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Salónica

É uma cidade moderna, com raízes sólidas numa antiguidade que foi seminal quer para a cultura europeia, quer para as civilizações situadas a oriente. Na capital da velha Macedónia são muitos, portanto, os contrastes: velhos testemunhos de uma história riquíssima, que remonta às eras bizantinas e romana, a par de dinâmicas urbanas e sociais típicas de uma urbe contemporânea. Viagem ao coração de Salónica.

SALÓNICA, O ORIENTE DA EUROPA

Era uma vez uma velha estrada romana, caminho longo que ligava os portos do Mar Adriático a Constantinopla e onde se cruzavam, dia e noite, caravanas de mercadores. Tais viagens empreendidas através da famosa Via Egnatia - a via militaris de Cícero - aproximaram a Europa da Ásia e representaram também uma ponte entre mundos diferentes e culturalmente distantes. Uma das consequências desse inquieto vaivém de populações e exércitos foi a imponderável arquitetura política de uma das regiões culturalmente mais complexas da Europa, os Balcãs. E a fundação de uma cidade que viveu uma riquíssima história ao longo de mais de dois milénios.

Salónica
Igreja do profeta Elias, em estilo arquitetónico comum no Monte Athos

Salónica, cidade fundada há mais de 2.300 anos por um general macedónico do exército de Alexandre e uma das mais importantes do mundo antigo, porto concorrido ao longo de séculos por navios de quase toda a orla mediterrânica, esteve desde sempre em posição de reclamar uma capitalidade cultural balcânica a par da sua importância estratégica e comercial.

A que foi a segunda cidade do Império Bizantino - e é hoje o centro urbano mais próspero e dinâmico do Norte da Grécia - assumiu um papel de agente dinamizador do “processo cultural balcânico”, para citar a terminologia local. Na verdade, é justo dizer que Salónica estendeu, e estende, a sua influência cultural sobre mais de vinte milhões de pessoas na região.

Enquanto ponto de encontro de culturas e gentes diversas (judeus e arménios encontraram aqui refúgio e constituíram importantes comunidades), de rotas históricas e de diferentes tradições, Salónica não esconde a sua dimensão balcânica, mesmo se a primeira impressão que o viajante recolhe é a de uma cidade moderna e em tudo semelhante às suas congéneres da Europa ocidental. Como em muitos outros lugares da Grécia, a percepção da identidade local faz-se através de uma leitura focada para além da realidade física.

A atmosfera de Salónica, mesmo se a arquitetura predominante se apresenta claramente familiar, guarda algumas subtis reminiscências orientais, a que se adiciona o ritmo inconfundível de uma urbe mediterrânica. A algazarra das multidões fluindo sobre o longo passeio à beira-mar, entre bancas de frutos secos e “kantynas” ambulantes, os músicos de rua tocando sinuosas melodias, os realejos coloridos derramando estranhas sonoridades pelas esquinas, tudo isso oferece um estimulante contraste com o ambiente “ocidental” dos boulevards arborizados das ruas Tsimiski e Egnatia, com as suas sequências de lojas de artigos de luxo, desde ourivesaria grega a roupas italianas. Este retrato de acerados contrastes e oposições adensa-se ainda mais com os matizes do “Kastra”, o bairro turco de ruelas labirínticas, de becos e de escadinhas entrançadas à volta das velhas muralhas que o Imperador Teodósio mandou construir, por volta do séc. V, na parte alta da cidade.

Salónica chegou um dia a ser capital do Império Romano do Oriente, por vontade do imperador Galério. Ao tempo do Império Bizantino, partilhou com Constantinopla algumas honrarias; desse período ficou um impressionante património de arte e igrejas bizantinas, o mais importante de toda a região balcânica, se exceptuarmos o Monte Athos. Na região este da Península da Calcídica, a 150 km de Salónica, o Monte Athos, a montanha santa da religião ortodoxa, acolhe, ainda, vinte mosteiros onde vivem mais de mil e quinhentos monges; as igrejas da maioria desses mosteiros conserva belíssimos ícones e outras peças de arte religiosa bizantina que foram ao longo de séculos salvos de sucessivos incêndios e das investidas dos piratas turcos.

UM MOSAICO HISTÓRICO

Clássica, romana, helenística, otomana, moderna, Salónica é uma cidade de realidades profundamente contrastantes e a cada passo surpreendentes: das ruínas da antiga ágora romana quase podemos lançar um olhar a exemplares de arquitetura art deco, e numa escassa centena de metros é possível atravessar alguns séculos de História à vista da urna funerária de Filipe da Macedónia, dos grandiosos túmulos helenísticos do Museu Arqueológico ou dos ícones e mosaicos bizantinos de muitas, e belas, igrejas.

Salónica
Igreja de Santa Sofia, uma das mais antigas de Salónica, com raízes no séc. VIII

Mas Salónica é também uma cidade que se orgulha da sua faceta boémia, consequência inevitável da sua dimensão de grande urbe universitária. A principal concentração de bares e restaurantes ocorre na marginal e nos arruamentos vizinhos; não fora uma boa parte da música denunciar uma omnipresente influência melódica oriental, o viajante julgar-se-ia imerso na noite de uma qualquer cidade europeia, frenética, insomne e voluptuosa.

O grande incêndio que, em Agosto de 1917, destruiu mais de metade da cidade, e levou à sua reconstrução em moldes modernos (à excepção do bairro turco), não consumiu o que podemos interpretar como a essência da cidade, que é a de um mosaico onde se plasmaram os testemunhos algo discretos, mas indeléveis, de sucessivas civilizações.

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