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Narciso

 

O mito de Narciso é um dos mitos gregos mais conhecidos, devido à sua singularidade e moral.

Narciso, na mitologia grega, filho do deus do rio Cephissus e da ninfa Liriope.

Ele foi distinguido pela sua beleza.

Lenda de Narciso

Lenda de Narciso, surgida provavelmente da superstição grega segundo a qual contemplar a própria imagem prenunciava má sorte, possui um simbolismo que fez dela uma das mais duradouras da mitologia grega.

Narciso
Narciso

Narciso era um jovem de singular beleza, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope.

No dia de seu nascimento, o adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura.

Indiferente aos sentimentos alheios, Narciso desprezou o amor da ninfa Eco - segundo outras fontes, do jovem Amantis - e seu egoísmo provocou o castigo dos deuses.

Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se. A flor conhecida pelo nome de Narciso nasceu, então, no lugar onde morrera.

Em outra versão da lenda, Narciso contemplava a própria imagem para recordar os traços da irmã gêmea, morta tragicamente.

Foi, no entanto, a versão tradicional, reproduzida no essencial por Ovídio em Metamorfoses, que se transmitiu à cultura ocidental por intermédio dos autores renascentistas.

Na psiquiatria e particularmente na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.

História

Narciso, antes de ser uma personagem da mitologia grega, era simplesmente um rapaz escorreito, não se pode negar; tinha uma cara de príncipe de conto de fadas, usava o cabelo comprido ou curto conforme a ocasião, vestia com gosto e maquilhava-se só com produtos naturais, absolutamente naturais.

Numa terça-feira (ou quinta. tanto dá) acabava de dispor-se para sair, talvez para ir ao teatro (porque ainda não se tinha inventado o cinema) ou talvez a uma festa. Tinha revitalizado os seus lábios com cereja vermelha, branqueado o seu rosto e penteado o seu cabelo.

Viu-se ao espelho (o reflexo da água num lago, pois tudo era natural) e contemplou-se com satisfação e disse para si mesmo: "sou mesmo perfeito".

Então Zeus, o deus grego, reparando com quanto deleite Narciso contemplava a sua própria figura, infundiu-lhe um amor desmedido pelo seu próprio eu.

Narciso enamorou-se perdidamente por si mesmo. E quis alcançar a sua imagem atirando-se ao tanque, onde morreu infeliz por não se poder possuir.

Esta história da mitologia grega, parece-se com a história dos rapazes que gastam tardes inteiras no ginásio a contemplar os seus bíceps ou das raparigas que não se poupam jornadas esgotantes de ginástica rítmica. "Sou mesmo perfeito" ouvimo-los pensar quando nos salões se põem diante dos espelhos depois de "treinarem", olhando, por diante ou atrás o abdómen dividido em quatro ou seis retângulos, os músculos dorsais, fazem força para perfilar melhor os bíceps, os peitorais, etc.

Se fores a um ginásio podes ver que sempre há um salão com espelhos onde certamente haverá "teens" e não tão "teens" a avaliar a musculatura dos seus corpos.

"Com o suor cutâneo a silhueta dos músculos fica mais definida …", é o que dirão.

Mas narciso não só é o rapaz ou a rapariga que vivem para a figura do seu corpo: há alguns mais refinados, desde os que transmutam o rosto com cosméticos, até aos que além de dietas, roupas e modas, se penteiam com métodos sofisticadíssimos.

A Narciso a morte apanhou-o num tanque. E eu pergunto-me, onde é que a morte apanha os narcisos de hoje, que consomem a sua vida no culto idólatra da sua figura; a sobredosse, excesso de hormonas, e eis os que ficam "tesos" com a cirurgia plástica , etc. "Não, eu só faço exercício" diz algum rapaz frequentador do ginásio …

Viver para o corpo é como morte em vida, pois não vives para ti mesmo nem para os outros, mas para a figura do teu corpo. Sem necessidade de falar da doutrina católica e de que o culto do corpo constitui uma forma de idolatria, um elementar sentido humano adverte-nos contra essas formas de perversão.

O meu corpo não me pertence porque não é uma coisa que se possua, também o meu corpo é a minha casa, como dizia a propaganda sem bases filosóficas.

O meu corpo é parte da minha humanidade: sou eu mesmo com a minha alma numa união indivisível.

Ao dar atenção desmedida ao meu corpo, em certo sentido estou a tratá-lo como um objeto que possuo. E não é que não deva atender o meu corpo, dizendo melhor, cuidar e atender-me a mim mesmo e por isso mesmo, como parte inseparável do meu ser, aplicar-me ao cuidado do meu corpo.

O ginásio e os aerobics são bons: são saúde. Mas não são um fim em si mesmo.

Da próxima vez que fores ao ginásio, procura não olhar-te ao espelho. Faz exercício físico que te ajude a manter a mente desempoeirada e o espírito aberto.

Como dizia o sábio pensamento latino: Orandum ut sit, mens sana in corpore sano; quer dizer, "há que fazer oração para ter uma mente sã num corpo são".

Não esqueças a sentença completa porque o homem é uma unidade de espírito e corpo.

E o homem não terá são o quinto andar, se o seu espírito e o seu corpo carecem de harmonia; quer dizer, se não está em paz com Deus, com os outros e consigo mesmo: Orandum ut sit, mens sana in corpore sano.

Fonte: www.nomismatike.hpg.ig.com.br/paginaseducacao.no.sapo.pt

Narciso

Quem foi

Narciso nasceu possuidor de uma beleza excepcional. Na cultura grega, assim como em tantas outras, tudo o que excede, isto é, que ultrapassa os limites da média, acaba se tornando assustador, porque pode arrastar o indivíduo para a "hýbris", que para os gregos é o descomedimento, muito distante do "métron", o equilíbrio.

A mãe de Narciso, chamada Liríope, era uma náiade ou ninfa que habita rios e riachos. Foi ela à procura de Tirésias, um cego adivinho que possuía a arte da "mantéia", ou seja, a capacidade de ver o futuro.

Ela perguntou se Narciso viveria até ficar velho, ao que o sábio respondeu: "Se ele não se vir…". O pai de Narciso era o rio Cefiso (Képhisos, o que banha, inunda). Assim, embora mortal, Narciso era um ser proveniente das águas por parte de pai e de mãe.

Conforme sua mãe temera, Narciso foi assediado por todas as ninfas e mortais que o viram. Mal ele crescera e havia uma profusão de mulheres apaixonadas por ele, deslumbradas com a sua beleza extasiante. Porém, não se sabia exatatamente o porquê, ele nada queria saber delas. Talvez não se sentisse ainda pronto para um relacionamento, ou, talvez, de tanto ouvir louvarem sua beleza, ficou orgulhoso e passou a desprezar as mulheres que o procuravam.

Havia uma ninfa que tinha uma história muito infeliz.

Seu nome era Eco, e muito antes de ver Narciso e se apaixonar por ele, era uma moça falante — ela simplesmente falava sem parar.

Zeus, o pai dos deuses gregoschamasse a atenção, mandou , sempre buscando um modo de enganar a sua esposa Hera, para que pudesse se deitar com qualquer ninfa ou mortal que lhe que Eco fizesse companhia a Hera ecostume, vingou-se na pobre ninfa, , assim, a distraísse.

Passado algum tempo Hera percebeu a artimanha, e, como era seu em vez de amaldiçoar seu maridoarticular uma só frase; ela só podia , que afinal era o autor da malandragem. Hera fez com que Eco nunca mais conseguisse repetir as últimas palavras de qualquer frase que ouvisse.

Aconteceu que, quando Eco já estava apaixonada por Narciso, ela o seguiu a uma caçada onde, por infelicidade, ele se perdeu dos amigos e começou a gritar à procura: "Ninguém me escuta?" “Escuta”, repetiu Eco. Ele porém não a via, pois ela se escondera com vergonha de tê-lo seguido.

Então ele gritou aos amigos, pensando terem sido eles que responderam: "Vamos nos juntar aqui…".

E Eco respondeu: “Vamos nos juntar aqui…”. E perdendo a timidez, apareceu de braços abertos para ele. Ele, contudo, a repeliu, dizendo que preferiria a morte a ficar com ela. Eco ficou tão triste e deprimida com a recusa que deixou de se alimentar e foi definhando até se transformar em um rochedo.

Apenas sua voz permaneceu, e da mesma maneira que estava após a maldição de Hera: só repetia as últimas palavras do que era dito perto dela.

Então, houve uma revolta das ninfas, que foram procurar Nêmesis, a deusa da Justiça. Esta, depois de ouvir suas queixas, julgou que Narciso merecia o castigo de ter um amor impossível.

Ignorando o castigo a que estava submetido, e com sede depois de outra caçada, Narciso se aproximou de um lago tão calmo e tão límpido que, ao curvar-se sobre as águas para beber, se deparou com sua imagem refletida e ficou pasmo diante de tanta beleza. O

rosto que via parecia talhado em mármore e assemelhava-se à escultura de um deus.

O pescoço esguio parecia trabalhado em marfim.

A princípio não teria se dado conta de que aquela era a sua própria imagem.

Nunca tinha se visto, como poderia se "re-conhecer" de imediato?

Mas tão apaixonado ficou que tentou tocar aquele rosto, fosse de quem fosse e, qual não foi sua surpresa quando percebeu que seus movimentos se repetiam também nas águas! Só então concluiu que aquele era o seu rosto, tão maravilhoso que não conseguiu mais tirar os olhos de seu reflexo.

Narciso morreu ali mesmo, de inanição, sem conseguir afastar os olhos da própria imagem.

Quando, depois de sua morte, amigos foram procurá-lo, só encontraram à beira do lago uma flor de pétalas brancas e miolo amarelo, muito delicada, de rara beleza e de um perfume inebriante, a qual deram o nome de narciso.

Depois, ficou-se sabendo que, até no Hades (mundo subterrâneo para onde vão as almas dos mortos), ainda hoje ele procura ver seu reflexo nas escuras águas do rio Estige.

Eco e Narciso

Certa vez havia um jovem chamado Narciso, tão belo que muitas virgens donzelas e jovens homens apaixonaram-se por ele.

Mas Narciso em nada se envolveria com os comuns. Ele acreditava estar acima de todos os outros e os rejeitava cruelmente.

Um jovem, tendo sido tão maltratado, pediu à Deusa da Vingança, Nemesis, que Narciso conhecesse a dor do amor não correspondido.

Nemesis acolheu o pedido e aprovou, e então ficou decidido que Narciso conheceria a dor que causava aos outros.

Enquanto isso, o Deus Júpiter passava o dia a deleitar-se com as Ninfas. Certa vez, quando julgou estar sua esposa, Juno, aproximando-se, enviou uma das Ninfas, Eco, para cruzar o caminho de sua esposa a falar-lhe até que Júpiter tivesse tempo de escapar, de forma que ele não foi pego. Mas Juno percebeu o que havia acontecido e ficou furiosa. Ela jurou que Eco não mais falaria distraindo-a novamente, e tirou a fala da Ninfa, de maneira que ela apenas repetiria as últimas palavras ditas por alguém.

Um dia, Narciso estava caçando com seus amigos e acabou por separar-se deles. Ele desviou-se para uma clareira onde havia um cintilante lago. Eco encontrava-se sentada próxima ao lago e o avistou, apaixonou-se imediatamente.

Narciso então gritou para a clareira, "Há mais alguém aqui?" e Eco respondeu, "Aqui!". "Vamos nos conhecer!", replicou Narciso. Eco alegremente respondeu, "Vamos nos conhecer!", e em seguida correu em direção a Narciso. Mas quando ela tentou abraçá-lo, ele recuou com repugnância e disse-lhe numa linguagem áspera que nada queria com ela. Entristecida, Eco fugiu para uma caverna onde desejou Narciso até a exaustão, quando, já exaurida, apenas sua voz remanesceu.

Afrodite, já alertada por Nemesis, indignou-se com o desdém de Narciso para com o amor da Ninfa e decidiu puni-lo.

Assim, quando Narciso foi novamente ao lago para refrescar-se, debruçou-se sobre as águas resplandecentes e viu um belo jovem sob ele. Ele nunca houvera visto seu próprio reflexo, e não fazia idéia que aquele jovem era ele mesmo. Apaixonou-se imediatamente pelo rapaz do lago e pensou ser recíproco o seu sentimento. Assim que ele sorriu, o rapaz também sorriu para ele. Quando ele tentou alcançar o jovem, os braços refletidos estenderam-se em sua direção. Mas quando tentou toca-los, as águas ondularam-se e a imagem desapareceu. Ele chorou e lamentou até perceber que se apaixonara por seu próprio reflexo. Mas já era tarde. Ele estava tão profundamente apaixonado que tudo o que podia fazer era ficar onde estava olhado para si mesmo até o esgotamento.

Exausto, Narciso caiu no lago. Quando ele morreu, muitos ficaram de luto, ninguém tanto quanto Eco, que, agora sendo apenas uma voz na caverna, calorosamente repetia as lamentações dos outros. Quando ele finalmente sucumbiu, nada remaneceu, apenas uma linda flor branca e ouro.

O mito grego de Eco e Narciso

"Eco era uma bela ninfa, amante dos bosques e dos montes, onde se dedicava a distrações campestres. Era favorita de Diana e acompanhava-a em suas caçadas.

Tinha um defeito, porém: falava de mais e, em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra.

Certo dia, Juno saiu à procura do marido, de quem desconfiava, com razão que estivese se divertindo entre as ninfas.

Eco, com sua conversa, conseguiu entreter a deusa, até as ninfas fugirem.

Percebendo isto, Juno a condenou com estas palavras:

- Só conservarás o uso dessa língua com que me iludiste para uma coisa de que gostas tanto: responder. Continuarás a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar.

A ninfa viu Narciso, um belo jovem, que perseguia a caça na montanha. Apaixonou-se por ele e seguiu-lhe os passos. Quanto desejava dirigir-lhe a palavra, dizer-lhe frases gentis e conquistar-lhe o afeto! Isso estava fora de seu poder, contudo. Esperou, com impaciência, que ele falasse primeiro, a fim de que pudesse responder.

Certo dia, o jovem, tendo se separado dos companheiros, gritou bem alto:

- Há alguém aqui?
- Aqui - respondeu Eco.

Narciso olhou em torno e, não vendo ninguém, gritou:

- Vem!
- Vem! - respondeu Eco.
- Por que foges de mim? - perguntou Narciso

Eco respondeu com a mesma pergunta.

- Vamos nos juntar - disse o jovem.

A donzela repetiu, com todo o ardor, as mesmas palavras e correu para junto de Narciso, pronta a se lançar em seus braços.

- Afasta-te! - exclamou o jovem, recuando. - Prefiro morrer a te deixar possuir-me.
- Possuir-me - disse Eco.

Mas foi tudo em vão. Narciso fugiu e ela foi esconder sua vergonha no recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e entre os rochedos das montanhas. De pesar, seu corpo definhou, até que as carnes desapareceram inteiramente. Os ossos transformaram-se em rochedos e nada mais dela restou além da voz. E, assim, ela ainda continua disposta a responder a quem quer que a chame e conserva o velho hábito de dizer a última palavra.

A crueldade de Narciso nesse caso não constituiu uma exceção. Ele desprezou todas as ninfas, como havia desprezado a pobre Eco. Certo dia, uma donzela que tentara em vão atraí-lo implorou aos deuses que ele viesse algum dia a saber o que é o amor e não ser correspondido. A deusa da vingança (Nêmesis) ouviu a prece e atendeu-a.

Havia uma fonte clara, cuja água parecia de prata, à qual os pastores jamais levavam os rebanhos, nem as cabras monteses freqüentavam, nem qualquer um dos animais da floresta. Tmabém não era a água enfeada por folhas ou galhos caídos das árvores; a relva crescia viçosa em torno dela, e os rochedos a abrigavam do sol.

Ali chegou um dia Narciso, fatigado da caça, e sentindo muito calor e muita sede. Debruçou-se para desalterar-se, viu a própria imagem refletida e pensou que fosse algum belo espírito das águas que ali vivesse. Ficou olhando com admiração para os olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o rosto oval, o pescoço de marfim, os lábios entreabertos e o aspecto saudável e animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lábios, para dar um beijo e mergulhou os braços na água para abraçar a bela imagem.

Esta fugiu com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a fascinação.

Narciso não pôde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da idéia de alimento ou repouso, enquanto se debruçava sobre a fonte, para contemplar a própria imagem.

- Por que me desprezas, belo ser? - perguntou ao suposto espírito.
- Meu rosto não pode causar-te repugnância. As ninfas me amam e tu
mesmo não parece olhar-me com indiferença. Quando estendo os braços, fazes o mesmo, e sorris quando te sorrio, e respondes com acenos aos meus acenos.

Suas lágrimas cairam na água, turbando a imagem.

E, ao vê-la partir, Narciso exclamou:

- Fica, peço-te! Deixa-me, pelo menos, olhar-te, já que não posso tocar-te.

Com estas palavras, e muitas outras semelhantes, atiçava a chama que o consumia, e, assim, pouco a pouco, foi perdendo as cores, o vigor e a beleza que tanto encantara a ninfa Eco.

Esta se mantinha perto dele, contudo, e, quando Narciso gritava: "Ai, ai", ela respondia com as mesmas palavras. O jovem, depauperado, morreu. E, quando sua sombra atravessou o Estige, debruçou-se sobre o barco, para avistar-se na água.

As ninfas o choraram, especialmente as ninfas da água. E, quando esmurravam o peito, Eco fazia o mesmo. Prepararam uma pira funerária, e teriam cremado o coprpo, se o tivessem encontrado; em seu lugar, porém, só foi achada uma flor, roxa, rodeada de folhas brancas, que tem o nome e conserva a memória de Narciso.

Milton faz alusão à história de Eco e Narciso, na canção da Dama, do poema "Comus".

A Dama, procurando os irmãos na floresta, canta, para atrair-lhes a atenção:

Ó Eco, doce ninfa que, invisível,
Vives nas verdes margens do Meandro
E no vale coberto de violetas,
Onde ao luar o rouxinol te embala,
Com seu canto nostálgico e suave,
Dois jovens tu não viste, por acaso,
Bem semelhantes, Eco, ao teu Narciso?
Se, em alguma gruta os escondeste,
Dize-me, ó ninfa, onde essa gruta está
E, em recompensa, subirás ao céu.
E mais graça darás, ó bela ninfa,
À Celeste harmonia em seu conjunto!

Além disso, Milton imitou a história de Narciso na descrição, que põe na boca de Eva, acerca de sua impressão, ao ver-se, pela primeira vez, refletida na fonte:

Muitas vezes relembro aquele dia
Em que fui despertada a vez primeira
Do meu sono profundo. Sob as folhas
E as flores, muitas vezes meditei:
Quem era eu? Aonde ia? De onde vinha?
Não distante de mim, doce ruído
De água corrente vinha. De uma gruta
Saía a linfa e logo se espalhava
Em líquida planície, tão tranqüila
Que outro céu tranqüilo parecia.
Com o espírito incerto caminhei e fui
Na verde margem repousar do lago
E contemplar de perto as claras águas
Que eram, aos meus olhos, novo firmamento.
Ao debruçar-me sobre o lago, um vulto
Bem em frente de mim apareceu
Curvado para olhar-me. Recuei
E a imagem recuou, por sua vez.
Deleitada, porém, como que avistava
Novamente eu olhei. Também a imagem
Dentro das águas para mim olhou,
Tão deleitada quanto eu, ao ver-me.
Fascinada, prendi na imagem os olhos
E, dominada por um vão desejo,
Mais tempo ficaria, se uma voz
Não se fizesse ouvir, advertindo-me:
"És tu mesma que vês, linda ciatura."

Fonte: amadeudeprado.wordpress.com/www.facom.ufba.br

Narciso

Narciso, a paixão por si mesmo

Narciso, um jovem de extrema beleza, era filho do deus-rio Cephisus e da ninfa Liriope.

No entanto, apesar de atrair e despertar cobiça nas ninfas e donzelas, Narciso preferia viver só, pois não havia encontrado ninguém que julgasse merecer seu amor. E foi o seu desprezo pelos outros que o derrotou.

Quando Narciso nasceu, sua mãe consultou o adivinho Tirésias que lhe predisse que Narciso viveria muitos anos desde que nunca conhecesse a si mesmo.

Narciso cresceu tornando-se cada vez mais belo e todas as moças e ninfas queriam seu amor, mas ele desprezava a todas.

Certo dia, enquanto Narciso descansava sob as sombras do bosque, a ninfa Eco se apaixonou por ele.

Porém tendo-a rejeitado, as ninfas jogaram-lhe uma maldição:

- Que Narciso ame com a mesma intensidade, sem poder possuir a pessoa amada. Nêmesis, a divindade punidora, escutou e atendeu ao pedido.

Naquela região havia uma fonte límpida de águas cristalinas da qual ninguém havia se aproximado. Ao se inclinar para beber água da fonte, Narciso viu sua própria imagem refletida e encantou-se com sua visão.

Fascinado, Narciso ficou a contemplar o lindo rosto, com aqueles belos olhos e a beleza dos lábios, apaixonou-se pela imagem sem saber que era a sua própria imagem refletida no espelho das águas.

Por várias vezes Narciso tentou alcançar aquela imagem dentro da água mas inutilmente; não conseguia reter com um abraço aquele ser encantador.

Esgotado, Narciso deitou na relva e aos poucos seu corpo foi desaparecendo. No seu lugar, surgiu uma flor amarela com pétalas brancas no centro que passou a se chamar, Narciso.

Na cultura grega e em muitas outras, tudo o que excedia e estivesse acima dos limites e da medida (métron) acabava se transformando em algo assustador porque poderia levar à hybris, que é descomendimento e desequilibrio. O excesso de beleza não era bem aceito pois somente aos deuses era permitido o exagero, e a excessiva beleza de Narciso desafiava a supremacia dos deuses.

O mito de narciso parece uma triste história infantil para ensinar às crianças a não serem egoistas, que pensem nos outros, que não sejam presunçosas, porém encerra uma verdade profunda e atual.

Os mitos não são tolos, e por mais que tentássemos dizer que sabemos a moral da história, o mito de Narciso está presente em todos nós.

Narciso foi transformado numa flor e a ela são creditadas propriedades entorpecentes devido a substâncias químicas que exalam. Os Narcisos plantados nos tumulos simbolizavam a morte apenas como um sono, que floresceria na primavera.

O narcisismo, que tem o seu nome derivado de Narciso, ambos derivam da palavra grega narke, entorpecido, de onde também vem a palavra narcótico.

Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, pois Narciso era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram pela sua beleza.

O mito de Narciso leva ao tema da transitoriedade da beleza e dos laços que unem o narcisismo à inveja e à morte. O dilema do narcisismo é resumido naquele que está condenado a permanecer prisioneiro do mundo das sombras, do seu amor por si mesmo ou libertar-se através do autoconhecimento e da capacidade de conhecer os outros, mas o preço é a morte simbólica do ego, para que possa nascer novamente para um novo Eu superior, profundo e sagrado, que em si oculta.

Narciso morre porque olha só para si mesmo, esse é o perigo de quem dedica toda vida a satisfazer necessidades que não atendem ao verdadeiro anseio humano de se realizar.

Eco morre porque só olha narciso, esse é o perigo de projetar no outro a nossa razão de viver.

Narciso simboliza a capacidade de olharmos para nós mesmos; Eco simboliza a capacidade de olhar o outro. É o olhar em si que encontra o outro; é o olhar no outro que encontra a si mesmo.

Embora o narcisista pense apenas em si, nunca poderá conhecer a si mesmo se não tiver uma posição exterior para se ver como realmente é.

Narciso é incapaz de ver o efeito que provoca nos outros; sabe que atrai aduladores e admiradores e Eco transforma-se no espelho do negligente Narciso. Ele se julga intocável; ela alimenta o desejo de estar em seus braços.

Eco é a repetição das ideias conhecidas sempre hostil ao novo.

Ao se apaixonar por Narciso, Eco repetiu... repetiu... e foi perdendo força, impedida de viver e amar. Eco se refugiou nas grutas, assim como a mente que teima em repetir perdendo quotas do que é novo em suas vidas. O presente é a única instância onde a vida se processa; o futuro ainda não existe e o passado é repetição, um eco. O presente é a medida do novo e trazer Eco para o presente é fazê-lo mais velho, embora ainda pareça novo.

Com seu egoismo implacável, Narciso pensa só em sí próprio e Eco só pensa em Narciso, então sua autoestima permanece frágil até a morte. Ele não se identifica com os outros e assim transforma as vozes na sua propria voz; ela não tem voz própria, está condenada à repetição da imitação. Enquanto ela agarra-se ao objeto amado, ele mantem-se à distancia. Tirésias sabia que para sobrevivermos temos de superar o narcisismo, pois temos de aceitar que somos transitórios e mortais, e só assim seremos capazes de nos transformar, nossa auto estima estará segura e teremos a beleza interior.

Quando Narciso vê o próprio reflexo, nos remete a "reflectere", de "re" novamente e "flectere" curvar-se, ou seja, um retorno que se faz curvando para o passado. Reflexão não é apenas um ato de pensar, mas é uma atitude de deter-se para procurar lembrar-se de algo que já foi visto antes e confrontar com o presente. Reflexos e sombras nos espelham de alguma maneira. Alguns povos ainda hoje não admitem que sua imagem seja refletida em água, espelho e fotografia; diz-se que a alma poderia ficar retida no reflexo permanecendo disponível às forças do mal.

A sombra representa o que não conhecemos de nós mesmos mas que podemos ainda conhecer, tal como as nossas potencialidades que ainda não desenvolvemos. Também faz parte da nossa sombra o que mais detestamos em nós mesmos, e por isso tentamos esquecer ou reprimir de alguma forma. Para negar o que não gostamos em nós mesmos, projetamos nos outros.

Quando refletimos no Narciso que vive em nós, nos confrontamos com algo sombrio, o medo da sombra, do diferente, do desconhecido, do que nos incomoda e que não queremos ver no outro.

Nos sentimos mais confortáveis quando somos admirados e reconhecidos, e precisamos disso para saber o nosso valor, de que somos importantes para alguém.

Assim continuamos procurando e nos apaixonando por nossos reflexos, por nossos semelhantes e iguais, enquanto tentamos afastar todos aqueles que que não tem a nossa cor, os nossos costumes, nossa raça, nosso nivel cultural ou poder economico, e convicções politicas e religiosas. E enquanto vamos em busca dos nossos reflexos, ampliamos mais nossa sombra, entorpecemos nossos sentidos.

Para evoluir temos de refletir, aprendendo a lidar com as diferenças e conflitos. Como num espelho, ao interargimos com o outro nos colocamos no lugar dele, sem perder nossa referencia. E o que mais nos fascina é a nossa imagem irreal, aquela que fazemos de nós mesmos. A pessoa fascinada parece estar em transe; o narcisista quer congelar a juventude e exorcizar a velhice. Idolatra o prazer e vive no espirito do encanto e da sedução.

O mito de Narciso pode servir de metáfora para muitos de nós, quando não conseguimos nos olhar com imparcialidade, e o nosso trabalho interior se torna um meio de projetar a vaidade humana na cantiga do eu sozinho: eu faço, eu sou, eu quero, eu posso. Narciso morreu embriagado pela propria beleza e encantamento, e os deuses o transformaram numa flor. A lição do mito é que o conhecimento só vinga se houver autoconhecimento, de potencialidades ou limitações, compartilhando o que sabe, eliminando vaidades que impede de aproveitar talentos e somá-los ao conhecimento dos demais. E assim escrever uma história de vida que reflita valores éticos, morais espirituais.

O conhecimento mal direcionado só alimenta o individualismo e a necessidade da ribalta. Quando nos deixamos levar pela excessiva vaidade e orgulho, tornamo-nos refens de nossa auto imagem. Magnetizado por ela, passamos a usar nossa luz de forma mesquinha e presos nessa miragem, perdemos a capacidade de irradiar nossa luz, afastando-nos da essencia, entusiasmamos pelo palco, pelo aplauso e pelo falso elogio. Somente a dura lição de cronos, o tempo, mostra-nos a verdade, muitas vezes, tardiamente.

Se Narciso se encontra com outro Narciso e um deles finge que ao outro admira, para sentir-se admirado, o outro pela mesma razão finge também e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso o olhar do outro, a voz do outro, o corpo é sempre o espelho em que ele a própria imagem mira.

E se o outro é como ele outro Narciso, é espelho contra espelho: o olhar que mira reflete o que o admira num jogo multiplicado em que a mentira de Narciso a Narciso inventa o paraíso.

E se amam mentindo no fingimento que é necessidade e assim mais verdadeiro que a verdade. Mas exige o amor fingido, ser sincero o amor que como ele é fingimento. E fingem mais os dois com o mesmo esmero com mais e mais cuidado - e a mentira se torna desespero. Assim amam-se agora se odiando.

O espelho embaçado, já que Narciso em Narciso não se mira: se torturam, se ferem, não se largam, que o inferno de Narciso, é ver que o admiravam de mentira...

Fonte: eventosmitologiagrega.blogspot.com

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