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Naturalismo



Em 1857, no mesmo ano em que no Brasil surgia O guarani, de José de Alencar, na França foi publicado Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura universal.

Em 1867, Émile Zola publica Thérèse Raquin, inaugurando o romance naturalista.

Tem início, assim, uma nova vertente no campo das artes, genericamente denominada Realismo, voltada para a análise da realidade social, em nítida oposição à arte romântica, de gosto burguês.

Na literatura, mais especificamente na prosa, percebem-se duas tendências: o romance realista e o romance naturalista.

Limites entre Realismo e Naturalismo

É muito comum o emprego dos termos Realismo e Naturalismo associados. Algumas vezes, são termos sinônimos; outras vezes, aparecem como duas estéticas literárias muito próximas uma da outra.

No entanto, existe uma fronteira entre uma coisa e outra: é possível perceber algumas diferenças entre a prosa realista e a naturalista, apesar do grande número de pontos em comum.

Alguns preferem ver o Naturalismo como uma espécie de prolongamento mais forte do Realismo. Sob esse ponto de vista, o Naturalismo seria um Realismo exacerbado. Seria uma forma mais aprofundada de encarar o homem.

Os naturalistas sempre estariam vendo o lado patológico do homem, o seu envolvimento com um destino que ele não consegue modificar; as situações de desequilíbrio muito fortes; o homem que se comporta como um animal, obedecendo a instintos; o homem condicionado ao meio em que vive, subjugado pelo fator da hereditariedade física e patológica, que determina o comportamento dos personagens.

O Realismo

O Realismo é um movimento literário que surgiu na Europa, na segunda metade do século XIX, influenciado pelas transformações que ali se operavam no âmbito econômico, político, social e científico.

Economicamente, vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material que a burguesia industrial experimentava em virtude das inúmeras invenções Possibilitadas pelas descobertas científicas e tecnológicas.

Apesar dos benefícios trazidos à burguesia, a condição social do proletariado era cada vez pior. Motivados tanto pelas idéias do socialismo utópico, principalmente as de Proudhon e Robert Owen, quanto pelas idéias do socialismo científico, defendidas por Karl Marx e Friedrich Engels, os operários procuram organizar-se politicamente. Fundam então associações trabalhistas e passam a agir melhores condições de trabalho e de vida.

No âmbito científico e cultural, ocorre uma verdadeira efervescência de idéias considerada por alguns como uma segunda etapa do Iluminismo, do século XVIII.

Dentre essas idéias, surgidas como conseqüência do aparecimento de várias correntes científicas e filosóficas, têm destaque:

Positivismo, de Augusto Comte. para o qual o único conhecimento válido é o conhecimento positivo, ou seja, provindo das ciências;

Determinismo, de Hippolyte Taine, que defende que o comportamento humano é determinado por três fatores: o meio, a raça e o momento histórico;

A lei da seleção natural, de Charles Darwin, segundo a qual a natureza ou o meio selecionam entre os seres vivos as variações que estão destinadas a sobreviver e a perpetuar-se, sendo eliminados os mais fracos.

Enquanto no domínio da Física, da Química, da Biologia e da Medicina ocorrem avanços significativos, são lançados os fundamentos de três novas disciplinas: a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia.

Os escritores, diante desse quadro de mudança de idéias e da sociedade, sentem a necessidade de criar uma literatura sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que até então vinha fazendo o Romantismo.

As descobertas científicas, as idéias de reformas políticas e de revolução social exigiam dos escritores, por um lado, uma literatura de ação, comprometida com a crítica e a reforma da sociedade, e de outro, uma abordagem mais profunda e completa do ser humano, visto agora à luz dos conhecimentos das correntes científico-filosóficas da época.

Aparece então o Realismo, que procura, na literatura, atender às necessidades impostas pelo novo contexto histórico-cultural. Suas atitudes mais freqüentes são o combate a toda forma romântica e idealizada de ver a realidade; a crítica à sociedade burguesa e à falsidade de seus valores e instituições (Estado, Igreja, casamento, família); o embasamento no materialismo, o emprego de idéias científicas; a introspeção psicológica das personagens; as descrições objetivas e minuciosas; a lentidão na narrativa; a universalização de conceitos.

Ao lado do Realismo, surgem ainda as correntes literárias denominadas Naturalismo e Parnasianismo, de pequena penetração em Portugal. A primeira, que consiste na verdade em uma forma extremada de Realismo, procura "provar" com romances de tese as teorias científicas da época, particularmente o determinismo. O Parnasianismo por sua vez é uma corrente que combate os exageros de sentimento e de imaginação do Romantismo e tenta resgatar certos princípios clássicos de procedimento, como a busca do equilíbrio, da perfeição formal e o emprego da razão e da objetividade.

Os três movimentos tiveram ciclo na França, com a publicação do romance realista Madame Bovary (l857), de Gustave Flaubert; do romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola (l867), e das antologias parnasianas Parnasse contemporain (a partir de 1866).

O Realismo em Portugal

Como marco introdutório do Realismo em Portugal tem sido apontada a Questão Coimbrã, episódio ocorrido em 1865.

Nessa época haviam finalmente cessado as lutas entre os liberais e as facções que representavam a velha monarquia deposta pela revolução de 1820.

Consolidado o liberalismo, Portugal conheceu a partir de 1850 um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Coimbra, importante centro cultural e universitário da época, ligava-se em 1864 diretamente à comunidade européia por meio da estrada de ferro.

Contudo, do ponto de vista literário, predominavam ainda velhas idéias, românticas e árcades.

A Questão Coimbrã

Os meios literários já há alguns anos tinham como principal expressão o consagrado Castilho, poeta árcade, idoso e cego. Representante do academismo e do tradicionalismo literários, Castilho reunia em torno de si jovens escritores a quem protegia e por quem era tido como mestre.

A Questão Coimbrã tem início quando Castilho, ao escrever um posfácio elogioso ao livro Poema da mocidade de seu protegido Pinheiro Chagas, aproveita para criticar um grupo de poetas de Coimbra, a quem acusa de exibicionismo e obscuridade. São citados no posfácio os escritores Teófilo Braga, Vieira de Castro e Antero de Quental, que acabara de publicar a obra Odes modernas.

Antero de Quental responde a Castilho com uma carta aberta, em forma de panfleto, intitulada "Bom senso e bom gosto". Nela Antero critica o apadrinhamento literário, praticado por Castilho, e a censura da livre expressão.

Para Antero, a agressão sofrida não se limitava ao plano estritamente literário ou pessoal; era, na verdade, uma reação do velho contra o novo, do conservadorismo contra o progresso, da literatura de salão contra a literatura viva e atuante exigida pelos novos tempos.

Os grandes homens, na concepção de Antero, seriam aqueles comprometidos com a nova "Idéia", ou seja, com os conhecimentos trazidos pelas correntes filosóficas e científicas da época e que seriam capazes de modernizar Portugal, colocando-o ao lado das nações européias mais desenvolvidas.

A Questão Coimbrã durou todo o segundo semestre de 1865, com publicações em defesa e ataque de ambos os lados. Participaram dela também, dentre outros, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão e Pinheiro Chagas. Eça de Queirós, embora fizesse parte do grupo coimbrão, não interveio na polêmica.

As conferências do Cassino Lisbonense e a geração de 70

Por volta de 1870 e tendo já concluído os estudos universitários em Coimbra, o grupo de amigos se reencontra em Lisboa e passa a travar debates acerca da renovação cultural portuguesa. A volta de Antero de Quental - que estivera na França, na América e na ilha de São Miguel - dinamiza essas reuniões, que passam a contar com leituras sistematizadas (principalmente de Proudhon) e a ter um objetivo definido. Como resultado desse esforço, nasce a iniciativa ambiciosa das Conferências Democráticas, que visavam à reforma da sociedade portuguesa.

Eis algumas das propostas das conferências, impressas no programa, assinado dentre outros por Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga:

Abrir uma tribuna onde tenham voz as idéias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos; ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa; agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna; estudar as condições da transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa.

Depois de proferidas cinco conferências - das quais duas eram de Antero e uma de Eça de Queirós -, o governo proíbe a continuidade do ciclo, alegando que os oradores suscitavam "doutrinas e proposições que atacavam a religião e as instituições do Estado".

Mas, apesar da censura, o Realismo já era vitorioso em Portugal e a partir de então se colheriam seus melhores frutos.

A poesia da época, a que genericamente se chama realista, alcançou grande prestígio e se desdobrou em quatro direções:

A poesia realista propriamente dita, representada por Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Teófilo Braga e outros, que se caracteriza pela crítica social e pelo engajamento político;

A poesia do cotidiano, representada por Cesário Verde, que, parcialmente ligada à poesia realista, procura incorporar à poesia certos aspectos da realidade até então considerados pouco poéticos;

A poesia metafísica, representada por Antero de Quental, que se volta para as indagações em torno da vida, da morte e de Deus;

A poesia parnasiana, representada por João da Penha e outros, cuja preocupação central é resgatar a tradição clássica, deixada de lado pelo Romantismo.

A prosa de ficção, na qual sobressaem Eça de Queiróz, Fialho de Almeida e Abel Botelho, segue a mesma orientação da poesia realista, porém dividindo-se entre o ataque à burguesia, à monarquia, ao clero, às instituições sociais, aos falsos valores e o compromisso com a doutrinação moral, social e filosófica.

Merecem destaque ainda a historiografia de Oliveira Martins e a crítica literária de Teófilo Braga.

O Realismo no Brasil

O Realismo no Brasil tem como marco a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em 1881.

A passagem do Romantismo para o Realismo acompanha um período de muitas mudanças na história econômica, política e social brasileira.

O Brasil da década de 80, quando se instala o novo movimento literário, não é mais o mesmo de 1850, época em que a segunda geração romântica dividia seus versos entre o amor e a morte, e as "moreninhas" circulavam pelos salões.

O Realismo vai encontrar terreno adubado para florescer, depois de o país ter passado, ao longo de quarenta anos, por fatos importantes que foram alterando aos poucos sua feição atrasada e tacanha. Como exemplo, a Guerra do Paraguai (1864-1870), o crescimento da campanha abolicionista, o enfraquecimento do governo de D. Pedro II, a intensificação das idéias republicanas, a força da economia agrária, que concentrava a renda nas mãos de fazendeiros de açúcar, primeiro, e de café, depois.

A década de 80 será muito agitada: as campanhas abolicionistas e republicanas andam juntas, em comícios, movimentos e passeatas, na maioria de estudantes e intelectuais.

A escravidão e o Império caem quase ao mesmo tempo: em 1888 veio a Abolição; em 1889 Deodoro da Fonseca proclamou a República. Esses dois fatos criaram uma nova realidade, ao eliminar o trabalho servil e introduzir o princípio do voto na eleição dos governos, constituindo um índice de que se iniciava o processo de modernização da economia e política nacionais.

Paralelamente, dinamiza-se a vida social e cultural (principalmente no Rio de Janeiro), como sempre soprada por ventos europeus: liberalismo, socialismo, positivismo, cientificismo, etc. Idéias já consolidadas lá fora e importadas por nós, no mais das vezes sem a necessária adaptação. Numa sociedade agrária, escravocrata e preconceituosa, sem indústrias, sem classe operaria, elas surgiam deslocadas, fora de lugar.

A literatura realista e naturalista brasileira passa a refletir essas idéias, no interior da realidade específica do nosso país, através da pena de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Adolfo Caminha; Olavo Bilac brilha com a poesia parnasiana; Raul Pompéia ensaia sua prosa intimista.

Mudava a literatura porque mudava o país. Aumenta o número de estradas de ferro, incrementa-se o transporte urbano, surge a iluminação elétrica e o cinema.

Nas cidades, aumentam a classe comercial, o funcionalismo, os militares e os trabalhadores livres, já em grande parte imigrantes. Nas ruas ainda estreitas e sujas proliferam os salões elegantes, as confeitarias e as lojas que copiavam a moda de Paris.

O Naturalismo

Já sabemos que Realismo e Naturalismo têm, entre si, semelhanças e diferenças.

Se o primeiro procura retratar o homem interagindo no seu meio social, o segundo vai mais longe: pretende mostrar o homem como produto de um conjunto de forças "naturais", instintivas, que, em determinado meio, raça e momento, pode gerar comportamentos e situações específicas.

Nas obras de alguns escritores realistas podemos distinguir certas características que definem uma tendência chamada Naturalismo.

O Naturalismo enfatiza o aspecto materialista da existência humana. Para os escritores naturalistas, influenciados pelas teorias da ciências experimentais da época, o homem era um simples produto biológico cujo comportamento resultava da pressão do ambiente social e da hereditariedade psicofisiológica. Nesse sentido, dadas certas circunstâncias, o homem teria as mesma reações, instintivas e incontroláveis. Caberia a escritor, portanto, armar em sua obra uma certa situação experimental e agir como um cientista em seu laboratório, descrevendo as reações sem nenhuma interferência de ordem pessoal ou moral.

No romance experimental naturalista, o indivíduo é mero produto da hereditariedade. Ao lado desta, o ambiente em que vive, e sobre o qual também age, determina seu comportamento pessoal.

Assim, predomina o elemento fisiológico, natural, instintivo: erotismo, agressividade e violência são os componentes básicos da personalidade humana, que, privada do seu arbítrio, vive à mercê de forças incontroláveis.

Desse modo, o Naturalismo atribui a um destino inescapável, de origem fisiológica, aquilo que, na verdade, é produto do sistema econômico-social: a retificação do homem, ou seja, a sua transformação em coisa (do latim res = coisa).

Para dar vida a toda essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes, impassíveis, podendo ver tudo por todos os ângulos. As descrições são precisas e minuciosas, frias e fidelíssimas aos aspectos exteriores.

As personagens são vistas de fora para dentro, como casos a estudar: não há aprofundamento psicológico; o que interessa são as ações exteriores, e não os meandros da consciência à maneira de, por exemplo, Machado de Assis.

O Romance Naturalista

O naturalismo foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. O caso de Raul Pompéia é muito particular, pois em seu romance O Ateneu tanto apresenta características naturalistas como realistas, e mesmo impressionistas.

A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando-se o coletivo.

Interessa notar que a preocupação com o coletivo já está explicitada no próprio título dos principais romances: O Cortiço, Casa de pensão, O Ateneu.

É tradicional a tese de que, em O Cortiço, o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas sim o próprio cortiço.

Por outro lado, o naturalismo apresenta romances experimentais preocupados em formular regras, em conseqüência de seu caráter cientifista. A influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista, que enfatiza a natureza animal do homem (portanto, no embate instinto versus razão, o homem, como todo animal, é dominado num primeiro momento pelas reações instintivas particularmente no comportamento sexual, que a falsa moral burguesa não é capaz de reprimir). Os textos naturalistas acabam por tocar em tema até então proibidos, como o homossexualismo, tanto masculino, como em O Ateneu, quanto feminino, em O Cortiço.

No Brasil, a prosa naturalista foi muito influenciada por Eça de Queirós, basicamente com as obras O crime do Padre Amaro e O primo Basílio.

Em 1881 surge o romance considerado o marco inicial do Naturalismo brasileiro: O mulato, de Aluísio de Azevedo.

Pertencem também ao Naturalismo brasileiro, entre outros, O missionário, de Inglês de Souza, e A carne, de Júlio Ribeiro, ambos publicados em 1888. Adolfo Caminha publicou A normalista (1893) e O bom crioulo (1896), considerados boas realizações naturalistas.

Características do Realismo-Naturalismo

Compromisso com a realidade

O Realismo-Naturalismo é contra o tradicionalismo romântico.

Trata-se de uma arte engajada: ela tem compromisso com o seu momento presente e com a observação do mundo objetivo e exato.

Presença do cotidiano

Os escritores realistas-naturalistas consideram possível representar artisticamente os problemas concretos de seu tempo, sem preconceito ou convenção. E renovaram a arte ao focalizarem o cotidiano, desprezado pelas correntes estéticas anteriores.

Daí que os personagens de romances realistas-naturalistas estejam muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas do dia-a-dia, com suas vidas medianas, cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas ou científicas.

A linguagem é outra preocupação importante: ela deve se aproximar do texto informativo, ser simples, utilizar-se de imagens denotativas, e as construções sintáticas devem obedecer à ordem direta.

Personagens tipificados

Os personagens de romances realistas-naturalistas são retirados da vida diária e são sempre representativos de uma categoria - seja a um empregado, seja um patrão; seja um proprietário, seja um subalterno; seja um senhor, seja um escravo, e daí por diante.

Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere: isto é, embora os personagens sejam seres ficcionais, individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade.

Preferência pelo presente

Geralmente os escritores realistas-naturalistas deram preferência ao momento presente: as narrativas estavam ambientadas num tempo contemporâneo ao do escritor.

Com isso, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denunciadora do que havia de mau na sociedade.

Outro aspecto dessa preferência pelo momento presente é o detalhismo com que é enfocada a realidade, fato explicável pela proximidade.

Preferência pela narração

Ao contrário dos românticos, que privilegiaram a descrição, os realistas-naturalistas deram ênfase à narração do fato: o que acontece e por que acontece são as preocupações desses escritores.

Anticlericais, antimonárquicos, antiburgueses

Os realistas-naturalistas são marcadamente contra a Igreja, que apontam como defensora de ideologias ultrapassadas, como, por exemplo, a monarquia. Também criticam acirradamente a burguesia, que encarna o status romântico em geral.

Fonte: www.superzap.com

Naturalismo

O termo Naturalismo normalmente refere-se a trabalhos de arte baseados na observação dos objetos que representam e não em estilizações ou conceitos pré-forjados a respeito dos mesmos.

Em seu sentido mais amplo, seria a aproximação máxima realizada pelo artista entre a obra e a natureza daquilo que pretendia ser representado.

Entretanto, uma obra em que não pode ser observada uma rígida preocupação em descrever algo com o máximo de detalhes verossímeis, ainda assim, em alguns casos, pode ser considerada naturalística, se apresentar coerência com o aspecto geral.

Os gregos são os primeiros a receberem a denominação de naturalistas na História da Arte, principalmente devido a sua produção do Período Clássico.

Apesar da idealização de uma beleza física, conhecida como padrão de beleza clássico, suas obras são baseadas no estudo e na observação das estruturas do corpo humano. A idealização, portanto, não aparece aqui como antônimo de naturalismo.

Os renascentistas italianos também são conhecidos pelo naturalismo em suas obras, uma vez que esse era um dos padrões estéticos da arte grega que pretendiam resgatar.

Além disso, costuma-se usar a expressão arte naturalista em oposição à arte abstrata, ou como sinônimo de realismo (note-se que realismo, quando em letra maiúscula, refere-se a uma escola presente na História da Arte e nesse sentido, não é correto o uso indistinto dos dois termos).

Pode ainda referir-se a uma escola pictórica determinada. Nesse caso é designada para nomear os caravaggistas, artistas bastante influenciados pelo estilo do italiano Caravaggio, que fazia questão de ressaltar em suas obras a verossimilhança, independente de um resultado final agradável.

CARAVAGGIO (Michelangelo [Miguel Ângelo] AMERIGHI, ou MERISI, dito), pintor italiano (Caravaggio, 1573 - Porto Ercole, 1610). Dramatizou o realismo de sua visão, recorrendo a poderosos contrastes de sombra e de luz. Sua influência foi considerável.

O crítico de arte e colecionador italiano Giovanni Pietro Bellori (1615 - 1696), conhecido por seus estudos do período barroco, foi o primeiro a utilizar-se desse termo pretendendo designar essa escola.

Fonte: www.pitoresco.com.br

Naturalismo

A literatura incorpora habitualmente muitos escritos cuja finalidade primeira não é exatamente literária, mas que, pelas características textuais de sua composição ou segundo os cânones de apreciação estética de cada época, são considerados mais ou menos próximos da elaboração especificamente literária. Os textos com estas características são os escritos de doutrinação vária, podendo o ensaio e a crítica confundir-se com eles. Podemos denominá-los doutrinários, na conceituação de Carlos Reis, pois contemplam testemunhos de escritores que, quase sempre imersos no fluxo da produção literária a que se referem, procuram estabelecer e propor orientações para essa produção literária e mesmo, nalguns casos, para a do futuro; [...] revestem-se de um pendor programático, no sentido de que, freqüentemente, sugerem, de forma expressa ou velada, uma acção a cumprir, não raro por um grupo ou por uma geração [...]; apresentam [...] registro ensaístico ou similar [...]; não se propõem a enunciar o discurso da teoria [...] e [...] apresentam uma certa experiência literária e cultural mais ou menos sedimentada, provinda da actividade criativa propriamente dita” 1 .

Fica evidente, portanto, o caráter metaliterário desses textos doutrinários, na medida em que eles intervêm no processo da evolução literária, por meio de reflexões acerca de diversos aspectos da literatura. Esta espécie de texto proliferadurante o Romantismo, não apenas com Almeida Garrett e Alexandre Herculano, mas, em especial, com a chamada “Geração de 70”, constituída por um grupo de intelectuais portugueses (Eça de Queirós, Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins) que, na sua maioria, aliam a produção literária e textos de aspecto doutrinário, quando não se notabilizam, justamente, neste gênero de reflexão.

Na fortuna literária e crítica de Eça de Queirós, encontram-se estudos acerca das suas idéias literárias, embora, até hoje, estas tenham sido colocadas em plano secundário às idéias de cunho político, sociológico ou filosófico. Neste artigo, nosso objetivo é fazer o comentário de alguns textos de Eça de Queirós que enquadramos na espécie doutrinários: cartas, prefácios, artigos de jornal e de revista. Estes textos, tendo sido objeto da atenção de Eça para reflexões feitas em torno da sua própria produção literária, constituem-se, portanto, em mais um instrumento no qual podemos nos apoiar, para a interpretação de seus textos de ficção e para a elucidação de questões de época referentes às tendências literárias em voga no último quartel do século XIX em Portugal. Em suma, nosso propósito é projetar luz ao pensamento doutrinário de Eça de Queirós, à sua teoria literária, ao seu ideário estético, principalmente naquilo que diz respeito ao seu compromisso com a estética realistanaturalista e que possibilita uma interpretação mais lúcida e mais adequada de sua obra ficcional. No início do período realista-naturalista português, nas conhecidas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, realizadas em Lisboa, em maio-junho de 1871, foram dadas a público algumas idéias de um grupo de jovens, liderados intelectualmente por Antero de Quental: a Geração de 70. É sabido que da quarta conferência, proferida por Eça de Queirós e intitulada “A literatura nova ou o realismo como nova forma de arte”, não há texto escrito, apenas as reportagens de alguns jornalistas presentes, vindos dos jornais A Revolução de Setembro, Diário de Notícias, A Noite, A Nação e Bem Público.

Tomando comofonte alguns desses textos de jornais, António Salgado Júnior coletou-os e comentou-os em História das conferências do Casino (1871), publicado em 1930 e, até hoje, sem nenhuma reedição. Portanto, nada mais oportuno e necessário do que conhecer o conteúdo programático, as idéias acerca do Realismo-Naturalismo, por meio dos próprios escritos de Eça de Queirós, basicamente agrupados na edição de Beatriz Berrini para sua Obra Completa, na antologia de A. C. Matos e nos estudos do professor Carlos Reis.

Nossa abordagem percorre, cronologicamente, alguns textos nos quais Eça de Queirós teoriza sobre o Realismo-Naturalismo, incluindo artigos polêmicos. Como diz Pinheiro Chagas, um de seus contendores: “Eu sou um dos mais ferventes admiradores de Eça de Queiroz; detesto as suas teorias literárias, mas adoro os seus romances, que felizmente só em algumas páginas se conformam com suas teorias” 2 . Um dos vários gêneros do discurso utilizado por Eça para explicar e informar a seu leitor acerca do seu método de composição literária e de suas intenções é a carta. Em “Uma carta”, publicada no jornal português A Gazeta de Portugal em 3 de novembro de 1867 e recolhida postumamente no volume Prosas Bárbaras (1903) com uma introdução de Jaime Batalha Reis, dirige-se a um dos Vencidos da Vida, seu amigo Carlos Mayer. Nesse texto, Eça rememora os tempos de ambos como estudantes de Direito na Universidade de Coimbra (1862-1866) e, aí, encontramos uma espécie de “plataforma literária” dessa fase de iniciação: “Naqueles tempos [...] o Romantismo estava em nossas almas. Fazíamos devotadamente oração diante do busto de Shakespeare” 3 . Nada pode ser mais romântico do que esse comportamento! Quem eram eles? “Havia entre nós todas as teorias e todas as seitas: havia republicanos bárbaros e republicanos poéticos; havia místicos que praticavam as éclogas de Virgílio; havia materialistas sentimentais e melancólicos” 4 .

Eça de Queirós, nesse tempo, pretendia o romantismo livre das tendências neoclássicas e ainda não contaminado pelas teses positivistas e cientificistas quecomeçavam a ser difundidas depois da Questão Coimbrã (1865- 1866). Afirma ele: Na arte só têm importância os que criam almas e não os que reproduzem costumes. A arte é a história da alma. Queremos ver o homem: não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade – mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões [...] É aí que se pode estudar o homem. É o que faz também a grandeza de certos tipos capitais de Balzac, o Barão Hulot, Goriot, Grandet. Realizam o seu destino, longe da associação humana, sob livre lógica das paixões. 5 Esse foi um dos últimos folhetins escritos para a Gazeta de Portugal e nele parece querer justificar o tom fantástico que empregou nos textos que publicara nessa época: “Quais podem ser as obras desta geração? Criações febris, convulsões cerebrais, idealistas e doentias, todo um pesadelo moral” 6 . Ainda utilizando-se do mesmo gênero de discurso, em uma carta enviada a Teófilo Braga em 12 de março de 1878, expõe seu novo ponto de vista ideológico, a concepção realista de arte, adotado em O Primo Basílio : “Eu não ataco a família – ataco a família lisboeta – a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem e, mais tarde ou mais cedo, centro de bambochata” 7 . Eça começava a estruturar o ideário realista e o coloca em prática neste romance. O seu alvo é a burguesinha da Baixa, “sentimental, mal educada [...] arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular”. O ataque à burguesinha estende-se a todo o pano de fundo social, o meio, do qual falavam Taine e Zola. É muito instrutiva a comparação entre a teoria e a prática naturalista. Pode mostrar-nos que, contrariamente às expectativas, o Realismo era desejado e, de certo modo, alcançou ser mais radical do que o Naturalismo. Eça faz crítica a seu processo de composição, reconhecendo uma superabundância de detalhes: “O essencial é dar a nota justa[...].

Pobre de mim – nunca poderei dar a sublime nota da realidade transitória, como o divino Balzac – ou a nota justa da realidade transitória, como o grande Flaubert!” 8 . Ao eleger Balzac e Flaubert como seus mestres, propunha o Realismo propriamente dito e recusava o Naturalismo, mesmo porque este ainda estava longe de se instalar com toda a iconoclastia em Portugal. Os preceitos realistas se reafirmam em uma outra carta enviada a Rodrigues de Freitas, em 30 de abril de 1878: Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. [...] Uma arte que tem esse fim – não é uma arte à Feuillet ou à Sandeau. É um auxiliar poderoso da ciência revolucionária.

Em 1879, um texto que foi aproveitado parcialmente para prefácio da segunda edição de O crime do Padre Amaro e, mais tarde, integrado ao volume póstumo de Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, sob o título “Crítica e Polêmica” e sub-título “Idealismo e Realismo”, é uma explanação impressiva e exaustiva acerca do RealismoNaturalismo. Segundo Carlos Reis 10 , esse texto, datado de 1879, foi publicado, em parte, em 1880, como “Nota da segunda edição” (terceira versão). Em 1929, o referido texto foi publicado integralmente pelo filho de Eça, José Maria d’Eça de Queirós, no volume Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas. O manuscrito desse texto encontra-se no Espólio de Eça de Queirós, na Biblioteca Nacional de Lisboa. O título “Idealismo e Realismo” foi atribuído pelo primeiro editor.

Carlos Reis confrontou o texto citado (edição da Lello & Irmão,1965) com o manuscrito autógrafo e afirma que o texto publicado pelo filho de Eça está diferente do texto manuscrito, “está longe de ser fiel ao original”. Esse texto foi escrito em resposta à crítica de Machado de Assis a O primo Basílio e a O crime do Padre Amaro, mas Eça deixou-o inédito, aproveitando dele apenas umas duas páginas, por volta de 20% do texto integral, para integrar o prefácio, no qual trata, dentre outras questões, da acusação feita por Machado ao plágio realizado por Eça das obras La faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola, e de Eugénie Grandet, de Balzac. Eça respeitava Machado de Assis e suas críticas, pelo que se depreende de uma carta de Eça a Machado, datada de 29 de junho de 1878 e endereçada ao Consulado de Portugal, mas não enviada ao destinatário. Ao deixar este texto inédito, sua funcionalidade falhou, lembra Carlos Reis, no que concerne à sua configuração programática, doutrinária, pois “cancelou a premência afirmativa que lhe era inerente” 11 . Eça chega a dizer que não sabe o que é o Realismo e a idéia nova, elevados em Portugal a uma espécie institucional da qual ele seria um dos chefes: Eu sou associado a estes dois movimentos, e se ainda ignoro o que seja idéia nova, sei pouco mais ou menos o que chamam aí a escola realista. Creio que em Portugal e no Brasil se chama Realismo, termo já velho em 1840, ao movimento artístico que em França e em Inglaterra é conhecido por “Naturalismo” ou “arte experimental”. Aceitemos, porém realismo, como a alcunha familiar e amiga pela qual o Brasil e Portugal conhecem uma certa fase na evolução da arte 12 .

Em um determinado trecho, Eça toma os termos Realismo e Naturalismo como sinônimos e diz que “na realidade o Naturalismo nem foi inventado pelo Senhor Zola, nem consiste em descrever obscenidades, nem tem retórica própria, nem sobretudo é uma escola” 13 . Afirma o escritor: Agora , temos a escola realista!

Não – perdoem-me – não – há escolas realistas. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõeuma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o Naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento de sua evolução [...] Dizer “escola realista” é tão grotesco como dizer “escola republicana”. O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república a forma que toma a democracia [...]. Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos factos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade. 14

O texto, que fala por si, dispensa outros comentários e mostra Eça convicto do Naturalismo (e não do Realismo), pois, ao fazer uma oposição afirma que o idealista dá uma falsificação, ao passo que o naturalista dá uma verificação: “Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto. O primeiro falsifica, o segundo verifica” 15 . É evidente nesse texto a sistematização feita por Eça acerca do Naturalismo, na medida em que procura encará-lo como método, explicitando os procedimentos fundamentais: “O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, [...] como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia” 16 . Declara ainda: “ Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos fatos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” 17 . Nesse texto, ainda atentando para o título “Idealismo e Realismo”, verifica-se imediatamente a oposição entre real e não-real, prestando-se essa quase antítese à programática do Romantismo versus Naturalismo, utilizando-se a comparação com o pintor naturalista e o idealista. Para completar sua teoria programática sobre o Naturalismo demonstra as respectivas opções de gênero: “Outrora uma novela romântica, em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social.

Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje analisa-se, a posteriori, por processos tão exatos como osda própria fisiologia” 18 . A noção de que a criação literária não devia isolar-se do que a rodeava, mas partir desse envolvimento, patenteia-se com toda a nitidez, quando está em causa a ligação entre literatura e sociedade. Lembremos que, em primeiro lugar, este é um problema particularmente premente, em especial na época em que estão ainda vivos os desígnios de transformação e renovação sociocultural perseguidos pela Geração de 70. Com efeito, é a partir e em função de uma atividade coletiva, que teve nas Conferências de Cassino o seu fator de aglutinação, que Eça de Queirós, mais claramente, percebe a necessidade de se fazer do fenômeno literário uma componente fundamental dessa vasta reforma de costumes que a Geração de 70 assumia como objetivo crucial. Por isso mesmo, numa carta a Teófilo Braga a propósito de O primo Basílio, Eça não só procura integrar o seu romance no âmbito da chamada “arte revolucionária”, como sobretudo afirma: É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e, com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre. 19

Obviamente, não é por acaso que estas afirmações são suscitadas por um romance naturalista, pois, entre a concepção queirosiana da arte empenhada e o Naturalismo existem conexões que, como veremos, eram inspiradas pelo perfil ideológico desse período estético e pelos termos muito ativos com que Eça o interpretava nas suas reflexões teóricas. Parece-nos oportuno mostrar que é ainda na órbita das inevitáveis relações entre literatura e sociedade que gira um projeto literário que Eça não pôde levar adiante, o plano das Cenas da vida portuguesa, concebidas como friso de novelas, visando alguns aspectos mais críticos e melindrosos da vida social portuguesa, do jogo à prostituição, passando pela agiotagem e pela política. Ora, este projeto vem mostrar, entre outras razões, por que o escritor não está em condições demanter uma ligação constante com a vida social que pretendia retratar. É ele próprio quem o reconhece, numa carta em que revela a Ramalho Ortigão a sua dificuldade em fazer avançar as Cenas Portuguesas: Longe do grande solo da observação, em lugar de passar para os livros, pelos meios experimentais, um perfeito resumo social, vou descrevendo, por processos puramente literários e a priori, uma sociedade de convenção, talhada de memória. De modo que estou nessa crise intelectual: ou tenho de me recolher ao meio onde posso produzir, por processo experimental – isto é, ir para Portugal – ou tenho de me entregar à literatura puramente fantástica e humorística. 20

Os artigos de periódicos literários e alguns textos de apresentação de obras e prefácios suscitam, da parte de Eça, a oportunidade para discutir e produzir os textos mais vivos e, em certos casos, polêmicos, pois inspiram um discurso teórico com mais intensa entoação programática. Considere-se em primeiro lugar que, quando se processa em Portugal a confrontação entre o Romantismo tardio e a literatura realista e naturalista, essa confrontação envolve, para além de diferenças propriamente estéticas, outras de cunho genericamente sociocultural, dominadas por uma concepção dinâmica e interventora das práticas culturais. A Geração de 70 não podia tolerar o imobilismo de teor alienante, em grande parte característico do grupo literário que rodeava João Feliciano de Castilho e que pactuava, de modo mais ou menos visível, com o sistema político-econômico da Regeneração. Um desses textos polêmicos é o célebre prefácio à obra Azulejos, do Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Pindela, um dos melhores amigos de Eça, datado de Bristol, 12 de junho de 1886. Coligido postumamente em 1909, por seu amigo Luís de Magalhães, em volume sob o título Notas contemporâneas, foi inicialmente publicado em 1886 como apresentação daquele livro de contos. Nesse prefácio, faz alusões aos naturalistas e idealistas (românticos) bem como críticas implícitas e evidentes,porém veladas, aos romances realistas de Camilo Castelo Branco, o que provocou uma viva resposta deste. A crítica que Eça nele fez aos políticos portugueses gerou um artigo de reação por parte de Oliveira Martins. No texto sobre Azulejos, derrama-se em elogios aos contos do amigo Bernardo, hoje completamente esquecidos, não fora o prefácio. Depois de elogiar o contista por ser “leitor perfeito, amador raro das lindas flores modernas de Fantasia e de Estilo” 21 , põe-se a considerar o Naturalismo, não sem antes o misturar com o Realismo, dizendo que se deleita com “frutos podres” 22 . Mas imediatamente pondera que “o Naturalismo consiste apenas em pintar a tua rua como ela é na sua realidade e não como tu a poderias idear na tua imaginação” 23 .

Enquanto isso, em Portugal, o “Naturalismo é coisa suja – e coisa suja ficará” 24 , tanto assim que “seria inútil ir explicar [...] o que significa Naturalismo” 25 . Estaria Eça pensando que Os Azulejos se inscreveriam no Naturalismo de Zola? Mais adiante, considera “esta maneira de pintar a verdade, levemente esbatida na névoa dourada e trêmula da fantasia, satisfazendo a necessidade de Idealismo que todos temos nativamente e ao mesmo tempo a seca curiosidade do real que nos deram as nossas educações positivas” 26 . Não haveria um certo apego ao esteticismo, que nessa época se constituía em uma reação ao caráter positivista e combativo do Realismo? Ao divisar as duas modalidades de Naturalismo, não estaria Eça mais disposto a aceitar e a defender posições que, acima de tudo, não perdessem de vista o compromisso com a Arte e repudiassem as que se caracterizavam pela “grosseria e sujidade”, como menciona? Nessa linha de reflexão comenta as transformações sociais e a produção literária; a condição do leitor e a constituição do público; a relação do escritor com o público e com os mecenas – a relação de dependência e autonomia. Um texto em formato de carta dirigida a Mariano Pina, intitulado “A academia e a literatura” (publicado na primeira página do jornal de Lisboa O Repórter, a 27 de abril de 1888,mas datado de Bristol, 25 de janeiro de 1888 e, postumamente, integrado no volume Notas contemporâneas), tem como motivo o concurso da Academia Real de Ciências de Lisboa a que Eça concorreu com A Relíquia, de que Pinheiro Chagas foi o relator. Eça já se refere ao lusco-fusco em que se encontra o Naturalismo, como a afastar-se de uma vez por todas do código realista: Se a uma literatura faltarem os inovadores, revolucionando incessantemente a Idéia e o Verbo, [...] bem cedo se imobilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...].

bilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...]. De sorte que para possuir uma literatura ideal, forte mas fina, original mas equilibrada [...] será necessário que nele de certo modo se contrabalancem estas duas forças – a Tradição e a Invenção. Ou seja, de um lado, temos “os revoltosos, dando as emoções novas e criando as formas novas”, e de outro, as “Academias canalizando dentro do gosto, da elegância e do purismo estas correntes inesperadas de sensação e de idéia”; ou ainda “equilíbrio da Tradição e da Revolução” 28 . Eça de Queirós aponta para uma nostalgia do universo clássico da arte que sugere uma utopia revolucionária, arremessada para o futuro, utopia que, no final da década de 1880, transforma-se em utopia do passado, tão bem representado pela Arcádia no século XVIII. Nesse texto, Eça reflete sobre o escritor e a dimensão institucional da literatura, atentando para as posições e reações; comenta as funções e o mecanismo de atuação das instituições literárias; fala das academias como instituição e o academismo como mentalidade, bem como sobre as academias e seu papel na formação do cânone. No texto “Positivismo e Idealismo”, crônica publicada em A Gazeta de Notícias em 16 de junho de 1893, postumamente recolhida por Luís de Magalhães em Notas Contemporâneas (1909), Eça faz o balanço da literatura naturalista agonizante, diante da reação dos estudantes da Sorbonne ao positivismo científico e ao jacobinismo de 1789; mas também aponta a decadência do Naturalismo na literatura e o surgimento da correnteantagônica com os olhos voltados para a França, tentando mostrar o máximo de neutralidade possível. Deixa claro que as conquistas da ciência não serão alteradas, tornando-se portanto irreversíveis, e que a imaginação, sem recear a crítica da ciência, poderá ser exercida livremente. Leiamos seu texto: Em literatura estamos assistindo ao descrédito do Naturalismo. O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do Naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, à velha maneira de Homero. A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de d’Artagnan. 29

Bibliografia

1 Carlos Reis. O conhecimento artístico: uma introdução à teoria literária. Coimbra, Almedina, 1999. p. 489-490.

2 A. C. Matos. (pref. e org.). Polémica: Eça de Queiroz-Pinheiro Chagas, “Brasil e Portugal”. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2001. p. 43.

3 Beatriz Berrini. (Org. geral, introd., fixação dos textos autógrafos e notas introdutórias). Eça de Queiroz, Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000. Vol. 4, p. 84.

4 Berrini, 2000, p. 87.

5 Berrini, 2000, p. 90.

6 Berrini, 2000, p. 89.

7 Berrini, 2000, p. 917.

8 Berrini, 2000, p. 918.

9 Berrini, 2000, p. 920-921. Grifos nossos.

10 Carlos Reis. Introdução. In: Eça de Queirós. O crime do padre Amaro: 2ª e 3ª versões. Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (ed.). Lisboa, Imprensa NacionalCasa da Moeda, 2000. Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, p. 80, rodapé 142 e 143.

11 Carlos Reis. Qvinto Império. Salvador, Gabinete Português de Leitura, 2002. p.80.

12 Berrini, 2000, p. 912-913.

13 Berrini, 2000, p. 913.

14 Berrini, 2000, p. 913-914.

15 Berrini, 2000, p. 915.

16 Berrini, 2000, p. 913-914.

17 Berrini, 2000, p. 914. Grifos nossos.

18 Berrini, 2000, p. 914.19 Carta a Teófilo Braga, 12 de março de 1878. Berrini, 2000, p. 918.

20 Carta a Ramalho Ortigão, 8 de abril de 1878. Berrini, 2000, p. 123.

21 Berrini, 2000, p. 1793.

22 Berrini, 2000, p. 1797.

23 Berrini, 2000, p. 1795.

24 Berrini, 2000, p. 1796.

25 Berrini, 2000, p. 1797.

26 Berrini, 2000, p. 1800.

27 Berrini, 2000, p. 1701.

28 Berrini, 2000, p. 1701.

29 Eça de Queirós. Positivismo e idealismo. In: Berrini, 2000, p. 1.249. Este texto foi publicado inicialmente no jornal carioca Gazeta de Notícias, em 27 e 28 de julho de 1893. Postumamente, em 1909, foi publicado na coletânea Notas contemporâneas, com o mesmo título.

Rosane Feitosa

Fonte: www.letras.ufrj.br

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