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Naturalismo

 

Em 1857, no mesmo ano em que no Brasil surgia O guarani, de José de Alencar, na França foi publicado Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura universal.

Em 1867, Émile Zola publica Thérèse Raquin, inaugurando o romance naturalista.

Tem início, assim, uma nova vertente no campo das artes, genericamente denominada Realismo, voltada para a análise da realidade social, em nítida oposição à arte romântica, de gosto burguês.

Na literatura, mais especificamente na prosa, percebem-se duas tendências: o romance realista e o romance naturalista.

Limites entre Realismo e Naturalismo

É muito comum o emprego dos termos Realismo e Naturalismo associados. Algumas vezes, são termos sinônimos; outras vezes, aparecem como duas estéticas literárias muito próximas uma da outra.

No entanto, existe uma fronteira entre uma coisa e outra: é possível perceber algumas diferenças entre a prosa realista e a naturalista, apesar do grande número de pontos em comum.

Alguns preferem ver o Naturalismo como uma espécie de prolongamento mais forte do Realismo. Sob esse ponto de vista, oNaturalismo seria um Realismo exacerbado. Seria uma forma mais aprofundada de encarar o homem.

Os naturalistas sempre estariam vendo o lado patológico do homem, o seu envolvimento com um destino que ele não consegue modificar; as situações de desequilíbrio muito fortes; o homem que se comporta como um animal, obedecendo a instintos; o homem condicionado ao meio em que vive, subjugado pelo fator da hereditariedade física e patológica, que determina o comportamento dos personagens.

O Realismo

O Realismo é um movimento literário que surgiu na Europa, na segunda metade do século XIX, influenciado pelas transformações que ali se operavam no âmbito econômico, político, social e científico.

Economicamente, vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material que a burguesia industrial experimentava em virtude das inúmeras invenções Possibilitadas pelas descobertas científicas e tecnológicas.

Apesar dos benefícios trazidos à burguesia, a condição social do proletariado era cada vez pior. Motivados tanto pelas idéias do socialismo utópico, principalmente as de Proudhon e Robert Owen, quanto pelas idéias do socialismo científico, defendidas por Karl Marx e Friedrich Engels, os operários procuram organizar-se politicamente. Fundam então associações trabalhistas e passam a agir melhores condições de trabalho e de vida.

No âmbito científico e cultural, ocorre uma verdadeira efervescência de idéias considerada por alguns como uma segunda etapa do Iluminismo, do século XVIII.

Dentre essas idéias, surgidas como conseqüência do aparecimento de várias correntes científicas e filosóficas, têm destaque:

Positivismo, de Augusto Comte. para o qual o único conhecimento válido é o conhecimento positivo, ou seja, provindo das ciências;

Determinismo, de Hippolyte Taine, que defende que o comportamento humano é determinado por três fatores: o meio, a raça e o momento histórico;

A lei da seleção natural, de Charles Darwin, segundo a qual a natureza ou o meio selecionam entre os seres vivos as variações que estão destinadas a sobreviver e a perpetuar-se, sendo eliminados os mais fracos.

Enquanto no domínio da Física, da Química, da Biologia e da Medicina ocorrem avanços significativos, são lançados os fundamentos de três novas disciplinas: a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia.

Os escritores, diante desse quadro de mudança de idéias e da sociedade, sentem a necessidade de criar uma literatura sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que até então vinha fazendo o Romantismo.

As descobertas científicas, as idéias de reformas políticas e de revolução social exigiam dos escritores, por um lado, uma literatura de ação, comprometida com a crítica e a reforma da sociedade, e de outro, uma abordagem mais profunda e completa do ser humano, visto agora à luz dos conhecimentos das correntes científico-filosóficas da época.

Aparece então o Realismo, que procura, na literatura, atender s necessidades impostas pelo novo contexto histórico-cultural. Suas atitudes mais freqüentes são o combate a toda forma romântica e idealizada de ver a realidade; a crítica à sociedade burguesa e à falsidade de seus valores e instituições (Estado, Igreja, casamento, família); o embasamento no materialismo, o emprego de idéias científicas; a introspeção psicológica das personagens; as descrições objetivas e minuciosas; a lentidão na narrativa; a universalização de conceitos.

Ao lado do Realismo, surgem ainda as correntes literárias denominadas Naturalismo e Parnasianismo, de pequena penetração em Portugal. A primeira, que consiste na verdade em uma forma extremada de Realismo, procura "provar" com romances de tese as teorias científicas da época, particularmente o determinismo. O Parnasianismo por sua vez é uma corrente que combate os exageros de sentimento e de imaginação do Romantismo e tenta resgatar certos princípios clássicos de procedimento, como a busca do equilíbrio, da perfeição formal e o emprego da razão e da objetividade.

Os três movimentos tiveram ciclo na França, com a publicação do romance realista Madame Bovary (l857), de Gustave Flaubert; do romance naturalista Thérèse Raquin, de Émile Zola (l867), e das antologias parnasianas Parnasse contemporain (a partir de 1866).

O Realismo em Portugal

Como marco introdutório do Realismo em Portugal tem sido apontada a Questão Coimbrã, episódio ocorrido em 1865.

Nessa época haviam finalmente cessado as lutas entre os liberais e as facções que representavam a velha monarquia deposta pela revolução de 1820.

Consolidado o liberalismo, Portugal conheceu a partir de 1850 um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Coimbra, importante centro cultural e universitário da época, ligava-se em 1864 diretamente à comunidade européia por meio da estrada de ferro.

Contudo, do ponto de vista literário, predominavam ainda velhas idéias, românticas e árcades.

A Questão Coimbrã

Os meios literários já há alguns anos tinham como principal expressão o consagrado Castilho, poeta árcade, idoso e cego. Representante do academismo e do tradicionalismo literários, Castilho reunia em torno de si jovens escritores a quem protegia e por quem era tido como mestre.

A Questão Coimbrã tem início quando Castilho, ao escrever um posfácio elogioso ao livro Poema da mocidade de seu protegido Pinheiro Chagas, aproveita para criticar um grupo de poetas de Coimbra, a quem acusa de exibicionismo e obscuridade. São citados no posfácio os escritores Teófilo Braga, Vieira de Castro e Antero de Quental, que acabara de publicar a obra Odes modernas.

Antero de Quental responde a Castilho com uma carta aberta, em forma de panfleto, intitulada "Bom senso e bom gosto". Nela Antero critica o apadrinhamento literário, praticado por Castilho, e a censura da livre expressão.

Para Antero, a agressão sofrida não se limitava ao plano estritamente literário ou pessoal; era, na verdade, uma reação do velho contra o novo, do conservadorismo contra o progresso, da literatura de salão contra a literatura viva e atuante exigida pelos novos tempos.

Os grandes homens, na concepção de Antero, seriam aqueles comprometidos com a nova "Idéia", ou seja, com os conhecimentos trazidos pelas correntes filosóficas e científicas da época e que seriam capazes de modernizar Portugal, colocando-o ao lado das nações européias mais desenvolvidas.

A Questão Coimbrã durou todo o segundo semestre de 1865, com publicações em defesa e ataque de ambos os lados. Participaram dela também, dentre outros, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão e Pinheiro Chagas. Eça de Queirós, embora fizesse parte do grupo coimbrão, não interveio na polêmica.

As conferências do Cassino Lisbonense e a geração de 70

Por volta de 1870 e tendo já concluído os estudos universitários em Coimbra, o grupo de amigos se reencontra em Lisboa e passa a travar debates acerca da renovação cultural portuguesa. A volta de Antero de Quental - que estivera na França, na América e na ilha de São Miguel - dinamiza essas reuniões, que passam a contar com leituras sistematizadas (principalmente de Proudhon) e a ter um objetivo definido. Como resultado desse esforço, nasce a iniciativa ambiciosa das Conferências Democráticas, que visavam à reforma da sociedade portuguesa.

Eis algumas das propostas das conferências, impressas no programa, assinado dentre outros por Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga:

Abrir uma tribuna onde tenham voz as idéias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos; ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa; agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna; estudar as condições da transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa.

Depois de proferidas cinco conferências - das quais duas eram de Antero e uma de Eça de Queirós -, o governo proíbe a continuidade do ciclo, alegando que os oradores suscitavam "doutrinas e proposições que atacavam a religião e as instituições do Estado".

Mas, apesar da censura, o Realismo já era vitorioso em Portugal e a partir de então se colheriam seus melhores frutos.

A poesia da época, a que genericamente se chama realista, alcançou grande prestígio e se desdobrou em quatro direções:

A poesia realista propriamente dita, representada por Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Teófilo Braga e outros, que se caracteriza pela crítica social e pelo engajamento político;

A poesia do cotidiano, representada por Cesário Verde, que, parcialmente ligada à poesia realista, procura incorporar à poesia certos aspectos da realidade até então considerados pouco poéticos;

A poesia metafísica, representada por Antero de Quental, que se volta para as indagações em torno da vida, da morte e de Deus;

A poesia parnasiana, representada por João da Penha e outros, cuja preocupação central é resgatar a tradição clássica, deixada de lado pelo Romantismo.

A prosa de ficção, na qual sobressaem Eça de Queiróz, Fialho de Almeida e Abel Botelho, segue a mesma orientação da poesia realista, porém dividindo-se entre o ataque à burguesia, à monarquia, ao clero, às instituições sociais, aos falsos valores e o compromisso com a doutrinação moral, social e filosófica.

Merecem destaque ainda a historiografia de Oliveira Martins e a crítica literária de Teófilo Braga.

O Realismo no Brasil

Realismo no Brasil tem como marco a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em 1881.

A passagem do Romantismo para o Realismo acompanha um período de muitas mudanças na história econômica, política e social brasileira.

O Brasil da década de 80, quando se instala o novo movimento literário, não é mais o mesmo de 1850, época em que a segunda geração romântica dividia seus versos entre o amor e a morte, e as "moreninhas" circulavam pelos salões.

O Realismo vai encontrar terreno adubado para florescer, depois de o país ter passado, ao longo de quarenta anos, por fatos importantes que foram alterando aos poucos sua feição atrasada e tacanha. Como exemplo, a Guerra do Paraguai (1864-1870), o crescimento da campanha abolicionista, o enfraquecimento do governo de D. Pedro II, a intensificação das idéias republicanas, a força da economia agrária, que concentrava a renda nas mãos de fazendeiros de açúcar, primeiro, e de café, depois.

A década de 80 será muito agitada: as campanhas abolicionistas e republicanas andam juntas, em comícios, movimentos e passeatas, na maioria de estudantes e intelectuais.

A escravidão e o Império caem quase ao mesmo tempo: em 1888 veio a Abolição; em 1889 Deodoro da Fonseca proclamou a República. Esses dois fatos criaram uma nova realidade, ao eliminar o trabalho servil e introduzir o princípio do voto na eleição dos governos, constituindo um índice de que se iniciava o processo de modernização da economia e política nacionais.

Paralelamente, dinamiza-se a vida social e cultural (principalmente no Rio de Janeiro), como sempre soprada por ventos europeus: liberalismo, socialismo, positivismo, cientificismo, etc. Idéias já consolidadas lá fora e importadas por nós, no mais das vezes sem a necessária adaptação. Numa sociedade agrária, escravocrata e preconceituosa, sem indústrias, sem classe operaria, elas surgiam deslocadas, fora de lugar.

literatura realista e naturalista brasileira passa a refletir essas idéias, no interior da realidade específica do nosso país, através da pena de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Adolfo Caminha; Olavo Bilac brilha com a poesia parnasiana; Raul Pompéia ensaia sua prosa intimista.

Mudava a literatura porque mudava o país. Aumenta o número de estradas de ferro, incrementa-se o transporte urbano, surge a iluminação elétrica e o cinema.

Nas cidades, aumentam a classe comercial, o funcionalismo, os militares e os trabalhadores livres, já em grande parte imigrantes. Nas ruas ainda estreitas e sujas proliferam os salões elegantes, as confeitarias e as lojas que copiavam a moda de Paris.

O Naturalismo

Já sabemos que Realismo e Naturalismo têm, entre si, semelhanças e diferenças.

Se o primeiro procura retratar o homem interagindo no seu meio social, o segundo vai mais longe: pretende mostrar o homem como produto de um conjunto de forças "naturais", instintivas, que, em determinado meio, raça e momento, pode gerar comportamentos e situações específicas.

Nas obras de alguns escritores realistas podemos distinguir certas características que definem uma tendência chamada Naturalismo.

Naturalismo enfatiza o aspecto materialista da existência humana. Para os escritores naturalistas, influenciados pelas teorias da ciências experimentais da época, o homem era um simples produto biológico cujo comportamento resultava da pressão do ambiente social e da hereditariedade psicofisiológica. Nesse sentido, dadas certas circunstâncias, o homem teria as mesma reações, instintivas e incontroláveis. Caberia a escritor, portanto, armar em sua obra uma certa situação experimental e agir como um cientista em seu laboratório, descrevendo as reações sem nenhuma interferência de ordem pessoal ou moral.

No romance experimental naturalista, o indivíduo é mero produto da hereditariedade. Ao lado desta, o ambiente em que vive, e sobre o qual também age, determina seu comportamento pessoal.

Assim, predomina o elemento fisiológico, natural, instintivo: erotismo, agressividade e violência são os componentes básicos da personalidade humana, que, privada do seu arbítrio, vive à mercê de forças incontroláveis.

Desse modo, o Naturalismo atribui a um destino inescapável, de origem fisiológica, aquilo que, na verdade, é produto do sistema econômico-social: a retificação do homem, ou seja, a sua transformação em coisa (do latim res = coisa).

Para dar vida a toda essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes, impassíveis, podendo ver tudo por todos os ângulos. As descrições são precisas e minuciosas, frias e fidelíssimas aos aspectos exteriores.

As personagens são vistas de fora para dentro, como casos a estudar: não há aprofundamento psicológico; o que interessa são as ações exteriores, e não os meandros da consciência à maneira de, por exemplo, Machado de Assis.

O Romance Naturalista

naturalismo foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. O caso de Raul Pompéia é muito particular, pois em seu romance O Ateneu tanto apresenta características naturalistas como realistas, e mesmo impressionistas.

A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando-se o coletivo.

Interessa notar que a preocupação com o coletivo já está explicitada no próprio título dos principais romances: O Cortiço, Casa de pensão, O Ateneu.

É tradicional a tese de que, em O Cortiço, o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas sim o próprio cortiço.

Por outro lado, o naturalismo apresenta romances experimentais preocupados em formular regras, em conseqüência de seu caráter cientifista. A influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista, que enfatiza a natureza animal do homem (portanto, no embate instinto versus razão, o homem, como todo animal, é dominado num primeiro momento pelas reações instintivas particularmente no comportamento sexual, que a falsa moral burguesa não é capaz de reprimir). Os textos naturalistas acabam por tocar em tema até então proibidos, como o homossexualismo, tanto masculino, como em O Ateneu, quanto feminino, em O Cortiço.

No Brasil, a prosa naturalista foi muito influenciada por Eça de Queirós, basicamente com as obras O crime do Padre Amaro e O primo Basílio.

Em 1881 surge o romance considerado o marco inicial do Naturalismo brasileiro: O mulato, de Aluísio de Azevedo.

Pertencem também ao Naturalismo brasileiro, entre outros, O missionário, de Inglês de Souza, e A carne, de Júlio Ribeiro, ambos publicados em 1888. Adolfo Caminha publicou A normalista (1893) e O bom crioulo (1896), considerados boas realizações naturalistas.

Características do Realismo-Naturalismo

Compromisso com a realidade

Realismo-Naturalismo é contra o tradicionalismo romântico.

Trata-se de uma arte engajada: ela tem compromisso com o seu momento presente e com a observação do mundo objetivo e exato.

Presença do cotidiano

Os escritores realistas-naturalistas consideram possível representar artisticamente os problemas concretos de seu tempo, sem preconceito ou convenção. E renovaram a arte ao focalizarem o cotidiano, desprezado pelas correntes estéticas anteriores.

Daí que os personagens de romances realistas-naturalistas estejam muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas do dia-a-dia, com suas vidas medianas, cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas ou científicas.

A linguagem é outra preocupação importante: ela deve se aproximar do texto informativo, ser simples, utilizar-se de imagens denotativas, e as construções sintáticas devem obedecer à ordem direta.

Personagens tipificados

Os personagens de romances realistas-naturalistas são retirados da vida diária e são sempre representativos de uma categoria - seja a um empregado, seja um patrão; seja um proprietário, seja um subalterno; seja um senhor, seja um escravo, e daí por diante.

Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere: isto é, embora os personagens sejam seres ficcionais, individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade.

Preferência pelo presente

Geralmente os escritores realistas-naturalistas deram preferência ao momento presente: as narrativas estavam ambientadas num tempo contemporâneo ao do escritor.

Com isso, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denunciadora do que havia de mau na sociedade.

Outro aspecto dessa preferência pelo momento presente é o detalhismo com que é enfocada a realidade, fato explicável pela proximidade.

Preferência pela narração

Ao contrário dos românticos, que privilegiaram a descrição, os realistas-naturalistas deram ênfase à narração do fato: o que acontece e por que acontece são as preocupações desses escritores.

Anticlericais, antimonárquicos, antiburgueses

Os realistas-naturalistas são marcadamente contra a Igreja, que apontam como defensora de ideologias ultrapassadas, como, por exemplo, a monarquia. Também criticam acirradamente a burguesia, que encarna o status romântico em geral.

Fonte:  www.superzap.com

Naturalismo

O termo Naturalismo normalmente refere-se a trabalhos de arte baseados na observação dos objetos que representam e não em estilizações ou conceitos pré-forjados a respeito dos mesmos.

Em seu sentido mais amplo, seria a aproximação máxima realizada pelo artista entre a obra e a natureza daquilo que pretendia ser representado.

Entretanto, uma obra em que não pode ser observada uma rígida preocupação em descrever algo com o máximo de detalhes verossímeis, ainda assim, em alguns casos, pode ser considerada naturalística, se apresentar coerência com o aspecto geral.

Os gregos são os primeiros a receberem a denominação de naturalistas na História da Arte, principalmente devido a sua produção do Período Clássico.

Apesar da idealização de uma beleza física, conhecida como padrão de beleza clássico, suas obras são baseadas no estudo e na observação das estruturas do corpo humano. A idealização, portanto, não aparece aqui como antônimo de naturalismo.

Os renascentistas italianos também são conhecidos pelo naturalismo em suas obras, uma vez que esse era um dos padrões estéticos da arte grega que pretendiam resgatar.

Além disso, costuma-se usar a expressão arte naturalista em oposição à arte abstrata, ou como sinônimo de realismo (note-se que realismo, quando em letra maiúscula, refere-se a uma escola presente na História da Arte e nesse sentido, não é correto o uso indistinto dos dois termos).

Pode ainda referir-se a uma escola pictórica determinada. Nesse caso é designada para nomear os caravaggistas, artistas bastante influenciados pelo estilo do italiano Caravaggio, que fazia questão de ressaltar em suas obras a verossimilhança, independente de um resultado final agradável.

CARAVAGGIO (Michelangelo [Miguel Ângelo] AMERIGHI, ou MERISI, dito), pintor italiano (Caravaggio, 1573 - Porto Ercole, 1610). Dramatizou o realismo de sua visão, recorrendo a poderosos contrastes de sombra e de luz. Sua influência foi considerável.

O crítico de arte e colecionador italiano Giovanni Pietro Bellori (1615 - 1696), conhecido por seus estudos do período barroco, foi o primeiro a utilizar-se desse termo pretendendo designar essa escola.

Fonte:  www.pitoresco.com.br

Naturalismo

A literatura incorpora habitualmente muitos escritos cuja finalidade primeira não é exatamente literária, mas que, pelas características textuais de sua composição ou segundo os cânones de apreciação estética de cada época, são considerados mais ou menos próximos da elaboração especificamente literária.

Os textos com estas características são os escritos de doutrinação vária, podendo o ensaio e a crítica confundir-se com eles. Podemos denominá-los doutrinários, na conceituação de Carlos Reis, pois contemplam testemunhos de escritores que, quase sempre imersos no fluxo da produção literária a que se referem, procuram estabelecer e propor orientações para essa produção literária e mesmo, nalguns casos, para a do futuro; [...] revestem-se de um pendor programático, no sentido de que, freqüentemente, sugerem, de forma expressa ou velada, uma ação a cumprir, não raro por um grupo ou por uma geração [...]; apresentam [...] registro ensaístico ou similar [...]; não se propõem a enunciar o discurso da teoria [...] e [...] apresentam uma certa experiência literária e cultural mais ou menos sedimentada, provinda da atividade criativa propriamente dita” 1 .

Fica evidente, portanto, o caráter metaliterário desses textos doutrinários, na medida em que eles intervêm no processo da evolução literária, por meio de reflexões acerca de diversos aspectos da literatura.

Esta espécie de texto proliferadurante o Romantismo, não apenas com Almeida Garrett e Alexandre Herculano, mas, em especial, com a chamada “Geração de 70”, constituída por um grupo de intelectuais portugueses (Eça de Queirós, Antero de Quental, Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins) que, na sua maioria, aliam a produção literária e textos de aspecto doutrinário, quando não se notabilizam, justamente, neste gênero de reflexão.

Na fortuna literária e crítica de Eça de Queirós, encontram-se estudos acerca das suas idéias literárias, embora, até hoje, estas tenham sido colocadas em plano secundário às idéias de cunho político, sociológico ou filosófico. Neste artigo, nosso objetivo é fazer o comentário de alguns textos de Eça de Queirós que enquadramos na espécie doutrinários: cartas, prefácios, artigos de jornal e de revista.

Estes textos, tendo sido objeto da atenção de Eça para reflexões feitas em torno da sua própria produção literária, constituem-se, portanto, em mais um instrumento no qual podemos nos apoiar, para a interpretação de seus textos de ficção e para a elucidação de questões de época referentes s tendências literárias em voga no último quartel do século XIX em Portugal.

Em suma, nosso propósito é projetar luz ao pensamento doutrinário de Eça de Queirós, à sua teoria literária, ao seu ideário estético, principalmente naquilo que diz respeito ao seu compromisso com a estética realistanaturalista e que possibilita uma interpretação mais lúcida e mais adequada de sua obra ficcional.

No início do período realista-naturalista português, nas conhecidas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, realizadas em Lisboa, em maio-junho de 1871, foram dadas a público algumas idéias de um grupo de jovens, liderados intelectualmente por Antero de Quental: a Geração de 70.

É sabido que da quarta conferência, proferida por Eça de Queirós e intitulada “A literatura nova ou o realismo como nova forma de arte”, não há texto escrito, apenas as reportagens de alguns jornalistas presentes, vindos dos jornais A Revolução de Setembro, Diário de Notícias, A Noite, A Nação e Bem Público.

Tomando comofonte alguns desses textos de jornais, António Salgado Júnior coletou-os e comentou-os em História das conferências do Casino (1871), publicado em 1930 e, até hoje, sem nenhuma reedição.

Portanto, nada mais oportuno e necessário do que conhecer o conteúdo programático, as idéias acerca do Realismo-Naturalismo, por meio dos próprios escritos de Eça de Queirós, basicamente agrupados na edição de Beatriz Berrini para sua Obra Completa, na antologia de A. C. Matos e nos estudos do professor Carlos Reis.

Nossa abordagem percorre, cronologicamente, alguns textos nos quais Eça de Queirós teoriza sobre o Realismo-Naturalismo, incluindo artigos polêmicos. Como diz Pinheiro Chagas, um de seus contendores: “Eu sou um dos mais ferventes admiradores de Eça de Queiroz; detesto as suas teorias literárias, mas adoro os seus romances, que felizmente só em algumas páginas se conformam com suas teorias” 2 .

Um dos vários gêneros do discurso utilizado por Eça para explicar e informar a seu leitor acerca do seu método de composição literária e de suas intenções é a carta. Em “Uma carta”, publicada no jornal português A Gazeta de Portugal em 3 de novembro de 1867 e recolhida postumamente no volume Prosas Bárbaras (1903) com uma introdução de Jaime Batalha Reis, dirige-se a um dos Vencidos da Vida, seu amigo Carlos Mayer.

Nesse texto, Eça rememora os tempos de ambos como estudantes de Direito na Universidade de Coimbra (1862-1866) e, aí, encontramos uma espécie de “plataforma literária” dessa fase de iniciação: Naqueles tempos [...] o Romantismo estava em nossas almas. Fazíamos devotadamente oração diante do busto de Shakespeare” 3 .

Nada pode ser mais romântico do que esse comportamento! Quem eram eles? “Havia entre nós todas as teorias e todas as seitas: havia republicanos bárbaros e republicanos poéticos; havia místicos que praticavam as éclogas de Virgílio; havia materialistas sentimentais e melancólicos” 4 .

Eça de Queirós, nesse tempo, pretendia o romantismo livre das tendências neoclássicas e ainda não contaminado pelas teses positivistas e cientificistas quecomeçavam a ser difundidas depois da Questão Coimbrã (1865- 1866). Afirma ele: Na arte só têm importância os que criam almas e não os que reproduzem costumes.

A arte é a história da alma. Queremos ver o homem: não o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas instituições, transformado pela cidade – mas o homem livre, colocado na livre natureza, entre as livres paixões [...] É aí que se pode estudar o homem.

É o que faz também a grandeza de certos tipos capitais de Balzac, o Barão Hulot, Goriot, Grandet. Realizam o seu destino, longe da associação humana, sob livre lógica das paixões. 5 Esse foi um dos últimos folhetins escritos para a Gazeta de Portugal e nele parece querer justificar o tom fantástico que empregou nos textos que publicara nessa época: “Quais podem ser as obras desta geração? Criações febris, convulsões cerebrais, idealistas e doentias, todo um pesadelo moral” 6 .

Ainda utilizando-se do mesmo gênero de discurso, em uma carta enviada a Teófilo Braga em 12 de março de 1878, expõe seu novo ponto de vista ideológico, a concepção realista de arte, adotado em O Primo Basílio : “Eu não ataco a família – ataco a família lisboeta – a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem e, mais tarde ou mais cedo, centro de bambochata” 7 .

Eça começava a estruturar o ideário realista e o coloca em prática neste romance. O seu alvo é a burguesinha da Baixa, sentimental, mal educada [...] arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular”. O ataque à burguesinha estende-se a todo o pano de fundo social, o meio, do qual falavam Taine e Zola.

É muito instrutiva a comparação entre a teoria e a prática naturalista. Pode mostrar-nos que, contrariamente às expectativas, o Realismo era desejado e, de certo modo, alcançou ser mais radical do que o Naturalismo.

Eça faz crítica a seu processo de composição, reconhecendo uma superabundância de detalhes: “O essencial é dar a nota justa[...].

Pobre de mim – nunca poderei dar a sublime nota da realidade transitória, como o divino Balzac – ou a nota justa da realidade transitória, como o grande Flaubert!” 8 . Ao eleger Balzac e Flaubert como seus mestres, propunha o Realismo propriamente dito e recusava o Naturalismo, mesmo porque este ainda estava longe de se instalar com toda a iconoclastia em Portugal.

Os preceitos realistas se reafirmam em uma outra carta enviada a Rodrigues de Freitas, em 30 de abril de 1878: Os meus romances importam pouco; está claro que são medíocres; o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influência profunda. O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, ia quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. [...] Uma arte que tem esse fim – não é uma arte à Feuillet ou à Sandeau. É um auxiliar poderoso da ciência revolucionária.

Em 1879, um texto que foi aproveitado parcialmente para prefácio da segunda edição de O crime do Padre Amaro e, mais tarde, integrado ao volume póstumo de Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas, sob o título Crítica e Polêmica” e sub-título “Idealismo e Realismo”, é uma explanação impressiva e exaustiva acerca do RealismoNaturalismo.

Segundo Carlos Reis 10 , esse texto, datado de 1879, foi publicado, em parte, em 1880, como “Nota da segunda edição” (terceira versão). Em 1929, o referido texto foi publicado integralmente pelo filho de Eça, José Maria d’Eça de Queirós, no volume Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais Páginas Esquecidas.

O manuscrito desse texto encontra-se no Espólio de Eça de Queirós, na Biblioteca Nacional de Lisboa. O título “Idealismo e Realismo” foi atribuído pelo primeiro editor.

Carlos Reis confrontou o texto citado (edição da Lello & Irmão,1965) com o manuscrito autógrafo e afirma que o texto publicado pelo filho de Eça está diferente do texto manuscrito, “está longe de ser fiel ao original”.

Esse texto foi escrito em resposta à crítica de Machado de Assis a O primo Basílio e a O crime do Padre Amaro, mas Eça deixou-o inédito, aproveitando dele apenas umas duas páginas, por volta de 20% do texto integral, para integrar o prefácio, no qual trata, dentre outras questões, da acusação feita por Machado ao plágio realizado por Eça das obras La faute de l’Abbé Mouret, de Émile Zola, e de Eugénie Grandet, de Balzac.

Eça respeitava Machado de Assis e suas críticas, pelo que se depreende de uma carta de Eça a Machado, datada de 29 de junho de 1878 e endereçada ao Consulado de Portugal, mas não enviada ao destinatário. Ao deixar este texto inédito, sua funcionalidade falhou, lembra Carlos Reis, no que concerne à sua configuração programática, doutrinária, pois “cancelou a premência afirmativa que lhe era inerente” 11 .

Eça chega a dizer que não sabe o que é o Realismo e a idéia nova, elevados em Portugal a uma espécie institucional da qual ele seria um dos chefes: Eu sou associado a estes dois movimentos, e se ainda ignoro o que seja idéia nova, sei pouco mais ou menos o que chamam aí a escola realista.

Creio que em Portugal e no Brasil se chama Realismo, termo já velho em 1840, ao movimento artístico que em França e em Inglaterra é conhecido por “Naturalismo” ou “arte experimental”. Aceitemos, porém realismo, como a alcunha familiar e amiga pela qual o Brasil e Portugal conhecem uma certa fase na evolução da arte 12 .

Em um determinado trecho, Eça toma os termos Realismo e Naturalismo como sinônimos e diz que “na realidade o Naturalismo nem foi inventado pelo Senhor Zola, nem consiste em descrever obscenidades, nem tem retórica própria, nem sobretudo é uma escola” 13 . Afirma o escritor: Agora , temos a escola realista!

Não – perdoem-me – não – há escolas realistas. Escola é a imitação sistemática dos processos dum mestre. Pressupõeuma origem individual, uma retórica ou uma maneira consagrada. Ora o Naturalismo não nasceu da estética peculiar dum artista; é um movimento geral da arte, num certo momento de sua evolução [...] Dizer “escola realista” é tão grotesco como dizer “escola republicana”.

O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, como a república a forma que toma a democracia [...]. Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos fatos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade. 14

O texto, que fala por si, dispensa outros comentários e mostra Eça convicto do Naturalismo (e não do Realismo), pois, ao fazer uma oposição afirma que o idealista dá uma falsificação, ao passo que o naturalista dá uma verificação: Toda a diferença entre o Idealismo e o Naturalismo está nisto.

O primeiro falsifica, o segundo verifica” 15 . É evidente nesse texto a sistematização feita por Eça acerca do Naturalismo, na medida em que procura encará-lo como método, explicitando os procedimentos fundamentais: “O Naturalismo é a forma científica que toma a arte, [...] como o positivismo é a forma experimental que toma a filosofia” 16 .

Declara ainda: “ Tudo isto se prende e se reduz a esta fórmula geral: que fora da observação dos fatos e da experiência dos fenômenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” 17 . Nesse texto, ainda atentando para o título “Idealismo e Realismo”, verifica-se imediatamente a oposição entre real e não-real, prestando-se essa quase antítese à programática do Romantismo versus Naturalismo, utilizando-se a comparação com o pintor naturalista e o idealista.

Para completar sua teoria programática sobre o Naturalismo demonstra as respectivas opções de gênero: “Outrora uma novela romântica, em lugar de estudar o homem, inventava-o. Hoje o romance estuda-o na sua realidade social.

Outrora no drama, no romance, concebia-se o jogo das paixões a priori; hoje analisa-se, a posteriori, por processos tão exatos como osda própria fisiologia” 18 . A noção de que a criação literária não devia isolar-se do que a rodeava, mas partir desse envolvimento, patenteia-se com toda a nitidez, quando está em causa a ligação entre literatura e sociedade.

Lembremos que, em primeiro lugar, este é um problema particularmente premente, em especial na época em que estão ainda vivos os desígnios de transformação e renovação sociocultural perseguidos pela Geração de 70.

Com efeito, é a partir e em função de uma atividade coletiva, que teve nas Conferências de Cassino o seu fator de aglutinação, que Eça de Queirós, mais claramente, percebe a necessidade de se fazer do fenômeno literário uma componente fundamental dessa vasta reforma de costumes que a Geração de 70 assumia como objetivo crucial.

Por isso mesmo, numa carta a Teófilo Braga a propósito de O primo Basílio, Eça não só procura integrar o seu romance no âmbito da chamada “arte revolucionária”, como sobretudo afirma: É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso – e, com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações que lhes dá uma sociedade podre. 19

Obviamente, não é por acaso que estas afirmações são suscitadas por um romance naturalista, pois, entre a concepção queirosiana da arte empenhada e o Naturalismo existem conexões que, como veremos, eram inspiradas pelo perfil ideológico desse período estético e pelos termos muito ativos com que Eça o interpretava nas suas reflexões teóricas.

Parece-nos oportuno mostrar que é ainda na órbita das inevitáveis relações entre literatura e sociedade que gira um projeto literário que Eça não pôde levar adiante, o plano das Cenas da vida portuguesa, concebidas como friso de novelas, visando alguns aspectos mais críticos e melindrosos da vida social portuguesa, do jogo à prostituição, passando pela agiotagem e pela política.

Ora, este projeto vem mostrar, entre outras razões, por que o escritor não está em condições demanter uma ligação constante com a vida social que pretendia retratar. É ele próprio quem o reconhece, numa carta em que revela a Ramalho Ortigão a sua dificuldade em fazer avançar as Cenas Portuguesas: Longe do grande solo da observação, em lugar de passar para os livros, pelos meios experimentais, um perfeito resumo social, vou descrevendo, por processos puramente literários e a priori, uma sociedade de convenção, talhada de memória.

De modo que estou nessa crise intelectual: ou tenho de me recolher ao meio onde posso produzir, por processo experimental – isto é, ir para Portugal – ou tenho de me entregar à literatura puramente fantástica e humorística. 20

Os artigos de periódicos literários e alguns textos de apresentação de obras e prefácios suscitam, da parte de Eça, a oportunidade para discutir e produzir os textos mais vivos e, em certos casos, polêmicos, pois inspiram um discurso teórico com mais intensa entoação programática. Considere-se em primeiro lugar que, quando se processa em Portugal a confrontação entre o Romantismo tardio e a literatura realista e naturalista, essa confrontação envolve, para além de diferenças propriamente estéticas, outras de cunho genericamente sociocultural, dominadas por uma concepção dinâmica e interventora das práticas culturais.

A Geração de 70 não podia tolerar o imobilismo de teor alienante, em grande parte característico do grupo literário que rodeava João Feliciano de Castilho e que pactuava, de modo mais ou menos visível, com o sistema político-econômico da Regeneração. Um desses textos polêmicos é o célebre prefácio à obra Azulejos, do Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Pindela, um dos melhores amigos de Eça, datado de Bristol, 12 de junho de 1886.

Coligido postumamente em 1909, por seu amigo Luís de Magalhães, em volume sob o título Notas contemporâneas, foi inicialmente publicado em 1886 como apresentação daquele livro de contos. Nesse prefácio, faz alusões aos naturalistas e idealistas (românticos) bem como críticas implícitas e evidentes,porém veladas, aos romances realistas de Camilo Castelo Branco, o que provocou uma viva resposta deste.

A crítica que Eça nele fez aos políticos portugueses gerou um artigo de reação por parte de Oliveira Martins. No texto sobre Azulejos, derrama-se em elogios aos contos do amigo Bernardo, hoje completamente esquecidos, não fora o prefácio.

Depois de elogiar o contista por ser “leitor perfeito, amador raro das lindas flores modernas de Fantasia e de Estilo” 21 , põe-se a considerar o Naturalismo, não sem antes o misturar com o Realismo, dizendo que se deleita com “frutos podres” 22 .

Mas imediatamente pondera que “o Naturalismo consiste apenas em pintar a tua rua como ela é na sua realidade e não como tu a poderias idear na tua imaginação” 23 .

Enquanto isso, em Portugal, o “Naturalismo é coisa suja – e coisa suja ficará” 24 , tanto assim que “seria inútil ir explicar [...] o que significa Naturalismo” 25 . Estaria Eça pensando que Os Azulejos se inscreveriam no Naturalismo de Zola? Mais adiante, considera “esta maneira de pintar a verdade, levemente esbatida na névoa dourada e trêmula da fantasia, satisfazendo a necessidade de Idealismo que todos temos nativamente e ao mesmo tempo a seca curiosidade do real que nos deram as nossas educações positivas” 26 .

Não haveria um certo apego ao esteticismo, que nessa época se constituía em uma reação ao caráter positivista e combativo do Realismo? Ao divisar as duas modalidades de Naturalismo, não estaria Eça mais disposto a aceitar e a defender posições que, acima de tudo, não perdessem de vista o compromisso com a Arte e repudiassem as que se caracterizavam pela “grosseria e sujidade”, como menciona? Nessa linha de reflexão comenta as transformações sociais e a produção literária; a condição do leitor e a constituição do público; a relação do escritor com o público e com os mecenas – a relação de dependência e autonomia.

Um texto em formato de carta dirigida a Mariano Pina, intitulado “A academia e a literatura” (publicado na primeira página do jornal de Lisboa O Repórter, a 27 de abril de 1888,mas datado de Bristol, 25 de janeiro de 1888 e, postumamente, integrado no volume Notas contemporâneas), tem como motivo o concurso da Academia Real de Ciências de Lisboa a que Eça concorreu com A Relíquia, de que Pinheiro Chagas foi o relator.

Eça já se refere ao lusco-fusco em que se encontra o Naturalismo, como a afastar-se de uma vez por todas do código realista: Se a uma literatura faltarem os inovadores, revolucionando incessantemente a Idéia e o Verbo, [...] bem cedo se imobilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...].

bilizará sem remissão numa mediocridade castigada e fria [...]. De sorte que para possuir uma literatura ideal, forte mas fina, original mas equilibrada [...] será necessário que nele de certo modo se contrabalancem estas duas forças – a Tradição e a Invenção.

Ou seja, de um lado, temos “os revoltosos, dando as emoções novas e criando as formas novas”, e de outro, as “Academias canalizando dentro do gosto, da elegância e do purismo estas correntes inesperadas de sensação e de idéia”; ou ainda “equilíbrio da Tradição e da Revolução” 28 . Eça de Queirós aponta para uma nostalgia do universo clássico da arte que sugere uma utopia revolucionária, arremessada para o futuro, utopia que, no final da década de 1880, transforma-se em utopia do passado, tão bem representado pela Arcádia no século XVIII.

Nesse texto, Eça reflete sobre o escritor e a dimensão institucional da literatura, atentando para as posições e reações; comenta as funções e o mecanismo de atuação das instituições literárias; fala das academias como instituição e o academismo como mentalidade, bem como sobre as academias e seu papel na formação do cânone.

No texto “Positivismo e Idealismo”, crônica publicada em A Gazeta de Notícias em 16 de junho de 1893, postumamente recolhida por Luís de Magalhães em Notas Contemporâneas (1909), Eça faz o balanço da literatura naturalista agonizante, diante da reação dos estudantes da Sorbonne ao positivismo científico e ao jacobinismo de 1789; mas também aponta a decadência do Naturalismo na literatura e o surgimento da correnteantagônica com os olhos voltados para a França, tentando mostrar o máximo de neutralidade possível.

Deixa claro que as conquistas da ciência não serão alteradas, tornando-se portanto irreversíveis, e que a imaginação, sem recear a crítica da ciência, poderá ser exercida livremente. Leiamos seu texto: Em literatura estamos assistindo ao descrédito do Naturalismo.

O romance experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria), e o próprio mestre do Naturalismo, Zola, é cada dia mais épico, velha maneira de Homero.

A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de d’Artagnan. 29

Bibliografia

1 Carlos Reis. O conhecimento artístico: uma introdução à teoria literária. Coimbra, Almedina, 1999. p. 489-490.
2 A. C. Matos. (pref. e org.). Polémica: Eça de Queiroz-Pinheiro Chagas, “Brasil e Portugal”. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2001. p. 43.

3 Beatriz Berrini. (Org. geral, introd., fixação dos textos autógrafos e notas introdutórias). Eça de Queiroz, Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000. Vol. 4, p. 84.
4 Berrini, 2000, p. 87.
5 Berrini, 2000, p. 90.
6 Berrini, 2000, p. 89.
7 Berrini, 2000, p. 917.
8 Berrini, 2000, p. 918.
9 Berrini, 2000, p. 920-921. Grifos nossos.
10 Carlos Reis. Introdução. In: Eça de Queirós. O crime do padre Amaro: 2ª e 3ª versões. Carlos Reis e Maria do Rosário Cunha (ed.). Lisboa, Imprensa NacionalCasa da Moeda, 2000. Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, p. 80, rodapé 142 e 143.
11 Carlos Reis. Qvinto Império. Salvador, Gabinete Português de Leitura, 2002. p.80.
12 Berrini, 2000, p. 912-913.
13 Berrini, 2000, p. 913.
14 Berrini, 2000, p. 913-914.
15 Berrini, 2000, p. 915.
16 Berrini, 2000, p. 913-914.
17 Berrini, 2000, p. 914. Grifos nossos.
18 Berrini, 2000, p. 914.19 Carta a Teófilo Braga, 12 de março de 1878. Berrini, 2000, p. 918.
20 Carta a Ramalho Ortigão, 8 de abril de 1878. Berrini, 2000, p. 123.
21 Berrini, 2000, p. 1793.
22 Berrini, 2000, p. 1797.
23 Berrini, 2000, p. 1795.
24 Berrini, 2000, p. 1796.
25 Berrini, 2000, p. 1797.
26 Berrini, 2000, p. 1800.
27 Berrini, 2000, p. 1701.
28 Berrini, 2000, p. 1701.
29 Eça de Queirós. Positivismo e idealismo. In: Berrini, 2000, p. 1.249. Este texto foi publicado inicialmente no jornal carioca Gazeta de Notícias, em 27 e 28 de julho de 1893. Postumamente, em 1909, foi publicado na coletânea Notas contemporâneas, com o mesmo título.

Rosane Feitosa

Fonte:  www.letras.ufrj.br

Naturalismo

Tendência das artes plásticas, da literatura e do teatro surgida na França na segunda metade do século XIX. Manifesta-se também em outros países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil. Baseia-se na filosofia de que só as leis da natureza são válidas para explicar o mundo e de que o homem está sujeito a um inevitável condicionamento biológico e social. As obras retratam a realidade de forma ainda mais objetiva e fiel do que no realismo. Por isso, o naturalismo é considerado uma radicalização desse movimento.

Nas artes plásticas não tem o engajamento ideológico do realismo, mas na literatura e no teatro mantém a preocupação com os problemas sociais.

Influenciados pelo positivismo e pela Teoria de Evolução das Espécies, os naturalistas apresentam a realidade com rigor quase científico. Objetividade, imparcialidade, materialismo e determinismo são as bases de sua visão de mundo. Características do naturalismo existem na França desde 1840, mas é em 1880 que o escritor Émile Zola (1840-1902) reúne os princípios da tendência em seu livro de ensaios O Romance Experimenta.

Artes plásticas

A pintura dedica-se a retratar fielmente paisagens urbanas e suburbanas, nas quais os personagens são pessoas comuns. O artista pinta o mundo como o vê, sem as idealizações e distorções feitas pelo realismo para expor posições ideológicas. As obras competem com a fotografia.

Em meados do século XIX, o grande interesse por paisagens naturais leva um grupo de artistas a se reunir em Barbizon, na França, para pintar ao ar livre, uma inovação na época. Mais tarde essa prática será adotada pelo impressionismo. Um dos principais artistas do grupo é Théodore Rousseau (1812-1867), autor de Uma Alameda na Floresta de L'Isle-Adam. Outro nome importante é Jean-Baptiste-Camille Corot (1796-1875).

O francês Édouard Manet (1832-1883) é um nome fundamental do período, fazendo a ponte do realismo e do naturalismo para um novo tipo de pintura que levará ao impressionismo. Ele retrata a realidade urbana sem muito da carga ideológica do realismo. Influencia os impressionistas, assim como é por eles influenciado. Fora da França destaca-se o inglês John Constable (1776-1837).

Literatura

A linguagem dos romances é coloquial, simples e direta. Muitas vezes, para descrever vícios e mazelas humanos, usam-se expressões vulgares. Temas do cotidiano urbano, como crimes, miséria e intrigas, são usuais.

Os personagens são tipificados: o adúltero, o louco, o pobre.

A descrição predomina sobre a narração, de tal modo que se considera que os autores, em vez de narrar acontecimentos, os descrevem em detalhes.

Acontecimentos e emoções ficam em segundo plano. O expoente é Émile Zola, autor de Nana e Germinal. Também são naturalistas os irmãos Goncourt, de Germinie Lacerteux.

Teatro

As principais peças são baseadas em textos de Zola, como Thérèse Raquin, Germinal e A Terra. A encenação deste último constitui a primeira tentativa de criar um cenário tão realista quanto o texto. Na época, o principal diretor de peças naturalistas na França é André Antoine (1858-1943), que põe em cena animais vivos e simula um pequeno riacho.

Outro autor importante do período, o francês Henri Becque (1837-1893), aplica os princípios naturalistas à comédia de boulevard, que ganha caráter amargo e ácido. Suas principais peças são A Parisiense e Os Abutres. Também se destaca o sueco August Strindberg (1849-1912), autor de Senhorita Júlia.

NATURALISMO NO BRASIL

No país, a tendência manifesta-se nas artes plásticas e na literatura.

Não há produção de textos para teatro, que se limita a encenar peças francesas.

Nas artes plásticas está presente na produção dos artistas paisagistas do chamado Grupo Grimm. Seu líder é o alemão George Grimm (1846-1887), professor da Academia Imperial de Belas-Artes. Em 1884, ele rompe com a instituição, que segue as regras das academias de arte e rejeita a prática de pintar a natureza ao ar livre, sem seguir modelos europeus. Funda, então, o Grupo Grimm em Niterói (RJ). Entre seus alunos se destaca Antonio Parreiras (1860-1945). Outro naturalista importante é João Batista da Costa (1865-1926), que tenta captar com objetividade a luz e as cores da paisagem brasileira.

Na literatura, em geral não há fronteiras nítidas entre textos naturalistas e realistas. No entanto, o romance O Mulato (1881), de Aluísio Azevedo (1857-1913), é considerado o marco inicial do naturalismo no país. Trata-se da história de um homem culto, mulato, que vive o preconceito racial ao se envolver com uma mulher branca. Outras obras classificadas como naturalistas são O Ateneu, de Raul Pompéia (1863-1895), e A Carne, de Júlio Ribeiro (1845-1890). A tendência está na base do regionalismo, que, nascido no romantismo, se consolida na literatura brasileira no fim do século XIX e existe até hoje.

Fonte:  www.artesbr.hpg.ig.com.br

Naturalismo

Uma teoria metafisica que defende que todos os fenômenos podem ser explicados mecanicamente em termos de causas e leis naturais. O naturalismo opõe-se ao sobrenaturalismo, teoria metafisica teológica. O sobrenaturalismo atribui não apenas uma origem sobrenatural ao universo mas defende que este tem uma moral própria e um propósito espiritual.

O naturalismo vê o universo como uma máquina ou organismo, desprovido de propósito geral, apesar de partes do universo funcionarem harmoniosamente e parecerem ter sido desenhados para essa função. Os sobrenaturalistas veem o universo como tendo sido criado para uma finalidade, e geralmente acreditam que nada acontece sem um propósito moral ou divino.

Para os naturalistas, a Natureza é indiferente às necessidades e desejos humanos. Para os sobrenaturalistas, Deus encheu o mundo natural com tudo o que precisamos e devemos desejar, bem como com o que não precisamos e não devemos desejar.

Estes tambem teem um propósito: são desafios morais e lembranças do nosso lugar no grande esquema das coisas.

Como afirmado acima, o naturalismo é uma teoria metafisica. As teorias metafisicas tratam da natureza da realidade. São geralmente divididas em ontologia, cosmologia e teologia. Ontologia é a metafisica do ser. (o que é o ser? porque existe algo em vez do nada? que tipos de ser existem? etc.)

Cosmologia é a metafisica do cosmos ou universo. (qual a natureza do universo? o universo existiu sempre? se não, como pode algo vir do nada? etc.) Teologia é a metafisica de deus e do sobrenatural. (Deus existe? qual a natureza de Deus? pode haver mais que um Deus? Deus é o criador do universo? etc.)

A diferença entre pontos de vista entre mecanicistas e teologistas pode ser vista no comportamento sexual animal em cada perspectiva. Para os teologistas, o sexo é destinado a reproduzir a espécie. O prazer que o acompanha é o indutor para concretizarmos o divino plano da reprodução.

Se o sexo fosse normalmente doloroso, seria evitado pelos membros da espécie e esta extinguir-se-ia. Alguns teólogos defendem que sexo com fins de reprodução é o unico motivo correto.

Frustrar o propósito reprodutivo do sexo é uma imoralidade, segundo este ponto de vista. Controle de natalidade e homossexualidade são erros morais. Isto não significa que um naturalista não possa considerar o controle de nascimento e a homossexualidade como erros morais.

Alguns naturalistas consideram-no mas não pelas mesmas razões. Um naturalista pode considerar um dever para seres "superiores", seja como for que defina isso, a reprodução, e para os seres "inferiores" o controle da natalidade. Mas penso que para a maioria dos naturalistas a homossexualidade é tão natural como a heterossexualidade, e nenhuma inerentemente moral ou imoral.

Para o naturalista, o instinto sexual não tem um propósito. Não foi desenhado para levar os animais reprodução. Pelo contrário, animais com fortes instintos sexuais reproduzem-se e logo florescem. Não há pois maneira de frustrar o propósito de sexo, pois o sexo não tem propósito. Claro que o desejo de ter sexo com uma pessoa é uma propósito.

Mas é esse o propósito: ter sexo com uma pessoa particular, qualquer que seja o género.

Para um teólogo, a polinização das orquídeas por abelhas é um desenho divino. Para os mecanicistas, as abelhas estão a tratar da sua vida, e como resultado as orquídeas são polinizadas. Se nenhum animal fizesse o que as abelhas fazem, as orquídeas não existiriam. O mundo seria diferente mas seria ainda um mundo.

Diferentes mecanismos significam diferentes mundos. A escolha não é entre este mundo e nenhum mas entre este mundo ou outro.

Para os sobrenaturalistas, pedófilos e predadores sexuais existem por um propósito divino. Para os mecanicistas naturalistas eles não teem qualquer propósito.

Os seus desejos são naturais mas isso não significa que devam ser satisfeitos. Ambos os consideram responsáveis pelos seus atos. Mas os naturalistas não necessitam de tentar explicar a sua existência.

Todos os naturalistas podem concordar que os desejos são explicáveis inteiramente por mecanismos causais fora da responsabilidade pessoal. Mas nem todos concordam que agir de acordo com os desejos seja explicável sem referência à liberdade e responsabilidade do agente.

Os supernaturalistas, com os seus fins morais e espirituais inerentes a cada aspecto da realidade, teem de encontrar uma explicação para a existência do mal. O ramo da teologia que tenta explicar isso é a teogonia.

Em teogonia é aceitável dizer do mal, "os caminhos do Senhor são insondáveis." Ou, "Sou Deus; não tenho de me explicar a ninguém." O Mal existe e visto Deus ser bom podemos ter a certeza de que há uma boa razão para o Mal. Use a fé.

Spinoza defendia que a teologia representava o pensamento primitivo das nossos antepassados pré-cientificos. A procura das "causas finais" não levou a nada na compreensão da Natureza. Apenas quando a humanidade desistiu da maneira antropomórfica de pensar a geologia, fisica, etc., em termos de propósitos divinos, pôde progredir no conhecimento da Natureza. Penso que a história provou que Spinoza tinha razão. Teorias teologicas como o supernaturalismo são cientificamente superfluas.

Por outro lado, o ataque de Spinoza era completo: não acreditava que o comportamento humano fosse explicado de modo diferente a outros na Natureza.

Não há liberdade nem responsabilidade no comportamento humano, pensou. O comportamento humano deve ser descrito em termos de causas mecanicistas, como os restantes fenômenos naturais. Para um naturalista deterministico tais como Spinoza bom é apenas uma palavra para descrever coisas que nos dão prazer e mal coisas que nos causam dôr.

naturalismo é muitas vezes confundindo com ateismo, materialismo, positivismo, empirismo, determinismo e cientismo.

Ateismo é a visão de que não há deus. Um naturalista pode acreditar nalguma espécie de deus ou seres sobrenaturais, mas nega que há algo na natureza que não possa ser explicado sem referência ao sobrenatural.

Deus, como Criador da Natureza como uma realidade separada, é uma hipótese desnecessária para o naturalista. Os fundadores do Deismo nos EUA eram defensores do naturalismo.

Materialismo é uma visão metafisica que apenas existe realidade material (fisica, empirica). Os materialistas negam que exista realidade espiritual, excepto como ilusão. Um materialista pode acreditar em deus, mas não no Deus não-fisico das religiões ocidentais. Se há um deus, deus é uma entidade material ou reduzivel a tal.

Positivismo é uma atitude filosófica que a metafisica, mais ou menos, é treta. Os positivistas não negam a existencia de fenômenos sobrenaturais; eles manteem que é uma perda de tempo tentar compreender ou falar dessas coisas.

Empirismo é uma teoria epistemológica (teoria da natureza do conhecimento) que defende que todo o conhecimento é uma experiência dos sentidos. Alguns empiristas acreditam em Deus, outros não. Alguns empiristas são naturalistas; outros não são. Alguns empiristas são ateus; outros não. Alguns são empiristas; outros não.

Determinismo é a teoria metafisica que defende que todos os acontecimentos são determinados por causas mecanicistas. O determinismo opõe-se ao libertarianismo metafisico que defende que algum comportamento humano é explicável em termos de liberdade e responsabilidade do agente. Um naturalista pode ser um determinista, tal como Spinoza; tal como um sobrenaturalista, como os que acreditam em predestinaçãp.

Tanto naturalistas como sobrenaturalistas podem acreditar na livre vontade e na responsabilidade humana pelo menos em parte do comportamento.

Cientismo é a visão auto-aniquiladora de que só as afirmações cientificas são válidas, o que não é cientifico e, se verdade, não tem sentido. Portanto, o cientismo ou é falso ou desprovido de sentido.

Em resumo, o naturalismo é a fundação da moderna teorização cientifica. Referencia a moral ou propósitos divinos não teem lugar em ciência. Ela é limitada pela explicação de fenômenos empiricos sem referência a forças poderes, influências, etc, que sejam sobrenaturais. A ciência moderna é inerentemente naturalistica.

Se o naturalismo é corretamente compreendido, percebemos que nem ele nem a ciência negam a existência de Deus, livre vontade, fenômenos espirituais, Providencia ou criação por Deus. Ateistas negam a existência de Deus. Deterministas negam a existencia da livre vontade. Materialistas negam a existência de fenômenos espirituais. Positivistas negam sentido à teorização metafisica.

Pessoalmente, não penso que a ciência seja lugar para especulações sobrenaturais como o criacionismo. Parece-me existir dados suficientes de que não há um Ser responsável pela criação do universo e que o que existe e é conhecivel está limitado a fenômenos empiricos. Penso que a metafisica é, mais ou menos, lixo.

E acredito que os pedófilos podem não ser responsáveis pelos seus desejos, mas são responsáveis pelos seus atos:podem controlar o seu comportamento e escolhem não o fazer. E o que fazem não é uma parte insigificante de algum plano divino mas uma parte significativo do drama humano, por mais sem propósito e indiferente que isso seja do ponto de vista da Natureza.

Fonte:  www.brazil.skepdic.com

Naturalismo

"Pus a nu as chagas daqueles que vivem mais abaixo. Minha obra não é obra de partido e de propaganda: é uma obra de verdade."

Emile Zola

Realismo e Naturalismo foram as duas escolas literárias de domínio narrativo no fim do século XIX e início do século XX. Sua contrapartida na poesia é chamada de Parnasianismo. Apesar de se parecerem, o Realismo e o Naturalismo têm diferenças — o Naturalismo é marcado principalmente pelo determinismo, a idéia de que a natureza define o destino dos personagens. O mais importante autor realista e maior escritor do Brasil foi Machado de Assis, que merece tratamento em separado.

Referências históricas

Contexto sócio-político da época:

teorias de nova interpretação da realidade - Positivismo, Socialismo Científico e Evolucionismo

no Brasil, campanha abolicionista a partir de 1850 que culmina com a Lei Áurea em 1888

fundação do Partido Republicano nacional após a Guerra do Paraguai

decadência da monarquia brasileira

fim da mão-de-obra escrava e sua substituição por trabalho assalariado

imigrantes europeus para a lavoura cafeeira

economia mais voltada para o mercado externo, sem colonialismo

Características

As características do realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico e às novas formas de pensamento:

objetivismo = negação do subjetivismo romântico, homem volta-se para fora, o não-eu universalismo substitui o personalismo anterior materialismo que leva à negação do sentimentalismo e da metafísica autores são antimonárquicos e defendem os ideais republicanos nacionalismo e volta ao passado histórico são deixados de lado para enfatizar o presente, o contemporâneo determinismo influenciando o homem e a obra de arte por 3 fatores: meio, momento e raça (hereditariedade)

O Romance realista propriamente dito, no Brasil, foi mais bem cultivado por Machado de Assis. Narrativa preocupada com análises psicológicas dos personagens e fazendo críticas à sociedade a partir do comportamento desses personagens.

Autores

Raul Pompéia

De infância rica e reclusa, teve experiências em colégio interno, onde recebeu influências para escrever O Ateneu. Publicou seu primeiro livro ainda bem jovem, que muito aclamado pela crítica da época. Mais tarde estudou Direito, colaborando também com jornais e revistas.

Era abolicionista e republicano, leva vida agitada com polêmicas, inimizades e crises depressivas. Muito sensível, este professor, político, jornalista, escritor e polemista se suicidou no Natal de 1895, abandonado pelos amigos, caluniado e humilhado na imprensa. Foi um escritor que não se pode enquadrar em único estilo, tendo influências naturalistas, realistas, expressionistas e impressionistas.

Sua obra de maior importância é O Ateneu, que tem algum caráter autobiográfico e garantiu ao autor lugar entre os maiores romancistas brasileiros. Nas passagens a seguir, note a linguagem rebuscada que o autor usa.

"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."

O Ateneu

"Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença suprema dos sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável de seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquilo; era um de profundis."

O Ateneu

Obras Principais

Uma Tragédia no Amazonas (1880) - seu 1º romance

O Ateneu (1888)

As Jóias da Coroa (1888) - antimonarquista, é publicado sob a forma de folhetins na Gazeta de Notícias

Canções sem Metro (1900) - poesia

Sobre O Ateneu: narrativa de confissão, espécie de regresso psicanalítico, onde o personagem principal redesenha pela memória os fantasmas da adolescência vivida num colégio interno. Apresenta problemas como a má direção, comportamentos equivocados de professores, violação da pureza, explosão libidinosa da adolescência etc.

Aluísio de Azevedo

Tem por formação o desenho e a pintura, só mais tarde torna-se escritor profissional. Envolveu-se na política maranhense, fundou jornais e publicou o primeiro livro naturalista brasileiro, O Mulato, que foi muito mal recebido em sua província natal. Foi o primeiro escritor brasileiro a ter a literatura exclusivamente como profissão.

Sua obra variou em qualidade, tendo feito alguns dramalhões românticos que considerava de má qualidade - que chamava “comerciais” - e obras naturalistas de relevância - junto com outras de nem tanta relevância ou qualidade. A divisão de sua obra não representa fases, pois os romances românticos eram alternados com os naturalistas. Mais tarde se desgostou da literatura e ingressou no serviço público. Foi membro da ABL.

Confere aos pequenos agrupamentos humanos vida própria. Seus protagonistas vão se degradando social e moralmente por força da opressão social ou, ainda, por força do determinismo das leis naturais (cientificismo). As tragédias são comuns em seus romances, mas estas vêm da fatalidade.

O que se segue são passagens de suas obras mais famosas e importantes, as naturalistas O Mulato, O Cortiço e Casa de Pensão.

"Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado."

O Cortiço

"Sua pequena testa, curta e sem espinhas, margeada de cabelos crescendo, não denunciava o que naquela cabeça havia de voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e modesto, não deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento cálido e desensofrido."

Casa de Pensão

"Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo - e uma palavra doce esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, como um fraco e lamentoso apelo de criança: - Mamãe!... E morreu."

Casa de Pensão

Obras Principais

Uma Lágrima de Mulher (1879), O Mulato (1881), Memórias de um Condenado (1882), Mistério da Tijuca (1882), Casa de Pensão (1884), Filomena Borges (1884), O Coruja (1885), O Homem (1887), O Cortiço (1890), A Mortalha de Alzira (1894), Livro de uma Sogra (1895) - romances

Demônios (1893) e Pegadas (1897) - contos

A Flor de Lis (1882), Casa de Orates (1882), Fritzmac (1889), Os Doidos (1879), O Esqueleto (1890), A República (1890), Um Caso de Adultério (1891), Em Flagrante (1891), Venenos que Curam (1886), O Caboclo (1886) - teatro

O Touro Negro (1898) - crônica

Adolfo Caminha

Talvez o mais audaz dos naturalistas brasileiros. Viaja pela Marinha e, no Ceará, ajuda a fundar o Centro Republicano além de participar da vida intelectual da cidade. É envolvido num escândalo de adultério e é expulso da Armada. Retira-se da vida social, mas continua a participar da vida literária. Em 1891 muda-se para o RJ, onde se dedica ao jornalismo e literatura, escrevendo algumas das obras-primas do Naturalismo como A Normalista e Bom-Crioulo.

A Normalista é a história chocante de um incesto em que a personagem principal é seduzida pelo padrinho. Já O Bom Crioulo trata das minorias sexuais condicionadas pelo ambiente. O personagem Amaro, O Bom Crioulo, se envolve amorosamente com um jovem grumete, que acaba sendo seduzido por uma portuguesa. A descoberta da traição leva Amaro a assassinar seu amante.

"Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos , a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada, e cuja presença ali, naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa, - o Bom-Crioulo na gíria de bordo."

"Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados."

Fragmentos de O Bom Crioulo

Obras Principais

A Normalista (1892), Bom Crioulo (1895), A Tentação (1896) - romances
Judith (1893), Lágrimas de um Crente (1893) - contos
Vôos Incertos (1855-6) - poesia
Cartas Literárias (1895) - crítica
No País dos Ianques (1894) - crônica

Domingos Olímpio

Escritor naturalista, foi um dos poucos e um dos últimos de sua escola. Formado em Direito, voltou ao Ceará para exercer o jornalismo como abolicionista e republicano. Forçado pela situação política (era político de oposição) mudou-se para o Pará. Já no Rio, publica sua principal obra, Luzia-Homem, e passa a escrever sob o pseudônimo de "Pojucan" na recém-fundada Os Anais, falecendo 3 anos depois. Em algumas passagens Luzia-Homem faz lembrar Vidas Secas de Graciliano Ramos.

Luzia-Homem tematiza a violência e o sadismo que florescem como literatura naturalista. Há nuances de Romantismo na morosidade da descrição das paisagens, onde a natureza, às vezes, é madrasta principalmente por causa da seca. Explora a duplicidade da personagem principal, ela é bonita, gentil e retirante da seca, mas também tem força descomunal.

"Sob os músculos poderosos de Luzia-Homem estava a mulher tímida e frágil, afogada no sofrimento que não transbordava em pranto, e só irradiava , em chispas fulvas, nos grandes olhos de luminosa treva."

"Raulino recuou, cortado de terror, ante o cadáver; e, num turbilhão de cólera, rugiu arrepiado, apertando os dentes, e, com uns gestos, que eram crispações medonhas de fera, esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso."

T rechos de Luzia-Homem

Obras Principais

Luzia-Homem (1903)
O Almorante (Anais, Rio, 1904-06)

Sinopse

Marco inicial

Publicação dos livros O Mulato (1º romance naturalista), de Aluísio Azevedo e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1º romance realista), de Machado de Assis em 1881.

Marco final

Publicação de Missal e Broquéis, ambos de Cruz e Sousa - obras inaugurais do Simbolismo em 1893.

O início do Simbolismo em 1893 não significa o término do Realismo e suas manifestações na prosa , com os romances realistas e naturalistas, e na poesia, com o Parnasianismo.

Textos

Fragmento do primeiro capítulo de O Ateneu, que recebe o mesmo nome da obra

(...) Poema intencionalmente moral é o mesmo que estátua polícroma, ou pintura em relevo. Apenas uma coisa possível, nada mais; há também quem faça flores, com asas de barata e pernas.

A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o indivíduo sem atender à existência de outro indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Leda; pode ser cruel; Roma em chamas, que espetáculo!

Basta que seja artística. (...)

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor, sempre receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpresa e agrado. Chegava ao excesso das flores. A princípio, pétalas de magnólia seca com uma data e uma assinatura, que eu encontrava entre as folhas de compêndio.

As pétalas começaram a aparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flores completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem. (...)

Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio. os contentores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e curativo; Malheiro, em panos de sal, fingindo-se muito prostrado, oferecia o mais impenetrável silêncio às indagações de Aristarco e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era de sua conta. (...)

Raul Pompéia

"Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica de sua fisionomia eram os olhos - grandes ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz."

O Mulato

"Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou lívida, levou as mãos aos olhos. Parecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensangüentado. Duvidou e, sem ânimo de formular um pensamento, abriu de súbito as vidraças.

Era, com efeito, ele. (...) A moça deixou atrás de si, pelo chão, um grosso rastro de sangue, que lhe escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os pés. E, no lugar da queda, ficou no assoalho uma enorme poça vermelha."

O Mulato

"Naquela mulata estava o grande mistério e a síntese das impressões que ele recebera chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que não se torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em trono do idade da terra, piscando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca."

Fragmento de O Cortiço

Fonte:  www.graudez.com.br

Naturalismo

 

Naturalismo

Naturalismo foi uma tendência artística prevalecente em toda a Europa, na segunda metade do século XIX.

Naturalismo pretende imitar a Natureza com exatidão, opondo-se ao idealismo e ao simbolismo.

Os pintores foram-se interessando cada vez mais pela representação da vida quotidiana e dos seus acontecimentos triviais. Foi uma tendência que também teve expressão na literatura, especialmente nas novelas de Zola e dos Goncourts.

Esta escola procura a inspiração na observação direta da Natureza, que é pintada no local, e com toda a autenticidade.

A sua temática é portanto determinada pela pintura ao ar livre (plein air): a paisagem, cenas da vida e do trabalho no campo. A pintura é executada no local e observando diretamente o motivo a representar, bem como a luz e a cor local.

A “Escola do Barbizon”, dá inicio a uma pintura que abandona as formas tradicionais de pintar, a pintura de Atelier.

A PINTURA NATURALISTA

Pintar a Natureza na Natureza, as praias da Normandia, a floresta, o artista itinerante permitido pela nova invenção dos tubos de tinta a óleo, a cor natural ou “local”, a pintura do “plein air”. Temática rural e despretensiosa.

A Escola ou Grupo do Barbizon

A “Escola do Barbizon”, toma o seu nome, de um grupo de pintores franceses paisagistas que viviam e trabalhavam na aldeia de Barbizon, nos arredores da floresta de Fontainebleau de 1835 a 1870. Os seus pintores de maior importância foram Théodore Rousseau, Corot, Millet e Daubigny.

O seu estilo era Naturalista e marca a transição entre o Romantismo e o Impressionismo.

O NATURALISMO EM PORTUGAL 1880-1910

Em Portugal o Naturalismo chega tardiamente em 1879, por influencia da obra dos bolseiros de Paris, especialmente Silva Porto (e Marques de Oliveira), que tinha estado no Barbizon, tendo assimilado aí o método de pintura ao ar livre e a sua temática característica. Este estilo impõe-se e domina o gosto em Portugal até muito mais tarde do que no resto da Europa.

São representantes do Naturalismo: Silva Porto, Marques de Oliveira, José Malhoa, João Vaz, Sousa Pinto e Columbano (este com uma obra de características muito pessoais e especificas). São temas predominantes as paisagens rurais e marinhas, cenas bucólicas, cenas de costumes rurais (especialmente Malhoa), ambientes urbanos e, principalmente em Columbano, cenas da vida urbana burguesa e o retrato.

Fonte:  www.esec-josefa-obidos.rcts.pt

Naturalismo

A expressão d`après nature designa toda obra de arte calcada ou mesmo copiada diretamente da natureza. Por extensão, onaturalismo pode ser definido como "a doutrina estética que busca inspiração direta na natureza e a reproduz com fidelidade. Não implica, porém, em cópia fiel da natureza, mas a sua interpretação através da sensibilidade do artista". Não se deve, também, confundi-lo com realismo.

Este se opõe tanto ao naturalismo quanto ao neoclassicismo, sendo a representação artística das coisas da natureza tais como se apresentam na realidade, em oposição ao idealismo que se esforça por apresentá-las como as concebe o espírito ou a imaginação. Com alguma freqüência, sobretudo na Itália, o termo naturalismo tem um significado próximo ao de verismo.

No Brasil, os principais naturalistas reuniram-se em torno de Grimm, o qual era, no entanto, mais um realista.

Artistas mais destacados: Zeferino da Costa, Castagneto, Baptista da Costa, Telles Jr. , Pedro Weingartner, Pinto Bandeira, Delfim da Câmara, Garcia y Vasques, Hipólito Caron, Alfredo Andersen.

Frederico Morais

Referências

MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas séculos XIX e XX. Apresentação Ernest Mange. 2. ed. rev. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.

Fonte:  www.itaucultural.org.br

Naturalismo

Aluísio de Azevedo (1857-1913)

Aluísio de Azevedo foi um jornalista, escritor e cronista brasileiro que nasceu no Maranhão e foi viver no Rio de Janeiro, a fim de estudar na Academia Imperial de Belas Artes e começou a fazer poesias e caricaturas. Seu primeiro romance foi lançado em 1880 e se chamava “Uma Lágrima de Mulher”.

Primeiramente, suas obras seguiam a linha romântica e depois passou a criar obras no estilo naturalista. Na primeira fase romântica, ele escrevia livros no intuito apenas de vendê-los para que pudesse pagar suas contas. Já em sua fase naturalista, ele apresentava obras em que os problemas do Brasil eram evidenciados e contados na história.

Em 1881, ele lançou o livro “O Mulato”, que causou grande repercussão entre a população do Maranhão. Trabalhou em mais alguns jornais e escreveu artigos, contos e peças teatrais. Trabalhou como diplomata a partir de 1895 e frequentou diversos países.

Principais Obras

Casa de Pensão (1884)

Evidencia as histórias de pessoas que saem do interior para morar nas cidades grandes e acabam vivendo em pensões;

O Cortiço (1890)

Retrata as histórias de vida de pessoas que vivem em casas coletivas. Um dos seus maiores sucessos;

O Mulato (1881).

Fonte:  escritores-brasileiros.info

Naturalismo

Em Portugal o Realismo e o Naturalismo, à semelhança do que ocorre com a literatura francesa, são duas direções estéticas com certa independência.

Saindo do Realismo, a que é posterior cronologicamente, o Naturalismo dele se diferencia por conduzir a ciência para o plano da obra de arte, fazendo desta como que meio de demonstração de teses científicas, especialmente de psicopatologia.

O Realismo, mais esteticizante, embora se apoie no que as ciências do séc. XIX vinham afirmando e desvendando, não vai até à profundidade analítica do Naturalismo, donde advém a sua não-preocupação pela patologia, característica do romance naturalista. A par disso, enquanto o Naturalismo implica uma posição combativa, de análise dos problemas que a decadência social evidenciava, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com intenção científica, o Realismo apenas fotografa» com certa isenção a realidade circundante, sem ir mais longe na pesquisa, sem trazer a ciência, dissertativamente, para o plano da obra.

O romance realista encara a podridão social usando luvas de pelica, numa atitude fidalga de quem deseja sanar os males sociais, mas sente perante eles profunda náusea, própria dos sensíveis e estetas. O naturalista, controlando a sua sensibilidade, ou acomodando-a à ciência, põe luvas de borracha e não hesita em chafurdar as mãos nas pústulas sociais e analisá-las com rigorismo técnico, mais de quem faz ciência do que literatura.

Em suma, realistas e naturalistas amparam-se nos mesmos preconceitos científicos bebidos na atmosfera cultural que envolve a todos, mas diferenciam-se no modo como aproveitam os dados de conhecimento na elaboração da sua obra de arte.

Essas diferenças, postas aqui em síntese e nos seus aspectos fundamentais, não têm valor absoluto, porquanto existem vários pontos de contato entre Realismo e Naturalismo, por se orientarem pelas mesmas «verdades» científicas e coexistirem numa época saturada de revolução cultural.

Mais ainda: muito embora se classifiquem os romancistas dessa época em realistas e naturalistas conforme a predominância duma dessas direções estéticas, nos autores portugueses Realismo e Naturalismo acabam muitas vezes por se confundir.

Introduzido o espírito realista em Portugal através da Questão Coimbrã (1865), das Conferências do Casino (1871) e do Crime do Padre Amaro (1875) de Eça de Queirós, iniciou-se um movimento teórico que iria conduzir ao aparecimento do Naturalismo pouco depois. Assim, Júlio Lourenço Pinto (1842-1907) (Do Realismo na Arte, 1877; ensaios in Letras e Artes, 1883-1884; Estética Naturalista, 1885 ), José António dos Reis Dâmaso (1850-1895)

(Anjo da Caridade, romance, 1871; Cenografias, contos, 1882; Júlio Dinis e o Naturalismo, 1884), António José da Silva Pinto (1848-1911) (Do Realismo na Arte, 3.ª ed., in Controvérsias e Estudos Literários, 1878; Realismos, 1880), Alexandre da Conceição (1842-1889) «Realismo e Realistas» e «Realistas e Românticos», in Ensaios de Crítica e Literatura, 1882), Alberto Carlos (A Escola Realista e a Moral, 1880), Luís Cipriano Coe!ho de Magalhães («Naturalismo e Realismo», in Notas e Impressões, 1890), Teixeira Bastos e outros teóricos movimentaram a questão do Naturalismo, que dessa forma se foi impondo ao longo da década de 80.

A par da atividade teorizante, alguns dos teóricos e outros autores lançaram-se concretização do ideário naturalista. De pronto, duas foram as rotas seguidas, representadas pelo Realismo e pelo Naturalismo. Ressalvando-se os elementos comuns, à primeira pertenceram Eça de Queirós, Fialho de Almeida, até certo ponto Trindade Coelho – o contista de Os meus amores, cuja poética delicadeza merece lugar à parte –, Teixeira de Queirós, Luís de Magalhães (O Brasileiro Soares, 1886) e outros, mais preocupados com os aspectos exteriores da realidade física e humana, não obstante, como no caso de Eça, a tendência para o psicologismo.

Mais descritivos do que analíticos, excepção feita de Eça, e assim mesmo parcialmente, não sondam a alma e o espírito das personagens senão para corroborar desvios de comportamento, no geral baseados no exacerbamento dos sentidos e nos apetites carnais. Esse primitivismo, feito de obediência a impulsos anormais superiores à vontade, tirânicos, patenteia-se em todos eles, excepto ainda Eça, que não lhe escapa por completo, como se observa na Luísa d' O Primo Basílio e na Amélia d' O Crime do Padre Amaro.

Retratistas de exteriores e de episódios do quotidiano fisiológico e rasteiro, atêm-se mais à preocupação de surpreender coerentemente uma sociedade corroída que ao propósito de submetê-la à análise fria, imparcial, orientada para um mundo melhor. O naturalismo desses romancistas e contistas está muito mais na posição de espírito baseada no repúdio de qualquer subjetivismo e no desejar para a obra de arte uma orientação mental definidamente científica e objetiva. Esse relativo apego ao naturalismo de Zola explica-se pela influência recebida do romance balzaquiano, especialmente, e do flaubertiano.

É pouco, porém, em face do que se pode observar em romancistas ortodoxamente naturalistas, como José Augusto Vieira, Júlio Lourenço Pinto, Abel Botelho.

Do primeiro citam-se: Fototipias do Minho, contos, 1879, e A divorciada, romance, 1881. Júlio Lourenço Pinto, teórico apaixonado doNaturalismo, pôs em vários romances (Margarida, 1879; Vida Atribulada, 1880; O Senhor Deputado, 1882; O Homem Indispensável, 1884; O Bastardo, 1889) e num livro de contos (Esboços do Natural, 1882) um quadro humano colhido ao vivo e, portanto, atual, mas com cientificismo dogmático que rouba autenticidade às suas criações, pelo intuito de só analisar produtos bastardos e hospitalares. Aqui, como em tudo, se observa a influência de Zola, tomado ao pé da letra, e não mesclado a talento e sensibilidade, necessários para o superar e criar romances de maior força e permanência.

Ainda sob a influência de Zola, Abel Botelho dispôs-se a criticar a sociedade do tempo na série Patologia Social, em outros três romances (Sem remédio..., Amor Crioulo, Os Lázaros) e num livro de contos (Mulheres da Beira), mostrando-lhe, justamente os aspectos perecíveis e em flagrante decomposição. Sua linguagem, forte, abundante, ágil, não esconde a vista aguda do homem sensível e o teatrólogo, capaz de perceber e pintar matizes e subtilidades de toda a ordem. Com altos e baixos, a Patologia Social está toda ela dentro dos moldes do Naturalismo, manifestando, além das qualidades do A., reconhecíveis ao primeiro contato, a preocupação, em que está quase inteiramente isolado, pela luta de classes e pelas questões sociais em geral (cf. sobretudo Amanhã, vol. III da Patologia Social).

Sua ortodoxia naturalista deformou em parte o alcance e o poder da sua obra, mas A. B. soube servir-se do magistério, de Zola para criar romances em que o seu talento de escritor vigoroso e fluente está presente a cada instante. Não escapou à tentação de pintar cenas e tipos escabrosos, mas mesmo nesse aspecto, sobretudo pelo modo como o fez, abriu caminho para as obras de Raul Brandão, debruçado sobre as mesmas chagas sociais, numa atitude de indignado e contemplativo, a sonhar um destino melhor para o Homem. Nesse sentido não se lhe nega valor, em que pese a superação do romance naturalista.

Com o advento do romance à Zola, o Realismo esgota o seu programa e o Naturalismo pouco dura no plano do interesse geral. Entrado o séc. XX noutra atmosfera mental, o Naturalismo desaparece, tragado pelo neo-espiritualismo que se vinha impondo a partir da década de 90. Feito o balanço, afora Eça, Fialho de Almeida e Trindade Coelho, mais realistas que naturalistas, só restam Abel Botelho, e, de certo ângulo, Teixeira de Queirós, como representantes de importância da prosa de ficção do último quartel do séc. XIX.

Fonte:  faroldasletras.no.sapo.pt

Naturalismo

Naturalismo foi uma tendência das artes plásticas, da literatura e do teatro surgida na França no século XIX. Manifestou-se também em outros países europeus, nos Estados Unidos (EUA) e no Brasil. Baseia-se na filosofia de que só as leis da natureza são válidas para explicar o mundo e na de que o homem está sujeito a um inevitável condicionamento biológico e social. Por suas obras retratarem a realidade de forma ainda mais objetiva e fiel do que o realismo, o naturalismo é considerado uma radicalização desse movimento. Se nas artes plásticas não mostra o engajamento ideológico do realismo, na literatura e no teatro mantém a preocupação com os problemas sociais.

Influenciados pelo Positivismo e pela Teoria de Evolução das Espécies, os naturalistas apresentam a realidade com rigor quase científico. Objetividade, imparcialidade, materialismo e determinismo são as bases de sua visão de mundo. Desde 1840, as características doNaturalismo estão presentes na França, mas é em 1880 que o escritor Émile Zola (1840-1902) reúne os princípios dessa tendência no livro de ensaios O Romance Experimental.

A pintura retrata fielmente paisagens urbanas e suburbanas, e seus personagens são pessoas comuns. O artista pinta o mundo como o vê, sem as idealizações nem as distorções que o Realismo cria para expor suas posições ideológicas. As obras concorrem com a fotografia.

Por volta de 1830, o grande interesse por paisagens naturais leva um grupo de artistas a se reunir em Barbizon, na França, para pintar ao ar livre, uma inovação na época. Mais tarde essa prática será adotada pelo Impressionismo. Um dos principais artistas do grupo é Théodore Rousseau (1812-1867), autor de Uma Alameda na Floresta de L'Isle-Adam. Outro nome importante é Camille Corot (1796-1875).

Na literatura, a linguagem dos romances é coloquial, simples, direta. Para descrever vícios e mazelas humanos, muitas vezes se usam expressões vulgares.

Temas do cotidiano urbano, como crimes, miséria e intrigas, mostram-se usuais.

Os personagens são tipificados: o adúltero, o louco, o pobre.

A descrição predomina sobre a narração, de tal modo que se considera que os autores, em vez de narrar acontecimentos, os descrevem em detalhes. Fatos e emoções ficam em segundo plano. O expoente é Émile Zola, autor de Germinal. Também são naturalistas os irmãos Goncourt, de Germinie Lacerteux.

No teatro, as principais peças baseiam-se em textos de Zola, como Thérèse Raquin, Germinal e A Terra. A encenação deste último constitui a primeira tentativa de produzir um cenário tão realista quanto o texto. Principal diretor de peças naturalistas da época na França, André Antoine (1858-1943) põe em cena animais vivos e a simulação de um pequeno riacho.

Outro autor significativo do período, o francês Henri Becque (1837-1893) aplica os princípios naturalistas à comédia de boulevard, que adquire um tom amargo e ácido. As principais peças são A Parisiense e Os Abutres. Também se destaca o sueco August Strindberg (1849-1912), autor de Senhorita Júlia.

No Brasil, a tendência manifesta-se nas artes plásticas e na literatura.

Não existem textos para teatro, que se limita a encenar peças francesas.

Nas artes plásticas, o Naturalismo acha-se presente na produção dos artistas paisagistas do Grupo Grimm. Seu líder é o alemão George Grimm (1846-1887), professor da Academia Imperial de Belas-Artes. Em 1884, ele rompe com a instituição, que segue as regras das academias de arte e rejeita a prática de pintar a natureza ao ar livre sem a referência dos modelos europeus. Funda, então, o Grupo Grimm em Niterói, no Rio de Janeiro. Entre seus alunos se destaca Antonio Parreiras (1860-1945). Outro naturalista importante é João Batista da Costa (1865-1926), que procura captar com objetividade a luz e as cores da paisagem brasileira.

Na literatura, em geral não há fronteiras nítidas entre textos naturalistas e realistas. No entanto, o romance O Mulato (1881), de Aluísio Azevedo (1857-1913), é considerado o marco do Naturalismo no país. Trata-se da história de um homem culto, mulato, que vive o preconceito racial ao se envolver com uma mulher branca. Outras obras classificadas como naturalistas são O Ateneu, de Raul Pompéia (1863-1895), e A Carne, de Júlio Ribeiro (1845-1890). O naturalismo encontra-se na base do regionalismo, que, nascido no Romantismo, se consolida na literatura brasileira no fim do século XIX e permanece até hoje.

Distantes da preocupação com a realidade brasileira, mas muito identificados com a arte moderna e inspirados pelo Dadá, estão os pintores Ismael Nery e Flávio de Carvalho (1899-1973). Na pintura merecem destaque ainda Regina Graz (1897-1973), John Graz (1891-1980), Cícero Dias (1908-) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).

Di Cavalcanti retrata a população brasileira, sobretudo as classes sociais menos favorecidas. Mescla elementos realistas, cubistas e futuristas, como em Cinco Moças de Guaratinguetá. Outro artista modernista dedicado a representar o homem do povo é Candido Portinari, que recebe influência do Expressionismo. Entre seus trabalhos importantes estão as telas Café e Os Retirantes.

Os autores mais importantes são Oswald de Andrade e Mário de Andrade, os principais teóricos do movimento. Destacam-se ainda Menotti del Picchia e Graça Aranha (1868-1931). Oswald de Andrade várias vezes mescla poesia e prosa, como em Serafim Ponte Grande. Outra de suas grandes obras é Pau-Brasil.

O primeiro trabalho modernista de Mário de Andrade é o livro de poemas Paulicéia Desvairada. Sua obra-prima é o romance Macunaíma, que usa fragmentos de mitos de diferentes culturas para compor uma imagem de unidade nacional. Embora muito ligada ao simbolismo, a poesia de Manuel Bandeira também exibe traços modernistas, como em Libertinagem.

Heitor Villa-Lobos é o principal compositor no Brasil e consolida a linguagem musical nacionalista. Para dar às criações um caráter brasileiro, busca inspiração no folclore e incorpora elementos das melodias populares e indígenas. O canto de pássaros brasileiros aparece em Bachianas Nº 4 e Nº 7. Em O Trenzinho Caipira, Villa-Lobos reproduz a sonoridade de uma maria-fumaça e, em Choros Nº 8, busca imitar o som de pessoas numa rua. Nos anos 30 e 40, sua estética serve de modelo para compositores como Francisco Mignone (1897-1986), Lorenzo Fernandez (1897-1948), Radamés Gnattali (1906-1988) e Camargo Guarnieri (1907-1993).

Ainda na década de 20 são fundadas as primeiras companhias de teatro no país, em torno de atores como Leopoldo Fróes (1882-1932), Procópio Ferreira (1898-1979), Dulcina de Moraes (1908-1996) e Jaime Costa (1897-1967). Defendem uma dicção brasileira para os atores, até então submetidos ao sotaque e à forma de falar de Portugal. Também inovam ao incluir textos estrangeiros com maior ousadia psicológica e visão mais complexa do ser humano.

Fonte:  www.spiner.com.br

Naturalismo

O principal autor naturalista no Brasil é Aluísio Azevedo. O determinismo social predomina em sua obra, construída através de observação rigorosa do mundo físico e da zoomorfização das personagens. Aluísio é autor de O mulato, Casa de pensão e O cortiço, obras com acentuado caráter investigativo e cuidadosa análise de comportamentos sociais.

Com o que ficar atento?

A riqueza literária do Realismo-Naturalismo no Brasil não se restringe à prosa de ficção. A dramaturgia também evolui e consolida a comédia de costumes como um gênero maior ? na obra de França Júnior e Artur Azevedo, por exemplo.

Vale lembrar que o Realismo-Naturalismo brasileiro oferece amplo painel de uma época em que o país era monárquico, escravocrata, patriarcalista e passava por profundas mudanças socioeconômicas e culturais.

Como pode cair no vestibular?

Muitos vestibulares tem cobrado conhecimentos sobre a obra de Machado de Assis e os temas problematizados pelo autor, como a própria vida e a literatura.

Fonte:  guiadoestudante.abril.com.br

Naturalismo

Corrente ou estilo literário e artístico que busca reproduzir os fatos observáveis sem pré-julgamentos morais ou estéticos. Surgido na França nas últimas décadas do século XIX.

O progresso acelerado das ciências naturais, o amadurecimento da ideologia positivista e a culminação do realismo abriram caminho, no final do século XIX, para a afirmação da estética naturalista.

Denomina-se naturalismo o movimento artístico que se propõe empreender a representação fiel e não idealizada da realidade, despojada de todo juízo moral, e vê a obra de arte como uma "fatia da vida". O ideólogo da estética naturalista foi o escritor francês Émile Zola, cujo ensaio intitulado "Le Roman expérimental" (1880; "O romance experimental") foi entendido como manifesto literário da escola. Grandes autores do período, como o francês Guy de Maupassant, o dramaturgo alemão Gerhart Hauptmann e Eça de Queirós se basearam nos princípios do naturalismo.

A obra literária naturalista adotou teorias científicas, como a da hereditariedade, para explicar os problemas sociais, contemplados com acentuado pessimismo, e a infelicidade dos indivíduos. Os romances naturalistas se destacam, também, pela franqueza sem precedentes com que tratam os problemas sexuais. Na técnica e no estilo, os naturalistas levaram às últimas conseqüências os postulados do realismo. Acima de tudo, buscaram dar o máximo vigor aos métodos de observação e documentação, e tornaram mais precisa a reprodução da língua falada. Na criação do personagem, o naturalismo optou pela generalização de casos excepcionais e escolheu psicopatas e alcoólatras para protagonizar seus romances, marcados por situações extremas de degenerescência e miséria.

Na pintura, o naturalismo se manifestou especialmente nas obras de Gustave Courbet, Édouard Manet e outros artistas realistas que evoluiriam, mais tarde, para o impressionismo. "Os comedores de batatas", conhecida tela da Van Gogh de 1885, mostra personagens muito semelhantes aos mineiros oprimidos descritos por Zola no romance Germinal, do mesmo ano.

Foi no teatro, entretanto, que a estética naturalista promoveu mudanças definitivas. A busca realista da verossimilhança deu lugar à disposição de encenar a própria vida real, o que teve profunda repercussão sobre as técnicas teatrais. Ao naturalismo o teatro deve a adequação dos cenários, figurinos e objetos de cena ao texto e à atmosfera pretendida pelo encenador, já que até avançado o século XIX, era freqüente que o ator escolhesse seus trajes mais ricos para vir à cena, qualquer que fosse o papel interpretado, e que os mesmos cenários fossem usados em diferentes peças. Cenários e figurinos adquiriram então a função de dar um depoimento visual sobre personagens e situações dramáticas.

A iluminação também passou pelo crivo da autenticidade: nenhuma luz que deixasse transparecer a teatralidade era aceitável, como a luz da ribalta, que ilumina a cena de baixo para cima. O tempo teatral passou a identificar-se ao tempo real de transcurso dos acontecimentos. A encenação naturalista incorporou a sonoplastia, à procura do mimetismo perfeito. Finalmente, o teatro naturalista coincidiu com o aparecimento da figura do encenador, ou diretor, e da noção de encenação ou montagem, como uma das inúmeras possibilidades de levar ao palco um mesmo texto dramático.

Fonte:  Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda

Naturalismo

ORIGENS

Naturalismo é uma espécie de prolongamento do Realismo. Os dois movimentos são quase paralelos e muitos historiadores vêem no primeiro uma manifestação do segundo. Assim, o Naturalismo assume quase todos os princípios do Realismo, tais como o predomínio da objetividade, da observação, da busca da verossimilhança, etc., acrescentando a isso - e eis o seu traço particular - uma visão cientificista da existência.

Conseqüência das novas idéias científicas e sociológicas que varriam a Europa, a visão naturalista ergue-se sobre os preceitos do evolucionismo, da hereditariedade biológica, do positivismo e da medicina experimental. Hippolyte Taine - muito lido na época - afirma que "três fontes diversas contribuem para produzir o estado moral elementar do homem: a raça, o meio e o momento." O maior dos naturalistas, Émile Zola, delimita o caráter dessa junção entre literatura e atividade científica, e a subordinação da primeira diante da segunda: Meu desejo é pintar a vida, e para este fim devo pedir à Ciência que me explique o que é a vida, para que eu a fique conhecendo.

O Romance Experimental

Zola não esconde a sua admiração por Claude Bernard, fundador da chamada medicina experimental. O romancista procura se equiparar ao médico. Seu método de composição artística pressupõe uma objetividade e um rigor tão absolutos que o escritor se transforma num mero ilustrador dos postulados das ciências. Diz ele: O romance deve ser um estudo objetivo das paixões. Devemos observar escrupulosamente as sensações e os atos das pessoas. Limito-me a fazer em dois corpos vivos aquilo que os cirurgiões fazem em cadáveres.

Esta proximidade da literatura com o método de investigação médica de Bernard leva Zola a designar o romance naturalista também como romance experimental.

A pretensão científica torna-se cada vez mais obstinada: O romance experimental é uma conseqüência da evolução científica do século. Ele continua e completa a fisiologia; ele se apóia sobre a química e a física; ele substitui o estudo do homem abstrato e metafísico pelo estudo do homem natural, submetido à leis físico-químicas e determinado pelas influências do meio. Ele é, em uma palavra, a literatura de nossa idade científica.

SURGIMENTO DO NATURALISMO

O Naturalismo surge como programa e atividade no romance Teresa Raquin (1868), de Zola, que apresenta um prólogo muito ilustrativo das tendências cientificistas do movimento:

Em Teresa Raquin quis estudar temperamentos e não caracteres. Escolhi personagens dominados ao máximo por seus nervos e por seu sangue, desprovidos de livre arbítrio, arrastados a cada ato de sua vida pela fatalidade da carne. Teresa e Lourenço são brutos humanos, nada mais. Tratei de seguir, passo a passo, em tais selvagens, o trabalho surdo das paixões, as pressões do instinto, as alterações cerebrais, produtos de uma crise nervosa... Que se leia o romance com cuidado e se verá que cada capítulo é um estudo de um curioso caso fisiológico.

CARACTERÍSTICAS DO NATURALISMO

As características específicas do Naturalismo resultam da sua aproximação com as diversas ciências experimentais e positivas.

Poderíamos esquematizá-las assim:

Naturalismo: todas as características do Realismo + cientificismo (Cientificismo: adoção de leis científicas que regeriam a vida dos personagens)

Leis sociológicas:

a) determinismo do meio

b) determinismo histórico

Leis biológicas:

a) determinismo da herança, dos temperamentos e dos caracteres

b) determinismo da raça

A questão dos vários determinismos é básica para se compreender o esforço cientificista do romance experimental.

Destacamos aqueles que predominam, seja na Europa, seja no Brasil:

1. Determinismo do Meio

O homem como produto do meio é a tese central do movimento. O indivíduo não passa de uma projeção do seu cenário, com o qual se confunde e do qual não consegue escapar. Daí a insistência na descrição do meio, que sempre traga e tritura o homem. Em O cortiço, a obra mais importante da estética naturalista brasileira: o ambiente degradado gera seres degradados, a imundície do cenário se transfere para as almas humanas.

2. Determinismo dos Instintos

Cada indivíduo traz dentro de si instintos hereditários, que explodem repentinamente em manifestações de luxúria, tara, indignidade e crimes. Por mais que cada um desenvolva sua racionalidade, seu domínio sobre si próprio, ajustando-se convivência social, nunca será suficientemente forte para domar as forças subterrâneas que vêm à tona, arrastando-o a um universo de anormalidades e vícios. Em O cortiço encontramos a seguinte passagem, que nos pode dar uma idéia da força do instinto: Amara-o a princípio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos, depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vício que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranqüila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior.

3. Determinismo da Herança Biológica

De acordo com teses biológicas então dominantes, o homem receberia o temperamento por um tipo de herança transmitida pelo sangue. Mais do que uma propensão ou tendência - como alguns o entendem hoje - o temperamento funciona, na ciência e literatura naturalista, como suporte decisivo da construção da personalidade e mola propulsora do comportamento individual, de tal forma que o homem não passa de um joguete de incontroláveis forças atávicas. Vejamos um curto parágrafo de Germinal: Isso revolvia nele todo o desconhecimento apavorante: o mal hereditário, a longa hereditariedade da embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino?

Neste mesmo componente "biológico" entra a questão da raça. Alguns intelectuais começam a forjar os primeiros ensaios sobre as "diferenças naturais" entre as várias etnias, abrindo caminho para o desprezível pensamento racista do século XX. É verdade que nem sempre há uma intenção preconceituosa nos teóricos naturalistas, mas eles acabam invariavelmente celebrando o homem ariano. Taine, o mais influente pensador do período, associa a idéia de raça a certas disposições hereditárias: Três fontes diversas contribuem para produzir um estado moral elementar: a raça, o meio e o momento. O que se chama raça são estas disposições inatas e hereditárias que o homem carrega consigo.(...) Há naturalmente variedade de homens como de touros e de cavalos: uns valorosos e inteligentes, e outros tímidos e de inteligência curta; uns capazes de concepções e criações superiores, e outros reduzidos à idéias e s invenções rudimentares; alguns dispostos mais especialmente para certos trabalhos e dotados mais ricamente de certos instintos, assim como se vê cães com aptidões especiais para a corrida ou para o combate, ou para a caça, ou para a guarda de casas e rebanhos.

4. Personagens Patológicos

Para comprovarem as suas teses - primordialmente a da hereditariedade do temperamento - os escritores valem-se muitas vezes de personagens mórbidos, anormais, doentes. É uma legião de bêbados, assassinos, incestuosos, devassos, prostitutas, lésbicas, etc. "Acúmulo de horrores cientificamente comprovados", afirmou com certa razão um crítico europeu. No prefácio de A taverna - onde pela primeira vez o proletariado emerge como protagonista central na literatura - Zola registra esta patologia, ainda que lhe atribuindo causas sociais: Quis descrever a trajetória fatalmente em decadência de uma família operária, dentro do marco corrompido de nossos arrabaldes. A embriaguez e a ociosidade conduzem ao afrouxamento dos laços familiares, às impurezas da promiscuidade, o esquecimento progressivo dos sentimentos honestos, que acabam tendo como conclusão lógica a vergonha e a morte. Esta é uma obra verídica. O primeiro estudo sobre o povo que não mente e que possui o cheiro deste povo. Meus personagens não são maus, apenas ignorantes e influídos pelo ambiente de trabalho rude e miséria em que vivem.

5. Crítica Social Explícita

Todo autor naturalista elabora uma crítica direta a aspectos da realidade social. No entanto, mesmo sendo um crítico implacável, ele não acredita em saídas ou esperança para a sociedade, a qual visualiza como um organismo biológico, sujeito às leis vitais de nascimento, apogeu, decrepitude e morte. Organismo frente ao qual pouco ou nada pode a ação dos indivíduos. Por esse motivo, a crítica acaba normalmente em pessimismo fatalista. E já que não tem condições de controlar o universo social, o ser humano converte-se em mero fantoche de um destino traçado pelo meio e pela herança.

6. Forma Descritiva

A preocupação com a verossimilhança levou os naturalistas a um método de escrever baseado na descrição. Uma descrição minuciosa, detalhada ao limite do inventário, precisa e, às vezes, inútil porque ela só funciona num romance como elemento auxiliar da narração. Porém, devemos ter em conta que, em várias obras, a descrição lenta e exaustiva de um cenário, de objetos, etc., exerce papel significativo.

A pintura que Zola faz das minas de hulha, ligando-as à vida miserável de seus trabalhadores em Germinal, é perfeita, mostrando o massacre do meio ambiente sobre o indivíduo e a exploração dos donos das minas sobre os operários. Da mesma maneira, o registro da vida num navio feita por Adolfo Caminha, em O Bom Crioulo, ou ainda os detalhes quase preciosistas da agitação de uma casa de cômodos, mostrados por Aluísio Azevedo, em Casa de pensão, são absolutamente necessários para a realização do argumento.

Obras principais:

1- O Mulato

O primeiro texto importante do escritor é ainda uma mistura mal resolvida de Romantismo e Naturalismo. O jovem bacharel Raimundo, mulato de olhos azuis, desembarca em São Luís, em busca de suas origens familiares e dos misteriosos recursos que sustentaram os seus longos estudos em Portugal. Apesar de sua pele clara, ele desperta o preconceito racial dos provincianos e, ao mesmo tempo, a paixão histérica de Ana Rosa, filha do rico comerciante português Manuel Pedro, que vem a ser o tio e o tutor desconhecido do rapaz. Mesmo não sabendo que Ana é sua prima, Raimundo evita-a completamente. Mais tarde, (e de maneira inexplicável) ele acabará por pedi-la em casamento, porém Manuel lhe negará a mão da filha. A negativa corresponde à percepção do racismo por parte do mulato. Como resposta, Raimundo e Ana resolvem enfrentar o mundo e se amam fisicamente, disso resultando a gravidez da moça.

Os lances melodramáticos, mesclados com candentes denúncias sociais, acentuam-se com a descoberta de vários crimes: o assassinato do pai do mulato, também ele um rico comerciante português, a loucura de sua mãe negra, induzida por bárbaras torturas escravagistas, etc. Por fim, quando o leitor já está confuso com tantas peripécias, revela-se o responsável pelo terror: é o cônego Diogo, padre devasso, sanguinário e racista.

Ao perceber que Raimundo encontrara o fio da meada,o cônego convence o caixeirinho Dias, ex-namorado de Ana Rosa, a matá-lo. O mulato é liquidado e a jovem, ao ver o amante morto, tem uma crise histérica e aborta. Em seguida, a narrativa projeta-se para seis anos depois: o assassinato fica impune, ninguém lembra mais de Raimundo. Dias e Ana Rosa estão bem casados, prósperos e com três filhos.

O ataque do escritor ao preconceito racial, ao reacionarismo do clero e a estreiteza do universo provinciano, mais o registro fisiológico das paixões, sacodem São Luís e fazem os leitores esquecer o que no romance havia de disparatado folhetim romântico. Contudo, esta indeterminação entre Romantismo e Naturalismo começaria a desaparecer no relato subseqüente.

O Cortiço - (Aluísio Azevedo - 1890 )

Resumo

João Romão, português, bronco e ambicioso, ajuntando dinheiro a poder de penosos sacrifícios, compra pequeno estabelecimento comercial no subúrbio da cidade (Rio de Janeiro). Ao lado morava uma preta, escrava fugida, trabalhadeira, que possuía uma quitanda e umas economias. Os dois amasiam-se, passando a escrava a trabalhar como burro de carga para João Romão. Com o dinheiro de Bertoleza (assim se chamava a ex-escrava), o português compra algumas braças de terra e alarga sua propriedade. Para agradar a Bertoleza, forja uma falsa carta de alforria. Com o decorrer do tempo, João Romão compra mais terras e nelas constrói três casinhas que imediatamente aluga. O negócio dá certo o novos cubículos se vão amontoando na propriedade do português. A procura de habitação é enorme, e João Romão, ganancioso, acaba construindo vasto e movimentado cortiço. Ao lado vem morar outro português, mas de classe elevada, com certos ares de pessoa importante, o Senhor Miranda, cuja mulher leva vida irregular. Miranda não se dá com João Romão, nem vê com bons olhos o cortiço perto de sua casa. No cortiço moram os mais variados tipos: brancos, pretos, mulatos, lavadeiras, malandros, assassinos, vadios, benzedeiras etc.

Entre outros: a Machona, lavadeira gritalhona, "cujos filhos não se pareciam uns com os outros"; Alexandre, mulato pernóstico; Pombinha, moça franzina que se desencaminha por influência das más companhias; Rita Baiana, mulata faceira que andava amigada na ocasião com Firmo, malandro valentão; Jerônimo e sua mulher, e outros mais. João Romão tem agora uma pedreira que lhe dá muito dinheiro. No cortiço há festas com certa freqüência, destacando-se nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual, o que faz Jerônimo perder a cabeça. Enciumado, Firmo acaba brigando com Jerônimo e, hábil na capoeira, abre a barriga dó rival com a navalha e foge. Naquela mesma rua, outro cortiço se forma. Os moradores do cortiço de João Romão chamam-no de "Cabeça-de-gato"; como revide, recebem o apelido de "Carapicus". Firmo passara a morar no "Cabeça-de-Gato", onde se torna chefe dos malandros. Jerônimo, que havia sido internado em um hospital após a briga com Firmo, arma uma emboscada traiçoeira para o malandro e o mata a pauladas, fugindo em seguida com Rita Baiana, abandonando a mulher. Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do "Cabeça-de-gato" travam séria briga com os "Carapicus". Um incêndio, porém, em vários barracos do cortiço de João Romão põe fim à briga coletiva. O português, agora endinheirado, reconstrói o cortiço, dando-lhe nova feição e pretende realizar um objetivo que há tempos vinha alimentando: casar-se com uma mulher "de fina educação", legitimamente. Lança os olhos em Zulmira, filha do Miranda. Botelho, um velho parasita que reside com a família do Miranda e de grande influência junto deste, aplaina o caminho para João Romão, mediante o pagamento de vinte contos de réis. E em breve os dois patrícios, por interesse, se tornam amigos e o casamento é coisa certa. Só há uma dificuldade: Bertoleza. João Romão arranja um piano para livrar-se dela: manda um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe o paradeiro. Pouco tempo depois, surge a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. A escrava compreende o destino que lhe estava reservado, suicida-se, cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão.

Observações importantes e textos

O ROMANCE SOCIAL

"Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio atinou com a fórmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se à seqüência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista." (Cf. Prof. Alfredo Bosi).

Todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras. O Cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão.

CRÍTICA AO CAPITALISMO SELVAGEM

O tema é a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado João Romão que aspira à riqueza e Miranda, já rico, que aspira à nobreza. Do outro, a gentalha", caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome.

"E naquela terra encharcada o fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a fervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva, uma geração que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se como larvas no esterco."

"As corridas até a venda reproduziam-se num verminar de formigueiro assanhado."

"Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas."

A redução das criaturas ao nível animal (zoomorfização) é característica do Naturalismo e revela a influência das teorias da Biologia do Século XIX (darwinismo, lamarquismo) e do DETERMINISMO (RAÇA, MEIO, MOMENTO).

".. depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado de carroça, estrompado como uma besta.

'Leandra... a ‘Machona’, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo "Rita Baiana... uma cadela no cio".

A FORÇA DO SEXO

O sexo é, em O Cortiço, força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica do determinismo biológico, e do naturalismo, conduz Aluísio a buscar quase todas as formas de patologia sexual, desde o "acanalhamento" das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo, etc.

Observe esta, descrição de Rita Baiana, e do fascínio que exercia sobre o português Jerônimo:

"Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; e/a era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em tomo da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca."

OS TIPOS HUMANOS

João Romão "E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia o vinha de pedreira para a venda, de vende As hortas é ao capinzal, sempre em mangas de camisa, tamancos, sem meras, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas". . possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estepe cheio de palha".

Albino "Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até o pescocinho mole e tino."

Botelho "Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho de pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio ... foi lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina ". Você tem nestes trechos excelentes exemplos de descrição realista e objetiva.

A SITUAÇÃO DA MULHER

As mulheres são reduzidas a três condições: primeira, de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoloza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; terceira, de sujeito, são as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.

O DESFECHO DO ROMANCE

Delatada por João Romão, os antigos donos de Bertoleza diligenciam para capturar a escrava fugida. Procurada pelos policiais, a negra se suicida.

Observe o exagero da cena, e a ironia do desfecho.

"A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.

Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e entes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lodo.

E depois emborcou para frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.

João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com os mãos.

Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito."

RAUL POMPÉIA (1863-1895)

Obra Principal: O Ateneu (1888)

Ainda que tenha escrito poemas (Canções sem metro), uma novela (Uma tragédia no Amazonas), e deixado obras inéditas, Raul Pompéia permanece como autor de um romance essencial de nossa literatura: O Ateneu, que traz um enganoso subtítulo: Crônica de saudades.

Fortemente pessoal, - mas não a ponto de ser considerado uma autobiografia - o texto parte das experiências do autor num sistema de internato.. Marcado de forma intensa por estes anos, que são para ele de sofrimento e solidão, trata de recriá-los artisticamente, valendo-se para isso de um personagem chamado Sérgio.

Projeção do escritor, Sérgio evoca - em primeira pessoa - o início de sua adolescência passada no internato. A narrativa é construída a partir da perspectiva de Sérgio já amadurecido. E o leitor tem a visão de um sujeito adulto que lembra os acontecimentos. Não a visão que o menino teria ao ingressar no internato.

Assim, o romance é a memória adulta de uma experiência juvenil. Atente-se para o primeiro parágrafo do texto: Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, porta do Ateneu. 'Coragem para a luta.' Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico.

Vê-se aí que o narrador, no presente (a idade madura), analisa os dados do passado. Suas lembranças confundem-se com os julgamentos que emitirá sobre a vida no educandário. Não há, pois, uma única história encadeada, um enredo propriamente dito, e sim um acúmulo de fatos, percepções, situações e impressões, que servem para indicar a psicologia e a estrutura social do mundo do internato. O próprio tempo objetivo da ação dissolve-se na densa subjetividade do narrador.

A inexistência de uma intriga, à maneira romântica ou realista, favorece os desígnios de Raul Pompéia - ele não quer contar a vida no Ateneu, ele quer desmascará-la e interpretá-la. Os episódios servem como desvelamentos sucessivos da corrupção e da miséria moral que imperam no colégio. O texto denota sempre uma atmosfera de crise. Sobretudo, a crise das ilusões de Sérgio: Onde metera a máquina dos meus ideais naquele mundo de brutalidade que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando à investigação de minha inexperiência?

A Corrupção

Sensível ao extremo, Sérgio percebe a queda das aparências: "Cada rosto amável daquela infância era a máscara de uma falsidade, o prospecto de uma traição." "Solitário e solidário" - conforme análise do crítico Astrogildo Pereira -, procura ligações autênticas com os colegas. Mas o que encontra é a brutalidade, a vontade de poder, a exploração e o homossexualismo. Todas as camaradagens são efêmeras e dissimuladas:

Um cáfila! (dizia Rebelo) Não imagina, meu caro Sérgio. Conte como uma desgraça ter de viver com esta gente, (...) Aí vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos. Têm mais pecados na consciência que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vício em cada polegada de pele. Fiem-se neles. São servis, traidores, brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Sócios de bandalheiras! Cheiram à corrupção, empestam de longe.

Há no colégio uma explícita divisão entre fortes e fracos. O relacionamento entre os colegas reduplica os valores do universo social: opressores e oprimidos. A saída dos frágeis é adquirir a "proteção" de um dos rapazes mais fortes, porém o preço é alto:

Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. (...) Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. (...) Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admitir protetores.

Dificilmente alguém se isenta do homossexualismo sutil que assalta as salas de aulas, os corredores e os dormitórios do Ateneu. Exceção feita a Rebelo, todas as amizades de Sérgio são ambíguas. Ele próprio - por medo - parece dispor-se a certo tipo de relacionamento:

Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de ânimo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me dentro. Premia-me a força das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a lição viril de Rebelo; prescindir de protetores. Eu desejei um protetor, alguém que me valesse, naquele meio hostil e desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras. (...) Pouco a pouco me ia invadindo a efeminação mórbida das escolas. (...) E, como se a alma das crianças, à maneira do físico, esperasse realmente pelos dias para caracterizar em definitivo a conformação sexual do indivíduo, sentia-me possuído de certa necessidade preguiçosa de amparo, volúpia de fraqueza...

Os vínculos de Sérgio com Sanches e Bento Alves estão assinalados por esta terrível atração que, às vezes, os dominados têm pelos dominadores. O quadro onde se desenha a figura de Bento Alves é bem nítido: o seu poder sedutor reside na força física:

Consideravam-no principalmente pela nomeada de hercúleo. Os fortes constituem uma fidalguia de privilégios no internato. (...) Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. Para me fitar espera que eu tirasse dele os meus olhos. (...) Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me...

Veja-se também a dúbia afeição do narrador por Egbert:

Vizinhos ao dormitório, eu, deitado, esperava que ele dormisse para vê-lo dormir e acordava mais cedo para vê-lo acordar. Tudo que nos pertencia era comum.

Eu por mim positivamente o adorava e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração até a cor da pele e correção das formas.

Aristarco, "monstro moral"

A síntese da dissolução de todos os valores é Aristarco, o diretor do colégio. Para Sérgio, ele encarna a perversidade do sistema. E o ódio, que o narrador-adulto guarda do internato, converge para sua figura caricatural e grotesca. Sem qualquer vislumbre humanista, dirige a escola como se ela fosse uma casa de comércio: Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei - o autocrata*excelso dos silabários*; a pausa hierárquica do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público.(...)

A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia ele: aqui está um grande homem...(...) Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco satisfazia-se interinamente com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.

O Mundo Degradado

Mário de Andrade reparou que ninguém parece escapar à corrupção que domina o colégio: professores, colegas, funcionários, etc. Mesmo Ema, esposa de Aristarco, dada pelo narrador como uma criatura generosa, é envolvida num clima de difuso erotismo em seu contato com Sérgio. Um adolescente, Franco, por sua fragilidade e fracasso nos estudos, torna-se o bode expiatório do colégio. Sérgio aproxima-se dele e descobre que inclusive o fraco está contaminado pela perversidade.

Até mesmo o personagem mais simpático do livro, o Dr. Cláudio - famoso por suas conferências, nas quais sempre manifestava um pensamento revolucionário - revela uma cínica argumentação a respeito do internato: É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, (...) aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, (...) abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? Tanto melhor: é a escola da sociedade.

Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo lá fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora. (...)E não se diga que é um viveiro de maus germes, seminário de nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vem de fora.

Também Sérgio se corrompe: "Tornei-me um animalzinho ruim." Sofre o condicionamento do meio, torna-se vítima do sistema. O que não o impede - conforme observação de Alfredo Bosi - de se converter em promotor: seu texto tem o alcance de uma poderosa acusação contra o internato. E na exata medida em que o internato representa a sociedade, sua destruição através de um incêndio - desnecessário para a coerência do romance - assume uma dimensão simbólica. O fogo que consome o Ateneu consome também a organização social que o fizera possível.

O sucesso de Aristarco origina-se dessa aparência de educador. Mantém-se graças ao pedantismo, ao brilho e à violência de sua retórica. O discurso encobre e mistifica a realidade, a linguagem serve ao poder: "Um trabalho insano! [dizia Aristarco.] Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações, encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos ímpetos; amordaçar excessivos ardores; retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a depravação dos inocentes; espreitar os sítios obscuros; fiscalizar as amizades; desconfiar das hipocrisias; ser amoroso, ser violento, ser firme; triunfar dos sentimentos de compaixão para ser correto; proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão depois... (...) Ah, meus amigos, concluiu ofegante, não é o espírito que me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preocupação...

É o caráter! Não é a preguiça o inimigo, é a imoralidade!' Aristarco tinha para esta palavra uma entonação especial, comprida e terrível, que nunca mais esquece quem a ouviu de seus lábios. 'A imoralidade'. E recuava tragicamente, crispando as mãos. 'Ah! mas eu sou tremendo quando esta desgraça nos escandaliza. Não! Estejam tranqüilos os pais! No Ateneu, a imoralidade não existe. Velo pela candura das crianças, como se fossem não digo meus filhos: minhas próprias filhas!

O adolescente Sérgio descobre a falsidade da linguagem de Aristarco. O adulto Sérgio - inventariando o passado no colégio - leva a hipocrisia das falas de Aristarco até os limites da sordidez. E o diretor nos é apresentado em toda a sua hipocrisia e vileza. Ele ama, sobretudo, a si mesmo, ou melhor, ele ama a imagem que fez de si. Os bajuladores, os que reforçam a imagem do "grande educador", são recompensados. Um professor chega a gritar: "Acima de Aristarco - Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus - Aristarco."

Na figura, caricaturada ao extremo por Sérgio, existe algo de megalomania. O seu narcisismo, o sonho com a eternidade de um busto, indica um comportamento anormal. Mas essa anormalidade (segundo o narrador) é institucionalizada pelo outros professores que acabam inaugurando festivamente o busto de Aristarco, perante ele mesmo.

Autocrata: mandatário com poderes absolutos.

Silabários: o conjunto que compõe a escrita silábica.

Sempre manifestava um pensamento revolucionário - revela uma cínica argumentação a respeito do internato:

A Linguagem

A linguagem de Raul Pompéia filia-se à chamada "prosa artística", desenvolvida na França pelos famosos irmãos Goncourt. Trabalhada de maneira intensa pelo autor, com grande força plástica e sonora, passa longe da noção realista de simplicidade e despojamento, encontrando em comparações, metáforas e na sofisticação vocabular a sua expressividade. O tom requintado dá-lhe, s vezes, certo artificialismo.

Não é inadmissível supor também que este estilo - velado e difícil pelo refinamento verbal - corresponda à ambigüidade do escritor, no sentido de simultaneamente desvelar e ocultar as realidades psicológicas e as vivências que ele experimentou no colégio.

Trata-se, de qualquer maneira, de um estilo fortemente literário e, portanto, bastante afastado do tom coloquial que predomina no romance a partir da revolução modernista. Em vista disso, há uma natural dificuldade por parte dos alunos para efetivar a leitura de O Ateneu. Porém, um bom dicionário e um esforço de concentração permitem aos mais curiosos o acesso a esta obra-prima da narrativa brasileira do século XIX.

A Classificação

A ânsia classificatória dos historiadores literários brasileiros não se reduz a uma mera questão didática. É que nossos autores precisam ser catalogados segundo modelos europeus. E quando um artista nacional foge, internacionalmente ou não, dos padrões das grandes metrópoles culturais, arma-se a confusão. Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Raul Pompéia produzem obras cuja originalidade impede o seu enquadramento em categorias européias rígidas. Isso confunde muitos de nossos estudiosos literários.

O Ateneu, por exemplo, já foi incluído na estética naturalista. A idéia da corrupção desencadeada pelo meio percorre o romance. Mas a diluição da objetividade narrativa num angustiante subjetivismo afasta o texto dos princípios daquele movimento.

Vários críticos consideram o relato como realista, usando os mesmos critérios para a classificação da obra de Machado de Assis, isto é, tratar-se-ia de um realismo particular, pessoal, intransferível. Este conceito, como já vimos, possui tamanha abrangência que nenhum livro escrito no Ocidente deixaria de ser realista.

Mais recentemente, alguns críticos buscaram uma similitude entre a obra de Raul Pompéia e valores do Impressionismo europeu, numa engenhosa aproximação.

Um romance impressionista?

Com certeza O Ateneu supera a formulação tradicional do realismo, pois apresenta um narrador cheio de emotividade. O Sérgio-adulto gostaria de rememorar com isenção as experiências de menino, porém à medida que submerge no passado, este começa a voltar com tamanha vibração dolorosa que a objetividade dilui-se. É como se o adulto fosse tragado pelas impressões do menino que teimam em persistir na sua alma. Assim, O Ateneu se converte na pura expressão das emoções de Sérgio: sofrimento do menino e desejo de vingança do adulto. Essa densidade das impressões impede que o romance seja objetivo ou neutro.

Teria ele então um caráter impressionista?

Ora, o Impressionismo é um estilo que tem o seu apogeu durante as últimas décadas do século XIX, principalmente no campo das artes plásticas. Seu princípio básico é o de que todo e qualquer conhecimento racional e objetivo da realidade é precedido de uma sensação. Ou seja, de uma impressão sobre essa realidade.

E se até ali a arte concentrara-se na observação detalhada das múltiplas facetas do real, agora, ao inverso, a arte deve procurar reproduzir as impressões do sujeito perante determinados objetos. Delimitando historicamente o Impressionismo, diz Arnold Hauser:

É uma arte citadina, por excelência, não só porque pinta a cidade, mas porque também vê o mundo com olhos de citadino, e reage ante as impressões exteriores com os nervos superexcitados do homem técnico moderno; é um estilo citadino porque descobre a versatilidade, o ritmo nervoso, as impressões súbitas, agudas, mas sempre efêmeras da vida na cidade. (...) Constitui o ponto culminante da tendência dinâmica e da dissolução da estática imagem medieval do mundo.

Ainda que alguma aproximação possa ser feita entre o estilo impressionista da pintura e o da literatura, e ainda que o relato de Raul Pompéia guarde um tom sensorial e emotivo, este rótulo parece tão inconveniente quanto os anteriores.

Não seria o caso de abandonarmos ciranda tão infernal de etiquetas e classificações, e conceber O Ateneu apenas como um romance extremamente singular em nossa literatura?

É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, (...) aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, (...) abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? Tanto melhor: é a escola da sociedade. Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo lá fora, onde se vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora. (...) E não se diga que é um viveiro de maus germes, seminário de nefasto de maus princípios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja, vem de fora.

Também Sérgio se corrompe: "Tornei-me um animalzinho ruim." Sofre o condicionamento do meio, torna-se vítima do sistema. O que não o impede - conforme observação de Alfredo Bosi - de se converter em promotor: seu texto tem o alcance de uma poderosa acusação contra o internato. E na exata medida em que o internato representa a sociedade, sua destruição através de um incêndio - desnecessário para a coerência do romance - assume uma dimensão simbólica. O fogo que consome o Ateneu consome também a organização social que o fizera possível.

Fonte:  www.cmf.ensino.eb.br

Naturalismo

Romance experimental , apóia-sena experimentação científica.

Valorização do instinto: Atitudes animalescas, brutas

Imagina experiências que remetema conclusões a que não se chegariaapenas pela observação.

Arte engajada, de denúncia; preocupações políticas e sociais.

Detém-se nos aspectosmais torpes e degradantes.

Centra-se nos aspectos exteriores:atos, gestos, ambientes.

Prefere a biologia , a patologia ( evolucionismo – zoomorfismo ), e( determinismo – ambientecoletivo)

Retrata as camadas inferiores,o proletariado, os marginalizados.

É direto na interpretação; expõeconclusões (tese), cabendo ao leitor aceitá-las ou discuti-las.

O estilo é relegado a segundo plano;no primeiro, está a denúncia.

MACHADO DE ASSIS

Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras;
Maior ficcionista do Realismo e da Literatura Brasileira.

Características Gerais da Obra Machadiana

1. Personagens

São geralmente burgueses – classe dominante;
Procura desmascarar o “jogo” das relações sociais;
Enfatiza o contraste entre aparência x essência;
Mostra-nos de maneira impiedosa e crítica a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a inveja, oprazer carnal.

2. Processo Narrativo

Há pouca ação, poucos fatos;
Os personagens são esféricos apresentam complexidade psicológica;
Apresenta digressões ordem cronológica interrompida;
Conversa, dialoga com o leitor, faz reflexão, aguça o leitor.

3. Pessimismo

Hipocrisia social;
Imperfeição da humanidade;
Mostra que as causas nobres sempre ocultam interesses impuros.

4. Linguagem

Frases curtas, incisivas;
Humor e reflexão através de frases irônicas, sugestivas;
Apresenta metalinguagem explica a própria linguagem;
Faz intertextualidade com obras consagradas;
Perfeição gramatical.

5. Perfil Feminino

Mulheres racionais > fortes, dominadores, sensuais, “dissimuladas”, ambíguas,astuciosas e principalmente adúlteras (comprovar a vulnerabilidade do amor )

Fonte:  pt.scribd.com

Naturalismo

Naturalismo

O Naturalismo foi um movimento cultural relacionado às artes plásticas, literatura e teatro. Surgiu na França, na segunda metade do século XIX. Este movimento foi uma radicalização do Realismo.

Século XIX. Nessa época surgiram novas concepções a respeito do homem e da vida em sociedade e os estudos da Biologia, Psicologia e Sociologia estavam em alta.
Os naturalistas começaram a analisar o comportamento humano e social, apontando saídas e soluções.

Aqui no Brasil, os escritores naturalistas ocuparam-se, principalmente, com os temas mais obscuros da alma humana (patológicos) e, por causa disso, outros fatos importantes da nossa história como a Abolição da Escravatura e a República foram deixados de lado.

O Naturalismo surgiu na França, em 1870, com a publicação da obra “Germinal” de Émile Zola. O livro fala das péssimas condições de vida dos trabalhadores das minas de carvão na França do século XIX.

O naturalismo é uma ramificação do Realismo e uma das suas principais características é a retratação da sociedade de uma forma bem objetiva.

Os naturalistas abordam a existência humana de forma materialista. O homem é encarado como produto biológico passando a agir de acordo com seus instintos, chegando a ser comparado com os animais (zoomorfização).

Segundo o Naturalismo, o homem é desprovido do livre-arbítrio, ou seja, o homem é uma máquina guiada por vários fatores: leis físicas e químicas, hereditariedade e meio social, além de estar sempre à mercê de forças que nem sempre consegue controlar. Para os naturalistas, o homem é um brinquedo nas mãos do destino e deve ser estudado cientificamente.

Características do Naturalismo

Naturalismo

O mundo pode ser explicado através das forças da natureza

O ser humano está condicionado às suas características biológicas (hereditariedade) e ao meio social em que vive

Forte influência do evolucionismo de Charles Darwin

A realidade é mostrada através de uma forma científica (influência do positivismo)

Nas artes plásticas, por exemplo, os pintores enfatizam cenas do mundo real em suas obras. Pitavam aquilo que observavam

Na literatura, ocorre muito o uso de descrições de ambientes e de pessoas

Ainda na literatura, a linguagem é coloquial

Os principais temas abordados nas obras literárias naturalistas são: desejos humanos, instintos, loucura, violência, traição, miséria, exploração social, etc.

Naturalismo no Brasil

Este movimento chegou ao Brasil no final do século XIX. Os escritores brasileiros abordaram a realidade social brasileira, destacando a vida nos corticos, o preconceito, a diferenciação social, entre outros temas. O principal representante do naturalismo na literatura brasileira foi Aluísio de Azevedo.

Suas principais obras foram: O Mulato, Casa de Pensão e O Cortiço.

Outros escritores brasileiros que merecem destaque: Adolfo Caminha, Inglês de Souza e Raul Pompéia.

PRINCIPAIS AUTORES

Naturalismo

Aluísio Azevedo

Com a publicação de O Mulato (1881), Aluísio Azevedo consagrou-se como um escritor naturalista. A publicação dessa obra marca o início do Naturalismo brasileiro.

O livro (que não é a nossa obra naturalista mais marcante) causou impacto na sociedade, principalmente entre o clero e a alta sociedade de São Luís do Maranhão.

O Mulato aborda temas como o puritanismo sexual, o anticlericalismo e o racismo.

Em 1890, o Naturalismo atinge o seu ápice com a publicação de O cortiço (obra repleta de personagens marginalizados).

Inglês de Souza

Em 1891, Inglês de Souza publicou O Missionário, obra que aborda a influência do meio sobre o individuo.

Adolfo Caminha

Naturalismo

Publicou as obras A Normalista, em 1892 e O bom crioulo, em 1895 que falam sobre desvios sexuais e mais especificamente, o homossexualismo em O bom crioulo.

A ficção regionalista (iniciada no Romantismo) teve continuidade durante o naturalismo.

As principais obras regionalistas são:

Luzia-Homem de Domingos Olímpio.

Dona Guidinha do poço de Manuel de Oliveira Paiva.

Fonte:  www.fehet.com.br

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