Dezoito de setembro de 1950. Inaugurada a PRF-3 TV TUPI de São Paulo, primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina. Iniciativa do jornalista paraibano Francisco de Assis Chateaubriand.
Depois de poucos meses de treinamento, alguns radialistas escolhidos por Chatô lançaram-se à aventura de fazer TV. Os estúdios earm pequenos, o equipamento precário, mas o nascimento da TV Tupi foi solene. Assis Chateaubriand presidiu a cerinômia que contou com a participação de um frei cantor mexicano. José Mojica, que entoou "A Canção da TV", hino composto especialmente para a ocasião.
Um balé de Lia Marques e declamação da poetisa Rosalina Coelho Lisboa, nomeada madrinha do "moderno equipamento" fizeram parte do show. A jovem atriz Yara Lins foi convocada especialmente para dizer o prefixo da emissora — PRF-3 — e o de uma série de rádios que transmitiam em cadeia o acontecimento. A seguir entrou a programação na tela dos cinco aparelhos instalados no saguão do prédio dos Diários Associados.
Há muitas histórias a respeito desse dia. Uma delas é que, empolgado, Chateaubriand teria quebrado uma garrafa de champanhe numa das duas câmeras RCA, fazendo com que a TV no Brasil entrasse em cena com apenas 500/o de sua capacidade, isto é: com apenas uma câmera. Outra é que, acabada a inauguração, a equipe se deu conta de que não havia o que colocar no ar no dia seguinte, pois ninguém havia pensado nisso.
O autor de novelas Cassiano Gabus Mendes que, aos 23 anos, assumiu a direção artística da Tupi, não podia ouvir essas histórias, desmentia quantas vezes fosse preciso. "É tudo invenção do Lima Duarte. Como ele é muito engraçado, as pessoas acabam se convencendo." dizia ele pouco antes de morrer, em 1994. "Chateaubriand era um homem esclarecido, não ia danificar equipamento e tínhamos programação para as três semanas seguintes".
Acostumados à improvisação e rapidez do rádio, os pioneiros não tiveram problemas em se adaptar ao moderno veículo e aprenderam muito: ator virava sonoplasta, autor dirigia, diretor entrava em cena. A TV TUPI dos primeiros anos era uma verdadeira escola. Aos poucos, os programas ganharam forma: o primeiro telejornal... a primeira novela.
O programa "TV DE VANGUARDA" revelou a primeira geração de atores, atrizes e diretores. Foram apresentadas peças como Hamlet, de Shakespeare, e Crime e Castigo, de Dostoievsky. Alguns programas dos primeiros tempos da TV TUPI tornaram-se campeões de audiência e permanência no ar: Alô Doçura, Sítio do Picapau Amarelo, O Céu é o Limite, Clube dos Artistas (que existiu de 1952 a 1980) e o famoso telejornal "O Repórter Esso" (que ficou 18 anos no ar).
Telenovela foi invenção da Tupi, que as exibia em capítulos semanais e era capaz de ousadias como mostrar beijo na boca. Foi em 1951, na novela Tua Vida Me Pertence, que Vida Alves deixou-se beijar pelo galã Walter Forster.
No jornalismo a emissora repetiu na tela o sucesso do Repórter Esso, que marcou época no rádio brasileiro a partir de 1941. Os locutores Heron Domingues e Gontijo Teodoro entravam no ar com as últimas noticias nacionais e internacionais ao som de um dos mais famosos prefixos musicais da história do rádio e televisão brasileiros.
Se durante a primeira década de sua existência a TUPI foi líder absoluta, nos anos 60 as emissoras concorrentes aprimoraram sua programação para lutar pela audiência.
Em 1968, a novela "Beto Rockfeller", de Bráulio Pedroso, revoluciona a linguagem da televisão. A partir da figura de um anti-herói, surge um novo estilo de interpretação, mais natural. A TV TUPI revela mais uma geração de talentos. A morte de Assis Chateaubriand, em 1968, marca o início de uma crise longa e sem solução. Abalada por problemas financeiros, mal administrada, sem investimentos, a TV TUPI perde qualidade e audiência.
As emissoras concorrentes vão ocupando os espaços vazios deixados pela pioneira. Ano após ano, a crise se aprofunda. No fim dos anos 70 a situação é incontrolável. Os salários estão atrasados. Há dívidas astronômicas junto Previdência Social. Proliferam escândalos financeiros. Em agosto de 1977, Éramos Seis. Cinderela 77 e Um Sol Maior registravam os mais baixos índices de audiência da história da Tupi. Além da audiência, a publicidade também escapolia para as concorrentes, o caixa se esvaziava, os salários deixavam de ser pagos e a greve era questão de tempo. Em outubro de 1977, com três meses de salários atrasados, os funcionários iniciaram a primeira greve, interrompida com o pagamento parcelado dos débitos.
Os constantes atrasos dos salários mantinham o clima tenso na Tupi. As perspectivas de pagamento dos atrasados eram cada vez mais remotas e as explicações dadas aos funcionários, cada vez mais inconsistentes. Para piorar ainda mais a situação, em outubro de 1978 um incêndio no prédio da emissora, em São Paulo, tirou a Tupi do ar por alguns minutos. No ano seguinte, o elenco de O Espantalho, de Ivani Ribeiro, processou a emissora por violação dos direitos autorais. Entre 79 e 80, nova greve. A crise chegou a Brasilia. O então presidente da República, João Figueiredo. se dispôs a receber uma comissão de dirigentes dos sindicatos envolvidos. Muito se discutia, pouco se fazia.
A greve persistiu até o início de fevereiro, quando a emissora fechou seu departamento de teleteatro e dispensou 250 funcionários. Foram interrompidas as novelas "Drácula" e "Como Salvar Meu Casamento", drama estrelado por Nicete Bruno e Adriano Reis.
Dezessete de julho de 1980. Pouco antes de completar 30 anos no ar, a TV TUPI tem sua concessão cassada pelo governo federal. Minutos antes do meio-dia de 18 de julho de 1980, três engenheiros do Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) subiram ao décimo andar do edifício-sede da TV Tupi de São Paulo, na avenida Alfonso Bovero, no bairro do Sumaré, e lacraram o transmissor da emissora.
Saíam também do ar a TV Tupi do Rio, a TV Itacolomi, de Belo Horizonte, a TV Marajoara de Belém. a TV Piratini de Porto Alegre, a TV Ceará de Fortaleza, e a TV Rádio Clube de Recife.
Um delegado da Polícia Federal e mais quatro agentes davam proteção aos engenheiros. Era o fim da TV Tupi. A emissora saía do ar exatamente 29 anos e dez meses depois de sua inauguração.
O governo militar preferiu a cassação a entregar o canal a uma cooperativa de funcionários. Permanece, entretanto, um acervo de duzentos mil rolos de filmes, 6.100 fitas de videotape e textos de telejornais que contam 30 anos de muitas histórias do Brasil e do mundo.
Fonte: www.microfone.jor.br
1950-1960: O NASCIMENTO DA TELEVISÃO NO BRASIL: SURGE A REDE TUPI
Assis Chateaubriand: Sua vida
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, nasceu em 4 de outubro
de 1892 em Umbuzeiro (Paraíba). Filho de Francisco José e Maria
Carmem, Assis ganhou o sobrenome Chateaubriand Bandeira de Melo.
Fernando Morais em seu livro de 1994, conta que esquisito e impronunciável para a maioria das pessoas do lugar, o sobrenome Chateaubriand nascera singelamente do gosto do avô paterno, José Bandeira de Melo, admirador do poeta e pensador francês, quando comprou terras na Paraíba, batizou uma escola de Colégio François René Chateaubriand, ficando conhecido por esse sobrenome, batizando, depois, seu filho Francisco José desta forma.
A família vivia bem e Francisco José era juiz. Assis Chateaubriand pouco viveu em Umbuzeiro. Seu pai vivia de forma itinerante, viajando de uma cidade a outra, assinando sentenças. Depois, mudou, com sua família para Recife, onde seu pai foi criar vacas leiteiras, recusando, inclusive, um cargo parlamentar.
Anos depois, Assis Chateaubriand conseguiu seu primeiro emprego, em um armazém de tecidos. Já se interessava muito pela leitura de livros, jornais e revistas. Pouco depois, conseguiu seu primeiro trabalho como jornalista, na Gazeta do Norte. O jornal faliu pouco depois, deixando Chatô desempregado. Assis Chateaubriand foi trabalhar em outros jornais, também deu aulas e exerceu outras funções. Mas queria a cidade grande, a capital federal. E foi para ela após um incidente ocorrido num concurso para professor. Queria resolver a questão no Rio de Janeiro a então Capital do país, com autoridades federais. Fernando Morais em seu livro de 1994, conta que Assis Chateaubriand desembarcou no Rio de Janeiro em outubro de 1915. Voltou ao Recife em 1916, com a vitória, e a garantia de que seria o professor, com o aval do presidente da República, Venceslau Brás. Mas não assumiu a cátedra. Retornou ao Rio de Janeiro, famoso pelo episódio que havia sido comentado em todo o Brasil.
Trabalhou em jornais e, em 1924, comprou "O Jornal", do Rio de Janeiro, existente desde 1919. Era o início dos Diários Associados.
"Começava ali um império, não agrícola, industrial ou petrolífero, mas um império de palavras, na expressão feliz de David Nasser. (…) Estava dada a partida da grande marcha, que seria retartada, aqui e acolá, pelos adversários, mas jamais impedida. Começavam a nascer, com ‘’O Jornal’’, os Diários Associados". (conta Carneiro em seu livro de 1999, p.55-89)
Assis Chateaubriand ingressou no mercado paulista em 1925, mais precisamente no dia 2 de junho, quando comprou o Diário da Noite. Carvalho em seu livro de 1999, destaca a rápida ascensão de Assis Chateaubriand.
"Assis Chateaubriand comprara o matutino diário em setembro de 1924 – o primeiro de uma seqüência que incluiria o Diário da Noite de São Paulo (junho de 1925), O Cruzeiro (novembro de 28), o Diário de São Paulo (janeiro de 29), o Estado de Minas (maio de 29) e o Diário da Noite do Rio de Janeiro (outubro de 29)". (conta Carvalho em seu livro de 1999, p.28)
No final de 1930, a rede de jornais e revistas recebeu o nome de "Diários Associados", como conta Carneiro em seu livro de 1999. A denominação não foi criada por publicitários, fato comum nos dias de hoje, mas pelo próprio Assis Chateaubriand, por acaso, em um artigo.
"Aconteceu, pura e simplesmente que Assis Chateaubriand, ao posicionar-se contra a influência tenentista na recém-implantada ditadura revolucionária de Getúlio Vargas, escreveu que seus jornais e a revista O Cruzeiro não haviam se transformado em órgãos da oposição. E explicou:"Ocorre que habituamo-nos a falar alto e, como não temos hábitos palacianos, preferimos a tribuna dos nossos ‘’Diários Associados’’ para debater os atos do governo com a sinceridade que o ditador pediu aos jornalistas". (Carneiro em seu livro de 1999, p.118)
Nos anos 50, os Diários Associados viveram seu apogeu, com a implantação da televisão no Brasil e o crescimento dos jornais e revistas.
Entre suas teses, Assis Chateaubriand defendia, por exemplo, a política da utilização do capital estrangeiro, numa época onde os investimentos internacionais não eram bem vistos no Brasil. Fez campanha pelo petróleo, nos anos 50, mas também contra o monopólio estatal da Petrobrás, que caiu apenas em 1998.
Candidatou-se, em 1952, ao Senado Federal pela Paraíba, sendo eleito como candidato único. Carneiro em seu livro de 1999, destaca a atuação do empresário no Senado.
"O Senador Assis Chateaubriand sustentou da tribuna um" fundamentalismo antichauvinista "nos assuntos mais diversos, que iam do crédito público, ao câmbio livre, à exportação de minérios, às variações da moeda, ao comércio cafeeiro, à remilitarização do mundo e à defesa das democracias contra o comunismo. Suas intervenções e apartes oferecem bom material ao pesquisador para recolher informações sobre a política, a temática e a oratória parlamentar na metade do século". (Carneiro em seu livro de 1999, p.384)
Com o suicídio de Getúlio Vargas, Assis Chateaubriand, oposicionista, foi prejudicado. Alguns de seus jornais, que criticavam o presidente, foram boicotados. O Diário da Notícias de Porto Alegre, inclusive, teve sua sede depredada. E Chatô não conseguiu se reeleger ao Senado, nas eleições de 1954. Deixou o mandato em janeiro de 1955 e foi novamente eleito, desta vez pelo Maranhão.
Em 1957, Assis Chateaubriand deixou o Senado para ser Embaixador do Brasil no Reino Unido, fixando residência em Londres. Chatô havia apoiado Juscelino em 1955 e garantiu, ao lado do general Lott, sua posse, colocada em risco após tentativa de golpe dos militares – uma prévia do que viria a ocorrer em 1964.
Assis Chateaubriand, em 1960, sofreu uma dupla trombose cerebral, que o deixou sem fala e tetraplégico. Carneiro em seu livro de 1999, destaca os últimos anos de vida do "Velho Capitão", como era conhecido.
"Os últimos anos de vida de Assis Chateaubriand foram investidos na campanha compra a presença estrangeira na comunicação brasileira. (…) Dezenas de vezes ele ainda retornou aos seus grandes temas de sempre, invariavelmente voltados para o desenvolvimento do país, tanto no aspecto material quanto no cultural. Visitou suas fazendas, lutou pelo aperfeiçoamento das práticas agrícolas, dedicou-se até o último momento a fundar e enriquecer o acervo dos Museus de Arte, surgidos graças ao seu gênio e aos Diários Associados". (conta Carneiro em seu livro de 1999, p.446-447)
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo morreu em 4 de abril de 1968, às 21 horas, no Sanatório Santa Catarina, onde estava internado desde janeiro daquele ano.
A partir de 1949, a cidade de São Paulo foi invadida pela notícia da chegada da televisão. E os Diários Associados respiravam, também, a expectativa para montagem e início das transmissões.
Fernando Morais em seu livro de 1994, conta que a agitação da montagem da televisão tomou conta dos Diários Associados em São Paulo. Quando venciam os contratos de trabalho, nas Emissoras Associadas, os funcionários encontravam nos instrumentos de renovação uma cláusula nova, segundo a qual, o empregado se obrigava "a prestar serviços, em sua especialidade, em rádio e televisão".
Mário Alderighi assumiu a direção técnica do projeto, tendo como assistente Jorge Edo. Ambos passaram uma temporada nos Estados Unidos, junto aos técnicos da RCA, para conhecer o funcionamento da televisão.
Dermival Costa Lima foi convidado para ser o diretor artístico da emissora. Como assistente, foi nomeado Cassiano Gabus Mendes, que apesar de jovem – não tinha sequer 20 anos – já se destacava na Rádio Tupi de São Paulo. Estava quase tudo pronto.
A expectativa para a inauguração do canal é descrita por Fernando Morais em seu livro de 1994:
’’ Nas semanas que antecederam a inauguração da emissora, (…) a excitação e ansiedade tomavam conta de todos. Como os ensaios eram realizados em apartamentos, era impossível saber se aquilo ia ou não dar certo. Para complicar ainda mais, Assis Chateaubriand exibiu que fossem transmitidas para um circuito fechado de televisão as cerimônias de inauguração formal do Museu de Arte de São Paulo e do Edifício Guilherme Guinle, nome da sede dos Associados na rua Sete de Abril, 230, a se realizarem no dia 5 de julho". (Fernando Morais em seu livro 1994, p.498-499)
Essa data ficou marcada como a pré-estréia da TV Tupi de São Paulo (PRF3 Tv Tupi-Difusora, canal 3). Ainda naquela noite, aconteceu uma apresentação do Frei José Mojica, um frade-cantor que atuava em filmes de Hollywood e era considerado um "galã" da época. O show também foi transmitido no circuito fechado, acompanhado por políticos, como o presidente da República Eurico Gaspar Dutra, personalidades, como o milionário norte-americano Nelson Rockfeller, artistas e populares.
Fernando Morais, destaca ainda que, apesar do sucesso da pré-estréia, a tensão continuava nos estúdio das rádios Tupi e Difusora de São Paulo, localizado no Alto do Sumaré, onde depois foi construído o prédio da Tv Tupi que todos conhecem.
"Primeiro, porque na apresentação experimental, Assis Chateaubriand estava diante da câmera, e, portanto, não poderia flagrar qualquer erro cometido durante a transmissão. E também por aquela ter sido uma atividade rápida, de pouco mais de meia hora". (conta Fernando Morais em seu livro de 1994, p.499)
Depois de muita preparação, ensaio e apreensão, é chegado o momento. Dia 18 de setembro de 1950. Data marcada para a estréia oficial da primeira emissora de televisão da América Latina, a PRF-3-TV Tupi-Difusora de São Paulo canal 3, que depois de mudar para o prédio do Sumaré em agosto de 1960, passou a operar no canal 4.
Dias antes da inauguração, o engenheiro norte-americano Walther Obermüller, da NBC, veio ajudar a equipe técnica e perguntou quantos aparelhos receptores existiam em São Paulo. Fernando Morais em seu livro de 1994, conta que os diretores da Tv Tupi responderam que não existia nenhum! Obermüller repreendeu Assis Chateaubriand, que, na mesma hora, solicitou a importação de 200 aparelhos para um empresário que trabalhava com importação e exportação.
"O homem (da empresa de exportação) explicou que não era tão simples, por causa da morosa burocracia do Ministério da Fazenda, por um processo de importação. (...) Assis Chateaubriand não se assustou: - Então traga de contrabando. Eu me responsabilizo. O primeiro receptor que desembarcar eu mando entregar no Palácio do Catete, como presente meu para o presidente Dutra". (conta Fernando Morais em seu livro de 1994, p.501)
Dias depois, o jornal Diário da Noite, dos Associados, sem saber dos planos de Assis Chateaubriand, fez uma denúncia, onde televisores estariam sendo contrabandeados... Após grande confusão, que quase acabou com o plano, o jornal não tocou mais no assunto.
Finalmente chegou o dia 18 de setembro de 1950, a programação teve início, sem transmissão, às 17 horas, com discursos e bênçãos. Às 19 horas, surgiu um problema em uma das três câmeras que estavam prontas para a transmissão do show inaugural. Centenas de personalidades aguardavam a inauguração no Jockey Club, além dos receptores espalhados pelas maiores lojas da cidade e algumas residências.
Existem várias versões para a origem do defeito da câmera. A mais conhecida é contada por Carneiro em seu livro de1999:
"Durante a solenidade de inauguração, Assis Chateaubriand, entusiasmado, resolveu quebrar uma garrafa de champagne numa das três únicas câmeras do estúdio, pondo-a imediatamente fora do ar...". (isto não é verdade)
Já Fernando Morais em seu livro de 1994, conta outra versão da história:
"Não é verdadeira a versão de que o defeito tenha sido provocado por uma garrafa de champagne quebrada na câmera por Assis Chateaubriand durante a cerimônia da tarde – até porque não houve batismo com champanhe. A suspeita que reinava entre os técnicos era a de que, a água benta espargida sobre as câmeras por D. Paulo Rolim Lourenço tivesse molhado e danificado alguma válvula". (conta Fernando Morais em seu livro 1994, p.502)
O que se sabe realmente é que o defeito não conseguia ser localizado e o tempo passava. A cerimônia oficial de inauguração, com transmissão, estava marcada para as 20 horas e já começava a atrasar. Assis Chateaubriand improvisava com discursos diversos enquanto os técnicos procuravam o defeito. No estúdio, Walther Obermüller chegava a conclusão: era melhor cancelar a inauguração pelo fato de ter apenas duas câmeras – e tudo fora ensaiado com três. Dermival Costa Lima e Cassiano Gabus Mendes assumiram a responsabilidade e colocaram a emissora no ar, mesmo com duas câmeras, após discussão com o norte-americano. Para alegria de todos, tudo saiu como planejado e a inauguração foi um sucesso. Participaram do show de inauguração Homero Silva, Mazzaroppi, Aurélio Campos, Walter Foster, entre tantos outros.
Reproduzimos abaixo parte do discurso de Assis Chateaubriand durante a inauguração da emissora:
O empreendimento da televisão no Brasil, em primeiro lugar, devemo-lo, a quatro organizações que, logo, desde 1946, se uniram aos Rádios e Diários Associados para estudá-lo e possibilitá-lo neste país. Foram a Companhia Antarctica Paulista, a Sul América de Seguros de Vida e suas subsidiárias, o Moinho Santista e a Organização Francisco Pignatari. Não pensem que lhes impusemos pesados ônus, dado o volume da força publicitária que detemos.
Este transmissor foi erguido, pois, com a prata da casa; isto é, com os recursos de publicidade que levantamos sobre a prata Wolff e outras não menos macias pratas da casa: a Sul América, que é o que pode haver de bem brasileiro; as lãs Sams, do Moinho Santista, arrancadas ao coro das ovelhas do Rio Grande do Sul e, mais que tudo isso, ao Guaraná Champagne da Antarctica, que é a bebida dos nossos selvagens, o cauim dos bugres do Pantanal mato-grossense e de trechos do vale amazônico.
Atentai bem e vereis como é mais fácil do que se pensa alcançar uma televisão: com prata Wolff, lãs Sams, bem quentinhas, Guaraná Champagne, borbulhante de bugre e tudo isto bem amarrado e seguro na Sul América, faz-se um bouquet de aço e pendura-se no alto da torre do Banco do Estado de São Paulo, um sinal da mais subversiva máquina de influir na opinião pública – uma máquina que dá asas à fantasia mais caprichosa e poderá juntar os grupos humanos mais afastados.
Nos dias seguintes, foi colocada no ar a programação da emissora, composta por, shows musicais, teleteatros, programas de entrevistas, e um pequeno noticiário, "Imagens do Dia". A emissora funcionava geralmente, entre as 17 e 22 horas, com grandes intervalos para que o programa seguinte pudesse ser preparado – tudo era ao vivo.
Em 1951, foi ao ar a primeira telenovela da televisão brasileira. "Sua Vida Me Pertence" era apresentada ao vivo, com dois capítulos por semana e foi estrelada por Walter Foster e Vida Alves, que protagonizaram, na mesma trama, o primeiro beijo da televisão brasileira – o que causou um misto de revolta e surpresa na conversadora sociedade paulistana da época.
Em 1948, quando fez a encomenda de equipamentos na RCA, nos Estados Unidos, Assis Chateaubriand desejava montar duas emissoras de televisão: uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro. A emissora da então capital federal, foi inaugurada pouco menos de seis meses depois da estréia paulistana.
No dia 20 de janeiro de 1951, o presidente Eurico Gaspar Dutra acionou o botão e ligou o transmissor da TV Tupi do Rio de Janeiro, canal 6. J. Almeida Castro em seu livro de 2000, destaca os pormenores da inauguração da emissora carioca. Quando a televisão paulista foi inaugurada, os cariocas já haviam erguido a torre, no alto do Pão de Açúcar.
"No Rio de Janeiro, desde a fase experimental, talvez pelas dificuldades de ter recebido apenas duas câmeras e o estúdio ser pequeno, o Canal 6 foi para a rua e transmitiu espetáculos tais como eram encenados nos teatros. O elenco do rádio-teatro, concentrado na Rádio Tamoio, custou a receber o estímulo da própria direção, pois Paulo de Gramont (paulista, cunhado e amigo de Costa Lima), optou por continuar sendo um homem de rádio (...) Grandes nomes dos anos dourados dos shows dos três cassinos do Distrito Federal (com a proibição dos cassinos por Dutra) migraram para a televisão, juntando-se a uma nova geração de diretores, atores, cenógrafos e cenotécnicos.". (conta J. Almeida Castro em seu livro de 2000, p.42-43)
O começo da televisão, assim como em São Paulo, não foi fácil. Loredo em seu livro de 2000, destaca as dificuldades do início da TV Tupi do Rio de Janeiro, referentes, principalmente, aos estúdios acanhados e a falta de estrutura. A emissora instalou-se no quarto andar do prédio onde funcionavam as rádios Tupi e Tamoio do Rio de Janeiro, também das Associadas, na avenida Venezuela, 43. O quarto andar foi desativado e o querido engenheiro italiano Orázio Pagliari e sua equipe montaram a emissora.
"Os estúdios não tinham nenhum tratamento acústico e, além disso, as janelas ficavam abertas para evitar o calor quando os panelões (refletores de estúdio da época) fossem acesos. Mesmo assim era uma sauna. O suor pingava do rosto dos atores e das atrizes nas cenas ambientadas em pleno inverno. E ali, entre fios espalhados pelo chão, microfones, barulhos de carros e apitos de navio entrando pelas janelas – visto que os estúdios eram construídos ao lado do cais do porto – os programas iam ao ar". (conta Loredo em seu livro de 2000, p.5)
Loredo ainda fala de uma história interessante: muitas vezes os funcionários da televisão pagavam "pobres coitados" que dormiam nas calçadas da rua Venezuela para gritarem, enquanto os programas estavam no ar à frase "Chateaubriand não paga ninguém", já que os atrasos eram constantes – e assim, sempre foram.
A TV Tupi, tanto em São Paulo, quanto no Rio de Janeiro, reinaram sozinhas por pouco tempo. Aos poucos, outros grupos de comunicação conseguiram autorizações do governo e montaram suas emissoras, que se tornaram as primeiras concorrentes do império de Assis Chateaubriand.
No dia 14 de março de 1952 é inaugurada a TV Paulista, canal 5 de São Paulo, pertencente às Organizações Victor Costa. Também em São Paulo, no dia 27 de setembro de 1953, é levada ao ar pela primeira vez a TV Record, canal 7, de Paulo Machado de Carvalho. Esta emissora seria, em pouco tempo, a grande concorrente da TV Tupi na capital paulista, apresentando atrações de qualidade.
No Rio de Janeiro, a primeira concorrente da TV Tupi surgiu em 15 de julho de 1955: TV Rio, do empresário João Baptista do Amaral, o Pipa, ligado, inclusive, a Paulo Machado de Carvalho. Loredo em seu livro de 2000, conta que a segunda emissora do Distrito Federal seria a TV Nacional, da Rádio Nacional, utilizando a concessão da Rádio Mauá que também pertencia ao governo. Como eles não tinham condições de montar a emissora, o canal foi repassado para Pipa com a condição de que este cedesse, gratuitamente, uma hora por dia a Rádio Nacional, o que ele nunca fez.
Na década de 50, como já abordamos anteriormente, os Diários Associados viveram um período de auge e expansão. Apesar do surgimento de concorrentes a cada ano, novas emissoras do grupo também foram inauguradas.
Carneiro em seu livro de 1999, conta que Assis Chateaubriand queria a expansão da televisão no país. Uma campanha publicitária foi lançada, em que a mensagem era clara e direta: não bastava aplaudir as emissoras existentes: era preciso comprar aparelhos receptores. No ano de 1951, inclusive, começou no Brasil a fabricação de televisores da marca "Invictus", de Bernardo Kocubej.
Ainda nos 50, os Diários Associados inauguraram novas emissoras pelo Brasil: TV Itacolomi canal 4 (Belo Horizonte/MG), em 1955; TV Piratini canal 5 (Porto Alegre/RS) e TV Cultura canal 2 (São Paulo/SP), em 1959; TV Itapoan canal 5 (Salvador/BA), TV Brasília canal 6 (DF), TV Rádio Clube canal 6 (Recife/PE), TV Paraná canal 6 (Curitiba/PR), TV Ceará canal 2 (Fortaleza), TV Goiânia, TV Marino Procópio (Juiz de Fora/MG), Tupi-Difusora canal 8 (São José do Rio Preto/SP), todas em 1960 e TV Vitória canal 6 (Vitória/ES), TV Coroados canal 3 (Londrina), TV Borborema (Campina Grande/PB), TV Alterosa canal 4 (Belo Horizonte/MG), TV Baré canal 4 (Manaus/AM), TV Uberaba, TV Florianópolis, TV Aracaju, TV Campo Grande e TV Corumbá, estas em 1961.
Os principais programas da TV Tupi nos anos 50, todos apresentados ao vivo, foram: "TV de Vanguarda", que apresentava peças teatrais; "O Céu é o Limite", jogo de perguntas e respostas e "Clube dos Artistas" e "Almoço com as Estrelas", que reuniam astros da televisão para almoços nos estúdios da emissora, entre outros.
Loredo em seu livro de 2000, destaca mais programas que fizeram sucesso nos primeiros anos da TV Tupi: "Espetáculos Tonelux", "Telessemana Garson", "Teletestes Lutz", "Teatro Moinho de Ouro", "O casamento é assim...", "Coelhinho Trol", "Teatrinho Kibon", "O Circo do Arrelia", "Tragédia de Bolso", "Aulas de Inglês", "Teatro Gebara", entre outros.
No dia 17 de junho de 1953, era escrita uma nova página na história da televisão brasileira: entrava no ar um dos mais famosos telejornais, até hoje conhecido mesmo depois de extinto. Era o "Repórter Esso". Loredo em seu livro de 2000, relata que, quando perdeu o patrocínio de seu telejornal, a TV Tupi foi bater às portas da agência McCann-Erickson, detentora da conta da Esso. A empresa norte-americana acabou patrocinando o telejornal e escolheu seu apresentador no Rio de Janeiro: Gontijo Teodoro.
"No entanto, surgiu um impasse. A Rádio Nacional que apresentava o Repórter Esso no rádio não permitiu que a televisão usasse o mesmo nome, razão pela qual ao estrear, em 1º de abril de 1952, chamava-se Telejornal Tupi. Um mês depois, o nome foi mudado para Telejornal Esso, mas a Esso ainda não estava satisfeita. Somente depois de muita discussão, todos entratam num acordo e o programa recebeu seu nome definitivo, ‘’Repórter Esso’’. (Loredo em seu livro de 2000, p.5)
O" Repórter Esso "ficou no ar por 18 anos consecutivos, sendo extinto em 31 de dezembro de 1970. Contribuíram para seu desaparecimento, entre outros fatores, a criação do" Jornal Nacional ", da Rede Globo, em 1969 e também o fato dos programas, a partir da década de 70, não conterem mais o nome de seus patrocinadores, prática comum nas duas primeiras décadas da televisão brasileira.
Em 1955, Assis Chateaubriand passa a direção-geral dos Diários Associados para João Calmon, até então diretor dos veículos do grupo em Pernambuco (Rádio Tamandaré e Diário de Pernambuco). Após obter bons resultados no Nordeste, João Calmon foi chamado, em princípio, para dirigir a TV Tupi e as rádios Tupi e Tamoio no Rio de Janeiro. No entanto, apenas três meses depois, foi elevado ao posto de diretor-geral dos Diários Associados. Carneiro em seu livro de 1999, destaca as primeiras dificuldades enfrentadas e ações realizadas por João Calmon no Rio de Janeiro.
"O novo diretor-geral chegou com todo o gás que havia caracterizado sua gestão no Nordeste. Só que o cenário carioca era outro e a presença de Assis Chateaubriand, senão obstrutiva, era pelo menos intimidante. Mesmo assim, João Calmon tratou de implantar medidas de racionalização administrativa, que encontraram amplo respaldo em todo o país, com duas exceções: áreas de São Paulo (Edmundo Monteiro) que supervisionava as empresas do Sul de Goiás; e de O Cruzeiro (Leão Gondim de Oliveira), a essa época vivendo ainda a sua grande fase e se preparando para atingir o exterior". (conta Carneiro em seu livro de 1999, p.394)
A situação financeira dos Diários Associados começava a ficar complicada. Assis Chateaubriand estava contraindo muitos empréstimos para comprar mais obras de arte para o MASP e também para instalar novos veículos Associados em todo o Brasil. Em 1956, por exemplo, João Calmon e Edmundo Monteiro redigiram uma carta para advertir o empresário: estava gastando muito, e esse processo poderia levar os Diários Associados à insolvência.
"Os argumentos foram alinhados: demora no pagamento das contribuições atrasadas aos institutos de previdência; generalização do sistema de desconto dos contratos de publicidade, sem qualquer indagação sobre a capacidade da empresa de suportar novos desvios de sua receita normal, o que tornava as mesmas empresas inadministráveis: ''Nos últimos meses, para fazer face ao pagamento da prestação de 500 mil dólares do museu, foram nossas organizações oneradas em 20 milhões de cruzeiros...". A carta receitava a sugestão para Assis Chateaubriand vender fazendas, laboratórios e a Schering, laboratório que adquirira no tempo da guerra: "Talvez esse ponto de vista resulte de excesso de pessimismo, dirá o senhor. Mas então, aponte-nos, com um de seus lampejos de gênio, outra saída, que escapa inteiramente à nossa limitada compreensão". (Carneiro em seu livro de 1999, p.395)
A partir desta correspondência, Assis Chateaubriand passou a olhar com mais atenção para a administração das empresas e o desvio de recursos para pagamento de dívidas e empréstimos. Em outubro de 1955, inclusive, foi realizado o 1º Congresso dos Diários e Emissoras Associadas, uma iniciativa pioneira entre os meios de comunicação, até então administrados com amadorismo – as primeiras experiências profissionais seriam vistas nos anos 60, com TV Excelsior e Rede Globo.
Em sua autobiografia, de 1999, João Calmon, aborda, as primeiras dificuldades vividas em sua gestão, e também os apuros por que passavam os Diários Associados na metade dos anos 50, começando um processo que terminaria na extinção, em 1980, da TV Tupi e também um grande encolhimento do grupo. Reproduzimos abaixo alguns dos trechos do livro que abordam o assunto.
A origem das dificuldades estava na precariedade da incipiente televisão brasileira. Pioneiro, Assis Chateaubriand implantara em São Paulo a primeira emissora de TV da América do Sul, a TV Tupi. Pouco depois criava a TV Tupi do Rio. Obviamente, existiam poucos receptores de televisão no País; era preciso arcar com o ônus do pioneirismo. Não havia forma de evitar, diante da necessidade de investimentos e das despesas com pessoal, vultosos déficits a cada mês. As instalações eram extremamente precárias; o principal e único estúdio da TV Tupi, por exemplo, funcionava na sala anteriormente ocupada pelo diretor-geral dos Associados. Os salários do pessoal do Rio estavam atrasados. E não havia como adiantar a adaptação do prédio que deveria vir a ser a sede da TV Tupi carioca. Pouco depois, porém, Carlos Rizzini e Edmundo Monteiro conseguiram torpedear a gestão de Vitor Costa, que foi afastado.
(...) A primeira batalha nos Diários Associados nesses meus primeiros anos como diretor-geral foi a expansão de sua rede de televisão. Essa batalha, por seu pioneirismo, teve lances épicos. No momento em que assumi as novas funções, o grupo possuía apenas duas emissoras de televisão: a TV Tupi de São Paulo, a primeira, cujo equipamento fora adquirido da RCA Victor, e a TV Tupi do Rio, com equipamento da General Eletric. E Assis Chateaubriand começava a cogitar da ampliação da rede, para cobrir todo o País.
As coisas, porém, não eram tão simples. Mesmo a instalação das emissoras do Rio e de São Paulo já constituía uma aventura temerária para a época. Os próprios norte-americanos hesitaram em vender o equipamento para aos Diários Associados, lembrando que mesmo nos Estados Unidos a televisão ainda era pesadamente deficitária. O pequeno número de receptores e a audiência diminuta não estimulavam os anunciantes. Em contrapartida, os custos eram altíssimos. Assis Chateaubriand, teimoso, insistiu.
As previsões dos norte-americanos cumpriram-se. Quando assumiu a direção-geral dos Diários Associados, o déficit era vultoso e a empresa já não pagava as prestações estabelecidas nos contratos com a RCA Victor e a General Eletric. Assis Chateaubriand se limitara a pagar a primeira parcela, de 10 por cento do valor total da compra por ocasião da assinatura do contrato, e mais 10 por cento para liberar o material nas alfândegas do Rio e de Santos. Depois, suspendeu-as. Era humanamente impossível cumprir o contrato, que se estenderia por mais cinco anos.
Via-me, portanto, entre dois fogos. De um lado, o pioneirismo de Assis Chateaubriand, de cujo impulso muitos de nós compartilhávamos, desejando ampliar a televisão no País. De outro, as dificuldades de cobrir os imensos investimentos indispensáveis para colocá-la no ar. Como diretor-geral em todo o país, deixando apenas de atuar em São Paulo, Paraná e Santa Catarina, busquei saídas para o problema, ao mesmo tempo em que participava com o máximo de meus esforços para a extensão de nossa rede ao resto do país.
Quando cheguei ao Rio, já estava encomendado o equipamento de nossa terceira emissora de televisão, que se tornaria a TV Itacolomi canal 4, de Belo Horizonte, numa tentativa que deve ser creditada ao companheiro que então digiria as empresas associadas da capital mineira, Newton Paiva Ferreira.
(...) Cuidei então de renegociar a dívida já existente com o fornecedor de equipamento da TV Tupi do Rio, a General Eletric. Elaborei uma proposta totalmente nova, embora audaciosa, e a levei ao diretor da GE do Brasil, Sr. Romanaghi. Nosso débito, contraído quando eu me encontrava ainda no Nordeste, elevava-se, então, a 350 mil dólares e aumentava dia a dia por causa dos juros. (...). A matriz (nos Estados Unidos) aprovara integralmente a reivindicação que eu apresentara à revelia de Assis Chateaubriand. Passaríamos então a elaborar o contrato e tratar de descontá-lo no banco de que a GE era cliente. Em menos de 10 dias o acerto fora feito e remetíamos para os Estados Unidos os 360 mil dólares devidos.
Creio ter sido esse meu primeiro êxito, significativo após a volta para o Rio. A General Eletric não precisou sequer de três anos para consumir a verba de publicidade que destinara assim aos Diários Associados. Em 23 meses, o empréstimo bancário fora integralmente pago, pouco tempo depois, por sugestão minha, o mesmo esquema foi empregado em São Paulo para liquidar a dívida vencida com a RCA Victor, fornecedora do equipamento da pioneira TV Tupi paulista.
Passados mais dois anos, a própria RCA se dispôs a fornecer o equipamento necessário à instalação das seis novas emissoras de televisão dos Diários Associados, assim como a ligação entre Rio e Belo Horizonte por microondas e entre Rio e São Paulo por UHF. Mais uma vez dirigi negociações, que envolviam uma encomenda no valor total de três milhões e meio de dólares. A garantia foi feita pelo Banco Moreira Salles, graças a providências diretas de Assis Chateaubriand.