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A Filomena

Lima Barreto

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Desde o carnaval, que as crianças, as moças, os barbados, as velhas de todas as condições sociais, não falam senão na Filomena.

Tivemos ocasião de ir ouvir tão conspícua pessoa que nos recebeu prazenteiramente, em sua choça lá pelas bandas de Campo Grande.

Filomena, apesar do que toda a gente pode julgar, não é lá muito velha, não conheceu d. João VI, nem Pedro I; e, conquanto seja preta, nunca foi escrava.

— Que me diz, da. Filomena, dessas cantigas que andam por aí com o seu nome?

— Tenho ouvido falar nelas, meu filho; mas nada tenho a ver com Dudu; não sou íntima dele, não o conheço quase. Meu marido foi soldado e certa vez, quando ele era ministro, fui procurá-lo, mas ele, não deixou que eu entrasse no salão de espera.

— Mas a que atribui essa mistura de seu nome com as coisas dele?

— Ouve, meu filho; quero crer que seja devido ao fato de já ter sido empregada da rainha-mãe; mas, quando o fui, não conhecia bem ele, conhecia-lhe a concunhada e os cunha­dos e com eles me dei muito bem.

— Pretende protestar?

— Qual, meu filho! Eu não protesto. Não digo nada. Estou até colecionando as cantigas para publicar um volume.

— Não tem medo do Bicudo?

— Quem é esse homem?

— Aquele senador da roça que, em São Paulo, prendeu um vendedor das Últimas d’Ele.

— Não conheço; mas agora os tempos são outros e nos aproveitam.

— Deve fazer umas quadrinhas novas… Porque não faz?

— Fiz já.

— Pode recitar?

— Pois não.

— Diga lá.

— Lá vai:

Ai, Filomena

Se eu fosse como tu,

Punha uma máscara

Na cara do Dudu.

— Está bem.

Despedimo-nos, agradecendo muito.

Careta, Rio, 10-4-1915

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