Os Noivos – Nelson Rodrigues

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Nelson Rodrigues

Quando Salviano começou a namorar Edila, o pai o chamou:

— Senta, meu filho, senta. Vamos bater um papo.

Ele obedeceu:

— Pronto, papai.

O velho levantou-se. Andou de um lado para outro e senta de novo:

— Quero saber, de ti, o seguinte: esse teu namoro é coisa séria?
Pra casar?

Vermelho, respondeu:

— Minhas intenções são boas.

O outro esfrega as mãos.

— Ótimo! Edila é uma moça direita, moça
de família. E o que eu não quero para minha filha, não
desejo para a filha dos outros. Agora, meu filho, vou te dar um conselho.

Salviano espera. Apesar de adulto, de homem-feito, considerava o pai uma
espécie de Bíblia. O velho, que estava sentado, ergue-se; põe
a mão no ombro do filho:

— O grande golpe de um namorado, sabe qual é? No duro? —
E baixa a voz: — É não tocar na pequena, não tomar
certas liberdades, percebeu?
Assombro de Salviano: "Mas, como? Liberdades, como?".

E o pai:

— Por exemplo: o beijo! Se você beija sua namorada a torto e
a direito, o que é que acontece? Você enjoa, meu filho. Batata:
enjoa! E quando chega o casamento, nem a mulher oferece novidades para o homem,
nem o homem para a mulher. A lua-de-mel vai-se por água abaixo. Compreende?

Abismado de tanta sabedoria, admitiu:

— Compreendi.

A SOMBRA PATERNA

Na tarde seguinte, quando se encontrou com a menina, tratou de resumir a
conversa da véspera. Terminou, com um verdadeiro grito de alma:

— Muito bacana, o meu pai! Tu não achas?

Edila, também numa impressão profunda, conveio: "Acho”.

— Concordas?

Foi positiva:

— Concordo.

Pouco antes de se despedir, Salviano batia no peito:

— Dizem que ninguém é infalível. Pois eu vou te
dizer negócio: meu pai é infalível, percebeu? Infalível,
no duro

O BEIJO

Nesse dia, coincidiu que a mãe de Edila também a doutrinasse
sobre as possibilidades ameaçadoras de qualquer namoro. E insistiu,
com muito empenho, sobre um ponto que considerava importantíssimo:

— Cuidado com o beijo na boca! O perigo é o beijo na boca!

A garota, espantada,protestou

— Ora, mamãe!

E a velha:

— Ora o quê? É isso mesmo! Sem beijo não há
nada, está ,.tudo muito bem. OK. E com beijo pode acontecer o diabo.
Você é muito menina e talvez não perceba certas coisas.
Mas pode ficar certa: tudo que acontece de ruim, entre um homem e uma mulher,
começa num beijo!

O IDÍLIO

Foi um namoro tranqüilo, macio, sem impaciências, arrebatamentos.
Sob a inspiração paterna, ele planificou o romance, de alto
a baixo, sem descurar de nenhum detalhe. Antes de mais nada, houve o seguinte
acordo:

— Eu não toco em ti até o dia do casamento.

Edila pergunta:

— E nem me beija?

Enfiou as duas mãos nos bolsos:

— Nem te beijo. OK?

Encarou-o, serena:

— OK.

Dir-se-ia que este assentimento o surpreendeu. Insinua:

— Ou será que você vai sentir falta?

— De quê?

E Salviano, lambendo os beiços:

— Digo falta de beijos e, enfim, de carinho.

Sorriu, segura de si:

— Não. Estou cem por cento com teu pai. Acho que teu pai está
com a razão.

Salviano não sabe o que dizer. Edila continua, com o seu jeito tranqüilo:

— Sabe que essas coisas não me interessam muito? Eu acho que
não sou como as outras. Sou diferente. Vejo minhas amigas dizerem que
beijo é isso, aquilo e aquilo outro. Fico boba! E te digo mais: eu
tenho, até, uma certa repugnância. Olha como eu estou arrepiada,
olha, só de falar nesse assunto!

O VELHO

Desde menino, Salviano se habituara a prestar contas quase diárias
ao pai, de suas idéias, sentimentos e atos. O velho, que se chamava
Notário, ouvia e dava os conselhos que cada caso comportava. Durante
todo o namoro com Edila, seu Notário esteve, sempre, a par das reações
do filho e da futura nora. Salviano, ao terminar as confidências, queria
saber: "Que tal, papai?". Seu Notário apanhava um cigarro,
acendia-o e dava seu parecer, com uma clarividência que intimidava o
rapaz:

— Já vi que essa menina tem o temperamento de uma esposa cem
por cento. A esposa deve ser, mal comparando, e sob certos aspectos, um paralelepípedo.
Essas mulheres que dão muita importância à matéria
não devem casar. A esposa, quanto mais fria, mais acomodada, melhor!

Salviano retransmitia, tanto quanto possível, para a namorada, as
reflexões paternas. Edila suspirava: "Teu pai é uma simpatia!".
De vez em quando, o rapaz queria esquecer as lições que recebia
em casa. Com uma salivação intensa, o olhar rutilante, tentava
enlaçar a pequena. Edila, porém, era irredutível; imobilizava-o:

— Quieto!

Ele recuava:

— Tens razão!

CATÁSTROFE

Um dia, porém, o dr. Borborema, que era médico de Edila e
família, vai procurar Salviano no emprego. Conversam no corredor. O
velhinho foi sumário: "Sua noiva acaba de sair do meu consultório.
Para encurtar conversa: ela vai ser mãe!". Salviano recua, sem
entender:

— Mãe?!…

E o outro, balançando a cabeça: "Por que é que
vocês não esperaram, carambolas? Custava esperar?". Salviano
travou-lhe o braço, rilhava os dentes: "De quantos meses?".
Resposta: "Três". Dr. Borborema já se despedia: "O
negócio, agora, já sabe: é apressar o casamento. Casar
antes que dê na vista". Petrificado, deixou o médico ir.
No corredor do emprego, apertava a cabeça entre as mãos: "Não
é possível! Não pode ser!". Meia hora depois, desembarcava
e invadia, alucinado, a casa do pai. Arremessou-se nos braços de seu
Notário, aos soluços.

— Edila está nessas e nessas condições, meu pai!
— E, num soluço mais,fundo, completa: — E não fui
eu! Juro que não fui eu!

MISERICÓRDIA

Foi uma conversa que se alongou por toda uma noite. No seu desespero inicial,
ele berrava: "Cínica! Cínica!". E soluçava:
"Nunca teve um beijo meu, que sou seu noivo, e vai ter o filho do outro!".
O pai, porém, conseguiu, após poucos, aplacá-lo. Sustentou
a tese de que todos nós, afinal de contas, somos falíveis e,
particularmente, as mulheres: "Elas são de vidro", afirmava.
Alta madrugada, o pobre-diabo pergunta: "E eu? Devo fazer o quê?".
Justiça se lhe faça – o velho foi magnífico: "Perdoar.
Perdoa, meu filho, perdoa!". Quis protestar: "Ela merece um tiro!".
Mais que depressa, seu Notário atalha:
— Ela, não, nunca! Ele, sim! Ele merece!

— Quem?

Baixa a voz: "O pai da criança! Esse filho não caiu do
céu, de pára-quedas! Há um culpado". Pausa. Os dois
se entreolham. Seu Notário segura o filho pelos dois braços:

— Antes de ti, Edila teve um namorado. Deve ter sido ele. Se fosse
comigo, eu matava o cara que…

Ergue-se, transfigurado, quase eufórico: "Tem razão, meu
pai! O senhor sempre tem razão!".

O INOCENTE

Pôde, assim; desviar da noiva o seu ódio De manhã, passou
pela casa de Edila. Com apavorante serenidade, em voz baixa, pediu o nome
do culpado. Diante dele, a garota torcia e destorcia as mãos: "Não
digo! Tudo, menos isso!". Ele sugeria, desesperado: "Foi o Pimenta?".
O Pimenta era o antigo namorado de Edila. Ela dizia: "Não sei,
não sei!". Salviano saiu dali certo. Procurou o outro, que conhecia
de nome e de vista. Antes que o Pimenta pudesse esboçar um gesto, matou-o,
com três tiros, à queima-roupa. E fez mais. Vendo um homem, um
semelhante, agonizar aos seus pés, com um olhar de espanto intolerável,
ele virou a arma contra si mesmo e estourou os miolos. Mais tarde, desembaraçado
o corpo, foi instalada a câmara-ardente na casa paterna. Alta madrugada,
havia, na sala, três ou quatro pessoas, além da noiva e de seu
Notário. Em dado momento, o velho bate no ombro de Edila e a chama
para o corredor. E, lá, ele, sem uma palavra, aperta entre as mãos
o rosto da pequena e a beija na boca, com loucura, gana. Quando se desprendem,
seu Notário, respirando forte, baixa a voz:

— Foi melhor assim. Ninguém desconfia. Ótimo.

Voltaram para a sala e continuaram o velório.

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