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O Brasil é um país que vivenciou essa história, a qual permanece enraizada – direta e indiretamente – em nossa cultura até os dias de hoje. Por outro lado, pouco se fala sobre a cultura africana, que também possui raízes profundas em nossa cultura e no pensamento brasileiro.
Por que essa cultura também não é destacada?
A obra de Gilberto Freyre, “Casa-Grande & Senzala”, examina as relações sociais do período colonial e apresenta uma visão do racismo estrutural que permeia todas as esferas da sociedade, inclusive a cultural. A cultura afro-brasileira é vasta e rica, embora pouco discutida ou valorizada. Como afirma Pereira (2012), o Brasil abriga a maior população de origem africana fora da África.[8] Metade da população do país autodeclara-se negra ou parda. Portanto, é inevitável concluir que a cultura brasileira tem uma matriz majoritariamente afro.
Grande parte do que o mundo consome hoje em termos musicais tem origem em uma cultura que nasceu na África. O Brasil não é exceção: axé, jazz, rock, música eletrônica, blues, hip-hop e até mesmo o forró têm suas raízes na cultura negra. É evidente que a cultura afro permeia o Brasil, como afirma o cantor contemporâneo Baco Exu do Blues em sua música “Bluesman”: “Tudo o que, quando eu era preto, era do diabo, depois que virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues…”
Essa relação é intrínseca e está presente no cotidiano dos brasileiros, não apenas na música, mas em muitas outras manifestações culturais.
“Os africanos contribuem para a cultura brasileira de inúmeras formas – na dança, na música, na religião, na culinária e na linguagem. Essa influência é visível em todo o país; em alguns estados – como Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul -, a cultura afro-brasileira é particularmente marcante devido aos fluxos migratórios decorrentes da escravidão”.
Por muito tempo, a cultura negra foi negligenciada no Brasil, sendo vista apenas como algo marginal. O samba, o rap e até mesmo o funk são exemplos de cultura negra que, durante anos, sofreram preconceito e rejeição.
Hoje, observamos a cultura negra ocupando espaços onde antes não havia lugar para ela. Há grandes artistas negros brasileiros fazendo sucesso no país e no exterior – um fenômeno recente que podemos analisar para identificar as nuances que estão inserindo a cultura afro-brasileira em um contexto cultural eurocêntrico.
A cultura afro-brasileira tem ocupado espaços além da música. Um exemplo disso é a forma como a beleza negra, antes pouco valorizada pelo grande público, tornou-se um produto. Grandes empresas têm lucrado com cosméticos e itens de beleza voltados tanto para a população negra quanto para a branca; no caso desta última, utilizam-se estratégias para atrair o consumidor branco por meio de produtos tipicamente associados à estética negra. Marcas como Quem Disse, Berenice?, Make B e Vult, entre outras, estão investindo cada vez mais nessa categoria de produtos.
A busca por traços característicos da população negra também tem crescido no âmbito dos procedimentos estéticos. Segundo a revista “O Tempo”, houve um aumento de 390% na demanda por esses procedimentos apenas no primeiro trimestre de 2022. Intervenções voltadas para realçar ou criar traços originalmente negros – como preenchimento labial e implante de silicone nos glúteos – estão se tornando cada vez mais comuns e requisitadas.
O que tudo isso significa? Podemos atribuir tudo isso à apropriação cultural?
Frequentemente associamos o resgate e a valorização das identidades culturais afro-brasileiras ao que chamamos de apropriação cultural. Afinal, esse termo é utilizado quando uma determinada cultura possui elementos muito distintos de outras.
É compreensível e razoável que vejamos essa valorização da cultura negra dessa forma no Brasil, visto que grande parte do que consumimos atualmente dessa cultura foi difundida por pessoas brancas e/ou só passou a ser considerada relevante em nosso país quando essas pessoas brancas começaram a demonstrar apreço por tais identidades culturais.
No entanto, acreditamos que pode haver uma outra perspectiva sobre essa questão: a perspectiva da valorização dos esforços da população afro-brasileira para garantir a continuidade de sua cultura – muitas vezes com resiliência e lutando contra a opressão midiática que tentou apagar a memória e/ou retirar o mérito dessas pessoas. Parafraseando Emicida na música “Dedo na Ferida”: “É o nosso sangue nobre, que a pele cobre, nós não fugimos, dias melhores, sem lobby…”
“Como afirma Pereira (2012), o Brasil possui a maior população de origem africana fora da África”.
A população negra já resistiu ao apagamento de sua história e de sua experiência. No Brasil, temos exemplos vivos dessa cultura, como o Carnaval, a capoeira e outras manifestações.
“A perspectiva da apropriação acaba rotulando outros produtores e mediadores culturais negros como meras vítimas da história que, ou observaram silenciosamente a usurpação de sua rica cultura material e imaterial, ou foram induzidos ao erro. (Pereira, 2021)”
A população afro-brasileira é a verdadeira protagonista da continuidade, construção e adaptação dessa cultura ancestral que integra o nosso país. Ignorar os méritos dessa população e reduzir o resgate e a valorização da cultura negra apenas à questão da apropriação cultural é uma forma de silenciar as personalidades que dão vida a essa cultura.
O sucesso e a relevância da cultura negra não podem nem devem ser minimizados, sendo reconhecidos apenas quando despertam o interesse e a valorização de terceiros; eles devem ser compreendidos e valorizados a partir de suas personalidades históricas e contemporâneas, que resistiram para evitar que suas identidades fossem apagadas.
Um dos grandes nomes da música brasileira, o sambista Jorge Aragão, reforça a maneira como devemos olhar com carinho e orgulho para esse patrimônio cultural: “Também estamos na linha de frente dessa história; somos do tempo do samba sem dinheiro nem glória. O talento não se discute, mas o seu argumento… por favor. Respeite quem consegue chegar aonde nós chegamos”.
No entanto, reconhecer e valorizar o alcance e a relevância da cultura afro-brasileira – bem como a questão da apropriação cultural – exige ir além de uma visão simplista e convencional da história. Devemos, acima de tudo, valorizar a luta de todos aqueles que sempre buscaram, e ainda buscam, um espaço maior e melhor para a cultura afro. Não podemos, mais uma vez, negligenciar a história do povo negro nem resumir suas conquistas sob a perspectiva de outrem.
Cultura Afro-Brasileira – História
Cultura Afro-Brasileira
Após a dizimação da população indígena local no século XVII, estima-se que 3,65 milhões de africanos escravizados tenham sido trazidos para o Brasil; a maioria deles foi levada para a primeira capital do país, Salvador, na Bahia. O trabalho escravo urbano diferia da vida nas grandes plantações; os escravizados não eram vítimas passivas do sistema, e muitos fugiam para fundar seus próprios “quilombos”.
O Brasil só aboliu a escravidão em 1888. Inicialmente, as autoridades portuguesas incentivaram a miscigenação como forma de garantir a presença portuguesa em regiões pouco povoadas. No entanto, temendo o crescimento da população negra, o país passou a abrir suas portas para imigrantes brancos, que recebiam preferência em relação aos negros no acesso a empregos, moradia e educação.
A atitude portuguesa em relação à miscigenação é frequentemente citada como prova de sua abertura em questões étnicas. Contudo, o racismo é uma questão relevante no Brasil; embora a lei garanta igualdade a todos os brasileiros e a discriminação étnica seja crime, durante muitos anos anúncios de emprego incluíam a expressão “boa aparência”, o que significava que apenas pessoas de pele clara deveriam se candidatar.
Críticos argumentam que a política de miscigenação visava minimizar a presença africana e indígena no país ao promover o mito da democracia racial; essa política reforçava a identidade europeia ao incentivar os negros a buscar validação social exclusivamente fora de seu próprio grupo étnico. Por ocasião do Censo de 1980, os brasileiros já haviam criado mais de 136 termos para descrever a si mesmos de forma a se aproximarem do padrão branco e evitarem a classificação racial como negros.
Ao longo do século XX, apesar de enormes barreiras de discriminação e repressão, ativistas afro-brasileiros desafiaram as hierarquias profundamente enraizadas na sociedade brasileira. A imprensa afro-brasileira surgiu em 1933 com a publicação de “A Voz da Raça”, por exemplo, e diversas organizações foram criadas, muitas delas contando com a participação fundamental de mulheres afro-brasileiras. A Frente Negra Brasileira, fundada em 1930 como a primeira organização nacional de direitos civis no país, reconheceu a estreita relação entre questões étnicas e de gênero com a criação da Frente Negrinhas em 1931; o movimento de mulheres conquistou o direito ao voto em 1932. As mulheres desempenharam um papel importante nas comunidades de escravizados fugitivos e continuam sendo lideranças relevantes na religião do Candomblé até hoje. Em 1950, foi criado o primeiro conselho nacional de mulheres negras, conhecido como I Conselho Nacional da Mulher Negra. O papel de destaque desempenhado por lideranças femininas afro-brasileiras e suas organizações é notável, considerando o elevado grau de marginalização social a que as mulheres negras no Brasil estão submetidas. Apesar dos desafios enfrentados, essas mulheres continuaram a buscar seu próprio espaço – tanto em organizações do movimento negro quanto em movimentos de mulheres – para promover a igualdade racial e de gênero.
A Fundação Palmares foi criada em 1988 como uma instituição estatal encarregada de supervisionar o reconhecimento e a titulação de terras para comunidades descendentes de africanos escravizados, embora, para muitos ativistas, o processo seja excessivamente complexo e demorado. Os artigos 215 e 216 da Constituição Federal determinam a proteção e a preservação dessas terras certificadas pelo governo federal (ou “quilombos”), e a Fundação Palmares auxilia na obtenção dos títulos de propriedade para as comunidades afrodescendentes. Essas comunidades rurais constituem importantes marcos históricos e culturais para o movimento negro como um todo, a despeito do fato de que a maioria da população afrodescendente no Brasil vive em áreas urbanas – frequentemente em favelas -, onde não há títulos de terra nem propriedade formal dos imóveis.
Avanços simbólicos significativos foram alcançados durante o governo do presidente “Lula” da Silva. Pela primeira vez na história do Brasil, Lula nomeou quatro ministros afro-brasileiros, sendo três deles mulheres: Benedita da Silva, Ministra da Assistência Social; Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente; e Matilde Ribeiro, que chefiou a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, um cargo ministerial com status de ministério.
Cultura africana no Brasil
São as imagens e os sons do samba e da capoeira. É a culinária saborosa e deliciosa, como a feijoada e o vatapá.
São as religiões afro-brasileiras de destaque, como o Candomblé, a Macumba e a Umbanda. E é a tradição de Iemanjá no Réveillon do Rio de Janeiro, com o envio de oferendas de flores à deusa do mar.
A Bahia é considerada a alma criativa do Brasil e a região que abraça calorosamente o rico legado cultural dos afro-brasileiros de hoje.
Fonte: Portal São Francisco/www.ipsos.com/minorityrights.org
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