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O Namorador

Machado de Assis

ATO ÚNICO

O teatro representa uma chácara. No fundo, a casa de vivenda com quatro janelas rasgadas e uma porta para a cena. A casa dentro estará iluminada, deixando ver pelas janelas várias pessoas dançando ao som de música, outras sentadas e alguns meninos atacando rodinhas. À esquerda, no primeiro plano, a casinha do feitor, a qual, sendo saliente sobre a cena, terá uma janela larga para frente do tablado e uma porta para o lado; debaixo da janela haverá um banco de relva. No canto que faz a casinha, um monte de palha; à direita, no mesmo plano a casinha, uma carroça. Defronte da porta da casa, uma fogueira ainda não acabada; mais para frente, o mastro de S. João, e dos lados deste, um pequeno fogo de artifício constando de duas rodas nas extremidades e de fogos de vista e coloridos, que serão atacados a seu tempo. A cena é alumiada pela lua, que se vê sobre a casa por entre árvores.
(N.B.: Deve-se dar todo o espaço necessário para a distribuição da cena acima marcada, a fim de se evitar a confusão e conservar a naturalidade do que se quer representar.)

CENA I

Ritinha com um copo com água na mão, e Clementina com um ovo.

RITINHA - Só nos falta esta adivinhação. Já plantamos o dente de alho, para vê-lo amanhã nascido; já saltamos três vezes por cima de um tição...

CLEMENTINA - E já nos escondemos detrás da porta, para ouvirmos pronunciar o nome daquele que virá a ser teu noivo.

RITINHA - Vamos à do ovo. (Clementina quebra o ovo na beira do copo e deita a clara e gema dentro da água.)

CLEMENTINA - Agora dê cá, (toma o copo) e ponhamo-lo ao sereno.

RITINHA - Para quê? Explica-me esta, que eu não sei.

CLEMENTINA - Este ovo, exposto ao sereno dentro da água, vai tomar uma forma qualquer, por milagre de S. João. Se aparecer como uma mortalha, é sinal que morremos cedo; se tomar a figura de uma cama, é prova nos havemos de casar este ano; e se se mostrar debaixo da forma de véu de freira, é certo agouro que viveremos sempre solteira. (Põe o copo sobre o banco de relva.)

RITINHA - O melhor é não indagarmos isso.

CLEMENTINA - Tens receio?

RITINHA - A esperança, quando mais não seja, alimenta. Se eu tivesse a certeza que nunca acharia um noivo, não sei o que faria.

CLEMENTINA - Pois eu tenho a certeza que o acharei.

RITINHA - Podes dizer isso, és bonita...

CLEMENTINA - Também o és.

RITINHA - Mas és rica, e eu não; e esta pequena diferença muda muito a questão. És filha única e teu pai possui esta bela chácara e outras muitas propriedades. Ali dentro estão alguns moços que porfiam em te agradar; está nas tuas mãos escolheres um para noivo. E eu posso dizer outro tanto?

CLEMENTINA - E por que não?

RITINHA - Tenho apenas um namorado.

CLEMENTINA - É o primo Luís?

RITINHA - É ele mesmo, mas confesso-te ingenuamente que não sei o que ele quer. Ora mostra-se muito apaixonado, ora não faz caso de mim e namora a outras moças mesmo à minha vista; às vezes passam-se dias e dias sem me aparecer...

CLEMENTINA - Pois que esperas tu do primo Luís, daquele doudo que namora o torto e a direito a bonito e a feia, a moça e a velha?

RITINHA, suspirando - Ai, ai!

CLEMENTINA - O que admira-me é ver como tens conseguido tê-lo por namorado há quase três meses.

RITINHA - Bem esforços me tem custado.

CLEMENTINA - Eu te creio, porque ele diz que um namoro que dura mais de oito dias é maçada.

RITINHA - Tanto não poderás tu dizer dos teus, principalmente do Júlio.

CLEMENTINA - Queres que te diga uma coisa? O tal Sr. Júlio, com todos os seus excessos, já me vai aborrecendo sofrivelmente.

RITINHA - Oh, aborrecem-te os excessos?

CLEMENTINA - Quando está junto de mim tem um ar tão sentimental que faz dó ou riso.

RITINHA - É amor.

CLEMENTINA - Se é obrigado a responder-me, é titubiando e trêmulo; atrapalha-se, não sabe o que diz e também nunca acaba de dizer.

RITINHA - É amor.

CLEMENTINA - Os seus olhos não me deixam; acompanham-me por toda a parte. Não dou um passo, que não seja observada.

RITINHA - São provas de amor.

CLEMENTINA - E se eu falo com algum moço? Isso então!... Fica logo muito aflito, a mexer-se na cadeira, com o nariz muito comprido e com os olhos cheios de lágrimas. E se eu não lhe faço logo e logo a vontade, deixando de conversar com o moço, ei-lo que levanta-se arrebatadamente, pega no chapéu e sai desesperado pela porta afora como quem leva a firme tenção de nunca mais voltar. Mas qual! Daí a dous minutos está ele ao pé de mim.

RITINHA - Tudo isso é amor.

CLEMENTINA - É amor! É amor, sei, mas aborrece-me tanto amor. (Aqui aparece no fundo Júlio.)

RITINHA - Vê como são as coisas: Eu queixo-me do meu por ser indiferente; tu, do teu, por excessivo.

CLEMENTINA - É que os extremos se tocam. Não tens ouvido cantar aquele lundu: Eu que sigo o meu bem? Mas também o que é verdade é que eu às vezes muito de propósito o faço desesperar.

RITINHA - Isso é maldade. (Clementina vê Júlio, que a este tempo está atrás dela.)

CLEMENTINA, à parte, para Ritinha - Olha! E ele comigo! Não te dizia que me acompanha por toda a parte?

RITINHA, rindo-se - Adeus. (Sai correndo.)

CLEMENTINA, querendo retê-la - Espera! (Quer segui-la.)

JÚLIO, seguindo-a - Um momento! (Clementina volta-se para Júlio.)

CLEMENTINA - O que quer? (Caminha para frente.)

JÚLIO - Eu... (Fica enleado. Alguns momentos de silêncio.)

CLEMENTINA, à parte - E então?

JÚLIO - Eu... (O mesmo jogo.)

CLEMENTINA, à parte - E ficamos nisto!

JÚLIO - Se me permitisse... (Mesmo jogo.)

CLEMENTINA - O senhor está tão ansiado. Tem alguma dor?

JÚLIO - Tenho sim, ingrata, mas é no coração.

CLEMENTINA - Ah, desembuchou?

JÚLIO - Supunha passar hoje uma noite alegre e devertida, e só encontrei tormentos e desenganos.

CLEMENTINA - Ah, encontrou desenganos, coitado! Então quem foi que teve a barbaridade de o desenganar?

JÚLIO - Uma cruel, que zomba de mim e de minha vida, que ainda será causa de algum desatino.

CLEMENTINA - Ora vejam só que crueldade!

JÚLIO, desesperado - Oh, isto assim não pode durar muito. (Com ternura, pegando-lhe na mão:) Clementina, por que hás-de ser tão má comigo? Que te fiz eu para ser assim maltratado? Eu, que tanto bem te quero!

CLEMENTINA - Ontem despedimo-nos em paz. Quais são hoje as queixas?

JÚLIO - Teu primo Luís.

CLEMENTINA - Ainda ciúme?

JÚLIO - Ama-o, que ele me vingará. Não encontrarás outro coração como o meu.

CLEMENTINA - Acabou? Uma sua criada. Vou comer batatas.

JÚLIO, retendo-a - Oh, não, não!

CLEMENTINA, voltando - Com que então queria que eu estivesse toda a noute a olhar para o senhor, com a boca aberta, ham? Feito uma pateta! Que não conversasse mais com minhas amigas, que estivesse amuada em um canto da sala, eu defronte e vós à vista, assim em ar de dois toiros que se querem investir? Sabe que mais? Isto já me vai aborrecendo.

JÚLIO - Perdoa-me.

CLEMENTINA - Por mais de uma vez já lhe tenho manifestado os sentimentos que me animam a seu respeito e dado prova da preferência em que eu o tenho. Quando um dia perguntou-me se eu queria ser sua mulher, respondi-lhe com franqueza que sim, mas que previa obstáculos da parte de meu pai.

JÚLIO - Tudo isto é verdade.

CLEMENTINA - E ajuntei mais: que esse temor, porém, não esfriasse o nosso amor, que paciência e tempo tudo conseguem, e que minha mãe era por nós. E ter-me-ia esquecido a esse ponto de minha posição e pejo, se não o amasse? (Aqui entra pela esquerda, por detrás da casinha do ilhéu, Luís, com uma carta de bichos acesa, pendurada de uma varinha. Corre para Clementina, gritando.)

LUÍS - Viva S. João! Viva S. João! (Clementina foge.)

CLEMENTINA - Primo Luís, primo Luís! (Luís vai atrás dela gritando sempre, até que ela sai pelo fundo.)

CENA II

Enquanto Luís corre após Clementina, Júlio fica a olhar para ela.

JÚLIO - E veio interromper-nos na melhor ocasião! Isto foi muito de propósito! Não é sem razão que eu desconfio dela; ama ao primo. (Neste tempo, Luís, que volta para cena, está junto dele.)

LUÍS - Ó Júlio, que bela patuscada, hem?

JÚLIO, à parte - Vem mangar comigo.

LUÍS - Não há melhor! Foguetes para atacar, música para dançar, e sobretudo moças para namorar. O tio João festeja o nome de seu santo com grandeza. Tu não tens foguetes?

JÚLIO, com mau modo - Não.

LUÍS - Nem namorada?

JÚLIO, ao mesmo - Não.

LUÍS - Ó alma de cântaro, marreco de gesso! Não tens namorada, quando aquela sala está cheia de meninas tão encantadoras? Não tens namorada? Então que viste fazer?

JÚLIO - Obsequiar à pessoa que me convidou, portando-me com decência.

LUÍS - Como diabo entendes tu as coisas às avessas? Quando se convida para uma soirée, ou outra qualquer patuscada, rapazes solteiros, é para que eles namorem. Todos sabem que sem namoro as mais brilhantes reuniões esfriam e poucas horas duram. Sem namorar as moças ficam amuadas, as velhas dormem e os velhos roncam. Sem namoro, essa vivacidade que se nota nos olhares e gestos das meninas desaparece e morre, falta de alimento. Sem esse grande excitativo, o desejo de conquistar adormece no coração e leva a moleza ao corpo e o aborrecimento à alma. Tudo fica triste e sem sabor. Os pai e mãe de família cedo retiram-se com as filhas, porque não vêem possibilidade de pescarem noivos para elas onde não há namoro prometido. Mais três ou quatro contradanças e não se vêem esses casais solitários no meio de esplêndido baile, sentados nos cantinhos da sala, alheios a tudo o que se passa ao redor dela, e que tanto servem para divertimento de todos. Cessa a maledicência, desaparecem esses segredinhos que se dizem ao ouvido e que fazem corar. Numa palavra, tudo esfria, emudece, dorme! O namoro é a alma da vida, a existência necessária de todas as reuniões. É o centro ao redor do qual giram todas as afeições, intrigas, gentes e despesas. Por ele é que a menina se enfeita, que os rapazes se desafiam, e se individa o homem. Por ele é que o pobre pai de família paga a ladroada conta das francesas. Enfim, é o motor universal, é o "fogo viste lingüiça" das sociedades. Por isso é que eu todas as vezes que sou convidado para algum baile ou patuscada como esta, namoro a torto e a direito, para obsequiar o dono da casa.

JÚLIO - Ah, é para obsequiar os donos das casas? Devem-te ficar muito agradecidos.

LUÍS - E que não fiquem pouco se me dá. Faço o meu dever. Tenho feito as moças lá dentro andarem numa dobradura, inclusive a minha bela priminha.

JÚLIO, travando-lhe do braço - Isto é uma traição!

LUÍS - Hem?

JÚLIO - É uma traição que cometes para comigo de quem te dizes amigo. Sabes muito bem, porque já te tenho dito, que eu amo a tua prima.

LUÍS - E o que tem isso? Tu namoras e eu também namoro; o caso não é novo - vê-se todos os dias isso.

JÚLIO - É preciso acabarmos com este gracejo. Não zombo.

LUÍS - Nem eu.

JÚLIO - Falo muito sério.

LUÍS - Que diabo de tom é esse?

JÚLIO - Faze por toda a parte este papel de namorador e de tolo, acompanha-te sempre dessa leviandade e ar gracejador por desprezo pelo homem sensato, que pouco se me dá disso; nenhum interesse tenho eu em corrigir-te...

LUÍS - O caso vai de pregação.

JÚLIO - Mas não lances um só olhar para Clementina, não lhe digas uma só palavra de galanteio ou sedução, porque então te haverás comigo e tarde te arrependerás.

LUÍS - Quem, eu?

JÚLIO - Sim, tu.

LUÍS - Isto é uma ameaça?

JÚLIO - É, sim.

LUÍS - Ah, a coisa chegou a esse ponto? Pois meu amigo, andou muito mal; os seus ciúmes o deitaram a perder.

JÚLIO - Isso veremos.

LUÍS - Até agora eu namorava a prima inocentemente e sem intenção, como faço com todas as moças que encontro; isto é um hábito em mim. Mas agora, já que se formaliza e ameaça-me, hei-de lhe mostrar que não só namorarei a priminha de noute e de dia, como também casar-me-ei com ela.

JÚLIO, raivoso - Oh!

LUÍS - O que não tem podido fazer de mim o amor, fará o amor-próprio. Estou resolvido a casar-me.

JÚLIO, segurando-lhe na gola da casaca - Não me leves ao desespero! Desiste? (Aqui aparece no fundo Clara, que se encaminha para eles.)

LUÍS, segurando na gola da casaca de Júlio - Não quero! (Júlio agarra com a outra mão na gola da casaca de Luís, que faz o mesmo, empurrando-se mutuamente.)

JÚLIO - Não me faça praticar uma ação que nos perderia a ambos.

LUÍS - Perdido já eu estou, porque me vou casar.

JÚLIO, forcejando - Insolente!

CENA III

Clara junto deles.

CLARA - Então, o que é isto? (Os dois surpreendem-se e apartam-se.)

LUÍS - Não é nada, minha tia, estávamos experimentando forças.

CLARA - Ora, deixemos agora disso. Venham dançar, que faltam pares. Venham.

LUÍS - Vamos, tiazinha. (Para Júlio:) Vou apertar o namoro. Viva S. João! (Sai dando viças.)

CLARA, rindo-se - É um doudo este meu sobrinho. Venha, Sr. Júlio.

JÚLIO - Já vou, minha senhora. (Clara sai.)

CENA IV

Júlio, só.

JÚLIO - O que hei-de eu fazer? Talvez fiz mal em levar as coisas a este extremo. Luís principia os namoros e os deixa com a mesma facilidade. Não me devia inquietar. Maldito ciúme! Estou em uma cruel perplexidade. Devo hoje mesmo declarar-me com o Sr. João Félix e pedir-lhe a filha. Vã esperança! Estou certo que ele não consentirá; não tenho fortuna. Meu Deus! (Sai vagaroso.)

CENA V

Enquanto Júlio dirige-se para o fundo, entra pela direita baixa o ilhéu, seguido de quatro pretos, trazendo os dois primeiros lenha, o terceiro um cesto à cabeça, e o quarto um feixe de cana.

MANUEL - Paizinhos, vão acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro vocês a cana e os carás à Senhora. (Manuel fala como os ilhéus, isto é, cantando. Os negros da lenha vão acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, só:) Cá no Brasil é como na minha terra; também se festeja a noite de S. João. Quem me dera no Tojal! Há dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para lá voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me água à boca, quando vejo um rico. São os felizes, que cá o homem anda de canga ao pescoço.

CENA VI

Entra Maria com uma cesta à cabeça.

MANUEL - O que levas aí, Maria?

MARIA - A roupa que estava no campo a secar.

MANUEL - Pois ainda agora? Vem cá. (Maria deixa a cesta à porta da casinha e caminha para Manuel.)

MARIA - A senhora tomou-me o tempo e não deixou-me recolhê-la com dia. Andamos a arranjar a casa para a companhia.

MANUEL - E ela é que diverte com os seus, e nós trabalhamos.

MARIA - O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.

MANUEL - E é do que me queixo. Todo o dia com a enxada na mão, e ainda em cima ter olhos nos paizinhos, que são peores que o diabo.

MARIA - Anda lá, não te queixes tanto, que lá no Tojal éramos mais desgraçados. Não sei como não morríamos de fome. Ganhavas seis vinténs por dia ao rabo da enxada, e cá o senhor te estima; pagou a nossa passagem.

MANUEL - Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e ia comprar um burro e uma carroça para vender a iágua. O Zé voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados que assim ganhou.

MARIA - Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale também, e outros me dará ainda.

MANUEL - Pois se eu sair, sairás também, senão te desanco.

MARIA - Ai!

MANUEL - Pensas que eu não sei porque queres ficar?

MARIA - Ai, que me impacientas!

MANUEL - Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.

MARIA - Esta besta! O senhor a fazer-me roda, tão velho como é? Ai, que me rio desta!

MANUEL - Vai-te rindo, bestinha, até que chores.

CLARA, da porta da casa - Maria?

MARIA - Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!

MANUEL - Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.

MARIA - Olha que cansarás a vista, animal.

CENA VII

MANUEL, só - Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupação, que o diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e vão arrumar o capim na carroça para ir para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer à senhora, que não é para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo João.)

CENA VIII

JOÃO, só - Agora que lá dentro estão todos entretidos, é boa ocasião de cercar minha bela ilhoazinha para dar-lhe um abraçozinho. Aonde estará ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha mulher veja-me aqui. É velha, mais tem ciúmes como um mouro. Quem manda ser velha? Estará no quarto? (Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. Lá dentro ainda dançam; estão devertidos e não darão por minha falta. Vou esconder-me no seu quarto e lá esperarei para surpreendê-la. Oh, que surpresa! Só assim, porque ela é arisca como o diabo. Dou-lhe um abraçozinho e depois safo-me na pontinha dos pés. Oh, que surpresa! Que contentamento! (Esfrega as mãos. Júlio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; João, que está quase junto à porta, volta-se zangado.)

CENA IX

Júlio e João.

JÚLIO - Sr. João Félix?

JOÃO, voltando-se - Quem é?

JÚLIO - Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com atenção...

JOÃO, impaciente - O que tens agora a dizer-me, homem? Vá dançar.

JÚLIO - Pensamentos muito sérios ocupam-se neste momento para eu poder dançar.

JOÃO - Então o que é?

JÚLIO - Desculpe a minha franqueza...

JOÃO - Avie-se, que tenho pressa.

JÚLIO - Eu amo sua filha.

JOÃO - E que tenho eu com isso?

JÚLIO - Mas é que eu a amo com adoração, como nunca se amou, e pretendia...

JOÃO - Vá dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradança; ande, vá, vá! (Empurrando-o)

JÚLIO - Não é por tão pequeno favor que eu ouso encomodá-lo.

JOÃO , à parte - Que impertinência! E eu a perder tempo e ocasião.

JÚLIO - Terei ânimo em falar, visto que o senhor não reprovou o meu amor.

JOÃO - Bem vejo que tens ânimo, mas pressa decerto que não tens. Pois é o que eu tenho.

JÚLIO - Serei breve. Concede-me a mão de sua filha?

JOÃO - Se é para dançar, já lhe dei.

JÚLIO - Não senhor, é para casar.

JOÃO - Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais juízo. Pois de noute, no meio do campo e a estas horas é que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabeça ao sereno? Já eu estou constipado. (Amarra um lenço na cabeça.)

JÚLIO - Só motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo tão precipitado.

JOÃO - Precipitado ou não precipitado, não lhe dou minha filha! (Durante a continuação desta cena João passeia pela cena, dando voltas de um para outro lado; passa por trás da carroça, vai até o fundo, volta, etc., e Júlio o segue sempre falando.)

JÚLIO - Mas senhor, Vossa Senhoria não tem razão em responder-me deste modo. Eu decerto teria escolhido melhor ocasião; há porém acontecimentos que nos levam, mau grado nosso, a dar um passo que à primeira vista parece loucura. A causa deve ser indagada. E isto é o que Vossa Senhoria deveria fazer. Não se trata de um negócio de pouca monta. A minha proposição não deve ser assim recebida. Sei que a sua filha é um partido vantajoso ainda mesmo para um homem ambicioso, mas em mim não se dá essa idéia. Procuro os dotes morais de que é ornada, as virtudes que a fazem tão amável e encantadora. Conheço-a de perto, tenho tido a honra de freqüentar sua casa. Rogo a Vossa Senhoria que me dê um momento de atenção. Esse exercício violento pode-lhe fazer mal... Minha família é muito conhecida nesta cidade; não é rica, é verdade, mas nem sempre a riqueza constitui felicidade. Meu pai foi desembargador, e minha aliança com a filha de Vossa Senhoria não pode envergonhar. Sou negociante, ainda que principiante; posso ainda fazer grande fortuna e ouso dizer que a Sra. D. Clementina não me vê com indiferença...

JOÃO, voltando-se muito zangado para Júlio - Não lhe dou minha filha, não lhe dou, não lhe dou! E tenho dito.

JÚLIO - Atenda-me!

JOÃO - Aonde viu o senhor dar-se caça a um pai de semelhante maneira?

JÚLIO - Desculpe-me, é o meu amor a causa de...

JOÃO - Homem, não me quebre mais a cabeça! Não quero, não quero e não quero, e vá-se com os diabos! Não só de minha presença, como de minha casa. Vá-se, vá-se! (Empurrando.)

JÚLIO, com altivez - Basta, senhor! Até agora recebia uma denegação e com paciência a sofri; mas agora é um insulto!

JOÃO - Seja lá o que quiser.

JÚLIO - E eu não me demorarei um só instante em sua casa.

JOÃO - Faz-me muito favor. (Júlio sai arrebatado.)

CENA X

João, só, (e depois Luís.)

JOÃO - E que tal lhe parece a impertinência? Irra! Casar-se com minha filha! Um pobre diabo que só vive do seu insignificante ordenado. Agora, ainda que fosse rico, e muito rico, não lha dava. (João vai a entrar no quarto e aparece Luís no fundo, gritando.)

LUÍS - Tio João? Tio João?

JOÃO - Outro!

LUÍS, junto dele - Quero pedir-lhe um grande favor. Trata-se de minha prima.

JOÃO, à parte - Mas tu também? (Procura no chão uma pedra. )

LUÍS - Tenho hoje reparado com mais atenção na sua beleza e sabidas qualidades.

JOÃO - Não acho eu uma pedra?

LUÍS - Que procura, tio João? Não sei por que fatalidade tenho eu estado cego a tantas perfeições. (João pega no copo que vê sobre o banco de relva.)

JOÃO - Se me dás mais uma palavra, arrumo-te com este copo pelas ventas.

LUÍS - Olhe que tem um ovo dentro!

JOÃO - Tenha o diabo! Salta, não me esquentes as orelhas!

LUÍS - Não o contrariemos, que ele tem veneta e me perderei. Está bem, tio. Até logo. (Sai.)

CENA XI

João e depois Manuel.

JOÃO, só - Ainda virá mais algum? (João vai a entrar no quarto do ilhéu e este aparece do outro lado da cena. João, à parte:) Oh, diabo! (Disfarça o seu intento, fingindo perseguir na parede da casinha um inseto que lhe escapa.)

MANUEL, à parte - Ai, o que está o senhor a fazer? (João continua no mesmo jogo.) A saltar? (Aproxima-se dele, que faz que o não vê.) Ah, senhor? (João no mesmo jogo.) Senhor? (Pegando-lhe pelo braço:) O que apanha o senhor?

JOÃO, voltando - Quem é? Ah, é você, Sr. Manuel? Homem, estava atrás de uma lagartixa que subiu pela parede.

MANUEL - Ai, senhor, deixe viver o bichinho de Deus.

JOÃO - O que quer comigo?

MANUEL - Tinha um favor que pedir ao senhor, mas envergonho-me.

JOÃO - Pois um homem deste tamanho tem vergonha? Anda, diga o que quer, e depressa, que aqui está muito sereno.

MANUEL - Queria que o senhor me perdoasse os dois meses que faltam para acabar meu trato.

JOÃO - Nada, nada, não pode ser. Dei duzentos mil-réis pela sua passagem e pela de sua mulher, para que me pagassem com os seus trabalhos. Calculo-os a vinte mil-réis por mês. Já lá se vão oito; falta ainda dois para ficarmos justos de conta. Não dispenso.

MANUEL - Mas senhor...

JOÃO - Quando acabar-se o tempo do seu trato, faremos novo ajuste. Não terei dúvida de dar-lhe mais alguma coisa. (À parte:) A minha ilhoazinha não sai daqui.

MANUEL - Tenho trabalhado muito, e já o senhor devia estar contente comigo, e não olhar a tão pouca coisa.

JOÃO - Fale-me amanhã; agora não são horas. Vá arrumar capim na carroça que vai de madrugada para a cidade.

MANUEL - E se o meu trabalho...

JOÃO, empurrando-o - Já lhe disse que amanhã... (Manuel sai. João, só:) Daqui não me sai ele. Virá ainda alguém? (Vai para entrar no quarto e chegam do fundo, correndo, quatro meninos com pistola e bicha na mão e chegam até à frente do tablado.)

MENINO - Vamos fazer uma fortaleza aqui. (Assenta-se no chão.) Juquinha, você faz outra lá. (Assentam-se todos.) Enterra as pistolas e as bichas. Eu sou o navio. Hei-de fazer fogo, e você também ajunta a areia... Anda, vem-me ajudar. (João, ao ver os meninos que chegam, quebra uma varinha de arbusto próximo, sai de trás da casinha e caminha para eles. Ao chegar junto, açoita-os com a vara. Os pequenos levantam-se, assustados e correm para dentro, gritando e chorando.)

JOÃO, gritando - Salta para dentro! (Voltando:) Até estes demoninhos vieram atrapalhar-me! Não me fio em crianças. É isto! Convida-se a certas senhoras para passarem a noite em uma casa e levam quantos filhos têm, desde o mais pequeno até o maior, para estratagema, quebrarem e pedincharem tudo quanto vêem e tocam. E importunar a todos os convidados! Deixar-me-ão desta vez entrar? (Vai para a casinha, entra e fecha a porta. Manuel, que nesse mesmo tempo aparece, o vê entrar no seu quarto.)

MANUEL - Entra no nosso quarto? Ai, o que me vale é estar a Maria lá dentro. Ele vai espera-la... Ai! Pois são estas as lagartixas? Lagartixas! (Pega no cesto que está à porta do quarto e com ele atravessa de novo a cena, sempre correndo e sai pela direita. Assim que o ilhéu sai de cena, João abre a janela do quarto que dá para a cena e espreita por ela.)

JOÃO, à janela - Queria Deus que a minha ilhoazinha não tarde. O meu coraçãozinho está pulando de contente! Mas aonde estará ela?

CLARA, do fundo - Ah, Sr. João? Sr. João? (Chamando.)

JOÃO - Oh diabo, lá está a carocha da minha mulher chamando-me. Se ela souber que estou aqui, mata-me. Ora, que culpa tenho? Calou-se. (Debruça-se na janela, espreitando.) Como tarda!...

CENA XII

Júlio de capote e boné, João e depois Clara.

JÚLIO - Devo ausentar-me desta casa onde fui insultado e para nunca mais voltar... Mas deixá-la? E o posso eu? Não, é preciso; nem mais um instante! E não posso desprender-me daqui! Fatal amor! Ela fica no meio dos prazeres, e eu... (João chega à janela, observa Júlio, fazendo esforços para reconhecê-lo.)

JOÃO - Vejo um vulto. Não posso conhecer quem é. Deixei os meus óculos lá dentro. Parece-me que está de saia e lenço à cabeça... Saia escura! É ela, não tem dúvida; é a minha ilhoazinha. Psiu, psiu! (Chamando com precaução.)

JÚLIO, surpreendido - Quem me chama?

JOÃO - Psiu, psiu, vem cá!

JÚLIO - É dali da janela. (Vai-se chegando para a janela. Nesse momento acende-se defronte da porta da casa, no fundo, uma composição mítica de fogo colorido que alumie fortemente a cena. Ao clarão do fogo os dois se reconhecem.)

JOÃO, recuando para dentro - Ai!

JÚLIO - O Sr. João! (Chegando-se para a janela:) Que faz Vossa Senhoria no quarto da ilhoa?

JOÃO, um pouco de dentro - Nada, nada. Vim ver uns pintinhos que estavam no choco?

JÚLIO - Pintos no choco?

JOÃO - Sim, sim, pois nunca viu?

JÚLIO - Mas Vossa Senhoria... (Desata a rir e caminha um pouco para a frente da cena, rindo-se sempre.)

JOÃO, chegando à janela - Psiu, psiu! Venha cá; não ria-se tão alto!

JÚLIO, rindo-se - Qual pintos! É pela ilhoa.

JOÃO - Cale-se, pelo amor de Deus! Venha cá, venha cá.

JÚLIO - Enganou-se com o meu capote! (Ri-se.)

JOÃO - Ó homem, venha cá! Olhe que minha mulher pode vir.

JÚLIO, chegando - Pois Vossa Senhoria tem medo que a Sra. D. Clara o ache tirando pinto do choco?

JOÃO - Deixemos de graça e fale baixo.

JÚLIO - Então é certo, a ilhoa? Ah, ah, ah! Vou contar isto lá dentro. (À parte:) Tu me pagarás.

JOÃO - Oh, não, meu amiguinho; minha mulher, se sabe que eu estou aqui, é capaz de arrancar-me os olhos.

JÚLIO - Há pouco era eu que rogava e Vossa Senhoria dizia não. Agora é Vossa Senhoria que roga, e eu também digo não. (João debruça pela janela e consegue agarrar em Júlio.)

JOÃO - Escute. Não tome a coisa tão em grosso; não o quis ofender.

JÚLIO - Correr-me de sua casa!

JOÃO - Não há tal.

JÚLIO - Negar-me com insultos a mão de sua filha!

JOÃO - Não neguei.

JÚLIO - Não negou?

JOÃO, à parte - Diabo!

JÚLIO - Não negou, diz o senhor. Então concede-me?

JOÃO - Não digo isso. Mas se...

JÚLIO - Ah! Sr.a D. Clara, Sra. D. Clara?

JOÃO, querendo tapar-lhe a boca - Pelo amor de Deus!

JÚLIO - Vossa Senhoria não negou-me a mão de sua filha?

JOÃO - Seja razoável.

JÚLIO - Sra. D. Clara?

JOÃO - Cale-se, homem. Cale-se com todos os milhões de diabos!

JÚLIO - Nada. Quero que ela aqui venha para ver se pode explicar-me a razão por que Vossa Senhoria nega-me a mão de sua filha. Sra. D. Clara?

JOÃO - E eu já lhe disse que lhe negava?

JÚLIO - Não? Então concede-ma?

JOÃO - Amanhã falaremos.

CLARA, no fundo - Ah, sô João, sô João?

JÚLIO - Sua senhora aí vem.

JOÃO - Vá-se embora. (Abaixa e esconde-se.)

JÚLIO, para dentro do quarto - Concede-ma?

JOÃO, dentro - Concedo.

JÚLIO - Palavra de honra?

JOÃO, dentro - Palavra de honra. (Neste tempo Clara está no meio da cena.)

CLARA - Sô João? (Júlio quer caminhar para sair pelo fundo.) Quem é?

JÚLIO - Sou eu, minha senhora.

CLARA - Ah, é o Sr. Júlio. Sabe-me dizer onde está o meu homem?

JÚLIO - Não, minha senhora.

CLARA - E esta? Há uma hora que sumiu-se lá de dentro e não aparece. (Durante este diálogo, vê-se, pela janela da casinha, João muito aflito.)

JÚLIO - Sem dúvida está dando algumas ordens lá por fora.

CLARA - Ordens a estas horas? Deixar as visitas na sala, e desaparecer!

JÚLIO - Não se inquiete, minha senhora.

CLARA - Tenho muita razão de me inquietar. Velho como é, não pára. Ah, Sr. João? Sô João?

JÚLIO, à parte - Em que talas não se vê ele! Está em meu poder. (Júlio diz estas palavras enquanto Clara chama pelo marido; volta para sair pelo fundo, e em meio da cena encontra-se com Luís. Júlio, para Luís:) Ainda teima?

LUÍS - Ainda.

JÚLIO - Veremos.

LUÍS - Veremos. (Júlio sai pelo fundo.)

CENA XIII

Luís e Clara.

LUÍS - Ó tiazinha!

CLARA - Quem é?

LUÍS - Tiazinha, tenho um favor que pedir-lhe...

CLARA - Viste teu tio?

LUÍS - Não senhora. É um favor pelo qual lhe ficarei eternamente agradecido. Sei que a ocasião não é das mais oportunas. Este passo parece imprudente...

CLARA - Que parece não; que é.

LUÍS - Por quê, tia?

CLARA - É falta de atenção.

LUÍS - Oh, a tia decerto está zombando. Se ainda não sabe...

CLARA - Sei, sei que ele está metido por aí, em algum lugar suspeito.

LUÍS - Como suspeito? De quem fala?

CLARA - De teu tio.

LUÍS - Ora, não é dele que eu falo.

CLARA - Pois então vai-te embora.

LUÍS - Escute, tia. A minha bela priminha...

CLARA - Aonde estará?

LUÍS - Lá dentro na alcova.

CLARA - Lá dentro na alcova? E o que está fazendo?

LUÍS - Conversando com suas amigas.

CLARA - Com suas amigas? Pois também tem amigas? Bravo!

LUÍS - Oh, que linguagem é esta! Pois não foi a tia quem as convidou?

CLARA - Fui sim, mas não sabia que as convidava para desinquietarem um homem casado.

LUÍS - Um homem casado?

CLARA - Um pai de família que se devia fazer respeitar pela sua idade.

LUÍS - Ai, que eu continuo a falar da prima, e ela do tio.

CLARA - Vou botá-los pela porta a fora.

LUÍS - Espere, tia, há engano entre nós. A tia fala do tio, e eu...

CLARA - E tenho muita razão de falar.

LUÍS - Não digo menos disso. O que eu pretendia dizer-lhe era...

CLARA - Já sei o que é. Quer desculpá-lo! Não vê que também é homem? Lá se entendem.

LUÍS - Continuamos no mesmo. Tia, atenda-me somente por alguns instantes, e depois eu lhe ajudarei a procurar o tio.

CLARA - Pois fala depressa.

LUÍS - Todos conhecem-me por namorador. Uns dizem que isto em mim é sistema, outros, que é devido ao meu gênio folgazão e alegre. Seja o que for, estou resolvido a acabar com todos esses namoros e casar-me. A resolução é extrema e de botar a perder um homem, mas a sorte está lançada.

CLARA, preocupada - Eu hei-de indagar isto.

LUÍS - Pode indagar. Falo de boa fé. E em quem poderia recair a minha escolha, senão na minha bela priminha?

CLARA - Não posso consentir.

LUÍS - Não? E por que motivo?

CLARA - Na sua idade?

LUÍS - Perdoe-me a tia; está em muito boa idade.

CLARA - Boa idade! Sessenta e cinco anos!

LUÍS - Adeus, tia, que não estou mais para jogar os disparates. (Vai para esquerda da cena e Clara vai para sair pelo fundo.)

CLARA, caminhando - Ah, Sr. João? Sr. João? Eu hei-de dar com ele! (Vai-se pelo fundo.)

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