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O Sertanejo

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José de Alencar

PRIMEIRA PARTE

I – O comboio

Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão
de minha terra natal.

Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo
acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda
com admirável destreza.

Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa
e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no
tempo da ferra.

Quando te tomarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há
muitos anos na aurora serena e feliz da minha infância?

Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas
quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?

De dia em dia aquelas remotas regiões vão perdendo a primitiva
rudeza, que tamanho encanto lhes infundia.

A civilização que penetra pelo interior corta os campos de
estradas, e semeia pelo vastíssimo deserto as casas e mais tarde as
povoações.

Não era assim no fim do século passado, quando apenas se encontravam
de longe em longe extensas fazendas, as quais ocupavam todo o espaço
entre as raras freguesias espalhadas pelo interior da província.

Então o viajante tinha do atravessar grandes distâncias sem
encontrar habitação, que lhe servisse de pousada; porisso, a
não ser algum afoito sertanejo à escoteira, era obrigado a munir-se
de todas as provisões necessárias tanto à comodidade
como à segurança.

Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas
margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão
de Quixeramobim.

Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa
marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrêgo
baixo, e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul
a passo tardo e monótono.

Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta
para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem
uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados.

Adiante do comboio, e já muito distante, aparecia a cavalgada dos
viajantes.

Compunha-se ela de muitas pessoas. Dessas, vinte pertenciam à classe
ainda não extinta de valentões, que os fazendeiros desde aquele
tempo costumavam angariar para lhes formarem o séquito e guardarem
sua pessoa, quando não serviam, como tantas vezes aconteceu, de cegos
instrumentos a vinganças e ódios sanguinários.

Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era
modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém,
traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia
amarela e calções da mesma côr com botas pretas e chapéus
à frederica.

Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta,
além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento dêstes
indivíduos cuja sinistra catadura já de si inculca mais susto
do que as próprias armas.

Traziam mais, presa à borraina da sela e suspensa às ancas
do animal, a larga machada que servia-lhes no caso de necessidade para abrir
a picada na mata-virgem, ou improvisar uma ponte sôbre o rio cheio:
utensílio indispensável naquele tempo ao viajante, que muitas
vezes o transformava em arma terrível.

Ia de cabo a essa fôrça um homem de exígua figura, magriço,
que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a
farda de pano verde e o chapéu do feltro agaloados de prata.

Esta escolta acompanhava duas pessoas que eram sem dúvida os donos
do comboio.

A primeira, homem de cincoenta anos, do alto porte e compleição
robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões
dourados ser um capitão-mór de ordenanças. Montava cavalo
ruço-pedrês, o qual dava testemunho de seu vigor na galhardia
com0que suportava o pêso do corpulento cavaleiro, além de umas
vinte libras da prata dos arreios.

A segunda personagem, dama de meia idade, mas bem conservada e prazenteira,
manejava com donaire o seu cavalo castanho, também ajaezado de prata
como o de seu marido. O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa
com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca,
ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam
em tôrno da cabeça.

Atualmente viaja-se pelo nosso interior em hábitos caseiros; não
era assim naquele bom tempo em que um capitão-mór julgaria derrogar
da sua gravidade e importância, se fossem vistos na estrada, êle
e a esposa, sem o decôro que reclamava sua jerarquia.

Acresce que o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo e sua
mulher D. Genoveva estavam a chegar à sua fazenda da Oiticica, onde
pretendiam entrar antes de uma hora com a solenidade, que alí era de
costume, sempre que os donos voltavam depois de alguma ausência.

A última pessoa da cavalgada, ou antes a primeira, pois rompia a marcha,
era D. Flor, a filha do capitão-mór. Formosa e gentil, esbeltava-lhe
o corpo airoso um roupão igual ao de sua mãe com a diferença
do ser azul a côr do estôfo.

Trazia um chapéu de feltro à escudeira, com uma das abas caída
e a outra apresilhada um tanto de esguelha pelo broche de pedrarias donde
escapava-se uma só e longa pluma branca, que lhe cingia carinhosamente
o colo como o pescoço de urna garça.

Na moldura dêsse gracioso toucado, a beleza deslumbrante de seu rosto
revestia-se de uma expressão cavalheira e senhoril, que era talvez
o traço mais airoso de sua pessoa. No olhar que desferia a luminosa
pupila; na seriedade dos seus lábios purpurinos, que ainda cerrados
pareciam enflorar-se de um sorriso cristalizado em rubim; na gentil flexão
do colo harmonioso; e no garbo com que regia o seu fogoso cavalo, assomavam
os realces de uma alma elevada que tem conciência de sua superioridade,
e sente ao passar pela terra a elação das asas celestes.

O sôfrego baio mastigava o freio e espumava; porém a mão
firme da linda escudeira, calçada de comprido guante de sêda,
que lhe vestia o braço até à curva, retinha os ímpetos
do animal, impaciente desde que aspirara as emanações dos campos
nativos.

A chapada, que os viajantes atravessavam neste momento, tinha o aspecto desolado
e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da sêca.

Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia
que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o
sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam
poeticamente os indígenas.

Pela vasta planura que se estende a perder de vista, se erriçam os
troncos ermos e nus com os esgalhos rijos e encarquilhados, que figuram o
vasto ossuário da antiga floresta.

O capim, que outrora cobria a superfície da torra do verde alcatifa,
roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado
pela pata do gado, ficou reduzido a uma cinza espêssa que o menor bafejo
do vento levanta em nuvens pardacentas.

O sol ardentíssimo côa através do mormaço da terra
abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta
os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como
uma lúgubre procissão de mortos.

Apenas ao longe se destaca a folhagem de uma oiticica, de um joazeiro ou
de outra árvore vivaz do sertão, que elevando a sua copa virente
por sôbre aquela devastação profunda, parece o derradeiro
arranco da seiva da terra exhausta a remontar ao céu.

Êstes ares em outra época povoados do turbilhões de pássaros
loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora ermos e
mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubús
que farejam a carniça.

Às vezes ouve-se o crepitar dos gravetos. São as reses que
vagam por esta sombra de mato, e que vão cair mais longe, queimadas
pela sede abrasadora ainda mais do quê inanidas pela fome. Verdadeiros
espectros, essas carcaças que se movem ainda aos últimos arquejos
da vida, inspiraram outrora as lendas sertanistas dos bois encantados, que
os antigos vaqueiros, deitados ao relento no terreiro da fazenda, contavam
aos rapazes nas noites do luar.

Quem pela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de longa
sêca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos
em face dessa inanição da vida, dêsse imenso holocausto
da terra.

É mais fúnebre do que um cemitério. Na cidade dos mortos
as lousas estão cercadas por uma vegetação que viça
e floresce; mas aquí a vida abandona a terra, e toda essa região
que se estende por centenas de léguas não é mais de que
o vasto jazigo de uma natureza extinta e o sepulcro da própria criação.

Das torrentes caudais restam apenas os leitos estanques, onde não
se percebe mais nem vestígios da água que os assoberbava. Sabe-se
que ali houve um rio, pela depressão às vezes imperceptível
do terreno, e pela areia alva e fina que o enxurro lavou.

É nos estuários dessas aluviões do inverno, conhecidos
com o nome de várzeas, onde se conserva algum vislumbre da vitalidade,
que parece haver de todo abandonado a terra. Aí se encontram, semeadas
pelo campo, touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam
os cardos e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai
do céu uma só gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão
as duas virtudes cearenses, a sobriedade e a perseverança.

O capitão-mór havia sesteado a quatro léguas da fazenda,
e partira à tarde quando já quebrara a fôrça do
sol, contando chegar à sua casa à noitinha.

Nessas horas do ocaso o sertão perde o aspecto morno, acerbo e desolador
que toma ao dardejar do sol em brasa. A sombra da tarde reveste-o de seu manto
suave e melancólico; é também a hora em que chega a brisa
do mar e derrama por essa atmosfera incandescente como uma fornalha, a sua
frescura consoladora.

À medida que se aproximam da fazenda, o capitão-mór
Campelo ia observando com maior atenção o estado dos terrenos
que atravessava, e a propósito dirigia a palavra, umas vezes à
sua mulher, outras a um dos acólitos, o que parecia o cabo da escolta
e que lhe ficava mais próximo.

Ao longo do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravalhas dos
ramos queimados pelo sol, as ossadas dos animais que já tinham sucumbido
aos rigores da sêca.

— A sêca por aquí foi rigorosa, D. Genoveva, que poder
de gado se perdeu.

— Há de ver, sr. Campelo, que poder de gado se perdeu.

— Com isso já conto eu; as ossadas que temos encontrado estão
mostrando. Não é um boi que lá está caído,
Agrela?

— Lá ao pé da marizeira, sr. capitão-mór?
Aquele já esticou a canela.

— Aposto que deixaram entupír as cacimbas? acudiu D. Genoveva.

— Não duvido; respondeu Campelo.

Nesse momento chegavam os viajantes a uma pequena elevação,
donde se avistava ao longe, sôbre aquela mata adusta, a copa verde e
frondosa de uma prócera oiticica.

Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à bôca
e tocou uma alvorada cujos sons festivos deramaram-se pelo espaço e
encheram a solidão.

O fogoso cavalo em que montava a gentil donzela, já excitado desde
que primeiro sentia as auras da terra natal, com os rebates da trombeta se
arremessou impetuoso pelo caminho da fazenda.

D. Flor deixou-o desafogar aquele generoso anelo que também lhe assomava
n’alma ao reconhecer os sítios onde passara a sua infância
e lhe corriam felizes os anos da juventude.

Logo abaixo da eminência, o caminho dividia-se; uma trilha estendia-se
pelos tabuleiros, a outra serpejava pelo doce aclive que já alí
formavam as abas da próxima serra. Sôbre essa lomba, cujo terreno
estava menos abrasado por causa das filtrações da montanha,
as árvores ainda conservavam a folhagem, que tornava-se mais embastida
e virente, à proporção que se avizinhavam das cabeceiras
do Sitiá.

Foi por êste último caminho que tomou a donzela.

— Flor! gritara D. Genoveva, chamando-a.

Mas ela voltou-se para sorrir à sua mãe, fazendo-lhe um gesto
prazenteiro, e deixou-se levar pelo árdego ginete.

A moça breve desapareceu encoberta pelo mato aí mais fechado,
e revestido ainda de alguma rama, embora rara e crestada.

Com a rapidez do galope, o vento agitava os cabelos castanhos da donzela,
fustigando-lhe o rosto, e ela experimentava um indizível prazer, como
se a terra de seu berço lhe abrisse os braços carinhosa, e a
estivesse apertando ao seio, e cobrindo-lhe as faces de beijos.

Cerrando a meio os olhos, engolfada nessa ilusão, parecia-lhe que
a terra tomava as feições da ama que a criara, da boa Justa,
de quem se apartara pela primeira vez com tamanha saudade.

De repente o brioso cavalo que relinchava de alegria, erriçou a crina
e soltou do peito um ornejo surdo, lançando os olhos pávidos
para a esquerda do caminho.

D. Flor pensando que êsse terror proviria de ter o baio pressentido
no mato a carniça de alguma rês, afagou-lhe o pescoço
com a mãozinha afilada, excitando os brios do animal por uma carícia
da voz.

Mas o cavalo estacou espavorido, com o pêlo híspido e as narinas
insufladas pelo terror.

II – Desmaio

A par com a comitiva, mas por dentro do mato, caminhava um viajante à
escoteira.

Parecia acompanhar o capitão-mór, porém de longe, às
ocultas, pois facilmente percebia-se o cuidado que empregava para não
o descobrirem, já evitando o menor rumor, já afastando-se quando
o mato rareava a ponto de não escondê-lo.

Sua paciência não se cansava; tinha caminhado assim horas e
horas, por muitos dias, com a perseverança e sutileza do caçador
que segue o rasto do campeiro. Não perdia de vista a comitiva, e quando
a distância não lhe deixava escutar as falas, adivinhava-as pela
expressão das fisionomias que seu olhar sagaz investigava por entre
as ramas.

O cavalo cardão, que êle montava, parecia compreendê-lo
e auxiliá-lo na emprêsa; não era preciso que a rédea
lhe indicasse o caminho, O inteligente animal sabia quando se devia meter
mais pelo mato, e quando podia sem receio aproximar-se do comboio. Andava
por entre as árvores com destreza admirável, sem quebrar os
galhos nem ramalhar o arvoredo.

Tinha o cavalo um porte alto e linda estampa; mas nessa ocasião, além
da fadiga da longa viagem que devia emagrecê-lo, sobretudo por uma sêca
tão rigorosa, o animal vaqueano conhecia que não era ocasião
de enfeitar-se, rifar e dar mostras de sua galhardia. De feito tinha mais
aspecto do um grande cão montado por seu senhor, do que de um corcel.

Era o viajante moço de vinte anos, de estatura regular, ágil,
e delgado do talhe. Sombreava-lhe o rosto, queimado pelo sol, um buço
negro como os compridos cabelos que anelavam-se pelo pescoço. Seus
olhos, rasgados e vívidos, dardejavam as veemências de um coração
indomável.

Nesse instante o constrangimento a que a espreita o forçava, tolhia-lhe
os movimentos e embotava a habitual impetuosidade; mas ainda assim, nesses
agachos de caçador a esgueirar-se pelo mato, percebia-se a flexibilidade
do tigre, que roja para arremessar o bote.

Vestia o moço um trajo completo de couro de veado, curtido à
feição de camurça. Compunha-se de véstia e gibão
com lavores de estampa e botões de prata; calções estreitos,
bolas compridas e chapéu à espanhola com uma aba revirada à
banda e também pregada por um botão de prata.

Ainda hoje êsse trajo pitoresco e tradicional do sertanejo, e mais
especialmente do vaqueiro, conserva com pouca diferença a feição
da antiga moda portuguesa, pela qual foram talhadas as primeiras roupas de
couro. Ultimamente já costumam fazê-las de feitio moderno, mas
não têm o valor e estimação das outras, cortadas
pelo molde primitivo.

Trazia o sertanejo, suspensa à cinta, uma catana larga e curta com
bainha do mesmo couro da roupa, e na garupa a maleta de pelego de carneiro,
com uma clavina atravessada e um maço de relho.

Quando a comitiva chegou à eminência donde se avistava a oiticica,
o viajante acompanhou com os olhos a donzela até que seu vulto gracioso
desapareceu entre o arvoredo; e dando volta ao cavalo afastou-se vagarosamente
do caminho da fazenda.

Não tinha, porém, andado vinte braças, que sua fisionomia
traiu súbita inquietação. Reclinando sôbre o arção,
perscrutou com o olhar o mato que o rodeava. Ouvia-se ao longe um leve crepitar,
semelhante ao rugir do vento nas palmas crenuladas da carnaúba.

O que, porém, mais preocupava o sertanejo era a cálida rajada
que ao passar escaldara-lhe o rosto. Arripiando caminho avançou contra
o bochorno para verificar a causa, que tinha logo suposto.

Seu cavalo cardão rompeu o mato a galope, como quem estava acostumado
a campear o barbatão no mais espêsso bamburral; e com pouco o
sertanejo, atalhando a distância, avistou D. Flor parada além,
no caminho.

A donzela debalde fustigava o baio, que recuava cheio de terror. Também
ela sentira-se envôlta por uma evaporação ardente, que
se derramava na atmosfera e oprimia-lhe a respiração, mas, ocupada
em vencer a relutância do animal, não prestara ao incidente maior
atenção.

Nisso levantou-se no mato um fortíssimo estrépito que rolava
como o borbotão de uma torrente; e a donzela viu, tomada de espanto,
um turbilhão de fogo a assomar ao longe e precipitar-se contra ela
para devorá-la.

Conhecendo então a causa do terror que assustara o animal, e pressentindo
o perigo que a ameaçava, lembrou-se a donzela de retroceder; mas outro
bulcão de chamas já arrebentava por aquela banda e tomava-lhe
o passo.

O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com
fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então
de uma extensa mata de lenha. A labareda, como a língua sanguinolenta
da hidra, lambia os galhos ressequidos, que desapareciam tragados pela fauce
hiante do monstro.

No seio do denso pegão do fumo, que já submergia toda a selva,
rebolcava-se o incêndio como um ninho de serpentes, que se arremetiam
furiosas, enristando o colo, brandindo a cauda, e desferindo silvos medonhos.

Ao mesmo tempo parecia que a tormenta percorria a floresta e a devastava.
Ouvia-se muir o vento, agitado pelo ressolho ardente e ruidoso das chamas;
um trovão soturno repercutia nas entranhas da terra, e a cada instante,
no meio do constante estridor da ramagem, reboavam com os surdos baques dos
troncos altaneiros os estertores da floresta convulsa.

Do meio dêsse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando
as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas
de D. Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos.

Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo
e não tardavam sossobrá-lo, a donzela não desanimou,
e fez um supremo esfôrço para arrancar seu cavalo do estupor
que lhe causava o terror do incêndio.

Negros rolos de fumo, porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela
sentiu desfalecer-lhe a vida.

Então com um gesto de sublime resignação cruzou as mãos
ao peito, reclinou a linda fronte, e abandonou-se à morte cruel que
vinha ceifar-lhe sem piedade a primícia de sua beleza, quando apenas
desabrochava.

Nenhum grito lhe rompeu do seio nessa tremenda angústia; com o nobre
pudor das almas altivas recalcou o supremo gemido, e em seus lábios
mimosos a voz feneceu exalando apenas esta palavra, que resumia toda a sua
aflição:

— Jesús!…

O corpo desmaiado resvalou pelo flanco do baio, mas não chegou a cair.
Um braço robusto o suspendeu quando já a fralda do roupão
de montar arrastava pelo chão.

Apenas o sertanejo conheceu o perigo em que se achava a donzela, rompeu-lhe
do seio um grilo selvagem, o mesmo grito que fazia estremecer o touro nas
brenhas e que dava asas ao seu bravo campeador.

No mesmo instante achava-se perto da moça, a quem tomara nos braços.
Para salvá-la era preciso voltar antes de fechar-se o círculo
de fogo, que já o cingia por todos os lados com exceção
da estreita nesga de terra por onde acabava de passar.

Não houve de sua parte a mínima demora; o campeador devorou
o espaço, e não se poderia dizer que chegara, pois sem parar
voltara sôbre os pés. Mas o incêndio tinha as asas do dragão;
retrocedendo, achou-se o sertanejo em face de um bulcão de chamas que
o investia.

As duas trombas de fogo, que desfilavam pelo campo fora, se haviam encontrado,
não frente a frente, mas entrelaçando-se, de modo que deixavam
ainda, de espaço em espaço, restingas de mato poupadas pelas
chamas.

Arrojou-se o mancebo intrepidamente nessa voragem. Estreitando com o braço
direito o corpo da donzela cujo busto envolvera em seu gibão de couro,
com um leve aceno da mão esquerda suspendia pelas rédeas o bravo
campeador que, de salto em salto, transpôs aquelas torrentes de fogo,
como tantas vezes sobrepujara os rios caudalosos, abarrotados pelas chuvas
do inverno.

Fustigado pelas chamas que já o atingiam, e instigado também
do exemplo, o baio, saindo afinal do torpor que dele se apossara, disparou
à cola do brioso campeador; porém, menos intrépido e
ágil, muitas vezes tropeçou no braseiro, donde a custo pôde
safar-se.

Para rodear a coluna de fogo que lhe cortava o caminho da fazenda, teve o
sertanejo de dar grande volta, que o levou aos fundos da habitação,
completamente deserta nesse momento, pois todos os moradores e gente do serviço,
avisados pelo toque da trombeta, haviam acorrido para o terreiro da frente
a receber os donos e festejar a chegada.

Saltou o mancebo em terra sem esperar auxílio, e atravessando a varanda
deitou o corpo desfalecido de D. Flor no longo canapé de couro adamascado,
que ornava a sala principal.

Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da
saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela,
descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconsertassem a graciosa postura
dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação
da formosa dama, agitava como leque a aba de seu chapéu do couro, refrescando-lhe
o rosto.

Não assustava ao sertanejo a imobilidade da moça; durante a
corrida, a-pesar-do estrépito do incêndio e do esfôrço
que empregava para arrancá-la às chamas, não cessara
um instante de ouvir sôbre o peito a palpitação do coração
de D. Flor, a princípio violenta, mas que foi moderando-se gradualmente.

Conheceu que não passava isso de um simples desmaio causado pelo vapor
do incêndio. Com o repouso e a inspiração do ar mais vivo
e fresco, a donzela não tardaria a voltar a si. Mas se não receava
já pela vida preciosa que salvara, todavia não se desvaneceu
completamente a inquietação do mancebo pelas consequências
que podia ter aquele susto para a saúde e tranquilidade de D. Flor.

Êste desvêlo extremo enchia-lhe os olhos os feros olhos negros,
que fuzilavam procelas nos assomos da ira e que agora, ali, em face da menina
desfalecida, se quebravam mansos e tímidos, espreitando a volta do
espírito gentil que animava aquela formosíssima estátua,
e estremecendo ao mesmo tempo só com a lembrança de que as pálpebras
cerradas pelo desmaio se abrissem de repente e o castigassem com mostras de
desprazer.

Indefinível era a unção dêsse olhar em que o mancebo
embebia a virgem, como para reanimá-la com os eflúvios de sua
alma, que toda se estava infundindo e repassando da imagem querida. Ninguém
que o visse momentos antes, lutando braço a braço com o incêndio,
gigante contra gigante, acreditara que esse coração impetuoso
encerrasse o manancial de ternura, que fluía-lhe agora do semblante
e de toda sua pessoa.

A respiração da donzela, sopitada pela vertigem, foi-se restabelecendo;
o seio arfou brandamente com o primeiro alento, e na face que parecia de alabastro
perpassara um frouxo vislumbre de côr.

Ajoelhou então o sertanejo à beira do canapé; tirando
do peito uma cruz de prata, que trazia ao pescoço, presa a um relicário
vermelho, deitou-a por fora do gibão de couro. Com as mãos postas
e a fronte reclinada para fitar o símbolo da redenção,
murmurou uma avemaria, que ofereceu à Virgem Santíssima como
ação de graças por haver permitido que ele chegasse a
tempo de salvar a donzela.

Terminada a oração, volveu a vista em torno como se temesse
que as paredes se crivassem de olhos para espiá-lo, e perscrutou o
semblante da donzela com uma expressão pávida e suplicante.
Afinal, trêmulo, pálido, qual se cometesse um crime, curvou-se
e beijou a franja que guarnecia o fraldelim do roupão, como se beija
a mais santa das relíquias.

Tênue suspiro exalou dos lábios já rosados da donzela;
a mão esquerda moveu-se com um brando gesto que a aproximara do peito.
O mancebo retraíra-se vivamente par ao lado da cabeceira: e à
medida que os sinais do recobro se manifestavam na menina, ele, sempre voltado
para o canapé, sem tirar-lhe os olhos do semblante, se afastava de
costas em direção à varanda. Cada movimento de D. Flor
era um passo que êle dava, pronto a desaparecer da sala como uma sombra.

Já próximo à porta, violenta comoção o
abalou. Dos lábios frouxos da donzela se desprendera em mavioso queixume
um nome, e esse nome era o seu:

– Arnaldo!

Irresistível impulso arrojou-o para a donzela; mas, como o cedro que
o vento inclina, sem arranca-lo do solo onde lançou a profunda raiz,
o sertanejo tinha dentro d’alma um poderoso sentimento, que lhe encadeava
os assomos da paixão, e o soldava ao pavimento.

Foi lentamente e com supremo esfôrço tornando do primeiro elance,
até que, arrancando-se enfim ao encanto que alí o prendera,
desapareceu da sala.

Levantara-se então um grande alarido no terreiro da casa.

III – Chegada

Quando o capitão-mór reconheceu os primeiros sinais do incêndio,
preveniu a gente de sua escolta.

— Queimada, Agrela? disse êle surpreso. Neste tempo e nestas
paragens, não pode ser.

— É que vem de longe, observou o tenente fincando as esporas
no cavalo. Toca avante a escolta.

O trôço de cavaleiros disparou com a machada em punho, desbastando
o mato de uma e outra banda para formar um largo aceiro que impedisse o fogo
do propagar-se pela floresta.

Enquanto êles abatiam as maravalhas e ramadas altas que facilmente
concebiam a chama e a comunicavam, os peões, chamados a tempo, arredavam
para longe todo êsse chamiço, isolando os grossos troncos, que
se não podiam facilmente derrubar na ocasião.

No meio dessa faina que o capitão-mór dirigia em pessoa e animava
com a palavra e o exemplo, soou um grito de aflição. Partira
de D. Genoveva, a quem de repente acudiu a idéia do perigo que podia
correr a donzela nesse instante, se é que já não fôra
vítima da horrível catástrofe.

— Minha filha!… Flor!… bradava a desolada mãe.

E ora queria atravessar por dentro da mata abrasada, levada pelo desespêro
à busca da menina; ora voltava-se para o marido com as mãos
postas, suplicando-lhe que a amparasse naquela ânsia.

Rápida contração frisou o rosto grave e plácido
do capitão-mór, que logo dominou-se. Podia medir-se a energia
que recalcou a primeira impulsão, pela fôrça com que o
velho se firmou na sela, vergando ao seu pêso o espinhaço da
cavalgadura à feição de um arco.

— Não se assuste, D. Genoveva! disse com voz sossegada. Nossa
filha não corre perigo.

— De-certo, acudiu Agrela; a doninha passou antes que o fogo chegasse
ao caminho, senão teria voltado.

— Esteja descansada, minha mulher. D. Flor já chegou à
nossa casa, observou o capitão-mór e tomou ao serviço:
Aguenta, rapazes!

— Quem sabe, sr. Campelo; Flor é tão animosa! Talvez
teimasse em passar para mostrar que não tem mêdo.

— Mas, senhora dona, insistiu o Agrela, se tivesse acontecido alguma
coisa, do que Deus nos livre e guarde…

— Amém! disse a dama.

O capitão-mór tirou o chapéu, gesto que toda a escolta
imitou.

— Por fôrça que se havia de ouvir!

— Com êsse barulho do fogo, que parece uma trovoada!…

— Lá o grito da doninha, não digo nada, mas o rincho
do cavalo chega longe; e então quando o fogo começasse a chamuscar-lhe
a pele!

— Convença-se do que lhe digo, senhora, acrescentou o capitão-mór.

— A prova aí está! Não ouve, senhora dona? Um
cavalo que está rinchando lá em casa?

— É verdade! exclamou D. Genoveva.

Agrela aplicou o ouvido.

— E não é outro senão o baio!

— Está vendo, D. Genoveva?

A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não
serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente
o coração, deixa uma incredulidade, que se não desvanece
com palavras e muitas vezes resiste à própria realidade.

É só depois que ao coração, como ao lago revôlto
pela tempestade, volta a bonança, que êle recobra sua limpidez,
na qual espelha as celestes esperanças.

— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada,
sr. Campelo.

O capitão-mór voltou-se para Agrela. Minha senhora dona já
pode passar, disse o tenente. Olá, o Xavier e o Benteví!

— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.

— Ordena o sr. capitão-mór que acompanhem à casa
a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.

— Ordenamos!

— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta
de aflições.

O capitão-mór fez à mulher uma respeitosa cortesia,
e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tomou ao serviço que
sua gente empreendera para atalhar o incêndio e salvar as matas vizinhas,
ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.

O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar
para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na
direção da fazenda tinha cortado a tromba do incêndio
que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil
ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada,
onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou
a apagar-se, ficando apenas o brasido.

Todavia, não era prudente abandonar êsse imenso borralho, donde
o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no
ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.

Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo
na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço
a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar
aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.

Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio
não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas alí
estava o capitão-mór que não somente não se poupava
para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça
do primeiro que respingasse contra o seu tenente.

Com pouco apareceu o refôrço da gente da fazenda, que avisada
pela chegada de D. Genoveva, corria em socorro e deu a última demão
ao serviço.

— Podemos seguir, sr. capitão-mór, se V. S. não
manda o contrário.

— Vamos!

Só então o capitão-mór Campelo resolveu-se a
deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se
achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara
para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza,
se o fogo continuasse com a violência em que ia.

Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.

Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio,
em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la
com as alvíçaras, toques e aclamações de prazer,
que eram de uso em tais ocasiões.

D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com
que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras
pessoas que lhe saíam ao encontro.

— Flor?… onde está Flor!…

Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender
como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em
sua companhia e chegar juntamente com ela e o marido.

A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto
que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe
extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.

— Minha filha!… gritou com um clamor de angústia. Não
viram minha filha?… Ela não chegou?… Então, meu
Deus, está morta! O fogo a queimou!…

A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços
convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.

Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulas, se animava
a consolar a dôr suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se
a acompanhá-la com o pranto e a velar sôbre ela, para ampará-la,
se afinal desfalecesse com o atroz suplício.

Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério
dirigiu palavras de confôrto à mãe aflita.

— Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu
filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões.
E ela bebeu resignada êsse cálice de amargura!…

Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:

— Minha mãe!

Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta
pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação
de desafôgo, avistando sua mãe.

D. Genoveva caiu de joelhos, dando graças a Deus que lhe restituia
a filha; e quando ergueu-se foi para estreitar ao peito a donzela que se lançara
em seus braços.

— E meu pai? interrogou a menina assustada.

— Não lhe aconteceu nada; sossega; ficou atrás para apagar
o fogo; eu é que não podia descansar enquanto não te
visse perto de mim, livre do perigo… Que desespêro, quando cheguei,
e ninguém sabia de ti! Como não morrí, meu Deus!

— Já passou! murmurava D. Flor. Agora sossegue, que aqui está
sua filha querida.

— Sim, sim; parece-me que ainda mais te quero depois que te chorei
perdida.

A êsse tempo já toda a gente de serviço corria para o
lugar do fogo.

Entre as mulheres que cercavam a dama e sua filha, nem uma tomara maior parte
nas aflições, como nas alegrias maternais, do que uma sertaneja
alta e robusta sem corpulência, que mostrava no semblante rude, porém
amorável, uma franqueza de cativar.

Era essa a Justa, a ama de D. Flor, cujo amor pela menina às vezes
causava ciúmes a D. Genoveva, tamanha era a devoção da
carinhosa aldeã por sua filha de criação.

Apenas se desprendeu dos braços de sua mãe, D. Flor se atirou
com efusão à Justa, que esperava essa carícia, como seu
foro e juro de segunda mãe. A alentada sertaneja não se contentou
com qualquer afago dos que se costumam fazer às moças; tomou
a menina ao colo, e conchegando-a a si como fazia outrora quando a trazia
aos peitos, comeu-a de beijos desde as macias tranças dos cabelos até
à ponta dos pequeninos pés, calçados de coturnos de setim
escarlate.

— Olhem só, gentes!… como veio bonita!… Está-se
rindo, hein!… Teve saudades de sua mamãe?… Teve!…
Teve?… Não havia de ter!… Por que não voltou logo?…
A gente tanto tempo aqui penando!… Pois agora há de pagar! Tome!
Um, dois, três… cem!… Ah! cuida que não me hei de
desforrar?

Tudo isto interrompido por mil carinhos e entremeado dessa ingênua
garrulice com que as mães falam aos filhinhos de colo, e que êles
parecem entender: misteriosa linguagem do mais sublime afeto, formada de arrulhos,
de carícias e de ternos balbucios.

D. Flor deixava-se acariciar; e cheia de risos, mostrava no semblante o contentamento
que sentia banhando-se nessas efusões de amor.

— Então lembrou-se muito de mim, mamãe Justa? disse D.
Flor.

— Nem se fala, gente!

A donzela pôde enfim receber as festas das companheiras da Justa. Com
todas mostrou-se afetuosa, porém mais especialmente com uma moça
que no seu tímido receio não ousava aproximar-se.

— Adeus, Alina, vem abraçar-me.

Entraram afinal as duas senhoras na sala principal.

— Ainda não me disseste, Flor! tomou D. Genoveva, sentando-se
no sofá e chegando a filha para junto de si, como que ainda receosa
de que lha arrebatassem. O fogo assustou-te muito, ou não havia nada
quando passaste?

— Pensei morrer! exclamou D. Flor erriçando-se à lembrança
do transe horrível que passara. Está bom; não fique outra
vez aflita! Para que falar mais destas coisas?

— Não; conta, Flor!

— Foi um milagre. O baio espantadiço empacou; a princípio
não sabia o que era; quando descobrí o fogo, quis voltar. Estava
cercada; via as labaredas correrem para mim, e pareciam-me estarem folgando
e rindo do mêdo que me causavam. Mas a fumaça de repente sufocou-me,
e não soube mais de mim!… Vi que era chegada a minha última
hora e encomendei-me a Deus.

— Jesús! pôde afinal proferir D. Genoveva em quem se repetia
a ânsia já passada da filha. E como escapaste, Flor?

— Não sei, minha mãe; respondeu a menina ingenuamente.
Disse-lhe já que foi um milagre; não pode ser outra coisa. Nossa
Senhora quis valer-me!

— Pois foi mesmo Nossa Senhora da Penha de França! afirmou a
Justa, que ouvia de pé. E porisso há de ter a sua novena de
arrôjo êste ano, que foi a minha promessa, se trouxesse a minha
filha e todos a salvamento.

— Obrigada, mamãe!

— Mas, Flor, como chegaste à casa sem que te acontecesse nada?

— Não posso lembrar-me! respondeu a menina pensativa e evocando
do íntimo as vagas impressões que lhe flutuavam no espírito.
Desde que a fumaça cobriu-me toda, como se fosse a minha mortalha,
não vi mais nada; sé dei acôrdo de mim aqui, neste canapé!…

— Neste canapé ! exclamou D. Genoveva atônita.

— E deitada, como se tivesse dormindo.

— Foi a minha Senhora da Penha, que a trouxe nos braços. Porisso
ninguém viu quando chegou.

— É verdade! exclamaram outras vozes de mulher.

— Eu tinha acordado; não sabia onde estava, nem tinha idéia
de quê me acontecera. Erguí-me e começava a reconhecer
a casa, quando ouví gritos no terreiro; corrí à janela
e dei com minha mãe.

A moça proferindo estas últimas palavras lançou os braços
ao pescoço da mão, e ambas ficaram enlaçadas naquela
ardente efusão com que novamente se restituiam uma à outra.

A maneira por que a donzela fôra salva do incêndio, ficou sendo
um mistério. A maior parte da gente da fazenda atribuiu o caso à
intervenção divina, e acreditava que Nossa Senhora da Penha
fizera um milagre em favor da menina e pela intercessão da Justa. Outras,
sem afirmar, supunham que a menina, trazida a casa pela disparada do cavalo,
que se encontrou atado ao pilar da varanda, apeara-se fora de si e caíra
desmaiada de susto no sofá, não se recordando dessas circunstâncias
pelo abalo que sofrera.

Quanto a D. Flor, cogitando depois sôbre o acontecimento que ameaçara
a sua existência, recordava-se de um grito que ouvira ao perder os sentidos
e de um vulto que surgira de repente a seus olhos já anuviados pelas
sombras da morte.

Mas essa impressão que ao despertar exalava-se em um nome murmurado
à flor dos lábios, seria a fugaz reminiscência deixada
por confusa realidade, ou ilusão apenas da fantasia turbada pela vertigem?

IV – A herdade

A morada da Oiticica assentava a meio lançante em uma das encostas
da serra.

Erguia-se do centro de um terrado revestido de marachões de pedra
sôlta. Por diante, além do terreiro, descia a rampa com suave
ondulação até à planície; atrás
da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminência donde
caía abrupta sôbre um vale profundo que a separava do corpo da
montanha.

Na frente elevava-se no terreiro, a algumas braças da estrada, a frondosa
oiticica, donde viera o nome à fazenda. Era um gigante da antiga mata-virgem,
que outrora cobria aquele sítio.

Na ocasião da derrubada, sua majestosa beleza moveu o fazendeiro a
respeitá-la, destinando-a a ser como que o lar indígena da nova
habitação fundada aí nesses ermos.

As casas da opulenta morada eram todas construídas com solidez e dispostas
por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente à defesa
contra um assalto, como à resistência em caso do sítio.

Ocupava a maior área do terreiro um edifício de vastas proporções
que prolongava duas asas para o fundo, flanqueando um pátio interior,
bastante espaçoso para conter horto e pomar.

À extremidade de cada uma dessas asas prendiam-se outros edifícios
menores, alguns já trepados sôbre os píncaros alpestres,
porém ligados entre si por maciços de rochedos que formavam
uma muralha formidável.

A tapeçaria e alfaias da casa eram de uma suntuosidade que se não
encontra hoje igual, não só em toda a província, mas
quiçá em nenhuma vivenda rural do império.

Naquela época, porém, os fazendeiros tinham por timbre fazer
ostentação de sua opulência e cercar-se de um luxo régio,
suprimindo assim em tôrno de si o deserto que os cercava.

Havia fazendeiro, e o capitão-mór Campelo era um deles, que
não comia senão em baixela de ouro, e que trazia na libré
de seus criados e escravos, bem como nos jaezes de seus cavalos, brocados,
veludos e telas de maior custo e primor do que usavam nos paços reais
de Lisboa os fidalgos lusitanos.

Datava do fim do século dezessete a primeira fundação
da herdade ou fazenda, como já então se entrava a chamar êsses
novos solares que os fidalgos de fortuna iam assentando nas terras de conquista,
à semelhança do que outrora o haviam feito no reino outros aventureiros,
também enobrecidos pelo valor e pelas façanhas.

Naturalmente lembraram-se nossos avoengos de pôr êsse nome às
granjas de maior tráfego pela razão do representarem os grossos
cabedais e grandes posses de seus donos. Daí veio a designação
no norte aos casais de criação, como no sul aos prédios
de lavoura.

O gado de várias espécies, que os primeiros povoadores tinham
introduzido na capitania do Ceará, se propagara de um modo prodigioso
por todo o sertão, coberto de ricas pastagens.

Sucedera o mesmo que nos pampas do sul: as raças se tornaram silvestres,
e manadas de gado amontado, que ainda hoje na província chama-se barbatão,
vagavam pelos campos e enchiam as matas.

Chegando a notícia desta riqueza às capitanias vizinhas, muitos
de seus habitantes, já abastados, vieram estabelecer-se nos sertões
do Ceará; e ali fundaram grandes herdades, obtendo as terras por sesmaria.

Nessa ocupação do solo, a cobiça de envôlta com
o orgulho gerou as lutas acérrimas e encarniçadas que durante
o século dezoito assolaram a nascente colônia.

Entre todas, avulta a guerra de extermínio das duas poderosas famílias
dos Montes e Feitosas, que se acabou pelo aniquilamento da primeira. Desta
bárbara contenda ficou sinistra memória não só
na crônica da província, como no escólio de sua topografia.

Com outros sesmeiros, veio de Pernambuco o velho Campelo, que tinha fundado
a herdade, e a transmitira por sucessão havia já vinte anos
ao filho, o atual capitão-mór.

No tempo da fundação da fazenda ainda o formoso e ameno sertão
de Quixeramobim, que os primeiros povoadores haviam denominado Campo maior
por causa da extensão, achava-se quase inhabitado.

Apenas se encontravam alguns ranchos onde se acolhia uma população
vagabunda de aventureiros, que percorriam o sertão, vivendo das rapinas
e dos recursos que lhes oferecia a fartura da terra.

Só em 1755 fundou-se sob a invocação do Santo Antônio
de Pádua a primeira freguesia, a qual mais tarde foi criada vila pela
carta régia de 13 de junho de 1789, que a separou do têrmo de
Aracati.

Sob o domínio do atual dono, a fazenda continuou a prosperar e com
o volver dos anos adquiriu novas pertenças, com que mais se excedia,
não lhe faltando nenhuma das comodidades e recreios que pedia um viver
à lei da grandeza.

Tal era a herdade a que chegara o capitão-mór nessa tarde de
10 dezembro de 1764.

Tomava êle do Recife, aonde à volta de cada três anos
costumava fazer uma viagem. Desta vez levara a família para mostrar
a capital do Pernambuco a D. Flor, que ainda não a tinha visto; pois
só para visitar a avó em Russas ou para assistir aos ofícios
da semana santa no Icó, havia a donzela alguma rara vez deixado a Oiticica
onde nascera.

Ao cabo de sua jornada, já em terras da fazenda, fôra o capitão-mór
atalhado pelo fogo, que afinal conseguira extinguir com sua gente.

Concluído o serviço, encaminhara-se para a casa e acabava de
parar no terreiro, embaixo da oiticica.

Às aclamações com que o acolheu toda a gente da fazenda
pressurosa ao seu encontro, respondeu com um aceno repetido da mão
esquerda; e apeou-se afinal sem esfôrço, mas guardada a pausa
e medida de que jamais se desairava.

Alí deu audiência de chegada a todas as pessoas, que uma após
outra, desde o capelão e o feitor até o último dos escravos,
vieram saudá-lo dando-lhe boa-vinda; a cada um escutava com paciência,
examinando-lhe as feições para notar a mudança que porventura
fizera, e dirigindo-lhe alguma breve pergunta.

Depois que passou o último da turma, volveu o capitão-mór
os olhos para o seu feitor.

— Falta um!

— Com licença de vossa senhoria, parece-me que estão
todos.

— E o Arnaldo?

— Êsse não se conta; desde o dia em que o sr. capitão-mór
saíu de jornada, que êle também desapareceu da fazenda.

— Ah! Então é que pediu-nos licença, e nós
lha concedemos.

— Com certeza que há de tê-la pedido, acrescentou o Agrela.

Descarregou o capitão-mór no feitor um olhar que o aturdiu:

— Manuel Abreu, chegámos e vimos achar o fogo nas matas da Oiticica
a meia légua de nossa casa; e ninguém na fazenda soube, nem
acudiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu?

— Com licença do sr. capitão-mór, saberá
vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um
caso dêstes!

— Pois amanhã há de estar averiguado quem foi o causador
do incêndio, para lhe ser lançado conforme a culpa.

Dirigiu-se o fazendeiro ao pórtico da casa, cujos degraus subiu, para
entrar na sala pintada de florões a fresco pelo teto e pelas paredes
e guarnecida de móveis de jacarandá forrados de moscóvia
com tachas de prata.

Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebê-lo.

Então, só então, quando todos os deveres de dono da
propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mór que afinal
pulsasse o seu coração de pai.

Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito; no desusado
alvorôço que perpassou-lhe a fisionomia sempre calma e serena,
se reconhecia que a alma fôra profundamente percussa.

Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente,
o capitão-mór levou-a para o sofá e sentando-a defronte
de si esqueceu-se a fitá-la, como se não a tivesse visto por
largo trato e se quisesse recuperar dessa privação de sua imagem.

Êste pormenor mostrava o relêvo do homem que era o capitão-mór.
Formalista severo, adicto às regras e cerimônias, que se esmerava
em observar escrupulosamente, imbuído de uma gravidade que tinha por
essencial ao decôro de uma pessoa de sua categoria e posição,
sujeitava todos os afetos como todos os interêsses a essa rigorosa disciplina
das maneiras.

Não era, porém, êsse modo do Campelo a afetação
ridícula de meneios em que se requinta a fatuidade; e sim uma temperança
de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descaírem em
vulgaridades.

Nascia tal resguardo do nobre est&iacuiacute;mulo de manter o estado que lhe
havia criado a fortuna. Campelo provinha de sangue limpo, mas plebeu; e almejando
um pergaminho de nobreza, que enfim alcançara, êle queria merecê-lo
por seus dotes e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.

Assentava bem esse temperamento do gôsto no porte avantajado do capitão-mór
e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.

Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos
toques dessa moderação inabalável; e a fisionomia cheia,
plácida e séria, impunha a quantos lhe falavam um irresistível
acatamento.

Enquanto o capitão-mór comprazia-se em contemplar a filha,
D. Genoveva referia ao marido o perigo a que havia por milagre escapado a
donzela; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce
exprobação à fleuma que o marido conservara quando ela
lhe comunicara seus terrores.

— Eu tinha fé em Deus que nos havia de conservar nossa filha,
D. Genoveva; respondeu serenamente Campelo.

Já de todo caíra a tarde; e as sombras da noite se desdobravam
pelas encostas da serra.

Os viajantes recolheram aos seus aposentos enquanto não chegava a
hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na
capela, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.

A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela
surdina dos longos pios das aves noturnas e dos ulos da brisa nas grotas da
serra.

V – Jó

Retirando-se da sala ao despertar da donzela, Arnaldo saíra fora no
pátio.

Aí encontrou ao lado de seu cavalo o baio, que o acompanhara; prendeu
este amarrando as rédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo
arvoredo para não ser visto da gente da casa.

Ao atravessar por detrás da habitação, lançou
de passagem, do alto da eminência, um olhar para o terreiro, e percebeu
o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.

Bem desejava ficar-se aí, nessa posição, assistindo
de longe àquela cena e tomando nela a sua parte, ao menos com os olhos
e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava
naquele instante.

Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com
que seu olhar envolvia a pessoa de Justa, como que acariciando-a.

Era sua mãe, a quem abraçava de longe, enquanto o segredo que
o trazia arredado da casa lhe não permitia receber sua bênção.

Nessa ocasião sentiu que lhe puxavam pela aba do gibão; sem
nenhuma surpresa voltou-se. Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos
chifres indicavam ser já bem idosa; levantou-a pelas mãos, e
reclinando-se, abraçou-a com efusão. Depois essa carícia
afastou o animal e com o gesto impediu que o seguisse.

Deu soga ao cavalo e desceu rápido a encosta rodeando para sair em
uma várzea que demorava cerca de meia légua de casa, ao longo
de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá.

De um relance d’olhos investigo ao arvoredo próximo, e depois
se propagara pelas matas da fazenda.

Junto às cinzas, havia no chão uns sinais que não eram
de pègadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve
observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que
alí perto ia perder-se no mato.

Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquela pista por entre o arvoredo, a-pesar-do
escuro que já aí reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro
das folhas secas uma pègada, que não fora de todo apagada.

Reclinou-se então quase de-bruços e esteve a estudar os traços
indistintos e quase imperceptíveis daquele vestígio deixado
por um pé humano, que aí passara de fresco.

A profunda investigação do antiquário que se obstina
em decifrar nas linhas confusas do hieróglifo o sentido ignoto, não
exige de-certo mais forte contensão do espírito, nem tão
poderosa reminiscência.

Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição
de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita:

— Não me enganei!

Deliberou então voltar; mas depois de haver gravado na memória
a lembrança do sítio, com essa energia de percepção
que o hábito da observação dá ao olhar do homem
educado nas brenhas para a luta incessante do deserto.

Tornando ao mesmo lugar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara
a labareda no chão e que fôra como a cabeceira da ígnea
torrente, cujo sulco rompia a selva.

Do lado oposto, oculto por uma grande touça de carnaúbas, o
massapé fazia um ressalto, formando uma coroa no alagadiço da
várzea. Alí crescia entrelaçado com os estipes das palmeiras,
um arvoredo viçoso a-pesar-da estação, e que abrigava
sob a rama verdejante uma choça de pegureiro.

O colmo da cabana era de palha da carnaúba, como do tronco eram os
esteios e cumieira, e dos talos a porta, aberta nesse momento. O interior
constava de um só repartimento com uma emposta de esteira da mesma
palha, levantada a meio da choupana.

A um lado via-se um balaio com o eitio de mala e tampa também de palha
de carnaúba trançada; fronteiro um catre cujo leito era formado
das aspas da palmeira que fornecera todo o material da habitação.

Quando o sertanejo chegou à porta da cabana, estava deitado no catre
um homem que pela sua imobilidade parecia dormir. O parecer era de um velho
no período da decrepitude.

Os cabelos compridos até se mesclarem com a barba, formavam como um
capelo d’alva que lhe cobria todo o busto. Sob êste rebuço
das cãs, apenas se lhe distinguiam das feições as pálpebras,
cerradas naquele momento.

O trajo do ancião compunha-se unicamente de uma túnica estreita
de algodão, tinta de preto e cuja teia mal urdida era de grosseiro
fio. Os pés tinha-os descalços e cobertos de poeira e cinza.

Arnaldo aproximou-se do catre e apertou a mão do velho:

— Benvindo, Arnaldo. Já sabia que estavas de volta, disse o
velho sem mover-se.

— Como o soubeste, Jó, se acaba de chegar?

— Não careço de abrir os olhos para ver-te, filho. Desde
esta manhã que eu te sinto chegar; ouço os teus passos.

— E quando eu chego, não te ergues daí para dar-me um
abraço depois de tão longa ausência! disse Arnaldo com
doce exprobração.

— Também já te abracei, filho, quando entraste, e ainda
te tenho dentro d’alma.

O mancebo, habituado a essa linguagem mística, não mostrava
a menor estranheza; ao contrário, reclinou para o catre e estreitou
o ancião ao peito.

O velho ergueu-se para corresponder à carícia de seu jovem
amigo.

— Antes de tudo, Jó, diz-me, se alguma coisa te faltou? perguntou
Arnaldo com solicitude.

— Que pode faltar à fera no meio das brenhas?

— O sossêgo, Jó; e não ando errado, pois vim encontrar
uma cilada, que nos armaram. Mas felizmente cheguei a tempo.

— Deixa que se cumpra a vontade de Deus, filho. Êle proíbe
que arrisques a tua mocidade por causa de uma poeira que se está esboroando
a cada momento.

— É preciso que abandones por algum tempo a cabana, Jó!
tornou o sertanejo com o tom resoluto.

— Porventura deixo eu nesta cabana a minha sina, para que, abandonando-a,
me esconda à cólera celeste, que pesa sôbre mim?

— Não é a cólera celeste que te ameaça,
é a vingança de um inimigo traiçoeiro que deitou fogo
à mata da fazenda, e o fez de maneira que as suspeitas recaem sôbre
ti.

O velho sacudiu os ombros.

— Eu conhecí os sinais de um rasto apagado no lugar onde começou
o incêncio; e já sei de quem é êsse rasto. Mas na
fazenda o ignoram; e não faltará quem lance a culpa ao velho
Jó.

— Outras maiores pesam sôbre êste mísero pecador,
filho; e ainda não acabaram de afundar pela terra a dentro.

— O capitão-mór é severo, e duro de abrandar.

— Mais dura é a miséria, filho, que já calejou-me
a alma. Não se teme da iniquidade dos homens quem se entregou nas mãos
de Deus.

— Faz o que te peço, Jó; afasta-te dêstes sítios
ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa
com seus moradores.

— Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo; quantas vezes já to
hei dito! Ando em romaria após ela, que fugiu-me sempre até
êste momento. E quando enfim me sai ao encontro, posso eu voltar-lhe
o rosto e arredar-me para longe? Não o farei de-certo; nem tu o exigirás.

— Não o exijo por ti, senão por mim.

— Também por tua causa, não devo demorar-me neste mundo,
onde estou roubando-te uma parte dos pensamentos cuidados dessa mocidade,
que merece melhor destino. Não vês como tombam na mata os troncos
velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros?

— Não me entendeste, Jó; quando te rogo por amor de mim,
é porque se ficares aquí, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-ão
primeiro.

— Não farás isto.

— Enquanto eu vivo, ninguém te ofenderá, juro-o pelas
cinzas de meu pai. Ninguém, ainda que seja o capitão-mór
em pessoa!

O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação enérgica;
mas logo após súbita emoção lhe ofuscou a voz.

— E tu sabes que o capitão-mór é a sombra de meu
pai neste mundo.

O ancião ergueu-se pronto:

— Caminha, Arnaldo; eu te seguirei aonde fores.

— Não sairás assim por teu pé, que deixarias o
rumo para te buscarem.

Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços
e carregou-o aos ombros por um largo trato até dentro da mata e o pousou
em uma cepa de gameleira.

Tornou então atrás, cortou uma palma de carnaúba que
esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que
aí tinham deixado seus passos.

Para conseguí-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão
com os folíolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta
de qualquer vestígio e apenas ao de leve frisada pelo sôpro da
viração.

Concluída a tarefa dentro, saíu fora, andando sempre de costas
e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que
agora ia deixando, como os anteriores.

Chegou assim ao sítio onde ficara o velho, o qual em completa contradição
com a sua tenacidade recente, deixava-se conduzir como uma criança
dócil e submissa.

Carregou-o outra vez Arnaldo aos ombros, e desta vez levou-o até um
bamburral espêsso e impenetrável, que embrenhava as fragas alcantiladas
de um grupo de penhascos.

Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava,
o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo,
que formava a bôca de uma gruta.

A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia
a claridade de estreitas fisgas da lapa côncava que lhe servia de abóbada.

O sertanejo triscou fogo e acendeu um rôlo de cera amarela guardado
numa grêta da pedra.

A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabelo,
servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal
presos à caveira.

Da parede granítica da caverna pendia uma canastrinha também
de couro de boi em cabelo, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se
bruacas.

— Aí está a cama, e aquí dentro as provisões,
disse Arnaldo. Prometes não sair dêste retiro enquanto não
passar o perigo, Jó?

— Vai em paz, filho. Estou bem aquí; e como não estaria,
se essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar
em vida? Guarde-te Deus!

Arnaldo não se demorou na gruta senão o tempo necessário
para instalar o novo habitante dêsse eremitério. Uma vez fora,
desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indício de sua passagem
até o ponto onde havia deixado o seu cavalo, que o esperava sem nenhuma
impaciência, remoendo um abrôlho mais novo de mandacarú.

Cavalgou e afastou-se, não deixando após si o mínimo
traço de sua ida à choça do velho Jó. Se alguém
se lembrasse de rasteá-lo, não descobriria senão que
passara a cavalo pela várzea na direção das vertentes.

— Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas; disse entre si o moço
sertanejo.

E buscou no recôndito da floresta a sua malhada favorita. Era esta
um jacarandá colossal, cuja copa majestosa bojava sôbre a cúpula
da selva como a abóbada de um zimbrório.

Alí costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com
as estrêlas, e a alma a correr por êsses sertões das nuvens,
como durante o dia vagava êle pelos sertões da terra.

É êste um dos traços do sertanejo cearense; gosta de
dormir ao sereno, em céu aberto, sob essa cúpula de azul marchetado
de diamantes, como não a têm nos mais suntuosos palácios.

Aí, no meio da natureza, sem muros ou tetos que se interponham entre
êle e o infinito, é como se repousasse no puro regaço
da mãe pátria, acariciando pela graça de Deus, que lhe
sorrí na luz esplêndida dessas cascatas de estrêlas.

Arnaldo desaparelhara o animal que também tratou de buscar a sua guarida.
Os arreios e a maca de pelego foram guardados na bifurcação
dos galhos do jacarandá, enquanto o viajante encostado ao tronco fazia
uma tão rápida como sóbria refeição.

Compunha-se esta de uma naca de carne de vento e alguns punhados de farinha,
que trazia no alforge. De postres um pedaço de rapadura, regado com
água da borracha.

Era noite cerrada.

VI – A malhada

Nos últimos ramos, lá no tope do jacarandá, havia o
sertanejo armado a rede, em que se embalava.

Devia de achar-se mais de cem pés acima da terra; e nessa grande altura,
suspenso por duas finas cordas de algodão trançado, estava mais
tranquilo do que se pousasse no chão, onde o poderiam incomodar a má
companhia dos répteis e a visita de alguma fera.

Alí, em seu pavilhão de verdura, grimpado nos ares, não
tinha outros vizinhos além de uma jurití, que fabricara o ninho
no próximo galho, e acabava de ruflar as asas à sua chegada
para dar-lhe a boa-noite.

Através do rendilhado da folhagem, como por entre os bambolins de
fina escócia de uma recêmera, o sertanejo recostado no punho
da rede, que oscilava ao frouxo balanço, descortinava toda a devesa
que se estendia das encostas da serra pelos tabuleiros, até onde a
vista alcançava.

A meia distância ficavam as casas da fazenda, que êle via de
alto como um mapa desenhado na superfície da terra.

Neste momento o pátio interior se iluminava de muitos fachos. Ao clarão
que fazia, Arnaldo reclinado para ver melhor, avistou gente a mover-se e divisou
o airoso vulto de D. Flor.

Transportava-se o capitão-mór à capela com sua família
para assistir ao têrço, e todo o povo da fazenda concorria à
devoção que nessa noite de chegada tinha uma intenção
especial e solenidade maior que de costume.

Cessaram os repiques do sino; o sertanejo adivinhando que estavam na reza
ajoelhou também num ramo da árvore, e com sincero fervor acompanhou
de longe no seu nicho agreste a oração que lá se estava
elevando ao Senhor pela boa volta e feliz chegada dos donos da Oiticica.

Começou a ladainha cantada.

O côro religioso, derramando-se pela floresta, impregnava-se dos ruídos
e murmúrios da ramagem aflada pela brisa, o que lhe dava um timbre
grave e sombroso.

Ainda que não se eximisse de todo ao místico sentimento de
que se repassava essa melopéia cristã no seio da profunda solidão,
o sentido do mancebo estava especialmente concentrado no esfôrço
de abstrair do côro uma voz, para escutá-la, a ela somente.

Ou porque em verdade sua residência errante e aventureira no deserto
lhe houvesse exercido as faculdades ao mais alto grau, dando-lhe admirável
fôrça de percepção; ou porque se deixasse enlevar
de uma grata ilusão, o certo é que Arnaldo distinguia naquele
concêrto uníssono uma melodia radiante, de uma límpida
suavidade, que entretecia o canto sonoro como fio de ouro urdido em tela de
sêda.

De princípio o ouvido do sertanejo experimentou a mesma sensação
dos olhos quando os fere a luz: houve uma fascinação que não
lhe deixava discernir as vozes, mas logo após começou a destacar
o timbre mavioso de D. Flor, com tamanho vigor que já não escutava
êle senão êsse hino celeste, surdo para toda outra cantoria.

Terminou o têrço; sumiu-se o clarão dos fachos; naturalmente
a família passava à mesa da ceia. Pouco depois apagaram-se os
fogos e apenas ficou por algum tempo a lâmpada da casa de jantar, que
era costume deixar até de todo concluir-se a tarefa diária.

Enquanto broxoleou ao longe, no seio das trevas, a luz solitária,
Arnaldo esteve embevecido a contemplá-la, como se a trêmula irradiação
lhe desenhasse formoso painel.

Era assim todas as noites em que malhava alí, na sua pousada, quando
as correrias da vida errática do sertanejo não o levavam pelo
mundo sem destino.

Essa luminária, êle a amava como sua estrêla. As almas
que vivem no campo, ao relento, sob um firmamento cravejado das mais brilhantes
constelações, todas têm um astro de sua particular devoção,
um amigo no céu com quem se entretêm e conversam nos serões
das noites ermas.

Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céu lhe eram irmãs;
conhecia-as pela cintilação, como se conhece pelos olhos a menina
faceira que se embuçou na sua mantilha azul. A cada uma saudava pelo
nome, não o que inventaram os sábios, e sim o que lhe dera sua
fantasia de filho do deserto.

Mas esquecia-as o ingrato, quando brilhava a outra, a estrêla da terra,
porque esta lhe falava de D. Flor e seus raios eram como os olhos castos da
formosa donzela que vinham misteriosamente, no segrêdo da noite, afagar-lhe
os seios d’alma.

Afinal também apagou-se a luz.

Recostara-se o sertanejo outra vez à rede, quando a ramagem cascalhou
perto e os galhos do jacarandá estremeceram abalados por alguma forte
percussão.

Arnaldo pôs a cabeça fora da rede, e perscrutando a folhagem
descobriu duas tochas acesas no meio das trevas, mas de uma luz baça
e sulfúrea.

Os mais intrépidos caçadores do sertão, curtidos para
todo o perigo, não se podem eximir de um súbito arrepio, quando
lhes chamejam no escuro da mata êsses olhos vidrentos cujos lumes gáseos
fervilham dentro n’alma.

Há um quer que seja de satânico na pupila da onça, como
na de toda a raça felina; e é por essa afinidade que nas antigas
lendas o príncipe das trevas aparece mais frequentemente sob a figura
de um gato negro, miniatura do tigre.

Daí provém talvez o supersticioso terror que inspira a fosforescência
dêsses olhos ao mais valente sertanejo, o temor ao que jamais pestanejou
em face da morte, e nem se abala com o medonho rugido da fera.

Não produziram, porém, igual efeito em Arnaldo as duas tochas
que brilhavam entre o negrume da noite, alguns pés abaixo do lugar
onde se achava:

— Bem aparecido, camarada, disse o mancebo a gracejar.

A onça espasmou a cauda rebatendo as ancas, e dentre as belfas túmidas
escapou-lhe um rosnar manso e crebro como rir de contentamento.

— Sim, senhor, entendo. Quer saber como cheguei? Bom, para o servir,
muito obrigado. E o amigo, como lhe foi por cá êstes tempos que
não nos vimos? A sêca tem sido grande, e os garrotes estão
pela espinha, não é assim? Paciência, meu rico, aí
vem o inverno e com êle reses gordas e carniça à farta.
A chuva não tarda; esta manhã vi passar o tesoureiro.

Entanto o tigre continuava a grunhir o seu riso de fera com uns agachos de
rafeiro, que lhes espreguiçavam o torso mosqueado.

— E da dona, que novas me dá? continuou o sertanejo no mesmo
desenfado. Está guardando a casa? E o senhor anda ao monte? Pois boa
caça, amigo, e cortejos à sua dama.

Com esta despedida Arnaldo, que se debruçara ao punho da rede para
conversar com a onça, recolheu o corpo, disposto a acomodar-se.

Levantou-se, porém, um rumor de garranchos que estalavam. Era a onça
que saltara a um galho superior, com ímpetos de galgar o cimo da árvore;
mas hesitava, receosa de que os ramos altos e menos válidos se partissem
com o pêso de seu corpo e o choque do arremêsso.

— Nada, camarada, dispenso as suas ternuras por esta noite. Cheguei
da viagem e estou cansado. Pode continuar seu passeio. Boa-noite.

E o sertanejo, alongando a perna, enxotou a importuna com um pontapé
atirado ao tufo da folhagem que ficava por debaixo da rede.

Aquietou-se a onça e o rapaz deitou-se mui sossegado, sem mais importar-se
com a presença do terrível hóspede, que lhe estava a
uma braça de distância. Êste curto espaço, porém,
a fera não ousava transpô-lo com receio de precipitar-se.

Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada na Bahia ou Pernambuco,
sem outro companheiro mais do que seu cavalo, percorrem aquelas solidões,
também por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existência;
êsses destemidos roteadores do deserto costumam pernoitar na grimpa
das árvores, onde armam a rede e aí ficam ao abrigo das onças
que não podem trepar pelos troncos delgados, nem pinchar-se à
frágil galhada.

Não somente por esta razão estava Arnaldo seguro de si, mas
também pela confiança em sua superioridade, já mais de
uma vez provada pela fera. Assim, pois, esqueceu-se dela, para engolfar-se
de novo nas cismas que lhe estavam afagando a mente.

Nesse ênlevo d’alma, a fantasdos anacoretas nas solidões
da Tebaida. Como não se exaltarem ao céu, essas almas tão
desprendidas da humanidade, que desparzem nos ares a fragrância de sua
flor?

O corpo de Arnaldo estava alí; mas seu pensamento discorria além,
e nesse instante revia D. Flor, melhor do que se a tivesse diante dos olhos;
pois não lhe embacia a sua límpida visão o deslumbre
que a presença da gentil donzela causava-lhe sempre, depois de certa
época.

A moça caminhava diante dele com o passo airoso e modulado que era
dela e só dela, pois nunca o mancebo vira outra mulher andar assim.
Quando êle caçava lá para as bandas da Junça, demorava-se
a ver as garças reais passeando pelas margens da lagoa, porque elas
tinham o pisar altivo e sereno de D. Flor.

Vagueava a menina pelo campo, arfando-lhe docemente o talhe grácil
com a ondulação da marcha; e êle, Arnaldo, a seguia, respirando-a
com a aragem que agitava-lhe os folhos do vestido, e que folgava nos crespos
dos cabelos castanhos.

Êsses cabelos eram os seus enlevos. Quando a menina sentia-se fatigada,
reclinava ao ombro dele, que, então criança como ela, a carregava
e sentia as tranças macias e perfumadas cobrirem-lhe o rosto acariciando-o
como as asas de um rôla.

Neste ponto de seu meigo sonho, o mancebo inclinava a fronte sôbre
uma touça da ramagem e roçava timidamente o rosto pelas fôlhas,
anediando-as com a mão, na cisma de serem as madeixas, que tanto amava.
Puerilidades do coração, sempre menino, ainda sob as cãs
do ancião.

Se a brisa vinha bafejar-lhe as faces, impregnada da fragância dos
campos, êle entreabria os lábios para beber-lhe as emanações,
que se afiguravam à sua imaginação o hálito perfumado
de D. Flor, ao voltar-se para falar-lhe.

Se a jurití arrulhava no ninho, respondia-lhe Arnaldo docemente, com
um quérulo gorjeio. A rôla arrufava-se de prazer escutando os
ternos requebros que lembravam-lhe a companheira. E êle cuidava-se a
conversar com a menina, e a responder-lhe às perguntas curiosas.

Êstes sonhos de todas as noites alí passadas ao relento eram
talvez recordos, em que sua alma se revivia no passado, e que a esperança
entrelaçava de fagueiras ilusões.

No meio dos devaneios que lhe embalavam a mente, o sertanejo adormeceu.

A onça que se agachara entre a ramagem, desenganada da espera, esgueirou-se
pelo mato, e foi-se ao faro de alguma novilha desgarrada.

VII – Moirão

Quando buscava o pouso, tinha Arnaldo resolvido um encontro para o dia seguinte.

Vieram depois as namoradas recreações da fantasia, que o absorveram
todo e acaletaram-lhe o sono; mas sob êsse devaneio velava o propósito
do ânimo deliberado, como sob a camada de flores viça a rija
vegôntea do arvoredo.

Dormia, pois, o mancebo com aquele sono cativo dos homens de vontade, que
se governam ainda mesmo quando sopitados no letargo dos sentidos, tão
poderosa é a energia moral nessas organizações.

Arnaldo mais que nenhum homem possuia a admirável faculdade de reger
o sono; no remanso do corpo o espírito sabia manter de vigia uma percepção
íntima, que o advertia do menor rumor como da mais leve alteração,
em tôrno de si.

A vida do deserto tinha apurado essa lucidez. Tantas vezes obrigado a pernoitar
no meio dos perigos de toda a casta, entre as garras da morte que o assaltava
sob várias formas, no pulo do jaguar como no bote da cascavel; o sertanejo
aprendera essa arte prodigiosa de dormir acordado, quando era preciso.

Podia-se dizer dele que reproduzia o antigo mito grego e tinha o dom especial
de repartir-se em dois, para que um velasse, enquanto o outro se entregava
ao repouso.

Foi ao primeiro vislumbre da alvorada que o sertanejo determinou acordar
para ir em busca do Aleixo Vargas, que provavelmente não era outro
senão o sujeito cujo rasto êle havia reconhecido no mato próximo
à cabana do velho Jó.

Antes, porém, do momento marcado, despertou o rapaz subitamente, abalado
por um ruído estranho, que soara no embastido da folhagem e que, a-pesar-de
frágil, repercutira dentro dele como a vibração do grito
da araponga no seio da floresta.

Achou-se de todo acordado a tempo ainda de escutar atentamente o mesmo som,
duas vezes reproduzido uma após outra, e conhecer-lhe a origem. Acabavam
de triscar um fuzil não mui distante e petiscar fogo do isqueiro.

Se alguma dúvida lhe restava, desvanecera-se com o cheiro de fumo,
delator da primeira baforada do cachimbo, que se acabava de acender.

— Bom; cá está o meu homem. Já não preciso
de ir-lhe ao rasto; tenho-o à mão.

A floresta ainda estava imersa no alto silêncio da modorra: apenas
a fresca e sutil aragem que precede o primeiro dilúculo e é
como o hálito da alvorada, frolava mansamente as franças das
árvores. No azul do céu nenhum palor anunciava o raiar da luz.

Quedou-se o sertanejo com o ouvido atento aos menores rumores que vinham
do lado onde pitavam. Nada lhe escapou, nem o roçar do corpo pela casca
do pau e os chupos dados ao tubo do cachimbo, nem o grosso ressonar, que pouco
depois substituiu aqueles primeiros ruídos.

Da sua escuta deduziu o sertanejo quanto lhe concinha. Ficou sabendo que
o cachimbador era o próprio Aleixo Vargas, cujo assoprado pitar êle
conhecia tanto como o ronco nasal do dorminhoco. Gizou o ponto da floresta
em que se achava o sujeito, e com tal exatidão que lá iria de
olhos fechados em linha reta. Finalmente firmou-se na certeza de que tinha
seguro o homem, cujo sono espreitava dalí mesmo e sem mover-se.

Arnaldo conhecia todas as árvores da floresta, como conhece o vaqueiro
todas as reses de sua fazenda, e o marujo as mínimas peças do
aparelho de seu navio. Êsses habitantes da selva tinham para êle
uma feição própria, que os distinguia; chamava-os a cada
um por seu nome.

Não admira, pois, que em resultado de sua observação
êle dissesse para si:

— Está no angico da grota!

As barras vinham quebrando, como diz o povo, exprimindo com essa imagem as
faixas de luz que listram o horizonte ao despontar da aurora, e que parecem
as túnicas d’alva a desdobrarem-se pelo firmamento.

O sertanejo adiantou alguns passos pela copa da árvore, a jeito de
ver lá na quebrada um casalinho, que aparecia em uma aberta no mato.

Precisamente nesse instante abriu-se a porta do rústico albergue,
e saíu ao terreiro Justa, a quem logo cercou um bando de galinhas,
frangos e pintos à gana do milho pilado que a roceira vascolejava em
uma coité.

Acompanhava-a uma cabra que, deixando a mulher às voltas com a gente
do poleiro, foi, como de razão, alí perto dar os bons dias aos
moradores de um chiqueiro, que lhe responderam com um berredo dos mais alegres,
no meio de cabriolas de toda espécie.

Demorou-se o rapaz um instante a olhar para a mãe, cujo vulto êle
lobrigava ainda indeciso, movendo-se nas labutações caseiras,
à luz frouxa do crepúsculo matutino. Uma vez, como a Justa em
seu giro se voltasse para o lado da mata, estendeu o filho a mão direita
aberta, murmurando com um sorriso:

— A bênção, mãe!

Cumprido o preceito da piedade filial, Arnaldo, que nem um instante perdera
de espreitar o vizinho adormecido, pensou que era tempo de realizar o seu
intento, e portanto começou um passeio aéreo pela rama das árvores,
que se entrelaçava, formando com os galhos um como travejado pavimento,
a que servia de dossel a verde copa embastida.

O sertanejo andava tão fácil e seguro por aquele girau como
pelo pavês de um sobrado. Muitas vezes, quando menino, correra por alí
atrás dos macacos e saguís que o não venciam na agilidade,
pois agarrava-os à mão nas grimpas da floresta. Era tanto para
admirar-se a rapidez como o jeito e sutileza com que resvalava por entre o
chamiço, a ponto que se não ouvia o arfar de uma só fôlha.

A um tiro de arcabuz estava o sítio que Arnaldo designara com o nome
de grota: era o despenhadeiro de um profundo barranco. Os detritos, acumulados
pelos enxurros nas covoadas alí formava o terreno, alimentavam as árvores
altaneiras cujas vastas copas ensombravam o tremedal.

Entre essas árvores a mais pujante era um angico secular, que lançava
as grossas raízes a meio precipício. O formidável tronco,
crescendo a princípio obliquamente, na direção da outra
rampa do desfiladeiro, como a atravessá-lo, no centro voltava-se a
pino e subia verticalmente a grande elevação, onde repartia-se
em vários esgalhos confluentes.

De escancha sôbre um dêsses ramos, com as pernas engalfinhadas
nos interstícios e o corpo recostado no rústico espaldar formado
pelos outros galhos dormia a sono sôlto um homem ainda moço,
de insólita e desconforme robustez.

O toro, tinha-o corpulento, mas de uma mesma grossura desde os ombros até
os artelhos, de modo que estando de pé e com as pernas fechadas, parecia
um tôco de pau cortado na altura de dez palmos do chão. Essa
prancha de carne rematava em uma cabeça pequena e redonda, semelhante
à maçaneta de um balaústre, e assentava em dois pés
enormes que mais pareciam as cunhas de uma escora.

Do seu aspecto, bem como da fôrça de que era dotado, lhe viera
a alcunha de Moirão, nome que nas fazendas tem o pião onde se
jungem as reses para a ferra. Muitas vezes, jactando-se de sua pujança,
aguentara no laço um boi bravo à disparada, sem abalar-se do
lugar onde se fincava, nem sequer titubear.

Arnaldo surdira em um ramo superior, a cavaleiro do sujeito, a quem estava
agora observando a seu vagar. Comprazia-se o rapaz em admirar a robustez estampada
na musculatura dessa organização atlética, que produzia
em sua alma uma emoção artística. Para êle, sertanejo,
filho do deserto, tão poderosas manifestações da fôrça
tinham majestade e beleza épicas.

Entretanto bastava um gesto seu para aniquilar o colosso. Estendesse êle
o braço, travasse-lhe do pé e emborcasse-o no precipício,
que em um fechar d’olhos estaria o Moirão reduzido a migas, nas
arestas dos alcantís.

Arnaldo não demorou seu espírito nesta idéia senão
o tempo necessário para a repelir.

Ao cabo de alguns instantes, desprendeu-se o rapaz do silêncio em que
se envolvera e donde não transpirava nem o sôpro de seu hálito;
algumas fôlhas rumorejavam em tôrno, e a casca do pau rangeu ao
roçar do corpo que sentava-se.

Como não bastasse êsse tênue arruído para despertar
o madraço, o rapaz quebrou uma haste de cipó. Com a fôlha
que deixara em uma das pontas começou a fazer cócegas nas largas
ventas rombas do Moirão, que dava com as mãos às tontas
para enxotar a môsca impertinente.

Afinal abriu o dorminhoco as pálpebras, pestanejou com a claridade
do dia, esfregou os olhos e ficou pasmado a encarar com o Arnaldo, que se
estava rindo, mui lampeiro, alí por cima dele, comodamente sentado
em um ramo da árvore.

— Salve-o Deus, Aleixo Vargas, disse o sertanejo em tom jovial. Que
sonata tão regalada, homem! Apostaria que anda tresnoitado, se não
sou besse que você em ferrando a dormir é como jibóia
quando enguliu veado.

— Hanh!… bocejou o outro estremunhando.

É você, Arnaldo.

— Acorde de uma vez, amigo!

— Onde estou eu?… Ah! já sei; arranchei-me aquí
para madornar um pedaço e pegou de mim uma tal bebedeira de sono que
estou que não posso comigo.

— Pelo que mostra não teve lá muita saudade do seu catre
da fazenda, Aleixo Vargas, que logo na noite da chegada veio pôr-se
de poleiro cá pelas matas!

— Não sabe que despedí-me do Campelo?

— Ainda não encontrei quem me desse tal nova; respondeu Arnaldo,
iludindo os têrmos da pergunta.

— Então você não tornou à casa depois da
chegada?

— Depois da chegada do capitão-mór ainda lá não
fui.

— Pois é como lhe digo, Arnaldo; deixei duma vez o homem, por
não poder mais aturá-lo.

— Que lhe fez o capitão-mór, Aleixo Vargas, que tanto
o amofinou?

— São contos largos, amigo Arnaldo, que levariam muito tempo,
e eu já sinto cá pelo estômago uns repiques de fome que
estão chamando ao almôço.

— Guarde lá seu segrêdo, Aleixo Vargas; e que não
lhe coma a língua. Quanto ao almôço descanse. Aquí
temos no meu farnel para quebrar o jejum.

— Sempre o conhecí precavido, rapaz. Não é à-toa
a fama que você tem e que eu bem experimentei, quando cheguei a êste
excomungado sertão.

— Não é tanto assim. Alí está você,
Aleixo Vargas, que é uma barra. Não foi debalde que lhe puseram
o nome de Moirão.

— Ah! isso cá de pulso, não se fala: que ainda não
encontrei homem para mim, nem touro tão pouco. Eu dizia, rapaz, era
acêrca da ligeireza, que, a ser verdade o que se conta, não há
por toda esta ribeira quem lhe deite poeira nos olhos.

— De que serve a ligeireza, se não é para fugir? A fôrça
é melhor, não lhe parece, Aleixo! disse o rapaz a sorrir.

— Sem dúvida. A fôrça é tudo neste mundo;
disse o Aleixo entufado de sua jactância.

— Também eu penso assim; ainda que todos os dias vê-se
um caroço de chumbo deitar ao chão o homem mais valente, e uma
broca derrubar o tronco mais grosso.

Moirão levantou os ombros desdenhosamente:

— São casos que acontecem.

Arnaldo foi à sua malhada no jacarandá e tornou com o alforge
em que tinha as provisões. Consistiam em carne de vento, farinha e
queijo do sertão.

O mancebo foi expedito na refeição e comeu com a rapidez a
que o havia acostumado sua vida agreste. O Moirão, porém, almoçou
pausadamente, como quem se desempenha de negócio grave; e de vez em
quando conversava com uma borracha de vinho que trazia à cinta e era
a sua inseparável.

— Não molha a goela, rapaz? Olhe que esta farinha assim à
sêca é uma bucha capaz de entalar até um jacaré.

— Eu prefiro o vinho cá de minha terra!

Proferindo estas palavras a sorrir, Arnaldo bebeu dois ou três goles
d’água numa cabaça onde guardava sua provisão e
com isso rematou o almôço.

Aleixo fez uma careta de nojo à cabaça, e para dar tônico
ao estômago, que se lhe tinha embrulhado com a vista d’água,
escorropichou o odre na garganta.

VIII – Dois amigos

Concluira Moirão sua grave ocupação e acendendo o cachimbo
preparava-se a fazer o quilo com igual pachorra.

Recostou-se afinal ao tronco da árvore, soltando uma baforada de fumo
que o envolveu como uma nuvem densa.

— Então, Arnaldo, como foi isto por cá, amigo? Sêca
muita, já se sabe! Olhe, digam vocês o que quiserem, isto não
é terra de cristão.

— De cristão é que ela é, Aleixo Vargas; pois
ao cristão ensinou o divino mestre a paciência e o trabalho.
Para quem não serve a minha terra é para aqueles que não
aprendem com ela a ser fortes e corajosos.

— Pois é coisa que se aprenda, morrer de fome e de sede ainda
mais?

— Tudo aprende o homem, quando não lhe falta coragem. O cavalo
dêste sertão de Quixeramobim caminha o dia inteiro, come um ramo
de juá, e só bebe água quando encontra a cacimba. Aonde
há mais valente campeão?

— Eu cá prefiro andar pelo meu pé, mas em terra capaz,
a empoleirar-me no tal bicho que só tem pele e ossos.

Arnaldo não respondeu, e Aleixo continuou a envolver-se em um turbilhão
de fumaça que dava-lhe o aspecto de um éolo pintado na tabuleta
de alguma taverna clássica.

Depois de breve pausa o sertanejo reatou o fio da conversa.

— Ora, Aleixo, que somos amigos há tanto tempo e nunca experimentei
as minhas fôrças com você.

— Para que isso? Perguntou Moirão com sua habitual fatuidade.

— Bem sei que não posso medir-me com você; mas queria
saber até onde chega meu pulso. Talvez não seja lá dos
mais fracos e ninguém está mais no caso de julgar do que o barra
dêste sertão.

A ponta de ironia que acerava o sorriso do mancebo era tão sutil,
e o tom afável da palavra a envolvia de modo que Moirão não
podia percebê-la, ainda que fosse dotado de maior perspicácia
do que lhe tocara em quinhão.

— Isso lá é verdade. Ainda não encontrei homem
que não derrubasse: uns torcem mais, outros menos; porém no
fim de contas lá vão todos ao chão rebolindo que é
um gôsto.

— Vamos a ver se eu sou dos que torcem mais, disse Arnaldo com volubilidade.

— Então quer mesmo, rapaz? Chegue cá, e pendure-se a
êste braço; com as duas mãos, não faz mal.

Moirão arregaçou a manga da camisa, e descobrindo um braço
grosso e musculoso como a perna de uma anta, fincou o cotovêlo no tronco
do angico.

— Queda de braço, não, disse Arnaldo: há de ser
queda de corpo.

— Ah! Você quer tirar lérias comigo, rapaz?

E o latagão derreou-se novamente no tronco do angico, despedindo de
si um rôlo de fumo tão grosso, que parecia o da chaminé
da herdade.

— Suponha você, Aleixo, que em vez de camaradas éramos
dois sujeitos que se traziam de ôlho e que aproveitavam esta ocasião
de se descartarem um do outro.

Moirão começou a cantarolar um mote de sua composição:

Quando eu vim de minha terra
Eu era Aleixo pimpão;
Agora fiquei Moirão
Aquí neste pé de serra.

Debalde tentou Arnaldo cativar a atenção do minhoto: êle
embrulhava-se lá na sua cantiga; não queria ouvir.

— Bem; já vejo que você não é meu amigo.

— Donde tirou isto? perguntou Moirão tornando ao sério.
Olhe, rapaz, que eu não sou homem de dar nem tomares, e quando trato
um tal de amigo, é devéras. Aquí neste sertão
ninguém ainda se benzeu com êste nome senão um, que se
chama Arnaldo Louredo; e ando por aquí já há uns pares
de anos.

— Se fosse amigo verdadeiro de Arnaldo, não lhe recusaria o
que êle pede.

— Fale-me neste tom, rapaz, que já o entendo. Então é
sério?

— É um favor.

— Pois faço-lhe o gôsto.

Aleixo meteu o cachimbo em um esgalho. Apoiado fortemente sôbre o grosso
ramo da árvore, a qual estremeceu com seu pêso, estirou os dois
braços, que alongaram-se como os arpéus de um guindaste, para
abarcarem o corpo delgado de Arnaldo.

Mas o sertanejo escapou-lhe ao arrôcho e galgando os ramos superiores
da árvore, suspendeu-se a um deles, trançando os pés.
Então deixou-se cair a prumo, agarrou o adversário pelas axilas,
e com uma fôrça que não se esperava de seu talhe franzino
arrancou o colosso do galho em que se apoiava.

Um instante o rapaz embalançou o corpanzil sôbre o precipício,
onde parecia que iam ambos despenhar-se. Afinal, receando que o pêso
enorme lhe rompesse os músculos, escanchou o latagão no ramo
do angico.

Moirão segurou-se automaticamente à árvore. Sua fisionomia,
de ordinário simplória, tinha nessa conjuntura uma expressão
idiota. O êxito da luta o deixara estupefato. Por algum tempo ficou
na mesma posição, imóvel e basbaque.

Até que arrancou-se a essa pasmaceira com um arremessão.

— Foi êste diabo! exclamou, batendo com a chanca no tronco do
angico. Onde é que já se viu pegar um cristão queda de
corpo em cima das árvores? Isto é para bugios ou caboclos, que
tanto vale, pois são da mesma raça. No chão era outra
coisa, rapaz.

— Experimentemos no chão. Não custa, disse Arnaldo com
indiferença.

Desta vez o empenho era de Aleixo que ardia por tomar a desforra da surpresa.
Prontamente escorregou pelos galhos e tronco da árvore até o
chão. Saltando no meio de uma clareira, calcou os pés no solo
com fôrça, e com o corpo rijo como o poste de que tomara o nome,
disse:

— Ande agora para cá, rapaz, que há de ver o que é
um barra.

Aleixo tinha razão. Em terra firme não havia fôrça
de homem que o pudesse abalar, quanto menos tirá-lo do lugar. O mais
vigoroso touro do sertão, êle o sustentava sem toscanejar, pela
ponta do laço de couro cru.

As largas chancas do colosso pareciam fincadas no chão como as grossas
raízes de uma gameleira, e o corpo obeso e direito figurava uma ponta
de rochedo, que surdia da terra.

Arnaldo caminhou para o colosso e erguendo os braços entregou-se àquele
grilhão vivo.

A fina compleição do talhe foi o que livrou-o de ser logo esmagado
no arrôcho. Enquanto Moirão, cerrando-o ao peito, buscava estringí-lo
como as rôscas de uma serpente, o mancebo colava-se ao adversário
para atenuar a violenta pressão.

Apenas Aleixo acochou o corpo do outro, suspendeu-o aos ares, como faria
com um toro de pita; porém ao mesmo tempo os dois braços do
sertanejo esticaram-se para logo se retrairem rapidamente, e os punhos, como
dois malhos de ferro brandidos por molas rijas, bateram no crânio do
minhoto.

Uma nuvem de sangue cobriu os olhos do colosso que vacilava. Arnaldo amparou-o
para que não tombasse e reclinando-o com uma solicitude para estranhar
naquela circunstância, deitou-o de supino sôbre a relva.

Ao cabo de poucos instantes, Moirão tornou do desmaio, mas para cair
no pasmo em que o deixara a primeira luta. Desta vez, porém, estava
realmente assombrado. O que lhe acontecera não era coisa dêsse
mundo; andava aí uma influência sobrenatural. Quem o derrubara
não fôra seu camarada, o Arnaldo, mas a própria pessoa
do demo na figura do rapaz. Nem haveria meio de persuadí-lo que êle,
Aleixo, fôra vencido duas vezes numa queda de corpo, tão expeditamente,
e ainda mais por um magriço. Eram artes do Tinhoso.

Quando no abrir dos olhos deu com o sertanejo em pé junto de si, levantou
a pesada manopla e atravessou-a pelo rosto com um jeito que parecia arremedar
o sinal da cruz.

Arnaldo ergueu o busto do Moirão e encostou-o ao tronco de uma árvore.
O colosso ainda aturdido não opôs a menor resistência e
se deixou sentar como um marmanjo.

A fisionomia do sertanejo, na qual, desde o encontro com Aleixo, um gesto
volúvel e descuidado apagara a natural energia, tomou a expressão
grave e resoluta.

— Aleixo Vargas, eu sou seu amigo, disse o mancebo com a palavra breve.

O Moirão abaixou a cabeça.

— Duvida?

— Do Arnaldo não, que livrou-me do dente das tapuias.

O sertanejo não deu atenção à reserva mental
do minhoto, que persistia em tomá-lo pelo capeta na figura de rapaz.

— No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos.
E quantas vezes não tirei eu das garras da onça uma rês
sem dono? Não me tem, pois, a menor obrigação, Aleixo
Vargas; nem me deve reconhecimento. Mas sempre o conhecí, desde que
chegou à fazenda, como homem bom e verdadeiro, diferente da maior parte
de seus companheiros. Foi isso que me fez seu amigo.

— Obrigado, rapaz! disse o colosso enternecido.

— E é como seu amigo que vou falar-lhe. Ontem à tarde,
quando o capitão-mór chegava à Oiticica, encontrou uma
grande queimada no mato do caminho.

Arnaldo fitou o olhar severo no semblante do colosso:

— O fogo, foi você quem o deitou, Aleixo Vargas, por detrás
da cabana do Jó, junto ao rasto do velho que vai ser acusado por essa
maldade.

— Fui eu mesmo! respondeu Moirão erguendo-se.

— O capitão-mór e a família podiam estar agora
reduzidos a cinzas.

— Se não fosse o danado do vento que empurrou o fogo para a
serra e não me deixou cercá-los, êles haviam de ficar
bem torradinhos. Então o velho tarugo que tem três dedos de banha!…
Que bom torresmo não daria!…

O Moirão soltando essa pilhéria esparramou a cara em um riso
alvar.

— Não lhe pergunto, Aleixo Vargas, a razão que, do homem
bom que você era, fez ontem um malvado. Em tempo dará suas contas
a Deus. Mas aviso-lhe, eu Arnaldo, o sertanejo, que, se descobrir mais seu
rasto a uma légua em roda da Oiticica, vou por êle até
onde o encontrar. E nessa hora pode encomendar sua alma.

— Como se entende isto? disse o Moirão fustigado pela ameaça.

— Qualquer outro que tivesse praticado sua façanha já
não estaria aquí, porém amarrado por minha mão
na polé da fazenda e entregue à justiça do capitão-mór.
Um amigo é diferente: não o trairei jamais denunciando-o, e
ainda menos abandonando-o ao poder de estranhos. Se êle ofender-me,
decidiremos essa questão, entre nós, lealmente.

Aleixo quis falar. Atalhou-o o sertanejo com o gesto vivo:

— Ouça-me. Você é um homem de fôrça
e um homem de vontade, Aleixo Vargas. Antes de lhe dar êste aviso, quis
mostrar-lhe que tinha poder de cumprir minha palavra, porque de dois homens
que se estimam e se acham em luta convencidos ambos que têm razão,
o mais fraco deve ceder ao mais forte.

— Visto isto tem-se você na conta de mais forte? perguntou Aleixo.

— Não sei o que chama fôrça, Aleixo; para mim fôrça
é poder. Mais volumoso do que você é um touro, que o vaqueiro
derruba com dois dedos.

— Que venha para cá êsse tal vaqueiro duma figa! exclamou
Aleixo abespinhando-se.

Arnaldo deixou passar a refega; e continuou com a voz breve, imperativa,
mas calma:

— Se você fosse o mais forte, eu não empregaria a astúcia,
como faria contra um estranho ou um inimigo. Embora me custasse, respeitaria
sua vontade desde que não podia vencê-lo de frente. O mais forte,
porém, sou eu; e proíbo-lhe que de agora em diante se aproxime
da Oiticica na distância de uma légua.

O sertanejo erguera a fronte com um assomo de indômita altivez. Nesse
momento iluminava-lhe a nobre fisionomia um reflexo dessa majestade que avassala
o deserto, e que fulgurava nos olhos do cavaleiro árabe e do guerreiro
tupí.

Moirão calou-se um tanto enquanto ruminava as idéias.

— Lá vai, rapaz; escute bem. Que você tem partes com o
diabo e ligou-me, é coisa que está se vendo; nem lhe vale nada
esconder o pé de cabra aí nessa bota esquerda.

Arnaldo sorriu-se da superstição do companheiro:

— Como é que um enguiço de gente podia derrubar um homem
desta marca, se não tivesse o diabo no couro? Isto com certeza. Mas
hei de arranjar por esta redondeza um bom amuleto que tenha a virtude de fazer
espirrar o demo do corpo de qualquer criatura, por mais que êle se lhe
meta nas tripas. Depois do estouro, então veremos quem é o dunga.

— Eu também tenho o meu! disse Arnaldo a sorrir, mostrando o
relicário que trazia ao pescoço.

— Ah! é aí que está a mandinga. Pois eu hei de
tirar-lhe o feitiço.

— Que mais? perguntou motejando o sertanejo.

— Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se
você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para coisa
de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão
o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não
posso fazer.

O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma
montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo
da orelha direita.

— Estou deshonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse
antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam
nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo.

— Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro
com um gesto severo e triste.

— Quem lhe contou?

— Ninguém. Eu vi.

O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não
era êle dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do
sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões
da época.

IX – Puxão de orelha

Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante
de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.

Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expressão
afetuosa, que disfarçava a severidade do olhar:

— A gratidão?… repetiu Moirão com surpresa inquiridora.

— Antes de vir para Oiticica, você era agregado do coronel Fragoso
na fazenda das Araras. Um dia o velho frenético deu-lhe dois berros;
você assuou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo
Vargas para a golilha, quando felizmente apareceu o moço, filho do
coronel, que o pediu por seu agregado e livrou-o da gargantilha de ferro e
do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais
um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz diante dele. Foi
então que você apareceu na Oiticica sem dizer donde vinha, e
entrou no serviço do capitão-mór.

— De quem soube isto, Arnaldo? perguntou o colono cuja surpresa aumentava.

— Amigo Aleixo, nascí e criei-me nestes gerais: as árvores
das serras e das várzeas são minhas irmãs de leite; o
que eu não vejo, elas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo dêste
céu até onde chega o casco de meu campeão.

O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante
de Moirão, que não opôs a mínima denegação
ou dúvida à estranha asseveração. Ao contrário,
pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença
em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa.

Arnaldo prosseguiu:

— No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo atêrro
dos Afogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão
Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha
a seu antigo acostado. Vinha êle de passar na Rua Nova pela casa do
capitão-mór, onde vira ao balcão da janela D. Flor, cuja
beleza o cativara. Sabendo que Aleixo era da casa, encomendou-lhe que nessa
mesma tarde fosse ao Carmo, onde êle morava, para levar à donzela
uma prenda com seus recados de amor.

Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram
a esbugalhar.

— Que podia recusar Aleixo ao homem que o livrara da infâmia
e talvez da morte?

— Da infâmia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é
uma topada: trás-zás e está numa pessoa descansada.

— Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dá-lo ao capitão
Marcos Fragoso, se o exigisse; mas não aquilo que não lhe pertencia.
Era assoldadado do capitão-mór Campelo; seus serviços
pertenciam a êle, e só a êle, que lhe pagava. Não
tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar
com o respeito à filha donzela de seu patrão.

Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando
um murro conciencioso no meio da testa.

— Pascácio!

— Foi seu bom coração que o arrastou; mas arrependeu-se
a tempo e quis salvá-lo. Você procurou o capitão Fragoso
em sua morada e recebeu dele a prenda com o recado. Em chegando à casa
faltou-lhe o ânimo; e não se admire que eu o atirasse ao chão,
quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, a você, Aleixo, a
quem chamam Moirão, e que nunca pestanejou na bôca de um bacamarte.

— Isso de mulher, não sei o que tem que dá arrepios na
gente.

— Enquanto o capitão-mór se demorou no Recife, por mais
que lhe pedisse o Fragoso e que você prometesse, não se animou.
Tenho certeza, porque não o perdí de vista. Nunca reparou num
grilo que o acompanhava para toda a parte? Era eu.

Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcástico, apontando
para a árvore, junto da qual se achava o companheiro:

— Ei-lo aí!

Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grilo, que saltara
de seu lado. Uma avantesma, que lhe surgisse alí, diante dos olhos,
envôlta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não
lhe incutiria tão profundo terror.

Um tanto corrido do seu pânico, o Aleixo, vendo o grilo sumir-se entre
a folhagem, disse ao sertanejo:

— Acabe de uma vez!

— No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e daí
veio a mofina que o aflige. Lembre-se, porém, que você a procurou
por suas mãos.

— Conte como foi! disse Moirão, com arrebatamento.

— Já não se recorda? perguntou Arnaldo estudando-lhe
a fisionomia.

— Quero ouvir!

— É melhor esquecer.

— Não: diga o que sabe. Também viu?

— Tudo.

— Pois então repita, disse Moirão com a pertinácia
de um mulo.

Os caracteres vingativos, quando sofrem alguma ofensa, em vez de afastarem
o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrário
revolvem-se nela e saturam-se de fel, como para exacerbar a própria
ira e prelibar o prazer da vingança.

Era êste o sentimento que dominava Moirão naquela circunstância,
animado ainda pelo desejo de verificar as particularidades de um fato que
flutuava confusamente em seu espírito.

Arnaldo suspeitou do que movia o minhoto à insistência.

— Vou fazer-lhe a vontade, Aleixo. Foi uma tarde ao escurecer. A família
tinha chegado ao rancho; você incumbiu-se de levar o escabêlo
de apear à D. Flor, e quando ela descia o último degrau, ofereceu-lhe
a prenda do capitão Fragoso, dizendo-lhe que a mandava um cavalheiro,
seu namorado. É isto?

— Até aí vai direito.

— D. Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com
a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mór,
disse-lhe vivamente: «Mau pai, êste homem faltou-me ao respeito».
Então?… O resto não carece.

— Diga, Arnaldo! bufou o colosso.

— Então o capitão-mór aproximou-se e, segurando-o
pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos,
até que o pôs em pé.

— E m’a temem. Dizem que é um brutamonte; pois venha para
cá.

Deixou Arnaldo que amainasse a cólera do Moirão.

— Sou seu amigo, Aleixo; já lho disse, e avalio quanto custa
a um homem de brio não desafrontar sua honra. Mas eu não consinto
que ninguém neste mundo ofenda ao capitão-mór e sua família;
portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza
de que me há de encontrar pela frente.

— Com você não brigo; isto é decidido. De brincadeira
como hoje, sim; mas a valer, não.

— Então desiste?

— De que?

— Da vingança.

— Isso nunca!

— Neste caso você sabe o que se faz duma árvore que ameaça
cair-nos em cima?

— Corta-se.

— É o que eu farei, senão houver outro meio de arredá-lo.
O mesmo direito tem você, Aleixo; e como a sorte é vária,
se for eu que venha a morrer, desde já lhe perdôo. Afiançou-lhe
que, a-pesar-de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste.

O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu
em sua manopla:

— A estas mãos, Arnaldo, não pode morrer nunca. Minha
honra, você não a pode atacar, que é um amigo, e para
poupar minha vida não atacarei nunca a daquele que a salvou uma vez.

— Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se
tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais
queridos que tenho neste mundo; porque o capitão-mór serviu-me
de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança,
me acalentou ao peito como seu filho.

Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação.Afinal,
reconhecendo-se incapaz de resolver a terrível colisão, deu
segundo murro na testa e arrancou pelo mato fora.

Era êste um meio físico de atenuar a dificuldade de sua posição,
subtraindo-se por enquanto ao dilema fatal em que se achava colocado entre
a honra e a amizade.

O sertanejo, quando o viu desaparecer através da ramada, tomou a mesma
direção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e a esmo. Certo
de não poder perder o rumo e de acompanhá-lo como à sua
sombra por entre a espessura do mato, êle demorava-se a examinar a copa
das árvores, os rastos dos animais, as moitas de ervas e todos os acidentes
do caminho.

O homem da cidade não compreende êsse hábito silvestre.
Para êle a mata é uma continuação de árvores,
mais ou menos espêssa, assim como as árvores não passam
de uma multidão de fôlhas verdes. Lá se destaca apenas
um tronco secular, ou outro objeto menos comum, como um rio e um penhasco,
que excita-lhe a atenção e quebra a monotonia da cena.

Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo
ou um conhecido a quem saúda passando. A seu olhar perspicaz as clareiras,
as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças
e ruas com seus letreiros e números.

Arnaldo estivera ausente daqueles sítios algum tempo. Ao passar por
êles observava sua fisionomia, tão inteligente e franca para
êle, senão mais do que a face do homem; e lia nesse diário
aberto da natureza a crônica da floresta. Uma fôlha, um rasto,
um galho partido, um desvio da ramagem, eram a seus olhos vaqueanos os capítulos
de uma história ou as efemérides do deserto.

A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que,
a-pesar-de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar
onde estava.

Com pouco ouviu-se um vozear de prática animada, e cinco homens, trajados
como usava a gente do povo naquele tempo, de braga, véstia e gibão,
surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao ombro e uma parnaíba
à bandoleira.

O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica; os outros, serviçais
da fazenda.

— Oh! cá está quem sabe do diabo do velho! exclamou o
feitor, dirigindo-se a Arnaldo. Bem aparecido!

— Quer alguma coisa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo.

— O senhor capitão-mór mandou-me procurar o velho Jó
que deitou fogo no mato da fazenda.

— Procure-o; disse Arnaldo laconicamente.

— Não está má a encomenda! Que temos feito desde
o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se.

— Cá para mim é trabalho perdido. O velho está
nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e êle estourou. O fogo foi pegado
pelo ênxofre que êle tinha no corpo, o canalha do bruxo.

— Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João
Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor.

— É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse
no bucho uma vez de cachaça.

— Uma não terá você, Burití; mas duas, com
certeza.

— Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe
a gente banana; o outro conserta.

— Que é que está bolindo alí no mato? Não
ouviram gemer?

— Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado.

— Nicácio! Não brinque com estas coisas.

Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento
havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o
povo dá o nome de malícia de mulher por descobrir no súbito
fechar das fôlhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças
das meninas sonsas.

O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos;
mas justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez
dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as
ramas.

— Chuva!

Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava ao
seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre
no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíçaras
dessa alegria.

— Deus a traga! disse Nicácio.

— Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo,
tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.

— Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Burití.

— Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não
sabe onde está o diabo do velho?

Voltou-se o mancebo com um modo frio:

— Quando o senhor capitão-mór Campelo m’o perguntar,
eu lhe responderei.

— Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola.
Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó,
que a leve o demo logo duma feita.

Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente
por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço,
quando súbito o perderam de vista. Correram-lhe sus, bateram o mato;
mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.

— É à-toa! disse o João Coité. Se o diabo
do surrão velho já o embruxou também.

X – O rosário

Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da
chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.

Assomando sôbre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico
do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar
brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania
para receber no tálamo da criação ao rei da luz.

Na umbria da serra e da espêssa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece
no crepúsculo da alvoroçada, quando já o dia fulgura
pelas várzeas e campinas dalém.

Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal,
aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.

Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima
a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já
reçumam os viços que anunciam a poderosa expansão de
sua fecundidade.

Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído
a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os
aguaeiros do natal que são os repiquetes do inverno.

Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais
e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíçaras
de bom ano.

A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território,
cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica,
só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme
como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gêlo;
no sertão a estuação do sol.

A primeira gota d’água que cai das sempre virgem e sempre mãe.

Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não
creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera
do sertão. Aquí a transição se opera com tal energia
que assemelhava-se de certo modo à mutação.

Aquela várzea que ontem ao escurecer afigurava-se aos vossos olhos
o leito nu, pulverento e negro de um vasto incêndio, bastou o borraeiro
da noite antecedente para cobrí-la esta manhã da virescência
sutil, que já veste a campina como uma gaze de esmeralda.

Não há em cada uma das raízes do capim sêco e
triturado mais do que um brôto imperceptível; porém rebentam
os gomos com tanto luxo e abundância que, à guisa dos tênues
liços de uma teia cambiante, formam êsse gaio matiz da primavera.

Aquela árvore também que ainda ontem parecia um tronco morto
já tem um aspecto vivaz. Pelos gravetos secos pulula a seiva fecunda
a borbulhar nos renovos para amanhã desabrochar em rama frondosa.

Que prodígios ostenta a fôrça criadora desta terra depois
de sua longa incubação! Dela pode se dizer sem tropo que vê-se
rebentar do solo o grêlo e crescer, assistindo-se ao trabalho da germinação
como a um processo da indústria humana.

Nas abas da serra onde as árvores tinham conservado a verdura, sentia-se
passar pela floresta um estremecimento como de prazer. A brisa da manhã
enredando-se pela ramagem rociada não mais arranca os murmúrios
plangentes da mata crestada. Agora o crepitar das fôlhas é doce
e argentino, como um harpejo sorridente.

Não eram somente as matas, os silvaçais e as várzeas
que se arreavam com as primeiras galas do inverno. O espaço, até
ali mudo e ermo na limpidez de seu azul diáfano, começava por
igual a povoar-se dos pássaros, que durante a sêca se refugiam
nas serras e emigram para climas amenos.

Já se ouviam grazinar as maracanãs entre os leques sussurrantes
da carnaúba e repercutirem os gritos compassados do cancã, saltando
pela relva. O primeiro casal de marrecas, naquele instante chegado das margens
de Parnaguá, a centenas de léguas, banhava-se nas águas
de um alagado produzido pela chuva.

D. Flor, retida em casa no primeiro dia pela fadiga da jornada e no segundo
pelos chuvisqueiros que tinham encharcado o terreiro, aproveitou a bonita
manhã para rever os sítios da infância depois de longa
ausência.

Neste momento desce esquiva e ligeira os degraus da varanda e desaparece
por entre o arvoredo do pomar, volvendo um olhar na direção
da casa, para certificar-se que não se apercebiam de sua ausência.

Não entrava nesse cuidado da donzela o receio de uma falta. A ingênua
altivez de sua índole não a deixaria nunca praticar ato que
ela julgasse repreensível, nem recorrer a disfarces para esconder suas
intenções.

O que a fizera esgueirar-se pelo quintal não passava de uma fantasia
de moça. Quando saía a passear pela fazenda era costume abalar-se
meia casa para ter o contentamento e a fortuna de acompanhar a doninha.

Não havia agregada ou escrava que não disputasse a honra de
abrir-lhe o caminho, levá-la à sua palhoça, para oferecer-lhe
o presente que lá tinha guardado. As mais moças brigavam a quem
lhe daria a fruta mais bonita ou lhe descobriria o ninho de beijaflor. Depois
vinham as crias que também porfiavam nas cabriolas e algazarras com
que festejassem a marcha triunfal.

Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão,
que lhe formava uma côrte de princesa daqueles sítios; nessa
manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente
nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos
meses.

Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo,
que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao
de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de
menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate.

Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma
fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao
quintal cingiu a cabeça com êsse toucado, que abrigava-lhe a
cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como
uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.

A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi
sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou.

A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta; acabava de
ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta
de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as têtas,
que já dificilmente apojavam com a sêca.

Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se
com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber
Flor, que lancçou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito,
a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro
na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de
leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina.

Êste movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro
no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios
e bebia a rir uns goles de leite.Justa, a quem os brincos da filha querida
faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para
gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada.

— Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele!
O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual
é? Da Cambraia?

— Não, meus carinhos, é da Mochincha. A Cambraia está
amojada.

Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvorôço
de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão
até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí
vinha.

A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra
de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas
estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância
dos campos. O chão era de massapé, mas tão rijo e varrido
que não se via sinal de poeira.

À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de
algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama;
na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o
sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio
seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia.

O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro
uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas,
com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra
por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida.

— Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras.

D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta
do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que
tinha de melhor em casa para oferecer-lhe:

— Prove dêste queijo que está tão fresquinho! É
o primeiro dêste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram
para um coalho.

Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de
biscoito, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda
a provisão de gulosinas que a sertaneja havia feito à espera
de sua filha de criação.

D. Flor beliscou em tudo como uma rôla para dar à sua mamãe,
de cada coisa que provava, um novo prazer.

— Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha
uma gulosa que é muito feio.

— Iche!… respondeu a sertaneja com o seu muchocho especial. Em
D. Flor tudo é bonito.

— Está me deitando a perder.

— Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura,
se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados.

— E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe
Justa?

— Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo.

Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela
para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa,
tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para
aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que
estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede.

D. Flor abandonou a rede, e tirando das mãos de mamãe o fuso,
acomodou-se mui sem cerimônia no colo da sertaneja, que já não
cuidava em outra coisa senão em ninar o seu querubim.

— Espere, mamãe; deixe-me ver seu rosário, disse D. Flor,
desatando o pequeno ramal de contas pretas que a sertaneja trazia ao pescoço.

Deitando-o no regaço de seu roupão, tirou do bolso um pequeno
embrulho de tafetá, atado com um torçal de prata. Havia dentro
um grande rosário, todo êle de contas de ouro, com os padre-nossos
de coral e as coroas de marfim. A cruz era de azeviche com o Cristo de Jaspe.

A donzela cingiu o pescoço de sua mamãe com cinco ou seis voltas
do rosário e deixou-lhe afinal pender sôbre o peito a cruz, que
teve o cuidado de colocar de chapa, mostrando a imagem do Redentor.

— Aquí tem! É um rosário completo com duas coroas
e mais um mistério. Assim não carece de passar duas vezes, quando
rezar sua novena.

Justa não dava sinal de si. Ficara maravilhada com a riqueza e formosura
daquele mimo e estava em êxtase, imóvel como uma estátua,
receosa de que o seu menor gesto maculasse aquele primor.

Acabando de arranjar o rosário, afastou-se D. Flor para observar o
efeito:

— Está uma dona, mamãe!

Foi então que Justa despertando correu à menina, e como costumava
em seus momentos de efusão, suspendeu-a nos braços, tomando-a
ao colo da mesma forma que fizera quando a trazia aos peitos, e afogando-a
de beijos e carícias.

No dia seguinte ao da chegada, quando se arrumou a bagagem, tinha-se feito
uma distribuição geral de presentes pela gente da fazenda. Cada
uma das pessoas que ficaram havia recebido uma peça de vestuário,
um traste de uso, ou qualquer outra lembrança. Os homens o receberam
da mão do capitão-mór; as mulheres da mão de D.
Genoveva; as moças e meninas da mão de D. Flor.

Mas a donzela, além daqueles presentes, tinha três especiais,
que havia reservado para mais tarde: um era o de Alina, sua companheira de
infância, outro era o da sua mãe Justa. Faltava-lhe dar o terceiro.

XI – Comadre

Flor voltara a embalar-se na rede, e Justa fazia outra vez corrupiar o fuso
às castanholas de seus dedos ágeis.

A donzela correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença
de mais alguém; foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança,
dirigiu-se à ama com uma carinhosa exprobração:

— Que é feito de Arnaldo, mamãe Justa? Há três
dias que chegámos e ainda ninguém o viu.

— Arnaldo? Minha filha não sabe? É verdade que eu nem
me lembrei de contar-lhe.

— O que? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu.

— Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da saída do senhor capitão-mór,
êle veio despedir-se de mim, que também ia fazer uma viagem.

— Aonde?

— Não disse; mas eu cuido que é para as bandas da Serra
Grande, atrás de uns barbatões que o vaqueiro Inácio
Góis pediu-lhe para agarrar. Nisso de campear não há
quem lhe ganhe. Em todo êste sertão não havia vaqueiro
como o sr. Louredo, meu defunto que Deus tem. Pois o filho ainda passa. Minha
Flor não se lembra daquele novilho que êle foi pegar lá
no fundo do Piauí? Gastou três meses; mas trouxe o mocambeiro
amarrado à argola da cilha.

A donzela prestava à ama vaga atenção, distraída
por uma idéia que a notícia suscitara em seu espírito.
Mas, desprendendo-se dessa cisma interior, tornou à conversa.

— E mamãe não tem mêdo que lhe aconteça
alguma coisa, aí por êsses desertos?

A sertaneja abanou a cabeça com um gesto de confiança, e o
rosto banhado de um ingênuo orgulho:

— Que lhe há de acontecer?

— Eu sei? algum perigo.

— Está defendido. Enquanto tiver no pescoço o bentinho,
não lhe acontece mal.

— Aquele relicário vermelho?

— Ninguém sabe quem deitou, respondeu a sertaneja afirmando
com a cabeça. No mesmo dia de nascido, apareceu com êle e não
se viu entrar em casa viva alma, nem a criancinha saíu da minha rede.
Só quando eu acordei, ainda assim como sonhando, sentí um cheiro
de incenso e vi uma alvura que me cegou. Havia de jurar que eram asas de anjo.
Quando olhei para o pequenino êle estava rindo-se e a brincar com o
relicário, como se já tivesse juízo para entender.

— Nunca me contou isso, mamaãe Justa! observou a menina surpresa.

— Meu homem não gostava que eu falasse nestas coisas, e então
ficou no esquecimento o milagre do bentinho. Mas o senhor capitão-mór
e a dona sabem tudo.

— Então êsse relicário tem a virtude de livrar
a pessoa de qualquer risco e desastre?

— De todo o perigo, seja do fogo ou d’água, de ferro ou
veneno, respondeu a ama com o tom da mais profunda convicção.

— Esta certeza que você tem, mamãe Justa, é que
eu não vejo. Só por que não se sabe donde veio o relicário?

— Pois não está se vendo, meu bem, que foi um anjo que
o pôs ao pescocinho da criança, mandado por Nossa Senhora da
Penha de França? Porque eu o tinha oferecido à Mãe Santíssima
para seu devoto, quando ainda o trazia nas minhas entranhas, e então
ela quis protegê-lo. Agora repare que, saindo Arnaldo um menino tão
travêsso que ninguém podia com êle, nunca lhe aconteceu
nada, mesmo nada; nem um arranhão de unha de gato, ou uma queda da
goiabeira. Sumia-se um dia inteiro, metia-se no mato, ou andava cercando os
magotes para montar nos poldros bravos, e estava mais seguro por lá,
do que se eu o guardasse aquí junto de mim, no terreiro. Não
se lembra daquela pobre, aí para as bandas de Russas, que enquanto
ensaboava uma roupinha, os porcos lhe comeram o filho, mesmo dentro de casa?

— Coitada! Esqueceu-se de fechar a porta.

— Se tivesse proteção do céu pdia deixar aberta,
ainda que lhe andassem as onças no terreiro. Era o mesmo que se um
benzedor lhe fizesse o signo Salomão no batente: ninguém entrava.

— Agora por falar nas travessuras de meu colaço, mamãe
Justa, lembrou-me de uma coisa que me sucedeu na viagem.

— Pois conte, meu querubim, que estou mesmo ansiosa de saber como lhe
foi por lá pelo Recife, se achou muito bonita a cidade e teve festas
e regozijo?

— Depois contarei tudo. Agora é só o que sucedeu na ida.

— Pois sim.

— Estávamos já perto do Recife e tínhamos atravessado
um rio chamado das Tabocas, onde se deu uma grande batalha no tempo dos Flamengos.

— Sei; o velho Anselmo sempre falava nessa guerra que também
êle andou por lá pelejando.

— Eu ia adiante equipando, quando um cavalo bravio, que andava pela
várzea a pastar, ocorreu furioso para brigar com o lazão.

— Jesús! Que perigo!

— Foi apenas o susto. Quando o cavalo se atirou como uma onça
para morder o lazão, um homem apareceu não sei donde que o agarrou
pelas orelhas e saltou em cima.

— Bravo! Já estou-lhe querendo bem sem o conhecer.

— O cavalo corcoveava pela várzea, que parecia uma cabra; mas
o sujeito meteu-lhe as esporas e lá se foram os dois aos trancos, pela
várzea fora. Foi então que me lembrei de Arnaldo quando montava
em pêlo nos poldros bravos, e andava a escaramuçar pelo campo
até amansá-los.

— É verdade; era um capetinha. Mas o susto não fez mal
à minha filha? perguntou a ama com terno desvêlo, como se falasse
de um perigo recente.

— Não, nem disse nada à minha mãe para não
afligí-la. O mais curioso, porém, é que o tal sujeito
que me livrou dava uns ares com Arnaldo.

— Devéras?

— Eu não lhe vi a cara, porque êle tinha um lenço
de rebuço, e também foi um relance, enquanto montava. Mas o
corpo, nunca vi coisa mais semelhante.

— Que me está dizendo, meu querubim?

D. Flor fez uma pausa de hesitação, ao cabo da qual fitou os
olhos na ama:

— Quem sabe se não era mesmo meu colaço, mamãe
Justa?

—Êle? Arnaldo? Que idéia! se andava tão longe,
por êste sertão a dentro! Capaz de fazer o que o outro fez, isso
sim; e mais, e muito mais, por meu querubim, que êle é meu filho
e criou-se nestes peitos.

— Não podia ser êle! disse Flor com a voz lenta, e recaindo
na cisma anterior.

Porventura seu espírito, recordando o fato e combinando-o com a notícia
da ausência que Arnaldo fizera da fazenda, laborava em dúvida,
a-pesar-da denegação que lhe escapara dos lábios.

Ouviu-se um manso balar e um piso rijo, mas compassado. Com pouco apareceu
na porta que dava para a cozinha uma bonita cabra rajada, das maiores que
se criavam naqueles pingues sertões.

Ao avistá-la, Justa estendeu a mão dizendo:

— Ande cá, comadre: venha dizer adeus à sua filha, que
você ainda não viu.

A cabra como se entendesse a sertaneja, caminhou com passo lento e grave
qual convinha a uma matrona e veio apoiar a cabeça na espádua
a donzela que abraçou e acolheu com meiguices ao lindo animal.

— Adeus, mamãe bebé, como passou? Vamos a saber…
Teve saudades de sua filha? Qual! Você é uma ingrata!

D. Flor que levantava com a mão esquerda a cabeça da cabra
para falar-lhe, fez com o índice da mão direita um gesto risonho
de ameaça infantil:

— Por que não me foi encontrar no terreiro com sua comadre,
quando eu cheguei?

— Estava esperando por Arnaldo, observou a Justa. É um faro
que ela tem para conhecer aquele filho, que é uma coisa por maior.
Desde transanteontem à tarde, quando minha filha chegou, que ela começou
a chamar, a chamar, e não saíu mais lá do cocoruto à
espera dele.

— Então a senhora quer mais bem a êle do que a mim? atalhou
a donzela voltando-se para a cabra com uma feição graciosa que
debalde pretendia tornar-se em carranca.

— É para pagar o mais que eu lhe quero a você, meu querubim,
replicou Justa rindo-se.

— Não deve ser!

— Mas se é!

Flor dirigiu-se outra vez à mamãe bebé.

— E que notícias me dá de seu querido, dona? Bem mostra
que é seu filho; ingrato como a mamãe.

— Ela que apareceu, é que Arnaldo não tarda por aí.

A cabra fitou seus olhos de topázio cheios de inteligência na
donzela; volveu a cabeça para fora e afastando-se com o mesmo passo
cadente foi colocar-se no meio da varanda, voltada para a porta.

Aí ficou imóvel até que, decorridos instantes, ergueu
a pata dianteira e começou com ela a bater no chão, recuando
a passo e passo para logo depois avançar e retrair-se de novo. Afinal
caminhou direito à porta.

Arnaldo pisava a soleira.

O sertanejo dos dias antecedentes, o filho do deserto, livre e indômito
como o cervo das campinas, ficou lá fora. Quem entrou foi um mancebo
tímido e acanhado no qual todavia a aparência rústica
do trajo e o enleio do gesto não escureciam a nativa beleza do perfil
e o molde airoso do talhe.

O filho e a mãe abraçaram-se estreitamente no meio da varanda,
onde se encontraram correndo um ao outro. Depois dêsse desafôgo
das saudades, Justa voltou ao estradinho levando o filho pela mão até
o lugar onde ficara D. Flor.

— Adeus, Arnaldo! disse a donzela com ingênuo prazer.

O sertanejo parado em face da donzela com os olhos baixos e respondeu em
voz submissa:

— Adeus, Flor.

Ou por espontâneo movimento, ou para subtrair-se ao enleio dessa posição,
Arnaldo voltou-se para a cabra que lhe seguira os passos, e estendeu-lhe as
mãos. O carinhoso animal pousou nas palmas de seu filho de leite as
patas dianteiras, e daí com um salto alcançou-lhe as espáduas.

Ficaram assim os dois abraçados. Arnaldo prolongava de propósito
a carícia, perplexo sôbre o que devia fazer. Por fim a cabra
separou-se e foi sentar-se defronte no seu canto, com os olhos fitos no grupo.

— E a mim não se abraça? perguntou D. Flor a sorrir.

Arnaldo estremeceu. Vendo-o atônito e mudo, Justa impeliu-o ao de leve
pela mão.

— Anda daí, Arnaldo; abraça tua colaça. Estás
tonto da viagem?

— Deixe-o; eu vou abraçar mamãe bebé, disse a
donzela, zombando do vexame de seu irmão de leite.

— Ora vejam que partes! insistiu a ama.

Levantando-se passou o braço pela cintura de cada um, obrigando-os
ambos a aproximarem-se.

D. Flor pousou timidamente a mão no ombro do rapaz e sua cabeça
roçando-lhe o peito ouvia-lhe as rijas e violentas palpitações.
Quando desprendeu-se do rápido abraço leve rubor carminou-lhe
as níveas faces; mas apagou-se logo no gesto da linda fronte, a qual
erguera-se com a expressão altiva e senhoril que era o toque de sua
beleza.

Arnaldo não se animara a cingir o talhe da donzela. Se tocara-lhe
o corpo, fôra impulso da mãe; logo, porém, recuara voltando
as costas para esconder a veemente comoção.

Sua fisionomia tinha a lívida rigidez de um espectro. Calcava a mão
sôbre o peito para comprimir o coração, que saltava-lhe
aos ímpetos, como um poldro selvagem. Deu alguns passos para a porta
vacilando como um ébrio.

— Onde vais tão cedo, Arnaldo? perguntou Justa.

Nesse momento soou lá fora, para o lado da várzea, grande estrépito.
O gado ugia; os cães latiam furiosos e no meio do alarido destacavam-se
vozes humanas a clamar:

— Ecou!… Ecou!… Arriba, gente! Isca, Roldão!…
Valente!…

Ao primeiro rumor, Arnaldo assumiu-se vibrando a fronte. Já era outro
homem, ou antes, tornara ao que era. Do peito vigoroso rompeu-lhe o brado
formidável que nenhum vocábulo traduz, rugido humano com que
o sertanejo afirma no deserto o império do rei da criação.

De um ímpeto ganhou a porta e desapareceu.

XII – Alvorôço

O ponto de onde vinha o alarido era a várzea fronteira à casaria
da fazenda.

O capitão-mór Campelo saíu fora ao terreiro para conhecer
a causa do alvorôço. Agrela o seguia.

Não tardou que se reunissem ao grupo D. Genoveva e D. Flor, que chegara
acompanhada por Justa, e curiosa de saber a razão do ímpeto
de Arnaldo.

As criadas e escravas acudiam à janela enquanto os fâmulos e
agregados corriam ao lugar do acontecimento para melhor verem o que alí
estava passando, e sendo possível, tomarem parte na função.

Na várzea já estavam muitos indivíduos, pela maior parte
moços ou criados do vaqueiro, que atualmente no sertão designam
com o nome de fábricas. Fazia largo cêrco ao redor de uma coroa
de mato, balsa emaranhada que erriçavam os talos espinhosos das carnaúbas.

Armados uns de arcabuzes e clavinotes, outros de parnaíbas e facas
do mato, excitavam-se mutuamente a avançar; nenhum contudo se resolvia
a ser o primeiro. Não que lhes faltasse a coragem, provada nos azares
da vida áspera do sertanejo; mas o perigo desconhecido nunca deixa
de infundir um vago assombro que, se não abate o valor, entorpece a
resolução. Não são todos que ousam afrontá-lo
a sangue frio.

Até aquele momento ignorava-se o que havia no capoão; e a coisa
tomava feição de mistério que nesses tempos supersticiosos
dava tema para as mais absurdas visões.

Um dos cães do curral tinha farejado o quer que era no matagal e dera
aviso. Logo acudiu toda a matilha que não cessava de latir e com ela
os rapazes, que a estumavam para investir.

Entretanto a brenha permanecia silenciosa; não se ouvia o menor sussurro
e as fôlhas do arvoredo apenas aflavam com o brando sôpro da viração.
Esta placidez, que quase devia tranquilizar, era precisamente a causa do terror,
porque transmitia ao acidente um aspecto estranho e inexplicável.

— É onça com certeza! dizia o José Pina.

— Se fosse onça, já tinha espirrado.

— Eu conheço pélo latido do Ferro!

— Para mim, não é senão defunto! observou o Quinquim
da Amância.

— E mais de um.

— Qual defunto! exclamou o João Coité, que chegava esbofado
da corrida.

— Então é o lobisomem!

— Coisa pior! Sou capaz de apostar minha alma em como não é
outro senão o velho bruxo!

— É verdade! exclamaram muitas vozes em roda.

— Vamos a ver, que é o mais certo; observou o Burití.

— Não é o filho de meu pai que se mete nessa, observou
João Coité. Se fosse gente ou coisa dêste mundo, aquí
tinham um homem que vale por três, mas como Tinhoso não quero
súcias.

Esta profissão de fé arrefeceu o entusiasmo dos companheiros
e houve quem suscitasse a idéia de chamar o capelão para atacar
o inimigo com as armas da Igreja, e obrigá-lo a sair do mato onde se
encafuara.

A êsse tempo chegou Arnaldo à várzea. Colhendo na passagem
a nova do que havia, enrolou no braço direito o gibão de couro
e com a faca desembainhada investiu para o mato, onde penetrou e desapareceu.

Foi um instante de ansiedade para os que alí se achavam. Arrependidos
uns de não terem acompanhado o destemido rapaz, outros de não
haverem obstado àquela temeridade, aguardavam o desfecho do estranho
acidente.

João Coité, convencido de que Arnaldo já estava embruxado
pelo velho, preparava-se para algum acontecimento e por causa das dúvidas
tinha o polegar À altura da testa pronto para benzer-se.

O Quinquim da Amância, que lembrara-se do lobisomem, fez com a vara
de ferrão um grande signo-saimão e saltou dentro, no que o acompanharam
todos os rapazes, crentes de que assim ficavam preservados de virarem raposas.

— O que é? o que é? gritou o Manuel Abreu, que chegava
com o resto de sua gente.

Nessa ocasião ramalhou o mato; logo depois abriu-se a folhagem e apareceu
Arnaldo puxando pela orelha a um tigre enorme, que o seguia gacheiro e humilde.

O assombro da gente durou até que o sertanejo com o singular rafeito
sumiu-se na ponta do mato, que se prendia à floresta e formava como
um braço arqueado a cingir a várzea.

Não foi menor a surpresa das pessoas que observavam a cena do alto
do terreiro. As mulheres não tiveram ânimo de a acompanhar até
o fim, horrorizadas com a idéia de que a fera pudesse de repente lançar-se
a Arnaldo ou a qualquer dos outros e estraçalhá-los. D. Flor
também sentiu um calafrio que obrigou-a a cerrar as pálpebras;
porém tinha império sôbre si e alma para admirar os rasgos
de coragem.

O que maravilhava a êsses homens valentes e habituados às façanhas
do sertão não era a coragem de Arnaldo, mas a submissão
do tigre.

A luta de um homem só contra o tirano das florestas brasileiras não
era novidade: sabiam que o sertanejo afronta a onça e abate-a a seus
pés. Se êles não o tinham feito, conheciam ou de fama
ou pessoalmente mais de um caçador para quem essa proeza era divertimento.

O tigre brasileiro, a-pesar-de Buffon que o não conheceu, é
um animal formidável pela fôrça e pela intrepidez. Há
exemplo de penetrar em um rancho ou acampamento, e arrebatar dele um homem,
zombando dos tiros com que o perseguem os companheiros da vítima.

Arrasta o cavalo ou boi que matou e faz frente aos caçadores, afastando-se
com rapidez não obstante o grande pêso da carga. Azara refere
o caso de um que levou com o boi morto outro boi vivo, preso à mesma
canga.

Toda essa fôrça e braveza cedem à agilidade do homem.
Não compreendia, oprém, a gente da fazenda o império
que o rapaz sertanejo exercia sôbre a fera a ponto de a levar à
trela como a um sabujo.

Da mesma forma que o leão, a pantera e todo animal por mais cruel
que seja, o tigre brasileiro pode ser domesticado. Naquela época havia
caçador nos sertões que tinham dessas fantasias; embora mais
de uma vez fosse obrigado a ir à cola do fugitivo, a quem apertavam
saudades da brenha.

Uma coisa, porém, era o tigre manso e outra mais diversa o tigre bravio,
que saíra da mata açulado pela fome e que deixava-se arrastar
por Arnaldo, sem opor-lhe a menor resistência, nem dar qualquer sinal
de cólera.

Não atinando com a explicação natural do fato, buscava-a
aquela gente na superstição. Atribuíam todos à
feitiçaria esse poder incompreensível que o sertanejo exercia
sôbre a fera.

João Coité era de opinião diferente. Para o visionário
aquela onça não era o que mostrava, porém o bruxo velho
Jó, que tomara a figura do animal, a fim de não ser conhecido.

— E senão, vejam como veio correndo o outro enguiço de
Satanaz que êle já enfeitiçou? Aquilo é que sentiu
o fartum de enxôfre.

Já se tinha dispersado a gente, e recolhidos aos aposentos ou tornados
às labutações jornaleiras, os agregados cismavam sôbre
o caso, que dava tema vasto à tagarelice.

No terreiro, à sombra da oiticica, ainda se achava o capitão-mór
Campelo com seu tenente Agrela e o padre Teles, capelão da fazenda.

Já entrado em anos, porém ainda verde e bem disposto, o sacerdote,
mais por índole do que por estudo e convicção, dava o
exemplo de uma tolerância benévola que todavia estava bem longe
da simonia de certos padres desabusados, como então os havia nas colônias,
e para os quais a religião era uma indústria, o altar um balcão.

Praticavam as três pessoas acêrca do fato a que tinham assistido,
e o capitão-mór, perplexo na opinião que devia formar
sôbre tão estranho caso, ouvia aos seus dois ajudantes, o do
espiritual e o do temporal:

— Tem-se visto sujeitos neste sertão que lidam com as cobras
mais assanhadas, como a cascavel e a jararaca, as enrolam ao pescoço
ou as trazem no seio sem que lhes façam mal, observava Agrela.

— Eu conhecí nos Carirís, aderiu o capelão afirmando
com a cabeça, um caboclo que tinha criação delas.

— Êsse poder que uns têm sôbre as cobras, outros
o terão sôbre as feras, como acabámos de ver; tornou Agrela.

— Mas êsses não são feiticeiros, Agrela? O seu
poder não vem de artes ocultas?

— Assim pensa toda a gente, sr. capitão-mór. Mas para
mim tenho que são coisas naturais, ainda que não as sei explicar.

— Que dizeis a isso, padre Teles? perguntou o fazendeiro voltando-se
para o capelão.

— É fora de toda a dúvida que neste caso admirável
do qual fomos testemunhas, assim como no das cobras e outros semelhantes,
há uma virtude sobrenatural, que não pertence ao mortal, mas
lhe foi transmitida por um poder superior.

— Qual poder, padre Teles? O do inferno? interrogou Campelo.

— O do céu, sr. capitão-mór. Deus, como ensinam
as sagradas escrituras, pode operar o milagre, ou por si diretamente, como
fez Jesús ressuscitando o Lazáro e restituindo a vista ao cego,
ou por meio dos Santos e de suas relíquias. Assim foi que Moisés
separou as ondas do Mar Vermelho e Josué fez parar o sol; e também
que a túnica de Elias dividiu as águas do Jordão, o sudário
de Paulo curou os enfermos, os ossos de Eliseu ressuscitaram os mortos, além
de outros inúmeros exemplos.

— Acreditais então que fosse um milagre? interogou novamente
o capitão-mór.

— Acredito que o Senhor quis salvar o filho da Justa, ou por intercessão
do santo da especial devoção da mãe, ou pela virtude
de alguma relíquia preciosa que o rapaz traga consigo.

— Êle tem um bentinho! observou o capitão-mór pensativo;
e o traz desde que ansceu.

— Se a onça conservasse seu natural feroz e carniceiro, com
certeza estava perdido o rapaz. E como o modo de salvá-lo era êsse
de amansar a fera, o que se viu mais de uma vez nos circos romanos, e que
o Senhor especialmente usou com Daniel na cova dos leões, não
há coisa que nos espante naquela ação que presenciámos,
pois infinito é o poder de Deus, e mais estupendos milagres tem operado
para manifestar aos mortais sua onipotência.

— Amém! disse o capitão-mór que se descobrira
respeitosamente, sendo imitado no gesto e na palavra pelo ajudante.

Terminada a prática religiosa, o padre Teles, obtendo vênia,
retirou-se ao seu aposento. Permaneceram no terreiro o capitão-mór
e Agrela.

Êsses dois homens formavam no físico, tanto como no moral, perfeito
contraste. De Campelo já se disse que era sujeito robusto e corpulento,
de marca superior ao estalão humano. Agrela, franzino e de exígua
estatura, parecia ao lado do fazendeiro um espadim à fiveleta de um
matamouro.

Quanto ao moral, o que tinha o capitão-mór de passado e formalista,
pagava-lhe o ajudante em viveza e prontidão. O tempo que o primeiro
consumia a tomar uma resolução, bastaria ao outro para realizá-la.

Daí provinha naturalmente a volubilidade e e inconstância do
gênio do moço, assim como a tenacidade do velho em sustentar
sua resolução, uma vez tomada.

Entretanto por contraprova do anexim, que – dois gênios iguais
não fazem liga, – fôra precisamente o contraste daquelas
duas naturezas a solda que as unira a ponto de já não fazerem
mais de uma pessoa, embora repartida por dois corpos.

O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, alí presente,
não seria o mesmo opulento fazendeiro que era, comandante das ordenanças
da freguesia de Santo Antônio de Quixeramobim e o maior potentado daquela
redondeza, se arredassem dele o Agrela, seu ajudante.

Equivaleria a amputar-lhe uma faculdade d’alma e a mais ativa. A energia,
de que o velho dera tantas provas e que lhe granjeara admiração
e rspeito, desapareceria como a rigidez do aço privado de sua têmpera.

Nem podia ser doutra forma, pois essa energia resultava da combinação
dos dois caracteres. Com a volubilidade de seu gênio, Agrela tinha em
qualquer circunstância um alvitre pronto e o comunicava ao capitão-mór,
em cuja vontade lenta, mas robusta, essa lembrança tomava logo a fôrça
de uma inabalável resolução.

A mesma transfusão operava-se acêrca do pensamento. O capitão-mór,
que tinha aliás o senso claro e reto, para não dar-se ao trabalho
de meditar, incumbia o seu ajudante dessa ocupação secundária
e limitava-se a colhêr a suma. Não admira, pois, que, apenas
retirado o padre Teles, se voltasse o Campelo para o mancebo e lhe perguntasse:

— Que vos parece, Agrela?

— De que, sr. capitão-mór? Do que disse o padre Teles?

— Sim, homem; estais pelo milagre?

— Minha idéia é, como já disse ao sr. capitão-mór,
que estas coisas não são comuns; mas também não
se podem chamar impossíveis. Elas têm uma causa natural, conhecida
dos que especulam êstes arcanos da natureza.

— Há então uma causa oculta; e essa tanto pode ser milagre
como feitiçaria.

— O sr. capitão-mór há de ter visto muitas vezes,
como eu, o passarinho que vai piando meter-se êle mesmo na bôca
da cascavel.

— É verdade.

— Aí está uma coisa bem natural e de todos os dias que
já ninguém estranha. Êsse terror que a cobra causa ao
passarinho a ponto de obrigá-lo a entregar-se, eu acredito que um homem
forte e valoroso inspire a outro homem, quanto mais a um tigre, a ponto de
torná-lo manso e inofensivo. E o sr. capitão-mór tem
em si uma prova dêsse predomínio.

— Então pensais que em tudo aquilo não houve senão
a valentia do rapaz e o mêdo da onça?

— Assim me parece.

— Acertastes, Agrela; não foi outra coisa.

Nesse instante viu o ajudante a Arnaldo que subia a encosta na direção
do terreiro; e indicou-o ao capitão-mór.

XIII – Explicação

O sertanejo curcou-se e beijou a mão ao fazendeiro, costume patriarcal
já em voga no sertão e que êle praticava por um impulso
d’alma, pois habituara-se desde a infância a respeitar no velho
Campelo um outro pai, além do que lhe dera a natureza.

Arnaldo e Agrela trocaram fria saudação. Havia entre ambos
um afastamento, que já o capitão-mór havia percebido
com pesar, pois desejava ligar entre si os dois mancebos, como os trazia unidos
em sua afeição.

O ajudante foi arredando-se à feição de retirar-se.

— Onde ides, Agrela? perguntou Campelo.

— Alí, ao quartel!

— Pois ide! disse o capitão-mór acenando-lhe com a mão.

O velho sentia que ia cometer uma fraqueza e não queria testemunha.

— Então, qu’é da onça?

— Lá se ficou no mato.

— É de bom acomodar, tornou o capitão-mór a rir.

— Ah! somos conhecidos velhos, respondeu o rapaz no mesmo tom.

— Como então?

— É uma história.

— Pois conta lá.

— Se não tem que contar!… Coisas do mato.

— Vai dizendo.

— Eis o caso. Essa dona e seu companheiro apareceram aquí na
vizinhança haverá um ano. Como eu ando sempre a bater por êstes
matos, parece que os importunava; e então assentaram de acabar-me a
casta. Não dava mais um passo, que não andasse no rasto algum
dos dois camaradas.

— Não eram maus os pagens!

— Nâo eram, não; mas a mim é que não me
serviam, que sempre foi meu costume andar só, pois é o meio
de andar seguro. Então passei a saber dos tais amigos o que pretendiam
dêste cearense.

— Ah! E que responderam?

— Se êles ignoram as regras da cortesia… No que afinal
têm desculpa, pois nunca foram à Côrte, nem ao menos ao
Recife. Portaram-se como dois vilões. O que êles queriam, bem
adivinhava eu; era apanharem-me descuidado e torcerem-me o gasnete. Mas eu
transtornei-lhes o plano.

— Vamos a ver a façanha.

— Não foi nenhuma, sr. capitão-mór; manha sim,
houve alguma. Um dia que o macho saíu à carniça mais
longe, lá para as bandas do Quixeramobim, aproveitei a ocasião,
e fui visitar a moça que tinha ficado na furna deitada com os dois
cachorrinhos.

— Entraste na furna, rapaz?

— Pois não havia de fazer as minhas cortesias à dona?
Já se sabe, fui no rigor: bem encourado, com o pelego enrolado no braço
esquerdo, e a minha faca flamenga à mostra.

— E a cuja como te recebeu?

— Com toda a bizarria, lá isso não se pode negar. Assim
que me viu, rangeu os dentes, levantou-se a prumo sôbre os quadrís,
e estendeu a munheca, talvez para dar-me um apêrto de mão. Eu,
que sou desconfiado, fui metendo-lhe um palmo de ferro entre as costelas,
com o que a bicha deu-se por satisfeita.

— Mataste-a?

— Era minha intenção. Mas quando eu ouví os cachorrinhos
a grunhirem como se estivessem chorando, e reparei nos olhos que lhes deitava
de longe a onça estendida no chão; lembrei-me que ela era mãe
e ia deixar os filhinhos ao desamparo. Então não sei o que se
passou cá em mim, que tirei leite da janaúba, curei a ferida
e fui buscar água na cacimba para dar-lhe a beber e aos cachorrinhos.

— Bem mostras que és um bom filho, Arnaldo, e nem podia ser
d’outra sorte com a mãe que Deus te deu. Mas vamos ao resto da
história, que está curiosa.

— Mal tinha acabado de agasalhar a dona, aí chega o marido.

— Devias esperar por êle.

— Não difo que não; mas o tal, ou vinha arrenegado da
vida, ou era de gênio arrebatado, pois não quis saber de explicação:
foi juntando e pinchou-se-me em cima com uma gana de três dias. Espetou-se
na ponta da faca; mas não se contentou com uma sangria; foi só
à terceira, que emborcou no chão e toca a estrebuchar.

— Estou vendo que também não o mataste, e que não
é outra senão a tal e ainda agora.

Arnaldo sorriu, mas a expressão jovial que animou-lhe a fisionomia
retocou-se de um laivo melancólico.

— Não sei o que é viverem duas criaturas da mesma vida
e unirem-se para sempre; nem o saberei nunca.

— Por que não o hás de saber, Arnaldo? Para que tenho
criado em minha casa, como filha, a Alina, senão para dar-te nela uma
boa mulher, como tu a mereces? Justa ainda não te disse?

— Morrerei só, como tenho vivido, replicou o mancebo com vivacidade.
Mas isso não impede que eu sinta quanto há de ser triste ver-se
uma criatura desamparada do seu companheiro, daquele que a defende e a proteje.
Foi o que eu sentí, naquela ocasião: os filhos a grunhirem outra
vez; a mãe a gemer; êle a arquejar que me cortava o coração;
e no meio de tudo uns quebrados de olhos tão ternos que ninguém
diria fossem daquela ralé carniceira. Afinal de contas, eis-me feito
cirurgião e enfermeiro dos feridos e criador dos cachorrinhos.

— Aí está o segrêdo.

— Durante um mês, todos os dias era meu divertimento curar os
meus enfermos, e levar-lhes água e a comida, sobretudo peixe, de que
êles gostam muito, e não faz má dieta.

— E acabaram por ficar amigos?

— Amigos não, camaradas. Êles sabem que eu não
os temo, e que também não lhes quero mal; por isso me respeitam.
Uma vez, porém, íamos brigando.

— Ah! isso é que estava para perguntar-te: pois sempre tive
êsse animal na conta do mais traiçoeiro que se cria nas matas,
com exceção da cobra.

— No fim da sêca passada, um dia que faltou-lhes a carniça
e a fome apertou, tiraram-se de seus cuidados e fizeram as contas ao meu Corisco.

— E então?

— Ficaram com a água na bôca e as boas lambadas de relho,
que metí-lhes no costado.

— Deste-lhes de relho? E êles aguentaram, como um sendeiro, sem
respingar nem tugir? Então não admira que se deixem puxar pela
orelha, como há pouco.

— Não deixaram de resmungar seu tanto; mas lembraram-se do que
lhes tinha acontecido, e preferiram o couro ao ferro, no que mostram bem a
casta que são. Desde aí é aquela mansidão que
o sr. capitão-mór viu.

— Ora está a coisa explicada, sem milagres, nem feitiçarias.
Ao cabo tudo vem dar nisto: que és um bravo, Arnaldo, valente como
as armas!

— Valentia é a do se. capitão-mór que enxotou
dez homens armados só com um chiqueirador.

O capitão-mór sorriu-se dessa recordação de uma
das mais famosas entre suas façanhas; e erguendo-se do banco onde estivera
sentado, passeou um momento, enquanto compunha novamente com sua ordinária
expressão de gravidade a fisionomia que durante a narrativa do mancebo
se havia desarmado.

— Bem: agora saibamos outra coisa. Estivemos ausentes cêrca de
quatro meses de nossa fazenda da Oiticica pela necessidade de prover a certos
negócios na cidade do Recife. Durante nossa ausência consta-nos
que Arnaldo abandonara a fazenda; e tornando nós com o favor de Deus
à nossa casa no sábado, só hoje ao quarto dia de nossa
chegada nos parece. Que quer dizer, Arnaldo?

— Também andei em viagem, respondeu o mancebo concisamente,
mas com mostras de respeito.

— Sua obrigação era ficar na Oiticica, donde ninguém
se arreda sem nossa licença.

— Uma vez já pedí permissão ao sr. capitão-mór
para dizer-lhe que eu não pertenço ao serviço da fazenda.
Não sei lidar com os homens; cada um tem seu gênio: o meu é
para viver no mato.

Tornou o Campelo ainda mais fechado:

— Quer dar em bandoleiro, como êsses que aí andam ao cosso
pelo sertão, acabando o gado das fazendas, à fiúza de
matar barbatão, e praticando toda casta de maldades em suas correrias?

Arnaldo ergueu a fronte com um assomo de escândalo contra a injuriosa
suspeita.

— O sr. capitão-mór não pode temer isso de mim.
Conhece-me bem.

— Conheço, disse o velho fazendeiro, descansando solenemente
a larga mão sôbre o ombro do rapaz, a título de reparação
da injustiça.

— Vivo de pouco e Deus me dá de sobra. Não careço
do alheio, nem o cobiço. Tão pouco se ligará com bandoleiros
quem não pode acostumar-se à gente de melhor avença.
Procuro o sertão, e moro nele para estar só. Mas fique vossa
senhoria descansado, que se não presto para camarada ou vaqueiro, quando
se tratar de o defender e acatar, a si e aos que lhe são caros, pode
contar que não tem servidor mais pronto, nem mais devoto. Minha vida
lhe pertence, é dispor dela como lhe aprouver.

O capitão-mór se aproximara e com a voz tocada pela comoção
murmurou, enquanto com um movimento rápido da mão direita abarcava
ao mancebo o peito esquerdo:

— Pois eu não sei que é de ouro êste coração?

Recobrou-se, porém, imediatamente; outra vez formalizado, dirigiu-se
a Arnaldo, guardada a gravidade e a distância.

— Agradecemos a sua dedicação, Arnaldo; mas uma fazenda,
e ainda mais, rica e importante como a Oiticica, não dispensa um regime,
que mantenha quantos a ela pertencem na obediência e respeito do dono.
Essa regra e disciplina não se guarda sem muito rigor, sobretudo para
coibir os maus exemplos, que são motivo de escândalo para os
bons e de excitação para os maus.

— Porisso é que torno a pedir ao sr. capitão-mór
que me tenha como estranho à fazenda. Sou um vagabundo que aí
anda pelos matos, e que não pede senão que o deixem viver nestes
campos onde nasceu.

O capitão-mór prosseguiu sem referir-se às palavras
do mancebo.

— Na tarde de nossa chegada, quando Manuel Abreu, nosso feitor, deu-nos
parte de sua ausência, Arnaldo, nós dissemos na ocasião
que lhe tínhamos concedido a nossa licença. Depois considerámos
que tal não houve; deu-se equívovo de nossa parte. Mas não
podíamos voltar atrás, sem quebra de nossa palavra; e pois ficou
sendo verdade que eu consentí na sua viagem.

Campelo fitou no semblante do rapaz um olhar, que ia sublinhar sua palavra.

— Esta cirscunstância fortuita nos privou de usar da severidade
precisa para reprimir a desobediência a nossas ordens; e desta arte
poupou-nos um desgôsto, pois Arnaldo sabe quanto prezamos o filho daquele
que foi nosso vaqueiro e amigo, o bom Louredo, que Deus tenha em sua santa
paz.

Arnaldo travou da destra do capitão-mór e beijou-a com fervor,
estreitando-a ao seio. Esquivou-se aquele à efusão.

— Esperamos que não aconteçam mais faltas como esta,
que nos ponham na dura necessidade de esquecer a afeição que
nos merece. Sabe, Arnaldo, que lhe destinamos o lugar que serviu seu pai,
de nosso primeiro vaqueiro. Só demorámos a realização
desta vontade, enquanto não completava Alina os dezoito anos, para
que tivesse uma boa caseira, capaz de entender com o serviço da queijaria
e o trato das crias. Agora vamos avisar a D. Genoveva para que trate das bodas
que se podem fazer pela Páscoa.

O semblante do sertanejo manifestava o íntimo confrangimento d’alma
ao ouvir aquelas palavras do capitão-mór. Foi com um tom sêco
e incisivo que retorquiu:

— O que posso asseverar ao sr. capitão-mór é que
não serei nunca nem vaqueiro de fazenda, nem marido de mulher alguma.

— Há de ser!

— Outro Arnaldo sim; êste não!

— Há de ser, e quem o diz é o capitão-mór
Gonçalo Pires Campelo, insistiu o velho com a pachorra sonolenta que
precedia as formidáveis explosões de sua cólera.

O primeiro impulso de Arnaldo foi desabrir-se contra a resolução
que o velho acabava de anunciar com a fórmula solene da vontade inabalável.
Mas êle queria e venerava aquele velho com amor de filho. Reservando-se
para defender mais tarde e no momento preciso sua liberdade, conteve-se nesta
ocasião. Se opusesse à tenacidade do fazendeiro seu caráter
indomável, o choque havia de ser terrível.

Embora não esperasse evitar o rompimento, todavia seu desejo era afastá-lo
quanto fosse possível, e muito mais naquele momento em que tinha o
coração ainda comovido pelas provas de afeição
do velho.

Limitou-se o sertanejo a dizer:

— Sabe Deus o que será.

— Com êle o deixo, e rogue-lhe, Arnaldo, que o faça um
homem para honrar a memória de seu pai.

XIV – Desobediência

O capitão-mór encaminhou-se para a casa. Ao deitar o pé
no primeiro degrau do pórtico, voltou-se e gritou ao sertanejo que
já descia a encosta:

— Torne cá, Arnaldo.

O mancebo acercou-se outra vez do terreiro.

— Diga-me onde anda o velho Jó, que deitou fogo no mato da fazenda,
na tarde de nossa chegada.

Arnaldo teve um sobressalto. A tremenda colisão que êle evitara
poucos momentos antes apresentava-se sob outra face.

— Asseguro ao senhor capitão-mór que não foi o
velho Jó quem deitou fogo ao mato.

— Sabemos do contrário.

— Juro se for preciso.

— Não basta um juramento suspeito, pois o velho é seu
camarada; são precisas provas que destruam a acusação.

— Quem o acusa? Eu respondo por êle; o sr. capitão-mór
não confia em minha palavra? disse o mancebo ressentido.

— Sabemos que Arnaldo é pessoa de bem e de verdade; e prestamos
a maior fé ao seu depoimento. Mas todas a svozes se unem para lançar
ao velho Jó a culpa do fogo; e nós não podemos por uma
simples asseveração desprezar tantos testemunhos e dispensar
a devassa de um caso de aleivosia que por sua gravidade demanda punição
exemplar, a fim de que se não repita, e ponha em risco as vidas tão
preciosas de nossa espôsa e filha. Sem falar do desprêzo das ordens
terminantes que temos dado.

— Aleivosia houve, sr. capitáo-mór, porém não
foi Jó quem a cometeu, nem teve parte ou ciência dela.

— Que assim fosse… Êle que se apresente e confie de nossa
justiça, que não lhe faltará, como jamais faltou aos
que a ela recorreram.

Calou-se Arnaldo. Tinha fé na retidão do capitão-mór;
mas também conhecia seus rigores e escrúpulos. Que provas podia
exibir contra a suspeita geral corroborada pelo testemunho de todos os embusteiros,
de quem era o velho malquisto?

Êle sabia a verdade; mas como comunicá-la a outrem, quando não
tinha dela mais documento do que um rasto, àquela hora já apagado?
Demais, para desviar de Jó a imputação, era necessário
lançá-la a Aleixo Vargas, o autor da maldade.

Campelo observava a perplexidade do sertanejo e cravando nele os olhos interrogou:

— Arnaldo sabe onde está o velho Jó?

— Sei, sr. capitão-mór, respondeu o mancebo com a voz
firme e sustendo francamente o olhar do velho.

— Vai dizer-nos aonde; ou vai trazê-lo à nossa presença
para evitar aparato de prisão e suspeita de fuga.

— Nem uma nem outra coisa posso eu, meu senhor.

— Por que não pode?

— Não sou denunciante, nem esbirro.

— Mas é um rapaz estonteado. Manda-lhe o capitão-mór
Gonçalo Pires Campelo…

Arnaldo interrompeu-o.

— Por Deus e por sua filha, a quem o senhor mais quer neste mundo,
peço-lhe que me ouça primeiro, sr. capitão-mór.

Campelo reteve-se e disse:

— Fale, que ouviremos.

— Minha vida lhe pertence, sr. capitão-mór, já
lho disse. Se lhe apraz, pode tirar-ma neste momento, que não levantarei
a mão para defendê-la, nem a voz para queixar-me. Essa ordem,
porém, que vossa senhoria quer dar-me, se meu pai ressuscitasse para
mandar-me cumprí-la, eu lhe diria: não! Rogo-lhe, pois, pelo
que tem de mais caro, que não exija de mim semelhante sacrifício,
para não me colocar na dura necessidade de o recusar.

— Atreve-se a desobedecer-nos? disse Campelo, contendo a borrasca prestes
a desabar.

— Se vossa senhoria obrigar-me.

— Pois manda-lhe o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo
que vá imediatamente buscar o velho Jó e trazê-lo aquí
à nossa presença.

O velho proferiu estas palavras com a solenidade de que êle costumava
revestir-se nas ocasiões graves, e com o olhar que fazia tremer a vista
aos mais valentes.

Arnaldo, em cujo semblante perpassou uma sombra de melancolia, levantou a
cabeça e cruzou o olhar sereno com o irado lampejo do velho:

— Ao sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, digo-lhe
eu, Arnaldo Louredo, que não!

O fazendeiro estendeu a mão para travar do braço do mancebo;
porém êste retraiu-se de um salto e colocou-se em distância.

— Como amigo, podia fazer de mim o que bem quisesse. À força,
não!

Foi então que a ira terrível do velho fez explosão,
estalando como a cratera de um rochedo vulcânico ao arremessar a lava.

— Agrela!

Êste brado que êle repetiu três vezes uma sôbre outra
abalou os ares, estremecendo a casa e reboando pelos ecos da montanha.

O ajudante, que já vinha aproximando-se, acudiu e o terreiro encheu-se
de homens d’armas, trabalhadores e escravos, que haviam corrido ao brado
do fazendeiro. Todos a oiticica.

— Agarre-me êste atrevido! gritou Campelo ao Agrela que saía
a seu encontro. Que é de?

Ao voltar-se o capitão-mór não vira mais Arnaldo e debalde
buscou-o com a vista.

— Eu o vi, acudiu Agrela, perto dêste banco.

— Onde mete-se então?

— Daquí não saíu, que também nós
o enxergámos alí, e ninguém o viu passar, observou Manuel
Abreu.

— Procurem-no! bradou novamente Campelo, em um segundo acesso de cólera.

Arnaldo tinha-se efetivamente sumido, e de uma maneira incompreensível.
Visto por todos que haviam primeiro acorrido e que asseguravam ainda tê-lo
encontrado no terreiro, desaparecera de repente como uma sombra que se houvesse
dissipado.

Entre os que se cansavam na pesquisa estava o João Coité que
disse com um ar triunfante:

— Não querem acabar de convencer-se que o capeta do rapaz é
feiticeiro!

Já a êsse tempo haviam saído ao terreiro D. Genoveva
e a filha, inquietas pela irritação do fazendeiro, cuja causa
vieram a saber alí, e muito as penalizou, principalmente pela razão
da Justa.

Nenhuma delas, porém, se animava naquele momento a falar ao capitão-mór
que passeava de um para outro lado, pensando no desaparecimento de Arnaldo.

Veio Agrela comunicar a inutilidade da pesquisa.

— Êle não está aquí e também não
saíu, porque além de não o ter ninguém visto fugir,
não há rasto nem vestígio de sua passagem.

O terceiro acesso e ira foi ainda mais terrível que os outros:

— Pois vão desencová-lo ainda que seja no inferno e tragam-no
vivo ou morto. O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo não
seja dono da Oiticica, nem pise mais a soleira de sua porta, se…

Não acabou o velho de proferir o formidável juramento, que
fez tremer quantos o escutavam. D. Flor alçando-se para cingir o pescoço
do pai, com a mão mimosa fechou-lhe a bôca murmurando-lhe ao
ouvido:

— Por sua filha, que bebeu o mesmo leite que êle, não
jure, meu pai.

O velho quedou-se um instante, ao cabo do qual travando a mão de D.
Flor caminhou com ela para a casa. Chegado a um aposento interior onde ninguém
o podia ver, desabafou sua ternura pousando-lhe na face um beijo. Depois vieram
ao encontro de D. Genoveva, que os chamava para o almôço.

Não tardou que aparecesse a Justa, aflita com o que tinha acontecido
e ainda mais com as consequências que daí podiam resultar. Faltando-lhe
o ânimo para aparecer naquela ocasião ao capitão-mór,
esperou que saíssem da mesa.

— Que foi o que aconteceu, meu Jesús de minha alma? disse a
sertaneja, correndo para D. Flor. Não foi senão castigo, minha
filha.

— Castigo de que, mamãe Justa?

— Do pecado da soberba em que ei caí esta manhã enchendo-me
daquele filho e da proteção de Nossa Senhora da Penha de França.
Nunca a gente se deve gabar do favor de Deus e dos Santos; mas deve-se fazer
ainda mais humilde para merecer a sua graça. Foi o que me ensinou o
sr. padre Teles e eu não fiz caso, para agora ser bem castigada.

— Quem pecou por soberba não foi você, Justa, mas seu
filho que chegou a desobedecer ao sr. Campelo, coisa que até hoje nunca
se tinha visto nesta fazenda, disse D. Genoveva.

— Como isto foi, minha Mãe Santíssima, é que eu
ainda não sei! Êle que adora o sr. capitão-mór,
e daria a vida para serví-lo, como é que havia de faltar-lhe
com o respeito? Só se foi alguma tentação do Inimigo!

— Ou estouvamento de rapaz, que é o mais certp, tornou D. Genoveva.

— Arnaldo sempre foi de gênio arrebatado, disse D. Flor; mas
são uns ímpetos que passam logo, porque êle tem bom coração.

— E agora, senhora dona, o que vai ser de meu filho, se não
me valer com sua intercessão e mais a de meu querubim.

— O sr. Campelo, você bem sabe, Justa, quando diz uma coisa há
de se fazer por fôrça: ninguém o arreda dalí. O
melhor é você ir ter com seu filho e trazê-lo à
presença do meu marido para pedir perdão da desobediência
e cumprir com o que êle mandar. Assim conte que não lhe acontece
nada, porque êle era muito amigo do defunto Louredo e também
de seu pai.

— Pois eu vou fazer o que me diz a senhora dona. Agora onde o acharei,
a êsse filho de meus pecados?

D. Flor sorriu-se.

— Mande mamãe bebé procurá-lo, que ela dá
com êle.

— É mesmo!

Foi-se a Justa. D. Genoveva tornou às lidas da casa, que depois de
tão longa ausência reclamava mais que nunca o seu govêrno,
para voltar ao arranjo e ordem em que ela costumava trazê-la.

Flor tinha destinado essa manhã para abrir seus baús e tirar
os enfeites e galantarias de que a tinham acumulado, durante a estada no Recife,
a ternura de sua mãe e a generosidade do pai.

Para ajudá-la nessa tarefa e gozar do prazer de admirar aquelas bonitas
coisas, chamou Alina; e ambas dirigiram-se à direita do edifício,
onde ficavam seus aposentos.

Havia de ser então mais de nove horas da manhã. O sol, ainda
ardentíssimo a-pesar-dos anúncios do inverno, dardejava no céu
do mais puro azul, em cuja imensidade não se descobria nem um esgarço
de nuvem ou tênue vapor. Majestosa serenidade do clima tropical, em
que aliás se ostenta a pujança dessa natureza em repouso, e
se pressente a violência de suas comoções, quando percutida
pela tempestade.

Já a alegria e animação que sempre traz a manhã
nessa estação ardente, ia-se dissipando; e começava a
calma da soalheira, que infunde no sertão indefinível melancolia.

XV – A cavalhada

O camarim ricamente alcatifado à moda do tempo era esclarecido por
uma janela que abria para o terreiro, e da qual se descortinava ao longe a
mata a cingir as faldas da serra.

As duas moças, reunindo as fôrças e galhofando da própria
fraqueza, tinham conseguido, depois de muitas risadas, arrastar para o meio
da casa um baú da Índia, coberto de marroquim amarelo e cravejado
de tachas de prata.

Aberto o cadeado e virada a tampa, D. Flor sentou-se à frente em um
estradinho baixo forrado de veludo, e Alina ajoelhou-se ao lado com os olhos
cheios de prazer e curiosidade.

DA mesma idade que a filha do capitão-mór, e também
formosa, tinha essa moça o tipo inteiramente diverso. Era loura, de
olhos azues, e corada como uma filha das névoas boreais.

Foi ela talvez um dos primeiros frutos dessa anomalia climatológica
do sertão de Quixeramobim onde, sob as mesmas condições
atmosféricas, se observa com frequência e especialmente nas moças,
aquela notável aberração do tipo cearense, em tudo mais
conforme à influência tropical.

Alina era filha de um parente remoto de D. Genoveva. Ficando órfã
em tenra idade, o capitão-mór, a pedido da mulher, a tinha recolhido
com a mãe viúva, prometendo educá-la e arranjá-la.

A primeira parte dessa promessa o fazendeiro já a tinha cumprido,
repartindo com a órfã a mesma educação que dera
à sua filha querida. Quanto ao resto havia quem afirmasse que êle
destinava Alina para o Arnaldo, e só esperava que a moça comletasse
os dezoito anos.

D. Flor tirou de dentro do baú galantarias de toda a sorte, das mais
finas e custosas que então se vendiam nas lojas e tendas do Recife,
onde ainda se mantinham os hábitos de luxo oriental com que as colônias
do Brasil ofuscavam a metrópole.

Alina soltando gritozinhos de prazer, não achava expressões
para manifestar sua admiração; com os olhos e a alma cativos
do objeto que D. Flor lhe havia passado, deixava-se ficar em êxtase,
até que outra louçainha a vinha disputar por sua vez.

Já a tampa do baú estava cheia de estofos que Alina aí
fôra arrumando, depois de os admirar, quando D. Flor, encontrando uma
comprida caixa coberta de primavera e que procurava, ergueu-se com ela.

— E êste vestido, Alina? Quero saber o seu gôsto.

D. Flor tirara de dentro da caixa uma peça de escarlatim, e desdobrando
o lindo estôfo de sêda arrugou-o com a mãozinha faceira,
e deixou-o cair da cintura como o fôlho de uma saia.

— Que maravilha, Flor! exclamou a órfã cruzando as mãos.

— Quanto mais quando estiver no corpinho gentil de certa pessoa que
eu conheço!

— Não é seu? perguntou Alina pesarosa.

— Em mim não ficaria tão bem como na dona. Quer vewr?

D. Flor levou Alina surpresa diante do tremó e aí envolveu-a
nas dobras do estôfo carmesim.

— É para mim, Flor?

— E para quem mais podia ser, menina? Cuidou então que todo
êste tempo, no meio de tantas festas, não me tinha lembrado de
si, ingrata?

— O bem que você me quer, Flor, eu sei; mas eu é que não
mereço estas lindezas.

— Merece meu coração que é maior preciosidade
do que todas as galas do mundo, respondeu D. Flor sorrindo-se.

As duas amigas e companheiras de infância abraçaram-se com efusão
e encheram-se mutuamente de carícias. Quando acabaram de desafogar
sua ternura, a filha do fazendeiro tornou ao baú, deixando a outra
ainda em contemplação diante do estôfo de sêda desdobrado
sôbre o tremó.

Não era admiração unicamente o que sentia Alina: era
quase adoração, inspirada pela linda tela, em cujo brilhante
matiz revia porventura naquele instante o resplendor dos sonhos de sua imaginação.

— Está vendo êste listão, Alina? disse D. Flor,
voltando-se para mostrar o objeto.

— Como é bonito!

— Fica-me bem?

— Fica uma jóia. Com ela você parece uma princesa encantada,
Flor.

Alina tinha razão. A faixa de chamalote azul que a moça acabava
de passar a tiracolo, prendendo-a ao ombro direito com o broche de ouro, dava
ao seu talhe airoso um porte regíneo.

— Já leu? perguntou D. Flor mostrando com a ponta do dedo as
letras bordadas na fita.

— À mais formosa, disse Alina soletrando.

Êsse era efetivamente o dístico lavrado a fio de ouro em uma
e outra banda da faixa de chamalote.

— Foi uma sorte da cavalhada, disse a moça.

— Conte, Flor.

As duas meninas acomodaram-se nos poiais da janela.

— De todas as festas que vi no Recife, as mais luzidas foram as que
se deram em regozijo pela chegada do novo governador D. Antônio de Menezes,
com de de Vila Flor.

— Você viu o conde, Flor? Que homem é? perguntou a linda
sertaneja, para quem ver um conde era quase ver o rei.

— Um fidalgo de nobre parecer, como meu pai. Fizeram-se muitos folguedos
e aparatos em honra sua; nenhum, porém, como a cavalhada. Foi mesmo
no largo do Palácio. Armaram uns palanques muitos vistosos com seus
toldos de sêdas amarelas e carmesins, em redor da teia guarnecida de
arcos e galhardetes de todas as côres.

— Como havia de estar chibante!

— Muitas donas, já se sabe, e as filhas todas com suas galas
mais ricas…

— Mas a formosura era você, Flor, que enfeitiçou com êsses
olhos todos os cavalheiros, e até príncipes que lá houvesse.

— Deixe-me contar, menina, observou D. Flor com um gracioso amuo: senão
acabou-se a história.

— Estou ouvindo, princesa.

— Já os palanques estavam apinhados de damas e cavalheiros,
quando chegou o conde governador, que deu o sinal para começaram os
jogos. Então entraram, cada uma de seu lado, duas quadrilhas adereçadas
com roupas muito lindas, uma de verde e amarelo, que era a dos pernambucanos,
e outra de encarnado e branco, que era a dos lusitanos. Correram primeiro
as lanças; depois jogaram as canas e alcanzias, fazendo várias
sortres como costumam.

— Assim não vale, Flor; deve contar tudo como foi.

— Não se lembra você, Alina, das cavalhadas que se deram,
fazem dois anos, no Icó, por ocasião da festa? Pois foi a mesma
coisa, só com a diferença que lá no Recife eram mais
ricas, e os cavalheiros tinham outro garbo e gentileza.

— Mas qual das duas quadrilhas ganhou? Você não disse.

— A pernambucana, menina; não tinha que ver. Mas a outra disputou-lhe
a palma com muita galhardia, que a todos mereceu grandes louvores. Veio depois
o jôgo das argolinhas e então os cavalheiros reunidos em uma
só banda correram três vezes. Eu recebí um anel que me
ofertou na ponta de sua lança um dos vencedores…

— Gentil cavalheiro? perguntou Alina vivamente.

— Dos mais guapos que lá se apresentaram. Meu pai veio a saber
que era o capitão Marcos Fragoso, filho do coronel Fragoso, que foi
nosso vizinho.

— O dono da fazenda do Bargado. Mas o filho não mora aí.

— Não; tem outras fazendas para as bandas do Inhamuns; mas parece
que vive mais no Recife.

— E a argola que êle ofereceu-lhe foi esta, Flor? perguntou Alina,
mostrando um aro de ouro preso ao atacador de listão.

— Esta? respondeu a moça faceiramente. Esta é outra história.
Foi um caso que a todos admirou.

— Na cavalhada mesmo?

— Sim; foi a última sorte. Num mastro que estava erguido para
êsse fim no meio da praça, suspenderam de um fio de sêda
êste argolão de ouro, com as fitas a voar como se fossem galhardetes.
Era o prêmio mais invejado por todos os cavalheiros para terem o orgulho
de o ofertar à dama de seus pensamentos e porisso também a proeza
demandava maior esfôrço e destreza, pois além de ficar
o argolão muito alto, com o tremular das fitas sopradas pelo vento
estava em constante agitação.

— E eu já sei quem ganhou! disse Alina.

— Sabe você mais do que eu, menina.

— Como então?

— Escute. Os cavalheiros armaram-se de umas lanças finas, muito
compridas para poderem chegar ao tope do mastro, e ainda assim era preciso
que se erguessem sôbre os estribos para alcançar o alvo. Da primeira
investida nenhum tocou na argola, nem da segunda: e de ambas ela, muitos dos
campeões no ímpeto de mostrar sua proeza, levantaram-se tanto
dos arções, que rolaram em terra.

— Coitados! disse Alina a rir.

— Na terceira investida poucos restavam; e dentre êstes, o mais
esforçado e brioso era o capitão Marcos Fragoso…

— Eu já esperava!

— Por que menina?

— Pois não foi êle que primeiro lhe ofereceu a argolinha?

— Que tem isso?

— Tem que o cavalheiro de D. Flor por fôrça que havia
de ser o mais brioso e esforçado de quantos lá estavam.

— E se fossem dois os meus cavalheiros?

— Devéras?…

— Foi o que aconteceu. O Marcos Fragoso que ia na frente, com um bote
certeiro enfiou o argolão na ponta da lança.

— Bravo!

— Mas ao mesmo tempo outro cavalheiro que vinha contra êle à
disparada, também com a lança em riste, enfiava o argolão
pelo outro lado, de modo que os dois ferros ficaram atravessados em cruz.

— E êsse cavalheiro, quem era?

— Não se soube. Via-se que não era dos campeões,
pois estava com trajo de cidade; e além disso tinha a cara amarrada
com um lenço que lha cobria toda, deixando apenas a descoberto os olhos,
por baixo da aba do chapéu.

— Que bioco!

— Houve quem visse o embuçado sair do meio do povo, pular na
teia, apanhar a lança no chão, saltar na sela de um cavalo desmontado
que passava, e correr sôbre o mastro, onde chegou justo no momento em
que o Fragoso ia tirar o argolão, e para lho disputar.

— E o que sucedeu?

— Os dois campeões forcejaram cada um de seu lado para arrancar
o argolão, mas não o conseguiram. Foi então que o desconhecido
correu sôbre o seu contrário e arrebatou-lhe a lança da
mão. Todos aplaudiram a façanha, menos o Fragoso que ficou passado
no meio da praça, enquanto o vencedor, chegando ao palanque onde eu
estava apresentou-me o argolão na ponta das duas lanças, repetindo
– «À mais formosa».

— E você, Flor, o que fez?

— Eu, menina, não sabia o que fizesse de contente e ao mesmo
tempo acanhada que fiquei, vendo todos os olhos fitos em mim. Foi minha tia
D. Catarina, que recebendo o listão o passou pelo meu ombro, com o
que redobraram os aplausos à proeza do desconhecido. E acabou-se a
história; que eu não vi mais nada, nem dei por mim dêsse
momento em diante até que tornámos à casa.

— E o desconhecido?

— Ouví depois que desaparecera assim como viera, de repente,
antes que o pudessem descobrir; e não se soube mais dele.

— Mas você não desconfiou quem seria? Pois pelo modo parece
que era pessoa conhecida.

— Quem podia ser, menina? E como havia eu de suspeitar?

— Pela voz. Êle não lhe falou?

— Três palavras.

— Pelo jeito do corpo, e modo por que montava a cavalo. Não
reparou?

— Naquele instante, entretida como estava com a festa, não me
lembrava de mais nada.

Alina calou-se um instante sob a preocupação da idéia
que lhe acudira ao espírito, e depois inclinou-se para falar à
companheira com a voz submissa e tímida expressão.

— Não se parecia com Arnaldo?

— Quem, Alina? O embuçado?

Alina confirmou com um gesto.

— Que lembrança! tornou D. Flor com surpresa.

— É porque você não sabe que Arnaldo desapareceu
da fazenda no mesmo dia em que o senhor capitão-mór partiu.

— Sei, que já me contou mamãe Justa. Arnaldo foi à
Serra Grande atrás de uns barbatões.

— Isto é o que êle diz.

— Mas, menina, que razão tinha êle para esconder-se?

— Não sei, Flor, respondeu Alina esquivamente.

A filha do capitão-mór não insistiu, e divagando os
olhos pela floresta, ficou pensativa, enquanto Alina inclinando a fronte absorvia-se
também de seu lado em íntimas reflexões.

XVI – O vizinho

Um tropel de animais que ressoou perto de casa tirou as duas meninas de sua
distração.

Ambas, impelidas por igual movimento de curiosidade, debruçaram-se
à janela e retrairem-se tomadas de surpresa pelo que viram.

Luzida quadrilha de cavaleiros acompanhados de seus pagens acabava de parar
no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala
que então usavam, ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes
posses.

O Agrela, que fôra prevenido da aproximação dos forasteiros
desde que de longe os tinham avistado, saíra a recebê-los.

— Olhe, Alina, aquele mais alto, que tem a casaca de sêda açafroada.
Sabe quem é?

— O Fragosos, de quem você falava pouco há?

— Êle mesmo.

— É um galante fidalgo.

Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéu
profunda saudação a D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se
da janela.

— Que virá êle fazer à Oiticica? perguntou ingenuamente
a filha do fazendeiro à sua camarada.

— Não adivinha, Flor? disse Alina sorrindo.

— Eu não, menina.

— Dí-lo a cantiga.

Saudades que me deixaste,
Saudades me levarão.
Aonde foram-se os olhos,
Vai após meu coração.

D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou à meia voz com ar malicioso,
correu a ela para fazer-lhe cócegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram
ambas a rir da mútua travessura.

Entretanto o capitão-mór Campelo, saindo ao patamar, convidava
os hóspedes a entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de
sêda côr de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas
palavras:

— O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado
com êrstes amigos que lhe fizeram o obséquio de sua companhia,
não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar à cortesia
de saudar o sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, como
vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso.

— O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre
bem vindos à nossa casa, e nos darão prazer se quiserem receber
o agasalho que lhe oferecemos de boa vontade.

— Era nossa intenção pedí-lo, para refrescar da
calma; epois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a
nossa comitiva, da qual nos separámos pouco há na encruzilhada.

Entrados na sala, o Marcos Fragosodesignou ao capitão-mór seus
amigos cada um por seu nome e indicações:

— Êste amigo é o capitão João Correia, do
têrço do Recife; estoutro é o licenciado Manuel da Ailva
Ourém, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões;
aquele é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns,
ambos meus parentes e vizinhos.

— Estão todos em sua casa, disse o capitão-mór,
convidando-os a sentarem-se.

Depois de alguns cumprimentos dos recém-chegados e encarecimentos
das excelências, granjeio das terras e boa casaria, o capitão-mór
disse, retribuindo a cortesia:

— Vão os senhores ver também a fazenda do Bargado que
é das mais belas dêste Quixeramobim. No tempo em que alí
morava o finado coronel Fragoso, poucos podiam competir com ela; mas depois
que êle morreu tem estado ao desamparo. O sr. capitão Marcos
não quis ser nosso vizinho como foi seu pai; os mancebos gostam mais
da praça; não há que estranhar.

— Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mór;
mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que
são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado.

— E tinha razão.

— Não digo o contrário; foi êle de natural reconcentrado
e amigo da solidão.

— Isso era. Em tantos anos que tivemos de vizinhança receberíamos
dele três visitas, se tantas, observou Campelo.

— Eu que alí me criei nunca vim a Oiticica, porque êle
não gostava de trato e comunicações que o tirassem de
seus hábitos sertanejos.

— E como consumia o tempo neste deserto? perguntou o licenciado Ourém.

— Quanto a isto não falta em que ocupar-se um homem ativo, acudiu
o Daniel Ferro.

— Basta a labutação da fazenda, acrescentou o capitão
Fragoso. Se não acredita, Ourém, eu o emprazo para Bargado.

Voltando-se depois para o capitão-mór prosseguiu:

— Sabendo do desamparo em que vai a minha fazenda resolví passar
aí o inverno e vim com êstes amigos assistir às vaquejadas.
Durante a minha estada conto prover o necessário, para tornar o Bargado
ao estado próspero em que o deixou meu pai, que não é
de razão se perca tão rica herdade.

Na continuação da prática veio a falar-se do Recife
e das festas que houve pela chegada do Conde de Vila Flor:

— Nunca mais se descobriu quem foi aquele embuçado que se intrometeu
no jôgo da argolinha? perguntou o capitão-mór.

— Oh! Êle terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois
sabe quanto lhe sairia cara a graça! redarguiu Marcos Fragoso com arrogância
de voz que mal encobria o vexame produzido pela alusão.

— Aquilo foi uma surpresa vil, acudiu o Ourém em abono do amigo.
Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar
o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para
maiores façanhas.

— Todos nós sabemos que é; mas também que o outro,
o embuçado, não lhe fica após disso, não há
quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como êle o praticou,
surdindo num relance não se sabe donde, e arremetendo como um raio,
não é proeza para qualquer.

Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que a-pesar-de
amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos
Fragoso.

— Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro,
sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora.

— E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens
para medir peças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos
de outras eras? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou
algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança
um cavalheiro à disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar
um touro bravo na ponta da aguilhada.

— Lá isso é verdade, acudiu o João Correia.

— Certo que é; mas não se medem proezas de cavalheiros
com agilidades de peôes, tornou o Fragoso, e continuou voltando-se para
o capitão-mór com ar prazenteiro. O atrevimento do vilão
não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda à pessoa
a quem a destinei desde o princípio da cavalhada; e não foi
senão o mêdo do castigo que o moveu a amparar-se com a boa sombra
da sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrêla.

Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista
para as portas interiores, com o sentido de surpreender por alguma fresta
os olhos curiosos que porventura dalí estivessem espreitando.

Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janelas gradeadas
como o locutório dos conventos, e de que ainda se encontraram amostras
nas casas construídas pela gente abastada até princípios
dêste século.

Êsse crivo miudíssimo, tecido de rótulas delgadas, servia
para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hóspede
a vista do interior, mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o
que ia pela sala.

Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa
semelhança com os conventos, quando o teor da vida íntima tanto
se parecia com a regra monástica, e as mulheres tinham no seio da família
o mesmo recato das freiras.

Pareceu a Marcos Fragoso que por detrás da primeira das rótulas
se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir êle as
últimas palavras se agitaram para logo dissiparem-se.

Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e porisso lhe
dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso.

Não se enganara Marcos Fragoso. Eram efetivamente D. Flor e Alina
que tinham vindo espreitar os hóspedes pela rótula, não
sótrazidas de impulso próprio, como também a recado de
D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual o motivo
os trazia à Oiticica.

Era costume de casa, e não só desta como de todas as grandes
fazendas, não deixar partir os hóspedes sem os regalar; e isso
usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação
dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto
com que se tratavam.

Não perdiam ocasião de fazer alarde da suntuosa baixela de
ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade
de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palácio.

Logo que o capitão-mór saíu a receber com mostras corteses
os hóspedes, D. Genoveva ordenou os aprestos necessários para
regalo, o qual em poucos instantes, e como por arte mágica, estava
servido sôbre uma mesa coberta de tão ricas alfaias que lembravam
os banquetes das Mil e uma noites.

— Chame o sr. capitão-mór, disse D. Genoveva a um criado.

Êste foi à porta da sala, abriu-a de par em par, e disse perfilando-se:

— Está na mesa.

O capitão-mór fez com a cabeça um gesto afirmativo que
significava estar ciente, e voltou-se para os hóspedes:

— O senhor capitão Marcos Fragoso e seus amigos sem dúvida
dão-nos o gôsto de jantar na Oiticica; mas enquanto não
chega a hora, vamos tomar algum refrêsco.

— Se nos dá licença, ficámos de jantar no Bargado
onde nos esperam, tornou o capitão Fragoso, que não queria abusar
da hospitalidade, talvez para melhor usar dela mais tarde.

— Como queiram; não deixarão, porém, nossa casa
sem bebermos um copo em honra da visita com que nos obsequiaram.

— Certamente que não faltaremos a tão grato dever.

À mesa não apareceram nem D. Genoveva, nem as duas moças.
O capitão-mór unicamente, acompanahdo de seu ajudante Agrela
e de seu capelão, padre Teles, fez as honras do banquete.

Era meio-dia, quando os viajantes despediram-se do capitão-mór
Campelo, depois de agradecerem a fidalga hospitalidade que tinham recebido.
Montando a-cavalo partiram, seguidos pelos pagens.

Quando transpunham o terreiro, ao capitão Fragoso voltou-se de chofre
e logrou seu intuito surpreendendo na janela as duas moças que estavam
a espiar a cavalgada. O mancebo inclinou-se, cortejando-as com o chapéu.

Enquanto D. Flor respondia ao cortejo com polido recato, Alina, que se esquivara
vergonhosa, avistou de repente entre a ramagem das árvores, o vulto
de Arnaldo, cujas feições tinham nesse momento sinistra expressão.

O sertanejo, do lugar sobranceiro em que se achava, de pé sôbre
a carcaça de um velho angico derrubado, fitava o olhar cheio de ameaças
no capitão Marcos Fragoso. Quando o raio dêsse olhar perpassou
pela janela, a moça estremeceu de terror, e não pôde conter
um débil grito, que rompeu-lhe do seio.

— Que é? perguntou D. Flor voltando-se.

— Não é nada. Um susto à-toa.

— De que?

— Nem eu sei. Alí no mato…

— Alguma onça, como esta manhâ?

— Sim: creio que foi.

Entretanto a cavalgada descia a encosta e desaparecia na volta do caminho.

Arnaldo viu-a passar imóvel, mas abalado por ardente emoção.
Depois que perdeu de vista os cavalheiros, aplicou o ouvido aos rumores que
ia levantando pelo caminho o tropel dos animais. Sua alma arrastada por uma
cadeia misteriosa acompanhava aquele homem que viera perturbar-lhe a existência,
e não podia desprender-se do elo a que estava soldada para sempre.

Quando afinal apagou-se o último ruído da cavalgada, Arnaldo
vergou a cabeça ao peito e assim permaneceu longo trato, imerso em
tristeza profunda e acabrunhado por uma dôr imensa, como nunca sentira.

XVII – A jura

Absorto como estava, o sertanejo afastou-se maquinalmente da casa, na direção
da serra.

Não tinha conciência do que se passava em tôrno de si;
não via os objetos que o rodeavam, nem ouvia os rumores da solidão;
mas guiava-o através da floresta o admirável instinto do filho
das brenhas, êsse sentido delicadíssimo que vela sempre e adverte
ao vaqueano da aproximação do perigo, antes que os outros órgãos
possam denunciá-lo.

A-pesar-de inteiramente alheio a si, o mancebo caminhava com extrema cautela
por entre o mato, como quem, receoso da batida ordenada pelo capitão-mór,
tratava de escapar-lhe.

Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão
da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares,
o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em
si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma
entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade.

Ao passo que o mancebo vagava por entre a espessura, seu espírito
debatia-se no turbilhão de sensações que o assaltara.
Debalde tentou destacar uma idéia dêsse caos e refletir sôbre
o acontecimento, que lhe subvertera a existência. Como uma fôlha
convolta pelo remoinho de vento, sua mente era arrastada por um tropel de
impressões a que não podia subtrair-se.

Foi quando serenou êsse primeiro alvorôço, que seu pensamento
desprendeu-se, mas ainda confuso e desordenado. Tinha êle parado em
frente de um arbusto morto e olhava-o com expressão compassiva.

— Eu era como êsse angelim, que nasceu no outro inverno. Quando
êle crescia e copava, não sabia que a sêca havia de chegar
e despí-lo das fôlhas, matando-lhe a raiz. Como êle, eu
não vi a desventura que vinha roubar-me toda a minha alegria!…

Cego que eu fui!… Pensei que êste doce engano havia de durar
sempre, sempre!…

Ao redor de mim tudo mudava. Os grelos que brotaram quando vim ao mundo,
já estão árvores da mata. Os garraios de meu tempo ficaram
touros e morreram de velhice. Os poldrinhos com que eu brincava em menino
cansaram de campear.

As bezerrinhas do ano em que saí a vaquejar com meu pai tornaram-se
novilhas e delas nasceram outras, que produziram todo gado novo.

As ramas do maracujá que rebentam com as primeiras águas cobrem-se
de flores; das flores saem os frutos que espalham na terra as sementes e das
sementes brotam novas ramas, que por sua vez cobrem-se de flores até
que murcham e secam.

Tudo muda. Passam os anos e levam a vida. Mas ela, Flor, eu acreditava que
havia de ser sempre a mesma, sempre solitária e sempre donzela, como
a lua no céu, como a Virgem em seu altar. Eu a adoraria eternamente
assim, no seu resplendor; e não queria outra felicidade senão
essa de viver de sua imagem. Nenhum homem a possuiria jamais. Deus não
a chamava a si, e a deixava no mundo unicamente para mim.

Um riso amargurado cortou-lhe a meditação.

— E de repente apagou-se o encanto! Flor tem dezenove anos. Sua mãe
casou-se dessa idade, e há de estar pensando no enxoval da filha. Noivos
não faltam. Já apareceu o primeiro, êsse capitão
Marcos Fragoso. É moço, bem parecido, rico e fidalgo, pode agradar-lhe,
e…

Arnaldo estremeceu ante o pensamento que despontava, e arredou o espírito
dessa idéia que incutia-lhe horror.

— Já uma vez, prosseguiu êle, tinha-me enganado. Quando
brincávamos juntos, cuidava que havíamos de ser meninos toda
a vida; que eu poderia sempre carregá-la em meus braços; e ela
nunca me veria triste, que não me abraçasse. E um dia ficou
moça; e eu, que era seu camarada, não fui mais senão
um agregado da fazenda!…

Mas então ninguém veio roubá-la à casa onde nasceu,
e a êstes campos que nos viram crescer juntos. Eu a via a todas as horas
e podia adorá-la de longe, como a santa da minha alma. Agora?…
Vai casar-se; um homem será seu marido! E ela deixará de existir
para mim! E eu não verei mais o anjo do céu que me consolava?

Arnaldo retraiu-se como quem concentra as fôrças para soltá-las
de arremêsso.

— Não! exclamou êle com um gesto enérgico. Flor
não pertencerá a nenhum homem na terra. Ainda que seja à
custa de minha salvação eterna!

Proferida esta surda exclamação, arrojou-se pelo mato e momentos
depois surdia na entrada da caverna, para onde quatro dias antes havia transportado
o velho Jó.

Sentado em uma saliência do rochedo, com o corpo imóvel e hirto,
com as pernas dobradas e estreitamente unidas ao peito, com os cotovelos fincados
nos joelhos e a cabeça inserida entre os dois braços, o ancião
parecia uma múmia indígena arrancada a seu camucim e alí
esquecida.

Entretanto seu espírito andava longe, lá fora da caverna, perscrutando
o que se passava. Nenhum rumor soava na floresta, que seu ouvido atento não
distinguisse para determinar-lhe a causa e conhecer, se era a queda de um
fruto, a passagem de um animal, ou o farfalhar da brisa.

Êle percebera aos primeiros ruídos a aproximação
do sertanejo, e o reconhecera antes que penetrasse na caverna. De um relance
leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas extáticas se movessem
nas órbitas.

Arnaldo parou na entrada, com os olhos fitos no velho: seu gesto denunciava
uma hesitação rara em tão decidido caráter. Jó
esperava que êle falasse.

— Vieste confiar-me um segrêdo, filho; eu escuto, disse afinal
o velho.

— Vim para ver-te, Jó… respondeu o mancebo com uma reticência.

— Eu conheço os pensamentos dos homens, como tu, filho, conheces
as manhas do gado barbatão. Teu passo era de quem vinha impaciente
de chegar; e o motivo que te trazia assim pressuroso está aí
dentro, e tu o escondes. Já duas vezes te veio aos lábios.

Não surpreendeu a Arnaldo essa admirável sagacidade a que estava
habituado, pois ao velho devia êle em grande parte a perspicácia
de que era dotado.

— Queres saber o que me trouxe? Eu te digo.

Arnaldo aproximou-se do velho e pôs-lhe a mão no ombro:

— Tu que viveste longos anos, e conheces todos os segredos dos homens,
deves saber também o que eu desejo.

— Fala; tudo quanto a desgraça ensina ao pecador, eu o sei.

— Se um homem quiser roubar-me o bem que me pertence, e que faz toda
a minha felicidade, posso matá-lo, sem tornar-me assassino?

O velho Jó ergueu-se de chofre e completamente transfigurado. As cãs
erriçaram-se no crânio e os olhos saltaram-lhe das órbitas.

— Por ouro, filho, não derrames nem uma gota de sangue de teu
irmão; porque essa gota basta paramanchar todo o tesouro e torná-lo
maldito.

Travando das mãos do mancebo e conchegando-o a si, o velho prosseguiu:

— Não sabes o que é o ouro, filho? Oh! eu sei, que m’o
ensinou o demônio da cobiça. É o sangue derramado as mãos
do homem. Porisso os alquimistas para fazer ouro ferviam sangue numa caldeira;
mas êles não o tinham bastante, porque é preciso muito,
muito sangue, para dar um queijo de ouro!…

Jó soltou uma risada alvar e continuou a desarrazoar; mas as palavras
rompiam-lhe dos lábios roucas e desconexas, de modo que já não
era possível distinguí-las, nem compreender-lhes o sentido.

Arnaldo estava afeito a êstes acessos, pois não mostrou o menor
abalo; e acompanhando os gestos do velho com um olhar de comiseração,
esperou que findasse o desordenado e soturno monólogo.

Efetivamente foi Jó serenando e tornou à posição
anterior, mas para sossobrar no abismo de recordações, que se
abrira nas profundezas de sua alma.

— Jó! disse Arnaldo com império.

O velho ergueu a cabeça e fitou no mancebo a pupila baça, como
um homem que emergiu das trevas.

— Jó! Queres ouvir?

— Fala.

— Não é ouro, nem riquezas, que eu receio perder; é
outro bem e mais precioso.

— A tua alma? perguntou o velho cravando os olhos no mancebo.

— A minha alma, sim.

— Pecaste, filho?

— Não; minha mão está pura, mas duas vezes hoje
ela escapou de manchar-se no sangue de meu semelhante. Uma vez foi para defender
a vida do capitão-mór; devia ferir?

— Devias, filho. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

— A outra vez foi para defender-me a mim.

— Ameaçaram tua vida?

— Quiseram roubar-me o que mais amo neste mundo.

— Tua mãe?

— Não.

— Uma mulher?

— Sim.

— Os antigos cavalheiros tinham por timbre disputar a dama de seus
pensamentos nos torneios e desafios, e o vencedor recebia em prêmio
a mão da mais formosa. Êsses tempos vão longe; agora não
é mais com a espada e a lança que se rendem as donzelas.

— Em meu caso, tu que farias, Jó?

— Já não sou dêste mundo.

— Mas outrora? Foste moço um dia: teu coração
há de ter amado uma mulher; nesse tempo de tua mocidade, que farias?

— Não me perguntes, filho, que não me lembro mais do
que fui: pergunta a teu coração, que é moço e
vive; o meu está morto.

— Já perguntei; e êle respondeu-me.

— O que, filho?

— Não te direi, não; nem a mim mesmo eu tenho coragem
de repetí-lo.

— Pensa em tua alma, Arnaldo.

— O que é minha alma sem a sua adoração, Jó?

Arnaldo demorou-se na caverna até a tarde, quando despediu-se do velho
e ganhou a mata.

A essa hora já os acostados da fazenda que o capitão-mór
enviara à sua procura, desenganados de encontrá-lo, ou tinham
voltado à casa ou andavam longe a bater o mato. Não obstante,
êle aplicou o sentido, para verificar se não havia coisa suspeita.

Percebeu então um rumor cadente que se aproximava como o som rijo
e breve da pata de um animal no solo duro. Arnaldo conheceu quem era que o
procurava e atinou com o motivo:

— É a mãe que soube e afligiu-se.

Tinha parado à espera. Com pouco surdiu dentre a ramagem a comadre,
que chegando perto de seu filho de leite, levantou a pata dianteira para acariciá-lo;
depois do que fitando nele os olhos, voltou a cabeça para trás
na direção donde viera.

— Já sei, respondeu o rapaz afagando o pescoço da cabra;
foi sua comadre que mandou chamar-me e aí vem. Não é?

Fazendo um aceno ao inteligente animal, Arnaldo foi ao encontro da mãe;
esta que vinha perto correu a abraçá-lo, apenas o avistou.

— Jesús! Filho de minha alma! Que foi isto com o sr. capitão-mór,
meu Deus? Uma coisa que nunca, nunca sucedeu, em dias de minha vida, nem de
teu pai, havia de suceder agora contigo, por minha desgraça! Tu perdeste
o teu bentinho? Não, aquí está. Então foi por
que te esqueceste de rezar?

— Quando menos se espera, vêm os dias maus, sem que se ofenda
a Deus. Nós vivíamos felizes há tanto tempo, mãe!

Arnaldo proferiu as últimas palavras com a voz comovida, e apoiou
a fronte na face da cabreira, que lhe tinha lançado os braços
ao pescoço para conchegá-lo a si.

— Graças à Virgem Santíssima, ainda se há
de remediar tudo. Tenho fé na minha Senhora da Penha, ela que sempre
me tem valido.

Ergueu Arnaldo a cabeça com gesto brusco e arrancou-se dos braços
da mãe, para aplicar toda atenção ao estrépito
que lhe ferira o ouvido. A mãe sorriu com disfarce.

— Flor? interrogou o sertanejo em tom submisso.

Justa afirmou com a cabeça.

XVIII – Desengano

Arnaldo traspassou com o olhar a espessura da folhagem que lhe ocultava a
formosura de D. Flor, e instintivamente retraiu-se com o enleio em que sempre
o lançava a presença da donzela.

Justa o deteve, segurando-lhe o braço e apontando para dentro do mato.

— Ela falou ao pai. O sr. capitão-mór, tu bem sabes,
não tem ânimo de recusar nada àquela filha, que é
a menina de seus olhos. Então prometeu que, se hoje mesmo voltares
arrependido à sua presença para suplicar o perdão de
tua falta, êle esquecerá tudo.

Arnaldo talhou a mãe com um gesto de enérgica repulsa:

— Não cometí nenhum crime para carecer de perdão,
mãe.

Justa denunciou no semblante a estranheza que lhe causavam as palavras do
filho:

— Pois não desobedeceste ao sr. capitão-mór, Arnaldo?

— Para desobedecer-lhe era preciso que êle tivesse o poder de
ordenar-me que fosse um vil; mas êsse poder, êle não o
possue, nem alguém neste mundo. O sr. capitão-mór exigiu
de mim que lhe entregasse Jó, e eu recusei.

— Mas, filho, o sr. capitão-mór não é o
dono da Oiticica? Não é êle quem manda em todo êste
sertão? Abaixo de El-rei que está lá na sua côrte,
todos devemos serví-lo e obedecer-lhe.

— Pergunte aos pássaros que andam nos ares, e às feras
que vivem nas matas, se conhecem algum senhor além de Deus? Eu sou
como êles, mãe.

— Tu és meu filho, Arnaldo. Lembra-te do que foi para teu pai
esta casa onde nasceste, e do que ainda é hoje para tua mãe.

— Os benefícios, eu os pagarei sendo preciso com a minha vida;
mas essa cida que me deu, mãe, se eu a vivesse sem honra, meu pai lá
do céu me retiraria sua bênção.

— Que vai ser de mim, Senhor Deus? exclamou a sertaneja na maior aflição.

— Sossegue, que nada há de acontecer. Tenho o meu bentinho,
continuou Arnaldo a sorrir e tocando no seu relicário: não há
mal que me entre, nem feitiço que me enguice. Adeus! De longe mesmo
guardarei àqueles a quem eu quero bem, ainda que êles me queiram
mal.

— Ouve, Arnaldo! disse a mãe buscando reter o filho. Eu te peço!

— Quando precisar de mim, mande sua comadre chamar-me.

— Não te vás, filho, que te perdes!

Justa enlaçou o colo do filho com os braços e exclamou voltando-se
para o mato.

— Flor, êle não me quer ouvir!

As fôlhas agitaram-se, e instantes depois surgiu da verde espessura,
como das cortinas de um dossel, o vulvo gracioso de D. Flor, com as faces
tocadas de leves rubores.

— Êle não quer ir, minha filha. Nem ao menos consente
que eu, sua mãe, lhe peça e rogue. Fecha-me a bôca, e
logo com o nome do pai. Fale-lhe, Flor! Talvez a você, que sabe dizer
as coisas, êle ouça! Eu sou uma pobre sertaneja e não
sei senão querer bem a você e a êste filho de minha alma.

A donzela aproximou-se do colaço, que a esperava atônito e pálido.
Pousando-lhe a mão mimosa no ombro disse, voltando-se para a Justa
e dirigindo sua resposta a ambos, mãe e filho.

— Êle vai!

O suave contacto dêsses dedos melindrosos bastou para abater a energia
do ousado sertanejo. Alí estava êle agora tímido e submisso,
não se atrevendo a balbuciar uma palavra, nem sequer a erguer a vista
ao encontro dos olhos altivos que o dominavam.

D. Flor sorriu-se no meigo desvanecimento do poder que ela, frágil
menina, exercia sôbre essa natureza pujante; mas o assomo de faceirice
passou rápido e não perturbou o nobre impulso de seu coração.

— Vim buscá-lo, Arnaldo, para levá-lo à casa,
disse ela repassando a voz maviosa de um mago encanto. Não me acompanha?
Ainda não lhe dei a lembrança que trouxe do Recife.

Arnaldo arrancou-se com esfôrço ao lugar onde estava, e murmurou
promovendo o passo:

— Vamos!

Justa bateu palmas de contente.

— Eu logo vi que só você, Flor, era capaz de fazer o milagre!

— Pois eu sou a fada encantada! disse a moça, fazendo com êste
gracejo uma alusão aos brincos da infância.

Flor dirigiu-se à casa acompanhada pelos dois. Pouco adiante encontrou
Alina com as escravas, que a ficaram esperando, enquanto ela acudia ao chamado
da ama.

O olhar doce e melancólico de Alina fitou-se no semblante de Arnaldo,
que nem pareceu dar por sua presença. O sertanejo ia completamente
alheio de si e preso do condão que o arrastava mau grado seu. Não
tinha conciência do que fazia, nem já se lembrava do sacrifício
que exigiam de seus brios.

Irresistível devia ser a paixão que submetia assim um caráter
indomável e altivo ao ponto de rojá-lo na humilhação,
ao simples aceno de uma mulher!

Ao sair da mata, Flor avistou ao longe, no terreiro, o capitão-mór,
sentado à sombra da oiticica, ao lado de D. Genoveva. Voltando-se para
Arnaldo, que a seguia maquinalmente, mostrou-lhe o vulto do fazendeiro.

— Lá está meu pai, que nos espera.

— Chegando diante dele, filho, ajoelha e pede perdão.

— De joelhos?… exclamou com voz surda e profunda o sertanejo,
cuja alma entorpecia afinal sublevava-se.

Flor compreendeu a emoção de Arnaldo e quis aplacar-lhe a revolta
dos brios.

— Eu ajoelharei também, disse ela com adorável meiguice.

Estas palavras, porém, bem longe de serenarem o ânimo do mancebo,
ainda mais o alvoroçaram, confirmando a suspeita de que só com
êste ato de humildade obteria entrar de novo nas boas graças
do capitão-mór.

— Nunca! bradou êle, retrocedendo.

— Arnaldo! disse D. Flor.

— Eu lhe peço, Flor, não exija de mim semelhante vergonha.
Não posso, é mais forte do que a minha vontade. Se é
preciso que eu ajoelhe, aquí estou a seus pés, mas aos pés
de um homem, não. Morto que eu estivesse, as minhas curvas não
se dobrariam.

— Não é um homem, Arnaldo, é meu pai, respondeu
a donzela, erguendo a fronte com altiva inflexão.

— É seu pai, mas não é o meu, embora eu o respeite
mais do que um filho.

— Venha, Arnaldo, insistiu a donzela fitando o olhar imperioso.

A alma do mancebo fascinada por êste olhar debatia-se numa cruel perplexidade.
Flor travou-lhe o pulso e levou-o sem resistência.

Quando, porém, a donzela subindo a encosta, assomou no terreiro, e
que o vulto do capitão-mór destacou-se em frente, revestido
de sua habitual solenidade, ouviu-se um grito sinistro como o que solta o
gavião ao desabar da procela.

Arnaldo, no momento em que Flor largava-lhe o pulso para ir ao encontro do
pai, de um salto arrojara-se para trás e desapareceu na mata próxima,
antes que as pessoas presentes a esta cena voltassem a si da surpresa.

O capitão-mór, que se preparava para receber o rapaz e conceder-lhe
finalmente o perdão já obtido pela ternura da filha, ergueu-se
arrebatado pela cólera. Ao seu brado formidável acudiu Agrela
com a escolta, e desta vez dirigidos pelo capitão-mór em pessoa,
deram nova batida na mata à busca de Arnaldo.

Justa acreditou que desta vez o filho estava irremediavelmente perdido, e
a própria D. Flor, a-pesar-do império que tinha sôbre
a vontade do pai, não se julgava com fôrças para obter
novamente o perdão de seu colaço.

Entretanto Arnaldo já ia longe. Muito antes que a gente da fazenda
penetrasse na floresta, alcançara o lugar onde na véspera o
tinha deixado Moirão, quando tão bruscamente dele se despedira.

Imitando o canto da seriema, o que era um sinal dado a seu cavalo para que
o seguisse, o sertanejo aproveitando a frouxa luz da tarde foi no rasto do
Aleixo, que aliás não tomara a menor cautela para disfarçá-lo.

Ao cabo de um estirão de caminho parou e observando pelo céu
a direção do rasto, disse consigo:

— Não há que ver, está no Bargado. Eu o sabia.
Corisco!

O inteligente animal acudiu ao chamado do senhor, que o montou mesmo em pêlo,
e instantes depois corria pelo cerrado, como se trilhasse uma vargem aberta
e descampada.

É um dos traços admiráveis da vida do sertanejo, essa
corrida veloz através das brenhas; e ainda mais quando é o vaqueiro
a campear uma rês bravia. Nada o retém; onde passou o mocambeiro
lá vai-lhe no encalço o cavalo e com êle o homem que parece
incorporado ao animal, como um centauro.

A casa da fazenda do Bargado ficava no meio duma chapada. De muito longe
Arnaldo avistou os fogos que brilhavam no seio das trevas, pois já
era noite fechada.

Chegando a um lanço de clavina, apeou-se o mancebo e deu senha ao
cavalo para avançar no mesmo rumo. O Corisco, prático nessas
emprêsas, agachado por entre o arvoredo, aproximou-se até dar
rebate aos cães da fazenda, que partiram em matilha a acuá-lo.

No meio dos latidos, e dos gritos do vaqueiro a estumar os cães, ouviu-se
uma voz cheia que dizia:

— José Bernardo, amigo, não maltrate a menina!

— Com certeza é a suçuarana, observou outra fala.

— Se fôssemos conversar com a rapariga, Topam?

— Depois da ceia, Aleixo Vargas!

Antes de ouvir o nome do Moirão, já Arnaldo o tinha reconhecido
pela voz, o que não lhe causou surpresa, antes confirmara a sua conjetura.

Quando o Corisco recuando afastou a matilha para longe, o sertanejo que já
havia tomado o lado oposto, acercou-se da casa com a cautela necessária
para não ser pressentido. Era fácil emprêsa, pois o arvoredo
prolongava-se até perto do terreiro.

Da sala principal, que abria para a varanda, escapava-se o rumor de falas
alegres e de risos festivos, intermeados com o tinir dos pratos e o triscar
dos copos.

Pela janela do oitão pôde Arnaldo observar de longe o interior.

O capitão Marcos Fragoso banqueteava-se com seus hóspedes.
As viandas já em parte consumidas indicavam que a ceia estava a terminar;
e efetivamente os pagens não tardaram em servir o dessert, no qual
entre os figos, passas e nozes do reino trazidas do Recife com a bagagem,
figuravam grandes terrinas de coalhada e os requeijões, frutos das
primeiras águas.

Corria a prática viva e animada entre os quatro mancebos, que ao acompanhamento
dos copos trocavam os remoques ou rebatiam-nos com a réplica pronta
e chistosa. Jovens e amigos, êsses corações, que não
cuidavam de refolhar-se uns para os outros, estavam revendo-se nos semblantes
e gestos com a franca expansão, natural aos convivas de uma mesa lauta,
reunidos em alegre companhia e excitados pelas copiosas libações
de vinhos generosos.

Se Arnaldo conhecesse a cidade como conhecia o deserto e seus habitantes;
se estivesse habituado a observar a fisionomia do homem com a perspicácia
do olhar que penetrava a mais basta espessura e investigava o semblante, o
gesto, o porte da floresta; com certeza adivinharia o que falavam entre si
os quatro mancebos.

Mas, embora supeitasse do assunto do colóquio, não podia atinar
com o rumo que êste levava, nem portanto saber o que devia esperar.
Mortificava-o isso; pois fôra precisamente para desde logo desenganar-se
que êle tentara essa emprêsa, e custava-lhe tornar sem haver alcançado
seu intento.

Não podia aproximar-se mais do edifício, por causa do clarão
de um fogo que estendia pelo terreiro além uma faixa de luz.

Junto dêsse fogo estavam sentados sôbre couros o vaqueiro e outra
gente da fazenda, com Aleixo Vargas, todos ocupados em despachar os largos
tassalhos de carne, os quais iam cortando à vontade da carcaça
de uma vitela, ainda enfiada na estaca de braúna que lhe servia de
enorme espêto, e estendida por cima do brasido que a estava acabando
de assar.

A rês fôra morta à chegada do dono da fazenda. Uma banda,
tinham-na cortado para cozinhar; a outra, aí estava de espetada. Dela
haviam tirado o lombo para a ceia dos fidalgos; e do resto pretendiam os acostados
dar conta naquela mesma noite, o que sem dúvida conseguiriam com a
formidável colaboração de Aleixo Vargas.

Nesse momento os cães, sentindo novamente rumor no mato, investiram
a latir.

— Que é lá isso? gritou o vaqueiro erguendo-se. Temos
novidade?

— É a bicha que volta.

— Pois então? Não há de cear também? Deixa
a outra, amigo José Bernardo.

A súcia levantara-se para seguir o vaqueiro ao outro lado, curiosa
de saber o que havia. Dêsse breve instante aproveitou-se Arnaldo para
atravessar o terreiro e coser-se à varanda.

Pôde então escutar o resto da conversa.

— Simule quantas razões lhe aprouver, primo Fragoso, é
debalde: não me convence de que o mais chibante casquilho do Recife
se lembrasse de vir a êste sertão ferrar bezerros e comer coalhada
escorrida, que aliás não é mau petisco.

— Eu estou com o Ourém, disse o capitão João Correia;
não lhe acho muito jeito de fazendeiro, cá ao nosso amigo.

— Bom caçador de boi, é êle, observou o Daniel
Ferro. Quando está nos Inhamuns seu divertimento é atirar no
gado barbatão.

— E ande lá que não há de ser má caçada.

— Excelente! afirmou Fragoso.

— Mas então, Ourém, que feitiço é êste
que traz o nosso amigo encantado por estas paragens?

Marcos Fragoso preveniu a réplica:

— Já que tamanho emprenho fazem em conhecer a verdadeira tenção
desta jornada, não a ocultarei por mais tempo, nem é de razão;
pois a quem primeiro comunicaria resolução de tanta monta do
que a amigos de minha maior estimação?

O mancebo reteve a palavra um instante, como para observar a surpresa que
suas palavras iam causar nos companheiros e prosseguiu sorrindo:

— Um dêsses próximos dias far-me-eis a graça de
me acompanhar à Oiticica, onde irei pedir ao capitão-mór
Campelo a mão de sua filha, a formosa D. Flor.

Esta comunicação foi recebida com bravos pelos companheiros.

— À gentil noiva! exclamou Ourém enchendo os copos.

— E à ventura de tão acertado himeneu!

Foi heróico o esfôrço que fez Arnaldo para conter-se
ao ouvir o nome de D. Flor de envôlta com tais efusões. Reagindo
ao violento impulso que o arrojava contra aqueles homens, arrancou-se dalí,
e afastou-se precipitadamente.

De longe voltou-se.

Na sala, à claridade das lâmpadas, destacava-se o vulto elegante
de Marcos Fragoso que se erguera da mesa.

O sertanejo murmurou:

— Roga a Deus que te livre desta tentação.

XIX – Ao cair da tarde

Os borraceiros do natal tinham continuado a cair por volta da madrugada;
e o sertão de Quixeramobim, o mais formoso de todo o dilatado vale
da Ibipiaba, vestia-se cada manhã de novas galas ainda mais brilhantes
do que as da véspera.

A terra, que adormecia com o fechar da noite, já não era a
mesma que despertava ao raiar do sol. Como se a houvesse tocado o condão
de uma fada, ela transformava-se por encanto: e mostrava-se tão louçã
e donosa que parecia ter desabrochado naquele instante, como uma flor do seio
da criação.

Aí via-se realizada a graciosa lenda árabe dos jardins encantados,
surgindo dentre os ermos e sáfaros areais à invocação
de um nume benéfico. A gentil feiticeira dos nossos sertões
é a linfa, que, descendo do céu nos orvalhos da noite e nas
chuvas copiosas do inverno, semeia os campos de todas as maravilhas da vegetação.

Era por tarde.

O capitão-mór Campelo estava, como de costume, sentado em uma
cadeira de alto espaldar, forrada de couro e colocada no largo patamar, que
se prolongava de um e outro lado pelo alicerce, como um passeio.

O fazendeiro, terminado o jantar que naquele tempo era ao meio-dia, fazia
regularmente a sesta até passar a fôrça do sol, como ainda
hoje se usa pelo sertão. Depois do que vinha sentar-se alí,
no pórtico da casa, onde já se achava a sua cadeira senhorial,
trazida por um pagem.

Abrigado pela sombra do edifício que ia cair sôbre o terreiro,
entendia com os negócios da herdade e provia a tudo quanto dependia
de suas ordens. Se era preciso, montava a-cavalo, e transportava-se ao lugar
onde se fazia necessária sua presença, quaquer fosse a distância,
e devesse embora voltar alta noite ou pela madrugada.

Em tudo isto, porém, não se afastava uma linha daquela gravidade
metódica e pausada, que formava a compostura de sua pessoa e que êle
julgava um dever imprecindível de sua importância e riqueza.

Nessa tarde logo ao sentar-se, despediu o capitão-mór o pagem
para chamar a toda pressa o Inácio Góis, que servia-lhe de vaqueiro
da fazenda desde a morte do Louredo, pai de Arnaldo, o qual tivera por muitos
anos êsse emprêgo.

Chegou o Inácio Góis quando o fazendeiro acabava de dar ordens
a Manuel Abreu, o feitor.

— Que notícias nos traz da novilha, Inácio Góis?
perguntou-lhe o capitão-mór de chofre.

— Qual, sr. capitão-mór, a Bonina da senhora doninha?
disse o Inácio Góis, embaraçado.

— A Bonina, sim; desde ontem que desapareceu e até agora ainda
não deu conta dela. Que vaqueiro é um, Inácio Góis,
que não sabe por onde lhe anda o gado?

— É uma coisa que não se explica mesmo, sr. capitão-mór.
Já batí todo êste matão, e nem sinal de novilha.
Nunca se viu uma coisa assim. Faz a gente imaginar!…

— Não tem que imaginar, Inácio Góis; se amanhã
cedo a Bonina não estiver no curral, ficamos sabendo que nosso vaqueiro
só presta para curar bicheiras.

O Inácio Góis abaixou a cabeça e retirou-se humilhado
em seus brios de vaqueiro pelo remoque do fazendeiro. Outros, mais graduados
e mais atrevidos do que êle, não ousavam afrontar o senho do
mandão de Quixeramobim.

D. Flor tinha assomado ao lume da porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras.

— Não te aflijas, disse o fazendeiro voltando-se para a filha;
que a Bonina há de aparecer até amanhã.

— Se Arnaldo estivesse aquí, já êle a teria descoberto,
replicou a menina com um ligeiro enfado.

O capitão-mór ficara impassível, como se não
ouvisse as palavras da filha e entre elas o nome de Arnaldo, cuja revolta
provocara por vezes nos últimos dias as explosões de sua cólera.

Um fenômeno singular se havia operado no espírito do dono da
Oiticica. A mesma estranheza do fato inaudito de uma desobediência formal
a suas ordens, atuando em sentido inverso, desvanecera a primeira e violenta
impressão produzida pelo acidente.

Essa anomalia explica-se mui facilmente; era uma reação. Passada
a comoção, o capitão-mór tornara ao seu natural,
e na soberba do mando absoluto, nada mais natural do que abstrair-se da recordaão
importuna, a ponto de ter por impossível o acontecimento.

Assim nos dias anteriores evitara toda a alusão ao caso inexplicável;
e quando agora a filha pronunciara o nome de Arnaldo, êle já
se tinha por tal modo imbuído da incredulidade, que o ouvira sem abalo.

D. Flor admirou-se dessa indiferença, a qual era para surpreender
após o formidável arrebatamento que três dias antes excitara
no velho a última evasão do sertanejo. O límpido olhar
da donzela buscou no semblante paterno a significação daquele
gesto, e não achou alí senão a calma e serena expressão
da fôrça em repouso.

O capitão-mór erguera-se um instante, e observava além
na várzea, que dilatava-se em volta da encosta, alguma coisa, que lhe
excitara a atenção.

Desceu então a donzela ao terreiro e foi sentar-se nos bancos à
sombra da oiticica, onde a acompanhou Alina, enquanto D. Genoveva tomava o
seu lugar em uma cadeira rasa ao lado do marido.

O Agrela, que desde o aparecimento do fazendeiro na porta, aproximara-se
como de costume para estar Às ordens, conversava com o Padre Teles,
a alguma distância, recostado ao socalco do alicerce.

Assim completou-se o painel de família que ordinariamente, fazendo
bom tempo e não sobrevindo incidentes, observava-se no terreiro da
fazenda da Oiticica, à primeira hora da tarde, logo depois da sesta,
quando o sol ainda forte não permitia o passeio aos vários pontos
da herdade.

D. Flor parecia triste. A expressão já séria de seu
formoso perfil estava nessa ocasião ainda mais nítida e correta.
Era sempre assim. Quando a alma assumia-se em profundo recolhimento, as gentís
feições, que ela animava em sua expansão, apresentavam
uns tons puríssimos, como se fossem cinzeladas no mais fino jaspe.

Desde a véspera desaparecera do curral a Bonina, uma novilha de alvura
deslumbrante, que entre outras o capitão-mór escolhera por sua
beleza para dar à filha, e desta recebera o nome de uma flor predileta.

Êste sumiço e ainda mais a circunstância de não
encontrar-se o rasto da rês, o que fazia presumir a morte da mesma,
eram sem dúvida a causa da tristeza da donzela; mas essa perda não
bastaria para preocupar-lhe o espírito com tanta insistência.

D. Flor tinha bom coração; e sem dúvida alguma distribuía
a sua afeição com os brutinhos, seus companheiros de solidão.
Como em geral todas as moças, ela gostava de cercar-se dêsses
confidentes discretos e alegres sócios de travessura.

Tinha amizade ao seu cavalo; gostava de ver e afagar os bezerrinhos e novilhas
seus preferidos; fazia saltar as cabrinhas e erguerem-se direitas sôbre
os péeacute;s até a altura de seu rosto, para receberem uma carícia;
queria bem às suas graúnas e sabiás; gostava de garrular
com o seu periquito.

Mas as efusões de ternura, em que se derrama o coração
afetuoso de outras moças, que fazem de um passarinho um idílio
e de uma corça um romance, é o que não tinha D. Flor,
não fria, mas esquiva e comedida na manifestação de seus
sentimentos.

Seu pai inspirava-lhe profunda veneração, e sua mãe
extremos de amor; entretanto êsse afeto sincero, capaz da maior dedicação,
apenas denunciava-se adorar por êsses entes queridos.

Acaso pressentia ela que não podia dar-lhes maior júbilo e
felicidade do que essa de confiar-se ao seu amor? Talvez; mas era sobretudo
efeito de índole. Sua alma delicada e altiva tinha um recato natural,
que a resguardava, e impedia de abrir o íntimo seio aos olhos, ainda
mesmo dos que mais queria.

D. Flor afligira-se quando soube do desaparecimento da novilha; mas essa
mágoa já se teria desvanecido, se não encontrasse alimento.

Quando um pesar qualquer nos aflige e, desprendendo o espírito das
impressões exteriores, obriga-o ao recolho, muitas reminiscências
e pensamentos sopitados na memória adormecida surgem aos olhos d’alma
então voltados para o íntimo.

Assim aconteceu À donzela. O fato ainda recente da revolta de Arnaldo
foi o primeiro que despertou em seu espírito e absorveu-lhe as cismas.

O sertanejo era seu colaço e camarada de meninice. Embora depois de
certa época suas existências, a princípio unidas pela
intimidade infantil, se tivessem apartado na adolescência, que as chamava
cada uma ao seu diverso destino, todavia ela ainda conservava ao seu companheiro
a amizade que lhe consagrara em criança. Demais, bastariam para incomodá-la,
a aflição que essa desavença causava à Justa,
sua mãe de leite, a quem ela muito queria, e a desconfiança
do desgôsto que seu pai sentira com a ingratidão do filho do
Louredo, criado por êle, e tão estimado sempre.

Destas mágoas recentes, o espírito da donzela remontando insensivelmente
aos acontecimentos anteriores, recordou a visita de Marcos Fragoso com seus
amigos à Oiticica; e daí enleou-se pelas reminiscências
ainda vivas de sua viagem ao Recife e das festas que lá assistira.

Então, já desvanecida a surpresa que essas novidades deviam
causar-lhe, a ela filha do sertão, acudiram-lhe à mente idéias
envôltas e ignotas, que sua imaginação cândida não
sabia formular, e lhas apresentava apenas em vago esbôço.

Muitas daquelas donzelas, e das mais formosas, que haviam concorrido Às
festas, tinham seus cavalheiros que se nesses jogos as tomavam para rainhas
de suas façanhas e gentilezas, antes e fora daí lhes rendiam
o culto de seu afeto e viviam cativos de sua beleza. De algumas soubera que
já eram noivas, e de outras que não tardariam a ser pedidas.

Teria ela, Flor, também algum dia o seu cavalheiro, que fizesse proezas
para merecer-lhe um olhar? Possuiria o belo parecer e outras prendas do Marcos
Fragoso? Ou o excederia no garbo da pessoa e gentileza das ações?

Depois imaginava que êsse cavalheiro, ainda seu desconhecido, chegava
a Oiticica; ela o via falando na sala com seu pai; era elegante, vestido a
primor, e de uma nobreza de gesto como só a podiam ter os reis; mas
não lhe via o rosto. Então seu pai a chamava; as palavras que
lhe dizia e o mais que se passava, nunca o adivinhou seu espírito que
neste momento perdia-se em um tropel de confusos pensamentos, enquanto leve
rubor acendia-lhe a nívea tez.

Alina também estava triste; mas as suas próprias mágoas
a preocupavam menos do que a melancolia cismadora de sua companheira. A órfã,
ao contrário da filha do capitão-mór, tinha uma dessas
naturezas que não sabem viver em si e para si, mas carecem de transportar-se
para outras, em que se difundam, e de quem recebam o estímulo que não
encontram no próprio âmago.

Ao inverso das parasitas, que absorvem a seiva estranha e nutrem-se dela,
estas naturezas pródigas transmitem a sua substância. São
como as flores privadas de estigma, que só viçam para comunicar
o seu pólen ao seio das outras, e como estas não dão
fruto na própria árvore, também elas não sabem
sentir senão as alegrias e as tristezas dos seres a quem amam.

Alina chegando ao terreiro ainda vira o Inácio Góis e perguntou
a D. Flor:

— Que disse o vaqueiro, Flor?

— Nada, respondeu concisamente a outra.

— Então não há esperança?

D. Flor respondeu com a cabeça, fazendo gesto negativo.

— Coitada da Bonina! murmurou a órfã.

E mais pesarosa da perda da novilha do que a própria dona, levou a
mão aos olhos para esmagar as lágrimas que borvulhavam; e ficou-se
a olhar para a companheira, buscando adicinhar-lhe os tristes pensamentos
para repassar-se deles.

Logo que as duas meninas se haviam sentado nos bancos da Oiticica, o Agrela
que as vira de esguelha dirigirem-se para aquele ponto, achou jeito e tornar
ambulatória a sua prática, e principiou a percorrer o terreiro
ao lado do capelão.

Sua direção aparente era o muro ensosso, espécie de
barbacã, levantado em volta do terreiro. Tinha êle, porém,
uma linha objetiva, que seu olhar indicava a cada instante fitando-se rápido,
mas veemente, no formoso semblante de Alina.

Porisso a cada volta, a linha declinava, formando um ziguezague, que não
tardava cortar em uma de suas projeções a área coberta
pela copa frondosa da oiticica. Padre Teles, que talvez por indícios
anteriores percebera a estratégia do ajudante, prestava-se de boa vontade
à manobra; mas com disfarce para não acanhar o rapaz.

Foi mais adiante a complacência do capelão, pois ao passarem
junto dos bancos, deu-se por fatigado, e sentou-se indicando ao companheiro
o lugar, que ficava-lhe à direita entre êle e a moça.

— Aquí, disse, travando familiarmente do Agrela pelo braço;
vamos descansar um tanto.

O mancebo ao sentar-se roçou de leve e sem querer a saia de Alina
que, distraída e voltada para Flor, não se apercebera da aproximação
dos dois passeadores. Sentindo o frolido de suas roupas, a moça acudiu
surpresa para retrair-se com um movimento mais assustado e evasivo do que
exigia a circunstância.

Compreendeu Agrela a significação dessa repulsa e ergueu-se
de pronto:

— Não foi minha a culpa, mas do sr. capelão; disse êle
com um azedume, que debalde buscou diluir no tom galhofeiro.

— Tem lugar! murmurou Alina.

Com estas palavras a moça erguera os olhos; e fitou-os no semblante
de Agrela com um gesto tão meigo e compassivo que parecia exprobrar
a si mesma de o ter magoado.

— Êsse lugar é de outro, eu sabia, respondeu o mancebo
com a mesma acrimônia.

Alina corou, curvando a fronte como para subtrair-se ao olhar que penetrava-lhe
os seios d’alma.

Padre Teles tinha-se aproximado de D. Flor a pretêsto de a consolar
da perda de sua novilha favorita, mas talvez para deixar em liberdade o ajudante
de quem era camarada e cujos amores desejava favorecer.

Aproveitando o ensêjo, Agrela dirigiu ainda algumas palavras rápidas
à moça.

— Essa melancolia é pela ausência dele? Não se
aflija! Tenho ordem de descobrí-lo, vivo ou morto.

— Arnaldo? balbuciou Alina.

— Sim, Arnaldo. A ordem, eu a cumprirei em sua intenção.
Não me agradece? concluiu o mancebo com ironia.

A moça não pôde falar, mas exprimiu seu pensamento por
um gesto eloquente, cerrando ao seio as mãos enlaçadas para
a prece.

Nessa ocasião voltava o padre Teles, e Agrela apartou-se com êle
do grupo das duas moças.

XX – O aboiar

O sol transmontara.

As sombras das colinas do poente desdobravam-se pelos campos e várzeas
e cobriam a rechã dêsse candor da tarde, que em vez da alegria
da alva matutina tem o desmaio, a languidez e a melancolia da luz que expira.

Por aquelas devesas já envôltas no umbroso manto, só
destacam-se as copas das árvores altaneiras ainda imergidas nos fogos
do arrebol, e que de longe parecem as chamas de um incêndio rompendo
aquí e alí do seio da mata.

O gado espalhado pelas várzeas solta os profundos e longos mugidos
com que se despede do sol, e que propagam-se pelo ermo, como os carpidos da
natureza ao sepultar-se nas trevas.

Respondem as vacas nos currais, e os bezerros misturam seus berros descompassados
com os balidos das ovelhas e borregos, também já recolhidos
ao aprisco.

Lá das matas reboa o surdo estridor em que se condensam os cantos
de todos os pássaros e o grito de todos os animais, para formar a grande
voz da floresta, que exala-se, sobretudo nessa hora, abafada e sombria das
espêssas abóbadas de verdura.

No meio, porém, dêsse concêrto e do borborinho que ainda
levantava a labutação diária, atravessava o espaço
uma nota dorida, plangente, ressumbro de saudade infinda. Se a alma da solidão
se fizesse mulher, ela não tiraria de seu mavioso seio um suspiro tão
melancólico e tocante como o arrulho da jurití ao cair da noite.

Nessa hora a lida jornaleira das fazendas torna-se mais pressurosa, como
para aproveitar os últimos instantes do dia.

Os lenhadores voltavam do mato carregados de feixes, enquanto os companheiros
conduziam à bolandeira cêstos de mandioca, aind ada plantação
do ano anterior, para a desmancharem em farinha durante o serão.

As mulheres livres ou escravas, umas pilavam milho para fazer o xerém;
outras andavam nos poleiros guardando a criação para livrá-la
das raposas; e os moleques as ajudavam na tarefa, batendo o matapasto, ou
dando cêrco às frangas desgarradas.

As cozinheiras, encaminhando-se para a fronte a fim de lavar alí na
água corrente a louça de mesa e fogão, assim como as
caçarolas, cruzavam-se em caminho com as lavadeiras que já se
recolhiam com as trouxas de roupa na cabeça.

Nos currais tirava-se o leite, acomodavam-se os bezerros, e cuidava-se de
outros serviços próprios das vaquejadas, que já tinham
começado com a entrada do inverno, porém só mais tarde
deviam fazer-se com a costumada atividade.

Era a êste, de todos o mais nobre dos labores rurais, que o capitão-mór
costumava assistir regularmente, para o que todas as tardes à hora
da sombra transportava-se êle do seu pôsto no patamar da casa,
e vinha com a família sentar-se defronte do curral na mesma poltrona,
que o pagem levara após si.

D. Genoveva entendia mais particularmente com o leite, o qual alí
mesmo distribuia; uma parte entregava-se às doceiras incimbidas dos
bolos e massas; outra repartia pelas crias, e o resto era levado à
queijaria. Isto quando não tinha chegado ainda a fôrça
do inverno, porque nesse tempo havia tal abundância, que enchiam-se
todas as vasilhas e até os coches onde os cães do vaqueiro iam
beber.

O narrador desta singela história teve em sua infância ocasião
de ver na fazenda da Quixaba, próxima à serra do Araripe, êsse
aluvião de leite, na máxima parte desaproveitado pelo atraso
da indústria, e que podia constituir um importante comércio
para a província.

Enquanto a mulher ocupava-se com êsses misteres caseiros, o capitão-mór
percorria os currais, tomando contas aos vaqueiros, mandando apartar os novilhos
que era costume reservar para bois de serviço; indicando a rês
que se devia matar para o gasto da casa; e assistindo a esfolar e esquartejar,
no que se comprazia com a perícia dos carniceiros.

No tempo da ferra, tratava de apurar os garrotes apanhados na safra do ano
anterior, escolhendo os da propriedade para deixar o dízimo do vaqueiro,
segundo as condições do trato, que ainda são atualmente
as mesmas em voga no sertão da província.

Com êstes e outros serviços das vaquejadas deleitava-se o capitão-mór,
que achava nessa vida ativa e agitada as emoções das lides e
façanhas guerreiras, para que o atría sua índole.

Mais de uma vez, quando algum touro bravo resistia aos moços do vaqueiro
e acuado pelos cães no meio da várzea, bramia escarvando o chão,
aceso em fúria, com os olhos em sangue, o velho capitão-mór
sentindo repontarem-lhe uns ímpetos de juventude, vestia o gibão
de couro e as perneiras, montava no seu ruço, e empunhando a vara de
ferrão na esquerda, arremetia contra o animal, topava-o no meio da
carreira, e o trazia ao curral pela ponta do laço.

Naquela tarde, não se entreteve o fazendeiro, como em outras, com
a inspeção do gado; pois recolheu-se mais cedo que de costume;
e sua fisionomia que só nos raros, mas terríveis, transportes
de ira, perdia a calma e apática serenidade, mostrava nessa ocasião
sintomas visíveis de descontentamento.

Caminhava o capitão-mór com o passo grave e pausado, medido
pela cadência de sua alta bengala de carnaúba, rematada em um
castão de ouro lavrado, o qual tocava-lhe pelos ombros. Sua contrariedade
denunciava-se, para quem lhe conhecia a solenidade do gesto, na frequência
com que êle consertava o chapéu armado, como se lho incomodasse.

D. Genoveva ia ao lado do fazendeiro e embora não escapassem à
sua solicitude êstes sinais de impaciência, todavia não
pensava em interrogá-lo diretamente e esperava que êle se decidisse
a comunicar-lhe seu pensamento. O extremoso amor da boa senhora não
se animava a infringir o respeito e submissão que tinha pelo marido.

D. Flor e Alina tinham passado adiante e já iam longe, a-pesar-da
sujeição a que obrigavam seu pé leve e ágil para
acompanhar a marcha lenta do capitão-mór. Atrás, mas
em distância conveniente para não escutar a conversa dos donos
da fazenda, seguia o ajudante.

O capitão-mór consertou ainda uma vez o chapéu armado,
e retendo o passo, disse para a mulher:

— Não temos vaqueiro, D. Genoveva!

Depois do que, avançando o passo retido, continuou sua marcha para
a casa. D. Genoveva, que esperara a continuação da confidência,
animou-se então a perguntar:

— E o Inácio Góis?

— O Inácio Góis é um cangueiro; e mal pode consigo.
Não viu o que sucedeu com a Bonina? Se lhe tivesse ido logo no rasto,
como era sua obrigação, a novilha não havia de sumir-se.
Mas êle nem conhece o gado de sua entrega! Pergunta-se-lhe por uma vaca,
e o homem não faz senão encher as ventas de tabaco!

Contrariado e prevenido por causa do desparecimento da novilha que dera de
mimo a D. Flor, o capitão-mór achara o vaqueiro em faltas que
ainda mais o indispuseram.

— Desde que tivemos a desgraça de perder o Louredo, que o nosso
gado anda à mercê de Deus, D. Genoveva. É tempo de pôr
côbro a isso. O Inácio Góis nunca prestou nem mesmo para
vaqueiro duma fazenda, quanto mais para nosso vaqueiro geral com o govêrno
de todas as fazendas. Êsse lugar, nós os guardamos para o Arnaldo,
que já está em idade de serví-lo; portanto, senhora,
cuide com toda a presteza no enxoval da Alina, para casá-la quanto
antes com o rapaz. É o que havemos resolvido.

O fazendeiro tinha parado para dizer estas palavras à mulher, cuja
surpresa pintou-se-lhe no semblante.

— O Arnaldo? Mas êle não fugiu, sr. Campelo? interrogou
a dona suspeitando que o marido tivesse esquecido aquela circunstância.

O velho voltou-se com ênfase para a mulher e disse-lhe fincando rijo
no chão a ponteira de ouro de sua bengala:

— Há de aparecer e há de casar, que assim o determinamos,
D. Genoveva.

D. Genoveva calou-se, e por algum tempo seguiu o marido silenciosamente;
mas levado pelo fio das idéias, seu espírito passara a outro
assunto, pois de repente voltou-se para perguntar ao marido:

— E Flor?

O capitão-mór refletiu antes de responder:

— Já temos pensado no seu futuro, D. Genoveva, disse o capitão-mór.

— Ela está com dezenove anos.

— Até os vinte não é tarde.

— Mas o noivo?

— Eis a dificuldade. Lembrámo-nos primeiro, de nosso sobrinho,
Leandro Barbalho, de Pajeú de Flores. Agora com a vinda do Marcos Fragoso
ao Bargado, estamos em dúvida, qual nos convenha melhor.

— O Marcos Fragoso, sr. Campelo, o filho do coronel? Acha que Flor
pode casar com êle?

— Se formos a esperar que apareça um mancebo com dotes para
merecer a nossa filha, D. Genoveva, ela não casará nunca, pois
onde está êsse? Nem que vamos a Lisboa procurá-lo na melhor
fidalguia do reino, acharemos um marido como nós o queríamos
para Flor. Assim que temos de escolher entre o que há; e o Marcos Fragoso
é dos poucos; as maldades do pai, êle não as herdou, com
o grosso cabedal de sua casa.

— Diziam tanta coisa dêsse moço no Recife! observou D.
Genoveva abaixando os olhos com o recato calmo de uma senhora.

— Rapaziadas que passam; quando for marido de Flor, êle não
se atreverá a faltar-nos ao respeito; pois sabe que não lhe
perdoaríamos o menor descomedimento.

— O Leandro sempre é parente.

— Mas não é tão abastado como o Marcos Fragoso;
e não tem o seu porte fidalgo, respondeu o capitão-mór
que era homem das formas.

Lá no campanário da capela, acabava de soar a primeira badalada
do toque de ave-maria. O som argentino da sineta vibrando nos ares foi repercutir
ao longe no borborinho da floresta, de envôlta com o mugir do gado e
os rumores da herdade.

O capitão-mór parou, e descobrindo-se, pôs o joelho em
terra para fazer sua oração mental. As pessoas de sua família
o imitaram; e por toda a extensão da fazenda, a faina jornaleira interrompeu-se
um momento. O carregador arreara o seu fardo; o trabalhador cessara o serviço;
e todos de joelhos, com as mãos postas, rezaram a singela oração
da tarde.

Ainda retiniam as últimas badaladas das trindades, quando longe, pela
várzea além, começaram a ressoar as modulações
afetuosas e tocantes de uma voz que vinha aboiando.

Quem nunca ouviu essa ária rude, improvisada pelos nossos vaqueiros
do sertão, não imagina o encanto que produzem os seus harpejos
maviosos, quando se derramam pela solidão, ao pôr do sol, nessa
hora mística do crepúsculo, em que o eco tem vibrações
crebras e profundas.

Não se distinguem palavras na canção do boiadeiro; nem
êle as articula, pois fala ao seu gado, com essa outra linguagem do
coração, que enternece os animais e os cativa. Arrebatado pela
inspiração, o bardo sertanejo fere as cordas mais afetuosas
de sua alma, e vai soltando às auras da tarde em estrofes ignotas o
seu hino agreste.

A voz que aboiava naquele momento tinha um timbre forte e viril, que não
perdia nunca, nem mesmo nas inflexões mais ternas e saudosas. Ainda
quando sua melodia se repassava de suavíssimos enlevos, sentia-se a
percussão íntima de uma alma pujante, que brandia às
comoções do amor, como o bronze ferido pelo malho.

O gado dos currais, que já se tinha acomodado e ruminava deitado,
levantando-se para responder ao canto do aboiador, mugia não ruidosamente
como pouco antes, mas quebrando a voz, em um tom comovido, para saudar o amigo.

Alina estremecera, escutando os sons vibrantes da canção: e
seu olhar vago, volvendo em tôrno cruzou-se além com o olhar
de Agrela, que de longe a fitava. Nesse relance chocaram-se as almas de ambos.
À muda interrogação da moça, o ajudante respondera
afirmando; e à súplica instante que seguiu-se, opôs um
pálido sorriso, cuja ironia tinha um travo amargo e triste.

Transida de susto por êsse sorriso, a môça inclinou-se
para sua companheira e murmurou-lhe ao ouvido:

— Arnaldo!

— Aonde? perguntou Flor distraída.

— Não ouve?

D. Flor aplicou o ouvido. Também ela conhecia os módulos frementes
daquela voz, que enchia o deserto.

— E agora? continuou Alina palpitante. Se êle vem?… O sr.
capitão-mór!…

— Meu pai o castigará, Alina; e será um benefício
para êle, que está se perdendo. Arnaldo já não
é criança; carece emendar-se.

Alina retraiu-se como uma sensitiva. Esperava achar proteção
em D. Flor; e a severidade da donzela, que bem revelava neste incidente a
contrariedade de seu humor, a desanimou.

Nas outras pessoas o aboiar, que se aproximava cada vez mais, não
causara a menor impressão, como coisa muito comum no sertão.
Apenas alguns dos agregados e vaqueiros lembraram-se que era êsse o
modo de cantar de Arnaldo; e viram que antes deles já o gado havia
reconhecido o filho de seu antigo vaqueiro.

De repente uns gritos no curral chamaram para alí a atenção.
Voltou-se o capitão-mór, e inquiriu do Agrela com o olhar a
causa do rumor.

— É a Bonina que apareceu, disse o ajudante apontando para a
novilha parada junto à cêrca.

O capitão-mór para alí encaminhou-se tão satisfeito
que alterou a sua habitual circunspecção. D. Flor, porém,
tinha-se adiantado com Alina e já abraçava a ingrata, quando
o pai aproximou-se.

Indagou o fazendeiro do caso; e Inácio Góis, insinuando-se
como o descobridor da Bonina, começara uma história em que se
derramaria sua habitual loquela, quando D. Flor o atalhou:

— Alí está quem a trouxe, meu pai!

O capitão-mór ergueu os olhos na direção indicada
pela filha, e viu parado a pequena distância Arnaldo montado no cardão.
O mancebo tirou o chapéu e ficou imóvel.

O ânimo de quantos assistiam a esta cena estava suspenso no pressentimento
de um novo e terrível assomo de cólera da parte do fazendeiro.
Entretanto o mancebo aguardava tranquilamente o choque, embora o olhar e atitude
indicassem a resolução em que estava de não ceder.

A fisionomia do capitão-mór conservava sua habitual seriedade.
A surpresa que a animara um instante, cedera à concentração
da vontade sempre morosa e tolhida, quando não a arrebatava a paixão.

Tendo demorado por algum tempo o olhar no semblante do mancebo, retirou-o
afinal para volvê-lo na direção do Agrela. Êste,
porém, que previra o movimento, simulou uma distração
a propósito e esquivou-se à consulta.

Então o capitão-mór revestiu-se de toda a solenidade
de aparato e estendeu majestosamente a mão para Arnaldo, o qual apeando-se
pronto veio beijá-la comovido.

— Vá tomar a benção à sua mãe, disse
o fazendeiro paternalmente.

Depois que a filha satisfez-se de acariciar a ingrata Bonina, o capitão-mór,
passando a título de recomendação um novo capelo no Inácio
Góis, tornou à casa acompanhado pela família.

D. Flor dirigiu-se pressurosa a seu camarim; e tomando alí um objeto
que procurava, saiu com Alina em busca do casalinho da Justa.

Era noite já. O crescente da lua que surgia no horizonte azul esparzia
sôbre a terra uma claridade tênue e indecisa que flutuava na atmosfera
como gaze finíssima, tecida de fios de prata.

Além, no terreiro dos agregados, trilavam os sons cristalinos da viola,
a ralhar no meio do susurro da conversa. Mais longe, em frente às casas
dos vaqueiros, a gente de curral fazia o serão ao relento, deitada
sôbre os couros, que serviam de esteiras.

Uma voz cheia cantava com sentimento as primeiras estâncias do Boi
Espácio, trova de algum bardo sertanejo daquele tempo, já então
muito propalada por toda a ribeira do São Francisco, e ainda há
poucos anos tão popular nos sertões do Ceará.

Vinde cá meu Boi Espácio,
Meu boi preto caraúna;
Por seres das pontas liso,
Sempre vos deitei a unha.

Criou-se o meu Boi Espácio
No sertão das Aroeiras;
Comia nos Cipoais,
Malhava nas capoeiras.

Foi êste meu Boi Espácio
Um boi corredor de fama;
Tanto corria no duro,
Como na varge de lama.

Nunca temeu a vaqueiro,
Nem a vara de ferrão;
Temeu a José de Castro
Montado em seu alazão.

Os tons doces e melancólicos da cantiga sertaneja infundiram um enlêvo
de saudade, sobretudo naquela hora plácida da noite.

Entrando no casalinho, Flor e Alina encontraram-se com Justa, que avisada
pelo rumor das vozes acudia a recebê-las. Ao clarão do fogo aceso
na cozinha próxima avistaram um vulto, que ambas reconheceram, a-pesar-de
quase desvanecido na sombra do canto escuro.

Fôra um nobre impulso do coração que alí trouxera
D. Flor naquele instante. Não tendo pouco antes agradecido a Arnaldo
o serviço que êste lhe prestara, vinha mostrar à ama o
seu contentamento e acompanhá-la na alegria que devia sentir vendo
restituídas ao filho as boas graças do dono da Oiticica.

Em caminho, porém, a efusão dêste sentimento se acalmara,
e de todo aplacou-se ao entrar na choupana. Abraçou com meiguice sua
mãe de leite, e entregou-lhe o objeto que trazia na mão: uma
bolsa de teia de prata como se usava naquela época.

— Esta bolsa, mamãe Justa, é que eu trouxe do Recife
para Arnaldo. Tinha feito tenção de não lha dar mais,
por causa da desobediência que êle praticou, sobretudo depois
de enganar-me, fugindo de minha companhia. Mas como êle achou a Bonina
e voltou arrependido, eu quero perdoar-lhe, como meu pai. Aquí a tem;
entregue-a da minha parte, como mimo que lhe faço.

— Obrigada, minha Flor! Como êle vai ficar contente!…

O vulto surgiu da sombra. Era Arnaldo, o qual aproximando-se de Justa, tirou-lhe
das mãos a bolsa e foi arremessá-la ao fogo.

— Pague aos seus criados, disse êle com a voz áspera.

— Arnaldo! exclamou Justa escandalizada.

D. Flor erguera a altiva fronte, e com um gesto de plácida dignidade
atalhou a ama:

— Fez bem: êle não merecia uma lembrança minha.

E retirou-se.

SEGUNDA PARTE

I – A saída

Raiava uma formosa madrugada.

Os primeiros vislumbres desmaiavam no céu o azul denso das noites
dos tróipicos; e para as bandas do nascente já estampavam-se
os toques diáfanos e cintilantes da safira.

A frescura deliciosa das manhãs serenas do sertão no tempo
do inverno derramava-se pela terra, como se a luz celeste que despontava trouxesse
da mansão etérea um eflúvio de bem-aventurança.

A Oiticica, assim como em geral as vivendas campestres, despertava sempre
aos primeiros anúncios do dia; e a labutação jornaleira
começava alí ainda com o escuro. Nesse dia, porém, madrugara
mais que de costume.

Quando o sino da capela bateu as matinas, e segundo uma usança militar
observada nesta e em outras fazendas, com os rufos do tambor e os clangores
da trombeta soou o toque da alvorada, já havia na herdade rumor e agitação,
especialmente para o lado da cavalariça.

A luz das bugias e candeias do interior avermelhava os vidros das janelas;
e por êsses painéis esclarecidos passavam as sombras das pessoas
que moviam-se pressurosas dentro da vasta habitação.

Pouco depois ouviu-se no terreiro tropel de animais de sela, que os pagens
para alí conduziam à destra. Ao clarão dos archotes,
podia-se distinguir o vulto do Agrela e dos homens da escolta.

Abriu-se a porta principal da casa, e apareceu no patamar o capitão-mór
com a família. As senhoras montaram rapidamente, servindo-lhes de escabêlo
o degrau da escada, e a comitiva partiu à marcha batida.

Os cavalos aspiram ruidosamente as emanações do campo, e soltam
os breves e alegres nitridos, que são o riso de contentamento do brioso
animal. Ao estrépito do passo cadenciado, os passarinhos, adormecidos
ainda, espertam assustados e batem as asas num vôo brusco.

Adiante vão Flor e Alina: seguem-se D. Genoveva com o capitão-mór
e logo após o padre Teles, e o Agrela à frente de uma escolta
menor da que sempre acompanhava o fazendeiro em suas jornadas.

Ao chegarem à várzea, saíu-lhes ao encontro Arnaldo,
que também incorporou-se à comitiva, tomando lugar à
esquerda do Agrela, depois de saudar ao fazendeiro e família.

Já o crepúsculo da manhã começava a bruxolear
as formas indecisas das árvores, que todavia ainda flutuavam pela várzea
como visões noturnas embuçadas em alvos crepes.

D. Genoveva e as moças, vestidas de amazonas, com seus roupões
de fino droguete guarnecido de alamares, tranjavam com o mesmo, senão
maior, luxo e primor das fidalgas de Lisboa; pois naquele tempo era sobretudo
nas casas dos opulentos fazendeiros do interior que se encontravam o fausto
e os regalos da vida.

O capitão-mór ia, como a Agrela e Arnnaldo, vestido à
sertaneja, todo de couro, da cabeça aos pés; e empunhava como
êles, à guisa de lança, uma aguilhada, que chamam hoje
vara de ferrão, e cujo conto apoiava no peito do pé. Trazia
também preso ao arção da sela o laço de rêlho
trançado.

O trajo do fazendeiro distinguia-se dos outros pela riqueza. Era de uma camurça
finíssima, preparada de pele de veado, e toda ela bordada de lavores
e debuxos elegantes. A véstia, o gibão e as luvas tinham os
botões de ouro cinzelado; e eram do mesmo metal e do mesmo gôsto,
o broche que prendia a aba revirada do chapéu, e as fivelas dos calções
ou perneiras.

A aguilhada também fazia diferença das outras. A haste cuidadosamente
polida, tinha o lustre de um verniz escarlate usado pelos índios. O
conto era de prata, como a ponteira, onde engastava o ferrão.

Todavia Arnaldo não trocaria por esta a sua vara de craúba,
que êle com a ponta da faca havia nas horas de repouso coberto de toscos
desenhos, onde talvez escrevera a história de sua vida. Cada uma daquelas
miniaturas era uma cena do grande drama do deserto.

Nesse dia o moço sertanejo tinha juntado às suas armas habituais,
que eram a faca de ponta e a larga catana, um par de pistolas que levava à
cinta por dentro do gib&atiatilde;o, e o bacamarte que herdara do pai. Sua fisionomia
revelava atenção múltipla e intensa; enquanto o seu olhar
rápido perscrutava os arredores, seu ouvido atento colhia o menor rumor
da floresta.

Havia naquela época entre os abastados criadores da província
essa bizarria de se vestirem de couro à sertaneja, e associarem-se
assim por mero recreio às lidas dos vaqueiros, cujo ofício desta
arte enobreciam. Nisso não faziam senão imitar os castelões
e fidalgos da Europa que também se trajavam de monteiros, à
moda rústica, para ir à caça.

O sertão do norte oferecia então aos ricos fazendeiros uma
ocupação idêntica à das correrias de lôbos
e outros animais daninhos, em que se empregava a atividade dos nobres no reino.
Eram as vaquejadas do gado barbatão, que se reproduzia com espantosa
fecundidade, por aqueles ubérrimos campos ainda despovoados.

Durante a sêca as boiadas refugiavam-se nas serras, e escondiam-se
pelas lapas e grotas, onde passavam os rigores da estação ardente,
que abrasa a rechã. Com a volta do inverno, logo que as vargens cobrem-se
dos verdes riços de panasco e mimoso, saía o gado silvestre
das bibocas onde buscara abrigo, e derramava-se pelos sertões.

Antes da grande sêca de 1793, foi tal a abundância do gado selvagem
em todo o sertão do norte que, segundo o testemunho de Arruda Câmara,
entrava nas obrigações do vaqueiro a tarefa de extinguí-lo,
para não desencaminhar as boiadas mansas, que andavam sôltas
pelos pastos.

O primeiro mês, deixavam-no tranquilo a refazer-se e engordar. Nem
era preciso mais, tão forte é a seiva dêsses pastos, saturados
do sal que alí deixaram as águas do oceano, quando cobriram
toda a vastíssima região. Ao cabo daquele tempo, entravam as
correrias dos fazendeiros, e também a dos vagabundos que viviam nômades
pelo sertão.

Era a uma dessas montearias ou vaquejadas que naquela madrugada saía
o capitão-mór, e a presença de sua família indicava
ainda um traço de semelhança entre os nossos costumes sertanejos
daquela época e as tradições da nobreza européia.
Como as castelãs de além mar, as nossas gentís fazendeiras
tomavam parte nesses jogos fidalgos, e animavam com sua graça o ardor
e os brios dos campeões.

Quem observasse naquele instante as damas que faziam esquipar seus ginetes
à frente da comitiva, notaria sem dúvida o contraste da afoiteza
e galhardia que mostravam em seu gesto, com o recato e meiguice do trato familiar
e íntimo. Nas destemidas cavaleiras que afrontavam sorrindo os tropeços
do caminho, e saltavam por cima de um tronco derribado ou de barrancos e atoleiros,
não reconhecera de-certo D. Genoveva, a modesta e laboriosa caseira,
e as duas meninas tão mimosas.

São assim as filhas do sertão: eu ainda as conhecí de
tempos bem próximos àqueles; suas tradições recentes
ainda embalaram o meu berço. Espôsas carinhosas e submissas,
filhas meigas e tímidas, no interior da casa e no seio da família,
quando era preciso davam exemplo de uma bravura e arrôjo que subiam
ao heroísmo.

A idéia da montaria tinha partido do dono do Bargado, o capitão
Marcos fragoso, que por uma carta mui cortês mandara convidar o seu
poderoso vizinho e a família.

O primeiro impulso do capitão-mór foi recusar o convite. Com
a idéia que êle fazia de sua importância e da posição
que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, aceitando
favores de outrem.

A generosidade era um direito seu; êle a dispensava quando lhe aprouvesse,
mas não a recebia. Como os antigos reis, êsse potentado não
reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres
ou ricos, de Quixeramobim, êle os considerava como seus vassalos.

Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência
de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha
melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo
consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos
do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se
propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.

Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda
do caminho um casebre de embôço coberto de palha. Ao avistar
essa habitação isolada, o capitão-mór que investigava
com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-se atento.

— Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da
casa.

O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana
e examinou o tôpo da carnaúba que servia de cumieira:

— Cortada de fresco? perguntou Campelo.

— Não há uma semana; respondeu o ajudante.

— Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.

O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, e foi descobrir
o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância.
O homem vinha assustado.

— Como te chamas? perguntou o fazendeiro.

— José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mór.

— José Venâncio, quem te deu licença de cortar
aquela carnaúba?

— Saberá o sr. capitão-mór que eu não corte
nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.

— A ordem que demos, José Venâncio, é de não
cortar carnaúba, em qualquer parte dêste sertão.

— Eu não sabia, sr. capitão-mór; pois não
seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doido.

— Acha que êle não sabia, Agrela? perguntou o Campelo
a seu ajudante.

— O José Venâncio veio morar para estas bandas há
pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou
com malícia.

— Por esta vez, e atendendo à informação do nosso
ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.

— Juro, sr. capitão-mór!

— A carnaúba é um presente do céu: é ela
que na sêca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra.
Quem corta uma carnaúba ofende Deus, Nosso Senhor; e nós não
podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José
Venâncio.

O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mór,
que prosseguiu no meio de sua comitiva.

Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D.
Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu
a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la;
mas não pode alcançar o pâmpano que ficava muito alto
e entrelaçado com os talos da palmeira.

— Ajuda-me, Alina!

— Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.

— Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.

A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as fôlhas, a tinha borrifado.
Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De
longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos, e insensivelmente
volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.

O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido
por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se
com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta.

— Apanhe aquela flor, Xavier.

Antes que os outros ouvissem a ordem já Arnaldo arremessara o cavalo
à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar
à donzela.

— Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina.

A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo
modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É
isso que explicava sua presença alí, naquele momento, reunido
à comitiva.

O capitão-mór no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral
de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade,
exceto êle próprio, que fazia suas reservas.

O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a êle o comovera
profundamente. Depois de sua desobediência, só uma graça
especial podia mover o ânimo do capitão-mór em seu favor.

O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão;
mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial.
Nesse ponto mostrava-se inflexível.

Referiam-se como exemplo, casos de indivíduos a quem êle mandara
buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam
refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa,
passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando
o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título.

Eram faltas estas que êle não perdoava, nem esquecia. Embora
decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta
para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o
seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo
não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova
expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos,
ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro.

Arnaldo, que sabia dêstes fatos e conhecia a severidade do capitão-mór,
julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o
seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão
da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma condideração,
nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo
de generosidade do velho.

O caráter de Arnaldo tinha êste traço especial. Zeloso
de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor
aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e
torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento
da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara
ao fogo o mimo da donzela.

Por outro lado também o coração indomável era
de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade,
um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria
fôrças de o compelir jamais.

Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar
de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mór. Prestou-se
a desempenhar por algum tempo o emprêgo de vaqueiro, do qual o afastavam
os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade,
e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer
homem por obrigação e salário.

O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é
quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à
sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender
por enquanto com a vontade do capitão-mór. Fosse outro emprêgo,
que a-pesar-da disposição de seu ânimo, não o aceitaria
por uma hora.

É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância
do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões
e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma
pessoa estranha à família.

— Onde ficou o capitão Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva?
perguntou o capitão-mór à mulher.

— Na marizeira.

— Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar
ao ajudante por cima do ombro.

— Ouví, sr. capitão-mór. É daqui a meia
légua.

II – A montearia

Tinha nascido o sol.

Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como
uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se
em toda a sua pompa tropical.

A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto
ostenta a riqueza de sua vária formação geológica.

De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca
e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco
areal e divididos por um interminável meandro.

Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as
clareiras, tapeteadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas,
como rústicos e graciosos camarins.

Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e
coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes.

Do seio dêsse dilúvio, surge uma criaçãovigorosa
e esplêndida, que parece virgem ainda, tal é a seiva que exubera
da terra e rompe de toda a parte nos abrolhos e renovos.

Alí são as carnaúbas que flutuam sôbre as águas,
como elegantes colunas, carregadas de festões de trepadeiras, donde
pendem flores de todas as côres e aves de brilhante plumagem.

Mais longe as touceiras de cardos entrelaçam suas hastes crivadas
de espinhos e ornadas de lindos frutos escarlates, que atraem um enxame de
colibrís. Aí dentro da selva espêssa, fez a nambú
seu ninho, onde piam os pintinhos implumes.

Era então fôrça do inverno.

Por toda esta vasta região, na qual um mês antes fôra
difícil encontrar uma gota d’água a não ser no
fundo de alguma cacimba, rolam as torrentes impetuosas de rios caudais formados
em uma noite.

A terra combusta, onde não se descobria nem mesmo uma raiz sêca
de capim, vestia-se de bastas messes de mimoso, que a viração
da manhã anediava como a crina de um corcel. E eram já tão
altas as relvas do pasto, que inclinando-se descobriam as reses alí
ocultas.

A vegetação incubada por muito tempo desenvolvia-se com tamanho
arrôjo, que mais parecia uma explosão; sentiam-se os ímpetos
da terra a abrolhar essa prodigiosa variedade de plantas que se disputavam
o solo, e acumulavam-se umas sôbre outras.

Eram como cascatas de verdura a despenharem-se pelos vargedos, confundidas
num turbilhão de fôlhas e flores, e sossobrando não só
a terra, como as águas que a inundavam.

A superfície de cada uma dessas grandes lagoas efêmeras, produzidas
pelo inverno, tornara-se um solo fecundo, onde mil plantas palustres erguiam
seus pâmpanos formando uma floresta aquática.

Os cavalos em bandos e os magotes de éguas, soltos pela várzea,
nitriam alegremente ao avistar a comitiva, e a seguiam por algum tempo rifando
de prazer, enquanto os poldrinhos curveteavam travessos à cola das
mães.

Ao tropel dos animais surdiam das touceiras de panasco os novilhos e garrotes
mansos, que deitavam a correr pelo campo; mas o gado mocambeiro esgueirava-se
pelas moitas, e escondia-se manhoso à vista dos vaqueiros.

Não era somente na terra, mas também no espaço que a
vida sopitada durante a maior parte do ano, jorrava agora com uma energia
admirável.

Havia festas nos ares: a festa suntuosa da natureza. No meio da orquestra
concertada pelos cantos dos sabiás, das graúnas e das patativas,
retiniam os clamores das maracanãs, os estrídulos das arapongas,
e os gritos dos tiés e das araras.

Agora era um bando de jandaias que atravessava o espaço grasnando
e ralhando, em demanda de outra carnaúba onde pousar. Passava depois
a trinar uma multidãp de galos de campina, à cata do milhal;
ou um enxame de chechéus que pousava em um jatobá sêco,
e cobrindo-lhe os galhos mortos e nus de dôlhas, formava uma copa artificial
com a sua luzida plumagem negra marchetada de ouro e púrpura.

As jaçanãs esvoaçavam por cima das lagoas e pousavam
entre os juncos. Os currupiões brincavam nos galhos da cajazeira; e
a industriosa colônia dos sofrês construia os seus ninhos em forma
de bolsas penduradas pelos ramos da árvore hospitaleira.

Nada, porém, mais gracioso e alegre do que os periquitos verdes, de
bico branco, e tamanhos de um beijaflor, que adejam em bandos de cem e mais,
chilreando, como uns garotinhos, que são, dos ares.

Na côr parecem esmeraldas a voar; e no mimo e gentileza figuram os
silfros dêsses campos, que tomassem aquela forma delicada para esconderem-se
ao seio das magnólias silvestres.

A essa hora em que o capitão-mór com sua família seguia
pelos tabuleiros em busca das margens do rio Quixeramobim, outra cavalgada,
que partira de ponto diverso, caminhava na mesma direção, e
no passo em que ia, com pouco devia cortar o rumo da primeira.

Compunha-se esta segunda do capitão Marcos Fragoso e seus hóspedes
e parentes. Também êles vinham encourados; mas a vara de ferrão,
a tinham dado aos pagens para carregá-la, como outrora com as lanças
usavam os cavalheiros de tratamento.

O dono do Bargado trazia consigouma grande porção de vaqueiros
sob as ordens de José Bernardo, seu vaqueiro principal. Essa récua
de sertanejos com os pagens formavam-lhe uma comitiva respeitável,
que sem nenhuma aparência de escolta, era mais numerosa do que a do
capitão-mór.

Vinham logo após a comitiva uns comboieiros, tocando animais de carga.
As canastras suspensas às albardas, que ainda se usavam então
e vez das cangalhas, continham os aprestos necessários para o lauto
almôço, depois da montearia.

joão Correia e Daniel Ferro seguiam adiante divertindo-se com os macaquinhos
vermelhos, que saltavam pelos ramos a fazer-lhes caretas, ou que suspendiam-se
pela cauda soltando uma surriada de mofa.

Ourém que ia ao lado de Fragoso, quebrou afinal o silêncio com
estas palavras, que pareciam completar reflexões anteriores:

— E para quando fica a nossa ida à Oiticica, primo Fragoso?
Aquela que nos anunciou na mesma noite de nossa chegada? Não me parece
já tão firme em sua resolução, e não sei
se lhe diga, que acho-lhe pouco jeito para casado.

— Também a mim parecia isso impossível, respondeu Fragoso
a rir. Mas depois que vi D. Flor, o impossível é viver longe
dela; e desde que não há outro meio…

— Mas então que espera?

— Tenho pensado, primo. Êste Campelo é de uma desmarcada
soberba. Êle andou outrora em competências com meu pai; e teria
acabado seu inimigo, se a morte não o livrasse do homem que podia fazer-lhe
frente neste sertão.

— Receia que lhe recuse a mão da filha?

— É muito capaz. Não reparou que até agora ainda
não veio dar-me a boa-vinda, que é de rigor entre vizinhos?
Contentou-se em mandar-me o seu guarda-costa ou ajudante, como o chama; e
isso a-pesar-da hospitalidade que fomos pedir0lhe ao passar por sua fazenda.

— Talvez porisso entendesse que estava dispensado de vir pessoalmente,
pois já nos havia mostrado o seu agasalho.

— Não; é pura sobranceira, que usa com a gente dêste
sertão. Julga-se acima de todos. Eu já o sabia por informações
e acabei de certificar-me. Se não fosse a formosura e prendas da filha,
que me cativaram, já teria rompida. O meu vaqueiro, pensa o primo,
que me obedece? A cada ordem que lhe dou, sai-se com êste mote: «O
sr. capitão-mór proibiu.» — Depois de nossa cjegada,
recomendei-lhe que abrisse a reprêsa da várzea, para que as chuvas
não alagassem o caminho, como o primo tem visto, que é? —
«e entendesse de minha parte com o capitão-mór; e êste
sabe o que lhe disse? — «Seu patrão que me fale, êle
mesmo». Veja o que podem em mim os olhos de D. Flor.

— Tudo isto, primo Fragoso, é razão para abreviar êsse
negócio e decidí-lo quanto antes. Em sabendo suas intenções,
o homem há de mudar.

— Compreende, primo Ourém, que se tal acontecesse, era uma afronta
que eu, Marcos Fragoso, não sofro e ninguém, por mais poderoso
que êle se julgue. Também tenho orgulho; e na minha família
a paciência não é virtude de raça. Ainda ninguém
ofendeu um Fragoso, que não recebesse o castigo.

— Neste caso tornemos ao Recife.

— Está assim tão apressado?

— Confesso que não tenho nenhuma curiosidade ver pôsto
em auto cá no sertão o rapto das Sabinas, disse Ourém
motejando.

Êste remoque excitou alguma surpresa em Fragoso, que fitou o semblante
de seu primo com desconfiança. Não se apercebeu disto o Ourém,
cujas palavras não tinham oculto sentido.

— Estou que não chegaremos a tal extremidade, replicou Fragoso
no mesmo tom de gracejo. A-pesar-de toda a sua arrogância, o capitão-mór
Campelo não há de ser tão difícil de contentar.

— Para mim é fora de dúvida. Onde irá êle
achar melhor aliança.

— Em todo o caso eu estou prevenido.

— Faz bem. É o meio de enganar a esperança.

— E de impedir que se malogue, acrescentou Fragoso vivamente.

— Não diga tanto.

— Pois eu afirmo.

Desta vez foi Ourém que fitou o olhar no rosto do primo para ler aí
a explicação de suas palavras. O sorriso de Fragoso ainda mais
o embaraçou.

— O primo tem algum propósito?

— Não perguntou quando íamos à Oiticica? Pois
já estamos em caminho.

— AH! Então esta montearia?… Que ela era em honra de Diana
caçadora, eu sabia; mas não suspeitava que teríamos um
eclipse da lua, logo pela manhã. Assim Endimião prepara-se a
arrebatar do céu a deusa?

— Pretendo entender-me com o capitão-mór na volta; conforme
o que êle resolver, amanhã estaremos em sua fazenda, para fazer-lhe
o pedido com as cerimônias do costume e que êle não dispensa;
ou iremos caminho do Recife.

— Desta alternativa é que eu não tenho receio. Havemos
de tornar ao Recife, mas depois das bodas.

— Quem sabe? Podem fazer-se lá, observou Fragoso com o mesmo
sorriso malicioso que já uma vez excitara o reparo de Ourém.

— Também é verdade, sem que haja necessidade de me estar
o primo Fragoso a falar por alusão e com palavras encobertas.

— Pois quer mais claro, primo Ourém?

— O rapto das Sabinas de que falei há pouco efetuou-se no meio
de uma festa. Lembra-se?

— Muito pouco. Fui mau estudante de latim e já não sei
por onde anda o meu Eutrópio.

— Os romanos convidaram os seus vizinhos para assistirem a uns jogos
marciais; no meio do espetáculo os surpreenderam, e tomaram-lhes as
filhas.

— A que vem agora a história romana neste sertão? Não
me dirá?

— Olhe; as suas meias palavras seriam capazes de fazer-me desconfiar
que esta montearia tinha o mesmo fim.

— E que lhe parecia o alvitre?

— Muito romano, primo, e bem vê, que eu, na minha qualidade de
togado, sou pelos meios conciliadores, cedant arma togœ, como disse o
velho Túlio.

— Não tenha susto. Tudo se há de fazer em boa e santa
paz, eu o espero. Demais o capitão-mór não é homem
com quem se arrisquem tais surpresas, pois anda sempre com boa escolta.

— No quer acho que obra como varão prudente, tornou Ourém,
aproveitando o ensêjo para uma citação de Camões,
que era seu poeta favorito:

«Eu nunca louvarei
O capitão que diz, eu não cuidei.»

Tinham os dois chegado à beira de uma coroa de mato, onde já
os esperavam Daniel Ferro e João Correia, parados ao pé de uma
marizeira colossal.

Era alí o ponto designado para o encontro com o capitão-mór.

Ao cabo de breve espera, ouviram o tropel dos animais; e os cavaleiros correram
pressurosos a saudar as senhoras que já apareciam por entre o arvoredo
do tabuleiro.

Depois de trocadas as mais corteses saudações, seguiram juntas
as duas cavalgadas.

— Temos uma excelente manhã para a nossa montearia, sr. capitão-mór,
disse Marcos Fragoso.

— Excelente, em verdade, respondeu Campelo circulando com o olhar os
horizontes, como quem ainda não se apercebera do tempo que fazia.

Arnaldo, a-pesar-de preparado para o encontro, não pôde conter
o movimento de repulsão que arrancou-lhe a chegada de Marcos Fragoso.
Como, porém, estava afastado, ninguém reparou no seu gesto,
nem percebeu o olhar com que êle marcava o destruidor de sua felicidade.

Desde então, o sertanejo que já se mostrava esquivo, afastou-se
ainda mais e, a pretêsto de não estorvar o caminho aos outros,
desviou-se para o lado e seguiu por dentro do mato.

Um só instante, porém, não tirava os olhos de Marcos
fragoso. Atento ao seu menor gesto, cogitava entretanto consigo no que podia
ocorrer nesse passeio, cujas consequências êle ia conjeturando.

Como bem se presume, o sertanejo desde a noite em que ouvira a conversa do
Fragoso e seus amigos na varanda da casa do Bargado, não perdeu mais
de vista o homem a quem êle considerava seu maior inimigo.

Nessa observação o auxiliava muito o velho Jó, que nos
longos anos vividos no deserto adquirira a sagacidade de um índio.

Depois da volta de Arnaldo à fazenda, o capitão-mór
nunca mais falou do velho, nem aludiu ao fogo da capoeira. Era fato que parecia
não ter existido para êle. E como não fosse crível
que o capitão-mór deixasse ficar sem punição um
caso tão grave, a gente da fazenda teve como certa a morte do solitário.
Havia quem afirmasse que êle fôra devorado pelas chamas, pois
ainda lhe encontrara um resto dos ossos queimados. O João Coité,
porém, protestava, jurando por todos os santos, que Jó andava
ao redor da casa em figura de lobishomem, e que êle já o tinha
encontrado uma vez.

Livre, pois, o velho das perseguições que sofria, consentiu
Arnaldo que êle deixasse furtivamente a gruta onde o abrigara, para
ocultar-se nas vizinhanças do Bargado e trazê-lo ao corrente
do que alí se passava.

O Marcos Fragoso não deu mais um passo que o sertanejo não
soubesse; seguia-o como sua sombra, e por mais de uma vez o vira aproximar-se
da Oiticica na esperança de fazer-se encontrado com D. Flor.

Foi assim que êle descobriu a Bonina, e atinou com a razão do
sumiço inexplicável da novilha, cujos rasto o Inácio
Góis e a sua gente não puderam descobrir.

Tinha sido uma proeza do Aleixo Vargas, que laçara a novilha no pasto
e a levara aos ombros até o curral da fazenda do Bargado. O Marcos
Fragoso aplaudira a lembrança; e preparou-se para no dia seguinte conduzir
êle mesmo a fugitiva, toda enfeitada de nastros de fitas, e restituí-la
à sua gentil senhora.

A porteira do curral, porém, amanheceu aberta; e não houve
mais notícia do animal. Os cães de vigia não tinham latido
durante a noite para dar sinal, de modo que não se compreendia como
se dera a fuga. O Moirão persignou-se; e assentou para si que alí
andavam artes de Arnaldo ou bruxarias, o que vinha a dar no mesmo.

Quando, pois, três dias antes chegara à Oiticica o convite do
capitão Marcos Fragoso para uma montearia, Arnaldo adivinhou que o
mancebo desejava, antes de pedir a mão de D. Flor, mostrar ainda uma
vez à donzela sua bizarria e captar-lhe a admiração.

Nessa mesma noite, porém, observou êle uma circunstância
que o pôs de sobreaviso.

Tinha chegado à fazenda do Bargado na véspera um bando de gente
armada; vinha dos Inhamuns, donde com certeza a fôra chamar um próprio,
que o Arnaldo vira partir oito dias antes.

Além disso notou o sertanejo nessa e nas seguintes noites uma arrumação
e movimento d’armas de toda a casta, que mesmo para aqueles tempos de
falta de segurança, eram desusados, e indicavam preparativos de alguma
expedição.

Na véspera tornara êle já noite alta à sua rede
na copa do jacarandá, bem convencido de que o Fragoso tramava alguma
coisa; e essa convicção ainda o dominava naquele momento.

Também não lhe escapou a quantidade de vaqueiros e pagens que
formavam a comitiva do dono do Bargado; entretanto não era isso que
mais o inquietava; porém o receio de um perigo vago e indefinido, que
êle sentia agitar-se em tôrno de si, mas que não podia
apreender.

III – O Dourado

A cavalgada chegara a uma ligeira eminência donde se dominava toda
a planura em tôrno.

Era daí que melhor podia-se apreciaro aspecto dessa natureza múltipla,
que se desdobrava desde a baixa até as serras de Santa Maria, Santa
Catarina e do Estêvão, agrupadas ao norte, e da serra do Azul,
que aparecia mais longe para as bandas do Aracatí.

Nos tabuleiros um bando de emas apostavam carreira com os veados campeiros;
as raposas davam caça às zabelês; e o tamanduá
passeava gravemente hasteando o longo penacho de sua cauda à guisa
de bandeira.

Pelas margens das lagoas os jaburús caminham lentos e taciturnos ou
miram-se imóveis nas águas. As garças carmeiam com o
bico a alva plumagem; e o maranhão dorme ainda, em pé no meio
do brejo, com a cabeça metida embaixo da asa e uma das pernas encolhida.

Além aparecia ao longe um mar doce. Era o Quixeramobim, que pejado
com as chuvas do inverno, transbordara do leito submergindo toda a zona adjacente.
No meio dêsse oceano boiava uma coroa de terra, que a torrente impetuosa
arrancara da margem, e que deslizava como uma ilha flutuante.

Uma vaca surpreendida naquela nesga do solo continuava a pastar muito tranquila
o capim viçoso, e às vezes fitava admirada a margem, que ia
fugindo rapidamente à sua vista.

A várzea estava coalhada de gado, que no comprido pêlo e no
aspecto arisco mostrava ser barbatão. Os touros erguendo a cabeça
por cima das franças do panasco, lançavam à comitiva
um olhar inquieto.

— É boi como terra! exclamou o Daniel Ferro com o seu falar
sertanejo.

— Nem porisso, observou Ourém. Pela notícia, esperava
outra coisa. Alí haverá quando muito umas cem cabeças.

— Êsse é o que está no limpo, a descoberto; e o
outro? acudiu Agrela?

— Aonde?

— Por dentro do capim. Repare quando dá o vento!

Depois de uma breve pausa, para descanso dos animais, os cavaleiros preparavem-se
para começar a montearia.

Como se tratava principalmente de campear os touros bravos por divertimento,
o vaqueiro do Bargado com seus rapazes, deu cêrco à várzea,
tangendo o gado para o limpo, a fim de escolherem os cavaleiros os touros
que deviam correr apostados entre si, como era costume nessa caçada
original.

Estava o capitão-mór e seus companheiros de observação,
quando viram à desfilada o José Bernardo.

— Lá está o Dourado, sr. capitão, gritou êle
de longe, mas velando a voz como receoso de ser ouvido além.

— Pois seja benvindo, o Dourado; ainda que eu não tenho a fortuna
de o conhecer, ao tal senhor, disse o Marcos Fragoso galanteando.

— Pois não o conhece? acudiu o capitão-mór. É
verdade que desde menino saíu do Quixeramobim, onde nasceu e criou-se;
senão havia de ter notícia dele.

— É então algum façanhudo? tornou o mancebo no
memo tom.

— Tem fama por todo êste sertão, respondeu gravemente
o capitão-mór.

— E a fama já chegou aos Inhamuns, acrescentou Daniel Ferro.

— Pode ser; nunca ouví falar dele.

— Porque há três anos que o primo Fragoso lá não
vai; o Recife enfeitiçou-o.

— Mas em suma, senhores, atalhou o Ourém curioso; quem é
êsse ilustre e famoso Dourado, do qual já que o nosso Camões
não teve dele notícia, farei eu

«Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.»

O capitão-mór voltou-se para o padre Teles, que pelo jeito
acumulava ao cargo de capelão o de cronista:

— Padre Teles, conte aos senhores a história do Dourado.

— O Dourado é um boi… ia começando padre Teles.

— Um boi? atalhou o Ourém desconsertado.

— Eu também pensei que era algum valentão, observou o
João Correia que partilhara da surpresa.

— E eu tinha por certo que era o rei daquele célebre encantado,
de que tanto se fala, e que debalde procuraram os descobridores, inclusive
o nosso Pero Coelho. Mas talvez que o El-Dourado virasse boi! tornou Orém.

— Boi, sim! afirmou o capitão-mór por sua vez admirado
da estranheza do licenciado. Então que pensavam os senhores? É
um boi destemido e que tem zombado dos melhores vaqueiros dêste sertão.
Há sete anos que êle apareceu, e até hoje ainda não
houve quem se gabasse de pôr a mão no Dourado.

O capitão-mór falou com ufania, como se as proezas do animal
se contassem entre os brasões de sua fidalguia sertaneja. Nisso mostrava
bem que era cearense da gema.

— Nem o Louredo, nosso vaqueiro, pai do Arnaldo… Onde está
êle?

O fazendeiro voltara-se para procurar com a vista ao rapaz; mas não
o encontrou.

— Nem o Louredo, que foi o mais afamado campeador de todo êste
sertão, pôde com o Dourado; e não foi por falta de vontade,
que uma vez andou-lhe uma semana inteira na pista. Mas também tal mêdo
tomou-lhe o boi, que levou um sumiço grande… Há bem quatro
anos que não se tinha notícia dele. Não é isso,
padre Teles?

— Há de fazer pela páscoa, sr. capitão-mór,
respondeu o reverendo.

— Já vejo que o Dourado é um herói, um touro de
Maraton, que ainda não encontrou o seu Teseu.

— Todavia não é para comparar-se com o Rabicho da Geralda!
observou o Daniel Ferro.

— Temos outro barão assinalado? acudiu o Ourém.

— Dêste, já eu tinha notícia. Há uma antiga
de vaqueiros, acudiu João Correia.

— Ainda esta noite os rapazes a cantaram lá no Bargado, tornou
Daniel Ferro, que entoou a primeira quadra da trova.

Eu fui o liso Rabicho
Boi de fama conhecido
Nunca houve neste mundo
Outro boi tão destemido.

Padre Teles, que fôra atalhado na sua crônica do Dourado, aproveitou
o ensêjo para introduzir também a sua quadra:

Minha fama era tão grande
Que enchia todo o sertão;
Vinham de longe vaqueiros
P’ra me botarem no chão.

— Já vejo que êste foi uma espécie de Minotauro,
pois tinha de homem a fala, observou o Ourém que ria-se daqueles entusiasmos
sertanejos.

O capitão-mór ordenou silêncio com um gesto para opor
a seguinte contestação:

— O Rabicho da Geralda, sr. Daniel Ferro, foi sem dúvida um
corredor de fama. Nós ainda conhecemos o José Lopes, vaqueiro
da viúva, que nos contou as proezas de seu boi. Mas nosso parecer é
que não chegava ao Dourado.

— Veja o sr. capitão-mór queo Rabicho zombou dos melhores
catingueiros de todos êstes sertões, até do Inácio
Gomes que ainda hoje tem nome na ribeira do São Francisco.

— Não era nada à vista do Louredo, nosso vaqueiro; pode
acreditar, que é a verdade.

— O Rabicho andou onze anos fugido, sem que se tivesse notícia
dele; e o Dourado, como o sr. capitão-mór mesmo disse, só
há sete anos é que apareceu.

— Onze anos? interrogou o fazendeiro:

— A cantiga diz:

Onze anos eu andei
Pelas caa ingas fugido;
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.

O argumento tirado da cantiga, embaraçou o capitão-mór,
que voltou-se para o ajudante:

— Que lhe parece, Agrela?

O ajudante acudiu pronto.

— É certo, senhor alferes, que o Dourado, como disse muito bem
o sr. capitão-mór, só há sete anos apareceu; mas
ninguém sabe quantos anos andou sumido pelas serras, sem que se soubesse
dele. Ora, sendo um boi ainda novo, como atestam quantos o conhecem, não
é muito que viva ainda uns vinte anos e mais.

— Então que diz a isto? perguntou o capitão-mór
triunfante com a argumentação de seu ajudante. Vinte anos para
onze!…

— Ainda não me rendo, tornou o Daniel Ferro. Se o Dourado pode
durar ainda vinte anos, o que não nego, o Rabicho com certeza chegaria
aos trinta, se não viesse aquela sêca tão grande. Foi
preciso ela para acabar com aquele boi.

O capitão-mór outra vez embaraçado volveu o olhar ao
ajudante que não demorou a réplica.

— Aí está a diferença. O Rabicho acabou com a
sêca, e o Dourado escapou dela, como escapará de todas as outras
por maiores que sejam.

— Está vendo? concluiu o fazendeiro peremptoriamente. Pode jurar
em nossa palavra, sr. Daniel Ferro. Nunca houve boi como o Dourado; quem lho
diz é o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo; se
alguém disser o contrário, mentiu.

Em vista desta afirmação categórica, o Daniel Ferro
hesitou na réplica; pois o argumento do sofístico ajudante não
o convencera. Mas era teimoso, e em risco de incorrer no desagrado do potentado,
ia sustentar a sua opinião, quando felizmente ocorreu uma circunstância,
que pôs têrmo ao incidente.

Era tempo. O Agrela previra o efeito que a insistência do Daniel Ferro
ia produzir no capitão-mór, cuja vontade imperiosa não
sofria a mínima contrariedade e estava acostumada a ser, não
somente obedecida como lei, mas aceita como ponto de fé.

Receando, pois, que a partida de prazer tão aprazivelmente começada,
fosse interrompida por um desagradável conflito, o ajudante aproveitou-se
do primeiro pretêsto para desviar da disputa a atenção
do potentado:

— Lá está o Dourado! exclamou com grande alardo, apontando
para a várzea. Senhores, o Dourado!…

O capitão-mór adiantou-se para ver o famoso corredor. D. Genoveva
e as moças aproximaram-se com viva curiosidade. Marcos Fragoso, Ourém
e o capelão que falavam com as senhoras justamente acêrca do
herói, acompanharam o seu movimento.

Agrela tinha apontado a esmo para um boi, cuja côr pudesse até
certo ponto desculpar o engano. Mas o acaso incumbira-se de tornar certo o
seu dito; pois precisamente naquela ocasião, o rei dos pastos de Quixeramobim,
assomava no descampado.

Era um boi alto e esguio. Seu pêlo isabel na côr, longo, fino
e sedoso, brilhava aos raios do sol com uns reflexos luzentes, que justificavam
o nome dado pelos vaqueiros ao lindo touro. Em vez das largas patas e grossos
artelhos dos animais de trabalho, êle tinha as pernas delgadas e o jarrête
nervoso dos grandes corredores.

Os chifres não se abriam para diante em vasta curva, mas ao contrário
erguiam-se quase retos na fronte como dardos agudos e à semelhança
da armação do veado. Esta particularidade indicava que o barbatão
não se criara nas várzeas, mas que desde garrote se acostumara
a bater as brenhas mais espêssas e a atravessar os bamburrais emaranhados.

Azara refere ter visto no Paraguai muitos exemplares desta espécie
de chifres verticais e direitos, a que alí dão o nome de chivos.

O Dourado trazido pelos fábricas de José Bernardo, havia parado
no meio da várzea. Em sua atitude garbosa, reconhecia-se a altivez
do touro bravio, filho indômito do sertão, nascido e criado à
lei da natureza. Tinha êle a majestade selvagem das feras, que percorrem
livres o deserto e não reconhecem o despotismo do homem.

Com o pescoço curvo e a fronte alçada, o touro lançava
aos cavaleiros um olhar de desafio, batendo o costado com a ponta da cauda
arqueada, e escarvando o chão de leve com a unha direita. Um borborinho
surdo ressoava no vasto peito, que sublevava-se para soltar o mugido.

Todavia não se notava neste aspecto a sanha terrível do touro
sanguinário, que arroja-se ao combate cego de furor, e dilacera a vítima
com as pontas aceradas, ou vai cair aos pés do inimigo exhausto pelos
ímpetos violentos.

O Dourado tinha a coragem calma, êle conhecia o homem, e estava habituado
a afrontá-lo. No olhar com que observava os cavaleiros, descobria-se
unida à segurança do corredor, que não teme ser vencido,
a sagacidade do boi manhoso e experiente que calcula o perigo, e sabe acautelar-se.

— Então é aquele o vitelo de ouro, reverendo? disse Ourém,
voltando-se para o capelão. Vitulus conflatilis!

— Neste caso, senhor licenciado, replicou Padre Teles, é preciso
seguir o exemplo de Moisés, que o queimou, reduziu a pó, dissolveu
em água e o deu a beber aos filhos de Israel; combussit et contrivit
usque ad pulvere, quem sparsit in aquam et dedit in eo potum filii Israel.
Êxodo, cap. 32, versete 20.

— Em o nosso caso não acha, reverendo padre Teles, que bastaria
assá-lo para o almôço?

— É o que eu estava pensando, sr. licenciado; e creio que o
consumiríamos melhor assim ou numa boa açorda do que pelo processo
de Moisés.

Enquanto o licenciado e o capelão faziam êstes gastos de erudição
bíblica, as outras pessoas trocavam suas observações
acêrca do Dourado.

D. Flor também contemplara o animal com satisfação,
pois tinha seu instinto de sertaneja, filha daqueles campos e neles criada.
Além disso possuia o sentimento do belo, e sabia admirá-lo em
todas as suas formas.

— O Dourado há de ter o meu ferro! exclamou com um arzinho de
princesa que lhe assentava às maravilhas.

— Se levar algum, com certeza não será outro senão
o seu, Flor; disse o capitão-mór.

A donzela soltando a exclamação a que o pai acabava de responder,
insensivelmente volvera o olhar e encontrou Arnaldo que pouco antes se aproximara
do grupo. Ao tôrvo e sombrio aspecto do mancebo, e talvez à lembrança
do que acontecera com a flor, desviou a vista rapidamente.

— Então, senhores, vamos ao Dourado? disse o capitão
Marcos Fragoso.

— Ao Dourado! exclamou Daniel Ferro.

— É à-toa, só para correr, ponderou o capitão-mór.
O Dourado, não há quem lhe deite a unha; dos que estão
aquí, não desfazendo em ninguém, só vejo o Arnaldo,
nosso vaqueiro, filho do Louredo, mas quando tiver a experiência do
pai.

— Não conheço, disse Marcos Fragoso desdenhosamente.

O capitão-mór acenou para Arnaldo.

— Vem cá, rapaz. Aquí está: basta olhar, para
ver o filho de quem é.

Os dois mancebos trocaram um olhar rápido. Fragoso adivinhou que tinha
em Arnaldo um inimigo. Arnaldo conheceu que fôra compreendido: e isso
causou-lhe íntima satisfação. Na sua lealdade, estimava
que o adversário estivesse prevenido de seu ódio, para que não
lhe imputasse uma perfídia. Essa primeira advertência, êle
pretendia dá-la, ainda mais fraca, logo que chegasse o momento de executar
a sua resolução.

— Que dizes, Arnaldo? És capaz de tirar o feitiço ao
Dourado?

— Não sei, sr. capitão-mór; ainda não lhe
dei uma corrida: porisso não posso avaliar. Mas até hoje não
encontrei boi que deitasse poeira no Corisco, disse o sertanejo singelamente
e alisando a clina do cardão.

— Pois afianço-lhes eu, senhores, que o Dourado vai dar a sua
última carreira, exclamou Marcos Fragoso, brandindo a vara de ferrão
com galhardia. Terei a honra de oferecer-lhes ao almôço uma costela
de herói.

— Eu prefiro o lombo, disse o capelão.

— O principal é outro porém, continuou o mancebo exaltando-se.
Entre os mimos de noivado que tenho de oferecer breve à formosa das
formosas, figura um par de sandálias mouriscas de veludo, cravejadas
de pérolas; e aquí neste momento, diante destas damas, do sr.
capitão-mór e de quantos me ouvem, os quais todos tomo por testemunhas,
faço votos de tirar as solas das sandálias do couro do Dourado,
com a minha própria mão!

— Não é mal lembrado, observou Ourém. Naturalmente
foi de algum boi corredor como êste que o gigante fez as suas botas
de sete léguas, e as fadas tiraram os seus chapins. Os coturnos de
Mercúrio deviam ser do mesmo couro.

Marcos Fragoso referindo-se ao mimo de noivado, que destinava à formosa
das formosas, dirigiu o olhar tão claramente a D. Flor, que todos compreenderam
a alusão, exceto a donzela, que ainda estava distraída a ver
o barbatão, e o capitão-mór que não atendendo
ao gesto expressivo, deu às palavras do dono do Bargado outro e mui
diferente sentido.

Entendeu êle que Marcos Fragoso já tinha ajustado casamento
com outra moça. Êste fato o contrariou; mas porisso mesmo, bem
longe de demovê-lo do projeto de casar o mancebo com D. Flor, mais o
afirmou nessa resolução. O seu orgulho não sofria que
o homem por êle escolhido para marido de sua filha, fosse capaz de recusar
tão grande honra e favor, e preferir outra aliança ainda mesmo
quando já estivera tratada.

Outro sentimento porém, e tão forte como êste, reagiu
no fazendeiro. Foi o desgôsto pela jactância do Marcos Fragoso
dando como certa a sua vitória sôbre o barbatão. O senhor
de Quixeramobim sentia-se profundamente ofendido com essa presunção,
que de algum modo o amesquinhava na pessoa daquele boi, que era como que uma
glória dos seus vastos domínios, e cuja fama fazia de algum
modo parte de sua importância.

— Ora! ora!… exclamou o capitão-mór com um grosso
riso de mofa. Eu me obrigo a assar no dedo a carne que o senhor tirar do Dourado;
mas também, se não pegar o barbatão, o que é certo,
há de ter paciência que lhe mande um mamote para tirar a sola
das tais chinelas. Está ouvindo?

— Topo, sr. capitão-mór, retorquiu Fragoso, picado ao
vivo pela zombaria do fazendeiro; e juro-lhe que hei de fazer hoje melhor
montearia do que pensa vossa senhoria.

Arnaldo, cuja atenção estava alerta, notou a inflexão
particular com que o mancebo proferira as últimas palavras, e surpreendeu-lhe
o olhar irônico lançado ao capitão-mór.

Também Agrela tinha observado êste pormenor; mas o atribuira
a leve ressentimento causado pelo motejo do fazendeiro.

Não se imagina o esfôrço que desde o encontro das duas
cavalgadas fazia Arnaldo para não precipitar-se contra Frgoso, quando
êste aproximava-se de D. Flor e lhe dirigia os seus redimentos corteses
ou fitava nela os olhos namorados.

Nunca êle tinha sofrido as dôres, que então o trespassavam,
nem pensara que homem as pudesse curtir.

IV – O sorubim

As vaquejadas do gado bravio, ou montearias como ainda as chamavam à
moda portuguesa e clássica, pouca diferença tinham quanto ao
modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois.

Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com
prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda
virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impenetráveis.

Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas cantigas
sertanejas, e nas quais os vaqueiros gastavam semanas e meses à caça
de um boi mocambeiro, que êles perseguiam com uma tenacidade incansável,
menos pelo interêsse, do que por satisfação de seus brios
de campeadores.

O José Bernardo, portanto, havia espalhado sua gente de modo a fazer
com o seio do rio o cêrco da várzea, tomando as saídas
por onde o gado podia evadir-se. Êsse cordão vivo supria os muros
das coitadas e fechava um vasto âmbito, no qual os cavaleiros podiam
correr um ou mais touros e gozar assim das emoções da caça!

Tomadas estas disposições, correu o vaqueiro do Bargado a prevenir
seu patrão de que podiam dar comêço ao divertimento.

— Então, senhores?… O campo está seguro, diz o
meu vaqueiro, exclamou Fragoso.

— Pronto! acudiu Daniel Ferro, que ardia por mostrar a valentia dos
filhos de Inhamuns.

— O senhor capitão-mór dará o sinal, tornou Fragoso
com um gesto de deferência.

O velho Campelo afirmou-se na sela, e sobraçando à direita
a vara de ferrão, soltou o brado estridente do vaqueiro ao disparar,
voz que traduz-se aproximadamente por esta interjeição:

— Ecou!…

Ao grito do capitão-mór, outros reboaram; e os seis cavaleiros
arremessaram-se da ladeira abaixo no encalço do Dourado.

O touro barbatão respondera ao grito dos vaqueiros com um mugido manhoso
e afastara-se à meia carreira, como para poupar as suas fôrças
ou medir as do inimigo. De vez em quando voltava a cabeça para ver
o avanço que levavam os cavaleiros.

As senhoras ficaram na eminência, guardadas pela escolta e acompanhadas
do padre Teles, que viu com um suspiro afastarem-se os outros e lembrou-se
com saudades dos tempos, em que na ribeira do Choró êle campeava
os garrotes e novilhos barbatões, montando em pêlo no primeiro
cavalo que apanhava dos magotes soltos pelo campo.

Padre Teles tinha um tanto da polpa dêsses padres sertanejos, de que
houve tão grande cópia até 1840; sacerdotes por ofício,
êles envergavam a batina como uma couraça; e lá se iam
pelo interior à cata de aventuras. O capitão-mór, porém,
era formalista e não admitia costumes profanos em seu capelão.

Também D. Genoveva, se não fosse o recato de seu sexo, de que
o marido não a dispensava, ainda mais em presença de estranhos,
tomaria parte na montearia, para que se julgava com ânimo e disposição.
Era ela destemida cavaleira; e de-certo desempenhar-se-ia melhor da emprêsa
do que o Ourém e o Correia, moradores da cidade, e não afeitos
a êsses exercícios dos nossos campos.

—Vamos nós também divertir-nos, Flor, disse a dona, lançando
o cavalo avante.

— Anda, Alina! exclamou a donzela, seguindo a mãe.

Padre Teles a pretêsto de acompanhar as senhoras, lá se foi
também com elas a campear as novilhas que pastavam alíperto.
A-pesar-de não ser êsse gado barbatão como o outro, todavia
não era de todo manso, e às vezes a rês perseguida voltava-se
para atirar uma marrada, que as destras cavaleiras evitavam no meio de risada
e folgares.

Mais tímida, Alina deixara-se ficar na colina; e depois de alguma
hesitação aproximou-se de Arnaldo, o qual ainda imóvel
no mesmo lugar, seguia de longe a corrida com um olhar ávido e sôfrego.

— Não foi campear, Arnaldo? disse a moça à meia
voz.

— Não, Alina! respondeu o sertanejo concisamente sem tirar os
olhos da várzea.

— Eu sei a razão! tornou a órfã com uma reticência
misteriosa.

Arnaldo olhou-a de través para surpreender-lhe no rosto o pensamento.

— Foi para ficar perto de mim. Não acertei? disse Alina com
um sorriso de melancólica faceirice.

Arnaldo fechou-se e retorquiu em tom breve e esquivo:

— Não gosto destas caçadas. Campear é no largo,
onde o boi acha mundo para fugir; e mão fechá-lo como num curral
para ter o gôsto de o matar depois de cansado. Um vaqueiro não
sofre isto. Aquí está a razão por que fiquei, Alina.

— Ah! eu sabia que não era por mim; disse-o brincando. A sra.
D. Genoveva não me chama sua noiva, Arnaldo? É para zombar de
mim!

Alina proferiu esta frase com o mesmo tom de faceira melancolia, e tão
queixoso, que Arnaldo sentiu-se comovido.

— Não é de você, Alina, que zombam; mas de mim.
Eu não sou vaqueiro; sou um filho dos matos, que não sabe entrar
numa casa e viver nela. Minhas companheiras são as estrêlas do
céu que me visitam à noite na malhada; e a jurutí que
fez seu ninho na mesma árvore em que durmo. Seu noivo deve ser outro.
Eu lhe darei um que a mereça.

— Já tenho, disse Alina.

— Qual? perguntou Arnaldo surpreso.

— Não é da terra, não. Esta lá perto das
estrêlas, suas companheiras: é o céu.

Arnaldo não atendeu à resposta da moça. Um acidente
que ocorrera alí perto, na falda da colina, acabava de surpreendê-lo.

D. Genoveva e a filha continuavam a perseguir as reses que lhes ficavam próximas,
e padre Teles, um tanto emancipado,com a ausência do capitão-mór,
acompanhando-as nesse folguedo, empunhava um ramo de cauaçú
que êle quebrara para fazer as vezes de aguilhada.

D. Flor tinha nessa manhã um pequeno chale escarlate de garça
de sêda que lhe servia de gravata, e cujas pontas flutuavam-lhe sôbre
o peito do vestido de montar. Lembrando-se que a côr vermelha tem a
propriedade de enfurecer os touros, os quais supondo ver o sangue, tornam-se
ferozes, a temerária donzela desatou a faixa, e começou a agitá-la
como uma bandeirola para irritar as reses e gozar do prazer de afrontar o
perigo e escapar-lhe.

Entretanto um boi surubim, que estava escondido nas balsas de um alagado,
surdiu fora, e lançou de longe para a moça, que não o
via, um olhar traiçoeiro. Era um animal corpulento, de marca prodigiosa,
como raros exemplares se encontram no sertão, hoje que as nossas raças
domésticas estão decaídas daquele vigor primitivo que
tomaram ao influxo e contacto do novo mundo.

De repente o barbatão, levado por seus instintos perversos, e também
assanhado pelo chale escarlate que a moça imprudentemente agitava,
abaixou a cabeça armada de chifres enormes, e arremeteu, bufando um
surdo bramido.

D. Flor estava de costas, e não o viu. Ao vivo aceno de sua mãe
assustada, voltou-se sorrindo e só então conheceu o perigo que
a ameaçava. O touro vinha-lhe sôbre com a violência de
uma tromba. Corajosa como era, não se atemorizou a donzela; mas tomada
de surpresa como fôra, tinha hesitado um instante e tanto bastou para
frustrar a sua calma e destreza. Quando o baio, obedecendo ao sofreio que
o empinou, já rodava sôbre os pés para saltar e pôr-se
fora do alcance do touro, êste chegava como a bala de um canhão.

Então um urro medonho encheu o espaço abafando o grito de aflição,
que ao mesmo tempo escapara dos lábios de D. Genoveva e de Alina.

Arnaldo advertido pelo primeiro mugido do touro, volvera o olhar para o ponto,
e vira a fera já no meio da carreira com que investia para a moça.
Alina ouviu um arranco. Era o sertanejo que passava por diante dela, como
um turbilhão.

D. Flor que se considerava já ferida pelas pontas do touro, admirou-se
de estar ainda montada no baio, o qual se arrojara ao lado; e de achar-se
incólume, sem outro dano além de um leve rasgão de sua
roupa de montar. Voltando o rosto para o lugar, compreendeu então a
donzela o que se passara.

Arnaldo, ao arrancar, tinha sacado o laço do arção da
sela onde o trazia preso, e rolando-o acima da cabeça, o arremessara
com a mão segura do vaqueiro, que nunca errou o boi à disparada.
Apanhado pelos chifres, o sorubim estacara; e no repelão que dera para
safar-se, havia furado a fralda do roupão de D. Flor.

Esbarrado em seu ímpeto, o touro soltando o urro medonho que ribombou
até o fundo da floresta, redobrara de furor. Rodando para fazer frente
ao adversário, escorou-se no laço, a cavar o chão com
as unhas, e a amolar as pontas na terra. Quando acabou de visar bem o alvo,
partiu como um tiro de morteiro.

Arnaldo deitara-se sôbre o arção, alongando a vara de
ferrão pela cabeça fora do cavalo e apoiando o cabo na coxa,
forrada não só pela perneira, como pelo gibão de couro.
Assim em guarda correu êle sôbre o touro e topou-o no meio da
carreira.

O aguilhão afiado cravara-se no meio da testa do touro, que recuou
trespassado pela dôr. Com o ímpeto a vara tinha vergado como
um arco prestes a romper-se; e o cavalo foi repelido a três passos para
trás. Mas o sertanejo não se abalara da sela.

Ourém que observou de longe a cena repetia ao João Correia
êstes versos de Camões:

Qual o touro cioso que se ensaia
Para a erma peleja, os cornos tenta
No tronco de um carvalho ou alta faia.
E o ar ferindo, as fôrças experimenta.

Recolhendo a vara, Arnaldo dera liberdade ao cardão, que reatou a
desfilada um instante suspensa pelo tope, e passou ao lado do sorubim, o qual
também de seu lado prosseguia na investida.

Chegados ao extremo da corrida, ambos, o touro e o cavalo, voltaram-se rapidamente;
pararam um instante, o touro a fazer pontaria, o cavalo a esperá-la,
e partiram ambos como da primeira vez para novamente esbarrarem-se a meio
da carreira.

Assim divertiu-se o sertanejo em excitar a sanha do touro furioso, e topá-lo
na ponta da vara de ferrão. Depois de ter brincado com êle, como
um gato com o ratinho, a quem deixa fugir por negaça e para ter o prazer
de o filar outra vez, o rapaz em vez de recebê-lo na ponta do aguilhão,
desviou o cavalo do ímpeto, e alongando-se com o animal, torceu-lhe
a cauda entre dois dedos e com um jeito especial a que no sertão chamam
mucica.

O possante animal tombou por terra, como se uma clava o abatesse. Sem apear-se
o sertanejo retirou o laço, e com uma rapidez de maravilhar deu um
talho no rejeito das mãos, com o que peou completamente o animal, e
tornou-o inofensivo.

Terminada esta operação, que não consumira com a luta
precedente mais de minutos, Arnaldo veio postar-se no mesmo lugar que anteriormente
ocupava na chapada da colina, e donde continuou a observar a corrida que os
cavaleiros davam no Dourado.

No momento em que o capitão-mór partira com os outros campeadores,
Arnaldo não se influira. Como dissera a Alina, êle não
gostava daquelas correrias em que os homens assaltavam insidiosamente os touros,
tomando-lhes os passos por onde poderiam evadir-se. Parecia-lhe isso pouco
generoso. Um bom campeador já tinha demais a rapidez de seu cavalo
para pedir ainda auxílio de outros vaqueiros.

Todavia ficara de observação, porque se o Marcos Fragoso se
mostrasse capaz de pegar o Dourado, êle propunha-se a arrebatar-lhe
a satisfação dêsse triunfo como já fizera uma vez;
e consigo mesmo tinha jurado que as solas daquelas chinelas de que falara
o namorado capitão, se êste chegasse a cortá-las, teriam
feito a última proeza de sua vida.

Tornando agora a seu ponto de observação, continuou a acompanhar
a corrida; mas já então excitado pelo assalto do sorubim, dava
combate a si para permanecer alí imóvel, quando lá estava
um boi famoso a desafiar os seus brios de campeador.

Entretanto a corrida prosseguia com vários acidentes no meio do alarido
dos cavaleiros, e do estrépito com que a gente postada pela várzea
afugentava o gado acossado que buscava escapar-se do circo.

Logo no princípio o Ourém e o João Correia mostraram
que não basta envergar uma roupa de couro para tornar-se vaqueiro.
Não eram maus cavaleiros de cidade; mas coisa mui diversa é
correr em um campo alagado e coberto de mato, onde de repente falta o solo
ao cavalo, e o espaço ao homem.

Daniel Ferro, êste desempenhara galhardamente as barbas dos vaqueiros
de Inhamuns; e o Campelo a-pesar-de sua corpulência não lhe ficava
atrás. Quanto ao Agrela, sabia que sua obrigação era
ir ao pé do capitão-mór, e assim o acompanharia ao inferno.

O melhor cavaleiro porém, aquele que ia na frente e com muito avanço,
era o Marcos Fragoso. Além de ágil e consumado na arte da equitação,
como nas outras próprias dos mancebos nobres de seu tempo, êle
montava um soberbo cavalo dos Cratiús, e corria atrás de um
troféu para o seu amor. Nem o cavalo, nem êle, careciam de um
aguilhão, pois eram briosos ambos; mas o primeiro sentia o roçar
da espora, e o segundo passava no remoque do capitão-mór e do
desgôsto que sofreria, se não cumprisse o voto feito a D. Flor.

Quando Arnaldo voltara à colina, Fragoso acreditava que o Dourado
não lhe podia escapar. O boi corria frouxamente; e mal guardava entre
êle e o cavaleiro a distância de cem passos. Metia-se nas moitas
que encontrava pelo caminho, como para descansar um momento, e dava todas
as mostras de fatigado.

Era um boi astuto e manhoso, o Dourado. Êle sabia que estava cercado,
e embora não tivesse perdido a esperança de escapar-se, contudo
receava encontrar por diante homens armados de varas que lhe embargassem o
passo. Assim tinha por mais prudente cansar primeiro os cavalos e para isso
fingia-se êle estafado, a fim de exercitar os campeadores a apertar
a carreira na esperança de o pegar.

Entretanto, D. Flor aproximara-se de Arnaldo. A donzela, como sua mãe,
não tinha agradecido ao mancebo o ato de destreza com que lhe salvara
a vida. Era isso um fato natural, e que não lhes granjeara nenhuma
gratidão; ambas conheciam a dedicação do filho da Justa,
e recebiam dele essas provas de amizade, como as receberiam de um parente,
de uma criatura sua.

A donzela, porém, lembrou-se que Arnaldo conservava um ressentimento
dela, desde a noite do mimo, em que talvez fôra injusta; e aproximou-se
para com uma palavra meiga e afetuosa aplacar seu ânimo suscetível
e ríspido.

Mas no momento em que chegava a seu lado, Arnaldo arrancando o cardão
em um salto, disparava pela colina abaixo, soltando êsse brado pujante,
que o sertanejo aprendeu do índio, seu antepassado.

Êsse brado é como o rugido do rei do deserto; êle tem
a fereza do bramir do tigre, e a vibração do rugir do leão;
mas quando repercute na solidão sente-se que há nessa voz uma
alma que domina a imensidade.

Que sentimento impelira assim o sertanejo? Fôra o receio de que o Fragoso
triunfasse, ou o desejo de subtrair-se ao agradecimento de D. Flor?

Talvez um e outro motivo.

V – A carreira

Quando o Dourado ouviu o brado de Arnaldo, conheceu que tinha homem em campo;
e abrindo então a carreira, em dois corcovos deixou o Fragoso a uma
grande distância.

O mancebo perdera a esperança de agarrar o boi; e atribuindo a derrota
ao grito que espantara o animal, irritou-se contra o autor dessa picardia,
que no primeiro momento suspeitou provir de seu primo Daniel Ferro.

Logo, porém, reconheceu o engano. Um cavaleiro passou por êrle
à desfilada; e a-pesar-da velocidade da carreira pôde ver o rosto
de Arnaldo, que o ódio lhe gravara na memória.

Desde então o Marcos Fragoso continuou a correr, mas já não
era atrás do Dourado, e sim atrás do sertanejo, contra quem
se arrojou com todo o ímpeto das cóleras, que o seu afeto por
D. Flor o tinha obrigado a recalcar durante os últimos dias, e que
afinal faziam explosão.

Voltando o rosto, viu Arnaldo na fisionomia e no gesto do capitão
a expressão de seu rancor, e respondeu-lhe com um sorriso de desprêzo.

— Não fujas, cobarde! exclamou Fragoso.

— Havemos de encontrar-nos.

— É agora, neste momento, que eu vou castigar a tua insolência.

— Havemos de encontrar-nos, sr. capitão; mas quando eu quiser,
e for de minha vontade. Antes disso não conheço o senhor; e
os seus gritos, são como os berros dêstes novilhos, que ainda
não sabem urrar.

O sertanejo, que refreara um tanto a corrida do cardão para lançar
estas palavras, de novo desfechou atrás do Dourado, o qual devorava
o espaço.

O capitão-mór, Daniel Ferro e Agrela, que já vinham
atrasados, com a chegada do Arnaldo perderam a esperança, não
só de agarrar o boi, no que não pensavam mais, como de seguir-lhe
a pista. Resolveram, portanto, parar em um alto, para acompanharem com a vista
a corrida.

O mesmo faziam na colina D. Genoveva, Flor, Alina, e o Padre Teles, com João
Correia e Ourém, que tiveram por mais prudente trocar o papel de atores
daquela campanha sertaneja pelo de espectadores.

O último não perdeu ensêjo de encaixar a sua citação
dos Lusíadas. Quando chegavam à falda da colina gritou êle
para o companheiro:

Olá Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir.

O capitão-mór estava de não caber em si, com a satisfação
e contentamento de que o enchera o Arnaldo. Desassombrado do receio de que
o Fragoso, um rapaz lá de Inhamuns e de mais e mais gamenho da cidade,
agarrasse o corredor de maior fama do Quixeramobim e levasse as lampas aos
campeiros daquele sertão, o dono da Oiticica já contava como
certa a proeza de seu vaqueiro; e entusiasmava-se de antemão como êsse
triunfo, que lhe pertencia, pois êle o alcançava na pessoa de
uma criatura sua, que era como o seu braço.

Era uma corrida vertiginosa aquela. Os olhos não podiam acompanhá-la
sem turbarem-se; porque boi e cavaleiro fugiam instantaneamente à vista
que os fitava.

O capitão-mór bradava com uma voz de canhão:

— Assim, Arnaldo! Aguenta, rapaz!

O Daniel Ferro entusiasmado também com a valentia do boi e o arrôjo
do campeador, gritava:

— Ecou! Ecou!… Arriba, vaqueiro!

Agrela assistia à luta em silêncio, mas agitado por vários
sentimentos. Invejava a façanha de Arnaldo e volvia um olhar melancólico
para o sítio onde estava Alina; mas se brotou em seu coração
alguma vaga esperança de ver frustrado o esfôrço do sertanejo,
logo a sufocou a sincera admiração que inspiravam-lhe a fôrça
e a destreza.

Em D. Flor e sua mãe repercutiam as emoções do0capitão-mór,
com quem essas duas almas se identificavam sempre, sobretudo nos impulsos
generosos. Alina estremecia de susto e comunicava seus terrores ao Padre Teles,
que não a ouvia. Quanto a Ourém e João Correia, assistiam
consigo se o rapaz não estaria em algum acesso de loucura furiosa.

Que fazia então o capitão Marcos Fragoso? Tinham-no visto pouco
antes correndo com Arnaldo atrás do barbatão; logo depois desaparecera;
e ninguém nesse momento deu por sua falta.

Havia à beira da várzea e já no tabuleiro, um alto e
esgalhado barbatimão que estendia rasteiros os grossos ramos encarquilhados,
formando uma sebe viva. O Dourado vivamente acossado, meteu-se naquele embastido
e o atravessou agachado; contava êle que o vaqueiro esbarrando com tapume,
e não achando passagem, o rodeasse perdendo assim muito terreno.

Enganou-se porém. O Corisco, intrépido campeão, e sabedor
de todas as manhas do gado mocambeiro, furou a ramada sem hesitar, guiado
pela experiência, de que onde passava o corpo mais grosso do boi, devia
passar êle e seu cavaleiro.

Na disparada em que ia, Arnaldo viu os galhos rasteiros da árvore,
prolongados horizontalmente na altura do peito do cardão. Êste
coleou-se como uma serpente e resvalou quase de rastos. O sertanejo, porém,
já não tinha tempo de estender-se ao comprido e coser-se ao
flanco do animal. Então de um salto galgou o ramo, e uma braça
além foi cair na sela, para de novo pular segundo e terceiro ramo,
que sucediam-se ao primeiro.

De longe e especialmente do lugar onde estava o capitão-mór,
o que se viu foi o cavalo submergir-se na folhagem e o cavaleiro, desprendendo-se
da sela, voar por cima daquele monte de ramas, para reunirem-se afinal e prosseguirem
na desfilada.

A voz do Campelo retumbou pelo espaço:

— Bravo, Arnaldo!

Daniel Ferro eletrizado pela proeza, começou a cantar como um possesso
a quadra do Rabicho da Geralda, que celebra um passo:

Tinha adiante um pau caído
Na descida de um riacho;
O cabra saltou por cima,
O ruço passou por baixo.

Os ecos da cantiga chegaram a Arnaldo, que achou graça na lembrança
do Ferro, e também por sua vez repetiu o palavreado do Inácio
Gomes, quando corria atrás do Rabicho:

Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memória;
Quando eu vim de minha terra
Não foi p’ra contar história.

Pelo caso do barbatinão acabara o Dourado de conhecer que vaqueiro
tinha êle à cola; e entendendo que o negócio era sério,
tratou de pôr-se no seguro.

Endireitou então para uma ponta da várzea, em que a corrente
das águas tinha desde eras remotas cavado um profundo barranco, por
onde no tempo das chuvas torrenciais, borbotavam para o rio. Uma vegetação
exuberante nutrida pelo humo que a enxurrada alí depositava, cobria
êsse tremedal de sarmentos viçosos e lindos festões de
flores.

Estendido sôbre essa cúpula de verdura, um grosso tejú-assú
aquecia-se ainda sonolento aos raios do sol matutino, e abria os olhos preguiçosos
para ver a causa do alvorôço que ia pela várzea naquela
manhã.

A gente do José Bernardo não julgara necessário guardar
êsse ponto, que estava já de si defendido pelo desfiladeiro onde
nunca pensaram que o boi se arriscasse por mais afoito que fosse. Ainda não
conheciam o Dourado.

Os olhares que seguiam com atenção essa corrida cheia de peripécias,
tiveram um deslumbramento. O boi primeiro, depois o cavalo com o vaqueiro,
submergiram-se de repente naquele espêsso balseiro. Retroou um grande
baque. Todo êsse turbilhão de homem e animais acabava de despenhar-se
do barranco abaixo.

Houve um instante de ansiedade. Aqueles ânimos acostumados a essas
correrias temerárias e curtidos para todos os perigos, sentiram uma
vaga inquietação. Estaria Arnaldo naquele instante dilacerado
pelos estrepes sôbre que talvez o arremessara a queda desastrada?

Ouviu-se o grito de terror, que soltara Alina, e a exclamação
das senhoras. D. Genoveva dissera:

— Meu Deus!

Flor invocara a intercessão daquele que para ela tudo podia na terra.

— Meu pai!

O capitão-mór, escutando de longe a voz da filha, voltou-se
para dirigir-lhe um gesto tranquilizador.

Do lugar onde estava com os outros companheiros, viram-se além, na
estreita nesga de campo que ficava depois do despenhadeiro, passar umas sombras
que sumiram-se na mata. E agora ouvia-se um estrépito bem conhecido
dos sertanejos; era como uma descarga de fuzilaria que reboava na floresta.
O estalar dos ramos despedaçados pela corrida veloz de um animal possante,
como o boi, o cavalo, a anta e o veado, produz essa ilusão, que aumenta
com a repercussão profunda e sonora da espessura.

O capitão-mór reconheceu que o Dourado corria na mata; e a
velocidade de sua fuga indicava muito claramente que ia perseguido. Portanto
nada acontecera ao intrépido vaqueiro; pois êle acossava o boi
com o mesmo ardor, e já lhe estava no encalço, como se calculava
pelo breve espaço que mediava entre uma e outra crepitação.

Efetivamente Arnaldo rompia a mata naquele instante como um raio, de que
dera o nome ao seu cavalo; e para usar da frase sertaneja levava o Dourado
de tropelão. Ganhando sempre avanço, à medida que estendia-se
a carreira e a-pesar-de todas as manhas do boi, já achava-se apenas
na distância de uns dez passos, o que todavia, se nada vale no campo
one o vaqueiro pode manejar o laço, é muito no mato fechado.

Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo
a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os
mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurús
e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se
com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense.

Aqueles manejam os seus corcéis no descampado das estepes, dos pampas
e das savanas; nenhum estôrvo surge-lhes avante para tolher-lhes o passo;
êles desfraldam a corrida pelo espaço livre, como o alcião
que transpõe os mares.

O vaqueiro cearense, porém, corre pelas brenhas sombrias, que formam
um inextricével labirinto de troncos e ramos tecidos por mil atilhos
de cipós, mais fortes do que uma corda de cânhamo, e crivados
de espinhos. Êle não vê o solo que tem debaixo dos pés,
e que a todo o momento pode afundar-se em um tremedal ou erriçar-se
em um abrôlho.

Falta-lhe o espaço para mover-se. Às vezes o intervalo entre
dois troncos, ou a aberta dos galhos, é tão estreita que não
podem passar, nem o seu cavalo, nem êle, separados, quanto mais juntos.
Mas é preciso que passem, e sem demora. Passam; mas para encontrar
adiante outro obstáculo e vencê-lo.

Não se compreende êsse milagre de destreza senão pela
perfeita identificação que se opera entre o cavalo e o cavaleiro.
Unidos pelo mesmo ardente estímulo, êles permutam entre si suas
melhores faculdades. O homem apropria-se pelo hábito dos instintos
do animal; e o animal recebe um influxo da inteligência do homem, a
quem associou-se como seu companheiro e amigo.

O pundonor do vaqueiro, que julga desdouro para si voltar sem o boi que afrontou-lhe
as barbas, o campeão o compreende e o sente; essa corrida é
também para êle um ponto de honra; e porisso não carece
o seu ardor de ser estimulado.

Êsses dois entres assim intimamente ligados no mesmo intuito, formando
como o centauro antigo um só monstro de duas cabeças, separam-se
quando é mister para tornarem-se pequenos e passarem onde não
caberiam juntos. Cada um cuida de si unicamente, certo de que o outro basta-se;
mas ambos aproveitam da observação do companheiro, e reunem
seus esforços no momento oportuno.

É assim que explica-se a rápida percepção que
chega a ponto de parecer impossível, e a prontidão ainda mais
prodigiosa do movimento com que o cavalo e o cavaleiro se esquivam aos embates,
e sulcam por entre as vagas revôltas do oceano.

Já iam muito pela mata a dentro, quando o Dourado tentando um esfôrço
para escapar, meteu-se imprudentemente por um bamburral quase impenetrável.
Êle bem vira que essa brenha era urdida de grossas enrediças
de japecanga, capazes de arrastar o mais grosso madeiro, de tão fortes
que são. Mas se pudesse romper, estaria salvo; porque o vaqueiro não
conseguiria abrir caminho sem o auxílio da faca.

Ficou, porém, enleado no labirinto; e quando fazia os maiores esforços
para despedaçar aquelas cadeias com as patas e os chifres, chegou Arnaldo
ao pé do bamburral. Logo percebeu o sertanejo que o boi estava emaranhado;
e que êle facilmente podia alí agarrá-lo.

Mas o moço sertanejo entendeu que não era generoso, nem mesmo
leal, aproveitar-se daquele acidente para pegar o boi que êle queria
vencer por seu esfôrço e valentia, e não pelo acaso. Assim
parou à espera que o touro se desvencilhasse dos cipós.

— Não dou em homem deitado, camarada. Safe-se da embrulhada
em que se meteu, meu Dourado, e tome campo; que daquí dêste arção,
ninguém o tira. Digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que nunca mentí
a homem, quanto mais a boi.

Isto dizia o sertanejo a rir, e o Corisco parecia entendê-lo, pois
olhava o Dourado com um certo ar de mofa e soltava uns relinchos mui alegres,
que se diriam estrídulas gragalhadas.

A êstes relinchos do Corisco responderam a alguma distância outros
cavalos, mas com a voz abafada. Arnaldo aplicou o ouvido para bem distinguir
aqueles sons e marcar a direção e lugar presumível donde
vinham.

Entretanto o Dourado conseguira desembaraçar-se da meada de enrediças,
e astutamente espreitava a ocasião de espirrar daquele refúgio,
de modo a ganhar parte do avanço que perdera.

Arnaldo não teve tempo de demorar-se na escuta. O boi arrancara de
novo e êle seguia-lhe o trilho, certo de que já não lhe
escapava. Com efeito, ao cabo de um estirão de carreira impetuosa,
o destemido vaqueiro alcançou o barbatão e pôs-lhe a mão
sôbre a cauda; mas não quis derrubá-lo. Êle tratava
o Dourado com a gentileza que os cavaleiros usavam outrora no combate; a derruba
era uma afronta que não infligiria a um corredor de fama como aquele.

Emparelhou o sertanejo seu cavalo com o boi, e passando o braço pelo
pescoço dêste, continuaram assim a corrida por algum tempo ainda.
Afinal o boi parou; conheceu que fugia debalde: já tinha na cabeça
o laço que o vaqueiro lhe passara rapidamente.

Arnaldo prendendo a ponta do laço ao arção da sela,
tirou o boi para o limpo, a fim de orientar-se e ver o rumo em que ficava
a colina escolhida para ponto de parada da comitiva. Surpreendeu-o a impassibilidade
do Dourado, que permanecia grave e taciturno.

Estava o sertanejo muito acostumado a ver a fôrça moral do homem
dominar não só o boi, como outras feras mais bravias, a ponto
de abater-lhes de todo a resistência. Mas ainda não tivera exemplo
daquela indiferença. O barbatão não parecia o touro que
pouco antes corcoveavapelo mato, e sim um carreiro tardo e pesado.

Isso levou-o a examinar o boi para verificar, se ficara ferido ou estropeado
da carreira, como acontece frequentemente. O Dourado estava são; mas
triste e abatido. Grossa lágrima, porventura arrancada por alguma vergôntea
que lhe ofendera a pupila, corria da pálpebra.

O sertanejo é supersticioso. A solidão, quando não a
acompanha a ciência, inspira sempre êste feiticismo. Vivendo no
seio da grande alma da criação, que êle sente palpitar
em cada objeto, tudo quanto o cerca, animal ou coisa, parece ao homem do campo
encerrar um espírito, que alí expia talvez uma falta, ou espera
uma ressurreição.

Arnaldo acreditou que o Dourado chorava. O famoso corredor, que há
sete anos desafiava os mais destemidos vaqueiros, carpia-se, porque afinal
fôra vencido, e ia ser reduzido, êle, touro livre e brioso, a
um boi de curral, ou talvez a um cangueiro.

O sertanejo ficou pensativo. Aquele boi que êle tinha ao arção
da sela, era o seu triunfo como vaqueiro, pois quando êle o apresentasse,
todos o proclamariam o primeiro campeador, e sua fama correria o sertão.

Aquele boi era mais ainda; era o prazer que D. Flor ia ter vendo o valente
barbatão marcado com seu ferro; era a humilhação de Marcos
Fragoso, cujas bravatas o tinham irritado, a êle Arnaldo; era finalmente
a satisfação do velho capitão-mór, que se encheria
de orgulho com a proeza do seu vaqueiro.

Entretanto quando o mancebo ergueu a cabeça, o movimento de generosa
simpatia e fraternidade que despertara em sua alma a tristeza do boi vencido,
tinha alcançado dele um sacrifício heróico. Resolvera
soltar o Dourado.

Nenhum outro homem, dominado por tão veemente paixão, seria
capaz dêsse ato. Mas o amor de Arnaldo vivia de abnegação;
e eram êsses os seus júbilos. O pensamento de elevar-se até
D. Flor, não o tinha; e se ela, a altiva donzela, descesse até
êle, talvez que todo o encanto daquela adoração se dissipasse.

Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro, que trazia à
garupa, e a que no sertão dá-se o nome de maca.

Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um
aguilhão, para arrnajar as letras com que marca as reses de sua obrigação
e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até
mesmo para consertar a espingarda.

Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava
uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era
mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados
no sertão.

Essa flor, que tinha por estame uma inicial, significava o emblema da mulher
a quem idolatrava. Seu timbre, sua glória, era gravá-lo no gado,
como em todos os animais bravios, que seu braço robusto domava. Assim
os submetia ao domínio e jugo da soberana de seu coração.

Por toda a parte, nas rochas, como nos troncos seculares, êle tinha
esculpido êste símbolo de sua adoração. Como os
descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco
para tomar posse dessas paregens em nome de seu rei, êle, Arnaldo, na
sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava
o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sôbre toda a criação.

O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido,
que lhe serviu de braseiro para quentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se
ao boi nestes têrmos e com um modo afável.

— Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o
à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não,
ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é
um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos
anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia,
quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e êsse
foi Arnaldo Louredo.

O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter
êle entendido, e continuou:

— Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha
paciência, meu Dourado, êsse há de levar; que é
o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é
ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago
o seu ferro aquí, no peito. Olhe, meu Dourado.

O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que êle havia
picado na pele, sôbre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido
da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O
debuxo de Arnaldo fôra estresido com o suco do coipuna, que dá
uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os
sertanejos tingem suas redes de algodão.

Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o
sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o
Dourado sôbre a pá esquerda.

— Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem
de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?… Pode voltar aos
seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço
o rasto.

O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira,
voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e
desapareceu.

Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus.

E o narrador dêste conto sertanejo não se anima a afirmar que
êle se iludisse em sua ingênua superstição.

VI – Os bilros

Quando Arnaldo correndo atrás do Dourado, respondeu com palavras de
desprêzo ao desafio do Fragoso, êste já irado teve tal
acesso de cólera que produziu-lhe uma vertigem.

A impossibilidade de punir imediatamente a insolência do vaqueiro eu
causa a essa congestão de ódio. Por momentos esteve sem acôrdo,
como alucinado; mas recobrou-se breve.

Se tivesse na mão uma arma de fogo qualquer, pistola ou clavina, com
certeza a houvera disparado contra Arnaldo; mas privado como estava de qualquer
meio de saciar a sua vingança, e vendo o sertanejo afastar-se cada
vez mais na velocidade de sua carreira, êle descarregou a sua raivasôbre
o cavalo.

Ferido ao vivo pelos acicates, e ao mesmo tempo sofreado pela rédea,
o árdego animal começou a corcovear, e foi aos trancos atirar-se
em um atoleiro que a passagem constante do gado tinha cavado no meio de umas
touceiras de carnaúbas.

Já fatigado da carreira, alí ficou a patinhar na lama, o que
ainda mais exasperou o cavaleiro. Saltando na ilha que formava uma das touceiras,
o Fragoso apanhou os talos da palmeira e com êles esbordoou o animal.
Êste, pungido pela dôr, conseguiu galgar o atoleiro e fugiu; a
fúria do moço capitão voltou-se contra as plantas, e
êle continuou a fustigar os cardos, os crauatás e os troncos
da carnaúba.

Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas,
e as mãos finas e macias vertiam sangue. Então escoado por essa
exerção física o primeiro ímpeto de cólera,
a razão, se ainda não reassumiu o seu império, pôde
sofrear a índole violenta.

Concentrou-se e refletiu.

Marcos Fragoso era de ânimo generoso, ornado de prendas de cavalheiro;
mas tinha o gênio arrebatado e irascível. Além disso,
a-pesar-do atrito da cidade e polimento da vida praceira que levava no Recife,
era ainda sertanejo da gema; sertanejo por descendência, por nascimento
e por criação.

Os sertanejos ricos daquele tempo era todos de orgulho desmedido. Habitando
um extenso país, de população muito escassa ainda, e
composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos de toda a casta,
o estímulo da defesa e a importância de sua posição
bastariam para gerar neles o instinto do mando, se já não o
tivessem da natureza.

Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade
de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira
que os cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor.
Assim constituiam-se pelo direito da fôrça uns senhores feudais,
por ventura mais absolutos do que êsses outros de Europa, suscitados
na média idade por causas idênticas. Traziam séquitos
numerosos de valentões; e entretinham a sôldo bandos armados,
que em certas ocasiões tomavam proporções de pequenos
exércitos.

Êstes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito
e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não
penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios.
Quando a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes
títulos e patentes, êles a acatavam; mas se tratava-se de coisa
que lhes fosse desagradável não passava de papel sujo. Não
davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma
era uma conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo
arranjada com o auxílio do capelão devidamente peitado, que
a conciência do católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente
o direito de vida e de morte, jus vitæ et næcis, sôbre seus
vassalos, os quais eram todos quantos podia abranger o seu braço forte
na imensidade daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em
seus domínios, e procediam de plano, sumarissimamente, sem apêlo
nem agravo, em qualquer das três ordens, a baixa, média, e a
alta justiça. Não careciam para isso de tribunais, nem de ministros
e juízes; sua vontade era ao mesmo tempo a lei e a sentença;
bastava o executor.

Tais potentados, nados e crescidos no gôzo e prática de um despotismo
sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu aceno,
e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato, que
passava de vassalagem e chegava à superstição, não
podiam, como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão
distantes, que a arrogância de um não afrontasse o outro.

Quando por acaso se encontravam na mesma zona, o choque era infalível
e medonho. Ainda hoje está viva no sertão a lembrança
das horríveis arnificinas, consequências das lutas acirradas
dos Montes e Feitosas, mais tarde dos Ferros e Aços. O rancor sanguinário
das dissenções políticas de 1817 e 1824, foram resquícios
dessas rivalidades e ódios de família, que mais breves não
cederam contudo na crueza e animosidade às dos Guelfos e Gibelinos.

O capitão Marcos Fragoso, ainda moço, arredado havia anos do
interior e limado pela vida da cidade, não estava no caso de um dêsses
potentados do sertão, e não podia julgar-se com direito e fôrça
de entrar em competência com o capitão-mór Gonçalo
Pires Campelo, cujo nome era temido desde o Exú até os confins
do Piauí.

Assim, quando arrastado pela paixão que nele acendera a formosura
de D. Flor, deixara o Recife e viera ao Quixeramobim, sob o pretêsto
de visitar sua fazenda do Bargado, mas com o fim único de aproximar-se
da donzela, dispôs-se o moço capitão a render a sua homenagem
ao senhor daquele sertão, a quem já considerava como sogro.
Acreditava, porém, que essa homenagem fosse acolhida de um modo obsequioso
e retribuída por uma deferência a que se julgava com título.

Falhou a sua conjetura. O capitão-mór lhe dera em sua casa
o mais cortês e suntuoso agasalho; porque nisso não tivera em
mente obsequiá-lo e sim fazer ostentação de sua opulência.
Desde, porém, que êle, Fragoso, transpusera o limiar e deixara
de ser hóspede da Oiticica, o senhor de Quixeramobim não o considerou
mais senão como um vizinho que lhe devia todas as honras e bajulações,
passando a tratá-lo nessa conformidade.

Se não ocorresse ao capitão-mór a idéia de aproveitar
o mancebo para dar à sua filha querida um noivo sofrível, certamente
que nem o mandaria visitar por seu ajudante, nem o deixaria passar tranquilo
no Bargado, cêrca de um mês; já lhe houvera suscitado algum
conflito para ter ensêjo de obrigá-lo a um ato formal de submissão.

Esta sobranceria picou ao vivo o Marcos Fragoso; e se não fosse tão
veemente e irresistível a sedução dos encantos de D.
Flor, já seu orgulho se teria revoltado contra aquele soberbo desdém.
O receio de perder a dama de seus afetos e tornar impossível a aliança
que sonhava, pôde tanto nele, que o conteve.

Depois de realizada a sua ambição e de alcançada a posse
da noiva, então êle se despicaria dêsse procedimento, obrigando
o sogro a tratá-lo de igual a igual; e fazendo-lhe sentir que a honra
dessa aliança, não a recebia êle, capitão Marcos
Fragoso, filho do coronel do mesmo nome de seu competidor lhe sucedera na
importância e tornara-se o potentado de Quixeramobim.

Quando cogitava nestas coisas, e recordava as rivalidades que outrora começavam
já a levantar os dois vizinhos um contra o outro, acudiu-lhe a idéia
de uma recusa da parte do capitão-mór; e se a princípio
sua altivez repeliu a possibilidade do fato, refletindo, pareceu-lhe muito
próprio o capitão-mór aproveitar-se da oportunidade para
abater na pessoa dele o nome e a memória do coronel Fragoso, calcando
depois de morto aquele a quem em vida não pudera igualar.

Várias razões haviam de pesar no ânimo do dono da Oiticica
para aceitar a sua aliança: o grosso cabedal que ainda possuia êle,
Fragoso; a vantagem de ter por vizinho na rica fazenda do Bargado um parente
próximo, o que lhe assegurava o tranquilo domínio de todo o
Quixeramobim; e finalmente as prendas e mancebo e cavaleiro, que muito valiam
para noivo de uma filha mimosa e bem querida.

— Tudo isto, porém, pensava êle, o capitão-mór
é homem para desprezar em troca de uma satisfação de
seu destemperado orgulho. Portanto cumpre-me tomar as devidas precaições.
Tenho suportado e continuarei a suportar suas arrogâncias, por amor
da filha; mas albardar todas essas grosserias e ainda por cima a afronta de
uma recusa, saindo da emprêsa, além de insultado, escarnecido?…
Não; de outra livrem-me os anjos, que desta me saberei guardar.

Efetivamente o capitão já tinha o seu plano feito; tratou de
realizá-lo.

Mandou chamar de sua fazenda das Araras, nos Inhamuns, o seu cabo de bandeira,
Luiz Onofre, com ordem de trazer-lhe uma boa escolta de gente decidida. O
bandeirista havia chegado à marcha forçada três dias antes,
conduzindo trinta cabras, dispostos a tudo para ganharem a prometida paga
e gozarem do prazer de matar e esfolar.

Essa gente arranchou-se na caserna que o Bargado, como todas as grandes fazendas
de então, possuia para aquartelamento dos acostados. Explicou-se a
chegada de modo a não despertar suspeita: era a escolta que devia acompanhar
o moço capitão à sua fazenda das Araras.

No mesmo dia teve Fragoso uma longa conferência com o Onofre; e saíram
ambos a percorrer os arredores. Na volta escreveu o dono do Bargado a carta
convidando seu vizinho, o dono da Oiticica, e a família para a montearia.

Na conferência fôra combinado, de pois do estudo do terreno,
que Onofre se postaría de emboscada com sua escolta no lugar conhecido
por Baús, em caminho da várzea do Quixeramobim.

Na volta da montearia, o Fragoso obteria sob qualquer pretêsto uma
audiência do capitão-mór e lhe faria o seu pedido, desculpando-se
do lugar, com as razões que levaria preparadas. Se a resposta fosse
favorável, estava tudo resolvido pelo melhor; no caso de uma negativa,
o Onofre receberia o aviso por um sinal convencionado. Então ao passar
D. Flor, que pelas cautelas tomadas se acharia separada do resto da comitiva
e sobretudo da escolta, o bandeirista arrebataria a donzela e partiria com
ela para o Bargado, seguido por Marcos Fragoso.

A intenção do Fragoso era casar-se imediatamente com D. Flor,
para o que já tinha no Bargado um padre que mandara vir de Inhamuns
com a escolta e que só alí chegara na noite antecedente, por
ter-se demorado em caminho com uma sdesobrigas que pingaram sempre umas pratinhas.

Assim, quando o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo dispunha-se
a, em qualquer dia, mandar recado ao dono do Bargado e anunciar-lhe o alvitre
que tomara de casá-lo com sua filha, Marcos Fragoso preparava-se para
raptar a donzela que já lhe estava àquela hora destinada.

Nessa resolução partira êle para a montearia, e bem o
demonstrara na conversa com seu primo Ourém.

Todavia absteve-se de comunicar-lhe o plano, e buscou desvanecer suspeitas
suscitadas por suas alusões e ambiguidades. Além de não
saber que pensaria o outro do projeto, não contava com a sua calma
e dissimulação para guardar o segrêdo e não aventar
desconfianças.

Fôra nestas disposições que sobreviera o incidente de
Arnaldo. O seu gênio impetuoso, por muitos dias sofreado, prorrompera
naquela explosão de ira, em que vazou todas as cóleras e irritações
acumuladas desde a sua vinda a Quixeramobim.

Mas deixâmo-lo na touceira junto das carnaúbas, concentrado
e a refletir.

O resultado dessas reflexões foi o que se devia esperar de um homem
tão violentamente apaixonado como êle. Em poucas horas ia decidir
da sorte de seu amor; de uma ou de outra forma, D. Flor lhe pertencia.

Devia por um arrebatamento imprudente comprometer sua felicidade, e frustrar
a ocasião que nunca mais se apresentaria? Seria uma insensatez.

Chamou pois a si toda a energia da contade, para impor a seu temperamento
a calma precisa: compôs o traje, cujo desarranjo podia denunciar a perturbação
interior do espírito e cuidou em reunir-se aos companheiros.

Seu cavalo andava alí perto na várzea, aparando as pontas do
capim mimoso; foi-lhe fácil apanhá-lo.

A pequena distância andada, acistou os outros vaqueiros que por prazer,
andavam a montear o gado barbatão. Encaminhou-se para quele ponto.

Veio-lhe ao encontro o Ourém.

— Ora ressuscitou o primo Fragoso! Já pensávamos que
o El-dourado tinha-lhe pegado o encanto e que andava por aí também,
não em figura de touro, a-pesar-de que Júpiter não se
deshonrou de o ser para carregar às costas a bela Europa; mas na figura
de um daqueles gentís amorinhos que andam a beijar as flores. E como
a flor das flores ainda não encontrou um bem atrevido para beliscar-lhes
as faces, era bem presumível que o primo à semelhança
do Cisne de Leda se disfarçasse no passarinho.

— Pois aquí me tem no meu próprio original de carne e
osso, primo Ourém; e como destas corridas de touros não se tira
outro proveito senão uma dome de caçador, vou saber em que altura
anda o almôço, pois já passam das horas.

— Não serei eu que o demore nessa pia intenção;
pois se o primo com o coração cheio sente as badaladas do estômago,
imagine o que será de mim, que já me sinto todo um vácuo.

O Fragoso continuou o seu caminho. Ao passar por uma árvore viu os
luzidos festões de uma trepadeira que descia dos galhos em bambolins
de verde folhagem, recamada das mais belas flores purpúreas, quais
pingentes de rubís.

O moço capitão colheu um ramalhete dessas lindas flores que
no sertão chamam bilros; e dirigiu-se para a colina onde estavam as
senhoras. O capitão-mór que o viu passar, gritou-lhe de longe
com a sua voz de trovão, fazendo ribombar desapiedadamente aquele seu
grosso riso de mofa:

— Então, sr. capitão Fragoso, que novas dá-nos
do Dourado? Já esfolou o boi de fama, e traz aí as solas das
chinelas? Olhe que o prometido é devido. Quando quiser, o mamote está
à sua disposição.

A-pesar-do ânimo resoluto em que vinha, careceu o Fragoso de muito
domínio sôbre si, para recalcar a violência de seu despeito
e responder com ar prazenteiro:

— A nova que trago, sr. capitão-mór, é que não
nascí para o ofício de vaqueiro, mas para o ter ao meu serviço.
Foi isto que me ensinou o Dourado; e achando eu que tinha muita razão,
deixei-o ir descansado e prometi-lhe mandar o José Bernardo entender-se
com êle.

— Não é preciso, oboi não tarda aí. O Arnaldo
já o derrubou comc erteza, retorquiu o capitão-mór.

— Melhor; fez sua obrigação.

Marcos Fragoso aproximou-se então de D. Genoveva:

— Quando corria, lembrei-me que em vez de dar caça a um boi
magro e fujão, empregaria melhor o meu tempo colhendo estas lindas
flores para a senhora D. Genoveva e sua formosa filha, de quem são
irmãs, pois também são flores, porém mais meninas
e menos encantadoras. Dá-me licença que lhe ofereça,
a ela, D. Flor e à sua gentil companheira?

O galanteio era bem torneado para o tempo, e foi expresso com um apuro de
maneiras, que já não se usa agora, e ainda mais naqueles sertões
de gente franca e rude.

— Agradeço por mim e por elas, disse D. Genoveva, distribuindo
as flores pelas duas moças.

— São muito lindas, observou D. Flor ao mancebo. Chamam-se bilros.

— Ah! não sabia, acudiu Fragoso; serão de fadas, pois
que outros dedos podem tanger bilros tão graciosos e delicados, que
nem os de coral os excedem?

Convidou então Marcos Fragoso as senhoras a se apearem para recolherem-se
do sol, na tenda já armada alí perto.

VII – A volta

Na ourela da mata, à sombra de umas grandes sicupiras copadas de flores
roxas, tinham os criados do capitão Marcos Fragoso arvorado um tôldo
de damasco amarelo, sôbre estacas vestidas com o mesmo estôfo
de côr azul, formando assim um vistoso e elegante pavilhão.

Alí já estava armada a mesa, a qual, feita de improviso com
quatro forquilhas e ramos, ocultava êsse aspecto rústico sob
as telas de sêda que a fraldavam até o chão. Sôbre
a alvíssima toalha do melhor linho de damasco, ostentavam-se com profusão
as várias peças de uma riquíssima copa de ouro, prata,
cristal e porcelana da Índia, que ofereciam ao regalo dos olhos, como
do paladar, os vinhos mais estimados e as mais saborosas das iguarias da época.

As canastras em que tinham vindo todos êsses objetos, reunidas umas
às outras de ambos os lados da mesa e fraldadas igualmente de telas
de sêda escarlate, formavam dois sofás ou divãs para assento
dos convidados.

O chão fôra tapeçado com uma grande alcatifa mourisca,
na qual se viam estampadas as figuras das hurís e dos guerreiros bem-aventurados,
trançando no paraíso as mais graciosas dansas orientais, ou
trocando entre si ardentes carícias.

Felizmente para a tranquilidade do banquete, as estampas da tapeçaria
ficavam quase de todo ocultas pela mesa e assentos; pois do contrário
o capitão-mór, apercebendo-se de semelhante desvergonhamento,
não o suportaria de-certo; e nós já sabemos a fôrça
de pressão do seu orgulho, quando ofendido.

As damas que tinham-se recolhido ao pavilhão por convite de Fragoso,
já estavam sentadas no sofá; e só esperavam para se porem
à mesa, a chegada do capitão-mór e dos outros companheiros,
que aproveitavam o tempo a montear as reses bravas.

A vitela que forneceu a carne para o banquete fôra lançada pelo
próprio capitão-mór e sangrada pelo Daniel Ferro. O João
Correia tinha feito também a sua proeza. Correndo atrás de um
boiote, foi sôbre êle com tal fúria, que, focinhando o
seu cavalo no chão, achou-se êle montado no novilho; êste
espantado com a carga deitou a correr para o mato como um desesperado. O primeiro
ramo baixo atirou ao chão com a carga.

O capitão-mór apenado-se, contou à mulher a façanha
do recifense.

— Aquí está o sr. capitão João Correia,
que levou as lampas a todos, D. Genoveva. Montou num boiote, e largou-se a
correr para o mato com tanta fúria que furou pela terra a dentro.

— Então divertiu-se muito? perguntou D. Genoveva ao capitão
para arredar a lembrança do seu revés.

— A vaquejada é um belo passatempo, sem dúvida; mas eu
prefiro a caça a tiro.

— Então já não é vaquejada; é matança
como usam os que precisam da carne para comer, disse o Daniel Ferro.

Pagens do reino, vestidos de garridas librés à moda do tempo,
com longas casacas de abas largas, calções e meias brancas,
vieram apresentar às damas e convidados ricas bacias de prata dourada,
para lavarem as mãos, entornando água de jarros do mesmo lavor
e metal.

Ao ombro esquerdo traziam êles alvas toalhas do mais fino esguião
lavradas de labirinto com guarnições de renda, trabalhos êstes
em que as filhas do Aracatí já primavam naquele tempo, e que
lhes valeu a reputação das mais mimosas rendeiras de todo o
norte.

Depois que o capitão-mór e sua família enxugaram as
mãos, o Marcos Fragoso fazendo as honras do banquete com a apurada
cortesia, conduziu à mesa seus convidados colocando-os nos lugares
a cada um destinados conforme o grau de cerimônia e importância.

Ao capitão-mór coube a cabeceira; as damas com o capelão
ocuparam um lado; e o outro lado ficou para Ourém, Daniel Ferro, João
Correia e o Agrela; Marcos Fragoso sentou-se no tôpo.

Eram mais de oito horas. Para a época e o lugar tardara o almôço;
mas fôra preciso dar tempo à montearia, mais agradável
com a fresca da manhã. Além de que os tarros de leite fresco,
mugido do peito das vacas alí mesmo no pasto, haviam confortado os
estômagos. Todavia o apetite foi o que se devia esperar depois de três
horas de equitação e dos exercícios ativíssimos
da vaquejada.

O sol já estava alto; mas seus fogos eram moderados pela aragem fagueira
que durante os meses do inverno reina no sertão.

Aquela festa cortesã, arreada com todos os primores do luxo, tinha
alí no seio do deserto um encanto especial e novo que perderia, se,
em vez da floresta, a cingissem as paredes do mais suntuoso palácio.
As telas de veludo e sêda, desfraldadas por entre o verde estôfo
da folhagem; a competência do cristal, do ouro e da prata com as flores
e os frutos dos mais finos matizes e de mil formas caprichosas; a antítese
da arte no seu esplendor com a natureza em sua virgindade primitiva: era de
enlevar.

O banquete foi demorado. A princípio correu quase silencioso; os caçadores
tratavam de aplacar os rebates do apetite, que a-pesar-do anexim, não
cedia ao do pescado, na fome como na sede.

Durante essa primeira parte do almôço, alguns pagens tocavam
charamelas, gaitas e outros instrumentos que formavam então as bandas
de música marcial.

Mais tarde levantou-se a conversação na qual tomou parte ativa
Marcos fragoso.

Não perdeu o moço capitão vez de insinuar a D. Flor
alusões e finezas encobertas que todos entendiam, menos a donzela,
cuja índole não se prestava a tais ambiguidades, e o capitão-mór,
para o qual a mitologia em que os namorados de então se forneciam de
galanteios, era um latim rebarbativo.

Já estava a terminar o almôço, quando Arnaldo que tornava
da corrida, ouviu de longe os brindes que se trocavam entre os convidados.
Aproximou-se cautelosamente por dentro do mato. O seu nobre semblante, que
tinha habitualmente a expressão viva e atenta, que é própria
do sertanejo, nesse momento apresentava uma alerta ainda mais pronta e vigilante.

Por entre as árvores descobriu êle as cavalgaduras, que pastavam
à soga em uma clareira coberta de relva e sombreada pela mata. Perto
do baio de D. Flor, estava um rapaz de vinte anos, que pelo tipo das feições
e pela côr baça do rosto combinada com os cabelos negros e lustrosos,
mostrava pertencer à raça boêmia, da qual nesse tempo
e até época bem recente, vagavam pelo sertão bandos que
viviam de enliços e rapinas.

O escritor desta páginas ainda tem viva a lembrança dessas
partidas de ciganos, que muitas se arrancharam no sítio onde nasceu,
e cuja derrota era assinalada pelo desaparecimento das aves e criação
e animais domésticos, especialmente cavalos, quando não havia
a lamentar o furto de crianças, de que faziam particular indústria.

O rapaz que Arnaldo vira, era um cigano desgarrado, como havia alguns por
exceção; e estava a fazer ao baio uns afagos e carícias,
tão cacheiros que para exprimí-los, adotou a língua o
seu próprio nome. O povo rude chamava a isso, enfeitiçar o cavalo;
e acreditava que o animal assim enliçado fugia do dono para seguir
o ladino.

O sertanejo parou um instante a observar o cigano, e seguiu adiante.

O capitão-mór pela posição em que estava foi
quem primeiro o avistou, e de longe, ainda gritou:

— Sempre escapou-te, o Dourado, rapaz? Aquilo é um boi danado,
e manhoso como nunca se viu. Mas não te desconsoles. Outra vez com
certeza lhe deitas a unha. Êle ficou te conhecendo desta primeira corrida
que lhe deste, e já sabe o filho e quem és. Teu pai, o Louredo,
nosso vaqueiro, e o primeiro campeador de todo êste Quixeramobim, o
que quer dizer de todos os sertões do mundo, levou uma semana atrás
dêsse boi desaforado.

Ao terminar desta fala, já Arnaldo achava-se perto da mesa. Marcos
fragoso, a-pesar-de haver-se convencido da necessidade de suportar com uma
altiva impassibilidade a presença do vaqueiro que o havia insultado,
custou a conter-se, e como o banquete havia terminado apartou-se com o primo
Ourém para não precipitar-se.

— Portanto, concluiu o capitão-mór, erguendo-se da mesa
e caminhando para o sertanejo, não tens de que te envergonhar, rapaz!
Aprendeste as manhas do boi; qualquer dia dêstes consegues pegá-lo.

— Eu já o peguei, sr. capitão-mór, disse Arnaldo
sem alterar-se.

— Que dizes? Pegaste o Dourado, rapaz? perguntou o fazendeiro na maior
surpresa.

— Á unha, sr. capitão-mór.

— Bravo, Arnaldo! Onde está o maganão? Trouxeste-o à
ponta de laço, ou deixaste-o amarrado ao pau, que não é
boi para matar-se aquele?

— Tive pena dele, e solteio-o, respondeu Arnaldo com emoção.

— É boa! exclamou João Correia. Pena de um demônio
em figura de boi!

— Que ternuras de vaqueiro! acrescentou Daniel Ferro.

— Soltei o Dourado, sr. capitão-mór; porém antes
marquei-o com o ferro de D. Flor, como ela tinha-me ordenado, concluiu Arnaldo
sem dar ouvido às observações impertinentes.

O capitão-mór exultou:

— Flor, já sabe? O Dourado está com o seu ferro. Não
pediu?

— Eu sabia que êle tinha de ser meu, e que Arnaldo é que
o havia de amansar, respondeu a donzela sorrindo.

— Mas que prova temos nós disso? volveu Daniel Ferro.

— De quê? perguntou o sertanejo.

— De ter pegado o boi e ferrado.

Arnaldo olhou-o com surpresa:

— A minha palavra, respondeu.

Já soava o riso dos dois hóspedes do Fragoso quando o capitão-mór
o atalhou:

— A tua palavra, Arnaldo, que nós seguramos com a nossa. O que
disse o nosso vaqueiro é a verdade, e somos nós, o capitão-mór
Gonçalo Pires Campelo, que o afirmamos. Se há quem duvide…
terminou com uma reticência cheia de ameaças, correndo os olhos
em roda.

— Quem é capaz de duvidar da honrada palavra de vossa senhoria?
acudiu o João Correia. Desde que o sr. capitão-mór abona,
está acabado.

O Daniel Ferro foi prudente apenas, e afastou-se.

— Mas então, como foi o caso, Arnaldo? Conta-me tudo, quero
saber. Pegaste-o mesmo à unha?

Arnaldo referiu singelamente ao capitão-mór os pormenores da
corrida, sem omitir nem mesmo suas conjeturas acêrca da tristeza do
boi, e da piedade que excitara nele a lágrima do corredor. O capitão-mór
ouviu atentamente, inquirindo de cada circunstância, e aprovou o procedimento
de seu vaqueiro.

— Fizeste bem; não se deve informar um boi valente, é
melhor matá-lo.

Enquanto relatava ao capitão-mór a corrida, não cessou
Arnaldo de observar o Marcos Fragoso, e viu a conferência que êle
teve com o Ourém.

— É agora na volta, primo Ourém, que pretendo falar ao
capitão-mór sôbre o assunto que sabe; e decidir êste
casamento, de que depende o meu sossêgo, pois quis o fado que eu não
possa viver sem D. Flor. Espero que me ajudará.

— Disponha de mim, primo; infelizmente não posso pôr à
sua disposição:

«Para servi-vos braço às armas feito,
Para cantar-vos mente à musa dada.»

— Guarde o braço; quanto à musa basta que ela entretenha
as damas e os outros, enquanto me entendo com o capitão-mór.

— Conte comigo.

— Obrigado. Se a resposta for favorável, conhecerá pela
demora e por meu semblante; se for contrária, há de ouvir-se
o toque de charamelas; é o sinal para afastar-se logo do caminho e
tomar direito pelo mato, onde nos reuniremos.

— Sem despedir-me do capitão-mór?

— A conferência há de acabar um tanto azedada; pelo que
julgo mais prudente não a prolongar com despedidas.

— Lá isso é verdade.

— Previna o primo ao João Correia, que eu vou avisar ao Daniel
Ferro.

Instantes depois anunciou-se a partida. Vieram os cavalos, e Arnaldo trouxe
pelo freio o baio, que apresentou a D. Flor; mas não deu tempo à
moça de falar-lhe. Quando depois de ter montado ia a donzela dirigir-lhe
a palavra, tinha êle desaparecido.

Tornou a comitiva pelo mesmo caminho.

A cêrca de meia légua da marizeira, onde as duas comitivas se
haviam juntado, Marcos Fragoso, que seguia de par com o capitão-mór
entretendo-o com uma conversa banal acêrca de fazendas de gado e outros
assuntos do sertão, fez uma pequena pausa, e mudou de tom.

As senhoras e os outros cavaleiros iam muito adiante escaramuçando
e já não apareciam; o Agrela vinha atrás com a escolta.
Tinha, pois, o Fragoso liberdade para encetar o delicado assunto:

— Agora, sr. capitão-mór, peço-lhe vênia
para tratar de um ponto que me toca mais que nenhum outro, disse Fragoso;
e releve vossa senhoria, se o faço nesta ocasião imprópria,
mas como talvez saia amanhã para Inhamuns, não quis adiar.

— Visto que está de partida e o caso é urgente, não
nos negaremos a ouví-lo aquí, sr. capitão Marcos Fragoso,
ainda que o direito era em nossa casa.

— Bem o reconheço; mas a bondade de vossa senhoria supre esta
minha falta.

— De que se trata então?

— O muito e estremecido afeto que sinto por sua filha, D. Flor, e que
eu acredito ser por ela retribuído, obriga-me a pedir sua mão
a vossa senhoria, que decidirá, como pai que é, de nossa mútua
felicidade.

Passada a surpresa, o capitão-mór respondeu com severidade:

— Nossa filha, sr. capitão Marcos Fragoso, não podia
pensar em homem algum sem licença de seu pai. Fique sabendo.

— Talvez me iluda; e nesse caso dela virá a minha desventura.
Mas vossa senhoria, que decide?

— O senhor não falou esta mesma manhã de uma noiva, com
quem já parecia justo e contratado? A-propósito do Dourado e
daquelas formosas chinelas que ainda não tem solado?

— Ah! exclamou Fragoso sorrindo. Essa noiva de que eu falei, é
precisamente aquela que lhe acabo de pedir, e que espero alcançar da
sua generosidade.

— Visto isso, já contava como certo o seu casamento? retorquiu
o capitão-mór, rugando o sobrolho.

— Tinha a esperança, que ainda conservo, de que vossa senhoria
não me recusará a mão de D. Flor, tornou Marcos Fragoso.

O Campelo calou-se.

— Que resolve, senhor capitão-mór?

— Eu pensarei.

— Já anunciei a vossa senhoria que parto amanhã, e careço
de uma resposta para terminar agora mesmo esta minha pretensão de uma
ou de outra forma.

O capitão-mór solenizou-se:

— O que lhe podemos dizer, sr. Marcos Fragoso, é que apressou-se
em pedir nossa filha e pensar que ela estivesse à sua espera ou de
outro qualquer.

— Será porventura alguma princesa? atalhou Fragoso, já
não dominando o despeito.

— É nossa filha, a filha do capitão-mór Gonçalo
Pires Campelo. Está ouvindo? Nós podíamos, se nos aprouvesse,
escolher entre outros o sr. Marcos Fragoso para casá-lo com D. Flor;
mas não admitimos que pretenda casá-la consigo.

— Quer isso dizer que seriam o senhor e ela quem me dariam a honra
de admitir-me na sua família, em falta e coisa melhor, e por uma espécie
de promoção ao pôsto de marido?

— É justamente isto, tornou o capitão-mór.

Fragoso calou-se. Com um movimento expressivo tirou o chapéu e conservou-o
algum tempo na mão. Soou então no mato o canto estridente da
saracura; e com pouca demora outro igual respondeu-lhe a cêrca de cincoenta
braças para diante.

Então o moço capitão voltou-se com arrogância
para o Campelo:

— Senhor capitão-mór, o assunto é muito sério.
Pese bem a sua resolução.

— O capitão-mór Campelo só tem uma palavra. Disse
não; é não.

— Pois saiba vossa senhoria que eu, Marcos fragoso, também só
tenho uma vontade e irrevogável. Jurei que sua filha seria minha mulher
e, com o favor de Deus, ela há de sê-lo.

O moço capitão fez com o chapéu um cortejo ao Campelo;
e voltando à direita meteu-se pelo mato seguido de toda a sua comitiva,
inclusive os pagens que ticavam as charamelas.

O capitão-mór ficou um instante perplexo:

— Que disse êle? perguntou para o ajudante. Jurou que minha filha
há de pertencer-lhe com o favor de Deus? Irá fazer alguma novena,
Agrela?

— Ou alguma penitência, senhor capitão-mór.

A atenção do capitão-mór voltou-se para um grande
tropel de cavalos que soara pela frente. Curioso de saber por si mesmo a causa
dessa arrancada, apressou o passo do ruço pedrês.

VIII – Emboscada

Oculto nas vizinhanças do Bargado, Jó espiava a casa da fazenda
e seus arredores. O velho tinha a astúcia de um índio e talvez
a adquirira no trato com os indígenas durante a robustez da idade e
a aumentara com a experiência de sua vida quase selvagem.

Achou êle na mata uma grossa casca de pereiro, já despegada
do tronco morto, e vestiu-a como um estôjo que o escondia desde a cabeça
até os pés, deixando-lhe ver por entre as rachas do córtice.
Êste aparelho, que êle completou com as ramas verdes da árvore,
permitia-lhe transportar-se de um ponto para outro, sem que o percebessem.
Era uma moita ambulante.

Arnaldo recomendara especialmente ao velho que observasse os movimentos de
Luiz Onofre e da sua bandeira; pois suspeitava da vinda dessa gente, embora
fosse tão natural que o Fragoso, tendo de atravessar o sertão
de Inhamuns ainda infestado de índios bravos, se munisse de uma escolta
maior do que trouxera do Recife.

Jó notou na véspera da montearia que Luiz Onofre saíra
do Bargado com o Moirão e mais um camarada que levava um grande surrão
ou alforge de couro, e só tornou à casa por tarde. Ao passar,
o bandeirista dizia a um dos acólitos:

— Esta madrugada, quando o galo cantar a segunda vez, todos a-cavalo.
Ouviu, Corrimboque?

— Não tem dúvida, sr. Onofre.

— E até lá, moita.

Concluiu o velho que de alguma expedição se tratava para a
madrugada seguinte; e não era a montearia, pois havia recomendação
de segrêdo. Quando Arnaldo veio à noite, êle comunicou-lhe
o que sabia.

— É uma emboscada, disse o velho.

— A quem? perguntou Arnaldo.

— Ao Campelo. O capitão-mór é soberbo; ofendeu
ao moço, êste vinga-se.

— Mas êle pretende a filha por espôsa?

— Então é que o pai a recusou.

— Ainda não, afirmou Arnaldo.

Foi combinado entre ambos um plano. Arnaldo tinha de acompanhar o capitão-mór.
Jó seguiria o Onofre para saber o fim da expedição. No
caso de verificarem-se as suspeitas, daria sinal a Arnaldo pela percussão
da terra.

Era porisso que durante o trajeto Arnaldo tinha o ouvido alerta. A princípio
inclinou-se ao alvitre de prevenir o Campelo; porém receou que o tomassem
por visionário, ou que fosse êle o motor de algum injusto desabrimento
do capitão-mór contra o Fragoso. Seu pundonor repelia essa idéia
de chamar em auxílio de seu ódio o poder do dono da Oiticica;
êle, Arnaldo, não carecia de ninguém mais, senão
de si, para combater seu inimigo.

Não obstante, quando viu a pequena escolta com que saíu o
capitão-mór, cerrou-se-lhe a alma e quis falar. Mas dominou-o
ainda o mesmo receio.

— Em todo o caso, para salvar D. Flor, basta o Corisco! pensou consigo
anediando a longa crina do cardão que rinchava.

À hora aprazada a bandeira estava montada e partiu do Bargado, saindo
os cavaleiros de casa a um e um para não fazer tropel. Atrás
do último foi Jó escanchado em um poldro que o Arnaldo lhe deixara
para êsse fim.

Luiz Onofre era um produto dêsse cruzamento de raças a que
se deu o nome de coriboca. Assim como a sua tez representava a fusão
das três côres, a alva, a vermelha e a negra, da mesma sorte o
seu caráter compunha-se dos três elementos correspondentes àquelas
variedades. Tinha a avidez do branco, a astúcia do índio, e
a submissão do negro.

O Fragoso não podia achar melhor instrumento para seu projeto; e até,
segundo rezava a crônica de Inhamuns, não seria êsse dos
primeiros furtos ou raptos de moça que o Onofre fizesse por conta do
patrão, o qual tinha fama de grande corredor de aventuras.

Ao primeiro alvorecer chegou o bandeirista com sua gente ao ponto designado.
Depois que prenderam os cavalos e ataram-lhes o focinho com embornais para
impedí-los de rinchar, seguiram todos o cabo, que os levou para dentro
do cerrado.

— Corrimboque!

— Pronto!

— Você fica no mundéu lá do outro lado para cortar
a corda; e o Raimundo do lado de cá. Raimundo!

— Rente!

— Chegue cá! Está vendo êste angico vergado ao
chão? Pois assim que me ouvir gritar ai, é cortar a corda, senão
corto-lhe eu as orelhas. Está entendido?

— Não quero destas graças comigo, sr. Onofre.

— Cá o amigo Aleixo Moirão, não precida que lhe
diga; fica ao pé do pau…

— E lá vai a trabuzana! acrescentou o Moirão, fazendo
gesto de quem mete as mãos para empurrar.

— Quando for tempo! advertiu o Onofre. Onde está o Beijú?

— Às ordens!

— Lembra-se bem do canto da saracura? Do José Cigano?…
Vamos a ver lá isso!

O Beijú soltou um guincho que imitava perfeitamente o canto da saracura,
e que estrugiu longe pela mata a dentro.

— Está direito. Quem falta agora? Rosinha!

— Que tem com ela? perguntou uma trêfega rapariga adiantando-se.

— Já sabe, moça. Quando o cavalo da dama passar, é
de um pulo escanchar-se na garupa e segurar bem a dita, e tapar-lhe a bôca
para não gritar.

— Fica ao meu cuidado.

— Bem; tudo está corrente. Agora, moita; vamos esperar que
passe a comitiva, para cuidarmos cá da pessoinha. Quem piar, tem contas
comigo. Toca a deitar. Corrimboque, vá ver se os cavalos estão
com os focinhos bem apertados pelos embornais, e leve-os para bem longe.

Restabeleceu-se de todo o silêncio; e os emboscados permaneceram coisa
de meia hora em completa mudez até que ouviu-se ao longe o tropel dos
animais. Eram as duas comitivas já reunidas, que se aproximavam, e
passando por diante do esconderijo, afastaram-se rapidamente.

— Agora temos umas três horas por diante. Podemos quebrar o jejum.
Amigo Moirão, mande buscar os alforges, e sobretudo as borrachas que
devem estar bem apoiadas, pois foi esta a ordem do sr. Marcos Fragoso, nosso
capitão e o mais chibante fidalgo de todo êste Pernambuco.

— Alto lá, que o capitão é cá do Ceará,
nascido em Inhamuns, na fazenda das Araras, onde morava o defunto coronel,
antes de vir para o Bargado, disse Raimundo, acudindo pela terra natal.

— Cá para mim que sou de Pajeú de Flores, tudo é
Pernambuco, Raimundo, quer tu queiras, que não!

— Pois eu, se não estivesse aquí no serviço do
senhor capitão, lhe contaria uma história…

— Cabra mofino!

— Mas chegando no Bargado, há de ver de que pau é a
canoa.

— É de pau que precisa ser descascado, Raimundo, e quero eu
ter êste gôsto.

Muito a-propósito voltaram Moirão e Corrimboque, trazendo
os alforges cheios de comidas e os odres retesados de vinho português
e de cachaça da terra. Essa vista aplacou a resinga do Onofre com o
seu bandeirista. Estendeu-se um couro no chão e os camaradas trataram
de baldear o conteúdo dos alforges e odres para as vasilhas dos estômagos.
Êsses descendentes dos caboclos seguem a mesma regra daqueles: não
guardar comida, nem fome, para o dia de amanhã. Assim não carregam
a primeira, nem esperdiçam a segunda.

A comezaina corria no meio das pilhérias e galhofas dos bandoleiros.

— O tal sr. Fragosinho não cochila, gente! disse o Beijú.
Lá no Inhamuns quanta diabinha bonita havia foi direitinho para o jiquí.
Agora vai meter-se em filha de capitão-mór!…

— Que tem lá isso? perguntou com tom arrebitado a Rosinha,
que estava de lado sentada em um galho sêco e almoçava laranjas
e passoca em uma cuia. Por ter pai de farda vermelha, não é
mais bonita do que as outras.

— De que certa faceira de meu conhecimento, não é; isso
juro eu, menina. Rosinha sorriu mostrando dois rocais de pérolas, finos
dentes orientais. Tinha ela todo o busto e uma parte do rosto envolto por
um mantéu escarlate, que lhe servia de capuz; mas o que se entrevia
e o que se adivinhava da fisionomia como do talhe, denunciava encantos de
fascinar.

Eram além daquele sorriso perlado, uns olhos negros e aveludados
que cintilavam sob o capuz como estrêlas em noite procelosa, uma cintura
de vespa, e um pé arqueado que aparecia por baixo da orla da vasquinha
parda.

— Raimundo, homem, passa para cá a mandureba! Olha o diabo,
como escorropichou!

— Não sei que tem êste vinho, hoje! observou Moirão,
enxugando a bôca do sôrvo. Acholhe assim um travo como de engaço!
Não sentem?

— Deixe ver!

— Eu já lhe tinha sentido.

— Há de ser da borracha.

— E não é só o vermelho; a branca também
tem o mesmo gôsto

— Mas vão escorregando; que dizem? Ainda nenhum se engasgou
que eu visse.

— Então, Rosinha, não tomas um trago também?

— Para beber à sua saúde, sr. Onofre.

— Pois vá lá. À nossa, feiticeira!

— André, dá um pulo lá embaixo, homem, e tira
as mochilas dos cavalos, para que almocem também! Vão correr
mais do que você, que já forrou a tripa, cabra velho. A essa
recomendação do Corrimboque levantou-se o André e dirigiu-se
ao lugar designado com o seu alforge de couro cheio de carne e farinha.

Terminada a comezaina, o Onofre passou nova revista à sua gente, designando
a cada um seu pôsto e insistindo nas primeiras recomendações.
O lugar escolhido para a emboscada não podia ser mais azado. Era uma
brenha, defendida ao sul por um serrote íngreme.

O caminho passava entre duas rochas a que pela forma convexa tinham dado
o nome de Baús. À direita ficava o alcantil; à esquerda
o bamburral que terminava logo adiante em um vasto alagado. Para tornar impossível
aos cavaleiros o trânsito pela espessura, o Onofre havia levantado no
meato uma perfeita estacada entre a rocha e o pântano.

Assim a comitiva na volta não tinha outra passagem senão a
estrada; e, trancada esta, seria obrigada a fazer um longo rodeio, ou a retardar
a sua marcha por algumas horas enquanto abria caminho. Desta circunstância,
tirara o Onofre todo o partido para a cilada.

Tecera o bandeirista uma grade de rêlho e a atravessara diante dos
dois penhascos, amarrando as pontas em árvores novas, de um e outro
lado. Vergara depois essas árvores como costumam fazer os caçadores
nas armadilhas; e a teia ficou estendida no chão coberta de terra e
fôlhas sêcas.

Por artes do cigano incumbido de enfeitiçar o baio, conta Onofre que
a filha do capitãomór será a primeira a passar pelos
Baús. Apenas ela se ache do outro lado, que o Corrimboque e o Raimundo
cortarão as cordas das árvores; e estas voltando à posição
natural, levantarão consigo a grade que deve fechar a estrada.

Então, separada a moça da comitiva, ainda que tenham passado
com ela algumas pessoas, é fácil ao bandeirista consumar o rapto.
A Rosinha saltará na garupa do baio; com uma das mãos tapará
a bôca de D. Flor para impedí-la e gritar e com a outra a estreitará
ao peito, enquanto o Onofre bemmontado, tomando o beio pela brida, disparará
com êle e a donzela.

Para reforçar a grade de couro, preparou Onofre outra barreira. É
uma ramalhuda braúna, já serrada pelo tôpo e que a um
empurrão do Aleixo Vargas cairá sôbre o caminho, trancando-o
com uma sebe viva e emaranhada.
Enquanto o capitão-mór e sua gente esbarrarem nessa embrechada,
o Onofre tem tempo de pôr-se a salvo com a donzela e recolher-se ao
Bargado.

Antes de concluir o novo exame da emboscada, sentiu o bandeirista a língua
trôpega:

— Diabo dêste vinho do reino!… Não sei que mistura
lhe deitaram!… Querem ver que pôs-me, meio lá, meio cá?
Eu me entendo é com o patrício!

— Não é, sr. Onofre. Êste vinho tinha alguma coisa
com certeza. Também eu estou com as pernas bambas, de uns sorvos que
dei na borracha. Pois a minha conta no Minho era meio quartilho ao almôço.

Reparou o Onofre que toda a sua gente já andava estirada, uns pelo
chão juncado de fôlhas sêcas, outros pelos galhos rasteiros,
a curtir a carraspana.

— Olhem esta corja de bêbados! Como roncam!… E mais é
que vou fazer o mesmo! Não posso comigo! O tal sumo de uva não
me toa!… Corrimboque, fique de espreita e acorde-nos, quando chegar…
quando for… você sabe…

Não concluiu Onofre. O torpor que lhe invadira o corpo sopitou-o
completamente, e nem lhe deu tempo de escolher o lugar onde acomodar-se. O
corrimboque, se ainda o ouviu, não pôde responder-lhe de pesada
que tinha a língua; e o Moirão já mugia como um touro.
Nessa ocasião os cavalos começaram a rinchar sentindo talvez
a aproximação de algum animal da mesma espécie.

A única pessoa que resistiu ao súbito letargo foi Rosinha,
de-certo por ter bebido apenas uns goles do vinho. A rapariga vendo toda aquela
gente sopitada em profunda modorra, assustou-se, tanto mais quanto também
sentia desfalecimento.

Não foi longa, porém, essa perturbação; passada
ela, conservou-se alerta a fim de acordar os companheiros ao primeiro sobressalto.

Ergueu-se então dentre um monte de fôlhas sêcas a alta
e magra estatura de Jó. Investigando com rápido olhar a cena,
o velho esgueirou-se com a sutileza de uma sombra por entre a folhagem e foi
surdir a uma distância de cem braças.

Alí, segurando um grosso madeiro, começou a bater na terra
com o movimento compassado de um pilão. Às primeiras pancadas,
Rosinha sobressaltou-se e tratou de acordar Onofre; mas o bandeirista não
deu acôrdo de si e os companheiros ainda menos. Quando a rapariga já
não sabia o que fizesse, cessou o estrépito que ela atribuiu
à corrida de algum boi.

Entretanto Arnaldo acabava de soltar o Dourado, e lembrando-se dos rinchos
que ouvira, e que denunciavam a presença de cavalos bridados, tomou
êsse rumo, suspeitando que a bandeira do Onofre andasse por aqueles
sítios.
Nisso percebeu uma como vibração que saía da terra e
reconheceu imediatamente o sinal de Jó, que tinha aprendido dos índios
a comunicar-se por aquele meio seguro através de grandes distâncias.

Instantes depois o moço sertanejo encontrava-se com o velho, que
o levou ao lugar da emboscada.

— Estão dormindo?

— beberam tinguí.

O velho referiu então rapidamente a Arnaldo o que fizera.

Enquanto os bandeiristas agachados no mato espiavam a passagem da comitiva,
Jó fôra aos alforges, tirara um caneco, enchera-o de aguardente
em um dos odres; e esmagando entre os dedos ramas de tinguí, macerou-as
depois dentro do espírito. Quando lhe pareceu que a tintura estava
bastante forte, dividiu a aguardente pelas duas borrachas e teve o cuidado
de as sacolejar.

Sabendo que a gente da escolta fôra tinguijada pelo velho, Arnaldo
estremeceu:

— Envenenados? Todos?…

— Tontos apenas. Deixa-os dormir descansados, e daquí a uma
hora acordarão um tanto moídos e nada mais.

— E a rapariga?

— Bebeu pouco.

— É preciso amarrá-la a ela e aos outros por segurança.

Jó apoderou-se de Rosinha embrulhando-lhe a cabeça na mantilha.
Arnaldo foi à várzea, matou um boi e o esfolou com a rapidez
e destreza que tem neste, como em todos os misteres de seu ofício,
o vaqueiro cearense.
O couro foi imediatamente cortado em correias, com que o sertanejo peou de
pés e mãos a toda a escolta, inclusive a Rosinha, passando em
seguida, êle e Jó, a amordaçá-los pelo mesmo sistema.

Na ocasião em que ligava os pulsos do Moirão, Arnaldo traçou-lhe
com a ponta da faca uma cruz nas costas da mão direita, e tão
ferrado estava no sono o minhoto que não sentiu o gume do ferro cortar-lhe
a epiderme.

IX – Repreensão

Depois de combinar com Jó o que lhes restava a fazer, Arnaldo deixou
o velho no lugar da emboscada e voltou ao sítio onde havia ficado a
comitiva.

Alí chegou, como vimos, ao terminar o almôço e contou
ao capitão-mór a pega do Dourado.

Quando, na ocasião de montarem os convidados para a volta, êle
apresentou o baio a D. Flor, já tinha destruído completamente
o efeito das artes do cigano. Desapareceu nessa ocasião; mas para acompanhar
por dentro do mato a comitiva e observar melhor o jôgo do Fragoso. Viu
o sinal dado. O cigano que também oculto no mato espreitava aquele
sinal, soltou o canto da saracura e disparou a correr, passando perto de D.
Flor.

O baio não o seguiu como êle esperava; mas seguiu-o Arnaldo
que breve o alcançou e, derribando-o da sela, puxou-o para dentro da
espessura, onde o deixou peado como os companheiros.

O sertanejo imitou então o canto da saracura, enquanto Jó espantava
os cavalos emboscados, que partiram à desfilada na direção
do Bargado.

Marcos Fragoso, ouvindo a senha convencionada e o tropel dos animais, acreditou
que D. Flor estava em seu poder, e despediu-se arrogantemente do capitão-mór,
dando aviso aos companheiros para que o seguissem.

Entretanto D. Flor e Alina transpunham o lugar da emboscada sem o menor
acidente, e D. Genoveva moderava a marcha de seu cavalo para reunir-se ao
marido e saber dele a razão da repentina partida do Ourém e
seus companheiros.

Ao passar por diante de Arnaldo oculto na espessura, D. Flor perguntava
a Alina.

— Onde estão suas flores, menina?

— Que flores, Flor? retorquiu a moça, brincando com a palavra.

— As que nos trouxe o Marcos Fragoso.

— Deixei-as ficar, respndeu Alina com indiferença.

— Pois das minhas fiz um aderêço! Olhe! disse a gentil
donzela, apontando para os pingentes escarlates que lhe ornavam o colo e os
cabelos. Não parecem rubís.

— São muito galantes; mas eu prefiro esta que você me
deu, tornou Alina sorrindo e mostrando a umbela que Arnaldo colhera, e que
ela trazia ao seio.

D. Flor ficou séria e fustigou o baio, que partiu a galope.

O capitão-mór havia alcançado D. Genoveva; e referia-lhe
agora quanto se passara com o Marcos Fragoso, desde o pedido que êste
lhe fizera da mão de D. Flor, até à recusa formal e terminante
que recebera.

D. Genoveva, quando pela primeira vez, quinze dias antes, conversara com
o capitão-mór acêrca dêsse particular, mostrara-se
inclinada ao sobrinho Leandro Barbalho, e até dera a entender que não
tinha em bom conceito ao Marcos Fragoso. Desde, porém, que o capitão-mór
decidira-se por êste, ela como fiel espôsa, habituada a identificar-se
completamente com a vontade do marido, passou a considerar Marcos Fragoso
já como o noivo de sua querida Flor.

O mais ardente desejo da boa mãe era vera filha casada, embora quando
pensava nisso estremecesse com a idéia de uma separação
por mais breve que fosse. A êsse respeito, porém, a tranquilizava
o capitão-mór, que estava resolvido a impor ao futuro genro
a condição de viver debaixo do mesmo teto.

O desfecho da pretensão do Marcos Fragoso devia, pois, entristecer
a D. Genoveva, que viu adiado o casamento por ela tão ardentemente
desejado. A boa senhora não compreendia o motivo que tivera o capitão-mór
para recusar um genro que êle mesmo, de sua própria inspiração,
havia escolhido entre outros e preferido a todos.

Mas ela acatava as decisões do marido, e não tinha o costume
de discutí-las, pois depositava a maior confiança na prudência,
como no amor, daquele a quem havia unido o seu destino. A pergunta que fez
não teve outro fim senão saber do motivo que determinara a deliberação
do marido para melhor compenetrar-se dela.

— Por que foi então que o despachou, sr. Campelo?

— Porque atreveu-se a pedir D. Flor.

— Não é costume?

— Nossa filha, D. Genoveva, não é para ser pedida, como
qualquer moça aí do mundo. Não foi para isso que nós
a criámos. Eu tinha-me lembrado dêsse Fragoso, mas êle
adiantou-se e com tamanha arrogância, que já se julgava noivo.

Passava de meio-dia, quando o capitão-mór chegou com sua família
à Oiticica. D. Flor dirigira o cavalo para baixo da árvore a
fim de apear-se na sombra. Arnaldo a seguira, e saltando em terra, ofereceu-lhe
o ombro como um escabêlo.

A donzela estava então encantadora. A agitação do passeio
e os raios do sol tingiam-lhe as faces de uns laivos de púrpura, os
olhos tinham um brilho vivo, e as lindas flores escarlates entrelaçadas
em suas negras e bastas madeixas, formavam-lhe um toucado gracioso. Dir-se-ia
que não eram flores, mas os sorrisos feiticeiros de seus lábios
de carmim, que lhe serviam de jóisas para a fronte e de broche para
o seio do roupão. Arnaldo, vendo aquelas flores que ainda mais formosa
tornavam a donzela, sentiu o coração traspassado.

— Tire estas flores! disse êle, ajoelhado junto ao estribo e
com a voz suplicante.

— Por quê? perguntou a donzela admirada.

— Têm veneno! balbuciou o sertanejo.

— Devéras! tornou D. Flor com um riso de mofa.

Arnaldo ergueu-se de um ímpeto, e antes que pudesse dominar o violento
impulso de sua alma, arrancara da cbeça e do seio da donzela as flores,
que arrojou ao chão, e esmagou com a ponta da bota, como se fossem
um réptil venenoso. D. Flor, que já apeava-se, foi tomada de
uma surpresa dolorosa; e pasma com aquela audácia, racíu sôbre
a sela. No primeiro assomo de sua indignação não se lembrou
quem estava diante dela e não cia alí senão um homem
que tivera a insolência de tocá-la. A haste do chicotinho, brandida
por sua mão irritada, vibrou no ar; mas a donzela tivera tempo de dominar
êsse ímpeto de cólera. Retraiu-se em uma altiva dignidade.

— Arnaldo!

O sertanejo permanecia imóvel, e sofreu em silêncio, impassível,
mas resoluto, a repreensão que provocara.

— Não esqueça o seu lugar, Arnaldo, continuou D. Flor
com severidade. A ternura que tenho à sua mãe não fará
que eu suporte estas liberdades. A culpa é minha, bem o vejo. Se não
lhe desse confianças, tratando-o ainda como camarada de infância,
não se atreveria a faltar-me ao respeito. Lembre-se, porém,
que já não é um menino malcriado; e sobretudo que eu
sou uma senhora.

— Minha senhora?… disse Arnaldo, carregando nessa interrogação
com acerba ironia.

— Sua senhora, não, tornou D. Flor com um tom glacial; não
o sou; mas também, a-pesarde nos termos criado juntos, não sou
sua igual.

Arnaldo ajoelhou-se de novo como para oferecer a espádua à
moça; e disse-lhe provocando-a com o olhar.

— Se a ofendí, castigue-me; não tem na mão um
chicote?

— Não, e arrependom-me de meu primeiro movimento. Mas, se outra
vez esquecer-se do respeito que me deve, Arnaldo, eu me queixarei a meu pai,
para que êle o corrija.

Ditas estas palavras no mesmo tom severo e altivo, a donzela acabou de abater
o sertanejo com um olhar de rainha e afastou-se, encaminhando o animal para
a casa. Pouco adiante saltou da sela, e foi reunir-se à mãe
que também acabava de apear-se.

Esta cena passou-se rapidamente, com um aparte ao movimento geral da desmonta.
Entretidos consigo, os outros não perceberam a súbita ação
de Arnaldo ao arrancar as flores, e o incidente que sobreveio.

Erguera-se o moço sertanejo com arrogância ao ouvir o nome
do capitão-mór com que o ameaçou D. Flor, e acompanhou
a donzela com um olhar de desafio, até que ela entrou em casa. Então
Arnaldo saltando de novo no sela, meteu as esporas no Corisco e disparou da
ladeira abaixo.

Correu direito ao Bargado; ia resolvido a desafiar o Marcos Fragoso, matá-lo
para vingar nele a humilhação que acabava de sofrer, e depois
deixar-se matar para assim punir-se do crime de haver ofendido o melindre
de D. Flor.
A fazenda do Bargado estava deserta, e Arnaldo apenas alí encontrou
a família de um vaqueiro inválido, que ficara para guardar a
casa. Disse-lhe a mulher que o capitão Marcos Fragoso tinha partido
uma hora antes para Inhamuns levando toda a sua comitiva e mais o José
Bernardo com a gente da fazenda.

Desconfiou Arnaldo dessa partida precipitada, e receou que ela escondesse
algum novo embuste. Desde que um perigo ameaçava a tranquilidade da
família a quem se devotara e a segurança de D. Flor, o sertanejo
esquecia-se de si, para só ocupar-se com a defesa dos entes que estremecia.

Seu primeiro cuidado foi dirigir-se ao lugar da emboscada. Já não
havia alí viva alma; todos os bandeiristas haviam desaparecido; mas
ainda viam-se pelo chão as peias de rêlho, cortadas a ferro.
Eis o que sucedera.

Marcos Fragoso ao despedir-se do capitão-mór, tomara à
direita, e reunido diante ao Ourém e mais companheiros, ganhara o atalho,
que rodeando o alagado devia pô-los a caminho do Bargado. Êle
conhecia perfeitamente êsse desvio, por tê-lo percorrido na véspera
com Onofre. Esperava o moço capitão alcançar pouco além
dos Baús o Onofre e a escolta, que êle acreditava conduzirem
D. Flor, conforme suas recomendações e o plano anteriormente
combinado.

Tudo correra como se esperava; e já ouvia-se a pequena distância
o tropel da cavalhada. Na desfilada em que iam, não era possível
travar conversa; mas Ourém pôde trocar êste curto diálogo.

— Que é isto, primo Fragoso? Refrega de castelhanos?

— É a princesa que levamos.

— Ah! bem me queria parecer!… Pois vamos lá como D. Gaiferos:

Finca esporas no cavalo
Que o sangue lhe faz saltar;
Ei-lo que corre, ei-lo que voa, Ninguém o pôde alcançar.

E ferrando por sua vez os acicates no cavalo, Ourém lá se
foi no encalço do primo. Afinal, quando saíram da mata para
o descampado, pôde Marcos Fragoso acistar a cavalhada que ia-lhes na
dianteira cêrca de cem braças. Não foi pequena a sua surpresa
e dos companheiros notando nos animais selados e arreados a completa ausência
de cavaleiros.

Pensou Fragoso que os animais tivessem arrancado por surpresa, deixando Onofre
e a escolta desmontados. Enquanto o José Bernardo dava cêrco
aos cavalos, voltou êle sôfrego ao sítio da emboscada,
esperando chegar ainda a tempo de tomar D. Flor ao arção e fugir
com ela. Diante dos bandeiristas estirados no chão, e atados de pés,
mãos e queixos, êle entendeu que tinha sido burlado pelo capitão-mór;
e isto o encheu de furor.

Onofre e seus companheiros já tinham tornado a si do torpor, que produzira
a infusão do tinguí; mas estavam bambos, e sobretudo corridos
de vergonha por terem caído no laço, êles que o vinham
armar. É o que chamam virar-se o feitiço contra o feiticeiro.

Nenhum deles sabia explicar a esparrela em que fôra apanhado. Apenas
à lembrança ainda atordoada de alguns acudiu aquele travo especial
do vinho e da aguardente, donde tiravam uma suspeita ainda obscura. O Moirão,
porém, que sentira arderem-lhe as costas da mão, e logo que
lhe cortaram as correias vira a cruz traçada pelo Arnaldo, benzeu-se
e adivinhou que alí andavam artes do rapaz.

— Não tem que ver, murmurou. Se êle anda de pauta como
Tinhoso.

A única pessoa que podia referir os pormenores da tramóia era
a Rosinha, que não ficara completamente sopitada com o tinguí.
Mas Jó tivera o cuidado não só de atá-la de pés,
mãos e queixos, como Arnaldo fez aos outros, mas de embrulhar a cabeça
de modo a tapar-lhe os olhos. Assim nada tinha visto, e o que ouvira, pouco
adiantava: era o canto da saracura, o arranco da cavalhada e o tropel da comitiva
que passava tranquilamente pelo caminho.

Marcos Fragoso ficou tão exasperado com o êxito da emboscada,
que proibiu aos seus vaqueiros cortarem as correias dos pulsos e artelhos
dos bandeiristas, e intimou-lhes esta ordem cruel:

— Surrem-me já esta corja de biltres, para ensiná-los
a não serem basbaques! Deixarem-se agarrar como preás no fojo!

O Daniel Ferro, que era mais vezeiro nessas emprêsas e sabia que no
sertão ninguém, ainda o mais esperto, se livrava de tais embrechadas,
fez uma observação prudente e assisada.

O capitão-mór zombara do Onofre, peando-o a êle e a seus
companheiros, como a um magote de bêstas; mas quem assegurava que não
passasse a demonstrações mais enérgicas? Podia resolver-se
da afronta que êste lhe fizera tentando roubar D. Flor. Nesse caso de
um ataque súbito, careciam de gente brava e destemida. Não seria
com êsses homens, irritados por um castigo injusto e infamante, que
poderiam contar para resistir ao braço forte do capitão-mór,
o qual fazia tremer ao mais valente.

Ourém e João Correia apoiaram as razões de Daniel Ferro;
e Marcos Fragoso cedeu.

— Podemos seguir, senhor capitão? perguntou José Bernardo
depois de cortar as correias que peavam os bandeiristas.

— Daqui para Inhamuns! disse o Marcos Fragoso, voltando-se para os
companheiros. Não ponho os pés no Bargado senão depois
de tirar a minha desforra. Despachou o capitão ao José Bernardo
para seguir do Bargado com a bagagem; e êle partiu dalí com os
companheiros e a escolta em direitura à sua fazenda das Araras, situada
à margem do rio das Flores.

Arnaldo examinava o sítio e estudava o rasto da comitiva, quando
apareceu-lhe Jó, que o esperava, contando que êle voltasse alí.
O velho enterrado nas rumas de folharada, tinha assistido à cena anterior;
e narrou-a fielmente ao sertanejo.

— Partiu para Inhamuns, concluiu êle. Mas volta breve; e com
maior bando de gente armada.

— Cá me achará, disse o sertanejo simplesmente, como
se êle, só, bastasse para derrotar o bando dos inimigos.

Deixou Arnaldo ao velho na gruta e seguiu para a casa. Perto do tombador
avistou o Nicácio, que descia a-cavalo, de maca e rede na garupa, alforges
no arção e todos os petrechos do sertanejo em viagem.

— Até a volta, amigo Arnaldo. Quer alguma coisa para o Ouricurí?

— Está de viagem, Nicácio?

— Vou levar uma carta do sr. capitão-mór ao sobrinho
Leandro Barbalho. E o negócio é de apêrto, que vou aforçurado.
Deu-me quatro dias para a ida e outros tantos para a volta. Até lá.

— Boa viagem, Nicácio!

— Se puder de vez em quando dar um pulo lá pelo roçado…

— Fique descansado.

— É favor! gritou o viajante, que já desaparecia ao
longe de galope.

Arnaldo continuou para a casa. Aquela súbita partida do Nicácio,
e a carta que levava, o deixaram preocupado. Tinha um pressentimento que novo
perigo ameaçava a sua felicidade, e quando ainda o primeiro não
estava dissipado.
Aproximando-se oculto pelo arvoredo, viu de longe D. Flor recostada à
sua janela.

Era já sobretarde. A sombra que vestia êsse lado do edifício,
concorria talvez para tornar ainda mais merencória a expressão
da donzela. Seus olhos límpidos passavam por entre a folhagem rendilhada
de uma aroeira e iam imergir-se no azul do céu, onde estampava-se o
disco prateado da lua.

Alí ficavam imóveis, fixos, como dois raios do astro meigo
e saudoso da noite, que se estivessem embebendo em seu seio e enchendo da
luz do céu. O coração de Arnaldo confrangeu-se. Fôra
êle quem perturbara a serena placidez daquela fronte angélica;
fôra êle o autor daquela tristeza. Saltou em terra, ajoelhou-se
humildemente, e de mãos postas, com todo o fervor do crente quando
ora à divindade, pediu perdão a D. Flor da mágoa que
lhe causara. Teve ímpetos de punir-se alí mesmo diante da donzela,
do atrevimento com que lhe ofendera o pudor e o altivo melindre .

Chegou a levar a mão ao punho da faca; mas lembrou-se que sua vida
era precisa naquela ocasião em que novos e talvez mais sérios
perigos ameaçavam a casa da Oiticica.

X – A infância

Entrando no seu camarim, depois da repreensão que dera a Arnaldo,
D. Flor precipitadamente voltara-se para fechar a porta e impedir a entrada
da escrava que vinha prestar-lhe os seus serviços e ajudá-la
a mudar de traje.
Caminhando até o meio do aposento, a donzela parou; e recolheu-se atônita
do que se passava em si. De repente o seio tímido estalou em um soluço;
e dois rocais de lágrimas aljofraramlhe as faces.

Por que chorava?

Foi a interrogação que dirigiu à sua conciência,
confusa e perturbada com aquele pranto súbito. A severidade que usara
com Arnaldo, ela a devia ter; não se arrependia da exprobração
que fizera ao seu colaço, antes parecia-lhe mostrar maior rigor. Naquele
instante, esquecendo a amizade que desde a infância tinha ao filho de
sua ama, a donzela odiava-o sinceramente; e não podia perdoar ao vaqueiro
o atrevimento de dar-lhe uma ordem e o insulto de tocá-la, a ela D.
Flor, a quem seu próprio pai o capitão-mór Campelo respeitava
como uma santa.

Assomava-lhe ainda na mente a imagem do insolente, com a fisionomia revôlta,
e os olhos chamejantes; ela não o vira erguer a mão audaz, tão
rápido fôra o movimento; mas sentira-lhe o contacto nos cabelos,
e o leve perpassar pelos alamares que fechavam o corpete de seu roupão
de montar.

Ainda a vertigem que a tomara naquele momento anuviava-lhe a vista ao recordar-se
do incidente; e insensivelmente brandia o chicotinho, arrependida de não
ter castigado aquela vilania. Mas se a revolta de sua altivez a impelira a
êsse ato de energia, por outro lado os instintos nobres e delicados
de sua alma tinham-lhe advertido que não devia descer até corrigir
com sua própria mão a grosseria de um quase fâmulo da
casa.

A donzela permaneceu algum tempo imóvel no meio do aposento, completamente
absorta. A pouco e pouco a figura sinistra do vaqueiro que a havia desacatado,
foi-se desvanecendo, como se as lágrimas lhe delissem as tintas, e
da névoa que fez-se na memória da donzela, surgiu o vulto de
um menino de sete anos, vestido com um gibão de couro, que lhe servia
de opa.

Êste menino era Arnaldo; e o gibão pertencia ao pai, o vaqueiro
Louredo, que o deixara de usar por já estar muito velho e surrado,
a ponto de andar a rir-se pelos muitos rasgões que tinha nas costas.

O menino, sôfrego por ter um vestuário de vaqueiro, enfronhara-se
naquele fardão; e ficara tão cheio de si, que não se
trocaria por um rei, embora dos rasgões do couro lhe saíssem
as tiras de uma camisa de chita, que a mãe lhe cosera oito dias antes,
e que êle já havia reduzido a trapos.

D. Flor, tornada também em sua fantasia à idade feliz da inocência,
olhava com espanto para aquele pirralho, que ela via a cada instante praticar
as maiores estrepolias, e cometer temeridades que a todos enchiam de susto.
Arnáo, como o chamavam os pais nesse tempo, não estava um instante
quieto: se não andava já empenhado em uma travessura, com certeza
buscava o pretêsto para ela. Seus folguedos, porém, eram sempre
coisas impróprias de seu tamanho, e que muitos com o dôbro de
sua idade não se animariam a empreender.

Um macaco trepava aos últimos ramos de uma árvore, e de lá
deixava-se cair, segurando-se pela cauda. Arnaldo assentava de pular como
êle de ramo em ramo, e despencava-se do alto. A mãe o metia em
panos de sal, e dava-lhe a beber um cozimento de angico; no dia seguinte já
êle estava ruminando outra.

Ora metia-se a parar a bolandeira tangida com fôrça, e rodava
pelos ares; ora quando a mãe o mandava apanhar gravetos, carregava
às costas um grosso toro de sábia, que o atirava ao chão
em risco de esmagá-lo; em outra ocasião era o bode em que êle
montava, e lá se ia pelos precipícios e desfiladeiros a divertir-se
dos sustos da Justa.

Ninguém podia com êle. A mãe com seus ralhos não
conseguia senão afligir-se; e se passava o capeta ao cipó, então
é que êle endemoniava-se. O capitão-mór não
olhava para essas coisas; e o Louredo, conservando uma impossibilidade que
nunca se desmentia, bem longe de proibir ao filho essas estrepolias, ao contrário
o acoroçoava, deixando-o fazer quanto queria.

Trouxeram uma tarde um cavalo bravo para que o Louredo o amansasse, pis não
havia melhor campeador naquela redondeza. O vaqueiro conhecendo que o bicho
era manhoso, tratou de amaciá-lo antes de saltar-lhe em-cima.

— Eu quero montar! gritou Arnaldo.

— Estás doido, menino? dizia a Justa, apoderando-se dele por
segurança.

— Tu não podes com êle, Arnaldo! disse o pai.

— Ora, se posso!

— Pis monta; aí está.

O menino pulou no cavalo, que desencabrestou-se com êle aos corcovos.
Afinal, depois de uma luta que não sustentariam tão bizarramente
destros cavaleiros, o animal conseguiu lançá-lo fora, e atirou-o
de cambalhota pelos ares.

— Aí está o que você queria, sr. Louredo! gritou
a Justa que não cessara de rezar.

— O menino tem sua sina, mulher, respondeu Louredo mui descansado.
Se êle escapar das façanhas em que se mete, é porque Deus
o protege e quer fazer dele um homem; se não escapar, é melhor
que Nosso Senhor o leve para o céu, enquanto não sabe o que
é êste mundo.

Outra vez foi um novilho bravo, a que se tinha de torar os chifres. Arnaldo
teimou em segurá-lo. O pai desatou o laço do moirão e
entregou a ponta ao filho, dizendo-lhe com a voz pachorrenta:

— Toma lá; mas se tu me largas o novilho e o deixas fugir,
meto-te o rêlho, cabrinha, tão duro como um osso.

Arnaldo segurou a ponta do laço, enleou-a no pulso para não
escorregar, e disse ao pai com o maior topete:

— Largue!

O novilho arrancou pelo campo afora, e o Arnaldo lá foi com êle
aos trambolhões. Por fim o menino revirou de todo no chão; e
o barbatão levou-o de rasto. Aos gritos de Justa, que vira a cena de
longe, adiantou-se o Louredo para livrar o filho dos apertos.

— Vaqueiro, não se meta! Não foi êste o ajuste!
griotu Arnaldo para o pai!

O endiabrado menino, que se atirara ao chão de propósito para
aumentar a resistência com o pêso do corpo, conseguira afinal
fazer fincapé nas raízes do capim e parar o novilho já
cansado. Quando Arnaldo conheceu que o tinha seguro, gritou ao pai:

— Pode torar; que o bicho daquí não sai.

Arnaldo tinha muita vontade de dar um tiro com o bacamarte do pai. Atualmente
não se conhece, e talvez já não se fabrique essa espécie
de arma, tão estimada outrora no interior e tão proeminente
nas lutas fratricidas que ensanguentaram por vezes o interior do Brasil.

O bacamarte, simbolizava até bem pouco tempo ainda a ultima ratio,
o direito da fôrça; era como na Europa o canhão, de que
tinha com pouca diferença a configuração, pela grossura
do cano muito semelhante ao colo de uma peça de artilharia. Havia-os
de bôca de sino, que despediam uma chuva de balas e metralhas.

Compreende-se a fôrça que era precisa para suportar o recuo
de uma arma destas ao disparar, e o perigo a que se exporia Arnaldo fazendo
fogo com o bacamarte do pai, que era dos mais formidáveis.

Um dia em que a Justa não estava em casa, insistindo o menino, o
Louredo carregou o bacamarte à meia carga e entregou-o ao filho. Êste
sem pestanejar, com uma temeridade de criança, apontou para o ar e
puxou o gatilho.
Soou o tiro e o menino revirou de cambalhota, arrojado pelo coice da arma,
que por pouco não lhe desarticulou a clavícula. A Justa que
chegou deitando a alma pela bôca, tomou o filho nos braços, pôs-lhe
umas talas om emplastros, e começou nessa mesma noite uma novena a
Nossa Senhora.

No dia seguinte Arnaldo estava de pé; mas andou uma semana de braço
na tipóia. Indo o Louredo para a serra com a mulher e o filho, encontrou
o rio cheio. A fôrça d’água era medonha e formava
uma torrente impetuosa. O vaqueiro resolveu esperar que passasse a maior correnteza,
para atravessar a nado.

Arnaldo, porém, teimou que havia de passar logo. A Justa pôs
as mãos na cabeça. O vaqueiro voltou-se para o menino com o
mesmo tom sossegado de costume:

— Eu não me atrevo. Se tens topete para tanto, cabrinha, vai
com Deus, que eu não te esbarro.

A Justa vendo que o marido não se opunha a semelhante loucura, agarrou-se
ao filho; mas êste escapou-lhe, e sacando fora a roupa de que fez uma
trouxa, pediu ao pai que a atirasse da outra banda; e meteu-se intrepidamente
pelo rio a dentro.

A um têrço do leito, onde começava o têso da corrente,
o menino desapareceu. O rio o enrolara nas suas ondas revôltas, arrebatando-o
como uma das fôlhas que giravam no torvelim de suas águas.

Justa, que ficara de joelhos à beira do rio e não cessara de
rezar o têrço invocando Nossa Senhora da Penha e todos os Santos
de sua devoção, correu soltando um grito de horror. Metida n’água
até o seio, com os braços inteiriçados no vão
intento de agarrar o filho, cuja cabeça ainda surgia de longe, por
entre os borbotões da corrente, a mísera mãe enlouquecia
de dôr, e lançava ao marido as maiores imprecações.

O Louredo a ouvia taciturno e sombrio. Quando o vulto do menino sumiu-se
na volta do rio, acreditou que afinal Deus lhe havia levado o único
filho que lhe concedera. A-pesar-de seu rude fatalismo, que o fazia considerar
a morte do menino como o livramento de futura desgraça, pagou neste
momento o tributo à natureza, e com os olhos rasos de lágrimas
ajoelhou-se ao lado da mulher.

Estava aquele infeliz casal sucumbido pela perda do único filho, quando
o foi surpreender uma voz bem conhecida, que vinha da outra banda do rio.

— Ande com isso, pai. Venha a minha trouxa!

— Arnaldo!… bradou Justa. É êle mesmo!… Minha
Nossa Senhora da Penha, fostes vós que o ressuscitastes!

— Ainda estás vivo, rapaz! Como foi isto?

— Ora o rio está mesmo desembestado, e pegou uma queda de corpo
comigo, que foi uma história… Qual de-cima, qual debaixo; e já
queria passar-me a perna, quando encontrei um toro de mulungú, e agora
vereis. Montado no meu cavalo de pau fiz a todas.

Arnaldo tomara pé muito para baixo e viera pela beira do rio até
alí. O pai jogou-lhe a ponta do laço, que êle amarrou
em um tronco, e serviu de espia ao banguê ou balsa de couro, em que
o vaqueiro transportou-se para o outro lado com a Justa.

— Descanse, mulher, que êste menino não morre. Êle
tem a sua sina, dizia Louredo, atravessando o rio.

Nâo era o vaqueiro homem frio e indolente; ao contrário, muitas
vezes tinha seus arrebatamentos. Aquela pachorra e sossêgo, só
a mostrava em relação ao filho, e parecia mais produzida por
uma firme resolução do que por temperamento ou tibieza de afeto.

Muitas das proezas de Arnaldo, D. Flor as vira do colo de Justa onde conchegava-se
de mêdo; e ainda lembrava-se dos sustos da boa sertaneja, e do quanto
ficava ela atarantada, não sabendo como dividir-se entre a sua filha
de criação e o fruto de seu seio.

A menina, que tinha cinco anos então, apossara-se despoticamente daquele
regaço e dele tinha expelido o seu legítimo dono. Se Arnaldo
com ciúmes vinha alguma vez encolher-se ao cós da mãe
e insinuava a cabeça por baixo do braço para aninhar-se, a menina
percebendo-o, corria a expulsá-lo dalí.

Ela não consentia, nem que o pobre do Arnaldo se enrolasse na fralda
da saia materna. Não satisfeita com o colo em que se entonava como
em um trono, desherdava o colaço de todos os carinhos.

Justa, que fazia todas as vontades a Flor, obrigava o filho a afastar-se,
mas às escondidas o pagava da ternura de que então o privavam
os ciúmes da menina. Arnaldo obedecia à mãe para não
amofiná-la; mas na primeira ocasião, às vezes no momento
mesmo de arredar-se, vingava-se da colaça ferrrando-lhe um beliscão
de raiva.

Gritava a menina com a dôr. Justa ficava furiosa. Agarrava um cipó,
e dando uma corrida no capeta que escapulia pelo resto do dia, cuidava logo
de pôr um emplastrinho de polvilho com leite de peito, para desmanchar
a marca do beliscão na pele assetinada de Flor.

Daí nascera uma zanga constante entre os dois colaços, com
o que a ama muito afligia-se. Em apanhando a menina de jetio, Arnaldo não
deixava de fazer-lhe alguma pirraça. Umas vezes era a resina do visgueiro,
que êle trazia escondida para grudar os anelados cabelos castanhos da
menina e fazer deles uma maçaroca. Outras vezes passava-lhe um laço
de embira e amarrava-a à goiabeira; ou trazia do mato uma fôlha
de ortiga para esfregar-lhe no braço, e um lagarto para pregar-lhe
um susto.

Acudia Justa aos gritos da menina, e o Arnaldo ia ao cipó. Tantas
eram as capetices que não havia murta nem ateira ao redor da casa,
de que êle não conhecesse as vergônteas, tão bem
como as frutas.

Entretanto, a-pesar dessa briga constante, por uma singularidade que ninguém
explicava, se Flor em vez de falar a Arnaldo em tom de mando, ao contrário
pedia-lhe com meiguice alguma coisa, o menino seria capaz de fazer-se em migalhas
para satisfazer-lhe o desejo por mais caprichoso que fosse.

Provinha isso da índole original dessa criança, na qual um
coração terno e exuberante aliava-se a uma altivez estranha
em sua posição, e mais ainda em sua idade. Parecia um príncipe
maltrapilho, êsse pirralho do sertão, que não tolerava
uma sujeição nem mesmo à vontade do pai.

Pela doçura obtinham tudo de sua generosidade sem limites. Desde,
porém, que se lhe fazia uma exigência, sua suscetibilidade revoltava-se
contra a ordem, e êle resistia com a tenacidade de um carneiro amuado,
quando não reagia com o ímpeto de um garrote bravo.

Flor com instinto de menina, o qual tem já muito do tato feminino,
breve apercebeu-se da influência que seu meigo sorriso e sua branda
súplica exerciam no ânimo do colaço. Também a altivez
nela era nativa; e já naquele tempo sentia o prazer especial da dominação.
Habituou-se, pois, a êsse doce império, que em breve transformou
os dois teimosos nos melhores camaradas.

É certo que lá vinham ainda de vez em quando uns choques entre
a menina caprichosa e o rapazinho arisco; mas dissipacam-se logo essas nuvens,
e Flor reassumia o despotismo de sua garridice afetuosa.

Justa descobrira enfim o meio infalível de impedir as estrepolias
do filho, contra as quais nada valiam seus rogos e lamentaços. Bastava
que Flor chamasse Arnaldo com a mãozinha ou com a voz maviosa para
que o menino esquecesse a mais gostosa travessura. Estas recordações
sucediam-se no espírito de D. Flor e a absorviam tanto, que ao dar
côbro de si achou-se no poial da janela, onde não tinha lembrança
de se haver sentado.

Vieram chamá-la para o jantar; mas ela, escudeira infatigável,
pretestou cansaço, para de novo mergulhar-se nestas cismas, que a consolavam
do desacato do sertanejo.

XI – Adolescência

O sol descambava.

D. Flor abriu as gelosias da janela e divagou os olhos pela floresta, que
arreava-se então de toda a sua pompa vernal com a estação
das águas.

Naquele extenso painel de verdura, cada árvore debuxava-se com uma
forma e um matiz diverso. Viam-se todos os moldes da arquitetura desde a coluna
e a pirâmide até a cúpula e o zimbório. O pincel
do mais fino colorista não imitaria a gradação daquela
admirável palheta desde o verde negro do jacarandá até
o verde gaio do espinheiro.

Próximo à casa havia uma árvore sêca, mas a exuberância
da seiva não consentindo que no seio da esplêndida transfiguração
hibernal se destacasse um indício de ruína e perecimento, cobrira
aquele esqueleto de um manto de púrpura, tecido com as flores de uma
bignônia.

Um passarinho saltava do galho superior da árvore a outro mais baixo;
e com êsse vôo compassado e alterno imitava perfeitamente o movimento
da laçadeira, donde lhe veio o nome de rendeira, com que o designaram
os povoadores.

D. Flor acompanhando o gracioso afã do passarinho, distraiu-se outra
vez, e foi de novo levada por misterioso fio às cenas da infância.

Quem sua imaginação via, já não era o menino
mal trajado e rôto, com a cara coberta de poeira, os cabelos cheios
de carrapichos, e as mãos sujas de sangue. Agora aparecia um rapazinho
de quinze anos, rude como sertanejo que era, mas trazendo com certo garbo
nativo as vestes de couro de veado, que seu pai lhe tinha feito.

Arnaldo estava então na adolescência. Já ajudava o pai
a campear; mas desde aquele tempo manisfetara-se sua repugnância para
todo o serviço obrigatório, feito por ordem e conta de outro.
Tinha êle paixão pela vida de vaqueiro, e passava dias e semanas
no campo fazendo voluntariamente o trabalho de dois bons ajudantes, e entregando-se
com entusiasmo a todos os exercícios daquele mister laborioso. Se,
porém, lhe determinavam tarefa, desaparecia e ganhava o mato, onde
se divertia a caçar.

Dois meninos tinham aumentado a sociedade infantil da Oiticica. Eram Alina,
que ficara órfã pouco tempo antes, e fôra com sua mãe
recolhida por D. Genoveva, e Jaime Falcão, um sobrinho do capitão-mór,
e também órfão, o qual esteve quatro anos na fazenda,
até os quinze anos, em que foi para Lisboa viver na companhia do avô.

Êsse Jaime, a-pesar-de mais velho que Arnaldo, lhe ficava muito inferior
na fôrça, destreza, coragem e em todos os dotes físicos.
Nos folguedos a cada instante revelava-se esta desigualdade que contrariava
o vencido, e acabou por gerar um despeito concentrado.

Arnaldo não se ofendia com o afastamento, nem com as picardias de
Jaime. Tomara-lhe amizade; e procurava todas as ocasiões de agradar-lhe.
Até evitava mostrar a sua agilidade para não desgostar o companheiro.
Tudo quanto possuia o vaqueirinho, fruta, pássaro, caça, era
de Jaime, salvo se D. Flor o desejava, porque essa era a senhora de todos.

Jaime porém, se era invejoso, tinha o brio e a dignidade de seu ressentimento.
Embora fosse muita a cobiça por alguma novidade que Arnaldo trazia
do mato, não a pedia, e oferecida, recusava-a. Era D. Flor que então
acabava a briga: fazendo seu o objeto, o dava ao primo, que daquela mãozinha
mimosa não se animava a rejeitá-lo.

Alina, mais moça do que os outros, e de gênio sossegado, não
tinha ainda naquela sociedade infantil uma fisionomia própria, a não
ser a sua risonha e afetuosa brandura. Só em um ponto sua vontade pronunciava-se:
era quando os companheiros voltavam-se contra Arnaldo, porque então
ela tomava seu partido e abraçava-se com êle, e chorava para
enternecer os outros.

D. Flor reviu em sua imaginação aquele rancho de quatro crianças,
os folguedos em que se entretinha, as zangas que às vezes o perturbava,
para logo depois se desfazerem em novas festas e travessuras.

Então os quadros mais salientes dêsse viver jovial se desenharam
em sua memória como painéis ainda vivos.

Uma parda, que fôra ama de D. Genoveva, era a incumbida de acompanhar
Flor e Alina quando estas saíam a passeio pelos arredores da fazenda.
Já quebrada pela idade e também pelos achaques, a velha Filipa
cansava logo e deixava-se ficar sentada ao pé de um algodoeiro, cujos
capulhos ia cardando para entretaer o tempo.

Se D. Flor queria continuar, a velha que não sabia resistir ao rôgo
da feiticeira menina, dava o seu consentimento:

— Está bom: podem ir meus netinhos,; mas, olhem lá, bem
sossegados; e há de ser por aquí pertinho. Cuidado com o capeta
do Arnáo, que aquilo não é gente. Cruzes!… O Jaime,
êste é bom menino; sai ao pai, coitadinho, o defunto sr. Lourenço
Falcão, rapaz do meu tempo, que ainda me conheceu moça, quando
eu era uma rapariga sacudida, que hoje não presto mais; estou uma velha
coroca. Deus tenha sua alma, que foi um homem bom, mesmo pela palavra; só
tinha que não podia ver cabeção de cacundê que
não ficasse logo como pipoca na frigideira! Eu que o diga! Ai! ai!
tempo!

Os meninos não ouviam senão as primeiras frases desta ladainha,
o que não impedia a velha de a continuar até o fim; e era tal
às vezes, que durava até à volta do rancho. Da recomendação
faziam o mesmo caso; e seguiam Arnaldo que era o seu guia constante, aonde
êste os queria levar.

Uma tarde chegaram a um aberto, onde crescia uma touceira de catolezeiros,
ainda novos. Um boi mal encarado rodeava as palmeiras, e empinando-se conseguia
alcançar os cachos com a bôca e colhêr os frutos, de que
o gado é mui guloso.

Flor, vendo as pinhas de coquinhos amarelos, cobiçou-os, e pediu os
catolés. Arnaldo encaminhou-se à touceira. O boi sentindo-lhe
os passos lançou-lhe de esguelha um olhar de ameaça, que não
o atemorizou, mas tornou-o cauteloso. Dando volta e aproximando-se sutilmente,
pôde o rapazinho apanhar uma porção de côcos, derrubados
pelo animal.

Alina achou-os deliciosos; a filha do capitão-mór rejeitou-os
desdenhosamente.

— Eu quero o cacho! disse ela terminantemente.

— Pois vá querendo, respondeu-lhe Arnaldo resoluto.

— Êle está com mêdo do boi! disse Jaime triunfante.

— Arnaldo não tem mêdo de nada! acudiu Alina.

Flor, porém, que desejava ardentemente o acho de catolés, empregou
o meio que ela sabia infalível para render Arnaldo. Pousando-lhe a
mãozinha mimosa no ombro, disse-lhe com meiguice de rôla:

— Tire um cacho pra mim, sim, Arnaldo? Tire que eu lhe quero muito
bem.

— Pois então ponha-se no poleiro, que o boi é manhoso.

Arnaldo levantou as duas meninas e deitou-as de sobrado nos ramos das árvores;
o Jaime deixou-se ficar no chão, mas por segurança junto ao
pé do pau.

Quando o boi percebeu que Arnaldo ia direito aos catolezeiros, voltou-se
raivoso; o rapazinho atirou um galho sêco ao animal, que investiu furioso.
As meninas gritavam estremecendo aos urros medonhos; e Jaime já estava
de palanque para ver correr aquele touro.

Arnaldo esperou o boi a pé firme; seus companheiros, vendo o animal
cair sôbre êle, julgaram-no esmagado. Mas o intrépido vaqueirinho
segurou os chifres da fera e saltou-lhe no cachaço.

Abalou-se o touro, e lá foi pelo campo aos corcovos, fazendo esforços
desesperados para arrojar de si o rapazinho, que divertia-se com essa fúria
vã. Afinal correu o boi para os catolezeiros e começou a esfregar
o lombo no tronco das palmeiras, como um meio de arrancar o fardo das costas.

Logrou-o, porém, o menino, que erguendfo-se em pé sôbre
a alcatra, alcançou o cacho de catolés e cortou-o. Depois do
que, saltando em terra, veio apresentar a Flor a sua conquista, tão
gloriosa como a dos pomos de ouro das hespérides.

Flor ainda estava pálida do susto que sofrera, e agradecendo a Arnaldo
com a voz trêmula, distribuiu os côcos pelos companheiros.

— E você, Flor? perguntou Arnaldo.

— Eu não devo comê-los, por meu castigo.

E lançando um olhar cheio de desejos ao cacho de côcos, afastou-se
sem prová-los, a-pesar-das instâncias dos camaradas.

Outra vez foi à margem do Sitiá.

Era no meio do inverno; o rio com a cheia tinha uma torrente caudalosa e
rolava com fragor medonho. O rancho aproximou-se receoso, parecendo-lhe que
essa torrente empolada ia saltar de seu leito e arrebatá-lo.

Da outra banda um maracujazeiro dessa espécie delicada que alí
chamam suspiro, prendendo-se aos galhos das árvores, formava entre
lindas grinaldas de flores, um mimoso colar de seus lindos frutos dourados
e fragrantes.

— Que bonitos maracujás! exclamou D. Flor. Quem me quisesse
bem, não me deixava aguar com a vista deles.

— Não sou eu, disse Jaime.

— E você, Arnaldo?

— Mas êle morre! exclamou Alina.

— Ora, que mêdos!

Arnaldo já não estava alí; tinha-se metido no mato para
tirar a roupa, amarrando a camisa à cintura como uma tanga, e acabava
de arrojar-se à corrente. Êle já conhecia êsse rio,
e tinha lutado com êle, quando mais criança.

O menino nadava com pausa, poupando suas fôrças e investigando
com olhar rápido a veia do rio. Se algum madeiro enorme, arrancado
pela cheia, vinha remoinhando pela água abaixo, êle mergulhava
para escapar ao embate que o esmagaria. A travessia foi longa; e durante ela
Flor e Alina ajoelhadas e de mãos postas rezavam pela salvação
do camarada.

Quando Arnaldo alcançou terra e colheu os maracujás, que enrolou
ao pescoço, elas sossegaram um pouco; mas preparando-se o rapazinho
para voltar, recomeçaram os gritos; tanto uma, como a outra, suplicava-lhe
que esperasse até passar a maior correnteza.

Arnaldo não lhes deu ouvidos e tornou afoitamente pelo mesmo caminho.
Ao receber as frutas que êle trazia-lhe, Flor tinha o rosto perlado
de lágrimas, e sorria-se da alegria de ver salvo o camarada. Dos maracujás
ninguém comeu; ela os guardou como jóias até que secaram
de todo.

Nessa noite Flor pediu à mãe um cordão de ouro para
o pescoço de Nossa Senhora, a quem o havia prometido.

O cumprimento dessa promessa deu causa a um novo e singular capricho da menina.
Reparou ela que a Virgem da capela pisava a cabeça de um dragão,
em cuja figura a tradição católica simbolizava o inimigo.
Aquela circunstância ficou-lhe gravada, trabalhou-lhe no espírito
e afinal deu de si. Um dia Flor lembrou-se de pisar a cabeça de uma
cobra.

Os outros riram-se; mas Arnaldo achou aquilo muito natural.

No outro dia, quando saíam a passeio, o filho da Justa levou o rancho
a um oitizeiro, onde mostrou-lhes a curiosidade que alí tinha guardada.
Era uma cascavel amarrada pelo pescoço ao pé da árvore,
e furiosa por escapar-se.

Jaime avistando a cobra quis matá-la, pelo que Arnaldo ia brigando
com êle. Alina deitou a correr e Flor, a-pesar-de corajosa, ficou um
tanto passada.

— Não tenha mêdo; arranquei-lhe todos os dentes.

Dizendo o que, Arnaldo agarrou a serpente pelo pescoço, abriu-lhe
a bôca ensanguentada, e meteu nesta os dedos. Animada com isso, D. Flor
aproximou-se, e segurando Arnaldo a cauda da cascavel para que não
se enrolasse na perna da menina, satisfez esta o seu capricho, ecalcou com
o tacão de seu lindo borzeguim a cabeça do monstro.

Arnaldo cuidou nesse momento que via a Nossa Senhora da capela, porém
ainda mais bonita do que estava na imagem.

Se o vaqueirinho tinha por devoção fazer todas as vontades
de Flor, com risco de sua vida e até de seu pundonor, pelo castigo
a que muitas vezes expunha-se, em troca não consentia que ninguém
o privasse dêsse contentamento.

Foi essa a causa das brigas que teve com Jaime. Tudo suportava êle
do outro com paciência; a convicção que tinha de sua vantagem,
o tornava calmo e condescendente. Quando, porém, tratava-se de Flor,
não havia ninguém mais teimoso e irritadiço.

Eis a prova.

Flor desejou uns ovos de anum que são, como todos sabem, muito lindos
pelo azul celeste da côr, e muito cobiçados pelas crianças.
Nessa tarde a menina estava amuada com Arnaldo; e talvez mesmo para fazer-lhe
pirraça pediu a Jai,e que fosse tirar um ninho feito em um tabocal.

Jaime apressou-se em satisfazer o pedido da prima:

— Não vai, disse Arnaldo.

— Por quê? perguntou Jaime.

— Porque eu não quero.

— Ora!

— Há de ir! disse Flor.

— Eu lhe mostrarei.

— Não vá, Jaime! acudiu Alina suplicando e já
com voz chorosa.

— Eu lá faço caso dêste bezerro bravo! exclamou
Jaime com arrogância.

Arnaldo se postara diante da touceira de taquaras, para impedir o outro de
passar. Jaime investiu por três vezes e de todas o vaqueirinho agarrou-o
pela cintura e arremessou-o longe no chão.

Ainda quis voltar ao ataque; mas Flor o reteve. A menina estava muito irritada
contra o seu colaço.

— Deixe, Jaime; chegando em casa eu mandarei tirar os ovos do ninhopelo
Moirão. Quero ver, se isto pode com êle.

O isto foi pronunciado com um soberano desdém do lábio mimoso,
que distendeu-se para indicar o filho da Justa.

— Êste ninho, se o quiser, há de pedir-me a mim, disse
Arnaldo.

— Não peço.

— Pois então fica sem êle.

— Vou pedir a meu pai.

— Não tenha êste trabalho.

De um salto Arnaldo ganhou o tabocal e voltou com o ninho cheio de ovos,
pois os anuns andam em bandos, em tal regime comunista, que até os
filhos são promíscuos.

— Está vendo? disse Arnaldo mostrando o ninho.

Foi tão forte a tentação de Flor à vista dos
lindos ovos, azues como turquesas, que a menina esteve por pouco a ceder de
sua tenção; mas venceu o capricho. Ela voltou desdenhosamente
as costas.

Arnaldo atirou o ninho ao chão e esmagou os ovos com o pé.
Alina soltou um gritozinho de dôr, lembrando-se dos passarinhos que
alí se estavam gerando e das mãezinhas deles.

Flor levantou os ombros com desprêzo.

— Há muitos ninhos de anuns, disse ela.

— Eu vou tirá-los todos, e quebrar os ovos, como fiz com êste.
Juro que você não há de ter nenhum.

Com êste pensamento desapareceu.

Quando o rancho dos meninos chegava à casa, apareceu-lhe Arnaldo,
com uma coleção de ninhos de anuns.

— Está vendo? disse a Flor, fazendo menção de
arrojar os ocos ao chão.

A menina não resistiu mais; a contrariedade de seu desejo, ela a dominaria;
mas foi vencida pela pena que lhe inspiravam as vítimas inocentes de
seu capricho e da impiedade de Arnaldo.

— Dê-me, Arnaldo! disse estendendo a mão.

O rapaz entregou-lhos todos, esquecido já da pirraça da menina.

Flor, porém, não lhe perdoou facilmente êsse triunfo.
Se desde aí não pediu mais a Jaime coisa alguma, também
por muito tempo evitou de manifestar o menor dos seus desejos a Arnaldo.

XII – Anhamum

Ao tempo destas cenas de infância, que reviviam agora na memória
de D. Flor, o sertão de Quixeramobim era infestado pelas correrias
de uma valente nação indígena, que se fizera temida desde
os Cratiús até o Jaguaribe.

Era a nação Jucá. Seu nome, que em tupí significa
matar, indicava a sanha com que exterminava os inimigos. Os primeiros povoadores
a tinham expelido do Inhamuns, onde vivia à margem do rio que ainda
conserva seu nome.

Depois de renhidos combates, os Jucás refugiaram-se nos Cratiús,
de onde refazendo as perdas sofridas e aproveitando a experiência anterior,
se lançaram de novo na ribeira do Jaguaribe, assolando as fazendas
e povoados.

Não se tinham animado ainda a assaltar a Oiticica, onde o capitão-mór
estus insultos eram constantes. Não se passava semana em que não
matassem algum agregado da fazenda, ou não queimassem plantações.

Resolveu o capitão-mór Campelo castigar êsse gentio feroz;
e saíu a manteá-lo com uma numerosa bandeira, em que lhe servia
de ajudante o Louredo, pai de Arnaldo, que era vaqueano de todo aquele sertão.

Com tal astúcia manobrou o vaqueiro, que os Jucás apanhados
de surpresa foram completamente destroçados, ficando prisioneiro seu
chefe, o terrível Anahmum, nome que na língua indígena
significa irmão do diabo.

Desamparado pelos seus, o formidável guerreiro defendeu-se como um
tigre, e só rendeu-se quando o número dos inimigos cresceu a
ponto de submergí-lo. Então mandou o capitão-mór
amarrá-lo de pés e mãos e conduzí-lo à
Oiticica, onde foi metido no calabouço.

Arnaldo não fez parte da bandeira; o Louredo não o quis levar
consigo, e êle submeteu-se à vontade paterna. Assistira, porém,
a todo o combate como simples curioso; e viu o denôdo do valente Anhamum,
que lhe ganhou a admiração e a simpatia.

O rapaz tinha lá para si que os índios não faziam senão
defender a sua independência e a posse das terras que lhes pertencia
por herança, e de que os forasteiros os iam expulsando. Fôra
esta a razão por que não se empenhara em combatê-los.

Quando ao voltar à Oiticica ou viu dizer aos bandeiristas que o chefe
dos Jucás estava no calabouço e ia ser supliciado no dia seguinte
com estrépito, para exemplo e escarmento do gentio, Arnaldo revoltou-se
e protestou a si mesmo salvar Anhamum.

A intenção do capitão-mór fôra efetivamente
em princípio fazer do suplício do selvagem um espetáculo
de incutir o terror, convocando para assistir a êle todos os moradores
conjuntamente com dois outros índios prisioneiros, que levariam aos
seus a notícia das torturas infligidas ao chefe.

Mudou, porém, de idéia o Campelo, e resolveu meter Anhamum
em uma gaiola de ferro, como se faz com os tigres, e enviá-lo a Lisboa
com um procurador, que de sua parte oferecesse a El-rei essa preciosa curiosidade
do sertão, ornado de todos os seus petrechos bélicos e insígnias
de chefe.

O calabouço da fazenda ficava na extremidade do quartel. Era um poço
ou cisterna coberta por alçapão feito de pranchas de pau-ferro,
que três homens robustos levantavam com esfôrço por meio
de dois moitões onde passavam as correntes.

Foi aí que atiraram Anhamum. Ao conduzí-lo, Moirão que
era o cabo da escolta, querendo obrigar o selvagem a deixar o passo grave
e consertado para andar mais ligeiro, travou do penacho de plumas de canindé
que o chefe trazia à cabeça pregado com resina de almécega,
e puxou-o para diante.

Anhamum deitou-lhe um olhar terrível e não deu mais um passo.
Foi preciso arrancá-lo dalí, e carregá-lo até
o calabouço, onde o lançaram.

Descido o alçapão, o Aleixo Vargas deitou-se por cima dizendo:

— Se tu és irmão do diabo, caboclo mofino, pede a êle
que te tire daquí.

Fechou-se a noite. Arnaldo desde a tarde trabalhava na emprêsa em que
se empenhara.

Tinha êle meses antes descoberto no sopé da colina em que estava
construída a casaria da herdade, um profundo socavão, formado
pelo enxurro das águas. A primeira vez que rompendo a balsa, descobriu
essa cova, deu-lhe curiosidade de conhecê-la e penetrou dentro.

Era uma galeria subterrânea, que subia em ladeira atá às
grossas raízes de uma árvore secular, entre as quais ficava
uma pequena abóbada esclarecida por um óculo superior. Reconheceu
Arnaldo naquela árvore a oiticica do terreiro e compreendeu como se
havia formado o corredor subterrâneo.

Um dos três estipes em que se dividira desde a raiz o tronco da árvore
secular, brocado pelo cupim, ficara reduzido ao córtice, que entretanto
ainda absorvia bastante seiva para nutrir os ramos superiores. As chuvas enchiam
êsse grosso tubo que fazia o efeito de uma calha ou bica, e ia despejar
no seio da terra a sua corrente. A erosão das águas, buscando
uma saída, havia minado o solo e formado a galeria, pela qual só
agachado podia um homem passar.

Lembrou-se Arnaldo, que a meio do corredor ouvira o eco de vozeria que lhe
pareceu dos acostados e bandeiristas; do que induziu que estava embaixo do
quartel. Foi essa lembrança que o levou naquela tarde a examinar de
novo a galeria e estudar a sua direção.

Verificou sua primeira suspeita. O corredor passava por baixo do quartel
e ao lado do calabouço. Cavando uns palmos à sua esquerda, deu
com a muralha da cisterna, e sem mais demora começou a arrancar a argamassa
com a ponta da faca e a tirar os tijolos.

À meia-noite estava concluído o seu trabalho e feita a brecha.
Mal tirara o último tijolo sentiu um sôpro nas faces e o contacto
de uma mão forte, como a garra de uma onça. Anhamum ouvira o
rumor, percebera a natureza do trabalho, e sem compreender a quem devia a
salvação esperou-a.

Arnaldo conduziu o selvagem fora da caverna sem trocar uma palavra, alí
apontou-lhe a floresta, pronunciando uma palavra tupí:

— Taigoara!

O rapazinho não sabia a língua dos selvagens; mas retivera
algumas palavras e uma delas era essa, que significa livre.

O selvagem com um ente de seu colar de guerra sarjou a pele, fazendo uma
marca simbólica por cima do peito esquerdo, e afastou-se proferindo
uma palavra cujo sentido Arnaldo ignorava.

— Coapara.

Só depois veio a saber o rapaz que êsse vocábulo traduzia-se
em português por camarada, mas queria dizer tanto como amigo dedicado.

No dia seguinte, Flor apareceu triste, com pena do selvagem que supunha condenado
a morrer. Arnaldo para desvanecer essa mágoa contou em segrêdo
à menina que êle tinha livrado o chefe dos Jucás da prisão.

Poucas horas depois descobriu-se a evasão que deixou tonto por muitos
dias ao nosso amigo Moirão. Desde então deu êle por provado
que Anhamum era de fato irmão do diabo; do que duvidara até
alí por não lhe constar que Satanaz, o verdadeiro, fosse caboclo.

Não se explicava a evasão do selvagem. O alçapão
não fôra aberto; Aleixo Vargas dormira em cima; a cisterna estava
intacta; somente notou-se que a argamassa de um lado estava fresca; mas atribui-se
à umidade.

O capitão-mór estava no auge da sua ira sempre formidável,
e embora repelisse a idéia de atrever-se alguém a auxiliar a
fuga do selvagem, protestava, se tal coisa houvesse acontecido, condenar o
criminoso a ser enterrado vivo.

No meio das indagações que fazia o potentado, apareceu D. Flor,
que ouvindo falar do acontecimento, exclamou:

— Eu sei quem foi!

— Quem deu escapula ao gentio? perguntou o capitão-mór.

— Sim, meu pai. Foi Arnaldo.

O capitão-mór ouvindo êsse nome voltou-se com um senho
terrível para o rapazinho também alí presente:

— É verdade! disse o filho do Louredo tranquilamente.

Flor não medira o alcance de suas palavras. Maravilhada com o heroísmo
de seu camarada, cuidou que os outros o admiravam como ela, e quis restituir
a glória da proeza a seu desconhecido autor.

O capitão-mór desprendera o seu grosso e pesado riso.

— Então foste tu, pirralho?… Ora já viram!

— Não foi êle não, meu pai! acudiu Flor, que havia
caído em si. Eu estava brincando!

— Que não foi êle, bem o sei, e ainda bem, que essa graça
lhe custaria a pele e os ossos.

Fôra o prodigioso da emprêsa que salvara Arnaldo. Se para um
homem forte já a consideravam desmarcada, como acreditar que a praticasse
um menino?

Arnaldo não dirigiu a Flor a menor exprobração. Foi
a menina que, desvanecido o susto, aproximou-se dele prara dizer-lhe em segrêdo:

— Você ia morrendo por minha causa, Arnaldo.

O rapazinho fitou nela os olhos.

— E por quem hei de eu morrer, Flor?

A menina corou e esteve todo êsse dia preocupada.

Por essa época morreu o Louredo. Tinha êle feito uma pequena
ausência na fazenda; na volta deitou-se como de costume em sua rede,
embrulhou-se nela e no dia seguinte acharam-nomorto.

Arnaldo sofreu profundamente com êste golpe. Todos os sentimentos dêsse
menino tinham a pujança e energia de sua organização,
o amor como o ódio, a ternura como a ira, eram nele paixões
violentas, veradeiras irrupções d’alma.

Pouco depois completou Flor quatorze anos; e desde então um impulso
natural começou a separá-la da companhia e intimidade em que
até alí vivera com Jaime e Arnaldo. O instinto feminino que
desenvolvia-se com a adolescência, inspirava-lhe o recato. Já
não se animava a passear só pelo mato com o primo ou o colaço,
nem consentia que êles a suspendessem nos braços, como faziam
outrora.

Não pensava ela que houvesse algum mal nesses folguedos a que se entregava
dantes com tanto prazer; mas agora causavam-lhe uma perturbação,
que de certo modo ofendia a sua altivez nativa. Porisso esquivava-se às
excursões e passeios, demorando-se mais ao lado de sua mãe,
para fazer-lhe companhia.

Alina, que tinha gênio mais romanesco, inventava aventuras caseiras,
para substituir as travessuras campestres.

Na novela ou auto da loura menina, Flor vinha a ser princesa ou rainha, cuja
formosura enchia o mundo com sua fama, e cuja mão era pretendida por
todos os príncipes cristãos. O mais belo, e também o
mais bravo dêsses campeões, era o príncipe por excelência,
representado na pessoa do sobrinho do capitão-mór.

Ora, a princesa tinha sua dama, assim como o príncipe devia ter seu
pagem. Êsses dois papéis tocavam a ela Alina e a Arnaldo, parecendo-lhe
de razão que os criados fiéis se reunissem como acontecia nos
romances pelo mesmo sentimento que prendia os amos, de modo, que em vez de
um, houvesse dois casamentos. Êste desfecho, porém, a autora
não o divulgava, deixando que o fio dos acontecimentos o inspirasse.

Tal era o quadro da novela imaginada por Alina. Teve, porém, de sofrer
duas alterações. Flor não admitiu Jaime como pretendente
à sua mão e assinou-lhe o papel de príncipe irmão.
Quanto a Arnaldo era um pagem sempre ausente, em recados, e que só
figurava na imaginação da órfã. O vaqueirinho
ignorava completamente o romance de Alina, e vindo a sabê-lo, é
de crer que não tolerasse o papel subalterno que lhe haviam distribuído,
além de comprazer-lhe mais a solidão da floresta do que o terreiro
de casa.

Era aos domingos que se faziam as representações da novela,
sempre dirigidas por Alina. Em uma dessas condescendeu Flor com os rogos da
companheira, e consentiu figurar de noiva. Inprovisou-se então um oratório;
arvorou-se uma rapariguinha em padre, vestindo-se-lhe uma saia preta atada
ao pescoço, e começou a cerimônia.

Apresentou-se D. Jaime, como campeão vencedor em um torneio imaginário;
exaltou suas proezas e a formosura de D. Flor. Depois do que, oferecendo o
braço à princesa, avançaram os dois com passo de procissão.
Alina, como dama da princesa, carregava a cauda de seu manto real; seguiam-se
uma guarda de honra composta de uns seis meninos montados em cavalos de talos
de carnaúbas, armados com espadas de taquara, e um bando de crianças
de todas as côres e tamanhos, crias da fazenda, endomingados especialmente
para essa festa. No coice vinha a velha Filipa fazendo mil visagens.

O préstito devia dar duas voltas ao terreiro para dirigir-se ao altar.
Ao começar a segunda, apareceu Arnaldo, que trazia um casal de jaçanãs
para Flor. Dando com a procissão parou surpreso, e compreendeu logo
a natureza do brinquedo, que os outros aliás trataram logo de explicar.

Esteve o menino uns instantes perplexo; de repente saltou sôbre Jaime,
separou-o de Flor, atirou com êle no chão arrancando-lhe as fitas
de que vinha enfeitado; correu depois ao altar que deixou em destrôço;
e sumiu-se.

Passou fora oito dias.

Foi dessa vez que, vagando pelo campo do lado do Riacho do Sangue, encontrou
atirado ao chão um homem nos últimos arrancos.

Arnaldo perguntou-lhe o que tinha:

— Sede! respondeu o morimbundo com a voz extinta.

Cortou o menino uma haste de mandacarú, e tirando os espinhos, espremeu-a
na bôca do desconhecido, para aplacar o maior ardor, enquanto ia à
busca de uma cacimba, pois era pela sêca e os rios já tinham
desaparecido.

Reparou então o menino que o velho tinha as mãos atadas às
costas:

— Quem o amarrou?

— Eu mesmo.

Ao gesto de espanto de Arnaldo, acrescentou:

— Eu queria morrer. Mas é horrível!…

Resolvido a deixar-se morrer, o velho armara um laço, cruzara os pulsos
nas costas, e metendo-os na corda, fizera disparar o nó que lhe atara
as mãos.

Assim, ainda quando quisesse buscar água para matar a sede, não
poderia. Condenara-se à mais atroz das mortes, e já tinha sofrido
terrível suplício quando o menino o encontrou.

Arnaldo salvou o infeliz e o persuadiu a acompanhá-lo. Jó,
pois era êle, sentira desde logo uma atração irresistível
para êsse menino; sua existência, que nada já prendia à
terra, achara alí um elo misterioso. Deixou-se conduzir e governar
por aquela criança.

O vaqueirinho levou Jó à casa materna. A Justa agasalhou o
velho, enquanto o filho construia para seu amigo a cabana da várzea.
Nunca soube-se na Oiticica donde viera êsse desconhecido; dele apenas
se obteve esta informação vaga:

— Eu tinha uma cabana no Frade; os malditos puseram-lhe fogo para queimar-me
vivo.

Jó serviu de mestre a Arnaldo. Sentado à soleira da cabana,
durante as noites esplêncidas do sertão, o velho deixava que
o pensamento divagasse pela intensidade do céu e da terra, e vazava
no espírito ávido do sertanejo todos os tesouros de sua experiência.

Arnaldo tinha partilhado das lições que o padre capelão
dava a Flor, Alina e Jaime; mas sabidas as primeiras letras, o haviam tirado
da escola, visto que um vaqueiro não carecia de mais instrução,
e essa mesma já era luxo para muitos que se contentavam em saber contar
pelos riscos de carvão.

Foi de Jó que recebeu o menino conhecimentos irregulares, sem método
e ligação, porém muito superiores aos que se encontravam
no sertão por aquele tempo em pessoas do povo. Entre muitas coisas,
ensinou-lhe o velho a língua tupí, na qual era versado.

Suspeitava Arnaldo que havia na existência do velho um doloroso mistério;
mas respeitava-o, e essa reserva foi talvez uma das causas da grande afeição
que inspirou ao infeliz ancião.

XIII – A viúva

Tornando à fazenda depois de oito dias de ausência, Arnaldo
andava arisco e sem ânimo de aproximar-se de Flor.

Receava-se do ressentimento que a menina devia conservar contra êle
por causa do desbarato a que reduzira a festa e o altar do casamento. Assim
andava por longe, espiando às ocultas a formosura de sua santa, e matando
as saudades que tinha curtido naqueles últimos dias.

A primeira vez que ousou chegar-se para os companheiros, Flor atirou-lhe
desdenhosamente estas palavras:

— Bicho do mato!

— Onde andou você todo êste tempo, Arnaldo? perguntou Alina
queixosa.

— Ainda você pergunta? Esteve com os seus companheiros, dele,
os caitetú. Isto não sabe viver entre gente.

Arnaldo não respondeu. O que Flor dizia era a verdade; êle nascera
para habitar no seio das florestas; era sertanejo da gema.

Jaime pouco mais demorou-se na fazenda. O capitão-mór aproveitou
a partida de um parente seu do Aracatí para enviá-lo a Lisboa,
onde o esperava o avô.

De novo espalhou-se o terror pelos campos de Quixeramobim. Anhamum, o feroz
chefe dos Jucás, voltara à frente de quinhentos arcos, e desta
vez para assaltar a Oiticica e tirar a desforra.

Logo divulgou-se a notícia, o capitão-mór preparou-se
para receber os selvagens, os quais não se fizeram esperar. Uma noite
chegaram êles à margem do Sitiá e anunciaram-se pela sua
formidável podema de guerra. No dia seguinte as casas da fazenda estavam
cercadas.

Por muitos dias não fizeram os selvagens a menor demonstração
hostil; sentia-se que êles estavam perto, mas não se mostravam
a descoberto. Esperavam ocasião azada para investir, ou queriam obrigar
os sitiados a uma sortida.

Nisto deu-se por falta de duas pessoas na fazenda: Arnaldo e Aleixo Vargas.
A crença geral foi que tinham ambos caído nas mãos dos
Jucás e já todos lamentavam a sua perda. Flor derramou lágrimas
sentidas e copiosas por seu colaço e a pedido dela o capitão-mór
ordenou uma sortida com o fim de livrar os dois prisioneiros, se ainda o fossem,
e já não estivessem mortos.

Eis o que havia acontecido.

Arnaldo espiava o acampamento selvagem, à espreita de uma ocasião
para encontrar-se com Anhamum. O rapaz tinha seu plano. Nisto Moirão
levado pela curiosidade, afastou-se da casa mais do que devia, e foi empolgado
pelos índios, que o levaram à ocara.

Viu Arnaldo que o Moirão estava perdido, e arrastado por um impulso
de seu coração generoso, cuidou em salvá-lo. Os Jucás
entretidos com o prisioneiro, não sentiram que eram seguidos às
ocultas. Assim conseguiu chegar o vaqueirinho à ocara, onde logo acudiu
Anhamum, avisado pelos brados de seus guerreiros.

Saltou-lhe Arnaldo em face, e apontando para o peito esquerdo do chefe, repetiu
a palavra que êste pronunciara seis meses antes, na noite de sua evasão.

— Coapara!

Anhamum dirigiu ao rapaz um floreio de seu arco, saudação devida
a um guerreiro ilustre; e depois uniu-se a êle, costa com costa, para
significar-lhe a união em que estavam, o que era o mais estreito abraço
da amizade.

Seguiu-se depois o diálogo da hospitalidade.

— Tu vieste?

— Vim.

— Sê benvindo ao campo de Anhamum, a quem salvaste.

A êsse tempo já os índios tinham despido o Moirão
e distribuído as várias peças do seu vestuário
que foram imediatamente reduzidas a tiras para servirem de faixas e cintas
guerreiras.

Arnaldo exigiu de Anhamum duas coisas: primeiro, que êle não
levantaria seu arco nunca mais contra os donos da Oiticica; segundo, a entrega
do Aleixo Vargas. Anhamum preferia que o seu camarada lhe pedisse uma orelha,
um ôlho, ou metade de seu sangue; mas não podia recusar nada
ao seu salvador.

Nesse mesmo dia o chefe dos Jucás levantou a taba e Arnaldo voltou
à Oiticica conduzindo o vargas. O que êle não levou foi
a roupa dêste, e o nosso amigo Moirão para fazer uma entrada
decente teve de embrulhar-se em fôlhas de banana, o que deu-lhe ares
de uma enorme moqueca.

Depois dêstes acontecimentos, Arnaldo por mais de uma vez foi à
taba dos Jucás, levantada à margem do rio a que êles deram
o nome; e sua amizade com Anhamum estreitara-se ainda mais, com os mimos de
armas que lhe fizera.

O chefe dos Jucás dera-lhe um aseta de seu arco, em penhor de aliança.

— Quando careceres do braço de Anhamum, envia-lhe esta seta,
que êle correrá a defender-te.

De dia em dia as relações entre os dois colaços foram
afrouxando, à medida que Flor tornava-se moça. A juventude que
prendia mais a donzela à sala, por outro lado arrojava mais o sertanejo
para o deserto.

Flor só o via de longe em longe; tratava-o, porém, com um modo
afetuoso e muitas vezes, quando a ausência prolongava-se, ela o recebia
com alguma demonstração mais expansiva, como sucedeu na sua
volta do Recife.

Eram estas as recordações que a donzela ainda repassava na
memória, recostada à janela, no momento em que arnaldo a avistou.
Depois vieram as reminiscências dos últimos tempos até
aquela tarde, em que o sertanejo excedera-se a ponto de forçá-la
quase a um ato violento.

Tornando a si desta longa interrogação do passado, a donzela
aterrou-se ante uma idéia que surgiu-lhe de chofre. Essa afeição
que tinha a Arnaldo seria mais do que a simples amizade de uma irmã
de criação por seu companheiro de infância?

Não. Ela, a filha do capitão-mór Cmapelo, não
podiaa ver em um vaqueiro outra coisa senão um agregado da fazenda,
ao qual dispensava um quinhão da estima protetora, que repartia com
seus bons servidores, como a Justa, a Filipa e outros.

Daí em diante cumpria-lhe manter a distância que a separava
do seu colaço, para que êste não a esquecesse outra vez,
e de um modo tão grosseiro. Sentiu que havia de custar-lhe bastante
envolver Arnaldo, a quem sempre distinguira com sua afabilidade, no mesmo
trato frio e imperativo que usava com a gente da fazenda. Mas assim era preciso,
e assim havia de ser.

Nunca a sua proteção faltaria a Arnaldo. Todos os sacrifícios
ela os faria, sendo necessário, para poupar-lhe um desgôsto,
e auxiliá-lo nos trabalhos da vida. O que vedava-lhe o seu decôro,
era a confiança e familiaridade, em que até alí havia
consentido com tamanha imprudência.

A resolução da donzela e o esfôrço que lhe tinha
custado, refletiam-se em sua fisionomia severa e altiva, quando ao toque de
ave-maria, ela saíu ao terreiro e foi beijar a mão dos pais.

Arnaldo a seguira com os olhos cheios d’alma. A donzela ao voltar-se
o avistara; mas desviou dele a vista, sem a menor perturbação
ou sobressalto, com uma indiferença plácida e fria, que traspassou
o coração do sertanejo.

Adivinhou que Flor acabava de separar-se dele para sempre.

Depois de Trindades, D. Genoveva chamou a filha e levou-a à presença
do capitão-mór, que esperava sentado no canapé.

— D. Flor, minha filha, a senhora chegou à idade de tomar estado;
e nossa obrigação, era procurar-lhe um marido, digno por suas
prendas de merecer aquela a quem mais prezamos no mundo. Lembrámo-nos
de seu primo Leandro Barbalho, do Ouricurí, filho do falecido Cosme
Barbalho, homem de prol, a quem o filho não desmentiu nas obras:

— Aceito; meu pai; basta ser de sua escolha, para que eu o tenha no
melhor conceito.

Campelo comunicou à filha que nesse mesmo dia despachara um portador
com carta ao Leandro Barbalho, o qual breve estaria na Oiticica, e agradando
a D. Flor, como era de esperar, se trataria logo das bodas.

O que não disse o capitão-mór fo o motivo de tamanha
pressa. Não lhe saía da lembrança o dito de Fragoso;
e receoso de que pela intercessão de algum santo, ou por artes ocultas,
conseguisse o despeitado mancebo abrandar-lhe o ânimo, pensou que o
melhor esconjuro contra êsse malefício era casar quanto antes
a filha.

D. Flor, que outrora assustava-se com a idéia do casamento, aceitou-a
nessa ocasião com um modo pressuroso que não lhe era habitual.
Porventura entrevia ela na sua aliança conjugal, um apôio para
a resolução que tomara, e da qual ainda receava desviar-se?

À noite, pouco antes do toque de recolher, chegaram à Oiticica
dois viajantes: uma dama que trajava de luto, ajoelhou-se aos pés do
potentado.

— Sou uma desventurada, que vem pedir ao sr. capitão-mór
Campelo, como pai dos pobres e a Providência dêstes sertões,
agasalho e proteção contra seus perseguidores.

— Agasalho terá, que a ninguém se nega na oiticica; proteção,
a darei se a merecer; mas primeiro diga para o que a pede, mulher!

— É tarde, e eu não quero pagar com incômodo da
família a hospitalidade que vossa senhoria me concede. Se o sr. capitão-mór
dá licença, eu deixarei para amanhã relatar-lhe minhas
desgraças.

— Amanhã a ouviremos.

D. Genoveva já tinha dado ordem para preparar-se um aposento, no qual
foi ela própria, com Flor, instalar a dama, que lhes captara as simpatias,
não só por sua desventura, como por seu modo, ao mesmo tempo
digno e modesto.

Quando a desconhecida ergueu o crepe que a velava de dó, sua beleza
deslumbrante produziu nas duas damas um movimento de ingênua admiração.
Não se recordavam de ter visto semblante tão formoso. Flor era
aos olhos da mãe o tipo da graça e da gentileza; mas não
tinha a fascinação que derramavam os olhos negros e aveludados
da desconhecida.

Soube então D. Genoveva que sua hóspede chamava-se Águeda,
e era viúva. Como, porém, com a lembrança recente de
seu infortúnio desatasse em pranto, a fazendeira depois de a consolar,
retirou-se para não perturbar-lhe o repouso de que devia carecer.

No outro dia, logo pela manhã, veio Águeda à presença
do capitão-mór, trazida por D. Genoveva, a qual a animava com
a esperança de obter a proteção que viera solicitar do
dono da Oiticica.

— Diga o seu agravo, mulher, e conte que lhe faremos justiça,
determinou o capitão-mór com a gravidade de um desembargador
daquele tempo, que os de hoje são mais gaiteiros.

— Com a justiça infalível do sr. capitão-mór
conto eu, que a sua fama corre todo êste sertão, e não
há quem não a conheça e louve e respeite, pois nunca
faltou ao pobre e desvalido; e assim não abandonará esta mísera
viúva, que vivia afortunada e na abastança, mas agora aquí
está a seus pés, desgraçada, sem marido, sem abrigo,
na maior penúria, e tudo por quê? Só porque na sua casa
venerava-se acima de tudo o nome do capitão-mór Gonçalo
Pires Campelo.

— Que diz, mulher? exclamou o dono da Oiticica com um estremeção
que fez estalar a poltrona.

— É a verdade, sr. capitão-mór. Vossa senhoria
talvez não se lembre de meu marido, o Tomaz Nogueira?

— O Tomaz Nogueira? repetiu o capitão-mór, interrogando
a memória.

— Da Barbalha, acrescentou a viúva.

O fazendeiro consultou com o olhar a D. Genoveva, ao capelão e ao
ajudante, que eram os três arquivos ou canhenhos dos fastos de sua vida;
mas nenhum recordava-se do nome pronunciado pela viúva.

— Meu marido conheceu o sr. capitão-mór Campelo no Icó,
de vista, que de fama já o conhecia desde pequeno; e tal era a veneração
que tinha por vossa senhoria que muitas vezes me dizia: «Olha, Águeda,
se não fosse minha mãe estar já tão velhinha e
não querer por coisa alguma sair da Barbalha, com certeza mudava-me
para o Quixeramobim só para ter o gôsto de servir ao capitão-mór
Campelo. Aquilo é que é homem! El-rei escreve a êle todos
os anos com muitas partes para agradá-lo, porque tem mêdo que
o capitão-mór não tome para si todo o sertão,
com esta capitania do Ceará e mais a de Pernambuco. Que isto é
só êle querer. El-rei bem sabe». E era uma vontade tão
grande, que estava sempre a repetir.

— Tenho uma lembrança de seu marido, mulher, disse o capitão-mór.
Parece-me que o vi no Icó, numa festa.

— É isso mesmo!

O Campelo não se recordava de tal Nogueira; mas entendeu que não
podia ser alheio a um homem, que tinha por sua pessoa aquele profundo acatamento.

— Que aconteceu então a seu marido?

— Apareceu na Barbalha êste ano um tal Proença que foi
toda a nossa desgraça.

— Um conhecido por Vareja? perguntou Campelo.

— O próprio. Êsse homem não sei por que tinha raiva
do sr. capitão-mór, e então foi meu marido quem pagou;
porque um dia apresentou-se em nossa casa com três cabras, e intimou
ao sr. Nogueira, que pusesse a bôca em vossa senhoria, e o chamasse
já e já de… Não me atrevo a dizer.

— Há de atrever-se, mulher, que lhe ordenamos nós. Chamasse
de quê?

A viúva fez um esfôrço:

— De sapo cururú.

O capitão-mór que já a custo sofreava a cólera,
saltou como uma explosão:

— Agrela, mande já sem demora encilhar os cavalos, que eu não
durmo enquanto não ensinar o cabra! Vá aprontar a minha maca,
D. Genoveva. Não ouve, senhora?

Enquanto a mulher e o ajudante saíam a cumprir suas ordens, o capitão-mór
cruzava o terreiro a largos passos, sôfrego de montar a-cavalo. Amainando
a refega da ira, caminhou para a viúva que ficara imóvel no
mesmo lugar:

— E seu marido que fez, mulher?

— Nogueira? Não tinha que saber. Disse e repetiu que o sr. capitão-mór
era o primeiro homem do mundo e a Providência desta terra, pelo que
o havia de louvar sempre. Foi então que o malvado gritou: — «Pois
eu faço tanto caso dele como de um surrão velho, e toma lá
a prova». Matou meu marido, deitou fogo na casa…

Os soluços e lamentações da viúva eram abafados
pela voz do capitão-mór que retumbava:

— Meu bacamarte, D. Genoveva! Onde estão êstes cavalos?
Pegou no sono, Agrela? Anda com estas botas, negro do inferno?

Êsse Vareja era um sujeito de Russas. Tendo uma vez dito que o Campelo
não era capitão-mór às direitas, porisso que o
Quixeramobim ainda não subira a vila; e sabendo disso o potentado,
mandou-o chamar, com o que tal mêdo tomou, que desapareceu, e não
houve mais novas dele.

Por aquí se avaliará da gana que devia ter o capitão-mór,
de agarrá-lo para pagar-se do novo e do velho.

D. Genoveva, a-pesar-de habituada a estas sortidas, afligira-se com aquela
partida tão precipitada. A ausência do Campelo naquela ocasião
a assustava: nem ela sabia por qual motivo. Entretanto não se animando
a opor-se diretamente à resolução do marido, incumbiu
a D. Flor dessa difícil missão.

A donzela exercia no ânimo do pai decidida influência, e isso
provinha do dom que ela tinha de identificar-se com a sua vontade, de modo
que cedendo-lhe, pensava o capitão-mór que cedia a si mesmo.

D. Flor não usou de nenhuma das razões em que a mãe
insistira; não empregou argumento de família. Abundou no sentimento
do pai; mas confessou-lhe que admirava-se de sua partida.

— Por quê?

— É dar muita importância a um vilão. Basta que
mande buscá-lo por uma escolta. Que não dirão quando
souberem que o capitão-mór Campelo abalou-se de sua fazenda
para prender um bandoleiro?

— Pois mandarei o Agrela.

— Isto sim.

Nesta conformidade, deu o capitão-mór suas ordens; e o ajudante
preparou-se para sair naquela mesma hora com uma escolta de cincoente homens.

Arnaldo chegava nesse momento, e a primeira vez que viu Águeda, experimentou
uma sensação estranha, que se poderia chamar de acerba admiração.
A esplêndida beleza dessa mulher, que o arrebatava a seu pesar, fazia-lhe
mal, como se o fulgor que dela irradiava lhe queimasse a alma.

Quando o sertanejo soube da próxima partida do Agrela, ficou preocupado.
Podia o ajudante demorar-se na expedição, e nesse tempo voltar
o Fragoso de Inhamuns.

Antes demeio-dia partiu a escolta. Já iaa na várzea, quando
saíu-lhe ao encontro Arnaldo que aproximou do cavalo de Agrela o seu.

— Preciso falar-lhe, sr. ajudante.

— Da parte do sr. capitão-mór? perguntou Agrela secamente.

— Da minha.

— Que negócio pode haver entre nós? tornou o ajudante
surpreso.

— O serviço dos donos da Oiticica, respondeu Arnaldo com o tom
firme.

Agrela inclinou a cabeça com um sinal adesivo e demorou o cavalo,
acenando à escolta que passasse adiante. Quando se acharam sós,
voltou-se para o sertanejo.

— O que há?

— O sr. Agrela não me gosta; não sei a razão,
nem a pergunto. Eu por mim não lhe quero mal, e espero que ainda havemos
de ser amigos.

O ajudante comoveu-se com essa linguagem singela e nobre:

— Estimarei que assim aconteça.

— Mas não se trata de nós agora. A Oiticica vai ser atacada.

— Por quem? perguntou o ajudante surpreso.

— Pelo Marcos Fragoso.

— Como sabe?

— Sei; é quanto basta.

— Já avisou ao sr. capitão-mór?

— Não; e enm o avisarei.

— Por quê?

— Talvez me engane. Demais êsse Fragoiso é meu inimigo,
e não posso denunciá-lo.

Agrela era homem para compreender semelhante suscetibilidade.

— Que devo eu fazer então? perguntou ao sertanejo.

— Voltar quanto antes.

— Conte comigo.

Os dois mancebos despediram-se. Eram duas almas nobres que sentiam-se atraídas
pela estima recíproca; mas os acontecimentos as tinham separado, lançado
entre elas um gérme de desconfiança.

Apartando-se do ajudante, Arnaldo esteve algum tempo a refletir, e encaminhou-se
para a gruta.

— Um de nós deve partir.

— Para onde? perguntou Jó.

— Para a taba dos Jucás.

— Dá-me a seta.

XIV – A trama

Três dias tinham decorrido depois da partida de Agrela para a Barbalha.

Águeda insinuara-se por tal modo na afeição de D. Flor,
que esta não a deixava, nem fartava-se de sua conversação
agradável e sedutora. Alina tinha ciúmes dessa preferência
e afastava-se queixosa e arrufada. Assim passavam as duas a maior parte do
dia a sós.

De seu lado também Arnaldo observava com inquietação
e desgôsto essa intimidade de D. Flor com a viúva.

A beleza de Águeda continuava a produzir no mancebo a mesma acre sensação:
êle não podia perdoar a esta mulher o encanto e sedução
com que à primeira vista ofuscava a lindeza de D. Flor.

Quando as contemplava juntas, êle reconhecia que a formosura da donzela
era uma flor do céu, pura e imaculada, respirando a fragância
de sua alma angélica. O brilho dos grandes olhos pardos tinha a limpidez
do rútilo das estrêlas; o sorriso dos lábios de nácar
abria-se como um doce arrebol da manhã; e as faces assetinavam-se como
as nuvens brancas ao de leve rosadas pelo crepúsculo da tarde.

Mas no semblante, e no talhe da viúva, ressumbrava um fulgor vivo
e intenso, que deslumbrava. Essa mulher não tinha a suprema correção
e delizadeza de traços que distinguia o perfil de D. Flor; não
possuia a elegância casta, graciosa e senhoril que vestia a donzela
de uma gentileza de rainha; porém sua beleza exercia sôbre os
sentidos uma poderosa fascinação.

Essa influência, que êle sofria a seu pesar, o irritava contra
aquela mulher; e às vezes admirando-a, vinham-lhe ímpetos de
aniquilar os encantos, que, se não a tornavam mais formosa do que D.
Flor, davam-lhe provocações que esta não tinha.

Não era esta, porém, a preocupação única
de Arnaldo acêrca de Águeda.

O repentino aparecimento dessa mulher no mesmo dia da emboscada; a história
por ela contada, e que dera em resultado a partida de Agrela com boa parte
da bandeira do capitão-mór; a súbita retirada de Marcos
Fragoso, quando êste voltasse; e assim, enquanto o capitão-mór
permanecia na habitual tranquilidade, Arnaldo velava na segurança dessa
família, a que havia dedicado toda a sua existência.

A convite e instâncias de Águeda, D. Flor saía com ela
a passeio pelos arredores da casa, quando quebrava de toda a fôrça
do sol. Depois de algumas voltas iam sentar-se à sombra de uma gameleira,
que ficava no princípio da mata. Havia alí um tronco derrubado,
que servia-lhes de banco.

Aí passavam o tempo em conversa. Águeda tinha sempre uma larga
provisão de contos e novidades para atrair a atenção
de D. Flor, que educada no retiro da fazenda, sentia a natural curiosidade
de conhecer o mundo.

Arnaldo desde o primeiro dia acompanhou êsses passeios, oculto no mato
e atento às práticas das duas moças. Nada colheu que
justificasse seus receios; mas notou que a viúva também de seu
lado estava alerta, pois a cada instante volvia de súbito e disfarçadamente
olhos ávidos em tôrno, como para surpreender alguém que
porventura a estivesse espreitando por entre a folhagem.

E não ficou nisso. Por mais de uma vez, queando D. Flor, que ia na
frente, adiantava-se, a viúva demorando o passo voltava-se e, com a
voz submissa e velada, chamava-o por seu nome.

— Arnaldo!… Arnaldo!…

Esta circunstância deixou atônito o sertanejo. De onde o conhecia
esta mulher? Que lhe queria para chamá-lo? Como pudera ela descobrir
a sua presença, que passaria despercebida para olhos vaqueanos?

Se Arnaldo não se perturbasse com a vista dessa mulher e a surpresa
que lhe acabava de causar, de-certo que não lhe escaparia uma circunstância
importante. Quando Águeda proferia seu nome, nem sempre volvia o rosto
para o lado onde êle efetivamente se achava, sinal de que não
o via, e apenas pressentia a sua proximidade.

Um dia quis o sertanejo esclarecer êsse mistério; e quando Águeda
o chamou como de costume, êle saíu do mato e apresentou-se. Ao
rumor de seus passos, D. Flor que ia adiante voltava-se, e avistando-o afastou-se,
com a mesma esquiva indiferença, que não deixara de mostrar-lhe
desde o dia da vaquejada.

Ficando só em presença de Águeda, o sertanejo perguntou-lhe:

— Que me quer?

— Agora não. Esta noite, depois de recolher. Estarei à
janela.

Proferidas estas palavras em voz rápida, Águeda lançou
ao sertanejo um olhar provocador e correu a reunir-se com D. Flor.

Arnaldo cada vez mais surpreendido com o procedimento da desconhecida, ficou
algum tempo a cogitar sôbre o estranho emprazamento que recebera. A
idéia de uma entrevista amarosa nem de longe passou pela mente do sertanejo;
sua conjetura foi que a moça carecia de seus serviços, e talvez
de seu auxílio para algum fim oculto.

Desde então resolveu acudir ao emprazamento, na esperança de
penetrar o mistério da vinda dessa mulher à Oiticica.

Tudo estava tranquilo na fazenda, não havia o menor indício
de perigo, e não obstante, o sertanejo não podia eximir-se a
uma vaga inquietação, que o trazia em constante desassossêgo.
À semelhança de certas plantas que ressentem-se logo de qualquer
alteração ainda remota da temperatura, da mesma forma êle
como que respirava uma ameaça na atmosfera.

Um pressentimento lhe advertia que o mal, se êle existia, estava oculto
no formoso semblante daquela moça, que de repente aparecera na Oiticica
e aí se introduzira de um modo singular.

Não enganava a Arnaldo o seu fiel coração. Nesse momento,
com efeito, a felicidade do capitão-mór Campelo e de sua família,
estava dependendo do bom êxito de uma cilada, urdida com uma astúcia
rara.

É preciso remontar ao dia da emboscada para conhecer os pormenores
da trama.

Deixámos o Marcos Fragoso de rota batida para sua fazenda das Araras,
em Inhamuns, acompanhado de seus hóspedes e parentes, assim como do
Onofre com a sua bandeira e mais gente da comitiva. O José Bernardo
breve se reunira ao amo com a bagagem que fôra buscar ao Bargado.

Ao escurecer pararam para dar algum repouso a si e aos animais. Armaram-se
as barracas e as redes; e o cozinheiro preparou a ceia, que todos acolheram
com a maior satisfação, pois se o almôço fôra
abundante, em compensação tinha havido nesse dia uma sinalefa
completa do jantar.

À mesa, posta sôbre forquilhas, praticaram os quatro mancebos
acêrca do estado das coisas e do modo de as deslindar.

Marcos Fragoso, picado ao vivo em seus brios, era pela desforra pronta:

— Por mim, se não fossem os avisos que eu reconheço prudentes,
teria seguido direito para a Oiticica; e hoje mesmo o Campelo conheceria com
quem se meteu.

— Também eu entendo, que estas coisas apuram-se logo, observou
João Correia; mas não se deve desprezar a estratégia,
sobretudo em um assalto. Convém reconhecer a posição
do inimigo.

— A estratégia pode servir de muito lá para guerras de
soldados, observou Daniel Ferro. Cá no sertão o que decide é
a gente e a valentia. O capitão-mór tem uma escolta de cem homens,
além dos agregados e escravos da fazenda. Para atacá-lo é
preciso aumentar a nossa bandeira.

— Os senhores são todos homens de guerra, acudiu Ourém,
e pois não estranharão em mim, que sou homem de lei, um voto
de paz. Antes de um rompimento formal, que ainda não se deu, penso
que muito acertado seria tentarmos uma acomodação honrosa; e
para a ajustar ofereço-me eu. Posso partir agora mesmo para a Oiticica,
e lá me apresentarei como parlamentário.

— É tempo perdido, replicou Fragoso.

O voto que prevaleceu afinal, foi o do Daniel Ferro. Decidiu-se que a comititva
ficaria alí nas vizinhanças de Quixeramobim, enquanto o alferes
ia a Inhamuns recrutar uma bandeira numerosa e destemida, com a qual tomassem
de assalto a Oiticica, para quebrar a proa do capitão-mór e
obrigá-lo a dar ao Fragoso todas as satisfações, sendo
a primeira delas a mão de D. Flor.

Quando Marcos Fragoso dirigia-se à sua rede, saíu-lhe ao encontro
Onofre, que o espreitava:

— Ainda me apareces? perguntou o mancebo, em quem a presença
de seu cabo de bandeira veio de novo atear a ira.

— Quem é que se livra de ser logrado uma vez, ainda mais daquela
maneira? retorquiu o coriboca submisso. Mas o caso está em saber tirar
a desforra.

— Já não creio nas tuas bazófias, tornou o mancebo
desdenhosamente.

— Nestes oito dias, se não for antes, asseguro ao senhor capitão
que temos o passarinho na gaiola.

— Ou o sendeiro na peia, retrucou Fragoso, aludindo ao recente de desastre
do Onofre.

— O sr. capitão há de ver, se desta feita o engano.

Sempre conseguiu Onofre do patrão que o ouvisse; e então expôs
miudamente o ardil que havia tramado, e que já estava àquela
hora em via de execução. Para o coriboca era mão de empenho
essa, que devia rehabiliatá-lo no conceito do Fragoso, e desafrontar
a sua fama de cabra fino e manhoso, abalada pelo último revés.

Logo que a comitiva deixara o sítio da emboscada, Onofre tivera uma
conversa com a Rosinha e o resultado foi tornarem furtivamente ao Bargado,
com o José, irmão da rapariga. Chegados à fazenda, onde
tinham deixado as macas, operou-se nos dois ciganos uma transformação
completa.

Rosinha tornou-se Águeda, a viúva perseguida, que vinha da
Barbalha implorar a proteção do capitão-mór; e
José disfarçou-se no velho que devia acompanhá-la até
a Oiticica.

O Onofre sabia do caso acontecido com o Vareja; e Rosinha já conhecia
bastante a gente da Oiticica pelas conversas do Moirão, que estava
sempre a falar do Arnaldo, e a contar as mandingas do sertanejo.

A recomendação que levava a rapariga era insinuar-se na confiança
de D. Flor e a pretêsto de passeio atraí-la a uma cilada, em
que o Onofre de antemão prevenido se apoderasse da donzela e a conduzisse
ao Marcos Fragoso.

Se falhasse êste plano, devia então Rosinha dispor as coisas
para um assalto noturno, avisando ao Onofre da ocasião propícia,
e abrindo-lhe a porta da casa para que no meio da confusão fosse raptada
a filha do capitão-mór.

Para qualquer dos casos, a fábula do Proença seria de proveito,
pis além de explicar o aparecimento da suposta viúva na Oiticica
e de granjear-lhe a compaixão das senhoras, contava o Onofre que desse
em resultado a partida do capitão-mór com uma forte escolta.

Não partira o fazendeiro, mas enviara o ajudante com cêrca de
metade de sua gente, de modo que já não era muito de temer a
perseguição que naturalmente o Campelo havia de fazer aos roubadores
da filha.

Águeda ganhou facilmente as boas graças de D. Flor; para isso
não lhe foi preciso empregar a menor arte, bastou a sua formosura,
e o luto que a tornava ainda mais interessante. A donzela tomou-se de afeição
sincera pela bela viúva.

Todavia desde logo percebeu a astuta cigana que tinha de lutar com um obstáculo
sério, e êsse era Arnaldo. Já estava ela prevenida de
algum modo acêrca do sertanejo, pelas proezas que dele contava o Moirão,
nos serões da fazenda do Bargado. Mas na manhã seguinte observou
uma circunstância que a sobressaltou.

Vira o olhar que Arnaldo fitava em Flor, e concebeu no brilho que acendia
aquela pupila negra os lampejos de uma paixão intensa. O sertanejo
amava a filha do capitão-mór; e êsse amor, não
partilhado, e portanto inquieto e sôfrego, devia envolver a donzela
em uma solicitude constante.

Águeda adivinhava a vigilância infatigável dêsses
afetos, que vivem de uma doração mística e se enlevam
na contemplação do ídolo, investigando todos os gestos
e perscrutando no mínimo acidente o pensamento recôndito. Contava,
pois, que perto de D. Flor seria a cada instante o alvo da observação
de Arnaldo.

Quando saía com a donzela a passeio, notou a cigana que por dentro
do mato a seguia um leve farfalhar da ramagem. Em outra ocasião o atribuiria
à brisa ou a algum pássaro, e não faria o menor reparo.
Nauqela situação, porém, essa circunstância viera
avivar a sua desconfiança.

Disfarçadamente relanceava os olhos à espessura insinuando
a vista pelo crivo das fôlhas, e embora não descobrisse o menor
vulto, ela pressentia a proximidade do sertanejo e fôra para certificar-se
que usara da astúcia de pronunciar o nome de Arnaldo, chamando-o.

O ardil surtira efeito.

Mostrando-se, o sertanejo viera confirmar a suspeita de Águeda, e
dera aso a uma nova intriga, que alí prontamente armou a arteira cigana,
para escapar à sua vigilância e iludir-lhe a perspicácia.

XV – Tentação

Já tinham soado no sino da capela as últimas badaladas do toque
de recolher.

Por toda a fazenda da Oiticica, sujetia a um certo regime militar, apagavam-se
os fogos e cessava o borborinho da labutação quotidiana. Só
nas noites de festa dispensava o capitão-mór essa rigorosa disciplina,
e dava licença para os sambas, que então por desforra atravessavam
de sol a sol.

Era uma noite de escuro; mas como o são as noites do sertão,
recamadas de estrêlas rutilantes, cujas centelhas se cruzam e urdem
como a finíssima teia de uma lhama assetinada.

A casa principal acabava de fechar-se; e das portas e janelas apenas escapavam-se
pelos interstícios umas réstias de luz, que iam a pouco e pouco
extinguindo-se.

Nesse momento um vulto oscilou na sombra, e coseu-se à parede que
olhava para o nascente.

Era Arnaldo.

Resvalando ao longo do oitão, chegara à janela do camarim de
D. Flor, e uma fôrça irresistível o deteve alí.
No gradil das rótulas rescendia um leve perfume, como se por alí
tivesse coado a brisa carregada das exalações da baunilha. Arnaldo
adivinhou que a donzela antes de recolher-se, viera respirar a frescura da
noite e encostara a gentil cabeça na gelosia, onde ficara a fragrância
de seus cabelos e de sua cútis assetinada.

Então o sertanejo, que não se animaria nunca a tocar êsses
cabelos e essa cútis, beijou as grades para colhêr aquela emanação
de D. Flor, e não trocaria de-certo a delícia dessa adoração
pelas voluptuosas carícias da mulher mais formosa.

Aplicando o ouvido percebeu o sertanejo no interior do aposento um frolido
de roupas, acompanhado pelo rumor de um passo breve e sutil. D. Flor volvia
pelo aposento, naturalmente ocupada nos vários aprestos do repouso
da noite.

Um doce susurro, como da abelha no seio do rosal, advertiu a Arnaldo que
a donzela rezava antes de deitar-se; e involuntariamente também ajoelhou-se
para rogar a Deus por ela. Mas acabou suplicando a Flor perdão para
a sua ternura.

Terminada a prece, a donzela aproximou-se do leito. O amarrotar das cambraias
a atulharem-se indicou ao sertanejo que Flor despia as suas vestes e ia trocá-las
pela roupa de dormir.

Através das abas da janela, que lhe escondiam o aposento, enxergou
com os olhos d’alma a donzela, naquele instante em que os castos véus
a abandonavam; porém seu pvem branca de jaspe surgisse uma estrêla.
A trepidação da luz, cega e tece um véu cintilante, porém
mais espêsso do que a seda e o linho.

Cessaram de todo os rumores do aposento, sinal de que D. Flor se havia deitado.
Ouvindo um respiro brando e sutil como de um passarinho, conheceu Arnaldo
que a donzela dormia o sono plácido e feliz.

Só então afastou-se para acudir ao emprazamento que recebera.

O aposento de Águeda ficava do mesmo lado da casa, e era o penúltimo
antes do quintal, logo depois do quarto de Alina. A janela estava cerrada
e escura, mas ao olhar de Arnaldo não escapou uma fita imperceptível
que a dividia de alto a baixo, e que êle atinou ser o tênue vislumbre
de uma candeia velada.

Águeda espreitava por essa fresta a chegada de Arnaldo, receosa de
que não viesse, e impaciente com a demora. Além do interêsse
da recompensa prometida pelo Onofre em nome de Fragoso, outro impulso movia
nesse instante a cigana.

Era mulher, e tinha nas veias o sangue ardente do boêmio tocado pelo
sol americano. O prazer de fascinar um homem e cativá-lo a seus encantos,
bastaria para excitá-la; acrescia, porém, que êsse homem
era um mancebo galhardo e amava outra mulher, o que dava particular sainete
à aventura.

Assim prometia-se a Rosinha uma noite de emoções, que à
satisfação de sua vaidade reuniria a fácil execução
da trama urdida. Para disfarçar a impaciência da espera, entrou
a devanear, e sorria-se pensando que no outro dia, quando se apercebessem
do desaparecimento dela Águeda e de Flor, Arnaldo as seguiria com certeza,
mas talvez não dosse por causa da filha do capitão-mór.

No meio dêste devaneio, avistou pela fresta um vulto parado em frente
à sua janela. Ergueu-se de chofre e entreabrindo a rótula perguntou
em tom submisso:

— É Arnaldo?

— Êle próprio que vem saber para que o chamou aquí,
a esta hora.

— Entre! segredou a moça abrindo de todo a rótula e afastando-se
para dar passagem.

— Não podemos falar aquí mesmo? tornou Arnaldo, a quem
repugnava penetrar no aposento.

Águeda aproximou-se outra vez da janela e travando vivamente das mãos
do mancebo, disse-lhe comovida:

— Pelo senhor eu farei tudo! Mas ando espiada. Êsse velho que
me acompanhou… Se êle o visse aquí, seriam a minha perdição.
Podem ouvir-nos e o que eu tenho a dizer-lhe ninguém o deve saber,
ninguém, senão Arnaldo.

O sertanejo em extremo admirado daquelas falas, não opôs resistência
ao movimento da moça que o atraía a si, convidando-o a entrar.
Apoiou-se no parapeito e saltou no aposento, onde a mão tépida
de Águeda o conduziu até um estrado que havia junto ao leito.

Fechada a janela, a moça tirou a candeia que havia escondido por detrás
de um baú, coberta com uma bacia de rosto, e colocou-a em cima da cantoneira,
de onde alumiava todo o aposento.

Foi então que Arnaldo pôde bem admirar a beleza dessa mulher,
que até aquele momento só vira de longe, ou de relance, quando
ela passeava com D. Flor, em quem iam presos seus olhos.

Águeda tirara o véu de luto. Sua cabeça meneava-se airosamente
agitando os bastos e longos cabelos negros, semelhante à palmeira,
que embala a sua verde coma ao sôpro da brisa. O corpinho de cambraia,
cerrando-lhe a fina cintura, abria-se como uma taça esvazada para mostrar
o colo.

Tinha as mangas curtas, onde os lindos braços engastavam-se apenas
em um molho de rendas; a saia, bordada de crivo, descia-lhe até as
curvas deixando nua a extremidade de uma perna bem torneada, e o pé
largara a chinela para pisar mais sutil.

Notando o olhar do mancebo que devorava os seus encantos, Águeda fez
um movimento de espanto, como caindo em si, e lançou mão de
uma mantilha de sêda, na qual embuçou-se com gesto vergonhoso.
Depois foi sentar-se no estrado e disse erguendo timidamente os olhos para
Arnaldo, em pé diante dela:

— Sente-se, aquí, perto de mim. O que vou contar-lhe é
um segrêdo de que depende a minha sorte. Jura guardá-lo, Arnaldo?

— Se desconfia de mim, para que arrisca o seu segrêdo?

— Não; não desconfio, nem é preciso que jure.
Sei que é generoso, Arnaldo; e não há de querer o mal
de uma pobre mulher, que só tem uma culpa, a de não vencer o
seu coração.

Águeda repetiu então a fábula que inventara para explicar
sua vinda à Oiticica; mas desta vez inserindo-lhe particularidades
do caso, acompanhadas de exclamações e lamentos, em que a arteira
rapariga empregava toda a sua habilidade cômica, e jogava com os requebros
dos olhos, a volubilidade do semblante e as inflexões lascivas do talhe.

As mulheres têm o talento especial dessa eloquência ouca, mas
sonora, que certos homens neutros conseguem imitar. Os lábios ressoam
como as cordas de um instrumento; ouve-se a música das palavras; mas
o que fala é somente o sorriso e o gesto, que não fazem senão
repetir o mesmo e constante desejo de atrair e fascinar.

Águeda insistia em minuciosidades puerís, repisava as mesmas
coisas, contradizia-se muitas vezes; mas o que ela queria era um pretêsto
para falar, e bordar com a palavra essa teia de olhados matadores e efusões
irresistíveis que a aproximava de Arnaldo e estabelecia entre ambos
comunicação íntima.

Porisso, memorando a morte do marido, estremecia de horror, e conchegava-se
ao mancebo como para amparar-se com a sua coragem; querendo enternecê-lo,
travava-lhe das mãos que apertava nas suas, transmitindo-lhes o seu
fluído no toque macio e tépido; outras vezes fingindo um susto,
parecia desmaiar, e como sem tino e conciência do que fazia, levava
ao seio a destra do sertanejo ainda enlaçada na sua.

— Que susto, meu Deus! Veja como bate o meu coração!
dizia como sufocada.

Arnaldo estava sob a influência maligna desta sedução,
de que o advertia a sua perturbação, mas que êle não
tinha a fôrça de repelir; porque nesse momento sua alma nobre
e altiva era sopitada pelas erupções do sangue.

Aos vinte e um anos, a bêsta humana, quando revolta-se contra o espírito
que a domina, é uma fera indomável, sobretudo em uma organização
pujante como a de Arnaldo. A pura e casta adoração que até
alí havia preservado o mancebo de pagar o tributo à matéria
e o alheara dos prazeres sensuais, deixara incubar-se o desejo que fazia agora
explosão.

O sertanejo já não escutava as palavras da moça, nem
entendia o que ela falava. Mas ouvia-lhe a voz harmoniosa, e bebia-lhe nos
olhos a beleza, que o embriagava como o suco da jurema, do qual provara uma
vez na taba de Anhamum.

Quando a rapariga apertava-lhe as mãos, ou se conchegava ao seu peito,
um sentimento de profunda repulsão o invadia; mas, se turbava-lhe a
alma, não tinha êle fôrça para retrair o corpo.
Ficava imóvel e passivo.

Terminou Águeda a sua narração, convencida de que tinha
em seu poder o mancebo; mas também com o tato e experiência que
possuia, conheceu que não era êle homem para ousar logo da primeira
vez. Que importava? Ela supriria êsse acanhamento pela sua afoiteza;
contanto que naquela mesma noite alcançasse as duas vitórias
porfiadas, a de seu capricho e a de seu interêsse.

No desafôgo de sua história, Águeda abrira aos poucos
a mantilha, que afinal resvalara pelas espáduas, deixando nu o colo.
Foi assim que estreitou-se com o mancebo para dizer-lhe:

— Eu sou uma desventurada, Arnaldo!

— O matador de seu marido será castigado. O capitão-mór
não prometeu? murmurou o sertanejo.

— Se fosse esa toda a minha desgraça! Eu já me teria
conformado com a vontade de Deus. Mas, além de perder meu marido, ficar
ainda sem aquilo que a mulher mais preza neste mundo, a honra?

— Quem é que a quer roubar? perguntou o sertanejo indignado.

— Um sujeito de Inhamuns, chamado Marcos Fragoso.

— Êle?

— Conhece-o?

O sertanejo acenou com a cabeça.

— Pois êsse homem jurou que havia de perder-me; e o velho que
me trouxe é um espião pago por meu perseguidor. Não tendo
quem me acompanhasse, fiei-me nele, que me ia entregando ao amo. Se não
o enganasse fingindo-me doente e pedindo para descansar uma noite na Oiticica,
estaria a esta hora perdida, Arnaldo! exclamou a moça, atirando-se
ao peito do sertanejo.

— Sossegue. Aquí está em segurança! respondeu
o mancebo.

— O velho já ameaçou-me!

— Atreveu-se? disse o sertanejo com um grito de ameaça.

— Ah! eu lhe suplico, Arnaldo! tornou a moça, lançando-lhe
os braços aos ombros. Não lhe faça mal, seria perder-me!

E Águeda reclinou a cabeça ao seio do sertanejo. Houve um instante
de silêncio em que ela ouviu as pulsações violentas dêsse
coração indômito, que parecia estalar antes do que render-se.

A moça ergueu a fronte e mostrou o formoso rosto banhado de lágrimas
e sorrisos.

— Não se lembra de mim, Arnaldo?… Nem sequer me viu, embora
tivesse os olhos postos em mim, disse com um suspiro.

— Onde? perguntou o mancebo surpreso.

— No Icó. Quando esteve lá há dois anos. Eu o
vi, Arnaldo, e desde êsse momento sentí que não era mais
senhora de mim. Infeliz sina a das mulheres! Os homens ainda quando não
são queridos, têm o consôlo de seguir aquela a quem amam.
Nós, porém, se roubam-nos o coração, não
podemos ir após êle. Casaram-me à fôrça!

A emoção embargou a voz de Águeda, que depois de breve
pausa continuou:

— A sorte me trouxe à Oiticica, onde havia de encontrá-lo,
Arnaldo, para amparar-me contra o meu perseguidor.

— Não receie, que a defenderei.

— Ao seu lado nada receio, Arnaldo. Desde muito que eu lhe pertenço.
Quer uma prova? Exija!

Águeda ficou suspensa, fascinando com o olhar ao mancebo, que a fitava
alucinado.

— Fale!… murmurou ao ouvido de Arnaldo, unindo o seu ao rosto
dele. Que prova quer? Um beijo?…

E descaíu languidamente a cabeça de modo que a bôca apinhada,
roçando pela face do mancebo, veio embeber-se em seus lábios.

Ao contacto dêsse beijo ardente Arnaldo estremecera, como se visse
erguer-se diante dele uma serpente, a cuspir-lhe no rosto sua baba impura.
Recuou soltando um rugido surdo, e as mãos ambas impelidas por um instintivo
movimento de horror, foram cerrar-se no colo da moça.

Por algum tempo o mancebo permaneceu na mesma posição, com
o corpo imóvel, os braços hirtos como os braços da fôrca,
os olhos fechados, sentindo nas mãos as retrações convulsivas
da mísera mulher as quais êle tomava pelo colear da serpente.
As vascas da agonia indicavam-lhe que o réptil ainda vivia, e êle
esperava.

Êsse pesadelo o dominou de tal modo que fugiu-lhe a lembrança
do lugar onde se achava e dos fatos que se haviam passado momentos antes.

Afinal abriu as pálpebras; e viu espavorido que tinha nas mãos
a infeliz mulher, com os olhos esbugalhados e a língua saída
pela bôca escâncara. Rangerm-lhe os dentes de frio, e das mãos
trêmulas escapou o corpo que rolou pelo chão.

De um pulo ganhou o mancebo a janela e desapareceu.

No dia seguinte, ao chegar de sua jornada, Jó encontrou o sertanejo
espojado no chão da caverna, falou-lhe, mas êle fitou os olhos
e não respondeu. Era a alucinação que durava ainda. A
mesma cena da noite debuxava-se em sua alma com formas estupendas e monstruosas.

O velho conhecia estas procelas d’alma; e sabia que, à semelhança
das outras que conturbam os elementos, elas só passam quando o céu
descarrega os vapores de que estão pejadas as nuvens.

Jó deixou, portanto, Arnaldo ao seu delírio e submergiu-se
no passado, onde vivia mais do que no presente, êle que já não
tinha futuro.

Decorreram as horas. Era já sobretarde, quando sentiu-se na caverna
uma ligeira vibração. Jó e Arnaldo ergueram a cabeça
de chofre, e olharam-se. Ambos por um simultâneo movimento deitaram-se
no chão e escutaram.

— Cavalos! disse Jó.

— Montados,a crescentou Arnaldo.

— Trinta.

— Eu contei trinta e um.

— Teu ouvido é melhor.

— Uma escolta a galope!…

Proferindo estas palavras, Arnaldo saíu da caverna seguido pelo velho.

Sua primeira idéia foi que Marcos Fragoso voltava para atacar a Oiticica;
mas o número dos cavaleiros que se aproximavam o dissuadiu dessa idéia.

XVI – O fojo

Às sete horas da manhã, D. Flor notando a aus~encia de Águeda,
que tinha por costume acordar com a primeira claridade do dia, encaminhou-se
para o aposento da viúva.

O quarto ainda estava escuro. A donzela supôs que Águeda tivesse
passado mal a noite e não quis incomodá-la. Mas à hora
do almôço não a vendo aparecer, nem abrir-se a porta do
aposento, assustou-se e foi ter com a mãe.

D. Genoveva acudiu logo; ao repetido bater, ouviu-se um ligeiro rumor, e
pouco depois a voz da viúva, que arrastou-se até à porta
e a abriu.

Quando as mãos de Arnaldo afrouxaram deixando rolar pelo chão
o corpo da cigana, ainda esta respirava, embora pouco faltasse para exalar
o último alento.

Por algum tempo ficou prostrada e sem acôrdo, como um cadáver;
mas aos poucos o ar penetrou nos pulmões, restabeleceu-se a respiração;
e ela caíu no torpor de que a veio tirar a dona da casa, assustada
com um sono tão prolongado.

Desculpou-se a viúva com uma dôr violenta que a desacordara
e nem tempo lhe deixara de meter-se na cama. D. Genoveva imediatamente recorreu
aos seus remédios caseiros; mas a doente os dispensou, dizendo estar
habituada àquele achaque, o qual lhe passava com um cordial e algumas
horas de repouso.

Tomou um chá de língua de vaca, e deitou-se. Não dormiu
porém; os pensamentos tumultuavam-lhe.

Pensou que era o momento de jogar a última cartada. Arnaldo, naturalmente
receoso do que fizera, talvez se ausentasse da casa nesse dia: era preciso
aproveitar o ensêjo.

Mandou chamar o velho que a acompanhara:

— José, há tempo de avisar o Onofre para esta tarde?

— Êle está alerta, bastam três horas e ainda falta
muito para meio-dia.

— Pois então vai. Sabes o lugar?

— A gameleira.

Águeda comfirmou com a cabeça.

— Desta vez não nos escapará.

A rapariga estava ansiosa de vingar-se em Flor do insulto de Arnaldo. Nesse
instante ela odiava o sertanejo, porém odiava ainda mais a mulher por
quem êle a desprezara.

O cigano deixando a irmã foi ao pasto, onde estava o cavalo que trouxera
Águeda, deu-lhe dois nós nas crinas e fez-lhe tais gatimanhas
e partes, que o animal partiu de carreira pelo tabuleiro afora.

Depois de duas horas de repouso, a cigana ergueu-se com esfôrço
e acompanhou Flor à mesa do jantar, para fortalecer-se com algum alimento
de que precisava, pois sentia-se como extenuada.

À tarde, pretendendo que o exercício lhe faria bem, convidou
a filha do capitão-mór para saírem a passeio.

Alina achou um pretêsto para eximir-se de acompanhar Flor; a sua antipatia
pela viúva bem longe de se desvanecer com o trato, ao contrário
crescia.

Águeda e Flor desceram ao tabuleiro, o José oculto entre as
árvores trocou um sinal com a irmã, e desapareceu na mata. Ia
ao encontro do Onofre para guiá-lo ao sítio.

Foi justamente por êsse tempo que Arnaldo e Jó saíram
da caverna. Não tinham andado cem passos, quando o mancebo parou assaltado
por uma idéia terrível.

— Segue, Jó! Eu vou à casa.

Com efeito encaminhou-se direito à habitação da fazenda,
tomado de cruel pressentimento. Ao meio do tombador encontrou a Justa:

— Onde está Flor?

— Passou agora mesmo com a viúva.

— Agora? Para lá?…

— Que modos são êstes de assustar a gente!

— Corre, mãe, e diz ao capitão-mór que venha salvar
a filha, pois a querem roubar.

— Flor!… Roubar Flor!… Minha Nossa Senhora da Penha de
França, valei-me!

A sertaneja a tremer com o susto não sabia que fazer, se correr à
casa para avisar ao capitão-mór, ou seguir o filho em busca
da donzela. Afinal tornou para a fazenda, mas a cada instante parava, soltando
brados descompassados.

— Flor!… sr. capitão-mór!… Acuda à
sua filha!… Acuda à Flor, que a levam! Ai, meu Jesús!

Entretanto Arnaldo, cuja suspeita se confirmara com a informação
que lhe dera a mãe, rompia o mato na direção da gameleira,
onde esperava encontrar a donzela e a viúva que êle sabia agora
ser emissária de Fragoso.

Aos gritos de Justa acudiram afinal umas escravas, que alvoroçaram
a casa, mas sem explicar a novidade de que davam rebate. Ouvia-se o nome de
D. Flor repetido de todos os lados e entre clamores de susto, mas o que sucedera
à donzela, ninguém sabia, senão a Justa, que ainda não
saíra do seu desatino.

Afinal chegou a nova ao capitão-mór que estava do outro lado
nos currais em companhia de D. Genoveva. O Campelo, não podendo conceber
que um perigo qualquer ameaçasse a filha, alí na Oiticica, junto
dele, dirigiu-se à casa com a costumada solenidade, contando achar
alí Flor.

Quando, porém, a Justa, ainda atarantada, conseguiu dar-lhe o recado
de Arnaldo, e êle percebeu o que havia ocorrido, abalou de carreira
para a mata, gritando à mulher com uma voz de trovão:

— Meu bacamarte, D. Genoveva! O Jacaré!

Atrás do capitão-mór precipitaram-se os homens da escolta
e toda a gente da fazenda, que andava perto, e acudira ao clamor.

Quando o fazendeiro tinha já vencido meia distância, romperam
quatro cavaleiros à disparada na direção da várzea.
Um deles levava nos braços uma mulher, envôlta em capa listrada,
a debater-se com movimentos desordenados, e soltando êstes gritos sufocados:

— Meu pai!… Acuda!… Acuda à sua filha!… Levam-me!…
Ai!… ai!… ai!…

Êsses gritos não deixavam dúvida. Era Flor que levavam
aqueles homens; a capa era a sua, que as escravas logo reconheceram.

Ouviu-se o rugido espantoso do capitão-mór. Nesse momento acabava
de alcançá-lo o pagem que trazia o bacamarte mandado por D.
Genoveva. Recebendo a arma, o Campelo sem hesitar apontou-a na direção
do cavaleiro que levava a mulher.

Lembrou-se que podia matar a filha, embora tivesse feito pontaria no cavalo;
mas essa filha adorada, êle antes a queria morta por sua mão,
do que roubada à sua ternura e profanada por infames.

Dois dos cavaleiros caíram; mas o que levava a mulher e outro passaram
incólumes e desapareceram além na várzea.

A êsse tempo chegava D. Genoveva montada a-cavalo, e acompanhada de
pagens que traziam o ruço, assim como de toda a gente que pôde
armar às pressas para correr em socorro da filha. Nesse momento ela
não gritava; as lágrimas saltavam-lhe dos olhos, os lábios
moviam-se rezando, mas sua atenção acudia a tudo com ânimo
varonil.

Campelo montou no ruço, e partiram êle, a mulher e a escolta
como um turbilhão.

O raptor de sua filha levava grande avanço; mas o capitão-mór
não refletia nesse momento. Era impossível que êsse homem
lhe escapasse; êle o perseguiria até o inferno, e lá mesmo
o deixaria estraçalhado por suas mãos depois de ter-lhe arrancado
Flor.

Os possantes cavalos do fazendeiro ganhavam sôbre os fugitivos, embora,
êstes montassem excelentes poldros dos sertões de Inhamuns, tão
afamados entre todos os do Ceará. Mas estavam êstes ainda fatigados
da jornada, enquanto que os de Quixeramobim andavam repousados.

Já era noite, quando o capitão-mór avistou afinal o
vulto negro do cavaleiro: e ferrando as esporas no ruço, atroou os
ares com um grito medonho.

Respondeu-lhe uma voz de mulher cujas palavras se ouviram distintamente.

— Salve-me, sr. capitão-mór, pelo bem que quer à
sua filha! Salve-me, e a D. Flor também, que lá ficou nas mãos
do Fragoso!

— Esta voz não é de Flor, disse o capitão-mór.

— É da Águeda! exclamou D. Genoveva. Ent&atilatilde;o nossa
filha?… Nós a desamparámos, sr. Campelo!…

A voz era efectivamente de Águeda, ou antes, da Rosinha, que temendo
cair nas mãos do capitão-mór, usara daquele novo ardil
para sustar a perseguição.

Campelo tinha estacado o cavalo, e não sabia que resolvesse. Foi D.
Genoveva que tomou o alvitre de retroceder; o marido acompanhou-a sem hesitação.

Onde, pois, estava Flor, àquela hora, quando seu pai, julgando correr
em sua defesa, ao contrário a abandonava?

É preciso tomar a narração de mais alto.

D. Flor conversava mui tranquilamente com Águeda à sombra da
gameleira, onde as deixámos sentadas, quando ouviram-se os gritos da
Justa.

Embora pela distância não pudesse distinguir as palavras, conhecera
a voz que pareceu-lhe alterada e aflita. Ergueu-se inquieta:

— Vamos, D. Águeda!

— Já? Podíamos esperar um instante. Sinto-me tão
fatigada!

— Estou ouvindo a voz de mamãe Justa! Não sei o que terá
acontecido em casa.

— Que pode ser?… A voz, eu ouço; mas é de uma pessoa
que está cantando.

Flor aplicou o ouvido para ver se enganara-se; e desta vez escutou não
só os gritos da ama, como o alarido que se levantava na fazenda, e
as vozes que chamavam pelo capitão-mór. Então realmente
assustada, fez um gesto à viúva e lançou-se na direção
da casa.

Águeda, porém, abraçara-se com ela:

— Daquí não sai!

— Não me toque, senhora, disse a moça revoltada.

— Oh! Pode zangar-se, que eu não faço caso de suas fidalguias.
Está em meu poder, e daquí ninguém a tira. Ouve? São
cavaleiros a galopar; não tardam aí. À frente deles há
de vir o Fragoso, seu namorado!

— Não sairei daquí, mulher, juro; mas não me ponha
as mãos e não me insulte.

Falou Flor com tal império e soberania, que a cigana calou-se, e recolhendo
os braços deixou livre a donzela, mas tomou-lhe o passo, pronta a segurá-la,
se quisesse fugir.

Flor sentou-se resignada, tendo por maior desgôsto o de lutar com essa
mulher, do que o do perigo que a ameaçava. Nesse momento seu espírito
nobre e cândido enleava-se em suposições acêrca
dos acontecimentos extraordinários que a vinham surpreender.

Rosinha alerta e escutando ansiosa o tropel dos cavaleiros, como se os apressasse
com seu anelo, voltou-se inquieta para o lado da casa, onde troou nesse momento
a voz possante do capitão-mór Campelo, bradando:

— Meu bacamarte, D. Genoveva! O Jacaré!…

Então a cigana temendo que o fazendeiro acudisse a tempo de livrar
a filha das garras do Fragoso, correu sôbre a donzela, travou-lhe do
pulso, e quis arrastá-la ao encontro do trôço de cavaleiros.

A donzela recalcou a indignação que sublevava-lhe a alma nobre,
e opôs à fôrça uma resistência passiva. Rosinha
era mais robusta do que ela, mas nesse dia, prostrada como estava, não
podia levá-la por violência.

Metendo a mão no corpete, sacou a cigana um punhalzinho da lâmina
fina, como a aspa de um espartilho, e o brandiu sôbre a cabeça
da donzela:

— Se não me acompanha, mato-a!

D. Flor respondeu-lhe com um soberbo gesto de desprêzo, e ficou a olhar
desdenhosamente para a arma que a ameaçava. A cigana hesitou um instante;
depois lembrou-se que ferindo a donzela, mais facilmente a arrastaria para
o mato.

Quando o punhal descia sôbre a espádua de Flor, abriu-se a folhagem
e surgiu Arnaldo. Tão medonho era seu aspecto que a cigana ao vê-lo
crescer para ela, fugiu espavorida, levando enleada no braço a capa
da donzela.

O sertanejo com a faca desembainhada arrojou-se a ela, mas a voz de D. Flor
o deteve:

— Não a mate, Arnaldo! Agarre-a para que meu pai a castigue.

A cigana, porém, tinha desaparecido; e as falas que já se ouviam
dos cavaleiros advertiram a Arnaldo que para salvar D. Flor não havia
um instante a perder.

— Venha! disse êle para a donzela.

— Para onde?

— Para a casa.

— Quem é esta mulher? Que me queria ela?

— Entregá-la ao Marcos Fragoso.

O sertanejo abria a folhagem para que a donzela passasse mais facilmente;
porém ainda assim era demorada a sua marcha. As vozes dos cavaleiros
aproximavam-se e já entre elas distinguira o mancebo a de Fragoso.
Entretanto ainda soavam longe os brados do capitão-mór e o tropel
da gente da fazenda.

A poucos passos encontraram Jó, que os buscava:

— Estamos cercados, disse o velho.

Nova dificuldade surgia, e talvez que insuperável. O sítio
onde crescia a gameleira fôra bem escolhido pela astuta cigana para
a cilada que armara. Era uma coroa de mato, que ligava-se à floresta
por estreito cordão, como istmo de ilha.

Distante da casa um quarto de légua, e encoberto por um largo bojo
da mata, era fácil à escolta do Onofre cercar o caapoão,
apoderar-se da donzela ainda quando a acompanhassem outras pessoas e executar
a emprêsa, sem darem rebate à fazenda.

Arnaldo, conhecia melhor que ninguém o sítio, e julgou da posição
de D. Flor. Não desesperou contudo. Êle e Jó levantariam
com seu corpo uma muralha diante de D. Flor e a defenderiam até a chegada
do capitão-mór.

Quando já indicava o grosso tronco de um jacarandá para que
Flor nele se abrigasse, ressoaram perto daí os gritos abafados que
soltava uma voz de mulher, simulando-se de D. Flor, e que iludiram o capitão-mór.

Sucederam-se por momentos êstes clamores, fugindo rapidamente para
o lado da várzea, e acompanhados do tropel dos cavalos a galope. Foram,
porém, abafados pelo grito do Campelo, ao que se seguiu um tiro.

Ao estrondo que estremecera a terra, o sertanejo reconheceu o bacamarte do
capitão-mór, como lhe tinha reconhecido a voz, e adivinhou o
que se passara.

Águeda escapando a Arnaldo correu direito ao encontro da escolta,
guiada pelo tropel. Avistando Fragoso que vinha na frente com o Onofre, atirou-se
a êles:

— O maldito vaqueiro chegou quandoeu ia arrastá-la, e o capitão-mór
aí vem! disse precipitadamente, apontando para a fazenda.

Onofre calculou o lance; era nos transes apertados que mostrava o coriboca
seus recursos. Já êle tinha chamado o Corrimboque e dava-lhe
suas ordens; depois voltou-se para a rapariga e em poucas palavras a pôs
ao corrente do novo trama.

Águeda despiu a saia preta, envolvendo o corpo na capade D. Flor,
e saltou no arção da sela do Corrimboque. Êste a tomou
nos braços e partiu a galope, seguido de três bandeiristas que
lhe serviam de escolta.

Foi então que a astuta cigana, debatendo-se nos braços do cabra,
conseguiu iludir com seus gritos ao capitão-mór levando-o após
si, e deixando assim o Fragoso livre de estorvos.

Ouvindo esvaecer com a distância o estrépito das patas dos animais,
Arnaldo que tinha adivinhado o ardil, convencera-se de que já não
podia esperar o socorro do fazendeiro e só devia contar consigo.

Mas que podia êle só com um velho inerme contra tantos inimigos
que os cercavam naquele instante, para colhê-los como nas malhas de
uma rede?

O Onofre não se abalou com as impaciências do Fragoso. Deixando-o
andar às tontas, estendeu a sua gente em roda do caapoão e com
os melhores vaqueanos começou a bater o mato em regra, como sabem fazer
os sertanejos, a quem não escapa um quatí entre as fôlhas.

Nestas circunstâncias, se Arnaldo tentasse sair do mato, cairia nas
mãos dos que faziam o cêrco, ou mostrar-se-ia no limpo aos inimigos,
que imediatamente se lançariam sôbre êle.

Ficando dentro do mato, como livrar-se da batida do Onofre e seus companheiros,
cuja marcha convergente sentia-se no atrito das fôlhas que rumorejavam
em todas as direções?

Estas circunstâncias tinham ocorrido simultaneamente e com tamanha
rapidez, que entre o primeiro grito da Justa e aquele instante não
mediara mais de um quarto de hora.

D. Flor impaciente quisera correr ao encontro do pai, quando lhe ouviu a
voz. Jó a reteve explicando-lhe a causa do tiro, bem como da partida
precipitada do capitão-mór. A donzela teve então um momento
de desânimo.

— Estou perdida! murmurou.

— Ainda não! respondeu Arnaldo de manso. Mas suas mãos
não podem romper o mato; é preciso que eu a carregue, Flor.

— Não; prefiro ficar, disse a donzela secamente.

— Outros braços a levarão, mas para arracá-la
à sua casa, e não para restituí-la a seu pai, que lá
vai em sua procura. Que responderei ao sr. capitão-mór, quando
êle pedir-me contas de sua filha?

Flor hesitou um momento: depois velou-se de uma fria impassibilidade, fez-se
estátua, e caminhou para o sertanejo.

— Leve-me a meu pai.

Arnaldo suspendeu a donzela em seus braços robustos, recomendando-lhe
que envolvesse a cabeça e o busto no gibão de couro para defender-se
dos galhos e espinhos. Com êsse precioso fardo preparou-se para romper
o meto.

Nesse transe não se lembrou o mancebo que estreitava o corpo gentil
de uma donzela. O que êle carregava era uma relíquia ou a imagem
de uma santa, e as formas encantadoras que êle palpava no seio eram
de jaspe ou marfim.

Jó pedira a Flor que rompesse um fôlho de seu vestido. Enquanto
Arnaldo desaparecia com a donzela na espessura, o velho esgueirou-se na direção
oposta esgarçando a tira de pano pelos crauatás e unhas de gato.

O sertanejo chegou depois de algumas voltas a uma brenha atravessada por
um trilho de veado. A meio dessa vereda caíra um grosso toro que a
atravessava.

Arnaldo lembrou-se que nesse lugar havia um fojo. Como a caça já
o conhecia, tinha-o êle condenado por algum tempo, cobrindo com o tronco
a bôca a fim de mais tarde aproveitá-lo. Mal sabia então
que serviço devia prestar-lhe.

Afastando o madeiro e retirando a terra, abriu o alçapão e
entrou na cova para examinar, se tinha alguma cobra ou outro objeto capaz
de assustar a donzela.

— É preciso esconder-se aquí, Flor.

— Só? perguntou a donzela.

— Tem mêdo?

— Não; seja meu coveiro, disse a moça com um sorriso.
Enterre-me viva.

Arnaldo desceu Flor à cova, fechou o alçapão, cobriu-o
novamente de terra, e colocou o toro sêco no lugar onde estava. Apagando
todos os vestígios que podiam denunciá-lo, grimpou ao tope das
árvores, onde zombava dos olhos mais perspicazes.

O Onofre e seus companheiros bateram o mato em todos os sentidos e não
descobriram sinal de gente. O Fragoso, irritadíssimo com o novo revés,
cobria o seu cabo de bandeira das mais pesadas injúrias, que êste
sofria com uma calma inalterável, pois entendia que o patrão
o pagava não só para serví-lo, como para aturá-lo.

Não achavam D. Flor e todavia tinham certeza que a donzela alí
estivera. Rosinha o afirmara e as tiras do vestido rasgado pelos espinhos
o provavam. Era impossível que saísse do caapoão sem
a verem os do cêrco; e que ela não tinha conseguido escapar-se,
bem indicava o engano do capitão-mór.

O Onofre, pois, insistia na esperança de afinal descobrir o esconderijo
da moça e do sertanejo.

— No chão não está, disse o bandeirista; ainda
que ela fosse uma cobrinha cipó, não me escapava. Só
pode estar nos ares, aí trepada nalguma árvore.

Por ordem do bandeirista, subiram alguns à copa das árvores
e começaram uma ronda pelos galhos. Diversas vezes passaram junto de
Arnaldo, que os iludia imitando o canto da graúna. Onde pousava um
passarinho, não podia estar oculto um homem. Também por diversas
vezes passaram pelo fojo, e Flor ouviu o som dos passos por cima de sua cabeça.

Afinal já fatigados da porfia, escutaram tropel de animais que aproximavam-se
rapidamente.

Eram sem dúvida o capitão-mór que voltava desenganado;
e não tiveram outro remédio senão abandonar a partida
e dá-la por perdida.

Quando Arnaldo conduziu Flor à casa, alí acabava de chegar
o Leandro Barbalho.

Foi o tropel de seus animais que assustara o Onofre. À primeira notícia,
êle arrependeu-se de ter salvado a virgem de sua adoração
para vê-la noiva de outro. Não seria melhor morrer com ela vingando-a?

O sobrinho do capitão-mór, encontrando a casa em desordem,
ouvia do Padre Teles a narração dos estranhos sucessos, quando
soube da volta de D. Flor.

Pareceu-lhe inconveniente falar à prima na ausência dos pais
e porisso limitou-se a mandar por Alina recado, do pesar que tivera com o
desacato feito à sua pessoa.

XVII – A intimação

Depois dos acontecimentos que na véspera à tarde haviam perturbado
o sossêgo da Oiticica, era natural que seus moradores prolongassem um
tanto pela manhã o repouso da noite.

Arnaldo apenas restituira Flor à casa, partiu no Corisco em seguimento
do capitão-mór, que só encontrou a três léguas
de distância, já de volta.

A notícia que levava-lhe o seu vaqueiro o encheu de tamanha alegria,
que êle esqueceu-se a ponto de abraçar a mulher diante de toda
a gente, e fez o mesmo ao rapaz.

Chegando à casa, depois das efusões do contentamento de ver
a filha, entrou com o sobrinho e o capelão em conferência acêrca
das ocorrências extraordinárias que se acabavam de passar; na
ausência do Agrela, foi o padre Teles incumbido de escrever duas cartas
aos parentes de Russas e Aracatí, chamando-os a toda pressa com a gente
que pudessem juntar.Leandro Barbalho partiria no dia seguinte para reunir
uma bandeira no ouricurí; enquanto o Arnaldo seria incumbido de avisar
todos os moradores espalhados pelos campos de Quixeramobim até à
serra do Baturité.

O Campelo tinha jurado por suas barbas que havia de castigar o Fragoso ainda
que fosse preciso arrasar todo o Inhamuns.

— Hei de trazê-lo à Oiticica amarrado como um negro fugido;
e depois de bem surrado, o padre Teles o casará com a negra mais cambaia
da fazenda.

Depois da conferência recolheu-se o fazendeiro, mas a-pesar-das fadigas
e comoção da véspera, ao romper do dia já estava
de pé e saíu fora ao terreiro. Ainda todos dormiam; pela primeira
vez deixara-se de ouvir na fazenda o toque de alvorada à hora costumada.

Viu o capitão-mór esvoaçar um bando de urubús
à beira da mata e pousar no campo. Embora seja êsse um acidente
muito comum nas fazendas de criar, desperta sempre a atenção
do dono e de seus vaqueiros.

Caminhou Campelo até o fim do terreiro; e daí pôde confusamente
avistar os pedaços de carniça, espalhados pelo chão,
e que atraíam os abutres. Atinou que eram os corpos dos dois sequazes
mortos na véspera pelo tiro de seu bacamarte, e despedaçados
pelas patas dos cavalos, quando corriam atrás de Corrimboque.

O capitão-mór não era sanguinário; mas nessa
ocasião experimentou um esquisito prazer com aquele espetáculo,
e sentiu que não estivessem estendidos no campo todos os sequazes do
Fragoso, para que êle os esmagasse sob as patas de seu ruço.

Com pouco apareceu Leandro Barbalho, que j-á vinha em hábitos
de viagem, e só esperava para pôr-se a caminho, que o pagem lhe
trouxesse a cavalgadura.

O sobrinho do capitão-mór, filho dos Carirís, onde residiam
seus pais antes de mudarem-se para o outro lado da serra do Araripe, era mancebo
de trinta anos, de baixa estatura, mas robusto, com ombros largos e a cabeça
chata, tipo mais comum do sertanejo cearense e que o distingue de seus vizinhos
das províncias limítrofes. Tinha o parecer franco e jovial.

— Pronto, sobrinho? disse Campelo ao avistá-lo.

Barbalho beijou a mão do capitão-mór com respeito filial
e respondeu:

— Já podia estar em caminho, se não fosse a demora do
pagem.

— Assim foi bom, porque ontem não tivemos tempo de falar sôbre
um particular. Sabe por que o mandámos chamar, sobrinho?

— O senhor dirá, meu tio.

— Nós o escolhemos para marido de nossa filha D. Flor.

— Como for de sua vontade, senhor meu tio.

— Vá buscar a gente para ensinarmos ao atrevido do Fragoso,
e na volta cuidaremos do noivado.

Ouvindo o galope de um cavalo, o capitão-mór voltou-se, e viu
Arnaldo que subia o tombador a toda a carreira do Corisco. Chegando ao terreiro,
sem dar-se ao trabalho de parar o animal, o rapaz saltou da sela e caminhou
para o fazendeiro.

Depois dos últimos acontecimentos, a súbita vinda do sertanejo
àquela hora, sua brusca parada e a inquietação de seu
gesto, eram de natureza a dar rebate de novos perigos.

Não obstante, o capitão-mór esperou sem nenhuma alteração
a notícia, que lhe trazia o rapaz.

— O Fragoso aí vem, sr. capitão-mór.

— Pois atreveu-se?

— E traz muita gente.

— Melhor; não é preciso fazer pontaria.

Tocou-me alarma na Oiticica e imediatamente começaram os preparativos
para receber o inimigo. A posição da fazenda oferecia todas
as condições favoráveis à defesa; e a construção
do edifício principal fôra de algum modo copiada das casas fortes,
fortes, em que então muitos fazendeiros ricos eram obrigados por segurança
a ter sua moradia.

Uma hora depois do aviso de Arnaldo, avistou-se uma grande nuvem de poeira.
Era o Marcos Fragoso com sua bandeira.

O Daniel Ferro chegara de Inhamuns naquela madrugada com sua gente; e o Fragoso,
irritado com o malôgro da véspera, resolveu marchar para a Oiticica
sem mais demora. Tinha êle então às suas ordens cêrca
de quatrocentos homens, que dividiu em três bandeiras, tomando uma para
si, e dando as outras ao Daniel Ferro e João Correia.

Arnaldo, que seguira durante a noite o rasto da escolta do Onofre, lá
pela madrugada encontrou-se com o Aleixo Vargas, que vinha adiante como explorador.
Percebendo a presença do sertanejo, o Moirão escondeu-se; mas
conhecendo que já estava descoberto, marchou direito ao rapaz.

— Estimei encontrá-lo, amigo Arnaldo.

— Também eu, Aleixo Vargas. lembra-se do que lhe disse vai para
um mês? Que se o achasse a uma légua da Oiticica…

— A que vem isso agora?

— Pelo jeito parece que você está em caminho para lá;
e então pergunto-lhe, se já encomendou sua alma a Deus?

— A coisa não é como pensa, Arnaldo; sou eu quem lhe
avisa, como seu amigo, que não torne mais à Oiticica, senão
está perdido. Tome outro rumo, rapaz.

— Mas então o que está para acontecer?

O Moirão pôs o sertanejo ao corrente do que se havia passado,
e da expedição que marchava naquele instante para a fazenda
do capitão-mór.

— Obrigado pelo aviso, amigo Aleixo Vargas. Eu não carecia dele,
tornou Arnaldo, mostrando o vulto de Jó que aparecera entre a ramagem.
Mas sempre lhe digo que veja o que faz; eu só tenho uma palavra.

O vaqueiro dirigiu-se ao velho que lhe disse rapidamente em voz baixa:

— Quatrocentos.

O velho chegava naquele instante de uma excursão. Havia entre essas
duas almas, a do solitário e a do sertanejo, tão íntima
comunicação, que muitas vezes não careciam falar, para
entenderem-se entre si e transmitirem-se os seus pensamentos.

Leve mudança de fisionomia, rápido toque de gesto, ou relance
d’olhos, eram sinais imperceptíveis para estranhos; mas para
êles caracteres vivos, em que liam tão correntemente como em
um livro aberto.

O algarismo quatrocentos, que o velho acabava de murmurar não era
senão a conclusão do diálogo quase instantâneo,
que o seu olhar trocara com o de Arnaldo. O semblante do velho anunciara a
chegada do inimigo, e o vaqueiro o interrogara sôbre a fôrça
que ameaçava a Oiticica.

Nesse momento recordou-se Arnaldo da viagem de Jó, sôbre a qual
ainda não tivera ocasião de trocar uma palavra:

— E Anhamum? perguntou Arnaldo.

— Quando partí, êle convocava seus guerreiros.

Foi então que Arnaldo, depois que deixou o velho Jó em segurança
na caverna, correu à Oiticica para levar a notícia ao capitão-mór.

As três bandeiras do Marcos Fragoso tomaram posição em
volta as casarias da fazenda e estabeleceram um cêrco em regra, a fim
de cortar toda a comunicação exterior, e evitar que o capitão-mór
mandasse aviso à numerosa parentela de Russas, que logo acudiria em
seu auxílio.

Quando Campelo viu o poder de gente com que vinha o Marcos Fragoso, e reconheceu
que não tinha fôrças para sair-lhe imediatamente ao encontro
e castigar aquela ousadia, o seu orgulho rugiu-lhe n’alma como um tigre
na jaula.

Êle que nunca até êsse momento, em uma vida de cincoenta
anos, sofrera um insulto em face, nem encontrara resistência à
sua vontade, ser de repente assim afrontado, e não poder esmagar o
insolente que o provocava!

Nas circunstâncias em que achava-se, com sua bandeira reduzida pela
expedição do Agrela à Barbalha, uma sortida seria um
ato de desespêro, que sacrificaria o melhor de sua gente e entregaria
a casa e os moradores aos assaltantes.

Não tinha remédio, pois, senão recalcar o seu ímpeto,
e aproveitar os recursos que lhe oferecia a Oiticica para uma defesa tenaz,
enquanto podia mandar um emissário a seu cunhado Gameiro em Russas.

Concentrou-se, porém, tão profundamente aquela soberba, que
desde a chegada do Fragoso às terras da Oiticica não proferiu
mais uma palavra e em pé no meio do terreiro esperou o ataque iminente.

Tinha à mão, no ombro dos pagens, seus três famosos bacamartes.
O primeiro, conhecido por Jacaré, nome tirado da enorme bôca;
o segundo, chamado Trovão por causa de seu formidável ribombo;
e o terceiro, Farol, porque ao disparar levantava um clarão medonho.
Todos eram de grosso calibre, que mais parecia de canhão.

Leandro Barbalho ficava-lhe à direita, Arnaldo à esquerda,
e toda a gente estava a postos. D. Genoveva com Flor e Alina, a-pesar-de transidas
de susto, já tinham voltado da capela, onde foram pedir a proteção
divina; e tomaram todas as providências para socorrer os combatentes
e munições, e de pronto curativo no caso de serem feridos.

Depois de longa espera, em que o capitão-mór não via
senão um ardil paramais tarde caírem de surpresa, apareceu uma
pequena escolta, que vinha do campo inimigo, e dirigia-se à Oiticica,
parando a trechos e agitando uma grande bandeira branca.

— É um parlamentário que nos enviam, disse Leandro Barbalho.

O capitão-mór sem quebrar o silêncio levantou o braço
e apontou o bacamarte. Leandro mediu o alcance da ação, mas
não se atreveu a opor-se. Foi Arnaldo, que sem hesitar, lançou
a mão ao cano da arma a tempo de evitar o tiro.

Voltou-se Campelo com terrível expressão. O rapaz encostara
ao peito a bôca do bacamarte:

— Atire em mim, sr. capitão-mór, porém não
mate sua mulher e sua filha que estão lá dentro fiadas na prudência,
ainda mais do que na coragem de vossa senhoria.

Sentiu o fazendeiro a justeza daquela observação, que fizera
calar em seu espírito o rasgo do intrépido vaqueiro, expondo
o seu peito à carga do bacamarte.

— Carecemos antes de tudo ganhar tempo, continuou o sertanejo. Nossa
posição agora é má; porém esta noite, amanhã
ou depois, a sorte pode mudar de repente.

O Manuel Abreu foi ao encontro do parlamentário. Êste não
era outro senão o licenciado Ourém, que vinha pôr à
prova a sua diplomacia em uma negociação cuja dificuldade e
risco êle bem previa.

Não havia no campo do Fragoso pessoa mais apta para o delicado mister,
e nestas circunstâncias entendeu o licenciado que faltaria a seu dever
de cristão e de parente, se não oferecesse os seus serviços
de medianeiro para evitar um rompimento funesto a ambas as partes.

Leandro Barbalho adiantou-se para receber no terreiro o parlamentário,
e o levou à presença do capitão-mór na sala. Trocada
a saudação, afável e insinuante da parte do Ourém,
muda e arrogante da parte do capitão-mór; quando aquele dispunha-se
a entrar no assunto, foi atalhado pelo fazendeiro:

— O senhor licenciado veio como parlamentário, e com esta segurança
foi recebido. Mas veja como fala, porque, se faltar com o respeito que deve
ao capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, não respondemos
por nós. Fique prevenido.

Ourém acudiu logo com pressurosa cortesia:

— Como posso eu faltar com o respeito devido ao sr. capitão-mór
Gonçalo Pires Campelo, quando não trago outro encargo senão
o de assegurar-lhe o grande acatamento em que o tem meu primo, o capitão
Marcos Fragoso, e do seu vivo desejo de continuar as boas relações
de vizinhança em que está com o dono da Oiticica?

— Foi para mostra dêsse desejo que êle armou toda essa
ralé de bandoleiros, e veio pôr cêrco à fazenda?
observou Leandro Barbalho em tom de chasco.

— O séquito numeroso que trouxe o capitão Marcos Fragoso
não foi para ameaçar, e menos ainda para atacar o dono da Oiticica;
mas, ao contrário, com êste alardo quis meu primo dar a conhecer
as fôrças de que dispõe, e com que êle se empregará
sempre e da melhor vontade no serviço de seua senhoria, se…

O Ourém rebuçou esta conjunção com um sorriso
dos mais açucarados:

— Se o sr. capitão-mór, como espera, aceder ao pedido
que me incumbiu de fazer em seu nome, e que é ainda uma prova, e a
mais significativa, da veneração, que vota à sua pessoa.

O capitão-mór não pestanejou, e permaneceu impassível
no aspecto, mas interiormente rugia uma cólera que ameaçava
a cada instante fazer irrupção.

— Sabe vossa senhoria que outrora usavam os cavalheiros, quando iam
a algum torneio, apresentar-se na côrte com uma grande comitiva, não
por afrontar, mas só para merecer a atenção. A mesma
bizarria teve meu primo Marcos Fragoso vindo pedir ao sr. capitão-mór,
como agora o faz por meu intermédio, a mão de sua formosa filha
D. Flor, que se o é no nome, excede-lhe nas prendas.

Campelo ficou mudo. O Ourém, tendo esperado debalde a resposta, insistiu:

— O sr. capitão-mór ouviu o pedido; que decisão
devo eu levar a meu primo Marcos Fragoso, que a espera ansioso?

— A mesma que lhe dei a primeira vez, respondeu Campelo.

— As circunstâncias mudaram depois disso.

— Pode ser; mas não mudou a nossa vontade.

— Talvez que vossa senhoria deseje algum tempo para melhor refletir?

— Já decidimos.

— Então a resposta do sr. capitão-mór é?…

— Não!

— Atenda vossa senhoria à posição difícil
em que vai ficar meu primo Marcos Fragoso, assim desconsiderado, e lembre-se
que nem sempre somos senhores de nossas paixões. Êste casamento
poupará talvez grandes calamidades…

— Não! Não! Não!…

O capitão-mór erguera-se, e atirando ao licenciado aquelas
três negativas, cortejou-o com arrogância, intimando assim que
estava terminada a conferência.

Ourém compreendeu que, naquela ocasião pelo menos, nada mais
tinha alí a fazer, e que sua missão conciliadora podia tornar-se
em provocação, se com sua insistência exacerbasse a ira
do capitão-mór.

Despediu-se, e tornou ao campo do Fragoso.

Já era então ao declinar do dia. O capitão-mór
voltou a ocupar o seu pôsto no terreiro, acompanhado de três pagens
que seguravam os bacamartes já carregados e as munições
para carregá-los de novo.

Arnaldo e Leandro Barbalho colocaram-se junto dele, à espera do assalto,
que não podia demorar-se depois da maneira rude por que o capitão-mór
despedira o parlamentário.

Ao cair da noite anunciou-se novo emissário, portador de uma carta
do capitão Marcos Fragoso para o dono da Oiticica.

XVIII – A carta

Fechara-se a noite.

D. Genoveva sentada à cabeceira da mesa de jantar presidia a trabalhos
bem estranhos às habituais lidas caseiras. Ajudada de suas escravas
enchia de pólvora e bala os cartuchos que enrolava a mão mimosa
de D. Flor, com o auxílio da Justa.

Alina e a mãe na outra ponta da mesa faziam fios e rezavam baixinho
a magnífica.

O capitão-mór deixando a sua gente de guarda no terreiro, foi
ao camarim com padre Teles e Leandro Barbalho para tomar conhecimento da carta
do Fragoso.

Padre Teles rompeu o fêcho e deu a seguinte leitura:

Ilm. sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo

Aos 5 de janeiro do ano de 1765

Prezadíssimo senhor

Peço vênia a vossa senhoria para não tomar por última
e definitiva a resposta de que foi portador meu primo Ourém.

Ainda espero que, pesando em sua consumada prudência os males que podem
afligir a duas famílias importantes e que sempre viveram em boa vizinhança,
há de tornar de seu primeiro alvitre.

Se vossa senhoria julga-se ofendido em seus brios, não posso oferecer-lhe
mais cabal reparação do que essa de beijar-lhe a mão
como filho. Não espero senão o seu agrado para ir pessoalmente
render-lhe êsse preito de minha submissão.

Resolví aguardar três dias para dar tempo a que vossa senhoria
delibere com toda calma. Se expirado êste prazo, não tiver eu
satisfação de meu pedido, só então, e muito a
meu pesar, serei levado à última extremidade; porque também
tenho que dar contas de mim aos parentes e amigos, defendendo-me de tão
dura afronta.

Guarde Deus a vossa senhoria por muitos anos. Dêste seu servidor, pronto
sempre às suas ordens

Marcos Antônio Fragoso

Era fácil de reconhecer no estilo da carta a mão diplomática
de Ourém. O Fragoso não tinha paciência nem retórica
para arredondar êsses períodos em que, sob os rendimentos de
uma cortesia respeitosa, fazia-se ao fazendeiro a intimação
formal de entregar a filha a título de noiva no prazo de três
dias, se não queria sujeitar-se a lhe ser arrancada à fôrça.

Êsse excesso de deferência com que o licenciado procurou atenuar
a cominação, pungiu mais o orgulho do capitão-mór
do que uma linguagem grosseira e desabrida. A impossibilidade em que se achava
o fazendeiro de repelir a agressão, se insinuava nas frases mais polidas
da carta, uma ironia que não estava no pensamento do escritor, nem
nas intenções do signatário.

Assim ao terminar Padre Teles a leitura, Campelo tirou-lhe das mãos
o papel, e rasgou-o ao meio. Leandro Barbalho, porém, levantou as duas
bandas, e o capelão recordou-se naquela posição estreita
de seu caráter sagrado de ministro da religião.

— Vossa senhoria, senhor capitão-mór, não me levará
a mal que eu, ministro do Senhor e capelão desta casa, faça
ouvir neste momento a voz da religião.

Empenhou então o reverendo toda a sua loquela em demonstrar ao fazendeiro
a necessidade de ceder por essa vez, a fim de salvar a sua família
e a si das desgraças que o ameaçavam. Que valia resistir, se
afinal tinha de sofrer a lei do vencedor, como não era lícito
duvidar, quando viam-se reduzidos ao minguado número de cincoenta homens
contra quatrocentos?

Depois entrou o padre em copiosa argumentação para convencer
ao capitão-mór que, no fim das contas, o Fragoso, bem longe
de insultá-lo, ao contrário rendia-lhe preito, como êle
próprio confessava em sua carta; e se o fervor com que o mancebo procurava
êsse casamento era uma culpa, atenuava-se com a formosura de D. Flor,
que lhe inspirara tão viva paixão.

Leandro Barbalho ouviu em silêncio as ponderações do
capelão, e de algum modo aderiu a elas fazendo ao capitão-mór
esta declaração:

— O senhor sabe, meu tio, que eu não sirvo de embaraço
à sua resolução. Obedecí-lhe aceitando a mão
de minha prima; da mesma sorte lhe obedecerei não pensando mais nisso.

O capitão-mór atravessou o aposento e chegando ao corredor,
chamou a filha em voz alta:

— Flor!

A donzela acudiu logo. Nas condições em que se achava a fazenda,
cada acidente devia sobressaltar, como núncio de novas complicações.
A filha do capitão-mór, porém, sabia dominar-se, e quando
entrou no camarim, foi com um olhar sereno que ela interrogou a fisionomia
das pessoas alí presentes.

— Leia a carta, padre Teles, disse o capitão-mór, significando
à filha com um gesto que atendesse.

O capelão reuniu as duas bandas de papel, e obedeceu à ordem
do capitão-mór. Finda a leitura, o pai coltou-se para a filha:

— Ouça agora os conselhos do nosso capelão. Fale, padre
Teles.

O sacerdote repetiu o que havia dito pouco antes, insistindo, porém,
nas razões mais próprias para mover o ânimo da donzela.

— Ouviu Flor? Agora que responde a esta carta?

— Sua filha, meu pai, a filha do capitão-mór Campelo
nunca seria esp&ocirocirc;sa do homem que uma vez a insultou, ainda quando êle
não se atrevesse a ameaçar-nos como o faz.

Campelo cerrou a filha ao peito:

— Aquí tem a resposta desta carta insolente. Mas nós
queremos dá-la de um modo que fique para memória.

O capitão-mór reassumira de repente o gesto imperioso que êle
tinha habitualmente e era a expressão de sua índole soberba,
mas que ficara como atônito, desde o momento em que reconhecera a impossibilidade
de desafrontar-se.

— Êle marcou três dias; nãp careço de tanto.
Amanhã Flor será mulher de Leandro Barbalho.

Arnaldo assomara à porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras; uma
palidez mortal derramou-se pelo semblante, que nenhum perigo turbava. Quando
êle saíu da vertigem que o assaltara, seus olhos fitaram-se na
donzela.

Flor abaixou as pálpebras para não ver êsse olhar, e
respondeu ao pai com uma voz calma, ainda que tocada de leve aspereza:

— Amanhã ou neste momento, meu pai, quando m’o ordenar,
receberei por espôso meu primo Leandro Barbalho.

O sertanejo levou a mão ao seio para suster o coração
que lhe desfalecia, e fugiu dalí com a morte n’alma.

Entretanto êle vinha cheio de esperança trazer a paz e a alegria
àquela casa, onde lhe estava guardada a dôr mais pungente que
podiam inflingir à sua alma.

Quando o capitão-mór se recolhera ao camarim para ler a carta,
Arnaldo fôra sentar-se embaixo da oiticica onde estavam o Manuel Abreu
e alguns dos agregados.

À distância de quinhentos passos, avistava-se uma linha escura
que cingia o centro da fazenda, como um arco do qual a serra de Santa Maria
figurava a corda. Nessa faixa somrbia luziam, aquí e alí, pequenos
fogos vermelhos, que derramavam pelo espaço um clarão intermitente.

Eram as redes, que movidas ao compassado balanço, ocultavam às
vezes o foco da luz e logo o descobriam, fazendo correr pelo campo umas sombras
vagas, trêmulas e esguias, que lembravam os fantasmas e espectros das
lendas populares.

Manuel Abreu e seus companheiros observavam atentos a linha, que indicava
o acampamento das bandeiras do Fragoso e o cêrco pôsto à
casa da Oiticica. No prolongamento do arco e ligação dos postos
entre si, ciam êles o empenho de impedir a comunicação
com o exterior.

O dono da Oiticica não podia contar senão com seus próprios
recursos, e devia abandonar a esperança de obter socorro de for; pois
antes que êste chegasse, o inimigo teria levado de assalto a casa.

— Não ouve um tremor? perguntou Arnaldo de repente ao feitor.
Talvez tenham esperado pela noite para atacar-nos.

— Mas se agora mesmo veio uma carta do homem! disse o Abreu.

— Que tem isso? acudiu o Nicácio. É manha o cabra. Então
aquele Onofre que é da pelo do cão.

— Não há que fiar! observou João Coité!

A-pesar-de suas dúvidas, Manuel Abreu conhecia bem a perspicácia
do sertanejo para desprezar o seu aviso. Adiantou-se até o parapeito
do terreiro e os companheiros o seguiram para verificar, se com efeito alguma
partida se aproximava.

Quando tornaram aos bancos, Arnaldo havia desaparecido. Os outros suspeitaram
que êle havia-se divertido à custa do Abreu; e porisso afastara-se
dalí, para outro ponto do terreiro.

Enganavam-se. Apenas tinham êles voltado s costas, Arnaldo com uma
agilidade, que em outro seria para admirar, mas era nele comezinha, de um
salto suspendera-se a um ramo da Oiticica, e sumira-se por entre a espêssa
folhagem.

Ganhando o tronco, despiu a roupa, que estendeu pelos galhos, e resvalou
pela broca da árvore até a cava subterrânea, e gatinhando
às vezes como um cão, ou rojando como um réptil, foi
sair na bôca do fôsso.

Daí em diante corria uma levada cheia pelo inverno e que atravessava
a linha de cêrco estendida pelo inimigo. O sertnaejo aproveitou-se do
córrego, como de um caminho coberto, para transpor o acampamento.

Seguiu por dentro sutilmente, com água até os olhos. Quando
chegou perto das barracas e tendas, os cães latiram, e acudiu logo
uma das rondas ligeiras que os capitães das bandeiras tinham estabelecido
para melhor guardar os passos entre os postos, e mais apertar o cêrco.

Arnaldo, porém, mergulhara, e caminhando por baixo d’água
como a lontra ou a capivara, foi surdir muito aicica, e de que serviu-se para
distrair a atenção do Manuel Abreu e sua gente.

Continuou no rumo dessa repercussão da terra, que lhe indicava a marcha
de uma multidão. A certa distância êle soltou o berro da
jibóia que era o grito de guerra de Anhamum. Outro berro lhe respondeu
e o tropel dos passos cessou.

Momentos depois os dois amigos encontravam-se na espessura da floresta.

— Anhamum recebeu sua flecha que tu lhe mandaste, chefe dos tapijaras;
e soprou o boré para convocar os seus guerreiros. Êle veio pelo
rasto dos inimigos.

— Tu és um amigo fiel, chefe dos Jucás; teus guerreiros
terão muitos inimigos a combater, e muitas armas e roupas para levar
à sua taba.

Arnaldo sabia quanto os índios eram ávidos daqueles objetos,
principalmente dos veludos e sêdas de côres vivas, com que se
enfeitavam; porisso, embora tivesse confiança na dedicação
do chefe, quis por êsse modo estimular a gana dos selvagens.

Combinou o sertanejo com o chefe um plano de ataque.

Os selvagens ficariam ocultos na mata, de espreita ao inimigo. No momento
de assalto à casa, e a um sinal convencionado, Anhamum cairia sôbre
as bandeiras do Fragoso, e as meteria entre dois fogos.

Despachou-se também imediatamente um guerreiro para ir ao encontro
do Agrela, que Arnaldo supunha já estar àquela hora de volta
da Barbalha; pois não era muito que, avisado como fôra, desse
conta da expedição em oito dias, tanto mais quanto ao chegar
a seu destino conheceria a mentira da suposta viúva.

O mensageiro devia prevenir o ajudante do cêrco pôsto à
Oiticica; e recomendar-lhe da parte de Arnaldo que aguardasse a ocasião
do assalto para dar também sôbre o inimigo, e cortar-lhe a retirada.

Tomadas estas disposições, tornou o sertanejo pelo mesmo caminho.

Tinha a sorte do Fragoso em sua mão; e ia oferecer ao capitão-mór
a maior satisfação que êle podia experimentar nesse momento:
a de castigar a insolência do rapazola que se atrevera a afrontar seu
poder.

Maior, porém, era o seu júbilo de arredar para sempre daquele
sítio o homem que tinha ousado erguer os olhos para D. Flor e cobiçar
a sua beleza.

Imagine-se, pois, do golpe que o trespassou quando, entrendo pressuroso no
camarim do capitão-mór, ouviu aquelas palavras em que a donzela,
conformando-se ao desejo do pai, dava-se por espôsa a Leandro Barbalho.

Fugindo, seu primeiro ímpeto foi correr ao terreiro, apanhar as armas
que alí estavam de prontidão, dispará-las umas após
outras contra a gente do Fragoso, empenhar o combate, e assim provocar a morte.

Mas terminada a luta, ou o capitão-mór vencia, como era de
esperar depois das providências tomadas, e Flor se casaria do mesmo
modo com o primo, ou o Fragosos lograria seu intento e levaria a espôsa
que viera tomar à mão armada.

— Não; eu não posso morrer. O capitão-mór
vencerá; mas Leandro Barbalho não há de ser marido de
Flor.

XIX – A resposta

Ia alta a noite.

Na casa da Oiticica reinava o silêncio. A família recolhera-se
a tomar algum repouso e o capitão-mór acompanhou a mulher para
mais sossegá-la, contando voltar depois para seu pôsto.

No terreiro também os homens da escolta e mais gente acomodaram-se
por baixo da oiticica, ao longo da calçada; e dormiam ao relento, com
a cabeça encostada ao braço, e a espingarda segura entre os
joelhos.

Os vigias, colocados ao correr do muro, investigavam os corredores, para
dar rebate ao menor movimento suspeito do inimigo; e Leandro Barbalho embalançava-se
na rede que mandara armar nos ramos da oiticica.

A capela estava aberta; e pelo vão da porta via-se à luz mortiça
de uma candeia padre Teles que alí andava dispondo os paramentos e
cuidando de outros arranjos para a próxima cerimônia, no que
era ajudado por um rapazinho, filho do Abreu, e que lhe servia de sacristão.

Arnaldo, que observava aqueles movimentos com uma ânsia cruel, decidiu-se
afinal; e atravessando o terreiro, aproximou-se da rede do Leandro Barbalho.

— Tenho um particular com o senhor, disse-lhe o sertanejo.

— Pode falar, Arnaldo.

— Há de ser em lugar onde ninguém possa ouvir-nos.

— Onde quiser.

O sobrinho do capitão-mór seguiu o sertanejo até a extremidade
do terreiro, onde já começavam as encostas da serra. Passava
alí o muro do quintal, que vinha do canto da casa e galgava pelos alcantís.
Por baixo ficava uma quebrada onde passava um córrego.

Arnaldo escolhera de propósito aquele sítio escuro, onde dois
homens podiam bater-se a gôsto, sem temer vistas indiscretas. O que
sucumbisse rolaria pelo barranco; e não deixaria vestígios que
denunciassem a luta.

O sertanejo não demorou a explicação.

— O capitão-mór não tem fôrça para
resistir a um assalto; só há um meio de salvá-lo.

— Qual é? perguntou Barbalho.

— Ficar D. Flor solteira.

Arnaldo era sincero. Nauqele instante de angústia que passara, êle
tinha jurado não salvar a Oiticica e seus moradores, senão por
aquele preço.

— Êsse meio, Arnaldo, meu tio não o afeita.

— O sr. capitão-mór tem seu orgulho; mas o senhor é
que não deve consentir em um casamento que será a destruição
de toda a família.

— Não tenho que ver nisso, respondeu o mancebo placidamente.

— Assim não lhe importa a desgraça de seus parentes?

— Meu tio Campelo ordenou-me e eu obedeço. Se êle me dissesse
«Barbalho, vai agora mesmo àquela canalha do Fragoso, e mete-lhe
o rêlho», eu iria direito ao cabra, e a primeira lambada ninguém
lhe a tirava do pêlo. O que sucedia era coserem-se alí às
facadas; mas o homem nasceu para morrer. Ora, meu tio quer que me case com
Flor; é o mesmo, devo fazer-lhe a vontade.

Arnaldo olhou admirado e comovido para o homem que lhe falava com aquela
simplicidade heróica.

— Pelo meu gôsto ficaria solteiro. Não tenho jeito para
aturar mulheres; demais não é nada agradável andar um
homem com a morte atrás de si, porque êsse Fragoso, quando mesmo
escapássemos desta, não descansaria enquanto não me despachasse.
Mas devo desafrontar as barbas de meu tio Campelo, e se fosse preciso, eu
me casaria até com o diabo em pessoa.

Como o sertanejo não respondesse ainda, o mancebo concluiu:

— Portanto, amigo Arnaldo, se não há outro meio de salvar-nos,
vamos dormir, que êste não serve.

Quando o sobrinho do capitão-mór afastava-se, Arnaldo, preso
de uma comoção profunda, murmurou:

— Eu não posso matar êste home. Mas Flor?…

O sertanejo saltou o barranco; e rodeando o tombador até à
levada por onde passara no princípio da noite, de novo atravessou o
cêrco, mas desta vez para dirigir-se à caverna de Jó.

O velho dormia; despertando ao rumor dos passos de Arnaldo, viu ao tênue
vislumbre que entrava pelas fendas o vulto do mancebo.

— Arnaldo!

— Preciso de ti, Jó.

— E por quem ainda ando eu, alma penada, por êste mundo, filho?

Arnaldo contou ao velho o que sucedera aquela noite na Oiticica.

— Anhamum chegou.

— Ouví os seus passos.

— Êle possue um veneno que mata, e outro que faz dormir apenas.

— Conheço.

— Tu lhe pedirás uma seta ervada que faça dormir um homem.

— E um arco.

— Sabes atirar com êle?

— Outrora eu flechava as andorinhas no ar.

— Posso contar contigo?

— Conta com Deus, filho, se êle quiser abençoar-te.

— Não te demores.

— O teu pé não tem a asa de teu desejo, como a terá
o meu que é velho e cansado.

Arnaldo tornou à casa. Começava a empalidecer o horizonte.
Na habitação e em tôrno dela reinava o mesmo silêncio.
No acampamento do Fragoso, os bandeiristas, fatigados talvez da vigília
noturna, entregaram-se ao repouso da madrugada.

Apareceu no patamar o capitão-mór Campelo que desceu ao terreiro,
passou revista à sua gente, visitou os postos que se tinham estabelecido
em vários pontos que se tinham estabelecido em vários pontos
mais próprios para a resistência e mandou fazer nova distribuição
dos cartuchos fabricados naquela noite.

Depois de ter provido à defesa, o senhor da Oiticica chamou o capelão
com quem teveuma breve prática. Azoado com as ordens que recebia, o
capelão redarguiu:

— Êle não sofrerá, sr. capitão-mór?

— Que remédio tem senão sofrer?

— E as consequências?

— Tem mêdo, reverendo?

— Se me desem um bacamarte, mostraria que um padre é um homem;
porém assim de braços cruzados, como um criminoso que vai a
fuzilar…

— Temos dito, padre Teles; trate de cumprir as nossas ordens.

O capelão chamou alguns agregados à capela, donde êsses
homens conduziram para a frente do terreiro, adiante da oiticica, vários
objetos cuja natureza não se podia bem distinguir por causa do escuro
que ainda fazia.

À claridade da alvorada que raiava, pôde-se então divisar
um altar já vestido de rica toalha de labirinto e renda, desfraldada
sôbre o frontal de brocado carmesim. Na peanha erguia-se a cruz de pau-santo,
com a imagem de Cristo lavrada em prata; dos lados estavam as serpentinas
igualmente de prata.

Foi grande a surpresa no campo do Fragoso, quando alí deram com a
novidade que ia pelo terreiro da Oiticica.

Uma alvorada de cornetas chamou a atenção de todos, cujas vistas
voltaram-se para aquele ponto, e fitaram-se cheias de curiosidade no espetáculo,
que se lhes apresentava.

A escolta do capitão-mór formava em duas alas de um e outro
lado do terreiro, a partir dos cantos de casa, figurando as naves do altar,
que ficava no centro. O menino, que servia de sacristão, acendia com
o gancho as velas da serpentina, cuja flama ainda luzia na fôsca palidez
do crepúsculo.

Ourém, que fôra um dos primeiros a acudir ao toque da alvorada,
estava conjeturando sôbre a significação da quela cena
estranha, e ouvia as observações de João Correia e Daniel
Ferro:

— É alguma ladainha que vão rezar para pedir a intercessão
divina, opinara o último.

— Ou talvez queiram ouvir missa, para que o Espírito-Santo inspire
ao Campelo uma boa resolução. E não passe de lembrança
da mulher, a D. Genoveva.

— E da filha. Que pensa? Ela já estava rendida à ternura
do nosso Fragoso, e por seu gôsto as coisas tomariam outro jeito.

— Mas, senhores meus, acudiu Ourém, ladainha ou missa, não
tinham êles a capela da fazenda, que lé está aberta?

— É que não caberiam dentro.

— Não é gente da fazenda que lá vem descendo?
atalhou o licenciado, apontando para o Nicácio que nesse momento deixava
o terreiro em busca do acampamento do Fragoso.

— Espere!… E traz carta, acrescentou Daniel Ferro, afirmando
a vista.

Fragoso apareceu então. Embora tivesse acordado antes, e ouvisse o
toque das cornetas, não quis mostrar-se em desalinho, e primeiro cuidou
de compor-se com o apuro do costume, que não dispensava em nenhuma
circunstância, quanto mais nesta em que achava-se à vista de
D. Flor e podia a cada momento ser chamado à sua gentil presença.

— Então que novidades temos, primo Ourém? perguntouo
capitão.

O licenciado respondeu apontando o portador que aproximava-se, e declamando
com ênfase os versos que abrem um dos cantos dos Lusíadas:

Depois de procelosa tempestade,
Noturna sombra e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de amor e casamento.

— Digo amor e casamento, que para o nosso caso vale tanto como pôrto
e salvamento; pois, que melhor pôrto para o coração batido
pelo mar proceloso das paixões do que o afeto sereno da espôsa;
e que melhor salvamento para as calamidades de uma guerra de família,
do que transformá-la em festa de bodas, e fazer dos inimigos parentes?

Fragoso, alvoroçado com as palavras do Ourém, e com a vista
do emissário que parecia confirmá-las, recebia satisfeito essa
alvíçaras; mas como acontece quando se alcança a realização
de um desejo muitas vezes frustrado, o mancebo ainda vacilava emacreditar
na sua felicidade.

— Quem lhe diz, primo Ourém, que essa carta do capitão-mór
nos trará tão boa nova?

— Diz-me aquele altar que lá está armado, primo Fragoso.
O capitão-mór é soberbo e também desconfiado,
cede à intimação porque não tem outro remédio;
mas quer fazer as coisas de modo que pareça que é êle
quem ordena, guardando-se ao mesmo tempo de alguma futura logração.

— Cuida então que êle vai exigir de mim a condição
de casar-me sem mais demora com a filha? tornou Fragoso a rir.

— Tenho-o como certo. Aquela carta é uma ordem, ou como diríamos
em linguagem forense, um mandado cominatório para o capitão
Marcos Antônio Fragoso comparecer incontinenti na oiticica a fim de
receber-se em matrimônio com a sr. D. Flor Pires Campelo, sob pena de,
não o fazendo, ser tido e havido por desleal, indigno, etc.

— Boa maneira de sair-se da entalação! observou João
Correia.

— Assim fica parecendo que é êle quem obriga o primo Marcos
Fragoso a casar, e não ao contrário; mas, como chegamos ao mesmo
fim por êste ou aquele modo, que mal nos faz o velho rabugento?

— Eu é que não o admitia, se fosse comigo, exclamou Daniel
Ferro.

— Em verdade êsse desfecho não me parece muito conforme,
primo Ourém, disse Fragoso, abalado pela opinião de seu parente
de Inhamuns.

— Não nos venha cá embrulhar o caso, com as suas arrancadas
de touro bravo, Daniel Ferro; isto não é vaquejada; trata-se
de caça mais fina. E você, primo Fragoso, lembre-se que no fim
de contas o capitão-mór Campelo é seu futuro sogro.

Nesse momento o Nicácio que ainda vinha a uns cincoenta passos de
distância, fincou no chão uma vara que trazia, e tornou atrás,
deixando a carta pegada na ponta da estaca.

Marcos Fragoso e Daniel Ferro trocaram entre si um olhar significativo; e
voltaram-se à uma para o licenciado de quem esperavam a explicação
de tão singular procedimento.

O Ourém, um tanto enfiado com aquele excesso de prudência, que
por certo não indicava mensagem pacífica e amistosa, adiantou-se
ao encontro do João Correia, que tinha ido em busca da carta.

— Então, primo Ourém, é assim que se usa intimar
os mandados lá no su fôro? disse Fragoso em tom de mofa.

— Vamos a ver! respondeu o licenciado, abrindo a carta que lhe entregara
o joão Correia.

Os quatro amigos leram a um tempo estas poucas palavras escritas em bastardo
no meio da fôlha de papel:

«O capitão-mór de Quixeramobim, Gonçalo Pires
Campelo, vai mostrar, ao nascer do sol, o caso que faz das ameaças
de um bandoleiro atrevido».

Não se tinha dissipado ainda o pasmo produzido por êste repto
insolente, quando o sino da capela começou a tanger uns repiques festivos.

Todos os olhares voltaram-se para a casa; e fitaram-se atônitos na
cena que alí se desdobrava naquele instante.

XX – O casamento

O primeiro golpe de luz, jorrando do oriente, foi bater de chapa na frente
da casa.

Tinha nascido o sol.

No patamar, acabava de assomar o vulto majestoso do capitão-mór
Campelo, que trajava a sua farda de veludo escarlate com recamos e galões
dourados.

Os calções eram, como a véstia, de gorgorão branco
entretecido de prata; e os coturnos do mais fino cordovão, tinham no
salto vermelho a espora de ouro, e na pala do rosto uma fivela de pedrarias.

Ao lado pendia-lhe do talim bordado a espada com bainha também de
ouro e copos cravejados de diamantes, como o argolão que prendia-lhe
ao pescoço a volta de fina cambrais, cujas pontas caíam sôbre
os folhos estofados da camisa.

O chapéu de feltro, armado como então usava-se, com a aba da
frente apresilhada e um respeitável rabicho com laçada de fita
amarela completavam o trajo de cerimônia do capitão-mór.

Com êle saíra D. Genoveva, também vestida de gala, com
uma roupa mui rica de veludo azul, alcachofrada de ouro, e coberta de gemas
preciosas desde o pente do toucado até os sapatos de setim.

Colocaram-se ambos, marido e mulher, de um e outro lado da porta, um tanto
voltados para dentro como esperando alguém que devia passar.

Apareceu então D. Flor.

A donzela vinha radiante de formosura e graça. Debuxava-lhe o talhe
airoso um vestido de lhama de ouro, justo e de estreita roda como usam-se
agora à moda daquele tempo.

Uma petrina de setim azul recamada de rubís como uma faixa de céu
estrelado, cerrava-lhe a mimosa cintura, e recortando-se em coração,
debuxava um colo do mais perfeito cinzel. Eram dessa mesma teia celeste os
chapins em que se engastavam as jóias de dois pés de sílfide.

A túnica de veludo carmesim, atufando-se em dois elegantes falbalás,
formava a cauda que a gentil donzela arrastava com o altivo garbo de uma rainha.

O toucado alto, composto de crespos que borbulhavam uns sôbre outros
como as ondas de uma cascata, era coroado por um diadema de brilhantes, que
cintilavam aos raios do sol nascente, sôbre aquela fronte senhoril,
como se a aurora brilhasse da terra para o céu.

Preso por um airão de ouro, o longo véu de alva e finíssima
renda de escócia, todo semeado de raminhos de alecrim e flor de laranja,
com lizes de ouro, descia-lhe até os pés, e arfando às
auras matutinas, formava-lhe uma nuvem diáfana.

Pousava a mão calçada com luva de sêda branca no braço
de Leandro Barbalho, também trajado com apuro e riqueza e pelo mesmo
teor do capitão-mór com a diferença de trazer a casaca
de setim verde de Macau.

A êsse tempo, padre Teles vestido com os paramentos sacerdotais, saía
da capela acompanhado pelo sacristão, e ia ao encontro do capitão-mór
recebê-lo e à sua família de hissope e turíbulo,
como era então de rigor fazer aos príncipes e governadores.

D. Flor conduzida pelo cavalheiro, desceu os degraus da escada, e dirigiu-se
ao altar, precedida pelo capelão e acompanhada pelo capitão-mór
e D. Genoveva. Alina, Justa, e outras mulheres do serviço da casa tiveram
licença para assistir à cerimônia.

Faziam parte do séquito e seguiam logo após do capitão-mór,
três pagens negros como azevixhe, vestidos à moda antiga de pelotes
de setim amarelo os quais levavam ao ombro os bacamartes do dono da Oiticica.

Os agregados da fazenda estavam surpreendidos com aquele espetáculo,
cuja significação muitos ainda não atinavam. Nesse enleio,
olhando a formosa donzela que passava radiantae, parecia-lhes ver a imagem
de Nossa Senhora da Conceição no resplendor de sua festa.

D. Flor tinha com efeito em seu puro e níveo semblante a maviosa serenidade
que se admira nos mais belos modelos da Santíssima Virgem; e que é
como um ressumbro do céu.

Para a casta e altiva donzela, o ato em que tomava parte não era um
casamento, nem nesse instante a dominavam os enleios que a cerimônia
nupcial produz naturalmente em uma virgem, e os sentimentos que desperta êsse
transe solene da vida.

D. Flor não se recordava nessa hora senão que ia vingar a sua
dignidade ultrajada, e desafrontar o orgulho de seu pai escarnecido pela insolência
do Fragoso.

Os mais antigos lembraram-se de D. Genoveva, quando vinte anos antes, e moça
gentil como a filha, o capitão-mór Campelo a conduzira o altar,
vestida com aquelas mesmas roupas e adereços de gala, que serviam agora
a D. Flor.

Naquele tempo era assim, os estofos e fazendas tinham tal dura que passavam
de pais a filhos e transmitiam-se por muitas gerações. Hoje
em dia os tecidos merecem a mesma fé que as palavras e as ações
do homem; são uns ouropéis, de um brilho efêmero, que
desaparecem com as modas.

Porisso, quando na véspera Campelo comunicou sua resolução
a D. Genoveva, esta não careceu para preparar o trajo de noiva da filha
senão de abrir o baú de cedro forrado de primavera, onde guardava
as ricas louçanias de suas bodas.

Arnaldo, arredio, contemplava esta cena como desespêro n’alma.
Quando D. Flor surgiu no fulgor de sua beleza, êle fechou os olhos deslumbrado,
como se ostivessem ferido os raios do sol.

Vendo a mulher de sua adoração presa das chamas e estorcendo-se
em horríveis convulsões, sem poder salvá-la, não
passaria pelos tratos cruéos que sofreu naquele instante.

D. Flor atravessou o terreiro com o seu séquito e foi ajoelhar em
frente ao altar sôbre a almofada de veludo que alí a esperava.
Leandro Barbalho ajoelhou a seu lado, o capitão-mór e D. Genoveva
logo após.

O sacerdote começou a celebrar, e toda a gente da fazenda ouviu devotadamente
a miss, incluindo a escolta que rezava de mãos postas e com a espingarda
abraçada ao peito.

Soou de repente um brado seguido muito de perto de grande alarido e de uma
descarga de fuzilaria.

Marcos Fragoso, como seus amigos, tomados da primeira surpresa, não
compreenderam logo a significação da cena que tinham diante
dos olhos. A distância, produzindo alguma confusão no aspecto
dos grupos, não lhes deixou ver claramente a posição
de D. Flor ao lado do Leandro Barbalho, e as flores de laranja e ramos de
alecrim, emblemas do matrimônio.

Conheceram bem que tratava-se de uma cerimônia religiosa; mas estavam
longe do desfecho ordenado pelo capitão-mór, que não
lhes acudiu a idéia de um casamento àquela hora, e nas circunstâncias
em que se achavam o dono e moradores da Oiticica.

O respeito ao símbolo da redenção e aos sacramentos
da igreja, dominou-os a todos; e os teve por algum tempo calados, imóveis,
perplexos e curiosos de uma explicação daquela singular ocorrência.

Foi quando o sacerdote, depois de ter levantado a Deus, voltou-se com a hóstia
consagrada e administrou a Santa Comunhão a D. Flor primeiro, e a Leandro
Barbalho depois, que Fragoso teve súbita revelação do
que era até alí um enigmapara êle e seus companheiros.

— Inferno! bradou em fúria. Vão casar-se.

— O jeito é disso, observou Daniel Ferro.

— Fogo! ordenou o moço capitão aos seus bandeiristas.

— E a missa? perguntou o Onofre por desencargo de consciência.

— Leve tudo o diabo! gritou Fragoso, armando o bacamarte.

— Então, minha gente, começa o fandango. Quero ver esta
pontaria! Na cabeça do padre, que é a casusa de tudo. Sem padre
não se faz casamento.

A bandeira do Onofre com o Marcos Fragoso à frente deu a primeira
descarga, e carregou para avançar. João Correia e Daniel Ferro
correram ao sítio onde tinham acampado a sua gente, para atacar de
seu lado.

Quanto ao Ourém, não tendo conseguido com a sua diplomacia
resolver o casus belli, reservou-se para mais tarde ajustar a paz; e dando
trégua à retórica, passou a mostrar que, sendo preciso,
também exercitava-se nas lides de Marte, embora preferisse as de Calíope
e Mercúrio.

Ao estrondo da fuzilaria, houve no terreiro da Oiticica uma percussão
geral, como era de prever; mas o capitão-mór, erguendo-se de
um ímpeto e perfilando a corpulenta estatura, bradou com uma voz formidável:

— Ao fogo, os da escolta. Ninguém mais se mova. Padre, acabe
a cerimônia.

Padre Teles compreendeu que sendo êle, não o agente, mas o instrumento
da provocação imaginada pelo capitão-mór, devia
tornar-se o alvo principal dos tiros do Fragoso empenhado sobretudo em impedir
o casamento.

O nosso capelão fazendo êste raciocínio sentiu um ligeiro
arrepio, e encolheu-se um tanto dentro da casula como um jabutí no
seu casco, lançando de esguelha um olhar para o campo inimigo. Mas
continuou a oficiar como se estivesse na capela entre grossas paredes.

D. Flor, absorta em seus pensamentos, ergueu a fronte ao estampido da fuzilaria,
e fitando com sublime expressão a imagem do Cristo suspensa ao crucifixo,
seu rosto iluminou-se de um sorriso angélico.

Talvez nesse instante ela entrevisse o martírio com um sentimento
de bem-aventurança e pedisse a Jesús a sorte da Mãe Santíssima,
espôsa e virgem, espôsa para desafrontar o orgulho paterno e a
sua dignidade, virgem para voar ao céu imaculada como de lá
descera sua alma.

Leandro Barbalho teve um ímpeto de impaciência. Queria-se já
unido a D. Flor e desembaraçado a cerimônia religiosa para correr
ao combate, e desfechar sôbre o inimigo os assomos belicosos, que o
estremeciam de raiva.

— De-pressa, padre!

— Cuida êle que estou aquí num regabofe?

D. Genoveva ajoelhada junto de Flor, estremeceu com a descarga; seu primeiro
movimento foi adiantar-se para cobrí-la com seu corpo, sentindo não
ser-lhe dado repartir-se em duas, uma que alí ficase, e outra que seguisse
o marido.

Do resto das mulheres, todas tiveram mêdo; mas quem ousaria fugir,
quando o capitão-mór expunha sua própria mulher e filha
ao maior perigo? Alina, quase desmaiada, caíu sôbre os joelhos;
e Justa, trêmula de susto, foi colocar-se perto de D. Genoveva, para
morrer ao lado de sua filha de criação.

Intimando a sua ordem, o capitão-mór com a gente da escolta
acudiu a postos; e travou o combate com os assaltantes. As descargas sucediam-se
com rapidez de um e outro lado, cruzando um fogo rolante, que tornava-se cada
vez mais mortífero à proporção que diminuia a
distância entre os dois bandos.

O capitão-mór Campelo, em pé em cima do muro, disparava
um após outro os três famosos bacamartes que os seus pagens carregavam
logo depois do tiro, e ainda assim não bastavam ao seu braço
infatigável. A violenta repercussão das armas de tão
grosso calibre não abalava o porte dêsse homem possante, que
formava êle só uma bateria de três bôcas de fogo.

Porisso em frente do lugar, onde se postava, abria-se um rombo na linha inimiga.
Se o Fragoso, ou algum de seus capitães de bandeiras, juntava sua gente
em coluna e investia contra a casa, o capitão-mór corria-lhe
ao encontro; os três bacamartes vomitavam uma chuva de balas e metralhas,
diante da qual o inimigo destroçado rebolcava-se para trás.

Quando os cabras do Onofre viam a bôca medonha do Jacaré, ou
o clarão vermelho do Farol, e ouviam o estampido do Trovão,
diziam baixinho: — ave-maria! e apalpavam-se para conhecer se tinham
algum estilhaço na pele.

Mais rude e terrível combate era o que nesse instante dava-se n’alma
de Arnaldo.

Crivado ao solo como um poste, no meio das balas que zuniam-lhe aos ouvidos,
os olhos saltando de D. Flor a Leandro Barbalho e remontando ansiosos à
copa da oiticica, êle estava alí como um homem atado ao potro,
e dilacerado pelo bárbaro suplício. Uma parte de sua alma, D.
Flor a levava após, e debalde êle a chamava a si; outra, o horror
do que via a arrancava dalí e a arrojava para longe.

Entretanto no meio do fogo rolante, o Campelo ao abaixar o bacamarte fumegante,
lançava um olhar rápido para o altar e bradava em tom imperioso:

— Prossiga, padre!

O capelão não carecia de ser instigado; êle compreendia
a grande vantagem que havia para todos, começando por si, em terminar
brevemente a cerimônia, já que não a pudera evitar como
aconselhara e era mais prudente.

Rolos espessos de fumo da pólvora, tangidos pela viração
da manhã, se foram condensar no ponto do terreiro onde erguia-se o
altar, e envolviam de uma bruma sinistra o grupo formado pelo sacerdote e
pelas pessoas ajoelhadas a seus pés.

Essa névoa pardacenta era às vezes iluminada pelos clarões
purpúreos dos tiros mais próximos ou pelas balas vermelhas que
passavam sibilando e iam perder-se além, ou cravar-se no tronco da
oiticica.

A-pesar-da resistência deseperada do capitão-mór e de
seua escolta valente com as armas, não podia êsse punhado de
homens repelir por mais tempo o assalto bem dirigido das três bandeiras
do Fragoso, cada uma delas mais numerosa do que a pequena fôrça
dos sitiados.

Assim Campelo já não cuidava senão de dar tempo a que
se acabasse de celebrar o casamento para morrer defendendo sua família,
e lavando no sangue o insulto que sofrera. A cada tiro que dava, ouvia-se
sua voz retumbante gritar:

— Acabe, padre!

Nesse momento o sacerdote estendeu a ponta da estola, sôbre a qual
é do rito católico unir as mãos dos noivos, no momento
de proferirem as palavras sacramentais.

Ouviu-se então um frêmito de terror e a voz de Arnaldo que bradou
em um grito de angústia:

— Jó…

XXI – Deus não quer

Uma descarga mais próxima tinha alcançado a escolta da Oiticica,
e a um e outro lado do capitão-mór tombaram as pilhas de combatentes.

Foi o Xavier um dos que mordeu o pó. Ferido mortalmente, o infeliz
estrebuchou no chão; mas soerguendo-se logo sôbre o cotovêlo,
gritou em uma golfada de sangue:

— A absolvição, senhor padre! Pela graça de Deus.

Justa e outras mulheres transidas de horror, mas tocadas de comiseração,
tomaram o moribundo nos braços e o levaram ao sacerdote, que ficou
perplexo.

— Êle não pode esperar, disse D. Flor erguendo-se.

O capelão suspendeu a celebração do casamento; e tomando
os santos óleos administrou a extrema-unção ao morimbundo.

— Está acabado, padre Teles? bradou o capitão-mór,
voltando-se para o altar.

O sacerdote levantou de novo a ponta da estola, e travou da mão de
Leandro Barbalho primeiro; depois recebeu a de Flor; mas não chegou
a uní-las ambas, porque nesse momento a do noivo fugiu-lhe.

Soara rápido sibilo; uma seta fina e breve, cortando os ares, picara
a artéria cervical do sobrinho do capitão-mór. O mancebo
ainda ergueu a mão esquerda, supondo-se mordido por uma abelha; mas
não a levou ao pescoço. Caíu fulminado.

No meio do esturpor causado por esta morte, ninguém tinha notado o
salto de Arnaldo, que em um arremêsso feroz sacara a faca da bainha,
e correu sôbre o altar. Ao baque do corpo, êle estacara; mas ainda
com o golpe alçado.

Foi D. Flor quem primeiro o avistou, quando as mulheres que a cercavam, cedendo
afinal ao terror, fugiam espavoridas, e D. Genoveva abraçada com ela,
a puxava para a casa.

— Arnaldo! disse a donzela, resistindo à sofreguidão
materna e acenando ao sertanejo que se aproximasse.

— Recolha-se, Flor, exclamou Arnaldo, recobrando afinal o seu ânimo
pronto e resoluto.

— Meu lugar é aquí perto de meu pai, disse ela, mostrando
o capitão-mór que não poupava os tiros de seus bacamartes.
Morreremos juntos.

— Não, Flor, não morrerá.

— Fique aquí perto de mim, Arnaldo. Se meu pai cair antes que
uma bala me leve, quero que me trespasse o coração com sua faca.
Jure-me, Arnaldo! Jure-me, que não cairei viva nas mãos dessa
ralé.

— Nem viva, nem morta, eu o juro, Flor.

Enquanto Justa, a um aceno dele, agarrava D. Flor e a levava à casa,
seguida de D. Genoveva, Arnaldo galgando o muro, soltou o grito de guerra
do chefe Anhamum, e arrojou-se ao combate, montando no corisco, oculto alí
perto à sua espera.

Levantou-se além, em tôrno da linha inimiga a pocema dos Jucás;
e uma longa fila de selvagens ornados de penas de canindés e araras
coleou pelo campo semelhante a uma serpente monstruosa que enroscasse em seus
elos os bandeiristas do Fragoso.

Pouco depois Agrela à frente de sua escolta avançou pela várzea
e foi cortando a bandeira do João Correia, como a cunha de um machado
que penetra no cerne do madeiro e o fende.

Os assaltantaes, que já estavam a tomar de escalada o terreiro da
Oiticica, atacados pela retaguarda e metidos entre dois fogos, recuaram em
desordem atropelando-se.

Quando o capitão-mór e Arnaldo investindo caíram sôbre
êles, a derrota foi completa. O sertanejo desforrava-se do tempo que
perdera, imóvel no terreiro, e pelejava por dez. Seu bacamarte esquentou
a ponto de inflamar a pólvora com o calor; então arrancando
o arcabuz de um inimigo que sucumbiu, nomeou-o como uma clava.

Fragoso batia-se também com uma sanha de leão. Já os
outros fugiam à rédea sôlta, que êle e o Daniel
Ferro ainda sustentavam o choque do inimigo; mas quando as fôrças
contrárias refluiram todas sôbre êles, não puderam
mais suster o ímpeto, e por sua vez abandonaram o campo.

Enquanto o Campelo com Arnaldo e Agrela acossava os fugitivos, e o chefe
Anhamum com seus índios despojava os cadáveres de que estavam
os campos juncados, D. Genoveva tornando do assombro causado pelas útimas
cenas, deu ordem às escravas que fossem buscar o corpo de seu sobrinho
Leandro Barbalho.

Elas obedeceram; mas o corpo não foi encontrado e ninguém sabia
explicar o fato. A velha Filipa que espiava por uma seteira, dizia ter visto
um diabo carregando o morto e persignava-se. Mas a descrição
que ela dava do tal diabo que tinha chifres amarelos, e chamas a saírem-lhe
do corpo, era de um índio bravo com cocar e trofa de penas.

Foi só por tarde que o capitão-mór voltou de perseguir
o inimigo e não coltou senão obrigado pela fadiga de sua gente
que pelejava desde o romper do dia, e também pela estafados cavalos.
Mas o orgulhoso fazendeiro deixou rastejadores para descobrirem a pista do
Fragoso; e jurou que em poucos dias se poria a caminho para arrasar a fazenda
das Araras nos Inhamuns, e agarrar o atrevido onde quer que êle se escondesse.

A poucos passos da fazenda, Arnaldo viu Jó ao longe, sentado em um
tôco de pau negro do fogo e com os olhos submergidos no azul do céu.

— Por que tardaste, Jó?

— Aquele homem não te pertencia enquanto a sorte pudesse mudar
seu destino. Esperei para ver se Deus mandava uma bala que o levasse.

— Sua vida não corre perigo.

— Sua vida, não; foi sua felicidade que mataste.

— Êle não ama D. Flor.

— Ama sua liberdade, filho.

Arnaldo ficou pensativo; êle sabia que amor é êsse da
independência, a melhor aura do coração brioso.

— Não te desconsoles, filho; é preciso que os homens
se devorem entre si, para que a terra caiba à raça de Caim.

O velho absorveu-se de novo em sua cogitação; e Arnaldo dirigiu-se
à Oiticica, onde o capitão-mór já tinha chegado,
e achava-se no meio de sua família, depois de haver trocado as efusões
do mútuo contentamento.

A recordação da morte de Leandro Barbalho anuviara a alegria
que em todos excitava o triunfo inesperado em tão árduas circunstâncias
como aquelas em que se achara a fazenda. Mas essa mágoa esqueceu naquele
instante de ventura para voltar depois.

O capitão-mór já sabia pelo Agrela de tudo quanto Arnaldo
fizera para prevenir o assalto e rechaçá-lo com vantagem. Assim,
vendo aproximar-se o sertanejo, êle foi ao seu encontro, e travando-lhe
da mão, veio apresentá-lo à mulher e à filha.

— D. Genoveva, aquía está quem salvou-nos. A êle
devemos todos a vida, Flor.

— Mais que isso, meu pai; a felicidade de estarmos agora aquí
reunidos, e a satisfação de ver castigados aqueles que nos insultaram.

— É assim. Arnaldo, nós queremos dar-lhe uma prova de
nossa gratidão pelo serviço que nos prestou. Peça o que
quiser.

— O sr. capitão-mór promete dar-me o que desejo? perguntou
o sertanejo singelamente.

— Não prometemos, e nem juramos. Está feito! O capitão-mór
Gonçalo Pires Campelo não é quem manda aquí neste
momento; fale, Arnaldo, para ser obedecido.

O sertanejo estremeceu. Uma vertigem passou-lhe pelos olhos, que êle
cravou no chão. Afinal recalmando a emoção que lhe tinham
causado as palavras do capitão-mór, respondeu já calmo
e com voz segura:

— Peço a mão de Alina.

— Essa lhe pertence, Arnaldo, criei-a para ser sua mulher, disse o
capitão-mór.

Um leve desmaio perspassara o formoso semblante de D. Flor. Quanto a Alina,
sentira-se como envôlta por uma chama; a onda, que refluira do coração,
abrasando-lhe as faces, turbou-lhes os sentidos.

— Não peço a mão de Alina para mim, replicara
entretanto Arnaldo; mas para um coração nobre que a merce; para
o ajudante Agrela.

— Oh!… fez o fazendeiro surpreso. Que diz a isso nosso ajudante?

— Que seria a minha ventura, sr. capitão-mór, se ela
consentisse.

— E para si, Arnaldo, que deseja? insistiu Campelo.

— Que o sr. capitão-mór me deixe beijar sua mão;
basta-me isso.

— Tu és um homem, e de hoje em diante quero que te chames Arnaldo
Louredo Campelo.

Proferindo estas palavras em uma expansão de entusiasmo, o capitão-mór
abraçou o sertanejo. Depois tomando a mão de Alina, deu-a ao
Agrela.

— As bodas se farão, logo que se acabe o luto por nosso infeliz
sobrinho Leandro Barbalho.

Foi cruel o desencanto de Alina quando ao tornar a si da comoção
produzida pelo pedido de Arnaldo, sentiu sua mão na mão do Agrela.
A linda moça fitou no sertanejo um olhar de mártir e suas pálpebras
cerrando-se com uma expressão de dorida, pareciam desdobrar um sudário
para velar a formosa estátua.

Agrela pressentira o que se passava n’alma de Alina, e soltando-lhe
a mão, murmurou:

— Não se assuste, Alina. Juro que não aceitarei sua mão,
enquanto não m’a der de sua livre vontade.

O capitão-mór e D. Genoveva recolheram-se à casa, onde
os seguiu Alina; Agrela apertou a mão de Arnaldo e retirou-se também.

Era então ao pôr do sol.

Flor, que pouco antes apartara-se do grupo da família, fôra
sentar-se no banco da oiticica, e engolfou-se nas cismas, que despertava a
lembrança ainda tão recente dos acontecimentos que haviam agitado
sua existência feliz e serena.

Arnaldo aproximou-se, e viu o mavioso semblante da donzela tocado de uma
doce melancolia, como se o crepúsculo do céu que ela fitava
se refletisse em suas feições gentís. Os grandes olhos
límpidos e brilhantes empanaram-se; e duas lágrimas rolaram
pelas faces rubescentes.

— Está triste, Flor? disse Arnaldo.

A donzela sobressaltou-se:

— Estou com pena de Leandro.

— Queria-lhe muito? perguntou Arnaldo trêmulo.

— Era meu primo; e morreu por minha causa.

— Só?…

O sertanejo interrogou o semblante de Flor, que pousando nele seus olhos
aveludados, respondeu:

— Deus não quer que eu me case, Arnaldo!

No transporte do júbilo que inundou-lhe a alma, o sertanejo alçou
as mãos cruzadas para render graças ao Deus que lhe conservava
pura e imaculada a mulher de sua adoração.

Flor corou; e afastou-se lentamente. Quando seu vulto gracioso passou o limiar
da porta, Arnaldo ajoelhando, beijou o ar ainda impregnado da suave fragrância
que a donzela derramava em sua passagem…

Conclusão

Aquí termina a história a que dei o título de Sertanejo.

O mistério que envolve o passado de Jó só depois veio
a revelar-se; e como êsses acontecimentos prendem-se intimamente à
vida de Arnaldo, guardo-me para referí-los mais tarde, quando escrever
o fim do destemido sertanejo cujas proezas foram por muitos anos naqueles
gerais o entretenimento dos vaqueiros nos longos serões passados ao
relento, durante as noites do inverno.

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