A VIUVINHA

José de Alencar

A D...

Janeiro de 1857.

I

Se passasse há dez anos pela Praia da Glória, minha prima, antes que as novas ruas que se abriram tivessem dado um ar de cidade às lindas encostas do morro de Santa Teresa, veria de longe sorrir-lhe entre o arvoredo, na quebrada da montanha, uma casinha de quatro janelas com um pequeno jardim na frente.

Ao cair da tarde, havia de descobrir na última das janelas o vulto gracioso de uma menina que aí se conservava imóvel até seis horas, e que, retirando-se ligeiramente, vinha pela portinha do jardim encontrar-se com um moço que subia a ladeira, e oferecer-lhe modestamente a fronte, onde ele pousava um beijo de amor tão casto que parecia antes um beijo de pai.

Depois, com as mãos entrelaçadas, iam ambos sentar-se a um canto do jardim, onde a sombra era mais espessa, e aí conversavam baixinho um tempo esquecido; ouvia-se apenas o doce murmúrio das vozes, interrompidas por esses momentos de silêncio em que a alma emudece, por não achar no vocábulo humano outra linguagem que melhor a exprima.

O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, quando uma senhora de certa idade chegava a uma das janelas da casa , já então iluminada, e debruçando-se um pouco, dizia com a sua voz doce e afável:

- Olha o sereno, Carolina!

A estas palavras os dois amantes se erguiam, atravessavam o pequeno espaço que os separava da casa, e subiam os degraus da porta, onde eram recebidos pela senhora que os esperava.

- Boa-noite, D. Maria, dizia o moço.

- Boa-noite, Sr. Jorge; como passou, respondia a boa senhora.

A sala da casinha era simples e pequena, mas muito elegante; tudo nela respirava esse aspecto alegre e faceiro que ri-se com a vista.

Aí nessa sala passavam as três pessoas de que lhe falei um desses serões de família, íntimos e tranqüilos, como já não os há talvez nessa bela cidade do Rio de Janeiro, invadida pelos usos e costumes estrangeiros.

Os dois moços sentavam-se ao piano; as mãozinhas distraídas da menina roçavam apenas pelo teclado, fazendo soar uns ligeiros arpejos que serviam de acompanhamento a uma conversação em meia voz.

D. Maria, sentada à mesa do meio da sala, jogava a paciência; e quando levantava a vista das cartas, era para olhar a furto os dois moços e sorrir-se de satisfeita e feliz.

Isto durava até a hora do chá; e pouco depois Jorge retirava-se, beijando a mão da boa senhora, que neste momento tinha sempre uma ordem a dar e fingia não ver o beijo de despedida que o moço imprimia na fronte cândida da menina.

Agora, minha prima, se quer saber o segredo da cena que lhe acabei de descrever, cena que se repetia todas as tardes havia um mês, dê-me alguns momentos de atenção, que vou satisfazê-la.

Este moço que designei com o nome de Jorge, e que realmente tinha outro nome, em que decerto há de ter ouvido falar, o filho de um negociante rico que falecera, deixando-o órfão em tenra idade; seu tutor, velho amigo de seu pai, zelou a sua educação e a sua fortuna, como homem inteligente e honrado que era.

Chegando à maioridade Jorge tomou conta de seu avultado patrimônio e começou a viver essa vida dos nossos moços ricos, os quais pensam que gastar o dinheiro que seus pais ganharam é uma profissão suficiente para que se dispensem de abraçar qualquer outra.

Temos, infelizmente, muitos exemplos dessas esterilidades a que se condenam homens que, pela sua posição independente, podiam aspirar a um futuro brilhante.

Durante três anos o moço entregou-se a esse delírio do gozo que se apodera das almas ainda jovens; saciou-se de todos os prazeres, satisfez todas as vaidades.

As mulheres lhe sorriram, os homens o festejaram; teve amantes, luxo, e até essa glória efêmera, auréola passageira que brilha algumas horas para aqueles que pelos seus vícios e pelas suas extravagâncias excitam um momento a curiosidade pública.

Felizmente, como quase sempre sucede, no meio das sensações materiais, a alma se conservara pura; envolta ainda na sua virgindade primitiva, dormira todo o tempo em que a vida parecia ter-se concentrado nos sentidos, e só despertou quando, fatigado pelos excessos do prazer, gasto pelas emoções repetidas de uma existência desregrada, o moço sentiu o tédio e o aborrecimento, que é a última fase dessa embriaguez do espírito.

Tudo que até então lhe parecera cor-de-rosa tornou-se insípido e monótono, todas essas mulheres que cortejara, todas essas loucuras que o excitaram, todo esse luxo que o fascinara, causavam-lhe repugnância; faltava-lhe um quer que seja, sentiu um vácuo imenso; ele, que antes não podia viver senão em sociedade e no bulício do mundo, procurava a solidão.

Uma circunstância bem simples modificou a sua existência.

Levantou-se um dia depois de uma noite de insônia, em que todas as recordações de sua vida desregrada, todas as imagens das mulheres que o haviam seduzido perpassaram como fantasmas pela sua imaginação, atirando-lhe um sorriso de zombaria e de escárnio.

Abriu a janela para aspirar o ar puro e fresco da manhã, que vinha rompendo.

Daí a pouco o sino da igrejinha da Glória começou a repicar alegremente; esse toque argentino, essa voz prazenteira do sino, causou-lhe uma impressão agradável.

Vieram-lhe tentações de ir à missa.

A manhã estava lindíssima, o céu azul e o sol brilhante; quando não fosse por espírito de religiosidade excitava-o a idéia de um belo passeio a um dos lugares mais pitorescos da cidade.

II

Alguns instantes depois Jorge subia a ladeira e entrava na igreja.

A modesta simplicidade do templo impôs-lhe respeito; ajoelhou; não rezou, porque não sabia, mas lembrou-se de Deus, e elevou o seu espírito desde a miséria do homem até a grandeza do Criador.

Quando se ergueu, parecia-lhe que se tinha libertado de uma opressão que o fatigava; sentia um bem-estar, uma tranqüilidade de espírito indefinível.

Nesse momento viu ajoelhada ao pé da grade que separa a capela uma menina de quinze anos, quando muito: o perfil suave e delicado, os longos cílios que vendavam seus olhos negros e brilhantes, as tranças que realçavam a sua fronte pura, o impressionaram.

Começou a contemplar aquela menina como se fosse uma santa; e, quando ela levantou-se para retirar-se com sua mãe, seguiu-a insensivelmente até a casa que já lhe descrevi porque esta moça era a mesma de que lhe falei, e sua mãe D. Maria.

Escuso contar-lhe o que se passou depois. Quem não sabe a história simples e eterna de um amor inocente, que começa por um olhar, passa ao sorriso, chega ao aperto de mão às escondidas, e acaba afinal por um beijo e por um sim, palavras sinônimas no dicionário do coração?

Dois meses depois desse dia começou aquela visita ao cair da tarde, aquela conversa à sombra das árvores, aquele serão de família, aquela doce intimidade de um amor puro e tranqüilo.

Jorge esperava apenas esquecer de todo a sua vida passada, apagar completamente os vestígios desses tempos de loucura, para casar-se com aquela menina, e dar-lhe a sua alma pura e sem mancha.

Já não era o mesmo homem: simples nos seus hábitos e na sua existência, ninguém diria que algum tempo ele tinha gozado de todas as voluptuosidades do luxo; parecia um moço pobre e modesto, vivendo do seu trabalho e ignorando inteiramente os cômodos da riqueza.

Como o amor purifica, D...! Como dá forças para vencer instintos e vícios contra os quais a razão, a amizade e os seus conselhos severos foram impotentes e fracos!

Creia que se algum dia me metesse a estudar as altas questões sociais que preocupam os grandes políticos, havia de cogitar alguma coisa sobre essa força invencível do mais nobre dos sentimentos humanos.

Não há aí um sistema engenhoso que pretende regenerar o homem pervertido, fazendo-lhe germinar o arrependimento por meio da pena e despertando-lhe os bons instintos pelo isolamento e pelo silêncio?

Por que razão há de procurar-se aquilo que é contra a natureza, e desprezar-se o germe que Deus deu ao coração do homem para regenerá-lo e purificá-lo?

Perdão, minha prima; não zombe das minhas utopias sociais; desculpe-me esta distração; volto ao que sou - simples e fiel narrador de uma pequena história.

Em amor, dois meses depressa se passam; os dias são momentos agradáveis e as horas flores que os amantes desfolham sorrindo.

Por fim chegou a véspera do casamento, que se devia fazer simplesmente em casa, na presença de um ou dois amigos; o moço, fatigado dos prazeres ruidosos, fazia agora de sua felicidade um mistério.

Nenhum dos seus conhecidos sabia de seus projetos; ocultava o seu tesouro, com medo que lho roubassem; escondia a flor do sentimento que tinha dentro d'alma, receando que o bafejo do mundo onde vivera a viesse crestar.

A noite passou-se simplesmente como as outras; apenas notava-se em D. Maria uma atividade que não lhe era habitual.

A boa senhora, que exigira como condição que seus dois filhos ficassem morando com ela para alegrarem a sua solidão e a sua viuvez, temia que alguma coisa faltasse à festa simples e íntima que devia ter lugar no dia seguinte.

De vez em quando erguia-se e ia ver se tudo estava em ordem, se não havia esquecido alguma coisa; e parecia-lhe que voltava aos primeiros anos da sua infância, repassando na memória esse dia, que uma mulher não esquece nunca.

Nele se passa o maior acontecimento de sua vida; ou realiza-se um sonho de ventura, ou murcha para sempre uma esperança querida que se guarda no fundo do coração; pode ser o dia da felicidade ou da desgraça, mas é sempre uma data notável no livro da vida.

No momento da partida, quando Jorge se levantou, D. Maria, que compreendia o que essas duas almas tinham necessidade de dizer-se mutuamente, retirou-se.

Os dois amantes apertaram-se as mãos e olharam-se com um desses olhares longos, fixos e ardentes que parecem embeber a alma nos seus raios límpidos e brilhantes.

Tinham tanta coisa a dizer e não proferiam uma palavra; foi só depois de um comprido silêncio que Jorge murmurou quase imperceptivelmente:

- Amanhã!...

Carolina sorriu enrubescendo; aquele amanhã exprimia a felicidade, a realização desse belo sonho cor-de-rosa que havia durado dois meses; a linda e inocente menina, que amava com toda a pureza de sua alma, não tinha outra resposta.

Sorriu e corou.

Jorge desceu lentamente a ladeira, e ao quebrar a rua voltou-se ainda uma vez para lançar um olhar à casa.

Uma luz brilhava nas trevas entre as cortinas do quarto de sua noiva; era a estrela do seu amor, que brevemente devia transformar-se em lua-de-mel.

III

Deve fazer uma idéia, minha prima, do que será a véspera do casamento para um homem que ama.

A alma, a vida, pousa no umbral dessa nova existência que se abre, e daí lança um volver para o passado e procura devassar o futuro.

Aquém a liberdade, a isenção, a tranqüilidade de espírito, que se despedem do homem; além a família, os gozos íntimos, o lar doméstico, esse santuário das verdadeiras felicidades do mundo que acenam de longe.

No meio de tudo isto, a dúvida e a incerteza, essas inimigas dos prazeres humanos, vêm agitar o espírito e toldar o céu brilhante das esperanças que sorriem.

O futuro valerá o passado?

E nessa questão louca e insensata debate-se o pensamento, como se a prudência e sabedoria humana pudessem dar-lhe uma solução, como se os cálculos da previdência fossem capazes de resolver o problema.

É isto pouco mais ou menos o que se passava no espírito de Jorge quando caminhava pela Praia da Glória seguindo o caminho de sua casa.

Davam dez horas no momento em que o moço chegava à rua de Matacavalos, à porta de um pequeno sobrado, onde habitava, depois da sua retirada do mundo

Ao entrar, o escravo preveniu-lhe que uma pessoa o esperava no seu gabinete; o moço subiu apressadamente e dirigiu-se ao lugar indicado.

A pessoa que lhe fazia essa visita fora de horas era seu antigo tutor, o amigo de seu pai, a quem por algum tempo substituiu com a sua amizade sincera e verdadeira.

O Sr. Almeida era um velho de têmpera antiga, como se dizia há algum tempo a esta parte; os anos haviam aumentado a gravidade natural de sua fisionomia.

Conservava ainda toda a energia do caráter, que se revelava na vivacidade do olhar e no porte firme de sua cabeça calva.

- A sua visita a estas horas... disse o moço entrando.

- Admira-o? perguntou o Sr. Almeida.

- Certamente; não porque isto não me dê prazer; mas acho extraordinário.

- E com efeito o é; o que me trouxe aqui não foi o simples desejo

de fazer-lhe uma visita.

- Então houve um motivo imperioso?

- Bem imperioso.

- Neste caso, disse o moço, diga-me de que se trata, Sr. Almeida; estou pronto a ouvi-lo.

O velho tomou uma cadeira, sentou-se à mesa que havia no centro do gabinete e, aproximando um pouco de si o candeeiro que esclarecia o aposento, tirou do bolso uma dessas grandes carteiras de couro da Rússia, que colocou defronte de si.

O moço, preocupado por este ar grave e solene, sentou-se em face e esperou com inquietação a decifração do enigma.

- Chegando à casa há pouco, entregaram-me uma carta sua, em que me participava o seu casamento.

- Não o aprova? perguntou o moço inquieto.

- Ao contrário, julgo que dá um passo acertado; e é com prazer que aceito o convite que me fez de assistir a ele.

- Obrigado, Sr. Almeida.

- Não é isto, porém, que me trouxe aqui; escute-me.

O velho recostou-se na cadeira, e, fitando os olhos no moço, considerou-o um momento, como quem procurava a palavra por que devia continuar a conversa.

- Meu amigo, disse o Sr. Almeida, há cinco anos que seu pai faleceu.

- Trata-se de mim então? perguntou Jorge, cada vez mais inquieto.

- Do senhor e só do senhor.

- Mas o que sucedeu?

- Deixe-me continuar. Há cinco anos que seu pai faleceu; e há três que, tendo o senhor completado a sua maioridade, eu, a quem o meu melhor amigo havia confiado a sorte de seu filho, entreguei-lhe toda a sua herança, que administrei durante dois anos com o zelo que me foi possível.

- Diga antes com uma inteligência e uma nobreza bem raras nos tempos de hoje.

- Não houve nada de louvável no que pratiquei; cumpri apenas o meu dever de homem honesto e a promessa que fiz a um amigo.

- A sua modéstia pode ser dessa opinião; porém a minha amizade e o meu reconhecimento pensam diversamente.

- Perdão; não percamos tempo em cumprimentos. A fortuna que lhe deixara seu pai, e que ele ajuntara durante trinta anos de trabalho e de privações, consistia em cem apólices, e na sua casa comercial, que representava um capital igual, ainda mesmo depois de pagas as dívidas.

- Sim, senhor, graças à sua inteligente administração, achava-me possuidor de duzentos contos de réis, a que dei bem mau emprego, confesso.

- Não desejo fazer-lhe exprobrações ; o senhor não é mais meu pupilo, é um homem; já não lhe posso falar com autoridade de um segundo pai, mas simplesmente com a confiança de um velho amigo.

- Mas um amigo que me merecerá sempre o maior respeito.

- Infelizmente o senhor não tem dado provas disto; durante perto de um ano acompanhei-o como uma sombra, importunei-o com os meus conselhos, abusei dos meus direitos de amigo de seu pai, e tudo isto foi debalde.

- É verdade, disse o moço abaixando tristemente a cabeça, para vergonha minha é verdade!

- A vida elegante o atraía, a ociosidade o fascinava; o senhor lançava pela janela às mãos cheias o ouro que seu pai havia ajuntado real a real.

- Basta; não me lembre esse tempo de loucura que eu desejava riscar da minha vida.

- Conheço que o incomodo; mas é preciso. Durante este primeiro ano, em que ainda tive esperanças de o fazer voltar à razão, não houve meio que não empregasse, não houve estratagema de que não lançasse mão. Responda-me, não é exato?

- Alguma vez o neguei?

- Diga-me do fundo da sua consciência: julga que um pai no desespero podia fazer mais por um filho do que eu fiz pelo senhor?

- Juro que não! disse Jorge estendendo a mão.

- Pois bem, agora é preciso que lhe diga tudo.

- Tudo?...

- Sim; ainda não concluí. Os seus desvarios de três anos arruinaram a sua fortuna.

- Eu o sei.

- As suas apólices voaram umas após outras, e foram consumidas em jantares, prazeres e jogos.

- Restava-me, porém, a minha casa comercial.

- Resta-lhe, continuou o velho carregando sobre esta palavra, a sua casa comercial, mas três anos de má administração deviam naturalmente ter influído no estado dessa casa.

- Parece-me que não.

- Sou negociante, e sei o que é o comércio. Depois que o vi finalmente voltar à vida regrada, quis ocupar-me de novo dos seus negócios; indaguei, informei-me e ontem terminei o exame da sua escrituração, que obtive de seus caixeiros quase que por um abuso de confiança. O resultado tenho-o aqui.

- O velho pousou a mão sobre a carteira.

- E então? perguntou Jorge com ansiedade.

O Sr. Almeida, fitando no moço um olhar severo, respondeu lentamente à sua pergunta inquieta:

- O senhor está pobre!

IV

Para um homem habituado aos cômodos da vida, a essa descuidosa existência da gente rica, que tem a chave de ouro que abre todas as portas, o talismã que vence todos os impossíveis, essa palavra pobre é a desgraça, é mais do que a desgraça, é uma fatalidade.

A miséria com o seu cortejo de privações e de desgostos, a humilhação de uma posição decaída, a terrível necessidade de aceitar, senão a caridade, ao menos a benevolência alheia, tudo isto desenhou-se com as cores mais carregadas no espírito do moço à simples palavra que seu tutor acabava de pronunciar.

Contudo, como já se havia de alguma maneira preparado para uma vida laboriosa pelo tédio que lhe deixaram os seus anos de loucura, aceitou com uma espécie de resignação o castigo que lhe dava a Providência.

- Estou pobre, disse ele respondendo ao Sr. Almeida, não importa; sou moço, trabalharei, e como meu pai hei de fazer uma fortuna.

O velho abanou a cabeça com uma certa ironia misturada de tristeza.

- O senhor duvida? O meu passado dá-lhe direito para isso; mas um dia lhe provarei o contrário, e lhe mostrarei que mereço a sua estima.

- Esta promessa ma restitui toda. Mas que conta fazer?

- Não sei; a noite me há de inspirar. Liquidarei esse pouco que me resta...

- Esse pouco que lhe resta?

- Sim.

- Não me compreendeu então; disse-lhe que estava pobre; não lhe resta senão a miséria e...

- E... balbuciou o moço pálido e com a alma suspensa aos lábios do velho, cuja voz tinha tomado uma entonação solene ao pronunciar aquele monossílabo.

- E as dívidas de seu pai, articulou o Sr. Almeida no mesmo tom.

Jorge deixou-se cair sobre a cadeira com desânimo; este último golpe o prostrara; a sua energia não resistia.

O velho, cuja intenção real era impossível de adivinhar, porque às vezes tornava-se benévolo como um amigo e outras severo como um juiz, encarou-o por algum tempo com uma dureza de olhar inexprimível:

- Assim, disse ele, eis um filho que herdou um nome sem mancha e uma fortuna de duzentos contos de réis; e que, depois de ter lançado ao pó das ruas as gotas de suor da fronte de seu pai amassadas durante trinta anos, atira ao desprezo, ao escárnio e à irrisão pública esse nome sagrado, esse nome que toda a praça do Rio de Janeiro respeitava como o símbolo da honradez. Diga-me que título merece este filho?

- O de um miserável e de um infame, disse Jorge levantando a cabeça: eu o sou! Mas a memória de meu pai, que eu venero, não pode ser manchada pelos atos de um mau filho.

- O senhor bem mostra que não é negociante.

- Não é preciso ser negociante para compreender o que é honra e probidade, Sr. Almeida.

- Mas é preciso ser negociante para compreender até que ponto obriga a honra e a probidade de um negociante. Seu pai devia; em vez de saldar essas obrigações com a riqueza que lhe deixou, consumiu-a em prazeres; no dia em que o nome daquele que sempre fez honra à sua firma for declarado falido, a sua memória está desonrada.

- O senhor é severo demais Sr. Almeida.

- Oh! não discutamos; penso desta maneira; não sou rico, mas procurarei salvar o nome de meu amigo da desonra que seu filho lançou sobre ele.

- E o que me tocará a mim então?

- Ao senhor, disse o velho erguendo-se, fica-lhe a miséria, a vergonha, o remorso, e talvez que mais tarde, o arrependimento.

A angústia e o desespero que se pintavam nas feições de Jorge tocavam quase à alucinação e ao desvario; às vezes era como uma atonia que lhe paralisava a circulação, outras tinha ímpetos de fechar os olhos e atirar a matéria contra a matéria, para ver se neste embate a dor física, a anulação do espírito, moderavam o profundo sofrimento que torturava sua alma.

Por fim uma idéia sinistra passou-lhe pela mente, e agarrou-se a ela como um náufrago a um destroço de seu navio; o desespero tem dessas coincidências; um pensamento louco é às vezes um bálsamo consolador, que, se não cura, adormece o padecimento.

O moço ficou de todo calmo; mas era essa calma sinistra que se assemelha ao silêncio que precede as grandes tempestades.

Tudo isto se passou num momento, enquanto o Sr. Almeida, com o seu sorriso irônico, abotoava até a gola da sua sobrecasaca, dispondo-se a sair.

- Estamos entendidos, senhor; pode mandar debitar-me nos seus livros pelas dívidas de seu pai. Boa noite.

- Adeus, senhor.

O velho saiu direito e firme como um homem no vigor da idade.

Jorge escutou o som de suas passadas, que ecoaram surdamente no soalho, até o momento em que a porta da casa fechou-se.

Então curvou a cabeça sobre o braço, apoiado ao umbral da janela, e chorou.

Quando um homem chora, minha prima, a dor adquire um quer que seja de suave, uma voluptuosidade inexprimível; sofre-se, mas sente-se quase uma consolação em sofrer.

Vós, mulheres, que chorais a todo o momento, e cujas lágrimas são apenas um sinal de vossa fraqueza, não conheceis esse sublime requinte da alma que sente um alívio em deixar-se vencer pela dor; não compreendeis como é triste uma lágrima nos olhos de um homem.

V

Uma hora seguramente se passara depois da saída do velho.

O relógio de uma das torres da cidade dava duas horas.

Jorge conservou-se na mesma posição; imóvel, com a cabeça apoiada sobre o braço, apenas se lhe percebia o abalo que produzia de vez em quando um soluço que o orgulho do homem reprimia, como que para ocultar de si mesmo a sua fraqueza.

Depois nem isto; ficou inteiramente calmo, ergueu a cabeça e começou a passear pelo aposento: a dor tinha dado lugar à reflexão; e ele podia enfim lançar um olhar sobre o passado, e medir toda a profundeza do abismo em que ia precipitar-se.

Havia apenas duas horas que a felicidade lhe sorria com todas as suas cores brilhantes, que ele via o futuro através de um prisma fascinador; e poucos instantes tinham bastado para transformar tudo isto em uma miséria cheia de vergonha e de remorsos.

As oscilações da pêndula, que na véspera respondiam alegremente às palpitações de seu coração, a bater com a esperança da ventura, ressoavam agora tristemente, como os dobres monótonos de uma campa tocando pelos mortos.

Mas não era o pensamento dessa desgraça irreparável, imensa, que tanto o afligia; os espíritos fortes, como o seu, têm para as grandes dores um grande remédio, a resignação.

A pobreza não o acobardava; a desonra, não a temia; o que dilacerava agora a sua alma era um pensamento cruel, uma lembrança terrível:

- Carolina!...

A pobre menina, que o amava, que dormia tranqüilamente embalada por algum sonho prazenteiro, que esperava com a inocência de um anjo e a paixão de uma mulher a hora dessa ventura suprema de duas almas a confundirem-se num mesmo beijo!

Podia, ele, desgraçado, miserável, escarnecido, iludir ainda por um dia esse coração e ligar essa vida de inocência e de flores à existência de um homem perdido?

Não: seria um crime, uma infâmia, que a nobreza de sua alma repelia; sentia-se bastante desgraçado, é verdade, mas essa desgraça era o resultado de uma falta, de uma bem grave falta, mas não de um ato vergonhoso.

O seu casamento, pois, não podia mais efetuar-se; o seu dever, a sua lealdade exigiam que confessasse a D. Maria e a sua filha as razões que tornavam impossível esta união.

Sentou-se à mesa e começou a escrever com uma espécie de delírio uma carta à mãe de Carolina; mas, apenas havia traçado algumas linhas, a pena estacou sobre o papel.

- Seria matá-la! balbuciou ele.

Outra idéia lhe viera ao espírito; lembrou-se que no estado a que tinham chegado as coisas, essa ruptura havia de necessariamente prejudicar a reputação de sua noiva.

Ele seria causa de que se concebesse uma suspeita sobre a pureza dessa menina que havia respeitado como sua irmã, embora a amasse com uma paixão ardente; e este só pensamento paralisara a sua mão sobre o papel.

Recordou-se de que D. Maria um dia lhe havia dito:

- Jorge, a confiança que tenho na sua lealdade é tal que entreguei minha filha antes de pertencer-lhe. Lembre-se que se o senhor mudasse de idéia, embora ela esteja pura como um anjo, o mundo a julgaria uma moça iludida. Espero que respeite em sua noiva a sua futura mulher.

E o moço reconhecia quanto D. Maria tinha razão; lembrava-se, no tempo da sua vida brilhante, que comentários não faziam seus amigos sobre um casamento rompido às vezes pelo motivo o mais simples.

Deixar pesar a sombra de uma suspeita sobre a pureza de Carolina, era coisa que o seu espírito nem se animava a conceber; mas iludir a pobre menina, arrastando-a a um casamento desgraçado, era uma infâmia.

Durante muito tempo o seu pensamento debateu-se nesta alternativa terrível, até que uma idéia consoladora veio restituir-lhe a calma.

Tinha achado um meio de tudo conciliar; um meio de satisfazer ao sentimento do seu coração e aos prejuízos do mundo.

Qual era este meio? Ele o guardou consigo e o concentrou no fundo d'alma; apenas um triste sorriso dizia que ele o havia achado, e que sobre a dor profunda que enchia o coração, ainda pairava um sopro consolador.

Toda a noite se passou nesta luta íntima.

De manhã o moço saiu e foi ver Carolina, para receber um sorriso que lhe desse forças de resistir ao sofrimento.

A menina na sua ingênua afeição apercebeu-se da palidez do moço, mas atribuiu-a a um motivo bem diverso do que era realmente.

- Não dormiste, Jorge? perguntou ela.

- Não.

- Nem eu! disse corando.

Ela cuidava que era só a felicidade que trazia essas noites brancas, que deviam depois dourar-se aos raios do amor.

Como se enganava!

De volta, Jorge dispôs tudo que era necessário para seu casamento, e fechou-se no seu quarto até a tarde.

VI

Quatro pessoas se achavam reunidas na sala da casa de D. Maria.

O Sr. Almeida, sempre grave e sisudo, conversava no vão de uma janela com um outro velho, militar reformado, cuja única ocupação era dar um passeio à tarde e jogar o seu voltarete.

O honrado negociante estava vestido em traje de cerimônia e machucava na mão esquerda um par de luvas de pelica branca, indício certo de alguma grande solenidade, como casamento ou batizado.

Os dois conversavam sobre o projeto do desmoronamento do morro do Castelo, projeto que julgavam devia estender-se a todos os morros da cidade; era um ponto este em que o reumatismo do Sr. Almeida e uma antiga ferida do militar reformado se achavam perfeitamente de acordo.

As outras duas pessoas eram um sacerdote respeitável e uma encantadora menina, que esperavam sentados no sofá a chegada de Jorge.

- Quando será o seu dia? dizia, sorrindo, o padre.

- É coisa em que nem penso! respondia a moça com um gracioso gesto de desdém.

- Ande lá! Há de pensar sempre alguma vez.

- Pois não!

E, dizendo isto, a menina suspirava, minha prima, como suspiram todas as mulheres em dia de casamento: umas desejando, outras lembrando-se e muitas arrependendo-se.

A um lado da sala estava armado um oratório simples; um Cristo, alguns círios e dois ramos de flores bastavam à religião do amor, que tem as galas e as pompas do coração.

Jorge chegou às cinco horas e alguns minutos.

O Sr. Almeida apertou-lhe a mão com a mesma impassibilidade costumada, como se nada se tivesse passado entre eles na véspera.

Um observador, porém, teria reparado no olhar perscrutador que o negociante lançou ao moço, como procurando ler-lhe na fisionomia um pensamento oculto.

O padre revestiu-se dos seus hábitos sacerdotais; e Carolina apareceu na porta da sala guiada por sua mãe.

Dizem que há um momento em que toda a mulher é bela, em que um reflexo ilumina o seu rosto e dá-lhe esse brilho que fascina; os franceses chamam a isto... la beauté du diable.

Há também um momento em que as mulheres belas são anjos, em que o amor casto e puro lhes dá uma expressão divina; eu, bem ou mal, chamo a isto... a beleza do céu.

Carolina estava em um desses momentos; a felicidade que irradiava no seu semblante, o rubor de suas faces, o sorriso que adejava nos seus lábios, como o núncio desse monossílabo que ia resumir todo o seu amor, davam-lhe uma graça feiticeira

Envolta nas suas roupas alvas, no seu véu transparente preso à coroa de flores de laranjeira, os seus olhos negros cintilavam com um fulgor brilhante entre aquela nuvem diáfana de rendas e sedas.

Jorge adiantou-se pálido, mas calmo, e, tomando a mão de sua noiva, ajoelhou- se com ela aos pés do sacerdote.

A cerimônia começou.

No momento em que o padre disse a pergunta solene, essa pergunta que prende toda a vida, o moço estremeceu, fez um esforço e quase imperceptivelmente respondeu. Carolina, porém, abaixando os olhos e corando, sentiu que toda a sua alma vinha pousar-lhe nos lábios com essa doce palavra:

- Sim! murmurou ela.

A bênção nupcial, a bênção de Deus, desceu sobre essas duas almas, que se ligavam e se confundiam.

Pouco depois desapareceram os adornos de cerimônia e na sala ficaram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade de dois corações.

Jorge às vezes esforçava-se por sorrir; mas esse sorriso não iludia sua noiva, cujo olhar inquieto se fitava no seu semblante.

Entretanto a alegria de D. Maria era tão expansiva; o velho militar contava anedotas tão desengraçadas e tão chilras, que todos eram obrigados a rir e a se mostrar satisfeitos.

Jorge, mesmo à força de vontade, conseguiu dar ao seu rosto uma expressão alegre, que desvaneceu em parte a inquietação de Carolina.

Contudo havia nessa reunião uma pessoa a quem o moço não podia esconder o que se passava na sua alma, e que lia no seu rosto como um livro aberto.

Era o Sr. Almeida, que às vezes tornava-se pensativo como se combinasse alguma idéia que começava a esclarecer-lhe o espírito; sabia que a sua presença era naquele momento uma tortura para Jorge, mas não se resolvia a retirar-se.

Deram dez horas, termo sacramental das visitas de família; passar além, só é permitido aos amigos íntimos; é verdade que os namorados, os maçantes e os jogadores de voltarete costumam usurpar este direito.

Todas as pessoas levantaram-se, pois, e dispuseram-se a retirar-se.

O negociante, tomando Jorge pelo braço, afastou-se um pouco.

- Estimei, disse ele, que a nossa conversa de ontem não influísse sobre a sua resolução.

O moço estremeceu.

- Era uma coisa a que estava obrigada a minha honra, mas...

O Sr. Almeida esperou a palavra, que não caiu dos lábios de Jorge. O moço tinha empalidecido.

- Mas?... insistiu ele.

- Queria dizer que não sou tão culpado como o senhor pensa; talvez breve tenha a prova.

O negociante sorriu.

- Boa-noite, Sr. Jorge.

O moço cumprimentou-o friamente.

As outras visitas tinham saído, e D. Maria, sorrindo à sua filha, retirou-se com ela.

VII

Eram onze horas da noite.

Toda a casa estava em silêncio.

Algumas luzes esclareciam ainda uma das salas interiores, que fazia parte do aposento que D. Maria destinara a seus dois filhos.

Jorge, em pé no meio desta sala, de braços cruzados, fitava um olhar de profunda angústia em uma porta envidraçada, através da qual se viam suavemente esclarecidas as alvas sanefas da cortina.

Era a porta do quarto de sua noiva.

Duas ou três vezes dera um passo para dirigir-se àquela porta, e hesitara; temia profanar o santuário da virgindade; julgava-se indigno de penetrar naquele templo sagrado de um amor puro e casto.

Finalmente tentou um esforço supremo; revestiu-se de toda a sua coragem e atravessou a sala com um passo firme, mas lento e surdo.

A porta estava apenas cerrada; tocando-a com a sua mão trêmula, o moço abriu uma fresta e correu o olhar pelo aposento.

Era um elegante gabinete forrado com um lindo papel de cor azul-celeste, tapeçado de lã de cores mortas; das janelas pendiam alvas bambinelas de cassa, suspensas às lanças douradas.

A mobília era tão simples e tão elegante como o aposento: dois consolos de mármore, uma conversadeira, algumas cadeiras e o leito nupcial, que se envolvia nas longas e alvas cortinas, como uma virgem no seu véu de castidade.

Era, pois, um ninho de amor este gabinete, em que o bom gosto, a elegância e a singeleza tinham imprimido um cunho de graça e distinção que bem revelava que a mão do artista fora dirigida pela inspiração de uma mulher.

Carolina estava sentada a um canto da conversadeira, a alguns passos do leito, no vão das duas janelas; tinha a cabeça descansada sobre o recosto e os olhos fitos na porta da sala.

A menina trajava apenas um alvo roupão de cambraia atacado por alamares feitos de laços de fita cor de palha; o talhe do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava entrever o seio delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.

A indolente posição que tomara fazia sobressair toda a graça do seu corpo, e desenhava as voluptuosas ondulações dessas formas encantadoras, cuja mimosa carnação percebia-se sob a transparência da cambraia.

Seus longos cabelos castanhos de reflexos dourados, presos negligentemente, deixavam cair alguns anéis que se espreguiçavam languidamente sobre o colo aveludado, como se sentissem o êxtase desse contato lascivo.

Descansava sobre uma almofada de veludo a ponta de um pezinho delicado, que rocegando a orla do seu roupão deixava admirar a curva graciosa que se perdia na sombra.

Um sorriso, ou antes um enlevo, frisava os lábios entreabertos; os olhos fixos na porta vendavam-se às vezes com os seus longos cílios de seda, que, cerrando-se, davam uma expressão ainda mais lânguida ao seu rosto.

Foi em um desses momentos que Jorge entreabriu a porta e olhou: nunca vira a sua noiva tão bela, tão cheia de encanto e de sedução.

E entretanto ele, seu marido, seu amante, que ela esperava, ele, que tinha a felicidade ali, junto de si, sorriu amargamente como se lhe houvessem enterrado um punhal no coração.

Abriu a porta, e entrou.

A moça teve um leve sobressalto; e, dando com os olhos no seu amante, ergueu-se um pouco sobre a conversadeira, tanto quanto bastou para tomar-lhe as mãos e engolfar-se nos seus olhares.

Que muda e santa linguagem não falavam essas duas almas, embebendo-se uma na outra! Que delícia e que felicidade não havia nessa mútua transmissão de vida entre dois corações que palpitavam um pelo outro!

Assim ficaram tempo esquecido; ambos viviam uma mesma vida, que se comunicava pelo fluido do olhar e pelo contato das mãos; pouco a pouco as suas cabeças se aproximaram, os seus hálitos se confundiram, os lábios iam tocar-se.

Jorge afastou-se de repente, como se sentisse sobre a sua boca um ferro em brasa; desprendeu as mãos, e sentou-se pálido e lívido como um morto.

A menina não reparou na palidez de seu marido; toda entregue ao amor, não tinha outro pensamento, outra idéia.

Deixou cair a cabeça sobre o ombro de Jorge; e, sentindo as palpitações do seu coração sobre o seio, achava-se feliz, como se ele lhe falasse, lhe olhasse e lhe sorrisse.

Foi só quando o moço, erguendo docemente a fronte da menina, a depôs sobre o recosto da almofada, que Carolina olhou seu amante com surpresa, e viu que alguma coisa se passava de extraordinário.

- Jorge, disse ela com a voz trêmula e cheia de angústias, tu não me amas.

- Não te amo! exclamou o moço tristemente; se tu soubesses de que sacrifícios é capaz o amor que te tenho!...

- Oh! não, continuou a moça, abanando a cabeça; tu não me amas! Vi-te todo o dia triste; pensei que era a felicidade que te fazia sério, mas enganei-me.

- Não te enganaste, não, Carolina, era a tua felicidade que me entristecia.

- Pois então saibas que a minha felicidade está em te ver sorrir. Vamos, não me ames hoje menos do que me amavas há dois meses!

- Há dois momentos, Carolina, em que o amor é mais do que uma paixão, é uma loucura; é o momento em que se possui ou aquele em que se perde, o objeto que se ama.

A menina corou e abaixou os olhos sobre o tapete.

- Dize-me, tornou ela para disfarçar a sua confusão, o que sentiste hoje no momento em que as nossas duas mãos se uniram sob a bênção do padre?

Jorge estremeceu, e ia soltar uma palavra que reteve; depois disse com algum esforço:

- A felicidade, Carolina.

- Pois eu senti mais do que a felicidade; quando nossas mãos se uniam tantas vezes e que nós conversávamos horas e horas, eu era bem feliz; mas hoje, quando ajoelhamos, não sei o que se passou em mim; parecia-me que tudo tinha desaparecido, tu, eu, o padre, minha mãe, e que só havia ali duas mãos que se tocavam, e nas quais nós vivíamos!

O moço voltou o rosto para esconder uma lágrima.

- Vem cá, continuou a moça, deixa-me apertar a tua mão; quero ver se sinto outra vez o que senti. Ah! naquele momento parecia que nossas almas estavam tão unidas uma à outra que nada nos podia separar.

A moça tomou as mãos de Jorge, e, descansando a cabeça sobre o recosto da conversadeira, cerrou os olhos e assim ficou algum tempo

- Como agora!... continuou ela, sorrindo. Se fecho os olhos, vejo-te aí onde estás. Se escuto, ouço a tua voz. Se ponho a mão no coração, sinto-te!

Jorge ergueu-se; estava horrivelmente pálido.

Caminhou pelo gabinete agitado, quase louco; a moça o seguia com os olhos; sentia o coração cerrado; mas não compreendia.

Por fim o moço chegou-se a um consolo sobre o qual havia uma garrafa de Chartreuse e dois pequenos copos de cristal. Sua noiva não percebeu o movimento rápido que ele fez, mas ficou extremamente admirada, vendo-o apresentar-lhe um dos cálices cheio de licor.

- Não gosto! disse a menina com gracioso enfado.

- Não queres então beber à minha saúde! Pois eu vou beber à tua.

Carolina ergueu-se vivamente e, tomando o cálice, bebeu todo o licor.

- Ao nosso amor!...

Jorge sorriu tristemente.

Dava uma hora da noite.

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