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O nosso caboclismo

Lima Barreto

Uma das manias mais curiosas da nossa mentalidade é o caboclismo. Chama-se isto a cisma que tem todo o brasileiro de que é caboclo ou descende de caboclo.

Nada justifica semelhante aristocracia, porquanto o caboclo, o tupi, era, nas nossas origens, a raça mais atrasada; contudo toda a gente quer ser caboclo.

Muito influíram para isso os poetas indianistas e, sobretudo, o grande José de Alencar, o primeiro romancista do Brasil, que nada tinha de tupinambá.

A mania, porém, percorreu o Brasil; e, quando um sujeito se quer fazer nobre, diz-se caboclo ou descendente de caboclo.

Em matéria de caboclismo, além do Guarani de José de Alencar, só gosto do Uruguai de Basílio da Gama, sobretudo quando fala da morte de Lindóia em cujo rosto a Morte era mais bela.

Entretanto, no Brasil, atualmente, há uns caboclistas muito engraçados. Um deles é o Sr. Rondon, hoje general, que tem um ar feroz de quem vai vencer a batalha de Austerlitz.

O general Rondon nunca venceu batalhas, e não as vencerá, porque o seu talento é telegráfico. Não há general como ele para estender linhas de telégrafo; mas não há também general como ele, para catequizar caboclos.

Até hoje, essa missão estava reservada aos religiosos de toda a espécie; mas foi preciso que o Brasil se fizesse republicano para que tal coisa coubesse aos oficiais do Exército.

Rondon catequista é um grande general e o general Rondon é um grande catequista.

Aí não é o sabre que cede à toga; é a batina que se vê vencida pelo sabre.

Quando Rondon foi chefe da Comissão das Linhas Telegráficas, só em milho, ele gastava mais de quinhentos contos por ano, porquanto tinha intensificado a agricultura entre os Nhambiquaras.

Sei disto porque nesse tempo era eu empregado da Secretaria da Guerra e vi os papéis a tal respeito.

Toda a gente, porém, admira Rondon porque sabe andar léguas a pé; contudo, acho eu que essa virtude não é das mais humanas.

O que o general Rondon tem de mais admirável, é a sua fisionomia de crueldade. Vê-se nele a sua vocação de ditador e ditador mexicano. Tudo o está levando para isso, inclusive as suas descobertas já descobertas e a sua determinação de coordenadas de certos lugarejos pelo telégrafo, coisa pouco sabida e conhecida.

Depois de tão excepcional caboclista, só há a Sra. Deolinda Daltro.

Nunca se viu pessoa tão conspícua no caboclismo. A seriedade do seu ideal, o desinteresse que ela põe nele, além de outras qualidades e artefatos, dão-lhe um destaque excepcional.

D. Deolinda acaba de se apresentar candidato a intendente da cidade do Rio de Janeiro.

Nada teria a opor, se não me parecesse que ela se enganava. Não era do Rio de Janeiro que ela devia ser intendente; era de alguma aldeia de índios. A minha cidade já de há muito deixou de ser taba; e eu, apesar de tudo, não sou selvagem.

Careta, 11-10-1919

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