos raios do sol, feito um rubi celeste.

A cabeça inclinada sobre a costura ocultava-lhe o rosto que Miguel
supunha fechado ainda pela zanga, quando já dos cantinhos da boca lhe
estava borbulhando um sorriso zombeteiro que lhe salpicava as faces de petulante
malícia.

Relanceando uma olhadelha de soslaio, percebeu o pesar de Miguel e arrependeu-se
de se haver agastado com ele; mas conteve-se para fazer-lhe pirraça
e gozar por algum tempo ainda do enleio do moço.

Desde alguns instantes ouviam-se uns guinchozinhos, como de preá,
mas abafados; e apesar da curiosidade de saber donde partiam, a menina não
levantava a cabeça.

– Aqui está o que lhe trouxe, Inhá, animou-se a dizer Miguel
tristemente.

Metendo a mão por baixo do pala, tirou uma linda cotia, que tinha
as patas amarradas para não fugir.

Berta apenas erguera um canto da pálpebra; mas foi o bastante. De
relance pulou junto de Miguel, arrebatou-lhe a cotia, e conchegando-a ao seio,
começou a alisar-lhe a pelúcia dourada, animando-a com os dengosos
requebros e a garrulice carinhosa em que se expande a inexaurível sensibilidade
da mulher por tudo que é frágil, mimoso e delicado como ela.

Passado o primeiro afago, a travessa repartiu com Miguel as meiguices, não
só por gratidão do mimo que lhe dera, como para mostrar que
já mão conservava a menor queixa dele.

– Coitadinha! exclamou ao ver que o animal estava com as patas ligadas por
uma fita de crautá.

– Olhe que foge! disse Miguel impedindo a menina de desdar o laço.

– Então você há de fazer uma casinha para ela! Tão
bonitinha! Que pelo macio; parece um veludo. E os olhos? Tão lindos!
Eu conheço uns olhos ternos assim! Não se lembra?

– Se me lembro! atalhou Miguel com um tremor na voz. Pois não os estou
vendo?

Com sua volubilidade natural, já estava Berta longe da pergunta que
fizera, e, toda embebida de novo com a cotia, sentara-se para agasalhá-la
ao colo.

– Onde apanhou?

Teve Miguel de referir então a longa história de como fora
o animal apanhando, os incidentes que tinham acompanhado a caçada,
e muitas particularidades que Inhá desejava saber; se a linda cotia
ainda tinha mãe; se já era casada, e deixara no mato algum filhinho;
pois nesse caso queria soltá-la.

Tranqüilizou-a Miguel, asseverando que a cotia era solteirinha e vivia
só, por terem as raposas acabado toda a família, não
tardando que lhe fizessem o mesmo a ela, pelo que era até um benefício
retê-la cativa.

– Ai, coitadinha! exclamou Berta condoída, e conchegando outra vez
o animalzinho ao seio. Veja lá, Miguel, você há de fazer
a casinha para ela, com porta e janela, e também um coche com seu bebedouro.
E depressa que é para eu dar a Linda!…

Ao mesmo tempo voltava Miguel o rosto para esconder a expressão de
pesar que o tinha subitamente invadido, um grito de espanto partia dos lábios
de Berta.

Rápida como uma seta, a cotia fuzilou no ar e sumiu-se pelo mato.
O Brás de quem os dois se haviam esquecido, se aproximava rojando pelo
chão como um réptil, e sem que o percebessem, acocorado junto
à parede, gorgotava um riso sarcástico e manhoso.

Precipitou-se Miguel para castigar o idiota, que ele adivinhava ser o autor
da pirraça, mas Berta, que lhe viu o ímpeto, se interpôs
a tempo.

– Deixe, Miguel! exclamou ela; e voltando-se para o alarve, atirou-lhe apenas
esta palavra:

– Lesma!

Como um novilho ferido pelo aguilhão, o idiota arremeteu pelo campo
e desapareceu.

– Se você não fizesse tão pouco caso do que eu lhe dei,
aquele brutinho não se havia de atrever.

– Oh! Miguel, pois queria mais?

– Dando aos outros em vez de guardar para si?

– Mas era para Linda! atalhou Berta com ingenuidade. Ela havia de ficar tão
contente, sabendo que vinha de você!

Concentrou-se Miguel em um violento esforço, que lhe desmaiou o brilho
dos grandes olhos e a cor das faces.

É tempo de acabar com este gracejo, Inhá. Além de minha
mãe, eu lhe juro, que só a você quero bem; mas você
não se importa comigo; portanto já sei o que devo fazer. Não
hei de aborrecê-la mais.

XXVIII

A BOLSA

Naquela manhã Jão Fera saíra das brenhas, onde se acoitava,
à mesma hora em que Berta chegava à tapera para ver Zana.

Vinha o capanga sombrio e torvo mais que de ordinário, porém
sobretudo absorto em funda cogitação, e tão alheio de
si, que não se apercebia do lugar por onde passava, nem dos objetos
que o cercavam.

Devia ser poderosa a preocupação que assim o demovia da habitual
desconfiança, bem como das precauções, indispensáveis
na sua condição de foragido e reclamadas pela perseguição
de que era alvo.

Assim não ouviu ele um ruído subterrâneo que ressoou-lhe
embaixo dos pés; ou, se ouviu, não fez reparo, atribuindo a
algum animal, que estivesse a abrir a toca.

Era o Brás, o qual antes de aproximar-se da tapera, onde encontrara
Berta, ali andava cavando com a pá, achada no esqueleto de um burro,
a terra que tirava com as mãos e o chapéu.

Havia nesse lugar uma pequena estiva, feita sobre um socavão pelos
antigos moradores do sítio, para serventia da roça. Com a ruína
da casa, desapareceram as plantações, e do caminho só
restava aquele carreiro e o aterro que aí tinham posto.

Aproveitando-se da configuração do terreno, gizara Brás
com instinto perverso aluir as ribanceiras do grotão, para que faltando
apoio às extremidades da estiva, um dia abatesse ela com o peso de
Jão Fera, que rolaria pelo barranco abaixo.

Entretanto prosseguia lentamente Jão Fera seu caminho; senão
que ao passar perto da tapera, e como subitamente arrancado aos pensamentos
que o tomavam, manifestou seu gesto, à vista da casa em ruínas,
uma espécie de terror e espanto, que o fez acelerar o passo e afastar-se
quase em fuga.

Sabia o capanga que àquela hora costumava Berta aparecer na tapera
onde tantas vezes a tinha encontrado, e era dela que fugia, dela a quem não
se animara a rever desde a cena da azinhaga no dia da tocaia.

Quando três dias antes partira espavorido daquele sítio ao ver
o relicário de que Berta lhe oferecera o cordão de ouro, correra
por algum tempo sem inconsciência de si, mas acossado por uma lembrança
que o pungia, como o aguilhão da mutuca no lombo do tapir.

Recobrada a calma, achou-se à borda da estrada, que em sua carreira
por dentro do mato ele perlongara sem o sentir. Soava perto um tropel de animais,
e Luís Galvão apareceu na volta do caminho. Seguido pela batida
na orla da estrada, o animal ia passar rente com o capanga, oculto pela cepa
de uma gameleira.

Foi um momento de colisão para Jão Fera. Aí estava ao
alcance do braço, à sua mercê de um movimento seu o cumprimento
de sua palavra, que ele não podia doutro modo libertar. Mas o olhar
cintilante de Berta e o gesto de seu desprezo se debuxavam ainda ao pensamento
do facínora como um anátema.

Luís Galvão passou incólume; e Jão Fera encaminhou-se
à venda do Tinguá.

Esperava-o aí o Barroso, que mal avistou-o no terreiro do rancho,
logo saiu-lhe ao encontro, impaciente de receber a nova.

– Arrependi-me! disse-lhe o capanga secamente e com um olhar de chumbo.

– Hein!… exclamou o outro azoado com a palavra.

– Não se faz nada.

– Por que?

Podia o capanga arranjar uma desculpa; mas repugnava-lhe a mentira.

– Não quis! respondeu lacônico.

– Está galante a embroma! rascou o Barroso com rinchavelho de cólera.
E vem dizer-me isto com toda a frescura! Mas a culpa tenho eu em fiar-me num
tratante da sua laia.

A última palavra não a acabou de proferir, que dum revés
da mão o capanga o lançou chão, calcando-lhe a alpercata
ao peito. Viu ele descer ameaçadora a coronha do bacamarte e fechou
os olhos. O bugre ia esmigalhar-lhe a cabeça, como se faz com um réptil.

– O que te vale é estar eu em dívida contigo. Mas São
João não tarda; e até esse dia duma ou doutra forma hei
de desempenhar minha palavra. Então ajustaremos minha palavra. Então
ajustaremos esta conta.

Afastando de si o corpo do miserável com a ponta do pé, entrou
na venda para beber um martelinho de cachaça. Debalde o Chico Tinguá
quis tirar conversa; o taciturno capanga, na introversão d’alma,
nem se apercebia da presença do amigo.

Onde e como obter a soma necessária para resgatar sua palavra, ele
que só conhecia um meio de ganhar dinheiro, e nunca tivera outra profissão
a não ser a de matador?

Sem aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, senão dando
conta da tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e aversão de Berta,
que jamais lhe perdoaria?

Eis a ânsia em que se debatia a alma de Jão Fera.

Após longa obsessão, ergueu-se impelido por uma idéia,
que de repente acudira, e sem despedir-se partiu. Saído ao terreiro,
no lugar onde há pouco se encontrara com Barroso, seus olhos baixos
deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma bolsa de couro, e parecia
recheada de moedas.

– Oh! Chico!

Acudindo o vendeiro, Jão empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa:

– Guarda isto para entregar àquele safado!

Não tinha andado cem braças o capanga, quando ouviu os psius
do Tinguá a chamá-lo. Era o caso que sentindo o Barroso falta
da bolsa, voltara por ela, justamente quando o vendeiro entrava para guardá-la;
e, sabendo que a achara o capanga, deixou-lhe uma moeda de alvíssaras,
talvez com a esperança de aplacá-lo. Para entregar essa gorjeta
correra o Chico ao alcance de Jão.

– Toma para ti. Eu não aceito dinheiro de semelhante peste.

E sem mais foi-se.

Pouco além, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou
ao longe um vulto entre a folhagem.

Era um mascate, dos muitos que percorrem a pé os circuitos das cidades
do interior, onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais.

Descansavam, à sombra de uma árvore, da excursão que
já tinha feito naquela manhã, e da qual lhe surtira bom lucro,
pois estava ele entretido em contar os miúdos, que tirava da algibeira
da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os maços de dez,
aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim azul, aberta diante
dele sobre a grama e já bem fornida de notas.

Ao lado, estava a maleta de jóias e miudezas, que ele costumava trazer
às costas, presa por uma correia, e um grosso bordão ferrado,
que servia ao seu braço musculoso não só de arrimo à
fadiga, mas de arma formidável para a defesa.

Muito embebido estava o italiano em seus cálculos, pois não
percebera a aproximação de Jão Fera, que em pé
atrás do tronco, e a dois passos dele, o tinha em seu poder.

XXIX

DESENCARGO

Na posição em que se achava Jão Fera bastava-lhe carregar
a mão sobre a nuca do mascate para subjugá-lo, sem que este
pudesse fazer ou sequer tentar a mínima resistência.

Entretanto pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento
de ódios e vinganças alheias, nem de longe perpassou a idéia
de que tinha ali à mercê da vontade e ao alcance do braço,
uma quantia superior àquela de que necessitava para desempenhar sua
palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias de vida.

Bem diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro.

– Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo.

Já promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido
por um receio, que o estacou. Sua presença imprevista, naqueles ermos
e em semelhante ocasião, devia necessariamente sobressaltar o italiano,
que sem dúvida se julgaria ameaçado, e o tomaria, a ele Jão
Fera, por um ladrão de estrada.

Tanto bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as
precauções de modo a não pressenti-lo o mascate; e, chegado
que foi a alguma distância, afastou-se rapidamente daquele lugar.

Nos três dias que decorreram desde então, debalde engendrou
Jão Fera meios de obter a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanças,
uma após a outra.

Jogou e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam:
porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava
um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudança da política,
para com mais segurança aviarem esse negócio.

Um tigre que descera do sertão destruía o gado de uma fazenda
próxima, cujo dono prometera boa recompensa a quem o matasse. Botou-se
para lá o capanga; mas já a onça acossada por outros
caçadores se havia retirado.

Afora estes, não imaginava Jão Fera outros meios de ganhar
dinheiro sem humilhação. O trabalho, ele o tinha como vergonha,
pois o poria ao nível de escravo. Prejuízo este, que desde tempos
remotos dominava a caipiragem de São Paulo, e se apurava nesse homem,
cujo espírito de sobranceira independência havia robustecido
a luta que travara contra a sociedade.

Era a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia
que os pudesse empunhar a mão do homem livre; mas em seu próprio
serviço, para abater o esteio da choça ou abrir caminho através
da floresta.

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal
de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho e conversavam acerca
de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu
Jão Fera que destinavam eles uns cinqüenta mil réis, tudo
quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um
moquirão, com que pretendiam abrir uma boa roça.

– Mas chegará, homem? perguntou a velha.

– Há de se espichar bem, mulher!

Uma voz os interrompeu:

– Por este preço dou eu conta da roça!

– Ah! É nhô Jão!

Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de
fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram
mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.

Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre
os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã
de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se
deixando-os embasbacados.

Na manhã em que estamos, saíra o capanga de seu esconderijo
resolvido a lançar mão do meio que reservara para a última
extremidade. Afastando-se das ruínas para evitar um encontro com Berta,
chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouçava o bacorinho ruivo.

Enxotado por Jão, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora
estava de volta precedendo o trote miúdo o Chico Tinguá.

Pensou lá consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente
era avisar o capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando
o quanto ouvira pouco antes.

Riu-se o Bugre.

– Deixa-os!

– Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redargüiu
Chico; e não é de bom que o demônio me anda a cheirar
cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo quando vim, lá me ficou
espiando!

Jão Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso.

– Escuta, Chico, isto é negócio sério. Hás de
ir agora mesmo à fazenda do tal Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo
em estar oferecendo contos de réis a quem me agarrar. Se quiser, que
te entregue cinqüenta mil réis, e sou capaz de ir lá à
fazenda uma tarde que ele marcar depois de São João. Dou minha
palavra.

Olhou-o Chico espantado e quis objetar.

– Vai ou não? Atalhou Jão com o tom decisivo.

O vendeiro abaixou a cabeça e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se
o capanga para a casa de nhá Tudinha, e já a pedaço oculto
entre a ramada, estava de longe observando Berta, quando Miguel se retirou
despeitado, deixando só a colaça. Nessa ocasião animou-se
ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e adivinhando que lhe queria
falar, foi a seu encontro.

O olhar de Berta era uma interrogação instante e cheia de inquietação.
Não se encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da
Ave-Maria, sem fazer-lhe a promessa que ela exigia.

– Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais
com o Galvão; disse o capanga cabisbaixo e humilde.

Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra
o pai de Linda.

– Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera.

Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino,
que lhe cedia uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico.

– Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga.

– Muito, muito, Jão!

– Então… me deixe…

A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos
e lívidos.

– O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que
eu faça alguma coisa por você?

– Sim!

– Pois diga.

Com um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas:

– Beijar o bentinho.

Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário
pendente com a cruz do cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos
pés, o deu a beijar, preso como estava ao pescoço.

Jão Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem
força para erguer a cabeça bamba, com o corpo balordo e o passo
trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da menina, sem
ânimo de por os olhos no semblante dela.

– Está embriagado! pensou Berta com indignação que se
pintou em sua fisionomia.

Mas já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro
assomo de severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão
inexaurível.

– Coitado! murmurou.

A blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava
com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas,
os cabelos emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama.
Trouxera presa uma cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra.

Quando a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava
no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição,
apontando para o vulto de Jão Fera.

– Hanh! hanh!…

Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor,
e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo.

XXX

TRAMA

Era véspera de São João.

Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a
festa daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado
de coqueiros; e no centro erguia-se uma pilha de lenha para a fogueira fatídica.

Nhá Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão
de caçarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda
comadre repimpava-se no cepo do pilão, para distribuir suas ordens
pelas raparigas; mas não se podia ter que não saltasse logo
do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com uma azáfama
crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino:

– Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro.

D. Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha
e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepção dos
hóspedes que eram esperados à tarde.

Depois do almoço, Linda e Berta com os braços entrelaçados
pelas cinturas, desceram ao terreiro por uma das escadas laterais e depois
de percorrerem as ruas de coqueiros e o pavilhão de folhagem que tinham
arranjado ao redor da fogueira, foram abrigar-se do sol na horta à
sombra de uma latada, onde podiam conversar à vontade.

Linda parecia triste. A próxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava
o brando e mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as
pétalas da rosa, havia um segredo a suspirar nesses lábios mimosos.

– Esta noite as moças ficam sempre tão contentes! disse a menina
em tom suave de queixume.

– E você? tornou Berta com um sorriso.

– Eu não!

– Por que, Linda?

– Todas tem uma pessoa que pense nela.

– Então você não tem? perguntou Berta com um doce remoque.

Linda abanou a cabeça melancolicamente.

– E Miguel?

– Ele não gosta de mim! suspirou a menina com o lábio balbuciante
e uma lágrima a tremer na pálpebra.

Respondeu-lhe Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da
amiga, como os bagos nacarados e saborosos de uma romã.

– Olhem que sonsinha!…

– Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por
que recebera a amiga sua confidência.

– Pois, menina, você tem lembranças, que a gente não
pode mesmo deixar de rir-se. Então Miguel não gosta da senhora?
Era preciso que ele não tivesse olhos para ver essa carinha de feitiço.

– Há outra que ele acha mais bonita!

– Outra?… Qual?… perguntou Berta de todo confusa.

– Esta, que ele vê a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante
da amiga com um gesto de triste resignação.

De novo disparou Berta a rir com a lembrança da amiga.

– Ai, que ciumenta, Jesus!

Retiniu perto o grito áspero do curiau. No meio do silêncio
que reinava naquele sítio, como era natural, excitou esse brusco rumor
a atenção das duas amigas, e arrancou-as à anterior preocupação.
Berta sobressaltou-se com a lembrança de que ouvira o mesmo apito no
dia da tocaia.

Conteve-se receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera
o Bugre, estremecia com a idéia de que Luís Galvão devia
chegar de Campinas naquela manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria
fosse vítima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jão
Fera, a oculta vingança que ameaçava a existência do fazendeiro,
teria procurado outro instrumento.

– Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvão não pode tardar.

– Papai só chega ao meio dia; respondeu a moça erguendo-se
para acompanhar a amiga.

Na ocasião em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando
por detrás dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial.
Berta que o viu nessa ocasião, e apenas de relance, inquiriu de Linda
para certificar-se.

– Não é o Faustino aquele?

A filha do Galvão, distraída, de nada se apercebera.

Não se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que saíra
de casa sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com
o Barroso. Atravessando três ou quatro talões do canavial, foi
ele surdir justamente no lugar onde anteriormente, no dia da partida de Luís
Galvão, estava de espreita o Monjolo.

Era um sítio escuso e sáfaro; ficava embaixo de uma barranca,
escondido pelo maciço do canavial e pelo matagal embastido que já
invadira o valado.

Aí estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de
qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava
encostado à barranca; o negro estava acocorado como gambá, junto
a uma casa de cupim.

– Então o diabo chega, ou não chega? disse o Barroso ao Faustino,
mal lhe pôs os olhos.

Não tarda; antes do meio dia está aí, sim senhor, respondeu
o pajem.

– Eh! Eh!… fez o Monjolo.

– Vem mesmo?

– Se vem!…

– Pois então, esta noite é o batuque. Estão ouvindo?

– Monjolo já está sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo
jeito de saracotear.

– Tomara eu ver a dança! acudiu o pajem.

– Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão
está tudo perdido.

– Isto é com Monjolo!

– Monjolo arranja tudo, deixa estar.

– Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo
rebenta cá no canavial. O diabo corre para acudir; e aí você,
rapaz, tranca também a gente da casa, a mulher e os filhos, e espera,
que eu não tardo, para arranjar a história. Ouviram vem?…

– Não tem dúvida! disse o Faustino.

– Você que é mais ladino, explica bem àquele pai.

Riu-se o Monjolo, com uma expressão bestial que parecia confirmar
o dito.

– Mas… replicou o Faustino. Eu cá é com a condição
que o senhor sabe. Eu fôrro; a Rosa, para mim; e o mulato surrado como
canhambola.

– Pois está entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste.

Fuzilou uma chispa na rúbida pupila do africano.

– E tu, paizinho?

– Monjolo não quer nada, senão gimbo muito para comprar fumo
e cachaça.

– Fica descansado.

Separaram-se os cúmplices. O pajem voltou à casa, Monjolo à
roça, e Barroso foi juntar-se a pouca distância ao Gonçalo
Pinta, que o esperava com dois animais à destra.

Apenas se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um
canto da barranca se agitara, descobrindo a boca de um covão, talvez
de tatu canastra, de onde saiu de rojo meio corpo do Brás.

Daquele esconderijo, a que se acolhera para o não surpreenderem, ouvira
o idiota a maquinação do Barroso, e, fato incrível, a
compreendera, ou antes a sentira, porque não fora pela razão,
mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa percepção.

Adivinhara a intenção dos cúmplices, como o animal carniceiro
conhece o desígnio do caçador e o acompanha para aproveitar
dos despojos das vítimas.

Um riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaçou-lhe os beiços
estúpidos.

XXXI

PAI QUICÉ

Sentado o Brás num torrão de argila, que esbroara da barranca,
entregou-se a uma singela ocupação.

Tirou do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa porção
de gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto.
Espetando cada qual em um espinho de juçara, fincou-os no chão,
diante de si, até o número de seis.

Terminada esta operação, começou o sandeu a ranger os
dentes, espumando de raiva e ameaçando os insetos com os punhos crispados.
Enquanto se desarticulava nessa furiosa gesticulação, escapavam-lhe
dos lábios sons estranhos e guturais como o grunhido de um porco, ou
o ganir de um cão.

As pupilas vítreas esbugalhavam-se com as contorções
da fúria brutal que lhe contraía os músculos faciais.
Eram as fosforescências de um ódio violento, que iluminavam de
reflexos lívidos esse olhar, de ordinário morno e fusco.

Afinal tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com
ela esmagou freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. Não
contente com este suplícios, ainda por cima trincou nos dentes a cabeça
daqueles que tinham sido poupados por seu açodamento.

Ofegante, exausto pela violência das emoções, prostrou-se
por terra e aí ficou por algum tempo arquejando.

Era o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca
e estúpida, tinha contudo essa monstruosa organização
bem vivo e patente o instinto do mal. Parecia que o aleijão, privando-a
da alma racional, não reduzira só o homem à condição
de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.

Até conhecer Berta, o único vestígio humano que havia
nessa bestialidade, era o ódio. Aborrecia a toda criatura racional,
talvez por uma confusa percepção de sua deformidade e estupidez.

Depois que o desvelo da menina lhe inspirara a fúria amorosa, transformara-se
em profundo rancor a profunda repugnância que ele sentia por todos;
e tal fora o choque produzido por estas paixões, que acendeu uma centelha
nas trevas daquele espírito embrutecido.

Desde então houve nessa animalidade um impulso que não era
idiota; e foi o ódio. Estúpido em tudo, parvo até nos
ímpetos da cega dedicação que votava a Berta, mostrava
para o mal uma astúcia e perspicácia admirável. Incapaz
de conceber uma idéia, maquinava pacientemente uma vingança
terrível. À sutileza do réptil venenoso, reunia a sagacidade
do guará.

Os insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar,
espreitando a ocasião de levar a cabo a feroz maquinação.
Enquanto não chegava o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.

Surpreendido quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se,
ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princípio, porém
agora o contrariava pelo receio de perder a sua maldade.

Sacando do socavão um pedaço de arco de barril que afiara a
ponto de torna-lo um punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu
um instante ao lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco
da casa de cupim, debruçando-se em cima dela, à espreita.

Imediatamente ao grasnido do anfíbio, apareceu no buraco a enorme
cabeça de uma cascavel, que fitou no sapo a pupila cintilante.

Desde muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com
uma forquilha, da posição em que estava, facilmente conseguiu
prender a cabeça da vípera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe
a sanha com que ela silvava, estorcendo a cauda e açoitando-lhe o rosto,
deitou a correr por dentro do canavial.

Chegando que foi junto à casa, trepou a uma jabuticabeira para alcançar
o peitoril da janela, cuja vidraça estava erguida, mostrando entre
as cortinas de cassa uma linda cama de mogno coberta por colcha de damasco
azul, um toucador, guarda-vestidos e outros móveis da recâmara
de uma senhora.

Era a alcova de Linda. A mão perversa do idiota arremessou a cobra,
que foi cair justamente sobre a cama e depois de aplacada a fúria,
encolheu-se entre as rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote
armado.

Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio,
que ele ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer a
voz de Berta que se encaminhava para a alcova.

Luís Galvão havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido
do mirante a correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro.
Também acudiram para tomar a benção ao senhor os escravos
empregados no serviço doméstico, e alguns dos que não
trabalhavam na roça, mas andavam por perto nas tulhas e fábricas.

Entre estes distinguia-se um inválido curvado como um arco de pipa,
com a cabeça lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada;
pelo que chamavam de pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta,
que todos os domingos lhe dava um vintém para fumo.

Depois de salvar ao senhor, pai Quicé que ainda não tinha visto
Berta naquele dia, fez-lhe muitas festas como sempre, e começou a costumada
e interminável lengalenga com que a menina muito se divertia.

Berta era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava
por aqueles arredores. O negro velho que não tinha outra coisa para
dar à sua gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e história
ouvia pelas vendas, onde graças à liberdade de traste inútil,
passava a maior parte do tempo.

– Nhá moça, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o
Bugre que foi aqui da fazenda?…

– Que tem? perguntou Berta, cuja atenção foi excitada.

– Vão prender ele.

– Quem te disse?

Contou o negro velho o que ouvira ao Gonçalo junto à venda
do Chico Tinguá, e o mais que dos ditos de outros e de sua própria
astúcia colhera posteriormente. Era naquela tarde que o Pinta ficara
de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.

– E você sabe onde ele está? perguntou a menina com vivacidade.

– Sabe, sabe; Quicé sabe.

– Onde é?

– Quicé mostra o caminho.

– Pois vai indo que eu já te apanho.

Este rápido diálogo travou-se no meio do terreiro. Entrando
em casa, viu Berta a amiga na sala e perguntou-lhe:

– Onde deitou meu chapéu, Linda?

Foram estas palavras que estremeceram Brás, e ainda mais quando ouviu
a resposta de Linda.

– Em cima de minha cama.

Apoderou-se a vertigem do idiota, que tombou da árvore ao chão.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

SEGUNDO VOLUME

I

O BUGREZINHO

Em 1826, a mais bonita moça que havia nas vizinhanças de Santa
Bárbara, era Besita.

Quando ia à missa aos domingos e dias de guarda, todos se voltavam
na rua para vê-la passar. Festa em que ela não aparecesse, perdia
toda a graça, até os velhos achavam desenxabida a patuscada.

Filho de fazendeiro, que tinha a mostrar bonita mula arreada de prataria,
lá passava duas e três vezes por dia defronte da casa da moça,
que morava em companhia do pai, quase ao sair do povoado, bem perto de nhá
Tudinha.

Entre os mais assíduos, nenhum levava as lampas a Luís Galvão,
que era naquela época um chibante mocetão de vinte anos. Raro
dia, não vinha ele ao povoado e não achava pretexto para apear-se
em casa do velho Guedes, pai de Besita.

Apesar da roda que lhe faziam tantos rapazes e da balda que há em
terra pequena de bisbilhotar tudo, não aparecera o menor mexerico a
respeito da moça, e quando se falava dela era para gabar o seu modo
sério e o recato que sabia guardar com todos, o que mais admirava por
ter perdido a mãe ainda criança, e viver quase sobre si, pois
o velho mal podia com seus achaques.

Nesse tempo servia de camarada a Luís Galvão um rapaz de pouco
menos idade, que o acompanhava constantemente em passeios e viagens. Era Jão,
a quem os outros se tinham habituado a chamar de Bugre, pela tez bronzeada,
que distinguia aquela raça indígena.

Esse rapaz fora criado nos Pilões, antiga fazenda de Afonso Galvão,
pai de Luís; e aí viera ter de um modo singular e misterioso.

Um dia, no mais ardente da calma, quando os enxadeiros descansam na roça
à sombra das árvores esperando o jantar, e o resto da gente
recolhe às habitações, acaso chegando o velho fazendeiro
à janela viu parado no terreiro deserto um sendeiro sobre o qual se
encarapitava uma figurinha que à primeira vista pareceu-lhe um macaco.

Logo, porém, reconheceu que era uma criança, de pouco mais
de um ano. Apesar do natural pacato do rocim causava espanto que o pequerrucho
se pudesse conservar em cima dele, escanchado na cernelha e agarrado às
crinas.

– Que quer você, pirralho? perguntou o velho Galvão.

Volveu a criança para o fazendeiro uns olhos negros como carbúnculos,
e ficou a mira-lo com o ingênuo pasmo da infância. Como se verificou
depois, o menino não falava ainda, talvez por ser tarde nele o desenvolvimento
dessa faculdade.

Nunca se pode saber donde saíra aquela criança; como chegara
até o terreiro sem darem por ela; se viera só ou alguém
a trouxera. Também foram inúteis as pesquisas que se fizeram
para descobrir os pais, ou ao menos algum indício de quem poderiam
ser.

Como de costume, apareceram várias conjeturas e invenções,
cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou
que esse menino era o Anticristo e o sendeiro a própria besta do Apocalipse,
descrita por São João. Outra jurava ser o caçula do diabo
cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava fazendo estrepolias pelo
mundo.

À parte essas e outras caraminholas de que os visionários encheram
a cabeça da gente ignorante, correu entre as pessoas sisudas uma versão,
que ninguém soube donde proveio, e naturalmente formou-se de uma misteriosa
agregação de circunstâncias, como sucede sempre às
rapsódias populares.

Houvera grande cheia no rio. Uma família de gente pobre ia passar
o vau, que faltou-lhes. A mulher sumiu-se, o marido correu a salva-la, desapareceram
ambos arrebatados pela correnteza, ou tragados por algum perau. Então
o sendeiro, que levava o menino, e cujo cabresto soltara o infeliz pai no
impulso de salvar a companheira, recuou, e seguindo pela margem foi ter à
fazenda. A tronqueira estava aberta naturalmente; e assim pode chegar ao terreiro,
onde o descobriram.

Era essa a verdade ou mera suposição? Ninguém tinha
presenciado o sinistro, nem sabia-se em toda a vizinhança, de gente
que houvesse desaparecido. Mas todos afirmavam o fato, que era aceito como
ponto de fé.

Foi o bugrezinho batizado com o nome de João, sendo o padrinho o Afonso
Galvão. As velhas que sustentavam haver partes do diabo no pequeno,
não se deram por vencidas; e asseguravam que, durante o sacramento,
o manhoso do inimigo para livrar-se da estola e d’água benta,
saltara mais que depressa e se escondera na pança do velho fazendeiro.

Tornou-se Jão o companheiro de brinquedos de Luís; e desde
logo mostrou a têmpera do caráter que só mais tarde se
havia de formar. Já em criança era robusto, valente, mas taciturno
e sombrio; quando a molecada, que fazia roda ao senhor moço, o inquizilava,
a ele Jão, ia-os sovando em regra, apesar de serem muitos e mais velhos.

Crescendo, veio a ser o camarada de Luís, a quem servia com dedicação
que sob aparência ríspida e seca, era sincera e infalível.
As vezes que salvara a vida ao jovem patrão, já não se
contavam. Arriscar-se estouvadamente o moço fazendeiro, e salva-lo
com fria intrepidez o rapaz, era fato comezinho e trivial na existência
de ambos.

Assim nem Luís já agradecia aquilo, que passava entre eles
por um serviço tão fácil como de arrear-lhe o animal;
nem Jão se julgava com o menor título ao reconhecimento de seu
patrão, por ter feito uma coisa, que lhe fava a si mesmo prazer e satisfação.

Luís Galvão era magano e fragueiro; gostava de bulir com as
raparigas e pregar peças aos caipiras. Daí resultavam constantes
desavenças, em que Jão, para defender o moço, tinha necessidade
de desancar os assaltantes, pagando em muitas ocasiões com a pele as
aventuras galantes do jovem patrão.

Uma vez travou-se tão renhida a luta, que o Bugre prostrou morto a
seus pés um arrieiro com quem Luís Galvão puxara briga,
oferecendo vinte patacões pela mula de estimação em que
ele montava, a fim de fazer torresmos do couro. Irritou-se o tropeiro por
tal forma com o sarcasmo, que teria com certeza morto ao filho do fazendeiro,
se Jão não lhe arrostasse a fúria.

Com algum dinheiro tapou-se a boca aos parentes do morto e acomodou-se tudo;
de modo que o Bugre continuou a acompanhar ao patrão em suas correrias.

Foi pouco depois desse incidente que Luís Galvão, passando
uma tarde por Santa Bárbara, viu Besita à janela e ficou imediatamente
caído por ela.

II

O CASAMENTO

Tinha Jão por Besita uma dessas paixões veementes que se afrontam
com o impossível e arcam para subjugá-lo.

As pujanças de sua alma se revoltaram contra a adoração
fervida e respeitosa que o trazia submisso; mas o caráter indomável
estava enervado pela fascinação que exercia em natureza tão
ardente a sedutora beleza da moça.

Quantas vezes não pensou que bastava-lhe um momento de resolução
para arrebatar a mulher a quem amava, e leva-la ao deserto onde ele não
se envergonharia de seu amor, e talvez sentisse orgulho de o inspirar tão
possante e extremoso.

Mas ele que não temia o mundo e zombava dos perigos, assustava-se
só com a idéia de um ressentimento de Besita; e não era
preciso mais para espancar de seu espírito a tentação
que em si produziam os encantos da menina.

Imagine-se, pois, o que pensou o Bugre quando percebeu que Luís Galvão
gostava de Besita.

No dia em que teve certeza do fato, o provocador das rixas foi ele, que brigou
sem descanso e com desespero. Pelo modo por que se expunha aos golpes dos
adversários, parecia obstinado em procurar a morte, que entretanto
fugia caprichosamente diante dele.

Quando não achou mais com quem tirar bulha, embriagou-se, ele que
até então dera provas de sóbrio; e tal foi a moafa, que
todo o dia seguinte não deu acordo de si, e esteve atirado na estrada
onde escapou de ser esmagado por um carro de bois.

Essa crise fez remissão. Recobrando-se do primeiro e violento abalo
que sofrera, achou o rapaz dentro de si, no coração revolto,
certa calma e consolo.

Se alguém, que não ele, tinha de ser amado por Besita, fosse-o
Luís Galvão de quem era amigo; outro qualquer morreria às
suas mão; assim o jurara.

Adivinhou Besita as duas afeições de que era objeto, e com
a intuição da mulher amada, conheceu o contraste profundo que
havia entre ambas. A paixão do Bugre era submissa, a do moço
imperiosa; na primeira ressumbrava a abnegação, a segunda ardia
em desejos.

Sentiu ela também que ia amar, senão amava já a Luís
Galvão; e por isso mesmo prevendo os perigos de sua ternura por um
homem capaz de tudo ousar, tornou-se fria e constrangida em relação
a ele, enquanto mostrava-se expansiva e afetuosa com o Bugre. Sabia que deste
nada tinha a recear nem mesmo um olhar impertinente, pois todo o emprenho
dele era ocultar sua ardente dedicação. Assim podia gozar desse
inocente prazer de ver-se adorada mudamente como uma santa.

Em princípio contentou-se Luís Galvão com as visitas
que sob qualquer pretexto fazia ao velho Guedes, e os encontros que tinha
com Besita na missa ou em casa de nhá Tudinha. De dia em dia porém
foi-se tornando mais exigente; e chegou a alcançar da moça algumas
entrevistas no quintal ao escurecer.

Besita concentrava todas as duas forçar para resistir; considerando-se
irremediavelmente perdida, buscava em torno de si um apoio que a amparasse
e não achava. Seu pai era um pobre velho, que via no namoro de Luís
uma boa fortuna. Não tinha em falta de sua mãe uma amiga, que
a defendesse contra os próprios impulsos de seu coração.

Nestas circunstâncias, apareceu em Santa Bárbara um moço
chamado Ribeiro, que vinha arrecadar alguns bens da herança de um tio.
Vendo Besita, apaixonara-se por ela e a pedira em casamento ao velho Guedes.

– O Luís é melhor! disse o pai à filha, comunicando-lhe
o pedido.

Besita tornou-se pálida e respondeu com a voz trêmula:

– Mas Luís não se casará comigo!

– Tu pensas?

– Tenho a certeza.

– Pois havemos de ver.

À tarde apareceu Luís Galvão. Contou-lhe o Guedes a
pretensão do Ribeiro, e pediu-lhe conselho. O filho do fazendeiro demudou-se;
mas recobrando-se sugeriu dúvidas sobre os haveres do pretendente,
alegando ser pessoa desconhecida no lugar.

Esperou o Guedes quinze dias, decorridos eles, disse à filha:

– Tu adivinhaste, É um peralta!… Aceita a mão do Ribeiro,
e serás feliz.

– O que meu pai ordenar, eu o farei de boa vontade! respondeu a menina com
doce resignação.

Aceitava ela esse casamento como um sacrifício, para salvar sua virtude,
embora à custa dos sonhos fagueiros de sua alma.

Espalhada a notícia do casamento, Jão sabendo-a teve um cruel
sossôbro, como se fora ele próprio a quem a moça repudiasse
para se dar a outro. Tão identificados estavam em sua alma os dois
amantes, que ele já não os separava em seu afeto; e envolvia
Luís na adoração que tinha por Besita, e esta na amizade
que voltava àquele.

A primeira vez que depois disso o capanga viu a moça à janela,
voltou o rosto para não lhe falar.

– Está mal comigo, Jão? disse Besita com o modo afetuoso que
lhe era habitual.

Deitou-lhe o bugre um olhar duro, e pregando a aba do chapéu na testa
com um murro, não tugiu.

– Que lhe fiz eu, para não me falar?

– Mecê não vai se casar com o Ribeiro?

– É por isso?

– E nhô Luís?

Besita fitou o rapaz nos seus grandes olhos, onde brilhavam aljôfares
de lágrimas, e mostrou-lhe um cravo que tinha nos cabelos.

– Se você, Jão, atirasse na beira da estrada, como uma coisa
à toa, esta flor, podia se queixar porque outro a apanhasse para si?

– Então ele não quer bem a Nhazinha?

– Quer, mas como tem querido a outras antes de mim: não mereço
ser sua mulher!

Partiu-se Jão a galope e foi ter em casa com o patrão:

– Nhô Luís, ela lhe quer bem!… case com ela!

– Qual, Jão!… O velho não admite!

Não quis ouvir mais o Bugre; arrecadou em um lenço o que tinha
de seu, tão pouco era, e despediu-se do patrão com estas palavras:

– Pode procurar outro camarada; eu não conto mais com o senhor.

Foram baldados os esforços que fez Luís Galvão para
retê-lo. O Bugre ficou inabalável na resolução
que tomara em um minuto, de deixar a casa onde fora acolhido e vivera desde
a infância.

Pouco tempo depois efetuou-se o casamento de Besita com o Ribeiro; mas este
ao sair da igreja recebeu uma carta, que o chamava a toda a pressa para Itu
para salvar a maior parte da herança, que o tio confiara a um negociante
daquela vila, hoje cidade.

Partiu o Ribeiro no dia seguinte para voltar logo. Sua mulher foi viver na
casa da fazendola, que o trouxera a Santa Bárbara, na intenção
de vende-la; e agora devia servir-lhe de morada ao menos nos primeiros tempos
do casamento.

III

BEBÊ

Tinham decorrido dois meses depois do casamento de Besita.

Eram nove horas da noite. A moça beijando a mão do pai, se
recolhera à alcova; e depois de rezar, cismava em sua vida, lembrando-se
com saudade dos sonhos de ventura que fizera outrora e que tão depressa
se tinham desvanecido.

Encostada à rótula da janela, com os olhos engolfados no azul,
bebendo a cintilação das estrelas como um orvalho de luz, sentia-se
arrastada para aquele passado recente, e deleitava-se com as reminiscências
das carícias de Luís e dos seus ternos protestos, que ela sabia
mentidos, mas que não obstante a embeveciam.

Já todos dormiam na casa, quando ela, deixando a janela, deitou-se.
Nesse instante ouviu sobressaltada bater à porta. Quem seria, àquela
hora?

Soaram os passos de Zana no corredor e logo depois a voz da preta a trocar
perguntas e respostas com a pessoa que batia. Afinal rangeu a chave na fechadura.

– Nhazinha, é sinhô!

Ia Besita levantar-se precipitadamente para receber o marido, quando sentiu
no escuro que dois braços a cingiam e uma carícia atalhava-lhe
a palavra nos lábios.

Ao bruxulear da madrugada, Zana acudindo ao chamado da moça foi achá-la
debulhada em pranto, na maior consternação.

– Tu me perdeste, Zana! Não era meu marido!

– Quem era então, Nhazinha? perguntou a preta espantada.

– Olha! disse a moça mostrando-lhe o vulto de Luís Galvão
que se afastava.

– Meu Jesus do céu! exclamou Zana caindo de joelhos aos pés
da senhora.

Felizmente o velho não ouvira bater; e nunca soube da desgraça
da filha. Morreu meses depois crente de que a deixava no mundo feliz e amparada.

Uma pessoa, porém, suspeitou do que havia ocorrido. Foi Jão
Bugre, que na sua indignação quis matar Luís Galvão;
e o teria feito, se Besita não o proibisse.

Entretanto o Ribeiro não dava cópia de si; corriam os meses
sem que em Santa Bárbara houvesse novas dele, e do rumo que levara.
Somente sabia-se que não estava em Itu, ou qualquer outra vila próxima.
Esse abandono, que o marido parecia ter feito dela, foi o que deu coragem
a Besita para resistir à desgraça que a acabrunhara, sobretudo
quando lhe conheceu todo o alcance.

Mais de um ano, depois que a abandonara o Ribeiro, teve Besita uma filha,
cujo nascimento foi inteiramente ignorado em Santa Bárbara, pelo isolamento
a que se condenara a moça desde a morte do pai. Só o soube,
fora Zana, Jão Bugre, cuja dedicação apurava-se com o
infortúnio daquela por quem sacrificaria a vida, se pudesse por este
preço resgata-la aos dissabores.

Um dias às ocultas, levou o capanga nos braços a criancinha
a Campinas, a fim de a batizar o vigário dessa vila, pondo-lhe o nome
de Berta, que tinha sua mãe. Havia ajuntamento na igreja para assistir
a um casamento: era o de Luís Galvão com D. Ermelinda.

Custou ao Bugre conter-se, que no seu exaspero não insultasse ali
em face de toda gente aquele homem de quem fora amigo, e por quem tinha agora
a maior aversão. Reprimiu-lhe o primeiro ímpeto a lembrança
de Besita e da mágoa que lhe podia causar o escândalo.

Voltou sombrio e sinistro:

– É preciso que eu mate esse homem! disse ele à moça
entregando-lhe o filho.

– Não quero que lhe faças o menor mal! respondeu Besita com
império.

– Mecê sofreria se eu o matasse?

– Muito!…

– Basta, Nhazinha! atalhou Jão.

Algum tempo viveu Besita com sua filhinha no mesmo isolamento sem outra companhia
além de Zana, que lhe dera de mamar, e o capanga, o qual a servia como
um escravo humilde e fiel da casa. Convencida de que realmente seu marido
a abandonara de vez, habituara-se com o correr do tempo à placidez
e serenidade daquela existência recôndita, que embeleciam as efusões
do amor materno. No seio dessa tranqüila solidão, cercada de afeições
sinceras, sentia-se quase feliz.

Seu prazer, nos momentos que lhe deixava a criação, era enfeitar
a filha, e fazer bonito o seu Bebê, arranjando-lhe ora toucas de rendas,
ora roupas. Lembrou-se um dia de bordar-lhe um cinto com signo-saimão,
zodíacos, figas e outras figurinhas de prata, como se usava então
para livrar do quebranto.

Não havendo por perto ourives capaz de lavrar os emblemas, mandou
Besita o Bugre a Itu, a fim de os encomendar. Com repugnância, e um
inexplicável constrangimento, ausentou-se Jão por alguns dias
dessa casa onde vivia quanto amava neste mundo e sobre a qual velava como
um cão fiel e dedicado.

Foi isto em uma terça-feira. Na quinta seriam oito horas da manhã,
e Besita fazia saltar sobre os joelhos o seu lindo Bebê, sentada na
alcova, com uma rótula aberta a meio. Eis que derramando a vista pelo
arvoredo, ficou transida, como se lhe surgisse em face um espectro.

Enxergara o rosto de Ribeiro, que se ocultou entre a folhagem. Seria apenas
uma alucinação de seu espírito, ou a tremenda realidade,
cuja idéia tantas vezes a enchera de terror, nas longas noites não
dormidas?

A tremer chamou a preta, que estava na cozinha cuidando do almoço:

– Meu marido, Zana!…

Aterrou-se a ama, ouvindo da senhora os pormenores da aparição,
que anunciava tamanhas desgraças; e esteve algum tempo a espiar por
entre a rótula a ver se lobrigava ainda o vulto do Ribeiro, mas nada
viu.

Acudiu-lhe então uma lembrança engenhosa, com a qual esperou
e por entre a rótula quase cerrada, não podia o Ribeiro distinguir
o semblante da criança. Tomou-a Zana dos braços desfalecidos
da senhora, e levando-a a seu cubículo, tisnou-lhe o corpo de carvão.

Feito isto arranjou outra vez as fraldas e a touca; e saiu ao terreiro para
acalentar a criança, andando de uma para outra banda, e entoando a
costumada cantiga, mas então alterada por esta forma:

Cala a boca, anda, negrinha,
Ai-uê-lêlê!
Senão olha canhambola,
Ai-uê-lêlê!
Vem cá mesmo Pai Surrão
Toma, papa este tição.

Compreendeu Besita o ardil da preta, e no desamparo em que se achava, confiou
nessa frágil esperança.

Passou o resto da manhã sem o menor acidente. Assim desvaneceu-se
o primeiro sobressalto, e a moça inclinada a crer que apenas fora vítima
de uma ilusão cruel, cobrou ânimo, embora não se pudesse
esquivar à inquietação que lhe deixara o terrível
susto.

Veio a tarde: o céu estava sereno, e coava-se no espaço uma
aragem tão doce que Besita encostou-se ao peitoril da janela. Com a
fronte descansada à ombreira, deixando cair para fora as longas tranças
de seus lindos cabelos negros, que a brisa fazia ondular, embebia-se em contemplar
a estrela vespertina, que cintilava no horizonte. Súbito, no esquecimento
dessa cisma, uma estranha idéia despontou-lhe no espírito. Pareceu-lhe
que, através da cintilação da luz, desenhava-se a imagem
de sua mãe, a sorrir-lhe lá do céu e a chamá-la.

Então ouviu Zana um grito de terror, que se extinguiu em um gemido
de angústia. Fora de si correu à alcova da senhora, onde a esperava
um quadro horrível.

No meio do aposento, o Ribeiro, pálido e medonho como um espectro,
agarrando a mulher pelo pescoço, estrangulava-a com as longas tranças
de cabelos.

IV

ÓRFÃ

Um grito espantoso retumbou, que estremeceu o assassino e o lançou
espavorido fora do aposento.

Antes de sumir-se, porém, viu assomar no quadro da janela o vulto
pavoroso de Jão, que de um arremesso atirou-se a ele para despedaçá-lo.

Nesse instante trespassou a alma do Bugre uma voz exausta, que se desprendia
a custo do arquejante soluço:

– Jão!…

Prostrou-se o rapaz aos pés da moça, que o Ribeiro deixara
agonizante, com o corpo atirado sobre um baú, e a cabeça pendida
como o lírio, cuja haste o vento partiu.

Julgando-a morta, Jão só tivera um pensamento, a vingança;
não eram lágrimas, mas o sangue do assassino que ele queria
derramar sobre aquele despojo do que unicamente amara neste mundo.

– Nhazinha!… soluçou ele de mãos postas.

– Minha filha, Jão, minha… Ele… matá-la!

Concentrara a pobre moça todas as forças naquela ânsia,
truncada pelas vascas. Nesse já frio cadáver ainda palpitava
o coração materno.

Precipitou-se o Bugre em busca da menina. Zana alucinada apertava convulsamente
nos braços contraídos, e com o fito de esconde-la ao seio, quase
a sufocava. Foi preciso luxar-lhe os ossos para arrancar a criança.

Quando Jão outra vez ajoelhou aos pés de Besita com a menina
ao colo, a mísera mãe, soerguendo o busto num arranco supremo,
lançou os braços já hirtos aos ombros do rapaz e cingiu
no mesmo abraço Berta e o fiel amigo que a salvara. Arrojou-se então
para dar à filha o beijo extremo; mas fugindo-lhe já a luz dos
olhos, vacilava a fronte, e os lábios gelados a esmo roçaram
pelo rosto da criança, como pelas faces de Jão.

Ao toque desse beijo, desmaiou o Bugre; mas embora lhe fugissem os espíritos,
seu corpo não tombou; somente desabou sobre si mesmo, como um penhasco,
minado pela base, que soterra-se em seu próprio âmbito.

Passada a vertigem, a vista ainda baça do rapaz lobrigou através
de uma névoa escura o vultozinho de Berta, que brincava com a mão
gelada de Besita, chilrando como um passarinho.

Aquele beijo fora o supremo adeus da mãe. Besita estava no céu.

Ofegou o peito de Jào com uma ânsia que parecia rompe-lo; e
o pranto se arrojou para os olhos sombrios; mas todo esse arremesso de uma
dor imensa veio estalar na gorja, e tombando de novo nas profundezas da alma
socavada pela dor, deixou apenas escapar uma surda estertoração,
semelhante ao estrépito da torrente que se precipita da garganta da
serra no abismo dos algares.

Aí, entre o cadáver da mulher a quem adorara, e o corpo frágil
da criancinha órfã, se quedou o rapaz um momento, procurando
reatar em seu espírito o fio das recordações subitamente
apagadas. De repente soltou um brado, e arrojou-se.

Valera-se o Ribeiro da demora que tivera Jão ouvindo a voz exausta
de Besita, para fugir e pôr-se fora do alcance de seu perseguidor. O
assassino, que tinha maquinado friamente a sua vingança, se preparara
para a fuga, no caso de perigo.

Havia cerca de dois anos que esse homem partira de Santa Bárbara,
deixando sua esposa no dia seguinte ao do casamento, para Itu, salvar avultados
interesses comprometidos. Apesar da pronta determinação, o negociante,
seu devedor, já se tinha ausentado; e suspeitava-se que se dirigia
a Curitiba.

Foi-lhe no encalço o Ribeiro; e tão feliz que obteve cobrar
boa parte da soma. Vendo-se rico de repente, não resistiu o moço
à tentação de gozar dos prazeres com que o seduziam a
cada instante as gabolices dos tropeiros e marchantes.

Afinal, ao cabo de dois anos, lembrou-se da mulher que deixara ainda noiva,
no dia seguinte ao do casamento; e dirigiu-se a Santa Bárbara. Remordia-lhe
a consciência; como era natural encheu-se de desconfianças.

Às ocultas aproximou-se da casa; e ficou à espreita. Viu Besita
com a filha ao colo; e suspeitou de uma traição. Ao cair da
tarde, quando a moça cismava com os olhos engolfados no céu,
ergueu-se diante dela irado e ameaçador.

A infeliz prostrou-se de joelhos a seus pés e confessou-lhe tudo,
o engano fatal de que fora vítima, e a desgraça irreparável
que a separara para sempre dele e do mundo.

A resposta foi um escárneo.

– Ele já era teu amante!

Tomado por um acesso de fúria, deitou as mãos ao alvo colo
da moça, e enleando-o com a madeixa, a estrangulara. Acabava essa cruel
vingança e pensava em imolar também ao seu rancor a inocente
criança, quando o bramido do Bugre o estremeceu de horror.

Sem hesitar ganhara o mato pelos fundos da casa, e embarcando na canoa que
o esperava, desceu o Piracicaba com a rapidez que dava a enchente à
correnteza das águas.

Pressentindo que o perseguia o ódio profundo e implacável de
Jão, ou talvez acossado apenas por um remorso dilacerante, não
descansou o Ribeiro enquanto não transpôs o oceano, colocando-o
entre si e a terra onde exercera sua vingança.

O Bugre o procurou por toda a parte, mas debalde: o homem estava em Portugal.

Berta fora recolhida por nhá Tudinha, cujo marido ainda vivia. Voltando
do povoado a boa mulher ouvira um forte choro de criança que vinha
da casa de Besita; e levada por uma curiosidade compassiva, aproximou-se para
espiar disfarçadamente pela janela.

Viu Jão que desajeitadamente ninava a criança, desesperada
de fome por falta de mama. Tentava o rapaz inutilmente que a menina chupasse
a ponta de um pano embebido em café; e vendo sem resultado seu desvelo,
caíam-lhe as lágrimas dos olhos em bagas.

Surpreendida com esta cena e assustada com a imobilidade do vulto de Besita,
que ela via deitada sobre a cama, nhá Tudinha animou-se a entrar e
soube do Bugre o lúgubre acontecimento. Não hesitou desde esse
momento em considerar Berta sua filha.

Apesar de ser Miguel muito mais velho do que Berta, ainda nhá Tudinha
tinha leite; e ali mesmo acalentou a infeliz órfã dando-lhe
de mamar.

O nascimento de Berta e a morte de sua mãe eram um mistério
para a gente do lugar. Zana enlouquecera, e Jão, única testemunha
daqueles acontecimentos, só por alto os referiu a nhá Tudinha,
que nunca revelou o segredo.

A casa onde nascera Berta ficou abandonada, e estava reduzida a tapera, onde
vivia a doida, que depois de tantos anos ainda via na sua alucinação
desenhar-se a cena pavorosa da morte da senhora.

V

FERA

Não se pinta a exacerbação de Bugre quando sentiu que
lhe escapara o assassino de Besita.

Estuava-lhe a alma. Entrava na venda para matar a sede que o abrasava; mas
a cachaça parecia-lhe chilra e insípida como a água do
brejo. Sangue era o cordial que podia mitigar-lhe esse fogo intenso a lavrar-lhe
dentro.

Queria brigar; tinham medo e fugiam dele. Matar a frio, maquinalmente, como
o carniceiro faz à rês, e o caçador à perdiz, isso
não o poderia; repugnava-lhe; tinha nojo ao cruor.

Foi nestas condições que um ricaço, informado da valentia
de Jão, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que não lhe
faltavam inimigos. O preceito do Evangelho é “não fazer
aos outros o que não queremos nos façam”. Daí tinha
o mandão extraído uma regra para seu uso, a qual em sua opinião,
era apenas o complemento da máxima cristã. “Façamos
aos outros o que eles nos pretendem fazer”, dizia ele; e sem o menor
escrúpulo, com perfeita serenidade de consciência, ia aviando
os seus inimigos, para não lhes morrer às mãos.

Eis o homem a cujo serviço esteve Jão durante algum tempo,
não só pela necessidade de ganhar a subsistência, como
pela ânsia de saciar a sanha terrível que o devorava. Fez-se
instrumento da perversidade do mandão; mas essas vinganças não
eram senão brigas e combates, em que ele barateava sua vida, ansiando
pela morte, que se obstinava em poupa-lo.

Sujeito que fugisse e se amedrontasse, não lhe tocava Jão,
qualquer que fosse a recompensa ou ameaça do amo. Mas também
quando se enfurecia, nada aplacava essa alma calcinada pelo fogo surdo que
lavrava desde a morte de Besita.

Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jão
Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impressão
produzida na gente do lugar pelos fatos que ele praticara. Alguns não
se explicavam, a não ser pelo delírio sanguinário que
se apodera de certos homens, e não é talvez senão a exaltação
do hábito levado até a mania.

Chamado, pago e protegido por homens poderosos para escolta-los em aventuras
e servir às suas paixões, o Bugre recebeu a iniciativa e a animação
que iam acostumando seu braço a ferir e a repousar depois do crime,
como se tivesse praticado uma honrosa façanha, uma valentia digna de
louvor.

Esta é com pouca diferença a história de todos os assassinos
incorrigíveis, que infestam o interior do país. Eles foram educados
pelos poderosos como os dogues que se adestravam antigamente para a caça
humana, dando-lhes a comer, desde pequenos, carne de índio.

Durante o tempo que serviu como capanga a diversos patrões, não
esqueceu Jão os dois pensamentos únicos de sua vida, ou antes
único pensamento que se dividira agora em dois cuidados.

Era Besita que lhe deixara em legado, vingar sua morte, e proteger sua filha.

Não se passava um dia sem tirar Jão inculcas do Ribeiro, esperando
que fizesse o acaso o que não pudera toda a sua diligência. Também
de tempos em tempos vinha às ocultas até Santa Bárbara
para ver Berta; e então sempre lhe trazia algum enfeite e deixava na
mão de nhá Tudinha dinheiro para comprar-lhe o necessário,
de modo que andasse bem pronta e arranjada.

Berta a princípio não queria saber daquele homem triste e carrancudo.
Quando nhá Tudinha a levava pela mão até o mato, onde
ele as esperava para não ser visto, a menina tinha medo. Mas a pouco
e pouco foi se habituando, e afinal sentada em seus joelhos brincava com a
faca de ponta que lhe tirava da cinta e arrepiava-lhe a barba ruiva.

Tinha Berta as feições da mãe, e Jão via com
enlevos, travados muitas vezes de um terror supersticioso, surgir pouco e
pouco do vulto da menina a imagem rediviva da mulher, a quem adorara como
uma santa, embora tivesse amado também com a fúria de um possesso.

Quando já tinha Berta seus doze anos, e no corpo infantil iam se esboçando
os relevos graciosos e suaves contornos da estátua feminina, deixava-se
o Bugre ficar longas horas em muda contemplação, com os olhos
pasmos na menina, que brincava pelo campo sem dar-lhe atenção.

Havia então singulares alucinações na alma desse homem.
A paixão que jazera recalcada por tantos anos no fundo de seu coração,
irrompia-lhe de novo com ímpetos medonhos, semelhante a um tigre sedento
que se arroja contra a jaula para despedaçá-la.

Berta lhe pertencia. Não pela mesquinha razão de a ter salvado,
mas pela consagração das angústias que sofrera. Ela era
filha de sua dor; quando o pai a desprezara, abandonando a infeliz mãe,
ele as envolvera ambas em uma ardente e incessante dedicação.
A alma se lhe estancara nessa paixão imensa; carecia pois de orvalhos
para umedecer a terra sáfara e exausta, que era sua existência
agora.

Afigurava-se à sua mente enlevada, que Besita revivera na filha para
pagar a ele Jão os extremos do puro e humilde afeto. Enleava-se nas
cismas de outros tempos e surgiam-lhe os sonhos que fizera outrora, os devaneios
da vida feliz, no seio da floresta, longe do mundo que o perdera. Seu amor
era infindo; chegava para encher o deserto.

Todavia o olhar da menina o turbava, e desde muito tempo já não
se animava ele a sentá-la nos seus joelhos, como dantes. Se acaso Berta
lhe fazia um afago, ao contado da mão mimosa o sangue espadanava-lhe
do coração como lavas; mas logo refluía, gelado por um
calafrio glacial.

Já não era Berta que ele via e sentia, mas o vulto de Besita,
surgindo triste e lacrimosa para defender a filha.

Nos arrancos e embates dessa luta correu a infância de Berta.

Havia um ano deixara Jão o ofício de camarada; e vivia oculto
nas vizinhanças de Santa Bárbara, onde facilmente via Berta
e lhe falava. Cessando a proteção que os potentados costumam
dispensar a seus asseclas, e a imunidade de que os revestem, começou
logo o Bugre a ser perseguido como um flagelo.

Mas até então zombara de todos os esforços, apesar de
prosseguir em suas façanhas. Raro era o mês no qual não
se consumava pelos arredores alguma vingança; e o instrumento era quase
sempre ele, Jão Fera, a quem buscavam de preferência para esta
tarefa, pela fama terrível que tinha adquirido.

VI

A RESTITUIÇÃO

Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a São Paulo.

Não se animaria contudo, se os anos, e mais ainda uma irrupção
no rosto, não lhe tivessem alterado completamente as feições.
Em Portugal o chamavam de Barroso, apelido que substituiu ao seu para maior
segurança.

Já estava há meses na província, quando resolveu ir
a Santa Bárbara. Com a vista daqueles lugares acendeu-se o ódio
sopitado; um pensamento de serôdia vingança despontou em seu
espírito e medrou.

Ouvira falar do Chico Tinguá como inculca de um sujeito que se incumbia,
mediante boa espórtula, de arranjar esses negócios. Tocou no
ponto ao vendeiro; este expediu o bacorinho a Jão Fera, que não
tardou no rancho, onde se fechara o ajuste, mediante o sinal de vinte patacões.

Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jão poucas vezes antes da morte
de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha
encontrado e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudança operada
pela idade e outras circunstâncias.

Todavia notou Jão que esse homem lhe inspirava profunda aversão;
e cada vez que o avistava tinha ímpetos de puxar briga com ele e mata-lo.
Na Ave-Maria especialmente, no dia da tocaia, a não ser o urutu que
espantou o cavalo, o Ribeiro cairia com o coração traspassado.

Ao vê-lo passar, na volta do caminho, entre os claros da folhagem,
teve o capanga uma espécie de visão; pareceu desenhar-se a seus
olhos a mesma face fouveira de raiva e terror, que rápida perpassara
diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada
em sua reminiscência.

De seu lado o Ribeiro, embora não tivesse a menor suspeita do homem
com quem lidava, não podia eximir-se de um involuntário confrangimento,
quando se aproximava de Jão Fera. E se este carregava sobre ele o duro
olhar, corria-lhe pela medula um frio glacial.

Assim estava impaciente de ver concluído o negócio para livrar-se
do capanga; mas correram-lhe as coisas às avessas, pois agora depois
do que passara na venda do Tinguá, sabia que o tinha no encalço,
e tratou de aprecatar-se.

Contudo não esquecera o Ribeiro a sua vingança, embora tomasse
ela outra feição da que tinha em princípio. Depois da
tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas e vira a família de Luís
Galvão, reunida no terreiro, gozando a frescura da tarde, ao expirar
de um dia cálido.

Afonso lia para a mãe e a irmã. D. Ermelinda acompanhava com
os olhos as mutações das alvas nuvens que o vento carmeava no
azul do céu, Linda fazia trabalhos de lã.

A serenidade e enlevo desse quadro pungiram acremente a alma do Ribeiro.
Invejou a felicidade de Luís Galvão. Invejou a felicidade de
Luís Galvão, no seio daquela família encantadora e no
meio dos gozos que dá a riqueza.

Suas idéias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido
toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente
no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer,
sentiu de repente penetra-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que
desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas
e as festas singelas da família.

Mas já estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma família.
Seria como o tardo lavrador que planta a árvore da qual não
verá o fruto. O que lhe servia era uma família já formada,
com seu macio conchego, seus hábitos encantadores, onde ele chegasse
e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa do banquete o talher
preparado.

E não estava ali, perto dele, a família de que precisava? Onde
encontraria mulher mais agradável? Podia nunca esperar que viesse a
ter outros filhos mais lindos e prendados do que esse par gentil?

Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram
no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto.
Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era
uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio
e nada mais.

Fazer porém desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera
ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava
as contas do passado, como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena
de talião, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negócio.

Desde então empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja
realização fora marcada para a noite de São João.

Ao recolher, se manifestará no canavial das Palmas um incêndio
que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão
naturalmente acudirá para acautelar maior estrago. Nem os escravos
da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados
por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor.

Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubará Luís
Galvão com uma cacetada e o lançará nas chamas, para
acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma
trama pérfida e covarde.

Então Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada,
acode e extinguindo com o auxílio dos camaradas o incêndio, já
de antemão cortado por largo aceiro, conduzirá o corpo do Galvão
à casa e oferecerá à viúva seus serviços.

Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda
e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.

Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações,
voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro,
de dentro do mato, Jão Fera.

O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda
mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não
fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente,
postando-se no meio do caminho.

– É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui
está; não lhe devo mais nada.

Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo
ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão
bamba.

– Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar
despediu uma chispa.

E desapareceu.

VII

FASCINAÇÃO

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio
ter com ela:

– Onde vai?

– Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega
por evitar conversa naquele instante.

– Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.

Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço,
e impediu assim que ela se afastasse.

– Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer
saber? Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como
uma pitanga. Escute!

Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:

– Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta,
e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa
conhecida.

À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se
a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios
velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.

Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa
cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus
lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom
de motejadora confidência:

– Eu também entro no segredo!

Era o Afonso.

– Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço
macio que pungia a face do mancebo.

– Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada
por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.

– Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que
Inhá estava me chamando para dar-me um bei…

– Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada,
mas rija como a garra da araponga.

E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se
por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar
e que ela bem suspeitava qual fosse.

Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho
à porta, antes que a chave desse volta. Começou então
uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo
da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso
moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora,
e também para não lograr tão fácil a vitória.

Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda
acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador
para salvar a rola. Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe
cócegas.

Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando
os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.

– Assim, Linda! gritava Berta.

– Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.

– Deixe a outra! acudia Linda.

Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face
à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo
e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade,
aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao
batente, desse volta à chave.

Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada,
soltou uma risada gostosa.

Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição;
e vinha de dentro da alcova.

– O que foi, Berta? exclamou Afonso.

– Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada
pelo susto e abalando a porta.

– Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.

Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava
dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava
como o áspero trincar da lima no ferro.

– É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando
para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível
pressentimento.

Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava
o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar.
A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o
rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador
da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível
à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira
da cama.

– Viu-a? perguntou Linda que não cessava de chamar pela amiga.

– Não! respondeu agoniado o irmão.

– Basta, Inhá! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante.
Você nos aflige com esta brincadeira.

– Qual! Ela é pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a
irmã. Mas logo, quando eu a pilhar, há de arrepender-se. Eu
cá me contento com uma dúzia; e você, Linda?

Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lábios e os
olhos ao orifício da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava
sinal de o ouvir.

De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador;
e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que
a menina, para fazer-lhe negaça, estava de brejeira a bambolear o corpinho.

– Lá está ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.

– Aonde?

Lembrou-se, porém, o moço que Berta voltava-lhe as costas,
em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse
reparo, já não o pode, porque a sombra vacilara e desaparecera.

Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e não o conseguia, quando
casualmente seus olhos caíram sobre a face polida do espelho, que ornava
o toucador de mogno.

Uma surda exclamação, que o moço não teve tempo
de sufocar, lhe prorrompeu dos lábios.

– Ah!

– O que é? interrogou Linda transida de terror.

– Não sei o que ela tem… Sentou-se… Parece que caiu.

Estas palavras, proferiu-as o moço ofegante, recalcando as palpitações
violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.

Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento,
com o talhe acabrunhado por súbito desmaio das forças; mas a
cabeça promovida por um rígido impulso, e as negras pupilas
dilatadas em um olhar fixo, estático, de vítreos lampejos.

Não se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior,
pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porém,
ela com a vista assim pasma? Ansiava o moço por descobrir e não
tardou muito.

Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um
ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabeça chata de um animal,
coberto de três ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro
de pardo fulvo mosqueado de preto.

Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se
arremessou com desespero, para espedaçar a porta.

Mas essa era da cabiúna; e desafiava as forças de muitos homens.

Linda caíra quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angústia
e o espanto do irmão, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforços
contra a porta, se precipitara para o terreiro, com a idéia de saltar
pela janela no interior do aposento.

Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se também
do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante
ao grasnar do maracujá.

VIII

LETARGO

Uma cena espantosa acabava de passar na alcova.

Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, na ocasião de entrar,
a cascavel alçou a cabeça, e descobrindo o vulto da menina,
desdobrou-se para escorregar ao chão.

Apenas tocou o soalho, enroscou-se rapidamente sobre si, na sombra que embaixo
do leito projetava o cortinado, e enristou o colo como um dardo inserido na
seteira de uma torre e pronto para o arremesso. Ao mesmo tempo a cauda romba
e curta, vibrada por uma crispação nervosa, batia no pavimento
a primeira das três pancadas fatais que precedem o bote, chocalhando
os cascavéis com a sinistra crepitação, que gela a medula
ao mais destemido.

Assim com o bote armado, esperou o insidioso réptil se aproximasse
o inimigo, para de um jacto cravar-lhe os dois croques terríveis que
manam o sutil e mortífero veneno.

Quando Berta, aproveitando-se do descuido de Afonso, conseguira fechar a
porta, imediatamente correu à cama a fim de tomar o chapéu que
vira sobre as almofadas, e fugir pela janela, travessura que ela tinha em
criança feito muitas vezes, e que se propunha a realizar agora antes
de dar tempo ao moço para atalhar-lhe o caminho.

No meio do aposento, parou a menina de repente com um involuntário
estremecimento. Ouvira o som áspero de um guizo estrídulo, tangido
rapidamente; e sentiu logo um enjôo produzido por acre exalação
que se derramara no ar.

Atraídos por um impulso misterioso, volveram-se os olhos de Berta,
e caíram sobre a boicininga, cujas pupilas fulvas, fulguravam na sombra,
jorrando em ondas uma luz fosforescente, como as chamas sulfúreas,
que se levantam do seio da terra vulcânica e retalham o negrume da noite.

A fauce hiante, sangüínea, se eriçava com duas serrilhas
de dentes aduncos e retorcidos como garras, e no meio dela agitava-se a língua
negra, híspida, dardejante, cuja ponta bífida ressaltava como
impulsa por oculta mola de dentro de si mesma; pois servia-lhe de estojo a
parte inferior.

Foi nesse momento, ao avista a cobra que o grito de terror escapou-se da
boca de Berta. Mas às perguntas de Linda e de Afonso, se ainda as ouviu
confusamente, não teve ela mais voz para responder-lhes que seus lábios
estavam gelados.

Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes
se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais
a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre
a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se
estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas
elétricas.

A mesma cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe
grácil de Berta, como se uma força única regera a vida
nessas duas organizações. Aí estava produzida ao vivo
a misteriosa identificação da mulher e da serpente, que deu
tema ao poético mito da tentação.

Lentamente a cascavel afrouxava os anéis em que enroscara o toro,
até que se espreguiçou ao longo pelo pavimento, pousando lânguida
sobre a tábua a cabeça chanfrada. Recolheu-se a língua
dentro da bainha, e esta desapareceu por baixo do focinho, que se abatera
flacidamente sobre a mandíbula.

Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se
uma flama trepida, por entre as titilações da membrana sutil,
que reveste a retina da serpente. Encadeada por esse fio luminoso ao olhar
cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado por
súbito lampejo.

Também a menina sofria a repercussão dessa influência.

As pernas trêmulas vacilavam; invadida por súbito desfalecimento,
vergou ao peso do próprio corpo, e convolveu-se como a campânula
que frange as pétalas para cerrar o cálice e pender murcha sobre
a haste.

Assim deixou-se Berta cair de joelhos e derreando sobre os calcanhares, foi
preciso apoiar-se com a mão esquerda no soalho, a fim de suster o busto,
que uma força misteriosa impelia avante, como para prostra-la de bruços
e colear-lhe o talhe.

Ainda assim não resistia de todo àquela poderosa atração.
Com o pescoço distendido, a cabeça lançada à frente,
mostrava a ânsia de arrastar-se para vencer a distância que a
separava da cascavel.

O desmaio da moça fora a princípio cheio de indizível
angústia; apoderou-se dela um incompreensível pavor; queria
fugir, e sentia-se elada a si mesma como a um poste de dor. Dir-se-ia que
duas forças divergentes, duas naturezas em reação, lutavam
dentro de sua alma e a dilaceravam, disputando-lhe o ser, como aves de rapina
que brigam pelo cibo.

Uma dessas naturezas abatia-lhe a fronte, que a outra porfiava em manter
excelsa; e estorcia-lhe o corpo feito para a estatura nobre e senhoril. Umas
vezes, presa da estranha vertigem, via-se em pé, diante de si mesma,
imperiosa e cheia de desdém, a esmagar sua própria cabeça.
Outras vezes transformada em vípera, eleva-se pelo colo da menina gentil,
que ela era, e conchegava-se ao tépido calor de um seio virgem.

Afinal, com um movimento hirto estendeu Berta o braço direito para
a cascavel, aberta a mão e crispados os dedos, no ímpeto de
tocar o rosto do réptil, ao qual tornou-se mais viva a trepidação
do olhar.

Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabeça, como se
arrastara um fio invisível, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse
instante havia Afonso enxergado o réptil; e se precipitara horrorizado
para despedaçar a porta,

Entretanto Berta, à proporção que avançava para
ela a boicininga, ia-se retraindo; erigia-se o busto, e ressurgia-lhe n’alma
essa elação que a desfere ao céu e que imprime na criatura
humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina têmpera
de seu caráter altivo e inflexível.

Quando a cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um
choque íntimo percutiu-lhe o corpo, e estorceu o toro da serpente.
Mas passou instantaneamente; o réptil elando-se pelo braço mimoso,
veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.

Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia;
a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis
acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão
que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.

IX

TRANSE

Enquanto rápidos corriam os últimos acontecimentos, Brás
erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a
cerca do pátio.

Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar à janela;
mas escorregava por falta de apoio ou saliência a que se agarrasse para
alcançar o batente. Afinal de um salto enorme logrou o intento; e pode
grimpar-se até o peitoril, onde agachou-se.

Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada
pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do
réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando
um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente
que lhe servia de látego.

Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de
que a ameaçara com seu desazo.

Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à
porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda
atirou-se a ela para abraça-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara
ouvindo abrir-se a porta.

Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando
Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu
látego vivo, a zunir pelos ares. Cheios de espanto, Linda e o irmão
seguiram com os olhos o vulto do idiota até que sumiu-se; e voltaram-se
para obter de Berta a explicação daquela terrível insânia
que eles não haviam compreendido.

Berta porém tinha desaparecido.

Restabelecida da fascinação que sofrera, recordou-se a menina
do motivo que a trouxera àquela alcova, e receando ter perdido muito
tempo, esgueirou-se ligeira pelo interior da casa para ganhar as plantações
e seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.

No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir
de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa
aquele zunzum, avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho,
que rosnava a sua monótona lengalenga em gíria africana.

– Psiu! fez a menina.

– Nhá moça?

– Vamos depressa que já perdi muito tempo.

Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua
figura de arco de pipa. Apesar da torção que lhe vergara o espinhaço
como uma hástea de taquaruçu, conservava ele ainda certa agilidade
nas gâmbias, que se moviam à semelhança das patas de uma
guaiamu.

Sulcava a capoeira um trilho estreito, porém muito batido a julgar
pela fita de argila socada e nua que serpejava, à guisa de um cipó,
entre a grama. Por aí tomou Quicé, e a menina o seguiu com tamanha
impaciência que sua mão sôfrega tocava amiúde o
liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginação
lhe representava Jão preso, algemado; quisera ter asas para voar.

Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia légua,
regaço da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura
já o machado havia desbravado do lado por onde vinham Berta e seu guia.

Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovão,
o que era para admirar-se, pois o céu estava límpido, e no azul
cristalino não se via capulho ou flocos de nuvens.

Entretanto o surdo trovão crescia e vinha rolando das profundezas
da floresta, mas contínuo, incessante, sem as intermitências
dos roncos da procela. A terra, como percutida por violento abalo, tremia,
reboando os ecos do estranho fragor.

De momento a momento condensava-se o hórrido estampido, que já
parecia fremir na orla da floresta. De repente surdiram do seio desse ribombo
e começaram a sulcá-lo, outros rumores estridentes. Ouvia-se
o estalo das ramas despedaçadas, como se o pampeiro fustigasse a floresta;
um áspero grunhido e também um ranger de ossos, que trazia à
mente espavorida os contos de cemitérios e duendes.

Involuntariamente o preto velho estacou, volvendo em torno de si um olhar
aflito. Súbito pavor lhe transtornara as feições, repuxando
as rugas da pele relha e borrando-lhe o negrume da cútis.

Surpresa com o estampido e assustada pela expressão de terror que
viu no semblante de Quicé, perguntou Berta:

– O que é?

– Queixada, respondeu o preto com a voz sumida.

Com efeito, da orla da selva rompia um bando de porcos do mato. Mais de cem
desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas
cerdas e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha,
trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso
arco de algum tamoio gigante.

Assim avançavam os ferozes queixadas, rompendo selvas, estraçalhando
quando encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula
bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste
ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do
arco se estorcem e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços,
como a isca à flor de tanque piscoso.

Era medonho o aspecto daquela serra navalhada a se estender pelo campo afora
com extrema rapidez. Berta compreendeu o perigo que a ameaçava e horrorizou-se
pensando no fim cruel que lhe fora reservado, e ali estava debuxado ante seus
olhos com vivo e temeroso relevo.

Tinha-lhe ferido os olhos o sangue coalhado na belfa de uma parte dos queixadas.
Pelo focinho, como pelas unhas dos mais ferozes, viam-se fragmentos de animais,
que pareciam cães, e também resto de um despojo que bem podia
ser de criatura humana.

A última esperança todavia ainda não desamparou o coração
de Berta ante esse quadro hediondo. Corajosa como era, quis salvar-se alcançando
um abrigo que a subtraísse à fúria dos caititus. Mas
na campina rasa poucas árvores perdidas se elevavam a trecho; dessas
a mais próxima, ficava-lhe a cem passos, e já vergava rapidamente
sobre esse ponto a ala esquerda da formidável falange.

O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refúgio e lutar de
velocidade com os queixadas. Tinha confiança em suas forças,
e contava alcançar a árvore antes das feras. Mas ao desferir
a corrida, acudiu-lhe à mente o preto, que havia esquecido nas angústias
daquele momento.

Abandonar o velho decrépito à fúria dos animais, não
lhe sofria o coração, e contudo uma voz impiedosa, a voz da
conservação, lhe exprobrava o sacrifício inútil
de sua existência. Há almas assim, que Deus apura no crisol da
abnegação, e forma para se derramarem como a luz, o ar, o perfume.

Travando o punho de Quicé, tentou Berta arrasta-lo em sua veloz corrida;
não tinha dado vinte passos, que reconheceu a impossibilidade do violento
esforço. O arco já se convolvia em caracol, fechando-a e a seu
companheiro em uma espira sinistra, que cerrava-se de instante a instante
como a constrição da jibóia em torno à presa.

Estacou a menina; cada passo a aproximaria da morte, que a espreitava por
todos os lados.

– Trepa na cacunda de Quicé! disse o preto velho.

Com o olhar agradeceu Berta ao mísero cativo, que na impossibilidade
de a salvar oferecia ao menos esse meio de retardar-lhe o martírio,
conservando-a suspenda nos ombros enquanto não o dilaceravam as feras.

Enfim já não é arco, nem mesmo cadeia, o que cerca os
dois infelizes; mas um turbilhão fulvo, que marulha, fossa, remoinha,
grunhe, amolando os colmilhos, e batendo o chão.

Estreitou-se Berta em suas roupas, como a virgem cristã no anfiteatro
romano; e pondo os olhos no céu, esperou o martírio.

X

A GARRUCHA

Não era natural a arrancada de tão numeroso bando de caititus
por aquelas paragens, fora da mata cerrada e próximo de habitações.

Houvera, porém, um motivo para essa alteração nos hábitos
dos filhos bravios das selvas.

Fora aquele dia, véspera de São João, o que marcara
Gonçalo Pinta para atacar o Bugre e agarrá-lo dentro da toca.
Nesse intento e valendo-se da espionagem que fazia desde muito, combinara
com Filipe um plano que não podia falhar.

O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata, entre as fraguras
de uma penha que lhe servia de baluarte e prolongava-se através da
floresta como a geba de algum monstro hirsuto.

Esse lado parecia a abrigo de qualquer ataque. Se da choça do capanga,
embora dificilmente, se podia galgar o rochedo, era isso impossível
da outra banda em que a penha se talhava a pique, em abrupto alcantil.

Gizou, pois, o Gonçalo que pela madrugada, Filipe com os companheiros
ganhariam as cabeceiras da mata virgem. Ocultos pelas brenhas se aproximariam
do penhasco e tratariam de tomar a saída do único desfiladeiro
por onde podia fugir o capanga.

Ao meio-dia, quando Jão Fera costumava descansar na grota, o Gonçalo
com uma troça de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela
frente, e o capanga, assim colhido, se entregaria vivo ou morto.

Partira o Filipe com sua malta à hora aprazada, e rodeou a floresta.
Por segurança levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar
o inimigo no caso de escapula. A matilha, tomando faro ao fartum que trazia
a brisa do fundo da floresta, colou e, embrenhada pela espessura, levantou
um bando de queixadas.

Acuaram as feras, voltando-se ameaçadoras. Avisados pelos latidos,
acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilha-la. Os
queixadas, porém, estavam enfurecidos e arremeteram estripando os cães.
Diante do perigo que corria, fugiu a gente; porém um dos companheiros,
jarretado pelas terríveis navalhadas, tombou e num momento foi despedaçado.

Então o bando feroz, acossado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras,
arremeteu através da floresta, grunhindo de sanha, e foi romper no
campo onde se devia representar o último ato do drama sanguinolento.

Resignada ao martírio, Berta erguera os olhos ao céu, pedindo-lhe
asilo para sua alma pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo
os queixos, já tocavam com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado
pela brisa.

Retiniu, porém, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais
da floresta como o berro medonho do sucuri quando surge à flor do imenso
lago. Pávidos estancaram os queixadas, erguendo a tromba ao ar para
conhecer donde provinha aquela ameaça.

Devorando a distância na corrida veloz, saltando por cima dos magotes
que encontrava em seu caminho, e às vezes fazendo do próprio
lombo das feras chão onde pisar, Jão precipitou-se enfim no
lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contritos.

Suspendendo a menina com o braço esquerdo, enquanto brandia o direito
a longa faca apunhada, o vigoroso capanga, aproveitando-se do espanto das
feras ante sua audácia, arrojou-se para a árvore mais próxima,
onde poderia colocar a menina a salvo de perigo.

Já ele transpunha a distância, quando ouviu-se um grito dilacerante:
o negro velho agitando convulsivamente os braços debateu-se no meio
dos queixadas, como um náufrago no torvelinho das ondas, e estrebuchou.

– Jão! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que
tombava.

– Não!

Perseguido pelas feras, bem via o capanga que não tinha tempo a perder;
a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando.
Se o envolvessem, tolhido como estava de um braço, corria grande risco
Berta, a quem a morte dele Jão, longe de salvar, roubaria a última
esperança.

Por isso recusou-se ao pedido da menina.

– Pois eu não o abandono!

Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do braço do Bugre,
para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse valer-lhe
naquele transe.

Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força,
atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o mísero Quicé
acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio
com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe, de um boléu,
como faria com uma pedra.

– Foje, bruto! disse ele à ossada que varava pelos ares e que estalou
entre os seus dedos.

E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da
destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais
de perto e com sanha terrível. Era muitos, porém; e toda sua
pasmosa agilidade não bastava para resistir ao aluvião de feras
que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com redobrado furor.

Entretanto, pai Quicé, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jão,
embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a árvore,
e pode a muito custo içar-se pela rama a um galho mais rateiro, onde
contudo estava a abrigo dos temíveis queixadas, que lhe tinham retalhado
o couro relho das canelas.

Aí refocilando na refocilando na egoística satisfação
de se ver a salvo do perigo, que ameaçava a outros, o paizinho contemplava
o combate de Jão Fera com os queixadas, como se fosse uma divertida
caçada.

Quando, porém, mais recobrado do abalo reparou na multidão
dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam,
o negro velho prevendo uma desgraça teve pena, e lançou os olhos
ao redor com ânsia, buscando a esperança de um socorro que ele,
débil e alquebrado, não podia dar.

Com efeito, já o sangue de Jão corria dos golpes, que recebera
nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros
sucediam-se, e outros, sem a menor intermitência. Era um ferir sem cessar.

Por vezes quis o capanga servir-se da mão esquerda, recomendando a
Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcançar
o rasteiro inimigo, e com a menina atravessada aos ombros para subtraí-la
ao furor de algum queixada, não se animara: temia que em momento de
susto, ela escorregasse ao chão.

– Nhazinha! disse Jão de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha
cintura a garrucha.

Com a sua habitual vivacidade e petulância dobrou-se Berta pela espádua
do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porém
não conseguiu.

– Como é, Jão?

– Ponha na minha boca, Nhazinha!

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão
de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que
os fez recuar de terror.

Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas
que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore.

Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa
avançada.

XI

A FURNA

Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da
folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.

Era a furna de Jão Fera.

Não tinha essa caverna traços de primitiva formação,
quando o fogo subterrâneo vazara o esqueleto granítico daquele
fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijão vulcânico, desses
que às vezes subvertem as entranhas da terra.

Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta
do rochedo.

Uma semente de jetaí, trazida pelo vento, caiu aí numa greta
da pedra e brotou. Cresceu a vergôntea, mas encontrou a escarpa saliente
da rocha que lhe ficava sobranceira, e foi insinuando-se por uma brecha do
alcantil.

Estorcendo-se como um cipó de umbê, para acompanhar as sinuosidades
do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido
entre a escacha da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava
sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de
pedra, e fez-se tronco.

Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhaço do
alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do
outro retida por uma aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa
na altura de alguns pés, formando assim a abóbada da gruta,
fechada em torno pelos rochedos abruptos.

Como uma poderosa alavanca trabalhara o tronco robusto do jetaí durante
longos anos para escalar o penedo; mas este, por sua vez, caindo sobre o rijo
madeiro, começou a verga-lo sob o peso enorme.

Resistiu a árvore por muito tempo; afinal a sua copa frondosa que
ensombrava a caverna reclinou-se para o abismo, onde não tardaria a
despenhar-se, arrastando-a, o estilhaço que ela escachara do rochedo
e sustinha aos ombros.

Foi então que Jão Fera, à procura de um esconderijo,
descobriu a caverna, e querendo conserva-la, atochou uma pedra roliça
entre a laje e o jetaí, justamente por baixo do ponto onde assentava
a abóbada.

Desse modo, enchendo o vácuo que havia sob a volta do tronco tortuoso,
e pondo-lhe uma escora, mantivera o capanga suspensa a grande lasca de rochedo;
mas o seixo que servia de esteio, podia a cada instante com o peso romper-se
ou escorregar esbarrondando a gruta.

Longe de inquietar, esta circunstância agradou ao Bugre, que dela se
aproveitara para a sua segurança, como ele a entendia.

Deitado na cama feita apenas de molhos de sapé estendidos sobre a
champa, Jão Fera com a cabeça na escabrura musgosa do rochedo
que lhe servia de almofada, via pela fresta da caverna quanto passava nas
faldas como nos píncaros do penhasco.

Quando por fatalidade o ameaçasse em seu covil tal força armada
que lhe tirasse os meios de salvação, no último transe,
perdida toda a esperança, bastar-lhe-ia deitado como estava meter o
pé com força no seixo, para que este rolasse e partindo-se o
tronco, o estilhaço tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.

Se antes, enquanto dormia tranqüilo, a pedra se deslocasse com a dilatação
do tronco, ou se aluísse a base sobre que assentava, nenhum cuidado
lhe dava isso. Para ele, Jão, a vida fora sempre um contínuo
perigo; sua índole precisava desse estímulo.

Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre
à falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros
mais conseguira livrar-se do bando de queixadas; e como um possesso deitara
a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das árvores próximas.

Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo
a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência,
até que ele parou no sopé do rochedo.

Então desprendendo-se de seus braços e travando-lhe das mãos
com veemência, exclamou:

– Querem-no prender, Jão! Fuja! Eles não tardam!

O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo menção
de afastar-se, todavia parou a alguma distância, como se mão
invisível lhe sofreasse a vontade. Assim permaneceu com o corpo lançado,
a fronte abatida, e a mão fechada a calcar o peito revesso.

– Você não tem medo? replicou a menina vendo-o parado.

– Medo!… murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!

Com efeito bambeavam os músculos dessa organização vigorosa
e atlética; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por
grande pavor, que derramava em suas feições e no seu gesto uma
espécie de alucinação. Parecia que o assombrava temerosa
visão ou que o esvairava algum horroroso pensamento.

– Jão, eu lhe peço, Jão, fuja!

– Sim… sim… balbuciou o capanga. Eu queria fugir… para bem longe…
Mas não posso! Não!

– Meu Deus, que tem você?

Esta exclamação, a arrancara dos lábios da menina o
espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente
e cravara nela um olhar ardente e sombrio, como a cratera de um vulcão.

Mal pensava Berta que naquele momento a ameaçava outra fera mais horrenda,
do que não era a terrível cascavel fascinada por ela, e os sanhudos
queixadas a cujas presas escapara um momento antes.

Seria então meio-dia.

A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e
contudo sentia Jão Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato
do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava
que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.

Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço
inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as
formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar
os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.

Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espáduas como um homem
que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.

Depois fechou os olhos e avançou.

XII

O ASSALTO

Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe
fossava o calcanhar.

Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rápida
corrida, focinhava os pés do capanga, estirando a tromba para o lado
do campo, e soltando um grunhido particular, se não era antes um burburinho.

Não hesitou Jão, à vista destes sinais. Tomando Berta
nos braços outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos,
agrupados na falda do rochedo, como os degraus de uma escada em espira; e
sumiu-se com a menina no bojo da caverna.

Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar
de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram
os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos
das árvores.

Houve um instante de silêncio.

As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imóveis, talvez à
espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta;
nem mesmo se lobrigava qualquer vulto por entre a espessura.

Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrás
do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte
do capanga podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.

Chegados à borda do mato, ficaram à espreita, com os olhos
fitos na solapa, que servia de entrada à caverna, e as espingardas
apontadas para aquele alvo aguardando um resultado, que não ousavam
provocar.

Tão preocupados estavam de sua própria segurança, que
não repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes
de uma escuridão profunda, desvanecera um tanto; indício de
que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se
fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia a claridade
exterior.

Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás
de grosso tronco de árvore:

– Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!

Não teve resposta essa intimação; mas a voz depois de
curta pausa continuou a bradar:

– Chegou o dia!… Vais sentir o gonzo deste braço, e saber para quanto
presta o Suçuarana! Agora é que se quer ver a fama! Salta cá
para fora, caborteiro, se és homem!…

Calou-se um instante o Gonçalo para escutar, e não ouvindo
rumor na caverna, prosseguiu:

– Estás com medo, hein!… A valentia que arrotavas de papo cheio,
fez víspora, não é? A coisa cheira a chamusco; e vais
tratando de por-te de molho. Pois olha, desta vez escusa de estares aí
embromando, que não escapas, nem por artes do diabo.

Cada vez mais animado com o silêncio e placidez que reinava na caverna
como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da árvore,
ao qual estava colado e lhe servia de guarita.

Agitando então os longos braços e batendo no chão com
a coronha da clavina, berrou ele:

– Estás filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem t’o diz sou
eu, Gonçalo Suçuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui
está para cumprir o prometido.

Ainda não teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo
desprendeu-se do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrépito,
aumentado pela natural repercussão do som nas grotas e barrancos do
serrote.

De um salto, digno de onça, que ele tomara por seu xará ou
tocaio, o Gonçalo alcançara o tronco protetor, e perfilou-se
ao longo dele por tal modo, que não lhe aparecia fora a aba do chapéu
sequer, ou a mínima dobra do poncho.

Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o começo das hostilidades
por parte de Jão Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna,
e o ouvido alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida
do inimigo.

Bem viam que o Bugre não cometeria a imprudência ou tolice de
apresentar-se em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se
como alvo aos tiros. Por isso, embora confiados no número, não
deixava de invadi-los um terror vago com a lembrança de algum assalto
brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos daquele sítio
escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.

Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silêncio
que sepultava constantemente esse ermo, e só era interrompido então
pelo zumbir das abelhas, ou pelo estalido das articulações dos
insetos a saltar sobre a grama.

– Qual! rascou o Gonçalo com seu costumado entono. O cabra não
se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu não brinco.

– Mas desta maneira não se arrocha o cujo! acudiu um da troça.

– Isso não! atalhou o Pinta. Aposto em como ele já se pôs
ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe
a coisa às avessas, que lá está da outra banda o Filipe
com os outros camaradas.

– Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha
onde está muito a seu gosto?

– Lá isso é verdade! Assim não se faz nada; é
preciso desencafuar o bicho!

– Então vá lá.

Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo
dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonçalo Pinta, que
mandava o assalto em berros formidáveis.

– Avança, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa,
antes que fuja o danado!

Apesar destas falas, o Gonçalo não se resolvia sair fora da
precinta da floresta; e o seu arrojo de ataque não ia além de
um passo distante do toco de árvore ao qual logo prudentemente se recolhia.
Bem desejava ele que os outros executassem as vozes de mando independente
de ato seu, mas não entendiam assim os camaradas que esperavam exemplo.

Cerca de uma hora decorrera nestas hesitações, quando ouviu-se
da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um
urro medonho.

Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes
e encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de
furor e sanha.

Assim foi com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos
companheiros:

– Está seguro o bicho!

XIII

LUTA

Penetrando na caverna, Jão Fera soltou dos braços a menina,
e rolou um grande calhau para trancar a entrada.

À interrogação inquieta que lhe dirigira Berta, respondera
ele com um modo brusco e um tom ríspido.

– São eles.

Arrimando então contra o alcantil o corpo, que sentia vergar ao próprio
peso, submergiu-se o capanga em profunda cogitação. A consciência
desse homem era um antro medonho e tenebroso, onde eles raras vezes penetrava;
e nessas ocasiões confrangia-se de terror o coração,
que nenhum perigo fizera nunca vacilar.

Berta, agitada por um receio que já se ia desvanecendo, mas viva e
estouvada até mesmo nas suas comoções, estava espiando
por uma fisga da rocha os movimentos dos assaltantes ocultos entre a folhagem.

Jão continuava absorto; e às vezes, seu olhar fincado no chão,
e tão pesado como um vergão de ferro suspenso pela extremidade,
se levantava para cravar-se no talhe gracioso da menina, que meneava-se com
vivacidade no esforço de alcançar a fenda do rochedo e enfrestar
ela a vista.

Sentia o capanga revolto dentro em si todo seu ser, que bramia como o oceano
proceloso, arrebentando contra as sirtes. Queria ele conter nas arcas do peito
aquelas vagas impetuosas; mas era vão o esforço, que não
tardava ser arrebatado por elas.

O toque suave do corpinho mimoso de Berta produzira nele uma embriaguez maior,
do que não tivera quando pela primeira vez tomara o gosto à
cachaça, ou aspirara o fumo do sangue.

Ele tinha sede; sede imensa, ardente, abrasadora, mas era sede de fogo: só
chamas poderiam aplaca-la.

Um turbilhão de pensamentos perpassava-lhe rapidamente pelo espírito
sombrio, como nuvens de borrasca se acastelam em céu chumboso. A terra
seca espera as primeiras gotas que a devem embeber; assim a alma de Jão
buscava em cada um desses pensamentos bálsamo para a dor cruciante
que o dilacerava.

A imagem de Besita, que invocara do fundo de seu coração, para
amparar a filha, contra sua loucura, e subtraí-la à raiva que
se apoderara dele, essa imagem querida, que adorara sempre, como uma santa,
lhe aparecia agora, por um incompreensível delírio, excitante
e provocadora.

Depois lembrando-se como Besita fora arrebatada a seu amor por um crime,
sem que ele a pudesse nem defender, nem vingar, associava esse horroroso acontecimento
ao perigo que tinha pouco antes corrido Berta e ao qual sucumbiria se por
uma casualidade não chegasse a tempo de socorre-la.

Como sua mãe, Berta se partiria deste mundo e o deixaria só,
com aquele amor insano. Era preciso que ela lhe pertencesse, que ela a unisse
à sua existência para sempre, a fim de protege-la a todo o instante.

Ali estava a floresta; além o sertão imenso.

Ergueu-se o capanga; mas não teve força de promover um passo.
Berta voltara-se de chofre, e caminhava para ele risonha, embora com ligeira
palidez nas faces. Colou-se Jão à rocha com tal ímpeto
que parecia embutido nela.

– Eles apontaram as espingardas para cá! disse a menina. Venha ver,
Jão!

E ela segurou com sua mãozinha delicada o grosso pulso do capanga,
a fim de trazê-lo à fenda por onde estivera espiando. Deu o Bugre
um salto espantoso, arrancando o braço dos dedos mimosos, como se estes
fossem rijas tenazes que lhe triturassem os músculos com dores atrozes.

Algum tempo errou o capanga pela caverna, roçando ou batendo pelos
alcantis à semelhança da fera, que palpa os varões do
cárcere em que a prenderam. Dera ele tudo para ver-se naquele instante,
longe, bem longe dessa furna, onde rugia a paixão indômita; e
contudo não se resolvia a fugir.

Sucedeu cair seu olhar sobre o seixo que servia de escora ao tronco do jetaí;
e uma idéia horrível atravessou como um relâmpago pela
noite do seu pensamento. Lembrou-se de fazer saltar a pedra.

Desabaria o estilhaço de rocha, que servia de abóbada à
caverna, esmagando a Berta e a ele; mas era justamente essa catástrofe,
que lhe sorria, como um céu azul, no meio da sua terrível alucinação.

A morte os uniria para sempre, livrava a Berta de uma desgraça e a
ele de um atentado espantoso. A filha de Besita deixaria o mundo como sua
mãe, pura e adorada por ele, mas sem amar a outro, sem condena-lo ao
suplício atroz que sofrera por tanto tempo.

Com os olhos fitos no recanto da caverna, estas cismas se atropelavam no
cérebro do capanga, que sofria nesse momento uma completa subversão
do senso íntimo.

Através do delírio que o esvairava parecia-lhe que o seixo
bruto animava-se, vivia, agitava-se; e ele, Jão, tornava-se uma coisa
inerte, uma alma sem movimento.

Pouco antes o compelia um ímpeto poderoso de precipitar-se para a
pedra, agarrá-la com ambas as mãos, para atirá-la ao
despenhadeiro, derrocando dum jacto a caverna.

Agora, porém, era a pedra que arrojava-se para ele, travava de suas
mãos, e com elas arrancava-se dali, de onde estava, para aluir a gruta
e sepultá-lo vivo sob a pesada abóbada.

E ele que reagia contra o impulso que o arrastava, agora pasmo e sucumbido
abandonava-se àquela obsessão. Involuntariamente, como um autômato,
se aproximava do seixo, acreditando em sua insânia, que era o seixo
e não ele, quem se movia.

Continuava Berta a olhar pela fresta, atenta às ameaças do
Gonçalo; e Jão, pasmo, sombrio, abatido, avançava lentamente
aos trancos. Já ele tocava o seixo, e curvava-se.

Nesse momento Berta soltou um pequeno grito, e correu a esconder-se junto
do Bugre:

– Eles vão atirar, Jão! exclamou ela.

– Nhazinha tem medo de morrer? perguntou o capanga.

– Tenho, sim! respondeu a menina assustada.

A expressão de receio, que se desenhava em sua fisionomia, a salvou.
Jão ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstruía uma
solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava com a próxima encosta,
e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.

Foi então que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente
de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.

Por atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta e conduziu
a menina até as plantações da fazenda; aí despediu-se
dela com estas palavras, proferidas em profunda entonação:

– Nunca mais, Nhazinha, ande só por estes matos.

XIV

O BEIJO

Brincando e cantando, atravessava Berta os cafezais, já esquecida
dos lances que passara, e contente por ter deixado Jão escapo.

Sobressaltou-a, porém, o ramalhar das árvores, agitadas por
forte impulso; cuidando que a ameaçava novo perigo, voltou o rosto
para descobrir a causa do rumor.

Devia ser ameaçador o que viu; pois desfechou numa carreira cega por
entre o arvoredo, sem embaraçar-se com as vergônteas a lhe baterem
no rosto, e os gravetos que rasgavam a saia de seu vestido novo de cassa.

Amiúde olhava para trás e redobrava de ligeireza, sentindo-se
perseguida por um inimigo que vinha sobre ela com extrema velocidade e não
tardaria a alcança-la.

Com efeito já o estrépito dos passos no chão se confundiam;
e soava a seus ouvidos o sussurro da respiração que resfolgava
com o esforço da corrida.

Ouviu-se um grito de susto.

Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braços
de Afonso, como a rola nas mãos do travesso menino; mas não
podia estanvar o riso brejeiro que, represo nos lábios mimosos, lhe
estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.

– E agora! exclamou o rapaz apinhando os lábios num beijo papudo.

– Ai!

Soltando este chilro, a menina arrepiou-se toda, como para esconder-se em
si mesma, e fechou os olhos.

Decorrido algum tempo, e admirada de não sentir na face calor algum,
nem ouvir o estalo que esperava, abriu o cantinho do olho, e viu o camarada
confuso, tímido, com a vista baixa e o rosto vermelho como um chichá.

O brincão do rapaz, tão desembaraçado e atrevido, quando
bolia com Berta em presença da irmã ou perto da gente, agora
que se achava só com a menina, a grande distância de casa e num
sítio ermo, tomara-se de um súbito enleio, e mostrava-se constrangido.

Foi a muito custo e para disfarçar o acanhamento que ele, desviando
o rosto, disse à menina:

– Você não me quer bem!

– Quero, sim! acudiu a moça que recuperara sua travessa isenção.

– E a Miguel?

– Também!

– Mas Miguel é quase seu irmão.

– E você?

– Eu não! replicou vivamente Afonso.

O dito de Berta sem dúvida o molestara; pois tão prontamente
e com tamanho calor o contestou ele. Ficou séria a menina, a qual lhe
tornou já amuada:

– É sim!

– Mas… arriscou Afonso titubeando, os irmãos… não… se
casam, Berta.

– Porque não é preciso! replicou a travessa com um arzinho
arrebitado, que enfeitiçava.

– Como assim? interrogou o rapaz cujos dezoito anos se maravilhavam da importante
descoberta feita pela menina.

– Pois então! Os irmãos não vivem juntos? Não
brincam diante de todo mundo, como nós fazemos? Quem não sabe
que a gente se quer bem? Mas ninguém fala mal por isso. Casar para
que? Agora, aqueles que estão longe, que tem vergonha de se gostarem,
é outra coisa; carecem perder o medo. Como Linda e Miguel! Estes, sim,
precisam muito!

– É verdade!

– Não vê como ela anda sempre desconsolada e ele tão
macambúzio?

– Então nós, Berta… não precisamos? insistiu Afonso.

– Não sei! Linda há de estar cansada de esperar-me! respondeu
a menina com jeito de afastar-se.

Atalhou-lhe Afonso o passo.

– Não deixo!

– Solte-me, Afonso! disse Berta querendo desprender o braço da mão
do rapaz.

– Dá o que prometeu?

– Que sabido! Não prometi nada!

– Então eu tomo!

– É capaz? disse Berta em tom de desafio.

– Eu tomo mesmo!

E o maganão enlaçou com o braço a flexível cintura
da menina, que dobrou-se com a haste da gracíola, para esquivar o rosto
aos lábios cobiçosos do saboroso encarnado.

– Eu grito! Disse ela.

– Que me importa.

– Por vida de D. Ermelinda, Afonso!

– Não quer que eu tome à força? Pois me dê por
sua vontade!

– Eu dou.

– Então venha.

– Logo.

– Há de ser já.

– Daqui a bocadinho.

– Assim não vale o ajuste. Dá ou não?

– Um só!

– Um para começar.

– Aonde?

– Espere, que eu lhe mostro!

– Não quero mostras, fale.

– Aqui!

– Na boca? Logo não vê!

– Que tem?

– Se quiser, há de ser no… no… na… Feche os olhos!

– Para que?

– Então não dou!

– Você quer me lograr?

– Palavra!

De arrogante que estava poucos momentos antes, tornara-se o Afonso novamente
submisso, e tímido suplicava a carícia de que ameaçara
a menina, prestando-se humilde a todos os seus caprichos e negaças.

Fechou ele os olhos, e Berta cerrando-lhe por cautela as pálpebras
com a palma da mão esquerda, acenou um beijo, que derramou-lhe nas
faces tépida fragrância. Mas antes que os lábios tocassem
a macia penugem, caiu-lhe sobre a orelha um piparote, que por ser de unha
rosada e faceira não deixou de doer, tanto como dói um espinho
de rosa.

Quando Afonso, arrebatado ao enlevo da carícia que já libava
no hálito perfumado, deu acordo de si, tinha-lhe fugido a menina dentre
os braços, e uma risada fresca e límpida trinava ali perto,
entre as moitas.

Este logro abateu o gênio folgazão do moço. Em vez de
correr após a menina e desforrar-se da peça que lhe acabava
de pregar, deixou-se ficar tristonho e aborrecido. Era o amor que assim esfumava
com laivos de melancolia os brincos e travessuras da adolescência.

Vendo o camarada ressentido, não se conteve Berta que o ficara espiando,
partida entre o prazer da pirraça e o susto da desforra com que ela
contava.

Aproximou-se compadecida; e com uma graciosa inflexão da fronte docemente
enrubescida e uma gentil expressão de ternura e bondade, pousou os
lábios na face do mancebo.

– Está; não fique zangado!

Estremeceu Afonso. A fronte reclinando com o enlevo da carícia repousou
lânguida sobre a formosa cabeça da menina, cujos cabelos anelados
amaciava com a mão trêmula. Assim o cedro alterneiro, se o cortam
pela raiz, entrelaça as ramas da copa frondosa às grinaldas
do cipó florido.

Quanto a Berta, conchegada ao seio do mancebo, ria-se maliciosamente para
disfarçar o rubor; e lançava de esguelha um olhar brejeiro ao
semblante do camarada.

De chofre repeliram-se um ao outro.

Miguel estava em face deles.

XV

CONFISSÃO

Miguel estava pálido, que assustava; os lábios trêmulos
não podiam pronunciar uma palavra. Conhecia-se o esforço que
ele empregava para conter o ímpeto de sua cólera.

Afonso ficara confuso; e com os olhos vagos e o gesto constrangido, cogitava
um pretexto para retirar-se; mas nem um lhe acudia.

Foi Berta quem primeiro recobrou-se do soçobro.

– Que anda fazendo, Miguel?

– Vim procurá-la. Em casa estão todos com cuidado.

– Não tenha susto que eu não me perco! replicou a menina sorrindo.

– Você não vem, Berta? perguntou Afonso.

– O senhor não veio só? Pode voltar do mesmo modo.

Aproveitou Afonso a despedida para afastar-se desse lugar onde em verdade
não estava a gosto. Ainda indeciso, parando de instante em instante,
à espera dos outros, encaminhou-se para a casa.

Berta, ficando só com Miguel, contemplava o semblante abatido do mancebo,
e condoía-se da mágoa que tinha involuntariamente causado.

– Que tem você, Miguel?

– Ainda pergunta, Inhá?

– É porque eu quero bem a Afonso?

– Não carece dizer; eu já sabia.

– Mas eu também lhe quero! disse Berta com encantadora singeleza.

– Como a ele? perguntou vivamente Miguel.

Corou Inhá, lembrando-se do beijo dado na face de Afonso, o que ela
nunca se animaria a fazer com o filho de nhá Tudinha, apesar de ser
este seu colaço.

Tornou Miguel com um modo sentido e grave:

– Não se pode querer bem assim, Inhá, senhão a uma pessoa:
aquela que se escolheu para marido.

Berta soltou uma risada zombeteira:

– Como Linda quer a você, não é?

– Tantas vezes que lhe tenho pedido para não repetir esse gracejo!
Mas como sabe que ele mortifica-me, por isso mesmo não o esquece.

– Você é um ingrato, Miguel! disse Berta com a voz queixosa
e um suspiro que partia do íntimo d`alma. Não para o amor que
lhe tem!

– E sou eu só o ingrato?

– Se soubesse o bem que Linda lhe quer. Ainda hoje estava tão tristezinha
por sua causa, pensando que você não gosta dela!… Mas eu consolei
aquele coraçãozinho, e prometi-lhe que você havia de confessar…

– Fez mal, Inhá, muito mal.

– Não tem pena daquela santinha?

– E de mim? Alguém tem pena?

– Tenho eu, que hei de fazer tudo para que você gosto só e só
de Linda.

– Não era mais fácil gostar um bocadinho de mim, que lhe quero
tanto, Inhá?

– Gosto muito; e por isso mesmo o quero dar à minha Lindazinha.

Fitou Miguel no semblante de Berta um olhar surpreso. As palavras da menina
lhe pareciam remoques; e, todavia, era a voz repassada de tanto afeto e sinceridade!

Mais surpreso ficou vendo a efusão de meiguice e ternura que havia
no rosto gentil, salpicado quase sempre de graciosa malícia.

– Obrigado, murmurou Miguel afastando-se com despeito.

– Escute, Miguel, disse Inhá pousando a mão carinhosa no ombro
do moço para retê-lo. Você há de gostar de Linda!…
Me promete, sim? Você já gosta dela… Há quem possa resistir
àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da
gente. E a boquinha?… É um torrãozinho de açúcar
escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz cócegas no coração!
Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar tão engraçado,
um andar tão faceiro, que encanta!

Este esboço, Inhá o fazia ao vivo, e não só com
a palavra cintilante, mas com o gesto animado, e o requebro do talhe esbelto.
Era ela a própria cera, da qual a sua mímica ia esculpindo a
estátua famosa de Linda, com as doces inflexões das formas,
o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso.

Miguel fascinado, rendido, já não resistia com efeito; e nesse
momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha
diante dos olhos, e não a outra que vira ao natural, tímida,
com as pálpebras cerradas, o lábio trêmulo, e o gesto
constrangido.

A mulher que ele adorava nos sonhos de sua juventude, o tipo de sua ardente
imaginação, realizava-se naquela moça que vazara a inefável
ternura de Linda na graça e gentileza de Berta; e não era uma
nem outra, mas a transfusão dessas duas almas em uma beleza sedutora.

Preso dos olhos ao lindo semblante da menina, e suspenso de seu lábio
gazil e mimoso, foi Miguel seguindo-a, sem consciência do que fazia.

Próximo à casa ouviu Berta uns risos e cochichos por trás
da folhagem; e disfarçando para não despertar as suspeitas de
Miguel, aproximou-se da ramada, donde ela pressentira que a estavam espreitando.

E não se enganava. Linda, impaciente com a ausência de Berta,
não vendo chegar Afonso que fora em busca da travessa, tinha saído
de casa a pretexto de passeio, com o fito de descobrir alguma coisa.

Em caminho encontrou o irmão, que recobrado já do acanhamento,
ardia por dar expansão ao gênio alegre, por um instante sufocado.
Escondeu-se o folgazão do Afonso com Linda para espreitar o que diziam
Berta e Miguel.

Tão embevecido estava este na magia do sorriso da companheira, que
apesar de caçador, não percebeu o farfalhar das folhas agitadas
pelo buliçoso rapaz e o sussurro dos segredinhos de Linda no ouvido
do irmão.

Então, disse Berta para Miguel: confesse, você gosta de Linda?

– Gosto! respondeu o moço com um sorriso.

– Muito?

– Muito!

Voltou-se Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo
o vulto de Linda:

– Não lhe disse, Linda? Veja que não a enganei.

Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda
através do sorriso fascinador de Inhá.

Dirigiram-se todos à casa. Berta com o braço passado à
cintura de Linda, achava meio de aproximar a amiga a cada instante de Miguel,
entrelaçando as mãos de ambos.

O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confusão de que se
aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria
unir.

Assim chegaram à casa, onde já se aprestava o suntuoso banquete.

XVI

SÃO JOSÉ

No terreiro das Palmas arde a grande fogueira.

É noite de São João.

Noite das sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos.

Noite das ceias opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados
e tantos outros regalos.

Noite, enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros
e estrepolias.

Outrora, na infância deste século, já caquético,
tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos comilões
e dos meninos, que arremedavam uns e outros.

As alas da labareda voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas
que farfalham ao vento na riçada cabeça de linda caipira, derramam
pelo terreiro o prazer e o contentamento.

Não há para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da
labareda, nas faíscas chispando pelos ares, nas vivas ondulações
da chama a crepitar, há como um riso expansivo que se comunica à
nossa alma e influi nela uma trepidação brilhante.

A luz é a vida; mas a chama é o júbilo, a cintilação
do espírito.

Formosa perspectiva tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim
iluminada pela fogueira.

Uma linha de jeribás corre-lhe em frente, moldurando com as verdes
arcadas a volta das janelas, o que dá ao edifício graça
e chiste especial; pois enfeita a simples arquitetura com os florões
e recortes das palmeiras.

A meio terreiro, de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros,
pintados com listrar de escarlate e branco, traçadas em espiral.

No tope do outro mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca
de pano, naturalmente cheia de pólvora.

A festa da sala é cidadã. Damas e cavalheiros tiram sortes,
cerimoniosamente sentados em volta de uma mesa; ou dançam quadrilhas
e valsas figuradas; enquanto pelos cantos os velhos fazendeiros falam a respeito
das carpas, da nova flor do café, e das geadas, seu constante pesadelo.

No terreiro folgam os rapazes que acham mais graça na função
campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos oráculos
da fogueira, saltando-a de corrida, e passando nela o ovo, que há de
ficar ao relento à hora fatídica da meia-noite.

Entre estes lá estão Afonso e Miguel, preparando-se com outros
companheiros a mostrar quem tem mais certeira mão, para incendiar com
um tiro a garrida boneca suspensa ao tope do mastro.

Muitas moças também fugiram da sala para acompanharem os folguedos
dos rapazes, nos quais porventura acham mais encanto do que nas danças
tão monótonas, quando não têm o sainete do amor.

A primeira foi Berta, e Linda a acompanhou pressurosa. Apesar da insistência
com que D. Ermelinda procurava entretê-la na sua roda, a menina a pretexto
de estar com a amiga, não saía do terreiro; e se alguma vez
entrava na sala era para eclipsar-se logo.

– Quem há de ser o primeiro? perguntou Afonso armado com a sua clavina.

– Eu! responderam uníssonas as vozes dos companheiros.

Só uma não se ouvira; era a de Miguel; mas não fora
esquecido seu nome. Linda o pronunciara timidamente entre um sorriso e um
rubor; e Berta o repetira em voz alta:

– Miguel!

– Eu serei o último! disse o moço com modéstia, que
porventura disfarçava um desejo de primar.

Como último podia algum dos companheiros priva-lo da vez, e impedi-lo
de mostrar a sua destreza; mas também se nenhum lograsse tocar o alvo,
maior triunfo alcançaria, conseguindo o que fora impossível
aos outros.

Não era lanço tão fácil como parecia, embora
para destros atiradores. Se a boneca apresentava boa margem à pontaria,
só em um ponto, no peito cheio de pólvora, podia a bucha da
espingarda incendiá-la; às roupas, molhadas pelo relento, dificilmente
se comunicaria a chama.

Por isso diziam os rapazes a galhofar, enquanto preparavam as clavinas:

– No coração da moça!

E todos ardiam em desejos de acertar, como um bom presságio da chama
que haviam de atear no coração das namoradas, durante aquela
noite de risos e folgares.

Foi Afonso quem primeiro atirou.

– Não acertou! bradaram satisfeitos os competidores.

– Lá está! gritou o atirador com ar triunfante apontando para
a boneca.

De feito na saia de cassa branca aparecia uma centelha inflamada, que lançava
de si algumas chispas, como fogo que se ateia. Durante alguns momentos os
olhos dos rapazes estiveram presos daquele ponto luminoso, enquanto batia-lhes
o coração com receio de que, incendiada a pólvora, voasse
a boneca pelos ares, ficando malograda sua esperança.

– Apagou-se! exclamou Berta.

– Quem lhe disse? retorquiu Afonso.

– Apagou-se, sim! acudiu Linda batendo as mãos de prazer.

Em verdade a fagulha, que ardia na roupa da boneca, depois de bruxulear um
instante, se extinguira de todo. O tiro de Afonso batera no tope do mastro;
e fora apenas um morrão da bucha que saltara na saia molhada pelo sereno.

Uma algazarra dos rapazes festejou a derrota de Afonso, que voltando-se para
a irmã, disse-lhe à meia voz, fingindo-se agastado:

– Está muito contente, hein! Cuida que há de ser Miguel? Pois
vá perdendo a esperança!

Linda respondeu-lhe com um momo gracioso, enviando um sorriso a Miguel, que
estava a seu lado, entre ela e Berta.

– Assim é que me paga, eu ter torcido por você!

– Pois não; foi você mesmo que me encaiporou!

Continuou o folguedo; todos os rapazes atiraram sucessivamente e com vária
sorte. Uns acertaram na boneca, mas não conseguiram incendiá-la;
outros apenas se lhe aproximaram; e muitos andavam tão por longe que
pareciam atirar à catacega. Estes eram apupados com estrepitosas gargalhadas
e toda a sorte de motejos e gritaria.

Chegou por fim a vez de Miguel.

O caçador recebeu a clavina das mãos de um companheiro; carregou-a
com a maior presteza, e levando-a ao ombro, desfechou o tiro sem hesitação.

Um jorro de chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava
pelos ares, esfuriando aljôfares azuis, verdes e escarlates, que listraram
a treva da noite e correram pelo espaço trêmulas e cintilantes
como lágrimas de estrelas.

– Bravo! gritaram em coro os rapazes.

– Viva o Miguel! bradava Afonso abraçando o amigo.

As moças batiam palmas, chilrando de folia e contentamento; sobretudo
Berta, que parecia uma criança, a dar piruetas no terreiro, estalando
castanholas nos dedos e dançando o fado com Afonso.

Linda ficou séria; mas sua alma coada em um olhar inefável
embebeu-se no semblante de Miguel.

XVII

CRAVO BRANCO

Ainda não se tinham desvanecido as emoções do primeiro
páreo, que outra sorte mais engraçada punha em alvoroto a rapaziada.

A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca,
era oca, e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos
e outras galanterias para quem fosse capaz de alcança-las trepando
pela haste do pinheiro.

Não era pequena façanha essa; pois além da altura, o
pau fino e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem
bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem içando
à guisa dos marujos.

Este folguedo, reminiscência de antigos jogos de nossos avós,
e ainda em voga em outros países com o nome de mastro de cocanha, divertia
muito os rapazes, pelo seu chiste e novidade.

Se sucedia algum, apesar de seus esforços, escorregar de repente pelo
pau abaixo quando estava já bem próximo de atingir a meta; ou
se outro mais lorpa não conseguia suspender-se do chão, e ficava
a patinar ao pé do mastro, tentando debalde sungar-se; eram chascos
e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da porfia.

Mas nem por isso desanimavam os rapazes; e repousadas as forças tornavam
à empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior derrota,
e conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem à
namorada.

Aproximando-se do mastro e rodeando-o, tinham os moços deixado sós,
no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel.

Os dois estavam próximos e quase se tocavam; por um impulso comum,
ambos fugindo à grande claridade, haviam procurado o tronco de uma
palmeira, cuja sombra derramava sobre eles doce crepúsculo, enquanto
a haste servia-lhes de abrigo contra os olhares curiosos.

Miguel ainda bebia o sorriso de Linda; e ela inebriada pelo triunfo que o
moço alcançara, deixava-se libar pelos ternos olhos, como a
flor acariciada pelo vento, que se dilui em perfumes.

Logo, porém, que o afastamento dos companheiros deixou-os sós,
insensivelmente se retraíram. O braço de Miguel, que sentia
ao roçar dos folhos da manga de Linda uma sensação deliciosa,
estremeceu; de seu lado vexou-se a menina com esse frolo sutil das pregas
de seu vestido, que antes ela recebia como uma doce carícia.

Quando a presença de tantas pessoas os separava, suas almas se estreitavam
no olhar, se conchegavam no sorriso; e queriam influir-se uma na outra. Agora
que nada se interpunha a elas, o isolamento as assustava; tinham medo de si
mesmas.

– Não vai também ganhar sua flor? disse Linda indicando o mastro
com um aceno de fronte.

– Quer uma? perguntou Miguel com gesto de reunir-se aos companheiros.

Ressentiu-se a menina daquele pretexto do moço para retirar-se, arrependida
de o ter oferecido. Mas pensava que ele não aceitaria tão pronto.

– Para quê? Eu tenho esta que é tão bonita! acudiu ela
mostrando um cravo branco, que lhe enfeitava o trespasse do lindo corpinho
de cassa. Não é?

– Muito! balbuciou Miguel que vira não a flor, mas a polpa rosada
do colo mimoso, debuxando-se entre as preguinhas do decote.

– Sabe o que significa?

– Não.

Frisaram-se os lábios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas
como as pétalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando apenas
escapar o perfume. Reclinou ela a fronte vergonhosa e repetiu dentro d’alma
o que se não animara a dizer.

Como se operou tão rápida a transformação de
Miguel que até a véspera esquivo e reservado com Linda, agora
preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se querido, e esquecia
Berta, que ainda pela manhã lhe cativara o coração?

O mesmo é perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança
na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes lá
fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, até que o céu lhe
manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.

Assim aconteceu com Miguel. O germe desse amor, há muito o guardava
no coração, desde que admirara pela primeira vez a beleza de
Linda. Mas o afastamento natural em sua posição inferior; as
suscetibilidades próprias de um caráter nobre; e, mais ainda,
a sedução irresistível que exerciam em sua jovem imaginação
a graça e lindeza de Inhá, tinham sopitado esse amor à
nascença.

Quisesse Berta que Miguel não amaria senão a ela, e esqueceria
de todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si o afeto,
só o queria para a amiga, cujo segredo ela pressentira havia meses.

Desde então se desvelara Inhá com extremosa solicitude em grajear
para Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho
encontrava um obstáculo, que era sua própria gentileza, na qual
se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado soube tirar partido.

A beleza de Linda era para a imaginação ardente e poética
de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; estátua de jaspe imersa
na sombra. Berta o compreendeu; e fez de sua alma a centelha que devia animar
o mármore.

Inspirado artista, ela tirou de sua graça, como de uma rica palheta,
as cores mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou nos
lânguidos olhos da amiga as rutilações de sua pupila brilhante;
e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os lábios onde se aninhara
o suspiro.

De cada vez, um traço do ideal se estampava na fantasia de Miguel,
que muitas vezes surpreendia sua alma na contemplação dessa
virgem desconhecida, em que a formosura de Linda se perfumava com a faceirice
de Inhá.

Naquela manhã, tinha Berta tentado mais uma vez a transfusão
de seu espírito gentil na serena beleza da amiga, e então a
favoreceu o acaso, fazendo que Linda se aproximasse, e que Miguel ainda fascinado
pelo retrato que ela esboçara, visse graciosa e encantadora a virgem
dos seus amores.

A confissão arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto.
Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno
como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes
a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa
manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e perfume
uma auréola celeste.

Miguel embebeu-se na adoração dessa beleza, que se revelava
pela primeira vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em
que se trocava com Linda frases truncadas.

A moça havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma,
roçando-o pelos lábios.

– Não disse o que significa? insistiu Miguel.

– O senhor sabe.

– Eu não! respondeu o moço com um sorriso.

– Sabe sim!

Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios
de Miguel, enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.

– Casamento? balbuciou uma voz submissa.

Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente
escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão
trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão.

– Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.

Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no
decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura.
Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com
efusão.

Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de
melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho.
Mas a mão comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume que
se desprendia em um suspiro.

XVIII

REVELAÇÃO

Berta erguera-se, relanceando em torno um olhar sôfrego.

O que procurava ela?

Um brinco, um prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia
apoderar-se de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre
tão jovial, ela em cujo lábio o sorriso borbulhava como onda
perene, não encontrou um folguedo que a atraísse.

Descobrira, porém, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brás,
que roÍa um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha
devorado. Nessa ocupação, esgrimindo os queixos e coaxando a
língua, não desprendia ele os olhos do rosto de Berta, cuja
melancolia se refletia na obscuridade de sua alma, como se reflete na face
da terra a sombra da nuvem que intercepta os raios do sol.

Chegou-se a menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que não
encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição
generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura. O desânimo
a invadira, acreditando estar só no mundo; mas já não
o sentia, pois sua alma tinha ainda uma dedicação para a ocupar,
e sacrifícios em que derramasse os mananciais inexauríveis de
sua bondade e ternura.

Afagou o idiota com as palavras meigas, de que seu lábio tinha o condão;
e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam. Já
que não podia caber àquele ente infeliz outro quinhão
nessa noite de tamanho regozijo para todos, ao menos lhe reservava ela seu
carinho.

Não se teve, porém, a menina que não volvesse outra
vez os olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com os
estremecimentos íntimos da planta que a manhã orvalha, e a fronte
de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de Miguel, que reclinava-se
por detrás da haste da palmeira para falar-lhe ao ouvido.

De novo aflou o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro,
recalcou; mas já não pode desprender o pensamento das cismas
em que se enleara, a ponto que não viu o Brás esgueirar-se pela
sombra e sumir-se.

Que passava na alma da menina?

Não fora ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirável
paciência durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois
namorados?

Não era obra sua esse amor, que ela própria embalara como um
filho querido, nutrindo-o de suas carícias, enfeitando-o com seus encantos,
vivendo e sorrindo-se nele?

Como agora, obtido o êxito de seus desvelos incessantes, em vez da
satisfação de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe
o coração com o quadro suave do mútuo afeto, que ainda
naquela manhã luzia-lhe na imaginação qual doce esperança?

Parecerá excêntrica e até incompreensível esta
situação da alma de Berta naquele instante: entretanto nada
mais lógico e natural.

Tinha a menina por Miguel uma dessas afeições de infância,
puras, calmas e serenas, primeiros botões, dos quais ninguém
sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, se uma paixão ardente.

Adivinhando um dia que Linda gostava do moço, em vez de zelos sentiu
contentamento de ver querido seu irmão de leite e companheiro de infância.
Talvez que ela com sua ingênua admiração bafejasse, no
coração da amiga, aquele afeto nascente, retocando com os lumes
de sua graça o nobre perfil do mancebo.

A natural esquivança de Miguel trouxe as desconsolações
de Linda, que se julgava desdenhada, e vertia no seio da amiga a confidência
dessas mágoas. Agoniava-se Berta com essas névoas de melancolia,
que ensombravam a fronte da moça; e, para desvanece-las, ia pedir um
olhar, uma palavra ao mancebo.

Apesar de ter recebido uma instrução regular, que sua inteligência
brilhante desenvolvia com o estudo possível ao lugar onde habitava
e às suas condições de fortuna, conservava Miguel certos
hábitos que, durante a infância, se incrustam na individualidade,
da qual dificilmente os arranca mais tarde a própria vontade.

Esses cacoetes de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educação
esmerada, que recebera de sua mãe, dera a fina flor das maneiras e
imprimira o tom da mais pura elegância.

Quando Miguel a tratava de mecê, ou enrolava diante dela a palha de
um cigarro, o coração da menina apertava-se com agastura indescritível,
e ela sofria desgosto igual ao que lhe causaria uma nódoa caindo no
mais bonito e faceiro de seus vestidos.

A repetição dessas pequenas decepções acabaria
sem dúvida por delir completamente n’alma de Linda a imagem de
Miguel. Berta o percebeu, e desde então empenhou-se em desbastar as
asperezas que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.

Não lhe era difícil transmitir os toques da elegância
que, ao contato de Linda, prontamente se comunicara à sua alma, de
tão pura gema como a dela, embora não a polisse o amor de mãe
prendada e rica.

A dificuldade estava em sofrer o gênio esquivo de Miguel esse desbaste
de costumes e maneiras, que se tinham impregnado em sua natureza, que faziam
parte de sua pessoa, e o tinham formado à semelhança de seus
patrícios e camaradas. Mudar esses modos era quase renegar o exemplo
de seu pai, as tradições de sua terra, e envergonhar-se de ser
paulista, o que bem ao contrário lhe inspirava um justo orgulho.

Não resistiram, porém, estas suscetibilidades ao encanto de
Berta. Soube ela provar a Miguel que, antes de ser paulista da gema, era homem
e devia render preito à beleza e ao capricho da mulher. Com que raciocínios
chegou a essa conclusão, bem se adivinha; o cérebro feminino
é uma roda movida pela manivela do coração.

Nessa metamorfose de Miguel, cuidou Berta que apenas a movia o desejo de
contentar Linda; mas, sem o sentir, era também levada pelo prazer recôndito
de ver seu irmão de leite subir na estima geral e primar entre os outros
moços.

Queria-lhe muito bem, a ele, como era então; porém, mais lhe
havia de querer, quando fosse o que ela desejava.

Tudo isso fizera Berta para que Miguel e Linda se amassem; fora ela quem,
diligente abelha, fabricara, sugando as flores de sua alma, aquele mel perfumado,
de que os dois amantes libavam a fina essência.

Mas iludira-se!

Enquanto aquele amor fluía e refluía nela, como uma onda que
banhava seu coração; enquanto Linda e Miguel se queriam dentro
de sua alma, através de seu olhar ou de seu sorriso, identificara-se
por tal forma com essa afeição, que a sentia duplamente, por
si e pela amiga.

Era ela quem amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava;
mas na pessoa dela, Berta.

Agora que na delícia das primeiras efusões, nesse egoísmo
sublime do amante que se convolve em si para dar-se todo ao objeto amado;
quando Miguel e Linda a esqueciam, e, absorvidos no mútuo afeto, a
deixavam só, erma de seu pensamento, órfã de seu mútuo
afeto, ela suspirava.

E esse suspiro era a tímida confidência que lhe fazia o coração,
de um amor que ela sentia pela vez primeira, no momento de o perder para sempre!

– Agora vou eu! gritou Afonso perto do mastro.

Ao mesmo tempo soava o alarido dos rapazes, e Berta corria arrebatadamente
para Linda.

Alguma coisa de extraordinário sucedera.

XIX

A LÁGRIMA

No vão de uma janela conversava Luís Galvão com alguns
de seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada, rapaz
de seu tempo.

Voltados para o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades;
e muitos porventura invejavam ainda aos moços o prazer das estrepolias,
que já lhes permitiam a gravidade dos anos e a rijeza dos músculos.

– O Afonso é endiabrado!

– Tem a quem sair.

– Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!

– Um maganão chapado!

– Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!

– Da sonsa, talvez!

– O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em
ramo verde!

– Mas não pescava senão peixões.

– Que história estão vocês aí a inventar? tornou
o fazendeiro com disfarce.

– E a filha do Guedes, lembra-se?

– A que o marido abandonou?

– A Besita, sim!

– Essa não! exclamou involuntariamente Galvão contrariado.

– Ora negue! Antes e depois.

– Do parto?

– Do casamento!

– Que tal o cujo? exclamaram diversos.

Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.

– Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.

D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura
da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.

Esquecendo-se do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste
cogitação, com a face apoiada na palma da mão; nem viu
mais o que se passava no terreiro, ali quase em face dela.

Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não
escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se
da voz palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia de um hino
de amor.

Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade
que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra
para disfarçadamente avisar à amiga da presença da mãe,
e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.

Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa
desforrava-se por aquele modo, com mais um impulso de abnegação,
do esquecimento dos dois amantes?

Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro,
o qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava partir-se
ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de repente lhe carregara
a ponta.

No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera
violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado
no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.

O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou
em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo de idéias
que amassou no cérebro grosseiro, não obteria ele jamais exprimir;
nem é possível descreve-lo,

A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças
palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria
para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre travessa e
contente. Devia de ser porque também cobiçava as galanterias
que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.

Desde então a animalidade do estafermo se resumiu em um só
desejo, que tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro.
Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos rapazes,
com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem sabia que suas pernas
trôpegas não eram para aquele árduo esforço.

Surdiu-lhe uma lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras
ao tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora em
distância que um homem ágil não poderia transpor de um
salto.

Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse
jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração
de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu
ao mirante.

Contava com as alças das canastras de Galvão, chegado à
tarde de Campinas. Atou uma das cordas à dobradiça da janela,
e seguro às pontas, saltou fora, empurrando-se da parede com os pés
e embalando-se nos ares.

Em um dos vaivéns, soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro,
e coroa-lo com o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas
arrancou-lhes depois boas gargalhadas.

Com a força do arremesso, o mastro percutido até a base cambou,
e sem dúvida iria ao chão, esmagando o Brás na queda,
se Miguel advertido pelo alarido, não visse o perigo e corresse ainda
a tempo de evitá-lo.

Em risco de ser também esmagado, o moço escorou com os braços
o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes, rompendo
o enleio do espanto, e animados pelo exemplo, sustivessem o seu esforço.

Já, porém, o Brás, que havia escorregado até
o meio do mastro, se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as
mãos cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade.

Estava Berta junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas não
a tempo de evitar que a mãe percebesse a sua intimidade com Miguel.
D. Ermelinda descobrira os dois namorados, justamente quando Miguel beijava
outra vez com fervor o cravo branco, e a mão mimosa de Linda, querendo
tomar a flor, deixava-se colher entre as mãos trêmulas do moço.

Despertada como a dos outros pela algazarra, a atenção de Berta
se voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou com
ansiedade. Quando em face dela parou o Brás, que mal se podia suster
de comoção, e lhe estendia desgarradamente as mãos cheias
de prendas, sem força de balbuciar uma palavra, o coração
da menina exultou.

O aborto humano; a figura estrambótica e ridícula; o monstrengo,
caíra como o disfarce do arlequim, e descobrira a feição
mais nobre da criatura. O que Berta viu foi um coração, e maior
ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.

Abraçou a menina com veemência ao pobre sandeu, e sentindo úmida
a face, enxugou nos pelos ásperos da ruiva melena uma gota que empanara
o brilho de seus olhos cintilantes. Outras havia chorado, mas foram bolhas
d’água: lágrima, era aquela a primeira.

Depois começou ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o
idiota, prendendo-as pelo talho do vestido e entrelaçando-as nos cabelos.
Não trocaria nesse momento os arroubos que, havia pouco, invejara a
Linda, pelo júbilo dessa tosca demonstração de um amor,
que não tinha para exprimi-lo senão os esgares de um parvo,
e cujo sorriso era um repulsivo engrimanço.

Adivinhava-lhe o instinto que não havia afeto mais puro, extreme e
sincero do que o desse coração trancado a todas as ilusões
do mundo, o desse afeto de uma alma que abortara?

Linda, que observava sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender
as flores nos cabelos, voltou-se à voz de sua mãe:

– Faça o favor de não sair mais da sala, minha filha, disse
D. Ermelinda.

Velava o olhar e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que
anuviou o coração de Linda.

Nesse instante um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão
da noite uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um
vulto de homem.

Berta reconheceu Jão Fera.

XX

O SAMBA

À direita do terreiro, adumbra-se na escuridão um maciço
de construções, ao qual às vezes recortam no azul do
céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.

Do centro dessa mole negra surge um longo penacho de fumaça, cujo
cabo se tinge de escarlate com as línguas da chama quando ala-se. Escapa-se
também um borborinho formado não só pelos ressolhos da
labareda e crepitações da lenha, como por vozeio e vivas d’envolta
com os retumbos soturnos do jongo.

É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande
pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em
volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.

Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu
de brasido e cinzas, danças os pretos o samba com um frenesi que toca
o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado
saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia,
como se quisesse desgrudar-se.

Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães,
ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e
pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca
no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como
desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar
como um peixe em seco.

No furor causado pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra
a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro.

Entre estes o primeiro e o mais endiabrado, foi Monjolo; tomando por sua
parceira de batuque a própria fogueira, atirou-lhe tais embigadas,
que a pilha de lenha derreou e foi esboroando-se. Entretanto o negrinho, a
requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga:

Candonga, deixa de partes
É melhor desenganar,
Que este negro da carepa
Não há fogo pra queimar.

Salvo os rr finais que ele engolia e os ll afogados em um hiato fanhoso,
tudo o mais era produção do estro africano e da sua veia de
improviso.

Uma grossa anca resvalara da fogueira com as embigadas e viera cair junto
aos pés cambaios do negro, que saltando-lhe em cima com ímpetos
de possesso, começou de moer as brasas com os calcanhares, berrando:

Monjolinho soca milho
Bem socado, pa-ta-pá!
O mamãe, que dê a gamela
Pra juntar este fubá!
Tuque, tuque, tuque, tuque,
Tuque, tuque, zuque, zuque.

De vez em quando o garrafão de cachaça corria a roda. Cada
um depois de mil trejeitos e negaças dava-lhe o seu chupão,
e fazendo estalar a língua repinicava o saracoteio.

À parte, junto a um dos portões e sob o alpendre das tulhas
que ficam a um canto do quadrado, estão em grupo os feitores e camaradas;
uns de pé, arrimados aos esteios, outros sentados no pranchão
que serve de soleira.

O Mandu arranha na viola uma chula, e o Pereira acompanha o toque com repentes
que lhe acodem, enquanto os outros contam façanhas de caipira e vão-se
impingindo limpamente um par de formidáveis carapetões.

Bem desejavam os sujeitos entrar na súcia e fazer uma perna no batuque;
mas, impedidos pela disciplina da fazenda, contentam-se em olhar de fora e
engraçar com as crioulas, que às vezes saem da roda para vir
trocar lérias e receber, em paga dos milhos assados e batatas, algum
descante neste gosto:

Não como inhame cozido;
Não gosto de milho assado;
Quem me quiser derretido
Me dê mendubi torrado.

Uma preta, porém, ali estava, que decerto não fora trazida
por aquele motivo, pois recostada ao frontal do portão, com os olhos
voltados amiúde para o lado da casa de morada do senhor, ouvia distraída
as chalaças dos capangas.

Essa preta é a Florência: uma estátua de Juno, toscamente
lavrada em mármore negro, e coberta com um cabeção de
renda que lhe mostra o colo, e uma saia de riscado caída até
o meio da perna musculosa.

O Mandu logo que ela chegara, atirou-lhe este mote.

Casca preta, bago branco,
Mas arde que não se agüenta:
Huê, que visaje é esta,
A fruita virou pimenta?

– Qual, disse o Pereira. A moça está com sentido no pajem.

– Ora menina, deixe-se disso. O patife do Amâncio não vem cá!

– Está lá ao cheiro da cozinha! acudiu outro.

A crioula mordeu os beiços de cólera; e começou de rufar
os dedos nas grades do portão. Quase ao mesmo tempo destacou na sombra
um vulto, no qual logo se reconheceu o mulato.

– Não vem! exclamou a Florência voltando-se com ar exultante
para os caipiras e mostrando-lhes o pajem.

– Como vai o pagode, por cá? disse o Amâncio.

Disfarçadamente a crioula arredou-se do grupo dos capangas, e encaminhou-se
para a roda do batuque, lançando um olhar ao pajem. Não estava
ainda de todo satisfeito o seu gostinho, que era fazer o Amâncio cair
no samba rasgado.

Que triunfo para ela, negra da roça, se humilhasse a mucama Rosa,
sua altiva rival.

Hesitou o mulato algum tempo, receoso de derrogar de sua nobreza de pajem
misturando-se com a ralé da enxada, até que rendido pelos lascivos
requebros da crioula, que já se espreguiçava ao som do urucungo,
saltou no batuque.

No mais forte sapateado, porém, sentiu o pajem que lhe travavam da
gola da jaqueta; e puxado para fora da roda com força, achou-se em
face da mucama Rosa, que viera arranca-lo da dança, furente de ciúmes.

As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaçada
do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escárneo,
que lhe arregaçava os lábios carnudos, e dentre as fendas dos
incisores partiu um rápido esguicho, que bateu em cheio na cara da
outra.

Foi pronta a réplica de Florência. Vibrando no ar o braço
habituado a manejar a enxada espalmou a mão na bochecha da mucama,
que titubeou e decerto iria ao chão a não ampara-la o mulato.

Amâncio à vista do bofetão decidiu-se pela Rosa, e atirou
à Florência uma cabeçada. Mas a preta agarrou-o pelos
cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se das garras daquela
fúria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se
aos pontapés.

Os pretos da roça acudiram à sua parceira, insultada pela cambada
de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amâncio por uma
espécie de coleguismo; e assim tornou-se geral o banzé.

Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do
batuque, observava com viva agitação aquela cena. Seus olhos
saltados das órbitas, como dois lagartos negros quando pulam da toca,
devoravam com uma volúpia feroz a figura de Rosa.

Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama
do sarilho; e levou-a à força para a casa.

À porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.

XXI

O INCÊNDIO

Terminara a festa.

A escuridão profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas
e os edifícios adjacentes.

Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas,
que esfoliam-se no ar e se apagam.

Soa ao longe tropel de animais, intercalado às vezes por trechos de
alegre descante. São ranchos de convidados que tornam às casas.

Da várzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros
da brisa as rascas da viola, que à porta da palhoça ainda arranhava
por despedida algum caipira saudoso.

Pouco mais era de meia-noite. A função que prometia prolongar-se
até lá pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar
dos velhos comilões, os quais não puderam atolar-se na lauta
ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma só vez de cada
prato.

Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor
de esposa e mãe, D. Ermelinda, apesar de grande esforço e do
habitual disfarce que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia,
não pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios d’alma.

O amortecimento das maneiras afáveis e da graciosa amabilidade da
dona da casa derramou nos convidados um súbito constrangimento; a festa
perdeu desde logo a sua expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais
paulistas, cuidaram em retirar-se, que não acharam a costumada e carinhosa
resistência.

Então começou a debandada. Ainda tentou Luís Galvão
reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava
em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar
os folguedos.

Já todos se haviam acomodado para dormir; só D. Ermelinda,
com o mesmo traje da festa, que não despira ainda, velava imóvel
no seu toucador.

Atirada ao fundo de um sofá, na sombra que projetava um vaso de porcelana
colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos fixos na imagem
de N. S. das Dores, que se via sobre a cômoda em um nicho de jacarandá.

Talvez pedisse à Mãe de Deus, à divina consoladora dos
aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos
que a enchiam de horror e angústia.

Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um
passado que não lhe pertencia, e até por melindre natural evitara
sempre folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão.
Advertia-lhe o coração das desilusões que ali a aguardavam;
e por isso preservara a sua ignorância como um véu protetor contra
as suscetibilidades e zelos de sua alma.

Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado,
dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma
certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.

E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua,
apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma
rude e baixa por que se tinha revelado o passado de Galvão, sobretudo
a magoou profundamente.

Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeição pura
e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver
delido d’alma de Luís aquela imagem querida, gravando sobre ela
a sua.

Mas a notícia de uma aventura galante, própria de um libertino,
além de arranca-la à querida ilusão de ter sido o primeiro
amor, lhe derramara n’alma uma agrura, como nunca sentira.

O caráter que até ali respeitara, descia de repente em seu
conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginação, exaltada
pelo sofrimento, lhe abria as profundezas insondáveis onde podia se
precipitar o homem a quem ligara sua sorte.

Depois, por uma natural associação, recordando-se da intimidade
de Linda com Miguel, no coração da mãe caíam as
gotas acerbas que vazavam do coração da esposa. Pensava D. Ermelinda,
que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade
e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira
de herança.

Assim como Luís uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos
de sua vida, e a nobreza de seu caráter se eclipsara ante a sedução
de uma moça, Linda cuja alma ela se comprazera em colocar numa esfera
elevada, se inclinava a um rapaz de posição muito inferior.

E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com ânsias
de mãe, esvairava por modo que ela, espavorida de sua própria
mente e não podendo sofreá-la, asilava-se contra esse delírio
numa oração fervente a Nossa Senhora.

Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e,
não recebendo resposta, veio acha-la na mesma posição.

– Que tem você, Ermelinda?

Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado
dentro da alma se agitasse para refluir aos lábios. Mas a boca descerrando-se
deixou escapar apenas um ofego, e ficou muda.

A palavra é estreita para dar passagem às mágoas amassadas
no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e
de um só jato.

– Nada! respondeu D. Ermelinda.

– Por que não se deita?

Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes,
secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.

Abriu Galvão a janela do canto, que ficava na ala direita do edifício,
para observar o terreiro, donde viera o estrépito. Mas este cessara
bruscamente com a última pancada; e o silêncio de todo se restabelecera.

Debruçando-se à janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que
parecia resvalar ao longo da parede.

– Quem está aí?

Não houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano
o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno, ainda
mais o convenceu disso um guincho de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.

Não se enganara, porém, o fazendeiro. Foi de fato um homem,
que se coseu à parede e se encaixou no vão de uma porta, onde
permanecia imóvel e esticado para dissimular a saliência do corpo.

Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam,
cuidou Faustino de impedir-lhes a saída por uma das janelas que não
tinha grades. Para esse fim munido dos instrumentos necessários, encostou-se
a ela para prega-la.

A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avançara pelo
terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que já havia furtado
as chaves da senzala e vinha ter com o pajem.

O africano ruminava a idéia de suprimir desde logo o Faustino, a fim
de lograr ele só os proventos do trama. Naquele curto instante correu
o pajem sério perigo de que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.

Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqüilizou
o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.

Acabava Luís Galvão de correr o trinco da janela quando no
canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma
serpente de fogo.

XXII

A TRAIÇÃO

Rolos de chamas envoltas em denso bulcão de fumo subiam aos ares.

A casa das Palmas e suas dependências, vistas de longe, pareciam submersas
em um turbilhão de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se
pelo negrume do espaço.

Açoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de
sanha; ou sufocada um instante pelas abóbadas de fumaça e pelas
camadas de palhiço, troava como um canhão, arrojando-se às
nuvens.

De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo
daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exército em renhida
batalha. Eram os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo.

Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavéis
e jararacas, que surpreendidas pelo incêndio, arremessavam-se furiosas
contra o fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado.

As aves noturnas deslumbradas com o súbito clarão, fugiam soltando
guinchos de terror, enquanto as feras, insufladas pelo instinto da desolação,
uivavam no fundo da floresta e trotavam ligeiras para arrebatarem a presa
ao incêndio e se abeberarem de sangue.

Medonho espetáculo!

O incêndio crescia com tal velocidade, que parecia uma catarata de
fogo, a inundar o espaço, ameaçando comunicar-se à floresta,
e submergir a terra em um pélago de chamas.

Do seio daquele surdo rumor produzido pelo ressolho da labareda, se desprendeu
e reboou ao longe um grito soturno; mugir da turba espavorida antes as tremendas
convulsões da natureza.

– Fogo!… fogo!… fogo!…

Correndo à janela e abrindo-a outra vez, Luís Galvão
recuou espantado com a viva claridade, que o incêndio projetava sobre
o terreiro e que lhe ferira os olhos.

Foi rápido, porém, o deslumbramento. Debruçando-se no
peitoril e descobrindo o foco do incêndio que vomitava labaredas como
a cratera de um vulcão, o fazendeiro compenetrou-se imediatamente da
realidade.

– O que é? perguntou D. Ermelinda, que parara aterrada no meio do
aposento.

– Fogo no canavial.

Atirada esta resposta à mulher, Luís Galvão saltou no
terreiro e deitou a correr para as plantações, lançando
aos brados aquelas mesmas palavras, como aviso aos feitores e gente da fazenda.

À exceção de alguns escravos fechados na senzala, a
quem o clarão despertara, estavam os mais ferrados no sono profundo,
que sucedera mui naturalmente ao cansaço dos folguedos de São
João e às libações copiosas.

Assim, já Luís Galvão passara a tronqueira da roça
que o administrador, ainda tonto de sono, babatava à busca das chaves
da senzala para soltar a gente; e os feitores, acordados de sobressalto, se
olhavam estupefatos, sem consciência do que estava passando.

O fazendeiro lançou-se na direção do incêndio,
pensando que toda a gente da fazenda não tardaria a segui-lo, e ansioso
por avaliar da intensidade do fogo como de sua marcha. Lembrara-se que o tanque
ficava sobranceiro ao canavial, a arrombando-o podia arrojar sobre o foco
do incêndio uma formidável manga d’água que o extinguisse.

Enganara-se, porém, Galvão. Apenas lhe iam no encalço,
mas agachados e esgueirando-se por entre a folhagem os dois vultos de Faustino
e Monjolo, impaciente de assistirem à catástrofe, e verem consumado
o crime de que dependia a satisfação de seus desejos.

Ainda desta vez Monjolo tinha amiúde ímpetos de atirar-se ao
pajem, e cravar-lhe o quicé no coração; sobretudo quando
lembrava-se que Barroso prometera àquele a liberdade e posse de Rosa.

Mas continha-se; e não por escrúpulo, mas por um requinte de
crueldade.

Só, na alcova onde a tinha deixado o marido, D. Ermelinda transida
de susto com o anúncio do incêndio, arrastou-se afinal para a
escada do mirante; ao tempo em que já a filha despertada pelo rumor
a procurava, e Afonso arrancado ao sono ganhava terreiro para acudir ao que
fosse preciso.

– Onde está meu pai? perguntou ele.

– Lá, no canavial, Afonso! Corre, meu filho!…

Estimulando o mancebo com esta prece ansiada, acompanhava a senhora com olhar
ardente o vulto do marido, que chegava ao canto do carreador e destacava-se
na zona abrasada que o incêndio projetava em torno.

Tinha-se já arremessado avante o mancebo, quando estacou de súbito,
ouvindo um grito de angústia que partia do mirante. Voltou-se e não
viu mais D. Ermelinda.

– Minha mãe! O que é?

– Acuda, mano! clamava Linda com voz dilacerante.

Um reflexo da labareda mostrou rapidamente ao moço, no muro do mirante,
a figura transtornada da irmã, que apontava para o canavial, arcando
contra o parapeito como se quisesse precipitar-se. Mas antes que o vislumbre
da chama passasse, abateu-se aquela sombra.

Chorava a filha sobre o corpo inanimado da mãe.

Desmaiara D. Ermelinda ao ver, no canavial, surgir da sobra um homem, que,
brandindo um cacete sobre a cabeça de Luís Galvão, o
prostrou ao chão como um corpo morto.

Era o Gonçalo Suçuarana.

XXIII

VAMPIRO

Quando Gonçalo se curvava para soerguer o corpo do fazendeiro e arremessa-lo
no meio das chamas, um vulto emergiu da sombra.

Jão Fera estava em face dele.

Recuou o Suçuarana de um salto, e sacou da cinta a pistola que desfechou
sobre o inimigo à queima-roupa. Não acertando o primeiro e segundo
tiro, puxou da catana; e começou a esgrimi-la cortando o ar.

O capanga avançava lento, mudo, sombrio, sem arma em punho, nem sequer
um gesto de ameaça; e, todavia, era ele Gonçalo, apesar de armado,
quem recuava diante daquele vulto impassível.

Afinal, o pulso do Suçuarana, fatigado de cutilar o vento, afrouxou.
Não teve ele tempo de pressentir o perigo; colhido pelas espáduas
girou no ar e foi abater-se no canavial abrasado onde o arrojara o braço
pujante de Jão Fera, que antes de arremessar o corpo, o havia estrangulado.

Nesse momento conseguira erguer-se Luís Galvão. Recobrando
gradualmente os sentidos, observara o fazendeiro o fim da luta, e compreendera
que devia a existência a Jão Fera.

Este fitava a labareda que envolvera o corpo do Suçuarana. Espessa
e carregada de grosso fumo, a chama se arrastava como a jibóia que
lambe a presa para traga-la; mas outra vez ligeira e farfalhante desprendeu-se
no ar como a língua da serpente; e fendendo-se mostrou no meio do brasido
o corpo já calcinado do fanfarrão.

Um sorriso de feroz volúpia franziu os lábios do capanga, que
ficou um instante absorto naquele intenso prazer. Recobrado afinal, voltou-se
com a idéia de correr além, e deu com Luís Galvão,
que estendia-lhe a mão:

– Você me salvou, Jão! Obrigado!

– Salvei; mas não sabe por que? respondeu o capanga com a fala soturna,
cravando um duro olhar no semblante do fazendeiro.

Este ia responder; Jão atalhou-o.

– Livrei-o de morrer, porque sou eu quem o há de matar, quando chegar
sua hora!

Lançando-lhe estas palavras com desprezo, voltou as costas o capanga
para afastar-se dali.

– Tanto mal quer-me você, Jão?

O Bugre estacou sofreado por uma força íntima a que ele tentava
resistir; depois de curta hesitação, arrojou-se em frente do
fazendeiro para dizer-lhe com a voz dilacerada pela cólera:

– Mais de cem vezes já eu teria cravado em teu coração
esta faca, se não fosse aquela que está no céu, e a filha
que deixou na terra. Vê que raiva sinto eu quando me lembro que tu ainda
vives!

Rangiam os dentes do capanga; e, todo ele convulso de furor, ameaçava
o fazendeiro com a sanha de um tigre.

Ainda desta vez, porém, conseguiu dominar-se. Arrebatando-se ao ímpeto
que já o arrojava sobre Luís Galvão, deitou a correr
por um carreador que invadira o incêndio; e desapareceu por baixo das
abóbadas formadas pelas chamas.

Com antecedência fora Jão Fera sabedor da trama urdida pelo
Barroso. Desde que o Chico Tinguá o advertira do perigo, o Bugre, sempre
alerta, redobrara de vigilância e não perdeu mais de vista a
seus inimigos.

Assim havia surpreendido o segredo da maquinação de Barroso;
e naquela manhã assistira, oculto no mato, à última combinação
entre os cúmplices.

Já tinha o capanga na cinta o dinheiro preciso para desempenhar sua
palavra, e esperava o momento de ajustar contas com o Barroso. O plano horrível
excitou a ferocidade dessa alma, desde algum tempo sopitada pela influência
de Berta.

Que esplêndida vingança não lhe preparava o inimigo com
o terrível incêndio, que ia servir-lhe, a ele Bugre, de fogueira
de São João para divertir-se também naquela noite de
tanto folguedo?

A desolação e a ruína o deleitavam; ao calor das chamas,
ouvindo resfolgar a labareda e agonizar os infelizes por ele arremessados
ao fogo, ele sentia a inebriação da morte, e sua alma esvoaçava
como a do vampiro, sobre os destroços do incêndio.

Desde o começo, acompanhava ele a realização da trama;
vira o Gonçalo postar os companheiros, atear o fogo no canavial, e
emboscar-se à espera do fazendeiro. A princípio nem lhe passara
pela mente livrar Luís Galvão da morte que o ameaçava;
mas a idéia de que Berta, ignorando a verdade, podia atribuir a ele
esse assassinato, o estremeceu e impôs-lhe a dura necessidade de salvar
o homem a quem mais odiava.

Escapara de chegar tarde, porque se demorara um instante em agarrar Monjolo.
O africano, vendo Faustino atado de chofre como um feixe de sapé e
pinchado ao fogo, escafedeu-se; mas, a pequena distância, caiu arpoado
pela faca do Bugre.

Empurrando esse trambolho ao fogo, correra então o Bugre ao lugar
em que havia deixado o Gonçalo de espreita, e onde acabava de passar
a última cena.

Agora lá ia à busca do Barroso, que devia estar do outro lado
do canavial, pronto a aparecer no momento preciso, e ao sinal convencionado,
para representar a farsa, que havia de rematar o drama sanguinolento.

Quando Jão passou pela orla do canavial e que a chama bateu-lhe em
cheio no semblante, Barroso o reconheceu e fugiu espavorido. Mas o capanga
ia-lhe no encalço, e infalivelmente o alcançaria.

Esbaforido, prostrado de cansaço e de terror, o miserável se
deixara cair em um fojo coberto de juncos e moitas; e, resignado, esperou
a morte, que ele sentia aproximar-se no passo rápido do Bugre.

Nesse momento chegava Miguel, que a meio caminho de casa e surpreendido com
o clarão do incêndio, voltara a correr na direção
das Palmas.

Por um impulso generoso parou para defender o perseguido; e Jão Fera
esbarrou de rosto com ele.

Três vezes o Bugre arremeteu e três vezes o brioso mancebo tomou-lhe
o passo, resolvido a sacrificar-se antes do que deixar consumar-se o crime.

– Deixe-me passar, moço! bramiu o capanga rangendo os dentes.

– O que eu sinto, monstro, é não ter uma arma para castigar-te.

Rugiu o Bugre, e saltou sobre o mancebo, que o esperou calmo e resignado
a tudo, mas sem recuar o passo.

Salvou-o um grito de Berta. A menina tinha acompanhado de perto a Miguel,
deixando atrás nhá Tudinha, que não a pudera seguir.

Ouvindo a voz da menina, o capanga como se o espancasse a cólera celeste,
disparou pelo campo fora e desapareceu.

XXIV

NA TAPERA

Uma brisa cortante esgarçava a cerração, cujos retalhos
flutuavam pelo tope das árvores.

Três dias tinham decorrido depois da festa de São João.

Berta seguia pela vereda que ia dar à tapera. Caminhava a passo lento
e frouxo com a cabeça descaída, revolvendo na mente reminiscências
que lhe pungiam o coração.

A pequena distância atravessou Miguel por diante dela:

– Sabe, Inhá? Jão Fera foi preso!

– Aonde? perguntou a menina surpresa.

– Perto de Campinas.

– E agora?

– Com certeza o enforcam!

Esta resposta o mancebo a deu já afastado e de caminho para o lado
das Palmas.

Berta suspirou, pensando que Miguel ia ver Linda; mas logo seu pensamento
desprendeu-se dessa idéia, para refletir sobre a desgraça do
capanga.

Apesar do horror que lhe inspirava ele desde a véspera de São
João, já pelo atrevimento de atacar Miguel, já pelas
crueldades que praticara naquela noite, ela sentiu profunda compaixão
pelo infeliz que ia morrer execrado e maldito por todos; e sua alma confrangeu-se
de dor.

Tão absorta nessa pena chegou às ruínas que não
reparou na singular atitude da negra em pé, no meio do terreiro, com
o pescoço curvo, os olhos esbugalhados, à espreita de um objeto
que, por ventura, lobrigava entre a folhagem.

Passara Berta e dirigia-se à porta da casa, quando a negra estendeu
os braços hirtos para diante como se quisesse arremessar de si uma
visão medonha, e caiu à estrebuchar em contorções
dolorosas, arrancando guinchos aflitivos do peito ofegante.

Na orla do mato, à esquerda da tapera, assomara de repente a figura
do Ribeiro, que aos olhos de Zana surgira como um espectro e a fulminara de
terror.

Aos gritos da preta, Berta, arrancada ao seu recolho, correu assustada, sem
atinar com a causa de semelhante acesso. Vendo-a, Zana que não se apercebera
de sua chegada, atirou-se à ela, e cerrando-a ao peito com os braços
mirrados, precipitou-se para casa em um ímpeto de desespero.

Assim arrebatada de chofre, não descobriu a menina o vulto do Ribeiro,
nem ouviu o riso de escárneo que rincharam os lábios do assassino
por ver o terror da negra e seu afã em levar a menina do terreiro e
esconde-la na casa.

Tinha ele segura a presa, e por isso não açodava-se, querendo
gozar por mais tempo a delícia dessa vingança, que julgava já
extinta, e renascia de novo, como o broto de uma raiz morta.

Açulado por um ódio implacável, lembrara-se dias antes
de rever as ruínas da casa onde imolara a vítima de seu rancor,
e cevar-se nas recordações de sua covarde atrocidade.

Nessa ocasião, viu Berta, pela primeira vez, e logo entrou-o a suspeita
de ser ela a filha de Besita, livre da morte pela súbita ameaça
de um homem que ele não conhecera, mas supunha capanga de Luís
Galvão.

Desde aí começou de tirar indagações e obteve
a certeza que desejava. Seria pois esse o remate da vingança que há
vinte anos principiara em Besita e devia acabar na filha, depois de haver
exterminado o pai.

Furioso com o malogro do incêndio, porém aterrado com a sanha
de Jão Fera, a quem só escapara pela corajosa intervenção
de Miguel, o miserável tratou de fugir.

Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na véspera por
gente do Aguiar, e então animou-se a voltar a Santa Bárbara.

Seu primeiro pensamento foi Berta. Lembrando-se que ia matar a pobre menina,
sentia um prazer bárbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa
da filha, e que assim podia ele assassina-la outra vez, saciando o seu imenso
rancor.

Ele, que a princípio nem se apercebera da semelhança de Berta
com a mãe, tão apagada estava em sua memória a imagem
da mulher a quem amara alguns dias para odiá-la tantos anos com um
rancor de além-túmulo, agora que o ódio lhe avivara a
reminiscência, via surgir a sombra viva de Besita.

Zana, deixando Berta no meio do aposento, voltou ao terreiro para espreitar
o inimigo. Tremia o corpo da preta com movimentos tetânicos, e os dentes
lhe chocalhavam; mas em sua pupila esvairada lampejava um fulgor sinistro.
Era horrível de ver-se aquela múmia viva, com os beiços
repuxados, e as unhas a crisparem-se como as garras de um abutre.

O Ribeiro recuou e escondeu-se no mato, esperando que passasse aquele ímpeto
de furor.

– Zana! Zana! Que tem você? dizia entretanto Berta, da porta da casa.

Serenou a agitação da preta com o afastamento do Ribeiro; e
Berta, sentando-se na soleira, com as costas voltadas para o mato, submergiu-se
outra vez nas cismas, em que se enleava agora sua alma, dantes tão
isenta e descuidosa.

Seu espírito girava em torno de uma idéia que sobretudo a preocupava.
Era a oposição que D. Ermelinda fazia ao amor da filha por Miguel.
Já no fim da festa na noite de São João notara ela, Berta,
o constrangimento de Linda, a quem a mãe não deixara mais arredar-se
de junto de si.

No dia seguinte, ainda mais sensível tornou-se o rigor. Linda não
se animou a falar com Miguel, nem a brincar pelo pomar. Todo o dia esteve
na sala com a mãe ou umas velhas parentas; e Berta percebeu que os
meigos olhos azuis da amiga tinham o rescaldo que deixam as lágrimas.

Recordando todas estas circunstâncias, às vezes tinha Berta
seus assomos de júbilo, pensando que ela podia Miguel amar livremente,
sem desgosto nem obstáculo. Mas logo reprimia aquele impulso do egoísmo;
e perscrutava em sua imaginação um meio para remover o obstáculo
que ameaçava a felicidade de Linda.

Depois acudia-lhe de novo à lembrança a notícia que
lhe dera Miguel da prisão do Bugre; e sua alma esquecia as próprias
tribulações para afligir-se da mísera sorte daquele perverso,
que tamanha dedicação tinha por ela.

Entretanto o Ribeiro, oculto no mato, observava os movimentos da menina e
sorrateiramente aproximava-se por detrás, contando surpreende-la. Mas
Zana alerta lhe percebera a intenção e também de esguelha
avançava para defender Berta e esganar o assassino se não lhe
mentissem os pulsos descarnados.

A cada passo que dava o Ribeiro de um lado, arrastava-se a mísera
louca; e Berta, que era o alvo da convergência desses dois impulsos,
continuava inteiramente alheia ao que se passava.

De repente, Zana ficou estática e imóvel; depois começou
de tartamudear sons roucos e afinal soltou uma gargalhada estridente que ressoou
pela mata, violentamente agitada neste momento.

Berta, sobressaltada, ergueu a cabeça.

XXV

A ENTREGA

Sabe-se por que preço obtivera Jão Fera o dinheiro necessário
para desempenhar a palavra dada ao Barroso.

O Chico Tinguá, incumbido de negociar a entrega do capanga mediante
cinqüenta mil réis, dirigiu-se à fazenda de Aguiar, e fez
sua proposta ao fazendeiro.

Desconfiou este do caso, como era natural; mas estando ali um camarada, conhecido
do Tinguá, que assegurou ser Jão Fera um homem capaz daquela
façanha, decidiu-se Aguiar a dar a soma, curioso de ver o resultado.

– Aí tem o dinheiro. Mas, olhe lá, que, se o patife não
vier, quem paga é você.

– Não tenha medo que ele falte.

Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou
a capangada para receber a visita do Bugre.

Antes de partir quis Jão Fera despedir-se de Berta e com esse pensamento
dirigiu-se para a casa de nhá Tudinha. Levava a alma a transbordar
e carecia nesse instante supremo da eterna separação vaza-la
no coração da menina.

Berta cosia, sentada em seu canto habitual, à sombra do oitão
da casa. O Bugre avistou de longe e parou oculto pelas árvores para
contempla-la com religiosa adoração.

Passando o primeiro enlevo, quando lembrou-se do pensamento que o trouxera,
não se animou a dar um passo e aparecer à menina.

Pressentia o horror que deviam ter causado em Berta as mortes por ele perpetradas
na noite de São João, e a abominação que desde
aí lhe votava aquele coração puro e santo.

Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Luís Galvão,
talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasião de salvar
uma existência tão querida para ela.

Mas a menina ignorava, e não seria ele decerto quem lhe havia de revelar
o terrível segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil
dos homens.

Não foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram
o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resolução
de entregar-se à prisão; e seria necessário tudo revelar.

A idéia de que a menina se pudesse afligir por ter causado, embora
involuntariamente, a sua perda, o assustava. Ignorasse ela sempre quanto custara
o juramento que lhe dera, de poupar a vida de Luís Galvão; e
não sondasse nunca os antros profundos dessa consciência onde
rugia o desespero.

Fechou os olhos o Bugre para subtrair-se ao encanto da gentil menina, e,
arrancando-se com esforço àquele sítio, sumiu-se no rumo
de Campinas.

Eram quatro horas da tarde, quando um homem à pé e coberto
de pó chegava à tronqueira da fazenda do Aguiar.

Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudência se fora postar,
avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no pátio,
já tinham reconhecido Jão Fera.

Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao
perigo.

Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avançou com a costumada
pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. Aí chegando,
saudou o fazendeiro e outras pessoas com um toque no chapéu.

– Tenham todos boa-tarde.

Tão surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram
de responder à saudação.

– Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com
um triste sorriso.

O Filipe trocou um olhar com o patrão e acenando à sua gente,
avançou para o Bugre.

– Pois renda-se, homem, que é o melhor.

– Alto lá, camaradas! disse Jão Fera vendo os capangas se aproximarem
com intenção de agarra-lo. Não se cheguem muito.

– Deixe-se de partes!

– Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e
do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego
mesmo. Mas se algum me puser a mão, está tudo perdido.

Retraiu o Bugre o pé esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira
contração, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relâmpago.

Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia
à cena, Filipe acomodou a coisa.

– Está bom, camaradas, não zanguemos o homem.

– Para onde me levam? É para Campinas? Pois vamos lá! disse
Jão Fera.

– Não há pressa. O senhor pousa aqui e amanhã com a
fresca da madrugada nos botamos para lá.

O Bugre fez um gesto que exprimira indiferença; e sentando-se no ressalto
da calçada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e começou
a pitar.

Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Através do ar negligente
e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva atenção,
que exercia em torno uma vigilância incessante.

À noite o Filipe convidou Jão Fera para cear com os outros
camaradas. Ele, porém, recusou, contentando-se com um trago de aguardente.

Seriam nove horas e estavam todos acomodados no rancho, que ficava à
direita do sobrado, quando Filipe sorrateiramente ergueu-se e passou fala
aos camaradas.

– Enquanto não amarrarmos o danado, não sossego!

Convieram os outros e às agachas se foram acercando de Jão
Fera, para cair sobre ele e segura-lo.

O capanga que não dormia, como eles pensavam, recebeu-os de frente:

– Ah! Vocês querem brincar? Pois vá lá!

Com o arrojo e destreza que ele possuía no mais alto grau, e o multiplicava,
lançou mão de uma estava do rancho e espancou a troça
do Filipe.

Depois de os ter sovado em regra, quando ia já em retirada, ouvindo
a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe:

– A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem;
mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de
ver se é bom ser amarrado como um negro fugido!

Deixando a fazenda encaminhou-se Jão Fera para Santa Bárbara,
donde saíra aquela manhã, cuidando que nunca mais voltaria àqueles
lugares.

O desfecho da traição do Aguiar o entristecia, e dentro de
sua alma lamentava não estar àquela hora preso na cadeia de
Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, onde algum dos capangas podia
tê-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria.

Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no
seu encontro com Berta, e na indignação que sua presença
devia causar à menina.

Por vezes parou, hesitando se devia retroceder.

XXVI

O CIPÓ

O fim da noite foi para Jão Fera um pesadelo horrível.

A todo instante fulgurava em sua alma, ao clarão de uma chama satânica,
a cena atroz do assassinato de Besita.

Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angústia,
no qual toda sua existência submergia-se, como rio caudal pela estreita
gorja de um precipício.

Revia com a mesma ânsia o vulto do Ribeiro, e sentia que após
vinte anos ainda não cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado,
quando foi ele, Jão, obrigado a rasga-la, ficando junto de Besita,
e não perseguindo o assassino.

A voz da mísera mãe ressoava-lhe constantemente no íntimo,
com aquele pungente grito de desespero: – “Minha filha, Jão!…
Ele… matá-la…”.

Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se
à obsessão, lembrando que não passava aquela visão
de um desvario de seu espírito.

Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do céu para implorar-lhe
a salvação da filha; e o capanga, impelido por força
misteriosa, erguia-se de um ímpeto; e vagava à toa pelo ermo,
à busca do ignoto perigo que ameaçava Berta.

Uma vez chegou a cerca da casa de nhá Tudinha para certificar-se de
que nada ocorrera de extraordinário naquela habitação.
Vendo-a tranqüila como de costume, tornou à furna e esperou que
amanhecesse.

Às seis horas encaminhara-se para a tapera, onde esperava encontrar
Berta. Batia-lhe o coração pensando na cólera da menina.

Chegado ao ponto da vereda, onde ficava o fojo minado pelo Brás, o
capanga que desde o princípio descobrira a cilada e a desprezara, sorriu,
percebendo as escarchas da terra gretada pela escavação interior.

Batendo com o pé de champa, abateu a estiva, que, desmoronando-se
com a camada de barro superposta, rolou pelo barranco abaixo.

Ouviu-se um berro, e o idiota, que desde o romper do dia, acocorado no fundo
do desfiladeiro, esperava o corpo do capanga para cair-lhe em cima, fugiu
amedrontado, mas sobretudo furioso por lhe ter falhado o ardil armado com
tamanha paciência.

Jão tinha gana ao idiota, e prometeu a si castiga-lo. Entretanto,
saltou a fenda do despenhadeiro, como por segurança se habituara a
fazer desde que descobrira a cilada, e aproximou-se da tapera.

Aí chegou o momento em que Zana via a descoberto o vulto do Ribeiro,
assomando na orla do mato.

O grito que soltou a negra, repercutiu na alma do Bugre, como o eco de um
som remoto, mas que estrugia ainda a seus ouvidos. O semblante fulvo da louca
surgiu diante dele como a figura que tinha gravada dentro da alma, no sombrio
painel da morte de Besita.

Seu olhar acompanhou a vista esvairada de Zana e encontrou-se com o espectro,
que tantas vezes lhe aparecera durante a noite. A expressão viperina
daquele rosto, ele a conhecia; era a máscara que tinha servido, vinte
anos antes, na horrível tragédia.

Apoderou-se do capanga uma súbita convulsão. Tremiam-lhe os
músculos, como as estipes da palmeira, açoitadas pelo temporal.
Batiam os dentes; e a língua trêmula nem força tinha para
balbuciar.

A possante organização parece romper-se aos embates de uma
paixão imensa, que se quer precipitar do íntimo, e não
acha válvula bastante por onde escape.

A semelhança do monte percutido pelo fogo subterrâneo, que lhe
dilacerava as entranhas, o corpo robusto e atlético de Jão Fera
brande, e vacila até que abra-se enfim uma cratera a esse ímpeto
vulcânico.

Durou a crise espantosa todo o tempo que levou Ribeiro a aproximar-se de
Berta. A cada passo do facínora, crispava-se o capanga, no afã
de colher as forças; mas abatia sobre si, como ao próprio peso
se acalca a massa bruta.

Quando, porém, o Ribeiro já estendia o braço para tocar
a menina, tal repercussão ele sentiu, que pulou arremessado como uma
pela, e chofrou o inimigo com o arremesso da águia quando arrebatada
a presa.

Sufocando na boca do miserável o grito que lhe escapava, arrastou-o
para o mais espesso da mata.

Foi este rumor que Berta ouvira de envolta com a gargalhada estridente de
Zana, a qual por uma súbita lucidez reconhecera o capanga, e adivinhara
nele o vingador de Besita e o salvador da filha.

Entretanto, Jão Fera, embrenhado na espessura, atirava ao chão
o corpo do Ribeiro, quase desfalecido pelo terror e pela constrição
formidável dos braços que o arrochavam.

O capanga sacara a faca da cinta, e com o golpe suspenso procurou sofregamente
um lugar para ferir, mas de modo que reanimasse com a mais intensa dor, aquele
corpo desmaiado sem contudo lhe tirar a vida, que ele queria conservar como
um avaro, para sua vingança.

Ao cabo de um instante de hesitação arremessou de si a arma;
arquejante aos arrancos daquela sanha. Agachando-se então como um tigre
que prepara o salto, com os dentes rangidos e os lábios espumantes,
se arremessou em cima do Ribeiro e tripudiou sobre o corpo em um frenesi de
selvagem ferocidade.

Quem o visse dilacerando a vítima com as mãos transformadas
em garras, pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e já
palpitava com o prazer de trincar as carnes vivas do inimigo.

Soou perto um brando de horror.

Transido e estúpido, Jão Fera viu Berta fugindo espavorida
daquele sítio, ao qual a guiara o Brás, por uma estulta malignidade.
O idiota espreitar a cena anterior, e forjara no seu bestunto aquela vingança.

O furor de Jão Fera transportou-se do cadáver, que já
não o podia cevar, ao monstrengo; na sua raiva o teria despedaçado,
se este não corresse a abrigar-se sob a proteção de Berta.

A menina, alucinada pelo medonho espetáculo a que assistira, se tinha
encostado ao tronco de uma árvore; e a grande custo conseguiu suster
o corpinho trêmulo e vacilante.

Foram os gritos de Brás, colhido pela mão do Bugre, que a despertaram.
Vendo o perigo iminente do mísero idiota, recobrou um assomo de sua
energia e arrebatou a vítima às garras da fera.

Mais prostrada ainda por aquele novo e tão violento esforço,
voltou a arrimar-se ao tronco, e ofegante, a desfalecer, abraçou-se
com ele para não cair.

Ficara Jão Fera como chumbado ao chão, sem força para
fugir, sem coragem para aproximar-se. Afinal, passo a passo, senão
de arrasto, avançou:

– Nhazinha! balbuciou com a voz cava e submissa.

Voltou-se a menina em um soberbo assomo de ira:

– Vai embora! Não te quero mais ver! Tu és pior do que fera:
és um demônio. Não há sangue que te farte!…

De cabeça baixa, o Bugre, rechaçado por aquele ímpeto
de indignação, afastara-se dois passos; mas apenas desviou-se
o olhar cintilante da menina, retrocedeu:

– Perdoe, Nhazinha!

– Vai embora! gritou Berta.

Brás, que se agachara aos pés da menina, soltou um grunhir
de escárneo. Teve Jão Fera um ímpeto de revolta. Queria
suplicar seu perdão.

– Não vou! disse rispidamente.

O talhe de Berta vibrou como uma seta brandida nos ares. Sua mãozinha
delicada partiu rápida a haste de um cipó, e com essa vergasta
fustigou o rosto de Jão Fera.

Duas lágrimas sulcaram as faces do facínora, e lavaram uma
gota de sangue que aí borbulhava.

XXVII

DESPEDIDA

Abriu-se a janela da alcova de Linda.

Assustada e inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas não
se anima a debruçar. Com a face unida à ombreira, e o corpinho
oculto pelo relevo do portal para que não a vejam dos lados do edifício,
alonga o olhar ansioso pelas plantações.

Não tarda a hora do almoço.

É esse o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o serviço
doméstico. A menina aproveita-o para escapar à vigilância
materna, que desde véspera de São João a acompanhava
incessante como a própria sombra.

Grande alteração havia sofrido a família depois da festa.
O interior da casa, que dantes respirava tão serena alegria, tornou-se
triste e sombrio. Em vez da cordialidade que dantes ali reinava, nota-se o
afastamento, que isola uns dos outros corações habituados à
mútua efusão.

D. Ermelinda ainda recalcava no íntimo o segredo que a torturava.
Por vezes tentara exprobrar a Galvão aquela mácula do passado;
e no momento fugia-lhe o ânimo de que se revestira anteriormente. Uma
explicação naquelas circunstâncias podia romper o vínculo
que a prendia ao esposo. Temia, pois, rasgar o véu já tão
ralo de uma ilusão em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra
o desespero.

A inclinação de Linda por Miguel também a fortalecia
no obstinado silêncio que persistia em guardar, apesar das insistências
de Luís Galvão. Carecia do conselho do marido e da autoridade
do pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão
funesta.

De seu lado, Luís Galvão não vivia menos contrariado
e aborrecido. A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele
um mistério; embora a senhora se recusasse a declara-la, tinha ele
perscrutado o segredo da súbita mudança.

Combinando certos pormenores, como os remoques dos camaradas junto à
janela, na noite de São João; e lembrando-se que vira D. Ermelinda
aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido; e as alusões
que às vezes escapavam à senhora não deixavam a menor
dúvida.

Imagine-se quanto não sofreu Luís Galvão, humilhado
assim na estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria
consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!

Outrora, se lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele
segredo, havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar
para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações com
nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança de Besita.

Mas Luís Galvão era desses homens que vivem muito à
superfície d’alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres
efêmeros e as impressões do momento formam uma camada que sopita
alguma reminiscência mais profunda.

Ao cabo de algum tempo, a presença de Berta já não lhe
despertava nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia
nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina, retrato
vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua mocidade.

Toda a tristeza de seu amor por Besita ficava no fundo d’alma como
um sentimento, e só flutuava a suave fragrância daquele afeto
da juventude.

Às vezes, contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o
pungia; bradava-lhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um
único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe pelo
amor da filha.

Em véspera de partir para Campinas, impressionado um momento com os
pressentimentos de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele
seu testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à cata
do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para faze-lo aprovar
por um tabelião.

Essa resolução serenara de todo seu ânimo; e o remordimento
que às vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência
da noite de São João perturbar, não somente o sossego
de seu espírito, como a calma felicidade de sua mulher.

Nestas circunstâncias reconhecia Luís Galvão que só
havia um meio de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher,
franca e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima
pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento.

Mas também ele hesitava no momento de provocar a declaração;
e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação
cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação eterna.

Assim ansiavam por uma explicação, que os aterrava a ambos;
e por isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao precipício
onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua mútua existência.

A estes motivos de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão,
que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades de Jão
Fera.

Todos o acusavam, exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência;
mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.

Nestas circunstâncias lembrara-se Luís Galvão de propor
à mulher uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia.
Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes recordações,
e de afastar Linda de Miguel.

Ouvindo na véspera à noite o anúncio da viagem, a moça,
cujo coração pressentia a oposição da mãe
à sua escolha, compreendeu toda a extensão de seu infortúnio.

Ansiosa, pois, esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São
João, furtivamente vinha todas as manhãs até à
cerca da horta para vê-la por entre as árvores.

Nessa manhã, avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula
aproximou-se da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali,
defronte, um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o
silêncio, nem mesmo a se olhar.

– Linda!… murmurou o moço afinal.

– O senhor não sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos
para o Rio de Janeiro.

– A senhora?… exclamou o rapaz sucumbido.

Linda soltou uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a
filha passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.

Não se irritou a senhora, que viu a aflição pintada
no rosto da filha.

Ao contrário, abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual
procurava esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido
e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de meiga severidade:

– Diga adeus a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!…

O moço abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu
o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.

XXVIII

O CONGO

A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta
nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.

No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por
bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta,
como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho,
o ilustre marquês de Monte-Alegre.

Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa
da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário
no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos
outros edifícios.

Era domingo; e havia na vila reboliço de festa.

Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente
a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função.
Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado
de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.

Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à
ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e
Miguel, que também vinham atraídos pela festa.

O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido,
investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto
observava-o com uma expressão de terno ressentimento.

No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento.
Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido
a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não
se rompera, fugia de conversar com Berta.

Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir
um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro
d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.

Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa
de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar
Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida;
mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia.

Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a
sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se
a cada instante para chamar a atenção dos dois moços
a propósito de suas observações.

Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram
sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro
movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga.

Depois do castigo que em um ímpeto de indignação lhe
infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara.
Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha a que
assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade; e ela tinha
dó quando lembrava-se da humildade com que Jão Fera sofrera
uma punição tão cruel para seus brios.

Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso
de bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco.
O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões de
ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.

Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto
de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à
prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na
cadeia da vila.

Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava
Jão Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava,
curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.

Foi rápido este incidente e ocorreu durante o trajeto da família
pela face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina dobrou.

Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao
cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e a massa
do povo se apinhou pelos cantos das ruas.

Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da
matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas,
que compunham a banda de música.

Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente
ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros
e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário
reino africano.

Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a
mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e
todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.

O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com
dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios
escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração
que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens,
e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire.

No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras,
cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés com os molhos
de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento,
produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos
de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados.

Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós
dava à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro
contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda européia,
ou pelos usos do Oriente.

De ordinário costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo
nas proximidades do Natal; mas nesse ano não a tinha podido aprontar
para aquele tempo.

Quando passava a cavalgada pela casa onde estava a família de Luís
Galvão, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florência, repimpada
no melhor cavalo de D. Ermelinda, com a trunfa riçada, um diadema na
testa, e o régio manto escarlate roçagante pela anca do lindo
ginete.

Nesse instante lamentou ser mucama, condição que a sujeitava
a certo recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como preta
da roça teria outra liberdade; e ninguém lhe disputaria por
seguro o título de rainha.

Linda, que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu.
Descobrira defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme
lhe mordeu o coração. A amiga, apesar do afastamento a que a
obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto de adeus; mas ela
voltou o rosto para não corresponder àquela mostra de amizade.

Compreendeu Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.

XXIX

CONFISSÃO

Afonso, apenas avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a família,
esgueirou-se por entre a multidão.

– Berta!… psiu!… disse ele chegando-se à menina.

– Olha D. Ermelinda!

– Ela não me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrás
de uma pinha de gente.

– Não tem medo?… E se ela ralhar com você? acudiu Berta atirando-lhe
um remoque.

– Então sou alguma criança! disse o rapaz ferido nos brios,
e realçando a estatura para afirmar sua hombridade.

– Mas não é capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua
mãe! redargüiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor próprio
do camarada.

– Pois eu lhe mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para
afrontar as vistas de D. Ermelinda.

Sorriu Inhá, que voltando-se para o moço, ocupou-se em travessear
com ele, como outrora costumava.

Não tinha outro modo senão este de apagar no espírito
de Linda o ciúme que a traspassara.

– Como está Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo
em gracejos. Ainda se lembra de Miguel?

– Não sei!… respondeu Afonso constrangido.

– Teve ordem!… acudiu Inhá assistindo no remoque anterior.

– Não vê como anda triste!

– Então ela sempre quer bem a Miguel?

– Sempre!

– Preciso falar com ela! Como há de ser?

Nesse instante um caiapó de alto porte e compleição
robusta, separado do bando que já ia longe de envolta com a cavalgata,
atravessando a rua, parou defronte dos dois moços e afincou-se a observa-los.

De repente saltou em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam
da croça espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:

– Teu pai matou a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas
vezes!

Desde alguns momentos o olhar de Luís Galvão descobrira da
janela fronteira o filho a falar com Berta, e não se arredara mais
do grupo. Aquele quadro brilhante da juventude, borrifado com os sorrisos
de alegria e perfumado com as fagueiras primícias do coração,
despertavam nele reminiscências tão suaves, dormidas no fundo
da lama!

Lembrava-se das festas de outrora, quando era moço como o filho, e
ali, na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da família
para seguir o rancho de moças onde ia Besita, e à surrelfa apertar-lhe
a mão, ou trocar uma palavra balbuciada a medo.

Para mais avivar as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado,
ressurgiam aí diante de seus olhos as próprias figuras do gracioso
painel; ele retratado na pessoa de Afonso; ela, revivendo na gentileza de
Berta.

A D. Ermelinda não escapara essa distração; acompanhando
a direção do olhar e reparando na expressão de ternura
e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, sobressaltou-a nova e mais
cruel suspeita. À infidelidade do passado acrescentaria Luís
Galvão a perfídia no presente?

Não teve tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor
que se rasgava em sua alma, já tão atribulada.

Mal lançara a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lábios,
o caiapó travando com irresistível impulso do braço do
moço, arrancou-o do lugar onde estava e trouxe-o até junto da
janela de D. Ermelinda.

Aí, afrontando-se com Luís Galvão, apontou para o filho,
e proferiu estas palavras, obscuras como as outras:

– Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!…

Com pasmosa rapidez passara essa cena estranha. Ainda não se desvanecera
o espanto por ela causado nos assistentes, que já o caiapó havia
desaparecido entre a multidão, sem que fosse possível indicar
por onde se fora.

Ao mesmo tempo soava grande rumor na praça da matriz; e magotes de
povo a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas vozes
repassadas de pânico terror, que retalhavam o borborinho como correntes
vivas a sulcarem um brejo:

– Arrombada a cadeia!…

– Assalto na vila!

No meio do susto produzido por este boato, o povo se dispersou, pondo termo
à festa.

Entretanto, o subdelegado em companhia de alguns cidadãos mais animosos
dirigia-se à cadeia para verificar o fato, divulgado pela voz pública.

Havia exageração na notícia: dera-se apenas a fuga de
um preso, que arrancara por um esforço desesperado um varão
da enxovia; e aproveitando-se da distração da sentinela no momento
de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiapó a croça
de capim, e perdera-se na turbamulta.

Meia hora depois, Luís Galvão com a família voltava
a Santa Bárbara.

D. Ermelinda que insistira em ver a festa, na vaga esperança de quebrar
o enleio no qual viviam ela e o marido desde a noite de São João,
se obstinara em voltar para as Palmas naquela mesma tarde.

A cena da janela e o dito misterioso do caiapó tinham produzido nela
tão profundo abalo, que já não podia conter as sublevações
da sua dignidade de esposa, indignamente ultrajada por quem mais a devia zelar.

Era urgente e indeclinável a explicação, que retardara
por melindre de sua alma e pela natural esquivança que sente-se em
dissipar por todo o sempre a doce ilusão da felicidade.

Apressando o cavalo, D. Ermelinda transpunha a distância que ainda
a separava da casa. Afonso galopava ao lado de sua mãe, enquanto Luís
Galvão e Linda vinham após largo intervalo, ao passo moderado
dos animais.

Terminava o crepúsculo; mas a lua assomando no horizonte coava o seu
lívido clarão através da morte-côr, que o dia expirante
ia deixando pelos ermos.

Emudecera o hino da tarde, repassado de ternas melodias, e a natureza, a
máxima e sublime orquestra, preludiava a elegia da noite. O primeiro
grilo soltava o estrídulo; e o seio da floresta agitada pela viração
da noite, arfava ao ofego de um gemido plangente.

À beira da estrada via-se um vulto negro, que de longe afigurava-se
urna de algum bugre, esquecida à flor da terra. Ao tropel dos animais
o vulto ergueu a cabeça. Era Zana. Soltando um grito de espanto, arrojou-se
à frente do cavalo de Afonso, e estendeu as mãos súplices:

– Pelo amor de Deus, nhô Luís!… Não faça mal
a Nhazinha!… Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido e matou
Nhazinha!… Por vida de seu pai, nhô Luís!… Eu lhe peço
de joelhos!

A mísera negra, na sua alucinação, remontava o curso
da existência, e revivia o tempo já passado, quando Luís
fora mancebo que representava agora seu filho Afonso.

Ao aproximar-se da cena, ainda ouviu o fazendeiro as últimas palavras
de Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsessão
que depois de quinze dias o arrastava de humilhação em humilhação,
decidiu romper de uma vez o segredo que o acabrunhava.

Ao olhar cheio de ânsia da mulher, respondeu indicando os filhos com
um olhar expressivo.

– Vão seguindo! disse para Afonso e Linda.

Fez um gesto à mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas
braças da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoção
até a frente da casa em ruínas.

– Foi aqui!… balbuciou a voz trêmula de Luís.

XXX

A ENJEITADA

Dois dias decorreram depois da festa do Congo.

Jão Fera derreado a um tronco de árvore, no mato que cerca
a tapera, espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o
avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu desprezo
acudiu prontamente. Desde a véspera a esperava naquele sítio.

Não deixava, porém, o capanga de nutrir receios a respeito
do modo por que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela
o sentir; e agora tornando a vê-lo crescesse o horror que lhe inspirava
depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso voltaria para a prisão.

Acabava de fazer ainda uma vez esta reflexão quando ouviu crepitarem
as folhas sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto,
e correu para Zana acocorada junto à parede.

A louca recebeu a menina com viva efusão de contentamento, que se
manifestava em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sôfrega,
não esperou Berta que passasse aquela expansão; travando das
mãos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse perscrutar-lhe
a consciência, exclamou com ansiedade:

– Minha mãe, Zana!… Você não se lembra dela?… De
minha mãe!…

Tartamudeou a louca sons incompreensíveis, e sua fisionomia embotou-se,
tomando a expressão pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade
quase marmórea.

Acaso já conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era
apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?

Eis o que havia ocorrido:

Aí em frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara
Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher a confissão
plena da aventura de que fora teatro aquele sítio, e ele o triste herói.

Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua
repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção
pérfida com que a requestara; a cilada de que serviu-se para surpreender
a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou.

Que esforço não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa
revelação? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se;
mas consumou esse grande ato de contrição que devia remir sua
alma.

Quando chegaram à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas
e soluços que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos
que recalcou no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão
que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada.

Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu
que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a importunando
com banais consolações. Acendeu um cigarro; e velou o resto
da noite fumando.

Na manhã seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como
espectro que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação
que em si produzira aquela noite fatal.

D. Ermelinda chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando
a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido:

– Meu amigo, é preciso reconhecer a sua… a nossa filha!…

Arrasaram-se de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente
a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu.

– Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço!

Logo depois do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá
Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação que
o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e mãe quis
a boa senhora poupar à enjeitada a dor que havia de curtir se viesse
a conhecer a desgraça de Besita.

Imaginou pois um meio delicado de revelar a lúgubre história.
Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição
do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela
segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e
tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa
alheia.

Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela
ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa
mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa
de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de
que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.

Uma voz íntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história
de sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro
enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado.

Desde muito tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrível drama
representado pela estranha mímica da louca, se prendia à existência
dela, Berta, por um fio misterioso. Agora tinha a certeza.

Cheia de ânsia, em face da negra esfinge que emudecia, lançou
a menina em trono um olhar de desespero, e avistou Jão Fera a alguns
passos.

Teve um assomo de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada,
e balbuciou apontando para as mãos suplicantes que lhe estendia o Bugre:

– Não me toques. Tuas mãos têm sangue!…

Caiu de joelhos o facínora, e assim, arrastando-se até os pés
de Berta, murmurava:

– Por piedade, Nhazinha!… Nunca mais!…

Ergueu a menina a fronte resplandecente, como se a cingisse a auréola
da caridade.

– Tu juras?… Tu juras nunca mais fazer mal a ninguém?

– Juro.

Tirou Berta do seio a cruz presa com o bentinho ao cordão de ouro;
e o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da cinta,
e arremessou-as longe de si.

Nesse instante Zana que descobrira Jão atirou-se para beijar-lhe as
mãos com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos
do Bugre.

– Não careço mais, Zana!… Ela está vingada. Posso
morrer!

Esta cena despertou no espírito de Berta uma recordação.
Acudiram-lhe as palavras do caiapó na festa da vila:

– Jão, tu conheceste minha mãe!

– Quem lhe disse, Nhazinha?

– Conta-me como ela morreu!

– Não…

– Conta! Eu quero!

Referiu o Bugre com a voz trêmula e o seio opresso a história
de Besita desde que a conhecera até o momento em que a tinha perdido
para sempre. Não disse ele se tinha amado a moça; mas na palavra
balbuciante Berta lhe sentia palpitar o coração aos ímpetos
da paixão imensa.

Quando terminou essa dolorosa narração, Berta que a ouvira
com um respeitoso silêncio, apenas cortado pelo contínuo soluço
que fazia arfar-lhe o seio, alçou ao céu os olhos cheios de
lágrimas.

– E ele é meu pai!…

Depois erguendo-se de um ímpeto, e apertando as mãos grosseiras
do Bugre:

– Não! Não!… exclamou ela. Meu pai és tu, que me recebeste
dos braços de minha pobre mãe, com seu último suspiro.
És tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando ela deixou este mundo,
não tiveste no coração outro sentimento mais, senão
ódio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora,
Jão, o que te fez mau!… Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela,
para fazer-te bom!…

Falando assim, com sublime exaltação Berta abraçou o
Bugre, que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeçando agarrou-se
à parede para não cair.

XXXI

ALAM SÓROR

Descamba o sol.

Berta sentada à sombra do oitão da casa de nhá Tudinha,
deitou sobre os joelhos a camisa que estava cosendo para Jão, e embebeu
no azul diáfano do horizonte um olhar profundo, coalhado de lágrimas.

A seus pés, Zana agachada na esteira, contempla extática o
rosto da menina; e de vez em quando o prazer íntimo que ela sente,
derrama-se em sua fisionomia, e banha-lhe o rosto de um riso baço.

Ao lado, o Brás contempla Til com surda inquietação,
que se trai a espaço pela contração dos músculos
faciais e pela extrema mobilidade da pupila espantada.

Algumas braças distante, Jão curvado sobre a enxada, carpa
a terra preparando as leiras para a plantação do feijoal. De
vez em quando pára um instante, enxuga com a manga da camisa o suor
abundante que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho já
lhe encruou as mãos. Nessa ocasião crava com desassossego um
olhar em Berta.

Miguel assomou à porta da casa, e desprendendo-se do estreito abraço
em que o cingia a mãe lacrimosa, dirige-se para o lugar onde estava
a menina.

Importantes acontecimentos tinham passado na última semana decorrida
depois da confissão que Luís Galvão fizera à sua
mulher.

Berta recusou obstinadamente reconhecer Luís Galvão como seu
pai. A todos os rogos e instâncias respondia com um meigo sorriso:

– Não acredito, estão me enganando; meu pai é Jão.
Foi ele quem teve dó de minha mãe, e quem me criou!… Não
tenho outro senão ele!

Assim em compensação de tantas míseras crianças
abandonadas por aqueles que lhes deram o ser, houve então um pai enjeitado.

Muitas vezes Luís Galvão insistia em reconhecer a filha e leva-la
para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa mãe:

– Mãe, dizia Berta, não quero outra senão aquela que
me está esperando no céu. Mas há uma coisa que me faria
muito feliz. Esse lugar que não pode ser meu, eu dou a Miguel. Ele
quer tanto bem à Linda!…

Não teve Luís Galvão coragem para resistir ao pedido
de Berta. Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu
prontamente com o desejo do marido, ansiosa por vê-lo restituído
à sua tranqüilidade e arrependida da confissão que provocara.

Combinou-se que Miguel iria estudar a São Paulo; e dois anos depois
se efetuaria o casamento naquela cidade para onde a família devia partir
logo.

E quem sabe se voltaria mais às Palmas?

Chegara a véspera da partida. Miguel fora despedir-se da mãe
para seguir lá pela madrugada com a família caminho da capital.
Luís Galvão lhe pedira ainda uma vez empregasse todos os esforços
para resolver Berta a acompanha-los.

O moço ao chegar anunciara sua intenção de levar Berta,
e daí o desassossego que transparecia no semblante do Bugre, e no olhar
do idiota, confiado à guarda de nhá Tudinha durante ausência
do tio.

Dirigiu-se Miguel a Berta e apertou-lhe ambas as mãos.

– Então, Inhá?…

E seu olhar exprimia uma súplice interrogação. A menina
moveu lentamente a gentil cabeça.

– Fica?

– É preciso, Miguel. Quem há de consolar sua mãe?

– Coitada! murmurou o moço.

E afastou-se da casa para não ouvir os soluços de nhá
Tudinha. Berta o seguiu.

Por algum tempo caminharam os dois em silêncio, par a par escutando
as emoções que falavam dentro d’alma opressa. Uma lágrima
tremia-lhe nas pálpebras prestes a estalar.

– Se você tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos
ser tão felizes!…

– E você não é, Miguel? perguntou Berta fitando nele
um olhar melancólico.

– Sou! respondeu o moço com um suspiro.

Houve um novo e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:

– Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e
você, Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança;
mas você não quis!

– Não diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lágrimas.

– Quem me separa destes lugares e talvez para sempre?

Curvou Berta a cabeça e balbuciou:

– Lembre-se de Linda!

– Lembro-me daquela que foi companheira de minha infância, com quem
folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza
e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre,
e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a
existência tranqüila e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me
de si para longe!

– Miguel!…

Olhares ansiosos seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direção
das Palmas.

Jão, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção,
parecia despedir-se de si, para se precipitar aos pés da menina. Brás,
cavado o semblante por violentas contorções, arrancava os cabelos
da grenha ruiva, e mordia o beiço para não gritar. Zana estendia
os braços hirtos, e no afã de alcançar Berta e aperta-la
ao seio, rojava-se pela grama.

Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida
e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça à
beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente que o enamora.

Afinal o moço enlaçou com o braço a cintura da menina,
e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando
a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância,
deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.

Cortou os ares um grito de angústia. Brás caíra ao chão
como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão, soltando
uivos estridentes.

Berta desprendeu-se dos braços do moço:

– Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é
aqui, onde todos sofrem.

E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:

– Adeus!…

Correu então para o mísero idiota e sentando-se na grama para
deita-lo ao colo, ocupou-se em afaga-lo.

Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:

– Eu sou Til!… Til só!…

Compreendeu Brás a significação destas palavras, e adivinhou
quanta sublime abnegação exprimiam elas?

Nesse instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia
sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:

– Adeus, Inhá!…

Os lábios de Berta murmuraram frouxamente:

– Para sempre!

Jão de pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que
lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que
tentava sufocar.

Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:

– Vai trabalhar, Jão!…

Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu
a cena plácida e melancólica do começo da tarde.

Quando o sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta
ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na
primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés,
o idiota, a louca e o facínora remido.

Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram
os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos
da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça.
Era a flor da caridade, alma sóror.

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