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Ao Correr da Pena

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José de Alencar

Parte I

Capítulo I

3 de setembro

O título que leva este artigo me lembra um conto de fada que se passou
não há muito tempo, e que desejo contar por muitas razões;
porque acho-o interessante, porque me livra dos embaraços de um começo,
e me tira de uma grande dificuldade, dispensando-me da explicação
que de qualquer modo seria obrigado a dar. Há de haver muita gente
que não acreditará no meu conto fantástico; mas isto
me é indiferente, convencido como estou de que escritos ao correr da
pena são para serem lidos ao correr dos olhos.

Um belo dia, não sei de que ano, uma linda fada, que chamareis como
quiserdes, a poesia ou a imaginação, tomou-se de amores por
um moço de talento, um tanto volúvel como de ordinário
o são as fantasias ricas e brilhantes que se deleitam admirando o belo
em todas as formas. Ora, dizem que as fadas não podem sofrer a inconstância,
no que lhes acho toda a razão; e por isso a fada de meu conto, temendo
a rivalidade dos anjinhos cá deste mundo, onde os há tão
belos, tomou as formas de uma pena, pena de cisne, linda como os amores, e
entregou-se ao seu amante de corpo e alma.

Não serei eu que desvendarei os mistérios desses amores fantásticos,
e vos contarei as horas deliciosas que corriam no silêncio do gabinete,
mudas e sem palavras. Só vos direi e sito mesmo, é confidência,
que, depois de muito sonho e de muita inspiração, a pena se
lançava sobre o papel, deslizava docemente, brincava como uma fade
que era, bordando as flores mais delicadas, destilando perfumes mais esquisitos
que todos os perfumes do Oriente. As folhas se animavam ao seu contato, a
poesia corria em ondas de ouro, donde saltavam chispas brilhantes de graça
e espírito.

Por fim, a desoras, quando já não havia mais papel, quando
a luz a morrer apenas empalidecia as sombras da noite, a pena trêmula
e vacilante caía sobre a mesa sem forças e sem vida, e soltava
uns acentos doces, notas estremecidas como as cordas da harpa ferida pelo
vento. Era o último beijo da fada que se despedia, o último
canto do cisne moribundo.

Assim se passou muito tempo; mas já não há amores que
durem sempre, principalmente em dias como os nossos, nos quais o símbolo
de constância é uma borboleta. Acabou o poema fantástico
no fim de dois anos; e um dia o herói do meu conto, chamado a estudos
mais graves, lembrou-se de um amigo obscuro, e deu-lhe a sua pena de ouro.
O outro aceitou-a como um depósito sagrado; sabia o que lhe esperava,
mas era um sacrifício que devia à amizade, e por conseguinte
prestou-se a carregar aquela pena, que já adivinhava havia de ser para
ele como uma cruz pesada que levasse ao calvário.

Com efeito, a fada tinha sofrido uma mudança completa: quando a lançavam
sobre a mesa, só fazia correr. Havia perdido as formas elegantes, os
meneios feiticeiros, e deslizava rapidamente sobre o papel sem aquela graça
e faceirice de outrora. Já não tinha flores nem perfumes, e
nem centelhas de ouro e de poesia: eram letras, e unicamente letras, que nem
sequer tinham o mérito de serem de praça, que serviria de consolo
ao espírito mais prosaico.Por fim de contas, o outro, depois de riscar
muito papel e de rasgar muito original, convenceu-se que, a escrever alguma
coisa com aquela fada que o aborrecia, não podia ser de outra maneira
senão – Ao correr da pena

De feito, começou a escrever ao correr da pena , e como se trata de
conto fantástico, não vos admirareis de certo se vos achardes
de repente e sem esperar a ler o que escreveu. Estou persuadido que não
gastareis o vosso tempo a censurar o título, que vale tanto como qualquer
outro. Quanto ao artigo, correi os olhos, como já vos disse, deixai
correr a pena; e posso assegurar-vos que, ainda assim, nem uns nem a outra
correrão tão rapidamente como os ministros espanhóis
diante das pedradas e do motim revolucionário de Madri.

Já sabeis em que deu toda esta história, e por isso prefiro
contar-vos outras notícias trazidas pelos dois últimos paquetes
a respeito da questão do Oriente, que, segundo uma observação
muito espirituosa, tomou para a Áustria certo caráter medicinal
de muita importância. Napier, como velho teimoso, continuava de namoro
ferrado com a soberba Cronstadt, que em negócio de amores parece-me
ter mais fé nos cossacos do que nos ingleses velhos. Entretanto por
prudência o nosso almirante foi-se arranjando com Bommarsund para passar
o inverno. Bem mostra que é inglês e teimoso. Jurou que havia
de passar, e, como não lhe deixam passar o canal, embirrou que havia
de passar o inverno. Queira deus, porém, que não seja o inverno
que passe por ele!

Enquanto os ingleses na Finlândia se conservam frios, não por
causa dos gelos do norte, mas sim por causa do fogo da Rússia, os ingleses
de Londres saíram do sério e deram a mais formidável
pateada em Mário, o belo tenor, que cantava Cujus animam numa noite
de representação em Convent-Garden.. A história desses
motim teatral, contada pelo folhetim do C onstitutionnel, deveria ser bem
estudada por grande número dos nossos dilettanti, que se contentam
em fazerem um barulho insuportável no teatro, desaprovando pobres artistas
sem mérito, e deixando em paz os únicos responsáveis
de semelhantes atos.

O povo de Londres é mais positivo; depois de ter desaprovado os cantores,
obrigou a vir à cena o empresário, e a todos os seus speechs
respondeu um só grito uníssono: money, money. A coisa não
prestava, exigiam a restituição do dinheiro, o que era muito
justo: até dez horas pagaram-se bilhetes recambiados! O empresário
teve de repor dinheiro de sua algibeira, mas no dia seguinte Mário
foi aplaudido com três salvas estrepitosas no romance da Favorita.

Decerto, a causa desta demonstração a favor de Mário
não foi unicamente a sua bela voz de tenor e a sua presença
agradável, mas também a influência da Favorita, que ainda
nos desperta tantas emoções e na qual os parisienses, mais felizes
do que nós, vão recordar atrasados ouvindo a Stoltz, que se
esperava devia cantar no primeiro meado de agosto na ópera de Paris.
Também nós tivemos esta semana nossas recordações
bem doces da Stoltz e da Favorita e lembramo-nos com saudade de Arsace na
noite do concerto Malavazi, que esteve brilhante em todos os sentidos. Nada
faltou, houve de tudo, e até desgostosos, que sentiam que ainda faltava
alguma coisa; o que isto era não sei; é provável que
fosse o chá do costume, que, a falar a verdade, não atino com
o princípio higiênico por que foi banido dos concertos.

Além destas recordações, tivemos a nossa festa musical
na segunda-feira, noite do benefício do Ferranti. O ator simpático
cantou como nos seus bons dias, e desempenhou primorosamente a cena dos Prigioni
de Edimburgo, que, à custa de esforços seus, foi o mais bem
ensaiado possível. Nesta noite as mãos pagaram os prazeres do
ouvido, num e noutro sentido, e, depois de muitas salvas de aplausos, consta-nos
que o nosso barítono brilhante saiu do teatro mais brilhante do que
nunca entrara.

Tão feliz como Ferranti não foram dois inspetores de quarteirão
lá das bandas de São Cristóvão, que faziam o seu
benefício à nossa custa, sem nem ao menos terem a delicadeza
de nos advertirem. A polícia, que nem sempre está ocupada em
dar passaportes e prender negros fugidos, assentou que, sendo a semana de
benefícios, devia também fazer o nosso, o do público,
demitindo-os, isto é, dispensando aqueles honrados cidadãos
do grande obséquio que nos faziam em servir-nos de graça.

O excesso em tudo, porém, é prejudicial, e o benefício,
quando não é pedido, é incômodo, como essa resolução
dos números dos bilhetes de teatro que ontem foi posta em vigor. Tiram-nos
os lenços e as marcas, que eram mais pitorescas e mostravam no público
uma delicadeza louvável. Acharam que isto era mau; dessem-nos coisa
melhor, e não pusessem em homem grave na dura necessidade de ir ao
teatro lírico recordar a tabuada. Além de não se saber
que número terão as travessas e mochos, se pertencerão
aos inteiros, aos quebrados ou aos décimos, faço idéia
em que apertos não se verá um pobre homem que não souber
ler ou que for míope, a procurar o tal número constante de um
pedacinho de papel microscópio, que precisamente no momento necessário,
e como para fazer pirraça, some-se no labirinto de uma carteira ou
nas profundezas de um desses bolsos à maneira, de vastas dimensões!

Quando vi pela primeira vez enfileirados pelos recostos das cadeiras aqueles
batalhões de números brancos, que sem licença e com a
maior sem-cerimônia do mundo se iam retratando a daguerreótipo
nas costas das nossas pobres casacas, julguei que aquilo seria uma medida
policial, por meio da qual os agentes ocultos poderiam seguir fora do teatro
algum indiciado ou suspeito de importância, que fosse reconhecido no
salão. Mas nunca pensei que, quisessem ainda numerarem os bancos as
casacas dos dilettanti , quisessem ainda numerar-lhes os assentos, e obrigar
um homem a comprar por dois mil réis o direito de estar preso numa
cadeira e adstrito a um número como um servo da gleba.

Também o que nos faltava era justamente uma nova questão de
bancos, embora de espécie diferente, porque a outra, a das sociedades
comanditárias, já vai ficando velha e está quase a ir
fazer companhia à do Oriente, à dos seiscentos contos e outras,
que provavelmente hão de reaparecer daqui a algum tempo, como está
sucedendo na Câmara dos Deputados com a das presas da independência.

O crédito proposto pelo Ministério da Marinha tem sido combatido
por falta de uma liquidação regular; mas tudo induz a crer que
desta vez o negócio ficará decidido. E depois disto, neguem-me
que o Brasil seja um gigante! Uma criancinha que só aos trinta anos
lhe começam a sair as primeiras presas! A falar a verdade, já
era mais que tempo de soltarem-se estas malditas presas, por causa das quais
andam presas tantas algibeiras.

Falemos sério. – A independência de um povo é a primeira
página de sua história; é um fato sagrado, uma recordação
que se deve conservar pura e sem mancha, porque é ela que nutre esse
alto sentimento de nacionalidade, que faz o país grande e o povo nobre.Cumpre
não marear essas reminiscências de glória com exprobrações
pouco generosas. Cumpre não falar a linguagem do cálculo e do
dinheiro, quando só deve ser ouvida a voz da consciência e da
dignidade da nação.

Com essa questão importante tem ocupado a atenção da
Câmara a discussão de um projeto do Sr. Wanderley sobre a proibição
do transporte de escravos de uma para outra província. Este projeto,
que encerra medidas muito previdentes a bem da nossa agricultura, e que tende
a prevenir, ou pelo menos atenuar uma crise iminente, é combatido pelo
lado da inconstitucionalidade, por envolver uma restrição ao
direito de propriedade. Entretanto a própria Constituição
autoriza a limitar o exercício da propriedade em favor da utilidade
pública, que ninguém contestará achar-se empenhada no
futuro da nossa agricultura e da nossa indústria, principal fim do
projeto.

Por hoje basta. Vamos acabar a semana no baile da Beneficência Francesa,
onde felizmente não há, como em Paria, a quête feita pelas
lindas marquesinha, e onde teremos o duplo prazer de beneficiar aos pobres
e a nós mesmo divertindo-nos.

Capítulo II

Rio, 17 de setembro de 1854

Estamos na primavera, dizem os folhetins dos jornais, e a folhinha de Laemmert,
que é autoridade nesta matéria. Não se pode por conseguinte
admitir a menor dúvida a respeito. A poeira, o calor, as trovoadas,
os casamentos e as moléstias, tudo anuncia que entramos na quadra feiticeira
dos brincos e dos amores.

Que importa que o sol esteja de icterícia, que a Charton enrouqueça,
que as noites sejam frias e úmidas, que todo o mundo ande de pigarro?
Isto não quer dizer nada. Estamos na primavera. Os deputados, aves
de arribação do tempo do inverno, bateram a linda plumagem;
a Sibéria fechou-se por este ano, os buquês de baile vão
tomando proporções gigantescas, as grinaldas das moças
do tom são perfeitas jardineiras, a Casaloni recebe uma dúzia
de ramalhetes por noite, e finalmente os anúncios de salsaparrilha
de Sands e de Bristol começam a reproduzir-se com um crescendo animador.

Come, gentil spring! Vem, gentil quadra dos prazeres! Vem encher-nos os olhos
de pó! Vem amarrotar-nos os colarinhos da camisa, e reduzir-nos à
agradável condição de um vaso de filtrar água.
Tu és a estação das flores, o mimo da natureza! Vem perfumar-nos
com as exalações tépidas e fragrantes da Rua do Rosário,
da Praia de Santa Luzia, e de todas as praias em geral!

Doce alívio dos velhos reumáticos, esperança consoladora
dos médicos e dos boticários, sonho dourado dos proprietários
das casinhas dos arrabaldes! Os sorveteiros, os vendedores de limonadas e
ventarolas, os donos dos hotéis de Petrópolis, os banhos, os
ônibus, as gôndolas e as barracas, te esperam com a ansiedade,
e de suspirar por ti quase estão ficando tísicos (da bolsa).

Esta semana já começamos a sentir os salutares efeitos de tua
benéfica influência! Vimos uma estrela do belo céu da
Itália eclipsada por uma moeda de dois vinténs, e tivemos a
agradável surpresa de ouvir o 1º ato do Trovatore e um epeech
da polícia, tudo de graça.

Alguns mal intencionados pretendem que a noite não foi tão
gratuita como se diz; mas deixai-os falar; eu, que lá estive, posso
afiançar-vos que o espetáculo foi todo de graça, como
ides ver,

A autoridade policial depois de participar que ficava suspensa a representação
e que os bilhetes estavam garantidos, sendo por conseguinte aquela noite de
graça, como esta notícia excitasse algum rumor, declarou formalmente,
e com toda a razão, que se acomodassem, porque a polícia, quando
tratava de cumprir o seu dever, não era para graças.

Os namorados que tiveram duas noites de namoro pelo custo de uma, os donos
de cocheira que ganharam o aluguel por metade do serviço, o boleeiro
que empolgou a sua gorjeta sem contar as estrelas até a madrugada,
aqueles que lá não foram, não só riram-se de graça,
como acharam nisto uma graça extraordinária.

Muito olhar suplicante vi eu nos últimos momentos, humilhando-se diante
de um rostozinho orgulhoso e ofendido, clamar com toda a eloqüência
do silêncio: grazia! grazia! É preciso advertir que o olhar estava
no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse
italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas
melhor do que qualquer diplomata.

Finalmente, para completar a graça deste divertimento, as graças
com os seus alvos vestidinhos brancos se reclinavam sobre a balaustrada dos
camarotes, cheias de curiosidade, para verem o desfecho da comédia.
E a este respeito lembra-me uma reflexão que fiz a tempos, e da qual
não vos quero privar, porque é curiosa.

Os gregos, como gente prudente e cautelosa, inventaram unicamente três
graças, e consta que viveram sempre muito bem com elas. Nós,
de mal avisados que somos, queremos ter em todos os divertimentos, nos bailes,
nos teatros e nos passeios uma porção delas, sem refletir que,
logo que se ajuntarem muitas, podem formar necessariamente um grupo de dez
graças.

Maldito calembur! Não vão já pensar que pretendo que
as graças tenham sido a causa de tudo isto, nem também que todo
aquele desapontamento fosse produzido por alguma graça da Charton.
A prima-dona estava realmente doente, e, aqui para nós, suspeito muito
os meus colegas folhetinistas de serem a causa daquela súbita indisposição
com o formidável terceto de elogios que entoaram domingo passado. Lembrem-se
que os elogios e os aplausos comovem extraordinariamente um artista. Ainda
ontem vi como ficaram fora de si as tímidas coristas, unicamente porque
lhe deram duas ou três palmas!

Em toda esta noite, porém, o que houve de mais interessante foi o
fato que vou contar-vos. Um velho dilettante do meu conhecimento, ainda do
tempo do magister dixit, e para quem a palavra da autoridade é um evangelho,
teve a infeliz lembrança de justamente nesta noite encomendar um magnífico
buquê para oferecer à Charton no fim da representação.
Apenas se declarou o relâche par indisposition, o homem perdeu a cabeça,
e, o que foi pior, com os apertos da saída perdeu igualmente a bengala,
que lá deixou ficar com os ares de novo um chapéu comprado pela
Páscoa.

No outro dia, o homem, que tinha seus hábitos antigos de comércio,
viu-se em sérias dificuldades. Não podia deixar de acreditar,
à vista da declaração da polícia, que o espetáculo
da noite antecedente fora de graça; mas, ao mesmo tempo, tinha de dar
saída no livro de despesas ao dinheiro que gastara com o aluguel do
carro, com a gorjeta do boleeiro, com o par de luvas, com o buquê da
Charton, o custo da bengala e o estrago do chapéu. Coçou a cabeça,
tomou a sua pitada, e afinal escreveu o seguinte assento: Importe de um espetáculo
gratuito no Teatro Provisório – 26$000!

O meu dilettanti ainda não sabia que a palavra grátis é
um anacronismo no século XIX, e, quando se fala em qualquer coisa de
graça, é apenas uma graça, que muitas vezes torna-se
bem pesada, como lhe sucedeu. Provavelmente, depois deste dia, o velho lhe
aditou ao seu testamento um codicilo proibindo terminantemente ao seu herdeiro
os espetáculos gratuitos.

Assim a crônica futura desta heróica cidade consignará
nas suas páginas que, pelo começo da primavera do ano de 1854,
tivemos um divertimento de graça. Os nossos bisnetos, não falo
dos militares de boca aberta, hão de pasmar quando lerem um acontecimento
tão extraordinário, e, se nesse tempo ainda estiver em uso o
latim, clamarão com toda a força dos pulmões: Miserabile
dictu!

Depois de uma semelhante noite, era natural que os dias da semana corressem,
como correram, monótonos e insípidos, e que o baile do Cassino
estivesse tão frio e pouco animado. Entretanto aproveitei muito em
ir, pois consegui perder as minhas antipatias pela valsa, a dança da
moda. É verdade que não era uma mulher que valsava, mas um anjo.
Um pezinho de Cendrillon, um corpinho de fada, uma boquinha de rosa, é
sempre coisa de ver-se, ainda mesmo em corrupios.

Fiz a amende honorable de minhas opiniões antigas, e, vendo nos rápidos
volteios da dança voluptuosa passar-me por momentos diante dos olhos
aquele rostinho iluminado por um sorriso tão ingênuo, não
pude deixar de fazer uma comparação meio sentimental e meio
cosmogônica, que talvez classifiqueis de original, mas que em todo o
caso é verdadeira.

Quando o mar, que Shakespeare disse ser a imagem da inconstância, revolveu
o globo num cataclisma e cobriu a terra com as águas do dilúvio,
foi uma pomba o emblema da inocência, que anunciou aos homens a bonança,
trazendo no bico um raminho de oliveira. Se algum dia uma paixão de
loureira vos revolver a alma, e deixar-vos o desgosto e a desilusão,
há de ser um anjinho inocente como aquele quem vos anunciará
a paz do coração, trazendo nos lábios o sorriso do amor
o mais casto e mais puro.

Capítulo III

Rio, 24 de setembro

Domingo passado o caminho de São Cristóvão rivalizava
com os aristocráticos passeios da Glória, do Botafogo e São
Clemente, no luxo e na concorrência, na animação e até
na poeira. O Jockey Club anunciara a sua primeira corrida; e, apesar dos bilhetes
amarelos, dos erros tipográficos e do silêncio dos jornais, a
sociedade elegante se esforçou em responder à amabilidade do
convite.

Fazia uma bela manhã: – céu azul, sol brilhante, viração
fresca, ar puro e sereno. O dia estava soberbo. Ao longe o campo corria entre
a sombra das árvores e o verde dos montes; e as brisas da terra vinham
impregnadas da deliciosa fragrância das relvas e das folhas, que predispõe
o espírito para as emoções plácidas e serenas.

Desde sete horas da manhã começaram a passar as elegantes carruagens,
e os grupos dos gentlemen riders, cavaleiros por gosto ou por economia. Após
o cupê aristocrático tirado pela brilhante parelha de cavalos
do Cabo, vinha a trote curto o cabriolé da praça puxado pelos
dois burrinhos clássicos, os quais, apesar do nome, davam nesta ocasião
a mais alta prova de sabedoria, mostrando que compreendiam toda a força
daquele provérbio inventado por algum romano preguiçoso: Festina
lente.

Tudo isso lutando de entusiasmo e ligeireza, turbilhonando entre nuvens de
pó, animando-se com a excitação da carreira, formava
uma confusão magnífica; e passava no meio dos estalos dos chicotes,
dos gritos dos cocheiros, do rodar das carruagens, e do rir e vozear dos cavaleiros,
como uma espécie de sabat de feiticeiras, a começar no campo
de Sant’Anna e a perder-se por baixo da sombra de mo mundo.

Às 10 horas abriu-se a raia (turf), e começou a corrida com
a irregularidade do costume. Os parelheiros pouco adestrados, sem o ensino
conveniente, não partiram ao sinal e ao mesmo tempo, e disto resultou
que muitas vezes o prêmio da vitória não coube ao jóquei
que montava o melhor corredor, e sim àquele que tinha a felicidade
de ser o primeiro a lançar-se na raia. A última corrida, que
durou um minuto e dezenove segundos, teria sido brilhante se dois dos cavalos
não se tivessem lembrado de imitar as pombinhas de Vênus, que
dizem, voavam presas por um laço de amor.

A diretoria, que envidou todos os seus esforços para tornar agradáveis
as novas corridas, deve tomar as providências necessárias a fim
de fazer cessar estes inconvenientes, formulando com o auxílio dos
entendidos um regulamento severo do turf. Convém substituir o sinal
da partida por outro mais forte e mais preciso, e só admitir à
inscrição cavalos parelheiros já habituados à
raia.

Seria também para desejar que se tratasse de melhorar a quadra (sport)
com as inovações necessárias para comodidade dos espectadores;
e que desse alguma atenção à parte cômica do divertimento.
Instituindo-se corridas de burrinhos e de pequiras. Nós ganhávamos
com isto uma boa meia hora de rir franco e alegre, e estou certo que por esta
maneira o gosto dos passatempos hípicos se iria popularizando.

A uma hora da tarde estava tudo acabado, e os sócios e convidados
disseram adeus às verdes colinas do Engenho Novo, e voltaram à
cidade para descansar e satisfazer a necessidade tão trivial e comum
de jantar, insuportável costume, que, apesar de todas as revoluções
do globo e todas as vicissitudes da moda, dura desde princípio do mundo.
À tarde, aqueles que tiveram a honra de um convite foram a Saúde
assistir à inauguração do Instituto dos Cegos na casa
que serviu de residência do primeiro Barão do rio-Bonito.

Há muito tempo que se esperava a realização desta bela
instituição humanitária, destinada a dar às pobres
criaturas privadas da luz dos olhos a luz do espírito e da inteligência.
Devemos esperar do zelo das pessoas a quem foi confiada a sua administração
que em pouco conseguiremos resultados tão profícuos como têm
obtido a França e os Estados Unidos.

A inauguração fez-se em presença de SS.MM. e de um luzido
e numeroso concurso de senhoras e de pessoas de distinção, que
aí se achavam animados pelo mesmo sentimento, e como para realçarem
aquele ato humanitário com a tríplice auréola da majestade,
da virtude e da ilustração.

Depois de tudo isto, uma bela noite sem lua, fresca e estrelada; algumas
partidas no Catete, um passeio agradável ao relento, ou o doce serão
da família em redor da mesa do chá; e por fim cada um se recolheu
a repassar lentamente na memória os prazeres do dia, e a lembrar-se
de um sorriso que lhe deram ou de uns olhos que não viu.

Entretanto a mim não me sucedeu o mesmo. Tinha-me divertido, é
verdade; mas aquele domingo cheio, que estreava a semana de uma maneira tão
brilhante, fazia-me pressentir uma tal fecundidade de acontecimentos, que
me inquietava seriamente. Já via surgir de repente uma série
interminável de bailes e saraus, um catálogo enorme de revoluções
e uma cópia de notícias capaz de produzir dois suplementos de
qualquer jornal no mesmo dia. E eu, metido no meio de tudo isto, com uma pena,
uma pouca de tinta e uma folha de papel, essa tripeça do gênero
feminino, com a qual trabalham alguns escritores modernos, à moda do
sapateiro remendão dos tempos de outrora.

É uma felicidade que não me tenha ainda dado ao trabalho de
saber quem foi o inventor deste monstro de Horácio, deste novo Proteu,
que chamam – folhetim; senão aproveitaria alguns momentos em que estivesse
de candeias às avessas, e escrever-lhe-ia uma biografia, que, com as
anotações jeito ter um inferno no purgatório onde necessariamente
deve estar o inventor de tão desastrada idéia.

Obrigar um homem a percorrer todos os acontecimentos, a passar do gracejo
ao assunto sério, do riso e do prazer as páginas douradas do
seu álbum, com toda a finura e graça e a mesma monchalance com
que uma senhora volta as páginas douradas do seu álbum, com
toda a finura e delicadeza com que uma mocinha loureira dá sota e basto
a três dúzias de adoradores! Fazerem do escritor uma espécie
de colibri a esvoaçar em ziguezague, e a sugar, como o mel das flores,
a graça, o sal e o espírito que deve necessariamente descobrir
no fato o mais comezinho!

Ainda isto não é tudo. Depois que o mísero folhetinista
por força de vontade conseguiu atingir a este último esforço
da volubilidade, quando à custa de magia e de encanto fez que a pena
se lembrasse dos tempos em que voava, deixa finalmente o pensamento lançar-se
sobre o papel, livre como o espaço. Cuida que é uma borboleta
que quebrou a crisálida para ostentar o brilho fascinador de suas cores;
mas engana-se: [e apenas uma formiga que criou asas para perder-se

De um lado um crítico, aliás de boa-fé, é de
opinião que o folhetinista inventou em vez de contar, o que por conseguinte
excedeu os limites da crônica. Outro afirma que plagiou, e prova imediatamente
que tal autor, se não disse a mesma coisa, teve intenção
de dizer, porque, enfim nihil sub novum. Se se trata de coisa séria,
a amável leitora amarrota o jornal, e atira-o de lado com um momozinho
displicente a que é impossível resistir.

Quando se fala de bailes, de uma mocinha bonita, de uns olhos brejeiros,
o velho tira os óculos de maçado e diz entre dentes:"Ah!
o sujeitinho está namorando à minha custa! Não fala contra
as reformas! Hei de suspender a assinatura".

O namorado acha que o folhetim não presta porque não descreveu
certo toilette, o caixeiro porque não defendeu o fechamento das lojas
ao domingo, as velhas porque não falou na decadência das novenas,
as moças porque não disse claramente qual era a mais bonita,
o negociante porque não tratou das cotações da praça,
e finalmente o literato porque o homem não achou a mesma idéia
brilhante que ele ruminava no seu alto bestunto.

Nada, isto não tem jeito! É preciso acabar de uma vez com semelhante
confusão, e estabelecer a ordem nestas coisas. Quando queremos jantar,
vamos ao Hotel da Europa; se desejamos passar a noite, escolhemos entre o
baile e o teatro. Compramos luvas no Wallerstein, perfumarias no Desmarais,
e mandamos fazer roupa no Dagnan. O poeta glosa o mote, que lhe dão,
o músico fantasia sobre um tema favorito, o escritor adota um título
para seu livro ou o seu artigo. Somente o folhetim é que há
de sair fora da regra geral, e ser uma espécie de panacéia,
um tratado de omni scibili et possibili, um dicionário espanhol que
contenha todas as coisas e algumas coisinhas mais? Enquanto o Instituto de
França e a Academia de Lisboa não concordarem numa exata definição
do folhetim, tenho para mim que a coisa é impossível.

Façam idéia, estando ainda dominado por estas impressões
da véspera, como não fiquei desapontado no dia seguinte, quando
me fui esbarrar com a nova da chegada do paquete de Southampton, o qual parece
que mesmo de propósito trouxe quanta notícia nova e velha havia
lá pela Europa.

Nicolau, vendo que nada arranjava com os seus primos da Áustria e
da Prússia, assentou de aliar-se com o Judeu Errante, um certo indivíduo
inventado, no tempo em que ainda se inventava, e correto e aumentado no Século
19 por Eugênio Sue. Entretanto saiu-lhe a coisa às avessas, porque
os ingleses e franceses com o cólera ficaram verdadeiramente coléricos
e então não há mais nada que lhes resista. Tomaram Bommarsund,
e é de crer que a esta hora já tenham empolgado Sebastopol.

Ao passo que eles lá no Oriente pelejam combates e batalhas para se
distraírem durante a convalescença da moléstia, os Egípcios
deram ao mundo uma grande lição de política constitucional
a seu modo em duas palavras – pau e corda; e mostraram claramente que toda
a ciência de governar está na maneira de empregar aqueles dois
termos.

Se Abbas-Paxá tivesse aprendido na escola de Napoleão pequenino,
em vez de mandar meter o bastão nos mamelucos para estes o enforcarem,
teria usado da outra forma simbólica de governar, corda e pau, isto
é, teria-os mandado enforcar num pau qualquer, e estaria agora vivo
e bem disposto para mandar enforcar uma nova porção.

Políticos do mundo inteiro! Jornalistas do orbe católico! Publicistas,
que desde Hugo Grocio queimais as pestanas a resolver a grande questão
das formas de governo! Podeis fazer cartucho de vossos jornais, podeis vender
os vossos enormes infólios para papel de embrulho, podeis dar aos vossos
pequerruchos as memórias que elaborastes para que eles se divirtam
a fazer chapéu armado! Paula majora canamus ! Tudo quanto escrevestes,
tudo quanto meditastes não vale aquela lição simples
e grande dada por dois mamelucos!

Quereis ver como a coisa está agora clara e simples? Teoria do governo
constitucional – pau e corda. Teoria do governo absoluto – corda e pau. Quanto
à república, como é a forma de governo simples por excelência,
será simbolizada unicamente pela corda. Os democratas estão
livres do bastão, e contentam-se em enforcarem-se uns aos outros como
na revolução inglesa, ou a guilhotinarem-se, como têm
o bom gosto de fazer os nossos vizinhos do Sul.

Além destas notícias que vos tenho referido, todas as mais,
trazidas pelo paquete, não valem uma ode que nos veio também
por ele, e que foi publicada no Portuense. Não se riam, nem pensem
que há nisto exageração! Leiam, e depois conversaremos.
É um homem obscuro, lá de um recanto de Portugal, com o nome
mais antipoético do mundo, que de repente sentiu na mente uma centelha
de Vitor Hugo, recebeu uma inspiração do céu, tomou uma
folha de papel, e lavrou a sentença da Inglaterra com uma ironia esmagadora,
com um metro enérgico e uma rima valente. Leiam, e digam-me se neste
pensamento grande, nesta concepção vasta, nesta forma imponente,
não há como um pressentimento, como a profecia de um acontecimento,
que talvez não esteja muito longe?

Ia-me esquecendo de outra notícia, a da aposentadoria do Sr. Delavat
y Rincon, Ministro da Espanha, no caráter diplomático da missão
que exercia no Brasil. Residindo entre nós há muitos anos, o
Sr. D. José tem-se ligado intimamente ao Brasil, não só
pelos laços de família que o prendem, como pelas atenções
que sempre mostrou para com o nosso país.

Com tanta novidade curiosa chegada pelo paquete, e que oferece larga matéria
à palestra e aos comentários, ainda assim não ficamos
de todo livres de certas conversas divertidas, muito usadas nos nossos círculos.

Não sabeis talvez o que é uma conversa divertida? Pois reparai,
quando estiverdes nalgum ponto de reunião, prestai atenção
aos diversos grupos, e ouvireis um sem-número desta espécie
de passatempo, que é na verdade de um encanto extraordinário.

Uma conversa divertida – lue se vos posta diante dos olhos, como uma trave,
e vos tira a vista da vossa namorada, para perguntar-vos com voz de meio-soprano:
o que há de novo?

Na primeira revisão do Código Penal é preciso contemplar
estes sujeitinhos nalgum artigo de polícia correcional. Uns furtam-nos
o nosso tempo, que é um precioso capital – time is money, e, o que
mais é, furtam com abuso de confiança, porque se intitulam amigos;
por conseguinte incorrem na pena de estelionato. Os outros são envenenadores,
porque com as suas conversas de cólera e febre amarela vão minando
surdamente a nossa vida com os ataques de nervos e com as terríveis
apreensões que fomentam.

Enquanto, porém, aquela reforma não tem lugar, chamo sobre
eles a atenção do Sr. Dr. Cunha, assim como também sobre
a desordem que reina no teatro nas noites de enchente.

A princípio, um homem sentava-se comodamente para ver o espetáculo.
Entenderam que isto era sibaritismo, estreitaram o espaço entre os
bancos, e tiraram-nos o direito de estender as pernas.

Ainda a coisa não ficou aí: pintaram os bancos e privaram-nos
do espreguiçamento do recosto. Julguei que tinham chegado ao maior
aperfeiçoamento do sistema, mas ainda faltava uma última demão.
Agora aqueles que querem ver ficam de pé; e os que preferem ficar sentados
têm o pequeno inconveniente de nada verem. Não cabem dois provérbios
num saco, diz o provérbio: ou bem ver, ou bem sentar.

Isto pode ter muita graça para a diretoria; porém aquele que
compra o direito de ver, sentado e recostado, não pode sofrer semelhante
defraudação. É urgente proceder-se a uma rigorosa lotação
das cadeiras do teatro, e proibir a introdução de mochos e travessas.
Este expediente, acompanhado da severa inspeção na venda e recepção
dos bilhetes, restituirá a ordem tão necessária num espetáculo
onde a presença de Suas Majestades e de pessoas gradas exige toda a
circunspeção e dignidade.

Capítulo IV

Rio, 1.º de outubro

Meu caro redator. – Faço idéia do seu seu modo, sem ter ao
menos a delicadeza de nos consultar de vez em quando.

Fatis agimur, cedite fatis.

Sei que há de ficar maçadíssimo comigo, que me acusará
de remisso e negligente, e acumulará sobre a minha cabeça uma
série de sinônimos de igual jaez de envergonhar qualquer Cícero
provinciano dos mais afamados na oratória.

É já prevenindo esta eventualidade que tomo o prudente alvitre
de escrever-lhe, e não ir verbalmente desfiar o longo rosário
de desculpas que a minha imaginação, sem que lho recomendasse
eu, teve o cuidado de ir preparando apenas pressentiu os primeiros pródromos
da preguiça.

O que vale é que a borrasca há de passar. Quanto maior for
a zanga, tanto maior graça há de achar depois no logro que lhe
preguei involuntariamente, está entendido; a por fim de contas, quando
se lembra do seu tempo de folhetinista, estou certo que me há de dar
carradas de razões. Previno-o, porém, desde já que não
é preciso mandar-me à casa as tais carradas de razões;
isto pode importar-lhe uma grande despesa de carretos sem necessidade.

Decidi contar-lhe confidencialmente a minha vida desta semana, para que não
lhe reste a menor dúvida sobre a boa-fé com que procedi em todo
este negócio, e para assim habilitá-lo a redigir uma daquelas
desculpas da rotina, com que ordinariamente os jornais (compreendido o nosso
por política) embaçam os leitores, logo pela manhã, e
em jejum, ocasião esta em que naturalmente os carapetões são
de mais fácil digestão.

Os nossos velhos da era antiga diziam que não havia domingo sem missa,
sem segunda-feira sem preguiça. A primeira parte deste provérbio
tem sofrido nos últimos tempos alguma modificação, principalmente
a respeito dos redatores dos grandes jornais, que substituíram à
missa o folhetim. Mas em compensação ninguém ainda se
animou a contestar a segunda e última parte do anexim, e pó
isso na segunda-feira redatores, folhetinistas, leitores e leitoras, todos
desejariam poder saborear as delícias do dolce farniente.

Como isto não é possível a todos, o que se segue é
que muitas vezes o corpo parece que trabalha, enquanto a mente, como uma sultana
favorita, se embala molemente nas doces recordações do domingo
e de toda a semana passada.

O redator estende a folha de papel para escrever o seu artigo de fundo; mas,
quando procura pelo pensamento, vai descobri-lo no fundo de algum boudoir
elegante, donde não há forças que o possam arrancar.
Resulta daí que, depois de algumas horas de esforço baldado,
o tal artigo de fundo fica no fundo do tinteiro.

A mocinha com os olhos quebrados e corpinho lânguido toma o seu bordado
e começa a trabalhar. Pensa que está fazendo ponto de crochê!
Qual! está fazendo namoro a crochê. Os olhos e a boquinha são
os ganchos; cada ponto é um olhar provocador; cada malha um jogo vivo
de sorrisos à direita e à esquerda. Quando a agulha fere-lhe
um dos dedinhos rosados, sou capaz de apostar que lembrou-se de um despeito,
ou de um arrufo no baile.

A respeito do folhetinista não falemos. Na segunda-feira tem a cabeça
que é um caos de recordações, de faros, de anedotas e
observações curiosas. A imaginação toma ares de
pintor chinês, e começa a desenhar-lhe flores e arabescos de
um colorido magnífico. As idéias dançam uma contradança
no Cassino. A memória passeia no meio do salão, de braço
dado com a ironia, gracejando e fazendo reflexões a propósito.

Enfim os cinco sentidos põem-se ao fresco, e largam-se a passear cada
um para seu lado. O ouvido a Flâner recorda a cabaleta do Trovatore.
O paladar e o olfato sentam-se comodamente à mesa da ceia. O olhar
erige-se em dagueorreotipeiro e diverte-se em tirar retratos d’après
nature. E o tato vai estudar praticamente o magnetismo, para descobrir as
causas misteriosas dos estremecimentos que produz a pressão doce e
tépida de uma mãozinha delicada.

À vista disto, meu caro redator, já vê que a segunda-feira
é um dia inteiramente perdido, e que só vem na folhinha para
encher o número dos sete que formam a semana, assim como sucede nas
listas tríplices para senador. Acredite que não se faz nada,
nem mesmo quando se possui a receita infalível, que eu tenho sobre
a mesa, de um libelo ou de uns provarás, cujo efeito poderoso o senhor
deve conhecer.

Os antigos tinham razão. E estou certo que, se Josué vivesse
no nosso século, havia de adotar o anexim português, e, pedindo
licença a Galileu, todos os domingos à meia-noite faria parar
o sol até terça-feira, para assim poder bem saborear o dia consagrado
à preguiça, sem temer a claridade importuna que de madrugada,
isto é, às desoras, vem bater-nos nas pálpebras, como
um credor impertinente que não compreende a verdadeira organização
do crédito.

Ora, eu sei que me podem objetar que a Bíblia manda trabalhar seis
dias e descansar no sétimo. Mas aquele preceito foi inventado na primeira
semana, isto é, quando não se tinha trabalho antes; e por isso
podia haver preguiça na segunda-feira. Além de que, como ainda
não se sabia ao certo o peso do trabalho da semana, julgou-se, que
era bastante um só dia de descanso. Veja o senhor, que é deputado,
o inconveniente de fazer leis sem primeiro estudarem-se profundamente as necessidades
públicas.

Logo que os homens aprenderam por experiência própria quanto
custavam os tais seis dias de trabalho, assentaram que era preciso pelo menos
dois ou três dias de descanso. Daí veio que os antigos, pensando
sobre a gravidade do caso, inventaram os dias santos para iludirem o preceito
da Bíblia; e modernamente se instituiu nas semanas em que não
há dias santos, o feriado da quinta-feira para estudantes e lentes,
porém especialmente para estes.

Enfim o nosso amável redator sabe que a própria astronomia
confirma a convicção profunda em que estou de que pelas leis
divinas e humanas a segunda-feira deve ser completamente consagrada à
preguiça. A segunda-feira é o dia da lua, e ninguém ignora
a influência poderosa que exerce esta senhora sobre os pobres mortais,
a quem ela persegue como uma velha cheia de flatos e medeixes. Ora, não
podendo o corpo assim indisposto entregar-se ao trabalho, é evidente
que as próprias leis físicas, que regulam a harmonia e o equilíbrio
do mundo, destinaram a segunda-feira para a calaçaria.

Parece-me que tenho provado o ponto controvertido, com argumentos dignos
de figurar em uma conclusão magna. Está a segunda-feira, portanto,
fora de toda a questão; e por isso, tranqüilo na minha consciência,
não tenho o menor escrúpulo em confessar-lhe que naquele dia
não trabalhei.

Passei o dia, como faço-lhe a justiça de acreditar que passou
o seu, sem dar atenção às misérias deste mundo;
e tratando de realizar aquele dito de Marcial, que apesar de poeta (com perdão
de V.S.) disse um dia uma coisa boa, talvez mesmo por não se muito
forte na poesia: Vivere bis, vita posse priore fruire

Acho escusado dizer-lhe que, apesar de ser o dia inteiramente contemplativo,
não me descuidei da carne, e tive o cuidado de almoçar, jantar
e cear. À noite fui ao Teatro Lírico ouvir ainda uma vez o Trovatore
e ver Leonora morrer depois de nos ter dado algumas horas de vida deliciosa.

Desejava trazer alguma idéia boa para o nosso folhetim. Mas o senhor
sabe o que é uma idéia; é a coisa mais bandoleira e mais
volúvel que eu conheço. As idéias são as borboletas
do espírito; são, como diz um provérbio oriental a respeito
das mulheres, a sombra do nosso corpo que nos acompanha sempre, e que nos
foge apenas as queremos apanhar.

Esperei por conseguinte pela terça-feira, em que verdadeiramente devia
começar o trabalho da semana, segundo os princípios que já
tive a honra de lhe expender. Entretanto, servindo-me eu daqueles mesmos princípios
com que provei que os antigos tinham toda a razão de destinar a segunda-feira
para o santo ócio, sucedeu que tive na terça-feira ao acordar
uma lembrança luminosa, cujo peso deixo ao seu alto critério.

Se os antigos, que não tinham baile, nem teatros líricos, nem
concertos, nem clubes, nem corridas, e que se contentavam com algum sarau
de vez em quando, inventaram os dias santos para filarem assim dois dias de
descanso, nós, que temos durante a semana todo esse enorme acréscimo
de trabalho imposto pela sociedade, nós que já fomos privados
dos dias santos, devemos em todo o rigor da justiça lograr mais um
dia de descanso, e juntar a terça-feira à segunda, a fim de
poder na quinta encerrar o trabalho, com o espírito calmo e o corpo
bem disposto.

Este argumento sem réplica calou-me no ânimo a convicção
inabalável de que seria anti-racional e anti-filosófico trabalhar
na terça-feira, principalmente estando todo preocupado com o baile
do Cassino, que devia ter lugar à noite.

Por conseguinte, levei o dia literalmente a esperar pela noite, e a ler as
notícias da Europa, chegadas pelo Maria 2.ª.

Tive um alegrão quando vi aquele carapetão da tomada de Sebastopol,
inventado pelos passageiros do Candiá, que podem ser taxados de mentirosos,
mas que pelo menos mostraram ser mais hábeis em estratégia e
tática militar do que os generais franceses e ingleses, pois tomaram
uma praça forte sem armas e sem soldados, somente com o auxílio
da língua e de algum jeito para a petalogia.

Com este fato tinha eu base para um artigo brilhante sobre o futuro da guerra
do Oriente; mas o meu contentamento foi passageiro, porque no dia seguinte
li o desmentido do Jornal do Comércio, que nem sequer deixou à
pobre notícia o tempo de correr.

A noite que eu esperava ansiosamente, chegou.Às 9 horas entrei no
Cassino, onde tive o sumo prazer de encontra-lo, o que unicamente (espero
terá a bondade de o acreditar) fez-me passar algumas horas bem agradáveis.

Se a falta do nosso folhetim de amanhã, a qual deploro igualmente
com o senhor, não o traz ainda atordoado a esta hora, deve lembrar
o baile magnífico pela elegância das senhoras, e pela sociedade
que aí se reuniu.

Havia naturalmente de notar, com o seu conhecido bom gosto, a justeza de
uma observação que fez Arséne Houssae, provavelmente
ao meio de algum baile como aquele: – Il y a des femmes qui sont roses, il
y a des femmes qui sont épines, il y a des femmes qui sont des sourires,
il y a des femmes qui sont des grimaces.

A este pensamento eu acrescentaria que há mulheres que são
verdadeiras rosas, e que por isso têm para aqueles que se chegam um
perfume e um espinho ao mesmo tempo.

Também havia de ver, como eu, surgir naquela noite uma estrela suave
a deslizar docemente num céu de azul. Era uma verdadeira estrela, bela
como suas irmãs, brilhando no céu; porque o céu é
a pátria da candura e da inocência.

Se não teve a felicidade de ver esta serena aparição
no baile, tome o meu conselho. Vá a casa do Reis, na rua do Hospício
n.º 72. É a melhor loja de instrumentos de óptica e de
física que há nesta cidade: aí encontrará um sortimento
magnífico de binóculos, de telescópios e lunetas.

Escolha a melhor jumelle eliptique que ele tiver, vá esta noite beneficiar
os italianos ouvindo música italiana, e lá examine o céu
do Teatro Lírico, que talvez tenha ocasião de ver a estrela
de que lhe falei. Não fite muito o óculo; uma estrela é
tudo o que há mais puro e de mais casto neste mundo.

Voltando ao baile, creio que não estranhará se durante toda
aquela noite nem sequer me lembrasse do folhetim. A uma hora despedi-me como
os outros até a noite seguinte, na qual nos devíamos encontrar
no baile militar, ou nos salões de um estrangeiro distinto, que recebia
em sua casa a sociedade elegante desta corte.

Enfim veio a quarta-feira, o dia em que sensatamente se deve dar princípio
ao trabalho. Não comece já a pensar que vou apelar para algum
sofisma, a fim de inutilizar também este dia. Não: a quarta-feira
é um dia muito útil, o mais útil talvez da semana

A quarta-feira é destinada para se dispor o homem a começar
os seus afazeres. Depois de três dias de descanso, é impossível
que se tenha disposições para encetar de chofre o trabalho.
Seria mesmo anti-higiênico passar repentinamente do repouso ao movimento.

Motus est causa caloris. Consulte um bom médico, e verá que
ele lhe diz que isto importa tanto como as transições rápidas
do frio para o calor e vice-versa, e que por conseguinte pode originar graves
moléstias.

Não sei que sábio antigo disse que a natureza não vai
aos saltos: Natura non facit saltus. Todas as línguas vivas e mortas
que eu conheço têm um rifão que, despida a forma, contém
aquele mesmo pensamento.

Ora, logo que a sabedoria, a higiene e a experiência popular consagram
um princípio inconcusso, não é possível deixar
de aderir principalmente quando há uma atração irresistível
para ele. Foi o que me sucedeu, levei toda a quarta-feira a fazer tenções
e cálculos de trabalho para o dia seguinte. A fim de melhor dispor
o espírito, não deixei de ir à reunião de que
lhe falei, e tive ocasião de apreciar a amabilidade dos hóspedes
e a graça das lindas convivas.

Na quinta-feira, resolvi logo pela manhã por-me de ponto em branco,
isto é, todo de preto, para ir ao convento de Santo Antônio,
assistir a um ofício fúnebre que os estudantes de medicina fizeram
celebrar pela alma de seu colega José Cândido de Almeida.

Embora já habituado a estas cenas de luto e de tristeza, a memória
deste causa-me dolorosa impressão. Não me posso lembrar com
indiferença daquele moço, cheio de vida e de talento, colhendo
o germe da morte justamente quando, levado pelo amor do estudo, investigava
com o escalpelo na mão os segredos da ciência.

O que consola o espírito quando me recordo deste fato é a efusão
e a espontaneidade de sentimentos com que seus colegas demonstraram a mágoa
que lhes deixou aquela morte prematura. Os estudantes de medicina deram nesta
ocasião um exemplo, bem raro hoje, de espírito de classe; e
nas demonstrações de sua dor substituíram quase para
seu colega, morto longe do seio materno, as lágrimas sublimes de mãe.

A hora, que correu mais rapidamente do que eu pensava, obstou a realização
do meu intento. Entretanto fiquei sempre debaixo daquela impressão,
o que contudo não me afastava da idéia de começar decididamente
o trabalho na quinta.

No correr do dia, refletindo melhor, assentei em duas coisas. Primeiro, que
num clima tão doentio como é o do Rio de Janeiro todo mundo
tem o direito incontestável de declarar-se doente pelo menos um dia
por semana, ainda que não seja senão para poupar a saúde
e não gasta-la toda de uma vez. Segundo, que todo o homem que cumpre
exatamente os seus deveres durante todo o ano pode lá uma semana fazer
um extra e destinar o dia para ir passar no campo e não fazer absolutamente
nada, senão distrair-se.

E agora, meu caro redator, confesse francamente, não acha que é
um impossível físico e moral fazer uma semana inteira com um
dia somente, quando para isto é necessário em toda a folhinha
sete dias e sete noites?

Como estou certo que não me responderá negativamente a esta
pergunta, desde já me tenho por plenamente justificado para com a redação
do jornal; lá quanto aos leitores, isto é coisa que lhe diz
respeito, e na qual eu lavo as mãos.

Entretanto é pena que isto sucedesse, porque havia bastante que dizer-se
sobre esta semana. Além dos divertimentos que lhe falei, do baile do
Campestre, da chegada de um literato cego que nos veio pedir hospitalidade
acompanhado de sua Antígone, houve um fato que interessa muito a população
desta cidade.

O desembargador Figueira de Melo foi nomeado Chefe de Polícia desta
corte, e deve tomar posse hoje, dia de São Jerônimo, seu patrão.

Não acha que esta coincidência é um presságio
feliz para esta nomeação, e que o novo chefe de polícia
continuará as tradições deixadas pelo Sr. Siqueira que
durante a sua curta administração adquiriu títulos ao
reconhecimento público? Eu inclino-me a crer que sim, e não
estou longe de supor que nisso vamos de acordo.

A empresa lírica começa a ser administrada pela nova diretoria,
e também há razões de esperar das pessoas que a compõem,
se não todos, ao menos alguns dos melhoramentos que exige o nosso Teatro
para poder elevar-se ao estado que comporta a civilização e
os recursos desta corte.

Veja que pena! Com tanta notícia importante, não temos artigo
hebdomadário! Mas console-se; a semana que vem não se anuncia
menos brilhante. Teremos um baile esplêndido na Fileuterpe, e no Teatro
de São Pedro um concerto vocal e instrumental, de música alemã
e clássica, o que deve ser uma novidade artística digna de atrair
todo aquele que se prezar de bom gosto. A orquestra será regida por
um jovem professor nacional, o Sr. Stockemeyer, que já tem dado provas
do seu talento.

Não se amofine por conseguinte, e creia na minha boa vontade.

Seu, etc.

S.C. 30 setembro.

Al.

P. S. Agora, quase ao fechar esta, lembrei-me de um expediente aproveitável
em tão críticas circunstâncias. A liberdade do folhetinista
é ilimitada, a carta longa: portanto escreva-lhe em cima o nosso título
– Ao correr da pena – arranja-se às mil maravilhas

Capítulo V

Rio, 15 de outubro

Encontram-se às vezes na história da humanidade certas coincidências
tão notáveis, que parecem revelar uma lei fatal e misteriosa,
um elo invisível que através dos anos e dos séculos prende
entre si os grandes acontecimentos.

O tempo, dizia Píndaro, é o oceano imenso sobre o qual navega
a humanidade. Quem sabe se, como o marinheiro lançado sobre a amplidão
dos mares, batido pelos ventos e pelas tempestades, o gênero humano
não percorre os caminhos já trilhados, e não atravessa
as idades revendo na sua torna-viagem as mesmas plagas, os mesmos climas?

O espírito se confunde desde que intenta perscrutar tão altos
arcanos, e se perde numa série de pensamentos elevados, como os que
me assaltaram quando me pus a refletir sobre os destinos do dia 12 de outubro,
que marca época nos anais do mundo, da América e do Brasil.

Quando se desdobra esta página do calendário, e se volve os
olhos para o passado, vê-se surgir entre as sombras das gerações
que morreram dois grandes vultos de heróis, que separados por mais
de três séculos, parecem estender-se a mão por sobre o
espaço, como para consolidar a sua obra.

No mesmo dia um descobriu um novo mundo, o outro fundou um grande império.
Um chamava-se Colombo, o outro era Pedro I. Dois nomes que por si só
valem uma história.

Entretanto a América e o Brasil deixaram-nos escritos apenas nos livros,
como uma simples recordação; e, tomando um nome de empréstimo,
nem ao menos copiaram no mármore ou no bronze aquela página
de tantas glórias.

O viajante do velho mundo, que contemplou as pirâmides do Egito, as
ruínas do Partenon, as abóbadas do Coliseu, os obeliscos e os
arcos de triunfo, monumentos de um século, de um povo, ou de um rei
somente, não encontra nas plagas americanas nem sequer o nome desse
semideus que criou um mundo!

Apenas a espaços, uma palavra perdida, uma exprobração
amarga, e mesmo alguns esforços infrutíferos para levar a efeito
a idéia de um monumento a Colombo e de uma estátua a D. Pedro.

Tudo isto, porém, passa no turbilhão das idéias que
servem de pasto a uma agitação momentânea, e nada resiste
a esse esquecimento fatal e prematuro. Dir-se-ia que o presente, temendo ser
ofuscado por tão grandes feitos do passado, como que receia transmiti-los
às gerações futuras.

Mas o eco das idades, esse brilho que ilumina os séculos, e a que
o mundo chama a glória, não há forças que o abafem.
Através do tempo ouve-se ainda e sempre esse sublime diálogo
que formam, como diz L’Hermenier, as relações do gênio
com a humanidade.

Assim, aqueles dois grandes vultos, que parecem perdidos nas sombras do passado,
se refletirão com todo o seu brilho na posteridade, principalmente
quando o primeiro tem para desenha-lo a pena de um homem como Lamartine, e
o outro a história de uma nação como o Brasil.

Talvez que então, quando a marcha dos tempos tiver desvendado altos
mistérios do destino, a humanidade possa compreender esse elo invisível
que prende dois acontecimentos tão remotos, essa relação
inexplicável entre dois homens, essa coincidência providencial
de duas revoluções que em épocas diferentes se realizaram
no mesmo dia.

Quem sabe se o fato que veio depois de três séculos não
era o complemento e o remate do primeiro? Quem sabe se D. Pedro I não
foi o continuador de Colombo? Quem sabe se a fundação do Império
do Brasil não devia ser uma condição essencial nos futuros
destinos da América?

Estes pensamentos nos levariam muito longe, muito além do presente,
e nos fariam esquecer que nestas páginas somos o homem do passado,
o simples cronista dos acontecimentos de uma semana. Deixemos, portanto, as
altas elocubrações, e voltemos aos fatos da atualidade.

Falávamos de gênio, de talento, de glórias passadas e
destinos futuros. O presente não é menos fértil em qualquer
destas coisas, sobretudo em talento.

O talento! Divinae particulam aurae! Não há nada como o talento.
Riquezas, honras, nascimento, nobreza, nada disso vale uma pequena dose daquela
inspiração divina. Só ela tem o privilégio da
divindade, o dom de criar e inventar.

Se duvidam do que estou dizendo, tomem qualquer jornal da semana, e corram-lhe
os olhos, que terão a prova desta minha asserção.

O cólera-morbo andava muito sossegado lá pela Europa e nem
sequer ainda se tinha lembrado de escrever o Brasil no seu itinerário
ou jornal de viagem, quando um homem de talento necessariamente, teve a feliz
idéia de afirmar que a moléstia já estava em caminho
e não tardaria a chegar.

Imediatamente fez-se uma revolução, e tivemos uma verdadeira
epidemia de cólera-morbo in nomine. Não se falava em outra coisa;
não se escrevia sobre outro assunto. Os médicos dissertavam
largamente, os profanos gracejavam ou discutiam, a Câmara Municipal
trabalhava, e a Academia de Medicina fazia sessões públicas.

Ouvi queixar-se muita gente que de todas essas luminosas discussões
nada se concluía; creio porém, que estão mal informados.
Se fossem ao escritório de qualquer das folhas diárias desta
corte, haviam de ver entrar para a caixa a conseqüência lógica
e verdadeira de toda esta argumentação – a paga das correspondências
e publicações a pedido.

A epidemia foi tal, que até foram bulir com a pobre gramática,
que estava bem sossegada, e chamaram-na a campo para decidir se o cólera-morbo
era masculino ou feminino.

Não me devo meter em semelhante questão; mas, a falar a verdade,
prescindindo da gramática, creio que aqueles que dão ao cólera
o gênero feminino têm alguma razão, por isso que os maiores
flagelos deste mundo, a guerra, a morte, a fome, a peste, a miséria,
a doença, etc., são representadas por mulheres.

E o que torna-se mais notável ainda é que os gregos, gente
sempre tida em conta de sábia, quando inventaram os seus deuses, fizeram
homens Apolo e Cupido, e para mulheres escolheram as Parcas, as Fúrias
e as Harpias.

Se as minhas amáveis leitoras não gostaram desta razão,
que acho muito natural, chamem a contas os pintores e os poetas, que são
os autores de tudo isto. Quanto a mim, não tenho culpa nenhuma das
extravagâncias dos outros, e até estou pronto a admitir a opinião
do meu colega A. Karr, que explica aquele fato pela razão de que as
senhoras são extremos em tudo, tanto que as mais belas coisas deste
mundo são também significadas por mulheres, assim como a beleza,
a glória, a justiça, a caridade, a virtude e muitas outras que,
como estas, não se encontram comumente pelo mundo, mas que existem
no dicionário.

Ora, à vista da razão que apresentei, parecia que não
devia haver mais dúvida sobre o gênero do cólera; porém
o argumento do -h-, que ainda não tinha lembrado aos gramáticos
antigos e modernos, veio mudar a face da questão. Homem, que é
o símbolo do gênero masculino, começa por -h-; logo, desde
que o cólera for escrito com -h- é masculino. A isto não
há que responder; e por conseguinte, à vista de um tal argumento,
persisto na minha antiga opinião.

Apesar de todas estas discussões interessantes com que se procura
entreter o ânimo público, à noite os dilettanti não
deixam de se encaminhar para o Teatro Lírico, embora tenham muitas
vezes o desgosto de esbarrarem com o nariz na porta fechada, como sucedeu
segunda-feira.

Disseram que a Charton estava um pouco incomodada, o que bem traduzindo quer
dizer que não tinha nada absolutamente.

Ora, admitindo mesmo o caso do incômodo, desejava sinceramente que
os espíritos dados às altas e importantes questões de
utilidade pública, como sejam as do gênero do cólera,
do contágio da moléstia, da sua antiguidade, etc., me elucidassem,
por meio de uma discussão esclarecida, um ponto muito duvidoso para
mim: e é se as primas-donas têm o direito de adoecerem em dia
de representação, e deixarem-nos desapontados sem sabermos o
que fazer da noite.

Na minha opinião entendo que uma prima-dona, quando muito, tem unicamente
o direito de adoecer na véspera, a tempo de se publicar o anúncio
da transferência do espetáculo; e, quando quiser adoecer no mesmo
dia, então deve adivinhar de véspera que na noite seguinte estará
incomodada, a fim de se prevenir o público, e evitar-lhe uma desagradável
surpresa.

Felizmente o incômodo da Charton foi passageiro, e as soirées
Líricas continuaram sem mais transferências até sexta-feira,
em que nos deram a Semiramide, em benefício da Casaloni. A noite foi
ruidosa: aplausos, rumor, flores, versos, brilhantes, houve de tudo, até
mesmo uma pateada solene. Foi por conseguinte uma festa completa.

Para fazer diversão à música italiana, ofereceram-nos,
sábado da semana passada, no Teatro de São Pedro, um outro benefício
de música alemã clássica, no qual os entendedores tiveram
ocasião de apreciar coros magníficos a três e quatro vozes,
e de gozar belas recordações dos antigos maestros, hoje tão
esquecidos por causa das melodias de Rossini e Donizetti e das sublimes e
originais inspirações de Verdi e Meyerbeer.

Capítulo VI

Rio, 22 de outubro

O tempo serenou; as nuvens abriram-se, e deixam ver a espaços uma
pequena nesga de céu azul, por onde passa algum raio de sol desmaiado,
que, ainda como que entorpecido com o frio e com a umidade da chuva, vem espreguiçar-se
indolentemente sobre as alvas pedras das calçadas.

Aproveitemos a estiada da manhã, e vamos, como os outros, acompanhando
a devota romaria, assistir à festividade de São Pedro de Alcântara,
que se celebra na Capela Imperial!

A igreja ressumbra a severa e impotente majestade dos templos católicos.
Em face dessas grandes sombras que se projetam pelas naves, da luz fraca e
vacilante dos círios lutando com a claridade do sai que penetra pelas
altas abóbadas, do silêncio e das pompas solenes de uma religião
verdadeira, sente-se o espírito tomado de um grave recolhimento.

Perdido no esvão de uma nave escura, ignorado de todos e dos meus
próprios amigos, que talvez condenavam sem remissão um indiferentismo
imperdoável, assisti com o espírito do verdadeiro cristão
a esta festa religiosa, que apresentava o que quer seja fora do comum.

Sob o aspecto contido e reservado daquele numeroso concurso, elevando-se
gradualmente do mais humilde crente até às últimas sumidades
da hierarquia social, transpareciam os assomos de uma curiosidade sôfrega
e de uma ansiedade mal reprimida. Qual seria a causa poderosa que perturbava
assim a gravidade da oração? Que pensamento podia assim distrair
o espírito dos cismas e dos enlevos da religião?

Não era de certo um pensamento profano, nem uma causa estranha que
animava aquele sentimento. Ao contrário: neste templo que a religião
enchia com todo o vigor de suas imagens e toda a poesia de seus mitos, neste
recinto em que as luzes, o silêncio e as sombras, as galas e a música
representavam todas as expressões do sentimento, só faltava
a palavra, mas a palavra do Evangelho, a palavra de uma inspiração
sublime e divina, a palavra que cai do céu sobre o coração
como um eco da voz de Deus, e que refrange aos lábios para poder ser
compreendida pela linguagem dos homens.

Era isto o que todos esperavam. Os olhos se voltavam para o púlpito
onde havia pregado Sampaio, S. Carlos e Januário; e pareciam evocar
dos seus túmulos aquelas sombras ilustres para virem contemplar um
dia de sua vida, uma reminiscência de suas passadas glórias.

Deixai que emudeçam as orações, que se calem os sons
da música religiosa, e que os últimos ecos dos cânticos
sagrados se vão perder pelo fundo dos erguidos corredores ou pelas
frestas arrendadas das tribunas.

Cessaram de todo as orações. Recresce a expectação
e a ansiedade; mas cada um se retrai na mudez da concentração.
Os gestos se reprimem, contêm-se as respirações anelantes.
O silêncio vai descendo frouxa e lentamente do alto das abóbadas
ao longo das paredes, e sepulta de repente o vasto âmbito do templo.

Chegou o momento. Todos os olhos estão fixos, todos os espíritos
atentos.

No vão escuro da estreita arcada do púlpito assomou um vulto.
É um velho cego, quebrado pelos anos, vergado pela idade. Nessa bela
cabeça quase calva e encanecida pousa-lhe o espírito da religião
sob a tríplice auréola da inteligência, da velhice e da
desgraça.

O rosto pálido e emagrecido cobre-se desse vago, dessa oscilação
do homem que caminha nas trevas. Entre as mangas do burel de seu hábito
de franciscano cruzam-se os braços nus e descarnados.

Ajoelhou. Curvou a cabeça sobre a borda do púlpito, e, revolvendo
as cinzas de um longo passado, murmurou uma oração, um mistério
entre ele e Deus.

Que há em tudo isto que desse causa à tamanha expectação?
Não se encontra a cada momento um velho, a quem o claustro seqüestrou
do mundo, a quem a cegueira privou da luz dos olhos? Não há
aí tanta inteligência que um voto encerra numa célula,
e que a desgraça sepulta nas trevas?

É verdade. Mas deixai que termine aquela rápida oração;
esperai um momento… um segundo… ei-lo!

O velho ergueu a cabeça; alçou o porte; a sua fisionomia animou-se.
O braço descarnado abriu um gesto incisivo; os lábios, quebrantando
o silêncio de vinte anos, lançaram aquela palavra sonora, que
encheu o recinto, e que foi acordar os ecos adormecidos de outros tempos.

Fr. Francisco de Monte Alverne pregava! Já não era um velho
cego, que a desgraça e a religião mandava respeitar. Era o orador
brilhante, o pregador sagrado, que impunha a admiração com a
sua eloqüência viva e animada, cheia de grandes pensamentos e de
imagens soberbas.

Desde este momento o que foi aquele rasgo de eloqüência, não
é possível exprimi-lo, nem sei dize-lo. A entonação
grave de sua voz, a expressão nobre do gesto enérgico a copiar
a sua frase eloqüente, arrebatava; e levado pela força e veemência
daquela palavra vigorosa, o espírito, transpondo a distância
e o tempo, julgava-se nos desertos de Said e da Tebaida, entre os rochedos
alcantilados e as vastas sáfaras de areia, presenciando todas as austeridades
da solidão.

De repente, em dois terços, com uma palavra, com um gesto, muda-se
o quadro; e como que a alma se perde naquelas vastas e sombrias abóbadas
do Mosteiro de São Justo, para ver com assombro Pedro de Alcântara
em face de Carlos V, o santo em face da grandeza decaída.

Aqueles que em outros tempos ouviram Monte Alverne, e que podem comprar as
duas épocas de sua vida cortada por uma longa reclusão, confessam
que todas as suas reminiscências dos tempos passados, apesar do prestígio
da memória, cederam a esse triunfo da eloqüência.

Entre as quatro paredes de uma célula estreita, privado da luz, é
natural que o pensamento se tenha acrisolado; e que a inteligência,
cedendo por muito tempo a uma força poderosa de concentração,
se preparasse para essas expansões brilhantes.

O digno professor de eloqüência do Colégio de Pedro II;
desejando dar aos seus discípulos uma lição de prática
de oratória, assistiu com eles, e acompanhado do respeitável
diretor daquele estabelecimento, ao belo discurso de Monte Alverne.

Não me animo a dizer mais sobre um assunto magnífico, porém
esgotado por uma dessas penas que com dois traços esboçam um
quadro, como a palavra de Monte Alverne com um gesto e uma frase.

Contudo, se este descuido de escritor carece de desculpas, parece-me que
tenho uma muito valiosa na importância do fato que preocupou os espíritos
durante os últimos dias da semana, e deu tema a todas as conversações.

Parece, porém, que a chuva só quis dar tempo a que a cidade
do Rio de Janeiro pudesse ouvir o ilustre pregador, sem que o rumor das goteiras
perturbasse o silêncio da igreja.

À tarde o tempo anuviou-se, e a água caía a jorros.
Entretanto isto não impediu que a alta sociedade e todas as notabilidades
políticas e comerciais, em trajes funerários, concorressem ao
enterro de uma senhora virtuosa, estimada por quantos a tratavam, conhecida
pelos pobres e pelas casas pias.

A Sra. Baronesa do Rio Bonito contava muitas afeições, não
só pelas suas virtudes, como pela estimação geral de
que gozam seus filhos. O grande concurso de carros que acompanharam o seu
préstito fúnebre em uma tarde desabrida é o mais solene
testemunho desse fato.

Entre as pessoas que carregaram o seu caixão notaram-se o Sr. Presidente
do Conselho, o Sr. Ministro do Império e alguns Diretores do Banco
do Brasil. É o apanágio da virtude, e o único consolo
da morte. Ante os despojos exânimes de uma alma bem formada se inclinam
sem humilhar-se todas as grandezas da terra.

Esses dois fatos, causa de sentimentos opostos, enchem quase toda a semana.
Desde pela manhã até a noite a chuva caía com poucas
intermitências, e parecia ter destinado aqueles dias para as solenidades
e os pensamentos religiosos.

Apesar da esterilidade e sensaboria que produz sempre esse tempo numa cidade
de costumes como os nossos, apesar dos dissabores dos namorados privados dos
devaneios da tarde, e dos ataques de nervos das moças delicadas, os
homens previdentes não deixavam de estimar essas descargas de eletricidade,
e essas pancadas d’água, que depuram e refrescam a atmosfera.

Na opinião (quanto a mim estou em dúvida), essas caretas que
o tempo fazia aos prognosticadores de moléstias imaginárias,
valiam mil vezes mais do que todas as discussões de todas as academias
médicas do mundo.

Quanto mais, se soubessem que o Sr. Ministro do Império durante esses
dias se preocupava seriamente das medidas necessárias ao asseio da
cidade, mostrando assim todo zelo em proteger esta bela capital dos ataques
do diabo azul. Sirvo-me deste nome, porque estou decidido a não falar
mais em cólera, enquanto não resolverem definitivamente se é
homem, se é mulher ou hermafrodita.

Para este fim o Sr. Pedreira consultou o presidente da câmara municipal,
e incumbiu ao Sr. Desembargador chefe de polícia a inspeção
do serviço, cujo regulamento será publicado oportunamente.

Com as providências que se tomaram, e especialmente com a medida da
divisão dos distritos e da combinação da ação
policial com o elemento municipal, a fim de remover quaisquer obstáculos,
creio que podemos esperar resultados úteis e eficazes.

Capítulo VII

Rio, 29 de outubro

Quando estiverdes de bom humor e numa excelente disposição
de espírito, aproveitai uma dessas belas tardes de verão como
tem feito nos últimos dias, e ide passar algumas horas no Passeio Público,
onde ao menos gozareis a sombra das árvores e um ar puro e fresco,
e estareis livres da poeira e do incômodo rodar dos ônibus e das
carroças.

Talvez que, contemplando aquelas velhas e toscas alamedas com suas grades
quebradas e suas árvores mirradas e carcomidas, e vendo o descuido
e a negligência que reina em tudo isto, vos acudam ao espírito
as mesmas reflexões que me assaltaram a mim e a um amigo meu, que há
cerca de um ano teve a habilidade de transformar em uma semana uma tarde no
Passeio público.

Talvez pensareis como nós que o estrangeiro que procurar nestes lugares,
banhados pela viração da tarde, um refrigério à
calma abrasadora do clima deve ficar fazendo bem alta idéia, não
só do passeio como do público desta corte.

A nossa sociedade é ali dignamente representada por dois tipos curiosos
e dignos de uma fisiologia no gênero de Balzac. O primeiro é
o estudante de latim, que, ao sair da escola, ainda com os Comentários
debaixo do braço e o caderno de significados no bolso, atira-se intrepidamente
qual novo César à conquista do ninho dos pobres passarinhos.
O segundo é o velho do século passado que, em companhia do indefectível
compadre, recorda as tradições dos tempos coloniais, e conta
anedotas sobre a Rua das Belas Noites e sobre o excelente governo do sr. Vice-Rei
D. Luís de Vasconcelos.

Assim, pois, não há razão de queixa. O passado e o futuro,
a geração que finda e a mocidade esperançosa que desaponta,
fazem honra ao nosso Passeio, o qual fecha-se às oito horas muito razoavelmente,
para dar tempo ao passado de ir cear, e ao futuro de ir cuidar nos seus significados.

Quanto ao presente, não passeia, é verdade; porém, em
compensação, vai ao Cassino, ao Teatro Lírico, toma sorvetes,
e tem mil outros divertimentos agradáveis, como o de encher os olhos
de poeira, fazer um exercício higiênico de costelas dentro de
um carro nas ruas do Catete, e sobretudo o prazer incomparável de dançar,
isto é, de andar no meio da sala, como um lápis vestido de casaca,
a fazer oito nas contradanças, e a girar na valsa como um pião,
ou como um corrupio.

Com tão belos passatempos, que se importa o presente com esse desleixo
imperdoável e esse completo abandono de um bem nacional, que sobrecarrega
de despesas os cofres do Estado, sem prestar nenhuma das grandes vantagens
de que poderiam gozar os habitantes desta corte?

Quando por acaso se lembra de semelhante coisa, é unicamente para
servir-lhe de pretexto a um estribilho de todos os tempos e de todos os países,
para queixar-se da administração e lançar sobre ela toda
a culpa. Ora, eu não pretendo defender o governo, não só
porque, tendo tanta coisa a fazer, há de por força achar-se
sempre em falta, como porque ele está para a opinião pública
na mesma posição que o menino de escola para o mestre, e que
o soldado para o sargento, isto é, tendo a presunção
legal contra si.

Contudo parece-me que o estado vergonhoso do nosso Passeio Público
não é unicamente devido à falta de zelo da parte do governo,
mas também aos nossos usos e costumes, e especialmente a uns certos
hábitos caseiros e preguiçosos, que têm a força
de fechar-nos em casa dia e noite.

Nós que macaqueamos dos franceses tudo quanto eles t~em de mau, de
ridículo e de grotesco, nós que gastamos todo o nosso dinheiro
brasileiro para transformar-nos em bonecos e bonecas parisienses, ainda não
nos lembramos de imitar uma das melhores coisas que eles têm, uma coisa
que eles inventaram, que lhes é peculiar e que não existe em
nenhum outro país a menos que não seja uma pálida imitação:
a flânerie.

Sabeis o que é a flânerie? É o passeio ao ar livre, feito
lenta e vagarosamente, conversando ou cismando, contemplando a beleza natural
ou a beleza da arte; variando a cada momento de aspectos e de impressões.
O companheiro inseparável do homem quando flana é o charuto;
o da senhora é o seu buquê de flores.

O que há de mais encantador e de mais apreciável na flânerie
é que ela não produz unicamente o movimento material, mas também
o exercício moral. Tudo no homem passeia: o corpo e a alma, os olhos
e a imaginação. Tudo se agita; porém é uma agitação
doce e calma, que excita o espírito e a fantasia, e provoca deliciosas
emoções.

A cidade do Rio de Janeiro, com seu belo céu de azul e sua natureza
tão rica, com a beleza de seus panoramas e de seus graciosos arrabaldes,
oferece muitos desses pontos de reunião, onde todas as tardes, quando
quebrasse a força do sol, a boa sociedade poderia ir passar alguns
instantes numa reunião agradável, num círculo de amigos
e conhecidos, sem etiquetas e cerimônias, com toda a liberdade do passeio,
e ao mesmo tempo com todo o encanto de uma grande reunião.

Não falando já do Passeio Público, que me parece injustamente
votado ao abandono, temos na Praia de Botafogo um magnífico boulevard
como talvez não haja um em Paris, pelo que toca à natureza.
Quanto à beleza da perspectiva, o adro da pequena igrejinha da Glória
é para mim um dos mais lindos passeios do Rio de Janeiro. O lanço
d’olhos é soberbo: vê-se toda a cidade à vol d’oiseau,
embora não tenha asas para voar a algum cantinho onde nos leva sem
querer o pensamento.

Mas entre nós ninguém dá apreço a isto. Contanto
que se vá ao baile do tom, à ópera nova, que se pilhem
duas ou três constipações por mês e uma tísica
por ano, a boa sociedade se diverte; e do alto de seu cupê aristocrático
lança um olhar de soberano desprezo para esses passeios pedestres,
que os charlatães dizem ser uma condição da vida e de
bem-estar, mas que enfim não têm a agradável emoção
dos trancos, e não dão a um homem a figura de um boneco de engonço
a fazer caretas e a deslocar os ombros entre as almofadas de uma carruagem.

A boa sociedade não precisa passear; tem à sua disposição
muitos divertimentos, e não deve por conseguinte invejar esse mesquinho
passatempo do caixeiro e do estudante. O passeio é a distração
do pobre, que não tem saraus e reuniões.

Entretanto, se por acaso encontrardes o diabo Coxo de Lesage, pedi-lhe que
vos acompanhe em alguma nova excursão aérea, e que vos destampe
os telhados das casas da cidade; e, se for noite em que a Charton esteja doente
e o Cassino fechado, vereis que a atmosfera de tédio e monotonia encontrareis
nessas habitações, cujos moradores não passeiam nunca,
porque se divertem de uma maneira extraordinária.

Felizmente creio que vamos ter breve uma salutar modificação
nesta maneira de pensar. As obras para a iluminação a gás
do Passeio Público e alguns outros reparos e melhoramentos necessários
já começaram e brevemente estarão concluídos.

Autorizando-se então o administrador a admitir o exercício
de todas essas pequenas indústrias que se encontram nos passeios de
Paris para comodidade dos freqüentadores, e havendo uma banda de música
que toque a intervalos, talvez apareça a uma banda de música
que toque a intervalos, talvez apareça a concorrência, e o Passeio
comece a ser um passatempo agradável.

Já houve a idéia de entregar-se a administração
a uma companhia, que, sem nenhuma subvenção do governo, se obrigaria
a estabelecer os aformoseamentos necessários, obtendo como indenização
um direito muito módico sobre a entrada, e a autorização
de dar dois ou três bailes populares durante o ano.

Não achamos inexeqüível semelhante idéia; e, se
não há nela algum inconveniente que ignoramos, é natural
que o Sr. Ministro do Império já refletido nos meios de leva-la
a efeito.

Entretanto o Sr. Ministro que se acautele, e pense maduramente nesses melhoramentos
que está promovendo. São úteis, são vantajosos;
nós sofremos com a sua falta, e esperamos ansiosamente a sua realização.
Mas, se há nisto uma incompetência de jurisdição,
nessa caso, perca-se tudo, contanto que salve-se o princípio: Quod
Dei Deo, quod Cesaris Cesare..

A semana passada já o Sr. Pedreira deu motivo a graves censuras com
o seu regulamento do asseio público. E eu que caí em dizer algumas
palavras a favor! Não tinha ainda estudado a questão, e por
isso julgava que, não dispondo a Câmara Municipal dos recursos
necessários para tratar do asseio da cidade, o Sr. Ministro do Império
fizera-lhe um favor isentando-a desta obrigação onerosa e impossível,
e a nós um benefício, substituindo a realidade do fato à
letra morta das posturas.

Engano completo! Segundo novos princípios modernamente descobertos
em um jornal velho, a Câmara Municipal não tem obrigação
de zelar a limpeza da cidade, tem sim um direito; e por conseguinte dispensa-la
de cumprir aquela obrigação é esbulha-la desse seu direito.
Embora tenhamos as ruas cheias de lama e as praias imundas, embora a cidade
às dez horas ou meia-noite esteja envolta numa atmosfera de miasmas
pútridos, embora vejamos nossos irmãos, nossas famílias
e nós mesmos vítimas de moléstias provenientes destes
focos de infecção! Que importa! La garde meurt, mais ne se rend
pas. Morramos, mas respeite-se o elemento municipal; salve-se a sagrada inviolabilidade
das posturas!

Filipe III foi legalmente assassinado, em virtude do rigor das etiquetas
da corte espanhola. Não é muito, pois, que nós, os habitantes
desta cidade, sejamos legalmente pesteados, em virtude das prerrogativas de
um novo regime municipal.

A pouco tempo eu diria que isto era mais do que um contra-senso, porém
hoje, não; reconheço que o Ministro do Império não
deve tocar no elemento municipal, embora o elemento municipal esteja na pasta
do Ministro do Império, que aprova as posturas e conhece dos recursos
de suas decisões.

Respeite-se, portanto, a independência da edilidade, e continuemos
a admirar os belos frutos de tão importante instituição,
como sejam a reedificação das casas térreas da Rua do
Ouvidor, a conservação das biqueiras, o melhoramento das calçadas
das Ruas da Ajuda e da Lapa, e a irregularidade da construção
das casas, que se regula pela vontade do proprietário e pelo preceito
poético de Horácio – Omnis variatio delectat.

Ora, na verdade um elemento municipal, que tem feito tantos serviços,
que além de tudo tem poetizado esta bela corte com a aplicação
dos preceitos de Horácio, não pode de maneira alguma ser privado
do legítimo direito que lhe deu a lei de servir de valet de chambre
da cidade.

Pelo mesmo princípio, sendo o pai obrigado a alimentar o filho, sendo
cada um obrigado a alimentar-se a si mesmo, qualquer esmola feita pela caridade,
qualquer instituição humanitária, como recolhimento de
órfãos e de expostos, não pode ser admitido, porque constitui
uma ofensa ao direito do terceiro.

E agora que temos chegado às últimas e absurdas conseqüências
de um princípio arbitrário, desculpem-nos aqueles a quem contestamos
o tom a que trouxemos discussão. Neste mundo, onde não faltam
motivos de tristeza, é preciso rir ainda à custa das coisas
as mais sérias.

A não ser isto, provaríamos que o Sr. Ministro do Império,
tomando as medidas extraordinárias que reclama a situação,
respeitou e considerou o elemento municipal, e deixou-lhe plena liberdade
de obrar dentro dos limites de sua competência. Se me contestarem semelhante
fato, então não terei remédio senão vestir o folhetim
de casaca preta e gravata branca, e voltar à discussão com a
lei numa mão e a lógica na outra.

Aposto, porém, que a esta hora já o meu respeitável
leitor está torcendo a cabeça em forma de ponto de interrogação,
para perguntar-me se pretendo escrever uma revista hebdomadária sem
dar-lhe nem ao menos uma ou duas notícias curiosas.

Que quer que lhe faça? O paquete de Liverpool chegou domingo, mas
a única notícia que nos trouxe foi a do desembarque na Criméia.
Ora, parece-me que não é preciso ter o dom profético
para adivinhar os lances de semelhante expedição, que deve ser
o segundo tomo da tomada de Bommarsund, já tão bem descrita,
todos sabem por quem.

Há três ou quatro vapores soubemos que se preparava a expedição
da Criméia; depois disto, as notícias vieram, e continuaram
a vir pouco mais ou menos desta maneira. – As forças aliadas embarcaram.
– estão em caminho. Devem chegar em tal tempo. – Chegaram. – Desembarcaram.
– Reuniu-se o conselho general para resolver o ataque. – O ataque foi definitivamente
decidido. – Começou o assalto. – Interrompeu-se o combate para que
os pintores ingleses tirem a vista da cidade no meio do assalto. – Continuou
o combate. – Fez-se uma brecha. – Nova interrupção para tirar-se
a vista da brecha.

Isto, a dois paquetes por mês, dá-nos uma provisão de
notícias que pode chegar até para meados do ano que vem. Provavelmente
durante este tempo mudar-se-ão os generais, e os pintores da Europa
terão objeto para uma nova galeria de retratos, os escritores tema
para novas brochuras, e os jornalistas matéria vasta para publicações
e artigos de fundo. E todo este movimento literário e artístico
promovido por um bárbaro russo, o qual com a ponta do dedo abalou a
Europa e tem todo o mundo suspenso!

É um fenômeno este tão admirável como o que se
nota no Teatro Lírico nas noites em que canta a Casaloni. A sua voz
extensa e volumosa, e os enormes ramos de flores enchem o salão de
tal maneira, que não cabe senão um pequeno número de
espectadores; o resto, não achando espaço e não podendo
resistir à força de tal voz, é obrigado a retirar-se.
Entretanto os desafetos da cantora dizem que ela não tem entusiastas
e adoradores! Tudo porque ainda não compreenderam aquele fenômeno
artístico e musical!

Capítulo VIII

Rio, 3 de novembro

MÁQUINAS DE COSER

Meu caro colega. – Acho-me seriamente embaraçado da maneira por que
descreverei a visita que fiz ontem à fábrica de coser de M.
me Besse, sobre a qual já os nossos leitores tiveram uma ligeira notícia
neste mesmo jornal.

O que sobretudo me incomoda é o título que leva o meu artigo.
Os literatos, apenas ao lerem, entenderão que o negócio respeita
aos alfaiates e modistas. Os poetas acharão o assunto prosaico, e talvez
indigno de preocupar os vôos do pensamento. Os comerciantes, como não
se trata de uma sociedade em comandita, é de crer bem pouca atenção
dêem a esse melhoramento da indústria.

Por outro lado, tenho contra mim o belo sexo, que não pode deixar
de declarar-se contra esse maldito invento, que priva os seus dedinhos mimosos
de uma prenda tão linda, e acaba para sempre com todas as graciosas
tradições da galanteria antiga.

Aqueles lencinhos embainhados, penhor de um amante fiel, e aquelas camisinhas
de cambraia destinadas a um primeiro filho, primores de arte e de paciência,
primeiras delícias da maternidade, tudo isto vai desaparecer.

As mãozinhas delicadas da amante, ou da mãe extremosa, trêmulas
de felicidade e emoção, não se ocuparão mais com
aquele doce trabalho, fruto de longas vigílias, povoadas de sonhos
e de imagens risonhas. Que coração sensível pode suportar
friamente semelhante profanação do sentimento?…

Declarando-se as senhoras contra nós, quase que podemos contar com
uma conspiração geral, porque é coisa sabida que desde
o princípio do mundo os homens gastam a metade de seu tempo a dizer
mal das mulheres, e a outra metade a imitar o mal que elas fazem.

Por conseguinte, refletindo bem, só nos restam para leitores alguns
homens graves e sisudos, e que não se deixam dominar pela influência
dos belos olhos e dos sorrisos provocadores. Mas como é possível
distrair estes espíritos preocupados com altas questões do Estado
de faze-los descer das sumidades da ciência e da política a uma
simples questão de costura?

Parece-lhe isto talvez uma coisa muito difícil; entretanto tenho para
mim que não há nada mais natural. A história, essa grande
mestra de verdades, nos apresenta inúmeros exemplos do grande apreço
que sempre mereceu dos povos da antiguidade, não só a arte de
coser, como as outras que lhe são acessórias.

Eu podia comemorar o fato de Hércules fiando aos pés de Onfale,
e mostrar o importante papel que representou na antiguidade, a teia de Penépole,
que mereceu ser cantada por Homero. Quanto à agulha de Cleópatra,
esse lindo obelisco de mármore, é a prova mais formal de que
os Egípcios votavam tanta admiração à arte da
costura, que elevaram aquele monumento à sua rainha, naturalmente porque
ela excedeu-se nos trabalhos desse gênero.

As tradições de todos os povos conservam ainda hoje o nome
dos inventores da arte de vestir os homens. Entre os gregos foi Minerva, entre
os lídios Aracne, no Egito Isis, e no Peru Manacela, mulher de Manco
Capa.

Os chineses atribuem essa invenção ao Imperador Ias; e na Alemanha,
conta a legenda que a fada Ave, tendo um amante muito friorento, compadeceu-se
dele, e inventou o tecido para muito friorento, compadeceu-se dele, e inventou
o tecido para vesti-lo. Naquele tempo feliz ainda eram as amantes que pagavam
os gastos da moda; hoje, porém, este artigo tem sofrido uma modificação
bem sensível. As fadas desapareceram, e por isso os homens vão
cuidando em multiplicar as máquinas.

Só estes fatos bastariam para mostrar que importância tiveram
em todos os tempos e entre todos os povos as artes que servem para preparar
o traje do homem. Além disto, porém a tradição
religiosa conta que já no Paraíso, Eva criara, com as folhas
da figueira, diversas modas, que infelizmente caíram em desuso.

Já não falo de muitas rainhas, como Berta, que foram mestras
e professoras na arte de coser e fiar; e nem das sábias pragmáticas
dos Reis de Portugal a respeito do vestuário, as quais mostram o cuidado
que sempre mereceu daqueles monarcas, e especialmente do grande Ministro Marquês
de Pombal, a importante questão dos trajes.

Hoje mesmo, apesar do rifão antigo, todo o mundo entende que o hábito
faz o monge ; e se não vista alguém uma calça velha e
uma casaca de cotovelos roídos, embora seja o homem mais relacionado
do Rio de Janeiro, passará por toda a cidade incógnito e invisível,
como se tivesse no dedo o anel de Giges.

Assim, pois, é justamente para os espíritos graves, dados aos
estudos profundos e às questões de interesse público,
que resolvi descrever a visita à fábrica de coser de M. me Besse,
certo de que não perderei o meu tempo, e concorrerei quanto em mim
estiver para que se favoreça este melhoramento da indústria,
que pode prestar grandes benefícios, fornecendo não só
à população desta côrte, mas também a alguns
estabelecimentos nacionais.

A fábrica está situada à Rua do Rosário, n.º
74. Não é uma posição tão aristocrática
como a das modistas da Rua do Ouvidor; porém tem a vantagem de ser
no centro da cidade; e, portanto, as senhoras do tom podem facilmente e sem
derrogar aos estilos da alta fashion fazer a sua visita a M. me Besse, que
as receberá com graça e a amabilidade que a distingue.

Era na ocasião de uma dessas visitas que eu desejaria achar-me lá
para observar o desapontamento das minhas amáveis leitoras (se é
que as tenho, visto que estou escrevendo para os homens pensadores). Dizem
que o espírito da indústria tem despoetizado todas as artes,
e que as máquinas vão reduzindo o mais belo trabalho a um movimento
monótono e regular, que destrói todas as emoções,
e transforma o homem num autômato escravo de outro autômato.

Podem dizer o que quiserem; eu também pensava o mesmo antes de ver
aquelas lindas maquinazinhas que trabalham com tanta rapidez, e até
com tanta graça. Figurai-vos umas banquinhas de costura fingindo charão,
ligeiras e cômodas, podendo colocar-se na posição que
mais agradar, e sobre esta mesa uma pequena armação de aço,
e podeis fazer uma idéia aproximada da vista da máquina. Um
pezinho o mais mimoso do mundo, um pezinho de Cendrillon, como conheço
alguns, basta para fazer mover sem esforço todo este delicado maquinismo.

E digam-me ainda que as máquinas despoetizam a arte! Até agora,
se tínhamos a ventura de ser admitidos no santuário de algum
gabinete de moça, e de passarmos algumas horas e conversar e a vê-la
coser, só podíamos gozar dos graciosos movimentos das mãos;
porém não se nos concedia o supremo prazer de entrever sob a
orla do vestido um pezinho encantador, calçado por alguma botinazinha
azul; um pezinho de mulher bonita, que é tudo quanto há de mais
poético neste mundo.

Enquanto este pezinho travesso, que imaginareis, como eu, pertencer a quem
melhor vos aprouver, faz mover rapidamente a máquina, as duas mãozinhas,
não menos ligeiras, fazem passar pela agulha uma ourela de seda ou
de cambraia, ao longo da qual vai-se estendendo com incrível velocidade
uma linha de pontos que acaba necessariamente por um ponto de admiração
(!).

Está entendendo que o ponto de admiração é feito
pelos vossos olhos, e não pela máquina, que infelizmente não
entende nada de gramática, senão podia-nos bem servir para elucidar
as famosas questões do gênero do cólera e da ortografia
da palavra asseio . Questões estas muito importantes, como todos sabem,
porque, sem que elas se decidam, nem os médicos podem acertar no curativo
da moléstia, nem o Sr. Ministro do Império pode publicar o seu
regulamento da limpeza da cidade.

Voltando, porém, à nossa máquina, posso assegurar-lhes
que a rapidez é tal, que nem o mais cabula dos estudantes de São
Paulo ou de medicina, nem um poeta e romancista a fazer reticências,
são capazes de ganha-la a dar pontos. Se a deixarem ir à sua
vontade, faz uma ninharia de trezentos por minuto; mas, se a zangarem, vai
aos seiscentos; e então, ao contrário do que desejava um nosso
espirituoso folhetinista contemporâneo, o Sr. Zaluar, pode-se dizer
que quando começa a fazer ponto, nunca faz ponto.

Mau! Já me andam os calemburs às voltas! É preciso continuar;
mas, antes de passar adiante, sempre aconselharei a certos credores infatigáveis,
a certos escritores cuja verve é inesgotável, que vão
examinar aquelas máquinas a ver se aprendem delas a arte de fazer ponto.
É uma coisa muito conveniente ao nosso bem estar, e será mais
um melhoramento que deveremos a M. me Besse.

Aos Estados Unidos cabe a invenção das máquinas de coser,
que hoje se têm multiplicado naquele país de uma maneira prodigiosa,
principalmente depois dos últimos aperfeiçoamentos que se lhe
têm feito. M. me Besse possui atualmente na sua fábrica seis
destas máquinas, e tem ainda na alfândega doze, que pretende
despachar logo que o seu estabelecimento tomar o incremento que é de
esperar.

M. me Besse corta perfeitamente qualquer obra de homem ou de senhora; e,
logo que for honrada com a confiança das moças elegantes, é
de crer que se torne a modista do tom, embora não tenha para isto a
patente de francesa, e não more na Rua do Ouvidor.

Além disto, como ela possui máquinas de diversas qualidades,
umas que fazem a costura a mais fina, outras próprias para coser fazenda
grossa e ordinária, podem também muitos estabelecimentos desta
corte lucrar com a sua fábrica um trabalho, não só mais
rápido e mais bem acabado como mais módico no preço.

Presentemente a fábrica já tem muito que fazer; mas, quando
se possui seis máquinas, e por conseguinte se dá três
mil e seiscentos pontos por minuto, é preciso que se tenha muito pano
para mangas.

Sou, meu caro colega, etc.

Capítulo IX

Rio, 5 de novembro

Lacrimae rerum…

A religião, essa sublime epopéia do coração humano,
tem um símbolo para cada sentimento, uma imagem para todos os acidentes
da nossa existência.

É aos pés do altar que o homem vê abrir-se para ele a
fonte de todas as supremas venturas deste mundo – a família; e, quando
o sopro da desgraça vai desfolhando uma a uma as flores da vida, é
ainda aos pés do altar que achamos o consolo para as grandes dores,
a esperança nos maiores infortúnios.

É que nesta breve romaria que fazemos pelo mundo, a religião
nos acompanha como esses guias mudos do deserto, apontando-nos umas vezes
o nada de onde partimos, outras a eternidade para onde caminhamos, e mostrando-nos
a espaços com um aceno a linha negra que prognostica o simoun, ou os
rastos dos animais que anunciam o oásis no meio das vastas sáfaras
de areia.

Quantas vezes no seio das alegrias e dos prazeres, quando nossos olhos vêem
tudo cor-de-rosa, quando o ar que respiramos parece vir perfumado dos bafejos
da ventura, não sentimos de chofre o coração apertar-se
como tomado por um doloroso pressentimento, e a alma confranger-se numa angústia
pungente?

O deslumbramento passa rápido como o pensamento que o produziu. Mas
dir-se-ia que o coração, comprimindo-se, como que vertera na
taça do prazer uma gota de fel, e que entre o rumor da festa e os sons
alegres da música, viera ferir-nos os ouvidos um eco surdo das lamentações
de Jô: Memento quia pulvis est!…

Também às vezes a fortuna nos embala docemente, e a ambição
nos empresta suas asas de ouro, ao passo que a glória envolve-nos com
a sua auréola brilhante. Então o homem caminha com os olhos
fitos na sua estrela, e com a cabeça alta passa sem perceber as misérias
do mundo. Sublimi feriam sidera vértice.

Mas lá vem um dia, uma hora, um instante em que o corpo verga com
o peso de tanta grandeza, e a cabeça acurva-se para a terra. Os olhos
que mediam o espaço vacilam; a vista que se dilatava pelos horizontes
e ousava sondar os arcanos do futuro quebra-se de encontro a uma lousa, a
um fosso, onde a pá do coveiro traçou num estreito quadrado
e com um pouco de terra revolvida o emblema daquela sentença do Eclesiástico:
Vanitas vanitatum et omnia vanitas!

Se, porém a religião é severa nos seus conselhos, se
durante os dias de paz e de ventura fortifica o homem por meio da tristeza,
na dor ao contrário é de uma bondade inefável.

Nem uma fibra palpita no corpo humano, nem uma pulsação abala
o coração, nem um soluço arqueja num peito quebrado pelo
sofrimento, que não ache nela um eco, uma voz que lhe responda.

Nesse grande livro da fé e da esperança, neste sublime diálogo
entre Deus e o homem, todas as lágrimas têm uma palavra, todos
os gemidos têm uma frase, todas as dores uma prece, todos os infortúnios
uma história.

A vida humana se resume na religião; nela se acha a essência
de todos os grandes sentimentos do homem e de todas as grandes coisas do mundo.

Tem a severidade e o respeito que inspira a paternidade, e ao mesmo tempo
todos os zelos da maternidade. Aconselha como um pai, quando fala pelos lábios
do sacerdote; é a mãe que se multiplica para seus filhos, quando
abriga no seu seio todos os infelizes.

Mas, quando se folheia este livro da vida, e que se chega à última
página – à morte – quando a alma, em face do nada sente-se tomada
desta grande e assombrosa ameaça do completo aniquilamento, é
que se sente quanto há de consolador na religião.

Entre as sombras da dúvida, entre o vago do infinito, a eternidade
surge para nossa alma como uma dessas estrelas furtivas que brilham entre
o Cris negro da tempestade, e que guiam o nauta perdido na vasta amplidão
dos mares.

Se queres ler a legenda desta crença sublime de todos os povos e de
todos os tempos, ide no dia 2 de novembro, dia que a igreja destinou à
comemoração dos finados, fazer uma visita aos nossos cemitérios.

Haveis de sentir calar-vos dentro d’alma um eflúvio consolador, quando
alguma s flores misturadas de lágrimas e de preces.

Este aspecto de uma multidão forte e cheia de vida prostrada ante
as cinzas de alguns mortos não exprime alguma coisa de misterioso,
alguma coisa de incompreensível, que decerto se prende a esse religioso
culto dos túmulos sempre venerado por todos os povos?

Para que o homem venha assim cada ano avivar uma dor quase extinta, e ver
refletir-se na lousa da campa os transes acerbos de uma triste provança
já acalmada pelo correr dos tempos, é necessário a força
irresistível da verdade revelada pelos impulsos do coração.

Sem isto, não é possível compreender-se o respeito que
votamos aos mortos, nem essa melancólica poesia da saudade que inspira
a religião dos túmulos.

Se nestas campas que há anos se abriram para receber um corpo houvesse
apenas um pouco de terra e alguns vermes, o homem que se prostasse em face
delas não cometeria uma profanação? Ajoelhando à
beira da lousa e sangrando um culto ao pó, não rebaixaríamos
a dignidade de um ser moral, escravizando a razão à matéria,
a vida ao nada? Se outra coisa mais forte do que a recordação
não nos impelisse a estes espetáculos de luto e de tristeza,
não daríamos uma mesquinha idéia da natureza humana?

É verdade; mas os restos dos mortos encerram de envolta com as recordações
deste mundo as esperanças de outra vida. É por isso que no meio
das preces, e das lágrimas e flores que vem depor ao pé da campa
a mão amiga, a cruz singela se ergue como o símbolo da fé
e da religião. Os nossos cemitérios, criados há bem pouco
tempo, ainda não apresentam este aspecto grave e imponente que ressumbra
ordinariamente no campo dos mortos

Ainda não há aí essas longas e sombrias alamedas de
árvores, essas bancadas de relva onde se destaca uma lousa branca,
nem esses ciprestes e chorões plantados à beira de uma sepultura
simbolizando no seu aspecto triste e melancólico a oração
que se eleva ao céu, ou as lágrimas que se desfiam a tombar
sobre a terra.

A nudez do campo quase despido de árvores, o desabrigo das lousas
sobre cujas pedras brancas o sol bate constantemente, punge o coração,
e como que torna acre e acerba aquela mágoa da saudade, que a religião
repassa de tanta doçura e de tanto alívio. Naquelas quadras
descampadas a morte não tem sombra, a dor não tem ecos e a religião
não tem mistérios.

Entretanto este ano, cumpre dizer em honra do espírito religioso da
nossa população, empregaram-se todos os esforços para
fazer desaparecer aquele aspecto de nudez, e a romaria foi talvez mais numerosa
do que nos anos anteriores.

O cemitério de São João Batista sobretudo estava preparado
da melhor maneira possível; e, além do arranjo devido aos esforços
do administrador, podia-se admirar alguns monumentos funerários de
uma singeleza e de um gosto perfeito.

Sinto que não me seja possível copiar aqui algumas inscrições,
cheias dessa simplicidade e dessa unção que respira uma dor
verdadeiramente sentida; mas vós que lá fostes deveis tê-las
lido, embora uma mão desconhecida não houvesse aí gravado
aquele epitáfio antigo: Sta viator!

II

Não sei que poeta disse que a vida é um contraste. Pindaro
chamou-a o sonho de uma sombra, e Byron comparou-a a uma estrela, que ora
desliza docemente entre o azul do céu, ora vacila entre as nuvens escuras
da borrasca.

Para mim, que não sou poeta, e que por conseguinte não aspiro
à metafísica do sentimento e das imagens, se tivesse de comparar
a vida a alguma coisa, seria a um buquê, do qual cada flor simbolizaria
um ano, um dia ou uma hora da nossa vida.

Assim umas flores morrem ceifadas pelo ferro ou pisadas ao chão, outras
murcham lentamente ao tépido contato de um seio acetinado. Umas são
desprezadas e secas por lágrimas de despeito, ou depositadas numa campa
como pia oferenda, outras passam de uma mão à outra mão
amiga, e vem embelezar-nos alguns momentos de cisma.

De qualquer modo que se compare a vida, o que é certo é que
a vida, o que é certo é que a semana que findou foi uma pequena
miniatura do grande quadro da existência humana.

O dia 2 de novembro forma a sombra da tela; os claros foram lançados
aqui e ali, uns mais brilhantes, outros mais desvanecidos pelo acaso, que
é um grande pintor de quadros históricos.

A segunda-feira foi um dia de decepção, porque não só
faltou-nos o benefício da Charton, como o espetáculo anunciado
em substituição, que não teve lugar, segundo dizem, por
moléstia do Gentili.

Em compensação tivemos na terça um baile do Cassino.
Caso a comparação de Byron sobre a vida humana seja exata, creio
que nesta noite, se para alguns as horas correram deliciosamente, para outros
nem o céu esteve azul, nem luziu a estrela (de Byron, está entendido).
Provavelmente as nuvens encobriram-na.

Para outros que preferem a comparação do poeta grego, a vida
foi durante essas horas não o sonho de uma sombra, mas a sombra de
um nome ou de uma letra.

Estão já os leitores curiosos por saber que nome e que letra
era esta que me incomodava tão seriamente, a ponto de fazer-me sonhar
com ela no meio de um baile. O nome não lhes direi, mas a letra é
um – C.

Este – C – memorável, com que se escreve aceio, e que eu apesar do
amor que lhe consagro tive a desgraçada lembrança de substituir
por dois – SS – valeu-me um quinau em ortografia dado pelo colega do Velho
Brasil, que não deixa passar camarão pela malha.

Esquecia-me, porém, dizer que podem saltar este artigo, que não
vale a pena de ser lido. Como é um claro do quadro da semana, acho
razoável que o passem em claro.

Asseguro-lhes que nada perderão com isto, porque neste artigo não
se trata de coisa séria e grande. Prometi uma vez vestir o folhetim
de casaca preta e gravata branca, e tiveram logo a impiedade de chamá-lo
monstro! Portanto agora, quando me vier a idéia trajar mais curialmente
o meu folhetim, há de ser de casaca parda com botões amarelos
e calças de ganga, como costuma sair na semana e especialmente no domingo
um colega contemporâneo.

III

Estamos quase no fim do quadro. – Faz uma bela noite, a lua passe sombra
das árvores completam a vista.

Dois vultos, um amante infeliz e uma moça em desespero – um condenado
e uma louca – ocupam o meio da cena. Caco trecho de música de Bellini,
cantado pela Charton, que nesta fazia o seu benefício.

Todos esperavam ansiosos esta festa musical dada pela cantora predileta do
público, e às oito horas a creme dos dilettanti desta corte
enchia o salão com as suas pessoas, e com uma quantidade enorme de
flores e versos, que oportunamente surgiram de dentro dos bolsos e dos lenços,
e inundaram o teatro.

Ergueu-se o pano, e começou o coro da alvorada. De repente mudou-se
a vista, e a platéia estremeceu com uma salva tríplice de aplausos
quase unânimes, que anunciaram a entrada da cantora.

Vinha trajada de azul, da mais bela cor que a natureza criou para cobrir
as coisas lindas deste mundo, – as montanhas, o céu, o mar, e enfim
as moças bonitinhas e alvas como o lírio, que não podem
deixar de compreender que o azul foi feito para moldurar o branco.

A Charton disse admiravelmente a ária do segundo ato, e, apesar de
todos os contratempos que sobrevieram, teve o poder de fazer da noite de seu
benefício um completo triunfo.

Algumas cenas desagradáveis tiveram lugar esta noite; porém
a imprudência que as motivou foi suficiente,mente castigada, não
só pela manifestação pública, como pela energia
da polícia, que conseguiu reprimir muitos abusos. À sua atividade
devemos ter-se evitado um fato, que calamos por vergonhoso, e que talvez produzisse
conseqüências bem tristes pela exacerbação a que
tinham sido levados os ânimos.

Ao terminar o espetáculo, a orquestra do teatro, executando várias
músicas, conduziu triunfalmente à sua casa a Charton, que seguiu
a pé no meio de um concurso de mais de quatrocentos dilettanti , entre
os quais se contavam pessoas muito decentes, que o entusiasmo impelira a dar
essa subida prova de diletantismo.

Eu, apesar de muito entusiasmado, retirei-me prosaicamente de carro, envergonhadíssimo
de que a música não tivesse o poder de obrigar-me a andar mais
de uma légua a pé.

Capítulo X

Rio, 12 de novembro

Desta vez não há razão de queixa. O paquete de Southampton
trouxe-nos uma boa coleção de notícias a respeito da
guerra do Oriente. A curiosidade pública, suspensa há muito
tempo, pôde finalmente saciar-se com alguns episódios interessantes,
como o de uma batalha em campo raso, o da passagem de um rio, o da morte de
um general e da fugida de um príncipe à unha de cavalo.

Passada a primeira impressão. Cada um tratou de comentar as notícias
a seu modo, de maneira que já ninguém se entende, e não
há remédio senão apelar para o vapor seguinte a fim de
sabermos a verdadeira solução do negócio.

A tomada do rio Alma sobretudo abriu um campo vasto a essa guerra de ditos
espirituosos e de epigramas, em que se acham seriamente empenhados os russos
e turcos desta cidade.

Uns entendem que, à vista das notícias, é fora de dúvida
que Mesckintoff deixara tomarem-lhe Alma, embora a muito custo escapasse com
o corpo salvo das mãos dos franceses e ingleses. Entretanto, as próprias
notícias dadas pelos jornais, ninguém pode duvidar que quem
perdeu a alma não foi o príncipe russo, mas sim o General Saint-Arnaud.

No dia da chegada do paquete, um espirituoso redator de uma das folhas diárias
da corte dizia, ao ler a descrição da batalha, que o êxito
da guerra estava conhecido, e que a Rússia nada podia fazer desde que
Nicolau perdera Alma. Ao contrário – retrucou-lhe o seu colega – agora
é que os ingleses e franceses estão em apuros, porque os russos,
depois da batalha, ficaram desalmados e não há nada que lhes
resista.

Muita gente, que sabe como os franceses são fortes nos trocadilhos
e jogos de palavras, persuade-se que talvez todo este barulho da batalha de
Alma não passe de algum calembur, que eles nos querem impingir. Não
vou tão longe nas minhas suposições; porém, quando
teio as duas participações de Lord Raglan e de Saint-Arnaud,
não posso deixar de lembrar-me daquela antiga anedota dos dois compadres
da aldeia, que descobriram o modo de se elogiar a si mesmos sem falar à
modéstia.

Em toda essa batalha só há a sentir uma coisa; e é que
os aliados fizessem poucos prisioneiros, e não pudessem ajuntar uma
boa coleção de príncipes russos, que tivessem nomes de
oito sílabas com a terminação em off, que é de
rigor. Se isto acontecesse, seria uma felicidade para o gênero humano;
porque os tais boiardos passariam à França, espalhar-se-iam
pela Europa e talvez chegassem ao mercado do Brasil, onde imediatamente se
havia de manifestar uma grande procura deles para noivos. Se viessem alguns
da Hircânia, e uma meia dúzia de magias da Hungria, também
não seria mau, para assim haver mais onde escolher conforme o gosto
de cada um..

Enquanto, porém não lhe é possível mandar-nos
esse gênero de que tanto necessitamos, a Europa vai nos enviando algumas
cantoras exímias (é o termo do rigor), para nos distrair as
noites de uma maneira agradável. Chegou ultimamente uma, que, se a
reputação corresponder ao nome, terá de apagar de todo
no espírito público as recordações que deixou
a Stoltz, se não como cantora, ao menos como excelente trágica.

Criar-se á provavelmente um terceiro partido que se intitulará
Raquelista, e então o teatro tornar-se-á interessantíssimo.
Aplausos de um lado, pateada do outro, bravos, gritos, estalinhos, caixas
de rapé a ranger, tudo isto formará uma orquestra magnífica,
e realçará a voz das cantoras de uma maneira admirável.
Isso pelo que toca ao ouvido; quanto à vista, tomando a diretoria o
bom acordo de reduzir a iluminação brilhante do teatro, as nuvens
de poeira, que se levantam da platéia, criarão o demi-jour necessário
à ilusão ótica.

Que progresso! Possuiremos um Teatro Lírico, no qual não se
ouvirá música e quase nada se enxergará! Só quem
não tiver uso de freqüentar teatros é que poderá
negar as grandes vantagens que resultam de tão engenhosa invenção.

Enquanto os empresários europeus se matam e se esforçam por
contratar boas cantoras, ensaiar as melhores óperas, e adquirir pintores
cenógrafos para satisfazer o público e dar-lhe espetáculos
que agradem, nós descobriremos o meio de poupar todo este trabalho
inútil e dispendioso.

Para isto bastam duas ou três cantoras com os seus competentes partidos,
e, se houver também uma dançarina como a Baderna, melhor será.
Com estes elementos conseguir-se-á por noite umas quatro pateadas e
algumas salvas de palmas; a noite tornar-se á animada, e o gosto pela
música italiana se irá popularizando cada vez mais.

Decerto, aquelas noites monótonas, em que levávamos a ouvir
a Stoltz, comovidos e atentos aos seus menores movimentos, descobrindo um
estudo da arte, uma inspiração do talento no seu gesto o mais
simples, ou nas entonações graves de sua bela voz; essas noites
frias e calmas, em que depois de longas horas de êxtases, a alma afinal
transbordava de emoções e arrancava no fim da representação
aplausos espontâneos; essas noites não valem os espetáculos
animados, como temos agora, cheios de fervor e entusiasmo, e em que nos possuímos
tanto do encanto da música, que todo o corpo se agita para dar a mais
solene manifestação de amor à arte.

Um dilettante é hoje no Rio de Janeiro o homem que se acha nas melhores
condições higiênicas e que deve menos temer a invasão
do cólera, porque ninguém o ganha em exercício. A cabeça
bate o compasso mais regularmente do que a baqueta do Barbieri; as mãos
dão-se reciprocamente uma sova de bolos, como não há
exemplo que tenha dado o mais carrasco dos mestres de latim de todo o orbe
católico. Dos pés não falemos; são capazes de
macadamizar numa noite a rua mais larga da cidade.

Ajunte-se a isto os bravos, os foras, os espirros, os espreguiçamentos
(novo gênero de pateada), e de vez em quando um passeio lírico
de uma légua fora da cidade, e ver-se-á que dora em diante,
quando os médicos quiserem curar alguma moléstia que exija exercício,
em vez de mandarem o doente para a serra ou para os arrabaldes, lhe aconselharão
que se aliste nalgum dos partidos, chartonista ou casalonista, e vá
ao teatro.

Um espírito observador, recorrendo a certos dados estatísticos,
conseguiu também descobrir que o homem mais útil desta corte
é o dilettante. Cumpre-me, porém, notar que, quando falamos
em dilettante, não compreendemos o homem apaixonado de música,
que prefere ouvir uma cantora, sem por isso doestar a outra. Dilettante é
um sujeito que não tem nenhuma destas condições, que
vê a cantora, mas não ouve a música que ela canta; que
grita bravo justamente quando a prima-dona desafina, e dá palmas quando
todos estão atentos para ouvir uma bela nota.

São muito capazes de levantar alguma questão gramatical sobre
a minha definição, tachando-a de paradoxo, ou demonstrando por
meio da etimologia da palavra que estou em erro. Mas isto pouco abalo me dá;
os gramáticos que discutam, fazem o seu ofício, contanto que
não se arvorem em alfaiates ou comecem atalhar carapuças.

Voltando, porém, a nossas observações, é fato
provado que o dilettante é o homem que mais concorre para a utilidade
pública. Em primeiro lugar, o extraordinário consumo que ele
faz de flores não pode deixar de dar grande desenvolvimento à
horticultura, e de auxiliar a fundação de um estabelecimento
deste gênero, como já se tentou infrutiferamente nesta corte
antes do dilettantismo ter chegado ao seu apogeu.

Os sapateiros e luveiros ganham também com o teatro, porque não
há calçado nem luvas que resistam ao entusiasmo das palmas e
das pateadas. Na ocasião dos benefícios, as floristas e os joalheiros
têm muito que fazer; e os jornais enchem-se de artigos que para os leitores
têm o título de publicações a pedido, e para o
guarda-livros da casa o de publicações a dinheiro.

Além de tudo isto, além dos estalinhos, dos versos avulsos,
das fitas para os buquês, é preciso não esquecer a carceragem
que de vez em quando algum vai deixar na cadeia, onde se resigna a passar
a noite, fazendo um sacrifício louvável pelo seu extremo amor
à arte.

Isso sem falar das outras vantagens que já apresentamos, como de fazer
que não se ouça a música e não se veja coisa alguma.
De maneira que, assim, toda a ópera é boa e bem representada;
e, estando o teatro escuro com a poeira, não há risco que as
mocinhas troquem olhares malignos para as cadeiras. Só este último
fato é de um alcance imenso; é uma garantia de moralidade pública!

Se a diretoria soubesse apreciar esses bons resultados, em vez de transferir
constantemente o espetáculo por moléstias deste ou daquele,
em vez de nos dar uma só representação por semana, regularizaria
os espetáculos, e repetiria o Trovador cinqüenta vezes para que
os moleques da rua aprendessem a assobiar de princípio a fim toda esta
sublime composição de Verdi, a qual daqui a alguns meses aparecerá
correta e aumentada numa porção de valsas, contradanças
e modinhas.

Outra coisa, a que a diretoria não tem dado muita atenção,
é ao estado do edifício e à decência deste salão,
onde se reúne a flor da sociedade desta corte. Agora que se trata com
tanta eficácia do asseio público, parece-nos que era ocasião
que o asseio chegasse até o interior do teatro, e fizesse desaparecer
essa pintura mesquinha, essas paredes sujas, e esse pó que cobre as
cadeiras e que reduz as abas de nossas casacas à triste condição
de espanador. A julgar pela poeira que se levanta quando aparece a Charton
ou a Casaloni, creio que há no soalho do teatro terra para encher algumas
carroças.

Se faltam à diretoria meios de remover essa terra, pode requisitá-los
da administração da limpeza pública, que por certo não
se recusará, à vista da atividade que tem mostrado ultimamente
nos trabalhos que lhe foram incumbidos.

Com efeito, embora em começo, o serviço já tem conseguido
apresentar bons resultados; e basta percorrer as ruas desta cidade, para reconhecer
os sinais de uma vigilância ativa, que vai pouco a pouco substituindo
o desleixo e a incúria que ali reinava entre a lama e os charcos.

O Sr. Ministro do Império tomou, nesta questão da limpeza,
o verdadeiro partido de um bom administrador e o expediente de um homem de
ação. Enquanto a discussão se ateava, tratou de realizar
a sua idéia, e criar com os fatos argumentos irresistíveis,
argumentos que calam imediatamente no espírito público. Os escrúpulos
cessaram, apenas as nossas ruas começaram a mostrar o zelo da autoridade;
e creio que, removendo a lama e o cisco das ruas, se removerá igualmente
qualquer oposição extemporânea a uma medida de tanta utilidade.

Já podemos ter esperanças de ver nossa bela cidade reivindicar
o seu nome poético de princesa do vale, e despertar de manhã
com toda a louçania para aspirar as brisas do mar e sorrir ao sol que
transmonta o cimo das serras. Talvez daqui a alguns meses seja possível
gozar a desoras o prazer de passar à la belle étoile, durante
uma dessas lindas noites de luar como só as há na nossa terra;
ou percorrer sem os dissabores dagora a rua aristocrática, a rua do
Ouvidor, admirando as novidades chegadas da Europa, e as mimosas galantarias
francesas, que são o encanto dos olhos e o desencanto de certas algibeiras.

Esses passeios, que hoje já vão caindo um pouco em desuso,
ainda se tornarão mais agradáveis com algumas novidades interessantes
que se preparam naquela rua, e que lhe darão muito mais realce, excitando
as senhoras elegantes e os gentlemen da moda a concorrer a esse rendez-vous
da boa companhia.

O Desmarais está acabando de preparar a sua antiga casa com uma elegância
e um apuro, que corresponde às antigas tradições que
lhe ficaram dos tempos em que aí se reunia a boa roda dos moços
desta corte, e os deputados que depois da sessão vinham decidir dos
futuros destinos do país. Ali tinham eles ocasião de estudar
os grandes progressos da agricultura, fumando o seu charuto Regalia, e de
apreciar os melhoramentos da indústria pelo efeito dos cosméticos,
pela preparação das diversas águas de tirar rugas, e
pela perfeição das cabeleiras e chinós.

Como o Desmarais, a Notre-Dame de Paris abrirá brevemente as portas
do seu novo salão, ornado com luxo e um bom gosto admirável.
As moirées, os veludos e as casimiras, todos os estofos finos e luxuosos,
e destinados aos corpinhos sedutores das nossas lindezas, terão uma
moldura digna deles, entre magníficas armações de pau-cetim;
e o pezinho mignon que transpuser os umbrais desse templo da moda pousará
sobre macios tapetes, que não lhe deixarão nem sequer sentir
que pisam sobre o chão.

Assim, pois, quando os pais e os maridos passarem de longe, e virem este
belo salão com toda a sua elegância, resplandecendo com o reflexo
dos espelhos, com o brilho das luzes, apressarão o passo, e, se tiverem
lido o Dante, lembrar-se-ão imediatamente da célebre inscrição:

Lasciate ogni esperanza, voi che entrate;
Ma guarda, e passa!

De todos esses progressos da Rua do Ouvidor o mais interessante, porém,
pelo lado da novidade, é a Galeria Geolas, que deve nos dar uma idéia
das célebres passagens envidraçadas de Paris. A Galeria Geolas
vai da Rua do Ouvidor à Rua dos Ourives; tem uma extensão suficiente;
apesar de um pouco estreita, está bem arranjada.

Os repartimentos formam um pequeno quadrado envidraçado, e já
estão quase todos tomados. Na locação desses armazéns
seria muito conveniente, não só aos seus interesses, como aos
do público, que o proprietário procurasse a maior variedade
possível de indústrias, a fim de que a passagem oferecesse aos
compradores toda a comodidade.

Os moços de boa companhia que se reúnem ordinariamente num
ponto qualquer da Rua do Ouvidor deviam tomar um daqueles repartimentos e
formar como que um pequeno salão, que se tornaria o rendez-vous habitual
do círculo dos flâneurs. Enquanto não pudéssemos
ter um Clube, a passagem iria satisfazendo esta necessidade tão geralmente
sentida.

Se ainda não estais satisfeito, meu amável leitor, com todas
estas novidades, vou dar-vos uma, que suponho vos causará tanto prazer
como me causa a mim; e é que estou fatigado de escrever, e por conseguinte
termino aqui.

Capítulo XI

Rio, 19 de novembro

Se a mitologia dos povos antigos tivesse dado formas de mulher, de fada ou
ninfa, às semanas, como o fez com as horas, não me veria às
vezes em tão sérios embaraços para escrever esta revista.

Em lugar de estar a cogitar idéias, a parafusar novidades, e a lembrar-me
de fatos e coisas passadas, pediria emprestado a algum dos tipos da grande
galeria feminina as feições e os traços para desenhar
o meu original.

Assim, quando me viesse uma semana alegre e risonha, mas muito inconstante,
com uns dias cheios de nuvens, e outros límpidos e brilhantes, iluminados
pelos raios esplêndidos do sol, uma semana elegante de teatros e bailes,
imaginaria alguma fada de formas graciosas, de olhos grandes, com uma certa
altivez misturada de uma dose sofrível de loureirismo.

Vestiria a minha fada de branco com algumas fitas cor-de-rosa, pedir-lhe-ia
que me contasse com toda a graça a travessura do seu espírito
os segredos de suas horas e de seus instantes

Ao contrário, se fosse uma semana bem calma e bem tranqüila,
em que os dias corressem puros e serenos, em que fizesse umas belas noites
de luar bem suaves e bem calmas, de céu azul e de estrelas cintilantes,
lembrar-me-ia de alguma moreninha da minha terra, de faces cor de jambo, ojos
adormidillos, como dizem os espanhóis.

Então escreveria uma poesia, um poema, um romance ou um idílio
singelo, e livrava-me assim de meter-me em certas questões graves,
e importantes que ocupam a atualidade. Faria como o poeta; e limitar-me-ia
às pequenas coisas que me tivessem interessado. Nugae, quarum pars
parva fuit.

É verdade que, quando me acertasse cair uma semana como esta passada,
onde iria eu procurar um tipo, um modelo que a caracterizasse perfeitamente?
Lembro-me de uma mulher, que descreveu Byron, a qual, com algumas modificações,
talvez me pudesse bem servir para o caso.

Seu único aspecto (da mulher) valia um discurso acadêmico; cada
um de seus olhos era um sermão; na sua fronte estava estampada uma
dissertação gramatical. Enfim, era uma aritmética ambulante.
Dir-se-ia uma correspondência ou alguma velha polêmica que se
houvesse despegado do seu competente jornal, para andar pelo mundo a discutir
e argumentar.

Com efeito, só este tipo imitado de d. Juan poderia dar uma ligeira
idéia da semana passada, a qual num formulário de botica podia
bem traduzir-se pela seguinte receita: uma dose de sol, duas de chuva e três
de maçada. Admirável receita para curar a população
desta corte da febre de novidades que tem produzido a guerra do Oriente.

Os antigos, porém, que fizeram tanta coisa boa, esqueceram-se dessa
invenção de personificar a semana, e por conseguinte não
há remédio, senão deixar as comparações
e voltar ao positivo da crônica, desfiando fato por fato, dia por dia.

Aposto que já estais a rir deste meu projeto, perguntando com os vossos
botões que fatos são estes que descobri na semana passada, que
acontecimentos se deram nestes dias, que valham a pena, não já
escrever simplesmente, mas contar.

Ides ver. Em primeiro lugar, contar-vos-ei que a semana teve sete dias e
sete noites, tal e qual como as outras. Destes sete dias muitos foram de chuva,
e alguns estiveram tão belos, tão frescos, tão puros,
que sentia-se a gente renascer com o sol que vivificava a natureza. As noites
foram quase todas de inverno e de teatro.

No Provisório estreou a nova cantora, completando-se assim o número
das três deusas que devem disputar o pomo de ouro, o qual também
foi pomo da discórdia. O público dilettante está por
conseguinte arvorado em Paris; e os poetas já se prepararam para cantar
a nova Ilíada e as causas terríveis de tão funesta guerra.
Et teterrimas belli causas

Em São Pedro de Alcântara o aparecimento de João Caetano
produziu uma noite de entusiasmo e um novo triunfo para o artista distinto,
único representante da arte dramática no Brasil.

Infelizmente as circunstâncias precárias do nosso teatro, ou
outras causas que ignoramos, não têm dado lugar a que João
Caetano forme uma escola sua, e trate de elevar a sua arte, que no nosso país
ainda se acha completamente na infância.É a este fim que deve
presentemente dedicar-se o ator brasileiro. Sua alma já deve estar
saciada destes triunfos e dessas ovações pessoais, que são
apenas a manifestação de um fato que todos reconhecem. Como
ator, já fez muito para sua glória individual; é preciso
que agora como artista e como brasileiro trabalhe para o futuro de sua arte
e para o engrandecimento de seu país.

Se João Caetano compreender quanto . É nobre e digna de seu
talento esta grande missão, que outros, antes de mim, já lhe
apontaram; se, corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos, fundar uma
escola dramática que conserve os exemplos e as boas lições
do seu talento e a sua experiência, verá abrir-se para ele uma
nova época.

O governo não se negará certamente a auxiliar uma obra tão
útil para o nosso desenvolvimento moral; e, em vez de vãs ostentações,
de coroas e de versos que se procuram engrandecer unicamente pelo assunto,
terá o que lhe tem faltado até agora, o apoio e a animação
da imprensa desta corte.

Uma das coisas que têm obstado a fundação de um teatro
nacional é o receio da inutilidade a que será condenado este
edifício, com o qual decerto se deve despender avultada soma. O governo
não só conhece a falta de artistas, como sente a dificuldade
de cria-los, não havendo elementos dispostos para esse fim.

Não temos uma companhia regular, nem esperanças de possuí-la
brevemente. A única cena onde se representa em nossa língua
ocupa-se com vaudevilles e comédias traduzidas do francês, nas
quais nem o sentido nem a pronúncia é nacional

Deste modo ficamos reduzidos unicamente ao teatro italiano, para onde somos
obrigados, se não preferimos ficar em casa, a dirigirmo-nos todas as
noites de representação, quer cante a Casaloni, quer encante
a Charton, quer descantem as coristas. Tudo é muito bom, visto que
não há melhor.

Já algumas vezes temos censurado a diretoria do teatro por certas
coisas que nos parece se podem melhorar sem grandes sacrifícios. Hoje
cumpre-nos fazer-lhe uma justiça, e até um elogio, que ela merece
sem dúvida alguma, pela resolução que nos consta ter
tomado de reparar o edifício e ilumina-lo a gás.

A polícia também tem-se esmerado em fazer cessar as cenas tumultuárias
e desagradáveis que se iam tornando tão freqüentes naquele
teatro, e que, se continuassem, acabariam por afugentar dele os apaixonados
da música de batuque.

Não é, porém, unicamente no teatro que a polícia
tem dado provas de atividade. Efetuou-se esta semana a prisão de um
moedeiro falso, que se preparava a montar uma fábrica dessa indústria
lucrativa.

O crime de moeda falsa é um dos mais severamente punidos em todos
os países, porque ameaça a fortuna do Estado e a dos particulares.
Entretanto não acho razão no legislador em tr punido unicamente
o falsificador de moeda, deixando impunes muitos outros falsificadores bem
perigosos para a nossa felicidade e bem-estar.

Todos os dias lemos nos jornais anúncios de dentistas, de cabeleireiros
e de modistas, que apregoam postiços de todas as qualidades, sem que
a lei se inquiete com semelhantes coisas.

Entretanto imagine-se a posição desgraçada de um homem
que, tendo-se casado, leva para casa uma mulher toda falsificada. E que de
repente, em vez de um corpinho elegante e mimoso, e de um rostinho encantador,
apresenta-lhe o desagradável aspecto de um cabide de vestidos, onde
toda a casta de falsificadores pendurou um produto de sua indústria.

Quando chegar o momento da decomposição deste todo mecânico
– quando a cabeleira, o olho de vidro, os dentes de porcelana, o peito de
algodão, as anquinhas se forem arrumando sobre o toilette – quem poderá
avaliar a tristíssima posição dessa infeliz vítima
dos progressos da indústria humana!

Nem ao menos as leis lhe concedem o direito de intentar uma ação
de falsidade contra aqueles que o lograram, abusando de sua confiança
e boa-fé. É uma injustiça clamorosa que cumpre reparar.

Um homem qualquer que nos dá a descontar uma letra de uns miseráveis
cem mil réis, falsificada por ele, é condenado a uma porção
de anos de cadeia. Entretanto aqueles que falsificam uma mulher, e que desgraçam
uma existência, enriquecem e riem-se à nossa custa.

Deixemos esta importante questão aos espíritos pensadores,
aos amigos da humanidade. Não temos tempo de tratá-la com a
profundeza que exige; senão resumiríamos o quadro de todas as
desgraças que produzem não só aquelas falsificações
do corpo, mas também muitas outras, como um olhar falso, um sorriso
fingido, ou uma palavra mentida.

Demais, temos ainda de falar de uma outra medida do chefe de polícia
a respeito dos cães, e que interessa extraordinariamente a segurança
pública. O que cumpre é zelar a sua execução para
que não se torne morta, e faça cessar o perigo que corremos
todos os dias de encontrarmos a cada momento na rua ou no passeio a morte
do hidrófobo.

Afonso Karr levou dois anos a escrever para conseguir que a polícia
de Paris adotasse esta útil medida de segurança pública
a que ordinariamente damos tão pouco cuidado, e muitas vezes mesmo
revoltamos por um mal entendido sentimento de humanidade.

Um dos maiores obstáculos que ele encontrou sempre foram certos prejuízos,
certos erros consagrados e que todo o mundo repete, sem refletir, nem compreender
o sentido das palavras que profere.

Assim, desde a antiguidade se diz que o cão é o amigo fiel
do homem, o tipo e o modelo da amizade.

Este consentimento unânime, diz o escritor francês, é
uma singular revelação do caráter do homem. O cão
obedece sem reflexões, se submete a todos os caprichos e a todas as
vontades sem distinção; quando o castigam, em vez de se defender,
roja-se aos pés de seu senhor e caricia a mão que o castigou.
E é isto o que o homem chama um amigo!

Já se vê que o sentimento não é tão nobre
como o parece a princípio. Todas estas vãs declamações
dos poetas sobre esse animal, que dizem representar o símbolo da fidelidade,
dão uma bem mesquinha idéia do coração humano.

Não é pois, o prazer de possuir um autômato, que se move
à nossa vontade, que pode compensar um dos maiores riscos a que estamos
sujeitos, e para o qual olhamos indiferentemente.

Capítulo XII

Rio, 26 de novembro.

O tempo corre, passam-se os dias, e o ano vai rapidamente chegando a seu
termo; mais algumas semanas e ele cairá na eternidade como um grão
de areia na ampulheta das horas.

A comparação não tem nada de novo, é muito antiga;
mas por isso mesmo acho-a excelente para um ano velho e caduco, que está
tão próximo a deixar-nos, que os historiadores já se
preparam para disseca-lo e fazer-lhe autópsia.

Assim, esse pouco tempo que nos resta é consagrado ao adeus e às
despedidas. Tudo se despede, e os dias vão correndo de despedida em
despedida até que chegue o momento de dizermos a este ano, como se
diz no Barbeiro de Sevilha ao massante D. Basílio: Buona sera, mio
signor.

A primeira despedida foi a do Cassino ba segunda-feira. Pela última
vez o baile aristocrático abriu os seus salões aos convidados.
Para o não – se é exato o que nos prometem – em lugar desta
casa antiga e desses repartimentos acanhados, veremos elevar-se nesse mesmo
lugar algum palácio de fadas, que nos dará uma vez por mês,
e sem ser preciso irmos ao Oriente, uma cópia fiel das Mil e uma noites.

Talvez isto faça reviver os belos tempos do Cassino, quando reunia
nos seus salões a fina flor da sociedade desta corte. É verdade
que então não se tinha ainda introduzido a moda elegante das
moças não gostarem de baile, provavelmente porque isto é
um prazer comum, e ordinariamente têm quase todas as meninas aos dezoito
anos.

Uma mocinha do tom – que se quer distinguir – deve aborrecer o baile,nal.

Por isso, naquele tempo o salão do Cassino foi uma espécie
de palácio encantado, que a fada do prazer e da alegria criava por
uma noite com um toque de sua varinha mágica; não era a todos
que se revelava as palavras mágicas que serviam de chave à porta
misteriosa desse recinto: Abre-te, Sésamo!

Apesar disto, porém, o último baile não esteve como
era de esperar, à vista dos outros que houve este ano. Assim devia
ser: era um baile de despedida, e os antigos freqüentadores não
podiam deixar de sentir o desejo de dizer um último adeus a estas salas,
a estas paredes, que foram testemunhas de tantos momentos deliciosos, cuja
lembrança ainda o tempo apagou.

Outros, que ainda não têm tão remotas reminiscências,
despediam-se da sociedade brilhante que se achava reunida aquela noite, e
que daqui a alguns dias se irá dispersando como as folhas de uma árvore,
que voam à discrição e aos dos ventos.

A força do verão já se vai fazendo sentir; e aqueles
que não estão presos a vida da cidade estão já
tratando de fugir desse clima ardente, e de procurar algures um refrigério
aos calores da estação.

Petrópolis – a alva e graciosa Petrópolis, com suas brumas
matinais, com suas casinhas alemãs, com seus jardins, seus canais,
suas ruas agrestes – lá nos envia de longe um amável convite
aos seus passeios poéticos, à vida folgazã que se passa
nos seus hotéis, à missa dos domingoes, que se gozam durante
esses dias em que aí vivemos como aves de arribação,
prontas a bater as asas ao primeiro sorriso da primavera.

Quanta cabecinha loura ou morena já não se está recordando
do verão passado e refazendo na mente os gozos desses dias alegres
e descuidosos! Quanta imaginação não começou já
a fazer esta pitoresca viagem, e não vai singrando pelas águas
límpidas e azuis da nossa linda baía, a contemplar o formoso
panorama que desenham as ribeiras do mar sobre a areia da praia e os recortes
das montanhas nas fímbrias escarlates do horizonte!

Além de Petrópolis, muito ale, lá estão as serras,
as matas ainda virgens, as florestas sombrias de nossa terra, as árvores
seculares, os lagos, e as correntes d’água que atravessam os lagos
e as planícies.

Aí se eleva a espaços pelas abas das montanhas, ou pelas margens
de algum rio, a fazenda do agricultor, onde se vive a verdadeira vida do campo,
onde as horas correm isentas de cuidados e de tribulações, no
doce remanso de uma existência simples e tranqüila.

Como Petrópolis, como a Tijuca, como todos os arrabaldes da cidade,
a serra também nos vai roubar uma a uma as mais belas flores da nossa
cidade, as mais preciosas jóias dos nossos salões, as mais lindas
estrelas do nosso céu. Uma bela noite, quando levantardes os olhos,
tereis de vê-las deslizarem-se no horizonte, como esses astros de que
fala Virgílio, deixando apenas nas trevas um longo rasto de luz:

Stellas
Praecipites coelo labi, noctisque per umbram
Flammarum longos a tergo albescere tractus.

No outro dia, quando procurardes por elas, terão completamente desaparecido.
Irão caminho de mar ou de terra, buscar longe da cidade os ares puros
que dão vida e saúde, que fazem voltar às faces empalidecidas,
as cores frescas e rosadas.

Quanto a vós, que ficais curtindo as mágoas da ausência,
consolai-vos com essa idéia; e, se durante a ausência encontrardes
por acaso nalgum passeio pelos jardins uma linda florzinha azul, que os jardineiros
chamam miosótis, e a que os alemães deram um nome de vergiss
mein nicht, fazei, como Alfredo de Musset, alguma bela poesia à saudade,
e mandai-ma, que eu a publicarei nas Páginas Menores.

Se isto ainda não vos consolar de todo, lede as notícias da
guerra do Oriente, que cada vez se vão tornando mais interessantes.
O último vapor trouxe-nos a notícia de que em honra de Saint-Arnaud
se tinha levantado em Constantinopla uma cruz – a primeira depois de quatrocentos
anos. Oonado a formosa Estambul.

Quanto à tomada de Sebastopol, não se realizou ainda; mas pelo
vapor seguinte teremos por aí infalivelmente esta portentosa notícia,
que, a falar a verdade, já vai se parecendo alguma coisa com os anúncios
do nosso Teatro Provisório.

De manhã os jornais avisam aos leitores que à noite haverá
espetáculo lírico; à tarde aparece uma moléstia
qualquer, e o espetáculo fica transferido para o dia seguinte. Novo
anúncio de manhã, nova transferência de tarde.

Ora, isto não tem senão uma explicação, e é
que os diretores entenderam que, sendo o teatro provisório, apesar
do batismo, precisavam de vez em quando, principalmente neste tempos de chuva,
publicar um anúncio para fazer constar que o edifício ainda
existe, e não veio à terra.

Cumpre, porém, advertir que com isto não me refiro à
transferência e ontem, a qual teve um motivo justo. Com aquele tufão
que desabou sobre a cidade, arrancando árvores e fazendo estragos,
qual seria o dilettante capaz de deixar o seu teto hospitaleiro para arrostar
um tempo tão desabrido?

É verdade que a esta mesma hora, quando as rajadas do vento caíam
mais forte e com mais violência, alguns atravessavam as ruas da cidade,
e a um e um se iam reunir na sala das sessões do Instituto Histórico.
Pouco depois chegou Sua Majestade, e a sessão se abriu com sete membros.

Se eu não tivesse lido há tempos que Metternich, ou não
sei que outro diplomata, havia dito que a pontualidade é a política
dos reis, quando de hoje em diante me sucedesse ouvir semelhante palavra,
seria capaz de apostar que tinha sido lembrança de algum dos sete membros
do Instituto, que, para fazer honra ao tempo, se entretiveram com a leitura
de um trabalho sobre terremotos.

Achava-me muito disposto a terminar aqui, mas lembro-me que estou na obrigação
de afirmar aos meus leitores que este artigo é escrito por mim mesmo,
e não por um pseudônimo que me descobriram, e que se acha arvorado
em redator de um periódico intitulado – O Brasil Ilustrado.

Quando a princípio me contaram semelhante coisa, quando me disseram
que eu ia redigir um novo periódico literário, duvidei; porém
o fato é exato, e, o que mais é lá se acha a assinatura
de um dos nossos literatos, o Sr. Porto alegre, que afirmou não ter
assinado semelhante coisa.

Ora o Brasil, sendo tão ilustrado como se intitula, não pode
ignorar certa disposição do Código Criminal que fala
de assinaturas fingidas; por conseguinte, não há dúvida
que os homens que se acham assinados naquela lista a que me refiro são
nossos homônimos, os quais até hoje eram completamente desconhecidos.

Em tudo isto, pois, só temos a lamentar uma coisa, e é que
o novo tão ignorados e obscuros, deixando de parte os verdadeiros Otavianos,
Porto Alegres e Torres Homens.

Capítulo XIII

Rio, 3 de dezembro

Um dos mais belos traços que apresenta a história da humanidade
é o culto respeitoso que votam os grandes povos aos grandes dias de
sua pátria. A influência misteriosa que exerce o passado sobre
o futuro tem o que quer que seja de grande e de sublime.

Há um sentimento nobre nessa força irresistível que
de ano a ano, de século a século, num momento determinado, obriga
as gerações que se vão sucedendo a irem por sua vez depositar
no livro dos fatos nacionais o testemunho de uma justa veneração
pelas suas antigas tradições, renovando, com o exemplo, a fé
e a crença nas instituições do país.

As datas memoráveis figuram na vida das nações como
esses marcos que se colocam à beira do caminho para designar o espaço
percorrido, e ao pé dos quais o viandante vem descansar, refazendo-se
das fadigas e cobrando novas forças para continuar a jornada.

Assim, quando o historiador, elevando-se pelo pensamento acima das condições
materiais da existência humana, lança os olhos sobre o quadro
da humanidade, pode ver cada povo, cada nação, percorrendo seu
caminho através dos séculos, como o indivíduo que transpõe
dia por dia o curto espaço da vida.

Como o indivíduo, a nação passa por todas as vicissitudes
da experiência, vai da infância à velhice, do mal ao bem,
sofre todas as alternativas da fortuna. Como o homem tem o germe de todos
esses nobres sentimentos que vivem no coração, fortifica-os
pela união, engrandece-os pelo entusiasmo e os transmite pela tradição.

Como nós, o povo sente todos os afetos, curte todas as dores, experimenta
todos os estados da vida. Como nós, ama, odeia, chora, ou ri; é
um pai ou um filho, um amigo ou um inimigo; é um menino frágil
que precisa ser guiado, um delinqüente a quem se inflinge o castigo,
e muitas vezes um soberano que dita a sua vontade e impõe a lei.

Por isso há vinte e nove anos, no dia de ontem, a nação
brasileira vinha aos pés de um berço saudar o nascimento de
um menino com toda a efusão do homem que contempla o seu primeiro filho.
Durante quinze anos serviu-lhe de pai; e em todo esse tempo nem uma só
vez se desmentiu esse amor paternal que a nação votava ao seu
Imperador ainda na infância.

Veio o ano de 1840. À infância segui-se a juventude; o berço
foi substituído por um trono. A nação brasileira veio
então, não mais como um pai e sim como um depositário
fiel, restituir a coroa e o cetro que lhe foi confiado. A cena ia mudar-se:
o amor,que um dia fora paternal, começava a envolver-se do respeito
que inspira o poder e a majestade.

Deixemos ainda correr o tempo; cheguemos ao dia de ontem; vinte e nove anos
apenas nos separam, porém a mudança é completa. Sabeis
o que significam essas festividades que por toda a extensão do país
celebram o dia 2 de dezembro? Sabeis que sentimento exprimem essas manifestações
espontâneas da nação, por ocasião do aniversário
do seu monarca?

É o povo brasileiro que, como um filho reconhecido, veio aos degraus
do trono para beijar a mão ao pai da nação, para agradecer-lhe
os benefícios recebidos e pedir-lhe ainda a direção,
a paz, o trabalho, a instrução, a indústria, a colonização,
e todos esses germes da civilização, que o país encerra
no seu seio, e que serão um dia fecundados pelo pensamento criador
do seu governo.

A esta grande manifestação do seu povo, o Imperador respondeu
agraciando-o na pessoa daqueles brasileiros cujos serviços entendeu
mereciam ser remunerados. Algumas dessas mercês não são
unicamente uma graça, mas uma antiga dívida que S.M. pagou em
nome da nação a alguns velhos servidores do nosso país.
Entre estes há especialmente alguns nomes que, para fazer-se o seu
elogio aos brasileiros, basta despi-los do seu título e repeti-los.

Havia cinco anos que não se realizava esse poético costume
das monarquias, de fazer a distribuição das graças nos
dias aniversários de algum acontecimento feliz. Sempre uma contrariedade
qualquer vinha obstar aquele ato. Este ano, porém, as circunstâncias
favoráveis de uma atualidade calma e serena permitiram.que a munificência
imperial pudesse ao mesmo tempo pagar as dívidas da nação
e auxiliar a realização do pensamento de união e concórdia,
que é o programa de governo do Sr. D Pedro II e o seu voto o mais ardente
como Brasileiro e como soberano.

Este ano já a tolerância tinha passado a esponja por sobre todos
estes nomes de guabiru e de praieiro, de luzia e de saquarema, de exaltado
e conservador, aos quais outrora os ódios políticos fizeram
representar na luta encarniçada dos partidos o papel de guelfos e gibelinos.
S.M. por conseguinte podia lançar os olhos pela união brasileira,
e ver unicamente cidadãos que se distinguiam pelo seu mérito
e pelos seus serviços, sem que uma necessidade dolorosa do seu governo
viesse, como nos anos anteriores, batiza-los de ministeriais, de descontentes,
ou de oposicionistas. O preceito constitucional começou enfim a ser
para os brasileiros uma verdade benéfica, precursora de novos melhoramentos.

Além desses fatos, que se prendem necessariamente ao dia 3 de dezembro,
tiveram ontem lugar alguns extraordinários, que foram reservados para
este dia, para assim receberem maior realce e se realizarem sob os auspícios
felizes de uma data memorável para o Brasil.

Às dez horas do dia a Câmara Municipal desta corte inaugurava
na sala de suas sessões, em presença de um grande concurso,
o novo retrato de S.M. O salão está pintado com todo o apuro.
O teto representa um quadro alegórico da indústria e do comércio,
trazendo a abundância ao Brasil; aos lados estão os bustos de
D. João VI e de D. Pedro I, do conde de Bobadela, de D. Luís
de Vasconcelos, de Estácio de Sá e de José Bonifácio.

Todo o trabalho de pintura, executado por R, d’Agostini e Júlio Lechevrel,
debaixo da direçãobem apreciar essas obras de arte, ainda bem
raras em nosso país.

Depois desta solenidade teve lugar na Academia das Belas Artes, por volta
do meio-dia, a inauguração da Pinacoteca Imperial pelo Sr. Ministro
do Império. A medalha da inscrição gravada na casa da
moeda, com o busto de S.M. numa face e o nome do fundador na outra, é
um trabalho que mostra os progressos que vamos fazendo neste ramo de arte.

A fundação da Pinacoteca Imperial, destinada à exposição
das obras dos artistas nacionais, vai dar um salutar impulso ao desenvolvimento
da pintura, da escultura e da estatuária no nosso país. É
com as suas grandes exposições anuais, com os seus prêmios
de honra, que a França, promovendo uma nobre emulação
entre os artistas e criando o bom gosto na população, tem conseguido
elevar a arte a um grau de perfeição e desenvolvimento qu atualmente
nada tem que desejar à Itália, a terra das obras primas, a pátria
dos grandes pintores, dos grandes estatuários, dos grandes arquitetos.

O dia que começara tão artisticamente devia acabar da mesma
maneira, e de fato acabou com a representação do Roberto do
Diabo no Teatro Lírico. Apesar de estarmos conversando hoje, creio
que compreendeis bem a razão por que não vos conto alguma coisa
dessa representação que se deu ontem: são coisas da imprensa.

Contudo, como estamos no teatro, suponde que houve na cena uma mutação
rápida, e que vos achais de repente num salão iluminado, no
meio de música, de perfume, de flores, de espelhos, de moças,
e de velhas também. Dança-se… Adivinhai o quê?

Não é nem quadrilha diplomática, nem a valsa estonteada,
nem a schottish com os requebros, ou a polca com os seus pulinhos. É
uma coisa que tem um pouco de tudo isto, é que me faz lembrar o meu
bom tempo de colégio, porque há uma espécie de marcha
que se executa ao som de palmas, tal e qual como nas classes. Chama-se esta
dança Ril da Virgínia, terra donde eu sabia que vinha bom fumo,
donde não me consta que nunca se despachassem danças na alfândega.

O caso é que, pela alfândega ou por contrabando, dança-se
hoje no Rio de Janeiro o Ril da Virgínia, que os velhos bailarinos
aborrecem de morte, pela razão muito simples de não admitir
canelas de cinqüenta anos passados. Os moços, porém, adoram-no;
e isto também por uma razão muito simples: porque cada um, embora
tire seu par, nem por isso deixa de danças com todas as moças,
e de ser ao mesmo tempo par de todos os pares dos outros.

De maneira que agora já não há risco de se ir tarde
para o baile, e não encontrar o par que se deseja; nem de andar a catar
pelo meio, e não encontrar o par que se deseja; nem de andar a catar
pelo meio da casa moças bonitas e espirituosas. Outra vantagem ainda:
como a dança é uma roda-viva, estamos dispensados de estar ai
a inventar motivos de conversa, e de levarmos uma boa meia hora a esgrimir-nos
contra um sim ou um não, que se encastelam nalguma boquinha arrebitada,
donde não há força tira-los.

Ao menos se o sim fosse constante, eu começava logo por pedir alguma
coisa que me conviesse. Mas qual! O sim e o não se revezam como duas
sentinelas sempre alerta e prontas a impor o respeito à menor infração
da disciplina. Por conseguinte, o melhor é tomar-se o expediente de
que uso – fazer-lhes a continência, e passar de largo.

Mas onde já ando eu? Comecei num salão de baile, e parece-me
que estou nalgum corpo de guarda. Eis aí o risco de escrever ao correr
da pena. Se eu tivesse um compasso e um tira-linhas, não me havia de
suceder semelhante coisa. Riscaria primeiramente o meu papel, escreveria o
meu artigo letra por letra, pensando maduramente sobre cada palavra, refletindo
profundamente na colocação dos pontos e vírgulas; depois
convocaria um conselho de sábios, e, discutido o artigo em conclusões
magnas, entrega-lo-ia ao compositor, quando se findassem os nove anos de correção
que impõe o preceito da Arte Poética. Então, cheio de
entusiasmo ao contemplar o meu artigo metido entre quatro gravuras de pau,
exclamaria como Sanzio : Anch’io son pittore! Agora já posso aspirar
à honra de escrever um artigo i lustrado!

O que é verdade é que já não sei onde deixei
a nossa agradável soirée, na qual se dançava com tanto
prazer e animação o Ril da Virgínia, dança que
daqui a alguns dias deve estar com muita razão no galarim da moda.
E sobre isto desejo comunicar aos diretores das sociedades uma observação
que fiz a propósito deste dançado. Tenho notado que, depois
de um ril, cada um daqueles turcos transforma-se num cossaco temível;
e então não há empadas nem chocolate que os farte. A
respeito de gelo não falemos; seria necessário algum Himalaia
ou Chimborazo feito sorvete. Por isso a moda tem muito razoavelmente destinado
a dança para o fim da noite.]Com tudo isto, ainda não vos disse
em que lugar da cidade nos achamos; mas contentai-vos em saber que estamos
num dos nossos lindos arrabaldes, numa excelente casa de campo. E como já
é perto de duas horas e as estrelas começam a fugir com as claridades
precursoras do dia, segui o meu exemplo, dizei adeus a esses salões,
a essas horas de prazer, que tão cedo não voltarão, e
ide fazer poeticamente ao vosso travesseiro as íntimas confidências
de algum segredo do coração.

4 de dezembro

O Jornal demorou-se; e portanto assentei de pagar-vos já a dívida
em que estou a respeito da representação do Roberto do Diabo,
que teve lugar na noite de sábado.

Eram oito horas quando SS.MM. apareceram na tribuna e receberam as saudações
costumadas ao som do hino nacional. Uma chuva de rosas e de versos caiu sobre
a platéia; houve algumas pessoas que receberam na cabeça seguramente
uma resma de papel.

Os camarotes apresentavam neste instante uma vista encantadora. Cada ordem
formava uma espécie de graciosa Coréia de corpinhos sedutores
e de lindos rostinhos, entre os quais aparecia a espaços a cabeça
calva e a farda bordada de algum novo visconde, ou barão, ou comendador.

Muitas vezes é este o mais belo momento de uma noite de teatro em
dia de gala. Com um simples lanço d’olhos corre-se todo esse painel
magnífico, desenhado ao mesmo tempo pela natureza, pela arte e pela
sas almas puras, filhas do céu, que sentem na terra as saudades de
sua menção divina. Além o rostinhonatureza deu a mais
bela expressão de beleza altiva, e que recebeu de Deus, em vez de coração,
a mania dos caprichos.

Depois de alguns recitativos, de dois sonetos, sobre os quais eu me calo,
para seguir o exemplo do poeta, cantou-se o novo hino do Imperador; e os espectadores,
atentos e cheios de curiosidades, esperavam o momento de ouvir pela primeira
vez naquele teatro as harmonias de Meyerbeer.

Onde quer que te aches agora, sublime maestro, estou certo, que sábado
à noite, até por volta de duas horas, em que o diabo na figura
de Bouché sumiu-se pelo tablado, não pudeste conciliar o sono
e levaste a rolar na cama, como se te perseguisse um exército de pulgas
e mosquitos. Esses sobressaltos que naturalmente sentiste, esses ardores de
orelhas, esses pruridos de pele, tudo isto não era nada menos do que
as pancadas da banqueta do Barbiere, a rouquidão do Gentil, a desafinação
de não sei quem, e finalmente a tesoura do ensaiador, que dizem cortou
à larga pela tua sublime partitura. Consola-te, pois, meu amigo, são
os percalços do ofício.

Em tudo isto, porém, só te deves queixar daquele que assegurou
à diretoria que era possível meter-se em cena, com os modestos
recursos do nosso teatro, uma peça que tu sabes quanto te custou a
montar no Grande Ópera de Paris. Sem cantores, sem orquestra, sem maquinismo
próprio, era fácil prever o que resultaria de semelhante projeto.

E não pára aí: para que a criatura fosse mais completa,
ensaiou-se na véspera até as duas horas da noite, e admitiu-se
que o mestre da dança lhe desse a última demão, inventando
um dançado no meio de um torneio, e prolongando infinitamente a cena
do cemitério, como se ainda não fossem suficientes seis horas
de maçada.

Nem o hábil pincel do Bragaldi, nem a expressão original da
música, às vezes terrível, às vezes singela e
encantadora, puderam destruir a desagradável impressão que produziu
nos dilettanti essa vigília lírica, que durou até à
madrugada.

O Gentil, rouco como estava, não pôde fazer valer os seus recursos;
o Bouché não estava em bom dia. A Charton, porém, foi
apesar de tudo, para a cena e para os dilettanti, o bom anjo que protegia
Roberto do Diabo; com a diferença, porém, que na cena vence
o diabo, e no ânimo dos dilettanti, não pôde vencer o caiporismo
fatal que presidiu à execução da partitura. O Duque da
Normandia foi para o céu, a representação da ópera
de Meyerbeer caiu no inferno.

Talvez muita gente nesta noite estivesse como Roberto na cena, às
lutas com dois sentimentos opostos, tendo à direita o seu bom anjo,
à esquerda o seu mau gênio. Queira Deus que a imagem encantadora
de alguma Alice lhes tenha aparecido com seu ingênuo sorriso, e os salvasse
de uma vez para sempre da tentação, guiando-os como sua boa
estrela através dos escolhos da vida, e acenando-lhes de longe com
suas asas cor-de-rosa, como o Anjo da Guarda que figura nas poéticas
legendas da nossa religião.

Capítulo XIV

Rio 10 de dezembro

Farewell! Farewell!… Adeus à corte, aos bailes, aos teatros! Adeus
às belas noites do Rio de Janeiro; aos seus magníficos salões,
aos seus brilhantes saraus!Até à volta! Chegou a época
das viagens; é preciso partir.

A cidade vai ficando tão monótona e tão insípida,
que já não há prazer em andar por aí a arruar,
vendo sempre as mesmas ruas e as mesmas casas, algumas tristes e abandonadas,
entregues ao gênio protetor dos lares domésticos.

A caminho, pois, meu amável leitor. Tomai o vosso bordão de
tourista, o vosso saco de viagem, o vosso álbum de recordações;
esquecei por alguns dias os negócios, esquecei as obrigações,
esquecei tudo e segui-me. Viajaremos de companhia, iremos juntos procurar
além novas impressões, outros cuidados.

Onde iremos? A Cantagalo, à Santa Cruz, à Nova Friburgo, ao
Morro Queimado, a esses lugares onde o clima é doce e saudável,
onde as águas são puras e cristalinas? Nada; vamos a Petrópolis,
a terra das flores, a terra dos amores-perfeitos; vamos percorrer a Alemanha
como sobre uma carta geográfica; vamos ver os nevoeiros da serra, os
despenhadeiros das montanhas, e finalmente aquelas graciosas casinhas tão
alvas e com suas janelinhas verdes, que se destacam aqui e ali pela beira
do caminho, ou pela margem dos canais.

A barquinha de vapor corta ao largo resvalando docemente pela flor d’água,
mas sem aquela excessiva velocidade que dá aos objetos um aspepainel
magnífico iluminado pela esplêndida claridade dos raios do sol.

Aqui e ali aponta sobre todo aquele confuso e variado panorama da cidade
a torre de alguma igreja ou a cruz singela de algum campanário, como
para advertir ao viajante que do meio das saudades da pátria, da família,
ou de algum ente que se idolatra, o pensamento deve erguer-se a Deus no momento
da partida.

Ali, onde as vagas se desfazem em alvos flocos de espumas, estão as
Feiticeiras, célebres na crônica do mundo elegante, pelo quase
naufrágio do Guarani. Quantas feiticeiras não conheço
eu mesmo em terra, que já produziram e são capazes de produzir
ainda mais terríveis naufrágios! Há, porém, entre
estas e aquelas, duas pequenas diferenças. A primeira é que
em umas morre-se pela água, nas outras pelo fogo. A segunda diferença
é muito mais curiosa. Nas feiticeiras do mar o Guarani salvou-se por
ser um barco novo; nas feiticeiras de terra são justamente os barcos
novos os que correm maior perigo.

Perdoai-me esta observação humorística, meu amável
leitor e companheiro de viagem; prometo-vos que será a última.
Abandonemos de uma vez, com os olhos e com o pensamento, esta cidade que já
não tem encantos para nós. Quereis o belo sob outras formas,
quereis a natureza da nossa terra em outros quadros? Lançai os olhos
por este vasto estendal das ondas alisadas ao sopro acariciador da brisa;
vede aqueles grupos de pequenas ilhas verdes e graciosas, que com a carreira
da barca parecem que vão fugindo umas atrás das outras; vede
as alvas praias de areia onde a vaga se espreguiça e murmura, ao longe
os claros e escuros das encostas, e o vulto das montanhas que se debuxam no
azul do céu.

Mas eis a ponte do desembarque que se alonga pela proa da barca; chegamos
a Mauá. Saltemos, e, como o lugar não tem nada que ver, como
as construções da Companhia ainda estão em princípio
e não oferecem nada de curioso, tratemos já de tomar os nossos
lugares no vagão, e preparemo-nos para a nova viagem, tendo o nosso
bilhete em mão segundo o regulamento.

Deu o sinal. Lá vamos levados pelo monstro de fogo que se lança,
rugindo como uma fera, vomitando fumo, devorando o espaço. Alexandre
Dumas já o disse; o prazer da velocidade tem um gozo, uma voluptuosidade
inexprimível. A primeira vez, porém, a novidade, o vago do desconhecido,
destroem em parte aquele prazer, e produzem uma espécie de embriaguez
de espírito, que de alguma maneira paralisa o pensamento. Não
há idéia fixa, não há preocupação,
por mais forte que seja, que resista a esse choque súbito de tantas
emoções, a esse tumulto confuso das impressões que se
sucedem rapidamente, que se aglomeram, se repelem e se destroem.

Depois de dezenove minutos desse vôo fantástico, desse sonho
acordado, despertais repentinamente aos gritos do cocheiro e aos trancos de
um dos incômodos carros da Companhia, que vos faz imediatamente lembrar
dos passeios ao Catete. Resignai-vos como eu; e, se tendes alguma idéia
favorita, alguma imagem suave, que vos ande a sorrir na mente, abri-lhe a
vossa alma, e esquecei as misérias deste mundo. Quando mal pensardes,
estareis no alto da serra.

Salve, louçã e faceira, Petrópolis! Salve, lindos chalés,
casinhas campestres, montanhas, cascatas, canais! Como tudo isto é
gracioso e simples; como a existência é doce e tranqüila
nestes lugares aprazíveis e nesta convivência agradável
da gente da terra! Que risonhas que são essas manhãs de cerração,
que ao nascer do sol começam a desdobrar o seu véu branco, com
toda a garridice e todo o disfarce de uma andaluza, quando entreabre a sua
mantilha!

E contudo nunca Petrópolis esteve como agora entregue ao abandono
e ao desleixo. O estado das ruas é péssimo; não se cuida
da limpeza dos canais, e de outros melhoramentos urgentes. Ao passo, porém,
que isto sucede, consome-se dinheiro em edificar uma capelinha no antigo hospital,
que há muito se trata de remover. Compra-se um terreno para servir
de matadouro público, e consente-se que um particular continue a cortar
num açougue, infectando assim a principal rua da colônia – a
Rua do Imperador.

Pelo menos, é isto o que dizem todos os habitantes de Petrópolis,
cujo clamor é geral. Foi preciso que chegasse o tempo da viagem costumada
de SS. MM. Para que se tratasse de melhorar os caminhos, e reparar algumas
ruas que se acham em miserável estado e que oferecem pior trânsito
do que a estrada da serra.

Enquanto o diretor da colônia não for obrigado a residir em
Petrópolis, embora tenha boas intenções e grande atividade,
não poderá prestar a devida atenção às
necessidades do lugar, nem entregar-se completamente ao estudo dos objetos
de sua competência. O governo devia tomar isto em consideração
e regular melhor as obrigações da diretoria, ou então
acabar com ela e substituí-la por outro qualquer meio de administração.

Entretanto, apesar do mau estado das ruas, meu leitor, se já não
estais fatigado e não me abandonastes na viagem, vamos sair a passeio,
e dar uma vista de olhos àquilo que nos parecer mais interessante e
mais digno de atenção. Quereis ir ao Palacete, ver o jardim
que se está concluindo? Quereis subir às colônias, e dar
um giro a cavalo até a cascata de Itamarati? Ou preferis arruar sem
destino, onde vos levar a fantasia?

Como quiserdes; mas, se estás disposto a seguir o meu conselho, não
deixai de fazer uma visita aos dois colégios Kopke e Calógeras.
O primeiro tem a grande vantagem de ser uma casa construída de propósito
para o fim a que foi destinada, e reúne por conseguinte todas as condições
econômicas e higiênicas. Assim, o que se nota logo neste estabelecimento
é o asseio, a limpeza, a claridade dos aposentos, a facilidade com
que o ar se renova nos dormitórios, e finalmente as cores sadias, o
vigor, a boa disposição que mostram os colegiais. A par disto,
a regularidade dos trabalhos, a acertada divisão das classes e a vigilância
ativa do diretor, tornam este colégio muito útil para a educação
não só dos meninos filhos da corte, como daqueles que vêm
das províncias, e que por conseguinte ainda mais necessitam do clima
saudável de Petrópolis.

No estudo das primeiras letras, o Sr.Kopke adotou o método do ensino
repentino com algumas modificações, e tem tirado deles grandes
vantagens. Nos outros ramos, os seus alunos apresentam igualmente muitos progressos;
e quando observamos que, apesar do adiantamento geral dos alunos, eram justamente
que, apesar do adiantamento geral dos alunos, eram justamente os meninos de
menor idade os que respondiam com mais acerto e maior segurança, confirmamo-nos
na idéia de que isto era devido ao sistema de estudo seguido pelo diretor.

O Colégio Calógeras é um estabelecimento montado em
grande escala, mas cujo edifício não foi construído com
a idéia de adapta-lo à instrução primária
e secundária. Possui alguns professores muito hábeis, começando
pelo seu diretor e proprietário. Sobre os seus trabalhos nada posso
dizer, porque apenas corri o edifício, e em horas destinadas ao repouso
dos alunos.

Já temos viajado muito; portanto montemos a cavalo, e desçamos
a serra com as primeiras claridades do dia, quando o sol mal desponta entre
os cabeços da montanha. Correi os olhos por essas quebradas da serrania,
por essa névoa da manhã docemente esclarecida pela frouxa luz
da aurora, e não tenhais receio que, como Horácio, os cuidados
montem na garupa para seguir-vos: Post equitem sedit atra cura.

Quatro horas de caminho – e eis-nos de novo no Ri palestrar, estudar a qu
meios de evitar a escassez dos gêneros alimentícios.

Se bem me lembro, o Sr. Marquês de Abrantes iniciou a sessão
passada no senado um projeto a respeito de pescarias, que era em minha opinião
um dos grandes recursos a lançar mão para o futuro. Cumpre que
o governo e as câmeras tomem a peito aquele projeto, que vem satisfazer
uma grande necessidade e produzir um benefício que de há muito
se devia ter realizado.

Com estas medidas e outras tendências a favorecer a criação
de gados, isentando-a dos direitos de passagem e de barreiras, é de
esperar que o governo consiga prevenir essas faltas de gêneros alimentícios,
que não se deviam dar num país novo, de grandes recursos, e
extraordinariamente produtivo, como é o nosso.

Estes fatos, porém, servem de despertar ainda mais a nossa atenção
para a colonização, para a navegação de grandes
rios, principalmente do Amazonas, cujas várzeas imensas estão
aí incultas, e encerram nas suas matas virgens um manancial de riquezas,
que convém quanto antes ser explorado.

Ultimamente, um moço destemido, sem recursos, sem meios, que penetrou
por estes ínvios sertões, e desceu o grande rio desde o Chile
até o Pará, escreveu um itinerário de sua viagem, que
provavelmente há de conter observações novas e de muito
interesse. Este moço é o Sr. Dutra. 2.º tenente da nossa
armada, e que os leitores já devem conhecer pelo curioso artigo que
publicou sexta-feira no Jornal do Comércio a respeito das origens da
língua tupi.

É de crer que o Sr. Dutra publique oportunamente o relatório
de sua viagem, e então o nosso governo não deixará sem
remuneração os serviços prestados por ele, durante essa
longa travessia cheia de tantos perigos e de tantos incômodos, que só
um homem de gênio empreendedor se animaria a tenta-la com os mesquinhos
recursos pecuniários que tinha à sua disposição.
São serviços deste quilate, quase espontâneos, que é
mister gratificar generosamente, para excitar em nossa mocidade esse espírito
de louvável ambição, que é o móvel das
grandes empresas.

Porém, quando ainda convém estimular os nossos oficiais a empreender
coisas desta ordem, de tanta utilidade para o pais, visto que não temos,
como têm a França e a Inglaterra no Oriente, um campo vasto onde
se está ilustrando o seu exército e a sua marinha, batendo-se
com toda a galhardia contra o colosso inabalável do Império
Russo.

Apesar, porém, de todos os seus esforços, Sebastopol, a sentinela
avançada da Rússia, continua a resistir com firmeza. Os franceses
e ingleses, que a princípio olhavam com desdém para essas massas
de granito, cuja bruta resistência contavam vencer pela perícia
de suas armas, viram de repente surgir de dentro das muralhas soldados em
vez de homens indisciplinados, e conheceram no momento preciso que a defesa
era digna do ataque.

Com efeito, quando marinheiros franceses, ao ler a ordem do dia do Almirante
Hamelin – A França vos contempla – se arrojaram às muralhas
e recusaram deixando mais de seiscentos mortos e feridos, é que a coisa
era impossível, e que a Rússia, embora houvesse perdido a alma,
defendia o seu corpo a todo transe.

Todas estas notícias, e muitos outros detalhes importantes a respeito
das operações dos dois exércitos inimigos, vieram-nos
pelo Severn, entrando quinta-feira. O Sr. Conselheiro Paulo Barbosa, que era
esperado neste paquete, chegou dois dias depois num navio procedente do Havre.
Tendo ido à Europa incumbido de uma missão importante pelo nosso
governo, demorou-se para restabelecer a sua saúde gravemente alterada.

Sempre que um cidadão como o Sr. Paulo Barbosa volta à sua
pátria, não são unicamente os seus amigos que têm
motivos de felicitar-se, mas sim todo o país, todos aqueles que conhecem
a honradez do seu caráter e a distinção de seu trato
e de suas maneiras.

Como deveis estar fatigado da viagem que fizemos, e por conseguinte com muito
pouca disposição para conversar, faço-vos os meus cumprimentos,
meu caro leitor, até o próximo domingo, em que voltarei a fazer-vos
a minha visita habitual. Good bye.

Capítulo XV

Rio, 17 de dezembro

Por enquanto, em falta de melhor, falemos do Teatro Lírico, que está
hoje na ordem do dia, justamente pela desordem em que tem andado todas estas
noites, depois que o diabo lhe entrou no corpo.

Todos os jornais têm dito a sua opinião a respeito; todas as
opiniões são muito acertadas; mas parece-me que ainda ninguém
chegou à conseqüência necessária deste estado anormal
em que se acha o nosso teatro italiano.

Nas circunstâncias atuais, só há um remédio, e
é interromper os espetáculos, pelo menos durante um mês,
para dar tempo a que a nossa companhia de cantores inválidos se restabeleça
e possa novamente entrar em trabalhos.

Consta-nos que a maior parte dos embaraços e dificuldades que a diretoria
tem ultimamente encontrado nasce dos seus próprios empregados. Ora,
com o fechamento do teatro durante um mês, poderão os diretores
restabelecer a ordem necessária e destruir essa soberania do capricho,
que até agora era privilégio das primas-donas, mas que já
se vai estendendo às comprimárias, e breve passará às
coristas e às comparsas.

Temos um regulamento de teatro, que, se não é perfeito, contém
ao menos um bom número de disposições acertadas, suficientes
para impor o respeito a alguns cantores, que por terem meia dúzia de
panegiristas, entendem poder abusar da indulgência do público.

Faça a diretoria cumprir rigorosamente este regulamento, requisite
nos casos necessários a ação da polícia, que se
tem mostrado zelosa, e pode ficar certa que ninguém deixará
de aplaudir essa boa resolução, cujos efeitos salutares em pouco
tempo se começarão a fazer sentir.

Que importa que um cantor, punido por uma falta de suas obrigações,
seja recebido com palmas a primeira vez que apareceu na cena, depois do seu
ato de insubordinação? Há sempre nos homens um bom instinto
que ilude, e os faz tomar o partido daqueles que julguem oprimidos, que consideram
como vítimas. Isto, porém, não é uma razão
para que se deixe de manter o princípio da autoridade, sem o qual não
há ordem nem tranqüilidade possível.

Se todas as infrações do regulamento tivessem sido punidas
como essa de que falamos, ninguém se lembraria de enxergar uma vítima
no ator que caíra em falta, nem de protestar contra o ato dos diretores
por uma semelhante manifestação de simpatia.

Tomando a diretoria a posição que lhe convém, e fechando
o teatro pelo tempo necessário para preparar as óperas que tem
de levar à cena, poderá em pouco tempo continuar os espetáculos
sem interrupção, e com aquela regularidade que até hoje
tem sido impossível conseguir.

Todos os anos por este tempo a imprensa lembra a idéia de fechar-se
o Teatro Lírico por um ou dois meses, e, apesar disto, ainda não
nos compenetrarmos bem desta necessidade; não queremos reconhecer que,
se na Europa a ópera italiana abre-se por uma estação,
no nosso país, com o nosso clima, é quase impossível
continuar os espetáculos sem dar aos artistas algum tempo de repouso
e descanso.

Estou certo que este ano sucederá a mesma coisa; que a diretoria não
julgará necessária uma medida sem a qual se passou muito bem
os anos anteriores. Mas também este ano veremos acontecer o mesmo que
o verão passado. O teatro continuará aberto por formalidade
e por luxo unicamente, os cantores estarão constantemente doentes;
passarão doze dias sem espetáculo; o calor e o receio das transferências
afugentará os espectadores; e por fim, depois de dois ou três
meses de vegetação, a companhia ficará extenuada e incompleta,
e, como o ano passado, seremos obrigados a fechar o teatro justamente quando
se acabar o verão, e quando os espetáculos começarem
a ser agradáveis.

Talvez percamos o nosso tempo a falar destas coisas. O teatro lírico,
que já tomou as proporções gigantescas de uma questão
de gabinete, hoje apenas serve de tema sediço às palestras e
correspondências de jornais. Entretanto isto não pode continuar
assim; já não podemos passar sem ópera italiana, e por
conseguinte mais cedo ou mais tarde se descobrirão os meios de possuirmos
constantemente no nosso teatro uma companhia regular e composta de artistas
de merecimento.

Para isso o governo pode achar um grande auxílio no nosso Conservatório
de Música, dirigido pelo hábil professor o Sr, Francisco Manuel
da Silva. O gosto e a aptidão que têm geralmente as brasileiras
para o canto pode concorrer para o futuro do nosso teatro, fornecendo as empresas
de coristas e comprimárias, e facilitando-lhe assim os meios de contratar
na Europa as primeiras partes, pelo preço que pagam os melhores teatros
europeus.

Na visita que o Sr. Ministro do Império fez ultimamente a este estabelecimento,
assistiu aos trabalhos da aula destinada ao sexo feminino. Estiveram presentes
34 jovens alunas, que executaram, entre outras três peças de
música sacra, compostas pelo diretor, duas sobre poesias do Padre Caldas,
e uma sobre a letra latina – Ó salutaris hóstia.

O Sr. Ministro do Império conta visitar igualmente a aula dos meninos,
e, depois que tiver assistido a todos os trabalhos do Conservatório,
é de crer trate de completá-lo, anexando às aulas rudimentais,
únicas que existem, aulas de aplicação, que poderão
daqui a algum tempo dar-nos ótimos instrumentistas para nossas orquestras.

A escassez dos recursos é a primeira causa do pouco desenvolvimento
que tem tido o Conservatório. Os auxílios concedidos por meio
de loterias estão hoje reconhecidos como pouco eficazes, principalmente
correndo elas com longo espaço. Fora preferível que o corpo
legislativo votasse uma dotação anual, com a qual o governo
poderia contar para ir melhorando gradualmente esta instituição.

Hoje ninguém se lembra do Conservatório de Música. Entretanto
quem sabe daqui a alguns anos quantas horas agradáveis não nos
dará ele por ocasião dos seus concursos e dos seus exames anuais!
Quem sabe se ainda não terei de contar aos meus leitores a história
de alguma Rosina Stoltz brasileira, educada neste Conservatório, e
para quem algum Donizetti também brasileiro escreverá uma nova
Favorita.

Talvez julguem que isto são votos de imaginação: é
possível. Como não dar largas à imaginação,
quando a realidade vai tomando proporções quase fantásticas,
quando a civilização faz prodígios, quando no nosso próprio
país a inteligência, o talento, as artes, o comércio,
as grandes idéias,tudo pulula, tudo cresce e se desenvolve?

Na ordem dos melhoramentos materiais, sobretudo, cada dia fazemos um passo,
e em cada passo realizamos uma coisa útil para o engrandecimento do
país.

Não há muito tempo que S.M. teve a bela idéia de fundar
em terras de uma fazenda sua uma colônia, que recebeu o nome de Petrópolis.
O ano passado, à imitação da primeira, se começou
a criar uma nova cidade, à qual se deu o nome de Teresina. Hoje sabemos
que uma terceira colônia se vai formar na Serra dos Órgãos,
na fazenda do Marsch; já começou a divisão dos prazos,
pelo mesmo sistema de Petrópolis.

A situação é a mais aprazível e a mais linda
que se pode imaginar: é plana, cortada por um belo rio, e acha-se no
alto da serra, num ponto de muita passagem, e por onde talvez tenha de seguir
um dos ramais da estrada de ferro do Vale do Paraíba.

A viagem desta corte é a mais cômoda possível. Vai-se
até Sampaio em barca de vapor; o resto é um agradável
passeio de duas léguas e meia, que se pode fazer de carro, por uma
excelente estrada. Reúne, portanto, todas as condições,
a comodidade, a rapidez e a segurança.

Isto no estado atual; porque, logo que se começar a povoar o lugar,
logo que os habitantes desta corte tiverem gozado aquele clima frio e seco,
aquele céu sempre azul, aquelas águas frescas e puras, logo
que se estabelecer a concorrência, não faltarão companhias
regulares de ônibus e de carros, que ainda tornarão a ida mais
breve e mais cômoda. Então não será uma viagem,
mas um passeio; poder-se-á almoçar na corte e ir lá jantar-se,
mas, jantar-se à hora curial, e não às cinco, como sucede
com Petrópolis, por causa da maré.

De maneira que daqui a uns dez ou vinte anos, se as coisas continuarem, em
vez de se passar o domingo em Andaraí, Botafogo, ou no Jardim Botânico,
iremos a Petrópolis, a Teresina, ou a cidade dos Órgãos;
depois do almoço, se estivermos aborrecidos, tomaremos a estrada de
ferro e iremos por distração ver correr o Paraíba; de
noite voltaremos para o teatro, ou para o baile, e nos recolheremos tendo
andado de léguas o que hoje andamos de braças.

Talvez ainda me tachem isto de sonho e de utopia. Será sonho, não
o nego; mas que melhor se pode fazer neste tempo de repouso e descanso, do
que sonhar? O trabalho vai cessar, as festas aí vêm, cheias de
prazeres e de folhas para aqueles que estão alegres e dispostos a goza-las.

As férias começam. Os colégios se fecham desde que concluem
os seus exames, os quais este ano já têm mostrado mais zelo da
parte dos diretores e mais aplicação nos discípulos.
O que se nota apenas é que em cada colégio o menino ressente-se
um pouco da influência de uma ou outra especialidade, conforme a educação
dos diretores.

Com as férias, com os dias de festa, nem a exposição
da Rua do Ouvidor, verdadeira exposição, porque deixa a bolsa
dos passeantes exposta a um perigo terrível. Este ano apresenta-se
à concorrência uma nova casa brasileira do Sr. C. Lase, que entrou
pelos domínios estrangeiros, mas com um luxo e um brilhantismo que
nada tem que invejar às casas francesas.

Se não preferis, pois, o sossego e a tranqüilidade do campo,
tereis durante esses dias algumas horas bem agradáveis, vendo passar
diante daqueles salões,brilhantemente iluminados, tudo quanto há
de elegante e distinto na nossa sociedade.

Tereis ainda o prazer de poder escolher, entre tantas galanterias, uma bem
delicada, bem mimosa, como as mãozinhas a que a destinardes; e em paga
recebereis algum olhar, alguma palavra de agradecimento, que vos fará
andar por ai a roer as unha e a sorrir às pedras das calçadas
até o momento em que o cruel e positivo negociante vos traduzir aquele
encantador olhar em linguagem de cifra, e lhe der um valor em moeda corrente.

Tudo isto, e os mais divertimentos que gozardes durante a festa, me referireis
a primeira vez que nos encontrarmos no ano seguinte. Em troca vos contarei
a festa do campo, os dias passados à sombra a conversar com algum amigo,
a contemplar a natureza, e a evocar as lembranças adormecidas de outros
dias já passados.

II

Voltemos uma folha ao livro da semana. Um grande pensamento, uma idéia
brilhante foi nela escrita pelo amor da pátria, e pelo amor da ciência.

O Instituto Histórico do Brasil celebrou a sua sessão aniversária
sexta-feira no Paço Imperial. SS.MM., o seu Conselho de Estado, alguns
ministros, o corpo diplomático, e quase todas as ilustrações
do país, assistiram a este ato solene, celebrado com as formalidades
do estilo.

Depois da breve alocução do Exmo. Visconde de Sapucaí,
o Sr. Dr. Macedo, 1.º Secretário, leu o seu relatório dos
trabalhos do Instituto durante o ano. É um resumo completo, um pouco
longo, como exigia o seu assunto, mas ao qual o seu autor soube, com rara
habilidade, dar uma forma amena, e muitas vezes eloqüente. Depois de
mostrar a incansável solicitude com que S.M. continua a proteger o
Instituto, o Sr. Dr. Macedo passou à enumeração dos trabalhos,
e terminou por um belo trecho, notável não só pela boa
dicção da frase, como por uma verdadeira apreciação
da atualidade.

Capítulo XVI

Rio, 24 de dezembro

Estamos na véspera do Natal.

À meia-noite começa esta festa campestre, a mais linda e a
mais graciosa da religião cristã. Vítor Hugo confessa
que não há nada tão poético como esta legenda
das Mil e Uma Noites escrita no Evangelho.

Com efeito, tudo é encantador nesta solenidade da igreja, nesses símbolos
que comemoram a poética tradição do nascimento de um
menino sobre a palha de uma manjedoura. A missa do galo à meia noite,
os presepes de Belém, as cantigas singelas que dizem a história
desse nascimento humilde e obscuro, tudo isto desperta no espírito
uma idéia ao mesmo tempo risonha e grave.

Não é porém, na cidade que se pode gozar deste idílio
suave da nossa religião. Censurem-me embora de um lirismo exagerado;
mas afinal de contas hão de confessar comigo que no meio do prosaísmo
clássico da cidade, entre essas ruas enlameadas, de envolta com o rumor
das seges e das carroças, a festa perde todo o seu encanto, todo esse
misterioso recolhimento que inspira a legenda bíblica.

É no campo, no silêncio das horas mortas, quando as auras apenas
suspiram entre as folhas das árvores, quando a natureza respira o hálito
perfumado das flores, que o coração estremece docemente, ouvindo
ao longe o tanger alegre de um sinozinho de aldeia, que vem quebrar a calada
da noite.

Daí a pouco, luz das estrelas, no meio dessa sombra mal esclarecida,
distinguem-se os ranchos de moças, que se encaminham para a igrejinha
rindo, gracejando, cochichando, bisbilhotando, como um bando de passarinhos
a chilrear em tarde de outono.

A porta da capelinha está aberta de par em par; e a luz avermelhada
dos círios, os vapores perfumados do incenso, os sons plangentes do
órgão, o murmúrio das preces recitadas à meia
voz, enchem todo o corpo do templo. De vez em quando um rumor do campo, o
esvoaçar de alguma andorinha despertada de sobressalto pela claridade,
vêm interromper alegremente a calma e placidez da festa.

Se quereis tomar o meu conselho, minha amável leitora, não
ide à missa do galo nas igrejas da cidade.. Escolhei algumas capelinhas
dos arrabaldes, a beira do mar, como a São Cristóvão,
cercada de árvores, como a do Engenho Velho, ou colocada nalguma eminência,
como a igrejinha de Nossa Senhora da Glória, tão linda com as
suas arcadas e o seu vasto terraço.

Ouvi a vossa missa devotamente, isto é, olhando apenas uma meia dúzia
de vezes para os lados, e estou certo que voltareis com a alma cheia das mais
suaves e mais risonhas inspirações. Sentireis que o culto da
religião, quando verdadeiro e sincero, é uma fonte rica de emoções
doces, e não traz os dissabores deste outro culto do amor, no qual
vós sois algumas vezes o anjo, e muitas a serpente do paraíso.

Bem entendido, se vos dou este conselho, é persuadido que não
aspirais aos foros da alta fashion, porque neste caso deveis ficar na cidade
e ir ouvir missa nalguma igreja bem quente e bem abafada, para pilhardes uma
boa constipação na saída.

A diretoria do Teatro Lírico, que tem o bom gosto de conservar o teatro
aberto neste tempo, não devia deixar de dar algum espetáculo
na noite de hoje, a fim de vos preparar por um banho russiano, para a visita
das estufas nas igrejas.

É pena que não se lembrassem de repetir o Roberto do Diabo
que acaba justamente às 2 horas, tempo em que cantam os galos.

Tudo neste mundo depende das ocasiões, disse-me um dilettante que
vós conheceis: – Se a diretoria tivesse sabido aproveitar a noite de
hoje, o Roberto do Diabo estaria apenas no purgatório donde naturalmente
o conseguiria tirar algum artigo hieroglífico, maçônico
ou brâmine, escrito unicamente para os espíritos sublimes. Então
não se veria na dura necessidade de conservar o teatro aberto, recordando
atrasados e obrigando os acionistas e os assinantes a pagarem as diabruras,
não do Roberto, mas de algum São Bartholomeu que não
conhecemos.

Eu não concordo com esta opinião. Julguei a princípio
que convinha interromper-se os espetáculos por um mês, ao menos,
porém hoje estou convencido que o teatro presta uma tão grande
utilidade a esta corte, que a polícia devia intervir para que houvesse
representação todas as noites. Se duvidam, vou enumerar-lhes
as enormes vantagens econômicas, higiênicas, políticas
e morais que resultam do teatro.

Em primeiro lugar, cura constipações pelo sistema homeopático,
alivia o reumatismo dos velhos, e dá às mocinhas do tom uma
cor baça e amarela, do melhor efeito, a qual os poetas têm convencionado
chamar – a orbidez.

Para o médico, homem positivo, isto é o sintoma funesto de
alguma consunção; mas o poeta, espírito elevado, que
tem a pretensão de viver de ar como os camaleões, extasia-se
em face desse rosto macerado pelas vigílias satisfeito por achar uma
ocasião de aplicar a sublime comparação do pálido
lírio languidamente reclinado sobre a haste delicada.

No fim de contas, o médico faz um diagnóstico importante; o
poeta escreve algumas centenas de versos no estilo de Byron, ou do Alfredo
de Musset. O boticário avia receitas sobre receitas; e o tipógrafo
tira duas edições do volume de poesias. Faz-se uma consulta
de médicos, enquanto os folhetins e as revistas críticas dissecam
e fazem a autópsia dos versos novamente dados à luz. Trava-se
a discussão, e no momento justo em que os médicos enchem de
cáusticos e cataplasmas a heroína do romance, o país
atônito reconhece que surgiu alfim o seu Petrarca, seu Dante, o seu
Tasso.

Eis aí, o Teatro Provisório concorrendo para o desenvolvimento
literário, e fazendo aprofundar o estudo da medicina. Isto, porém,
não é tudo. A diretoria, que empreendeu a regeneração
da nossa ópera lírica, visa também a outros resultados
mais reais e positivos.

A Charton é a cantora predileta do público, é o rouxinol
das belas noites pintadas por Bragaldi, é a rosa perfumada em cujo
cálice bubul fez o seu ninho gracioso, e onde se reclina soltando nos
ares as ricas melodias de suas notas. Pois bem, a Chaarton continuará
a representar pelo verão, sem ter nem sequer um mês de descanso;
bubul cantará todo o estio como uma cigarra importuna; a flor se fanará
exposta ao tempo, sem sombra e sem abrigo.

Um belo dia a Charton ficará com a voz cansada como a Zecchini; e
este público caprichoso e exigente ficará ensinado, e aceitará
aí qualquer comprimária que lhe queiram impingir na qualidade
de cantora de cartelo.

Então, como a guerra do Oriente e a exposição de Paris
não permitirão novos engajamentos na Europa, a empresa, livre
de reclamações exageradas, poderá fazer importantes economias,
contratando nesta corte algumas cantoras de modinhas para coristas, e promovendo
por antiguidade as coristas e comprimárias e as primas-donas: teremos
neste caso espetáculos baratos, a pataca e a quinhentos réis.
O público tomará o seu banho de vapor pela quinta parte do que
paga hoje.

Pouco tempo depois que a diretoria tiver obtido este grande resultado, o
público se convencerá que se a música (do teatro lírico),
como disse alguém, é o mais suportável dos barulhos,
o teatro é o mais insuportável dos suadores.

Os espetáculos, pois, serão abandonados, o dilettante começará
a ser uma espécie de mastodonte anti-robertiano , objeto do estudo
dos arqueólogos e antiquários, e o barracão terá
um destino muito semelhante ao que tem hoje, e ficará sendo uma dependência
do Museu.

Não se pode, portanto, deixar de tributar todos os elogios a quem
empreendeu e trata de executar com tanta habilidade a útil empresa
de desacreditar a era italiana e de nos fazer aborrecer o teatro lírico.
Todo o público desta corte deve auxiliar este projeto, por todas as
razões, até mesmo porque é de melhor gosto, e mais elegante,
nestas noites de calma ir suar no Provisório, do que tomar fresco no
Passeio Público.

No teatro olha-se para um camarote, procura-se uma feição mimosa
e acetinada, umas faces que são de suave cor-de-rosa, um colo alvo
de jaspe, e tem-se o desprazer de ver um rosto açodado, vermelho, mudando
de cores, um seio arfando dificilmente sem aquelas doces palpitações
que lhe dão tanta graça e tanta sedução; vê-se
enfim um belo quadro, uma tela amarrotada cheia de dobras.

Ao contrário, no Passeio Público o quadro realça com
a luz do gás, que, ao longe, entre as árvores, semelha um pouco
a claridade da luz; todas as noites, mas especialmente nos domingos, a concorrência
é numerosíssima. Às nove horas a multidão se retira,
o passeio torna-se mais agradável, e começa-se a encontrar-se
de espaço a espaço uma ou outra família conhecida, das
que freqüentam ordinariamente os nossos salões.

Não nos enganamos, pois, quando dizíamos há tempo que
a iluminação a gás concorreria muito para a concorrência
do Passeio, e daria ao público desta corte um ponto agradável
de reunião. Resta, porém, que se trate de outros melhoramentos,
como de reparar ao menos as grades da rua principal, de ceder-se aos dois
pavilhões do terraço para neles se estabelecerem cafés
decentes que possam servir às famílias, e de fazer-se com que
haja música aos domingos, das oito até às dez horas.

Faça-se isto, faça-se alguma coisa mais que or conveniente;
e todas as noites em que houver espetáculo lírico, durante a
força do verão, eu terei o prazer de ver os mais entusiásticos
dilettanti sentados nos bancos de pedra do círculo que forma a rua
principal do Passeio, vendo, como eu, passarem os grupos das lindas passeadoras,
enquanto apenas um ou outro melomaníaco, com os cabelos pregados na
testa, contemplará heroicamente o holocausto lírico da voz da
Charton, do Bouché e do Gentile, condenados à rouquidão
para assegurar o futuro da ópera italiana, que ficara comprometida
nesta corte, se não se cantar nos meses de dezembro e janeiro.

O natal, o teatro, o passeio me iam fazendo esquecer das questões
sérias que este ano se guardaram para o tempo das festas, justamente
para não deixarem nem um dia de férias ao jornalista. O livro
do Sr. De Angelis sobre o Amazonas e ultima,mente o decreto do governo sobre
as sociedades comanditárias vieram agitar a imprensa da corte, e fazê-la
sair da rotina editorial. Sobre a primeira questão deveis ter lido
não só a obra do Sr. P. de Angelis, como os artigos que publicou
nesta folha um nosso patrício, conhecido pelo seu talento. Quanto à
segunda, esperai mais alguns dias, e vereis sob que aspecto importante ela
vai apresentar-se; não vos falo mais largamente a respeito, porque
deveis saber que os advogados estão de férias, mais felizes
nisso do que os folhetinistas, que não as têm.

Finalmente vou dar-vos uma boa nova. Como a festa é tempo de muita
indigestão, podeis contar já com mais trinta e dois médicos,
que no dia 18 deste mês receberam o seu grau na Academia Militar, em
presença de SS. MM. e de um brilhante e numeroso concurso de pessoas
gradas desta corte. O digno diretor da escola recitou um belo discurso e um
dos doutorandos, designado pelos seus colegas, agradeceu em nome deles o grau
que acabavam de receber, fazendo nesta ocasião acertadas considerações
sobre o estudo da anatomia e da fisiologia.

Terminando a sua carreira, vão dar agora o primeiro passo no mundo,
e trabalhar para um futuro que a esperança, companheira inseparável
da mocidade, lhes aponta tão risonho e tão feliz. Deus os fade
bem por interesse seu e da humanidade; e possam um dia, repassando na memória
esta primeira página de sua vida, sentirem essas doces recordações
do homem feliz que se revive no seu passado.

Capítulo XVII

Rio, 31 de dezembro de 1854

Antes de tudo, preciso contar-vos um caso singular que me sucedeu há
dois dias.

Tinha acabado de ler os contos de Hoffman, sentei-me à mesa, cortei
as minhas tiras de papel, e ia principiar o meu artigo, quando chegou-me uma
visita inesperada.

Se algum dia fordes jornalista, haveis de compreender como é importuno
o homem que vem distrair-vos, justamente no momento em que a primeira idéia,
ainda em estado de embrião começa a formar-se no pensamento
e quando a pena impaciente espera o primeiro sinal para lançar-se sobre
o papel.

Haveis de ver que não há nada neste mundo que se lhe compare;
nem mesmo o sujeito que vem interromper-vos precisamente na ocasião
em que ides fazer uma declaração de amor, ou o maçante
que vos agarra e vos faz perder a hora do ônibus ou da barca.

Por isso, podeis imaginar com que mau humor, e com que terrível disposição
de espírito, me prepararei para receber a tal visita, que escolhera
uma hora tão imprópria, a menos que não fosse uma mulher
bonita, para quem estou persuadido que não se inventaram os relógios.

A porta abriu-se; e entrou-me um homem já idoso, vestido em trajes
de pretendente, de calça, casaca e colete preto. Havia naquele carão
um não sei que, um certo ar de ministro demitido, de deputado que não
foi reeleito, ou de diplomata em disponibilidade.

Trazia debaixo do braço um maço enorme de jornais, de planos
de estrada de ferro, de projetos de navegação fluvial e de regulamentos
e leis brasileiras. Quando dei com aquela papelada, fiquei horrorizado e com
a idéia de que o sujeito se lembrasse de a desenrolar.

Enfim o homem chegou-se, fez as duas cortesias do estilo, temperou a garganta,
e dirigiu-me a palavra.

— É ao Sr. Al. que tenho a honra de falar?

— Um se criado.

— Pois, senhor, eu sou o Ano de 1854.

— O quê?

— Eu sou o Ano de 1854.

Desta vez não havia que duvidar; tinha ouvido bem. O tal homem dos
papéis ou era um hóspede que se tinha escapado do Hospício
de Pedro II, ou então queria caçoar comigo. Em qualquer dos
casos, não ganhava nada com zangar-me; por conseguinte, tomei o bom
partido de aceitar a minha visita por aquilo que ela se anunciava.

— Muito bem, senhor; respondi-lhe eu, queria ter a bondade de sentar-se,
e dizer-me o que me dá a subida honra de ser visitado pelo Ano de 1854.

— O senhor não ignora que estou breve a concluir a minha carreira
política, e a retirar-me de uma vez dos negócios.

— Não, senhor, não ignoro: depois de amanhã, creio
que é dia de São Silvestre, dia em que todos os membros de sua
família costumam abdicar.

— É verdade, replicou-me o sujeito com um suspiro; depois de
amanhã terei cessado de reinar!

— Mas creio que não foi para me dar esta grande novidade que
tomou o incômodo de procurar-me?

— Decerto: o que me trouxe aqui foi especialmente pedir-lhe a sua benevolência.

— Como; a minha benevolência?

— Pois o senhor não é folhetinista?

— Tenho esta honra.

— Ora, os folhetinistas costumam sempre fazer a despedida ao ano que
finda, e emitir o seu juízo a respeito dos seus atos.

— Não me lembrava dessa! Assim…

— Vinha suplicar-lhe toda a indulgência para comigo, visto a
boa vontade que sempre manifestei de bem servir, não só a este
país, como a toda a humanidade.

— Meu amigo, a boa vontade só não basta. Os homens estão
hoje muito positivos; exigem fatos.

— Passo a apresentá-los.

— Então vamos a isso: espere, deixe-me preparar o papel para
tomar meus apontamentos. Agora estou às suas ordens.

— Em primeiro lugar, senhor, mencionarei a estrada de Mauá,
o primeiro caminho de ferro que se construiu no Brasil. Isto é uma
glória que ninguém me pode roubar; um fato pelo qual a posteridade
me abençoará.

— Concordo, sim, senhor; mas que contas me dá das promessas
brilhantes da estrada de ferro do Vale do Paraíba, que já se
devia estar construindo?

— A culpa não é minha; foi herança que recebi
e negócio que já vinha um pouco transtornado. Entretanto, eu
organizei a companhia do Juazeiro, e dei começo aos seus primeiros
trabalhos.

— Bem, escrevo cá nos meus apontamentos as estradas de ferro;
passemos ao mais.

— O senhor lembra-se que fui eu que primeiro empreguei toda a solicitude
no asseio e limpeza da cidade…

— Basta, basta!… Por aí advirto-lhe que vai mal. A respeito
de limpeza e de asseio da cidade, temos contas a ajustar; o senhor comprometeu-me
horrivelmente.

— Eu, senhor! Não é possível!

— Escute-me; quando o senhor começou com as suas azáfamas
de asseio das ruas, de regulamentos, etc., eu julguei que o negócio
era sério, fiz-lhe o meu elogio, e defendi-o contra aqueles que o atacaram;
mas hoje vejo que tudo aquilo quase que não passou de palavras, e que
as ruas continuam a ser charcos de lama.

— Mas, senhor…

— Tenha paciência, deixe-me acabar. Há aí uma pretendida
rega, que o senhor pôs em voga, e que só serve de enlamear os
passeios todas as tardes: ao meio-dia tudo está seco; quando ameaça
chover, aí temos as carrocinhas a refrescarem as ruas, provavelmente
para que a chuva não as constipe.

— Já vejo que neste ponto o senhor está prevenido contra
mim.

— Prevenido, não. O senhor caçoou completamente conosco;
não tem desculpas.

— Bem, não insisto mais sobre isso; mas creio que não
me poderá negar a iluminação a gás.

— Ah! a iluminação a gás! Não estou bem
certo, mas tenho uma lembrança vaga de que já é idéia
do 53. Entretanto concedo que seja sua. Como se defende o senhor contra as
acusações que se lhe têm feito de nos ter roubado o encanto
dos belos luares, e de haver privado os namorados daquelas noites escuras
tão favoráveis a uma conversinha de rótula, ou a um passeio
de Rua do Ouvidor?

— Ora, senhor, esses homens não sabem o que dizem: todo o namorado,
toda a mocinha – é coisa sabida – precisa de um pos da lua.

— E esses eclipses não anunciados na folhinha, a má qualidade
do gás, o preço exorbitante dos combustores, o cálculo
excessivo da quantidade consumida! Como se defende desta e outras censuras
graves que lhe têm feito os jornais?

— A falar a verdade, eu carreguei um pouco a mão; mas, além
de outras razões, era preciso não desacreditar o gás,
vendendo-o muito barato logo em começo.

— Bela teoria! Mas, como eu não possuo ações da
companhia do gás, há de permitir que tome uma nota nos meus
apontamentos: "iluminação à gás, ainda não
satisfatória e muito cara".

— Porém…

— É negócio decidido: que mais temos?

— A Rua do Cano.

— Isto é, o projeto da Rua do Cano.

— Eu não tenho culpa que o tempo não me chegasse para
leva-lo a efeito.

— Mas tem culpa de haver demorado perto de quatro meses a incorporação
da companhia; durante este tempo, se o senhor não se andasse divertido
com questões de prerrogativas municipais, podia ter ao menos dado começo
àquela obra importante.

— De maneira que o senhor não me concede nem a Rua do Cano?

— Concedo-lhe o projeto, e nada mais: a idéia creio que foi
de 53.

— Pois bem, passemos agora a uma outra ordem de coisas. Fui eu que
iniciei na Câmara dos Deputados diversos projetos importantes; que efetuei
a reforma da instrução pública e reorganizei a Academia
das Belas-Artes. Parece-me que esses fatos são títulos à
estima pública.

— Certamente, sou o primeiro a confessar; é verdade que eu tenho
minhas dúvidas sobre alguns desses melhoramentos; mas isto são
coisas que eu tratarei de deslindar com o seu sucessor, que amanhã
deve-se mandar o seu bilhete de faire part.

— É preciso não esquecer as condecorações
do dia dois…

— O quê? O senhor toma-me por algum oficial da secretaria do
Império?

— Como! O senhor mesmo já não me elogiou por ter tido
a idéia deste fato?

— Está enganado; elogiei-o por ter cumprido o legado dos cinco
anos passados; e, de mais, isto é uma coisa que pode dar glória
a um dia como o 2 de dezembro, mas nunca a um ano como o senhor.

— Finalmente esta cidade não pode deixar de agradecer-me o não
ter querido imitar aquele malvado 1850.

— Parece sepultis, meu caro.

— Perdão, senhor: não quero falar mal de ninguém;
mas, à vista daquele ano, acho que se deve levar-me em conta a ausência
da febre amarela e de outra qualquer epidemia.

— Ora, é boa! Nisso não fez o senhor mais do que cumprir
o seu dever.

— Entretanto…

— Espere… espere… lembra-me agora; e aquele grande medo que o senhor
nos meteu com o cólera!

— Ora, senhor! Retorquiu-me o sujeito com um risozinho malicioso!

— Explique-se.

— Aqui em segredo; aquilo foi um negócio com os médicos.

— Não se zangue, senhor; lembre-se do que eu fiz pelos advogados
com a questão das sociedades comanditárias; do que fiz pelos
jornalistas, à quem presenteei com uma boa quantidade de pufs; lembre-se,
finalmente, que esse mesmo receio do cólera deu-lhe matéria
para um folhetim em ocasião em que o senhor estava bem apertado.

— Bem; o dito por não dito. A respeito da salubridade pública
pode ficar descansado.

— Agradeço infinitamente a V. S.

— Não se apresse tanto; talvez no fim tenha muito que agradecer-me.
Até aqui tem o senhor alegado os seus direitos; agora há de
permitir-me que capitule as minhas queixas. Trate, portanto, de defender-se,
bem.

— Farei o que puder.

Havia algum tempo que me parecia que o tal sujeito ia emagrecendo de uma
maneira espantosa, e tornando-se delgado como um varapau; mas, como era alta
a noite, atribuí isto à alucinação da vista, efeito
talvez da fadiga e dos raios amortecidos da luz, que mal esclarecia o vasto
aposento. Não fiz, portanto, muito caso disto, e tratei de continuar
a minha singular conversação.

— Meu caro senhor, sinto dizer-lhe que o senhor, embora me desse alguns
momentos de prazer, contudo fez-me muitos males, e um principalmente que eu
não lhe posso por maneira alguma perdoar.

— Qual, senhor?

— O ter-me feito mais velho um ano.

O homem ficou fulminado. Eu continuei:

— Roubou-me uma boa parte daquelas ilusões dos primeiros anos
da mocidade; desfolhou-me algumas dessas flores que nascem nos seios d’alma,
orvalhadas com as primeiras lágrimas do coração, e que
perfumam os sonhos mais belos desta vida.

Cada dia, cada hora, cada momento que passa, rouba-nos um pouco dessa poesia
sublime, que embeleza os nossos prazeres e consola as nossas dores. Lá
vem tempo em que a alma perde as suas asas de ouro, asas que Deus lhe deu
para voar ao céu.

O que há neste mundo que valha os nossos sonhos cor-de-rosa, as nossas
noites de plácida contemplação, os idílios suaves
de nossa imaginação a conversar com alguma estrela solitária
que brilha no céu, semelhante a essas amizades santas.

Qui se cachent parfois em nos heures d’azur,
Et reviennent à nous em entendant nos plaintes?

Quando todas essas flores murcham, que resta para encher o vácuo que
fica em nossa alma? Nada: o tempo foge rapidamente, e apenas deixa uma ruga
na face, alguns cabelos brancos na cabeça, e um número de mais
à soma dos nossos dias.

— Não, Com os anos aí vem os pensamentos sérios,
as grandes coisas, a glória, a ambição, a política,
as honras, os estudos graves. Confesse que isto vale mais do que todas estas
frivolidades que preocupam o espírito da mocidade, e com as quais se
gasta o tempo inutilmente.

Chama a isso frivolidades? O que é então que há neste
mundo de sério e de real? A glória, porventura? É interessante;
trata-se de bagatela o amor, as verdadeiras afeições, as mais
belas expansões de nossa alma, zomba-se do homem que segue por toda
parte em vestidinho de uma certa cor, que se mataria por um sorriso, e que
guardaria preciosamente uma flor murcha que caísse de um buquê.

Entretanto vós, homem sério e grave, que calculas refletidamente,
que do alto da vossa importância lançais um olhar de desprezo
para essas futilidades do mundo, que fazeis vós?

Sacrificais a vida, a preguiça, o prazer, como diz Alfonse Karr, para
um dia atar à gola da casaca uma fita de uma certa cor. Enquanto nós
suplicamos um sorriso de uma bela mulher, vós daríeis um dedo
da mão pelo sorriso do ministro ou do conselheiro de Estado.

Desprezais a moda; é uma coisa ridícula, mas sonhais noite
e dia com a farda bordada. Se nós esquecemos tudo para, em um momento
de expansão, colher numa linda boquinha rosada duas palavras que nos
abrem o céu, vós renegais os amigos, prostituís a consciência
unicamente para ter o prazer de ouvir (qu glória!) um passante dizer-vos
– Sr.Barão.

Oh! se tudo é ilusão e quimera neste mundo, meu Deus, deixai-me
os lindos sonhos da mocidade, deixai-me as visões poéticas de
meus vinte anos, as minhas horas de cismar, deixai-me todas estas futilidades,
e reservai para outros as coisas sérias, calmas e refletidas. Mas isto
é um vão desejo. Daqui mais a alguns anos tudo terá passado,
e também entraremos, como os outros, na luta dos homens graves e sisudos,
e, como eles, lançaremos um olhar de desdém para essas páginas
douradas da nossa vida. Apenas, nas horas da solidão, nos virá
encantar a doce recordação desses belos dias em que tínhamos,
como diz Lamartine:

Um flot calme, um vent dans as voile;
Toujours sur as tête une étoile,
Une espérance devant lui.

Não sei se dizia, ou se unicamente pensava todas estas coisas. Tinha-me
esquecido do meu hóspede.

Deu meia-noite. Senti um estalar de juntas. Voltei os olhos para o sujeito.
À última pancada do relógio, um outro homem se destacou
do primeiro e desapareceu.

Obstupui, steteruntque comae, et vox faucibus hoesit. Fiquei pasmo. Decididamente
passava-se naquele momento alguma coisa de fantástico e de sobrenatural.

Entretanto o sujeito, calmo, mas repentinamente emagrecido, olhava-me com
um semblante tranqüilo, um pouco melancólico.Compreendeu o meu
espanto, e respondeu à pergunta muda que lhe fazia o meu olhar espantado:

— É o dia 29 que acabou, e que se foi embora. Só me restam
agora dois dias de vida.

Esta resposta ainda mais me atordoou. Mas afinal, como o meu companheiro
esperava pacientemente a continuação da conversa, tomei uma
resolução; acendi o meu charuto na vela que estava quase a apagar-se,
e fui por diante, disposto a não me admirar de mais coisa alguma.

Palestramos muito tempo. Dissertamos sobre a guerra do Oriente, sobre a Europa,
e mais largamente sobre os futuros destinos do Brasil. Contou-me algumas crônicas
escandalosas, que presenciou, referiu-me muita anedota engraçada e
muita história galante.

Viemos a falar do teatro; e ele confessou-me francamente que, a princípio,
tentou deita-lo a baixo com o negócio das tesouras, e mesmo com algumas
chuvas e com a grande ventania do mês passado. Que infelizmente não
o conseguiu; e por isso assentou de torna-lo a coisa mais ruim e a mais desenxabida,
para ver se assim se resolvem cuidar da ópera lírica, e a construir
um edifício digno desta corte.

Por fim, já pela madrugada, comecei a fechar os olhos insensivelmente,
e não sei o que mais se passou.

Agora, meu leitor, se vos destes ao trabalho de ler o que ai ficou escrito,
talvez desejeis saber a explicação disto. É muito simples.
Tinha, como vos disse, acabado de ler alguns contos de Hoffman. Suponde que,
como eu, folheais uma daquelas páginas, e segui a regra da antiga sabedoria
– Nihil admirari.

Capítulo XVIII

Rio, 8 de janeiro de 1855.

Et une annèe entière a replié ses ailes
Dans l’ombre d’une seule nuit!
(Lamartine)

Ainda vos lembrais do ano passado? Ainda não esquecestes a última
noite de 1854?

Era uma noite de luar, mas turva e carregada. O céu cobria-se de nuvens.
A natureza estava calma e sossegada. As horas corriam silenciosamente.

Deu meia-noite. Um ano terminava, um ano começava. Mas nem um sinal,
nem um vestígio atestava essa grande revolução do tempo
que se acabava de consumar.

Tudo continuava tranqüilo. A noite seguia o seu curso ordinário,
e a lua deslizava solitária por entre as nuvens cinzentas e carregadas
que alastravam o céu.

Que importava, com efeito, que essa hora que soava marcasse o termo de um
ano? Que importava que a fraca inteligência do homem procure limitar
a obra de Deus?

O tempo corre eternamente; os dias se sucedem como os meses, como os anos
e os lustros. Um século que acaba, uma idade que finda, um mundo que
desaparece, é sempre a rápida transição de um
segundo, é apenas um instante que passa.

Todos nós sabemos isso; todos nós vamos correr o tempo com
indiferença; e entretanto o coração nos palpita com emoção
quando ouvimos soar esta hora fatídica da meia-noite, que marca o fim
e o começo de um ano.

É quase impossível reprimir nesse instante solene um movimento
involuntário, que nos faz volver um olhar saudoso ao passado e procurar
no fundo d’alma algum vago pressentimento, alguma promessa risonha, que nasce
subitamente como o novo ano que começa.

Na vida de alguns homens esse rápido instante é o cântico
de um belo poema. Recordações dos dias que passaram, saudades
de uma quadra feliz, culto respeitoso a algumas reminiscências sagradas,
aspirações de glória e de ambição, fé
em Deus, esperança no futuro, todas estas grandes coisas lhes perpassam
confusamente na fantasia, brilham rapidamente, e se extinguem como esses fogos
brilhantes que sulcam as trevas nas noites calmas e serenas.

Para aqueles que ainda se deixam involuntariamente dominar pela poética
e graciosa ficção do ano-bom, este dia é um oráculo
cheio de presságios e de vaticínios. Quanto desejo querido,
quanto voto ardente, não vem afagar no fundo desses corações
aquela primeira aurora do ano! Neste dia pensa-se naquilo que mais se ama
no mundo, janta-se no seio da família, visita-se os amigos e troca-se
mutuamente as boas entradas de ano, os presentes de amizade, as étrennes.

E assim no meio de tudo isto, no meio desses cuidados e desses prazeres,
dos receios e das esperanças novamente criadas, esquecemos a verdadeira
e talvez única realidade deste dia. Um ano que passa – um outro ano
que vem, e com ele a idade e a velhice. .

Bem entendido, não falo aqui de certa gente, que desejaria que um
ano fosse um minuto, e que passasse como uma hora de tédio, ou um dia
de convalescença. Parece incrível, porém não é
menos verdadeiro.

Logo em primeiro lugar temos o pretendente à senatoria, que se acha
na idade crítica dos trinta e nove anos. Vem depois o órfão
que espera os vinte para requerer suplemento de idade, e empolgar a herança
paterna. Finalmente a menina que desterra as malditas calças e o vestido
curto, e entra no rol das moças em estado de casar; e o estudantinho
de latim, que todos os dias procura no queixo as promessas de um buço
rebelde, e que suspira pelo dia em que se emancipará do colégio
e conquistará a santa liberdade da academia e o direito de fumar o
seu charutinho.

É preciso não esquecer o sujeito que tem os seus cinqüenta
e nove anos, e que deseja os sessenta para ver-se livre da guarda nacional
e do recrutamento; nem também o empregado público que suspira
pelo último ano para a jubilação, e o juiz de direito
que está a completar o tempo de ser promovido à primeira entrância.

Para esses o novo ano é sempre alegre e feliz; é o ano da salvação.
Mas para nós, que não estamos nesse caso, que nos prometerá
este ano, que nasceu no meio da chuva como um sapo, tendo por madrinha a lua
cheia ?

Será isto, mau agouro, como entendem as velhas, ou será ao
contrário um presságio de abundância e fertilidade, que
nos livrará da carestia dos gêneros e não nos deixará
mais à mercê das usuras de alguns marchantes?

Creio antes esta última versão. Já não me fascinam
essas promessas brilhantes que nunca se realizam. Embora turvo e carrancudo,
o ano novo para mim se anuncia cheio de futuro e de propriedade para o meu
país.

Ninguém sabe que encantadores mistérios, que risonhos segredos
ocultas no teu seio. Ninguém sabe quanto primor, quanta graça,
quanto mimo de beleza, tuas asas de ouro esparzirão sobre alguma cabecinha
virgem que ainda brinca com os sonhos da infância!

Vêm, novo ano! Vem como o hábil artista do tempo dar os últimos
toques a alguma bela estátua moldada pela natureza, e arredondar a
curva graciosa, as ondulações suaves de umas formas encantadoras!

Vem, como o sopro de Deus, como o fogo do céu, desabrochar uma rosa
ainda em bastão; perfumar a florzinha delicada que apenas começa
a abrir os seios às auras da vida, e tecer de fios de ouro os dias
de uma existência pura e tranqüila!

Vem igualmente dar um pouco de juízo a muita cabecinha louca que aí
anda às voltas por este mundo, tirando o juízo a quem o tem!
Vem fértil de maridos, de bailes, de teatros, de modas, de casamentos.
Traze-nos da Europa algumas boas cantoras; e não te esqueças
de substituir a anarquia que hoje reina no teatro por uma ópera digna
de ti e da boa sociedade desta corte. Para isto já tens o projeto de
uma nova companhia lírica no Teatro de S. Pedro Alcântara, o
qual podes realizar perfeitamente.

Quando tiveres feito todas estas coisas, meu caro, tem paciência, toma
a vassoura e a carrocinha, e trata de varrer e de limpar as ruas da cidade,
no que farás um grande serviço. Estimarei que removas ao menos
a lama de algumas ruas, porque então ser-me-á possível
especializar as outras, e defender-me assim da censura que me fizeram nesta
folha e no Jornal do Comércio por ter falado geralmente; como se a
culpa fosse minha, de não poder achar uma exceção à
falta de asseio!

Acho escusado dizer-te que dispensamos o calor de oitenta graus, as febres
de qualquer cor que sejam, as guerras por mais interessantes que te pareçam.
Quando muito, para quebrares a monotonia do tempo, ficas com o direito salvo
de elevares a temperatura até o ponto de desejar-se o sorvete e os
gelados; e de produzir algumas intermitentes, para que os médicos não
esqueçam de todo a ciência. Em vez de guerras do Oriente, podes
fazer aparecer alguns processos monstros, daqueles que passam a quarta geração,
e que os advogados ingleses dão de dote às suas filhas.

Se quiseres este programa essencialmente conciliador podes contar comigo.
Escrever-te-ei as mais pomposas efemérides de que haja notícia
no mundo; e em dezembro far-te-ei um epitáfio, digo, um retrospecto,
que ocupará as colunas do Correio Mercantil durante oito dias consecutivos.

E para começar vou já cuidando em traçar a história
desta primeira semana que começa pelas étrennes e acaba pelas
cantilenas dos Reis. A chuva, as tardes de trovoadas, o tempo enfarruscado,
entristeceram quase todos estes dias.

Na sexta-feira, porém, uma bela noite de luz, fresca e agradável,
parecia convidar as alegres procissões que lembram a antiga tradição
dos três reis magos, vindos do Oriente guiados por uma estrela para
adorar o Menino Jesus.

Hoje, como todos os antigos costumes, esta festa vai caindo em desuso. Já
quase não se vêem nesta corte aquelas romarias folgazãs,
aqueles grupos de pastorinhas, aquelas cantigas singelas que vinham quebrar
o silêncio das horas mortas.

A noite de Reis atualmente é apenas a noite das ceias lautas, dos
banquetes esplêndidos; de maneira que, a julgar da tradição
pelas festas de agora, dir-se-ia que os reis magos eram três formidáveis
comilões, que vieram do Oriente unicamente para tomarem um fartão
de peixe, de ostras, de maionese e gelatinas.

Em todas as épocas o homem teve a balda de desfazer no presente e
de encarecer o passado. "No nosso tempo era outra coisa" dizem os
velhos desde o princípio do mundo. Entretanto, seja pelo que for, seja
que aquilo que passou exerça sobre a nossa imaginação
um prestígio poderoso, o que é verdade é que nossos pais
sabiam divertir-se melhor do que nós.

Outrora todas as festas tinham o seu quê de original, o seu cunho particular
que as distinguia uma da outra. O Natal era a festa do campo; tinha a sua
missa do galo à meia-noite, as suas alegres noitadas ao relento, os
seus presepes toscos, mas encantadores. Logo depois vinham os Reis com as
suas cantigas, as suas romarias noturnas, as suas coletas para o jantar do
dia seguinte. São João tinha as suas fogueiras, os seus horóscopos
à meia-noite. Ao Espírito Santo armavam-se as barraquinhas,
e faziam-se leilões de frutos e de aves.

Presentemente todas as festas se parecem. Um baile, uma ceia, e tudo feito.
Desde o princípio ao fim do ano vai-se ao baile ou ao teatro. Isto
ainda seria suportável, se procurassem conformar esta espécie
de divertimento à estação que reinasse.

Agora, Poe exemplo, que entramos na força do verão, como não
seriam agradáveis alguns bailes campestres, onde se dançasse
à fresca, entre as árvores, nalgum pavilhão elegante
levantado no meio de jardins? As moças trajariam seus lisonjeiros vestidinhos
brancos próprios da estação; os cavaleiros usariam de
um toilette de verão. Nada de rigorismos diplomáticos e de penteados
sobrecarregados de enormes jardineiras.

Há nesta corte uma Sociedade Campestre que se podia incumbir de realizar
esta idéia; porém infelizmente parece que ela vai marchando
rapidamente para sua completa extinção. De campestre só
tem o título; no mais é uma sociedade como as outras, com a
diferença que dá as suas partidas num pavilhão muito
sujo, muito velho e de muito mau gosto.

Houve a lembrança o ano passado de reabilita-la, e para isso comprou-se
um terreno para uma casa; distribuíram-se as ações pelos
sócios, e recebeu-se a primeira prestação. Planejou-se,
calculou-se, e por fim não se fez nada, na forma do costume. O terreno
está a vender, e os sócios que esperem pelas calendas gregas
para serem reembolsados do seu dinheiro.

Entretanto parece-me que a sociedade ainda tem muitos elementos que se podem
aproveitar; e que, se alguém procurasse dar-lhe um salutar impulso,
poderíamos vir a ter uma reunião bem agradável. Então
a sociedade devia limitar as suas partidas campestres aos seis meses de verão,
e deixar os outros seis meses para os bailes aristocráticos do Cassino
e para os saraus brilhantes que costumam aparecer naquela quadra do ano.

Temos conversado tanto e sobre tantas coisas, que deixo ainda muita idéia
bonita que aí fica com as outras no fundo do tinteiro, esperando a
sua vez de se entenderem sobre o papel. Para as idéias é este
um dia de baile; a pena faz-lhes o toilette, como uma criada grave; e, depois
de bem vestidinhas e bem elegantes, largam-se pelo mundo a namorar, a torto
e a direito, a fazer epigramas e a dizer graças, a bolir este e com
aquele, até que um dia ninguém faz mais caso delas.

Antes, porém, de deixar-vos, minha gentil leitora, quero dar-vos as
minhas étrennes, embora não vos lembrásseis de mandar-me
as festas. O meu cadeau é uma notícia, que creio haveis de apreciar
tanto quanto ela merece. Com o novo ano vai continuar (ou já continuou)
a ser publicado um lindo jornal italiano e português, do hábil
professor Galleano Ravara. Já prevejo com que prazer acolhereis a fride,
que, como uma boa mensageira, irá falar-vos a doce e rica linguagem
do Tasso, do Dante e de Petrarca, e recordar-vos aquelas palavras de Romeu
e Julieta, quando ouviam cantar o rouxinol e a cotovia ao raiar da alvorada.

Por enquanto contentai-vos com estas doces recordações que
vos avivarão saudades da Stoltz e das belas noites do nosso teatro
italiano. Dizem, porém, que daqui a algum tempo tereis mais do que
simples reminiscência: prometem-vos uma cena lírica, onde verdadeiros
artistas executarão as obras-primas dos maestros antigos e modernos.
Cumprir-se-ão tão belas promessas?

Como sabeis, formou-se nesta corte uma associação para montar
no Teatro de S. Pedro de Alcântara uma companhia italiana de primeira
força. Já foram publicadas nesta folha as bases da nova sociedade
que intenta levar a efeito aquele projeto.

No estado em que se acha a nossa cena lírica, semelhante idéia
é um grande benefício. A nova empresa vem promover uma salutar
emulação entre os dois teatros, e destruir o monopólio
que até agora tem existido, com grave prejuízo do público.

Além deste melhoramento, que resulta do simples fato da concordância,
a organização de uma sociedade deste gênero pode trazer
muitas vantagens importantes. Os bons espetáculos, o exemplo e a lição
de artistas de mérito, hão de necessariamente desenvolver entre
nós o verdadeiro estudo da música italiana, e aproveitar muito
aos talentos nacionais que aparecerem.

Se a nova sociedade realizar as suas idéias, se, em vez de amostras
líricas, nos der verdadeiras óperas, ainda continuará
a admitir-se a absoluta necessidade de uma subvenção do governo?
Ainda haverá empresa desinteressada que receba 120 contos de réis
do tesouro para carregar com um déficit enorme?

Estes exemplos de filantropia desaparecerão infelizmente; porém
o governo economizará por ano uma centena de contos, que poderá
destinar à construção de um teatro nacional ou de uma
pequena ópera, feita pelo modelo dos melhores teatros da Itália
e da Alemanha.

A nova empresa tem de lutar com imensas dificuldades; mas se conseguir vence-las,
o teatro de S. Pedro de Alcântara virá a ter as suas belas noites,
e reunirá no seu pequeno salão a fina flor da sociedade desta
corte.

Que importa que estas noites custem mais caro?

Todos conhecerão que este aumento de preço é puramente
nominal, uma noite em que, além de uma brilhante reunião se
tem o prazer de ouvir a verdadeira música de Rossini, de Verdi e de
Bellini, de Donizetti e de Meyerbeer, vale mais do que quatro ou cinco noites
de ensaios no Provisório, onde algumas vezes se canta para os bancos
e para os camarotes vazios.

Entretanto cumpre que a sociedade, desprezando os funestos precedentes do
nosso teatro, guarde toda a lealdade nos seus empenhos com o público,
e se esforce por manter aquela ordem e regularidade tão necessária
à comodidade dos espectadores e aos próprios interesses da sociedade.

Assim, os espetáculos devem ter dias certos e determinados na semana,
e começarem a horas precisas, nunca excedendo de meia-noite.

Seria muito útil que se estabelecesse também o costume de interromper
os espetáculos durante os dois ou três meses da força
do verão. Esta interrupção, cuja vantagem ainda não
se compreendeu entre nós, facilita à empresa o estudo e preparo
de novas óperas, e dá-lhe tempo de contratar novos artistas
na Europa.

Realizando a nova sociedade estas condições, pode contar da
nossa parte com um apoio fraco, mas leal. Ao contrário, se não
corresponder às suas brilhantes promessas não se poderá
livrar de uma grave censura; e os nomes que nela se acham empenhados terão
de responder ao público e à imprensa pelos males que possam
ocasionar ao nosso teatro.

Capítulo XIX

Rio, 14 de janeiro

As sociedades em comandita, eis a questão do dia. O abecedário
inteiro tem saído a campo; e cada letra é um novo campeão
que desce à liça do combate.

Todas as armas têm sido tomadas. A lógica, o estudo profundo
do objeto, a dialética de uma argumentação vigorosa,
ressaltam nos primeiros artigos, publicados no Jornal do Comércio e
assinados por duas iniciais, que, como todos sabem, denunciam uma das nossas
capacidades, um dos espíritos mais bem organizados em matéria
de jurisprudência.

Abrangendo a questão num ponto de vista largo e profundo, aqueles
artigos desenvolveram a questão comanditária desde a sua verdadeira
base até as últimas conseqüências do decreto de 13
de dezembro de 1850.

Há poucos dias um dos advogados mais distintos do nosso foro nos dizia,
a respeito destes artigos, que poderiam ter sido escritos por ele: Não
é um artigo de jornal, é um tratado.

No Correio Mercantil a questão tomou outra face; mas foi habilmente
tratada. A pena que defendeu o ano passado o projeto de reforma judiciária,
que se discutia na câmara, veio de novo à imprensa para sustentar
o decreto do governo, com os conhecimentos, com o estilo claro e fluente de
que já havia dado provas.

Infelizmente, porém a questão não se manteve na altura
a que a tinham elevado os dois ilustres membros da magistratura e da classe
dos advogados.

Insinuações pessoais, alusões injustas e deslocadas,
vieram tomar o lugar de argumentos, e responder àquilo que o direito,
a justiça e os princípios de razão haviam estabelecido
no desenvolvimento da questão.

Por ora a discussão tem sido unicamente entre as consoantes; as vogais
conservam-se neutras, e esperam talvez o resultado da luta para emitirem,
com verdadeiro conhecimento de causa, uma opinião conscienciosa.

Se os espíritos graves se preocupam com esta questão interessante,
com as últimas notícias do Oriente, e com o resultado provável
da nossa Guerra do Paraguai, os outros pensam no carnaval, que o seu cortejo
de folias e extravagâncias.

O carnaval!… Enquanto ele está longe, enquanto ele não vem
transtornar o juízo com os seus momos grotescos e suas voluptuosas
bacantes, aproveitemos a ocasião, e falemos sério a seu respeito.

Creio que são inteiramente infundados alguns receios que há
de vermos reviver ainda este ano o jogo grosseiro e indecente de entrudo,
que por muito tempo fez as delícias de certa gente. Além das
boas disposições do público desta corte, devemos contar
que a polícia desenvolverá toda a vigilância e atividade.

Depois que o Sr. Desembargador Siqueira, entre tantos outros benefícios
que nos fez, conseguiu extinguir esse antigo costume português, a polícia
carrega com uma responsabilidade muito maior do que nos anos anteriores. Outrora
era um uso arraigado com o tempo, e por conseguinte difícil de extirpar;
hoje seria um abuso, que só a negligência poderia deixar que
se renovasse.

Muitas coisas se preparam ente ano para os três dias de carnaval. Uma
sociedade criada o ano passado, e que conta já perto de oitenta sócios,
todos pessoas de boa companhia, deve fazer no domingo a sua grande promenade
pelas ruas da cidade.

A riqueza e luxo dos trajes, uma banda de música, as flores, o aspecto
original desses grupos alegres, hão de tornar interessante esse passeio
dos máscaras, o primeiro que se realizará nesta corte com toda
a ordem e regularidade.

Quando se concluir a obra da Rua do Cano, poderemos então imitar,
ainda mesmo de longe, as belas tardes do Corso em Roma.

Entretanto a sociedade teve já este ano uma boa lembrança.
Na tarde de segunda-feira, em vez do passeio pelas ruas da cidade, os máscaras
se reunirão no Passeio Público, e ai passarão a tarde,
como se passa uma tarde de carnaval na Itália, distribuindo flores,
confete, e intrigando os conhecidos e amigos.

Naturalmente, logo que a autoridade competente souber disto, ordenará
que a banda de música que costuma tocar ao domingo guarde-se para a
segunda, e que em vez de uma, sejam duas ou três.

Confesso que esta idéia me sorri. Uma espécie de baile mascarado,
às últimas horas do dia, à fresca da tarde, num belo
e vasto terraço, com todo o desafogo, deve ser encantador.

O que resta é que as nossas patrícias, todas mimosas e aristocráticas
como são, não se deixam levar de velhos prejuízos, e
continuem a temer a simples vista de uma máscara como de uma coisa
perigosa.

Todos os membros da sociedade são pessoas delicadas e do mais fino
trato; e por conseguinte podem ter certeza que quaisquer palavras, qualquer
galantaria, não serão capazes de ofender nem sequer uma suscetibilidade.

Assim, pois, cessem estes escrúpulos. Quando vos oferecem com tanta
amabilidade uma bela ocasião de gozar de algumas horas de prazer, não
está bem da vossa parte uma recusa e um completo desdém. Ao
contrário, mostrai que lhe dais algum apreço, porque isto nos
animará a fazer uma outra coisa que ainda está em muito segredo,
mas que eu vos conto em confidenza, com a condição de que ficará
entre nós unicamente.

Lembram-se alguns amigos, a conversar a respeito do carnaval, que era possível
dar-se um baile de máscaras no qual vós pudésseis tomar
parte, e não ser simples espectadores, como nos teatros.

Querem ver que já estais a fazer algum muxoxo de desdém, e
a pensar que todos os anos se fala nisto e que nunca se chega a efetuar. Paciência!
Tanto se há de falar que um dia a coisa se há de realizar. Mais
vale tarde do que nunca.

Entretanto suponde que a diretoria do Cassino toma a peito esta idéia,
e que com os mesmos sócios do Cassino, e com algumas outras pessoas
aprovadas por ela, forma uma nova sociedade filial para dar todos os anos
um baile mascarado, começando por este carnaval.

Feito isto, ainda duvidareis do bom êxito da nossa lembrança?
Estou certo que não. Vós conheceis os diretores do Cassino,
e vos lembrais dos bailes magníficos que nos tem dado o seu amável
presidente. Assim, pois, a dificuldade está em convence-lo. Pedi-lhe;
e não se me dá de apostar que é coisa feita.

Como já deveis estar aborrecida da prosa chã e rasteira deste
artigo, dou-vos uns lindos versinhos que li num álbum um destes dias.
Se os quereis achar ainda mais bonitos do que eles realmente são, suponde
que vos foram dedicados.

Capítulo XX

Rio,21 de janeiro

Sexta-feira, era tarde da noite. Pensava, não me lembra a que propósito.

Se há coisa que dê asas ao pensamento, que solte o vôo
à fantasia, é uma dessas mudas contemplações pelo
silêncio da noite, quando num momento de tédio o espírito
se revolta contra as misérias do presente, e procura além no
futuro, ou nos tempos que passaram, um novo elemento de força e de
atividade.

A imaginação se lança no espaço, percorre mundos
desconhecidos, atravessa o tempo e a distância, e vai muitas vezes acordar
os ecos do passado, revolver as cinzas das gerações extintas,
ou contemplar as ruínas de uma cidade opulenta, de um vasto império
abatido.

A história se desenha então como um grande monumento. Ao volver-lhe
as páginas, volvem-se os séculos. Os anos correm por minutos.
As raças que desapareceram da face da terra se levantam do pó,
e passam como sombras fugitivas. Cada folha do grande livro, é o berço
de um povo, ou o túmulo de uma religião, um episódio
na vida da humanidade.

Era tarde da noite.

Ao redor tudo estava tranqüilo. A cidade dormia; o silêncio pairava
nos ares. Apenas algumas luzes suspensas na frente de uma ou outra casa, e
perdidas no clarão do gás, faziam reviver do esquecimento uma
grande recordação da nossa história.

Havia apenas vinte dias que começara o novo ano; e esses dias, que
agora corriam tão calmos e tranqüilos, há mais de três
séculos passavam e repassavam sobre esta cidade adormecida, deixando-lhe
sempre uma data memorável, escrevendo-lhe o período mais brilhante
dos seus anais.

O tempo, por uma coincidência notável, parece ter confiado ao
mês de janeiro os maiores acontecimentos, os destinos mesmos desta grande
cidade que dele recebeu o seu nome, que com ele surgiu do seio dos mares aos
olhos dos navegantes portugueses, e neles recebeu o primeiro influxo da civilização
e ergueu-se das entranhas da terra para um dia talvez vir a ser a rainha da
América.

E todas essas recordações se traçavam no meu espírito
vivas e brilhantes. As sombras se animavam, os mortos se erguiam, o passado
renascia.

Aquela massa negra da cidade que se destacava no meio da escuridão
da noite levantava-se aos meus olhos como um pedestal gigantesco, onde de
momento a momento vinha colocar-se uma grande figura de nossa história,
que se desenhava no fundo luminoso de um quadro fantástico.

Era uma visão como o sonho de Byron, como a cena da gruta no Mackbeth
de Shakespeare.

Vi ao longe os mares que se alisavam, as montanhas que se erguiam, as florestas
virgens que se balouçavam ao sopro da aragem, sob um céu límpido
e sereno.

Tudo estava deserto. A obra de Deus não tinha sido tocada pela mão
dos homens. Apenas a piroga do índio cortava as ondas, e a cabana selvagem
suspendia-se na escarpa da montanha.

A bela virgem da Guanabara dormia ainda no seio desta natureza rica e majestosa,
como uma fada encantada por algum condão das lendas de nossos pais.

A aurora de um novo ano – de 1531 – surgia dentre as águas, e começava
a iluminar esta terra inculta. Algumas velas brancas singravam ao longe sobre
o vasto estendal dos mares.

Passou um momento. A figura de Martim Afonso destacou-se em relevo no fundo
desta cena brilhante, e tudo desapareceu como um sonho que era.

Mas um novo quadro se desenhou no meu espírito.

No meio de um povo em lágrimas, ergue-se o vulto imponente de um fidalgo
português. Sua vida lia-se no dístico gravado sob o pedestal
em letras de ouro:

Arte regit populos, bello proecepta ministrat
Mavortem cernit milite, pace Numam

Ergueu-se. Era o Conde de Bobadela. Contemplou um instante esta cidade que
havia governado vinte e nove anos e cinco meses, esta cidade que tinha aformoseado
e engrandecido. Depois deitou-se no seu túmulo e passou. Um grande
préstito fúnebre o seguiu.

Novo quadro ainda se desenhou no meu espírito.

Vi um combate naval.. Vi o assalto de uma fortaleza – de Villegaignon. A
fumaça envolve os combatentes; ronca a artilharia; a de flecha voa
com o pelouro; a piroga do selvagem lança-se no ataque..

Um cavalheiro desconhecido atira-se ao mais forte da peleja e anima os combatentes
portugueses. Seu corpo é invulnerável, suas palavras excitam
o entusiasmo e a coragem. Dir-se-ia que uma auréola cinge a sua cabeça.

Mais longe o general português expira, e seus soldados redobram de
esforço e de valor para vingar a sua morte, e para ganhar enfim uma
vitória tão valentemente disputada pelos franceses.

Terminou o combate. Aquele soldado, que com a ponta de sua espada, ainda
tinta do sangue do inimigo, traça sobre o campo da batalha a planta
de uma nova cidade – é Estácio de Sá, o fundador do Rio
de Janeiro.

A pequena colônia começou a estender-se pelas ribeiras da baía,
e cresceu no meio desta terra cheia de força e de vigor. De simples
governo passou a vice-reinado; depois à capital de um reino unido;
e por fim tornou-se a corte de um grande Império.

Mas que vulto é este que assoma no meio do entusiasmo e da exaltação
patriótica do povo agradecido? Não tem ainda a coroa, nem o
manto; mas há nele o tipo de um grande imperador, de um herói.

É D. Pedro I, que, em resposta à representação
do senado, da câmara e do povo da cidade, profere essa palavra memorável,
que decidiu do futuro do Brasil, e que, firmando as primeiras bases da nossa
independência política, concorreu igualmente para elevar o Rio
de Janeiro a capital do novo Império.

Contemplei por muito tempo, tomado de santo respeito, esse tipo simpático
de um monarca cavalheiro, que deixou na nossa história os mais brilhantes
traços de sua vida.

Lançando os olhos sobre esta cidade, que ele tanto amara seu rosto
expandiu-se. Viu o comércio e a indústria florescerem, criando
esses grandes capitais que alimentam as empresas úteis para o país.
Viu o amor e a dedicação nos degraus daquele trono em que se
sentara. Viu por toda a parte a paz e a prosperidade.

Volveu ainda um último olhar, e sumiu-se de novo nas sombras do passado.

O que acabais de ler é uma página perdida, é uma folha
arrancada a um livro desconhecido, que talvez daqui a algum tempo vos passará
pelos olhos, se não tiver o destino de tantos outros, que, antes de
nascidos, vão morrer entre as chamas.

A história do Rio de Janeiro tem algumas páginas, como essa,
tão belas, tão poéticas que às vezes dá
tentações de arranca-las das velhas crônicas, onde jazem
esquecidas para orna-las com algumas flores deste tempo.

Hoje não aparecem mais desses fatos brilhantes de coragem e heroísmo.
A época mudou: aos feitos de armas sucederam as conquistas da civilização
e da indústria. O comércio se desenvolve; o espírito
de empresa, servindo-se dos grandes capitais e das pequenas fortunas, promove
o engrandecimento do pais, e prepara um futuro cheio de riqueza e de prosperidade.

Ide à Praça. Vereis que agitação, que atividade
espantosa preside às transações mercantis, às
operações de crédito, e sobretudo às negociações
sobre os fundos de diversas empresas. Todo o mundo quer ações
de companhias; quem as tem vende-as, quem não as tem compra-as. As
cotações variam a cada momento, e sempre apresentando uma nova
alta no preço.

Não se conversa mais sobre outra coisa. Os agiotas farejam a criação
de uma companhia; os especuladores estudam profundamente a idéia de
alguma empresa gigantesca. Enfim, hoje já não se pensa em casamento
rico, nem em sinecuras; assinam-se ações, vendem-se antes das
prestações e ganha-se dinheiro por ter tido o trabalho de escrever
o seu nome.

Este espírito da empresa e esta atividade comercial prometem sem dúvida
alguma grandes resultados para o país; porém é necessário
que o governo saiba dirigi-lo e aplica-lo convenientemente; do contrário,
em vez de benefícios, teremos de sofrer males incalculáveis.

É preciso não conceder autorização para incorporação
de companhias que não revertam em bem do país, que não
tenham todas as condições de bom êxito. Não procedendo
desta maneira, se falseará o espírito da lei e a natureza das
sociedades anônimas, e se perderá indubitavelmente o concurso
deste poderoso elemento de riqueza e de engrandecimento.

Companhias que, como algumas que já existem, não forem criadas
no pensamento de uma necessidade pública, ou de uma grande vantagem
do país, não só esgotarão os capitais que podem
servir para outras obras de maior alcance, como desacreditarão o espírito
de empresa, desde que, como é natural, os seus lucros não corresponderem
às esperanças do comércio.

Cumpre também – já falamos em companhias – que o governo trate
de exos, em tantas negligências, que é provável haver
um fundo de verdade nas exagerações que costumam envolver certas
censuras.

E sobre isto me parece que é tempo de quebrar-se esse círculo
de ferro do exclusivismo e do monopólio, que tanto mal começa
a fazer à nossa navegação de costeio. O privilégio
é um agente aproveitável nos países novos; mas convém
que seja empregado com muita reserva, e unicamente no período em que
a indústria que se quer proteger ainda não tem o desenvolvimento
necessário.

Atualmente que nos nossos estaleiros e na Ponta da Areia, já se constroem
tantos vapores próprios para a navegação do interior,
qual é a vantagem que resulta das empresas privilegiadas? Não
é isto matar a concorrência, e impedir que uma indústria
útil se desenvolva e se aperfeiçoe?

Repetimos. O governo deve examinar escrupulosamente este objeto; e não
só abster-se de conceder incorporações de companhias
privilegiadas desta natureza, como desautorizar, na forma do código
comercial, a existência daquelas que não tiveram cumprido as
condições da sua organização.

É porque desejamos unicamente o bem do país que tememos esses
desvios no espírito de empresa que se está desenvolvendo tão
poderosamente no Império, e sobretudo na praça do Rio de Janeiro.

Entretanto há algumas companhias, como por exemplo a da Rua do Cano,
que se incorporou ultimamente com o nome de Reformadora , a qual deve merecer
do governo toda a proteção, por isso que para o futuro ela pode
vir a realizar grandes melhoramentos urbanos, e criar um sistema de arquitetura
de casa muito necessário ao aformoseamento da cidade e à higiene
pública.

É inconveniente, porém, a demora que tem havido no regulamento
da companhia, principalmente aparecendo na praça algumas apreensões
(que julgo infundadas) a respeito de condições rigorosas que
se supõe seriam impostas à sociedade. O objeto me parece maduramente
estudado, esclarecido por uma luminosa discussão nas câmaras
e pelos planos e dados estatísticos coligidos na municipalidade pelo
Dr. Haddock Lobo. Não enxergamos, pois, uma razão plausível
para essa tardança do regulamento, aliás tão prejudicial
ao público e aos proprietários da Rua do Cano.

Depois da empresa Reformadora, organizou-se a companhia de colonização
agrícola do Rio Novo, com um capital de quinhentos contos de réis,
representado por 2.500 ações. Foi o Major Caetano Dias da Silva,
fazendeiro na Província do Espírito Santo, Município
de Itapemirim, quem teve a idéia da criação desta sociedade.

A importância do seu objeto, a inteligência e a longa prática
do seu diretor, junta à fertilidade, a um clima salubre e à
facilidade de comunicações com as grandes praças de comércio,
asseguram a esta companhia grandes vantagens, que reverterão todas
em proveito do país, e particularmente da Província do Espírito
Santo.

A colonização para um novo e de vasto território, como
o nosso, é a primeira condição de riqueza e de engrandecimento.
O estrangeiro que procura o nosso país não nos traz unicamente
braços e forças para o trabalho material; não é
somente um número de mais que se aumenta ao recenseamento da população.

É uma inteligência prática que melhora a indústria
do país e um grande elemento de atividade que desenvolve as forças
produtivas da terra; é finalmente uma nova seiva que vigora, uma nova
raça que vem identificar-se com a raça antiga aperfeiçoando-se
uma pela outra. O nosso governo tem compreendido o grande alcance da colonização,
e, o que é mais, tem-se empenhado em promove-la eficazmente.

Depois que o Sr. Conselheiro Euzébio de Queirós travou a última
luta contra o tráfico, e conseguiu esmagar essa hidra de Lerna, cujas
cabeças renascem do seu próprio sangue, o nosso governo tratou
de aproveitar o favorável ensejo que lhe oferecia a crise proveniente
da deficiência dos braços para a agricultura.

Começou-se então a olhar com mais atenção para
as nossas pequenas colônias do Sul; e animou-se a Sociedade Hamburgo,
à qual devemos neste ponto grandes serviços pela exatidão
com que tem cumprido as suas obrigações e pelo zelo com que
constantemente na Alemanha defende a nossa causa, contra os ridículos
inventos de alguns detratores.

Consta-nos agora que o nosso governo acaba de tomar suas medidas, que são
da maior importância, para o futuro da colonização.

A 1.ª é a autorização mandada ao nosso ministro
em Londres a fim de promover a emigração de Chins para o Brasil
segundo as bases e instruções que já lhe foram remetidas.
Os bons resultados que se têm conseguido desta emigração
nas colônias inglesas nalguns lugares da América Meridional nos
deve dar boas esperanças para a nossa cultura do chá e do café.

A outra deliberação do governo que nos consta, que se deduz
de alguns atos ultimamente praticados – é a da subvenção
de 30$000 concedida por cada colono maior de dez anos e menor de 45, honesto
e ervou-se muito prudentemente em que convém conceder o favor.

Esta medida inesquecivelmente é um poderoso auxílio para as
companhias agrícolas, ao mesmo tempo que corta certas empresas mercantis
muito prejudiciais, e que previne, de alguma maneira, a introdução
de colonos que não tenham boa moral e uma vida honesta.

Depois destas rápidas observações, creio que se pode
dizer com toda a franqueza de uma opinião sincera que o governo cumpriu
o seu dever e faz mais do que se podia exigir dos poucos recursos de que dispõe.

Estamos, porém, em tempo de tratar, não de pequenas colônias,
mas de uma colonização em vasta escala, de uma emigração
regular que todos os anos venha aumentar a nossa população.

O governo, pois, que chame a atenção do corpo legislativo sobre
este assunto e que inicie um projeto de lei, no qual se adotem as medidas
tomadas pelos Estados Unidos para promover a emigração. Eu lembraria
neste caso a conveniência de limitar os favores concedidos unicamente
àquelas nações cuja população desejaríamos
chamar ao nosso país.

Não temos nada a invejar à América Inglesa em recursos
naturais, em fertilidade do solo, em elementos de riqueza. O nosso clima é
mais salubre; desde o sul ao norte temos no alto das nossas serras uma temperatura
quase européia.. Como país ainda inculto, oferecemos muito maior
interesse ao colono agrícola que quiser explorar a terra.

Por que razão, pois, não havemos de ter a mesma emigração?

Porque temos ciúme do estrangeiro, porque guardamos como um avaro
este título de cidadão brasileiro, e o consideramos como uma
espécie de quinhão hereditário que se amesquinha à
proporção que se divide. É por isso que vemos no estrangeiro
um intruso, um herdeiro bastardo, que nos quer disputar a herança paterna,
isto é, os empregos, os cargos eleitorais e as sinecuras.

Sacrifiquemos esses prejuízos ao interesse público, e pensemos
ao contrário, que é levando por toda parte este título
de cidadão brasileiro, que é recebendo na nossa comunhão
todos os irmãos que nos estendem a mão, que um dia faremos aquele
nome grande e poderoso, respeitado da Europa e do mundo.

Voltai! Voltai depressa esta folha, minha mimosa leitora! São coisas
sérias que não vos interessam. Não lestes?… Ah! fizestes
bem!

Com efeito, que vos importa a vós estas espécies de companhias,
se tendes as vossas à noite, junto do piano, a ensaiar com alguma amiga
um belo trecho da música, a cantar alguma ária, algum dueto
de Trovador? Que vos importa nestes momentos saber o que vai algures, se as
ações baixam, ou se uma pobre cabeça atordoada de pensar
já não pode de tanto que lhe corre a pena?

Era melhor que tivesse tomado a boa resolução de ir fazer um
giro pelo Passeio Público.

A aceitação dessas de outras idéias que temos lembrado
nos anima ainda a dizer alguma coisa sobre os melhoramentos do Passeio Público,
principalmente quando o Sr. Ministro do Império, como homem de bom
gosto que é, se tem mostrado tão desejoso de embelezar este
lugar e torna-lo um agradável ponto de reunião.

Para isso a primeira coisa a fazer é o asseio e a limpeza. As árvores
ainda estão muito maltratadas; os dois tanques naturais sobre os quais
se elevam as duas agulhas de pedra estão tão bem fingidos que
são naturais de mais; pelo menos, têm lodo e limo como qualquer
charneca de pântano. A arte deve imitar a natureza, mas nem tanto. Há
também uma palhoça a um dos lados do passeio, que, a não
estar ali como coisa exótica, não lhe compreendo a utilidade.
Não digo que a deitem abaixo como uma parasita; mas é bom cuidar
em faze-la seguir o destino das coisas velhas e feias.

Outro dia me disseram que o Sr. Conselheiro Pedreira tencionava renovar as
grades das alamedas, e substituir o muro exterior por gradeados de ferro,
para o que já se havia feito o orçamento.

A primeira idéia é muito acertada; todos sentem a necessidade,
e nós mesmos já a lembramos. Quanto à segunda, não
acreditamos. É impossível que o Sr. Ministro do Império
tenha tido esta lembrança. Para que servem nos jardins as grades exteriores?
Para descobrir a beleza das alamedas e abrir um lanço de vista agradável.

No Passeio Público, porém, servirão para mostrar árvores
velhas, ruas estragadas, e finalmente o tal Nestor das casinhas velhas de
que já falamos. Tratemos, pois, primeiro do interior.

Assim parece-nos que seria muito agradável e muito fácil, fazer
correr veios de água límpida ao longo das alamedas, e construir-se
nos quadros alguns repuxos e jets deau…

Ai! lá me caiu a palavra do bico da pena. Nada; vamos tratar de nacionalizar
a língua; um correspondente do Correiro Mercantil de segunda-feira
reclama de nós este importante serviço.

Mas que quer dizer nacionalizar a língua portuguesa? Será mistura-la
com o tupi? Ou será dizer em português aquilo que é intraduzível,
e que tem um cunho particular nas línguas estrangeiras?

Há de ser isso. Mãos à obra. Daqui em diante, em vez
de se dizer passei num coupé, se dirá andei num cortado. Um
homem incumbirá a algum sujeito que lhe compre entradas, e ele lhe
trará bilhetes de teatro em vez de étrennes. E assim tudo o
mais.

Quanto a termos de teatro, fica proibido o uso das palavrinhas italianas,
porque enfim é preciso nacionalizar a língua.

E é bom que os dilettanti (perdão – amantes de música)
fiquem desde já prevenidos disto, porque breve, parece que vamos ter
uma excelente companhia.

A nova empresa de que vos falei há quinze dias organizou-se e nomeou
a sua diretoria. Pelo Maria 2.ª, partem para a Europa duas pessoas encarregadas
de contratar os artistas necessários, entre os quais virão quatro
primeiras partes, escolhidas no que houver de mais notável na Europa.
Levam ordem de oferecer honorários dignos das melhores reputações
européias.

A empresa pode já contar com 2:500$000 por noite, de assinaturas tomadas
até hoje; e espera aumentar esta soma. A primeira estação
de quarenta récitas começará a 12 de julho deste ano
e terminará a 12 de dezembro de 1856.

Basta. Vamos agora desfolhar algumas flores, e derramar uma lágrima
de saudade sobre a lousa de um grande poeta.

Enquanto seus irmãos na inspiração e na poesia vão
acordar os ecos da morte com um cântico sentido, seja-me permitido a
mim, humilde prosador, misturar um goivo às flores perfumadas da saudade,
e derramar uma lágrima sobre o fogo sagrado.

A beira desse túmulo, onde o poeta dos grandes amores, das paixões
ardentes, o poeta do coração, talvez que venha pender uma cabeça
pálida, e que os ecos da tarde murmurem às brisas que passarem,
aquela endeixa repassada de tanta mágoa:

Correi sobre estas flores desbotadas,
Lágrimas tristes minhas, orvalhai-as,
Que a aridez do sepulcro as tem queimado.

Mas erguei os olhos! Nesses versos que aí vedes é um irmão
que fala. Silêncio, pois! Deixemos ao poeta dizer as saudades da poesia.
Lede a bela poesia do Sr. Andrada Machado sobre a morte de Garrett.

À MORTE DO INSIGNE POETA PORTUGUES
VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT

Morrer! Porqu’extinguir-se assim tão rápida
A centelha vivaz que alumiava
Por entre os véus da noite a turba varia?
Morrer! E além perder-se fenecida
A fronte poderosa que abrigava
A vontade de Deus! – Nem mais seus olhos
Lerão nos astros a marcada rota
Que o mundo há de seguir.

De Lísia a musa – joelho em terra – pára
Junto da campa que entre a noite alveja!
Treme-lhe o corpo, como sacudido
Por ventania rija, e os olhos turvos
Em vão se esforçam por verter um pranto –
Consolo que lhe adoce a dor cruenta.
E as lágrimas enxutas se derramam
Por sobre a face em convulsivos traços
Do sangue coagulado que nas veias
De súbito estancou.

Que maldição, Senhor, açoita o século!
A morte hedionda, entrechocando os ossos,
Tripudia de júbilo, espreitando
A vítima infeliz. Seu peito cavo
Anseia de alegria. Os que mais alto
Erguem a fronte refulgindo glórias.
— Decrépita manceba – ela escolhe;
E tenta remoçar o amor adusto,
Chupando o sangue que mais puro gira
Em coração de homem.

E assim de um só ímpeto se apaga
Uma vida que rútila brilhara,
Seus raios desferindo a acalentaram
Com seu almo calor as mós do povo!
E assim resvala na solidão perdida
A voz que descantara em lira d’oiro,
Com coração pungido de amarguras,
A cruenta desgraça do poeta
Que morreu com a pátria.

Oh! Que sina tão negra a do poeta!
Escolhido da dor, perlustra a vida,
Rasgando o seio que a desgraça oprime,
A derramar nos cantos inspirados
Essa de vida seiva tão possante
Que pródigo oferece às multidões.
E por trôco o sofrer angustiado
Do maldito de Deus que vaga incerto
No caminhar contínuo.

Nenhum consolo sobre a terra ao pobre!
E quando era sentado sobre o marco,
Pendida à frente a descantar às auras
A dulia inefável de seu seio,
A morte lhe interrompe o canto suave,
Que ele vai terminar na eternidade
Junto ao trono de Deus.

Que plácido repouse nas alturas –
No remanso da paz – entre os arcanjos,
Que em seus braços o acolhem pressuroso!
E unindo sua lira em nota amena
Às harpas divinais, ufano entoe
Os hinos do Senhor.

Feliz, despiu a túnica poenta;
E, se prostrado jaz na loiza frígida
Estanguido seu corpo pela morte,
Eternos viverão seus divos cantos,
Que não há esquecer obras que o gênio
Com seu sopro inspirou.

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado

Capítulo XXI

Rio, 25 de fevereiro

Foi-se o carnaval. Passou como um turbilhão, como sabá de feiticeiras,
ou como um golpe infernal.

Nesses três dias de frenesi e delírio a razão fugiu espavorida,
e a loucura, qual novo Masaniello, empunhou o cetro da realeza.

Ninguém escapou ao prestígio fascinador desse demônio
irresistível: cabeças louras, grisalhas, encanecidas, tudo cedeu
à tentação.

Entre as amplas dobras do dominó se disfarçava tanto o corpinho
gentil de uma moça, travessa, como o porte grave de algum velho titular,
que o espírito remoçava.

Dizem até que a política – essa dama sisuda e pretensiosa –
se envolveu um momento nas intrigas do carnaval, e descreveu no salão
uma parábola que ninguém talvez percebeu.

Deixemos, porém, dormir no fundo do nosso tinteiro esses altos mistérios
que se escapam à pena do folhetinista. Já não estamos
no carnaval, tempo de livre pensamento – tempo em que se pode tudo dizer –
em que é de bom gosto intrigar os amigos e as pessoas que se estimam.

Agora que as máscaras caíram, que desapareceu o disfarce, os
amigos se encontram, trocam um afetuoso aperto de mão e riem-se dos
dissabores que causaram mutuamente uns aos outros.

O nosso colega do Jornal do Comércio, que se disfarçou com
três iniciais que lhe não pertenciam, compreende bem essas imunidades
do carnaval.

Hoje, que o reconhecemos, não é preciso explicações:
ele tem razões de sobra para acreditar que sinceramente estimamos o
seu valioso auxílio na realização de uma idéia
de grande utilidade para o país.

Nunca desejamos o monopólio; ao contrário, teríamos
motivos de nos felicitar, se víssemos geralmente adotada pela imprensa
do nosso país uma tentativa, um ensaio de publicação,
cuja falta era por todos sentida.

Quando deixamos cair do bico da pena um ligeiro remoque à publicação
do colega, não era que temêssemos uma imitação;não
era porque receássemos uma emulação proveitosa entre
os dois mais importantes órgãos da imprensa da corte.

Esta luta, mantida com toda a lisura e toda lealdade, nós a desejamos
em bem do pais, embora nos faltem os recursos para sustenta-la com vantagem.
É dela, é do calor da discussão, do choque das idéias,
que têm nascido e que hão de nascer todos os progressos do jornalismo
brasileiro.

O que nós receávamos era a reprodução de uma
dessas lutas mesquinhas, indignas de nós ambos, e das quais a história
da nossa imprensa apresenta tão tristes exemplos. Era um desses manejos
impróprios de jornalistas, e aos quais o mecanismo complicado da nossa
administração tanto favorece. Era enfim uma representação
dessa ridícula farça de publicidade tão em voga nas nossas
secretarias, nas quais se dão por favor as cópias dos atos oficiais
ao jornal que quer fazer um favor publicando-as.

Temíamos uma luta desta natureza, porque não estamos ainda
afeitos à chicana; porque, do momento em que ela se tornasse necessária,
seríamos forçados a abandonar uma idéia, pela qual trabalhamos
com todo o amor que nos inspira a nossa profissão.

É tempo, porém, de voltarmos ao carnaval, que preocupou os
espíritos durante toda a semana, e deu matéria larga às
conversas dos últimos dias.

Entre todos os festejos que tiveram lugar este ano cabe o primeiro lugar
à sociedade Congresso das Sumidades Carnavalescas, que desempenhou
perfeitamente o seu programa, e excedeu mesmo a expectativa geral.

No domingo fez esta sociedade o seu projetado passeio pelas ruas da cidade
com a melhor ordem; foi geralmente recebida, nos lugares por onde passou,
com flores e buquês lançados pelas mãozinhas mimosas das
nossas patrícias, que se debruçavam graciosamente nas janelas
para descobrirem entre a máscara um rosto conhecido, ou para ouvirem
algum dito espirituoso atirado de passagem.

Todos os máscaras trajavam com riqueza e elegância. Alguns excitavam
a atenção pela originalidade do costume; outros pela graça
e pelo bom gosto do vestuário.

Nostradamus – uma das mais felizes idéias deste carnaval – com o seu
longo telescópio examinava as estrelas, mas eram estrelas da terra.
Um Merveilleux dandinava-se na sua carruagem, repetindo a cada momento o seu
c’est admirable! quando a coisa mais incrível deste mundo é
a existência de um semelhante tipo da revolução francesa.

Luis XIII, livre do Cardeal de Richelieu, tinha ao lado uma Bayadère,
e parecia não dar fé do seu rival Lord Buckingham, que o seguia
a cavalo no meio de um bando de cavaleiros ricamente vestidos.

Esquecia-me dizer que ao lado do Merveilleux ia um Titi de marinha, que atirava
concetti em vez de confetti. Era o mais fácil de conhecer, porque a
máscara dizia o que ele seria se as moças que o olhavam fossem
cordeirinhos.

Em uma das carruagens iam de companhia Temistovles, Soulouque, Benevenuto
Cellini, Gonzalo Gonzáles, quatro personagens que nunca pensaram se
encontrar neste mundo, e fazerem tão boa amizade.

Se fosse possível que Temístocles e Benevenuto Cellini passassem
esta tarde por uma das ruas por onde seguiu o préstito, estou persuadido
que o artista florentino criaria uma nova Hebe mais linda que a da Canova;
e que o general antigo rasgaria da história a página brilhante
da batalha de Salamina por um só desses sorrisos fugitivos que brincam
um momento numa boquinha mimosa que eu vi, e que apenas roçam os lábios
como um sopro da aragem quando afaga o seio de uma rosa que se desfolha.

Quanto a Van Dick – que seguia-se logo após – este quebraria o seu
pinar.

Eram tantos os máscaras e os trajes ricos que se apresentaram, que
me é impossível lembrar de todos; talvez que aqueles que agora
esqueço sejam os mais geralmente lembrados; e, portanto, está
feita a compensação.

Como foi este o primeiro ensaio da sociedade, de propósito evitamos
fazer antes algumas observações a respeito do seu programa,
com receio de ocasionar, ainda que involuntariamente, dificuldades e embaraços
à realização de suas idéias. Hoje, porém,
essas reflexões são necessárias, a fim que não
se dêem para o futuro os inconvenientes que houve este ano.

O entrudo está completamente extinto; e o gosto pelos passeios de
máscaras tomou este ano um grande desenvolvimento. Além do Congresso,
muitos outros grupos interessantes percorreram diversas ruas, e reuniram-se
no Passeio Público, que durante os três dias esteve literalmente
apinhado.

Entretanto, como os grupos seguiam diversas direções, não
foi possível gozar-se bem do divertimento; não se sabia mesmo
qual seria o lugar, as ruas, donde melhor se poderia aprecia-lo.

A fim de evitar esse dissabor, a polícia deve no ano seguinte designar
com antecipação o círculo que podem percorrer os máscaras,
escolhendo de preferência as ruas mais largas e espaçosas, e
fazendo-as preparar convenientemente para facilidade do trânsito.

Desta maneira toda a população concorrerá para aqueles
pontos determinados: as famílias procurarão as casas do seu
conhecimento: os leões arruarão pelos passeios; e o divertimento,
concentrando-se, tomará mais calor e animação.

Tomem-se estas medidas, preparem-se as ruas com todo esmero, e não
me admirarei nada se no carnaval seguinte aparecerem pelas janelas e sacadas
grupos de moças disfarçadas, intrigando também por sua
vez os máscaras que passarem, e que ficarão desapontados não
podendo conhecer através de um loup preto o rostinho que os obrigou
a todas estas loucuras.

Se o Sr. Desembargador chefe de polícia entender que deve tomar essas
providências, achamos conveniente que trate quanto antes de publicar
um regulamento neste sentido, designando as ruas por onde podem circular os
máscaras, e estabelecendo as medidas necessárias para a boa
ordem e para a manutenção da tranqüilidade pública.

Estas últimas medidas são fáceis de prescrever, quando
se tem um povo sossegado e pacífico, respeitador das leis e da autoridade,
como é o desta corte. Nestes três dias que passaram, o divertimento
e a animação foi geral; e entretanto numa população
de mais de trezentas mil almas não tivemos um só desastre a
lamentar. Exemplos como estes são bem raros, e fazem honra à
população desta cidade.

Na terça-feira sobretudo houve no Passeio Público uma concorrência
extraordinária. Grande parte das Sumidades Carnavalescas aí
se achava; e a curiosidade pública não se cansava de vê-los,
a eles e a muitos outros máscaras que também tinham concorrido
ao rendez-vous geral deste dia.

Às oito horas da noite o Teatro de São Pedro abriu os seus
salões, nos quais por volta de meia-noite passeavam, saltavam, gritavam
ou conversavam perto de cinco mil pessoas; era um pandemônio, uma coisa
sobrenatural, uma alucinação fantástica, no meio da qual
se viam passar figuras de todas as cores, de todos os feitios e de todos os
tamanhos.

Mui8tas vezes julgareis estar nos jardins do profeta, vendo brilhar entre
a máscara os olhos negros de uma huri, ou sentindo o perfume delicioso
que se exalava de um corpinho de lutin que fugia ligeiramente.

Foi numa dessas vezes que, ao voltar-me, esbarrei face a face com Lorde Raglan,
que acabava de chegar da Criméia e que deu-me algumas balas, não
das que costuma dar aos russos; eram de estalo. Conversamos muito tempo; e
o nobre deixou-me para voltar de novo à Criméia, onde naturalmente
não deram pela sua escapula.

À meia-noite em ponto serviu-se no salão da quarta ordem uma
bela ceia, que o Congresso ofereceu aos seus convidados e sócios. A
mesa estava brilhantemente preparada; e no meio das luzes, das flores, das
moças que a cercavam, e dos elegantes trajes de fantasia dos sócios,
apresentava um aspecto magnífico, um quadro fascinador.

Bem queria vos dizer todas as loucuras deste último baile até
as derradeiras arcadas do galope infernal; mas na quarta-feira de cinzas esqueci
tudo, como manda a religião. Por isso ficais privados de muita crônica
interessante, de muito segredo que soube naquela noite, mas que já
não me lembro

Capítulo XXII

Rio,4 de março

A notícia da tomada de Sebastopol, a abertura das academias, a representação
da Linda de Chamounix, duas procissões de quaresma, e a chuvinha aborrecida
de todas as tardes, são os fatos mais importantes da semana.

Resta saber, entre tanta coisa interessante, por qual delas começaremos.

Pela notícia da Criméia, ou antes da Bahia – não. Estou
pouco disposto hoje a fazer conjeturas e suposições sobre a
probabilidade deste dato.

Pelas procissões – ainda menos. A chuva declarou-lhes guerra este
ano; e os anjinhos, com receio do tempo, encolheram as asas, e não
desceram do céu onde habitam.

Ora, para mim, procissões sem anjinhos é coisa que se não
pode ver. Os outros pensarão o contrário: estão no seu
direito: cada um é livre de ter mau gosto.

Deixando, pois, de parte as procissões, não há remédio
senão irmo-nos sentar nalguma das cadeiras do Teatro Lírico,
e passar três ou quatro horas bem agradáveis a ver a Linda de
Chamounix, ou qualquer outra linda mesmo aqui da nossa bela terra.

O primeiro ato é uma música simples e encantadora, que traduz
as impressões da vida tranqüila da ladeia, e que termina com o
belo dueto do baixo e da barítono, e com a despedida de LINDA.

Esperemos, porém, pelo segundo ato; deixemos passar algumas cenas
cômicas; cheguemos ao momento terrível em que a palavra de maldição
expira nos lábios paternais. LINDA, a pobrezinha inocente, a menina
iludida, que se ajoelhara para implorar o perdão, ergue-se louca.

Vede como lutam naquele espírito desvairado as recordações
alegres de um belo tempo, com a lembrança tremenda da maldição
paterna, e com a ameaça terrível da cólera celeste.

De repente esta voz suave e harmoniosa, cuja doçura todos nós
conhecemos, estala num grito de dor, numa agonia atroz; mas bo fundo da alma
brilha um raio de luz, uma idéia risonha, uma reminiscência de
gozos passados; e, quando pensais que aquela angústia chega ao seu
último paroxismo, lá se desprende dos lábios, de envolta
com um sorriso, uma melodia graciosa, umas notas feiticeiras, que vêm
brincar docemente com o vosso ouvido arrebatado.

Vem afinal o terceiro ato, o desenlace feliz desta história simples
da vida de uma moça.

A filha torna ao lar paterno; e a graça de Deus faz voltar a alegria,
a paz e o sossego ao coração de toda esta pobre gente, que experimentara
por algum tempo todas as provanças da fortuna. O final é magnífico,
como vos dirá com toda a sua graça costumada o folhetim lírico
de terça-feira.

Eis o que é para mim a representação da Linda Chamounix
; uma noite de emoções deliciosas, e mais positivamente, uma
ou duas páginas de revista em uma semana, sobre a qual sou obrigado
a confessar que não há muito de tratar.

Além de ser tempo de quaresma, tempo de provações, de
jejum, de expiação de pecados, ainda em cima aí vêm
todos os dias uma chuvinha miúda, umas nuvens cinzentas e carregadas
tirar-nos o belo azul do céu, os raios do sol, e as lindas noites de
luar que a folhinha nos tinha prometido.

Quem não está disposto a ser regado pelas águas do céu
como as ruas desta heróica cidade, ou como as flores dos jardins, passa
o dia inteiro a resolver a importante questão, se deve sair ou ficar
em casa. Afinal vem uma estiada, decide-se, veste-se, e chega-se à
porta, justamente quando começa de novo a chover. Não há
remédio senão despir-se e resignar-se a desfiar as horas e os
momentos sozinho, e a conversar com os seus botões.

Ora, se há tempo em que a solidão seja insuportável,
é este de agora, em que não se fala, não se trata, nem
se pensa senão em companhia. Janta-se em companhia dos amigos, passa-se
a noite em boa companhia, e ganha-se dinheiro em companhia.

Nada hoje se faz senão por companhia. A iluminação a
gás, as estradas, os açougues, o asseio público, a construção
de ruas,tudo pe promovido por este poderoso espírito de associação
que agita atualmente a praça do Rio de Janeiro.

Se encontrardes por aí algum sujeitinho de chapéu rapado, de
laço de gravata à bandida, roendo as unhas, ou coçando
a ponta da orelha, não penseis que é um poeta ou um romancista
à cata de uma rima ou de um desfecho para seu último romance.
Nada! o tempo destas bagatelas já passou. Podeis apostar que o tal
sujeitinho rumina o projeto de uma empresa gigantesca, e calcula na ponta
dos dedos o ganho provável de uma companhia qualquer.

E assim tudo o mais. Vê-se hoje pelos salões, pelas ruas a cada
canto, certos indivíduos a segredarem, a trocarem palavras ininteligíveis
e a falar à mezza você uma linguagem incompreensível,
cabalística. Um homem pouco experiente tomá-los-ia por carbonários
ou membros de alguma sociedade invisível de alguma confraria secreta.
Qual! são finórios que farejam a criação de uma
companhia, e que tratam de se arranjarem para não ficarem sós,
isto é, sem dinheiro.

Até a nova empresa lírica, que se criou nesta corte há
coisa de dois meses, assentou de organizar uma companhia para a construção
de um novo teatro apropriado à cantoria, e conta-nos que já
pediu ao governo a competente autorização.

Com a facilidade que há atualmente em conceder-se semelhante favor,
parece-nos que o governo não deixará de autorizar a incorporação
de uma companhia para fim tão útil e tão vantajoso para
esta corte.

Somente lembraríamos a necessidade de exigirem-se para a construção
do edifício condições de grandeza e capacidade proporcional
à população desta corte. O Teatro lírico que possuímos
presentemente não pode durar muito; e, se outro não o substituir,
breve teremos de nos vermos reduzidos ao acanhado salão de S. Pedro
de Alcântara.

Assim como neste, podia o governo aproveitar em muitos outros objetos de
serviço público o espírito de empresa e associação
que tão rapidamente se desenvolveu no nosso comércio.

Porque, em vez de esperar que os interesses individuais especulem sobre a
utilidade pública, não promove ele mesmo a criação
das companhias que entender convenientes para o pais?

A limpeza pública, as postas, os correios urbanos, e muitos outros
objetos de interesse vital, exigem essa solicitude da administração.

Uma coisa, por exemplo, de que ainda não vimos o governo se ocupar
seriamente é da carestia progressiva dos gêneros alimentícios,
tanto nacionais como estrangeiros. O trigo está por um preço
exorbitante, segundo dizem. O pão diminui, e diminui no século
de progresso em que tudo vai em aumento, em que as menores coisas tomam proporções
gigantescas. Quanto ao pão de rala, célebre em outros tempos,
este desapareceu do mercado: pertence hoje à história.

Os ministros, os grandes, os ricos, não sabem disto; mas o pobre o
sente, o pobre que, no meio de toda essa agitação monetária,
de todo esse jogo de capitais avultados, vê as grandes fortunas crescerem
e formarem-se, absorvendo os seus pequenos recursos, e elevando o preço
dos gêneros de primeira necessidade a uma taxa quase fabulosa.

Se os capitais são para o país um poderoso agente de progresso
e desenvolvimento, cumpre-nos não esquecer que em todos os países
é na classe pobre que se encontram as grandes inteligências,
as grandes almas e os grandes espíritos.

A Providência parece tê-los lançado no mundo sem recursos
para prova-los e fortalecê-los com essa luta constante da fortuna, na
qual, ou morrem sacrificados como mártires, ou se elevam às
sumidades da hierarquia social para comunicarem ao país a atividade
do seu espírito e as forças de sua inteligência.

Tão desprezível, tão digna de compaixão, como
parece esta classe aos ricos enfatuados que rodam no seu cupê, a ela
pertence o futuro; nela está a alma, a força, a inteligência,
a esperança do país.

Quereis saber o que são e o que valem esses cresos modernos, ou esses
capitais amontoados, essas somas de dinheiro de que o rico tanto blasona e
tanto se desvanece? Uma matéria brutal, uma alavanca inerte a que um
dia algum homem sem fortuna, mas cheio de ambição e de talento
vem dar o impulso de sua atividade, e fazer trabalhar para um grande fim.

Esta classe, pois, merece do governo alguma atenção; o que
hoje é apenas carestia e vexame, se tornará em alguns anos miséria
e penúria. É preciso, ao passo que o país engrandece,
prevenirmos a formação dessa classe de proletários, dessa
pobreza, que é a chaga e ao mesmo tempo a vergonha das sociedades européias.
Apliquem-se os nossos espíritos econômicos a este estudo digno
de uma grande inteligência e de um grande povo.

Porque a Europa ainda não conseguiu chegar à solução
deste grande problema social, não é razão para desanimarmos.
Somos um país novo; o progresso espantoso da atualidade deve ter reservado
alguma coisa para nós; o mundo velho eleva a indústria a um
desenvolvimento admirável; talvez que os segredos da ciência
tenham de nos ser revelados na marcha da nossa própria sociedade.

O que é verdade é que não devemos deixar de concorrer
com as nossas forças para essa obra filantrópica da extinção
da pobreza proletária. E isto, não porque receemos tão
cedo a existência deste cancro social, mas porque semelhante estudo
deve-se guiar nos meios de prevenir os vexames e misérias por que pode
passar a classe pobre no nosso país.

Agora é que percebo que este folhetim vai muito grave demais; porém
lembro-me também que não devo distrais as minhas leitoras do
seu exame de consciência para a próxima confissão da quaresma.

Que interessante coisa não deve ser o exame de consciência de
uma menina pura e inocente, quando à noite, entre as alvas cortinas
de seu leito, com os olhos fitos numa imagem, perscruta os refolhos mais profundos
de sua alma à cata de um pecadinho que lhe faz enrubescer as faces
cor de…

Arrependi-me! Não digo a cor. Reflitam e adivinhem se quiserem. Tenham
ao menos algum trabalho em lerem, assim como eu tenho em escrever.

Mas, voltando ao nosso exame de consciência, estou certo que, se algum
dos anjos que cercam o trono de Nossa Senhora pudesse descer do céu
nesse momento, viria beijar aquele rostinho adormecido, e dizer-lhe em sonho
que os anjos não pecam.

Capítulo XXIII

Rio, 18 de março

A semana que passou foi a dos aniversários felizes.

Domingo festejaram-se os anos da nossa Princesa, que trocou a bela terra
do Brasil pelo poético céu da Itália.

Quarta-feira teve lugar a solenidade do aniversário da nossa Imperatriz,
que deixou as lindas ribeiras de Nápoles pela majestosa baía
do Rio de Janeiro.

Assim, logo após da saudade, veio uma lembrança prazenteira.
Se perdermos por algum tempo uma flor graciosa da nossa coroa imperial, ganhamos
para sempre um anjo de bondade, um exemplo das belas virtudes.

E isto me faz lembrar do quanto somos devedores àquela boa terra de
Itália, que nos confiou com tanto prazer a filha de seus reis, e acolheu
com tanto amor a irmã do nosso monarca.

Sem falar dos artistas que daí nos têm vindo, e das belas noites
de teatro que devemos à sua escola e aos seus gênios musicais,
lembremo-nos que é lá, nessa terra clássica das artes
e do belo, que muitos brasileiros se têm ilustrado e adquirido os conhecimentos
que atualmente são aproveitados em bem do país.

Foi ainda no meio dessas ruínas seculares de tantas gerações
que passaram, no solo onde viveu o povo rei, na terra em que nasceu Virgílio,
que um poeta brasileiro foi beber as últimas inspirações
do seu poema nacional, como que para imprimir-lhe esse cunho de grandeza e
de sublimidade que o tempo tem deixado na história daquele povo.

Tudo isto deve o Brasil à Itália; porém mais que lhe
devesse o pagaria com o amor e a dedicação que consagra à
sua Imperatriz, e da qual ainda quarta-feira deu uma prova bem solene.

Todo este dia foi votado às graças. De manhã apareceu
a lista daqueles cujos serviços a munificência imperial, julgou
dever remunerar. Logo depois vieram as graças daqueles que, não
vendo seus nomes contemplados, motejavam dos outros e especialmente dos ministros.
Á noite tiveram os dilettant i as graças do D. Pascoale, que
é de crer fossem engraçadas.

Estive alheio inteiramente a tudo isto; mas uma coisa me deu que pensar seriamente.
Acho o direito de agraciar uma das mais belas instituições da
monarquia; compreendo que os homens possam ser crismados em barões,
condes e marqueses; mas há uma coisa a que decididamente não
me ajeito, e é como se poderá fazer um sujeito feio, desengraçado
e sem elegância, um gentil-homem.

Está bem entendido que isto se refere a nenhum dos últimos
agraciados, que são perfeitos cavalheiros, servidores antigos, e que
todos mereciam o favor do monarca. É uma simples hipótese que
por ora não tem aplicação, e que o espírito e
bom-senso imperial repelem para não haver ocasião de se parodiar
o dito de D. Pedro I a respeito do cavaleiro.

Um sujeito, contando-me ontem os festejos do dia quatorze, disse-me: "Houve
graças, des-graças, e sem-graças. As graças os
jornais publicaram; as des-graças sabem os que ficaram logrados; e
as sem-graças foram as daqueles que esperavam uma coisa e tiveram outra".

Até que ponto isto é exato não sei; apenas me lembro
que já os nossos antigos diziam que não podia haver graça
sem sal; razão esta porque naturalmente se inventaram os emolumentos,
que algumas vezes são bem salgados.

Já é tempo de passar adiante e acabar por hoje com as graças,
tanto mais quando já me saí mal por ter tido o arrojo de dizer
que o país devia dar justiça de graça.

Como me escapou semelhante blasfêmia? Pois num tempo em que tudo se
compra e se vende, em que até se trafica com o pensamento e com a consciência,
é possível fazer-se coisa alguma gratuita?

Tudo tem um preço. A honra, a probidade, o dever, a reputação
essas coisas sagradas que Deus confiou ao coração humano, têm
a sua cotação. Porque a justiça sairá da regra
geral, e deixará de receber a sua espórtula?

Já se vê que foi um absurdo em caí. Não há
coisa mais razoável e mais sábia, como disse um correspondente
do Jornal do Comércio, do que obrigar-se as partes a pagarem aos magistrados
e oficiais de justiça, visto que estes empregados são instituídos
para utilidade pública.

Ora, os ministros de estado, os presidentes de província, os militares,
todos os funcionários públicos enfim são criados para
utilidade pública; por conseguinte, em vez de ordenado, dêem-se-lhes
custas. O ministro ganhará dois mil réis por cada nomeação,
privilégio, ou graça que conceder; dez tostões por cada
aviso ou portaria, etc..

Não vêem como simplifica-se de repente todo este mecanismo administrativo,
que a França e a Prússia – nações ignorantes e
atrasadas – tanto têm estudado, e tanto seuem precisar do empregado
que o pague; o governo o nomeia, o país o tolera, e nisto já
fazem muito.

Quem diria que a ciência administrativa, tão desenvolvida na
Europa, tinha de ser completamente aperfeiçoada por um gênio
brasileiro que oculta modestamente o seu nome com receio de assombrar o mundo?

Que força de dialética, que lógica de aço! Os
franceses têm as epices; logo nós devemos conservar as custas.
Pobre genuense! Que eras tu à vista deste portento?

E eu animei-me a tocar na arca santa, no sagrado paládio, no regimento
das custas? Uma obra elaborada pelas sumidades pretorianas pode ser discutida
aí por qualquer moço que ainda não tem, e nem quer ter,
o cHarlatanismo necessário para se fazer alguma coisa?

Fechem-se as câmaras; mandem-se os senadores e deputados passear à
Europa em missão especial ou geral; acabe-se de uma vez com a imprensa
e com a tribuna. Não percamos o tempo, que é precioso. O ministro
fará as leis, e, tendo-as feito, não haverá que retrucar,
magister dixit.

Santo regime! Quando te veremos em inteiro vigor, para felicidade do país,
para sossego e a paz do governo? Então a marcha da administração
se aperfeiçoará. Os ministros serão os únicos
que terão o direito de saber alguma coisa; e, depois deles, só
os que estiverem dispostos a defende-los cegamente, sem critério e
sem consciência.

Os outros, aqueles que julgam do seu dever expor francamente uma opinião
contrária, mas que nada tem de ofensiva ao caráter do ministro,
aqueles que entendem que a censura leal é a prova mais evidente da
sinceridade de uma aliança de idéias e de princípios,
estes serão classificados no rol dos ignorantes, porque não
receberam de algum gênio engarrafado o placet da ciência e do
estudo.

Assim, pois, o dito por não dito. O regimento das custas é
uma obra perfeita, tão perfeita, que, sendo publicado a cinco deste
mês, no dia oito, isto é, três dias depois, o presidente
da relação se viu obrigado a oficiar três vezes ao ministro
da justiça sobre a inteligência de algumas de suas disposições.

A razão disto não é a que muita gente supõe,
não é o sentido dúbio e confuso das palavras empregadas.
Qual! os homens são imperfeitos; e por isso não podem compreender
toda a sabedoria daquele novo mandamento do monte Sinai, daquela lei das Doze
Tábuas.

Querem ver outra perfeição do regimento de custas, que é
muito sublime para ser compreendida por inteligência como a nossa?

Diz o art.169 que o porteiro dos auditórios perceberá meio
por cento sobre o valor dos objetos arrematados. Suponhamos que o mínimo
das arrematações civis e comerciais feitas nesta corte seja
dois mil contos, o que é um cálculo muito restrito. Temos uma
percentagem de dez contos de réis, que por três porteiros dá
só por si um ordenado três vezes superior ao que tem qualquer
juiz municipal, qualquer deputado, qualquer juiz de direito ou oficial de
secretaria.

Pode-se duvidar da sabedoria de semelhante disposição?

É possível ainda negar a conveniência, a necessidade
das custas, que produzem tantas vantagens práticas?

Lede o Art. 61, e comparai-o com o Art. 167. O presidente da relação
tem por cada sentença que transitar pela chancelaria o mesmo que seu
porteiro, isto é 300 rs. Como é belo para a justiça e
para o prestígio da magistratura este exemplo de igualdade, que manda
que o chanceler e o seu porteiro – os dois elos quase extremos da hierarquia
judiciária – se toquem e estendam a mão para receber seis ou
oito moedas de cobre!

Que emblemas, que símbolos inventados pelos povos da antiguidade valem
semelhante lição? Que invenção moderna pode substituir
a harmonia e a uniformidade desta sublime instituição das custas,
que alguns vindouros querem que se reforme?

A princípio, quando comecei a escrever sobre o regimento tinha a idéia
de que se deviam acabar com as custas, os emolumentos, e dar-lhes o caráter
de uma contribuição percebida, como qualquer imposto, pela repartição
competente. Assim, sobre as causas se cobraria, em vez de dízimos de
chancelaria, uma percentagem que se julgasse acertada, e que a parte pagaria
no ato de levantar o dinheiro da execução; e com isto remunerasse
o Estado os seus empregados de justiça.

Hoje já nem me lembro de tal coisa. Era uma extravagância, que
me passou, apenas pude apreciar as inúmeras belezas que formigam no
regimento das causas.

E por hoje basta de tanta maçada; não achais, meu benévolo
leitor? Deixemos em paz a justiça, que irá tranqüilamente
fazendo seu negociozinho aos duzentos e trezentos réis, e vamos falar
de outras coisas, tristes e alegres, por que esta é a ordem do mundo.

Já deveis saber que o Sr. Conselheiro Eusébio de Queirós
foi acometido, na noite de segunda-feira, de uma moléstia grave, da
qual felizmente já se acha melhor. S. Ex.ª tem sido visitado por
seus numerosos amigos, que deram ainda mais uma prova de grande consideração
que votam ao distinto estadista brasileiro.

Desejamos de coração o pronto restabelecimento de S. Ex.ª
tanto mais quando também acabamos de curtir à beira de um leito
de dor todos os transes cruéis de sofrimento e de angústia.

São páginas negras do livro da nossa vida, que devemos voltar
com paciência e resignação, para chegar às folhas
brancas e douradas, às imagens risonhas de dias mais felizes e mais
tranqüilos. A dor, disse Lamartine, remoça o homem, dá-lhe
nova força, novo vigor. Tu fais l’homme, ô douleur!

Parece que, depois de uma crise de sofrimento, a alma se apura, adquire um
tato finíssimo, capaz de sentir as mais delicadas impressões,
uma sensibilidade esquisita para os menores prazeres.

A enfermidade tem um quer que seja das viagens.

É uma viagem um pouco perigosa, muito incômoda, e que, em lugar
de ser feita em um vapor ou em um vagão, o é sobre um leito
ou sobre uma enxerga. Às vezes naufraga-se, salta-se com explosão
do vapor; mas, se chegamos ao porto, se saltamos em terra, tudo nos parece
novo, tudo nos sorri, tudo é cor-de-rosa e perfumado. A água
é uma bebida do céu, o pão é um manjar dos deuses,
o dia é uma festa de reis, o sono é uma voluptuosidade do paraíso,
sibaritismo do sultão.

Talvez seja por esta semelhança que se dá a coincidência
de cair no mesmo tempo a quadra das moléstias e das viagens. Tudo parte,
tudo vai mar em fora, ver novos climas, correr terras, para ter na volta o
que contar.

Queixam-se por aí que tudo vai para a exposição. De
Paris, menos os nossos produtos. Quem sabe? Talvez que a par da Estrela do
Sul apareçam na exposição muitos outros produtos brasileiros,
muitas raridades dignas de menção.

Os novos viajantes vão achar em Paris uma verdadeira epidemia bailante.
Tem havido para mais de 500 bailes. A febre é geral: dança-se
nos palácios, nas embaixadas, nos hotéis, nas casas, nos salões
e nos prados, sobre a relva e sobre os tapetes.

Além da dança, a única coisa em que os franceses presentemente
se ocupam é na conjugação do verbo fiar e seus compostos.

Assim, os homens fiam seu dinheiro por subscrição; as mulheres
desfiam pano para os feridos da Criméia; o imperador confia nos seus
generais e no seu exército; a gente timorata desconfia do feliz êxito
da guerra; Bosquet enfia balas pelo corpo dos russos; Canrobert porfia no
seu projeto de arrasar Sebastopol.

A guerra pode dizer-se que está reduzida a fios. Onde passou o fio
da espada, aplicam-se fios de linho. Os homens incumbiram-se do primeiro;
as mulheres do segundo. Que fases não tem tomado essa luta de gigantes?!

Antes de vos deixarmos, temos ainda um triste dever a cumprir. Celebrou-se
a missa por alma do Deputado Aprígio, e, apesar de tantos amigos que
o finado tinha nesta corte, aquele ato foi muito pouco concorrido.

Não é fácil explicar-se semelhante fato, pois que o
aviso para a missa foi feito pela folha oficial, que a anunciou nas suas colunas
como um holocausto do governo. É verdade que, não tendo os membros
do gabinete feito um convite em seu nome, talvez entendessem os amigos do
falecido que se tratava de uma solenidade muito particular, a que só
deviam assistir as sumidades; e por isso guardaram a conveniente reserva,
e não compareceram.

Não há remédio, pois, senão reunirem-se os amigos
do Dr. Aprígio, e pagarem à sua memória o devido tributo
de saudade e de estima, fazendo dizer uma missa solene, ou um ofício
sem caráter político, sem reserva de pessoas; a este ato estamos
certos que assistirá um numeroso concurso das pessoas mais distintas
desta corte.

Acabamos por onde começamos, pelas graças. Temos algumas pequenas
observações a fazer sobre os estilos oficiais em voga neste
ponto.

Assim, nos parece mais regular desenglobar os despachos e cometer a cada
ministério a referenda das graças concedidas por serviços
feitos nas suas respectivas repartições, ou em objetos que lhe
são anexos.

Conviria igualmente criar-se uma ordem destinada exclusivamente a premiar
o merecimento literário, assim como existe uma para os serviços
militares. Chame-se esta ordem a Estrela do Sul, à imitação
do Cruzeiro, ou a Plêiade Imperial; demos-lhe enfim um nome que tenha
alguma significação, e acabemos com o costume de premiar a inteligência
com a mesma graça com que se remuneram serviços de uma ordem
muito diversa.

Esta idéia, realizada com a sabedoria e a prudência que é
de esperar, traria grandes vantagens, porque excitaria os estímulos,
criaria, uma emulação salutar, e daria assim incremento ao nosso
progresso literário. Apreciamos todos os serviços feitos ao
país, qualquer que seja a sua natureza; estimamos que todos sejam galardoados;
mas desejamos que se dê ao talento, à inteligência, às
ciências e às artes essa nobreza e essa distinção,
que lhes cabe por todos os títulos.

E deixai-me dizer-vos uma coisa. Esta idéia me sorri ainda mais, porque
o grão-mestre da ordem merecia sê-lo, ainda quando não
tivesse uma coroa. Quanto aos dignitários, que seriam sete, no caso
de adotar-se o título de Plêiade Imperial, deviam ser escolhidos
de entre os que temos de mais distinto e de mais ilustre.

Para dar à condecoração maior merecimento e para tirar-se
dela grande utilidade, podia fazer-se com que formasse uma verdadeira ordem,
trabalhando em sessões regulares como o Instituto de França,
e sob a presidência de Sua Majestade como grão-mestre, ou do
dignitário mais antigo. Quem sabe daqui a alguns anos que importância
não teria semelhante instituição, e que glória
não daria ela ao nosso país?

Agora é que me lembro! Estou a perder o meu tempo! Não há
dúvida que esta minha idéia é bela, é digna de
um monarca erudito, e de um povo que tanto se distingue pela sua aptidão
literária; mas não foi lembrada por um homem que já tenha
alguns cabelos brancos e uma dose de importância e de morgue; portanto
não presta decididamente.

Dizem que aos vinte anos se pode pensar assim por si, nem ter uma boa idéia.
Entendem que a inteligência vigorosa e ardente dos moços deve
estar ao serviço dos velhos, os quais brilham como essas flores parasitas
que sugam das árvores novas e robustas a seiva com que alimentam a
sua vegetação raquítica.

De que servem esses lampejos brilhantes, essas centelhas de fogo, que passam
às vezes pelas almas jovens e iluminam de repente um mundo de idéias,
ou desenham um horizonte vasto e imenso? É preciso que estas faíscas
do talento sofram o bafo frio e enregelado dos velhos? Por que esta chama
da inteligência, em vez de expandir-se livremente, há de ser
condenada a aquecer a alma gasta e consumida de um corpo vergado pelos anos?

Não foi deus que estabeleceu esta tutela despótica e sem limites
que a idade quer exercer. Não: Deus mandou respeitar os velhos, como
as mulheres, porque são fracos; Deus mandou consultar aos velhos, como
aos livros, porque neles se encerra a história da experiência;
porém Deus deu à mocidade a força, a esperança,
a ambição, confiou dela o trabalho, a ação, o
progresso, e apontou-lhe o futuro.

Ninguém venera mais a velhice do que eu; ninguém sabe melhor
compreender o que há de respeitável numa grande inteligência
que alimenta ainda um corpo gasto pelos anos; mas o que acho irrisório
é que pense que toda a ruga é um poço de ciência,
que todo o cabelo branco é um título de capacidade.

Felizmente o tempo dos desenganos aí vai chegando; o círculo
de ferro já se quebrou; e o país já começa a aborrecer-se
dessas patentes de capacidade e de ilustração dadas num salão
de baile, ou numa antecâmara de ministro.

Capítulo XXIV

Rio,25 de março

Hoje é o dia do aniversário da nossa constituição,
e ontem o Teatro Lírico representou um baile intitulado o Remorso.
Se foi uma simples coincidência, ou um epigrama, não sei; o tempo
não está para graças, e por isso não se pode com
facilidade aventurar conjeturas.

Já houve um tempo em que, de fato, o dia de hoje devia ter sido o
dia do remorso para o governo, para as autoridades, para o menor empregado
de polícia; todos haviam perjurado, todos, por sede de mando ou por
um espírito exagerado de reforma e progresso, haviam desrespeitado
a constituição.

Felizmente passou esta quadra de tristes conseqüências para o
país, e chegamos a uma época de adormecimento das paixões
políticas, de inércia dos partidos, de calma nos espíritos,
que, bem dirigida, pode ser aproveitada em grandes melhoramentos de que o
país necessita, em excelentes reformas da legislação
e de muitos outros ramos de administração.

Mal dirigida, porém, a situação atual há de caminhar
rapidamente para uma crise tanto mais forte, tanto mais violenta, quanto foi
profundo o letargo dos espíritos e a prostração proveniente
da exacerbação das paixões.

Há uma febre surda que começa por abater as forças dos
homens e acaba pelo delírio. Talvez que os observadores, os homens
experientes e amestrados nessas oscilações políticas
e sociais já tenham pressentido os primeiros pródromos, os sintomas
característicos de uma próxima crise.

Entretanto parece-me que se enganam. Ainda é tempo de arrepiar caminho;
e a situação atual, que começou tão rica de esperança,
tão cheia de futuro, ainda tem muitos elementos que não foram
sacrificados, e que, bem desenvolvidos, podem servir de programa às
circunstância atuais.

Reabilite-se esta bela idéia da conciliação dos espíritos,
evite-se que seja substituída por uma conciliação de
interesses individuais; aceitem-se todas as adesões, mas não
se suplique nem uma; chamem-se todas as inteligências a concorrer para
o bem do país, mas não se exija uma transigência imoral
que não pode ser duradoura; respeitem-se todas as opiniões e
deixe-se a oposição inteiramente livre, porque se for leal,
auxiliará o governo, se for licenciosa, se desacreditará por
si mesma.

Por hoje tenho feito os meus cumprimentos à constituição,
dando-lhe os bons anos, e desejando-lhe muitos séculos de vida para
gosto dos seus amigos e de toda a sua família; posso, portanto, dar
uma vista de olhos pelo que me vai por casa.

Data veniam ! Permiti, mestre, que ainda uma vez profane o sagrado santuário
da justiça, cuja guarda vos foi confiada. Estou convertido às
custas; mas, como neófito ignorante, tenho algumas dúvidas a
respeito.

Que fizeram as pobres irmandades e corporações de mão=morta
para pagar ao juiz de capelas e resíduos um juro de 6% de um capital
que não receberam? E isto sem terem demandas nem pleitos, e somente
porque o Estado julgou conveniente inspecionar as suas contas.

Ai! perdão! não me lembrava que tinha sido erro de imprensa.
Santa invenção de Gutemberg! Não há nada que te
pague! Com que facilidade fazes do branco preto! A pena diz o que quer: a
imprensa é quem paga as custas.

Depois da descoberta do erro de imprensa feita pelo P. do Jornal do Comércio,
dezenove dias depois da publicação do regimento, está
me parecendo melhor é abandonar a questão das custas, porque
do contrário a nossa imprensa fica desacreditada para o estrangeiro

O meio por cento do porteiro? Erro de imprensa. Os seis por cento do juiz
de capelas? Erro de imprensa . Os dez contos que há de lucrar o porteiro
de órfãos? Erro de imprensa. A ridicularia de estabelecerem
custas de 200 rs. Até para Presidente da Relação, em
vez de uma gratificação anual? Erro de imprensa.

Já estou com medo que não descubram que o título do
regimento e a referenda do ministro são erros de imprensa.

Que papel ficamos nós fazendo, Sr. Conselheiro Ferraz, tendo gasto
o nosso tempo a atacar apenas uns tipos trocados, e umas letras sem sentido,
sem idéias!

Mas, que coisa célebre! Parece que os três jornais da corte
se apostaram para errar justamente no meio por cento! E o erro foi tão
imperceptível (era de cerca de dez contos anuais) que só depois
de um escrupuloso exame de dezenove dias é que se deu com ele!

O próprio Sr. P., no seu artigo de quinta-feira, defendeu o erro de
imprensa, iludido como nós; e só ontem é que fez a importante
descoberta. Maldita imprensa! Eis a razão por que se prefere uma compilação
do direito civil manuscrito, tendo-se uma em letra redonda, cujo único
defeito é estar pronta.

A propósito, tomo a liberdade de pedir ao Sr. P. que assista ao curso
de leitura repentina do Sr. Castilho.

Como deve saber, o curso foi aberto quinta-feira por um discurso de uma extrema
simplicidade, e que talvez por esta mesma razão satisfez o auditório.
Estavam presentes o Sr. Ministro do Império, o Sr. Marquês de
Monte Alegre, Visconde de Itaboraí e Sapucaí, o Conselho de
Instrução Pública, e muitas pessoas de distinção.

O Sr. Ministro dos Estrangeiros chegou tarde, porque foi de gôndola,
segundo observaram os mirones.

Se o método do Sr. Castilho produzir vantagens reais, como esperamos,
não acontecerá ao Sr. P. a mesma coisa que na quinta-feira,
em que com as pressas de responder, mostrou não ter lido o meu artigo
de domingo.

Onde viu o correspondente que me queixei? Onde foi que lhe pedi tempo para
expor as minhas opiniões? Quando viu que me calei e fugi da questão?

A isto só uma resposta. Se o Sr. P. tem o costume de estudar, de trabalhar
e escrever para a imprensa, quando um motivo grave de aflição
exige todos os seus cuidados e preocupa inteiramente o seu espírito,
eu o respeito como um homem forte, que não dá peso às
misérias da vida humana. Entretanto considero-me muito feliz por fazer-lhe
o contraste.

Quem se queixa é o correspondente, que, depois de ter comungado com
as defesas impróprias de certos campeões do regimento de custas,
estranha que o motejo tenha substituído a argumentação,
e pede não trilhemos a senda dos declamadores políticos.

Como nos responderam? Não quero reviver uma coisa de que felizmente
parece-nos que os defensores do regimento estão arrependidos; e, já
que o Sr. P. quer voltar à argumentação, pedimos-lhe
que discuta, mas que não veja nas censuras feitas ao regimento uma
contradição com o tempo que levou a elaborar-se. Isto pode ser
uma circunstância agravante contra o regimento, e nunca uma contradição.

Com o artigo do correspondente, publicado no Jornal de ontem, lemos igualmente
a notícia de ter professado um frade no Convento do Carmo desta corte.

Não sabemos quem autorizou semelhante ato, sobre o qual o nosso governo
desde muito tempo guarda uma prudente reserva. Pretende-se acaso reabilitar
as ordens monásticas, o claustro, e faze-lo concorrer para o bem público
auxiliando a instrução pública, os estabelecimentos de
caridade, a catequese, ou mesmo a vigilância das prisões, como
se usa em Leão?

É tarde; os últimos restos de algumas ordens religiosas que
tivemos não têm regra nem disciplina, nem instrução
que outrora adquiriam; e apenas vegetam entre quatro paredes, esperando o
dia de sua completa extinção, que não há de estar
muito remoto.

A regeneração do claustro no nosso país é uma
obra impossível; alguns homens ilustres que hoje existem, como Monte
Alverne, o bispo de Crisópolis e outros, são representantes
ainda daqueles tempos de prestígio e de ilustração, em
que a solidão do claustro era iluminada pelo fogo do céu.

Presentemente, se um ou outro moço se distingue, o que é raro,
nada à clausura, e sim à sua inteligência, ao seu estudo,
aos seus esforços pessoais; o frade antigo ainda pode existir, como
uma velha ruína: mas a ordem, o espírito de união, o
vínculo sagrado, desapareceu, e com ele, a existência dos conventos.

Se a regeneração, pois, não é possível,
que explicação tem esse ato de profissão? Não
descubro nenhuma; não me ocorre um motivo que possa atualmente justificar
a inabilitação de um homem para os cargos públicos; a
condenação de uma atividade e de um elemento de trabalho a que
o país tem direito.

Para mim o frade é um tipo história, que passou como o antigo
sacerdote, como os filósofos, os escolásticos, os eremitas,
os cavaleiros, os maçons, e que, tendo feito o seu tempo, pertencem
às lendas e às crônicas.

Não sabem quanto me pesa ter de falar contra os frades justamente
na quaresma; mas não há outro remédio; e, como eu não
falo contra os homens, e sim contra o burel ou a estamenha os cobre, a consciência
não me acusa de pecado.

Outra coisa seria, se me desse na cabeça subir o morro de Santa Teresa,
ou mesmo ir até o recolhimento da Ajuda, onde talvez me revelassem
bem lindos mistérios!

Se o Sr. Ministro da Justiça quer fazer uma obra meritória,
é dar a estes estabelecimentos um fim caritativo e de beneficência
pública. O que lucra o país com ter uma casa para algumas doceiras
presentearem as pessoas de amizade?

Ao contrário, se estes estabelecimentos pudessem criar mulheres como
as Irmãs de Caridade, é fácil prever as vantagens que
deles nos resultariam.

Demos um salto; e suponhamos que é chegado o domingo de Ramos, tempo
em que já se pode tratar de coisas profanas. O Cassino não nos
pretende dar bailes este ano?

Num tempo de tantas graças, acho que esta é demais; porém,
se tal é a sua tenção, avise-nos, porque, com a febre
de companhias que há, num momento se organizará uma empresa
para bailes.

Vai criar-se uma de seguro geral. Não há nada melhor. Muito
sujeitinho pretende segurar-se contra o casamento: os maridos vão segurar
a vida da mulher na esperança de perder. De um finório sei eu
que, acendendo uma vela a Deus e outra a Satanás, se propõe
a segurar a oposição e o ministério; a dúvida
é quanto à primeira, se aparecerá seriamente; e quanto
ao segundo, se a companhia o aceitar.

Eu, se fosse a companhia, aceitava com algumas cláusulas e reservas,
como, por exemplo, repelindo todos os erros… mesmo os de imprensa.

Não sabeis qual o verdadeiro erro de imprensa? Foi o de censurar o
tal regimento de custas; foi o de discutir uma obra tão augusta; foi
o de se ter animado a defender-se de insultos pagos policialmente.

Basta! nem mais uma palavra. Só agora é que me recordo que
o ministério tem estado de dor de cabeça. O Sr. Marquês
de Paraná, desde segunda-feira, sofre de uma moléstia de fígado,
da qual costuma ser atacado. Felizmente tivemos a satisfação
de saber que S. Exª acha-se sensivelmente melhorado.

No meio de todos os contratempos que tendem a embaraçar a marcha regular
da justiça no nosso país, apraz-me ver como os magistrados novos
vão dando alguns exemplos de integridade e firmeza.

Não há muito tempo o Dr. José Caetano pronunciou um
homem que se dizia ter fortes proteções. Agora o Sr. Dr. Izidro
condena uma pessoa que ocupa uma posição distinta na sociedade
pelos seus grandes haveres e pela sua influência.

Não entramos no mérito da sentença, nem podemos apreciar
os seus fundamentos; mas o que não se pode negar é que o juiz
que lavrou uma condenação desta ordem, deu uma prova incontestável
de inteireza e de retidão. Quando mesmo a sentença não
fosse justa, estamos certos que a intenção que a ditou foi da
mais vigorosa eqüidade.

Agora, meu amável leitor, até 1º de abril.

Entendeis?

Capítulo XXV

Rio, 1º de abril

Descobriu-se afinal! A questão das custas é uma querelle d’allemand!
O regimento foi o pretexto, e a causa verdadeira não se pode conhecer.

Quem sabe! Talvez os que censuram o regimento sejam empregados da Secretaria
da Justiça, ou eminentes jurisconsultos incumbidos da fatura de códigos
civis!

Os defensores, estes, são homens independentes, que nunca solicitaram
coisa alguma do Ministério da Justiça, que podem ter aceito
uma comissão científica, sem por isso haverem transigido com
a sua consciência, ou desistido da mais ampla liberdade de pensamento.

O que, porém, há de notável nisto é que a censura
não procura disfarçar-se com a capa do anônimo, ao passo
que o elogio tem pejo, tem vergonha de aparecer em público com o seu
verdadeiro nome. Como é bela e louvável essa modéstia
dos grandes talentos!

Mas qual será essa verdadeira causa que não se pode conhecer?
Será alguma das anedotas que se contam por aí a respeito da
maneira por que vai a nossa repartição da justiça? Será
um desses muitos mistérios de secretaria que já começam
a divulgar-se, e a tomar as proporções de um grande escândalo?

Não estamos agora para investigar este ponto; mas, se os defensores
do regimento desejam muito, estamos prontos a tentar com eles uma pesquisa,
que talvez se torne interessante. A exemplo de Xavier de Maistre, de A. Karr
e de Garrett, escreveremos a nossa viagem Autour du Palais de Justice.

Esta obra há de ser um monumento de glória para muita gente,
um livro precioso, digno de ser estudado pelos pretendentes, profissão
esta que ainda não tem um roteiro certo pelo qual se guiem aqueles
que a seguem!

Mas, por falar nisto, ia-me esquecendo dizer o quanto me tem incomodado ver
a causa do Sr. Ministro da Justiça – uma tão bela causa – comprometida
sem dó por um dos P.P. do ministério, pelo P. do Jornal do Comércio.

Depois de ter falado (a propósito de custas) em fivelas de calção,
em oráculos de Tênis e esfinges do Egito, nas histórias
da vovó, nos iconoclastas, no Ministro Roland, e na abóbada
celeste, acabou por chamar a justiça barata!

E então! Que me diz a isto o Sr. Ministro da Justiça? Vê
como se desrespeita a S. Ex.ª, como se ridiculariza uma instituição
de tanta gravidade sobre a nossa magistratura, e sobre todos os empregados
dessa repartição?

Se a justiça é barata, segundo diz o P. do Jornal do Comércio,
a conseqüência é fácil de tirar; razão por
que o autor da lembrança tem o cuidado de declarar que é inteiramente
alheio a essas coisas judiciárias e forenses.

Mais um título, por conseguinte, para bem tratar de questões
desta natureza!

Quanto aos negócios das custas, já não tenho nada que
dizer em semelhante discussão, visto que os defensores do regimento
estão fazendo sabatina e destruindo mutuamente as objeções
e argumentos que cada um apresenta.

O P. do Jornal do Comércio elogia as custas, a ciência de vovô,
a razão dos séculos passados, as coisas velhas e carunchosas;
o P. do Correio Mercantil aceita a idéia civilizadora da revogadora
das custas, e condena o sistema emolumentário como usança obsoleta
dos nossos antepassados. Um diz que temos justiça barata e gratuita,
o outro que urge fazer os tribunais acessíveis ao rico e o pobre.

Assim, pois, lá se avenham os dois, que nós lavamos as mãos
neste negócio: podem discutir livremente, podem brigar à sua
vontade. Só peço a Deus, para bem do Sr. Ministro da Justiça,
que não se realize o antigo anexim: Brigam as comadres, descobrem-se
as verdades.

Com efeito, a questão está o mais interessante possível.
As estrelinhas do Jorna l do Comércio, depois de uma luminosa definição
de imposto, declaram magistralmente que as custas não podem ser classificadas
como uma contribuição daquela natureza. Ontem apareceu o P.
da mesma folha, dizendo "que as custas se devem considerar como um imposto,
que afinal recai integralmente sobre o demandista de má fé para
punir a sua avidez".

Parece mesmo uma coisa de propósito e caso pensado; um diz uma coisa,
o outro contraria imediatamente, e, o que é mais engraçado,
contradiz-se a si mesmo. Assim o Sr. P. do Jornal, que "pouco sabe de
estilo forense e de fórmulas sacramentais", declara dogmaticamente
que não se devem prescrever essas palavras que ele nem compreende.

Mas o correspondente tem medo que, "condenando aquelas fórmulas
como inúteis, se sacrifique uma garantia de precedência (não
entendo) para com os direitos da parte"; e como o Sr. P. tem medo, está
acabado, não se deve fazer a reforma.

Na verdade, que fortes garantias não existem nesses aranzéis
dos termos antigos, nesses erros gramaticais que formam uma gíria,
a que infelizmente se chama estilo forense!

Quando no começo de uma escritura se diz: " Ano do nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinqüenta e cinco, aos
tantos de tal mês, etc. ", a parte tem mais garantia do que se
escrevesse simplesmente a data do ano e do mês.

Se o advogado no libelo se esquecer de traçar meia dúzia de
letras maiúsculas, que traduzidas formam um palavreado de rábula,
a causa está perdida, as leis da justiça ficam desrespeitadas!

E, portanto, conservamos essas frases ocas, que nada exprimem, que só
servem de fazer da linguagem da justiça uma espécie de algaravia,
uma gíria incompreensível que ainda mais auxilia a dependência
em que vivem as partes a respeito dos homens de justiça.

Olhe, Sr. P., quem o obriga a falar dessas coisas comete uma impiedade, porque
está comprometendo a sua reputação de anônimo,
que já ia tão bom caminho com aqueles seus primeiros devaneios
jurídicos, com aquelas glosas feitas à reforma judiciária.

Dizem que os motes vinham da Secretaria da Justiça, mas eu não
creio em semelhante aleive. São coisas que espalham adrede os invejosos,
que têm ciúme do seu gênio, da ciência infusa, capaz
de tratar profundamente de questões de que pouco entende.

E o erro de imprensa? Não é interessante essa omissão
em que falam todos os defensores do regimento, mas que nenhum deles sabe qual
ela é? Não é tão regular que o regimento esteja
em execução, que os porteiros vão recebendo o meio por
cento, e que o ministro ativo e laborioso nem sequer se dê ao trabalho
de expedir uma circular retificando a omissão do regulamento?

Todos os dias aparece um novo achado. O primeiro foi o erro de imprensa,
depois os erros de cópia. Pobres compositores, pobres copistas, que
carregais com as culpas de vossos ilustres colegas! quando digo vossos ilustres
colegas, refiro-me aos que compõem códigos, e aos que copiam
regulamentos e reformas dos livros franceses e das revistas de legislação.

Semelhante lembrança do erro de imprensa foi desgraçada; todos
viram nisto uma confissão dos defeitos e das irregularidades do regimento
de custas – confissão desairosa – porque nem ao menos tiveram a coragem
de a fazer como uma declaração formal, como uma satisfação
às justas e comedidas censuras que apareceram.

Mas entenderam que ficava mal aos mestres, aos decanos da ciência,
aos novos Papinianos, dizem claramente que tinham errado, sobretudo quando
discutiam com uns ignorantes, que não sabem coisa alguma, e que sem
a menor modéstia ousam falar em jurisprudência, quando homens
como o Sr. P., sacudindo a sua cabeleira empoada, deixam cair o polme sucoso
da ciência.

Esta última frase é augusta; servimo-nos dela, mas não
sabemos o que quer dizer. Não faz mal: seguimos o exemplo do correspondente
do Jornal do Comércio.

Concluindo, porém, este artigo, não podemos deixar de felicitar-mo-nos
por ver que alguns dos mais distintos e extremos defensores do regimento de
custas confirmam com o seu talento e os seus conhecimentos a necessidade de
acabar com as custas que percebem os juízes, e de livrar a magistratura
desse cancro, embora se conserve o regimento antigo para os ofícios
de justiça.

Nunca desejamos reformas precipitadas. Quando atacamos em geral a instituição
das custas, foi sempre na idéia de que, reconhecida ela como defeituosa,
devia ser pouco a pouco substituída por um sistema mais perfeito.

Por isso, se o Sr. Ministro da Justiça pretende realizar semelhante
melhoramento, poderá contar da nossa parte com aquela mesma pequena
e pouco valiosa adesão que temos mostrado sempre que S. Ex.ª tem
iniciado uma medida útil para a nossa legislação.

A pena que sem interesse nem considerações defendeu a sua reforma
judiciária, e censurou o seu regimento de custas, desejaria poder fazer
alguma coisa para a adoção de uma idéia cujo grande alcance
todos compreendem.

Isto, porém, não quer dizer que voltamos da nossa maneira de
pensar a respeito do regimento. Não: temos a este respeito uma opinião
firme; mas, desde que atingimos o fim desejado, guarde cada um a sua convicção
e unamo-nos para fazer um serviço à justiça do nosso
país.

Quando a questão que presentemente se agita nos levar à extinção
das custas que percebem os juízes, todos nós teremos motivos
de nos felicitarmos.

Se a razão está da parte dos defensores do regimento, que sustentam
a necessidade de uma autorização do corpo legislativo, cabe-nos
a nós a iniciativa de uma idéia útil e conveniente.

Se, ao contrário, nós temos a justiça pelo nosso lado,
os defensores do regimento terão prestado um relevante serviço
à causa pública, dando o exemplo de uma discussão leal,
aceitando a verdade de onde quer que ela venha, e auxiliando com as suas luzes
uma reforma de grande interesse.

Agora, meu amável leitor, podemos conversar mais familiarmente sobre
outras coisas da semana.

Esqueci que hoje é o 1.º de abril. O que vos tenho a dizer é
muito sério. Pretendia escrever-vos um folhetim apropriado ao dia;
mas neste tempo de custas tudo custa, e por isso resignai-vos à sensaboria
da quadra.

Demais, os poissons do 1.º de abril começaram este ano tão
cedo, que já perderam a graça.

O tudo e nada do Jornal do Comércio, que escreve sempre a segunda
parte do seu artigo e nunca chega à primeira, descobriu que o regimento
de custas era uma pulha.

No Maranhão os visionários espalharam que o Dr. Olímpio
Machado fora demitido da presidência justamente no momento em que aquele
digno funcionário merece toda a confiança do governo pela sua
excelente administração.

Nesta corte o Teatro Lírico também nos pregou um formidável
logro com o seu baile alcunhado de Remorso. Se alguma coisa há nesta
farsa que se pareça com o título, é o sentimento do autor
por tê-la composto, e o da diretoria por se ter animado a fazer representar
uma coisa tão grotesca.

O outro logro foi a récita de quinta-feira, que se transferiu a pretexto
de moléstia. Se esse foi o verdadeiro motivo, não sei; a diretoria
soberana não dá satisfações ao público;
mas diziam por aí que naquele dia, por volta do meio-dia, ainda não
se tinha vendido um só bilhete de geral. Naturalmente os apaixonados
da Zecchini estavam todos aflitos com a moléstia da terza-donna.

Ainda uma vez insistimos para que se acabe com esse monopólio lírico,
tão prejudicial aos interesses do público. Não sei que
razão, ou antes que escrúpulo pode fazer continuar semelhante
estado, e recear uma concorrência cujas vantagens são geralmente
reconhecidas.

Temos uma nova empresa lírica, que sem nenhuma subvenção
se propõe dar espetáculos no Teatro São Pedro de Alcântara.
O governo devia não só autorizar semelhante empresa, como facilitar-lhe
todos os meios de levar a efeito o seu projeto; porque assim conseguimos ter
excelentes representações, melhores artistas, e faríamos
dentro de alguns anos uma grande economia, reconhecendo que podem existir
empresas líricas não subvencionadas.

Outra grande vantagem desta empresa é a edificação de
um grande teatro lírico com as proporções necessárias
para facilitar a entrada a todas as classes da sociedade; para isto pede a
empresa durante dez anos uma subvenção anual de 120 contos,
ficando o teatro pertencendo ao governo no fim do prazo da duração
da companhia, que é de quinze anos.

Ora, se atendermos a que o governo teria de despender mais de mil contos
na edificação de um teatro daquelas proporções,
se considerarmos na economia da subvenção, é evidente
que muito ganhamos em auxiliar a nova empresa, e fazer com que ela realize
o seu plano o mais breve possível.

E basta de idéias profanas; estamos na Semana Santa, no tempo da Sagrada
Paixão, dos santos e poéticos mistérios da nossa religião;
aí vêm os dias de prece e recolhimento, e as romarias pelas igrejas.

Este ano a Rua do Ouvidor deve estar brilhante. Além das belas casas
que por este tempo costumam apresentar-se com todo o luzimento, teremos um
novo estabelecimento preparado com o maior luxo e bom gosto.

A Notre-Dame de Paris abre amanhã o seu magnífico salão.
A respeito de elegância e riqueza é delicadamente o primeiro
estabelecimento deste gênero que existe na corte.

Que felicidade para os maridos e pais de família! Hão de pagar
caro os vestidos e as modas; porém ao menos terão o consolo
de reverem-se em magníficos espelhos, de pisarem macios tapetes, e
recostarem-se em cômodas poltronas.

O que é verdade é que de amanhã em diante as mocinhas
do tom terão um lindo palácio de fadas, e os homens casados
um verdadeiro purgatório em vida.

Íamos fechar este artigo, quando nos contaram que a relação
desta corte tinha absolvido ao procurador de causas Antônio Manuel Cordeiro.
No lugar competente examinaremos este processo, e apreciaremos a justiça
dessa absolvição, dada a favor de um homem sobre o qual pesava
tão grave acusação.

Capítulo XXVI

Rio, 15 de abril

Nestor Roqueplan, o espirituoso escritor que tão exatamente descreveu
o tipo do larmoyeur, esqueceu-se de classificar uma das espécies mais
interessantes deste gênero de bípede implume: o larmoyeur jornalista.

É verdade que esta importante descoberta estava reservada para nossos
dias. Conheciam-se diversas classes de larmoyeurs, como políticos,
os parlamentares, os pretendentes, os conquistadores; mas o larmoyeur jornalista
só apareceu pela primeira vez no sábado da aleluia, no dia de
Judas.

Apareceu declarando que estava triste, muito triste, e queixando-se, e pedindo
que o consolassem! Que pena! Que pena!…

Lastimava-se por causa do dia? Não creio; é mais natural que
se ressentisse de alguma injustiça grave, que estivesse possuído
de algum despeito violento.

Que pena! Consolai-o, leitores, porque do contrário ficareis privados
do vosso divertimento das quintas, da graça e do espírito de
tão belos artigos. Napoleão quer abdicar; César recusa
o império; Talma retira-se do teatro! Oh! desgraça!

Acho escusado dizer-vos a folha a que devemos essa tão curiosa invenção
do larmoyeur, assim como o nome do seu abençoado autor.

Qual o jornal desta corte que se distingue pela brilhante iniciativa que
tem tomado nos melhoramentos da imprensa?

O Jornal do Comércio.

O que é que exprimem as lágrimas com a sua eloqüência
sublime, com a sua expressão irresistível? Tudo e nada.

Só vos peço, por bem de todos, que não deixeis de consolar
o nosso larmoyeur, pelas razões que já vos disse. Escrevi algumas
correspondências elogiando o seu estilo, o chiste dos seus artigos,
e sobretudo que não vos esqueçam os lindos pós-escritos,
dignos de rivalizar com as cenas de uma comédia espanhola!

É preciso também chamá-lo algumas vezes, a propósito,
de sábio. De gênio, de portento. Gato ruivo do que usa, disso
cuida, diz um provérbio nosso.

Demais, o homem é amigo de todo o mundo. Conselheiros de Estado, marqueses,
viscondes, ministros, pertencem ao círculo dos íntimos. "Meu
amigo Bellegarde, meu amigo Pedreira, meus amigos marqueses", são
frases que lhe v~em a todo o momento ao bico da pena.

E não cuidem que é por vangloriar-se; não, é
simples força de amizade, é o poder da simpatia. O nosso escritor
é o Pollux de todos os Castores, é o fidus Achates da humanidade
ministerial.

Ora, um homem que se acha nesta posição, e que não é
justamente apreciado, tem direito a ficar triste, a mostrar-se despeitado
e a esmagar os outros com a sua ironia tranchante, chamando-os de sábios
e de gênios; isto é: atirando-se em corpo e alma, em palavras
e obras, sobre a cabeça daqueles que ainda o não reconheceram
como tal!

E, a falar a verdade, o público tem sido injusto e o Jornal do Comércio
ingrato. Já lá vão não sei quantos artigos, e
nem sequer ainda fizeram sair a mais pequena publicação a pedido
elogiando o luzeiro da imprensa, que tudo sabe e nada ignora, o amigo de todo
o mundo.

Voltando, porém, ao meu autor, a aparição do Larmoyeur
jornalista faz-me lembrar uma página sua que li há tempos, e
que recomendo aos meus leitores.

Na opinião do espirituoso escritor, a arte de chorar a propósito
é a primeira das artes, assim como as lágrimas são a
única língua universal que existe na terra, e que provavelmente
foi falada antes da Torre de Babel.

Quereis a prova?

Abri a boca e chorai… todo o mundo entenderá que tendes fome.

Chorai e bebei as lágrimas; e logo se conhecerá que estais
morrendo de sede.

Levai a mão ao coração e chorai olhando uma mulher;
e ela compreenderá que a amais.

Erguei ao céu os olhos rasos de prantos, juntai as mãos; e
ninguém deixará de entender a prece muda de uma alma infeliz.

Voltai as algibeiras e deixai correr algumas lágrimas; e logo se verá
que não tendes dinheiro nem crédito.

Uma lágrima isolada, que pende da pálpebra, e corre lentamente
por um rosto pálido e triste, exprime uma dor silenciosa e concentrada;
é como uma gota de fel que verte o coração.

Duas lágrimas límpidas que empanam às vezes o brilho
dos olhos, e se desfilam docemente pelas faces, dizem uma saudade, uma suave
recordação.

O pranto e os soluços são a expressão do desespero,
assim como uns olhos rasos de lágrimas e um sorriso revelam o momento
da suprema felicidade deste mundo.

E entretanto, apesar do poder irresistível desta linguagem universal,
todo o mundo trata de rir, e ninguém sabe chorar. As lágrimas
vão caindo em desuso; e apenas nas despedidas e nos enterros ainda
se usa, bem que raras vezes, deste meio persuasivo.

O Sr. Ministro do Império na sua reforma da instrução
pública esqueceu-se de criar uma aula especial desta arte, ou desta
língua, como quiserem. Num tempo em que o ensino se multiplica, em
que há escolas para tudo, é imperdoável que não
exista uma escola onde se aprenda a chorar a propósito.

O choro, segundo o nosso autor, é um flux à deux robinets ;
é um jorro que inunda num instante, penetra pelos poros da vossa sensibilidade,
e vos faz transbordas o coração.

É preciso, portanto, que cada homem tenha à sua disposição
uma fonte lacrimal abundante, e sempre pronta a soltar o repuxo. É
preciso também que saiba usar dela conforme as regras darte.

Assim, às vezes é mais conveniente uma dessas lágrimas
silenciosas de que já vos falei; outras, é preferível
uma chuvinha, uma garoa; e alguns casos haverá que seja necessário
uma inundação, um verdadeiro dilúvio lacrimal, do qual
nem o mesmo Noé escaparia.

Só os mestres podem ensinar esses segredos darte, e adestrar os seus
discípulos nestes rasgos, neste tropos, nestas figuras da eloqüência
lacrimal; por conseguinte: uma escola do choro é indispensável.

Aberta a aula, os primeiros que se matriculam são os namorados de
ambos os sexos; em segundo lugar os pretendentes, os candidatos à eleição;
depois os oradores, os ministros e os jornalistas que aspiram à popularidade.

Finalmente se formará uma sociedade importante, uma ordem notável,
uma corporação distinta, cujos membros terão o título
de – chevaliers de la larme à l’oeil.

Não esqueçam, porém, uma coisa, e é que não
sou eu que digo essas coisas; se não lhes agradam, queixem-se de Nestor
Roqueplan , que foi quem as inventou. Eu o que fiz, apenas como bom tradutor,
foi presumir alguns pensamentos que decerto lhe escaparam, e que ele naturalmente
teria, se escrevesse nesta cidade, e não em Paris.

Isto posto, estou às vossas disposições; podemos conversar
sobre o que nos parecer, sobre o D. Pascoal no Teatro Lírico, sobre
as notícias do Paraguai, sobre o frio e sobre os divertimentos da semana.

Fostes sexta-feira à noite a Botafogo?

Vistes como estava brilhante a linda praia, com a sua bela iluminação,
com as suas alegres serenatas, e com os bandos de passeadores que circulavam
em frente do palácio?

Havia uma expansão de contentamento e de júbilo em todas estas
demonstrações com que era acolhida e festejada a vida de Sua
Majestade. O arrabalde aristocrático se desvanecia por ser durante
algum tempo a residência da corte.

Uma banda de música desfilava ao longo da praia, soltando às
brisas da noite e aos ecos harmoniosos daquela baía alguns temas favoritos
do Trovador. Os grupos de mocinhas travessas e risonhas se encontravam e se
confundiam um momento numa nuvem de beijos e abraços.

Aquelas areias felizes eram pisadas por muito pezinho mimoso, habituado a
roçar com o seu sapatinho de cetim os macios tapetes e o lustroso soalho
dos ricos salões; e por isso, se observásseis bem, havíeis
de ver entre os passeadores perdidos na multidão muito Romeu, muito
Ossian, muito Goethe improvisado.

As auras da noite, que agitavam aqueles cabelos aveludados, que roçavam
por aqueles lábios maliciosos, que passavam carregados de ruído,
de músicas, de perfumes, trouxeram-me no meio dos rumores da festa
ao lugar onde estavam uma palavras soltas que pareciam a continuação
de uma conversa interrompida.

A primeira voz que me chegou ao ouvido era doce e melodiosa, era de moça,
e pelo timbre devia ser de uma boquinha bonita.

— Está tudo muito lindo, dizia a voz; mas acho que falta uma
coisa.

— O quê? perguntou o cavalheiro, que naturalmente dava o braço,
não à voz, mas à dona da voz.

— Devia haver um fogo de artifício.

— E o há com efeito.

— Mas onde? Não vejo.

— Nem o pode ver, porque está nos seus olhos.

— Engraçado!…

A brisa escasseou neste momento, e não me trouxe o fim da conversa;
mas eu fiquei compreendendo a razão por que hoje não se usam
como antigamente em todas as festas, as girândolas, as rodas de fogo,
etc. foram substituídas por outra espécie de fogo de artifício.

O que se usava outrora tinha o inconveniente de queimar a gente; mas esta
queimadura curava-se aí com qualquer remédio de boitica. O que
está em moda presentemente é pior, porque em vez de queimar,
abrasa, e dizem que por muito tempo.

O que eu sei é que é esta uma arte capaz de fazer concorrência
do larmoyeur, e digna de sério estudo, não só para se
poder bem usar dela, como para se evitarem os enganos e as ciladas em que
pode cair quem não tiver perfeito conhecimento desses segredos da coquetterie.

Os homens que falam de tudo e nada dizem, têm aí um belo tema
para dissertarem; podem mostrar a influência útil que deve ter
aquele estudo sobre desenvolvimento da nossa arte dramática, tão
desprezada e tão desmerecida entre nós.

E isto vem a propósito, agora que a nova empresa do Ginásio
Dramático se organizou, e promete fazer alguma coisa a bem do nosso
teatro.

Assistimos, quinta-feira à primeira representação da
nova companhia no Teatro de São Francisco: foi à cena um pequeno
drama de Scribe, e a comédia do Dr. Macedo.

Embora fosse um primeiro ensaio, contudo deu-nos as melhores esperanças;
a representação correu bem em geral, e em algumas ocasiões
excelentes.

O que resta, pois, é que os esforços do Sr. Emílio Doux
sejam animados, que a sua empresa alcance a proteção do que
carece para poder prestar no futuro alguns serviços.

Cumpre que as pessoas que se acham em uma posição elevada dêem
o exemplo de uma proteção generosa à nossa arte dramática.
Se elas a encorajarem com a sua presença, se a guiarem com os seus
conselhos, estou certo que em pouco tempo a pequena empresa que hoje estréia
se tornará um teatro interessante, no qual se poderão ouvir
alguns dramas originais e passar-se uma noite bem agradável.

Que vale entre tantas despesas de luxo a mesquinha assinatura de um pequeno
teatro? Que importa que se sacrifique uma ou duas noites para dar um impulso
à nossa arte dramática, e ganhar para o futuro um passatempo
útil e agradável?

No momento em que se soubesse que algumas das nossas notabilidades, citadas
pelo seu gosto e pelo seu amor à arte,eram assinantes do Ginásio,
que as senhoras distintas prontas a aplaudir um belo lance dramático,
não haveria mais pena que julgasse se desmerecia escrevendo para o
teatro.

Assim, pois a essas pessoas compete dar o exemplo; quanto aos autores, estes
estão prontos, e um dos mais distintos já tomou a iniciativa
dando uma composição sua para a abertura do teatro.

Não é este o lugar próprio para uma crítica literária,
e por isso nos abstemos de falar da espirituosa comédia do Dr. Macedo,
a qual foi muito bem acolhida.

Tivemos esta semana boas notícias do Paraguai. A perspectiva de guerra
desapareceu; e assim era de esperar, visto que aquela República não
era de força para lutar conosco. Tem, é verdade, as suas Três-bocas
, mas cada um dos nossos vapores tem muito maior número de bocas; e
não são bocas d’água, ou de rio, são bocas de
fogo.

Nas altas regiões da política trata-se da vaga de senador pela
província da Bahia.

Não faltam candidatos; mas há um que é recomendado pelo
seu merecimento e pelos seus serviços, lembrado pelos homens mais ilustrados,
e que será muito bem aceito pela província; falamos do Sr. Wanderley

Capítulo XXVII

Rio, 22 de abril

O Botafogo continua a ser o rendez-vous da sociedade elegante desta corte.

As tardes não têm sido tão lindas como deviam; mas felizmente
aí vem o mês de maio, o mês das flores, da poesia, a verdadeira
primavera da nossa terra.

Começa a estação dos bailes e dos saraus. O Campestre
dá a sua primeira partida por estes dias; o Cassino nos promete uma
bela noite antes do fim do mês.

Teremos naturalmente, como nos anos passados, uma febre dançante.
Ninguém escapará à epidemia; e até alguns malévolos
espelham que o próprio ministério fará uma contradança.

Venha, pois, o mês gentil, a estação das flores, com
as suas belas tardes, com as suas lindas manhãs de cerração,
com os seus dias puros e frescos!

Quanta coisa bonita que se prepara este tempo! Que belas noites, que alegres
divertimentos nos promete ainda o arrabalde do Botafogo!

Uma regata, um baile popular, e um fogo de artifício suspenso sobre
as águas límpidas da baía! Que magnífico espetáculo!

A minha pena, coitadinha, já está tremendo de susto, só
com a idéia de que há de ser obrigada a descrever todas essas
maravilhas! Que se arranje como puder; é coisa que bem pouco me embaraça.

Além destes encantadores divertimentos, ainda teremos outros que por
ora estão em segredo, e que se revelarão a seu tempo; assim
como muita novidade política que se está guardando para a abertura
das câmaras.

Que novidades são estas? Não sei; correm tantas versões,
que é impossível acertar com a verdadeira. Cada um descreve
a situação à sua maneira, forma conjeturas, e acaba fazendo
uma pergunta que está no pensamento de todos:

— Haverá oposição?

Entretanto, na minha fraca opinião, a situação é
a mais bela e a mais esperançosa que é possível. Navegamos
num mar de rosas ao sopro das brisas bonançosas; faz um tempo soberbo:
tudo sorri, tudo brilha.

E, se não, lancem os olhos sobre a atualidade e estudem com atenção
os prognósticos favoráveis que vão aparecendo.

Com a entrada da boa estação, as folhas de uma árvore
que diziam carunchosas, as folhas da Constituição , reverdecem.
Hércules reveste-se da t&uacuteuacute;nica de Nesso, e dispõe-se a
recomeçar os sete grandes trabalhos. A nossa marinha se enriquece consideravelmente
com uma nau de pedra, invento que não possuem os países mais
civilizados da Europa. Finalmente, o exército teve uma promoção!

Não há, pois, que duvidar. A época é toda de
esperanças; e, se por aí se vêem esvoaçar urubus,
não é porque o ministro esteja doente. Qual! é porque
estamos tratando agora da limpeza das praias.

Há também uns sujeitinhos que espalham que o ministério
já não regula. Que contra-senso! O ministério dos regulamentos
! Bem se vê que são coisas a que não se deve dar o menor
crédito.

Assim, pois, creio que se pode responder negativamente à pergunta
que fazem todos os políticos. Não teremos oposição.
Tratar-se-á de uma outra questão jurídica e administrativa;
far-se-ão algumas interpelações, e nada mais.

Quatro meses depressa se passam; e os ministros, que gostam tanto do gabinete,
mas que têm uma ojeriza particular às câmaras, tomarão
um meio termo, e decidirão nos salões com os deputados as questões
mais importantes da administração.

O salão é um terreno neutro entre a câmara e o gabinete.
No gabinete só entram os íntimos, aqueles que estão no
segredo do dono da casa e que gozam da sua familiaridade. A câmara é
o aposento onde ordinariamente têm lugar os arrufos e as zanguinhas
do marido com a mulher, onde de ralha e se passam algumas horas de mau humor.

No salão, porém, recebem-se todas as visitas de cerimônia
ou de intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e
concertos. Conversa-se ao som da música; conferencia-se a dois no meio
de muita gente, de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.

Se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-longue num canto da sala,
e, a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação,
efetua-se um tratado de aliança.

Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem
de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro
que chega à propósito; e acaba-se a conferência, e livra-se
o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim
ou não.

Um ministério prudente deve por conseguinte procurar sempre o salão
antes de entrar na câmara, e isto até mesmo por uma analogia
com o que se passa nas relações domésticas e na vida
familiar.

Um namorado imprudente que, prescindindo das etiquetas, quisesse logo do
primeiro dia penetrar na câmara de alguma beleza fácil que requestasse,
corria seu perigo de ver-se obrigado a saltar pela janela, a quebrar uma perna,
e talvez a ser agarrado pela polícia.

Ao contrário, um conquistador de tática, que primeiro se faz
apresentar no salão, que concilia as boas graças da mamãe,
e se inicia nos negócios do papai, que se faz necessário, daí
a pouco passa à varanda, ao gabinete, e por fim conquista a câmara.

Bem entendido, conquista a câmara com o auxílio da igreja; assim
como o ministério deve conquistá-la com o auxílio da
justiça.

Está, pois, definido o programa da nossa situação política.
O ministério deve abrir os seus salões, dar um baile as noites,
e tratar de fazer com que haja bons espetáculos líricos, a fim
de os teatros serem concorridos.

Realizando este programa, não deve ter medo dos deputados, porque
ninguém deixará as belas salas iluminadas e as elegantes rainhas
da moda com todas as fascinações, para se ir meter numa câmara
velha e escura, que até já foi cadeia!

Além do sossego de espírito, ganharão os ministros uma
popularidade espantosa entre as moças, entre os leões da cidade,
e até entre os músicos e os sorveteiros, que abençoarão
este diário consumo de notas e de sorvetes.

Nenhum folhetinista poderá deixar de fazer o seu elogio quando no
domingo passar em resenha os magníficos saraus que tiverem lugar durante
a semana, e acharem nas suas recordações as mais belas idéias
e as mais bonitas inspirações para um artigo poético.

As moças com este trato contínuo fascinarão de todo
os seus adoradores; e o número dos casamentos se multiplicará
consideravelmente, trazendo um sensível aumento de população,
devido unicamente à política do ministério.

Deixemos por um momento esta perspectiva brilhante, para olhar um quadro
triste da semana, uma cena de luto em que devemos tomar parte.

Faleceu na noite de segunda-feira o Sr. Conselheiro João Duarte Lisboa
Serra. Ainda na flor da idade, sucumbiu a uma enfermidade cruel, depois de
um longo sofrimento de cerca de três meses.

Reunia às virtudes cívicas e à inteligência e
integridade de vida pública os mais nobres sentimentos do homem; era
um zeloso empregado, um cidadão honesto, um amigo leal, e um excelente
pai de família.

Não há muito tempo, numa carta que nos dirigiu, ofereceu-nos
uma poesia feita nas suas noites de insônia e de padecimento. Mal sabíamos
nós, ao ler estes versos tão simples e tão repassados
de mágoa e de sentimento, que ouvíamos o canto do cisne.

Aqui os copio com o trecho da carta. Os seus amigos, aqueles que o estimavam,
ouvirão ainda uma vez as suas palavras.

"Adeus!

"Bem quisera terminar mandando-lhe alguma flor mimosa colhida como por
encanto no meio das vastas e monótonas Campinas deste meu prosaico
retiro. Mas apenas deparo com os ramos fúnebres do cipreste.

"Leia, pois, no meio das esperanças que lhe sorriem, esses tristes
versos do desengano; e receba no grito do moribundo uma lembrança indelével
do amigo.

"É a minha oração da manhã.

Domine, exaudi orationem meam!
Morrer tão moço ainda! Quando apenas
Começava a pagar à pátria amada
Um escasso tributo, que devia
A seus doces extremos!

Morrer tendo no peito tanta vida,
Tanta idéia na mente, tanto sonho,
Tanto afã de servi-la, caminhando
Ao futuro com ela

Se ao menos de meus filhos eu pudesse,
Educados por mim, legar-lhe o esforço…
Mas ah! que os deixo tenras florezinhas
À mercê dos tufões

Vencerão das paixões o insano embate?
Sucumbirão na luta do egoísmo?
As crenças, a virtude, o sentimento,
Quem lhes há de inspirar

Não te peço, meu Deus, mesquinhos gozos
Deste mundo ilusório; mas suplico
Tempo de vida, quanto baste apenas
Para educar meus filhos.

É curto o prazo; dai-me embora ao fel
Dos sofrimentos; sorverei contente.
Lúcida a mente, macerai-me as carnes
Estortegai meu corpo.

E após, tranqüilo, volverei ao seio
Da eternidade. A fímbria do teu manto,
Face em terra, beijando, o meu destino
Ouvirei de teus lábios.

Andaraí, 1855.".

Voltemos a página, e passemos dos dramas verdadeiros e reais aos dramas
escritos, às cenas do teatro.

O Ginásio deu a sua terceira representação, na qual
estreou uma espirituosa menina, que tem um belo talento e as melhores disposições
para a cena. Em algumas ocasiões especialmente representou com tanta
inteligência, com tanta graça, que arrancou aplausos gerais.

A companhia vai perfeitamente, tanto quanto é possível aos
modestos recursos de que dispõe. É conhecida geralmente a falta
que temos de bons atores; e por isso não há remédio senão
ir criando novos. O Ginásio por ora é apenas uma escola; mas
uma escola que promete bons artistas.

A sala é pequena; entretanto a circunspeção que reina
sempre nos espectadores, a lotação exata das cadeiras e gerais,
a regularidade da representação, fazem que se passe uma noite
agradável, e muito mais divertida do que no Teatro de São Pedro
de Alcântara.

Se as minhas amáveis leitoras duvidam, vão examinar com os
seus próprios olhos se falto a verdade. Vão assistir a uma noite
de espetáculo, e ver brincar na cena com toda a naturalidade aquela
interessante e maliciosa menina de que lhes falei.

As minhas leitoras se recusariam por acaso a fazer este benefício
à arte, dando tom a este pequeno teatrinho, que tanto precisa de auxílio
e proteção?

Estou certo que não; e está me parecendo que esta noite enxergarei
pelos camarotes muito rostinho gentil, muito olhar curioso procurando ver
se eu os enganei e faltei à verdade.

Capítulo XXVIII

Rio, 28 de abril

Que linda noite, meu Deus!

Fazia um luar magnífico. As estrelas brilhavam no azul do céu.
As brisas apenas murmurejavam entre as sombras das árvores.

Era uma noite de abril, uma dessas belas noites da nossa terra, noites de
poesia e de romance.

Estávamos no Passeio Público. Éramos dois, e conversávamos
sobre tanta coisa, fazíamos tantos sonhos acordados, tantos poemas
de imaginação, que nem sei dizer.

Há muita gente que prefere o dia à noite. Eu, ao contrário,
sou da seita dos peripatéticos, e sigo neste ponto a opinião
de Meri.

Não há coisa mais bela e mais poética neste mundo do
que sejam as estrelas. O sol é um astro egoísta, incômodo,
e que demais a mais faz-se de espião e quer intrometer-se em tudo.

O sol causa dores de cabeça, queima as faces as mais mimosas, estraga
as mais belas cores, obriga a gente a não sair de casa, rouba-nos o
prazer de passar no campo, e gera um aluvião de insetos e mosquitos
capaz de morder a todo gênero humano.

Decididamente prefiro a noite com as suas estrelas, com o silêncio
de suas horas mortas, e as suas sombras pálidas e melancólicas.

É sempre de noite que temos as nossas melhores idéias; e quando
se trata de tomar uma resolução importante, ninguém deixa
de dormir sobre o caso.

Quanto à poesia, nem falemos. Se quereis sentir, se desejais ter inspirações,
passeai de noite ao relento, conversando com as estrelas. Ficareis poeta por
força.

O mesmo me aconteceu nessa noite de que vos falei. Conversávamos sobre
música, sobre a representação dos Puritanos, sobre o
teatro, e de repente senti em mim umas faíscas do fogo sagrado.

Lembrava-me da Charton, e parecia-me ouvir dessas belas volatas que brincam
nos seus lábios, que se elevam gradualmente até confundir-se
em ondas de harmonias, que morrem a pouco e pouco, e vão perder-se
num sorriso ou num tênue suspiro que lhe parte o seio.

Muitas vezes faltavam-nos as imagens. Seria necessário recorrer a
todas as artes, materializar o som, colorir a voz, dar corpo à música,
para descrever todas as belezas desse canto inspirado.

Assim há umas notas que chamejam, irradiam como chispas brilhantes
lançadas no ar; há outras que caem docemente como gota de orvalho
da manhã. Umas são brilhantes que desferem raios de luz; outras
são flores que exalam perfumes à noite.

Muitas sorriem, brincam com os lábios, aninham-se nas covinhas da
boca, fazem mil travessuras, furtam um beijo – e fogem. Algumas suspiram,
tremem, vacilam como a lágrima que se desfia pelas faces, palpitam
como um seio oprimido, e por fim vem expirar suavemente dentro d’alma.

Às vezes dir-se-ia que o beija-flor se aninha no cálice de
uma rosa; outras que bate as suas asas douradas e se lança no espaço,
colorindo-se aos raios do sol.

E todos esses arabescos e fantasias brilhantes que vos traça a imaginação,
todas essas flores mimosas, esses raios de luz e esses lindos coloridos, não
valem o drama cheio de emoções que se passa em vossa alma aos
sons daquela voz harmoniosa.

Há muito tempo não tem o nosso teatro uma noite como a dos
Puritanos; a representação correu perfeitamente, e todos os
papéis foram mais ou menos bem desempenhados.

Dufrene, o novo tenor, apesar da pouca extensão de sua voz, agradou.
É um excelente artista, e canta com muito estilo e muita expressão.
Estou certo que, quando estivermos habituados como seu canto, o ouviremos
com muito mais prazer do que nas primeiras noites.

Bouché foi perfeitamente no seu pequeno papel. A sua bela voz produziu
o melhor efeito no magnífico dueto do segundo ato.

A Charton excedeu-se. Graciosa nas expansões infantis de um amor feliz,
sublime no desespero, natural nos desvarios da paixão, foi artista
desde o começo ao fim. Havia naquele dia o quer que seja que a animava,
que a excitava a obscurecer os seus triunfos passados.

No dia antecedente já tínhamos ouvido a Charton; mas despida
de todo este prestigio do teatro, de toda esta fascinação das
luzes e da cena. Nem por isso a achamos menos brilhante.

Foi isto domingo na festa de São Francisco. A igreja estava armada
com toda a simplicidade. Apenas algumas grinaldas de rosas se destacavam pelas
alvas paredes e caiam do teto em festões.

Uma meia obscuridade, empalidecida pelos raios dos círios, realçava
o aspecto grave e simples do templo, e dava-lhe uma expressão de recolhimento
e de santidade, que não têm ordinariamente as nossas igrejas
em dias de festa.

As litanias sagradas e os sons do órgão se confundiam um momento;
depois o silêncio se restabelecia, e uma voz harmoniosa erguia ao céu
uma prece traduzida nalguma bela melodia que se casava perfeitamente com as
palavras do ritual.

Cantou a Casaloni, o Bouché, o Gentil, o Arnaud, e finalmente a Charton.

Receávamos uma desilusão; pensávamos que, fora do teatro,
o seu canto não tivesse o mesmo poder. Mas o verdadeiro artista tem
n’alma o fogo sagrado, a centelha divina, que, no instante em que se anima,
dá brilho aos seus olhos e expressão aos seus gestos.

Um concurso numeroso enchia a igreja e assistia com satisfação
a esta solenidade religiosa de uma das ordens mais importantes desta corte.

Este ano muitos melhoramentos se introduziram, devidos ao zelo de um dos
definidores, o Sr. Miranda. Além da simplicidade com que ele fez ornar
a igreja, admitiu o costume europeu, e mandou colocar na capela-mor elegantes
assentos para as senhoras.

Tudo preparado com muita singeleza e bom gosto, de maneira que as senhoras
podem assistir às solenidades, sem estarem expostas aos empurrões
da multidão que às vezes se apinha na igreja.

O hospital da ordem teve também um grande melhoramento com o serviço
da iluminação a gás que já se acha estabelecido,
graças à generosidade de um dos definidores, o Dr. Isidro Borges
Monteiro.

Estava em prática que o definidor incumbido do hospital carregava
com a despesa da exposição anual que era costume fazer-se. Entendeu
o Dr. Isidro que devia acabar com este precedente, que, além de não
trazer utilidade alguma para a ordem, era excessivamente incômodo aos
doentes. Nesta idéia dotou o hospital com a iluminação
a gás, que monta a perto de dois contos de réis, e acabou com
as exposições anuais.

Não foi, portanto, unicamente uma generosidade, mas um benefício
real e muito proveitoso que o Dr. Isidro fez à ordem. O hospital pode
ser visitado em qualquer dia pelas pessoas que solicitarem este favor; e estas
poderão bem julgar do estado vantajoso em que se acha este estabelecimento.

Foi ainda por esforços destes dois membros da ordem que se acabou
com o uso das mesas lautas e dos banquetes que se costumavam oferecer aos
convidados depois da festa, fazendo assim da casa de Deus uma espécie
de café ou de restaurante.

Neste ponto do meu artigo vi-me obrigado, pela primeira vez, a passar uma
repreensão muito séria à minha pena, que desejava escrever
uma dissertação sobre o culto da igreja.

Não houve remédio senão lembrar-lhe os desvios em que
muitas vezes caem certas penas que escrevem sobre coisas de que não
têm perfeito conhecimento.

Assim há nesta corte um periódico, de que nem sei o nome que
se julgou habilitado a dirigir uma insinuação pérfida
a um dos nossos mais distintos diplomatas, o Sr. Dr. José Maria do
Amaral.

Responderíamos a este artigo, se não estivéssemos convencidos
que o único nome do Sr. Amaral contém a maior defesa e o maior
elogio que se possa fazer do seu caráter honesto a toda prova. Além
de que, pessoa mais habilitada já mostrou todas as falsidades em que
caiu o autor daquele escrito, o qual nem tem a coragem de sua opinião.

Batido com as suas próprias palavras, carregando com a responsabilidade
de uma acusação grave feita contra um alto funcionário
público, devia ou aceitar a discussão que lhe ofereciam, ou
distratar-se do que havia dito.Não o fazendo, classificou muito claramente
a natureza dessa insinuação.

Depois de lembrar este exemplo à minha pena, lembrei-lhe o que já
lhe tinha acontecido a respeito do tudo e nada.

Lembrei-lhe que numa das revistas passadas tinha-me comprometido horrivelmente
e feito cometer uma injustiça clamorosa contra um dos mais notáveis
escritores do Brasil.

E tudo isso produzido por uma vírgula travessa que saiu do seu lugar
e foi-se intrometer onde aonde não era chamada.

Eis o caso em duas palavras: Numa das revistas passadas escrevi eu com a
melhor boa-fé e sem malícia o seguinte:

"Os homens que falam de tudo e nada, dizem têm aí um belo
tema para dissertarem, etc."

Agora, passando os olhos o meu artigo, fiquei pasmo: em lugar do que eu tinha
escrito havia uma blasfêmia deste teor:

"Os homens que falam de tudo e nada dizem, têm aí um belo
tema para dissertarem, etc."

E por isso vem o homem citando as tais malditas palavras: "Os homens
que falam de tudo e nada dizem!"

Eu que sou o primeiro a reconhecer (como ponto de fé, como dogma)
a graça esquisita, a fina elegância, o bom gosto, o espírito
delicado do sublime escritor do Jornal do Comércio, podia cair naquele
contra-senso e avançar que ele fala de tudo e nada diz?

Fala de tudo!… Que insinuação pérfida! Como podia
eu dizer semelhante blasfêmia, se ele só fala de si e dos seus
amigos?

E nada diz! … Outra falsidade. Não só diz, mas rediz, repete
três e quatro vezes a mesma coisa. Queixa-se sempre de ser obrigado
a escrever aquilo de que todos o desobrigam.

Só quem não tiver lido… Que disparate! Pois alguém
pode deixar de ter lido o Tudo e nada? Não é possível!
Depois da Quaresma, da Páscoa e das confissões, vem o tempo
das penitências.

Já vêem os meus leitores que nunca foi minha intenção
escrever aquele absurdo. A minha pena, que tem a balda dos calemburgos, fez,
sem que eu o sentisse, uma transposição de vírgula, e
arranjou-me assim este grave comprometimento.

O homem, porém, tomou o negócio ao sério; e, portanto,
estou perdido. Que será de mim a lutar com uma pena que escreve com
tinta simpática, e que por conseguinte tem a amizade de todo o mundo?

E por onde foi começar? Pelas minhas celebérrimas erratas!
Que há de ser de mim? Fui meter-me no orçamento, eu que não
estou habituado a somar o dinheiro da nação e a contar os emolumentos
que às vezes se percebem pelos requerimentos das partes. É bem
feito que o mestre me dê o quinau.

Demais, ele tinha justa razão de zangar-se. Eu ofendi-lhe um privilégio
exclusivo, usurpei-lhe um direito sagrado, ataquei um elemento essencial de
sua existência, esbulhei-o de um brevet de perfection , tirei-lhe um
monopólio que ele exercia, enfim, errei sem pedir-lhe vênia e
permissão.

E, antes que o ofenda segunda vez, vou mudar de assunto e falar de outras
coisas.

O governo contratou finalmente a construção de um teatro com
a primeira empresa que para este fim se organizou. Era tempo, porque o Provisório
começa de novo a revoltar-se contra a permanência.

Na segunda-feira alguns barrotes do soalho entenderam que, estando passados
os três anos de existência, tinham todo o direito de apodrecerem
e partiram-se. E assim o fizeram, dando ao governo e à empresa um grande
exemplo de exatidão e lealdade no cumprimento dos contratos.

A polícia, que assistiu ao fato, registrou-o, e, como o soalho estava
no seu direito, assentou que seria uma violência inaudita o contrariá-lo.

Vejam que respeito se vota entre nós à lei dos contratos! Que
boa-fé preside às convenções! O Teatro Provisório
pode cair em cima das nossas cabeças, e ninguém tratará
de prevenir semelhante desastre; porque enfim o edifício só
tem obrigação de existir três anos e estes três
anos estão concluídos.

Assim, pois, estamos bem servidos de teatros líricos; um está
em projetos, o outro em ruínas. Veremos quem ganha a aposta: se o novo
se construí antes do velho cair.

Quanto a mim, aposto pelo velho, apesar da boa vontade da empresa Pedro II,
que se empenha em realizar a sua idéia o mais breve possível.

Desta vez deixemos em paz a política; os ministros estão muito
ocupados com os relatórios. E um relatório vale por dez regulamentos.

Capítulo XXIX

Rio, 6 de maio

Ontem, por volta de nove horas do dia, saí de casa com tenção
de visitar o novo estabelecimento óptico do Reis, à Rua do Hospício
nº. 71.

Tinham-se feito tantos elogios deste armazém, do seu arranjo e elegância,
que assentei de julga-lo pelos meus próprios olhos.

Não foi, porém, esta a única razão que excitou
a minha curiosidade. O que principalmente me levava àquela casa era
um sentimento egoísta, um desejo de míope.

Les yeux sont les fenêtres de l’âme, diz Alfonse Karr num livrinho
espirituoso que dedicou às mulheres

Ora, há muitas almas que têm a felicidade de poderem de manhã
cedo abrirem as suas janelas de par em par, e se debruçarem nelas para
espreitarem o que se passa diante do nariz.

Outras mais modestas, como as almas das mocinhas tímidas, abrem a
meio as suas janelas, mas se escondem por detrás das gelosias que formam
seus longos cílios de seda; e assim vêem tudo sem serem vistas

Algumas, porém, são tão felizes, que, quando abrem as
suas janelas, vêem-se obrigadas a descerem imediatamente as empanadas.
Estas são as almas dos míopes que usam de óculos fixos.

Estou, portanto, convencido que as janelas d’alma são em tudo e por
tudo semelhantes às janelas das casas, com a única diferença
do arquiteto.

Assim, há olhos de sacada, de peitoril, de persianas, de empanadas,
de cortinas, da mesma maneira que há janelas azuis, pretas, verdes,
de forma chinesa ou de estilo gótico.

Essas janelas d’alma são de todo o tamanho.

Umas excedem a medida da Câmara Municipal, e deviam ser multadas porque
afetam a ordem e o sossego público; são os olhos grandes de
mulher bonita.

Outras não passam de pequenas frestas ou seteiras, como certos olhos
pequeninos e buliçosos que, quando olham, fazem cócegas dentro
do coração.

O que, porém, dava matéria a um estudo muito interessante é
o modo por que a alma costuma chegar à janela.

A alma é mulher, e como tal padece do mal de Eva, da curiosidade;
por isso, apenas há o menor barulho nas ruas, faz o mesmo que qualquer
menina janeleira, atira a costura ao lado e corre à varanda.

Entretanto cada um tem o seu sistema diferente.

As almas francas e leais debruçam-se inteiramente na sacada, sorriem
ao amigo que passa, cumprimentam os conhecidos, e às vezes oferecem
a casa a algum dos seus íntimos.

Outras, ao contrário, nunca se reclinam à janela, ficam sempre
por detrás da cortina, e olham o que se passa por uma pequena fresta.
Deste número são as almas dos diplomatas, dos jesuítas
e dos ministros de Estado.

Em compensação, há também algumas almas que,
quando pilham um espírito descuidado, saltam pela janela como um estudante
vadio, e vão flanar pelas estrelas, abandonando por um instante o corpo,
seu hóspede e companheiro.

Animula vagula, blandula,
Hospescomesque corporis.

As almas andaluzitas, e de algumas mulheres coquettes que eu conheço,
têm um costume mui lindo de chegar à janela.

Escondem-se e começam a brincar com as cortinas, a fazer tantos requebros
graciosos, tantos meneios encantadores, que seduzem e martirizam um homem.

Para exprimir esta travessura d’alma na janela, os espanhóis inventaram
uma palavra mui doce, o verbo ojear, que não tem tradução
nas outras línguas.

Ia eu meu caminho, pensando em todas estas coisas, e formando um plano de
estudo sobre as janelas d’alma, quando encontrei um amigo que se prestou a
me acompanhar.

Chegamos juntos ao armazém óptico da Rua do Hospício
nº. 71. O seu proprietário nos recebeu com toda a amabilidade
e cortesia, e nos mostrou o seu estabelecimento.

Com efeito, não eram exagerados os elogios que me tinham feito dessa
casa, onde se encontra um sortimento completo de instrumentos e objetos de
óptica, tudo perfeito e bem acabado.

Vi um telescópio que me asseguraram se o melhor que existe no Rio
de Janeiro atualmente, e com o auxílio do qual pode um homem uma bela
noite ir fazer uma visita aos planetas e examinar de perto os anéis
de Saturno.

Vi muitos outros instrumentos para medir as distâncias, tomar as alturas
das montanhas, estudar as variações da atmosfera, muita coisa
enfim que os nossos avós teriam de certo classificado como bruxaria.

Chegamos finalmente, aos óculos, e entre todos aqueles primores d’arte,
no meio de tantos trabalhos delicados e de tantas invençõesas
obras do inventor dos óculos.

Estava metida numa caixa de marroquim roxo, sobre o qual se destacavam uns
traços apagados, que me pareciam de letras desconhecidas de alguma
língua antiga.

Disse-me o proprietário que esta luneta lhe viera por acaso entre
uma coleção de elegantes pince-nez que lhe chegara ultimamente
da Europa; excedia o número da fatura, o que fazia supor que naturalmente
tinha-se confundido com as outras, quando o fabricante as arrumara na caixa.

Embora não me dê a estudos de antiquário, contudo aprecio
esses objetos de outros tempos, que muitas vezes podem ter um caráter
histórico.

Continuei a examinar a luneta, levei-a aos olhos, e por acaso fitei o amigo
que me acompanhava.

Horresco referens!

Li na boca do meu companheiro, em letras encarnadas, estas formais palavras:

— Forte maçante! Está me fazendo perder o tempo!

Agarrei mais que depressa a minha alma que ia lançar-se à janela;
e, disfarçando a minha surpresa, voltei-me para o proprietário.

Através do seu ar amável e cortês, li ainda o seguinte:

— Que extravagância! Com tantos óculos bonitos, ocupar-se
com uma luneta velha que não vale nada!

Enfim, olhei para o caixeiro da casa, e vi imediatamente a tradução
de um sorriso complacente que lhe assomava nos l&aacuteaacute;bios:

— Ah! se o homem me livra deste alcaide! Dizia o sorriso do caixeiro.

Não havia que duvidar. Tinha em meu poder a célebre luneta
mágica de que falam os sábios antigos. Comprei-a por uma bagatela,
apesar da insistência do proprietário que não queria abrir
preço a um traste velho e sem valia.

Despedi-me do meu amigo, pedindo que desculpasse a maçada, guardei
com todo o cuidado a minha luneta, e segui o meu caminho.

Precisava refletir.

Como é que aquele vidro mágico que se perdera na antiguidade,
e que depois Frederico Soulié achou nas Memórias do Diabo, o
emprestou um instante a Luigi, se achava nesse momento na minha algibeira?

Por que fatalidade o lorgnon de Delfina Gay viera parar ao Rio de Janeiro,
e se achava naquela casa, desconhecido, ignorado de todos, podendo cair nas
mãos do chefe de polícia, que então se veria obrigado
a prender nove décimos da cidade?

Pensem que turbilhão de idéias, que torvelinho de pensamentos,
me agitava a mente exaltada por este fato. Visões fantásticas
surgiram de repente começavam a dançar um sabbat vertiginoso
no meu cérebro escandecido.

Via cenas do Roberto do Diabo, de Macbeth, do Paraíso Perdido e da
Divina Comédia, mais bem pintadas do que as de Bragaldi, de Dante,
de Milton, e de todos os pintores e poetas do mundo.

Enfim, decidi-me e fui almoçar.

O almoço – e especialmente o almoço diplomático e parlamentar
– é um dos mais poderosos calmantes que eu conheço. Atua sobre
o espírito pelo sistema homeopático.

Se este ano pudesse haver a mais pequena sombra de oposição,
aconselharia os ministros que pusessem em voga nesta estação
os almoços parlamentares.

Depois de almoçar, senti-me mais senhor de mim, e pude refletir friamente
sobre a posse da minha luneta.

Lembrei-me que era escritor, e avaliei o alcance imenso que tinha para mim
aquele vidro mágico.

Bastavam-me três ou quatro coups de lorgnon, para escrever uma revista
que antes me roubava bem boas horas de descanso e sossego.

Não precisava mais estar preso a uma banca, a escrever, a riscar,
a contar as tábuas do teto em busca de uma idéia a esgrimir
contra a musa rebelde.

O meu folhetim tornava-se um agradável passeio, um doce espaciar,
olhando à direita e à esquerda, medindo a calçada a passos
lentos, e rindo-me das coisas engraçadas que me revelaria a minha luneta.

Assim, pois, não é um artigo ao correr da pena que ides hoje
ler, mas um simples passeio, uma revista ao correr dos olhos

São duas horas.

É a hora da flânerie parlamentar.

Lá vêm braço a braço dois deputados oposicionistas.

Oposicionistas?… Quero dizer queixosos. Oposicionista é uma palavra
antediluviana, cujo sentido se perdeu na confusão das línguas
da Torre de Babel, e que naturalmente existiu no tempo que havia governo.

Oposicionistas ou queixosos eram dois belos tipos a estudar. Isto é,
eu pensava que eram dois: mas, fitando-lhes a minha luneta, vi com pasmo que
ambos pensavam não só da mesma maneira, mas com as mesmas palavras.

— A falar a verdade, diziam os olhos de ambos, é uma asneira
comprometer-me com o ministério, que parece estar seguro a duas amarras.
O melhor é esperar!… entretanto vamos a ver se este sujeitinho, que
aqui vai, toma a coisa ao sério, e mete-se na corriola!…

Quase ao mesmo tempo em que terminavam esta idéia luminosa, um deles
virou-se para o outro:

— Então sempre está decidido?

— De pedra e cal.

— Pois conta comigo.

Um sorriso, um aperto de mão, e separaram-se na mais estreita entente
cordiale.

Um tomou a direção do Caminho Novo de Botafogo; o outro entrou
no Jornal do Comércio.

Estava ainda moralizando o fato, em pé na porta do Walerstein, quando
descobri um moço político, esperanças da pátria,
que vinha mordendo os beiços de uma maneira desesperada.

— Que lhe terá acontecido? Disse eu comigo.

E assestei-lhe a luneta.

Um interessante monólogo, que tinha lugar no seu espírito,
acompanhava as furiosas mordeduras de beiços.

— Que época! Que época! pensava o homem. Le monde va
de mal em pire. Tudo se profana! Tudo se desmoraliza!

"Não há mais crédito senão no comércio.
Em política é vender a dinheiro e não fiar de ninguém.

"Esses oradores, que prometiam esmagar o ministério, nem se atrevem
a tocar na casa dos marimbondos; antes de começarem os discursos, já
adoçaram a boca; já beberam o copo d’água com açúcar.

"No tempo de Cícero e Demóstenes não se usava o
copo d’água com açúcar; por isso nota-se que o estilo
daqueles famosos oradores é forte e vigoroso.

"Os de hoje, ao contrário, levam mel pelos beiços, e por
isso têm sempre palavrinhas doces e açucaradas.

"E tenha um homem princípios numa quadra como esta! Tudo é
mentira! Tudo é falsidade!

" Fronti nulla fides! Não há homem hoje em dia no qual
se possa acreditar.

"Até o reverendo consta-nos do Jornal do Comércio já
não é uma verdade oficial, uma confidência de ministros,
uma página da pasta….

"Esse pigeon ministerial, mensageiro fiel dos segredos de Estado, tornou-se
velho, mudou de penas, e hoje não passa de um canard, que por aí
anda mariscando à beira da praia os poissons de primeiro de abril!

"Há dias fez o Sr. José Ricardo tomar posse da presidência
duas vezes; ontem nomeou um Chefe de Polícia que infelizmente o Ministro
da Justiça não quis confirmar".

Neste ponto do diálogo o nosso filósofo dobrou a esquina de
modo que não pude mais acompanhar o seu monólogo.

Voltando-me, dei com um representante de província que caiu sob o
raio do meu lorgnon.

Estava ocupado a guardar um livrinho verde; o seu Agenda .

Veio-me a curiosidade de ler uma página desse livro; e com o auxílio
da luneta o consegui.

A primeira folha rezava assim:

LEMBRANÇAS

1.º -Encomendar um fraque de cor no Dagnan, e visitar os ministros.

2.º -Projeto para que se trate seriamente de providenciar a respeito
do papel existente no mercado, a fim de que não se sinta falta com
o consumo feito em regulamentos.

3.º -Proposta para que se autorize o governo a confeccionar um regimento
de custas para a Câmara dos Deputados, com o fim de estimular o trabalho
e fazer com que se abra a assembléia no dia marcado.

Pouco depois do representante, passou um folhetinista dando o braço
a um personagem importante.

— Então como é isso? Dizia o personagem; desvaneceu-se
a nuvem negra? Não há mais oposição?

— Não; tudo isto acabou.

— Ora, senhor…

— De que se admira, meu amigo?

— Pois esses homens que gritavam tanto…

— Ouviram a missa do Espírito Santo, meu caro.

— E então?…

— Ficaram inspirados.

— Ah! Intendo, como diz o Gentile.

— Por falar nisto, retrucou o folhetinista, lembra-se que na ocasião
da abertura da assembléia, a música tocava a ária de
tenor do 4.º ato do Trovador: Madre infelice, corro a salvarti !….

— Seria uma alusão?

— Não sei, meu amigo; mas a época é de calembures
e trocadilhos..

Enganei-me: é um correio de ministro vestido em grande uniforme.

Depois que os estafetas de correio adotaram a jaqueta de pano com vivos,
é justo que o estafeta do ministro, que constitui a aristocracia da
classe, recorra à sobrecasaca militar. A tout seigneur tout honneur.

Tinha já visto tanta coisa, faltava-me ver o que existe dentro de
uma pasta de ministro.

Em primeiro lugar, havia o rascunho de um projeto para estabelecer o emprego
de escritor público, à guisa do promotor, do professor e do
advogado público.

Necessidade de marcar-se um bom ordenado ao escritor público, o qual
deve ser examinado como o professor, e marchar de acordo com a polícia
como o promotor.

Vi também os papéis relativos à nomeação
do novo inspetor da instrução pública, lugar que exerce
interinamente o ilustrado e infatigável Dr. Pacheco da Silva.

Entre os nomes li o do Sr. Visconde de Sapucaí, do Sr. Marquês
de Abrantes, e de muitas outras pessoas habilitadas; mas num cantinho descobri
escrito de um modo especial o nome do Sr. Herculano Pena.

Deixei estes papéis, convencido que a dignidade e energia com que
o Sr. Visconde de Itaboraí exerceu este cargo, exige que o governo
medite bem antes de decidir-se na escolha do seu sucessor.

Vi também uma porção de pedidos de demissões
de presidentes, de nomeações de outros, de lembranças
a respeito que me deram a entender ia haver uma contradança geral nas
altas posições administrativas.

Tudo isto, porém, ainda é segredo, e vos conto em confidência.

Parece que os Srs. Pena e Zacarias renunciaram as suas presidências,
e que irá para o Alto Amazonas o atual Presidente do Maranhão,
um dos mais dignos caracteres e dos mais notáveis administradores que
temos.

Os Presidentes da Bahia e Rio Grande do Sul vêm assistir a esta sessão
com a idéia firme de não reassumirem os seus cargos.

Ia-me esquecendo dizer que estava na tal pasta um voto de agradecimento da
Província de Rio de Janeiro, por se acharem na vice-presidência
e no cargo de chefe de polícia dois dignos fluminenses.

Vinha de envolta uma pequena queixa por ser tudo isto apenas uma interinidade;
mas também, para uma província cuja deputação
não tem em seu seio quem a possa reger, é ser muito exigente.

Passou o tal capitão improvisado e eu limpei os vidros da minha luneta,
guardei-a cuidadosamente para me servir em melhores ocasiões, e fui
tratar de escrever alguma coisa, para que os meus leitores não me tomem
por negligente.

Li hoje um belo folhetim lírico, em que se acha mau tudo quanto o
Mercantil caiu na asneira de achar bom. Li-o com muito prazer, e sem surpresa.

Quem julga que a Zechini encantou na Luísa Miller devia lógica
e necessariamente achar que a Charton cantou como uma fúria nos Puritanos.

O Campestre deu sua partida no dia 28 de abril. O baile vai em decadência
quanto à dança; mas, em compensação, o serviço
é excelente e de uma profusão inesgotável. O Francioni
conseguiu vencer a sorvete e à empada a carga cerrada dos cossacos
e zuavos de vinte polegadas de altura.

A nova empresa lírica fez a eleição da sua diretoria,
e da notícia que publicaram os jornais haveis de ver o acerto da escolha.
O Sr. Visconde de Jequitinhonha aceitou a presidência.

No horizonte poético da bela sociedade já se lobriga um baile
do cassino, uma regata em Botafogo, e algumas partidas familiares e encantadoras.

Venham essas flores do mês de maio, flores perfumadas dos salões,
que apenas vivem uma noite, mas que deixam na alma tantas reminiscências

Capítulo XXX

Rio,13 de maio.

Estou hoje com bem pouca disposição para escrever.

Conversemos

A conversa é uma das coisas mais agradáveis e mais úteis
que existe no mundo.

A princípio conversava-se para distrair e passar o tempo mas atualmente
a conversa deixou de ser um simples devaneio do espírito.

Dizia Esopo que a palavra é a melhor, e também a pior coisa
que Deus deu ao homem.

Ora, para fazer valer este dom, é preciso saber conversar, é
preciso estudar profundamente todos os recursos da palavra.

A conversa, portanto, pode ser uma arte, uma ciência, uma profissão
mesmo.

Há, porém, diversas maneiras de conversar. Conversa-se a dois,
en tête-à-tête; e palestra-se com muitas pessoas, en causerie.

A causerie é uma verdadeira arte como a pintura, como a música,
como a escultura. A palavra é um instrumento, um cinzel, um craion
que traça mil arabescos, que desenha baixos-relevos e tece mil harmonias
de sons e de formas.

Na causerie o espírito é uma borboleta de asas douradas que
adeja sobre as idéias e sobre os pensamentos, que suga-lhes o mel e
o perfume, que esvoaça em ziguezague até que adormece na sua
crisálida.

A imaginação é um prisma brilhante, que reflete todas
as dores, que decompõe os menores átomos de luz, que faz cintilar
um raio do pensamento por cada uma de suas facetas diáfanas.

A conversa a dois, ao contrário, é fria e calculada como uma
ciência: tem alguma coisa das matemáticas, e muito da estratégia
militar.

Por isso, quando ela não é um cálculo de álgebra
ou a resolução de um problema, torna-se ordinariamente um duelo
e um combate.

Assim, quando virdes dois amigos, dois velhos camaradas, que conversam intimamente
e a sós, ficai certo que estão calculando algebricamente o proveito
que podem tirar um do outro, e resolvendo praticamente o grande problema da
amizade clássica dos tempos antigos.

Se forem dois namorados em tête-à-tête, que estiverem
a desfazer-se em ternuras e meiguices, requebrando os olhos e afinando o mais
doce sorriso, podeis ter a certeza que ou zombam um do outro, ou buscam uma
incógnita que não existe neste mundo – a fidelidade.

Em outras ocasiões, a conversa a dois torna-se, como dissemos, uma
perfeita estratégia militar, um combate.

A palavra transforma-se então numa espécie de zuavo pronto
ao ataque. Os olhos são duas sentinelas, dois ajudantes-de-campo postos
de observação nalguma eminência próxima.

O olhar faz as vezes de espião que se quer introduzir na praça
inimiga. A confidência é uma falsa sortida; o sorriso é
uma verdadeira cilada.

Isto sucede freqüentemente em política e em diplomacia.

Um ministério, aliás bem conceituado no país, e que
se sente cheio de prestígio, vê-se incomodado por uma pequena
oposição nas câmaras, e recorre à conversa.

Como faziam os exércitos antigos, como fez Roma e Alba, em vez de
uma batalha campal, acha mais prudente e mais humano apelar para o juízo
de Deus, e decidir a vitória pelo combate dos Horácios e dos
Curiáceos.

Novo Horácio, separa os inimigos por uma ruse de guerre e combate,
isto é, conversa com cada um dos inimigos.

Ora, todos nós sabemos, desde o tempo em que traduzimos Tito Lívio,
que um Curiácio não é para se medir com um Horácio;
por conseguinte, o resultado da conversa é sabido com antecedência.

Instâncias de uma parte, confidências da outra, protestos, acusações,
queixas e promessas, tudo de mistura, eis em resumo os elementos de uma conversa
ministerial e parlamentar.

De ordinário, esta conversa começa friamente. Caminham lado
a lado, mas guardando uma certa distância. Nota-se na fisionomia alguma
reserva, uma indecisão mesmo. As palavras trocam-se lentamente, e como
que medidas e pesadas.

São os primeiros passos, os botes preliminares de dois jogadores de
florete.

Dentro em pouco tempo, há um pequeno arranhão, faz-se sangue.
Os homens tomam fogo, falam ao mesmo tempo, gesticulam desesperadamente, e
medem o assoalho a passos largos e desencontrados.

Depois de procelosa tempestade,
Sombras de oposição que leva o vento,
Traz a pasta serena claridade
Esperança de voto e salvamento.
(Camões)

A conversa chega ao seu terceiro período, à sua última
fase. Passeiam então braço a braço, ou sentam-se nalgum
canto, risonhos, contentes, satisfeitos, como dois amigos que se encontram
ao cabo de uma longa ausência, como dois amantes que se abraçam
depois de pequeno arrufo.

Desde que começou a ter voga este gênero de conversa governativa,
ou política, imediatamente certos espíritos metódicos
e sistemáticos trataram de classificar por ela as diversas espécies
de oposicionistas ou descontentes.

Assim, há hoje três classes distintas de oposicionistas: 1.ª)
dos que já conversaram; 2.ª) dos que querem conversas; 3.ª)
dos que não admitem conversa.

Esta última classe dizem que é das mais pobres, e com toda
a razão. É preciso ser-se bem misantropo e anti-social para
fugir a uma conversa tão amável e de tão grande interesse.

Não vão tomar à má parte esta expressão.
Quando eu disse que a conversa ministerial é de grande interesse, foi
no sentido de ser instrutiva e de deleitar o espírito, deixando impressões
agradáveis.

Mas, voltando ao nosso assunto, é inegável a influência
benéfica que exerce a conversa sobre a alma do homem civilizado.

Nos primeiros dias da sessão da câmara, como ainda há
pouco se tinha conversado, a chapa ministerial da comissão de resposta
à fala do trono sofreu um échec.

Porém neste dia mesmo conversou-se. O ministério tem neste
ponto uma grande vantagem: é um senhor que conversa por seis bocas.

O resultado foi que a coisa tomou outro caminho, e entrou nos seus eixos.

Dizem, é verdade, que a nomeação dos Srs. Ferraz e Assis
Rocha para as comissões de fazenda e justiça civil foi uma verdadeira
derrota.

Não creio; estou mesmo convencido que o ministério desejou
de coração que duas inteligências distintas, como são
estes senhores, fossem aproveitadas, cada uma na sua especialidade.

E tanto isto é assim, tanto essas veleidades de oposição
não tomam aspecto sério, que a resposta à falta do trono
apresentada ontem mostra a inteira adesão que presta a câmara
à política do governo e à marcha da administração.

Felizmente estamos no tempo das ironias; e não se me dá de
crer que a câmara é capaz de aprovar aquela resposta, e pouco
depois declarar-se em oposição aberta.

E nisto não fazia mais do que seguir o exemplo dos ministros que prometem,
protestam, dão palavra, e amanhã nem se lembram do que disseram
na véspera.

Ora, não vejo porque a câmara não aproveitará
das lições dos seus mestres, ainda mesmo que seja para dar-lhes
lição.

Terá medo de dissolução? Acreditará num boato
que por aí espalham certos visionários?

Custa-me a crer. O tempo em que os ministérios dissolviam as câmaras
já passou; agora estamos no tempo em que as câmaras é
que hão de dissolver os ministérios.

Outrora, quando os deputados vinham por sua vontade, com toda a pressa, o
ministério os mandava embora.

Atualmente, que é preciso que o governo mande buscar os deputados,
é natural que estes mandem embora o ministério.

É a regra do mundo. Depois da ação vem a reação.

Aqui vejo-me obrigado a abrir um parêntese, e a trocar a minha pena
de folhetinista por uma pena qualquer de escritor de artigos de fundo.

Não brinquem, o negócio é muito sério.

Vou escrever uma tirada política.

A situação atual apresenta um aspecto muito grave, e que pode
ter grandes conseqüências para o país.

Chegamos talvez a esse momento decisivo em que os sentimentos políticos,
por muito tempo adormecidos, vão novamente reaparecer e tomar um grande
impulso.

No meio do indiferentismo e do marasmo em que se sepultavam os antigos partidos
políticos, começam a fermentar algumas idéias, algumas
aspirações, que talvez sejam o germe de um novo partido.

Os princípios desapareceram; as opiniões se confundem, as convicções
vacilam, e os homens não se entendem, porque falta o pensamento superior,
a idéia capital, que deve traçar a marcha do governo.

A política e a administração, deixando de ser um sistema,
reduziram-se apenas a uma série de fatos que não são
conseqüência de nenhum princípio, e que derivam apenas das
circunstâncias e das necessidades do momento.

A conciliação apresentada como programa pelo ministério
atual ficou sem realização.

Foi apenas um meio transitório a que se recorreu quando sentiu-se
a necessidade de criar esperanças, que foram depois iludidas.

Todos os sintomas, pois, indicam que o organismo político, em que
esteve o país, começa a fazer crise. Deste caos de opiniões,
de idéias, de teorias, de convicções mortas e de opiniões
que se vão criando, há de necessariamente sair um elemento novo,
uma combinação de princípios que deve formar um grande
partido.

Quais devem ser as tendências e as bases fundamentais dessa nova política?
Quais serão as idéias, as reformas e os melhoramentos que constituirão
o seu programa de governo?

É difícil, é quase impossível dize-lo; mas parece-me
que a conciliação, que o ministério não conseguiu
realizar nos homens, se há de operar nesta confusão de idéias
extremas que deve formar o novo partido.

Há certos fatos necessários, que não dependem da vontade
humana, e que entretanto podem ser dirigidos e modificados por ela.

Na época atual, o aparecimento de um partido filho das antigas facções
políticas que dividiram o país, é uma necessidade, é
uma conseqüência fatal do estado de coisas.

Cumpria, pois, que os homens eminentes que podem de alguma maneira imprimir
a sua vontade nos acontecimentos tomassem a iniciativa, e, criando os elementos
desse novo partido, lhe dessem uma influência benéfica e salutar.

Há no nosso país, há no seio da representação
nacional, há nas altas posições administrativas homens
que deviam incumbir-se dessa missão e levantar a bandeira, em torno
da qual se agrupariam imediatamente todos os espíritos que hoje vacilam,
todas as aspirações que agora vão nascendo.

Iniciado na tribuna, sustentado pela imprensa, acolhido pela opinião
geral, esse novo pensamento, essa nova profissão de fé ficaria
conhecida pelo país inteiro

A política não seria mais uma simples luta de interesses individuais,
uma oposição de certos homens. A influência e o prestígio
dos grandes nomes tornar-se-ia então um verdadeiro pronunciamento de
idéias e princípios.

Todos esperam com ansiedade a discussão do parlamento; todos aguardam
o momento decisivo de uma demonstração clara e expressa.

Se nem um desses homens de quem há pouco falamos tomar a iniciativa,
então, perdida a fé que inspiram os nomes conhecidos no país,
não haverá remédio senão caminhar sem eles.

Os homens novos, que não têm comprometimentos nem precedentes,
trabalharão como simples soldados. Algum dia acharão um chefe;
e, se não acharem, criá-lo-ão.

Os melhores generais foram soldados.

Já era tempo.

Vem de novo, minha boa pena de folhetinista, vamos conversar sobre bailes
e teatros, sobre essas coisas agradáveis que não custam a escrever,
e que brincam e sorriem sobre o papel, despertando tanta recordação
mimosa.

Lembra-te do Cassino?

O lindo baile já não é aquela brilhante reunião
de outros tempos, onde se viam agrupadas como flores de uma grinalda todas
as moças bonitas desta terra.

Tudo passa; algumas daquelas flores, levadas pelas brisas do mar, lá
se foram perfumar outros salões; muitas brilham aos raios de outro
sol, e poucas ainda aí vão talvez ultimamente para sentirem
as reminiscências de tempos passados.

É verdade que lá de vez em quando nesta grinalda já
quase murcha desabrocha uma nova flor, que faz esquecer um momento todo o
passado.

Nessa última noite era uma flor do Brasil que, depois de ter brilhado
entre as pálidas anêmonas de Portugal, entre os alvos lírios
da França, entre os suaves miosótis da Alemanha, veio de novo
aquecer-se aos raios do sol da pátria, e perfumar as belas noites de
nossa terra.

Se vísseis como ela se balouçava docemente sobre a haste delicada,
e se reclinava com tanta graça como para deixar cair as pérolas
de orvalho e fragrância que destilavam do seu seio delicado!

No meio de um baile tudo é fascinação e magia.

Tocava a valsa, e a flor se transformava em sílfide, em lutin , em
fada ligeira que deslizava docemente, roçando apenas a terra com a
ponta de um pezinho mimoso, calçado com o mais feiticeiro dos sapatinhos
de cetim branco.

Um bonito pé é o verdadeiro condão de um a bela mulher.

Nem me falem em mão, em olhos, em cabelos, à vista de um lindo
pezinho que brinca sob a orla de um elegante vestido, que coqueteia voluptuosamente,
ora escondendo-se, ora mostrando-se a furto.

Se eu me quisesse entender sobre a superioridade de um pé, ia longe;
não haveria papel que me bastasse.

Apareceu também no Cassino uma bela roseira, coberta de flores, em
torno da qual os colibris adejavam a ver se colhiam um sorriso ou uma palavra
meiga e terna.

Mas a roseira só tinha espinhos para os que se chegavam a ela: os
estames delicados guardavam o pólen dourado do seu seio para lança-lo
talvez às brisas das margens do Reno ou do Mondego.

Depois do Cassino, o fato mais notável da crônica dos salões
foi o benefício da Raquel Agostini com a representação
da ópera Semíramis.

A Casaloni caricaturou outra vez o papel de Arsace . O elegante e ardente
guerreiro da Babilônia desapareceu naquele porte sem nobreza, naqueles
gestos sem expressão, naquela frieza de caráter,

Por outro lado, a beneficiada teria feito um verdadeiro benefício
ao público se tivesse cortado do seu programa uma célebre ária
do Roberto do Diabo e uma polca de invenção moderna que foi
dançada pelo corpo de baile.

O Ginásio Dramático continua em progresso. A concorrência
nestas últimas récitas tem sido numerosa; e o salão começa
a ser freqüentado pelas melhores famílias e por muita gente da
sociedade.

Por isso já esperava eu. Coloquei aquela pequena empresa sob a proteção
das minhas amáveis leitoras; embora o meu valimento seja nenhum,eu
sabia que, por amor da arte, elas não o deixariam de olhar com bons
olhos para esse seu protegido.

Ce que femme veut, Dieu le veut. Se as minhas belas leitoras quiserem, em
pouco tempo o Ginásio será um excelente teatro, e poderá
criar artistas novos e dar-nos bem horas de agradável passatempo.

Capítulo XXXI

Rio, 20 de maio

Domingo passado havia espetáculo no Teatro de São Pedro e no
Ginásio Dramático.

Mais longe, num pequeno salão todo elegante, dançava-se e ouvia-se
cantar Bouché, Ferranti, Dufrene e a Charton.

A harpa do Tronconi gemia, a flauta de Scaramella trinava como um rouxinol.

Seriam dez horas da noite.

Neste mesmo momento, e no meio desta alegria geral, uma grande catástrofe
se consumava.

Uma fa&iaciacute;sca desprezada crescera, transformara-se em chama, e ameaçava
devorar um quarteirão inteiro.

Os sinos dobravam, o povo apinhava-se em torno, a chama enroscava-se ao longo
das paredes como uma serpente de fogo, e o incêndio lançava sobre
toda esta cena um clarão avermelhado e sinistro.

Fizeram-se atos de heroísmo e de coragem, ações de bravura
que passaram despercebidas no meio desta luta terrível do homem com
o elemento.

Os ingleses portaram-se com o sangue-frio habitual; os franceses trabalharam
com entusiasmo; alguns brasileiros sustentaram a honra do seu nome e os brios
nacionais.

No dia seguinte apenas restava de tudo isto um acervo de ruínas ainda
fumegantes, um epitáfio escrito pelo fogo, e que todos os passantes
iam ler naquelas cinzas ardentes.

Durante dois oi três dias conversou-se sobre o incêndio, fizeram-se
mil comentários, e entre muitas coisas que se disse apareceram algumas
verdades bem tristes.

Asseguravam que as bombas do arsenal estavam desmanteladas, e que, depois
de chegarem ao lugar do incêndio, descobrira-se que não tinham
chaves, e portanto fora necessário esperar uma boa hora para que elas
pudessem prestar serviço.

Não sei até que ponto chega a verdade deste fato; mas para
mim ele nada tem de novo.

Se se tratasse de uma regata, de algum passeio de ministro a bordo dos navios
de guerra, naturalmente tudo havia de estar pronto, as ordens seriam dadas
a tempo e se desenvolveria um luxo de atividade e de zelo como não
há exemplo, nem mesmo na Inglaterra, o país clássico
da rapidez.

Tratava-se, porém, de um incêndio apenas, de cinco casas reduzidas
a cinzas, e por isso não é de estranhar que não houvesse
a mesma azáfama que costuma aparecer naqueles outros ramos mais importantes
do serviço público.

Depois do fogo veio a chuva, como era natural; tinha reinado um elemento,
era justo que o outro lhe sucedesse.

Toda a semana levou esta senhora a fazer-nos pirraças. Roubou-nos
o belo divertimento da regata; e de vez em quando escondia-se atrás
da porta, isto é, por detrás do Corcovado, e deixava que o sol
brilhasse e que o céu se tornasse azul; e, apenas pilhava um homem
na rua, começava a divertir-se à sua custa.

O arsenal de marinha, que não dá grande importância à
extinção dos incêndios, podia ao menos tratar de livrar-nos
do contratempo da chuva, e fazer a experiência da teoria de Méry.
É natural que as suas peças de artilharia estejam em melhor
estado que as suas bombas.

Entretanto, apesar da chuva, tivemos esta semana uma noite de Trovado r e
outra de Sonâmbula.

O Dufrene fazia a sua quarta estréia nesta última ópera.
Na ocasião em que se representava uma das cenas do primeiro ato, um
amigo que estava no meu lado lembrou-me as seguintes palavras de Balzac:

"Um artiste qui a le malheur d’être pleindre la PASSION qu’il
veut exprimer ne saurait la peindre, car il est la CHOSE même, au lieu
d’en être l’image."

O que é que Balzac e o meu amigo quereriam dizer com estas palavras?
Não sei; um citou-as sem comentário; o outro escreveu-as sem
segunda tenção.

Nesta mesma noite teve lugar a reunião da Sociedade Estatística
na sala onde se achavam expostos os produtos industriais dos Estados Unidos,
que o Sr. Fletcher oferecera a Suas Majestades e algumas corporações
científicas desta corte.

Havia muita coisa a admirar naquela pequena exposição especialmente
pelo que toca à fotografia, aos trabalhos de cromolitografia, e às
cartas geográficas feitas pelo novo sistema da gravura sobre cera.

Vimos um busto de Webster, que o Sr. Fletcher nos afirmou ser feito com uma
máquina, que por meio de um processo engenhoso copia os traços
de um outro busto. A semelhança era completa, a julgar-se pelos retratos
em fotografia que existiam na sala.

Aberta a sessão pelo Sr. Visconde Itaboraí, o Sr. Fletcher
pronunciou um discurso em francês, no qual expôs as suas idéias
e os projetos que o haviam animado a voltar ao Brasil.

Depois de falar sobre a ignorância absoluta e recíproca que
existe no nosso país e nos Estados Unidos sobre a organização
política, a administração e o progresso de uma e outra
nação, mostrou os desejos que tinha, de fazer conhecido o Brasil
na sua pátria e de estreitar assim as relações comerciais
e políticas dos dois povos americanos.

Se o Sr. Fletcher conseguir realizar esta idéia, pela qual parece
trabalhar com tanto entusiasmo, fará um grande serviço à
América. Talvez dessas relações que vão começar
nasça um grande pensamento de política americana, que no futuro
venha a dirigir os destinos do novo mundo e a por um termo à intervenção
européia.

E, se é exata uma notícia que nos deram, então é
muito natural que os projetos do Sr. Fletcher venham a efetuar-se mais breve
do que se pensa.

O Sr. William Trousdale, Ministro Plenipotenciário dos Estados Unidos
na nossa corte, é um dos candidatos à futura presidência
da Confederação; e, à vista dos valiosos serviços
prestados por ele na Guerra do México, é de crer que esta candidatura
seja bem aceita pelos diversos Estados.

Quanto à política, é hoje esse terreno tão inclinado,
que nele não nos queremos aventurar, quando os chefes deixam os seus
soldados errantes e dispersos combatendo em guerrilhas, em saberem ao certo
que bandeira defendem.

A Câmara dos Deputados tem aprovado algumas naturalizações
de sujeitos que entendem que as leis do país não passam de letra
morta, e que reclamam, pela importância de seus nomes, dispensa naquelas
leis.

Até reza a crônica que se deu o foro de cidadão brasileiro
a um estrangeiro recomendado à polícia! Talvez que merecesse
esse favor para poder ser empregado na espionagem da gente trêfega.

Desejava bem dar-vos alguma notícia da oposição; porém
creio que os oposicionistas modernos procedem de uma maneira muito diferente
da que se usava outrora.

Em vez de atacarem o governo, defendem-no; e por isso contaram-me que, perguntando
o presidente a um deputado que pedira a palavra na resposta à fala
do trono se era pró ou contra, respondera que seria como quisessem

É verdade que lá de vez em quando surge um campeão que
não dá quartel ao governo, como sucedeu ontem na discussão
da fala do trono.

Que de verdades se descobriram! O país está à borda
de um abismo! Nós caminhamos a passos de gigante para o mais completo
absolutismo!

Quereis as provas?

As medidas sobre a limpeza da cidade, os regulamentos de instrução
pública e de óbitos, o método Castilho, e talvez que
a reprovação de alguns professores – tudo isto, na opinião
do orador, são golpes profundos que se têm dado à constituição
e à nossa organização política.

Pobre constituição! A quanto não estais sujeita! É
verdade que, depois que te arrancaram as folhas para as lançarem por
aí aos domingos e quintas-feiras, não tinhas mais que esperar.

Esquecia-me de dar-vos uma notícia importante. Um candidato à
senatoria, que não teve a fortuna de ser escolhido, foi ultimamente
promovido a tenente.

É um ato do governo que merece que merece elogios; é uma prova
de que o ministério, apreciando em subido grau os serviços daquele
prestante cidadão, não quis que ele entrasse no quartel dos
inválidos , e habilitou-o para continuar em serviço ativo.

E o que é mais notável é que este favor foi feito a
um deputado oposicionista! Que imparcialidade!

Já sabeis que as iguarias preparadas para a regata foram enviadas
aos doidos do Hospício de Pedro II. Decididamente estavam predestinadas!

Seu primeiro destino era servir aos doidos, doidos de amor e de entusiasmo,
que, depois das corridas dos escaleres e das amáveis conversas com
as belas convivas, teriam de ir fazer um toast à rainha do dia em beleza
e ao vencedor do páreo.

Mas tudo isto o tempo veio transtornar, e, em vez de uma regata, deu-se cinco
ou seis, e bem regadas pela chuva, que a esta hora ainda cai a cântaros.

E por hoje, despedida à francesa; até o próximo domingo,
em que é provável que esteja de melhor veia do que hoje.

Capítulo XXXII

Rio, 27 de maio

Desculpai-me!

Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios
mais interessantes de minha vida de escritor.

Aposto que nunca viste escrever sem tinta!

Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre
é possível no século atual, no século do progresso.

Eis o caso.

Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí
mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.

Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante de um homem, que não
sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando…

Talvez não acrediteis.

Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha,
e saiu intata e pura. Não trazia nem uma nulidade de tinta. Fiz nova
experiência, e foi debalde.

O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando
a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.

Estava perdido!

Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discursos
de cinco e seis horas. Que elementos para não trabalhar!

Nada; era preciso por um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução
pronta e imediata.

Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos
meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.

O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.

Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa
dissidência.

A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era
ministerial quand même. E ambos tão decididos nas suas opiniões,
que não havia meio de faze-los voltar atrás.

Era impossível, pois, evitar uma discussão; resignei-me a ouvir
os prós e os contras deste meu pequeno parlamento.

A pena do meu amigo fez um discurso muito desconchavado, a falar a verdade.
Por mais que lho tenha dito, não quer acreditar que a oratória
não é o seu forte; tirando-a da mesa e do papel não vae
nada.

Enquanto, porém, ela falava, o tinteiro voltava-lhe as costas de uma
maneira desdenhosa, o que não achei bonito. Estive quase chamando-o
à ordem; mas não me animei.

Chegou finalmente a vez de falar ele, e defendeu-se dizendo que todas as
penas faziam oposição aos tinteiros logo que estes lhes recusaram
o elemento para trabalhar, e se não lhe davam a tinta necessária
para escrever, sem a qual ficavam a seco.

— C’est trop fort! Gritou a pena do meu amigo, que gosta de falar em
francês. Quebro os meus bicos antes do que receber uma só gota
de tinta em semelhante tinteiro.

E, se o disse, melhor o fez. Não houve forças que a fizessem
molhar os bicos no tinteiro e escrever uma só palavra com aquela tinta.

Atirei-a de lado, abri a gaveta, e tomei um maço de penas que aí
havia de reserva.

Mesma coisa: todas elas tinham ouvido, todas se julgavam comprometidas a
sustentar a dignidade de sua classe.

Por fim, perdi a paciência, zanguei-me, e, como já era mais
de meio-dia, larguei-me a toda pressa para a casa, a fim de escrever alguma
coisa que pudesse fazer as vezes de um folhetim.

Mas uma nova decepção me esperava.

A minha pena, de ordinário tão alegre e tão travessa,
a minha pena, que é sempre a primeira a lançar-se ao meu encontro,
a sorri-me a dar-me os bons dias, estava toda amuada, e quase escondidas entre
um maço de papéis.

Quanto ao meu tinteiro, o mais pacato e o mais prudente dos tinteiros do
mundo, este tinha um certo ar político, um desplante de chefe de maioria,
que me gelou de espanto.

Alguma coisa se tinha passado na minha ausência, algum fato desconhecido
que viera perturbar a harmonia e a feliz inteligência que existia entre
amigos de tanto tempo.

Ora, é preciso que saibam que há completa disparidade entre
esses dois companheiros fiéis das minhas vigílias e dos meus
trabalhos.

O meu tinteiro é gordo e barrigudo como um capitão-mor de província.
A minha pena é esbelta e delicada como uma mocinha de quinze anos.

Um é sisudo, merencóreo e tristonho; a outra é descuidosa,
alegre, e às vezes tão travessa que me vejo obrigado a ralhar
com ela para faze-la ter modo.

Entretanto, apesar desta diferença de gênios, combinavam-se
e viviam perfeitamente. Tinha-os unido o ano passado, e a lua de mel ainda
durava. Eram o exemplo dos bem casados.

Façam, portanto, idéia do meu desapontamento quando comecei
a perceber que havia entre eles o que quer que fosse.

Era nada menos do que a repetição da primeira cena.

Felizmente não veio acompanhada de discussões parlamentares,
mesmo porque na minha mesa de escrever não admito o sistema constitucional.

É o governo absoluto puro. Algumas vezes concedo o direito de petição;
no mais, é justiça a Salomão, pronta e imediata.

A minha pena, como as penas do meu amigo, como todas as penas de brio e pundonor,
tinha declarado guerra aos tinteiros do mundo.

Não havia, pois, que hesitar.

Lembrei-me que ela me tinha sido confiada há coisa de nove meses pura
e cândida, e que assim a devia restituir.

Lembrei-me de muitas outras coisas, e tomei uma resolução inabalável.

Atirei o meu tinteiro pela janela fora.

A pena saltou, de tão alegre e contentinha que ficou. Fez-me mil carícias,
sorriu, coqueteou, e por fim, fazendo-me um gestozinho de Charton no Barbeiro
de Sevilha, um gestozinho que me mandava esperar, lançou-se sobre o
papel e começou a correr.

Escrevia sem tinta.

Quero dizer, desenhava; esgrafiava sobre o papel quadros e cenas que eu me
recordava ter visto há pouco tempo; debuxava flores, céus, estrelas,
nuvens, sorrisos de mulheres, formas de anjos, tudo de envolta e no meio de
uma confusão graciosa.

E eu nem me lembrei mais de escrever, e fiquei horas esquecidas a olhar esses
quadros, que decerto não conseguirei pintar-vos.

Recordo-me de um.

Passava-se na segunda-feira, na baia de Botafogo.

A uma hora o tempo fez umas caretas, como para meter susto aos medrosos.

Daí a alguns momentos o sol brilhou, o azul do céu iluminou-se,
e uma brisa ligeira correu com os vapores do temporal que ainda toldavam a
atmosfera.

Uma bela tarde desceu do seio das nuvens, pura, fresca e suave como uma odalisca,
que, roçando as alvas roupagens de seu leito, resvala do seu divã
de veludo sobre o macio tapete da Pérsia.

Era realmente uma odalisca, ou antes uma moreninha de nossa terra. Seu hábito
perfumado se exalava na aragem que passava; os seus olhos brilhavam nos raios
do sol; sua tez morena se refletia na opala dourada que coloria o horizonte.

Tudo sorria, tudo enamorava. As nuvenzinhas brancas que corriam no azul do
céu, o vento a brincar com as fitas de um elegante toilette, uma réstia
de sol que vinha beijar uma face que enrubescia ao seu contato, tudo isto
encantava.

Apenas o mar, como um leão selvagem, eriçava a juba, estorcia-se
furioso, e arrojava-se bramindo sobre as areias da praia.

Isto, em bom português, quer dizer que havia uma ressaca insuportável.
Mas é necessário recorrer de vez em quando às imagens
poéticas, e seguir os preceitos da arte; e foi por isso que dei ao
mar a honra de compara-lo a um leão selvagem e indômito.

Na minha opinião, ele não passa de um sujeito muito malcriado,
que, apesar de tanta moça bonita que se incomodou para ir vê-lo,
pôs-se a fazer bravatas, como se alguém cá da terra tivesse
medo dele.

Por isso, os barquinhos zombavam dos seus rompantes e brincavam sobre as
ondas, e corriam tão ligeiros, tão graciosos, que era um gosto
vê-los saltando nos cimos das vagas, e inclinando-se docemente com o
fluxo da ressaca.

Às três horas e meia ouviu-se um tiro de peça e começou
o páreo, que durou até cinco horas da tarde. Apesar de todos
os contratempos que sobrevieram, havia um prazer e uma animação
geral.

Todos os convidados se achavam reunidos no primeiro pavimento da casa do
Sr. Teixeira Leite; e aí foi servido um excelente toast que a sociedade
fizera preparar.

Sans pain et sans vin, l’amour n’est rien, diz Brillat Savarin, que é
autoridade na matéria. Portanto não é de admirar que,
depois do toast , todos os rostos se animassem, o sorriso se expandisse nos
lábios, e a galanteria se tornasse mais amável e afetuosa.

Enquanto lançava um olhar sobre essas mesas carregadas de flores e
de manjares, cercadas de tantas moças bonitas e de talhes tão
delicados e tão mimosos, enquanto o Champanha espumava e as luzes cintilavam,
fazendo brilhar o rubi líquido que tremia nos copos de cristal, vieram-me
umas reflexões de filosofia gastronômica ou de gastronomia filosófica
(como quiserem), que me envergonharam.

A minha poesia, a pouca que tenho, aproveitou o primeiro olhar que passou
e foi refugiar-se nuns belos olhos que ela conhece, até que passassem
as reflexões humorísticas que faziam trabalhar o meu espírito.

E ela tinha razão.

Numa mesa de jantar, a menos que não se tenha perdido a razão,
declaro impossível a menor dose de poesia.

Neste lugar tudo se nivela, tudo se iguala. O rei e o mendigo, o rico e o
pobre, a moça bonita e a mulher feia, todos têm fome.

Vedes aquela mulher bela e elegante; tem o corpinho tão mimoso, a
cintura tão delicada, que julgais alimentar-se de perfumes e de essências
do Oriente.

Admirai-lhe os olhos grandes que parecem refletir uma luz divina, os lábios
feitos para o sorriso, a cercadura de pérola que ornam a sua boquinha,
e que um beijo não ousaria profanar.

É uma flor, uma estrela, um anjo cercado de luz, que vive no meio
de uma auréola celeste, uma fada que habita o palácio encantado
de vossa imaginação.

Pois bem, chegai-vos a uma mesa bem servida, e olhai a vossa estrela, o anjo
dos vossos sonhos.

Os dentes não são mais pérolas, porque mastigam como
os vossos e como os de qualquer; os lábios rosados não sorriem,
saboreiam tão bem uma iguaria como os de um consumado gastrônomo.

E daí a um momento, quando no meio do cheiro das iguarias e das fumaças
do vinho, esta mulher vos disser que jantou bem, se ainda tiverdes um átomo
de poesia na vossa alma, podeis gabar-vos de ser o maior poeta do mundo.

E assim como a mulher é tudo o mais.

O estadista profundo, que gasta a sua vida a resolver os grandes problemas
sociais e políticos, que joga com as massas e com as nações,
como um menino com a sua péla, senta-se à mesa e esgrime-se
contra uma asa de peru, da mesma maneira que um estudante esfaimado no dia
de um enterro de ossos.

A religião, a ciência, a glória, o amor, a arte, todas
essas coisas grandes e sublimes do mundo, tudo num momento dado some-se pelo
fundo de um prato, ou pelas bordas de um copo de vinho.

Deixemo-nos, pois, dessas veleidades, desses orgulhos todos e sem fundamento.
Todos temos as mesmas misérias, todos saímos do pó, e
um dia a ele tornaremos.

Bem razão tinhas tu, meu Brillat Savarin, quando dizias que a cozinha
é a primeira e a única ciência deste mundo; e que os homens
só se distinguem dos animais, porque estes comem, e nós saboreamos.

Quantas da minha leitoras não terão amarrotado estas páginas
e condenado o meu folhetim como a pior das revistas passadas, presentes e
futuras?

Entretanto não têm razão; porque, apesar de todas estas
reflexões que me assaltavam, tive bastante força de imaginação
para não descer do mundo da idealidade.

Quando via um rostinho bonito inclinado sobre a mesa, chamava em meu socorro
todas as comparações dos poetas antigos e modernos, e assim
conseguia salvar as minhas ilusões.

Então não era uma mulher que via a comer, era uma flor que
absorvia os raios de luz e as gotas de orvalho da manhã, era uma falena
que libava o mel e o perfume das flores.

E tanto que, depois dessa hora de tortura, tive de acrescentar uma máxima
aos aforismos tão conhecidos da Phisiologie du Gout : "O melhor
meio de experimentar o amor que se tem a uma mulher é vê-la comer"

É preciso, porém, que advirtam numa coisa, e é que não
falo de um jantar a dois, de uma mesa à qual nos sentamos ao lado ou
mesmo defronte de uma bela moça.

Não: isto é a quinta essência da poesia.

O que disse referia-se à posição crítica de um
sujeito que está morrendo de fome, e que se acha condenado ao suplício
de ver comer uma bela mulher: é esse caso especialíssimo que
eu digo que o homem que é capaz de conservar as suas ilusões
tem uma imaginação que eu respeito.

Voltemos à regata.

À noite improvisou-se um sarau nos salões do Sr. Leite, e todas
as pessoas que se achavam na reunião da sociedade foram convidadas
e instadas para subirem.

Havia moças, música e flores, esta trindade mística
do prazer, e por conseguinte a festa foi soberba; completou-a a afabilidade
dos hóspedes e a amabilidade com que todos eram recebidos.

Dançou-se, conversou-se, brincou-se, e às onze horas cada um
retirou-se com a alma cheia das agradáveis impressões do dia.

Eu fui ler umas páginas de romance escritas na Revista dos Dois Mundos
de 1º de março por…

Adivinhem por quem, senhores ministros presentes e futuros?

Por Guizot.

O grande estadista, o político profundo ainda se julga feliz em poder,
depois dos reveses da fortuna, voltar à imprensa e entreter-se com
a sua pena a traçar algumas cenas dramáticas e uma história
simples do coração humano.

Entretanto no nosso país se diz que a imprensa é venal e corrompida,
e se trata de desacreditar essa força civilizadora da sociedade.

Mas que importa?

Porque o homem num momento de humor se revolta contra a chuva, e desespera
de apanhar sol, nem por isso os outros deixam de continuar o seu giro, e as
estações de seguirem o seu curso regular.

Assim é a imprensa.

Obscura invenção de Gutenberg, simples maquinismo para escrever
algumas palavras com pequenas formas de pau, cresceu, desenvolveu-se, foi-se
estendendo por toda terra, e hoje está destinada a dominar o mundo,
como a maior criação do homem.

Nela se concentram os dois mais poderosos elementos da civilização,
os dois grandes agentes que fazem mover o mundo: a inteligência e o
vapor.

Que poderá resistir a essa combinação do pensamento
com a força, a essa união da palavra com a rapidez?

Tempo virá em que do obscuro gabinete do escritor a pena governará
o mundo, como a espada de Napoleão da sua barraca de campanha.

Uma palavra que cair do bico da pena, daí a uma hora correrá
o universo por uma rede imensa de caminhos de ferro e de barcos de vapor,
falando por milhões de bocas, reproduzindo-se infinitamente como as
folhas de uma grande árvore.

Esta árvore é a liberdade; a liberdade de imprensa, que há
de existir sempre, porque é a liberdade do pensamento e da consciência,
sem a qual o homem não existe; porque é o direito de queixa
e defesa, que não se pode recusar a ninguém.

Mas esta bela idéia me levaria muito longe, tenho tanta coisa pequena
de que falar, que não sei como me poderei sair desta dificuldade.

O melhor é cortar o nó górdio com a espada de Alexandre,
e não falar de mais coisa alguma.

Sirva, pois, a pena de espada, e façamos ponto final.

Capítulo XXXIII

Rio, 3 de junho

Passou ligeira e fugitiva como todos os prazeres deste mundo, a semana das
belas noites, dos magníficos luares, dos brilhantes saraus musicais!

Passou, envolta entre as sombras da noite, e como que temendo crestar as
suas asas diáfanas e o seu manto cor do céu aos raios ardentes
do sol de nossa terra!

Passou, como essas crepusculares que adejam às últimas claridades
do sai; ou como essas flores modestas que vivem à sombra, e se expandem
à claridade suave das estrelas e ao brando sopro das auras da noite!

Havíeis de vê-la surgir, entre a tíbia claridade do crepúsculo
da tarde, com uma lira d’ouro na mão, o olhar em êxtase, o gesto
inspirado; e, de envolta com os últimos rumores do dia, talvez lhe
ouvísseis os prelúdios harmoniosos.

Mas passou; e agora só nos restam as recordações das
horas de prazer que nos deu, e que vamos desfolhar uma a uma, como as páginas
de um belo livro, que lemos pela segunda vez frase por frase, apreciando a
elegância do estilo, os lindos pensamentos e as brilhantes imagens.

E, se ao menos uma dessas mãozinhas feiticeiras quisesse for da semana,
que abrimos aos nossos leitores, e do qual bem sentimos não lhe poder
dar mais do que uma pálida tradução.

Muito; não é um livro, é um álbum de músicas
e desenhos, um lindo keepsake, em que os mais hábeis artistas trabalharam
para fazer uma dessas obras-primas, dignas das mãozinhas delicadas
para que são destinadas.

E, se ao menos uma dessas mãozinhas feiticeiras quisesse folhear comigo
as páginas desse pequeno livro da vida, talvez pudesse ler nele coisas
bem lindas, que diria aos meus leitores, visto que não sou egoísta.

Abriríamos as primeiras páginas, e poderíamos ver essas
belas noites de luar que tem feito, e um céu tão puro, e umas
estrelas tão brilhantes, que ficaríamos encantados.

Poderíamos sentir a frescura dessas tardes serenas, ou acompanhar
esses bandos de moças que passeiam, e ouvir as suas falas doces e os
seus risos alegres e festivos.

Se tendes queda pelos antigos costumes dos nossos pais, que já vão
caindo em desuso, iríamos correr as barracas do Espírito Santo,
e talvez nos lembrássemos daquelas novenas do campo tão encantadoras
com as suas ruas de palmeiras e as suas toscas luminárias.

Também podíamos passear aos belos arrabaldes da cidade, a Botafogo,
às Laranjeiras, ao Engenho Velho ou a Andaraí, e, fugindo o
gás, ir apreciar o luar na sua beleza primitiva, no meio das árvores
e por entre as folhagens.

Mas voltemos a página. Estamos na terça-feira, no salão
do Teatro Lírico, assistindo ao concerto do Arnaud.

Podemos ouvir boa música, de diferentes maestros e de gostos diversos,
desde o travesso romance francês até a verdadeira música
italiana cheia de sentimentos e de poesia.

Arnaud tocou, com o gosto que todos lhe conhecem, uma fantasia sobre motivos
da Sonâmbula, e duas composições suas dedicadas a S.M.
a Imperatriz e ao Rei de Nápoles.

A Charton cantou, entre outras coisas, uma ária de Marco Spada, tão
graciosa na música como na letra. É um lindo gorjeio de rouxinol
francês que acaba por este estribilho:

Vous pouvez soupirer,
Vous pouvez espérer;
Mais, songez-y bien,
Je n’accorde rien.

Já vêem, pois, as minhas leitoras que a tal ária do Marco
Spada bem se poderia chamar ária dos bonitos olhos, que não
dizem mais do que aquele estribilho enigmático.

O primeiro requebro de olhos que vos lança uma bela mulher, o primeiro
sorriso de esperança que anima os vossos desejos, é o primeiro
verso, é uma permissão, um consentimento tácito. Vous
pouvez soupirer.

Daí a muito tempo, quando ela vê que já estais ficando
tísico de tanto suspirar, pode ser que se condoa do vosso estado, e
que vos lance um segundo olhar; é uma meia promessa Vous pouvez espérer

Ficais muito contente, fazeis loucuras e extravagâncias, julgai-vos
o mais feliz dos homens, começais a ser um pouco exigente, quando lá
vem o terceiro olhar carregado de uma ameaça. Mais, songez-y bien!

E não tardará muito que um último volver desdenhoso
não venha deitar água fria na vossa paixão e intimar-vos
a sentença final. Je n’accorde rien.

Ora, vós sabeis que toda a ária tem repetição
(reprise); por conseguinte, depois deste primeiro ritornelo, os olhos cantam
uma segunda vez o mesmo estribilho, e acabam executando um duo, porque também
depois da ária quase sempre nas óperas se segue o dueto.

Não sei se lá no concerto sucedeu semelhante coisa, porque
quase todo o tempo estive fora do salão com muitas pessoas, para quem
não havia lugar dentro.

Ora, isto é uma prova de que o artista que dava o concerto é
tão bem aceito da nossa sociedade, que mereceu uma grande concorrência;
mas também é prova que o salão do teatro não se
presta a uma reunião de mais de quinhentas pessoas.

Do contrário, dar-se-á o que sucedeu terça-feira, a
se verão obrigados a fazer aquela mesma separação de
homens e senhoras, que decerto não é nada galante.

A música é uma coisa muito bela, mas seguramente não
é um fogo de Vesta que tenha o poder de nos afastar da companhia amável
das senhoras e privar-nos da sua espirituosa conversação.

Não cuidem que digo isso por mim; apesar de sentir bastante aquela
separação anti-social, anti-religiosa e anti-política,
se tomo o negócio tão a peito, é unicamente por causa
das senhoras, que eu adivinho haviam de estar desesperadas.

Os motivos do desespero são diversos.

Em umas era porque lhes faltava o quer que é, porque não ouviam
uma fineza, não sentiam em torno o murmúrio de admiração
a que estão talvez habituadas.

Em outras é porque não tinham quem lhes fosse ver o copo d’água,
quem lhes dissesse de que maestro era a música que se tocava, quem
informasse da hora que era, enfim quem lhes servisse de partner num pequeno
jogo de alusões maliciosas. .

Mas deixemos os desconcertos, e voltemos ao concerto.

As glórias musicais da noite couberam a um trio do Padre Martini,
composto em 1730, e que Ferranti foi desencavar não sei onde: é
o trio das risadas.

Foi executado pela Charton e por Ferranti e Dufrene com muita graça
e naturalidade.

Que excelente música para quando se está triste! Diz um provérbio
que quem canta seus males espanta. O tal terceto, porém, faz mais do
que espantar os males; obriga a rir; começa-se cantando, e acaba-se
às gargalhadas.

Voltemos outra página.

Entramos no Teatro de São Francisco na quarta-feira à noite;
representam-se duas pequenas comédias muito engraçadas e espirituosas.

Se quereis passar uma noite alegre e rir de coração durante
umas duas ou três horas, não deixeis de ir aos domingos e às
quartas-feiras ver as representações desse pequeno teatro.

Ouvireis as cômicas facécias de um artista que agora começa,
mas que promete muito futuro, se o animarem e souberem dirigir. Vereis como
a mobilidade extraordinária de sua fisionomia se presta admiravelmente
às expressões de todos os sentimentos e de todas as paixões.

Lá de vez em quando, no meio dessas cenas espirituosas e cômicas,
assistireis a um lance dramático, em que uma excelente artista já
vossa conhecida pinta com a maior naturalidade o amor, a emoção,
o susto ou o terror.

E vereis tudo isto no meio de uma sociedade escolhida, e admirando talvez
pelos camarotes algumas moças bonitas e elegantes que começam
a proteger a nascente empresa, e que prometem em pouco tempo fazer deste pequeno
salão um dos mais agradáveis passatempos da cidade.

A sociedade tem lutado com muitas dificuldades, e uma delas, talvez a principal,
seja a repugnância que tem ainda a classe pobre por esta profissão.

São prejuízos de tempos passados, de que ainda se ressentem
os paises pouco ilustrados, e que devemos procurar destruir como um erro muito
prejudicial ao desenvolvimento da arte dramática.

O cômico hoje em dia já não é aquele volantin
ou palhaço de outrora, sujeito aos ápodos e às surriadas
do poviléu nas praças públicas; já não
é aquele ente desprezível, aquele paria da sociedade, indigno
do trato da gente que se prezava.

Todo o trabalho é nobre, desde que é livre, honesto e inteligente;
toda a arte é bela e sublime, logo que se eleva à altura do
espírito ou do coração.

O cômico pertence a esta grande classe de artistas que trabalham na
grande obra da perfeição: é irmão do pintor, do
estatuário,do músico, do arquiteto, de todos esses apóstolos
da civilização que seguem por uma mesma religião e um
mesmo culto: a religião da natureza e o culto do belo.

Cessem, pois, esses escrúpulos irrefletidos que muitas vezes cortam
uma carreira e falseam uma vocação decidida.

Quantos grandes pintores da Itália e o mundo inteiro não teriam
perdido, se o desprezo pela arte e os maus conselhos tivessem abafado na alma
do artista o fogo sagrado, fazendo de um Ticiano e de outro um mau advogado
ou um péssimo fidalgo?

Quem sabe também quanta menina pobre e quanto moço sem fortuna
há por aí por esta grande cidade, e cujas esperanças
não passam de um obscuro casamento ou de um emprego mesquinho, e que
entretanto têm em si o germe de um brilhante futuro, perdido talvez
por uma falsa idéia da arte?

Atualmente todo o mundo entende que seu filho deve ser negociante ou empregado
público: e, tudo quanto não for isto é um desgosto para
a família. Quanto à classe rica e abastarda, esta não
quer outra coisa que não seja o sonoro título de doutor.

Doutor atualmente equivale ao mesmo que fidalgo nos tempos do feudalismo.
É um grau, um distintivo, um título, uma profissão, um
estado.

No tempo da revolução, os fidalgos, os condes, marqueses e
barões emigraram e fizeram-se torneiros, sapateiros, pintores e mestres
de meninos

É provável que daqui a dez anos, com a fertilidade espantosa
das nossas academias, o mesmo venha a suceder aos doutores.

Tudo isto, porém, parte de um grande erro.

Todas as profissões encerram um grande princípio de utilidade
social; todas, portanto, são iguais, são nobres, são
elevadas, conforme a perfeição a que chegam.

Um mau discurso de deputado não vale um gorjeio ou uma volta da Charton.
Um poema insulso, uma poesia sem sentimento não se compara a uma cena
pintada por Bragaldi. Um desenho sem gosto não prima sobre as formas
elegantes e graciosas que o nosso artista Neto costuma dar a um móvel
trabalhado por ele.

E assim tudo o mais: o homem é que faz a sua profissão; a sua
inteligência é que a eleva; a sua honestidade é que a
enobrece.

Já é tempo de voltarmos a quarta página deste livro
das noites, que me comprometo a traduzir-vos.

Chegamos à história de uma representação dada
no Teatro de São Pedro, quinta-feira à noite, em benefício
de um artista nacional.

Conheceis a comédia, e por conseguinte saltemos por ela para ouvir
a Jacobson cantar a ária do Átila, que tão bem representava
no Teatro Lírico.

Se a natureza não dotou a esta artista de uma voz doce e suave, deu-lhe
em compensação o gosto, o sentimento e a inteligência
necessária para compreender todos os mistérios desta arte divina
que tem cordas para cada uma das pulsações do coração
humano.

O beneficiado tocou no seu violoncelo uma fantasia do Trovador. Nesse momento,
algumas pessoas distintas que aí se achavam sentiram decerto um assomo
de orgulho e de brios nacionais, quando viram o artista brasileiro, filho
da vontade e do estudo, arrancar aplausos no meio dos hábeis instrumentistas
estrangeiros que tão cavalheirescamente se prestaram a coadjuva-lo.

.O violoncelo é um admirável instrumento. Fala, chora, geme
e soluça como voz humana; se não diz as palavras, exprime os
sentimentos com uma força de expressão que arrebata.

Como todos os instrumentos de cordas animais, ele tem com o coração
humano essa afinidade poderosa que faz que cada uma das vibrações
daqueles nervos distendidos arranque uma pulsação das fibras
mais delicadas do homem.

Ainda uma página; a última do livro.

Voltamos ao Teatro Lírico para ouvir Ana Bolena em benefício
do Bouché.

Ana Bolena foi uma das oito mulheres desse rei volúvel que estava
destinado para nascer sultão na Turquia, mas que por um capricho do
acaso, tornou-se filho de uma rainha de Inglaterra.

O caso é que tão mau como se diz que foi Henrique VIII, se
ele não tivesse feito as suas brejeiradas, nós não teríamos
passado antes de ontem uma tão bela noite.

O que foi esta bela noite sabem os leitores: foi música de Donizetti
cantada por Bouché e pela Charton.

Ora, dizer que o Bouché cantou bem seria repetir o que já disse,
e isto é sempre monótono e aborrecido.

Quanto a Charton, que brilhou no romance e no rondó final, já
não tenho nada de novo que escrever.

Portanto, como os meus leitores não poderiam suportar que lhes falasse
do Teatro Lírico sem falar de sua cantora predileta, não há
remédio senão, depois de esgotados os prós, recorrer
aos contras .

De agora em diante vou estudar-lhe os defeitos, e afinar o ouvido para ver
se ela canta em si bemol ou em la sustenido.

Naturalmente hei de descobrir alguma coisa, assim como já descobri
que Casaloni canta pelo nariz e que o Capuri é ventríloquo.

Não se admirem se me calo sobre Ghioni, a nova comprimária,
que fez nessa noite a sua estréia. Depois que Dufrene me enganou com
as suas maneiras estudadas, não arrisco o meu juízo senão
depois da terceira representação.

Entretanto, enquanto nada me animo a dizer, ficam sabendo que a nova comprimária
tem uma bela figura em cena, e que foi aplaudida depois da ária do
segundo ato.

O vestuário era todo novo, rico e a caráter. Henrique VIII
estava trajado com muito gosto; mas Ana Bolena tinha um feio roupão
de veludo roxo dobrado de cetim azul com uns galões de cor duvidosa,
que por felicidade ficou esquecido à vista do elegante vestido de cetim
preto com que apresentou no último ato.

Todo este vestuário veio-nos instruir de uma verdade que não
se encontra nos livros de histórias; e é que naquele tempo os
homens usavam de coleira e as mulheres de asas.

Ora, como as modas revivem, é natural que hoje se dê a mesma
coisa; com a diferença que senhoras e homens trazem as suas asas e
coleiras escondidas para que ninguém as veja. Antigamente havia mais
franqueza.

Temos concluído felizmente a má tradução deste
livro, que abrimos na primeira página e percorremos até a última.

É natural que os meus leitores me perguntem o que havia no verso da
página.

Eram notas sobre a política, apontamentos a respeito de alguns discursos
parlamentares, notícias curiosas do Paraguai, mas tudo em borrão,
num tal estado de confusão, tão mal escrito e tão sem
nexo, que não me animo a traduzir-vos esses trechos informes.

Prefiro antes dar-vos uma ligeira resenha de tudo, e fazer algumas pequenas
observações…

Mau! lá secou-se-me a tinta!

Capítulo XXXIV

Rio, 10 de junho

Falemos de política.

É um tema muito delicado, sobretudo na época atual.

Mas o que é política?

Se a etimologia não mente, é a ciência do governo da
cidade.

Pode ser que esta definição não lhes agrade; mas isto
pouco me embaraça. Estou expondo um novo sistema social; é natural
que me aparte das opiniões geralmente admitidas.

Continuemos.

A política é o governo da cidade. A cidade se compõe
de freguesias, de ruas, de casa, de famílias e de indivíduos,
assim como a nação de províncias e municípios.

Já se vê, pois, que a política deve ser também
a ciência de bem governar a casa ou a família, e de promover
os interesses dos indivíduos.

Isto é lógico, e ninguém me poderá negar que,
promovendo-se estes interesses, não se concorra poderosamente para
o melhoramento da freguesia, da província e finalmente do país.

Daqui resultam, portanto, dois grandes sistemas políticos, dois princípios
únicos da ciência do governo.

Um que procede à guisa da análise, que parte do particular
para o geral, que promove os interesses públicos por meio dos interesses
individuais.

O outro é uma espécie de síntese, desce do geral ao
particular, e, melhorando o país, assegura o bem-estar dos indivíduos.

Este método, tanto em política, como em lógica, tem
geralmente pouca aceitação: do contrário os espíritos
esclarecidos preferem a análise.

Quereis saber como se faz a análise em política?

Em vez de examinarem-se as necessidades do país, examinam-se as necessidades
deste ou daquele indivíduo, nomeiam-no para um bom emprego criado sem
utilidade pública, e o país se incumbe de alimenta-lo por uma
boa porção de anos.

Lá chega um dia em que se precisa de um ministro, e lança-se
mão daquele indivíduo como de um homem predestinado, o único
que pode salvar o país.

Eis, portanto, os favores feitos àquele indivíduo dando em
resultado um benefício real à causa pública; eis a política
por meio do empenho – quero dizer da análise, – criando futuros ministros,
futuros presidentes, futuros deputados e senadores.

Alguns espíritos frívolos, que não têm estudado
profundamente este sistema político, chamam a isto patronato !

Ignorantes, que não sabem que cálculo profundo, que sagacidade
administrativa é necessária para criar-se um homem que sirva
nas ocasiões difíceis!

Estes censuram o deputado que, em vez de se ocupar dos objetos públicos,
trata dos seus negócios particulares; falam daqueles que sacrificam
os interesses de sua província às exigências de sua candidatura
de senador.

E não compreendem que estes hábeis políticos, promovendo
os interesses de sua pessoa, de sua casa e de sua família, não
tem em vista senão auxiliar o melhoramento do país, partindo
do menor para o maior.

De fato, algum dia eles pagarão à nação tudo
quanto dela receberam, em projeto de reformas, em avisos, em discursos magníficos.
Isto enquanto não vão à Europa passear e fazer conhecida
do mundo civilizado a ilustração dos estadistas brasileiros.

E há quem chame a isto patronato, empenho ou desmoralização!
Como se em muitos outros paises, e até na França, não
estivesse em voga este mesmo sistema de governar!

Outrora se dividiam as forma de governo em república, monarquia representativa
e monarquia absoluta. Hoje está conhecido que estas duas divisões
são puramente escolásticas, e que não há senão
duas maneiras de governo: o governo individual e o governo nacional, o governo
dos interesses particulares e o governo dos interesses do país.

Cada um deles pode conduzir ao fim desejado, procedendo por meios diversos.

Um,por exemplo, escolhe o indivíduo para o emprego, segundo a sua
aptidão; o outro escolhe emprego para o indivíduo, segundo a
sua importância.

O primeiro ganha um bom empregado, o segundo um excelente aliado. Um pode
errar na escolha do indivíduo; o outro pode ser traído pelo
seu protegido.

Se os meus leitores acham muito extravagante esta preleção
política, têm bom remédio; é não lerem segunda
vez, se tiverem caído na atualidade.

Não pensem contudo que pretendo fazer concorrência às
últimas declarações feitas na Câmara dos Deputados;
de maneira alguma.

Qualquer dos métodos ali apresentados é inquestionavelmente
melhor do que o meu, começando pelo de um nobre deputado de São
Paulo.

Que política salvadora! Voltaremos ao tempo das revoltas, das perseguições,
das eleições armadas. Teremos uma espécie de fanatismos
político, uma cruzada, a que se chama saquaremismo puro!

Ora, é inegável que se podem obter grandes resultados com esta
política. A revolução, segundo dizem, é uma força
civilizadora, regenera como o fogo, purifica como o martírio.

Portanto não há que hesitar! Adotemos esse programa salvador;
arranjemos quanto antes uma meia dúzia de São José dos
Pinhais , e avante, que o futuro é nosso! A jovem oposição
entrará no senado, e teremos dado um grande passo para o engrandecimento
da nossa pátria.

E a respeito de política, estou satisfeito, quero dizer estou suficientemente
enfastiado.

E, o que mais é, não tenho nada de bonito que dizer-vos. A
semana que acabou foi unicamente de esperanças. Todo o mundo esperava;
nestes sete dias passados ninguém teve um pensamento que não
fosse uma expectativa.

Até quinta-feira esperou-se que a procissão de São Jorge
fosse brilhante, e por isso uma concorrência extraordinária enchia
as ruas privilegiadas.

Quase todas as moças bonitas da cidade estavam reclinadas pelas varandas
dessas casas, tão tristes e tão soturnas nos outros dias.

Cada janela era um buquê; e como um buquê pode ser bonito ou
feio, perfumado ou inodoro, segundo as flores de que se compõe, deve
cada um entender a palavra a seu modo.

Há gente que gosta da rosa, porque tem espinhos; há outros
que preferem a violeta, porque é modesta; e talvez que alguns apreciem
o cravo amarelo, a papoula, e achem um certo sainete no cheiro da arruda e
do manjericão.

Para todos estes gostos havia flores nos buquês de que falei. O jardim
era completo, principalmente no que diz respeito a girassóis.

A procissão saiu.

Se ainda não sabeis, podeis ficar certo disto, assim como do logro
que nos pregou. Anunciavam uma procissão muito bonita, e saiu uma muito
feia.

São Jorge apareceu vestido de novo, mas posso afiançar-vos
que não estava à son aise. Induzi isto da palidez, da cor de
mortalha que tinha o seu semblante.

De fato o ativo guerreiro não podia estar ao seu gosto dentro daquele
manto enorme, que cobria cavaleiro e cavalo, de tal maneira, que de longe
apenas se via um capacete e uma capa que caminhavam com quatro pés.

Depois da imagem vieram as irmandades do costume; houve porém, uma
que eu não conheci, e que entretanto ia de envolta com a do Carmo;
falo de uma que trazia capa amarela, cor que não me consta tenha sido
adotada por nenhuma confraria desta corte.

Depois de quinta-feira começou todo o mundo a esperar pelas ações
da estrada de ferro, e pelo resultado das cartas entregues à comissão,
as quais montam já a mais de cinco mil!

Nem os ministros, nem as moças bonitas, nem os lentes no tempo de
exames, ou os eleitores em época de eleição, são
capazes de apresentar um tal número de billets doux.

A comissão tem, portanto, de fazer o milagre de Jesus Cristo, dividir
esse pão, não em fatias, porém sim em migalhas.

E é essa divisão que todos esperam ansiosos, calculando já
pelos dedos os resultados prováveis do emprego deste dinheiro que tem
seguro um interesse de sete por cento.

Além desta expectativa, preocupou igualmente os ânimos a esperança
de uma decisão do governo a respeito da questão do Paraguai;
porém, como todas as esperanças da semana, esta ainda não
se realizou.

Entretanto, apesar de não sermos dos mais entusiastas da política
atual, estamos convencidos que a resolução do governo, qualquer
que seja, será ditada pela solicitude que nos inspira a todos a honra
e a dignidade nacional.

Enquanto o mundo da sociedade, que passa o seu tempo a brincar e a divertir.
O baile do Cassino na terça-feira equivale a uma expedição
do Paraguai.

A diretoria, qual novo Pedro Ferreira, levou-nos para o salão da Fileuterpe,
no qual tiveram lugar as exéquias do baile aristocrático.

Diz Auguez que para muitos homens a vida começa num salão de
baile e acaba na sacristia de uma igreja.

Pode ser; mas o que sou capaz de apostar é que esse baile de que fala
o escritor do Mosqueteiro não teve de certo nenhuma semelhança
com o de terça-feira.

A casa, que é uma excelente estufa para curar constipações,
parece que foi construída na Rússia ou na Sibéria, e
de lá mandada vir de encomenda.

Demais, tem uma escada imoral, porque deixa ver as pernas de todas as moças
e velhas que sobem. Basta postar-se um homem no saguão durante a noite
para fazer um estudo completo da pernologia da cidade.

Pernologia é um termo novo que eu inventei na noite do Cassino, por
não ter outra coisa que fazer; mal sabia eu que me havia de servir
dele tão cedo.

Quanto ao serviço do Cassino, não direi mais do que três
palavras: não havia pão.

Um baile sem pão é uma falta imperdoável, é um
atentado à galantaria, uma coisa incompreensível.

E se não que reflitam no provérbio antigo, na máxima
dos tempos em que se sabia amar e se prezavam todas as belas-artes: Sine Cerere
et Baccho friget Vênus.

Uma sociedade como o Cassino deve ter um serviço magnífico,
um serviço delicado e que não seja uma espécie de segunda
edição do que se encontra por aí em qualquer bailezinho.

Já me enfastia esta infernal monotonia, que me persegue em todas as
reuniões. É um drama em quatro atos que se repete mais do que
os milagres de Santo Antonio. Ás dez horas – primeiro ato – chá.
Às onze horas – segundo ato – sorvetes. Á meia noite – terceiro
ato – empadas. A uma hora – quarto ato – chocolate.

Há mais de três anos que os bailes do Rio de Janeiro rezam por
esta cartilha, e reduzem-se a apresentar-nos empadas, como se já não
estivéssemos faros delas.

E, a propósito de empadas, quero comunicar-vos umas reflexões
que fiz há tempos sobre o casamento, em um sábado de tarde quando
passavam uns carros destinados para este fim.

Em primeiro lugar, não pude deixar de estranhar que se escolhesse
o sábado para a celebração deste ato, quando, segundo
a tradição popular, é neste dia que os diabos andam soltos.

Depois, lembrei-me do que diz um escritor, cujo nome não me lembro;
esse santo homem, que naturalmente é celibatário, só
compreende que se casem três classes de indivíduos: os políticos,
os ambiciosos de fortuna e os velhos reumáticos e caquéticos.

Os políticos desposam uma boa posição na sociedade,
uma proteção valiosa, uma família influente, um nome
de prestígio. Para eles a mulher é um diploma.

Os ambiciosos casam-se com uma boa porção de contos de réis,
com uma excelente mesa, um palácio, e todas as comodidades da vida.
Para eles a mulher é uma letra de câmbio, ou uma hipoteca sobre
boa herança.

Os velhos reumáticos casam com as cataplasmas e as tisanas.

Para estes a mulher é uma enfermeira, uma irmã de caridade,
um xarope de saúde.

Além destas três classes gerais, há algumas exceções,
que não deixam de ter a sua originalidade.

Há sujeitinho que casa unicamente para dizer – eu casei; outros que
mudam de estado e deixam a vida de ser solteiros para fazer a experiência.

Alguns entendem que devem ter uma bela mulher na sua sala, assim como se
tem uma étagère, um lindo quadro, ou um rico vaso de porcelana
de Sèvres.

Gostam de levar pelo braço uma bonita moça, porque faz o mesmo
efeito que uma comenda ou uma fita do Cruzeiro: chama a atenção.

Muitos casam para terem um autômato que lhes obedeça, sobre
quem descarreguem o seu humor, a quem batam o pé e ruguem o sobrolho,
como Júpiter Olímpico.

Finalmente, uns dizem que casam por inclinação e por amor,
isto é, casam porque não têm motivo, e por isso são
obrigados a inventar este pretexto.

Mas deixemos esta matéria vasta, e voltemos ao nosso pequeno mundo
de seis dias.

Sabeis que vamos ter breve uma celebridade lírica no nosso teatro?

Temos tanto esperado, que já é tempo de uma vez cumprirem as
velhas promessas que nos costumam fazer.

A nova cantora, o novo rouxinol da Ausônia, que vem encantar as noites
da nossa terra, chama-se Emmy La Grua.

É uma bela moça, de formas elegantes, de grandes olhos, de
expressão viva e animada. A boca, sem ser pequena, é bem modelada;
os lábios são feitos para esses sorrisos graciosos e sedutores
que embriagam.

Bem entendido, se o retrato não mente, e se aquela moça esbelta
e airosa que vi desenhada não é uma fantasia em crayon.

Quanto à sua idade, bem sabeis que a idade de uma moça é
um problema que ninguém deve resolver. Os indiscretos dizem que tem
vinte e três anos; quando mesmo tenham trocado os números, não
é muito para uma moça bonita.

As belas mulheres não têm idade; têm épocas, como
os grandes monumentos; nascem, brilham em quanto vivem, e deixam depois essas
melancólicas ruínas, em face das quais o viajante da terra vem
refletir sobre o destino efêmero das coisas deste mundo.

Terminando, tenho de dar-vos os meus parabéns pela escolha do novo
senador pelo Pará, o Sr. Conselheiro Souza Franco. É uma daquelas
graças que honram a quem as faz, honrando ainda mais quem as recebe.

Como sei que alguns dos meus leitores são amantes de originalidades,
recomendo-lhes que não deixem de ir contemplar uns jardins babilônicos
que a Câmara Municipal e a polícia estão mandando fazer
na Rua do Ouvidor, esquina da Vala.

Tem a altura de cerca de quarenta palmos; e, se um dos jarros cair, poderá
esmagar algum pobre passante.

Mas é tão divertido, que não vale a pena proibi-los,
por causa de tão mesquinha conseqüência.

Deveis ter lido hoje no Correio Mercantil um artigo da Revolução
de Setembro sobre o tráfico de africanos no Brasil. Isto mostra quanto
é apreciada, mesmo nos países estrangeiros, a grande regeneração
que devemos aos esforços do Sr. Eusébio de Queirós.

É também um motivo para que paguemos com generosidade quaisquer
serviços que se tenham prestado neste importante objeto; há
dívidas sagradas que, uma vez contraídas, importam a honra e
dignidade do governo, que neste caso equivale a uma injúria; e o governo
não pode deixar de fazer calar essas queixas, ou pelo menos justificar-se
delas.

Capítulo XXXV

Rio, 17 de junho.

Sexta-feira, por volta de oito horas, ia meu caminho para o Teatro Lírico,
assistir à terceira representação da Ana Bolena, quando
me entregaram uma carta que me era dirigida!…

Uma carta!…

De todas as espécies de escritos que eu conheço, a carta é
sem dúvida a mais interessante, a mais curiosa, e sobretudo a mais
necessária.

A carta é um livro numa folha de papel, é uma história
em algumas linhas, um poema sem cantos; pode ser um testamento, uma confidência,
uma entrevista, um desafio, uma boa notícia, ou o anúncio de
uma boa desgraça.

É um pássaro, uma ave de arribação, que voa a
longes terras, aos climas mais remotos para levar ao amigo ausente as palavras
e os pensamentos da amizade ou do amor.

É uma espécie de fio elétrico que comunica através
do espaço e da distância duas almas separadas por uma infinidade
de léguas, dois homens que muitas vezes nunca se viram, e que entretanto
se conhecem.

Quando deram este nome a esse pequeno paralelogramo de papel, que num minuto
pode devorar uma fortuna colossal, foi por analogia que talvez tenha escapado
a muita gente.

Como a carta do baralho, a carta escrita produz as mesmas emoções,
o mesmo delírio; também ela tem seus lances de fortuna ou de
azar no jogo da vida.

Se uma dama, ou um ás, ou um valete que se volta sobre o tapete verde,
pode arruinar-vos ou enriquecer-vos, da mesma maneira neste lansquenet do
mundo a que se chama a existência, uma carta que se escreve pode trazer-vos
o sorriso da ventura ou a alegria do desespero.

A única diferença é que o baralho tem quarenta cartas,
e que a vida tem mil alternativas. No mais a semelhança é perfeita,
e todas as cartas deste mundo são uma e a mesma coisa.

Deveis ter ouvido falar numa espécie de compromisso político,
num salvatério que os governos costumam dar às nações,
e a que se chama carta.

Que é isto senão uma carta com a qual os governos e os povos
jogam essa partida de écarté político, na qual ganha
o parceiro que marca seis pontos, isto é, que nomeia seis ministros?

Por isso nós fizemos bem em trocar o nome pelo de constituição,
que é mais expressivo, e que não admite nem sequer esses jogos
de palavras.

Tudo isto eram reflexões que me acudiam ao espírito enquanto
seguia o meu caminho, e procurava adivinhar pela forma e pela dobra o que
continha a tal carta.

Bem sabeis que isto é uma arte preciosa; e que há sujeitinho
capaz de adivinhar a mão que escreveu uma carta, e o fim com que a
escreveu, somente pela maneira por que se acha dobrada e pelo papel do envelope.

Assim, uma cartinha fina, perfumada, macia, trai sempre a mulher; uma capa
elegante mas dobrada às pressas, indica geralmente o homem de Estado,
um ministro, um funcionário, enfim, sobre que pesa um trabalho invencível.

Ora, a minha carta não tinha parecença alguma com estas duas
espécies descritas; estava fechada simplesmente como qualquer carta
que sai do correio.

Por isso, como nada tinha que me interessasse, meti-a no bolso e fui ouvir
Ana Bolena, sem mesmo ler-lhe o sobrescrito.

Aí levei a conversar sobre a nova reorganização ministerial;
e, quaisquer que fossem as opiniões daqueles com quem falei, a todos
ouvi o mesmo pensamento e a mesma idéia sobre o novo ministro, o Sr.
Wanderley.

É inegável que este nome dá nova força e novo
prestígio ao gabinete, que decerto não podia fazer uma melhor
aquisição.

Quanto à necessidade da completa retirada do ministério, isto
é questão à parte, e sobre a qual só daqui a algum
tempo se poderá emitir um juízo seguro.

Entretanto felicitemo-nos por ver definitivamente reconstituído o
governo do pais, que durante os últimos dias deu sinais de uma solução
definitiva.

Dizem que muitos não aceitarão a pasta; e por isso será
bom cuidarmos desde já em fazer do cargo de ministro uma espécie
de guarda nacional ou de juro, a que nenhum cidadão se poderá
escusar.

É preciso de vez em quando fazermos um pequeno sacrifício pela
pátria, por ela que tantas vezes se sacrifica por nossa causa, por
nossos interesses pessoais.

Se não lhe fizermos esses sacrifícios, quem preencherá
os lugares de senadores, deputados, presidentes, ministros e bispos de uma
e outra igreja?

Além da reconstituição do gabinete, nada mais houve
de interessante nos altos domínios da política.

A Câmara dos Deputados esperava e desesperava, conforme os diversos
boatos que corriam pelos corredores a cada hora e a cada instante.

O senado (coincidência notável), enquanto o ministério
estava em crise, discutia magistralmente uma lei de pescarias.

Esta lei, apesar de muito bem sustentada pelo seu ilustre autor o Sr. Marquês
de Abrantes, sofreu no senado grande oposição.

Apesar da consideração que merecem as opiniões opostas
ao projeto, cumpre atender à penúria e à escassez de
gêneros alimentícios, que quase todos os anos em certa época
vai aparecendo no nosso país.

Uma lei de pescarias, sabiamente elaborada, seria não só um
importante ramo de comércio e indústria, mas um meio eficaz
de suprir no mercado a falta dos gêneros de primeira necessidade.

Ultimamente tem-se falado muito o nome do Sr. Conselheiro Vicente Pires da
Mota, que deseja retirar-se do Ceará por incômodos de saúde.

Estamos convencidos que o governo empregará toda a sua solicitude
para que o Sr. Pires da Mota continue a dirigir a província, que tão
bem tem acolhido a sua administração.

Quando, porém, qualquer mudança se dê, esperamos que
o Sr.Marquês de Paraná faça uma escolha acertada, nomeando
um homem que tenha como o atual presidente, grande tino administrativo e a
energia necessária para vencer exigências absurdas de pequenas
influências locais.

É isto pelo menos o que exige a política do atual ministério,
e a sua prudência governativa, a fim de não termos de lamentar
cenas desagradáveis, e de não retrogradarmos de um estado, que,
embora não seja o melhor, é contudo mil vezes preferível
ao passado odiento de alguns anos atrás.

Ainda uma palavra.

Temos na nossa administração um empregado de alto merecimento,
de qualidades eminentes, de uma inteligência e de um zelo provados por
grandes serviços e importantes trabalhos.

Falo do Sr. Dr. Eduardo Olímpio Machado, atual Presidente do Maranhão,
que vai dirigir a Província do Amazonas.

Estamos certos que, logo que haja oportunidade, o governo aproveitará
melhor este hábil administrador, que uma moléstia cruel impede
de continuar a residir nas províncias do norte.

Parece-nos mesmo que, se achando vagas algumas presidências de províncias
do sul, se faria a uma delas grande serviço, e ao Dr. Olímpio
estrita justiça, nomeando-o para um desses lugares.

Mas lá se ergue o pano, e, como desejo ouvir o terceiro ato sem perder
uma nota, deixo a minha conversa, e entrego-me todo à arte, à
música.

Mas decididamente estava na noite das distrações.

Apenas a Charton começou a cantar o seu belo romance, o meu pensamento
deixou-me, e em menos de um segundo tinha transposto mares e serras.

Andava pela Europa, o brejeiro! Como eu não posso ir, ele mete-me
inveja, e leva o tempo a fazer-me figas.

Num minuto passeou pela Itália, viu Emmy la Grua aprontando-se para
a sua viagem de além-mar, e depois entrou em Londres, e foi a Convent-Garden
ver a Julienne Dejean, que representava a Norma.

Esta é uma moça encantadora, como dizem que é a linda
italiana; não é uma Rosina faceira e graciosa como a Charton,
é uma mulher talhada para as grandes paixões, para as comoções
fortes e violentas.

Sua voz de soprano, ampla, sonora, de uma grande extensão e volume,
dizem que tem esses acentos do desespero, esses gritos d’alma, que fazem estremecer
como um choque elétrico, que fazem correr pelo corpo um calafrio de
emoção.

É uma voz para o ciúme selvagem da Norma, para a vingança
e para as paixões de Lucrecia Borgia, para a ambição
de Macbeth, para todos esses dramas enfim em que os sentimentos trágicos
atingem à sublimidade.

Entretanto esse mesmo timbre de voz torna-se doce, terno, sentimental quando
a artista traduz o amor feliz e essas delicadas emoções do coração
que se expande.

Por isso afirmam que ela não tem repertório; canta a música
italiana de preferência; e executa qualquer ópera de soprano
que lhe designem.

Com ela deve vir o tenor Tamberlik, que atualmente goza na Europa da reputação
de um dos melhores cantores no seu gênero.

Foi isto que o meu pensamento viu em viagem e que me veio contar, tirando-me
assim todas as minhas belas ilusões da noite.

Comecei a refletir sobre o destino das glórias deste mundo.

"Ainda esta noite, pensava eu, a Charton pisa a nossa cena lírica
como rainha e como soberana. Algumas reminiscências que nos deixou a
Stoltz já estão apagadas. Brilha num céu sem nuvens como
o astro das nossas noites, murmura ao ouvido como o eco das harpas eólicas,
surge no meio de uma auréola de luz como o anjo da harmonia.

"Daqui a um mês, ou a dois talvez, quem sabe se não lhe
arrancarão a sua coroa, e sei de tantos buquês, de tantos aplausos,
terá uma flor solitária e um simples monossílabo de admiração,
desses que partem espontaneamente do peito?"

Os abissínios foram um povo da antiguidade que, como os judeus, perderam
a sua pátria e se espalharam pelo mundo, misturando o seu sangue a
todas as raças.

Quando o sol se ergue, todos se levantam; quando ele chega ao ocaso, todos
se recolhem, e tratam de dormir.

Há, porém, homens para quem a noite é mais bela do que
o dia, para quem uma estrela perdida no azul do céu é mais encantadora
do que o astro-rei com todo seu fulgor.

Estes saúdam o sol quando nasce, mas à noite contemplam a estrela
fugitiva e a acompanham no seu caminho solitário.

Infelizmente, porém, ninguém neste mundo, depois de ter sido
sol, deseja ficar estrela; e este é o grande mal.

De tudo isto nada se conclui.

Esperamos.

O pomo da discórdia está lançado; o banquete lírico
se prepara, e o público, como Paris, tem de julgar.

Que julgue bem, porque a luta deve ser gigantesca como os combates da Ilíada
e da Odisséia, como as peregrinações da Eneida.

Aposto, porém, que já estais desesperados por saber da carta
que recebi quando ia para o teatro.

Chegamos a ela.

Era escrita em francês, e continha versos, versos feitos por mulher!

Devo, porém, prevenir-vos que não acreditei nem um momento
na verdade da assinatura; tomei por uma inocente brincadeira de algum amigo
desconhecido, e como os versos são bonitos, vo-los ofereço.

Eis a carta:

"13 de junho de 1855

"Monsieur. – Si vous voulez lês proteger, j’aurai lê courage
de vous em envoier d’autres.

A jeudi prochain.

Souffrez que je garde l’anonyme; ce petit air de mystère a um je ne
sais quoi, qui me rend plus hardie, ou plutôt moins craintive.

A vous d’amitié,

Elle.

DANS UM ALBUM
185

Dans votre álbum, ou la jeune amitié laisse
Des songes de bonheur, des projets d’avenir.
Pourquoi vouloir, ami, que ma sombre tristesse
Vienne jeter son deuil sur aussi doux loisir?

Vous ne savez donc os que lê rire de m lèvre
Déjà depuis çpngtemps ne va plus à mon coeur;
Et que de ce bonheur dont, hélas, on me sèvre,
Je crains même d’écrire lê nom si séducteur!

Moi aussi, j’ai connu ces jours pleins d’espérance
Quand je croyais à tout, aux promesses, au devoir,
Leur souvenir em moi éveille la souffrance,
Car ils ne m’ont laissé qu’un brulant dèsespoir.

Ce n’est dona pas la froid indifférence
Qui m’empêchait d’écrire um mot de souvenir;
Mais je ne voulais pás, vous dont la vie commence,
Que sitôt vous sussiez que vivre c’est souffrir!

Elle….

Rio de Janeiro

Bem vedes que, se é uma caçoada, é tão delicada
e de tão bom gosto, que vale a pena deixar-me enganar, quando mais
não fosse, ao menos para dar à vossa curiosidade, minhas belas
leitoras, esse lindo tema para sobre ele fantasiardes à vontade.

É realmente uma mulher, uma mulher bonita que escreve lindos versos
em francês, que no fundo d’alma o desengano e no lábio o sorriso,
como uma flor pálida que nasce entre as ruínas, como essa chama
lívida que lampeja um momento entre as cinzas quando o fogo se extingue?

Ou será alguma mocinha tímida que vota à poesia as primícias
de sua alma, e que deixa cair sobre o papel, em versos, esses primeiros perfumes
de um coração de dezoito anos, essas primeiras flores da mocidade
e do amor?

Podeis fazer, como estas, mil outras suposições, e aceitar
aquela que mais vos agradar e que mais se harmonizar com o vosso espírito
e com os vossos sentimentos.

Quanto a mim, ou porque já estou um pouco cético a respeito
dessas dores concentradas e desses sofrimentos mudos que sorriem, ou porque
me achasse em más disposições para a poesia, o caso é
que, apesar da letra fina e delgada, apesar do pronome da assinatura, nem
um instante acreditei que houvesse nisto dedo de mulher.

Vi logo que toda esta história não passava de uma engenhosa
invenção de algum sujeito que, ou queria abusar da minha boa-fé,
ou se envolvia neste véu poético do mistério, para obter
de mim a publicação de seus versos.

Fiquei, pois, firmemente convencido que a tal assinatura de tão misteriosa
significação, não era outra coisa mais do que a letra
inicial do nome do poeta, escrita por extenso – elle!

Também pode ser que o pronome deva ser lido em português, embora
os versos sejam franceses; e então toda a poesia desaparece diante
desta transformação de sexo, produzida pela mudança de
línguas.

O que sei é que em tudo isto há uns olhos ou bonitos, de homem
ou de mulher que estão percorrendo estas linhas, e procurando com ansiedade
ver se conseguiram enganar-me; e queira Deus que um sorriso irônico
não faça coro com esse olhar curioso.

Agora, minhas belas leitoras, deixo-lhes a decifração do enigma;
e só lhes peço que, se acaso acertarem com ela, não se
tornem egoístas, e ma comuniquem, para rir-me também da caçoada
feita a todos nós.

Entretanto, se a nossa incógnita (incógnita em álgebra
é comum de dois), se a nossa incógnita continuar a mandar-me
os seus versos, e se eles forem bonitos como os primeiros, continuarei a publicá-los,
e a dar-vos assim no meio da minha prosa chilra, algumas flores de poesia.

Conversemos agora a respeito de teatros.

O Ginásio conseguiu fazer a excelente aquisição de uma
nova artista, moça de educação fina, e que promete um
excelente futuro. É filha de um artista que já teve seus belos
dias no nosso teatro.

A nova artista deve estrear segunda-feira, num pequeno papel que lhe foi
distribuído para dar-lhe tempo a familiarizar-se com a cena.

O Teatro de São Pedro continua no mesmo estado. Breve, porém,
o veremos transformado em uma bela cena lírica, na qual alguns cantores
de cartello, que dizem devem chegar da Europa, nos darão noites bem
agradáveis e bem animadas.

Com a rivalidade dos dois muito ganharemos na bondade dos espetáculos
e no zelo dos empresários

Capítulo XXXVI

Rio, 24 de junho

A Botafogo!…

Acompanhemos essa linha de carros que desfila pela Glória e pelo Catete;
sigamos esse numeroso concurso que vai pouco a pouco se estendendo pela praia,
ao longo do parapeito.

O sol já descambou além dos montes; e as últimas claridades
de um dia turvo e anuviado, foram se extinguindo entre as sombras do crepúsculo.

Daí a pouco fechou-se a noite; e no meio da escuridão e das
trevas sobressaía uma multidão de luzes, refletindo-se sobre
as águas do mar.

Ranchos de moças a passearem, bandas de música tocando nos
coretos, senhoras elegantes debruçadas nas janelas iluminadas, muita
concorrência, muita alegria e muita animação; tudo isto
tornava a festa encantadora.

Quanto ao fogo, queimou-se às oito horas; dele só restam as
cinzas no fundo do mar. Não estranhem, portanto, que o respeite como
manda a máxima cristã. Parcis sepultis.

Às dez horas, pouco mais ou menos, tudo estava acabado. A praia ficara
deserta; e nas águas tranqüilas da baía, apenas as nereidas
murmuravam, conversando baixinho sobre o acontecimento extraordinário
que viera perturbar os seus calmos domínios.

Não é preciso dizer-vos que isto se passava domingo, no começo
de uma semana que prometia tantas coisas bonitas, e que afinal logrou-nos
em grande parte.

Tivemos algumas boas noites de teatro italiano, e ouvimos o Trovador e o
Barbeiro de Sevilha, com uma linda ária do Dominó noir, que
foi muito aplaudida.

Se é verdade o que nos contaram, brevemente teremos o prazer de ouvir
toda essa graciosa ópera, em benefício da Sociedade de Beneficência
Francesa. A lembrança é feliz, e pode realizar-se perfeitamente
com o concurso dos artistas franceses que possui atualmente o nosso Teatro
Lírico.

A diretoria decerto não se oporá a uma representação,
que, além do auxílio poderoso que deve dar a um estabelecimento
de beneficência, não pode deixar de fazer bem aos seus artistas,
fazendo-os conhecer num gênero de música diverso, e no qual é
muito natural que se excedam.

Quem sabe mesmo se, depois deste primeiro ensaio, a empresa não julgará
conveniente, para a variedade dos espetáculos e para excitar a concorrência,
dar de vez em quando uma pequena representação francesa?

Sei que a música italiana é a mais apreciada no nosso país;
porém lembro-me ainda do entusiasmo e do prazer com que foram sempre
ouvidas em nossas cenas a Nongaret, a Duval e mesmo a Preti.

Já que não podemos ter ao mesmo tempo uma companhia italiana
e uma francesa, não vejo porque não se hão de aproveitar
os atores que atualmente possuímos, e, contratando mais um ou dois,
deram-nos algumas óperas francesas, que estou certo haviam ser mui
bem aceitas.

Se não há algum obstáculo, que ignoramos, é de
crer que a diretoria pense em fazer valer este meio de tornar o Teatro Lírico
mais interessante e mais variado.

As óperas francesas têm grande vantagem de não fatigarem
tanto os atores como a música italiana; e por conseguinte se faria
um benefício aos artistas, reservando os meses da força do verão
para esse gênero de cantoria.

Assim, podiam-se das as representações italianas com maior
intervalo, e não se sacrificaria a voz de alguns cantores, obrigando-os
a executar música de Verdi duas ou três vezes por semana.

Fui-me deixando levar pelo gosto de advogar os vossos interesses, minhas
belas leitoras, e esquecia-me contar-vos uma cena terna que teve lugar sexta-feira
no teatro, quando se representava o segundo ato do Trovador.

Uns bravos e umas palmas fora de propósito acolheram a entrada em
cena da Casaloni, e continuaram enquanto ela cantava e seu romance da Cigana.

A princípio a artista procurou resistir à emoção
que de certo lhe causava essa zombaria imerecida; mas afinal o soluço
cortou-lhe a voz e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Lágrimas de mulher… Quem pode resistir a elas?

Depois de alguns momentos de confusão, em que a cena ficou deserta
e a música em silêncio, a Casaloni entrou novamente em cena com
os olhos rasos de pranto e a voz trêmula.

Neste momento é que eu reconheci bem o nosso público, e senti
o coração generoso que animava todo esse concurso de espectadores
que enchia o salão.

Ninguém disse uma palavra; mas uma salva continuada de aplausos percorreu
todos os bancos de ponta à ponta: tudo que tinha um pouco de generosidade
no coração e um pouco de sentimento no fundo d’alma protestava
contra aquela amarga zombaria, contra aquela ofensa sem causa.

A mulher ofendida que chora é uma coisa sagrada e que se deve respeitar.
Dizem que a lágrima é o símbolo da fraqueza; entretanto
quantas armas, quantos braços fortes não se têm curvado
ao peso dessa gota de linfa que não umedeceria sequer uma folha de
rosa?

Deixemos aqui este episódio da semana, que não tem outro interesse
senão o de mostrar o efeito de uma imprudência, e de provar a
delicadeza do público que sabe preferir uma cantora, sem por isso ofender
e maltratar a outras.

O Ginásio Dramático também teve esta semana uma noite
feliz, honrada com a presença de SS. MM., que se dignaram estender
sobre ele sua benéfica e augusta proteção.

Representavam-se nessa noite duas comédias, cujos papéis foram
muito bem desempenhados pelo artista da pequena companhia, que parece se esmerou
em dar provas dos progressos sensíveis que tem feito.

O Episódio do Reinado de Jaques I é uma comédia histórica
e de muito espírito; tem algumas cenas de uma singeleza e de uma naturalidade
encantadoras.

É um idílio de amor aos quinze anos, começado nos muros
de uma prisão, à leitura da Bíblia, e entre as flores
de clematites, – que de repente se vê oprimido nos salões de
um palácio suntuoso, no meio das etiquetas da Corte.

O idílio esteve quase a transformar-se em drama ou tragédia;
mas felizmente achou refúgio num coração de rei, coração
cheio de bondade e de virtude, e aí continuou a sorrir em segredo até
que…

Até que caiu o pano.

Todos os personagens estavam bem caracterizados e vestidos com bastante luxo
e riqueza para os recursos da pequena empresa, que não se poupa a sacrifícios
sempre que se trata de promover um melhoramento.

Suas Majestades prometeram voltar ao Ginásio esta semana. Neste fato
devem os meus leitores ver a prova a mais evidente dos serviços que
este teatro vai prestando à arte dramática do nosso país.

Animado por tão alta proteção, acolhido pela boa sociedade
desta corte, o Ginásio poderá brevemente estabelecer-se em um
salão mais espaçoso e mais elegante, e aí abrir-nos as
portas ao prazer, à alegria, a um inocente e agradável passatempo.

No resto das noites, em que os teatros estiverem fechados, muita moça
e muita família passeou pela Rua do Ouvidor para ver o modelo de casamento
da Imperatriz Eugênia, que se achava exposto na vidraça do Beaumely.

As moças admiravam mais o vestido de cetim branco e o penteado, que
dizem ser de um gosto chic; os homens, porém, admiravam mais as moças
que o vestido, de quem tinham ciúme, porque lhes roubavam os olhares,
a que supunham talvez ter direitos.

É incompreensível este costume que têm certos homens
que gostam de uma mulher de se julgarem com direito exclusivo aos seus olhares,
sem que ela lhes tenha feito a menor promessa.

Parece que o olhar de uma mulher bonita é como uma vaga de senador.
Ninguém tem direito a ela, o que quer dizer que todos o têm.

Assim um fashionable apaixona-se por uma bonita mulher, e, sem que ela lhe
tenha dito uma palavra, sem mesmo consulta-la, atravessa-se diante dos seus
olhares, segue-a por toda parte como a sombra do seu corpo, julga-se enfim
com direito a ser amada por ela. Se a moça de todo não lhe presta
atenção e não se importa com a perseguição
sistemática, o apaixonado toma uma grande resolução,
e despreza a mulher bonita de que ele realmente não faz caso.

O mesmo sucede com a vaga de senador.

Um homem qualquer que tem quarenta anos, seja ou não filho de uma
província, tenha ou não a afeição dos povos de
certas localidades, sem consultar os votantes, apresenta-se candidato, enche
o correio de cartas.

Se a província mostra não se importar com a sua candidatura,
o homem de quarenta anos toma igualmente uma resolução, renuncia
à eleição a que tinha direito.

Ora, eu não sei como se chama o homem de quarenta anos que renuncia
à vaga de senador; mas o apaixonado que despreza a mulher bonita é
conhecido entre certa roda pelo título de comendador da Ordem dos Verdes.

Esta ordem é a mais antiga do mundo; é anterior mesmo à
época da cavalaria e da mesa redonda. Data dos tempos em que os animais
falavam, e deve a sua origem a uma raposa espirituosa, que numa circunstância
memorável soltou esta palavra célebre: Estão verdes.

Muito tempo depois Eduardo III, apanhando a liga da Condessa de Salisbury,
disse também uma palavra, que é pouco mais ou menos a tradução
daquela: Honny soit qui mal y pense.

Assim como desta palavra se criou a jarreteira, estabeleceu-se muito antes
a Ordem dos Verdes, na qual são comendadores do número os namorados
que desprezam as mulheres bonitas, os ministros que recusam pastas, os patriotas
que renunciam a candidatura, os empregados que pedem demissão, e muitos
outros que seria longo enumerar.

A insígnia da ordem é uma folha de parreira, que outrora foi
o símbolo da modéstia e do pudor.

A cor é o verde, como emblema da esperança; porque o estatuto
da ordem embora imponha a abnegação e o sacrifício de
uma honra ou de um bem, não inibe que se trabalhe por alcançar
coisa melhor.

Os membros desta ordem gozam de grandes honras, privilégios e isenções,
e especialmente da graça de obterem tudo quanto desejarem. Para isso
são obrigados apenas a uma insignificante formalidade, que é
não desejarem senão o que puderem obter.

Concluiria aqui esta revista, se não tivesse dois deveres a cumprir.

O primeiro é a respeito de uma questão que tem ocupado a imprensa
desta corte, e que atualmente se acha entregue aos tribunais do país.

Falo de abalroação da Indiana, simples fato comercial, a que
a imprensa tem querido dar o caráter de uma questão de classe
e de brios nacionais.

Um estrangeiro que perde o seu navio não poderá defender os
interesses do seu proprietário e dos carregadores, somente porque semelhante
defesa vai ofender a tripulação de um vapor brasileiro?

Ninguém mais do que eu sabe respeitar o espírito de classe,
e apreciar a generosa fraternidade que prende os homens de uma mesma profissão;
porém confesso que essa maneira de identificar o homem com a classe,
de julgar do fato pelo mérito pessoal, não é a mais acertada
para a questão.

O comandante do vapor Tocantins pode ser um excelente oficial, a sua tripulação
pode ser a melhor, e entretanto ter-se dado um descuido que ocasionasse o
sinistro.

Felizmente hoje a questão vai ser perfeitamente esclarecida por testemunhas
imparciais e dignas de todo o sinistro.

O Tocantins foi encontrado na mesma noite de 11, meia hora antes do sinistro,
por um navio cujo capitão já atestou que o vapor trazia apenas
uma luz ordinária, e não tinha sobre as rodas os faróis
verde e encarnado.

Como este, existem muitos outros depoimentos importantes que aparecerão
em tempo competente, e que mostrarão de que parte está a verdade
e o direito.

O segundo ponto sobre que tenho de falar é a respeito dos espetáculos
líricos no Teatro de S. Pedro de Alcântara, dos quais tratei
na revista passada.

Um correspondente do Jornal do Comércio contesta a possibilidade desses
espetáculos em virtude de um privilégio dado à atual
empresa lírica.

Entretanto semelhante privilégio não pode existir; se o governo
o concedeu, praticou um ato que não estava nas suas atribuições,
um ato nulo, porque é inconstitucional.

Não é monopolizando uma indústria já conhecida
no país, não é destruindo a concorrência que se
promove a utilidade pública.

A própria diretoria do Teatro Lírico deverá desejar
esta concorrência; porque se, como ela supõe a nova empresa não
levar avante, dando-lhe nova força e novo prestígio.

Ainda voltarei a esta questão, que na minha opinião interessa
muito ao futuro da arte nesta corte.

Por hoje faço-vos as minhas despedidas.

Vamos ver as fogueiras de São João, brincar ao relento, e recordar
as poéticas e encantadoras tradições de nossos pais.

P.S. – À última hora recebo a minha carta prometida para quinta-feira;
desta vez reservo para mim a carta, e dou-vos unicamente os versos.

O pronome (em falta do nome) persiste em ser lido em francês, e não
em português; porém agora afianço-vos que estou convencido
do contrário.

Podeis crer-me.

Confidences

Si tu vois une femme au sourir caressant, Au limpide regard, à la
marche assurée, Et dont l’air de triomphe est toujours ravissant, C’est
qu’elle aime déjà, et sait qu’elle est aimée

Si tu vois une femme à la marche incertaine, Au long regard abaissé,
à la voix animée, Et ne se livrant jamais à une joie
soudaime C’est qu’elle aime, et doute si elle sera aimée.

Mais, si tu vois celle au regard triste et morne, Dont lês mouvements
brusques et la voix saccadée Viennent montrer encore tout l’amour qu’elle
donne A celui qui l’aime, et qui l’a délaissée,

Oh! ne ris pás, ami! Sa douleur est poignante, Elle ne croit plus
à rien; sa raison égarée Fait qu’elle ne desire que d’arriver
mourante Aux pieds de celui qui est toute sa pensée.

Puisque jamais, jamais, cette voix si aimée Ne parlera plus pour elle
le langage du coeur, Elle que désormais le triste cours de sa vie Ne
sera plus marqué por un jour de bonheur.

Car il est vrai que les fêtes de ce monde Passent sur la douleur sans
jamais la guérir; Et que celui qui souffre une peine profonde, Peut
assister aux joies sans jamais les sentir. </poem>

Elle….

Rio de Janeiro, 1855

Capítulo XXXVII

Rio, 8 de julho.

Se não quereis ficar doido, abandonai a cidade, fugi para Petrópolis,
ou fechai-vos em casa.

Sobretudo não vos animeis a deitar a cabeça à janela
ou a sair à rua, ainda mesmo de noite.

Apenas derdes os primeiros passos, encontrareis um homem grave, que vos apertará
a mão como antigo conhecido.

Pensais que vai perguntar pela vossa saúde, ou falar-vos de algum
negócio particular? Enganai-vos completamente.

Desde terça-feira que não há nesta grande cidade senão
um negócio. A forma vulgar da saudação, o clássico
bons dias, foi substituído por um cumprimento mais cheio de interesse
e solicitude:

— Então, quantas teve?

— vinte.

— Ah! dou-lhe os parabéns.

E o sujeito deixa-vos com um pequeno sorriso de despeito ou de vaidade satisfeita.

Daí a dois passos encontrais um outro conhecido de mãos nos
bolsos e chapéu à banda.

— Meu amigo, quer vender?

— O que, senhor?

— As suas ações.

— Ah! as minhas ações! Não se vendem.

— Pois, se quiser, fico com todas as dez.

Este especulador, que tomais por um comprador de ações, está
desesperado por vender as suas antes do dia onze.

Mais adiante tomam-vos o braço de repente, e vos arrastam para a porta
de uma loja ou para alguma esquina deserta.

— Quero pedir-lhe um favor.

— Pois não, senhor.

— Em quem vota?

— Em… Não sei ainda.

— Pois então peço-lhe o seu voto para o meu candidato.

— É membro da comissão?

— Não.

— Pois então está servido.

— Fico-lhe muito agradecido.

E continuais o vosso caminho, já um pouco azoado.

— Psiu!…psiu!

É um amigo que vem a correr, naturalmente para participar-vos alguma
novidade importante.

— Sabe alguma coisa de novo?

— A respeito…

— Ora, a respeito das ações.

— Não; não tenho ouvido dizer nada.

— Fala-se numa segunda errata.

— Qual! não tinha jeito nenhum.

— Como! O regimento de custas era obra de jurisconsultos, e teve duas
erratas.

— Tem razão!

— Adeus.

Quando pensai que vos desvencilhais do homem das erratas, caís nas
mãos de um esquecido, que trata de comentar a grande lista dos agraciados,
de princípio a fim.

Começa a calcular pelas famílias, depois passa a analisar os
indivíduos, examinar a sua profissão, e por fim entra no vasto
campo dos paralelos e das comparações.

O homem tem na memória uma certidão de batismo de cada um dos
agraciados, e um registro dos bens, da morada e do gênero de vida de
todos os agraciados na grande loteria do caminho de ferro.

Se o deixarem falar, disserta cinco horas a fio, sem copo d’água,
sem mesmo temperar a garganta, sem fazer uma pausa, nem titubear numa vírgula.

Afinal vos larga para ir continuar além a sua propaganda, para ir
pregar a nova cruzada contra os homens da comissão.

Assim enfastiado, aborrecido de todas estas coisas, tendo gasto inutilmente
o vosso tempo, entrais no Wallerstein para conversar com algum amigo que não
esteja contaminado.

Achai-vos no círculo de flâneurs, que passam o tempo alegremente
a divertir-se a semear algumas flores neste vale de lágrimas.

Conversa-se sobre as novidades do dia, sobre a probabilidade da vinda de
Thalberg e a notícia do contrato da Stoltz, sobre a próxima
representação lírica em favor da Beneficência Francesa.

Se falais de uma moça elegante, de um lindo toilette preta que brilhava
um desses dias nos salões, de uns bonitos olhos e de uns requebros
graciosos, vos interrompem de repente:

— O pai não teve ações!

Se vos lembrais da Charton na Filha do Regimento , e se despertais todas
as vossas belas recordações para sacia-las segunda-feira, ouvindo
aqueles gorjeios maviosos de envolta com as facécias do Ferranti, não
vos deixam acabar.

— É verdade, diz um, a propósito de Ferranti, deram-lhe
dez ações!

E saís desesperado, correndo para a casa antes que vos venham atordoar
novamente os ouvidos com a maldita palavra que está na ordem do dia.

Quanto mais se soubésseis o que é realmente para toda a sociedade
a lista que publicaram na terça-feira os jornais diários da
corte.

É uma espécie de cadastro, de registro, de livro negro da polícia,
no qual se acham escritas as ações de cada um, por conseguinte
o seu talento, a sua virtude, a sua consideração na sociedade.

As moças lá vão procurar os nomes dos noivos; os negociantes
indagar se os seus devedores merecem a continuação do crédito;
os amigos saber o grau de amizade que devem despender mutuamente.

Os curiosos divertem-se com as comparações, e os parasitas
estudam os nomes daqueles a quem devem tirar o chapéu ou fazer simplesmente
um cumprimento de proteção.

E assim são as coisas deste mundo.

Dante os homens tinham as suas ações na alma e no coração;
agora tem-nas no bolso ou na carteira. Por isso naquele tempo se premiavam,
ao passo que atualmente se compram.

Outrora eram escritas em feitos brilhantes nas páginas da história,
ou da crônica gloriosa de um país; hoje são escritas num
pedaço de papel dado por uma comissão de cinco membros.

Aquelas ações do tempo antigo eram avaliadas pela consciência,
espécie de cadinho que já caiu em desuso; as de hoje são
cotadas na praça e apreciadas conforme o juro e interesses que prometem.

Predefinição:Separação

Mas temos muita coisa agradável sobre que conversar, e não
vale a pena estarmos a gastar o nosso tempo com esta questão de jornais.

Enquanto senadores, deputados, empregados públicos, desembargadores,
negociantes e capitalistas correm à praça para saber a cotação
das ações, vamos nós para o teatro ver o benefício
do Gentile.

O público deu-lhe todas as demonstrações de apreço
e simpatia; os ramos de flores e os versos choveram dos camarotes, e a Charton
cantou melhor do que ela mesma costuma cantar.

É um pouco difícil, mas é verdade. Há certas
noites em que se conhece que não é a obrigação
que a faz cantar, mas a inspiração, um movimento espontâneo,
uma necessidade de expansão.

Nestas noites canta como o poeta que escreve versos inspirados, como o pintor
que esboça o quadro que a sua imaginação ilumina, como
a alma triste que dirige a sua prece a Deus, como a moça que sorri,
como a flor que se expande, como o perfume que se exala.

Os lábios vertem os eflúvios d’alma, as melodias que um gênio.

Mas isto são coisas que se sentem, que se compreendem, e que não
se explicam. Ouvi um artista cantar num dos seus bons dias, e percebereis
essa nuança inexprimível que vai de bem representar o bem sentir.

Ia-me esquecendo dar-vos notícia do vosso pequeno teatro, do vosso
protegido, minhas belas leitoras.

Se soubésseis como vos agradece a bondade que tendes tido em anima-lo,
como se desvanece pelo interesse que vos inspira!

Agora já não é somente um pequeno círculo de
homens de bom gosto que aí vai encorajar o seu adiantamento e aplaudir
aos seus pequenos triunfos.

Na balaustrada dos seus camarotes se debruçam as senhoras mais elegantes,
as moças as mais gentis dos nossos aristocráticos salões.

O lindo rosto expandindo-se de prazer, o sorriso da alegria nos lábios,
elas esquecem tudo para interessar-se pelo enredo de uma graciosa comédia.

E depois a sua boquinha feiticeira vai repetir no baile, ou na partida, uma
frase espirituosa, um dito chistoso, que requinta de graça, conforme
os lábios são mais ou menos bonitos.

No Teatro Lírico podeis ver um semblante triste, uns olhos vendados
pelos longos cílios de seda, uma fronte pensativa e melancólica.

Mas no Ginásio o prazer roça as suas asas d’ouro por todos
esses rostos encantadores; e bafeja com o seu hálito celeste todos
os pensamentos tristes, todas as recordações amargas.

Tudo sorri; os olhos cintilam, as faces enrubescem, a fronte brilha, o gesto
se anima, e a alma brinca e se embala nas emoções doces, calmas
e serenas.

A dor, a tristeza, a velhice e o pensamento, nada há que resista a
esta franca jovialidade, que como um menino travesso não respeita nem
as cãs, nem as lucubrações sérias, nem a gravidade
e a sisudez.

E quando por volta da meia-noite vos retirais, ides satisfeito, julgando
o mundo melhor do que ele realmente é.

E tudo isto é obra vossa, minhas amáveis leitoras: podeis ter
este orgulho. Fostes vós que criastes este teatro; que o animastes
com um sorriso, que o protegeis com a vossa graça, e que hoje o tratais
como vosso protegido.

Entretanto peço-vos que, quando tiverdes ocasião, não
lhe deixeis de dar umas dessas doces repreensões, uma dessas ligeiras
advertências, como só sabem dar os lábios de mulher.

Dizei-lhe que faça com que seus artistas decorem melhor os papéis,
e aprendam a pronunciar com perfeição os nomes estrangeiros.

Esqueci-me de pedir-vos isto naquela brilhante reunião em que vos
encontrei seta-feira, tão bonitas, tão satisfeitas, tão
risonhas, que bem se via que esta noite tem de ficar gravada na vossa memória,
até que outra a venha fazer esquecer.

E agora atirai o jornal de lado, ou antes passai-o ao vosso marido, ao vosso
pai ou ao vosso titio, para que ele leia o resto.

Bem entendido, no caso de que não esteja pensando em ações,
porque então é escusado; não me dará a atenção
de que eu preciso para falar a respeito da discussão que tem havido
ultimamente na câmara.

O Sr. Sayão Lobato fazendo a exumação dos partidos políticos,
procurou demonstrar que as idéias liberais tinham sido sempre estéreis
para o país.

Em resposta duas vozes se ergueram; a do Sr. Melo Franco que defendia seus
aliados, ea a do Sr. F. Otaviano que tomou a si a causa nobre do fraco e do
proscrito.

Perdoe-nos o ilustre orador, que com tanto afã defende o passado de
seu partido e que, apesar de magistrado imparcial se mostra parcialíssimo
político nos seus retrospectos históricos.

Se o partido liberal não escreveu leis de 3 de dezembro, e não
fez grande cópia de regulamentos, nem por isso deixou de fecundar as
instituições do país com o germe civilizador de sua idéia,
de suas crenças, de sua constância em pugnar pelas reformas úteis
e necessárias.

A sua história é a história de muito pensamento generoso
e nobre no nosso país, desde a sua independência até a
calma e tranqüilidade de que atualmente gozamos.

Foi ele que nos deu, e que tem defendido ardentemente o júri e a imprensa;
foi ele que primeiro proclamou o princípio das incompatibilidades,
das eleições diretas, da independência do poder judiciário,
que iniciou todas estas reformas que hoje se trata de realizar.

Não podemos estender-nos mais; porém em qualquer tempo aceitaremos
com o maior prazer esta discussão; pela nossa vez também, revolveremos
as cinzas dos túmulos, mas para honrá-las, esquecendo os erros
dos mortos, e não para profana-las excitando o desprezo dos vivos.

Os partidos desapareceram da cena política; pertencem ao domínio
da história. Simples investigadores, podemos apreciar os fatos com
a calma necessária, sem sermos influenciados por interesses pessoais.

E agora, vem minha boa pena de folhetinista, minha amiga de tantos dias,
companheira inseparável dos meus prazeres, confidente de meus segredos,
de minhas mágoas, dos meus prazeres.

Vem! Quero dizer-te adeus! Vamos separarmo-nos, e talvez para sempre!

Tenho saudade desses dias em que brincava comigo sorrindo-me, coqueteando,
desfolhando as flores da imaginação, e levando-me por estes
espaços infindos da fantasia.

Oh! tenho muita saudade! Sempre me lembrarei dessas nossas conversas íntimas
ao canto de uma mesa, com os olhos nos ponteiros do relógio, aproveitando
as últimas claridades do crepúsculo para recordar ainda algum
fato esquecido.

Mas é necessário. Faço-te este sacrifício, bem
que me pese, bem que o levem a mal os meus melhores amigos.

Os outros te esquecerão, mas eu me lembrarei sempre de ti: basta isto
para consolar-te.

Parte 2

Capítulo I

7 de outubro de 1855

Correi, correi de novo, minha boa pena de folhetinista!

És livre, como tuas irmãs, que cortam os ares nas asaa ligeiras;
abri o vôo, lançai-vos no espaço.

Avante.

Mas como estão mudados os tempos; como são diferentes os dias
de agora, daquelas semanas em que brincavas sorrindo com os bailes, com as
moças, com a música, com tudo que era belo e sedutor!

Então tudo eram flores, – flores mimosas que desabrochavam aos raios
de um belo sol de primavera, – que brilhavam sob um céu azul perfumando
aqueles dias tão tranqüilos e tão serenos.

Hoje as rosas murcharam, o céu turvou-se; e nesta sáfara da
vida por que passamos atualmente, apenas florescem os cardos com seus espinhos,
as saudades com a sua melancolia, e os goivos com o seu triste emblema.

Felizmente todo o deserto tem seus oásis, nos quais a natureza por
um faceiro capricho, parece esmerar-se em criar um pequeno berço de
flores e de verdura, concentrando nesses cantinhos de terra toda a força
de seiva necessária para fecundar as vastas planícies.

Assim nesta quadra de amarguras e sofrimentos, encontram-se de espaço
a espaço alguns corações ricos de virtudes e de sentimento;
são os oásis deste tempo.

Aí sim; aí há flores; não as rosas brilhantes
de outrora ou as camélias aveludadas dos salões; mas as flores
modestas, filhas da sombra e do retiro, as flores do – sentimento, as violetas.

Vós, minhas leitoras, que sabeis sentir, bem compreendeis o que são
estas violetas de que falo; são as flores singelas de vossa alma, –
a caridade, a beneficência, o zelo e a abnegação.

Também me compreendem os pobres e infelizes, que tantas vezes durante
estes tempos de provação tem sentido os perfumes suaves, a fragrância
consoladora dessas flores do coração, – flores que desabrocham
orvalhadas com as lágrimas da desgraça e do sofrimento.

E sobre tudo isto, há ainda a religião, – a nossa bela religião
de Cristo, – mãe extremosa de todos os órfãos, – a irmã
desvelada de todos os infelizes, – a amiga e companheira fiel dos pobres,
– a consoladora de todas as misérias, e todas as aflições.

É ela que nos há de dar força e coragem para atravessarmos
com resignação esses dias de atribuição, que felizmente
parece irão pouco a pouco se acalmando, até nos deixarem aquela
serenidade dos belos tempos de que hoje temos tanta saudade.

E agora, minhas leitoras, deixai-me dar-vos um conselho, que estou certo
haveis de acolher com toda aquela amabilidade com que outrora acompanháveis
os ziguezagues desta minha pena caprichosa, que bem vezes vos dava sérios
motivos para um arrufo, para um enfado.

Voltemos porém ao conselho; não penseis já que é
algum conselho muito grave, muito sério, vestido de calça e
casaca preta com gravata branca, – à guisa de um antigo conselheiro
da coroa.

Não; – é um pequeno conselho bem próprio para moças
bonitas como sois, – um conselho que tem além de todas as outras vantagens,
o merecimento de mostrar as pérolas de vossos dentes, e de fazer da
vossa boca uma florzinha cor-de-rosa.

Aconselho-vos, que apesar dos tempos em que estamos, apesar de tanta tristeza
e melancolia que envolve esta bela cidade, apesar de tudo, apesar mesmo das
lágrimas, não deixeis de sorrir.

Notai porém que eu digo simplesmente sorrir e não rir.

O riso, é esta expressão vulgar com que exprimimos a alegria,
e o humor; é muitas vezes mesmo um movimento nervoso, sem sentido sem
significação, um hábito que se contrai como tantos outros,
como o costume de estalar os dedos, de alisar o bigode, ou endireitar o colarinho.

Assim rir, quando alguém sofre, quando nossos irmãos padecem,
é uma ofensa amarga, um insulto à dor e a desgraça; porque
esse riso, se não é um escárnio, é uma indiferença
fria. É uma insensibilidade estúpida.

Mas o sorriso, é diferente.

O sorriso, é esta exalação da alma, que nos momentos
de calma e tranqüilidade vem desabrochar nos lábios, e abrir-se
como uma dessas flores silvestres que o menor sopro desfolha.

Nunca vistes nas noites cálidas e límpidas, essas estrelas
brilhantes que atravessam o horizonte, traçando no espaço um
rasto luminoso, e brilhando um momento entre a escuridão das trevas?

Dizem que isto é um efeito da eletricidade. Pois o sorriso, – como
as estrelas filantes, – é produzido também por esse choque de
emoções, e de sentimentos, que se pode bem considerar como a
eletricidade moral.

Portanto não há mal nenhum, minhas belas leitoras, em que deixeis
vossos lábios sorrirem, e vossas almas expandirem-se no lindo rosto;
há sorrisos alegres, porém, também os há serenos,
tristes e melancólicos.

Demais, peço-vos isto também por nós. Que quereis que
façamos, se nestes dias aflitos não virmos brilhar uma estrela,
uma flor, um sorriso?

Quanto a mim, sou como o marinheiro do Mediterrâneo, perdido na vasta
amplidão dos mares, batido pela procela, que no meio da escuridão
e do vendaval, apenas vê brilhar no céu uma estrela furtiva,
sente-se reanimado, cria novas forças, e murmura a sua prece. Ave Maria
Stella.

Assim no meio dos desgostos e das tribulações, quando virdes
um sorriso despontar nos lábios de uma linda mulher que vos ame, podeis
fazer como o marinheiro; ajoelhai e murmurai a vossa prece. Ave Maria Stella.

Portanto, minhas belas leitoras, sorri, sorri sempre, como sorri o céu,
o mar, e tudo que é belo; porque foi este o destino que deus deu as
coisas mimosas: porque é esta a missão que representam neste
mundo a beleza e a graça.

E quando quiserdes sorrir, não esquecei o vosso protegido, o Ginásio,
aquele pequeno e lindo teatro, sobre o qual tantas vezes conversamos outrora,
nos domingos.

Ainda é o mesmo; sempre digno da vossa solicitude, sempre esforçando-se
em corresponder a amabilidade com que o tratais.

Depois que nos separamos tão repentinamente, tem havido nele muita
coisa de novo, muita representação interessante; porém
de tudo o que se me tem contado, a mais bela noite do Ginásio foi a
de quinta-feira, – em que teve lugar o benefício dos pobres.

Se eu já não soubesse, minhas leitoras, que amais de coração
este bom teatrinho, que vos dá tantas horas de agradável passatempo,
podia contar que depois deste ato de beneficência, não lhe recusaríeis
a vossa proteção, e sobretudo a vossa presença, que é
a maior proteção que pode dar uma linda moça.

Não sei sobre que mais hei de falar-vos que já não tenha
sido dito e repetido pôr tantas penas delicadas, que vos apresentam
todos os domingos a história da semana.

Sobre Norma?

Quem é que não foi ver no teatro lírico esta criação
de Emy La Grua; quem não ouviu esse canto inspirado e profundo que
os faz correr pelo corpo um arrepio de emoção?

Norma, como a vi num desses dias no teatro lírico, fez-me compreender
o episódio da Velleda dos Mártires de Chateaubriand, que, segundo
dizem, forneceu o assunto deste pequeno poema de paixão violenta, de
ciúme selvagem, e de amor sublime.

Falam pôr aí de algumas exagerações que pretendem
haver na criação deste papel dramático; mas quem assim
pensa, não tem uma verdadeira idéia da arte.

Pôr mim, não concebo que um crítico possa dizer ao poeta,
ao artista, ao gênio, enfim como Deus disse ao mar: – Vós não
passareis daqui.

Desde o momento em que o homem, nos vôos de sua inteligência
se eleva acima das circunstâncias ordinárias da vida, desde que
o seu pensamento se lança no espaço, possuído desse desejo
ardente, dessa inspiração insaciável de atingir ao sublime,
não é possível marcar-lhe um dique, um ponto que lhe
sirva de marco.

Ide dizer ao poeta que não deixe correr a sua imaginação
pelos espaços infinitos da fantasia, – ide dizer ao pintor que force
o seu pincel quando corre inspirado sobre a tela, e eles vos responderão
que o pensamento que os anima neste instante escraviza e esmaga a sua vontade;
que a alma e o corpo cedem à força da inspiração
que os arrebata neste momento.

Como o poeta, como o pintor, é o artista dramático, quando
se acha possuído de seu papel, quando sente abrasar-se-lhe nas veias
o fogo sagrado; é preciso ainda notar que este tem mais um motivo para
deixar-se arrastar, tem os aplausos e os bravos de uma multidão inteira.

Assim, tudo isto a que vulgarmente chamam exagerações, são
apenas os arrojos da imaginação do artista, os primeiros esboços
de sua criação, que ele ainda não teve tempo de polir
e de limar; pôr isso se houverdes visto a Norma todas as vezes como
eu, de certo tereis reparado que cada dia uma dessas exagerações
vai tomando nova forma, vai-se desenhando mais brilhante, mais luminosa, como
um painel que se retoca.

Pôr tudo isso que tenho escrito, não penseis que me faço
um defensor cego de La Grua, um defensor quand même da cantora que é
hoje a estrela brilhante do teatro Lírico.

Não: – nem ao público, nem a ela, nem a nós, conviria
uma admiração tão cega, que excluísse a franqueza,
quando pôr acaso se tornasse necessária.

O artista, a quem julgo ofender dizendo-lhe a verdade, e apontando-lhe um
erro, – é sempre um artista medíocre que vive da sombra da glória,
sem merecimento real.

Pôr isso nós, com Emy La Grua, faremos, se for necessário,
como dizia Afonso Karr a propósito das mulheres bonitas; faremos como
o escultor que talha o mármore de uma estátua, não para
ofende-la, mas para modelar-lhe as formas elegantes e arredondar-lhe os mimosos
contornos.

Se for necessário, o dissemos nós, porque parece-nos que nunca
teremos ocasião de fazer de nossa pena de folhetinista um buril de
escultor.

Al.

Capítulo II

21 de outubro de 1855

Estava olhando para o fundo do meu tinteiro sem saber o que havia de escrever,
e de repente veio-me à idéia um pensamento que teve Afonso Karr,
quase que em idênticas circunstâncias.

Lembrei-me que talvez aquela meia onça de líquido negro contivesse
o germe de muita coisa grande e importante. E que cada uma gota daquele pequeno
lago tranqüilo e sereno podia produzir uma inundação e
um cataclismo.

De fato o que é um tinteiro?

É a primeira vista a coisa mais insignificante do mundo; um traste
que custa mais ou menos caro, conforme o gosto e a matéria com que
é feito.

Entretanto, pensando bem, é que se compreende a missão importante
que tem um tinteiro na história do mundo, e a influência que
pode exercer nos futuros destinos da humanidade.

Assim pôr exemplo, aquele meu tinteiro, que ali está encestado
a um canto, se pôr voltas deste mundo fosse parar a Europa, podia tornar-se
célebre na história do gênero humano.

Lamartine ou Vitor Hugo se quisessem tirariam dali um poema, um drama, um
livro cheio de poesia e de sentimento.

Rotschild, ou qualquer banqueiro da Inglaterra, podia com uma simples gota
fazer surgir milhões e produzir de repente uma nova chuva de ouro.

Qualquer mulher bonita, com um só átomo daquela tinta, faria
a felicidade de muita gente escrevendo na sua letrazinha inglesa três
ou quatro palavras.

Meyerbeer ou Rossini num momento de inspiração achariam ali
uma ópera divina, uma música sublime, como o Trovador, a Semiramis,
ou o Nabuco

Enfim, o papa amaldiçoaria o mundo inteiro, como acaba de fazer com
o Piemonte; Napoleão declararia a guerra à Europa; a Inglaterra
levaria a destruição pôr todos os mares; e a guerra à
Europa; a Inglaterra levaria a destruição pôr todos os
mares; e a guerra do Oriente se terminaria de repente.

E tudo isto, todas essas grandes revoluções, todos esses fatos
importantes, todas essas coisas grandes, dormiam talvez no fundo do meu tinteiro,
e dependiam apenas de um capricho do acaso.

Para mim porém, para mim, obscuro folhetinista da semana, o que podia
haver de interessante nas ondas negras da tinta que umedecia os bicos de minha
pena?

Um devaneio sobre o teatro lírico, uma poesia sobre algum rostinho
encantador, uma crítica mais ou menos espirituosa sobre a quadra atual,
tão fértil em episódios interessantes para uma pena que
os soubesse descrever e comentar?

A minha pena porém, já não presta para essas coisas;
de travessa, de ligeira, e alegre que foi em algum tempo, tornou-se grave
e sisuda, e olha pôr cima do ombro para todas essas pequenas futilidades
do espírito humano.

A culpa porém não é dela; é a influência
diabólica dessa quadra, que merece ser riscada dos anais da crônica
elegante.

De fato, como se pode hoje brincar sobre um assunto, escrever uma página
de estilo mimoso, falar de flores e de música, se o eco da cidade vos
responde de longe: – Pão, – epidemia, – socorros públicos, –
socorros públicos, – enfermaria !

Estais no teatro, esquecido deste mundo e de suas misérias, ouvindo
a Grua cantar algum belo trecho de música, ou a Charton trinar as suas
notas de rouxinol francês; não vos lembrais de coisa alguma,
senão de que tendes a alma nos olhos, e os olhos noutros olhos, – quando
sentis no ouvido um zumbido pouco harmônico.

É um sujeito que acabou de cear à luta e que vos pergunta como
vai a epidemia, ou vos conta dois ou três casos que ele presenciou,
e cuja impressão agradável deseja comunicar-vos como vosso amigo.

Se deitais o óculo para algum camarote e começais a contemplar
um talhe elegante ou um colo acetinado, é justamente neste momento
que um economista de polpa vos agarra para discutir a magna questão
da farinha de trigo, e do comércio do pão de rala. Ainda se
fosse a questão das carnes, – podia ter sua analogia!

Como é possível pois ter um pouco de poesia, e de espírito
numa semelhante época? Conto escrever duas linhas sem falar da epidemia
reinante, dos atos de caridade, e das enfermarias?

Se isto continua, daqui a pouco os jornais tornar-se-ão uma espécie
de boletim; não há nada que diga respeito à moléstia
que não se anuncie.

Abri um jornal qualquer do dia, e vereis pouco mais ou menos o seguinte:

"O Sr. A, partiu para tal parte; o Sr. B, voltou de tal lugar; o Sr.
C, vai para tal vila; o Sr. D, tem dado providências; o Sr. E, ofereceu
mil cobertores; o Sr. F, adoeceu, mas já ficou bom.

E assim pôr diante; ninguém escapa a esta febre de publicação,
que já se estendeu até aos diversos períodos da moléstia.

No meio de tudo isto, as mulheres andam inteiramente absorvidas com a caridade,
e não pensam noutra coisa; e a tal ponto, que as moças bonitas
já não aparecem, de tão ocupadas que têm estado
a fazerem trabalhos para o leilão de hoje.

O que há de ser este leilão, eu adivinho; há de ser
uma linda festa, muito concorrida, onde a caridade brilhará no meio
de sorrisos graciosos e de olhares brilhantes; em que o amor, a vaidade, o
orgulho, todas essas paixões mundanas servirão de pedestal à
bela estátua da virtude celeste.

É aí, que as lindas mulheres vão retribuir à
Providência, os tesouros de beleza e de graça, que a natureza
lhes deu; é aí que o seu belo olhar, o seu sorriso, o seu gesto
elegante, pedindo para os pobres, renderão a Deus um verdadeiro culto.

Hoje pois terá lugar uma larga remissão de pecadilhos, e uma
justa penitência da parte das moças bonitas e coquettes, que
pôr tanto tempo zombaram impunemente dos protestos e da paciência
de seus adoradores.

Deixemos porém estes assuntos já esgotados, e voltemos ao teatro
lírico, que é atualmente o ponto de reunião mais interessante
desta bela capital.

Ultimamente a nossa cena lírica ia perdendo muito no espírito
público; embora possuísse duas artistas de incontestável
merecimento, o repertório estava já tão conhecido que
não oferecia a menor variedade.

Eu, pelo menos, ia ao teatro como um homem levado pelo hábito e acostumado
a ouvir todas as noites, recostado à janela, cantar nas moitas do seu
jardim alguma ave melodiosa.

Uma noite, era um rouxinol que gorjeava as suas canções mimosas,
– era a Charton. Outra, era a sereia que embriagava com os sons palpitantes
de sua voz harmoniosa, – era Emy.

Havia gente, que gastava o seu tempo a discutir o que era mais agradável
e mais artístico. Os homens de juízo e de bom gosto faziam como
eu; admiravam a estrela do céu, e a flor do campo, sem procurar saber
qual era mais bela.

Agora porém parece-nos que o teatro lírico vai tomar outro
aspecto; preparam-se novas óperas, e trata-se de criar um novo repertório.

Além da Sapho que se deve representar breve, teremos com a Charton
a Fidanzata Corsa cujo ensaio começou ontem, e depois o Nabuco com
E. La Grua e o Walter.

Para o dia 2 de dezembro fala-se numa composição francesa,
e numa ópera em que cantarão juntas as duas prima-donas rivais.

Com a chegada porém de Tamberlich e de Julienne Dejean, é que
a nossa cena se reanimará completamente; e que fará gosto assistir
a uma dessas lutas do talento e da arte, lutas cujos troféus são
as camélias, as rosas, e os lindos ramos de flores que se abatem aos
pés do vencedor.

A vinda do Tamberlich, é sobretudo muito necessária, não
só pôr não termos um bom tenor, como pôr consideração
para com as nossas patrícias.

Na verdade é uma injustiça imperdoável, que elas não
tenham um cantor pôr quem se entusiasmem; entretanto, que nós
temos Emy, Arsene, e Anneta; nada menos do que três, isto é;
– um número suficiente para revolucionar o mundo.

Começo de novo a olhar para o fundo do meu tinteiro para ver se ainda
há alguma coisa.

Esperai! Lá vejo surgir o que quer que seja, – um pequeno ponto, um
ponto quase imperceptível e confuso, que vai pouco a pouco se tornando
mais distinto, como uma vela que desponta no horizonte entre a vasta amplidão
dos mares.

Talvez nos traga coisas interessantes e curiosas; notícias que vos
compensem da insipidez destas páginas ingratas.

Oh! O ponto cresce, cresce! Vai tomando a fisionomia de uma espécie
de porteiro de secretaria, ou de bedel de academia.

Agora vejo-o distintamente; é um amigo velho!

— Bem-vindo, meu bom amigo, bem-vindo, amigo sincero dos folhetinistas
e dos escritores, bem-vindo, ponto final!

Não há remédio, senão ceder-vos o lugar que vos
compete; ei-lo,

(.)

Capítulo III

28 de outubro de 1855

Estava sem inspiração, o que me sucede muita vez.

Abri um livro, nem me lembra que livro era.

A primeira palavra que vi foi em latim; era um provérbio:

Res est magna tacere.

Façam idéia, pois, que impressão podia produzir uma
semelhante máxima num espírito que procurava inspirações.

Quando eu desejava um tema para falar, – e falar mais do que uma moça
que discute modas, ou um ministro que falta a uma promessa, – salta-me pela
frente a sabedoria romana, e manda-me calar da maneira mais impertinente.

Ora para um folhetinista que não quer absolutamente indispor-se com
os sábios, não havia remédio senão obedecer.

Resolvi portanto calar-me.

A resolução era a mais prudente, e também a mais cômoda
possível mas tinha um inconveniente.

Os meus leitores, e sobretudo as minhas maliciosas leitoras, eram muito capazes
de supor que me calava pôr não ter nada que dizer.

Isto seria uma quebra para a minha reputação de folhetinista;
seria uma falta imperdoável para aqueles que julgam que o espírito
de um escritor de revista deve ser uma esponja que durante a semana se embebeda
e sature de idéias, e que ao domingo se esprema no papel, e deite uma
chuva de bonitos pensamentos e lembranças graciosas.

Ora, apesar de não pretender a glória desta comparação
polipiana, contudo o meu amor-próprio não podia consentir que
me visse decaído das boas graças do leitor pôr causa de
três palavras latinas.

E três palavras latinas que eram pôr si mesmas uma mentira e
uma contradição; porque, se o tal sábio (Salomão
ou Sócrates) estivesse bem convencido da utilidade de calar-se, não
teria a indiscrição de falar e dizer aquelas palavras: Res est
magna tacere.

Mas é que todos os sábios deste mundo são assim; pregam
muito boas máximas, excelentes conselhos, e eles são os primeiros
que fazem o contrário, e que dão o mau exemplo.

Tudo isto porém nada tem com a questão; o que é verdade
é que me achava na mais difícil posição do mundo;
pôr um lado a prudência e a sabedoria mandavam que me calasse,
pôr outro o leitor e o público exigiam que falasse e escrevesse.

Se houvesse um meio de combinar as duas coisas, e ficar com ambas, seria
para mim um salvatério.

Mas ainda estou pouco ao fato destes meios empregados pôr certos jornalistas
e certos políticos, novos Janos da civilização que passam
pela sociedade, sorrindo para um e outro lado com cada um dos cantos da boca.

Não me restava pois senão um expediente, e foi o que decidi-me
a adotar.

Era preciso calar-me, visto que os sábios o ordenavam; mas, calando-me,
restava-me o direito de dizer ao menos os assuntos diversos sobre que me calava.

Assim nem incorro na censura de falador, nem também se pode dizer
que não tenho matéria sobre que escrever.

Uma das primeiras coisas sobre que eu me calo é sobre a questão
atual da farinha de trigo, sobre a questão do pão.

Com efeito, poucas matérias são tão importantes como
esta, que afeta geralmente a todos os diversos interesses da sociedade.

Os pobres e os ricos, os empregados, os ministros, os pretendentes, os confeiteiros,
os gastrônomos, as senhoras, o país, a colonização,
a estatística, enfim tudo tem uma relação imediata com
esta grande questão.

Isto exige uma explicação.

Ei-la:

Há diversas espécies de pão: o pão branco e o
pão de rala, o pão-de-ló, o pão d’ouro, e muitas
outras espécies menos importantes; há igualmente uma espécie
indefinida, genérica, ainda não caracterizada, e que se exprime
ordinariamente pelo simples termo – o pão.

Esta última espécie é a mais importante; todos trabalham
para ganhar o pão; o pobre muitas vezes não tem o pão
para a boca; e o operário vê-se obrigado a regar o pão
com o suor do seu rosto.

Já se vê que este pão não é feito nos fornos
e nem se compõe de fermento, e que pôr conseguinte não
é o preço da farinha de trigo ou uma padaria central e privilegiada
que o tornarão mais fácil para o pobre.

Este pão é o pão do trabalho, do trabalho ativo, honesto
e inteligente a que todo o pobre deve dedicar-se com amor, deixando os hábitos
de indolência e os vícios, que quase sempre são a causa
única da miséria.

Esta espécie pois exige do governo não só uma proteção
à indústria do país, como uma política ativa e
regular, com as competentes casas de detenção, necessárias
para o trabalho dos velhos e mendigos.

A questão do pão-de-ló tem grande interesse também:
este pão é muito saboroso e muito suave ao paladar, mas pôr
isso mesmo é um pouco mais caro do que os outros.

Dizem que o pão-de-ló – higienicamente falando – é um
pouco indigesto; mas a experiência tem mostrado o contrário:
há estômagos que digerem um número extraordinário
de boas fatias.

A respeito desta espécie já pusemos em prática o sistema
francês da administração municipal da boulangerie parisienne.

Temos uma padaria central ou nacional, e diversas padarias provinciais, onde
se fabrica excelente pão-de-ló, que se distribui conforme o
estômago de cada um.

Esta organização precisa de uma reforma radical, que demanda
longos estudos e muita prudência e reflexão da parte do governo.

Vejam pois que tinha razão quando disse que a questão do pão
era uma das de maior vulto da atualidade.

Quanta reforma importante, quanta ciência, quanto estudo e prática
não exige esta única palavra?

Que revolução econômica e social não são
capazes de produzir estas três linhas juntinhas e cobertas com um til
à guisa de chapéu-de-sol?

E ainda isto não é tudo. Disse que o país, as senhoras,
as famílias, a população, a estatística, as modas,
tudo enfim estava empenhado na questão do pão.

E vou prova-lo.

Mas… agora me lembro que não posso falar, que obriguei-me a calar,
em deferência aos provérbios latinos.

Portanto fiquem os leitores em jejum, a menos que algum dos tais impertinentes
provérbios não queira falar pôr mim, como pôr exemplo,
este: Sine Cerere et Baccho friget Vênus.

A bom entendedor meia palavra basta. Aquele friget que ali está com
um ar tão sonso e tão ingênuo é um brejeiro de
conta; e se ele quisesse falar mostrar-nos-ia a influência legítima
do pão.

Porém é um verbo muito sisudo e discreto, e pôr isso
não há meio de arrancar-lhe uma explicação mais
clara.

Há ainda outras muitas coisas sobre que podia falar, mas a respeito
das quais me calo para cumprir o prometido.

Podia falar da representação da Sapho, e dizer muita coisa
bonita e interessante sobre a nossa grega, que inspira com seu canto os nossos
poetas, e com os seus olhos os nossos diletantes.

Podia fazer um poema sobre esta história de um amor profundo, que
se reproduz entre nós todos os dias, e que acaba sempre pôr um
passo de Leucate.

A única diferença que existe é na posição
geográfica e na qualidade do passo de Leucate moderno, o que é
devido à diferença dos países e à diversidade
das idades, dos usos e costumes.

Assim, o passo de Leucate antigo era um rochedo à beira do mar; o
da Idade Média era um convento no cimo de uma montanha; o de nossos
dias é um casamento de conveniência.

As Saphos de hoje, quando chegam ao triste desenlace de uma história
de amor, sobem ao altar e de lá precipitam-se…

Precipitam-se nos braços de um homem que não amam, precipitam-se
na monótona e triste existência de um casamento mal sucedido.

Mudados pois os nomes e os lugares, o drama é o mesmo, e as personagens
idênticas.

Em continuação deste tema de Sapho moderna, podia falar-vos
das Mulheres de mármore, representadas sexta-feira no Ginásio,
e pintar-vos uma bela cena da Grécia criada pelo pincel do Bragaldi.

Haveis de saber o admirável efeito que produziu esta representação,
a que deveis ir assistir esta noite; lá conversaremos a gosto, e apreciaremos
juntos a habilidade com que todos os artistas desempenham os seus papéis.

Sobre o concerto do teatro lírico desta noite, também poderia
escrever algumas linhas recomendando-vos o talento da distinta harpista Mme.
Belloc, que não foi feliz na concorrência.

Mas a razão, eu a sei: nesta época de tanto s desconcertos
era impossível que fosse bem aceito um concerto.

Agora, tendo eu me calado sobre tanta coisa, é justo que converse
um pouco com as minhas leitoras.

Tenho de lhes noticiar que se acha criada uma nova ordem – A ordem das violetas

Esta ordem é dedicada especialmente à caridade, e teve sua
origem no dia do leilão das Belas-Artes, em um bouquet de violetas.

Quem a criou (o que para mim é segredo) teve uma feliz inspiração;
tirou o ramo do seio, distribuiu as flores à direita e à esquerda
a quem as mereceu pôr caridade; e o sorriso de seus lábios dizia
neste momento: – Honni soit que mal y pense.

O caso é que a ordem está criada, e que agora o luxo, o chic,
é trazerem os gentlemen na casaca preta a modesta e linda florzinha,
que tornou-se o emblema de uma tão santa virtude.

Pôr falar nisto lembro-me que hoje tem lugar o segundo leilão
das Belas-Artes.

Quando criaram este edifício, nunca pensaram que ele teria o nobre
destino que lhe deram domingo passado, e que o seu nome teria uma outra significação
ainda mais apropriada.

Com efeito, que mais belas-artes, do que as artes, as travessuras, os meios
engenhosos, que a caridade aí inspirou domingo passado às elegantes
peregrinas da Glória?

Mas que há aí de admirar!

Eram brasileiras.

Se não sabeis o que quer dizer isto, ouvi-me.

Vou contar-vos uma história muito linda, um verdadeiro conto de fada.

Não sei se minha pena ainda se lembrará dessas coisas de outro
tempo, desses contos árabes tão cheios de poesia oriental.

Mas enfim lá vai.

Foi um dia…

Lancei os olhos sobre uma página solta deste folhetim, e lá
vi o meu Cabrion.

Res est magna tacere.

Calo-me pois, e desta vez seriamente; dou um ponto na boca, ou antes, no
papel.

Capítulo IV

4 de novembro de 1855.

Desejava dirigir uma pergunta aos meus leitores.

Mas uma pergunta é uma coisa que não se pode fazer sem um ponto
de interrogação.

Ora, eu tenho uma birra muito séria a esta figurinha de ortografia,
a esta espécie de corcundinha que parece estar sempre chasqueando e
zombando da gente.

Com efeito, o que é um ponto de interrogação?
Se fizerdes esta pergunta a um gramático, ele vos atordoará
os ouvidos durante uma hora com uma dissertação de arrepiar
os cabelos.

Entretanto, não há coisa mais simples de definir do que um
ponto de interrogação; basta olhar-lhe para a cara.

Vede: – ?

É um pequeno anzol.

Ora, para que serve o anzol?

Para pescar.

Portanto, bem definido, o ponto de interrogação é uma
parte da oração que serve para pescar.

Exemplo:

1º Quereis pescar um segredo que o vosso amigo vos oculta, e que desejais
saber; deitais o anzol disfarçadamente com a ponta da língua:

— Meu amigo, será verdade o que me disseram, que andas apaixonado?

2º Quereis pescar na algibeira de algum sujeito uma centena de mil réis;
preparais o cordel e lançais o anzol de repente:

— O sr. Pode emprestar-me aí uns 200 mil réis?

3º Quereis pescar algum peixe ou peixãozinho: requebrais os olhos,
adoçai a voz, e pôr fim deitais o anzol:

— Uma só palavra: tu me amas?

É preciso porém que se advirta numa coisa.

O ponto de interrogação é um anzol, e pôr conseguinte
serve para pescar; mas tudo depende da isca que se lhe deita.

Nenhum pescador atira à água o seu anzol sem isca; ninguém
portanto diz pura e simplesmente:

— Empresta-me 300 mil réis?

Não; é preciso que o anzol leve isca, e que esta isca seja
daquelas que o peixe que se quer pescar goste de engolir.

Alguns pescadores costumam deitar um pouco de mel, e outros seguem o sistema
dos índios que metiam dentro d’água certa erva que embebedava
os peixes.

Assim, ou dizem:

— Meu amigo, o senhor, que é o pai dos pobres, (isca) empresta-me
300 mil réis? (anzol).

Ou então empregam o segundo meio:

— Será possível que o benfeitor da humanidade, o homem
que todos apregoam como a generosidade personificada, que o cidadão
mais popular e mais estimado desta terra, que o negociante que revolve todos
os dias um aluvião de bilhetes do banco, me recuse a miserável
quantia de 300 mil réis?

No meio do discurso já o homem está tonto de tanto elogio,
de maneira que, quando o outro lhe lança o anzol, é com certeza
de trazer o peixe.

Ainda tinha muita coisa a dizer sobre esta arte de pescar na sociedade, arte
que tem chegado a um aperfeiçoamento miraculoso.

Fica para outra ocasião.

Pôr ora basta que saibam os meus leitores que o ponto de interrogação
é um verdadeiro anzol.

O caniço desta espécie de anzol é a língua, e
o fio ou cordel a palavra; fio elástico como não há outro
no mundo.

Ás vezes, quando se olha para esta figurinha aleijada, o ponto de
interrogação parece-se mais com um daqueles corcundinhas, espécie
de demoninhos maliciosos, de que falam os contos de fada e que viviam a fazer
pirraças aos homens.

É que de fato há ocasiões em que ele torna-se realmente
um anãozinho zombeteiro e impertinente, que leva a ousadia até
a rir-se nas barbas de um pobre homem.

Haveis de ter encontrado pelo mundo algum desses homens que depois de terem
feito todo o mal que podem a outro, vêm com o riso nos lábios
insultar a dor e envenenar com sua baba a ferida mal cicatrizada.

Este homem atira à cara do outro o corcundinha de que vos falei, e
dirige pouco mais ou menos uma pergunta neste sentido:

— Então, meu amigo, pôr que não me conta os seus
pesares? Não tem confiança em mim?

Há também um certo ponto de interrogação que
tem seus ares de mestre de latim ou de professor de primeiras letras.

Este é carrancudo e severo; tem a voz áspera e fanhosa, como
do homem que toma rapé; e ordinariamente anda aos pulos.

Lembro-me perfeitamente que na minha aula de latim às vezes estava
eu bem distraído, quando ele saltava-me pela frente gritando:

— Hora-ae, vocativo?

Felizmente todas as coisas deste mundo têm verso e reverso; o ponto
de interrogação, que quase sempre é um anzol, um anão
corcunda, ou um pedagogo, parece-se às vezes com um desses meninos
travessos e gentis, um desses anjinhos curiosos e inocentes que desejam saber
tudo.

Então ele pergunta, mas é como o filho à sua mãe;
ri-se, mas é de prazer e de alegria; e leva todo o tempo a brincar
entre as palavras, como o colibri no meio das flores.

Vou mostrar-vos essa face risonha do ponto de interrogação,
esse verso da medalha cunhada pelos gramáticos.

É uma poesia que li, não sei onde, e que só tem um defeito:
o de ser uma pergunta sem resposta.

Ei-la:

A EMY LA-GRUA

Que geme de amor,
Que beija lasciva
O seio da flor,
Colhe em teus beijos
O brando suspiro,
A brisa furtiva
Os doces bafejos
De que eu me inspiro?
A onda ligeira
Que treme e palpita,
Que de feiticeira
Murmura e saltita,
Viu-te no sorrir
Que o lábio desata
Brincar e fugir
A doce volata?

A corda da lira
Que mal estremece,
E tênue suspira
Um som que entristece,
Bebe em teu pranto
O débil queixume,
Guarda de teu canto
O eco, o perfume?

Tens nos lábios teus
A flor da harmonia,
Que dás como Deus,
Aos sons melodia,
Acento divino,
A vaga o seu friso,
Às auras um hino,
E a tudo o sorriso?

Dos anjos soubeste
As notas sublimes
D’harpa celeste,
Com que tudo exprimes;
Ou deu-te o amor
A chama sagrada,
O grito da dor,
A voz inspirada?

Agora é muito natural que, depois de ter lido toda esta maçada,
depois de ter virado e revirado em todos os sentidos o ponto de interrogação,
o meu leitor esteja desesperado pôr saber qual era a pergunta que eu
lhe pretendia fazer, e que deu causa a todo esse aranzel, misturado de poesia.

É muito justo, e pôr isso vou satisfaze-lo.

Queria contar domingo passado.

É um conto a respeito das mocinhas brasileiras.

O prometido é devido.

Aí vai pois:

"Um dia a fada Beleza desceu à terra, resolvida a distribuir
pôr todas as moças os tesouros de graça e mimos que possuía.

"Mandou que seu irmão o anãozinho Amor chamasse uma mulher
de cada nação, para receber o dom que lhe coubesse.

"Quando todas estavam reunidas, a fada começou a distribuição
dos seus presentes.

"Deus à Andaluza cabelos negros e tão longos que lhe podiam
servir de mantilha.

"A Italiana olhos brilhantes e ardentes como as estrelas do céu
de Nápoles.

"A Árabe um moreno excitante e uma pele doce e macia como as
penas do marabu.

"A Inglesa uma aurora boreal para tingir as faces, os lábios
e as espáduas.

"A Alemã pérolas para os dentes e miosótis para
os olhos suaves.

"A Russa a distinção de uma princesa e a nobreza necessária
para trazer um nome de sete sílabas terminado pôr off .

"A Francesa a delicadeza do lírio com a graça e o mimo
das rosas.

"Depois, passando aos detalhes, deitou a alegria nos lábios da
Siciliana, o espírito na cabecinha loira da Irlandesa, o bom senso
no coração da Holandesa.

"Então a Brasileira, que pôr modéstia e pôr
timidez estivera retirada a um canto, puxou docemente a ponta da túnica
azul da fada.

— "E eu?

— "Ah! tinha te esquecido.

— "É verdade.

"E agora como há de ser? Já dei tudo que trazia.

— "Mas eu fico sem nada?

A fada refletiu um momento: depois, chamando as outras com um sinal, disse-lhes:

— "Vós sois tão boas que espero haveis de reparar
uma falta que cometi esquecendo na distribuição a vossa irmã
do Brasil. Eu vos peço pois que cada uma tire um pouco do presente
que lhe fiz, e o dê a esta menina tão modesta.

— Não era possível recusar.

"Todas as mulheres do mundo, com uma graciosa amabilidade, chegaram-se
à Brasileira, e deram-lhe, uma os seus cabelos negros, outra as estrelas
dos seus olhos, esta o sorriso de seus lábios, aquela a ondulação
de suas formas acetinadas.

Eis a história que vos prometi contar domingo, quando vos falava das
nossas patrícias. Ainda sei outras tão lindas como esta, mas
que a pena a correr não pode demorar-se para contá-las.

Irão em ziguezague.

Não reparem se passo em silêncio pela representação
de Sapho, apesar de ser a obra-prima de Paccini.

Digam o que quiserem os maestros, não gosto dessa música de
barulho, que abafa a voz humana, e obriga os cantores a fazerem contorsões
horríveis.

Na Norma e no Otelo, onde os cantores cantam, há prazer em ouvir-se
uma bela voz, que brinca nuns lábios risonhos, desatar-se em ondas
de harmonia, ou desprender-se de um seio que se ergue apenas numa ondulação
suave.

Mas nestas óperas, onde a voz é um grito, onde o canto é
uma convulsão, as notas são arrancadas com esforço, a
boca se contrai, e a melodia desaparece num estrépido que atordoa;
parece que assistimos ao martírio do cantor, a um suplício horrível
da beleza, do talento e da inspiração.

Não; pôr mais que digam, a voz humana não foi feita para
essa música de estrépito. Se desejais ouvir a natureza em suas
convulsões, assisti ao espetáculo da tempestade numa costa desabrida,
mas não ide ao teatro pedir a um cantor que vos venda pôr uma
mesquinharia de dinheiro as centelhas divinas de seu gênio e de sua
alma.

O talento é uma vida, é a vida d’alma, da inteligência
e do pensamento; nenhum artista tem pois o direito de cometer esse suicídio
moral, e de esperdiçar, como Emy La-Grua, numa só noite, a seiva
e o viço de uma existência inteira.

Quando assisti à primeira representação da Sapho, pareceu-me
ver um quadro, no qual um pintor de gênio, querendo tocar o sublime,
derramasse toda a sua inspiração e gastasse todas as tintas
de sua palheta.

Havia alguns traços belos, porém no mais eram tons carregados,
claros e escuros pouco harmoniosos, perfis ásperos e destacados sobre
um fundo sombrio e confuso.

Depois de todo este preâmbulo, é necessário que conte
aos meus leitores os acontecimentos notáveis da semana.

Todos os reduzem a um dia (o sábado), a um acontecimento (a chegada
do paquete), e a uma notícia, que anda de boca em boca e de jornal
em jornal:

A TOMADA DE SEBASTOPOL

Escrevendo-a, não traço unicamente a crônica da semana,
mas a história do mundo durante um ano.

(.)

Capítulo V

11 de novembro de 1855.

Estou decidido a não escrever hoje a minha revista, e como os meus
leitores não quererão dispensar o seu folhetim dos domingos,
não há remédio; vou fazer um romance.

Um romance!

Não é qualquer coisa, é uma história dividida
em capítulos, que principia rindo e acaba chorando, ou vice-versa;
e na qual devem entrar necessariamente um namorado, uma moça bonita,
um homem mau, e diversas outras figurinhas de menos importância.

Um romance em regra só pode começar de manhã ao romper
do dia, de tarde ao rugido da tempestade, e de noite ao despontar da lua:
excetuam-se os romances domésticos, que não têm hora certa,
e que regulam-se pelo capricho do autor.

Ora, o romance que eu pretendo fazer está inteiramente fora da regra,
porque não tem começo, nem fim; e quanto aos personagens limitam-se
a dois unicamente.

Enfim, sem mais preâmbulo, vou contá-lo aos meus leitores, que
lhe darão o apreço que entenderem.

Foi há muito tempo.

A Malibran, a bela e poética Malibran, cismava sozinha, com a cabeça
indolentemente caída sobre o ombro, e os grandes olhos negros e melancólicos
vagando no espaço.

A noite estava límpidas e serena; as estrelas cintilavam no azul do
céu; o vento que suspirava na ramagem das árvores mal quebrava
o silêncio das horas mortas.

De repente os lábios da artista se entreabriram num sorriso, e um
gorjeio sonoro, um trilo brilhante começou a brincar nas covinhas da
boca, e pôr fim foi aninhar-se no cálice de uma margarida que
crescia num vaso.

Um momento depois, o olhar da Malibran animou-se, a graça e a faceirice
do sorriso desapareceram com a expressão ardente e apaixonada que iluminou
o seu semblante.

A voz desprendeu-se vibrante e profunda do seio que palpitava, e soltou-se
numa dessas volatas magníficas, num desses gritos d’alma que não
se exprimem.

A nota pairou um momento nos ares; depois oscilou ao sopro da brisa, e caiu
entre as folhas de um botão de rosa, como uma gota do orvalho da noite.

Até aqui o meu romance é muito simples e nada tem que admire.

São duas notas gêmeas, filhas do mesmo sorriso, criadas pelo
mesmo sentimento, duas irmãs que a sorte deste mundo separou, dando-lhes
um destino diverso.

Mas o que segue é o mais interessante; agora é que o romance
vai começar.

A Malibran, apesar de artista e de achar-se então na flor da idade,
aborreceu-se de cismar, e teve sono; o sono, assim como a fome, é um
dos prosaísmos deste mundo a que ninguém escapa, seja rei ou
poeta.

Logo que sentiu que as pálpebras lhe pesavam, a bela artista lançou
um último olhar às flores do céu e às estrelas
da terra, e fechou a sua gelosia.

Houve um momento de silêncio.

Depois a brisa travessa roçou ligeiramente as suas asa pelas folhas;
e uns dons maviosos, um canto trinado e argentino exalou-se do seio de uma
flor.

Era o gorjeio da Malibran, que balouçando-se no cálice da margarida,
trilava uma ária do Barbeiro de Sevilha, como se estivesse na avant-scène
do teatro lírico.

Mal tinha ele começado, quando sentiu-se um farfalhar de folhas agitadas
pelo vento, e viu-se a rosa erguer a fronte de princesa, volver a haste com
um meneio altivo, e deixar cair do seio uma nota límpida, sonora e
brilhante, que ofuscou inteiramente o pobre gorjeio.

Desta vez era a volata da Malibran, que adormecida entre as folhas da rosa
despertava de repente e se lançara no espaço, julgando que ia
fazer estremecer o salão da Ópera com a tríplice salva
de aplausos do costume.

Mas, em lugar desses admiradores entusiastas, não havia ali senão
dilettanti modestos que apenas sabiam aplaudir com o silêncio; e pôr
isso a viração calou-se, e as águas nem sequer murmuraram.

Entretanto a margarida teve inveja da rosa; o gorjeio teve ciúme de
seu irmão, e para vingar-se abandonou o seio da flor, e transformou-se
num rouxinol.

Largou-se então a cantar, a trinar, a fazer arrulhos doces e mimosos,
como sons de pérola que corressem entre os dedos afilados de uma menina
graciosa; tudo para ele era um hino de prazer: de um som fazia um canto, de
um canto um poema de harmonia.

Todos o admiravam; porém, quando julgava o seu triunfo certo, viu
deslizando nas águas tranqüilas do lago o cisne da Itália,
que modulava o seu último canto, essa criação poética
imaginada para exprimir o canto d’alma que se despede da terra e cria asas
para remontar ao céu.

O cisne soltou um ou dois harpejos, cheios de melancolia e de sentimento;
e bastou isto para que o rouxinol batesse as asas e cortasse os ares num vôo
rápido.

Aqui termina a primeira parte do romance. Se quereis saber o resto, continuai
a ler; se não, voltai a folha, e lede os anúncios, que não
deixam de ter o seu interesse, sobretudo para quem tem de alugar amas de leite.

Voltem, aos assunto.

O rouxinol voou, até que chegou a uma bela terra toda coberta de loureiros
em flor e de fustes de colunas de mármore espalhadas a esmo.

Era a Grécia, se bem me lembro.

Corria perto, entre um montão de ruínas tapeçadas de
hera e de musgo, o Rio Alfeu, o amigo e colega dos poetas da Arcádia.

A alguns passos destacava-se um grupo de estátuas, que pelo primor
da carnação e pela delicadeza do perfil pareciam ter saído
do buril de Fídias ou Praxíteles.

O rouxinol pousou num ramo de árvore, e olhou as estátuas batendo
as asas de contente; mas voltando-se viu o cisne que ele tinha deixado na
Itália, banhando-se nas águas do Alfeu.

Ambos lançaram-se ao grupo das estátuas: o rouxinol aninhou-se
no seio de uma ninfa, cujo nome não me lembro; o cisne pousou no ombro
de uma Safo.

De repente as duas estátuas animaram-se, estremeceram, e pôr
um movimento instintivo, elas que tinham vivido sempre juntas, elas que eram
irmãs de arte e de pensamento, elas que eram feitas do mesmo mármore,
voltaram-se as costas e separaram-se.

Assim viveram muito tempo, até que um dia ouviu-se um hino de amor,
e as duas estátuas foram-se aproximando a pouco e pouco, sorriram uma
para a outra, e deram-se as mãos.

A música que se ouvia era o spartito de Romeu e Julieta ; e as duas
estátuas animadas pareceram-nos…

Adivinhem os leitores, ou antes esperem pelo dia 2 de dezembro, em que nos
consta se representará Romeu e Julieta : aí acharão o
fim deste romance, se é que ele tem fim.

Depois de ter escrito um romance, é duro fazer uma crônica,
ainda mesmo de uma semana como esta, em que nada de bom há a dizer.

No teatro lírico tem-se representado o Nabuco, com geral aceitação.
O Walter é um excelente artista, e tem um canto cheio de expressão
e de elegância; quando se o ouve conhece-se que há nela mais
do que bela voz e boa figura, há alma e sentimento.

A Grua canta perfeitamente, canta como ela costuma cantar, mas, com licença
dos admiradores, e portanto com licença de mim mesmo, o folhetinista
que viu o Otelo, a Norma, Sapho e Nabucodonosor, tem o que quer que seja a
dizer sobre o desempenho desses diferentes papéis.

O artista é como o Proteu da fábula; deve ter o dom de metamorfosear-se
a cada momento; deve mudar de figura, de sentimento, de expressão,
assim como muda de vestuário.

Norma é uma mulher selvagem que ama com essa paixão violenta
e profunda das naturezas primitivas, que sacrificou ao seu amor e crença
de seus pais, a sua virgindade e os votos de sua religião; e tudo isto
pôr um inimigo de sua pátria.

Norma é uma amante criminosa, desprezada, que procura vingar-se a
todo o transe, que ameaça no seu desespero a sua rival, a seu amante,
e a seus filhos; e que só à beira do túmulo, junto à
fogueira, torna-se mulher, e perdoa.

Safo é um espírito cultivado, uma alma de poeta, que sente
todos os extremos do amor, e que o desprezo leva à morte, não
pôr uma vingança, mas pôr um sacrifício voluntário,
pôr um desapego à vida.

A respeito de Abigail não falemos; caráter ambicioso, mais
orgulho do que amor, condena-se à morte pôr despeito ou antes
remorso.

Entretanto, mudado o vestuário, há na Safo o que quer que seja
do ciúme da Norma, assim como em Abigail se reconhecem ainda uns longes
da musa grega e da sacerdotisa druídica.

Faltava-me defender as Mulheres de Mármore de uma acusação
injusta de imoralidade que se lhes tem feito.

Mas o público que tem concorrido ao Ginásio, e os diversos
folhetinistas que elogiam constantemente o drama, me dispensam de gastar tempo
e papel.

É preciso saber como entende-se essa imoralidade de que se trata;
porque nós já não estamos no tempo em que as meninas
de 20 anos ficavam com as faces em brasa quando um pai um pouco desbocado
falava pôr descuido em amor ou casamento.

Hoje as moças de 10 anos geralmente discutem as diversas teorias do
amor, e sabem o que é preciso para não ignorar coisa alguma;
falam do casamento como de uma partida de prazer; lêem romances franceses,
e riem-se com muito gosto quando se representam as proezas de Richelieu.

Capítulo VI

18 de novembro de 1855

Desta vez estou de verve ; vou escrever um livro.

Se bem me lembro, já dei aos meus leitores um folhetim-romance, um
folhetim-comédia, um folhetim em viagem, um folhetim-álbum.

Faltava-me porém dar um folhetim-livro, e pôr isso quero hoje
realizar essa nova transformação do Proteu da imprensa.

De fato o folhetim já pôr si é um livro; é o livro
da semana, livro de sete dias, impresso pelo tempo e encadernado pela crônica;
é um dos volumes de uma obra intitulada o Ano de 1855.

Neste volume a cidade do Rio de Janeiro faz as vezes de papel de impressão,
os habitantes da corte são os tipos, os dias formam as páginas
e os acontecimentos servem de compositores.

Mas não é disto que se trata, e sim do projeto gigantesco que
concebi de escrever hoje um livro-folhetim.

Há de ser um livro completo, precedido de um prólogo, dividido
em capítulos, e escrito com toda a gravidade de um homem predestinado
a visitar a posteridade envolvido em uma capa de couro e na companhia das
traças, das teias de aranha e da poeira das estantes.

Preparem-se pois os meus leitores, limpem os vidros dos óculos, tomem
a sua pitada de rapé, e… aí têm o livro.

Pôr ora é apenas o título:

LIVRO DA SEMANA
ou
HISTÓRIA CIRCUSNTANCIADA DO QUE SE PASSOU
DE MAIS IMPORTANTE

nesta
CIDADE DO RIO DE JANEIRO

desde
O DIA 11 DO CORRENTE MÊS, EM QUE SUBIU AOS ARES
COM GERAL ADMIRAÇÃO, O BALÃO
AEROSTÁTICO ATÉ O DIA DE HOJE 18

compreendendo
todos os acontecimentos mais notáveis
da semana, não só a respeito de
teatros e divertimentos,
como em relação à po-
lítica, às artes
e ciências

OBRA CURIOSÍSSIMA
em todos os sentidos

escrita
no ano da graça de nosso senhor Jesus Cristo
de 1855

Pôr
UMA TESTEMUNHA OCULAR
RIO DE JANEIRO
MDCCCLV

Tipografia do Diário do
Rio de Janeiro.

Ao título segue-se a dedicatória.

Há certas obras em que a dedicatória é um simples luxo;
em outras porém, como nesta, é de rigor.

Uma dedicatória deve ser simples e verdadeira.

Pôr exemplo:

AOS MEUS RESPEITÁVEIS LEITORES.
O. D. C.

Em sinal de consideração e preguiça de escrever o folhetim
de hoje.

O AUTOR.

(Ora muito bem: quanto a título e dedicatória, estamos arranjados;
passemos à terceira página, em que naturalmente deve vir o prólogo.

O prólogo é o bom dia de um escritor ao seu leitor, é
o aperto de mão amigável de um sujeito que é apresentado
a outro a quem não conhecia; é a cortesia do orador que cumprimenta
o seu auditório antes de começar o discurso.

Vamos ver como nos saímos do prólogo: tenha o leitor a bondade
de passar à outra página).

PRÓLOGO

Não é a ambição de glória que me faz dar
hoje à luz este pequeno Livro da Semana, fruto de algumas horas de
trabalho; é unicamente o desejo de tornar-me útil no meu país
e de concorrer com um óbulo para a grande obra da nossa literatura
pátria, que induziu-me a registrar os fatos importantes da semana que
acabou ontem (Nota 1: O autor alude naturalmente à representação
da Fidanazata Corsa, à subida do balão, ao desenvolvimento e
progresso da ciaque do teatro lírico, que sem dúvida teve um
grande alcance para o futuro do país.).

Se o público acolher bem este meu primeiro filho, talvez que animado
pela sua benevolência me resolva a continuar na carreira encetada. Do
contrário consolar-me-ei com a consciência de ter cumprido o
meu dever.

Rio, 18 de novembro.
O AUTOR.

Depois do prólogo, o autor costuma fazer uma introdução,
na qual apresenta o plano geral de sua obra, e prepara o espírito do
leitor para seguir o desenvolvimento das idéias contidas na sua obra.

Passemos pois à

INTRODUÇÃO

Esta semana que acabou apresentou uma face curiosa pelo lado da insipidez.

Portanto o leitor não deve esperar uma descrição poética,
nem mesmo essa variedade que encanta e deleita.

Omnis variatio delectat (Nota 2: A citação latina, além
de dar ao livro um certo cunho de erudição, é uma linha
que se poupa e que o autor enche à custa dos que o precederam. (Nota
do folhetinista)).

Apenas procurarei fazer a narração fiel, não desses
boatos sem fundamento que pôr aí correm, mas daquilo que eu próprio
vi e ouvi (Nota 3: O autor é míope, e quase sempre anda distraído.(Nota
do público)).

Começarei pelo começo.

Feita a introdução, passa-se ao primeiro capítulo, que
é uma espécie de segunda introdução.

Alguns autores usam capítulos com sumários; outros apenas dão
uma idéia geral daquilo sobre que vão tratar.

O meu autor é deste último sistema.

Eis o índice dos capítulos, que forma a 4ª página:

Cap. 1º – Em que o autor mostra pôr que feliz acaso lhe veio a
idéia de escrever este livro.

Cap. 2º – Em que o autor, depois de refletir profundamente; resolve-se
a começar pelo princípio e acabar pelo fim.

Cap. 3º – Que serve para mostrar como o domingo e a segunda-feira foram
dois dias muito insípidos.

Cap. 4º – Como o autor foi ao teatro lírico terça-feira
ouvir música, e voltou muito desgostoso pôr causa da chuva, que
fez com que a casa estivesse inteiramente vazia.

Cap. 5º – No qual se contam duas viagens importantes que fez o autor
esta semana, uma ao redor da baía no vapor Marques de Olinda, e outra
ao redor de uma mesa de almoço ao vapor do champanha.

Cap. 6º – Em que o autor, não tendo mais nada que contar, começa
a dar tratos à imaginação para descobrir alguma boa idéia
e encher o resto das páginas que lhe faltam.

Cap. 7º – Como o autor, sempre à busca da sua idéia, começa
a roer as unhas, indício certo de que a imaginação já
vai se iluminando.

Cap. 8º – No qual o autor lembra-se finalmente que podia falar da Grua
e da Charton; mas pôr fim resolve-se a fazer reticência.

Cap. 9º – Em que o autor trata de diversas coisas, e especialmente de
encher papel.

Cap.10º – Que serve de conclusão à obra.

Agora, eu podia escrever todos estes capítulos: mas de que servia?

Todo o mundo sabe que um livro hoje em dia não é mais do que
o título, o prólogo, a introdução, e o índice
dos capítulos.

O leitor passa os olhos rapidamente, folheia o livro, e apenas de espaço
a espaço encontra uma boa idéia, um trecho interessante.

O mais não vale a pena ler, porque reduz-se a uma meia dúzia
de palavras, a uma caterva de citações.

Suponha portanto o leitor que, depois de ter lido o título, folheia
o nosso livro, e lê unicamente os seguintes trechos:

Afonso Karr diz não sei onde que o elogio não tem merecimento,
senão quando aquele que elogia podia dizer o contrário, e aquele
que é elogiado podia consentir que se fizesse uma censura.

Eu, que não posso deixar de aceitar este preceito de mestre, que o
acho muito justo e razoável, sempre que censuro é unicamente
para dar valor ao elogio quando chegar a ocasião de faze-lo.

Quando censurar a Charton, é unicamente para mostrar que os elogios
que lhe fizeram foram merecidos; quando fizer um reparo a respeito da Grua,
é somente porque desejo ter ocasiões de lhe fazer todos os elogios.

Demais uma censura tem sua graça e seus chistes, enquanto que o elogio
constante é de uma monotonia insuportável.

Quem poderia aturar um céu azul, um sol brilhante e um dia límpido
e sereno, se não fosse a chuva e a temperatura de que lhe servem de
contraste?

Quem admiraria as moças bonitas, se não fosse a quantidade
de mulheres feias que existe neste mundo, e que se encontra a cada passo?

Quem apreciaria certas iguarias, se não fosse a pimenta, a mostarda,
e o tempero de que são adubadas?

O mesmo sucede com o elogio; a censura é a pimenta que lhe dá
o sainete, é a fome que o faz saboroso, é a tempestade que quando
se desfaz deixa o céu mais límpido e sereno.

Acho esta teoria tão boa que estou resolvido, pelo bem de todos, a
sacrificar-me e a não elogiar a mais ninguém.

De agora em diante arrogo-me o direito de crítico, e começo
a fazer censuras pôr conta dos elogios que já fiz e dos que possa
vir a fazer.

E portanto comecemos.

Censuro em primeiro lugar os admiradores das cantoras que não admitem
a menor observação, pôr mais delicada que seja.

Parece que ‘a força de olharem para o sol ficaram deslumbrados, e
não vêem pôr conseguinte aquilo que salta aos olhos.

Censuro depois as próprias cantoras, porque julgam que é, exagerando-se
que hão de realçar o seu merecimento.

Todos nós sabemos que isto nada vale; há bem pouco tempo que
o céu mesmo nos deu uma lição mostrando-nos ao meio-dia
uma estrela junto do sol.

O sol brilhava, mas a estrela derramava sua luz calma e serena.

Finalmente censuro-me a mim mesmo, porque não penso como os outros;
e censuro ao meu leitor pôr não ter melhor empregado o seu tempo.

Finalmente censuro-me a mim mesmo, porque não penso como os outros;
e censuro ao meu leitor pôr não ter melhor empregado o seu tempo

Capítulo VII

25 de novembro de 1855

Falemos das flores.

O que é uma flor?

Será esta criação vegetal que na primavera se abre do
botão de uma planta?

Não: a flor é o tipo da perfeição, é a
mais sublime expressão da beleza, é um sorriso cristalizado,
é um raio de luz perfumado.

Pôr isso há muitas espécies de flor.

Há as flores do céu – as estrelas, – que brilham à noite
no seu manto azul, como os olhos de uma linda pensativa.

Há as flores do ar – as borboletas, – que têm nas suas asas
ligeiras as mais belas cores do prisma.

Há as flores da terra – as mulheres, – rosas perfumadas que ocultam
entre as folhas os seus espinhos.

Há as flores dos lábios – os sorrisos, lindas boninas que o
menor sopro desfolha.

Há as flores do mar – as pérolas, – filhas do oceano que saem
do seio das ondas para se aninharem no seio de uma mulher morena.

Há as flores da poesia – os versos, – às vezes tão cheios
de perfumes e de sentimentos como a mais bela flor da primavera.

Há as flores da religião – as preces, – modestas violetas que
perfumam a sombra e o retiro.

Há as flores da harmonia – os gorjeios – que brincam nos lábios
mimosos de uma bonequinha sedutora.

Há as flores do espírito – os ziguezagues, – que nascem sobre
o papel como rosas silvestres e sem cultura.

(Não falo dos nossos ziguezagues, que, quando muito, são flores
murchas).

Há enfim uma espécie de flor que é tão rara como
a tulipa negra de Alexandre Dumas, como o cravo azul de Jean-Jacques, como
o crisântemo azul de George Sand.

É a flor da vida, este sonho dourado, este puro ideal a que todos
aspiram e de que tão poucos gozam.

Porque a flor da vida apenas vive um dia, como as rosas da manhã que
a brisa da tarde desfolha.

E quando murcha, deixa dentro d’alma os seus perfumes, que são essas
recordações queridas que nos sorriem ainda nos últimos
tempos da existência.

Para uns a flor da vida nasce nos lábios de uma mulher; para outros
no seio de um amigo.

Feliz do caminhante que à beira do bosque pôr onde passa colhe
esta florzinha azul, espécie de urze cingida de uma coroa de espinhos.

Muitas vezes, depois de muitas fadigas, quando já tem as mãos
feridas dos espinhos, e que vai colher a flor, ela se desfolha.

O vento soprou sobre ela, ou um verme roeu-lhe os estames.

Até aqui os meus leitores têm visto o mundo pelo prisma de uma
flor; mas não se devem iludir com isso.

Algum velho político de cabelos brancos lhes dirá que isto
são simples devaneios de uma imaginação exaltada.

A flor é a poesia, mas o fruto é a realidade, é a única
verdade da vida.

Enquanto pois os poetas vivem à busca de flores , os homens sérios
e graves, os homens práticos só tratam de colher os frutos.

Eles vêem desabrochar as flores, exalar os seus perfumes, e esperam
como o hortelão que chegue o outono e com ele o tempo da colheita.

E na verdade, a flor encerra sempre o germe de um fruto, de um pomo dourado,
que outrora perdeu o homem, mas que é hoje a sua salvação.

A explicação disto me levaria muito longe, se eu não
me lembrasse que até agora ainda não escrevi uma linha de revista,
e ainda não dei aos meus leitores uma notícia curiosa.

Mas, a falar a verdade, não me agrada este papel de noticiador de
coisas velhas, que o meu leitor todos os dias vê reproduzidas nos quatro
jornais da corte, em primeira, segunda e terceira edição.

Poderia dizer-lhe que depois da epidemia vai-se revelando uma outra epidemia
de divertimentos, realmente assustadora.

Fala-se em clube artístico, em baile mascarado no teatro lírico,
em passeios de máscaras pelas ruas, numa companhia francesa de vaudevilles,
e em mil outras coisas que tornarão esta bela cidade do Rio de Janeiro
um verdadeiro paraíso.

Neste tempo é que os folhetinistas baterão as asas de contentes,
e não terão trabalho de escrever tiras de papel; preferirão
ir ao baile, ao passeio, ao teatro, colher as flores de que hão de
formar o seu bouquet de domingo.

Enquanto porém não chega esta bela quadra, essa primavera dos
salões, esse abril florido da nossa sociedade, não há
remédio senão contentarmo-nos com o que temos, e em vez de rosas,
apresentar ao leitor as folhas secas do ano.

A respeito de teatro, não falemos; é uma casa em cujo pórtico
(digo pórtico figuradamente) a prudência parece ter gravado a
inscrição de Dante: – Guarda e passa.

Se desprezais o aviso e entrais, daí a pouco tereis razão de
arrepender-vos.

Sentai-vos em uma cadeira qualquer: a vossa direita está um guísta;
a vossa esquerda um chartonista.

Levanta-se o pano: representa-se a Norma ou a Fidenzata Corsa; canta uma
das duas prima-donas, uma das duas prediletas do público.

— Bravo! grita o gruísta entusiasmado.

— Que exageração! diz o chartonista estirando o beiço.

— Divino!

— Oh! é demais!

— Sublime!

— Insuportável!

E assim neste crescendo continuam os dois dilettanti, de maneira que o vosso
ouvido direito está sempre em completa oposição com o
vosso ouvido esquerdo.

Cai o pano.

No intervalo conversai um pouco com os vossos vizinhos.

— É preciso ser completamente ignorante, diz o gruísta
com o aplomb de um maestro, para não se apreciar a sublimidade do talento
desta mulher!

Vós, meu leitor, que não quereis assinar um termo de ignorante,
não tendes remédio senão confessar-vos gruísta,
e em lugar de dois pontos de admiração dais três.

— Com efeito, é uma artista exímia!!!

Apenas acabais a palavra, quando o chartonista vos interroga do outro lado.

— É possível que um homem de gosto e de sentimento admita
semelhantes exagerações?

Ficais embatucado; mas, se não quereis passar pôr homem de mau
gosto, deveis imediatamente responder:

— Com efeito, não é natural.

Daí a um momento o vosso vizinho da direita retruca:

— Veja, todos os camarotes da 4ª ordem estão vazios.

— É verdade!

Torna o vizinho esquerdo:

— Com esta chuva, que casa, hem!

— Boa!

Agora acrescentai a isto as desafinações do Dufrene, a rouquidão
do Gentile, os cochilos do contra-regra, e fazei idéia do divertimento
de uma noite de teatro.

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