Simbolismo (Página 3)
Simbolismo

Simbolismo português

(1890-1915 )

O Simbolismo é originário da França e se iniciou com a publicação de As Flores do Mal, de Baudelaire, em 1857. Nome inicial: Decadentismo.

Bases Filosóficas

Kiekegaard – o homem passa por três estágios em sua existência – estético (presença do novo), ético (gravidade e responsabilidade da vida) e religioso (relação com Deus). Bergson – não é a inteligência que chega a compreender a vida. É a intuição.

Em Portugal, o Simbolismo tem início em 1890, com o livro de poemas de Eugênio de Castro, Oaristos, e com revistas acadêmicas, Os Insubmissos e Boêmia Nova, cujos colaboradores eram Eugênio de Castro e Antônio Nobre.

Características

Os autores voltam-se à realidade subjetiva, às manifestações metafísicas e espirituais, abandonadas desde o Romantismo. Buscavam a essência do ser humano, a alma; a oposição entre matéria e espírito, a purificação do espírito, a valorização do inconsciente e do subconsciente.

Musicalidade: música, a mais importante de todas as artes. “A música antes de tudo.” Aliterações, assonâncias, onomatopéias, sinestesias

Linguagem vaga, imprecisa, sugestiva: não mostrava as coisas, apenas as sugeria.

Negação do materialismo: reação ao materialismo e ao cientificismo realistas. Retorno à mentalidade mística: comunhão com o cosmo, astros. Esoterismo.

Maiúsculas alegorizantes: personificação.

Mergulho no eu profundo: nefelibatas – habitantes das nuvens.

Características da linguagem simbolista

1. As características da linguagem simbolista podem ser assim esquematizadas:

2. Linguagem vaga, fluida, que prefere sugerir a nomear.

3. Utilização de substantivos abstratos, efêmeros, vagos e imprecisos;

4. Presença abundante de metáforas, comparações, aliterações, assonâncias, paronomásias, sinestesias;

5. Subjetivismo e teorias que voltam-se ao mundo interior;

6. Antimaterialismo, anti-racionalismo em oposição ao positivismo;

7. Misticismo, religiosidade, valorização do espiritual para se chegar à paz interior;

8. Pessimismo, dor de existir;

9. Desejo de transcendência, de integração cósmica, deixando a matéria e libertando o espírito;

10. Interesse pelo noturno, pelo mistério e pela morte, assim como momentos de transição como o amanhecer e o crepúsculo; Interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana (o inconsciente e o subconsciente) e pela loucura.

Observação: Na concepção simbolista o louco era um ser completamente livre por não obedecer às regras. Teoricamente o poeta simbolista é o ser feliz.

Resumo das características do Simbolismo

Conteúdo relacionado com o espiritual, o místico e o subconsciente: idéia metafísica, crença em forças superiores e desconhecidas, predestinação, sorte, introspecção.

Essa maior ênfase pelo particular e individual do que pelo geral e Universal: valorização máxima do eu interior, individualismo.

Tentativa de afastamento da realidade e da sociedade contemporânea: valorização máxima do cosmos, do misticismo, negação à Terra.

Os textos comumente retratam seres efêmeros (fumaça, gases, neve...). Imagens grandiosas (oceanos, cosmos...) para expressar a idéia de liberdade.

Conhecimento intuitivo e não-lógico. Ênfase na imaginação e na fantasia. Desprezo à natureza: as concepções voltam-se ao místico e sobrenatural.

Pouco interesse pelo enredo e ação narrativa: pouquíssimos textos em prosa. Preferência por momentos incomuns: amanhecer ou entardecer, faixas de transição entre dia e noite.

Linguagem ornada, colorida, exótica, bem rebuscada e cheia de detalhes: as palavras são escolhidas pela sua sonoridade, num ritmo colorido, buscando a sugestão e não a narração.

Autores e obras

Eugênio de Castro e Almeida (1869-1944): a sua obra pode ser dividida em duas fases: simbolista e neoclássica. A simboliza corresponde aos poemas escritos já no século XX.

Novas rimas, novas métricas, aliterações, versos alexandrinos, vocabulário mais rico, ele expõe no prefácio – manifesto de Oaristos. Na fase neoclássica apresenta temas voltados à antigüidade clássica e ao passado português (profundamente saudosista).

Antônio Nobre (1867-1900)

Ingressou na carreira diplomática, morrendo de tuberculose aos 33 anos. Estudou em Paris.

Obras: Só (Paris, 1892), Despedidas (1902), Primeiros versos (1921), Correspondência.

É simbolista, mas não tem seus cacoetes. Considerado como nacionalista e romântico retardatário.

Antônio Pereira Nobre exaltou a vida provinciana do norte de Portugal, por influência de Garrett e de Júlio Dinis.

A sua poesia manifesta rica musicalidade rítmica e linguagem com um falar cotidiano e coloquial, além do pessimismo.

Camilo Pessanha (1867-1926)

É considerado o mais simbolista dos poetas da época.

Autor de apenas um livro

Clepsidra, influenciou a geração de Orpheu, que iniciou o Modernismo em Portugal.. Passou grande parte da vida em Macau (China), tornando-se tradutor da poesia chinesa para o português.

Autor considerado de difícil leitura, pois trabalha bem a linguagem. No seu livro predomina o estranhamento entre o eu e o corpo; o eu e a existência e o mundo.

Em sua obra, Clepsidra, Camilo Pessanha distancia-se de uma situação concreta e pessoal, e sua poesia é pura abstração.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

É o pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos. Deixou obras de cunho filosófico e biografias. De seus livros de poesias citam-se Maranos, Regresso ao Paraíso, Sempre, Terra Proibida, Elegias.

Florbela Espanca (1894-1930)

Embora não pertença propriamente ao período áureo do Simbolismo, possui idéias simbolistas. É considerada uma das mais perfeitas sonetistas da língua portuguesa. Suas obras: Juvenília, Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Relíquias e Chameca em Flor.

Raul Brandão (1867-1930)

Literatura forte e dramática. A sua melhor produção está na prosa de ficção: A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, A Farsa, Os Pobres, Húmus, O Pobre de Pedir.

Cronologia do Simbolismo em Portugal

Período: século XIX e XX
Início: 1890 - Publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro.
Fim: 1915 - Surgimento da Revista Orpheu, inaugurando o Modernismo.
Fato histórico importante: em 1910 o movimento republicano, apoiado pela Inglaterra, é vitorioso.

Soneto

Antônio Nobre

Ó Virgens que passais, ao Sol-poente,

Pelas estradas ermas, a cantar!

Eu quero ouvir uma canção ardente,

Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai, nessa voz onipotente,

O Sol que tomba, aureolando o Mar,

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!

Das ruínas do meu Lar desterrai

Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai,

Ó suaves e frescas raparigas,

Adormecei-me nessa voz... Cantai!

Interrogação

Camilo Pessanha

Não sei se isto é amor. Procuro teu olhar,

Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;

E apesar disso, crê! nunca pensei num lar

Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.

E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.

Nem depois de acordar te procurei no leito

Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo

A tua cor sadia, o teu sorriso terno...

Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso

Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio

Da luz crespuscular, que enerva, que provoca.

Eu não demoro a olhar na curva do teu seio

Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...

Eu não sei que mudança a minha alma pressente....

Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,

Que adoecia talvez de te saber doente.

Ao longe os barcos de flores

Camilo Pessanha

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,

- Perdida voz que de entre as mais se exila,

- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila

E os lábios, branca, do carmim desflora....

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranqüila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,

Cauta, detém. Só modulada trila

A flauta flébil... Quem há-de remi-la?

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Vocabulário

grácil: delgado, delicado, fino
festão: ramalhete de flores e folhagens, grinalda;
cauta: acautelada, com cautela.
remir: recuperar, resgatar.

Simbolismo brasileiro

Ínicio:1893
Publicação das obras MISSAL E BROQUÉIS, de Cruz e Sousa

Fim: 1902
Publicação da obra OS SERTÕES, de Euclides da Cunha

CONTEXTO HISTÓRICO

O fim do século XIX foi profundamente marcado pelo avanço científico e a corrida desenfreada do capitalismo industrial em busca da tecnologia e matéria-prima. Era também a busca de novas tendências e caminhos, apesar de haver um certo pessimismo com relação ao século vindouro, e o Brasil passou por mudanças expressivas dentro de sua estrutura política, econômica e social. A abolição da escravatura (1888) não assegurou o direito de igualdade e civilidade aos negros, acentuando o problema da miséria no país. Revoltas como a "A guerra de Canudos" e a "Revolta da Armada" refletiam o descontentamento com as condições sociais vigentes.

O império decadente deu lugar a uma república (1889) que favorecia diretamente o sudeste do Brasil, com a política do "café-com-leite" (domínio alternado de presidentes mineiros e paulistas). As cidades, com seus centros culturais e comerciais aos moldes da Europa (principalmente de Paris), se preocupavam com o inchaço de suas periferias, onde estava a miséria dos negros livres e das massas de imigrantes, provenientes principalmente da Europa e Japão, e que surgiram para mudar o perfil do povo brasileiro, principalmente no sul do país. A industrialização, ainda em estado fetal, e a cultura à moda francesa da elite contrastavam com uma nação tipicamente rural e analfabeta que enfrentava os horrores das pestes e epidemias como a febre amarela, dizimando milhares de pessoas.

CARACTERÍSTICAS

O Simbolismo surge no final do século XIX como movimento de retomada de alguns ideais do Romantismo, bem como de oposição ao Parnasianismo, Naturalismo correntes literárias apreciadas pela elite social. Apesar disso, conserva algumas peculiaridades parnasianas, como a estrutura dos versos, o vasto uso do soneto, e a preciosidade no vocabulário. Sua poesia, no entanto, vai mais além. Há a constante busca de uma linguagem mais rica, repleta de novas palavras, com o emprego de novos ritmos que associem de forma harmoniosa a poesia à música, explorando muito o uso da sinestesia, das aliterações, ecos e assonâncias.

O poeta simbolista não quer somente cantar e evocar suas emoções. Ele quer trazê-las de uma forma mais palpável para o texto, para que possam ser sentidas em sua plenitude. Por isso, o uso da sinestesia, isto é, a associação de impressões sensoriais distintas, é amplo. Há também a forte ligação com as cores, ressaltando as sensações que provocam no espírito humano. A cor branca é sempre a mais presente e já sugere, entre outras coisas, a pureza, ou o opaco, indiciando a presença de neblina ou nuvem e tornando as imagens poéticas mais obscuras.

Obscuridade, aliás, é uma forte característica simbolista: a realidade é revelada de uma forma imprecisa e vaga. Não há a preocupação de nomear os objetos, e sim evocá-los, sugeri-los. É o emprego do símbolo, que liga o abstrato ao concreto, o material ao irreal. Servindo como ponte entre o homem e as coisas, o símbolo preserva o domínio da intuição sobre a razão, bem como a exaltação das forças espirituais e místicas que regem o universo, contrária ao Cientificismo, ao Positivismo e ao materialismo naturalista e parnasiano. É o culto ao sonho, ao desconhecido, à fantasia e à imaginação, numa busca pela essência do ser humano, com todos os seus mistérios, seu dualismo (espírito e matéria) e seu destino frente à vida e à morte.

A poesia, então, ganha o tom subjetivista que a aproxima muito do movimento romântico, disposto a explorar e sentir tudo o que há entre a alma e a carne, entre o céu e a terra. O poeta se entrega muitas vezes ao seu inconsciente e ao subconsciente para estar mais próximo dos segredos que ligam o homem a Deus. Esse caminho, por vezes alucinado, leva ao isolamento, à solidão, à loucura e à alienação, evidenciando um clima mais pessimista, mórbido e algumas vezes satânico. Rompendo com a linearidade do texto, dando voz ao fluxo da consciência e trabalhando de forma mais desarticulada a palavra e seu significado, o Simbolismo antecipa características que seriam marcantes dentro do Modernismo.

No Brasil, o movimento simbolista não alcançou o êxito obtido na Europa, devido ao forte predomínio das tendências parnasianas em nossa literatura. Entre os poetas simbolistas, destacam-se as obras de Cruz e Sousa autor de nossa primeira obra simbolista Missal e Broquéis e Alphonsus de Guimaraens, o mais místico de nosso poetas.

Cruz e Sousa
(1861-1898)

DADOS BIOGRÁFICOS

João da Cruz e Sousa nasceu em 1861 na cidade catarinense de Nossa Senhora do Desterro. Filho de escravos alforriados, desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu matemática e ciências naturais. Em 1881, dirigiu o jornal "Tribuna Popular", onde já transpareciam suas idéias abolicionistas. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro, o que lhe causou profunda insatisfação e lhe acentuou os ideais de abolicionismo. Foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal "Folha Popular", onde entrou em contanto com as tendências simbolistas e escreveu suas obras mais expressivas. Casado com Gavita Gonçalves no ano de 1893, foi pai de quatro filhos, mas a tragédia não estava apenas reservada no preconceito racial que sofria: teve os quatro filhos mortos por tuberculose e a mulher enlouquecida. Profundamente magoado e tuberculoso, foi para a cidade de Sítio (Minas Gerais) em busca de um clima mais saudável. Lá morreu em 1898. Sua obra só seria realmente reconhecida algum tempo depois, consagrando-o como um dos maiores poetas do Simbolismo.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS

A poesia de Cruz e Sousa mantém a estrutura formal típica do Parnasianismo (uso de sonetos, rimas ricas, etc.), mas em um tom mais musical, rítmico, com uma variedade de efeitos sonoros, uma riqueza de vocabulários, e um precioso jogo de correspondências (sinestesias) e contrastes (antíteses). Transparece a preocupação social, onde a dor do homem negro (fruto de suas próprias experiências de preconceito) funde-se à dor universal humana, conferindo à sua obra um tom filosófico que reflete a angústia, o pessimismo e o tédio. A solução é sempre a fuga, a preferência pelo místico, a busca pelo mundo espiritual que o consola. É o eterno conflito entre o real e o irreal dentro do universo humano, os mistérios de Deus e do homem, da vida e da morte que convivem com o amor, o misticismo, e os desejos. O resultado é sempre o sofrimento do ser, muitas vezes personificado pela dor do preconceito (o que leva aos ideais abolicionistas dentro de sua obra). Em contraste com a cor negra, está o uso de um vasto vocabulário relacionado à cor branca: neve, espuma, pérola, nuvem, brilhante, etc. Isso reflete sua obsessão, tipicamente simbolista, pela imprecisão, pelo vago, a pureza e o mistério. Sua obra ainda é vastamente tomada pela sensualidade, pela busca da auto-afirmação e pela subjetividade (indicada no uso constante da primeira pessoa), pelo culto à noite, pela busca do símbolo e do mistério da existência, através de uma imagem obscura, sugerida e distorcida. É considerado por muitos como um dos maiores poetas simbolistas do mundo, com uma qualidade literária muito próxima a dos melhores poetas simbolistas franceses, como Mallarmé.

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

Broquéis (1893); Faróis (1900); Últimos Sonetos (1905); O livro Derradeiro (1961).

Poemas em Prosa

Tropos e Fanfarras (1885), em conjunto com Virgílio Várzea; Missal (1893); Evocações (1898); Outras Evocações (1961); Dispersos (1961).

Antologia de Cruz e Sousa

VIOLÕES QUE CHORAM...

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,

Soluços ao luar, choros ao vento...

Tristes perfis, os mais vagos contornos,

Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,

Noites da solidão, noites remotas

Que nos azuis da Fantasia bordo,

Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,

Anseio dos momentos mais saudosos,

Quando lá choram na deserta rua

As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram

Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,

Mágoas amargas e melancolias,

No sussurro monótono das águas,

Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa

E vibra e se contorce no ar, convulso...

Tudo na noite, tudo clama e voa

Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos

São ilhas de degredo atroz, funéreo,

Para onde vão, fatigadas do sonho,

Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,

Finas, diluídas, vaporosas brumas,

Longo desolamento dos inquietos

Navios a vagar à flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,

Nebulosas de sons e de queixumes,

Vibrado coração de ânsia esquisita

E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos

Quando em toscos violões, por lentas horas

Vibram, com a graça virgem dos garotos,

Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,

Palpitando no espaço, ondula, ondeia,

E o canto sobe para a flor deserta,

Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,

E no silêncio astral da Imensidade

Por lagos encantados adormecem

As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,

Essas lacerações como me embalam,

Como abrem asas brancas de clemência

As harmonias dos violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,

Nos lânguidos bordões plangendo passa.

Quanta melancolia de anjo existe

Nas visões melodiosas dessa graça...

Que céu, que inferno, que profundo inferno,

Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,

Quanto magoado sentimento eterno

Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas

Nas ciliciadas carnes tentadoras,

Vagando no recôndito das celas,

Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura

Vegetando e morrendo sobre a lama,

Proliferando sobre a lama impura,

Como em perpétuos turbilhões de chama,

Que procissão sinistra de caveiras,

De espetros, pelas sombras mortas, mudas...

Que montanhas de dor, que cordilheiras

De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos, véus de viúvas

Enclausuradas nos ferais desterros,

Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,

Sob abóbadas lúgubres de enterros:

Velhinhas quedas e velhinhos quedos,

Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,

Sepulcros vivos de senis segredos,

Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,

Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos

E um lenço preto o queixo comprimindo,

Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos

Na mão que esses violões agita, largos...

E o som sombrio é feito de sarcasmos

E de sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos

Na prisão celular atormentados,

Sentindo nos violões os velhos mundos

Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes

Que eu vi dentre os violões errar gemendo,

Prostituídos de outrora, nas serpentes

Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,

Das luas tardas sob o beijo níveo,

Para os enterros dos seus sonhos mortos

Nas queixas dos violões buscando alívio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,

Frouxos, dormentes, adormidos, langues,

Na degenerescência dos vencidos

De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,

Como que feitos de um poder extremo

Para vencer a convulsão das mortes,

Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,

Enrugados por fundas cicatrizes,

Procuram nos violões horas estranhas,

Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,

Torvos despojos da miséria humana,

Têm nos violões secretos Evangelhos,

Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços

De carapuças, máscaras e gestos

Lentos e lassos, lúbricos, devassos,

Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes

Que ondulam no ridículo das vidas,

Caricaturas tétricas e errantes

Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose

Das virgens nos românticos enleios,

Os ocasos do Amor, toda a clorose

Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia

De requebros de fauno e ondas lascivas;

A langue, mole e morna melopéia

Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,

Em ais de dor, em contorções de açoites,

Revive nos violões, acorda e dorme

Através do luar das meias-noites!

CAVADOR DO INFINITO

Com a lâmpada do Sonho desce aflito

e sobe aos mundos mais imponderáveis,

vai abafando as queixas implacáveis,

da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito

sente, em redor, nos astros infefáveis.

Cava nas fundas eras insondáveis

o cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava

mais o Infinito se transforma em lava

e o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho

e com seu vulto pálido e tristonho

cava os abismos das eternas ânsias!-

Vocabulário

Imponderável: que não se pode avaliar; indefinível;

Implacável: que não se pode abrandar; inexorável;

Inefável: que não se pode exprimir por palavras, indizível;

Insondável: cujo fundo não se pode atingir, inexplicável.

CÁRCERE DAS ALMAS

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades

Do calabouço olhando imensidades,

Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da Dor no calabouço atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,

Que chaveiro do Céu possui as chaves

Para abrir-vos as portas do Mistério?!

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluídas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dotências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Requiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos,

Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, todas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

Fecunde e inflame a rima clara e ardente...

Que brilhe a correção dos alabastros

Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça

De carnes de mulher, delicadezas...

Todo esse eflúvio que por ondas passa

Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,

Desejos, vibrações, ânsias, alentos

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas

De amores vãos, tantálicos, doentios...

Fundas vermelhidões de velhas chagas

Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

Passe, cantando, ante o perfil medonho

E o tropel cabalístico da Morte...

Vocabulário

antífona: versículo que se anuncia antes de um salmo.
turíbulo: vaso em que se queima incenso nos templos.
ara - altar dos sacrifícios nos templos.
mádida: umedecida
dolência: mágoa, sofrimento.
réquiem: missa fúnebre
flébil: lacrimoso, choroso
edênico: paradisíaco
diafaneidade: transparência
alabastro: entre os gregos antigos, pequeno vaso sem asas utilizado para queimar perfumes.
eflúvio: emanação invisível que se desprende de um fluido; aroma, perfume.
álacre: alegre, jovial.
fulva: de cor amarelo-tostado, alourada.
acre: amargo, áspero.
tantálico: infernal.
quimérico: fantástico.
tropel: desordem, balbúrdia
cabalístico: secreto, misterioso, obscuro

MÚSICA DA MORTE...

A música da Morte, a nebulosa,

Estranha, imensa música sombria,

Passa a tremer pela minh'alma e fria

Gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,

Letes sinistro e torvo da agonia,

Recresce a lancinante sinfonia,

Sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,

Tremenda, absurda, imponderada e larga,

De pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,

Como um ópio letal, vertiginando,

Os meus nervos, letárgica, fascina...

Alphonsus de Guimaraens

(1870-1921)

DADOS BIOGRÁFICOS

Afonso Henrique da Costa Guimarães, nascido em Ouro Preto no ano de 1870, concluiu seus primeiros estudos na sua cidade natal. Aos dezoito anos, presenciou um fato que marcaria profundamente toda a sua vida e suas poesias: a morte de Constança (filha de Bernardo Guimarães), sua prima e noiva, às vésperas do casamento. O poeta nunca conseguiria superar o trauma da perda, e toda sua obra parece refletir essa amargura.

Logo vai para a cidade de São Paulo estudar Direito, vindo a se formar no ano de 1895. Na capital paulista, tomou contato com os ideais simbolistas e escreveu a maior parte de sua obra. Em viagem pelo Rio de Janeiro, conheceu com muito entusiasmo um outro verdadeiro ícone do Simbolismo: Cruz e Sousa. De volta a Minas Gerais, exerceu o cargo de juiz na cidade de Mariana, onde levou uma vida pacata com sua esposa, Zenaide de Oliveira, e seus catorze filhos. Viveu em Mariana até a morte, no ano de 1921.

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS

A obra de Alphonsus de Guimaraens é toda marcada por uma profunda suavidade e lirismo, com uma linguagem simples e um ritmo bem musical, cheio de aliterações e sinestesias. Por ter uma formação mais clássica e uma influência de cunho medieval, há o emprego constante das redondilhas, além dos versos alexandrinos e decassílabos, com ênfase no soneto, forma pela qual o poeta domina com grande êxito. A presença da amada pedida, Constança, está sempre presente, retratada aos moldes medievais: uma divindade intocável, perfeita, livre de qualquer toque de erotismo e somente acessível através da morte. Por várias vezes ela é confundida com a imagem pura da Virgem Maria, de quem o poeta é profundamente devoto. Sua obra, aliás, é considerada a mais mística de nossa literatura. A morte é outro fator importante dentro de sua obra, o que o aproxima muito dos poetas românticos. Há a aceptividade, a simpatia e o desejo pela morte, já que ela é o único caminho para se chegar à amada. Ela é o destino último, insuperável, em contraste com a miséria do mundo real. Cria-se assim um ciclo de misticismo, amor idealizado e obsessão da morte, onde a melancolia é sempre um fator marcante, aliada aos sonhos e às amarguras pessoais do poeta, muitas vezes refletidas pelos traumas do passado.

PRINCIPAIS OBRAS

Poesia

Septenário das Dores de Nossa Senhora e Câmara Ardente (1899); Dona Mística (1899); Kyriale (1902), seu primeiro livro, publicado tardiamente; Pauvre Lyre (1921); Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte (1923), A Escada de Jacó (1938); Pulvis (1938).

Prosa

Os Mendigos (1920).

Tradução

Nova Primavera (de Heine)(1838).

Antologia de Alphonsus de Guimarães

A CATEDRAL

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu risonho,

Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro, glorioso segue a eterna estrada.

Uma áurea seta lhe cintila em cada

Refulgente raio de luz.

A catedral ebúrnea do meu sonho,

Onde os meus olhos tão cansados ponho,

Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Põe-se a lua a rezar.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece, na paz do céu tristonho,

Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu é todo trevas: o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:

"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

PÁLIDA, PÁLIDA...

Pálida, pálida, revolto

Em ondas o basto cabelo,

O triste olhar como que solto

Do fundo de algum pesadelo...

Pálida, lívida talvez,

Desse palor que a Alma nos corta,

A macerada, a ebúrnea tez

Menos de viva que de morta...

Pálida... vi-te assim. Andando

De uma sonâmbula tu tinhas

O incerto passo miserando

E a fronte erguida das Rainhas...

Oh pálida... pálida... A cor

De Maria cheia de graça,

Vendo agoniar o Redentor,

Não era assim tão branca e baça...

Pálida... mas em que tragédia

Vi uma figura igual à tua?

Que monja ideal da Idade Média

Tinha essa lividez de lua?

Pálida... vi-te, oh! vi-te assim.

Do sol-das-almas o desmaio

Último vinha: era no fim

De uma tarde triste de maio...

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

IMMACULATA

Quando te fores, branca, de mãos postas,

E me deixares neste val de pranto,

Deitada assim, como as demais, de costas

Sobre o teu leve esquife de pau-santo:

Quando as rosas dos seios, decompostas,

Vierem causar à própria morte espanto,

E nessas tábuas vis, onde te encostas,

Te for o lodo o derradeiro manto:

Ainda hei de ver as lúcidas violetas

Que floriram no teu olhar incerto,

Por sob as tuas sobrancelhas pretas...

Ai! como Inês tu não será rainha:

Mas amada hás de ser no céu decerto

Porque na terra nunca foste minha...

NOIVA

N'as-tu pas senti le gout des éternelles amours?

H. de Balzac

Noiva... minha talvez... pode bem ser que o sejas.

Não me disseste ao certo o dia em que voltavas.

O céu é claro como o teto das igrejas:

Vens de lá com certeza. Humildes como escravas,

Curvadas ainda estão as estrelas morosas;

E bem se vê que algum excelso vulto branco

Passou por elas, entre arcarias de rosas,

Revolto o manto de ouro, afagando-lhe o flanco.

Há tanto tempo que te espero, e espero embalde...

Não sabia que assim tão diferente vinhas.

Tinhas negro o cabelo: entanto a nuvem jalde,

Que o doura todo, o faz tão outro do que tinhas!

Quando morreste, o sol era morto, e ainda agora

Para mim se prolonga essa noite de guerra...

Acaso vens com o teu olhar de eterna aurora

Aclará-la outra vez, vindo de novo à terra?

Vejo-te a imagem tão destacada no fundo

Deste meu sonho, que é como se eu não sonhasse...

Cheio da nostalgia estelar de outro mundo,

Tem as mágoas de um astro o palor da tua face.

Caminhas, e os teus pés sublimes nem de leve

Tocam a flor do solo: o ar impalpável pisas.

Ora se abaixa, ou se ergue o teu corpo de neve...

Parece que te vão berçando auras e brisas.

O peristilo arcual da tua boa se move:

Soabre-se: a fulva luz que a ilumina contemplo...

Falas: como me pasma e inebria e comove

Toda a púrpura real do interior desse templo!

Parece que um hinal de suaves litanias

Acompanha a tua voz nas palavras que soltas.

Não sabia que assim tão outra voltarias:

Eras de negro olhar, de olhar azul tu voltas.

Que me admira se vens de olhar azul e louro

Cabelo? Não é a mesma a tua formosura?

Voltas do céu, e a cor celestial é azul e é ouro,

E é todo este clarão que a imagem te moldura.

Noiva... minha talvez... e por que não? Setembro

Volta. Setembro é o mês das laranjeiras castas.

Vens de grinalda branca, a voar... Ah! bem me lembro,

A veste com que foste é a mesma que hoje arrastas.

Foste de branco e vens de branco ainda trajada.

A túnica nupcial que em níveas dobras desce

Pelo teu corpo, tem a brancura sagrada

Dos alvos corporais do altar exposto à prece.

O parélio do gênio imortal que te anima

Surge no resplandor que te aureola a cabeça.

Atenta escutas os meus versos rima a rima,

E mandas que em cada um a tua Alma apareça.

Quero abraçar-te e nada abraço... O que me assombra

É que te vejo e não te encontro com os meus braços.

Morta, beijei-te um dia: hoje tu és uma sombra

Exilada do céu para seguir-me os passos.

Fonte: www.portrasdasletras.com.br