Facebook do Portal São Francisco
Google+
+ circle
Home  Folclore  Voltar

Folclore

VAQUEIRO MISTERIOSO

Por todo o Nordeste brasileiro contam histórias sobre um vaqueiro muito humilde, aparentemente frágil, mal vestido, montado num cavalo velho, com um chapéu gasto a lhe ocultar o rosto. Não se sabe de onde vem, nem seu verdadeiro nome.
Ninguém lhe dá atenção nem dá nada por ele.
Quando se oferece para participar de vaquejadas ou outros certames com gado, zombam e caçoam do forasteiro.

Acontece, porém, que na hora das disputas ele se revela um vaqueiro hábil como ninguém, conhecedor de grandes segredos. Seu cavalo torna-se então, um veloz e belígero ginete. Ele reúne todo o gado, no curral, sozinho e em pouco tempo. Domina facilmente os mais ferozes touros. Nas vaquejadas, não há novilho, não há garrote, que escape à derrubada do vaqueiro misterioso. Enfim, acaba sendo ele o grande campeão.

Terminados os torneios e as festas, ele, alegre, bom garfo e grande bebedor, recusa os sedutores convites das mulheres, assim como as ofertas dos fazendeiros de bem remunerados trabalhos; apenas recebe os prêmios e se vai, para reaparecer depois em outras paragens.
Câmara Cascudo o registrou como mito (“Mitos Brasileiros”); Alceu Maynard Araújo, como lenda (“20 Lendas Brasileiras”).

VITÓRIA-RÉGIA

Era uma vez uma jovem e muito bonita índia, chamada Naiá, que se apaixonou pela lua ao ouvir as histórias de que esta era um belíssimo e poderoso guerreiro que, quando se enamorava de alguma índia, levava-a consigo para o céu e a transformava numa linda estrela.
Naiá, depois de se apaixonar pela lua, passou a não se interessar por nenhum dos seus inúmeros pretendentes, mantendo-se fiel a seu sonhado guerreiro.
Numa das noites em que vagava pelas matas, ao ver a imagem da lua refletida num lago, acreditando ser o seu amado, atirou-se nas águas profundas do lago e morreu afogada.
A lua, então, que não fizera de Naiá uma estrela no céu, transformou-a numa estrela das águas, fazendo com que seu corpo de índia se tornasse uma imensa e linda flor, cujas pétalas à noite se abrem, para que o luar ilumine sua corola rosada.
Essa flor é a vitória-régia.

ANDRÉ LUIZ NAKAMURA

DANÇAS

Das mais remotas manifestações culturais da humanidade, a dança, nos primórdios, era integrante de rituais religiosos e mágicos, de cuja prática existem milenares registros arqueológicos.

Ainda hoje, verifica-se o uso da dança como manifestação de devoção, com caráter religioso, a exemplo de algumas que logo veremos no decorrer deste artigo.

Com o tempo, a dança deixou de ter apenas motivação religiosa e passou a adquirir função recreativa e estética, fazendo-se presente em todas as sociedades humanas.
Atualmente, é usada inclusive com finalidade terapêutica.

DANÇA FOLCLÓRICA

Diversamente das danças "da moda", fomentadas pelos meios de comunicação de massa, ou da dança clássica, erudita, a dança folclórica caracteriza-se por se situar e se desenvolver dentro da cultura espontânea, informal, ou seja, é aprendida pela observação e imitação direta, pela repetição e pela tradição, sem a intervenção da cultura erudita, sem a direção de coreógrafos.

Os estudiosos do tema classificam-nas de diversas maneiras.

Alguns as enfeixam em três grupos: danças "religiosas" (São Gonçalo, por exemplo), "guerreiras" (Quilombo, Maculelê) e "profanas" (Lundu, Coco). Outros o fazem, segmentando-as de acordo com sua "forma" (par solto ou unido, fileiras, roda); "possível origem" ou influência (européia, indígena); e sua "finalidade" (de intenção religiosa ou profana). Outras formas de sistematização são também apresentadas, tais como, "quanto ao período em que são celebradas"; "quanto ao espaço de realização" (dança de salão, dança de terreiro); "quanto indumentária"; "quanto à área geográfica", entre outras.

FOLGUEDOS

"Considerados pelos estudiosos como a principal característica das festas tradicionais, religiosas ou não, os folguedos populares englobam brincadeiras, diversões, artes e artesanato, danças e bailes, músicas e cantorias, jogos e sortes, o comércio de artigos regionais, os autos e as representações teatrais (...), as pantomimas e os teatros de bonecos, entre muitos outros", ensina Emília Biancardi, em "Raízes Musicais da Bahia" (pág. 55, grifamos).

O termo "folguedo" tem, portanto, várias acepções, mas a tendência entre a maior parte dos folclo-ristas é de usá-lo restritivamente, num sentido mais específico, para designar as manifestações em que existe alguma representação dramática, com personagens definidos.

Segundo Maria de Lourdes Borges Ribeiro, a dança folclórica "é a manifestação de um grupo de estrutura simples, apenas mestre e dançadores, com coreografia própria, sem texto dramático, com ou sem indumentária determinada"; "o grupo de folguedo tem uma estrutura complexa, com mestre, dançadores, per¬sonagens com hierarquia e atuação definida, indumentária determinada, elementos tradicionais, ensaios, parte dramática" (em "Folclore", Biblioteca Educação e Cultura, MEC).

Veríssimo de Melo, por sua vez, diverge, considerando equivalentes os termos danças e íolguedos populares, apresentando uma outra distinção entre folguedos e autos): "Entre as danças folclóricas, em geral, há que se separar os autos populares ou danças dramáticas (...) das outras danças ou folguedos populares. Os autos apresentam um enredo, uma estória. Os folguedos circunscrevem-se à coreografia, ritmo e música" ("Folclore Brasileiro - Rio Grande do Norte").

Muitos folcloristas, entretanto, referem-se ao "bumba-meu-boi", por exemplo, como auto ou como folguedo, indistintamente. São, enfim, amplas a diversificação terminológica e as distinções entre os fenômenos denominados. Usam-se "dança dramática", "auto", "folgança", "bailado", "cortejo".

Para Maria Amália Corrêa Giffoni em "Experiência de Pesquisa e Aplicação Didática de Danças Folclóricas", folguedos, ou bailados, danças-dramáticas e autos constituem denominações diferentes do mesmo fato folclórico, incluindo cortejo, danças, cantorias e declamação (Anuário do 28° Festival do Folclore).

Não obstante as divergências, é oportuno ressaltar que a grande mai¬oria dos autores utiliza os termos "danças" e "folguedos" quando tratam do assunto. Do mesmo modo, consta do Capítulo IX do texto resultante da "Releitura" da Carta do Folclore Brasileiro, produzido no VUI Congresso Brasileiro de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador, Bahia: "Grupos Parafolclóricos - São assim chamados os grupos que apresentam folguedos e danças folclóricas (...)".

Poderíamos, então, estabelecer esta distinção: a existência de dramatização e de personagens específicos, presentes no folguedo, o distingue da dança.
Há, no entanto, manifestações em que a dança é apenas parte, mas não essencial, de determinado "folguedo", podendo inclusive nem ocorrer, assim como, em alguns "Bois", por exemplo, o episódio da morte e da ressurreição do animal pode também não ser encenado.

Sendo assim, consideramos oportunas as conceituações de Américo Pellegrini Filho, segundo o qual Dança Folclórica é "forma de expressão tradicionalmente popular que se baseia em movimentos rítmicos do corpo ou parte dele (especialmente os pés), em geral acompanhados por música e canto, e aprendida de modo informal por contatos interpessoais" ("Danças Folclóricas", pág. 26, 2a edição, Ed. Esperança); e Folguedo é "forma folclórica com estrutura, personagens e às vezes enredo, incluindo comumente danças ou coreografias reduzidas. E integrado, geralmente, por pessoas mais ou menos constantes que mantêm um tema central tradicional. Pode não ocorrer a representação teatral (o desenvolvimento de um enredo), mas pelo menos se observam a organização de cortejo, a estrutura coletiva, os trajes especiais. Desse modo, o folguedo popular é uma forma folclórica mais ampla e complexa que a dança e chega mesmo a incluir danças" (op. cit. pág. 27).

PARAFOLCLORE

O termo "parafolclore", formado pelo prefixo grego para ("perto de", "ao lado de") e folclore (cultura popular), foi criado para designar o aproveitamento de produtos da cultura popular pelos meios eruditos.
Nesta modesta abordagem do assunto, trataremos apenas superficialmente da utilização das danças folclóricas com propósito estético.

GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS

Dança parafolclórica é aquela baseada ou inspirada em uma dança folclórica, diferenciando-se desta por ser desenvolvida por dançarinos profissionais ou estudantes, sob a direção de um coreógrafo, com motivação estética e propósito artístico-espetacular. (Esse é o conceito comum, mormente entre os mais tradicionalistas. No entanto, há que se ressaltar a existência de grupos parafolclóricos que têm também outros propósitos, especialmente no sentido de difundir tradições folclóricas para fins didáticos).

São apresentadas pelos denominados Grupos Parafolclóricos, que pesquisam e reelaboram as danças e folguedos folclóricos, adaptando-os, a seu critério, para apresentá-los nos palcos. A dança é artisticamente reinterpretada. O figurino é enriquecido. A coreografia é reelaborada. Modificam-se alguns passos das danças tradicionais, acrescentam-se outros, tudo em conformidade com os efeitos cênicos almejados. E o folclore "estilizado".

Alguns grupos parafolclóricos orgulham-se de serem "o mais fiéis possível ao 'autêntico'". Outros discordam, argumentando que, se o objetivo for simplesmente imitar e copiar passo a passo a manifestação que se pretende projetar, nada de artístico se lhe acrescentará.

Também é usada a expressão "projeção folclórica", preferida por alguns folcloristas.

"Uma dança folclórica é folclore autêntico quando executada pelo grupo folk que a guarda em seu contexto cultural. Executada por alunos de um estabelecimento, respeitado o modelo folclórico, é folclore aplicado. Apresentada em teatro, por profissionais, modificada num ou noutro ponto para satisfação estética de uma determinada clientela, é projeção do folclore", ensina Maria de Lourdes Borges Ribeiro (op. cit).

Rogers Ayres, referindo-se aos diversos eventos de que participou como Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Transart, declara que em todos eles "a marca do novo estava presente. Estudiosos, coreógrafos, professores e ensaiadores estão dando um novo formato desses eventos para que eles sobrevivam. Renovar para se eternizar. E isso o que fazemos quando restauramos uma obra de arte".

"Os parafolclóricos surgiram para homenagear os folclóricos de raiz. Os grupos nascem nas escolas, nas academias e também nas comunidades simples ou ricas para continuarem uma tradição que não deverá desaparecer totalmente" (Anuário do 40a Festival do Folclore, pág. 31).
Segundo o Capítulo IX do texto resultante da "Releitura" da Carta do Folclore Brasileiro, produzido no VIII Congresso Brasileiro de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador, Bahia:

"(...) GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS"

1.São assim chamados os grupos que apresentam folguedos e danças folclóricas, cujos integrantes, em sua maioria, não são portadores das tradições representadas, organizam-se formalmente e aprendem as danças e os folguedos através do estudo regular, em alguns casos, exclusivamente bibliográfico e de modo não espontâneo.

2.Recomenda-se que tais grupos não concorram em nenhuma circunstância com os grupos populares e que, em suas apresentações, seja esclarecido aos espectadores que seus espetáculos constituem recriações e aproveitamento das manifestações folclóricas.

3.Os grupos parafolclóricos consti¬tuem uma alternativa para a prática de ensino e para a divulgação das tradições folclóricas, tanto para fins educativos como para atendimento a eventos turísticos e culturais".

Bastante oportunos os comentários de Gustavo Cortes sobre o item 2 do Capítulo IX da Releitura da Carta do Folclore Brasileiro: "O que me parece mais importante é refletir o parafolclore como questão relacionada à arte e à educação. Por se tratar também de manifestação artística na forma e conteúdo, o artista que utilizar da projeção folclórica terá a liberdade de expressar o seu trabalho com caráter único, pois a visão da arte é específica e vai de acordo com as experiências vividas pelo seu autor. Contudo, a expressão artística deverá ter o cuidado de ser baseada em estudos que não agridam a manifestação autêntica, sendo coerente com a pesquisa realizada, sem perder a particularidade na criação do trabalho. Se a intenção da projeção folclórica for apenas copiar o fato existente, não trará nada a acrescentar em termos de arte. E importante ficar claro para o público qual o tipo de trabalho a que ele irá assistir. Assim, não haverá a ocorrência de competição entre as manifestações que já são diferentes entre si, como ficou registrado no 2a item da carta" (Boletim da Comissão Mineira de Folclore n° 25).

Vejamos alguns folguedos e danças, ecoando antes, as sábias palavras do eminente Alceu Maynard Araújo, segundo o qual "uma das mais sérias dificuldades encontradas em nosso país, com referência aos estudos da demopsicologia, é a denominação dada às danças, às cerimônias religiosas populares e aos instrumentos musicais, pois variam de região para região" ("Folclore Nacional", Vol. II, "Danças * Recreação * Música", pág. 231, Ed. Melhoramentos).

BOI

Animal cultuado pelo mundo e também entre nós, em torno da fi¬gura do boi (uma importante fonte de trabalho e de renda), existem lendas e outras narrativas que marcaram no Brasil sua presença em nosso folclore.

Uma das versões sobre sua origem é a de que estaria relacionada a um antigo culto ao deus egípcio da fertilidade (Apis), representado por um boi, que morria e ressuscitava, também praticado em outras regiões da Africa. Esse culto então teria sido trazido ao Brasil pelos escravos africanos.

O auto do boi apresenta um enredo básico em quase todo o país: a negra Catirina, grávida, com desejo de comer língua de boi, mas a do mais belo da fazenda. Seu marido, o "Pai Francisco" ou "Pai Chico", trabalhador na fazenda, mata o animal pertencente a seu patrão para atendê-la. O boi é morto. O patrão por ele reclama, e depois de muitos entre¬meios de personagens caricaturados da sociedade, que vêm opinar sobre o ocorrido, o criminoso é descoberto. Rezas, rituais má¬gicos e remédios se seguem. O boi ressuscita e tudo vira festa.

Das diversas formas em que esse folguedo é apresentado em todas as regiões brasileiras, exemplifiquemos com os seguintes:

BOI-DE-MÁSCARA

Essa difere dos tradicionais bois do Norte brasileiro por seu ritmo e pelo uso de máscaras e "cabeções" pelos dançarinos. Não há a encena¬ção do enredo. Teria surgido no município paraense de São Caetano de Oliva.

BOI-BUMBA de Parintins, Amazonas

Megaevento, dos maiores do país, a festa do boi-bumbá de Parintins, Amazonas, é ali realizada há mais de oito décadas, no mês de junho, atualmente no "Bumbó-dromo", a grande arena onde ocorrem as apresentações.

Há um destaque maior para a presença de elementos indígenas, que o distingue do Bumba-meu-boi mara¬nhense (ressalte-se, porém, que o boi-bumbá é filho direto do bumba-meu-boi do Nordeste). Também se diferencia de outros bois pelo ritmo, pela indumentária, pela coreografia e per¬sonagens utilizados. Monumentais carros alegóricos e ricos figurinos fazem parte das apresentações, nas quais são evocados fatos, lendas e qualidades da Amazônia.

Uma acirrada disputa se trava entre os bois "Garantido", em que prevalece a cor vermelha, e "Caprichoso", em que predomina a cor azul.

BUMBA-MEU-BOI

Do Nordeste, especialmente no Maranhão, onde é um dos maiores festejos brasileiros, o Bumba-meu-boi prima pela riqueza e diversidade do figurino e dos elementos rítmicos e coreográficos. É usado o termo "sotaque" para as músicas que acompanham os bois maranhenses. O que os distingue são os instrumentos musicais utilizados e a cadência do ritmo imprimido a cada espécie. Dentre as figuras se destacam o Pai Francisco, a Catirina, Dona Maria (mulher do amo), pajé, índios, vaqueiros, cazumbás (espé¬cies de palhaços, mascarados). Em outros Estados nordestinos, há variantes como o Boi-de-Reis, no Rio Grande do Norte, e o "Cavalo- Marinho", especialmente em Pernam¬buco e Paraíba. Neste último, além da figura do boi, se destaca, entre várias outras, a do Cavalo-Marinho, espécie em torno da qual o povo criou diversas lendas. No Boi-de-Reis, há também outras, como os Galantes (ricamente vestidos, adornados com fitas coloridas e espe¬lhos); os Mascarados (trajando rou¬pas surradas, com os rostos pinta¬dos de tisna) e outras figuras de bi¬chos e assombrações.

REIS-DE-BOI

E um folguedo que homenageia os Santos Reis, no qual se realiza o auto do boi, de grande ocorrência no Estado do Espírito Santo, especialmente nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus, estendendo-se a alguns do sul da Bahia. Compõe-se de vários elementos: o Boi, personagem principal, o Vaqueiro, Pai Francisco e a Catirina, João Mole (um boneco desengonçado), um grupo de marujos e outras figuras representando animais, monstros e fantasmas.

BOI DO NATAL

Na região Centro-Oeste, ocorre também o folguedo chamado "Boi do Natal", com o mesmo tema dos outros "bois", qual seja, o animal morto e ressuscitado. O que muda são alguns personagens, informa Carlos Felipe de Melo Marques, havendo lugar "para um caboclo, o Gregório; para um negro, o Mateus; e para um índio, o Caipora. Entre cantos, danças e palavras, o boi e seus companheiros, a mulinha, o cavalo de fogo e o jacaré brincam no meio do povo" ("O Grande Livro do Folclore", pág. 197, 2a Edição, Ed. Leitura).

BOI-DE-MAMÃO

Na região sul, especialmente em Santa Catarina, o "Boi" é o Boi-de-mamão. O conhecido enredo é encenado, mas outras figuras são nele introduzidas, como as de bonecos gigantes e outros animais. O nome "boi-de-mamão", segundo alguns autores, se referiria a um mamão verde que teria sido usado, às pressas, na confecção da figura do boi para mostrá-la a umas crianças.

MARUJADA

Antigo folguedo, de origem portuguesa, que retrata tanto os dramas enfrentados pelos marujos como os seus heróicos feitos em alto-mar, descobrindo terras, vencendo batalhas, em especial contra os mouros. Esse folguedo conserva vestígios dos antigos autos portugueses da Nau Catarineta (antigo romance oral, de origem ibérica, cuja narrativa trata do desaparecimento de um navio português regressando de colônias).

Vários personagens fazem parte desse folguedo: o Almirante, o Capitão-de-mar-e-guerra, Capitão-de-fragata, marujos, cristãos, mouros, entre outros. O figurino dos membros do grupo lembra o dos antigos marinheiros.

A denominação varia ao longo das regiões em que aparece no Brasil:

Marujada, Marujos, Fragata, Barca, Chegança, Chegança de Marujos. No Nordeste, alguns se denominam, curiosamente, "Fandango", o qual, segundo Rogers Ayres, diretor do Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Tran-sart, "corresponde Marujada de outros Estados brasileiros". Rogers acrescenta que "o único grupo existente atualmente em Alagoas está localizado no Pontal da Barra e é dirigido pelo mestre Aminadab". Em Minas Gerais, informa Gustavo Cortes, há os "Marujos", que se apresentam nas festividades de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e de Santa Efigênia, vestidos com os trajes típicos de marinheiros, ostentando o ro¬sário de lágrimas na cintura.

A Marujada de Bragança/PA, no entanto, muito difere dos demais folguedos existentes no Brasil. E composta por mulheres, às quais cabe o comando e a organização da festividade; os homens são apenas acompanhantes e tocadores. Não há muitas personagens além da Capitoa e da Sub-capitoa. As marujas vestem blusa branca, toda rendada e saia comprida rodada, vermelha ou azul. Usam uma fita, a tiracolo, azul ou encarnada, de acordo com a cor da saia, bem como um chapéu cheio de plumas e de fitas de várias cores. E realizada no dia de São Benedito, no dia de Natal, no mês de dezembro e no dia Ia de janeiro. Não há dramatização na Marujada de Bragança nem alusões à Nau Catarineta oú a feitos marítimos.

PAU-DE-FITA

Considerada uma dança universal, é a sobrevivência de antigos rituais de cultos às árvores. Muitos povos dançaram em torno delas, que são símbolos de fertilidade, adornando-as de várias cores. Um dia, alguém a enfeitou com fitas. Mais tarde, alguém tomou dessas fitas enquanto dançava. O exemplo foi imitado e a coordenação de movimentos deu origem à dança. Do topo de um mastro de cerca de três metros de comprimento, partem fitas coloridas. Os dançadores, em torno do mastro, cada um segurando uma fita, vão trançando-as, formando figuras. O número de dançantes deve ser sempre par para que as "tramas" ou "tranças" possam ser levadas a bom termo.

Dançada em quase todas as regiões do Brasil, recebe diferentes nomes, conforme o local: Tipiti, Dança-das-fitas, Dança de trançar, Folguedo-da-trança, Trança-fitas, entre outros.

QUADRILHA

Típica de festejos juninos, a Quadrilha surgiu como dança aristocrática, proveniente dos salões da França, divulgada depois entre os europeus. Introduzida no Brasil como dança de salão, ela foi apropriada e reelaborada ao sabor popular. Dos salões nobres, foi levada à zona rural, de cujas festividades é normalmente parte. Propagou-se pelas cidades e hoje é tradicionalmente dançada nas festas juninas. Há competições de Quadrilhas nas grandes festas.

Um "casamento na roça" é às vezes encenado.

Várias são as figurações que os dançarinos desenvolvem, sob o comando de um mestre, o "marcante" ou "marcador":

CANA-VERDE

E uma dança proveniente da província portuguesa do Minho, Portugal, que por aqui muito se disseminou. Encontram-se diferentes versões dessa dança em vários Estados brasileiros, quanto à coreo¬grafia e à música. Também chamada Caninha-verde.

Outros folcloris-tas discordam, a exemplo de Alceu Maynard Araújo (op. cit, pág. 182), que cita também Corné¬lio Pires, para os quais "não se deve confundir a dança portuguesa da 'Caninha-verde' com a nossa 'Cana-verde'".

Entretanto, a confusão já está feita. Na "Caninha-verde" do Ceará, único local em que a dança se apresenta da forma a seguir descrita, a indumentária, aliás, se baseia em trajes da corte portuguesa no Brasil, mas com um exagero carnavalesco bem próprio dos brasileiros. No decorrer da coreografia, os "nobres" saem dançando, envolvidos pelos súditos, todos muito festivos, "a cantar" e "a dançar" ao som de pandeiros, bandolim, violão e cavaquinho. Na Cana-verde gaúcha, a dança é mais lenta, predominando a alternância de passos de juntar e de recuo, com giros dos cavalheiros e damas, ora com seus respectivos braços direitos entrelaçados, ora com os esquerdos (frentes dos corpos ao contrário), ao som da conhecida música "Eu plantei a cana-verde, sete palmos de fundura (...) não levou nem sete dias, a cana estava madura". Da "Cana-verde de passagem", paulista, trataremos oportunamente, no rol das danças da região Sudeste.

XOTE

E uma dança de salão, aristocrática, que saiu das "altas rodas", incorporando-se aos bailes populares. São usuais as pronúncias xote e xotes. Alguns dizem que a origem dessa dança é alemã; outros, escocesa; outros, ainda, holandesa. Alceu Maynard preferiu dizer que é de origem européia (schotisch). No Norte do Brasil, há o Xote Bragantino (de Bragança Paraense, Pará), que também faz parte da Marujada em Bragança, dançado por pares, sempre em roda, em meio a volteios e batidas fortes dos pés contra o chão, na cadência da música, cujo passo principal é a saudação entre os cavalheiros e as damas (estas, com os braços esticados, sustém levemente, com as pontas dos dedos, parte de seus vestidos, próxima barra, fazendo uma ligeira genuflexão; aqueles fazem uma flexão de tronco, frente delas, cumprimen-tando-as).

No Nordeste, região do país em que é mais executado, ao som das sanfonas ou foles nos bailes populares, o xote é dançado de diversas maneiras, havendo muitas variantes: xote pé-de-serra, xote batido, xote pé-de-parede. Xote, aliás, é um dos ritmos de forró na região mais festeira do Brasil, valendo lembrar que não há um tipo especial de música denominada "forró"; este termo designa o local e a reunião de dançadores, onde são tocados xotes, xaxa-dos, baiões, entre outros ritmos. No Rio Grande do Sul, onde se amoldou à instrumentação típica, mormente a "cordeona", há também algumas variantes, dentre as quais se destacam o Xote-carreirinho variante cuja maior característica é um movimento coreográfico em que os pares, enlaçados, dão passos ligeiramente "arrastados" e sapateados, numa "cor-ridinha" bem como uma outra muito curiosa, o "Xote de duas damas".

Nessa última modalidade coreográfica "realmente excepcional", "não só no meio rio-grandense, como no meio universal", no dizer de Paixão Cortes e Barbosa Lessa cada cavalheiro dança com duas damas, executando os passos da dança, ladeado por cada uma delas, de mãos dadas os peões segurando, com cada uma das suas, as respectivas mãos, direita e esquerda, de suas "duas damas" elevadas próximo à altura de seus ombros. Segundo referidos autores, não se sabe "por que milagre veio surgir entre os gaúchos" essa variante do xote. "Influência dos platinos, através do 'palito'? Ou influência dos imigrantes alemães, numa reminiscência das antigas danças germânicas desse gênero?", indagam eles em "Manual de Danças Gaúchas" (pág. 91, Irmãos Vitale Editores).

CIRANDA

Essa dança de origem portuguesa também apresenta variações pelo Brasil afora. "Ciranda" é designação para as rodas infantis em diversas partes do Brasil. Em outras, não é especificamente dança de crianças. No Nordeste, em especial nos Estados de Pernambuco e Paraíba, é dança de roda em que os dançarinos se dão as mãos e ba¬lançam o corpo enquanto se movimentam em sentido anti-horário, dando passos para dentro e para fora do círculo, ao som de músicas produzidas com o uso de instru¬mentos de percussão, como tarol, bumbo, ganzá, e de sopro (pistons, trombone). Na região do Tapajós, Pará, existe a "Ciranda do Norte", que se distingue pela mistura de vários ritmos, como o xote, a valsa e outros, que tornam a dança ora suave, ora acelerada. É dançada ao som de banjo, flauta, curimbós, maracás, reco-recos, seguindo-se a marcação do compasso feita pelo pandeiro, violão e apito.

FANDANGO

Usa-se o termo "Fandango" para designar uma série de danças populares. Em São Paulo, no litoral, informa Caseia Frade, Fanpescadores, realizadas na faixa litorânea do Estado.
Vejamos mais alguns folguedos e danças, doravante segmentados de acordo com as regiões do país.

DANÇA DE SÃO GONÇALO

Dança de intenção religiosa, praticada geralmente em cumprimento de promessa, por devoção a São Gonçalo. E repleta de variantes pelo Brasil. No Mato Grosso, por exemplo, é dançada aos pares, e a imagem do santo é passada de mão em mão; em São Paulo, em forma de cortejo, uma fileira de mulheres, outra de homens; em Goiás, dançam apenas homens; em Minas Gerais, só mulheres, portando arcos, com apenas um homem representando o santo.

Dango compreende uma série de danças de pares mistos; no interior, é uma dança que muito se aproxima da catira ou cateretê, por causa do sapateado, dançada só por homens, que usam chapéu e lenço ao pescoço e botas com chilenas de duas rosetas. No Nordeste, como vimos, é o nome que em algumas localidades se dá à Marujada. Na região Sul, significa festa que reúne diversas danças regionais. No Paraná, especificamente, merecem relevo o conjunto de "marcas", nome com que se designam as danças apresentadas em festas típicas de caboclos e da Região Norte.

LUNDU MARAJÓ

Trata-se de uma autêntica representação coreográfica de uma conquista amorosa, empreendida com sedutores passos e movimentos. De origem africana, essa é a mais sensual das nossas danças populares. Na música que a acompanha, predominam instrumentos de sopro e atabaque, num ritmo lento e cadenciado. Chegou a ser proibida pelo governo federal, que cedeu às instâncias da Igreja Católica, que a considerava imoral.

Não é mais mostrada como no passado, em que as negras a dançavam com os seios à mostra. As dançarinas usam blusas curtas e saias rodadas e os homens, sem camisa (dependendo do local) ou com calças curtas.

SÍRIA

O nome é apócope de "Sirial", denominação dada pelos negros ao local em que recolhiam siris. Essa dança provém da região de Cametá, Pará. Os movimentos coreográficos _ lentos inicialmente, acelerando-se do meio para o final _ evocam os que os pescadores executam para a coleta de siris. Os dançarinos usam grandes chapéus de palha, a exemplo dos pescadores da referida localidade.

CARIMBO

Expressão máxima das danças folclóricas paraenses, o Carimbo é de origem indígena, dos Tupinam-bás, com marcante influência negra e portuguesa. Aos tambores so¬mam-se outros instrumentos como banjo, maracás, reco-recos, flautas e pandeiros, numa mistura de sons que imprime ao ritmo uma característica singular.
O nome, de origem tupi, deriva do principal instrumento utilizado (um atabaque grande), o curimbó (curi - pau e m'bó - oco ou furado). Merece destaque a brincadeira do lenço desenvolvida na dança, em que os dançarinos vão se abaixando, com as pernas abertas e esticadas, para pegar com a boca o lenço deixado no chão por uma dançarina, sem tocar a mão ou qualquer outra parte do corpo no chão.

RETUMBÃO

E uma das manifestações que integram a Marujada de Bragança Paraense. As mulheres saem em cortejo pelas ruas da cidade, acompanhadas pelos homens e tocadores. E uma dança comandada pelas mulheres, por meio da Capitoa, que ostenta em suas mãos um bastão de madeira, ornado de flores, usado para indicar as mudanças de direção e de passos. As vestimentas do Retumbão são as mesmas usadas na Marujada. O ritmo da dança é determinado pelo tambor, o "bagre". Dizem que o nome da dança provém das narrativas da região, segundo as quais eram "retumbantes" os sons dos tambores, fazendo-se ouvir a grandes distâncias.

CHULA MARAJOARA

É uma dança que louva divindades como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, em cujas festividades, na Ilha do Marajó, é bastante freqüente. E dançada apenas por mulheres, descalças e com roupas estampadas, representando uma alegre forma de louvação.Os trajes usados nessa dança, lembrando a roupa característica do vaqueiro dessa região, cujos movimentos em seu trabalho são coreo-graficamente imitados.

MARABAIXO

Do Estado do Amapá, é uma dança de origem negra, cujo ritmo é cadenciado por toscos tambores de madeira. Trata-se de um folgue¬do de maior ocorrência no Sábado de Aleluia e Domingo da Páscoa. As mulheres usam vestidos estampados e os homens, calças brancas, camisas bordadas e chapéus de palha. Alguns dos movimentos dos dançarinos fazem lembrar um pouco os da capoeira. Mas no Ma-rabaixo não se segue uma coreografia básica; a improvisação é comum nessa dança.

DESFEITEIRA

Do Amazonas e do Pará, é uma dança lúdica, de origem portuguesa. Os pares vão dançando livremente. Há uma súbita parada da música executada pelo conjunto musical. O par que diante deste se encontra, no momento, é obrigado a declamar algum verso. Caso não o faça, é vaiado e deve pagar uma prenda.

Fecha-se o círculo de dançadores, homens e mulheres são posicionados alternadamente, de mãos dadas, com força, ou de braços entrelaçados, e o solista tenta escapar do cerco. Ao conseguir, é substituído. E corrente nos povoados próximos ao Rio Madeira, em Antazes e em Novo Aripuanã.

DO NORDESTE

CAPOEIRA

Capoeira é dança, é jogo, é contenda. Antes, uma arma dos negros por sua liberdade; hoje, uma luta dançante, ao som de pandeiros, agogôs, atabaques e berimbaus. Foi introduzida no Brasil pelos escravos africanos, mas o nome é de origem tupi (Kapu'era), segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, significando "terreno em que o mato foi roçado ou queimado para o cultivo da terra ou para outro fim". E muito corrente na Bahia, mas há vários estilos de capoeira por todo o Brasil.

VAQUEIRO DO MARAJÓ

Típica da Ilha do Marajó, Pará, onde há o maior rebanho de búfalos do país, esta dança retrata a lida dos vaqueiros do Norte do Brasil. Os dançarinos portam um laço para pegar gado e o giram acima de suas cabeças, simulando o preparo de uma laçada.

JACUNDÁ

Dança amazonense cujos passos se inspiram nos belos movimentos de nado do homônimo peixe. Os dançadores, em roda, giram no sentido anti-horário. Num dado momento, um solista fica no centro, dançando; é o "Jacundá".

BACAMARTEIROS OU BATALHÃO DE BACAMARTES

Conjunto de homens portando armas rudimentares denominadas "bacamartes", com pólvora de fabricação caseira, cujos tiros são disparados em manifestações populares como procissões, quermesses e outros festejos. Ao proceder aos tiros, em diversas posições, sem deixar cair o "bacamarte", os baca-marteiros demonstram sua destreza e habilidade.
O grupo Bacamarteiros de Carmópolis, Sergipe, surgiu no início do século XIX. Desse grupo, fazem parte 40 homens e 20 mulheres, todos com roupas típicas do ciclo junino, que, após os tiros, dançam um samba de roda.

PARAFUSOS

Os parafusos representam uma referência coreográfica aos furtos cometidos por escravos fugitivos, que, em horas mortas, nas noites de lua cheia, saíam de seus mocambos (refúgios) nas matas e vestiam as anáguas das sinhás deixadas ao sereno, umas sobre as outras, até cobrir o pescoço. Assim, saíam pelas ruas, dando pulos, fazendo assombração. O medo dos assombrados era maior que o impulso de tentar a recuperação de seus pertences, pois acreditavam que estavam sendo vítimas de almas de outro mundo.

Alforriados, os escravos festejaram vestidos tal qual faziam antes, para zombar de seus antigos senhores.

O grupo folclórico "Parafusos", de Lagarto Sergipe faz uma festiva referência a esses fatos que ali teriam se sucedido. Os integrantes usam turbantes, com o rosto pintado de branco, e, vestidos com anáguas, dançam, girando, fazendo lembrar a imagem de um parafuso.

MACULELÊ

Dança guerreira de origem africana, em que os participantes, geralmente apenas homens, dançam ao som de atabaques e agogôs. Os escravos dançavam o Maculelê nos canaviais com pedaços de cana (a roxa, mais resistente). Conta-se que em ocasiões de tentativa de fuga de algum escravo, o Maculelê era dançado, para distrair os feitores, facilitando a evasão. E proveniente de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O entrechoque de bastões e facões, pelos integrantes dos grupos, marcam essa manifestação, que teria também recebido influência indígena, segundo alguns folcloristas.

TAIEIRAS

Grupo de senhoras que acompanhavam a festa de Nossa Senhora do Rosário, na celebração de São Benedito, no dia 6 de janeiro, dançando e cantando, em Lagarto, Sergipe, terra natal de Silvio Romero, que fez registro dessa manifestação, vestidas com roupas similares às tradicionais das baianas. Originalmente, o grupo era composto de mulatas que seguiam a procissão. Essa tradição é mantida em Lagarto, Sergipe, onde é ampla a participação das Taieiras em eventos comemorativos religiosos.

REISADO

É do chamado ciclo natalino (período de celebração ao nascimento de Jesus Cristo). Atribui-se a São Francisco de Assis o surgimento de autos natalinos. Ele teria promovido uma representação de um presépio, com personagens da Bíblia, em 1223.

De origem portuguesa, é um folguedo nordestino que celebra o nascimento de Jesus e os três Reis Magos que o visitaram na ocasião, tal como as Folias de Reis do Sudeste, de que logo trataremos, das quais, aliás, diferem principalmente pelo figurino, pois, no Reisado, o traje é mais diversificado e colorido, com o uso de chapéus representando torres ou fachadas de igrejas.

COCO

De origem negra, essa dança surgiu nos engenhos, no período da escravidão. Os escravos, para amenizar as dores decorrentes dos esforços empreendidos para quebrar cocos secos com os pés, faziam deles instrumentos musicais, cantavam e dançavam a dança de roda, às vezes com palmas e sapateados. Tamancos às vezes são usados para lembrar o barulho da quebra dos cocos. Teria surgido em Alagoas, mas se difundiu por todo o Nordeste, sendo também dançada, com variações, pelo Brasil.

QUILOMBO

É um folguedo alagoano de origem africana, surgido após o malogro dos quilombolas dos Palmares. Evoca as ferrenhas e sanguinárias lutas travadas entre os escravos fugitivos e os implacáveis capatazes.

Outros autores defendem que não há vínculo entre esse folguedo e o referido acontecimento histórico, argumentando que se trata de uma reinterpretação erudita de danças brasileiras e européias, representando lutas ora entre negros e brancos, ora entre mouros e cristãos, ora entre negros e índios ou caboclos.

O conjunto musical é o Terno de Zabumba. A coreografia é uma simulação de luta, com o uso de foices pelos negros e de arcos e flechas pelos caboclos.

PASTORIL

Folguedo também pertencente ao "ciclo natalino", o Pastoril faz referência à adoração dos pastores ao Menino Jesus, por ocasião de seu nascimento. As "pastoras" (como são chamadas as integrantes desse folguedo) dividem-se em dois "cordões", o Azul e o Encarnado. Usam saias, blusas, aventais, portando pandeiros. Da indumentária das pastoras pertencentes a cada um desses cordões, faz parte alguma peça da respectiva cor, azul ou encarnada. Há bailados, cantos, recitativos e diálogos homenageando o nascimento do Messias. E um folguedo muito conhecido no Nordeste, cultivado com mais evidência no Estado de Alagoas.

GUERREIRO

O Guerreiro deriva de reisados alagoanos. Mas a riquíssima indumentária e um número maior de figurantes e episódios imprimem ao "Guerreiro" uma característica mais moderna em comparação aos antigos reisados.

Destaca-se no Guerreiro o uso de grandes chapéus, em formato de igreja, chamados "capelas", que são enfeitados com pedras e espelhos (que, dizem, devolvem o mau-olhado a quem o lança).

Os personagens são rei, rainha, contramestre, embaixadores, general, lira, índio Peri e seus vassalos, Mateus, dois palhaços, sereia, estrela de ouro, estrela brilhante, estrela republicana, a banda da lua e as figuras. As vezes, o tradicional "boi" e a Catirina também surgem no final.

BAIANAS ou BAIANA

Originária de Pernambuco, nessa dança se apresentam mulheres trajadas com vestes tradicionais de baianas, que dançam e fazem evoluções ao som de instrumentos de percussão. E considerada uma adaptação rural dos maracatus pernambucanos, mesclada com músicas que fazem lembrar o canto dos negros nas senzalas e a coreografia por eles criada nos terreiros da Casa Grande. Quentes e voluptuosos são os movimentos e os ritmos que acompanham a dança.

FREVO

Máxima expressão do carnaval pernambucano, embora se tenha espraiado por todo o Nordeste, Frevo é uma dança que ganha as ruas e os salões no ciclo carnavalesco. É dançada individualmente. Acelerados e energéticos são os passos dos dançarinos, que, em rápidos movimentos, se abaixam e se alteiam, esticando e dobrando suas pernas. E uma dança que deriva da capoeira. Gustavo Cortes informa que "das lutas de capoeira surgiram os passos geométricos e ritmados que compõem a dança. (...) As sombrinhas, que eram utilizadas como arma no passado, viraram adereços coloridos, servindo para dar equilíbrio e graça aos eletrizantes passos e tornando-se tradicional nos malabarismos executados pelos dançarinos" ("Dança, Brasil", pág. 87, Ed. Leitura).

Mário de Andrade via no guarda-chuva dos passistas "uma desinência decadente (generalizada pelo auxílio de equilíbrio que isso pode dar) dos pálios dos reis africanos, até agora permanecidos noutras danças folclóricas nossas", citado por Alceu Maynard Araújo (op. cit, pág. 254), o qual, por sua vez, assim se refere ao frevo: "dança alucinatória do carnaval pernambucano". A música, ditada por trombones e pistões, em que, segundo ele, está a grande força dessa dança, "dá oportunidade para que a coreografia se enriqueça ao máximo com o frenesi dos seus praticantes" (op. cit., pág. 253). O nome vem de "ferver", "fervura". Para a gente simples do povo, "frevura", que culminou em "frevo"."

XAXADO

E uma dança proveniente do sertão pernambucano que se espraiou por todo o Nordeste, divulgada pelo cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", e seu bando, os quais, dizem, também seriam seus autores. "E dança de cangaceiro, dos cabras do Lampião", canta-se. Inicialmente, era dançada apenas por homens, em festas e em preparativos para combates. Atualmente, já se verifica a participação feminina no Xaxado. Há passos rápidos, em que o pé direito cruza o outro, num sapateio deslizante e célere. Batidas no chão com os rifles ou fuzis, cujos tiros são às vezes disparados, também constituem uma marcação na coreografia. Do ruído das alpercatas (xá-xá-xá) usadas pelos "cabras", derivou o nome "Xaxado".

MARACATU

Tal como as Congadas do Sudeste, o Maracatu relembra a coroação, pelos escravos, de seus reis, as chamadas coroações dos reis-de-congo. É característico de Pernambuco, mas recentemente também foi constatada sua forte presença no Ceará.

Para alguns autores, o nome deriva de maracá, instrumento musical utilizado nesse folguedo. Para outros, é resultado do barulho produzido por determinado ritmo com tambores que os negros utilizavam como senha para avisar a proximidade da polícia. O som lembraria o vocábulo "ma-ra-ca-tu". Vê-se, no Maracatu, rico e colorido figurino, com bijuterias, espelhos e outros adereços cintilantes.

Com a libertação dos escravos, o Maracatu passou a integrar o carnaval. Em muitos deles também se fazem presentes figuras representativas dos orixás do Candomblé.
Do cortejo, fazem parte rei e rainha, dançarinas com roupas típicas de baianas, o porta-estandarte, e, entre outros, a dama-do-paço, que porta uma boneca chamada "calunga".

CABOCLINHOS

"Caboclinho é uma dança de origem indígena, como o próprio nome indica. No Nordeste, a palavra caboclo é utilizada para designar o índio ou, no máximo, o cruzamento de índio com o branco. E caboclinhos são os filhos dos caboclos" (Carlos da Fonte Filho, em "Espetáculos Populares de Pernambuco", Edições Bagaço). Dos mais antigos bailados de que se tem notícia no Brasil, foi registrado pela primeira vez em tribos indígenas nordestinas, em 1854, por Fernão Cardim, informa Gustavo Cortes. "Atualmente, são grupos fantasiados de índios que, ao som de pequenas flautas e bandas de pífanos, saem pelas ruas das cidades do Nordeste, no período carnavalesco. Executam um bailado ritmado, em séries de saltos e bate-pés, marcado pelos estalidos secos das preacas (espécie de arco e flecha)" (op. cit., pág. 92). Os dançarinos, que executam essa ágil coreografia, usam saias de penas, colares e cocares repletos de plumas e adornos cintilantes, em meio a outros adereços.

ARARUNA

Do Rio Grande do Norte (também dançada na Paraíba) é uma dança que faz referência a um pássaro preto chamado araruna, proveniente do Pará, muito comum na região. Ele é uma ameaça constante aos arrozais. Quando despontam os pendões de arroz, essas aves passam a comêlos avidamente. Se não são contidas, devoram toda a plantação. Para garantir a colheita, então, há que se afugentar essas aves.

E desse tanger das ararunas que se originaram a dança e a letra da música: "Xô, xô, xô, Araruna Os movimentos se dão para frente, para trás e para os lados. São passos alusivos ao próprio pássaro.

Uma variante no Amazonas é chamada Iraúna, na qual há uma pequena encenação. Uma solista representa essa ave; um outro brincante, um caçador, que tenta capturá-la; quando consegue, assume o lugar do pássaro.

TOREM

"Dança de terriro, de influência ameríndia, lúdico-imitativa. Os participantes, de mãos dadas, formam uma grande roda. Ao centro, o tocador de aguaim (maracá) agita-o, solando a dança que é imitada pelos demais participantes.

E uma dança agitada, com movimentos de corpo, requebros, batidas de pés no solo e imitação de animais de seu convívio: a cobra caninana, o guaxinim, a jaçanã, conhecidíssimos no Ceará. Cantam em coro em que, de permeio, ouvem-se vocábulos indígenas. Tomam mocorocó, bebida fermentada de suco de caju", explica Alceu Maynard Araújo (op. cit., pág. 259)

MANElRO-PAU

Também chamada Mineiro-pau, é originária da região de Cariri e de Juazeiro do Norte, no Ceará, onde os empregados das fazendas lutavam, em treinamento, com pedaços de madeira. Dança de roda em que os participantes portam um ou dois bastões que se entrechocam, maneira das espadas, sendo percutidos, ora grupalmente, ora entre um e outro dançarino, em revezamento, numa ordem na qual há duas, três ou mais batidas. Carlos Felipe de Melo informa que é uma dança também encontrada no interior dos Estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Zona da Mata de Minas. "Com uniformes coloridos e apresentando-se muito no período pré-carna-valesco, a dança costuma ter, na festa, personagens como o boi, a mulinha e o jaraguá" (op. cit., pág. 118).

TAMBOR DE CRIOULA

Típica do Maranhão, com alguma presença no Piauí, é uma dança cujo ritmo é obtido por meio de três tambores feitos de tronco, escavados a fogo. A coreografia é executada individualmente e consiste em sapateios e remelexos voluptuosos com o corpo inteiro dos dançarinos em formação circular. E dança de terreiro, sem data fixa para ser apresentada.

A variedade no comprimento dos tambores, segundo Caseia Frade, "sugere denominações específicas: o tambor grande é chamado Socador; o médio, Crivador ou Meão; o pequeno, Perenga ou Pirerê" (em "Folclore", pág. 65, 2a edição, Ed. Global).

DO CENTRO-OESTE

CAVALHADA

Reminiscência das tradições da Cavalaria Medieval, a Cavalhada é um folguedo que rememora as históricas batalhas travadas entre os mouros invasores da Península Ibérica e os cristãos, que lutavam pela reconquista desse território, sob a liderança de Carlos Magno. Os fatos históricos, permeados por várias lendas, tiveram ampla repercussão no Brasil no século XVIII, com a tradução portuguesa do Livro "História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares da França". Realiza-se ao ar livre, em espaços amplos. Formam-se dois grupos, posicionados em pontos opostos, representando os mencionados adversários.

Luxuosamente vestidos (de azul, os cristãos, e de vermelho, os mouros, todos com capas bordadas e adornos cintilantes), portam espadas, lanças e pistolas. São vários os compo¬nentes, chegando, eventualmente, a quase uma centena de figurantes. Insultos e ameaças são trocados entre as partes em conflito, até que iniciam a simulação dos combates, fazendo-se uso das já mencionadas armas. Os mouros terminam subjugados, convertidos ao Cristianismo. Após, a parte lúdica se inicia, na qual os cavaleiros exibem sua destreza.

CATIRA

E uma dança mais típica de Goiás, da zona rural, mas que também se propagou em outros Estados, como Minas Gerais e São Paulo, onde também é chamada Cateretê. E uma dança masculina, embora eventualmente se encontre alguma "catira feminina", de projeção folclórica, a exemplo da Catira Feminina do Distrito de Baguaçu, Olímpia/SP. Posicionados em duas fileiras opostas, os catireiros.

DANÇA DOS MASCARADOS

Encontrada no município de Po-coné, em Mato Grosso, é dançada só por homens que, em um "cordão", vestem-se como tais e, em outro, como mulheres. Usam máscaras, roupas de chitão estampado e chapéus adornados com plumas, espelhos e outros adereços. É muito apreciada nas festas de São Benedito e do Espírito Santo. O ápice da dança é a "trança-fitas", em que violeiros, sapateiam, pulam, batem palmas, fazem meia volta e trocam de lugar uns com os outros. Para alguns autores, a origem da dança seria portuguesa, derivando da carretem, praticada em Portugal, no século XVI. Para outros, seria indígena, já que cateretê é palavra proveniente do tupi-guarani.

RECORTADO

É uma variante de cateretê, mais movimentada, dançada em fileiras opostas que se tornam uma roda no decorrer da dança. Em meio aos sapateados, os dançarinos executam meneios físicos que fazem lembrar a umbigada do Batuque. E uma dança predominantemente masculina, mas, em vários lugares da região, há também a participação feminina.

SERRA MORENINHA

Famosa no Estado de Goiás, é um bailado simples em que se formam duas fileiras de homens e mulheres. Posicionados frente a frente, os pares dão-se as mãos e executam vários passos, imitando os movimentos de dois serradores cortando madeira. Alceu Maynard Araújo já noticiava sua ocorrência também no Rio Grande do Sul, com o nome de "Serrote" (op. cit., pág. 191).

CURURU

De origem indígena, essa dança inicialmente só era apresentada por homens, o que, aliás, continua ocorrendo, especialmente no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. E comum em festas religiosas. Embora o vocábulo cururu corresponda a "sapo", na língua nheengatu, não há nessa dança nenhum movimento coreográfico que faça alusão àquele bicho. Formam-se duas alas, uma defronte da outra. Iniciado o ritmo, as duas fileiras dão dois passos para a esquerda e para a direita, movimentando-se de maneira a formar uma roda, à medida que cresce a animação dos dançantes. Quem entoa os versos é chamado de "cururuzeiro", e os versos entoados denominam-se "carreiras". Ao som da viola-de-cocho, típico instrumento da região e de reco-recos, ento¬am-se versos improvisados. Não há indumentária específica.

VOLTA-SENHORA

E uma curiosa mistura de quadrilha com a dança do Vilão, explica Carlos Felipe de Melo. "Os pares, ao som da viola, tocada por um violeiro que vai lembrando ou improvisando versos, vão executando passos diferentes. O cavalheiro segura a ponta de um grande lenço, enquanto a dama segura a outra ponta, e durante a coreografia, eles não podem soltar o pano. Com isso, alguns passos tornam-se muito difíceis, mas apresentam, por outro lado, belos momentos coreográficos, como na execução do 'moinho', em que as mãos direitas dos dançadores na roda se entrelaçam formando um eixo, enquanto as esquerdas continuam segurando os lenços. Conhecida em todo o Centro-Oeste, a volta-senhora é, às vezes, dançada com um bastão em vez de lenço. Quando isso acontece, é comum, ao final, os bastões serem entrelaçados. Os dançantes então os abaixam para que o violeiro, literalmente, suba em cima daquele feixe, sem parar de tocar. Eles, então, o levantam no ar, numa bela apoteose" (op. cit., pág. 200).

ENGENHO DE MAROMBA

Realizada em praticamente todo o Centro-Oeste, em especial na região nordeste de Mato Grosso do Sul, chamada "Bolsão", a coreografia dessa dança faz lembrar os movimentos do engenho de cana. Duas fileiras de homens e mulheres são formadas, as quais giram em direções contrárias entre si. Geralmente, é executada aos finais dos bailes da região, como despedida.

SIRIRI

Da região pantaneira do Centro-Oeste brasileiro, é uma das mais antigas e populares no Mato Grosso. E presença marcante em festejos religiosos. Dizem alguns que o nome "Siriri" deriva do verbo siriricar ("pescar com siririca, espécie de anzol"). E dançada em roda e em fileira, geralmente ao som do cracaxá (espécie de reco-reco), viola-de-cocho, ganzá e o mocho (tipo de tambor), em álacre e célere coreografia. Não há traje específico.

MARIMBONDO

E uma dança de roda, às vezes de desafio, de coreografia livre. Ao som de cuíca e pandeiros e, eventualmente, também de viola caipira, um dos participantes entra no meio da roda e executa seus passos, tendo sobre a cabeça um pote de água com uma cuia boiando na superfície. Não pode deixá-los cair. Pode desafiar outro dançador a fazer igual ou melhor, por meio de alguma saudação, ajoelhando-se e entregando-lhe "o campo" ou "o pote", como dizem. Se o desafiado se recusar, deve pagar uma rodada de bebida. E de maior ocorrência no interior goiano.

RASQUEADO

Segundo o grupo parafolclórico "Chalana" (Cáceres/MT) o Rasquea-do é "dança popular (arrasta-pé), resultado da influência fronteiriça, exercida pelo Paraguai sobre o Mato Gros¬so, através da miscigenação e interação na vida dos ribeirinhos. E uma mistura da Polca paraguaia e do Siriri mato-grossense". Rasqueado significa "arrastar as unhas ou um só polegar sobre as cordas, sem ponteá-las".

DO SUDESTE

FOLIAS DE REIS

Dentre os mais representativos folguedos do ciclo natalino, encontram-se as Folias de Reis, também conhecidas por Companhias de Reis. E na região Sudeste que esse folguedo pode ser mais apreciado. De origem portuguesa, derivam elas dos festejos realizados no Dia dos Reis Magos, tendo sido introduzidas no Brasil, no século XIX. Celebram o nascimento de Jesus Cristo e a visita que lhe fizeram os Três Reis Magos. Entre 24 de dezembro e 6 de janeiro (dia dos Reis Magos), as Companhias de Reis, visitam as casas da redondeza em busca de donativos para a realização da festa, no dia 6 de janeiro, levando consigo a bandeira dos Santos Reis. Sendo aceita a visitação, os membros passam com a bandeira por todos os cômodos da residência, para que os Santos Reis a abençoem e os que nela habitam.

Essa é a chamada "peregrinação". A indumentária dos integrantes das Folias de Reis é, em geral, mais simples. São trajes comuns, usados uniformemente pelos membros das Companhias. Destacam-se os "palhaços", que usam máscaras que lhes ocultam todo o rosto e chapéus em forma de cone, enfeitados com fitas e flores.

A presença desses palhaços tem origem em muitas estórias. Uma delas conta que eles representariam os Reis Magos, que se disfarçaram na ocasião da visita ao menino Jesus, para fugirem à perseguição do Rei Herodes. Cânticos em louvor a Deus, a Jesus e aos Santos Reis são entoados ao som de violas, violão, cavaquinho, pandeiros, entre outros.

Os participantes são chamados foliões e o grupo recebe as seguintes denominações: Folia de Reis, Folia de Santos Reis, Companhia de Reis, Companhia de Santos Reis, Terno de Santos Reis, Terno de Reis ou Tripulação de Reis. Quase todos têm denominação específica, como Companhia de Reis "Magos do Oriente". Alguns preferem ser chamados "Companhias de Reis", por considerarem depreciativa a palavra "folia".

CONGADA

Congada, Congado ou Congo é folguedo de formação afro-brasileira. E uma reminiscência da antiga coroação dos "Reis-do-Con-go", praticada pelos escravos no Brasil, e incentivada pelas autoridades para tranqüilizar um pouco as senzalas, promovendo a coroação de seus reis negros. E uma reminiscência dessa prática na região Sudeste, onde o folguedo é mais difundido. Antigamente, as Congadas também rememoravam as lutas entre mouros e cristãos, nas denominadas "embaixadas", que hoje são raras. Algumas ainda exibem coreografias, representando manobras guerreiras, com o uso de espadas, mas atualmente prevalece o aspecto religioso, a louvação aos santos católicos, especialmente Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Os grupos são chamados "Ternos de Congada", "Ternos de Congo", "Guardas de Congos", entre outros. Há uma grande diversidade entre os grupos com relação à indumentária utilizada, aos cantos e às danças. Alguns até se vestem de marinheiros. Muitos grupos usam chapéus com fitas coloridas, geralmente ornados com espelhos, que devolveriam eventual mau-olhado recebido. Em cada localidade em que é cultivada, a dança apresenta-se com características diversas. Há informações de sua existência desde 1711.

MOÇAMBIQUE

"Dança popular em São Paulo, Minas Gerais e Brasil Central", informa Câmara Cascudo ("Dicionário do folclore Brasileiro"), que prossegue citando Renato Almeida: "... bailado conhecido em São Paulo, Minas e no Brasil central, em geral, é o dos Moçambiques, que dizem ter sido levado pelos escravos negros que foram trabalhar na mineração do ouro". Tornou-se também dança de intenção religiosa, que louva santos católicos.

A exemplo das Congadas, não há uniformidade entre os grupos com relação ao figurino, aos cantos, às danças e também aos personagens. Destaca-se a presença "dos reis, da bandeira e de diversos outros personagens que variam conforme o grupo e a localidade em que se exibem, como mestre, contramestre, caixeiro, capitão, general, tocadores e dançadores", informa Gustavo Cortes (op. cit., pág. 146). Muitos grupos usam lenço na cabeça, trazendo atados em seus tornozelos latas com chumbos que produzem um alto barulho quando dançam os moçambiquei-ros. De um local para outro, características diferentes se apresentam nessa manifestação.

TICUMBI

Espécie de versão espírito-san-tense da Congada, este folguedo é encontrado no Norte do Espírito Santo, especialmente nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus.

Os protagonistas são o Rei-de-Congo e o Rei- de-Bamba, que se distinguem pelo traje: usam roupas brancas, coroas, feitas de papelão ricamente ornamentadas com flores, papel dourado, fitas e espelhos, e longas capas de cetim lamê cintilante. Portam espadas nas mãos, ou atadas à cintura. Os guerreiros e vassalos de ambas as nações também se vestem de branco; usam japona ou batas longas ornadas de fitas coloridas. As majestades, com suas respectivas cortes, travam uma "guerra" pela prerrogativa de comandar a realização da Festa de São Benedito. Uma batalha verbal se inicia entre os representantes das nações. Sucede-se outra, em que se usam espadas na representação, até que o Rei-de-Bamba é derrotado pelo Rei-de-Congo, e, juntamente com seus liderados, batizados por este. O folguedo se encerra, então, com a música e a dança do Ticumbi, em que se reproduzem alguns passos da batalha com as espadas.

DANÇA-DE-SANTA-CRUZ

Ponto alto da Festa de Santa Cruz, realizada na primeira semana de maio em Carapicuíba/SP, é uma dança realizada após as louvações e reverências à cruz, possivelmente de origem indígena, cujos movimentos basicamente se executam em roda, girando numa e noutra direção. O dia 3 de maio foi escolhido para celebrar a descoberta da verdadeira Cruz de Cristo, em Jerusalém, pela mãe do imperador Constantino, a imperatriz Helena, que iniciou as comemorações em 326 d.C.

CAIAPOS

E um folguedo popular cujos integrantes se fantasiam de índios, trajando roupa de capim-bar-ba-de-bode e muitos adereços, inclusive penas de aves, como galinha ou peru. Pintam o rosto com uma tinta azul. As evoluções, sob o comando da figura do "pajé", são executadas ao som de cuícas, tambores, pandeiros, violões, entre outros. O grupo não canta. Alguns grupos apresentam um enredo, sem cantoria, em que se encena o rapto de uma bugrinha (alusão ao rapto de uma bugrinha por portugueses, no período da colonização, segundo a tradição oral indígena). Há duas bugrinhas, uma de roupa azul (batizada), outra de vermelho (pagã). Os "Cai-após", então, em algazarra, representam a busca da bugrinha e do raptor. Grupos de Caiapós são encontrados em São Paulo e em Minas Gerais.

BATUQUE

Batuque é um vocábulo com que os portugueses designavam genericamente as danças de origem africana, acompanhadas de cantorias e de instrumentos de percussão. O Batuque se realiza em uma grande roda, em cujo centro os dançarinos improvisam passos, individualmente ou em dupla. O remelexo dos quadris é fortíssimo. Ao som de atabaques e tambores, os participantes batem pés e palmas e estalam os dedos rapidamente, como castanholas. O passo mais marcante do Batuque é a "umbigada", movimento também presente em outras danças, no qual os dançadores _ barriga pra frente, peito pra trás _ batem ventre contra ventre. Realizada entre homens e mulheres, a umbigada indica o momento de substituição do dançarino solo ou o encerramento da apresentação, se se tratar de um par de dançantes. Muito conhecido em Olímpia é o Batuque de Piracicaba, que sempre participa do nosso Festival do Folclore.

Há dançadores de batuque em várias localidades paulistas: Botucatu, Capivari, Itu, Laranjal, Limeira, Pereiras, Porto Feliz, Rio Claro, São Pedro, Tatuí e Tietê.

Emilía Biancard, ao tratar do samba-de-roda, informa que neste "a pessoa entra no meio do círculo dos participantes e dança solo. O próximo dançarino é escolhido quando o bailarino central dele se aproxima e faz um encontrão de barriga com barriga. Na Bahia, em todo o Estado e durante todo o ano, o samba-de-roda tem tido uma grande variedade de interpretações e redenominações. O samba-de-roda chulado só pode ser tocado com o uso de duas violas, sendo assim os únicos instrumentos manuais para essa dança. Nos dias de hoje, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, podem-se encontrar guitarras substituindo violas. Neste caso, as guitarras são tocadas como se fossem violas. O samba de roda corrido, por outro lado, é o que se pode chamar de 'dança espontânea', onde os instrumentos usados podem ser qualquer tipo de material que produza ritmo para essa dança, incluindo um simples bater de mãos" (op. cit, pág. 282). Alceu Maynard Araújo já afirmava "samba é umbigada" (op. cit., pág. 256).

SAMBA-LENÇO

É uma dança em louvor a São Benedito, introduzida pelos negros no Estado de São Paulo. Um único grupo a preserva, em Mauá, cidade paulista. Branca e vermelha são as cores predominantes no figurino. Os homens vestem camisas xadrezes, das referidas cores e calças brancas, chapéus de palha e lenços no pescoço. As mulheres usam vestidos longos com babados nas barras, decotes e mangas, acompanhados de anáguas, nas cores vermelha e branca, às vezes xadrezes, às vezes não. Usam chapéus comuns ou bordados (naquelas cores), lenço na cabeça, anéis, colares, brincos, broches, pulseiras. Membrano-fones e idiofones marcam o ritmo do samba-lenço, que, enquanto é dançado, apresenta melodias breves, simples, repetitivas e cantadas em coro pelos que assistem à apresentação do grupo. Muito querido pelo Mestre José Sanfanna, o Samba-lenço de Mauá/SP se apresenta no Festival do Folclore de Olímpia desde 1966.

CANA-VERDE DE PASSAGEM

E uma das mais difundidas no Estado de São Paulo, especialmente no meio rural. Formam-se duas filas laterais, uma de rapazes, outra de moças. Os rapazes ficam batendo palmas, enquanto as moças se dão as mãos, formando um "cordão", passando depois, em ziguezague, sob os "arcos" formados pelos braços erguidos e mãos dadas dos rapazes, após o que, cada uma vai parando diante de seu par. Os pares, então, se enlaçam e dançam, girando em torno de si próprios. Formam-se duas rodas concêntricas, uma girando no sentido contrário ao da outra. Há trocas de pares, bailados soltos, formação de duas fileiras em cruz, entre outros movimentos.

JONGO

O Jongo, de proveniência africana, tem algumas semelhanças com o Batuque e teria surgido em regiões de cultivo de café. No Estado de Minas Gerais, é denominada de "caxambu", termo que também designa um dos instrumentos (um tambor grande) utilizado na dança. Os participantes revezam-se no meio da roda, fazendo evoluções marcantes, com grande remelexo. O ritmo, ora é lento, ora é célere. Há versos improvisados, que chamam de "pontos", muitos deles, aparentemente, sem muita unidade e propósito. Não há trajes específicos nem período próprio para sua prática. Os jon-gueiros, pelo que constatou Alceu Maynard Araújo, "gozam de uma auréola de mágicos e feiticeiros" (op. cit. pág. 221).

BALAINHA

E uma dança paulista, da qual só participam mulheres, portando arcos ornados de fitas e flores ou envoltos em papel crepom, a exemplo da variante mineira da dança de São Gonçalo. O principal momento da coreografia é aquele em que os arcos são unidos pelas dançarinas, formando a balainha. E muito apresentada em festas juninas.

TAMBORIL

Muito bem apresentada pelo GODAP - Grupo Olimpiense de Dan¬ças Parafolclóricas "Cidade Meni-na-Moça", é, segundo o grupo, "dança dos ex-escravos em homenagem a São Benedito. E do ciclo de maio, mês em que se deu a libertação negra no Brasil. E uma dança graciosa e muito ligeira. A indumentária é confeccionada de papel crepom em variadas cores. E dançada em Minas Gerais e em São Paulo".

CAFE

No século XIX, o café se expandia pelo Brasil, enquanto se reduzia a capacidade das minas, principalmente nas searas que futuramente se denominariam região Sudeste ("civilização do café"). Os movimentos coreográficos dessa dança imitam os que os lavradores executam ao colher, mexer, sacudir e amontoar o café. As peneiras, indispensáveis ao exercício dessas funções, são também usadas pelos dançarinos na apresentação.

CORDAO-DE-BICHOS DE TATUÍ/SP

E um folguedo muito interessante que foi idealizado pelos operários de uma fábrica, de famílias nordestinas que fixaram residência em Tatuí/SP. Inicialmente, denominou-se "Arca de Noé" e se apresentava apenas no carnaval, com seus componentes usando máscaras de aves e outros bichos. Posteriormente, passando por transformações, a denominação foi alterada para "Cordão- de-Bi-chos".

São mais de cinqüenta componentes e diversas figuras: sapos, tartarugas, aranhas, bois, tigres, porcos, tatus e outras figuras humanas caricaturadas.

DANÇA DO BAMBU

E uma dança de origem indígena, proveniente da América Central, praticada por ocasião das chuvas. E popular em São Paulo, especialmente na cidade paulista de Ibitinga, onde já era dançada em remotas épocas, nas festas juninas. A Professora Maria Aparecida de Araújo Manzolli, coordenadora do GODAP - Grupo Olimpiense de Danças Parafolclóricas "Cidade Menina-Moça", pesquisou essa dança na década de 60, estilizou-a e a integrou no rol das danças apresentadas pelo grupo. Oito bambus de cerca de quatro metros são estendidos no chão. Quatro pares de dançarinos, cada um posicionado entre dois bambus, iniciam a dança. Os dançarinos se revezam, trocando de pares, movimentando-se entre os bambus, portando tochas acesas em uma posterior etapa da dança.

CARNEIRO

Dança proveniente do norte de Minas Gerais, é inspirada nas festividades natalinas que ali se realizam. Os movimentos coreográficos, nos quais os dançarinos homenageiam o Menino Jesus, lembram as marradas dos carneiros. E uma simulação coreográfica de uma briga entre esses animais. Segundo o grupo parafolclórico Sa-randeiros (Belo Horizonte/MG), "o nome Carneiro parece estar relacionado ao cordeiro de Deus, em alusão a Jesus Cristo".

CALANGO

E uma dança típica de Minas Gerais, porém, também é encontrada com alguma similaridade no norte do Rio de Janeiro. O Calango é um bailado de movimentos simples, mas que em alguns momentos se mostra um pouco semelhante à catira, pelo sapateado e palmeado. As vezes, versejadores repentistas se apresentam em meio à dança.

DO SUL

CHULA

A chula gaúcha é uma dança masculina, de desafio. Uma vara de madeira, chamada "lança", é estendida no chão. Em cada um de seus extremos, posicionam-se os dançarinos desafiantes. Um deles começa o desafio, executando complicada série de sapateados, passando de um a outro lado da lança, sem tocá-la, recuando e avançando de sua posição inicial, até que a ela retorne e pare, ao terminar sua performance. Ato contínuo, o outro desafiante deve imitar-lhe os passos; se não conseguir, se deslocar a lança, ou destoar do ritmo da música, é desclassificado. Se tiver êxito, apresenta nova série de sapateados, os quais, após concluídos, devem ser reproduzidos pelo oponente e assim sucessivamente. Os desafiantes se revezam, enquanto as prendas acompanham a disputa, incentivando e ovacionando.

MAÇANICO

Proveniente de Santa Catarina e de origem aparentemente portuguesa, segundo alguns autores, o Maçanico ganhou notoriedade e cor própria entre os gaúchos, em especial pela utilização de seus típicos instrumentos.

Um dos versos cantados é muito conhecido: "Quem não dança o Maçanico, não arruma namorado". A dança desenvolve-se em meio a sapateados, sarandeios, giros e movimentos em fila que evocam as formações dos antigos minuetos do Velho Continente. O nome dessa dança é corruptela de "maçarico", ave do sul do Brasil.

TIRANA DO LENÇO

De origem espanhola, essa famosa dança chegou ao Brasil em fins do século XVIII e por aqui logo se espalhou, a desdobrar-se em muitas variantes, vindo a adquirir, no entanto, fortes nuanças locais no Rio Grande do Sul.

A dança retrata as fases de uma apaixonante história amorosa: paquera, conquista, namoro, percalços e um belo final feliz. Inicia-se com os recíprocos cumprimentos dos peões (homens) e das prendas (mulheres). Eles aproximam-se delas e inclinam levemente a cabeça. Elas correspondem, flexionando os joelhos. Num primeiro momento, a saudação é cerimoniosa; num outro, explicitamente romântica, dando, assim, início à veemente gestualísti-ca amorosa que marca a coreografia da Tirana. As figuras se sucedem, em meio a recuos e aconchegos, representando amor e desavença entre os pares, que, ora estão juntos, ora se afastam. Há cenas de sorrisos cativantes e de olhares desafiadores. A Tirana "foge" do peão, que parte em seu encalço, ela sarandeando e ele sapateando, até que ele lança mão de seu lenço e o agita garbosamente, atraindo-a. Em outra figura, o peão lhe demonstra indiferença (não sapateia ao sarandeio da prenda). Ela, então, "saca" seu lenço e o atrai.

O desfecho da dança mostra uma feliz reconciliação: os pares nos braços uns dos outros.

ROSEIRA

Muito conhecida no Rio Grande do Sul, a Roseira bem demonstra a galhardia dos peões gaúchos para com suas prendas. Os movimentos coreográficos dessa dança, que evocam o abrir e fechar das pétalas de uma rosa, são marcados por garbosos floreios dos dançarinos (sapateados dos peões e graciosos sarandeios das prendas), feitos de maneira a figurar uma tentativa de se impressionarem mutuamente. O mais forte momento da Roseira é chamado "Namoro", no qual, ao som de gaitas, as prendas param, como que encantadas pelos peões, que vão lentamente andando em derredor delas, olhando-lhes nos olhos, num recíproco embeveci-mento. E uma dança de amantes com perfume de rosas.

TATU

O maior protagonista de fábulas indígenas contadas na seara gaúcha inspirou o nome dessa dança cuja característica prevalente é a maior liberdade de movimentação a seus praticantes, que podem "florear" em seus sapateados ao sabor de suas habilidades. Os versos da canção são chamados "décima" ou "moda de bicho". Os dançarinos, sapateando, posicionam-se paralelamente num primeiro momento e as damas ficam sarande-ando; noutro, de mão dadas, executam alguns passos, até que se posicionam de maneira a permitir que a prenda gire em torno de si mesma. A exemplo da "Tirana", o lenço é de grande relevância no "Tatu", representando também gestos de namoro entre os dançarinos.

CHIMARRITA

É uma popular dança portuguesa (Açores e Ilha da Madeira), trazida ao Brasil pelos colonizadores no século XVIII. A coreografia recebeu fortes influências locais e foi modificada por aqui. No início, os pares dançavam-na enlaçados, num misto de valsa e xote. Hodiernamente, predomina a modalidade em que os dançarinos bailam soltos, numa e noutra direção, em fileiras ou em círculo. Nos países platinos, é denominada chamamé. No sul do Brasil, onde se fixou, é conhecida por chimarrita.

Dizem alguns que esse nome é variante de uma referência à evocação de uma personalidade feminina (Chama-Rita). E também chamada pelos gaúchos de "limpa banco", pois, quando sua melodia começa, quase todos se levantam para dançá-la. Do Rio Grande do Sul, difundiu-se para outros Estados (Santa Catarina, Paraná e São Paulo).

PEZINHO

O romantismo pueril, ingênuo, a graciosa e infantil faceirice, são as grandes marcas dessa dança popular cuja música é quase um outro hino dos gaúchos "ai bota aqui, ai bota aqui o seu pezinho ... bem juntinho com o meu", melodia trazida pelos colonizadores, que, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, adquiriu características próprias dessas localidades ao ser executada ao som da "cordeana", típica do sul brasileiro. Uma marcação de pés ocorre na primeira seqüência coreográfica, em movimentos em que os pés dos cavalheiros e das damas se aproximam, após a qual os dançarinos entrecruzam seus respectivos braços direitos, girando em torno de si próprios. Essa dança é belissimamente apresentada pelo grupo infantil do GODAP - Grupo Olimpiense de Danças Parafolclóricas "Cidade Menina Moça". O Pezinho, aliás, já ultrapassou as fronteiras pátrias, sendo já dançado no exterior como dança típica brasileira.

BALAIO

"O Balaio é brasileiro da gema e procede do Nordeste", na assertiva de Augusto Meyer em seu "Guia do Folclore Gaúcho", com o que estão concordes Barbosa Les-sa e Paixão Cortes, segundo os quais, nas estrofes de seu canto não falta sequer um redundante "não quero balaio, não", "bastante estranho ao linguajar gauchesco" (op. cit., pág. 113). No entanto, no Rio Grande do Sul, a dança ganhou aspectos próprios dessa localidade, sendo muito dançada entre os gaúchos. O nome tem origem na efêmera aparência de cestos que as saias usadas pelas dançarinas adquirem quando estas giram e se abaixam. Dois círculos concêntricos se formam, um de mulheres, outro de homens, que se movem em sentidos contrários, nos intervalos que se dão aos sapateados (dos peões) e aos sarandeios (das prendas), movimentos estes que predominam na coreografia.

CARANGUEJO

Essa dança já foi popular em todo o Brasil, sobre a qual se encontram referências desde o século XIX. Na atualidade, entretanto, verifica-se que se concentrou na região Sul, na qual é apresentada por vários autores como dança "grave", "de pares dependentes", derivada do minueto e de suas variações platinas, segundo Gustavo Cortes, que acrescenta: "o caráter maneiroso da dança é acentuado por cumprimentos entre dançarinos e balances, evolução originária da quadrilha européia que permite à prenda demonstrar graciosidade em seus sarandeios, como são chamados os passos executados por ela. Na coreografia, cada par, tomado pela mão direita, evolui passos-de-marcha, de modo a completar uma volta em torno de si mesmo" (op. cit. pág. 177).

"CUA-FUBA"

É uma dança do Fandango pa¬ranaense, que representa coreo-graficamente o "coar" do fubá. Dançada apenas por mulheres, que batem forte no chão com suas tamancas, tendo nas mãos uma peneira, de maneira a simbolizar o peneirar do fubá. E dançada com a música do mesmo nome da dança, "CUÁ-FUBÁ", do folclore paranaense.

VILÃO DE FITAS

"Dança de salão, que era dançada aos pares nos antigos salões paranaenses, ganhando depois o gosto popular. Também era denominada de 'Vilão de Lenço'. Os pares seguram uma fita ou um lenço de cores diferentes. O folgador segura numa extremidade do lenço e a folgadeira na outra. Braços levantados, forma-se assim um túnel de fitas ou de lenço, as duas filas são formadas pelos dançarinos alternando um homem, uma mulher. A indumentária, baseada no ano de 1940, era composta de saias na altura das panturrilhas com saiotes armados e blusas de babados com cintos largos para as mulheres; para os homens, calcas com bainha à italiana, camisas de mangas longas, lenço no pescoço e faixa na cintura. São fundamentais as tamancas; sem elas, não se dança o Fandango", informa a Profª Sueli Alves de Souza, diretora e coreógrafa do grupo parafol-clórico "Fogança", o qual espetacularmente apresenta essa dança e a belíssima canção que acompanha a coreografia ("...Quero ver o meu amor, se não eu morro de saudade...").

ADIVINHAS

Nas adivinhações ou adivinhas, que são rápidas questões propostas para serem resolvidas, onde geralmente a lógica não está presente, a mão, que é o objeto de análise deste trabalho, marca presença, quer no enunciado, quer na resposta, quando não em ambos. Eis dezenas de exemplos inventariados, em sua quase totalidade no folclore olimpiense.

Entretanto as de números 2, 3, 4, 7, 13, 17, 20, 31, 33, 35, 38 e 40 foram registradas em Votuporanga, SP:

1- Qual é a mão que pesa mais?
-Mão-de-ferro.

2- Qual é a mão que mais bate?
-Mão de pilão.

3- Que mão tem chifres?
-Mão-curta (espécie de veado).

4- Qual a mão que mais se fecha?
-Mão de finado ou mão de leitão (sinônimos de pessoas sovinas).

5- Quando Colombo descobriu a América, o que enxergou na mão direita?
-Os dedos.

6- Quando apaixonada, adolescente encontra o namorado, o que pretende dar?
-Sua mão.

7- Qual a diferença entre a noiva e o papagaio?
-A noiva pede-se a mão e ao papagaio, o pé.

8- Altas torres, lindas janelas, abrem e fecham sem pôr as mãos nelas.
-Olhos.

9- Qual a mão que faz mal com suavidade?
-A do ladrão.

10- Qual é a mão que não tem dedos?
- A mão de pilão.

11- Qual é o animal que sem a mão vira tempero?
-Salmão.

12- Qual a fruta que sem a primeira sílaba se torna parte do braço?
-Mamão.

13- Que é que tem pescoço e não tem cabeça, tem braços e não tem mãos e embora tenha peito, falta-lhe o coração.
-Camisa.

14-O que é que tem a mão separada do corpo?
-O pilão.

15-O que está sempre no chão e fica em cima da mão?
-Til (acento).

16-O que é que abre portões sem ter braços nem mãos?
-O vento.

17-O que é que enche a casa, mas não enche a mão?
-O botão.

18- Por que o guarda de trânsito pode ser considerado muito forte?
-Porque faz os carros andarem a um gesto de mão.

19- Qual o carro que todos sabem guiar?
-Carrinho de mão.

20- Qual a cidade do Estado do Paraná que está em nossas mãos?
-Palmas.

21-O que é que tem pés e não anda, mãos e não trabalha, olhos e não vê, orelhas e não ouve, tem boca, mas não fala?
-Uma estátua.

22 - Quem mordeu a mão do eleitor na hora de votar?
-A boca de urna.

23-O que é que de uma palma saem cinco palmitos?
-Mãos e dedos.

24- Quem tem palma sem ter palmeira?
- Mão.

25- Que é que pula, pula, com a mão na cintura?
-Pilão.

26-O que é que para comer põe a mão nos olhos?
-Tesoura.

27-O que é que tem mão fora do corpo e a boca na barriga?
-Pilão.

28 - Onde é que Deus bota sempre as mãos?
- Nos braços.

29- Quando Deus fez o mundo e deu às criaturas, onde lhes colocou as mãos?
-Nos pulsos.

30- Quando a mulher se deita, onde é que ela fica com as mãos?
-Nas munhecas (nos pulsos). Variante:

31 - Quando uma moça se deita, onde ela dorme com as mãos?
-Nos braços.

32-O que é que se movimenta usando as mãos e não os pés?
-Baralho.

33- O que é que tem cabeça, tem pé, tem braços, mas não tem mãos?
-A cruz.

34-O que é que se planta com as mãos e colhe-se com os olhos?
-A carta.

35-O que é que é? Uma belajanela que se abre e fecha sem que ninguém coloque a mão nela.
-O olho.

36 - Qual a fruta que tem mão?
-Limão.
37-O que é que voando de mão em mão, sobre golpes bem batidos, obriga a saltos repetidos a quem lhe der a mão?
-Peteca.

38 - Qual a fruta, que sem a mão, diz que já leu?
-Limão (li).

39-O que disse a buzina para a mão?
-Não me aperte que eu grito.

As adivinhas que seguem foram formuladas em engenhosas quadras. Note como são interessantes! Foram retiradas do arquivo de José Sant'anna (1937-1999), em 1993.

40- Fininha como cabelo,
Brilhante como uma espada, Brinca na mão da mocinha, Mas pelo pé amarrada.
-Agulha.

41- Uns me juntam, outros me partem,
Passando de mão em mão, Entre caneca e caneca Sou a grande distração.
-Bebida alcoólica.

42- Mais de vinte senhoritas
São mudas quando isoladas, Mas dizem todas as coisas Se acaso estão de mãos dadas.
-As letras do alfabeto.

43- A resposta é verdadeira,
Mas parece sem razão: O que enche uma casa, Nas não enche uma mão?
-Botão.

44- Enche uma casa todinha,
Mas não enche uma mão; Amarrado na cacunda Entra e sai sem ter portão.
-Botão de camisa (blusa, calça, etc).

45-Tem pescoço, não tem cabeça, Tem braços e não tem mãos, Tem corpo e não tem pernas, Tem peito, não tem coração.
-Camisa.

46- Sou cortês, atencioso,
Sujeito muito decente, Vou ao salão, ao palácio, Pela mão de muita gente.
-Chapéu.

47-Tem olhos, não tem pernas,
Mata gente, não tem mãos; Bota ovos, não tem pernas, Tem roupa sem confecção.
-Cobra.

48- Tem braço e não tem mão,
Tem perna e não tem pé, Tem pescoço, não tem cabeça, Mas é símbolo de fé
-Cruz.

49-Tem pés, tem mãos e tem olhos
Orelhas, boca também; Não anda, não vê, não ouve E nem fala com ninguém.
-Estátua.

50- Nasci em terras queimadas
Meu próprio nome é o chão, Tenho vinte e cinco dedos Na metade de uma mão.
-Meia-mão de milho.

51- Quando Deus criou o mundo,
De barro foi feito Adão; Agora vem a pergunta: Onde Deus lhe pôs as mãos?
-Nos braços.

52- Como planta que é, tem tronco
E de grande comprimento; Vive embora sem ter mãos, Batendo palmas ao vento.
-Palmeira.

53- Um trem em velocidade
Segue sua direção, Quem pode parar o trem Com apenas uma mão?
-O maquinista.

54- Pendurado na parede,
Utilíssimo tu és,
Pois dás sem teres as mãos
E anda sem teres os pés.
-Relógio.

55- Venho nas ondas do mar,
Nascido na fresquidão, Não sou água e nem peixe, Mas sou tempero na mão.
-Sal.

56- Cinqüenta e cinco soldados
Todos cabem numa mão, Os cinqüenta pedem ave, Mas os cinco pedem pão.
-Terço de oração.

57- Qual será a resposta
Que o decifrador dará: Cinco dedos numa mão, Mas carne e osso não há.
-Luva.

58- Posso dar-lhe a resposta
E não erro, meus irmãos, Nenhum macaco tem pés, Este animal só tem mãos.
-Há um engano, pois macaco não é quadrúmano (quem tem
quatro mãos).

59- Quem viaja se prepara,
Para não ficar na mão, Mas o que é necessário Pra se entrar num avião?
-Estar fora dele.

60- Onde de mãozinhas postas,
Parece religioso,
Com aspecto de santinho
E inseto perigoso.
-Louva-a-deus.

CULINÁRIA

PRATOS DOCES

1 – PÉ-DE-MOLEQUE

Ingredientes: 4 xícaras (chá) de açúcar, 2 xícaras (chá) glicose de milho (tipo Karo), 5 xícaras (chá ) de amendoim torrado (com ou sem casca), 1 colher (sopa) de bicarbonato, óleo para untar a forma.

Preparo: Junte tudo e leve ao fogo até dourar. Quando o amendoim começar a estalar, retirar da panela, juntar 1 colher (sopa) de bicarbonato e bater fortemente. Despeja em assadeira ou sobre o mármore, untado. Deixar esfriar um pouco e cortar em quadradinhos.

2 – BROA DE AMENDOIM

Ingredientes: 1 kg de amendoim torrado e moído; 1 kg de açúcar refinado, 1 kg de farinha de trigo, ½ kg de banha, 6 ovos, 1 colher (café) de sal amoníaco.

Preparo: Misturar a farinha, o amendoim e o açúcar. Depois, abrir em bacia grande, pôr a banha, os ovos e o amoníaco. Amassar até dar o ponto de enrolar. Formar o desenho de uma trança e assar. (Anuário do Folclore – 1976).

3 – ESTRELINHAS DE MEL

Ingredientes: 1 xícara(chá) de mel quente, 1 xícara (chá) de amendoim torrado e picado, 1 lata de leite condensado, 1 colher (sopa) de açúcar, 1 colher (chá) de canela em pó, 1 colher (chá) de baunilha, 1 colher (chá) de raspas de limão, 3 cravos torrados, 1 xícara (chá) frutas cristalizadas picadas, 5 xícaras (chá) de farinha de trigo, 2 colheres (chá) bicarbonato.

Preparo: Misturar o bicarbonato e o açúcar, amassando bem. Juntar os demais ingredientes, sovando bem a massa. Levar à geladeira por 2 horas. Abrir a massa com um rolo, numa espessura grossa, e cortar em formato de estrelas (com forma própria). Assar em forma untada (Anuário do Folclore – 1983).

4 – AMANDOIM CROCANTE

Ingredientes: 1kg de amendoim cru, 1xícara (chá) de açúcar (cristal), ½ xícara (chá) de água, 3 cravos, 1 pau de canela, (opcional: 2 colheres (sopa) de Nescau)

Preparo: Coloca-se o amendoim cru, com casca, em panela grossa. Sobre ele coloca-se o açúcar, o cravo e a canela. Mexer constantemente. Jogar a água, ferver até secar. É bom comer bem quentinho (Receita de Carmélia Gonçalves Sabião – Pirangi).

5 – FATIAS DE AMOR

Ingredientes: 2 xícaras (chá) de açúcar, 3 xícaras (chá) de amendoim (torrado e moído), 1 colher (chá) de canela em pó, 1 colher (chá) de fermento em pó, 3 xícaras (chá) de fubá, 2 xícaras de leite, 3 colheres (sopa) de manteiga, 6 gemas.

Preparo: Bater as gemas com o açúcar. Juntar os demais ingredientes, mexendo bem. Assar em forma untada, fogo brando. Cortar em fatias. (Anuário do Folclore – 1997).

6 – BOLO DE FUBÁ E MAISENA

Ingredientes: 1 copo (americano) de fubá, 1 copo de maisena, 1 copo de farinha de trigo, 2 copos de açúcar, 1 copo (medida copo requeijão) de amendoim torrado e moído, 1 copo (americano) de leite, 3 colheres (sopa) de manteiga, 1 colher (sopa) de banha, 3 ovos (claras em neve), 1 colher (sopa) de pó Royal.

Preparo: Bater, juntos, todos os ingredientes, mexer até ficar bem misturado. Assar em forma redonda com furo no centro.

7 – SORVETE COM AMENDOIM

Ingredientes: 1 colher (sopa) de adoçante em pó (ou açúcar), 4 colheres (sopa) de amendoim, 1 colher (café) de baunilha, 1 xícara de leite desnatado, 200g de sorvete (qualquer um, cremoso).

Preparo: Bater por 3 minutos no liquidificador. Peneirar a mistura (se achar necessário). Colocar essa massa em uma panela e mexer por 10 minutos, até obter calda cremosa. Em uma taça coloque o sorvete e cubra com a calda quente.

8 – CAJUZINHO DE AMENDOIM MOÍDO

Ingredientes: 200g de amendoim torrado e moído, 1 xícara (chá) de açúcar, 3 colheres (sopa) de chocolate em pó, 1 gema, 1 colher (chá) de manteiga, 5 colheres (sopa) de leite.

Preparo: juntar todos os ingredientes, mexer bem, formando pasta compacta. Pegar com uma colher (sopa) com porção da pasta e fazer os docinhos com forma de cajus. Pode-se enfeitar com palitos verdes (hastes) e cravo na extremidade.

9 – TORTA DE AMENDOIM MOÍDO

Ingredientes: (Massa): 6 claras, 4 gemas, 8 colheres (sopa) de açúcar, 200g de amendoim torrado e moído, 2 colheres (sopa) de farinha de trigo, 2 colheres (sopa) de pinga.

Ingredientes: (Recheio) 2 gemas, 6 colheres (sopa) de açúcar, 3 colheres (sopa) de creme de amendoim (encontrado em caixinhas ou preparado caseiramente), 2 copos de leite, 100g de margarina.
Preparo: Bater as claras em neve. Juntar as gemas, o açúcar, o amendoim, a farinha e a pinga. Colocar em forma untada e polvilhar com farinha de trigo. Assar em forma untada.

Recheio: Leve ao fogo o leite, o creme de amendoim, o açúcar e as gemas, até formar um mingau grosso. Acrescentar a margarina e, caso goste, algumas gotas de baunilha.

Montagem: Corte o bolo ao meio, no sentido do comprimento. Coloque sobre uma das partes do recheio. A outra metade cobrirá a anterior. Sobre ela salpique um punhado de amendoim torrado, sem casca, picadinho.

10 – PAÇOQUINHA (de Lourdes Bôer Grassetti – Pirangi)

Ingredientes: kg de amendoim torrado e moído, 4 copos (americano ) de açúcar, 2 copos de água.

Preparo: Levar o açúcar ao fogo – menos 1 xícara (chá) que será usada logo mais.Separadamente, caramele o açúcar da xícara, leve-o ao fogo com o restante do açúcar. Misture a água até o ponto de calda. Acrescente o amendoim. Bata bem até engrossar. Despeje na pia ou em mesa de mármore, deixe esfriar e corte em cubos.

11 - BOLO DE AMENDOIM (de Lourdes Bôer Grasseti)

Ingredientes: 3 ovos, 2 xícaras (chá) de amendoim cru, sem pele e moído, 2 xícaras (chá) de leite, 3 xícaras (chá) de farinha de trigo, 2 colheres (sopa) de margarina, 1 colher (sopa) de pó Royal, açúcar a gosto.

Preparo: Bater as claras em neve. Juntar a elas as gemas, o amendoim moído, o leite, a farinha, a margarina, o açúcar. Misturar bem. Colocar o fermento. Assar em forma de buraco.

12 – PÉ-DE-MOLEQUE DE RAPADURA (de Ideh Camargo Silva)

Ingredientes: 1 copo (medida requeijão) de leite, 3 xícaras (chá) de rapadura raspada, 1 colher (sopa) de margarina, 1 xícara (chá) de amendoim torrado, em peles e moído.

Preparo: Misturar o leite, a rapadura e a margarina. Levar ao fogo e mexer com colher de pau até ficar em ponto de pasta. Retirar do fogo. Misturar o amendoim, mexendo firme. Despejar sobre mármore ou superfície lisa. Quando esfriar, cortar em quadradinhos.

13 – ACORDA MARIDO (de Ideh Camargo Silva)

Ingredientes: 1 xícara (chá) de amendoim torrado, sem pele e moído, 1 litro de leite, 3 gemas batidas; 2 xícaras (chá) de açúcar.

Preparo: Colocar todos os ingredientes em uma panela. Levar ao fogo, obedecendo a ordem dos mesmos. Mexer sem parar, com colher de pau, até ferver. Servir bem quente em xícaras ou copos resistentes ao calor.

14 – PÉ-DE-MOLEQUE DA IDEH CAMARGO SILVA

Ingredientes: 2 xícaras (chá) de mel Karo, 2 xícaras (chá) de amendoim torrado, sem pele, moído, 1 colher (sopa) de bicarbonato.

Preparo: Levar ao fogo o mel e o amendoim. Mexer bem, até dar o pondo de fio. Retirar do fogo e colocar o bicarbonato. Misturar bem e colocar sobre mármore ou sobre a pia. Ao esfriar, cortar em quadradinhos.

15 – PAÇOQUINHA

Ingredientes: 2 xícaras (chá) de amendoim torrado, moído sem a pele. 500 gramas de bolacha Maria, 1 lata de leite condensado, 1 colher (sopa) de margarina.

Preparo: Bata no liquidificador, primeiro o amendoim, depois da bolacha. Coloque a mistura dos dois em uma tigela. Junte o leite condensado e a margarina. Mexa bem. Esparrame a massa em assadeira média. Corte em quadradinhos.

16 – BATIDA DE AMENDOIM (à moda de Waldemar Campos Silva-Pirangi)

Ingredientes: 2 xícaras (chá) de amendoim torrado, sem pele e moído, 1 lata de leite condensado, 1 xícara (chá) de açúcar, 1 copo (americano) de licor de cacau, 1 litro de pinga.

Preparo: Bata tudo no liquidificador. Coloque em litros ou garrafas. A cada vez de servir, sacudir bem o frasco.

17 – TORTA DE AMENDOIM

Ingredientes: 3 colheres (sopa) de manteiga, 9 colheres (sopa) de açúcar, 3 gemas batidas, 3 colheres (sopa) de chocolate em pó, 1 xícara (chá) de amendoim moído, 9 colheres (sopa) de farinha de trigo, 1 colher de (sopa) de fermento em pó, 1 copo (americano) de café coado, sem açúcar, 3 claras batidas em neve, manteiga para untar.

Preparo: Bata a manteiga com açúcar, até formar um creme. Junte as gemas, o chocolate e o amendoim, mexa bem. Acrescente a farinha, o fermento e o café. Mexa novamente Junte as claras em neve. Mexa delicadamente. Coloque em uma forma untada e asse.

18 – ROCAMBOLE DE AMENDOIM

Ingredientes: 6 ovos, 6 colheres (sopa) de açúcar, 6 colheres (sopa) de farinha de trigo, 1 lata de leite condensado, 1 e ½ lata de leite de vaca, 250g de amendoim torrado e moído.

Preparo da massa: Bater bem as gemas. Juntar às claras batidas em neve. Juntar o açúcar e bater até formar bolhas (bater no liquidificador ou batedeira). Colocar a farinha e mexer bem. Usar colher de pau. Levar ao forno em forma untada.

Preparo do Recheio: Unir o leite condensado ao de vaca. Levar ao fogo em panela que não grude, mexendo até engrossar. Deixar esfriar e acrescentar o amendoim.

19 – PUDIM DE AMENDOIM

Ingredientes: 1 lata de leite condensado, 2 latas de leite comum, 4 ovos, 1 xícara (chá ) de amendoim torrado, moído.

Preparo: Bater tudo no liquidificador. Despejar em forma untada. Assar em banho-maria, forno médio, por cerca de uma hora.

20 – “MUSSE” DE AMENDOIM

Ingredientes: 1 pacote de gelatina sem sabor, 200g de amendoim sem pele, moído, 2 latas (medida da de leite condensado) de leite de vaca, 1 lata de creme de leite (sem soro), 1 lata de leite condensado, 3 claras em neve.

Preparo: Dissolver a gelatina em 1 xícara (chá) de água quente. Colocar (menos as claras) todos os ingredientes no liquidificador, bater até ficar homogêneo. Colocar tudo em pirex ou tigela redonda, misturar as claras batidas e levar à geladeira por algumas horas. Servir gelado.

21 – PAVÊ DE AMENDOIM

Ingredientes: 200g de biscoito champagne, 1 lata de leite condensado, 3 latas de leite de vaca, 2 gemas, 1 abacaxi picado, 1 pacote de amendoim moído, 2 colheres (sopa) maisena.

Preparo: Umedecer o biscoito no leite e, com ele, forrar um pirex redondo. Levar o abacaxi ao fogo, com um pouco de açúcar. Despejar quente sobre o biscoito.

Preparo do Creme: Juntar o leite condensado, o de vaca, as gemas e a maisena. Levar ao fogo e mexer até engrossar. Misturar a metade do amendoim. Em seguida juntar tudo sobre o abacaxi. Novamente, jogue a outra metade do amendoim por cima.

Cobertura: 3 claras em neve, 2 colheres (sopa) de açúcar, 2 colheres (sopa) de creme de leite. Bater tudo junto por cima do amendoim. Deixar na geladeira por algumas horas.

22 – MUNGUNZÁ (de Ineh Bueno de Camargo – Pirangi)

Ingredientes: 500g de canjica (milho branco picado) 4 paus de canela, 6 colheres (sopa) de açúcar, 5 cravos, ½ litro de leite, 1 vidro de leite de coco, 1 lata de leite condensado, 1 xícara (chá) de amendoim, batido no liquidificador.

Preparo: Deixe a canjica de molho de um dia para o outro. Escorra a água. Coloque em panela grande, com 2 litros de água, deixe cozinhar até amolecer. Junte a canela, o cravo, o açúcar. Junte o leite fervido, mexendo com colher de pau. Acrescente o leite de coco, o leite condensado e o amendoim. Mexa bem e retire do foco. Se quiser um mungunzá mais doce, coloque um pouco mais de açúcar.

23 – GELADO DE AMENDOIM

Ingredientes: litro de leite, 1 xícara (chá) de açúcar, 1 colher (sobremesa) de baunilha líquida, 5 gemas, 5 colheres (sopa) de pasta de amendoim sem sal.

Preparo: Ferva o leite com o açúcar e a baunilha. Bata as gemas. Coloque-as no leite, batendo sem parar, com colher de pau, até que fique um creme. (Sabe-se o ponto quando a massa começa a grudar na colher). Retire do fogo e deixe amornar. Em seguida, bata tudo no liquidificador. Junte a pasta de amendoim. Bata mais um pouco. Coloque em vasilhas de sobremesa e deixe gelar.

24 – BOLO DE AMENDOIM

Ingredientes (para a massa): 4 ovos; 2 copos (americano) de açúcar, 2 copos de farinha de trigo; 1 colher (sopa) de fermento, 1 copo de leite morno, 200g de amendoim moído.

Cobertura: 1 lata de leite condensado, 1 xícara (chá) de leite de vaca, 1 colher (sopa) de margarina.

Preparo da massa: Bater as claras em neve, acrescentar ao açúcar, bater as gemas e juntá-las ao açúcar. Colocar a farinha, o fermento, o amendoim. Assar em forma untada e polvilhada com farinha de trigo.

Cobertura: Leve, juntos, ao fogo, o leite de vaca, o leite condensado e a margarina, batendo bem para formar massa cremosa sobre o bolo pronto, jogar a cobertura ainda quente.

PRATOS SALGADOS

1 – MACARRÃO COM AMENDOIM

Ingredientes: kg de lombo de porco cortado em tiras, 3 colheres (sopa) de margarina, 2 tabletes de caldo de galinha; 4 colheres (sopa) de leite aquecido, 1 xícara (chá) de pepino picado, pimenta-do-reino a gosto, ½ xícara de (chá) de amendoim torrado e descascado, 500 g de talharim cozido e coado.

Preparo: Doure o lombo na margarina, junte os tabletes de caldo de galinha. Deixe amaciar. Acrescente o pepino. Mexa bem. Coloque a pimenta-do-reino, junte o amendoim, mexa bem, deixe no fogo com um pouco de molho. Jogue a mistura bem quente sobre o macarrão cozido e escorrido. Sirva com arroz branco se quiser e uma salada verde.

2 – AMENDOIM PICANTE

Ingredientes: 4 xícaras (chá) de amendoim (torrado, sem peles), 1 colher (chá) de pimenta aiena; 1 colher (chá) de páprica doce, 1 pitada de canela em pó, 1 xícara (chá) de uva-passa branca, sal a gosto.

Preparo: Misture todos os ingredientes e deixe descansar por meia hora, dando uma mexida de quando em quando. Sirva como aperitivo com torradas ou pão fresco.

3 – FRANGO XADREZ (Receita de Ineh B. de Camargo – Pirangi)

Ingredientes: 1 kg de frango cortado em quadradinhos, pimenta-do-reino a gosto, 2 colheres de shoyo, 5 dentes de alho bem picados, 1 xícara (chá) de cheiro verde picado, 1 clara de ovo batida em neve, 1 colher (sopa) de maisena, 1 xícara (chá) de conhaque, 2 cenouras em cubinhos, 1 pimentão verde e 1 vermelho em tirinhas, 1 cebola em rodelas, 1 xícara (chá) de amendoim (grão grandes, assados), meio abacaxi em pedaços, 2 colheres (sopa) de açúcar.

Preparo: Tempere o frango com todos os temperos. Deixe descansar por uma hora. Em panela grande, coloque 3 colheres de azeite. Despeje o frango, deixe-o dourar e cozinhar até amaciar. Retire-o da panela, deixando-o seco, reservando o molho em que foi cozido. Volte a panela ao fogo, colocando no molho as cenouras, os pimentões e as cebolas. Mexa, misturando o frango a esse molho pronto. Sirva com arroz branco. Se quiser, pode fazer um molho com 3 colheres (sopa) de mel, 1 colher de shoyo, 2 colheres de massa de tomate, 2 colheres de catchup e 1 colher de açúcar.

4 – BOBÓ DE CAMARÃO COM AMENDOIM (de Ineh B. de Camargo)

Ingredientes: (para 6 pessoas)-1 kg e meio de camarão (limpo, sem as tripinhas), 1 cebola grande batidinha, 2 colheres (sopa) de azeite e 2 de óleo, 2 tabletes de caldo de galinha, 1 xícara (chá) de cebolinha, salsa e sal, pimenta vermelha, pimenta-do-reino, 1 lata de polpa de tomate, 2 vidros de leite de coco, 1 e ½ (chá) de amendoim torrado e moído, 1 kg de mandioca cozida e passada no espremedor, 3 colheres (sopa) de azeite de dendê, 1 cabeça de alho esmagados.

Preparo: lave e limpe os camarões. Frite a cebola e o alho no azeite e no óleo. Junte o camarão e mecha. Acrescente o caldo de galinha, a salsa, a cebolinha e o sal, as pimentas e massa de tomate, o leite de coco, o amendoim. Mexa bem e acrescente 2 copos (americanos) de água, até ferver. Engrosse com a mandioca, colocando-a aos poucos, mexendo sem parar, com colher de pau. Quando formar uma pasta, coloque o azeite de dendê. Experimente o gosto. Sirva com arroz branco ou acaçá.

5 – VATAPÁ (à nossa moda – para 10 pessoas)

Ingredientes: 1 kg de camarão médio; 1 e ½ kg de sobrecoxa de frango, 2 cebolas grandes batidas, 2 cabeças de alho grandes batidas, 2 cabeças de alho esmagadas, 4 colheres (sopa) de óleo, 4 colheres (sopa) de azeite, 2 xícaras (chá) de salsa e cebolinha picadas, 2 colheres (sopa de sal, 2 tabletes de caldo de galinha, 2 latas de massa de tomate, 2 pimentas vermelhas, pimenta-do-reino a gosto, 1 xícara (chá) de castanha de caju moída ou picada, 2 xícaras (chá) de amendoim torrado, sem pele e moído, 2 vidros de leite de coco, 1 vidro pequeno de azeite de dendê.

Preparo: Lave o frango, retire a pele, tempere com alho, cebola, óleo, azeite, cheiro-verde, sal, caldo de galinha, pimentas, suco de tomate, 2 copos (americano) de água, ou o que baste para cobrir o frango. Leve ao fogo, tampando a panela. Deixe cozinhar até amaciar o frango. Deixe esfriar. Desfie o frango em pedaços grandes, reserve-os no molho. Em outra panela aqueça o óleo e o azeite restantes, acrescente os temperos que sobraram quando temperou o frango. Junte o camarão, mexa te fritar levemente. Coloque 1 lata de suco de tomate, 2 copos de água, deixe ferver por uns 10 minutos.

Junte o camarão ao frango. Misture bem. Acrescente a castanha de caju, o amendoim e o leite de coco. Mexa bem. A seguir, coloque 2 caixinhas de creme de arroz dissolvidas em 2 copos de água fria. Vá mexendo até que forme uma grossa mistura. Acrescente o azeite de dendê. Mexa bem, não pare de ferver.

Sirva com arroz branco ou acaçá (mingau feito com uma caixa de creme de arroz dissolvido em 2 vidros pequenos de leite de coco).

Ineh Bueno de Camargo

MEDICINA POPULAR

Por mais elevada que seja a cultura do povo, sempre nos seus costumes, crenças e tradições irão se encontrar vestígios de épocas rudimentares em que se foram organizando as formas superiores da sua existência. Tal fato explica a permanência da Medicina Popular, conjunto de conhecimentos e crenças criados pelo povo, universo repleto de mitos, ritos, agouros e superstições.

Todos os povos da humanidade tiveram, no início de sua existência, grandes privações e duras necessidades. A alimentação, o vestuário e a doença sempre foram as carências primordiais e as necessidades que mais exigiam ocupações de homens ainda desprovidos de expedientes.

Os primeiros recursos contra a doença humana nasceram justamente no seio desses homens rudes que, ma luta pela sobrevivência, foram buscar a cura inicialmente nos seres que os circundavam: os vegetais. E como obtiveram bons resultados, devolveram suas observações e foram levador a criar uma prática médica, para conhecer e distinguir o que lhes era útil ou noviço no mundo dos vegetais.

O primeiro passo da pesquisa científica estava dado. O gênio inventivo de cada um foi-se transmitindo, de geração em geração, com observações acumuladas, que foram aperfeiçoando e alargando o campo do conhecimento da doença humana e dos recursos para combate-la. [...]

[...] A medicina popular, no entandom não se resume na utilização de folhas, raízes e cascas em forma de banhos ou infusões com o objetivo de curar doenças. As simpatias e a religião cumprem papel fundamental na eficácia desses tratamentos. Toda aplicação de recursos materiais ocorre num terreno essencialmente mágico, na medida em que, para a medicina popular, as plantas não curam por causa das substâncias neas contidas, mas principalmente pelas virtudes anímicas, isto é, porque as plantas são entidades que curam doenças.

As propriedades farmacêuticas das drogas estão diretamente ligadas a um universo religioso onde se encontra a explicação do fenômeno. Por esse motivo, o tratamento sempre obedece a um ritual, no qual são observadas as fases da lua, a posição da raiz com relação ao sol, as estações do ano e outras recomendações. No ritual da cura pela Medicina Popular, não se separam corpo e alma. Muitas vezes, utilizam-se rezas visando à cura do corpo e também do espírito enfermo. Boa parte desses tratamentos são empregados para curar doenças; outros para estancar sangue numa ferida ou casos em que a pessoa se engasga, sente dores diversas, necessita eliminar vermes e ainda muitos outros males...

Período Menstrual
Durante este período, a mulher era considerada “impura”, e deveriam observar regras especiais:

A mulher não deveria lavar os pés e de uma maneira geral abster-se de lavagens corporais.
Não poderia amassar a broa (pois esta não levedaria).
Não podia comer azeitonas.
Não poderia entra nas adegas onde se estivesse a fazer o vinho (pois este estragar-se-ia).

Gravidez

Quando estavam grávidas, as mulheres não podiam trazer chaves, alfinetes nos bolsos, pois a criança nasceria com um sinal ( no lado em que a mãe trouxesse o referido objeto).
Durante o tempo de amamentação a mulher não deveria ficar deaixo de uma figueira, pois o seu leite secaria.
Depois do nascimento a criança não deveria sair à rua antes de trinta dias (“ficavam um mês abafadas”).
A criança não deveria entrar na igreja antes de ser batizada (pois seria mal pra ela).

Dores menstruais
Quando as mulheres sentiam muitas dores, aqueciam vinho e bebiam-no. Também podiam fazer o mesmo com água bem quente com bastante mel ou açúcar.

Mordida de abelhas
Mordida de abelhas são curadas esfregando salsa e água fria.

Tosse coqueluche
Para esta tosse faziam um xarope, misturando açúcar amarelo e o líquido do cacto bravo (piteira). Além do xarope deveriam as pessoas, antes do nascer do sol, ir durante meia hora/um quarto de hora para os pinhais ou então estar durante o mesmo tempo num curral de bois respirando o bafo dos animais.

Feridas
Pisavam folhas de violeta e colocavam em cima da ferida depois de ter desinfetado a mesma e utilizavam uma folha de couve bem untada com azeite a ferver que deitavam em cima da ferida.

Dor de dentes
Para a dor de dentes, bochechavam a boca com água ardente e deitavam rolhos de algodão embebido em criozote (líquido que se comprava na farmácia).

Lombrigas
Faziam um cordão de dentes de alho e deitavam à volta do pescoço das crianças. Os adultos cheiravam alho ou bebiam sumo de limão estreme ou vinagre.

Eczemas
Para curar eczemas, ferviam folhas de eucalipto (mimoso), bolsa de pastor, alecrim, folas de malva e lavavam-se com essa água.

Cravos
Para tirar os cravos cortava-se uma batata ao meio e esfregava-se bem os cravos com a goma da batata. Repetia esta operação durante três dias. Também se podiam tirar com espuma de água da chuva. Quando chovia muito, normalmente nas estradas mais velhas ficavam poças de água. Nessas opças com a força da água ficava espuma. Então apanhavam essa espuma e esfregavam nos cravos e eles desapareciam.

Dor de ouvidos
A dor de ouvidos era curada com o leite materno. A pessoa a quem doía os ouvidos ia pedir a uma mãe que andasse a amamentar, que lhe deitasse umas gotas de leite para dentro do ouvido, mas se o paciente fosse homem, tinha que pedir o leite a uma mulher que amamentasse uma menina, se fosse mulher pedia leite a quem amamentasse um menino.

Problema nos olhos
Ferviam rosas da Alexandria e deixavam arrefecer a água com que depois lavavam os olhos durante alguns dias.

Assadura nos bebês
Como não tinham pó de talco, as mães utilizavam caruncho para polvilhar as assaduras.

Ameba
Tomavam, durante trinta dias, em jejum, um copo de água fria com três gotas de creolina.

Asma

Tomar chá feito com enxerto-de-passarinho;
Fumar um cigarro feito com folhas secas de zambumba;
Comer testículos de porco assados e servidos sem sal;
Tomar fel de boi misturado com um pouco de cachaça;
Tomar chá feito com um chocalho de cobra cascavel;
Tomar chá de “olho” que fica na pena do pavão.

Azia
Beber um copo d´água no qual foram colocados três pitadas de cinza fria.

Bicho de
Depois de retirado o bicho-de-pé, com auxílio de um alfinete, encher a cavidade com sarro de cachimbo.

Calo
Quando o sapato é novo, o calo é uma certeza: colocar sobre o calo, cera-de-ouvido.

Catapora
Para a catapora acabar de sair ou sair ainda mais depressa, nada como tomar um chá feito de cabelo-de-milho sem açúcar.

Desmaio

Passar, dentro do começo do nariz da pessoa desmaiada, uma pena de galinha até a pessoa voltar a si;
Soprar nos ouvidos e bater na sola dos pés até a pessoa voltar a si.

Dor de barriga

Tomar chá feito com a moela da galinha, crua;
Comer uma banana prata verdosa;
Comer um pedaço de mandioca (macaxeira) branca, crua.

Dor de cabeça
Colocar sobre a testa, uma mistura feita com pó de café e manteiga.

Dor de dente

Introduzir na cárie, se couber, uma cabeça de fósforo;
Encher a cárie com o pó feito de chocalho da cobra cascavel;
Encher a cárie com sarro de cachimbo.

Dor de garganta
Comer tanajuda torrada, se for tempo de tanajura.

Enjôo e gravidez
Comer pombo bem assado, sem sal.

Enjôo de viagem de automóvel

Colocar uma castanha de caju no bolso, se for homem , ou na bolsa, se for mulher;
Mascar uma cabeça de fósforo.

Furúnculo
Para o furúnculo estourar por si só, nada como colocar no “olho” da cabeça-de-prego, um emplastro feito com couro de bacalhau cru.

Galo na cabeça
Quando e leva uma pancada na cabeça e aparece um “galo”, nada como fazer, sobre ele, forte pressão com a folha de uma faca fria.

Hemorragia
Colocar, no local da hemorragia externa, para parar o sangue, um chumaço de algodão embebecido em verniz de carpinteiro.

Hemorróidas

Sentar num pedaço de tronco de bananeira recém-cortado;
Colocar uma pela de fumo no local;
Colocar compressas de querosene.

Indigestão
Chá feito com a pele que envolve a moela de uma galinha crua.

Lombriga
Comer coco seco raspado, em jejum, até aborrecer.

Mordida de cobra
Tomar meia garrafa de querosene e comer um prato de farofa com bacalhau assado na brasa.

Mulher-maninha
Para que uma mulher venha a ter filhos:

Tomar água antes de ter relações sexuais;
Dar ao marido, todo dia, no almoço, carne de carneiro preto, com um pouco de vinho.

Prisão-de-ventre
Tomar chá de cupim.

Queda de cabelo
Pentear os cabelos com um pente feito de chumbo.

Soluço
Pregar um susto na pessoa que estiver com soluço.

Terçol

Engolir nove caroços de limão durante três dias seguidos;
Esfregar, no chão, a semente de olho-de-boi e depois colocá-la sobre o olho onde está localizado o terçol.

Fonte: www.folcloreolimpia.com.br

Folclore

 

Folclore

Podemos definir o folclore como um conjunto de mitos que as pessoas passam de geração para geração. Alguns nascem da pura imaginação das pessoas, principalmente dos moradores das regiões do interior do Brasil. Outras destas histórias foram criadas para passar mensagens importantes ou apenas para assustar as pessoas.

O folclore pode ser dividido em lendas e mitos. Muitos deles deram origem a festas populares, que ocorrem pelos quatro cantos do país.

As lendas são estórias contadas por pessoas e transmitidas oralmente através dos tempos. Misturam fatos reais e históricos com acontecimentos, que são frutos da fantasia. As lendas procuraram dar explicação a acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais.

Os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico.

Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza através de explicações científicas, criavam mitos com este objetivo: dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido a vida e ao mundo.

Conheça um pouco mais sobre o folclore do Brasil

Boitatá

Representada por uma cobra de fogo que protege as matas e os animais e tem a capacidade de perseguir e matar aqueles que desrespeitam a natureza.

Acredita-se que este mito é de origem indígena e que seja um dos primeiros do folclore brasileiro.

Foram encontrados relatos do boitatá em cartas do padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na região nordeste, o boitatá é conhecido como "fogo que corre".

Boto

Acredita-se que a lenda do boto tenha surgido na região amazônica. Ele é representado por um homem jovem, bonito e charmoso que encanta mulheres em bailes e festas. Após a conquista, leva as jovens para a beira de um rio e as engravida. Antes de a madrugada chegar, ele mergulha nas águas do rio para transformar-se em um boto.

Curupira

Assim como o boitatá, o curupira também é um protetor das matas e dos animais silvestres. Representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Persegue e mata todos que desrespeitam a natureza. Quando alguém desaparece nas matas, muitos habitantes do interior acreditam que é obra do curupira.

Lobisomem

Este mito aparece em várias regiões do mundo. Diz o mito que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu, porém desenvolveu a capacidade de transforma-se em lobo nas noites de lua cheia. Nestas noites, o lobisomem ataca todos aqueles que encontra pela frente. Somente um tiro de bala de prata em seu coração seria capaz de matá-lo.

Mãe-D'água

Encontramos na mitologia universal um personagem muito parecido com a mãe-d'água : a sereia. Este personagem tem o corpo metade de mulher e metade de peixe. Com seu canto atraente, consegue encantar os homens e levá-los para o fundo das águas.

Corpo-seco

É uma espécie de assombração que fica assustando as pessoas nas estradas. Em vida, era um homem que foi muito malvado e só pensava em fazer coisas ruins, chegando a prejudicar e maltratar a própria mãe. Após sua morte, foi rejeitado pela terra e teve que viver como uma alma penada.

Pisadeira

É uma velha de chinelos que aparece nas madrugadas para pisar na barriga das pessoas, provocando a falta de ar. Dizem que costuma aparecer quando as pessoas vão dormir de estômago muito cheio.

Mula-sem-cabeça

Surgido na região interior, conta que uma mulher teve um romance com um padre. Como castigo, em todas as noites de quinta para sexta-feira é transformada num animal quadrúpede que galopa e salta sem parar, enquanto solta fogo pelas narinas.

Mãe-de-ouro

Representada por uma bola de fogo que indica os locais onde se encontra jazidas de ouro. Também aparece em alguns mitos como sendo uma mulher luminosa que voa pelos ares. Em alguns locais do Brasil, toma a forma de uma mulher bonita que habita cavernas e após atrair homens casados, os faz largar suas famílias.

Saci-Pererê

O saci é representado por um menino negro que tem apenas uma perna. Sempre com seu cachimbo e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso. Adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas.

Fonte: www.marista.org.br

Folclore

Folclore

É o conjunto de mitos, crenças, histórias populares, lendas, tradições e costumes que são transmitidos de geração em geração, que faz parte da cultura popular.

A palavra folclore vem do inglês “folk” = povo e “lore” = conhecimento e significa sabedoria popular. (saiba mais...)

O folclore é a expressão cultural mais legítima de um povo.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

É popular.

Emana do saber cultural.

Constitui-se em uma tradição.

É transmissível notadamente pela oralidade e pela prática.

Faz parte do conhecimento coletivo.

Espelha uma situação ou ação.

Tem caráter universal.

É anônimo, pois desconhecem-se seus criadores.

É criatividade livre e espontânea de um povo.

PATRIMÔNIO CULTURAL

O folclore como expressão do povo faz parte de sua riqueza cultural e portanto está inserido no patrimônio cultural.

PROTEÇÃO JURÍDICA

Constituição Federal

Art. 215: "o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais";

Art. 216 : "Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens materiais e imateriais, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira nos quais se incluem:

I- as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV- as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V- os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico".

Portanto, as crenças, lendas, tradições, costumes e tradições, são bens imateriais, que compõem o patrimônio cultural, estão protegidos juridicamente pelo texto constitucional citado. Tratam-se assim de bens imateriais difusos de uso comum do povo e que podem ser protegidos pela ação civil pública (Lei 4.3 /85).

Exemplo: quando manifestações ou representações do folclore são proibidas por autoridade, lei ou ato administrativo, podem ser defendidas juridicamente.

PERTENCEM AO FOLCLORE

A mitologia, as crendices, as lendas, os folguedos, as danças regionais, as canções populares, as histórias populares, os costumes populares, religiosidade popular ou cultos populares, a linguagem típica de uma região, medicina popular, o artesanato etc.

Fonte: ifolk.vilabol.uol.com.br

Folclore

O folclore do Brasil é riquíssimo, um dos mais ricos do mundo. Para sua formação, colaboraram principalmente, além do elemento nativo (o índio), o português e o africano. Estes três povos constituíram, podemos dizer, as raízes de nossa cultura.

Posteriormente, imigrantes de outros países, como Itália e Alemanha, deram sua contribuição ao nosso folclore, tornando-o mais complexo e mais rico.

A tendência dos costumes de povos diferentes é, quando estes se relacionam de modo íntimo, construir expressões híbridas, ou seja, suas culturas se misturam, resultando em novas expressões de manifestação popular.

Como os grupos humanos influenciam uns aos outros, podemos dizer que o folclore não é uma ciência estática, morta. Ao contrário, ele é dinâmico, pois além de pesquisar o passado, tem de estar atento às transformações do presente.

O Brasil, vasto qual um continente, apresenta regiões distintas, onde há diferença de intensidade das influências dos povos formadores. Por outro lado, cada região possui seu gênero de vida de acordo com o meio ambiente, o que influi, também, no folclore brasileiro.

A seguir, então, será narrada uma idéia geral dos vários desdobramentos do nosso folclore:

Linguagem Popular: gíria, apelidos ou alcunhas, legendas, linguagem especial ou cifrada, metáforas, frases feitas. Além da palavra há a mímica e os gestos. Assim, nós temos expressões utilizadas em todo o país (“tirar o pai da forca”, “está se virando”), compreendidos por todos, e expressões regionais, somente entendidas pelos habitantes da região (“gineteando” RS “Fute” dito na região NE).

Literatura Oral: poesia, história, fábulas, lendas, mitos, romances, parlendas, adivinhas, anedotas, provérbios, orações, pregões e literaturas de cordel, todos transmitidos oralmente;

Lúdicos: são os folguedos populares tradicionais, os jogos, os brinquedos e brincos.

Exemplos: Bumba-meu-boi (NE), Caboclinhas (PB e RN), Cavalhadas (RS, AL, PR e SP), Ciranda (PE), Congada (SP, ES, BA, MG, GO, PR, RS), Cordões de Bicho (AM), Fandango, conhecido em todo o Brasil e, ainda Guerreiros, Mamulengo, Maracatu, Moçambique, Pastoril, Quilombo e Reisado.

Música: a música folclórica está presente em quase todas as manifestações populares. A serenata, coreto, cantigas de rixa, bendito, cantigas de cego, cantos de velório e cânticos para as almas são formas de músicas folclóricas.

Crendice: (Superstições) as de caráter ativo se manifestam em regiões, cultos dos santos, seitas, cultos de fetiches; e as de caráter passivo nos presságios, esconjuros, orações, tabus e totemismos. Contam com patuás, relíquias, amuletos, talismãs, bentinhos e santinhos.

Usos e Costumes: ritos de passagens, usanças agrícolas, pastoris, medicina rústica e trajes.

Artes Populares e Técnicas Tradicionais: culinárias, rendas e bordados, cerâmicas e trabalhos artesanais.

A comemoração do Dia do Folclore é a 22 de agosto, data em que a palavra folclore foi empregada pela primeira vez.

Fonte: www.memoriaviva.org.br

Folclore

Folclore

A formação Artística divide-se em duas correntes a Erudita: de Caráter acadêmico, são as Artes Plásticas Propriamente ditas: Pintura, Escultura, Arquitetura, Teatro , Música e Dança .

E manifestações que expressão elementos artísticos sem influência acadêmica,são tradições culturais transmitidas na grande maioria das vezes de forma oral , é o Popular: manifestações folclóricas como: Danças, Musicas, Religião, Festas, Brincadeiras infantis,Típicas, superstições, lendas, mitos dentre outras.

O Folclore é

O conjunto de manifestações de caráter popular de um povo, ou seja é o conjunto de elementos artísticos feitos do povo para o povo, sempre ressaltando o caráter de tradicional destas representações, sempre transmitidas de uma geração para outra através da prática (os pais ensinam aos filhos, que desde pequeninos já praticam).

O folclore varia bastante de um Pais para o outro, e até mesmo dentro de um Estado é bastante variável,pois as diferenças entre as regiões são muito grandes.

No caso do Brasil o folclore foi resultado da união da Cultura a partir da miscigenação de três povos (Europeu, Africano, Ameríndio ).

O que resultou é que em muitas regiões brasileiras o folclore é muito diferente, pois devido as influências de cada um destes povos formadores do Brasil, algumas regiões apresentam uma maior tendência a uma origem mais detalhada, por exemplo, no Nordeste na zona Litorânea as presenças das influências indígenas, Portuguesas e negra são que quase igualadas, já mais para para o Sertão a presença da Cultura negra não é muito marcante como no litoral .

Lembrando que as manifestações folclóricas brasileiras, na sua grande maioria são manifestações de caráter de um povo mestiço, ou seja sofrem influência de diversas raças,mas apresenta características próprias e que também a grande maioria são manifestações completas em caráter artístico pois possuem elementos do Teatro, Dança, Música e Artes Plásticas.

O termo Folk-Lore foi empregado pela primeira vez em 22 de agosto de 1846. Donde fica agosto consagrado ao Folclore. Cultura, antropologicamente, é tudo aquilo que o homem faz, material e não materialmente, excluídas as necessidades fisiológicas. Também de difícil conceituação é a palavra povo. Aqui deve ser tomado como todos os participantes de uma comunidade. Folk-Lore, por ser formado de termos de duas línguas diferentes, leva a equívocos. Folk quer dizer povo; lore, o saber, o conhecimento, o costume.

Pode-se afirmar: Folclore é o saber vulgar do povo. Não transmitido através de escolas e nem de livros e sim por imitação ou por força de tanto ver e ouvir.

Para ser determinado como fato inteiramente folclórico

a) ser transmitido oralmente, de boca em boca, e não por meios eletromecânicos, como rádio, disco e livro.

b) ser social, praticado por muitos e não por uma só pessoa.

c) ser espontâneo, livre. Quando o professor dá um provérbio para ser analisado sintaticamente pelos alunos, aí não há o fato folclórico. já quando dito pelo mesmo professor ou pelos anos, espontaneamente, para explicar ou justificar um fato, nesse caso há o fato folclórico.

d) ser anônimo, não se conhece o autor de superstição,de uma dança popular, de um provérbio ou adivinhas.

Fonte: www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br

Folclore

Palavra de origem Inglesa

FOLCK = POVO

LORE = CIÊNCIA

Logo = Ciência do povo

Comemorado em Agosto no dia 22.

No folclore, entreve-se as raízes de um povo. É o conjunto de tradições, conhecimentos e crenças populares expressas em provérbios, costumes, lendas, festas, canções e danças. etc....

Considera-se fato folclórico toda maneira de sentir, pensar e agir que constitui uma expressão de experiência peculiar de vida de uma coletividade humana integrada numa sociedade civilizada. No Brasil em cada lugar, o povo canta, dança, e contam as suas histórias que remontam de um passado glorioso. Existem os mitos, as lendas, as festas, as músicas e as danças folclóricas.

MITOS E LENDAS

São histórias antigas que o povo conta, mas que não são reais, isto é, não existem verdadeiramente estes personagens. Existem somente como histórias.

Folclore

SACI-PERERÊ

Assim é a sua história: Um negrinho de uma perna só, capuz vermelho na cabeça, e que segundo alguns, usa um cachimbo. Não é maldoso. Só gosta de fazer travessuras, como por exemplo, dar nó no rabo dos cavalos. É muito popular em todas as regiões do Brasil, onda o caipira muitas vezes o invoca para encontrar objetos ou animais perdidos.

MÃE DÁGUA OU IARA

Crendice popular de todas as regiões brasileiras.

Folclore

No sul habita as lagoas tranqüilas, mas atrai os pescadores para seus domínios, Aparece nas águas como uma flor que canta e aos poucos vai-se tornando uma bela moça, que enfeitiça com sua voz e sua beleza.

Folclore

NEGRINHO DO PASTOREIO

Lenda popular do Rio Grande do Sul. É a estória do pobre negrinho escravo, sacrificado pelo seu malvado senhor, porque não encontrou um petiço, (cavalinho) que se desgarrara da manada. Depois de açoitado, foi abandonado e no dia seguinte achado ao lado de Nossa Senhora que o levou para o céu. É invocado pelos campeiros, para auxilio, na busca de animais perdidos.

A COBRA GRANDE

Folclore

A lenda do indiozinho que a noite era curumim (criança indígena) e ficava com a mãe. Durante o dia sumia no mato e se transformava em grande cobra. Cresceu como belo moço durante a noite e durante o dia transformava-se em monstruosa serpente. Foi salvo por um seu amigo, que escondido as margens do Tocantins, atacou a serpente com um golpe na cabeça e algumas gotas de leite de mulher, também na cabeça.

O encanto se desfez.

A cobra desapareceu e no seu lugar, surgiu o belo índio, que nunca mais voltou a ser serpente.

O UIRAPURU

Folclore

Lenda do pássaro da voz mais melodiosa da mata. Conta a história que um belo índio, disputado por todas as jovens da tribo, foi morto por seu rival. Mas como que por encanto, o corpo desapareceu, transformado num pássaro invisível. Desse dia em diante, apaixonadas e saudosas as índias ouviam apenas um canto maravilhoso, povoando de harmonias os ermos da floresta, mas que afastava-se sempre que elas o perseguiam. Era o belo índio que haviam perdido para sempre, encantado no pássaro da voz mais melodiosa da mata. Era o Uirapuru.

COMO SURGIU A NOITE

Outra lenda indígena.

Conta-se que no princíipio a noite estava escondida no fundo das águas. Era sempre dia.

A filha do cacique, queria se casar, mas como festejar o casamento, iluminando a floresta com fogueiras se o sol brilhava sempre? É só mandar buscar a (noite) no fundo do rio.

O noivo chamou 3 índios e ordenou: Tragam do rio, um caroço de tucumã Tragam com cuidado. Se o abrirem, muita coisa pode acontecer.

Mas a curiosidade foi maior. Derreteram o breu que fechava o coco e tudo escureceu subitamente Soltaram a noite. A festa do casamento foi bonita. Cheia de fogueiras.

Mas lá pelas tantas, a noiva viu a estrela dalva, e resolveu fazer a madrugada.

Separou a noite do dia. Depois enrolou uns fios e disse: Serás o pássaro cujubim.

Pintou-lhe a cabeça de branco com tabatinaga, as penas de vermelho uruçu e e mandou: Cante sempre ao raiar do dia.

Fez outro novelinho e polvilhou-o com cinzas e ordenou desta vez: Serás o pássaro inambu e cantarás durante a noite. E os 3 desobedientes, ao chegar tiveram o seu castigo. Transformaram-se em macacos, e pior ainda, ficaram com a cara preta, pois o breu derretido sujou os 3 quando abriram o coco de tucomã.

FESTAS, MÚSICA, DANÇA, COSTUMES, PROVÉRBIOS, INSTRUMENTOS MUSICAIS E ARTESANATO EM DIVERSAS REIÕES BRASILEIRAS

Folclore

O nosso folclore tem sua origem nas raízes de três raças. O índio, o negro, e o português. Em cada região de nosso imenso país existe uma tradição e por conseguinte, uma maneira de expressão, seja nos costumes ou nas artes. É a ciência do povo, (folclore).

E a "voz do povo, é a voz de Deus"

O nosso país tem a forma de um grande coração, onde habita um povo generoso. No dizer de Humberto de Campos, o Brasil é o Coração do mundo, Pátria do Evangelho.

Existem inúmeras festas com danças típicas, entre elas a festa do Divino, trazida pelos portugueses.

Caruru a mais antiga e brasileira de todas as danças populares.

Dança de São Gonçalo, também trazida pelos portugueses.

Gongada, bailado dramático, de criação Jesuítica, que aproveitava o gosto que os escravos tinham pela dança, para difundir e propagar os princípios religiosos, afastando os negros de sua prática pagã.

Moçambique, Caípó, Terno de Zabumba, Reisado, Guerreiro, Maracatu.

Mas as festas juninas, trazidas pelos portugueses, alcançaram maior brilho em todo o Brasil.

Festejando Santo Antônio, São João e São Pedro.

Juntamente com as festas juninas, veio o Leilão de prendas.

Em muitas cidades, a festa tem caráter oficial e conta com a colaboração das autoridades municipais. É escolhido por sorteio uma personalidade, de alto conceito na comunidade.

Folclore

Há um deslumbrante foguetório, atração máxima da festa. No largo da Igreja, ponto da comunicação popular, existem as barraquinhas das prendas que vai desde os frangos assados, doces, frutas, bolos, artigos de artesanatos, até caixinhas de surpresas. O leiloeiro figura central é indispensável, pois diverte os circunstantes com sua arenga pitoresca, entremeada de ditos chistosos, mantendo o maior lucro possível em benefício da Igreja e suas obras de assistência.

TIRANA

Festejada dança do Rio Grande Do Sul. Há grande variedade de Tiranas que se dança com batidas de palmas e de pés, esporas e troca de pares, numa coreografia harmoniosa e vistosa, ao som de violas e acordeões.

Folclore

VILÃO DO LENÇO

Folclore

Tipo de dança encontrada em São Paulo e Goivas, originária de Portugal. Vilão, significa,o habitante da vila. É dança de salão, acompanhada de violas, executada em duas fileiras de pares que se defrontam, formando um arco, segurando lenços esticados.

CATERETÊ

Também chamada CATIRA, segundo alguns de origem indígena derivada do Tupi (Cateram-etê) Conta-se que o padre Anchieta, teria aproveitado uma dança indígena- o CATERETÊ Para o seu trabalho de catequizar os curumins. Muito apreciada na zona rural...

Folclore

BUMBA MEU BOI

Folclore

O Boi- Bumbá é um folguedo popular no Norte e Nordeste do ciclo do Natal, mas que também se apresenta no Carnaval. Não tem coreografia própria e a dança se executa de acordo com as circunstâncias, ao ritmo da batucada. A figura central é o Boi de papelão colorido e ricamente vestido conduzido por um folião, ao redor do qual se desenvolve a dança.

INSTRUMENTOS MUSICAIS

Folclore

De origem Indígena, Africana e Portuguesa. Os instrumentos musicais, principalmente os de percussão e ritmos são confeccionados pelos próprios sertanejos.

Notável é o Pife flauta de taquara, de sete furos, que alguns nordestinos manejam com maestria. A viola descende da guitarra portuguesa. Pandeiro Atabaque, Tambor, Tamborim, Zabumba, Ganzá, Cuíca, Agogô, Reco- reco, Berimbau.

ARTESANATO

Folclore

Em muitas regiões do nordeste. No centro e no Sul, Há confecção de cerâmica utilitária. O que se constitui em uma indústria caseira. São as mulheres que colaboram na despesa do lar, ajudando o marido que se ocupa dos trabalhos da lavoura. Usam a técnica primária dos índios, levantando as peças de barro com as mãos, até formar os potes, moringas, vasos e panelas estatuetas que são queimadas no forno. As cerâmicas feitas na roda são as mais perfeitas. Famosas são as cerâmicas de Carrapicho e Traipu, que ocupa toda a população das margens do Rio São Francisco.

MÚSICAS FOLCLÓRICAS

I.

BRASIL, meu Brasil brasileiro,

Meu mulato isoneiro,

Vou cantar-te nos meus versos

II

Não há ó gente ó não luar

Como esse do sertão.

A lua nasce por detrás

Da verde mata

Mais parece um sol de prata

Iluminando o meu sertão

III

E fonte a cantar

Chuá....Chuá.....

E as água a correr

Chuê.....Chuê.......

Parece que alguém

Tão cheio de magoa

Deixar-se quem há

De dizer a saudade

No meio das águas rolando também.

IV

Ole mulhé rendeira

Ole mulhé renda

Tu me ensina a faze renda

Que eu te ensino a namorá.

V

OH! mana deixa eu ir

Ho! mana eu vou só

Ho! Mana deixa eu ir

Para o sertão do Caicó

VI

Ele não sabe que seu dia é hoje

O céu forrado de veludo azul marinho

Veio ver devagarinho

Onde o boi ia dançar

Ele pediu prá não faze muito ruído

Que o santinho distraído

Foi dormir sem se lembrar.

VII

Vou trabalhar lá em Macau

Que tem salinas

A dar com pau

E para lá eu levarei

A moreninha que eu sempre amei.

VIII

Fiz a cama na varanda

Me esqueci do cobertor

Deu o vento na roseira

Mês cuidados me cobriu toda de flor.

IX

Este São Paulo è colosso

Tem cafezais e algodão

Suas Industrias assombram

É a maior da nação.

X

Vou-me embora prenda minha

Tenho muito o que fazer

Tenho que ir para o rodeio

Prenda minha

No campo do bem querer.

XI

Meu limão meu limoeiro

Meu pé de jacarandá

Uma vez tindo lele.

Outra vez tindo lalá.

XII

Negrinho do pastoreio

Acendo esta vela pra ti

E peço que me devolva

A querência que eu perdi

Negrinho do pastoreio

Traz a mim o meu rincão

Eu te ascendo esta velinha

Nela está meu coração

XIII

Minha jangada de vela

Que vento queres levar

De dia é vento de terra

De noite é vento do mar

Minha jangada de vela

Que vento queres levar

De dia é vento de terra

De noite é vento do mar.

XIV

Como pode o peixe vivo

Viver fora de água fria

Como poderei viver

Como poderei viver

Sem a tua sem a tua

Sem a tua companhia.

XV

O que è que a baiana tem

O que é que a baiana tem

Tem saia rendada tem

Tem bata rendada tem

Colares de ouro tem

Pulseiras de ouro tem

Tem graça como ninguém

O que é que a baiana tem.

O que é que a baiana tem

O que é que a baiana tem.

XVI

Cidade Maravilhosa

Cheia de encantos mil

Cidade maravilhosa

Coração do meu Brasil.

PROVÉRBIOS

Anel de ouro não é para focinho de porco

Pau que nasce torto, tarde ou nunca se endireita

O porco morre na véspera, o homem no dia

Amor é um vento, vai um, vem outro.

Nunca falta um chinelo velho, para um pé inchado.

Nem por muito madrugar, amanhece mais cedo.

Chorar na cama que é lugar quente.

Meio dia, quem não almoça assobia.

Quem não tem cachorro, caça com gato, e quem não tem gato, bota o pé no mato.

Desgraça pouca é bobagem, comida de porco é lavagem. (Minas)

Desgraça pouca é bobagem. (S. Paulo)

Filosofia de vida

Quem ri por último, ri atrasado

Quem cedo madruga, fica com sono o dia inteiro.

Quem tem boca vai ao dentista.

Gato escaldado, morre.

Em boca fechada, não entra comida.

Essa é dedicada aos velhinhos

Os velhos valem pelo que são e não pelo que rendem.

FIM

Fonte: www.techs.com.br

Folclore

FOLCLORE E MITO

1. Folclore

A formação Artística divide-se em duas correntes a Erudita: de Caráter acadêmico, são as Artes Plásticas Propriamente ditas: Pintura, Escultura, Arquitetura, Teatro, Musica e Dança.

E manifestações que expressão elementos artísticos sem influência acadêmica, são tradições culturais transmitidas na grande maioria das vezes de forma oral, é o Popular: manifestações folclóricas como: Danças, Musicas, Religião, Festas, Brincadeiras infantis, Típicas, superstições, lendas, mitos dentre outras.

O Folclore é : O conjunto de manifestações de caráter popular de um povo, ou seja é o conjunto de elementos artísticos feitos do povo para o povo, sempre ressaltando o caráter de tradicionalidade destas representações, sempre transmitidas de uma geração para outra através da prática (os pais ensinam aos filhos, que desde pequeninos já praticam).

O folclore varia bastante de um Pais para o outro, e até mesmo dentro de um Estado é bastante variável, pois as diferenças entre as regiões são muito grandes.

No caso do Brasil o folclore foi resultado da união da Cultura a partir da miscigenação de três povos (Europeu, Africano, Ameríndio).

O que resultou é que em muitas regiões brasileiras o folclore é muito diferente, pois devido as influências de cada um destes povos formadores do Brasil, algumas regiões apresentam uma maior tendência a uma origem mais detalhada, por exemplo, no Nordeste na zona Litorânea as presenças das influências indígenas, Portuguesas e negra são que quase igualadas, já mais para o Sertão a presença da Cultura negra não é muito marcante como no litoral. Lembrando que as manifestações folclóricas brasileiras, na sua grande maioria são manifestações de caráter de um povo mestiço, ou seja sofrem influência de diversas raças, mas apresenta características próprias e que também a grande maioria são manifestações completas em caráter artístico pois possuem elementos do Teatro, Dança, Musica e Artes Plásticas.

O termo Folk-Lore foi empregado pela primeira vez em 22 de agosto de 1846. Donde fica agosto consagrado ao Folclore. Cultura, antropologicamente, é tudo aquilo que o homem faz, material e não materialmente, excluídas as necessidades fisiológicas. Também de difícil conceituação é a palavra povo. Aqui deve ser tomado como todos os participantes de uma comunidade. Folk-Lore, por ser formado de termos de duas línguas diferentes, leva a equívocos. Folk quer dizer povo; lore, o saber, o conhecimento, o costume.

Pode-se afirmar: Folclore é o saber vulgar do povo. Não transmitido através de escolas e nem de livros e sim por imitação ou por força de tanto ver e ouvir.

Para ser determinado como Fato inteiramente folclórico:

a) ser transmitido oralmente, de boca em boca, e não por meios eletromecânicos, como rádio, disco e livro.

b) ser social, praticado por muitos e não por uma só pessoa.

c) ser espontâneo, livre. Quando o professor dá um provérbio para ser analisado sintaticamente pelos alunos, aí não há o fato folclórico. já quando dito pelo mesmo professor ou pelos anos, espontaneamente, para explicar ou justificar um fato, nesse caso há o fato folclórico.

d) ser anônimo, não se conhece o autor de superstição, de uma dança popular, de um provérbio ou adivinhas.

2. CURIOSIDADE HUMANISTA PELO FOLCLORE

Já as obras de Heródoto, Tito Lívio e Plínio contêm referências a crenças e práticas populares na Grécia, Roma e povos orientais visitados. Esses interesses ressurge na Europa renascentista, especialmente a partir do séc. XVI. Na Inglaterra, descrições de cerimônias tradicionais encontram-se em diversas obras, como por exemplo em The Anatomie of abuses (1583; A Anatomia dos abusos), de Philip Stubbs (c.1555-c 1610). Autêntica curiosidade de folclorista já está presente em John Aubrey (1626-1697) em sua obra Miscellanies, publicada em 1696, em Remains of gentilisme and judaism (Vestígios de paganismo e judaísmo), escrita em 1686-1687, só publicada em 1881.

Na Espanha, começou no séc. XVI a recolha de remanaces populares em coleções: Canconero de romances, de 1550, republicado em 1551 em Lisboa; Silva de varios romances, de 1550, publicado em Saragoça por Esteban García de Nájera. Em 1593, Pedro Flores publicou, em Lisboa, o ramanceiro Ramilhete de flores e, em 1600, o Romancero general. No séc. XVIII, o gênero tinha caído no esquecimento.



3. O SÉC. XVIII: CONTOS E EPOPÉIAS POPULARES

Publicado em 1697, só no séc. XVIII ganha projeção a obra de Charles Perrault (1628-1703) Contes de ma mère l’oye (Contos da carochinha), que fixa por escrito uma série de contos populares, com relativa fidelidade. De 1704 a 1717, é publicada, com relatia fidelidade. De 1704 a 1717, é publicada a adaptação em 12 volumes, pelo orientalista Antoine Gallandd (1646-1715), da coleção de contos árabes e orientais Àlf layyad ou As Mil e uma noites. De provável origem indiana, a obra tinha-se adaptado ao mundo árabe, onde ganhou tom e colorido.

Em 1760, foi revelado na Inglaterra, por James Macpherson (1736-1769), com a obra Fragmenst of ancient poetry collected in the Highlands of Scotland (Fragmentos de poesia antiga coligidos nas montanhas da Escócia), o herói e poeta da lenda celta, Ossian. O entusiasmo pelo bardo popular foi grande na Europa culta, tendo influenciado Goethe, Herder e outros e, através deles, todo o Romantismo.



4. RECOMENDAÇÕES SOBRE O ESTUDO DO FOLCLORE
Segundo a UNESCO

4.1 - PRESERVAR E REVITALIZAR

O patrimônio cultural do mundo compreende também as tradições orais, as línguas, a música, a dança, as artes do espetáculo, o artesanato, os costumes, as crenças, etc. Para numerosas sociedades, inclusive as minorias culturais e as populações autóctones, estas dimensões do tecido cultural evoluem ao contato com outras culturas, através das migrações, da mídia, e mais recentemente da Internet. A mudança é fonte de riqueza , mas também de empobrecimento. Às vezes, por força de empréstimos, ou porque submetidas a fortes pressões de outras culturas, algumas desaparecem para sempre. Já desde muito tempo a UNESCO está atenta à preservação de certas formas frágeis de expressão cultural, e hoje sua missão adquire maior amplidão.

Como o lembra a célebre frase do filósofo mali Hampaté Bâ: "Quando morre um velho na África, é uma biblioteca inteira que se queima", a expressão tradicional e popular é salvaguardada na memória dos homens. Ela só pode sobreviver pelos elos humanos da transmissão de geração em geração ou, mais recentemente, graças aos registros mecânicos. A natureza efêmera do patrimônio imaterial o faz vulnerável. Portanto, é urgente agir.

4.2 - ORIENTAÇÕES PRINCIPAIS

O programa consagrado ao patrimônio imaterial apresenta duas orientações principais. A primeira concerne às línguas, à segunda interessa mais particularmente ao "savoir-faire" [música, dança, folclore..]. No domínio do patrimônio oral, música, dança, folclore e "savoir-faire" dos artesãos tradicionais, a UNESCO ajuda os Estados-membros a desenvolver uma estratégia para a salvaguarda do patrimônio imaterial através da implementação da Recomendação sobre a salvaguarda da cultura tradicional e do folclore.

No domínio das línguas a UNESCO concentra suas ações sobre a salvaguarda das línguas em perigo, a promoção das línguas de grande comunicação, e o encorajamento à adoção, a nível nacional, de políticas lingüísticas multilinguais, para que todo indivíduo possa falar uma língua local, uma língua nacional e uma língua internacional. É por isto que a Organização ajuda os Estados-membros a preservar seu patrimônio cultural imaterial, notadamente aplicando as diretivas da Recomendação sobre a salvaguarda da cultura tradicional e popular. Favorecendo a adoção de formas de arte e de expressão tradicionais aos necessitados do mundo moderno, a UNESCO espera enriquecer o presente e o futuro com os tesouros do passado.


4.3 - VIVER AS CULTURAS

A cultura é o fluxo de significações criadas, co-produzidas e permutadas pelos povos. É ela que nos torna capazes de edificar patrimônios culturais e viver em suas lembranças. Ela nos permite reconhecer nossos elos com nossa linhagem, nossa comunidade, nossa família lingüística, nossa nação – sem falar da própria humanidade. Ela nos ajuda a dar sentido a nossa vida. Mas a cultura pode também nos levar a fazer de nossas diferenças os estandartes da guerra e do extremismo. Ela não deve pois jamais ser considerada como uma evidência, mas traduzida com cuidado em formas de complementação positiva.

A cultura não é nunca estática: cada indivíduo produz obras e imagens que se fundam no fluxo da história.

Hoje, quando povos pertencentes a todas as culturas entram em contato mais estreitos que nunca, se observam mutuamente e se colocam as mesmas questões: como preservar nosso patrimônio cultural? Como nossas culturas plurais podem coexistir num mundo interativo? A missão do Setor de cultura da UNESCO é ajudar os povos do mundo a responder a estas questões.

5. MITOS E LENDAS

5.1 - COMO SURGEM AS LENDAS

As lendas são caracterizadas por sua natureza fantástica, surpreendente, impressionante. No universo das lendas tudo é possível, não existem limites para a imaginação.

A lenda se refere a acontecimentos de um passado distante e fabuloso. É conhecida como "história falsa", que narra feitos de alguns heróis populares, explicando particularidades anatômicas de animais específicos. É contada como uma estória que destaca geralmente as aventuras de um herói que personifica as qualidades ou aspirações do povo que o tenha criado.

As lendas podem ser contadas por qualquer pessoa e a qualquer momento. No Brasil, o folclore sofreu muita influência dos povos que vieram para cá. Principalmente portugueses e africanos se misturaram com os índios criando uma cultura diversa e riquíssima. Os medos, as superstições, as crendices e as histórias contadas por esses povos tentavam explicar fenômenos que ainda não tinham sido decifrados, e daí nasciam os mais fantásticos seres, como o Curupira, Saci Pererê, Boitatá, Iara e tantas outras histórias que tentam explicar como surgiu a noite, por exemplo.

Contadas em volta de uma fogueira, passando de pai para filho, esses personagens e essas histórias habitaram a mente de muitos brasileiros, e nos dizem muito sobre essa mistura maravilhosa de raças que forma o nosso povo.

5.2 – OS MITOS

Em 1918, o estudioso mineiro Lindolfo Gomes, publicou o primeiro livro que tratava objetivamente do conto popular, em edição da Melhoramentos. O precioso livro, na sua 3ª edição recebeu o título de "Contos Populares Brasileiros", onde procurou uma classificação metódica das lendas, na forma de ciclos temáticos. Um trabalho merecedor do maior respeito , de vez que foi elaborado no momento em que a disciplina folclore, no Brasil, encontrava-se, ainda na sua fase embrionária, enquanto Lindolfo Gomes já apontava uma perspectiva metodológica para o estudo do conto folclórico.(MELO, V, 1976) Atualmente, em Minas, os estudiosos Saul Alves Martins e Oliveira Mello vêm recolhendo, anotando e publicando narrações lendárias e míticas, oferecendo-nos a oportunidade de observar as que já se declinaram em resíduos e as que ainda permanecem plenas de funções.

Do ponto de vista do erudito, a lenda é a narrativa de um fato real, com conotação fantasiosa, e num pólo oposto, o mito é uma exposição fantástica da imaginação. Como documento vivo, as lendas traduzem informações históricas, etnográficas, sociológicas e jurídicas, denunciando costumes, idéias e mentalidades.

C.. G, .Jung, na tentativa de demonstrar a realidade das raízes motoras dos conflitos psíquicos, procurou separar o que é de responsabilidade pessoal do que é de responsabilidade impessoal, na justificativa da predominância do inconsciente coletivo sobre o indivíduo .

Sem ser seu objetivo, Jung mostrou-nos um grande caminho do significado dos mitos na tradução da psicologia social e mais uma pista para a tarefa do folclorista. Sua contribuição reside no argumento de que as coisas nunca foram separadas na consciência individual do homem não erudito, porque os deuses e os demônios não são compreendidos por ele como projeção da alma no conteúdo do inconsciente, mas como realidades indiscutíveis. (JUNG, C. G. 1978) E portanto , esta realidade que buscamos, no estado "in natura " da vivência do conto folclórico , para estudar e propor a sua projeção na configuração da nossa cultura.

As lendas persistem por tempos indefinidos, correndo de boca em boca, em um determinado local ou expandindo por meio de suas variáveis. As formas de exposições das lendas vão sofrendo transformações ao longo do tempo. Uma lenda só persiste quando tem uma função e a modificação dessa é que determina a alteração da forma de exposição, sendo um meio pelo qual o povo expressa a sua ideologia diante de rígidas estruturas econômicas, políticas e sociais. Sendo, para o expositor da lenda, a injustiça, a pobreza e a vaidade próprias da humanidade; na ausência de perspectivas diante das ordens estabelecidas, essa questiona os problemas sociais e as ordens estabelecidas.

Desta forma as lendas vão mudando na medida em que os sistemas de produção e distribuição das riquezas vão mudando. Essas mudanças não se fazem por acaso, nem pela fantasia individual de cada um. Resultam de transformações operadas pela dinâmica social, e nas condições históricas em que vivem os indivíduos e nas quais suas lendas são contadas.

A lenda pode ser bela pelo seu conteúdo histórico e por sua forma literária mas não é formosa ou bonitinha , como querem os enredos das escolas de samba.

Embora nossa tarefa, nesta obra, não seja a de formular um questionamento e um debate metodológico, estamos propondo uma seqüência cíclica para a lenda mineira, de acordo com a problemática ao longo de sua história e de seu envolvimento no processo sócio-econômico. Se no século XVIII, Minas Gerais foi predominantemenente mineradora, seu lendário deveria ter uma conotação coerente com a vida social focalizada. Passado o ciclo da mineração, veio o pastoril, onde os animais selvagens e domésticos, bem como vaqueiros, fazendeiros, lavradores e pescadores passariam a figurar como personagens principais das histórias populares.

5.2.1 - Características do mito

A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a épocas primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou com os "primeiros" homens (história ancestral). O verdadeiro objeto do mito, contudo, não são os deuses nem os ancestrais, mas a apresentação de um conjunto de ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo. O mito aparece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à ordem do mundo e às relações entre os seres. Sob sua forma principal, o mito é cosmogônico ou escatológico, tendo o homem como ponto de interseção entre o estado primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente nascimento-morte, origem e fim do mundo.

As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere -- ao menos em seus níveis mais profundos -- a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento ético e a escatologia (destino último do mundo e da humanidade). Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitado ou questionado, o mito se converte em fábula ou ficção.

5.2.2 - Mito e religião

Alguns especialistas, como Mircea Eliade, estudioso de história comparada das religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito freqüentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados com os rituais religiosos -- o que levou alguns autores a considerar que a origem e a função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual.

Nas religiões monoteístas, as mitologias, sobretudo as teogonias, são geralmente repudiadas como exemplos de ateísmo ou politeísmo, pois representariam uma desvirtuação do Deus único e transcendente, à medida que o relacionam a manifestações ou representações de outras criaturas. Entretanto, essas mesmas religiões também recorrem a descrições fantásticas, de caráter simbólico, para explicar a origem do mundo e do pecado, o fim do mundo e a vida ultraterrena, e não deixam de atribuir a Deus reações e sentimentos humanos.

O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a religião, tampouco o mito, conte uma história falsa, mas que ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabe em meros conceitos analíticos. Não importa, do ponto de vista do estudo da mitologia e da religião, que Prometeu não tenha sido realmente acorrentado a um rochedo com um abutre a comer-lhe as entranhas, nem que Deus não tenha criado o ser humano a partir do barro. Religião e mito diferem, não quanto à verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.

A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é, muitas vezes, formulada de forma compatível com conceitos racionais e em doutrinas sistematizadas. O mito abrange maior amplitude de mensagens, desde atitudes antropológicas muito imprecisas, até conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e formulados de modo menos consciente e deliberado, mais espontâneo, sem considerações críticas.

5.2.3 - Mito e razão

Alguns autores reduzem os mitos a narrativas referentes a tempos arcaicos e elaboradas em épocas pré-críticas, isto é, antes do uso de métodos racionais de estudo e análise. Entendem que o mito tornou-se, com o tempo, mera literatura, embora encontrem dificuldades para estabelecer com precisão quando teria cessado a criatividade mítica. Outros estudiosos, ao contrário, consideram o pensamento mítico uma constante antropológica, complementar ao pensamento racional (e não um estágio "menos evoluído" deste). Apontam, para demonstrá-lo, indícios de que o pensamento mítico está em operação em muitas das manifestações culturais contemporâneas (como a arte). Em convivência com a reconhecida tendência à secularização, que "desmitologiza" os símbolos religiosos, morais ou épicos e os equipara a pura "ilusão", existiria uma outra, responsável pela produção de novos mitos ou, mais exatamente, novas formas simbólicas dos temas míticos tradicionais.

O pensamento racional e científico não seria, portanto, um "desmascarador" de mitos e substituto do pensamento mítico, mas pode ser capaz de reconhecer sua atualidade. Enquanto a astronomia, com suas descobertas, esvaziou os céus, antes povoados de deuses, a sociologia e a psicologia descobriram forças que se impõem ao pensamento e à vontade humana, e portanto, atuam e se manifestam de modo autônomo.

Se uma das características fundamentais do pensamento mítico é efetivamente a aceitação acrítica das narrativas e explicações que ele produz, será então extremamente difícil que uma sociedade reconheça seus próprios mitos como tais, pois isso significaria considerá-los de um ponto de vista crítico, de forma que eles passariam a ser vistos como mera ficção ou, se aceitos como verdadeiros, tornar-se-iam valores morais, religiosos ou éticos. Em qualquer caso, existe uma resistência individual e social a "desmascarar" o mito e a considerá-lo em seu caráter de linguagem simbólica.

5.2.4 - MITO E LENDAS NO FOLCLORE

Você acredita em Papai Noel? Se acredita, aceita que outra pessoa desconfie disso, ou tolera que haja alguém que simplesmente o desconheça.

Para você, Papai Noel existe e acabou o assunto: você é daqueles que nem imaginam que possa haver pessoas que afirmem que Papai Noel é invenção? Quem sabe seu caso seja diferente: acreditava em Papel Noel e agora tem vergonha de dizer; ou acreditava e descobriu que Papai Noel era uma brincadeira; ou tem saudade do tempo em que Papai Noel existia de verdade?

Não sei se contemplei todas as alternativas, mas espero que você possa sublinhar a alternativa que é seu caso.

Penso que ninguém, hoje, poderá dizer: nunca ouvir falar quem é Papai Noel. Mas por que estou tratando desse assunto?

Estamos ainda no mês de agosto e o natal está longe. É que, convidado a falar de mito para vocês, não encontrei nenhum que chegasse mais perto de todos os leitores que o Papai Noel e, ao mesmo tempo, mostrasse o que é mito no Folclore. Preferir começar falando de Papai Noel porque ele está mais perto de nós do que Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Lobisomem ou Vampiro.

Ao fazer as perguntas para você se situar e escolher, esperava encontrar pouquíssimas pessoas que dissessem: - para mim, Papai Noel existe, e pronto. Papai Noel não é posto em dúvida. Nesse caso, estamos diante do puro mito. Porém, a maioria de nós acredita, já acreditou, ou não acredita em Papai Noel, mas todos sabemos quem ele é.

Quando Pai Noel se torna assunto de "crença", mostra para nós o lugar do mito no folclore. Dá para você entender a diferença? Quando ninguém coloca em dúvida a existência de um "fato", estamos diante de um mito, em sua pureza; mas quando, um fato é objeto de "crença", então aí está o mito folclorizado.

Se pergunto a meu pai: Papai Noel existe? E ele coça a cabaça ou a barba antes de responder, é que o mito de Papai Noel existe para ele como folclore. O Folclore estuda o mito que já é objeto de crença e não o mito de que ninguém duvida. Quando você precisa lutar ;para impor aos outros suas crenças têm base em mitos folclorizados.

Agora, vamos à "lenda" de Papai Noel. Papai Noel vive na Lapônia. É um velhinho de barbas brancas e longas, vestido de lã colorida de vermelho e anda de trenó. Acabe você mesmo de contar a história ou procure um livro adequado. A história de Papai Noel é uma lenda. Quer dizer, ela tem elementos de "verdade". A Lapônia existe no mapa, é região onde faz muito frio e até cai neve, situa-se na Europa. Na Lapônia, as pessoas usam agasalhos contra o frio e, no Natal, é inverno rigoroso. O trenó é usado ali como veículo para vencer a neve. Papai Noel, na lenda, assume todos os traços locais.

Como disse, há mitos que não são ainda folclore e há mitos que existem como folclore. A lenda narra o mito, situa o mito. Há alguns mitos, ainda hoje, que não são Folclore e há lendas que não são mitos. Você já ouviu falar em Lampião, do Padre Cícero do Juazeiro, de Antônio Conselheiro ou do Presidente Getúlio Vargas? Em torno dessas figuras, há muitas lendas. A lenda que não é uma narração do mito é um conto exagerado. Nós mesmos temos muitas lendas ligadas à nossa família. A lenda é um recurso de gravar acontecimentos importantes que precisam ser memorizados, decorados.

Decorar quer dizer: guardar no coração. A lenda, para isso, apela para o sobrenatural, Deus ou o Diabo. A maneira como uma pessoa ficou rica ou pobre, recebeu castigo por sua maldade ou foi premiada pela bondade, muitas vezes é uma lenda, conto se transforme em lenda, ele deve perder os direitos autorais, ser do que é chamado de "imaginário coletivo".

A lenda conta um acontecimento, enfeitando-o . A gente se lembre do acontecimento porque não consegue se esquecer do aspecto sobrenatural, fora do comum. O mito está acima do tempo e dos lugares, é universal. Já a lenda faz parte da "História". Lenda não é ficção, não; e fábula, nem romance; é história contada, misturada a pedaços de mitos. Do mito ninguém duvida, até que este seja mantido por uma lenda. A lenda sustenta o mito quando as pessoas começam a desconfiar dele.

Histórias de Lobisomem são lendas. Mas, quando um homem da minha rua se transforma em lobisomem, não é lenda, é mito. As histórias de vampiro são lendas. Mas, quando uma mocinha amanhece com o pescoço mordido, ai o vampiro atacou em pessoa. Não é lenda, é mito. Quando contamos essas histórias, então trata-se de lenda. Lenda é mito contado, e mito é realidade vivida.

6. MITOLOGIA

6.1 - Mitologia do Oriente Médio

Berço da civilização, o Oriente Médio foi palco também do surgimento das primeiras religiões e sistemas mitológicos. Por sua antiguidade, caberia destacar em primeiro lugar as mitologias mesopotâmicas -- dominadas pelos problemas da criação, o lugar do homem no mundo e a vida no além--, cujo desenvolvimento refletiu a sucessão de povos que dominaram a Mesopotâmia até pouco antes da era cristã. Aos sumérios se deveu a evolução dos primeiros cultos à natureza até a criação de um complexo panteão antropomórfico encabeçado por Anu -- deus dos céus a quem os acádios chamariam Anum -- e a primeira redação do célebre Poema de Gilgamesh, herói que quis alcançar a imortalidade, cujo mito foi depois reelaborado por acádios e assírios.

O caráter sincrético das religiões mesopotâmicas, que determinaram decisivamente a organização política e social daquelas culturas, fica patente também no poema babilônico da criação -- relativo à ascensão ao trono divino da divindade acádia Marduk -- e se transmitiu às religiões da Síria e da Palestina, elaboradas por cananeus, fenícios, hititas etc. Baal, por exemplo, originalmente um deus cananeu, deu nome a diversas divindades da região -- razão pela qual seu nome está identificado na Bíblia com o culto a todos os falsos deuses -- e foi adotado pelos fenícios como senhor dos céus.

A religião egípcia, praticada durante três mil anos quase livre de influências externas, distinguia-se por seu estrito caráter teocrático, que vinculava o faraó à divindade, e pela importância dos ritos funerários, cujo objetivo era assegurar a imortalidade e o favor divino após a morte. Assim, mesmo quando o panteão mitológico sofreu diversas mudanças em sua estrutura hierárquica, permaneceram inalteráveis durante esses três milênios as concepções religiosas essenciais, baseadas na absoluta subordinação de todos os níveis da existência ao mundo sobrenatural.

Os primeiros faraós consideravam-se encarnações do deus Horus, filho de sis e do grande Osíris, senhor e juiz dos mortos, objeto de um completo ciclo mítico centrado em sua perpétua morte e ressurreição. Junto dele se conservariam, no entanto, inúmeras divindades locais, e assim a figura de Osíris, que dominou o panteão durante o Médio Império, cedeu sua preeminência no Novo Império a Amón-Rá, fruto da simbiose entre o antigo deus solar Rá e a divindade tebana Amón. Apesar da definição de Amón-Rá como "único criador" e de algumas isoladas tentativas para implantar o monoteísmo, a religião egípcia manteve sempre um politeísmo oficial traduzido na inesgotável elaboração de relatos mitológicos sobre as relações entre os diversos deuses.

Merece menção entre as religiões do Oriente Médio o zoroastrismo persa, formulado por Zoroastro no século VI sobre a base do antigo masdeísmo politeísta. Embora o zoroastrismo reconhecesse um único deus supremo, Ormuz, senhor da verdade e da luz, sua doutrina fundamental se centrava na perpétua oposição entre o bem e o mal, dualismo registrado no livro sagrado Avesta, por meio de uma cosmogonia marcadamente mitológica e politeísta.

6.1.1 - MITOS E LENDAS DO EGITOS

6.1.1.1 - A destruição do Homem

Rá, soberano do Egito, reinava há milênios em sua cidade-santuário Annu (Hebreu "On" e grego "Heliópolis") num esplêndido palácio a bordo de sua suntuosa barca. Transmitia luz e os seus raios benéficos a todo o país durante o dia; e à noite iluminava o reino das trevas (o Duat). Mas com o decorrer dos anos, Rá foi envelhecendo muito; seus ossos se tornaram prata, suas carnes ouro e o cabelo lápis-lázuli. Vendo o seu envelhecimento, o respeito que os súditos tinham pelo soberano foi decaindo.

O desrespeito de seu próprio povo indignou profundamente o velho rei. Por este ultraje à própria majestade, o grande Rá resolveu punir a humanidade. Convocou o concílio dos deuses para que decidissem a melhor ação a ser tomada. Num, o decano, propôs que fossem julgados apenas os que haviam desrespeitado o Rei; mas Rá observara que, se assim fosse feito, os culpados perceberiam logo o perigo e se esconderiam no deserto. Por isso resolveu agir indiscriminadamente.

Tão logo o terrível olho de Rá voltou-se contra os blasfemadores, esses fugiram, como era previsto, para o deserto. Rá chamou à sua presença a deusa Hátor ("hat-hor" - a casa de Hórus - isto é, o céu) e transformou-a em Sekhmet, feroz deusa da guerra com a cabeça de leão, e ela desencadeou uma grande carnificina.

Mas Rá, que queria apenas dar um exemplo e não destruir o povo, percebera que Sekhmet estava ávida de sangue e fugia ao seu controle, causando uma séria ameaça à humanidade, e por isso enviou mensageiros a Elefantina com ordens para colher a maior quantidade de bagos vermelhos "didi" (espécie de grão avermelhado). Mandou, também, que suas criadas preparassem tanta cerveja quanto pudessem e misturou à cerveja o suco de bagos. E na melhor parte da noite, a cerveja foi despejada até que os campos ficaram completamente inundados por aquele líquido.

E quando a deusa apareceu pela manhã (como o resplandecente sol da manhã), ela viu a inundação: seu rosto, refletido no líquido, era belo. Ela bebeu e gostou e retornou ao seu palácio embriagada. E, assim, o plano de Rá deu certo e a humanidade foi salva.

Porém o desrespeito dos homens e a carnificina de Sekhmet causaram uma estranha reação no soberano. Olhou para a terra e disse "O meu coração está cansado de estar com eles" - pois havia perdido o gosto de reinar. E desgostoso, subiu ao céu.

Num chamou então a deusa Nut, e transformou-a numa vaca e Rá montou nas suas costas. Esta empinou as patas, elevando-se bem alta. Mas, olhando para baixo tremeu devido à altura. Rá, vendo o medo de Nut, chamou o deus do ar, Shu, ordenando-lhe que a sustentasse. Daquele momento em diante o céu foi formado pela Vaca Celeste, sob cujo o ventre resplandecem as estrelas e através do qual a barca de Rá realiza todos os dias seu percurso.

A partir de então, Rá foi sempre louvado como Ra nejter-aa neb-pet (Rá, o grande deus, senhor dos céus).

6.1.1.2 - A TriNdade Divina

No princípio era apenas Num (Caos), o oceano primordial, onde se ocultava Aton, escondido num botão de lotús.

Inesperadamente ele apareceu sobre Num, resplandecente na forma de Rá e criou dois filhos divinos: Shu, deus do Ar, e Tefnut , deusa da Umidade.

Deste casal nasceram Geb, deus da Terra, e Nut, deusa do Céu, que por sua vez deram à luz dois filhos, Osíris e Seth, e duas filhas, Ísis e Néftis.

E assim deu-se a criação do mundo, conforme ouvimos nos antigos relatos de Heliópolis.

A lenda assim prossegue:

Osíris era o rei dos habitantes do Nilo, muito poderoso e muito bom. Induziu os seus súditos a viver em paz, a não destruir-se mutuamente e a abandonar a vida nômade. Ensinou-lhes a trabalhar a terra, a cultivar as parreiras e a obter delas o vinho, a cultivar a cevada e dela extrair a cerveja. Ensinou-lhes, também, como forjar os metais e fabricar armas para defender-se das feras. Convenceu-os, por fim, a viver em comunidade e fundar cidades. Antes disso os homens tinham sido canibais selvagens.

sis, sua esposa-irmã, curava as doenças, expulsava os espíritos malignos com magias; fundou a família, ensinou aos homens fazer o pão e às mulheres todas as artes femininas, a tecelagem e o bordado.

Fundaram assim a civilização e seus feitos e bondade eram ilimitados. O Egito se viu na Idade do Ouro.

Ainda assim Osíris não se sentia satisfeito. Queria mais, queria levar sua missão benéfica a todos os povos do mundo. Um dia ele falou para sua esposa o seu desejo, e partiu, confiando a Ísis a regência do Egito.

Seth, seu irmão maligno, sentia uma grande inveja da virtude e da fama de Osíris e tramava contra seu irmão, querendo usurpar seu trono.

Um certo dia Osíris regressou com êxito de sua viagem, em companhia de Toth (o deus das ciências) e Anubis (o deus dos mortos). Seth oferece, então, um grande banquete em homenagem ao irmão. Tal festa foi planejada maliciosamente, pois Seth sentia uma grande inveja da virtude e da fama de Osíris, e tramava contra ele, querendo usurpar seu trono. Eis que a oportunidade pela qual esperava havia aparecido. Mediu secretamente o corpo do bondoso irmão e mandou confeccionar para ele um precioso sacórfago com as suas medidas.

Todos os convidados bebiam e se divertiam, quando Set mostrou a todos o lindo sarcófago, ricamente adornado e realçado com gemas. A admiração foi geral. Todos elogiavam a preciosidade da peça e queriam possuí-la. Seth zombeteiramente ofereceu o ataúde àquele que entrasse nele e o ocupasse exatamente com seu corpo. Foi organizada uma fila, e para todos os que tentavam, o sarcófago resultava grande demais, pois a peça tinha sido confeccionada em amplas medidas.

Finalmente chegou a vez do rei. Osíris, que era de grande estatura, entrou no sarcófago e seu corpo ajustou-se perfeitamente. Seth, com a ajuda de mais setenta e dois conspiradores, rapidamente fecha a tampa do ataúde e lacrou-a com chumbo, atirando-o ao rio Nilo, pelo qual desceu ao mar.

sis, dominada pela dor, cortou os cabelos, vestiu-se de luto e procurou-o em vão, subindo e descendo o rio Nilo. Mas o caixão havia sido levado pela correnteza até a costa da Fenícia, onde, em Biblos, foi lançado à margem. Uma tamargueira cresceu imediatamente à sua volta, envolvendo o precioso objeto em seu tronco, e o perfume era tão maravilhoso, que o rei e a rainha locais, Melcart e Astarté, descobrindo sua beleza, mandaram cortar a árvore, e com ela fizeram o pilar central de seu palácio.

Enquanto isso, a desesperada Ísis continuava vagando pelo mundo, quando ficou sabendo por intermédio de algumas crianças, nos arredores de Tânis, que o sarcófago havia alcançado o mar, devido à correnteza daquele braço do Nilo.

Assim Ísis finalmente chegou à Biblos, onde tomou conhecimento da árvore maravilhosa. Sentou-se ao lado de uma fonte, de luto, com véu e trajada humildemente. Não falou com ninguém até que dela se aproximaram umas criadas do palácio real. Trançando seus cabelos, Ísis exalou propositalmente um perfume tão forte sobre elas, que Astarté, quando viu e cheirou as tranças, mandou-a buscar. Chegando ao palácio, ela foi recebida e admitida como ama de seu filho.

A grande deusa dava ao bebê o dedo, em vez do seio, para ele sugar, e noite colocava-o no fogo para queimar toda a sua parte mortal. Transformava-se, então, numa andorinha, e voava em torno do pilar, chilrando seus lamentos.

Uma noite, a mãe do menino acordou e resolveu verificar se a criança estava dormindo bem.

Ao abrir a porta do quarto, deparou com a cena aterradora: o berço da criança estava rodeado de chamas e, aos pés da cama, sete escorpiões montavam guarda ameaçadoramente. Gritou perplexa. O rei e os guardas socorreram-na, enquanto Ísis com um simples sinal apagava as chamas.

A deusa então revelou-se e repreendeu a rainha. Grata pela hospitalidade, tinha decidido fazer o príncipe imortal e por esta razão todas as noites imergia-o nas chamas purificadoras. Mas infelizmente agora o encanto já não fazia mais efeito.

Com isso a rainha Astarté ficou profundamente entristecida, mas o rei estava orgulhoso de haver hospedado uma deusa e prometeu a Ísis qualquer coisa que pedisse. Ela, obviamente, pediu ao rei a grande coluna de seu palácio, de onde tirou o ataúde.

Retomou o caminho de volta, escoltada por dois filhos do rei, mas não resistiu por muito tempo, e, ordenando que a caravana fizesse uma parada, abriu o sarcófago. Quando viu o rosto do marido, os seus gritos de dor encheram o ar. Um lamento tão grande, que um dos filhos do rei ficou louco. E, quando Ísis inclinou-se chorando sobre o rosto do marido, o segundo filho fitou-a, ignorante e curioso. A deusa percebeu e lançou-lhe um olhar tão forte que o mocinho caiu morto.

Tendo ficado sozinha, Ísis tentou de tudo, empregou encantamentos e fórmulas mágicas para trazer o esposo à vida. Transformou-se em falcão e, agitando sobre ele suas asas para restituir-lhe o sopro da vida, milagrosamente ficou fecundada.

Chegando aos braços abençoados do delta do Nilo, Ísis tratou de esconder o ataúde num lugar solitário perto de Buto, entre os emaranhados pântanos do Delta que o protegiam contra os perigos.

Seth, uma certa noite, estava caçando porcos-do-mato à luz da lua cheia, e por acaso encontrou o sarcófago. Ficou furioso e despedaçou o corpo em quatorze pedaços, que espalhou por todo o Egito.

A infeliz Ísis, com o novo suplício, recomeçou a dolorosa busca dos restos fúnebres do esposo, desta vez ajudada pela esposa-irmã de Seth, a deusa Néftis e seu filho, Anúbis.

Juntou-se às três desoladas divindades mais uma: Toth, o deus-lua, e assim encontraram todas as partes do deus, com exceção do membro genital, que havia sido devorado por um ossirinco (espécie de esturjão do Nilo).

Nos locais em que os restos foram encontrados, surgiram capelas, e mais tarde templos nos quais se realizavam peregrinações chamadas "Da procura de Osíris".

Recomposto o corpo, Ísis chamou para junto de si a irmã Néftis, Toth e Anúbis e, com a ciência herdada de Osíris, todos envidaram esforços para restituir a vida ao deus.

Anúbis embalsamou o corpo, e surgiu assim a primeira múmia, que foi enfaixada e recoberta de talismãs. Nas paredes do sepulcro, em Abidos, foram gravadas as fórmulas mágicas rituais. Junto ao sarcófago foi colocada uma estátua totalmente semelhante ao defunto. Esses ritos, a partir de então, seriam realizados nos sepultamentos dos reis.

Assim Osíris ressucitou, mas não pôde reinar mais sobre esta terra, e tornou-se o rei do "Lugar que fica além do Horizonte Ocidental". Osíris é agora o soberano dos mortos, sentado majestosamente no mundo subterrâneo, no Salão das Duas Verdades, assistido por quarenta e dois acessores, um para cada distrito do Egito, e ali ele julga a alma dos mortos.

Realizado o rito do sepultamento, Ísis voltou a se esconder nos pantanais para proteger-se, e principalmente ao filho que esperava, das vinganças de Seth. Quando Hórus nasceu, a mãe guarneceu-o com todo amor, invocou sobre ele a ajuda de todos os deuses e depois lhe ensinou magia e educou-o em memória do pai. Assim Hórus cresceu e ficou poderoso. Como o dia nascente, seu olho direito era o sol, o esquerdo a lua, e ele próprio era um grande falcão que cortava os céus. Quando ficou maior, Osíris voltou à terra para fazer dele um soldado.

Então Hórus reuniu todos os fiéis do rei traído e partiu à procura de Seth para vingar a morte do pai. A ferrenha batalha durou três dias e três noites; Seth e seus fiéis transformaram-se nos mais terríveis e estranhos animais para fugir à derrota. Hórus mutilou Seth, mas este transformou-se num grande porco preto e devorou o olho esquerdo de Hórus. Assim a lua parou de iluminar a humanidade, que ficou atônita. No fim, Seth estava prestes a sucumbir, quando Ísis interveio suplicando ao filho que desse fim ao massacre, afinal, Seth era seu irmão e marido de sua irmão Néftis. Num ímpeto de ódio, Hórus decepou a cabeça da mãe. Thot curou-a, colocando no lugar da sua, uma cabeça de vaca. A batalha recomeçou e durava indefinidamente, sem vencedores nem vencidos. Toth intrometeu-se autoritariamente e curou Seth. Ordenou também que fosse restituído o olho de Hórus, e a lua voltou a brilhar. Vieram então os deuses e levaram a questão ao julgamento de Toth. Foi um processo que durou oitenta anos, ao fim do qual decidiu-se que Hórus seria o senhor do Baixo Egito e Seth Do Alto Egito.

E tudo isso se passou 13.500 anos antes de Menés, o primeiro faraó do Egito...

6.1.1.3 - AMON

Acreditava-se que Amon estava presente em todas as coisas, podendo assumir diversas formas. Unindo-se a Ra, o deus passou a ocupar uma posição de destaque após a fundação da XII Dinastia pelo Faraó Amenemhet I, que tornou o Egito novamente um reino poderoso e unido.

A primeira referência conhecida ao deus aparece na pirâmide do famoso Rei Unas da V Dinastia, onde tanto ele quanto a sua esposa Amaunet são incluídos no rol dos deuses primevos associados com Nu - "Os pais e mães" que estavam "nas profundezas".

Amon era primitivamente um deus estritamente local, cujo culto foi absorvido pelos egípcios, e que passou por tantos estágios e desenvolvimentos que é impossível apreender o conceito tribal original, que provavelmente era vago e rudimentar.

Os egípcios interpretavam seu nome como "Aquele que Esconde a Si Mesmo", pois ele escondia sua "alma" e seu "nome", sendo ele a força efetiva invisível no vento.* Amon pode ter sido um deus do Mundo Subterrâneo, pois está ligado a Osíris como divindade lunar. Em seu caráter como Amon-Ra ele chegou a tomar o lugar deste deus como o juiz dos mortos.

Durante o Novo Reinado, os sacerdotes de Tebas atingiram as alturas da eloqüência em hinos dedicados ao deus Amon que exaltavam sua grandeza como o criador. Eses hinos, particularmente as estrofes do papiro Leiden 1350, objetivavam demonstrar que todos os elementos do universo físico eram manifestações de um protagonista solitário. Há uma confluência de todas as noções de criação para a personalidade de Amon, uma sintése que enfatiza como o deus transcende todas as outras divindades em ser "Mais Além do Céu e Mais Profundo que o Mundo Subterrâneo". De tempos em tempos os sacerdotes-poetas egípcios tentavam interpretar a inexplicabilidade de Amon. Seu mistério é contido em seu nome - devido à sua essência imperceptível, ele não podia ser chamado por nenhum nome. Sua identidade era tão secreta que nenhum outro deus conhecia seu nome verdadeiro.***

Amon era representado em várias formas:

Como um macaco; como um leão descansando com a cabeça ereta; como um homem com cabeça de sapo acompanhado por Ament, sua esposa com cabeça de serpente; como um homem com cabeça de serpente, enquanto sua consorte tem cabeça de gato; como um homem com o cetro real em uma mão e o símbolo da vida (ankh) na outra; como um homem com cabeça de carneiro.

Amon, o deus carneiro, era o oráculo mais famoso do Egito, tendo alcançado grande renome. Guerreiros o consultavam para saberem o resultado de batalhas, malfeitores eram denunciados pelo deus, e até mesmo assuntos de estado eram decididos sob seu auspício. Dizia-se que o deus respondia às perguntas balançando a cabeça, e muitas vezes escolhia pessoas apontando com seu braço.

Amon foi associado a diversos deuses, como indicam suas variadas formas animais. A cabeça de carneiro evidentemente deriva do deus Min, e é possível que a cabeça de sapo seja derivada de Hekt. Seu culto também apropriou-se do deus da guerra Mentu, que era representado como touro. Mentu, contudo, continuou tendo uma vida independente, devido à sua fusão com Hórus.**

A manifestação do deus como cobra era denominada Kem-atef "Aquele que completou o seu tempo"*

Amon foi associado ao grande deus sol durante a XI Dinastia, e como Amon-Ra ele finalmente foi elevado à posição suprema como deus nacional do estado, enquanto seu culto se tornou o mais poderoso do Egito.

Amon é sinônimo do crescimento de Tebas como capital religiosa, mas foi nos cinco séculos do Novo Reinado que Amon se tornou o deus mais importante do panteão egípcio (exceto por um eclipse de duas décadas, na qual o disco solar Aton do Faraó Akenaton se tornou a maior divindade).

Amon, como o governante universal com seu título de "Senhor dos Tronos das Duas Terras" e "Rei dos Deuses", teve templos tão majestosos erguidos em sua honra que os rumores do esplendor de Tebas se espalhou por além das fronteiras do Egito, no mundo do compositor do épico grego, como no comentário de Aquiles sobre Agamemnon:

"Eu odeio seus presentes.

Nem que ele me desse dez vezes igual, e vinte vezes mais do que possui agora, nem que mais venha para ele de outro lugar... tudo o que é trazido Tebas do Egito, onde as grandes possessões são guardadas nas casas, Tebas dos cem portões, onde através de suas portas duzentos homens guereiros vieram para lutar com cavalos e carruagens..." Homero , Ilíada.

Amon era o deus "que deu origem a si mesmo" gerando-se antes de toda e qualquer matéria. Os intelectuais de Tebas devem ter lutado duramente para resolver este mistério. Sem muitos detalhes específicos sobre esse misterioso evento, a atmosfera da ocasião é evocada pela imagem do seu fluido se tornando unido ao seu corpo para formar um ovo cósmico. Após emergir, Amom formou a matéria primordial, o elemento do Ogdoad(1) do qual ele próprio é parte. Desta forma ele se torna "O primeiro que dá origem aos primeiros". Mas o universo estava escuro, silencioso e sem movimento. Aparentemente Amon foi o surto criativo de energia, que provocou o Ogdoad à ação. Em outras palavras, ele foi a brisa estimulante sobre o oceano primevo, mexendo-se em um vortex do qual o monte primordial iria emergir. Esta é uma sugestão tentadora, e o a noção de vento encontra ressonância na invisibilidade de Amon.***

O hino de Leiden dá uma outra versão, um tanto divertida, de Amon iniciando a atividade de criação. O cenário é o silêncio mortal do cosmo, através do qual ecoa a voz do "Grande Buzinador", que, sem nenhuma surpresa, "abre todos os olhos", causando comoção no cosmos. Amon tem a forma do ganso primevo colocando a criação em movimento com seu guincho agudo.***

A esposa de Amon era Mut(2), cujo nome significa "A Mãe", e ela devia se identificar com Apet. Ela era a "Rainha dos Deuses" e "Senhora do Céu". Como Nut, Isis, Neith e outras, ela era a "Grande Mãe" que deu origem a tudo o que existe. Ela era representada como uma leoa. A leoa como a gata, simbolizava a maternidade. Mut porta a dupla coroa do Egito, indicando que ela absorveu todas as demais "Grandes Mães" do Egito. Foi para Mut que Amenhotep III, o pai de Akenaton erigiu o magnífico templo de Karnak, com suas grandes avenidas de esfinges com cabeça de carneiro.**

O deus-lua Khonsu era considerado em Tebas como o filho de Amon e Mut, e em Hermópolis e Edfu ele era associado com Thot. No Hino de Unas, Khonsu foi enviado por Orion para matar a alma de deuses e homens, mito que explica porque as estrelas desaparecem perante a lua. Seu nome significa "O Viajante".**

(1) O Ogdoad é o grupo das oito divindades primordiais, divididos em quatro casais: Nu e Naunet, Heh e Hauhet, Kek e Kauket, e Amon e Amaunet.

(2) No Novo Reinado, Mut tornou-se a esposa de Amon, embora originalmente sua esposa fosse Amaunet, conforme o Ogdoad.

6.1.1.4 - THOTH

Deus da Sabedoria, Thoth se autogerou no começo dos tempos, juntamente com sua consorte Maat (Verdade). Em Hermópolis, sua cidade templo, era dito que de Thoth foram produzidas oito crianças, das quais a mais importante era Amon, "O Escondido", que era cultuado em Tebas como o Senhor do Universo.

O nome "Thoth" é uma corrupção grega do nome original egípcio, Tahuti. Suas formas animais são o íbis e o babuíno. Como íbis ele voa no céu, e como babuíno, saúda o sol nascente. Como símbolo da palvra criadora, ele é a língua de Ptah. Provavelmente a adoção da íbis ocorreu devido iventividade egípcia, que considerou semelhante o ato do escriba de escrever os hieroglifos com o pescar da ave em meios aos pântanos do Nilo.

Segundo a tradição, Thoth era poderoso em conhecimento e em discurso divino. Foi o inventor da linguagem escrita (hieroglifos) e falada. Como o Senhor dos Livros, era o escriba dos deuses e patrono de todos os escribas. A ele é creditada a invenção da astronomia, geometria e medicina.

Thoth era o medidor da terra e o contador das estrelas, o mantenedor de todos os conhecimentos.

Thoth era mais comumente representado como um homem com a cabeça de uma bis, portando uma pena e um papiro no qual ele escrevia todas as coisas. Ele era mostrado como participante em quase todas as principais cenas envolvendo os deuses, mas especialmente no julgamento dos mortos. Ele servia de mensageiro dos deuses, e por tal foi comparado ao deus grego Hermes.

Acreditava-se que era o autor de diversos textos religiosos importantes, entre eles o "Livro dos Mortos".

Deste texto apreendemos como ocorria o julgamento dos mortos na Sala de Maat:

O morto se apresentava ao tribunal Divino, onde era acolhido por Maat, e conduzido à sala onde se encontram 42 deuses-juízes, correspondente aos 42 nomos ou províncias do Egito, sob a presidência de Osíris.

De súbito, Anubis e Hórus colocam num prato da balança o coração do morto, e no outro prato está uma pena. Se o coração se revelar "leve como a verdade", Thoth, o escriba divino estenderá o relatório e o apresentará a Osíris.

Thoth participava nos mitos de Osiris como seu vizir. Ele é um deus lunar, e é também o deus do tempo, da mágica, e da escrita. Quando o Sol desaparecia, ele tentava amenizar a escuridão com sua luz.

Thot servia, ainda, como árbitro entre os deuses. Na lenda de Osíris, ele protegeu Ísis durante sua gravidez e curou o seu filho Horus quando Seth arrancou seu olho esquerdo.

Acreditava-se que ele e Maat ficavam em cada lado do barco de Rá (o Sol) enquanto este cruzava os céus. A ele credita-se a invenção das artes herméticas, e assim o baralho de Tarô, o qual é freqüentemente referido como "O Livro de Thoth".

Thoth representa a Sabedoria como a mais alta função da nossa mente. Ele é o guardião entre os reinos racional e o intuitivo. Ele permite a expressão articulada da intuição, mostrando o caminho além das limitações do pensamento.

6.1.2 - MITOS E LENDAS DOS SUMÉRIOS

6.1.2.1 - O NASCIMENTO DO HOMEM

Sobre um tempo remoto, do qual temos raras notícias, ouvimos a seguinte história:

Moravam em Dilmun, Enki e sua esposa Ninhursag.

Em Dilmun o corvo não grasna,
O milhano não emite seus guinchos,
O leão não mata,
O lobo não devora o cordeiro,
E desconhecido é o cão selvagem devorador de cabritos.

Lá a pomba não curva a cabeça,
O doente da vista não diz "eu sou doente da vista",
O doente da cabeça não diz "eu sou doente da cabeça",
A senhora idosa não diz "eu sou uma senhora idosa",
E o homem idoso não diz "eu sou um homem idoso",

No princípio dos tempos, a deusa-mãe Nammu (mar primevo) pariu Ki (Terra) e An (Céu), dando à luz uma montanha cósmica cuja base, pairando sobre o abismo das águas, era o fundo da terra, enquanto o seu topo era o zênite do céu.

Eis que o grande deus Anki gerou o deus-ar Enlil. Enlil, então, separou Terra e Céu, e dessa separação surgiu um panteão de deuses. Esses deuses viviam em sua cidade celestial cultivando seus campos de cereais.

Entretanto, houve um tempo em que as colheitas falharam devido à negligência dos deuses. A velha mãe-água Nammu percebeu a situação de sua progênie e procurou Enki, o mais inteligente de todos, o senhor do abismo das águas, que encontrava-se em profundo sono em seu leito. Ela o acordou e falou-lhe da tristeza dos deuses.

"Levanta-te desse leito e realiza uma grande obra de sabedoria. Fabrique servos para assumir a tarefa dos deuses."

E o sábio Enki, levantando-se disse: "Ó Mãe, isso pode ser feito!".

"Vá", ele disse, "e busca um punhado de barro do fundo da terra, logo acima da superfície do nosso abismo das águas e modela-o na forma de um coração. Produzirei bons e magníficos artesãos que darão a esse barro a consistência adequada. E então tu farás os membros. Acima de ti a mãe-Terra, minha esposa divina, estará parindo e oito deusas do parto estarão à disposição para assisti-la. Tu determinarás o destino do recém nascido. A mãe-Terra imprimirá em cada um deles a imagem dos deuses, e ele será Homem."

A obra foi realizada. A deusa-Terra, esposa de Enki (En "Senhor", ki "Terra"), assistida pelas oitos deusas do parto, deu à luz o barro. Bons e magníficos artesãos deram-lhe a consistência certa e Nammu modelou o primeiro coração e depois o corpo e os membros.

Em seguida, para celebrar, Enki fez uma festa para sua esposa e sua mãe, qual convidou todos os deuses; pois ele havia realizado a suprema tarefa da criação do Homem. Os deuses perceberam a extensão da sua obra e passaram a elogiar Enki, com uma bajulação desmedida, pela invenção de uma raça que serviria de escrava para os deuses, trabalhando diligentemente as lavouras de onde agora teriam gorduras e provisões para sacrifícios sem-fim.

Cada divindade teria a sua própria fazenda e solar, com um supervisor, que representaria na terra o papel real de Enlil entre os deuses. A morada do representante seria um símbolo na terra da montanha-mundo de Enlil. Sua rainha seria a correspondente da encantadora deusa Ninlil (o planeta Vênus). E tudo seria na terra como é no céu.

Foi uma grande festa e tanto Enki quanto sua esposa logo ficaram hilariamente embriagados.

Seus corações ficaram exaltados e a deusa perguntou ao deus:
"Quão bom, realmente, ou quão mau, pode ser um corpo humano?
Seguindo o impulso do meu coração, farei o corpo bom ou torná-lo-ei mau."
E Enki, cheio de compreensão, respondeu:
"Qualquer que seja o corpo que vier de tuas mãos, encontrarei um lugar para ele."

Ela pegou um punhado daquele barro e modelou seis criaturas defeituosas, cada uma com uma grave deficiência física: uma mulher incapaz de parir, um ser sem orgão sexual masculino, nem feminino, e outras aberrações.

Mas, para cada um, à medida que foram surgindo, Enki foi capaz de sugerir um lugar:

Enki, ao ver a mulher que não podia parir,
Determinou seu destino: ser colocada num harém.
Enki, ao ver o ser sem sexo masculino ou feminino,
Determinou seu destino: postar-se diante do rei...

E também aos outros quatro, Enki foi capaz de encontrar uma utilidade. Entretanto a brincadeira ainda não tinha acabado; pois Enki, achando que tinha vencido, desafiou a deusa a trocar de lugar, ele agora criaria e a deusa determinaria seu destino.

Enki fez então uma criatura chamada "Meu Dia de Nascimento é Remoto", com fígado e coração doloridos, olhos enfermos, mãos trêmulas e sem espírito.

Então ele falou à deusa:

"Para cada um que tu modelaste, indiquei prontamente um lugar;
Portanto, a este que modelei, agora darás tu o lugar
Onde deverá ele subsistir."

A deusa aproximou-se da criatura e lhe falou. Ela foi incapaz de responder. Ofereceu-lhe pão. A criatura foi incapaz de pegá-lo. Não podia sentar-se, ficar de pé ou dobrar os joelhos. A deusa foi incapaz de determinar-lhe qualquer destino.

E assim Enki criou outros. A doença, a loucura e similares foram assim criados, enquanto Enki, maliciosamente, deixava a deusa sem saída.

"Minha cidade está destruída, minha casa arruinada;" gritou a deusa,
"Meus filhos foram feitos prisioneiros.
Fui exilada da cidade-montanha dos deuses:
Nem mesmo eu escapo de tuas mãos!
Daqui em diante tu não habitarás nem no céu nem na terra."

E, assim, Enki, condenado pela deusa-Mãe da humanidade, foi exilado da terra para o abismo.

"Uma ordem saída de tua boca", ele disse, "quem poderá mudá-la?"

6.2 - Mitologias pré-colombianas

As religiões da América pré-colombiana, à época do descobrimento, variavam desde formas animistas primitivas, com cultos estreitamente ligados à natureza, até sofisticados panteões mitológicos que, nos casos mais avançados -- impérios asteca e inca --encontravam-se provavelmente próximos do monoteísmo. A evolução maior ocorreu fundamentalmente em duas grandes regiões culturais -- América Central, o México inclusive, e regiões andinas --, cujas sucessivas civilizações tenderam a integrar de maneira sincrética, em novos sistemas, os deuses e concepções religiosas preexistentes. Cabe notar, no entanto, que povos da América do Norte e outras regiões sul-americanas criaram mitologias próprias originais.

No que se refere ao México e à América Central, as manifestações religiosas arcaicas adquiriram firmeza nos panteões das grandes culturas teocráticas -- dirigidas por sacerdotes que controlavam os calendários e os ritos -- do horizonte clássico e especialmente no centro sagrado de Teotihuacan, que, entre os séculos I e VI d.C., difundiu por toda a região o culto ao deus civilizador Quetzalcóatl, criador do homem. No século VII, a chegada dos toltecas -- povo guerreiro cujo sanguinário deus Tezcatlipoca, o Sol noturno, expulsou Quetzalcóatl, segundo conta a lenda -- provocou a destruição de Teotihuacan.

Sua cultura, no entanto, perdurou em grande parte na civilização maia do Yucatán, que sofreu também o influxo de grupos toltecas fiéis a Quetzalcóatl, conhecido pelos maias com o nome de Kuculkán. Outras importantes divindades maias eram Itzamná, senhor dos deuses e filho do primeiro criador Hunab-Ku; e Chac, deus da chuva equivalente ao Tlátoc asteca. O texto sagrado em língua quiche Popol-Vuh constitui uma fonte de inapreciável valor sobre a mitologia maia, cuja variedade se ampliava ainda mais ao se desdobrar cada divindade em quatro figuras relacionadas aos pontos cardeais.

A integração das culturas anteriores conferiu extraordinária riqueza à mitologia asteca, correspondente a um regime teocrático dominado pela figura do rei em que as concepções guerreiras, políticas e religiosas formavam um todo unitário. A cosmogonia asteca, de caráter fatalista, considerava que o mundo se achava em seu quinto estado, após a destruição dos quatro anteriores, crença que fundamentava, a prática de sacrifícios humanos, cujo propósito era proporcionar sangue ao Sol para que sua luz não se apagasse. Veneravam-se popularmente inúmeros deuses menores, com o objetivo de alcançar sua proteção frente aos desastres naturais.

As três divindades principais do panteão eram Quetzalcóatl, Tezcatlipoca, protetor dos jovens guerreiros e feiticeiros, e Huitzilipochtli, o Sol diurno, deus supremo das antigas tribos astecas, senhor da guerra e adorado também pelos camponeses como protetor das colheitas. Além deles, existiam divindades próprias das diversas classes sociais e profissões, e outras que encarnavam forças cosmogônicas, embora se tenha observado que durante o século XV começaram a se desenvolver algumas tendências dualistas e, em menor medida, monoteístas.

As civilizações andinas também desenvolveram complexos sistemas religiosos, embora seus panteões mitológicos não tenham alcançado a multiformidade dos da América Central. As manifestações artísticas de culturas que floresceram durante o primeiro milênio antes da era cristã, entre elas a de Chavín, com suas representações de animais totêmicos e grotescas figuras antropomórficas, mostravam já acentuados traços de elementos religiosos e simbólicos associados a cultos da natureza que seriam depurados por civilizações posteriores, como as de Huari e Tiahuanaco, esta última centro de um importante movimento religioso.

A religião inca, estatal e teocrática, divinizava o imperador como "filho do Sol". Soube, no entanto, assimilar as divindades e crenças dos povos conquistados para assegurar a unidade política do império, o que explica a convivência de ritos populares junto da religião oficial encarnada pelo panteão inca.

6.3 - mitologias européia

Fora do mundo greco-romano, desenvolveram-se na Europa, sobretudo nas regiões nórdicas e orientais, outros importantes sistemas mitológicos pertencentes, em geral, ao antigo tronco comum indo-europeu. Desperta particular interesse por sua antiguidade a religião celta, cujo elaborado panteão era integrado por deuses de natureza multiforme, que espelhavam a concepção celta do mundo como realidade fluida e intermediária entre a ordem física e a sobrenatural. Expulsos do continente por germânicos e romanos, os celtas se refugiaram nas ilhas britânicas, onde redigiram extensas crônicas míticas e heróicas envolvidas por uma atmosfera fantástica e nebulosa, que se perpetuaria nas lendas medievais do rei Artur.

As mitologias germânicas, mais conhecidas em sua vertente escandinava, expressaram com singular vigor o espírito guerreiro e audaz daqueles povos. Nesse sentido, cabe citar como importante aspecto a unidade das divindades maiores nas culturas germânicas e escandinavas, integradas por tribos de acentuadas diferenças étnicas e de costumes e, com freqüência, opostas em violentos combates. É portanto o fator mitológico um dos que, com maior força, mantiveram unificados os povoadores da Escandinávia e da Europa central. Seu panteão se via dominado por dois grandes deuses, Thor e Odin, que encarnavam os princípios mágicos e guerreiros.

A figura um pouco menor de Frey representava os ritos agrícolas, e seus traços definitórios foram o culto ao valor -- somente os guerreiros mortos em combate atingiam o paraíso, Valhala -- e uma consciência da inevitabilidade do destino refletida na sombria cosmogonia das duas Eddas. Pouco se sabe a respeito das mitologias eslavas, segundo parece influenciadas pelo animismo e com panteões pouco hierarquizados. A epopéia Kalevala, compilada no século XIX, revela a íntima unidade das narrações míticas finlandesas. No que diz respeito às possíveis mitologias de povos meridionais, como os etruscos ou os iberos, suas recordações praticamente desapareceram após a expansão romana.

6.4 - MITOS E LENDAS DO POVO INDIANO

A DUALIDADE DO MUNDO

Retirado do Brhadaranyaka Upanisad:

No Início esse Universo era o Si-Próprio (atman) na forma de Homem (Purusa). Olhando em volta não viu ninguém além de si mesmo. Então, primeiramente, ele disse "Sou Eu!", e assim a palavra "Eu" foi criada. Portanto até hoje as pessoas que são interpeladas respondem "Sou eu", e então dizem qualquer que seja o nome que elas tenham. Uma vez que ele, antecedendo (purva) todo esse universo, queimou (us) todo o mal, ele é o Homem (Purusa). Aquele que sabe isso queima qualquer um que anteceder a ele.

Ele estava com medo; portanto aquele que está totalmente sozinho tem medo. Ele refletiu, "Já que não há nada além de mim, do que tenho medo?" Então seu medo desapareceu, pois o que ele poderia temer? As pessoas sentem medo por um instante. Ele não se alegrou; portanto todo aquele que está totalmente solitário não fica alegre. Ele desejou um segundo. Ele era do mesmo tamanho e formato que um homem e uma mulher fortemente abraçados. Ele dividiu a si próprio (pat) em dois pedaços, e dele um marido e uma esposa (pati e patni) nasceram. Por isso o sábio Yajnavalkya disse, "Esse corpo é como um meio fragmento". Portanto esse espaço foi preenchido por uma mulher. Ele uniu-se a ela, e deles nasceu a humanidade.

Ela refletiu, "Como pode ele unir-se a mim depois de haver-me gerado de si? Vergonha! Irei esconder-me". Ela tornou-se uma vaca; ele tornou-se um touro e uniu-se a ela, e disso todo o gado foi gerado. Ela tornou-se uma égua; ele tornou-se um garanhão. Ela tornou-se um asno fêmea; ele tornou-se um asno macho e uniu-se a ela, e disso surgiram os animais de casco. Ela tornou-se uma cabra; ele tornou-se um bode; ela tornou-se uma ovelha; ele tornou-se um carneiro e uniu-se a ela, e disso cabras e ovelhas nasceram. Assim foram criados todos os pares, até mesmo chegando às formigas.

Ele sabia ser uma criação, pois havia criado todas essas coisas. Assim a criação surgiu. Todos os que sabem isso tornam-se criadores em suas criações. Então ele agitou-se. Da sua boca, como do buraco de fogo (yoni) e de suas mãos, ele criou o fogo. Portanto tanto a boca quanto as mãos não possuem cabelos no seu lado de dentro. Quando alguém fala dele, dizendo, "Sacrifiquem para aquele deus!" "Sacrifiquem para aquele deus!", falando de um único deus e depois de outro único deus, é a sua criação, e ele próprio é todos os deuses. Agora, tudo o que é úmido ele criou do sêmen, e isto é Soma. Todo esse universo é comida e o comedor da comida. Pois Soma é comida, e Agni, o comedor da comida. Essa foi a insuperável criação de Brahma, pois ele criou os deuses, que eram melhores que ele, quando ele, sendo mortal, criou imortais. Portanto foi uma criação insuperável. Todo aquele que sabe isso nasce na sua insuperável criação.


7. O FOLCLORE BRASILEIRO

Todo e qualquer ser humano tem cultura. A cultura vai se formando nas relações e experiências que mantemos com o mundo desde que nascemos.

Alguns fatores que agem diretamente ou indiretamente na construção da cultura individual são: família, grupos sociais a que pertencemos, o conhecimento que adquirimos da cultura científica, tecnológica, artística, literária, etc, religião, meio ambiente, lembranças do passado, trabalho, estudo, o sistema político, contexto econômico, além de outros.

O fato é que esses fatores nunca agem isoladamente. Eles dependem uns dos outros, convivem e formam uma rede de relações na qual somos inseridos. Ao mesmo tempo que recebemos a herança cultural, agimos e produzimos cultura de forma que nos tornamos co-participantes dessa rede. Dessa teia de relações extraímos os valores em que acreditamos, como solidariedade, afeto, respeito, violência. Esse conjunto de valores transmitidos por nosso grupo social é sua identidade.

O Brasil apresenta grande diversidade no campo cultural. Seu folclore é riquíssimo. Nesse contexto entram, entre outros, as festas religiosas, o artesanato e a medicina popular, danças, canções e os "causos" contados pelo Brasil afora.

O Brasil não é só o país do futebol e do carnaval. Isso seria restringir demais nossa capacidade de enxergar e expressar o mundo em que vivemos.

O Folclore é uma das formas de representar e expressar a identidade de uma comunidade e através da interação com esse tipo de conhecimento ampliamos e enriquecemos mais o nosso próprio.

Dentro do vasto campo do folclore, encontram-se as lendas, passadas de geração em geração e que precisam ser cultivadas para que não se percam. São histórias representativas do imaginário de comunidades diversas. Entrar no campo das lendas é viajar pela história humana tomando outro tipo de condução. É sair de nosso mundo e conhecer o do outro, entendê-lo e ampliar horizontes anteriormente não imaginados. É poder sentar e contar uma história que tem um pouco de cada um que já a tenha contado. É poder levar a criança e ao jovem a possibilidade de crescer com uma atividade culturalmente enriquecedora.

Posteriormente, imigrantes de outros países, como Itália e Alemanha, deram sua contribuição ao nosso folclore, tornando-o mais complexo e mais rico.

A tendência dos costumes de povos diferentes é, quando estes se relacionam de modo íntimo, construir expressões híbridas, ou seja, suas culturas se misturam, resultando em novas expressões de manifestação popular.

Como os grupos humanos influenciam uns aos outros, podemos dizer que o folclore não é uma ciência estática, morta. Ao contrário, ele é dinâmico, pois além de pesquisar o passado, tem de estar atento às transformações do presente.

O Brasil, vasto qual um continente, apresenta regiões distintas, onde há diferença de intensidade das influências dos povos formadores. Por outro lado, cada região possui seu gênero de vida de acordo com o meio ambiente, o que influi, também, no folclore brasileiro.

A seguir, então, será narrada uma idéia geral dos vários desdobramentos do nosso folclore:

Linguagem Popular: gíria, apelidos ou alcunhas, legendas, linguagem especial ou cifrada, metáforas, frases feitas. Além da palavra há a mímica e os gestos. Assim, nós temos expressões utilizadas em todo o país ("tirar o pai da forca", "está se virando"), compreendidos por todos, e expressões regionais, somente entendidas pelos habitantes da região ("gineteando" RS "Fute" dito na região NE).
Literatura Oral: poesia, história, fábulas, lendas, mitos, romances, parlendas, adivinhas, anedotas, provérbios, orações, pregões e literaturas de cordel, todos transmitidos oralmente;
Lúdicos: são os folguedos populares tradicionais, os jogos, os brinquedos e brincos.

Exemplos: Bumba-meu-boi (NE), Caboclinhas (PB e RN), Cavalhadas (RS, AL, PR e SP), Ciranda (PE), Congada (SP, ES, BA, MG, GO, PR, RS), Cordões de Bicho (AM), Fandango, conhecido em todo o Brasil e, ainda Guerreiros, Mamulengo, Maracatu, Moçambique, Pastoril, Quilombo e Reisado.
Música: a música folclórica está presente em quase todas as manifestações populares. A serenata, coreto, cantigas de rixa, bendito, cantigas de cego, cantos de velório e cânticos para as almas são formas de músicas folclóricas.
Crendice: (Superstições) as de caráter ativo se manifestam em regiões, cultos dos santos, seitas, cultos de fetiches; e as de caráter passivo nos presságios, esconjuros, orações, tabus e totemismos. Contam com patuás, relíquias, amuletos, talismãs, bentinhos e santinhos.
Usos e Costumes: ritos de passagens, usanças agrícolas, pastoris, medicina rústica e trajes.
Artes Populares e Técnicas Tradicionais: culinárias, rendas e bordados, cerâmicas e trabalhos artesanais.

8. LENDAS BRASILEIRAS

8.1 - Caipora

Nomes comuns: Caipora, Curupira, Pai do Mato, Mãe do Mato, Caiçara, Caapora, Anhanga, etc.

Origem Provável: É oriundo da Mitologia Tupi, e os primeiros relatos são da Região Sudeste, datando da época do descobrimento, depois tornou-se comum em todo País, sendo junto com o Saci, os campeões de popularidade. Entre o Tupis-Guaranis, existia uma outra variedade de Caipora, chamada Anhanga, um ser maligno que causava doenças ou matava os índios. Existem entidades semelhantes entre quase todos os indígenas das américas Latina e Central. Em El Salvador, El Cipitío, é um espiríto tanto da floresta quanto urbano, que também tem as mesmos atibutos do Caipora. Ou seja pés invertidos, capacidade de desorientar as pessoas, etc. Mas, este El Cipitío, gosta mesmo é de seduzir as mulheres.

Conforme a região, ele pode ser uma mulher de uma perna só que anda pulando, ou uma criança de um pé só, redondo, ou um homem gigante montado num porco do mato, e seguido por um cachorro chamado Papa-mel.

Também, dizem que ele tem o poder de ressuscitar animais mortos e que ele é o pai do moleque Saci Pererê.

Há uma versão que diz que o Caipora, como castigo, transforma os filhos e mulher do caçador mau, em caça, para que este os mate sem saber.

É um Mito do Brasil que os índios já conheciam desde a época do descobrimento. ndios e Jesuítas o chamavam de Caiçara, o protetor da caça e das matas.

É um anão de Cabelos Vermelhos com Pelo e Dentes verdes. Como protetor das Árvores e dos Animais, costuma punir o os agressores da Natureza e o caçador que mate por prazer. É muito poderoso e forte.

Seus pés voltados para trás serve para despistar os caçadores, deixando-os sempre a seguir rastros falsos. Quem o vê, perde totalmente o rumo, e não sabe mais achar o caminho de volta. É impossível capturá-lo. Para atrair suas vítimas, ele, às vezes chama as pessoas com gritos que imitam a voz humana. É também chamado de Pai ou Mãe-do-Mato, Curupira e Caapora. Para os Índios Guaranis ele é o Demômio da Floresta. Às vezes é visto montando um Porco do Mato.

Uma carta do Padre Anchieta datada de 1560, dizia: "Aqui há certos demônios, a que os índios chamam Curupira, que os atacam muitas vezes no mato, dando-lhes açoites e ferindo-os bastante". Os índios, para lhe agradar, deixavam nas clareiras, penas, esteiras e cobertores.

De acordo com a crença, ao entrar na mata, a pessoa deve levar um Rolo de Fumo para agradá-lo, no caso de cruzar com Ele.

8.2 - O Boi Tatá

Nomes comuns: No Sul; Baitatá, Batatá, Bitatá (São Paulo). No Nordeste; Batatão e Biatatá (Bahia). Entre os índios; Mbaê-Tata.

Origem Provável: É de origem Indígena. Em 1560, o Padre Anchieta já relatava a presença desse mito. Dizia que entre os índios era a mais temível assombração. Já os negros africanos, também trouxeram o mito de um ser que habitava as águas profundas, e que saía a noite para caçar, seu nome era Biatatá.

É um mito que sofre grandes modificações conforme a região. Em algumas regiões por exemplo, ele é uma espécie de gênio protetor das florestas contra as queimadas. Já em outras, ele é causador dos incendios na mata. A versão do dilúvio teve origem no Rio Grande o Sul.

Uma versão conta que seus olhos cresceram para melhor se adaptar à escuridão da caverna onde ficou preso após o dilúvio, outra versão, conta que ele, procura restos de animais mortos e come apenas seus olhos, absorvendo a luz e o volume dos mesmos, razão pela qual tem os olhos tão grandes e incandescentes.

É um Monstro com olhos de fogo, enormes, de dia é quase cego, à noite vê tudo. Diz a lenda que o Boitatá era uma espécie de cobra e foi o único sobrevivente de um grande dilúvio que cobriu a terra. Para escapar ele entrou num buraco e lá ficou no escuro, assim, seus olhos cresceram.

Desde então anda pelos campos em busca de restos de animais. Algumas vezes, assume a forma de uma cobra com os olhos flamejantes do tamanho de sua cabeça e persegue os viajantes noturnos. Às vezes ele é visto como um facho cintilante de fogo correndo de um lado para outro da mata. No Nordeste do Brasil é chamado de "Cumadre Fulôzinha". Para os índios ele é "Mbaê-Tata", ou Coisa de Fogo, e mora no fundo dos rios.

Dizem ainda que ele é o espírito de gente ruim ou almas penadas, e por onde passa, vai tocando fogo nos campos. Outros dizem que ele protege as matas contra incêndios.

A ciência diz que existe um fenômeno chamado Fogo-fátuo, que são os gases inflamáveis que emanam dos pântanos, sepulturas e carcaças de grandes animais mortos, e que visto de longe parecem grandes tochas em movimento.

8.3 - A Besta Fera

Nomes comuns: Cabeça Satânica, Quibungo, La Carreta del Diablo (Venezuela), El Macho Cabrio (Colômbia).

Origem Provável: É um mito muito semelhante a história do Lobisomem. Existe em todo Nordeste, mas é muito forte no interior do Estado de Pernambuco. A versão Brasileira pode ter surgido na época colonial no estado de Pernambuco. A Versão, Sul americana, La Carreta del Diablo, mostra uma criatura semelhante mas que é acompanhada por uma carroça fantasma.

Mito muito comum em todo meio rural do Nordeste. Existem várias versões parecidas em alguns países Latino-americanos.

Se a pessoa estiver na rua na hora que a Besta Fera for passando, o único modo de se proteger é empunhar um punhal de prata, ou um punhal comum abençoado. Assim, esse Demônio, não atacará a pessoa.

Apesar de assustador, parece ser inofensivo às pessoas. Na verdade, sua única atividade, consiste em soltar todos os animais de canis ou currais que for encontrando pela frente. Algumas pessoas que deparam com ela, cara a cara, podem perder o juízo ou ficarem momentâneamente desorientadas.

Este mito, é uma mistura do mito da Mula-Sem-Cabeça e Lobisomem. Não se sabe ao certo de onde sai essa criatura. Acredita-se que na verdade trata-se do próprio Demônio em pessoa, que sai das profundezas em noites de Lua cheia e corre pelas ruas dos povoados e pequenas cidades, só parando quando chega no cemitério da cidade, quando simplesmente, desaparece.

Seria um ser fantástico metade homem metade cavalo. O barulho dos seus cascos correndo é motivo mais que suficiente para as pessoas se trancarem em suas casas nesses dias.

Por onde passa, uma matilha de cachorros, e ouros animais o acompanham numa algazarra infernal. Vez por outra ele açoita os cachorros e os ganidos são pavorosos.

Quando ele pára na porta de uma casa, dá para ouvir sua respiração demoníaca e nessa hora, a pessoa deve rezar o "Credo" para que ele siga seu caminho. O animal que se atreve a chegar mais perto é açoitado sem piedade.

8.4 - A Cabra Cabriola

Nomes comuns: Cabra Cabriola, Cabriola, Papão de Meninos, Bicho Papão, etc.

Origem Provável: O mito do Bicho papão que ataca as crianças travessas, é bem antigo e remonta ao tempo da Idade Média na Europa. Na América Central, o Gulén Gulén Bo, é um negro que também assusta e come as crianças mal comportadas, e tem as mesmas características da nossa Cabriola.

No Brasil, deriva-se de um mito afro-brasileiro, onde acreditava-se tratar-se de um duende maligno que tomava a forma de uma cabra. Costumava atacar as mães quando estavam amamentando, bebiam seu leite direto nos seus seios, e depois devoravam as crianças. Além de Pernambuco, foram encontradas versões deste mito nos estados do Ceará e Pará.

A figura da Cabra Cabriola, também é mencionada na Espanha e Portugal. Possivelmente veio para o Brasil no tempo da colonização, e com a urbanização das cidades, ganhou folêgo.

A Cabra Cabriola, era uma espécie de Cabra, meio bicho, meio monstro. Sua lenda em Pernambuco, é do fim do século XIX e início do seculo XX.

Era uma Bicho que deixava qualquer menino arrepiado só de ouvir falar. Soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas s sextas a noite.

Mas, o pior era que a Cabriola entrava nas casas, pelo telhado ou porta, à procura de meninos malcriados e travessos, e cantava mais ou menos assim, quando ia chegando:

Eu sou a Cabra Cabriola

Que como meninos aos pares

Também comerei a vós

Uns carochinhos de nada...

As crianças não podiam sair de perto das mães, ao escutarem qualquer ruído estranho perto da casa. Podia ser qualquer outro bicho, ou então a Cabriola, assim era bom não arriscar. Astuta como uma Raposa e fétida como um bode, assim era ela. Em casa de menino obediente, bom para a mãe, que não mijasse na cama e não fosse traquino, a Cabra Cabriola, não passava nem perto.

Quando no silêncio da noite, alguma criança chorava, diziam que a Cabriola estava devorando algum malcriado. O melhor nessa hora, era rezar o Padre Nosso e fazer o Sinal da Cruz.

8.5 - Saci-Pererê

Nomes comuns: Saci-Cererê, Saci-Trique, Saçurá, Matimpererê, Matintaperera, etc.

Origem Provável: Os primeiros relatos são da Região Sudeste, datando do Século XIX, em Minas e São Paulo, mas em Portugal há relatos de uma entidade semelhante. Este mito não existia no Brasil Colonial.

Entre os Tupinambás, uma ave chamada Matintaperera, com o tempo, passou a se chamar Saci-pererê, e deixou de ser ave para se tornar um caboclinho preto de uma só perna, que aparecia aos viajantes perdidos nas matas.

Também de acordo com a região, ele sofre algumas modificações:

Por exemplo, dizem que ele tem as mãos furadas no centro, e que sua maior diversão é jogar uma brasa para o alto para que esta atravesse os furos. Outros dizem que ele faz isso com uma moeda.

Há uma versão que diz que o Caipora, é seu Pai.

Dizem também que ele, na verdade eles, um bando de Sacis, costumam se reunir noite para planejarem as travessuras que vão fazer.

Ele tem o poder de se transformar no que quizer. Assim, ora aparece acompanhado de uma horrível megera, ora sozinho, ora como uma ave.

A Lenda do Saci data do fim do século XVIII. Durante a escravidão, as amas-secas e os caboclos-velhos assustavam as crianças com os relatos das travessuras dele. Seu nome no Brasil é origem Tupi Guarani. Em muitas regiões do Brasil, o Saci é considerado um ser brincalhão enquanto que em outros lugares ele é visto como um ser maligno.

É uma criança, um negrinho de uma perna só que fuma um cachimbo e usa na cabeça uma carapuça vermelha que lhe dá poderes mágicos, como o de desaparecer e aparecer onde quiser.

Existem 3 tipos de Sacis: O Pererê, que é pretinho, O Trique, moreno e brincalhão e o Saçurá, que tem olhos vermelhos. Ele também se transforma numa ave chamada Matiaperê cujo assobio melancólico dificílmente se sabe de onde vem.

Ele adora fazer pequenas travessuras, como esconder brinquedos, soltar animais dos currais, derramar sal nas cozinhas, fazer tranças nas crinas dos cavalos, etc. Diz a crença popular que dentro de todo redemoinho de vento existe um Saci. Ele não atravessa córregos nem riachos. Alguém perseguido por ele, deve jogar cordas com nós em sem caminho que ele vai parar para desatar os nós, deixando que a pessoa fuja.

Diz a lenda que, se alguém jogar dentro do redemoinho um rosário de mato bento ou uma peneira, pode capturá-lo, e se conseguir sua carapuça, será recompensado com a realização de um desejo.


9. CENDICES

Crendice é uma crença incongruente e insólita, gerada pelo medo doentio de pessoas que possuem religiosidade exaltada.

O medo é o grande gerador dos crendeiros: Medo do inferno, medo do diabo, medo do purgatório, medo de pecar, medo de ser perseguido pôr espíritos inferiores, medo de feitiço. Todas essas fobias criam pessoas crendeiras e supersticiosas e, concomitantemente, um sincretismo de crenças, engendradas para transformar pecados em virtudes.

O crendeiro é um fabulador. Sente surgir de tudo que o cerca um mistério atemorizante; um temor doentio que o faz viver num arrebatamento de dúvidas acerbas; em tudo descobre um mau presságio, porque em tudo acredita a seu modo.

Na ânsia de obter favores dos santos de sua afeição e de espíritos protetores; na persuasão de tanger o mal que ele mesmo cria, o crendeiro gera uma crença subjetiva.

Faz promessas e pedidos aos santos da sua confiança; freqüenta reuniões espíritas; ouve missa, confessa-se e comunga; confia nos despachos depositados nas encruzilhadas e nas respostas que os búzios dão através da perspicácia de quimbandeiros, de pais-de-santo; consulta quiromantes, cartomantes e acredita nas solércias ditas por ciganas; ouve, cheio de crença, as linhas de umbanda e catimbó, e os conselhos dos senhores mestres espirituais, dados pela boca das mestras ou mestres evocadores, que sabem impressionar com sagacidade e inteligência; enche-se de amuletos e em tudo confia, porque de tudo desconfia.

O crendeiro procura esquecer-se da recomendação de São Paulo: "...evita as práticas vãs e profanas, porque só servem muito para a impiedade; e a prática delas lavra como gangrena..."

Todo crente que foge do ritualismo normal da lei que segue, se transforma em crendeiro; esquece que o pecado só aparece quando a lei é transgredida.

Da vacilação de uma pessoa surge a crendice. Quando se hesita e se apela para mais de uma potência na intenção de se obter uma graça, é porque não se está firmado em nenhuma delas.

Um desejo de piedade exaltada em um crente o transforma em crendeiro, porque "o sentimento religioso mal orientado pode produzir crendices, fanatismo e levar o homem, até a sacrifícios humanos."

São Tomás, procurando o telhado da casa onde morava, para rezar, no intuito de ficar mais perto de Deus, mais perto do céu, como dizia, se tornou crendeiro. A puerilidade da sua maneira pessoal de crer o desviou do normal.

Deus está em toda parte, e dentro de nós mesmos, quando n'Ele sabemos crer. O papa Alexandre, de quem se conta que tinha perpetuamente pendurado ao pescoço o Santíssimo Sacramento encerrado num globo de ouro, para, naturalmente, o livrar dos males revelou-se um dúbio, sem crença firmada vacilante a ponto de transgredir o respeito devido à essência da sua religião.

Faltando um pouco de fé, vem a vacilação, e a crendice aparece audaciosa; ela vive de alcatéia por trás de cada pessoa e nos bastidores de todas as religiões; espera o momento oportuno para aparecer.

E quando aparece e se liga a um crente ou a uma comunidade religiosa, nunca mais sairá.

O Espiritismo está cheio de crendices e de crendeiros.

Uma apreciável maioria de espiritistas crêem em comida calçada; em fumaças de cachimbo e em outras coisas por eles criadas. Além disso as manifestações são sempre intencionais para cada trabalho.

Em uma grande percentagem o interesse monetário é visado. Centros são dirigidos por entidades celestiais, até por Jesus Cristo, segundo a crença entre a maioria de adeptos atrasados, de fanáticos. Em una denominação protestante, nos seus cultos, até o Espírito Santo aparece para batizar os seus adeptos, os escolhidos, que entram em transe; mas nessas aparições só se ouvem ruídos estranhos, não se percebe uma única palavra por Ele pronunciada, ou melhor, pelo batizando.

Lembram eles as pitonisas que nos seus transes produziam ruídos anormais.

Os crentes acreditavam ser mensagens dadas pelos deuses, mensagens que eram interpretadas pelo Hierofante, como hoje os pastores julgam que interpretam os rumores que os Crentes pronunciam quando atacados dessa suposta analogia.

Se Cristo veio trazer a salvação pela fé, para que se utilizar o homem de coisas que fogem da verdadeira e sadia doutrina por Ele pregada? É que o homem crendeiro torna-se abúlico, sem capacidade para discernir e procurar ser simples na sua maneira de crer.

O crendeiro é um anormal, criatura que se torna infeliz e sem segurança, porque não sabe crer, não sabe ter fé, vive preso às suas próprias abusões, às crenças estranhas por mesmo criadas.

O crendeiro está em toda parte, em todo meio social entre o povo e a alta sociedade, entre pobres e ricos, entre ignorantes e eruditos...

9.1 - CRENDICES POPULARES

Que nas crianças se chama quebranto, é um esmorecimento geral, um langor, uma quebreira da vontade que toma conta do corpo. Pode dar em qualquer pessoa. Tem sido atribuído à força do olhar de invejosos ou mal-intencionados. Acontece também que algumas pessoas isentas de inveja tem olhar forte, condição desconhecida ás vezes até do próprio dono do olhar.

Na sociedade primitiva, o invejoso, outro tipo de pessoa de olhar forte, é sempre rejeitado, porque influi no animo das pessoas. E fácil conhecer quando acontece o mau olhado. Se ao olharem para nós começarmos a espirrar, ou abrirmos a boca em longos bocejos, sem parar, é sinal de que fomos atingidos.


Não é de hoje que se temem os seus efeitos. Demócrito mencionava já entre os mediterrâneos essa crença, da qual não conseguira determinar as origens. Aristóteles comentava que o olhar de algumas pessoas podia causar perturbação funesta no corpo e na mente dos fascinados. A história de Medusa, cujo olhar petrificava as pessoas é uma história de mau-olhado.

Os povos antigos conheciam a figa, símbolo sexual e amuleto, para afastá-lo.

Entre nós, usa-se a figa feita de duas plantas mágicas: de arruda e de guiné para o mesmo fim.

O mau olhado é força mais branda do que o feitiço e na maioria das vezes não é premeditado.

Contra ele, além da figa e da fava-da-inveja que se colocam no pulso ou no pescoçinho das crianças, usam-se as plantas mágicas: a arruda, a guiné, comigo-ninguém-pode e outras; fazem-se os ensalmos e cumprem-se os rituais das simpatias.

A crença no mau-olhado é universal. A língua dos povos atesta a sua difusão e persistência. E o mal-occhio, o evil eye, o mal de ojo. Entre nós é chamado além de mau-olhado, olho de seca-pimenteira, olho-grande, olho de inveja, olho-mau, maus-olhos.

No IX livro das Noites Áticas, Aulo Gélio conta que as pessoas da Ilíria podiam matar, estando irritadas, apenas olhando fixamente para o adversário. (In Dicionário de Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo).

A mágica de proteção contra o mau-olhado na antiga Grécia era desenhar ou gravar olhos nos objetos, para defender das forças invisíveis do mal. Talvez reminiscência da maga Medusa, uma das Górgonas, de olhos tenebrosos e cujo olhar fazia se transformarem em pedra as pessoas que os fitavam.

Os amuletos mais populares contra o mau-olhado são: a figa, o corno, a mão cornuda, a meia lua, o corcunda, o elefante. Usa-se também uma fitinha vermelha, amarrada no pulso o ou em torno do pescoço.

A figa é o mais usado e o mais antigo dos amuletos contra o mau-olhado. Sobrevive nos usos dos povos os mais diversos. Sabe-se que já existia entre os etruscos. E mencionada por Dante, por Shakespeare. Entre os povos da antigüidade, como símbolo fálico, prendia-se aos cultos da fertilidade e da fecundidade.

Em Roma era usada no pescoço das mulheres e das crianças, o que provocou o desaprovador reparo de Varrão, de que a figa é a representação do ato sexual, sendo polegar em riste apertado entre o indicador e o médio dobrados, o órgão masculino penetrando o órgão feminino. Encontraram-se inúmeras figas nas ruínas de Herculano e de Pompéia. Hoje ela vive um pouco nos folclores de toda a Europa de onde passou para as Américas.

Para normalizar o nosso estudo, tentemos classificar as crendices nos seus múltiplos aspectos, colocando-as nos seus verdadeiros lugares, ocupando assim quatro classes: Superstição, Amuleto, Devocianismo, Simpatias e Magia.

Essas classes subdividem-se em vários grupos:

9.1.1 - NA SUPERSTIÇÃO

Encontramos o escrúpulo de se fazer ou de não se fazer algo que possa redundar em benefício pessoal ou coletivo. O sentimento crença está quase desaparecido. As suas raízes são vastas e históricas.

9.1.2 - NO AMULETO

Descobrimos um misto de superstição e de crendice confundindo-se, criando um sentimento especial de crença que se caracteriza por uma fé esotérica e aleatória.

9.1.3 - NO DEVOCIANISMO

Vemos surgir quase. que exclusivamente o sentimento crendeiro; a superstição aparece de relance, mas ainda assim, é absorvida pela crendice cega, obstinada e poderosamente insidiosa.

9.1.4 - SIMPATIAS

Simpatia 01

Podem-se fazer 4 banhos diferentes contra o mau-olhado:

a) água de mina e sal grosso;
b) banho feito com o cozimento de sempre-vivas;
c) banho feito com o cozimento de arruda e guiné;
d) banho feito com o cozimento de guiné arruda alecrim e alho.

Simpatia 02


Ramo seco de artemísia atrás da porta é providencia que pertence à magia defensiva.

9.1.5 - NA MAGIA

Surge um vasto sincretismo de crenças. Nela encontramos a mistura atabalhoada de várias crenças, de vários sentimentos crendeiros e supersticiosos amalgamando-se, confundindo-se em um corpo único, mas que em cada canto pode ou deixa surgir a sua origem. A fé é vacilante em alguns ramos da Magia; oscila entre um acervo de cerimônias próprias, agregando-as no intuito de se chegar com mais facilidade ao fim que se tem em mira, que quase sempre visa a uma maldade.

Assunto complexo, reúne no seu conteúdo polimorfo qual se tudo que a mente humana conseguiu criar para se distrair, proteger-se ou prejudicar alguém.


10. PROVÉRBIOS

Também conhecidos por: ditado, máxima, adágio, anexim, sentença, rifão, aforismo, etc.
É a expressão do conhecimento e da experiência popular, traduzido em poucas palavras, de maneira ritmada, muitas vezes com alegria e bom humor, uns satíricos, alguns sábios, outros geniais, os provérbios são presentes em todo o planeta, adaptando-se aos países e idiomas, cada um a sua maneira e cultura.

10.1 - ALGUNS PROVÉRBIOS

A cavalo dado, não se olham os dentes.
A esperança é a última que morre.
A galinha do vizinho é sempre mais gorda.
Alegria de pobre só dura um dia.
Amor sem beijo é como macarrão sem queijo.
Amigos, amigos, negócios à parte.
Amigo irado, inimigo dobrado.
A ociosidade é a mãe de todos os vícios.
A pressa é inimiga da perfeição.
Aqui se faz, aqui se paga.
A situação faz o ladrão.
Até os prédios mais altos começam de baixo.
Beleza não põe mesa.
Besteira pouca é bobagem.
Bicho ruim não morre.
Banana madura não fica no cacho.
Beijo de menina é vitamina.
Cada louco com a sua mania.
Caldo de galinha e água benta não fazem mal a ninguém.
Cada macaco no seu galho.
Cada um sabe onde lhe aperta o sapato.
Crie corvos e eles te comerão os olhos.
Cão que late não morde.
De pensar morreu um burro.
De noite todos os gatos são pardos.
Dever é honra, pagar é brio.
De boa intenção o inferno está cheio.
De graça até injeção na testa.
Desgraça pouca é bobagem.
De médico e de louco todos nós temos um pouco.
Deus dá farinha, mas não amassa o pão.
Devagar se vai ao longe.
Deus ajuda quem cedo madruga.
Deixar estar, jacaré, a lagoa há de secar.
De grão em grão a galinha enche o papo.
Diga-me com quem andas e eu te direi quem és.
Dois bicudos não se beijam.
Eleição sem povo, é como omelete sem ovo.
Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.
Eles que são brancos que se entendam.
Em time que está ganhando, não se mexe.
Em terra de cego, quem tem um olho é rei.
Enquanto dormem os gatos, correm os ratos.
É melhor prevenir, que remediar.
É a intenção que faz a ação.
Errar é humano, persistir no erro é burrice.
Falando do diabo aparece o rabo.
Fazer o bem sem olhar a quem.
Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
Falar é fácil, fazer é que são elas.
Feliz no jogo, infeliz no amor.
Figurinha repetida não completa álbum.
Formiga e puxa-saco tem em todo lugar.
Gavião pega pinto, mas respeita galo.
Goiabada sem queijo é que nem abraço sem beijo.
Gato escaldado tem medo de água fria.
Gosto não se discute.
Gosto é igual a cu, cada um tem o seu.
Há males que vêm pra bem.
Homem que apanha de mulher, não se queixa a delegado.
Ir ao vento, perder o assento.
Infeliz do rato que só conhece um buraco.
Ladrão endinheirado não morre enforcado.
Lenha verde é que faz fumaça.
Livros fechados não fazem letrados.
Lobo velho não cai em armadilha.
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.
Mal com ele, pior sem ele.
Madruga e verás, trabalha e terás.
Merda quanto mais mexida mais fedida.
Moringa velha é que esfria a água.
Mulher e cachaça em toda parte se acha.
Não há melhor espelho que amigo velho.
Nada como um dia após o outro.
Não há fumaça sem fogo.
Não anda o carro diante dos bois.
No frigir dos ovos é que a manteiga chia.
Notícia boa, corre; notícia ruim, voa.
Nunca diga desta água não beberei.
O bom filho à casa torna.
O olho do dono engorda o boi.
O hábito não faz o monge.
O justo paga pelo pecador.
Onde o galo canta, aí janta.
Onde comem dois, comem três.
O que arde cura, o que aperta segura.
O que não mata, engorda.
Pai rico, filho nobre, neto pobre.
Pau que nasce torto, morre torto.
Palavra de rei não volta atrás.
Palavras o vento as leva.
Perdido por um, perdido por cem.
Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Pior a emenda que o soneto.
Praga de urubu não mata cavalo magro.
Promessa é dívida.
Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha.
Quem cochicha o rabo espicha.
Quem reclama o rabo inflama.
Quem não arrisca não petisca.
Quem não deve não teme.
Quem diz o que quer, ouve o que não quer.
Quem está na chuva é para se molhar.
Quando a esmola é muita, o santo desconfia.
Quanto mais alto, maior o tombo.
Quem tudo quer, tudo perde.
Quem casa quer casa.
Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.
Rabo de cavalo é que cresce para baixo.
Rapadura é doce, mas não é mole não.
Roupa suja se lava em casa.
Rei morto, rei posto.
Ri melhor, quem ri por último.
Ruim com ele, pior sem ele.
Saco vazio não para em pé.
Sapo de fora não chia.
Saem os gatos, folgam os ratos.
Saiu do espeto, caiu nas brasas.
Santo de casa não faz milagres.
Saudade não mata, mas maltrata.
Se o mundo fosse bom, o dono morava nele.
Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé.
Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
Seguro morreu de velho e a prudência foi ao enterro.
Tal pai, tal filho.
Tapa de amor não dói.
Todos os caminhos levam a Roma.
Tempo é remédio.
Tempo é dinheiro.
Tristeza não paga dívida.
Tudo o que sobe tem que descer.
Uma maçã podre num cesto apodrece todas as outras.
Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto.
Um amigo falso é um inimigo secreto.
Um dia é da caça, outro do caçador.
Um erro não justifica o outro.
Um homem prevenido vale por dois.
Um homem prudente vale mais que dois valentes.
Um chato nunca perde o seu tempo, perde sempre o dos outros.
Vão-se os anéis e ficam os dedos.
Vaso ruim não quebra.
Ver, para crer.
Visita dá duas alegrias: uma quando chega, outra quando sai.
Viver é fácil, saber viver é que são elas.
Zurra o jegue, botam-lhe o cabresto


11. FRASES DE PARA-CHOQUES

Dinheiro não traz felicidade.
Então me der o seu e seja feliz

Em terra de cego quem tem um olho é caolho.
Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça.
Deus pôde fazer o mundo em 6 dias porque não tinha ninguém perguntando quando ia ficar pronto
Mais virgindades já se perderam pela curiosidade do que pelo amor.
O Rico pega o carro e sai ... O pobre sai e o carro pega!!!
No tempo da escravidão baixinho era troco.
Sai da frente que estou sem breque.
Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador...
Em rio de piranha, jacaré usa camisinha...
O dinheiro não traz felicidade, então, de todo o seu pra mim e seja feliz.
Tudo que e bom na vida ou faz mal ou e pecado.
Mulher de amigo meu pra mim é ótimo.
Cada ovo comido é um pinto perdido.
Se andar fosse bom, o carteiro seria imortal.
Sei que o dinheiro não é tudo...tem também o carro, a casa, a televisão...
Rico Saka; Pobre Sakeia; Político Sakaneia!!!
No baralho da vida encontrei apenas uma dama!
Mulher feia é igual a ventania, só quebra galho.
Marido de mulher feia tem ódio de domingo e feriado.
Enviuvei, e casei com a cunhada para economizar sogra.
A "noite" não é uma criança. A "noite" faz uma criança!!!
Turbinado no pé , reduzido no mé , carona só muié.
Os últimos serão os primeiros e os do meio,sempre serão os do meio.
É mais fácil fazer uma menina do que consertar uma mulher
Amor de mulher é REAL
Sorte é de Adão, não tinha sogra nem caminhão
Segredo entre três, só matando dois.
Filho é igual peido: você só aguenta o seu.

Macho que é macho não chupa mel, masca abelha.
O quê o português fala quando vê uma casca de banana no chão?
Ai Jesus, outro tombo!

"As três melhores coisas no mundo:

Dinheiro;
Mulher;
Bicho de pé..." "Por que bicho de pé? Bom, pra que adianta dinheiro e mulher se o bicho não tá de pé???"

Há males que vêm para o mau.
Por falta de roupa nova, passei ferro na véia!
Mulher é que nem lençol: Da cama para o tanque ,do tanque para a cama.
Quem dá aos pobres, tem que pagar o Motel!
O cachorro só é o melhor amigo do homem porque não conhece o dinheiro.
A semelhança entre o entregador de pizza e o ginecologista, é que os dois sentem o cheiro, mas não podem comer!
Se eu tivesse estudado não estaria aqui
Os últimos serão desclassificados!!!
Mulher feia é igual jiló. Pouca gente come.
Visitas sempre dão prazer. Se não na chegada, na saída.

Como é triste a vida do Homem ...
Que tem a vida envolvida com mulher da vida.

Quem gosta de mulher feia é salão de beleza.
Existem duas coisas que não gosto : mulher gelada e cerveja quente...
Não tenho tudo que amo, mas.... DANE-SE!!!!
Por causa da pressa, é que a mosca nasceu sem osso.
Lenha verde e mulher véia chora, mas pega fogo.
Se correr o guarda multa, se parar o banco toma.



12. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

MIRADOR, Enciclopédia Internacional. Folclore – pág. 4739-4749, Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda. – São Paulo/Rio de Janeiro – 1987.

DR. ECO E COMPANHIA, Revista. Folclore – Música Folclórica, Danças, Festas, Folguedos, Histórias que o povo conta, Lendas, Mitos, Fábulas e Adivinhações – pág. 02-16, Editora Paulus – São Paulo - 1986.

Fonte: analgesi.co.cc

Folclore

O que é folclore?

A palavra surgiu a partir de dois vocábulos saxônicos antigos. "Folk", em inglês, significa "povo".

E "lore", conhecimento. Assim, folk + lore (folklore) quer dizer ''conhecimento popular''.

O termo foi criado por William John Thoms (1803-1885), um pesquisador da cultura européia que em 22 de agosto de 1846 publicou um artigo intitulado "Folk-lore".

No Brasil, após a reforma ortográfica de 1934, que eliminou a letra k, a palavra perdeu também o hífen e tornou-se "folclore".

Folclore é o conjunto de todas as tradições, lendas e crenças de um País.

O folclore pode ser percebido na alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de uma nação.

Segundo a Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore em 1951, "constituem fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular, ou pela imitação".

O folclore é o modo que um povo tem para compreender o mundo em que vive.

Conhecendo o folclore de um País, podemos compreender o seu povo. E assim conhecemos, ao mesmo tempo, parte de sua História.

Mas para que um certo costume seja realmente considerado folclore, dizem os estudiosos que é preciso que este seja praticado por um grande número de pessoas e que também tenha origem anônima.

Para se determinar se um acontecimento é folclórico, ele deve apresentar as seguintes características:

Tradicionalidade: vem se transmitindo geracionalmente.
Oralidade: é transmitido pela palavra falada.
Anonimato: não tem autoria.
Funcionalidade: existe uma razão para o fato acontecer.
Aceitação coletiva: há uma identificação de todos com o fato.
Vulgaridade: acontece nas classes populares e não há apropriação pelas elites.
Espontaneidade: não pode ser oficial nem institucionalizado.

As características de tradicionalidade, oralidade e anonimato podem não ser encontrados em todos os fatos folclóricos como no caso da literatura de cordel, no Brasil, onde o autor é identificado e a transmissão não é feita oralmente.

O folclore inclui mitos, lendas, contos populares, brincadeiras, provérbios, adivinhações, orações, maldições, encantamentos, juras, xingamentos, gírias, apelidos de pessoas e de lugares, desafios, saudações, despedidas, trava-línguas. Também inclui festas, encenações, artesanato, medicina popular, danças, música instrumental, canções (inclusive as baladas e canções de ninar).

A lista do que é folclore ainda inclui gestos, a maneira de chamar a atenção que usam os vendedores de rua, os símbolos, as receitas de comidas, os motivos dos bordados, alguns tipos de cercas e de casas e até mesmo maneiras de chamar e dar comandos aos animais, porque todas essas manifestações são muito próprias de cada cultura e diferem de região para região.

22 de Agosto - Dia do Folclore

Folclore é o conjunto de todas as tradições, lendas e crenças de um País.

O folclore pode ser percebido na alimentação, linguagem, artesanato, religiosidade e vestimentas de uma nação.

Segundo a Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore em 1951, "constituem fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular, ou pela imitação".

Em 22 de agosto, o Brasil comemora o Dia do Folclore. A data foi criada em 1965 através do Decreto Federal nº 56.747, de 17 de agosto de 1965.

No Estado de São Paulo, um decreto estadual instituiu agosto como o mês do folclore.

Fonte: www.bibliotecavirtual.sp.gov.br

Folclore

CONCEITO DE FOLCLORE

Quando pesquisadores que estudavam tradições populares aceitaram - no século passado - a palavra folk-lore para denominar a sua área de estudos pensavam que a palavra - criada artificialmente por William John Thom em 1846 - sintetizava o seu conceito e, portanto, estaria isenta de controvérsias.

A palavra folclore, grafada inicialmente folk-lore fora formada a partir das velhas raízes saxônicas em que folk significa povo e lore saber. Assim, segundo o seu criador, a nova palavra significaria sabedoria do povo.

Logo, começaram as discussões. Questionou-se o sentido de saber, os seus limites. Para alguns, a cultura material estava excluída - artesanato, técnicas populares como a culinária, a arquitetura, a confecção de instrumentos musicais estariam fora do conceito e do campo de estudo.

Para outros, a cultura material somente estaria integrada ao folclore quando estivesse ligada à cultura não-material - estudos da música folclórica incluiriam os instrumentos musicais; o estudo das festas tradicionais incluiria a sua culinária etc..

O outro foco de discussão é povo e popular, que têm muitas acepções. Originalmente, o sentido de povo, no conceito de folclore, indicava os integrantes das camadas sociais mais baixas das sociedades camponesas tradicionais.

Não existiria um folclore urbano, já agora aceito. A cultura dos povos primitivos - entre eles os nossos índios - estava também fora desses estudos.

Por fim, os limites e sentidos semânticos da palavra povo e a inserção da idéia de sociedade de classes, implícita no conceito de folclore, atrairia para a discussão intelectuais marxistas, com análises, posições, idéias e teorias próprias, em geral divergentes do que se havia estabelecido, aumentando a controvérsia.

No Brasil, durante muitos anos, prevaleceu o que ficou estabelecido na Carta do Folclore Brasileiro, adotada no I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em 1951. Para Renato Almeida, a Carta foi uma audaciosa tentativa de sistematização e enfocou corajosamente a problemática da conceituação do folclore.

Ele destaca, porém, que a Carta, ainda assim, estava cheia de omissões, imprecisões e ambiguidades. Tais imprecisões e ambigüidades permitiram a sua reinterpretação ao longo desses anos com a expansão dos limites conceituais, sem reabertura dos debates teóricos.

A Carta do Folclore Brasileiro estabelecia o seguinte: “...reconhece o estudo do Folclore como integrante das ciências antropológicas e culturais, condena o preconceito de só considerar como folclórico o fato espiritual e aconselha o estudo da vida popular em toda sua plenitude, quer no aspecto material, quer no aspecto espiritual”.

“Constituem o fato folclórico as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular e pela imitação e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam ou à renovação e conservação do patrimônio científico e artístico humanos ou à fixação de uma orientação religiosa e filosófica.

“São também reconhecidas como idôneas as observações levadas a efeito sobre a realidade folclórica, sem o fundamento tradicional, bastando que sejam respeitadas as características de fato de aceitação coletiva, anônima ou não, e essencialmente popular”.

A releitura da Carta, realizada em 1995, durante o VIII Congresso Brasileiro de Folclore, para a sua atualização, considerando a incorporação das contribuições de estudos das ciências humanas e de letras, bem como a adoção de novas tecnologias, especialmente na comunicação, e das transformações da sociedade brasileira, decidiu re-conceituar, considerando que: “Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social.

Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade.

Diante da nova conceituação, várias características que haviam sido atribuídas ao folclore desaparecem, ou são relativizadas:

a) o anonimato - isto é, o fato folclórico não teria autor conhecido. Esta característica colocada em termos absolutos tem sido progressivamente relativizada. Deixava de fora o artesanato e a poesia dos repentistas, cujos autores são identificados no ato da sua criação.

b) aceitação coletiva - isto é, que seja do gosto, do agrado coletivo, de prática generalizada. Esta característica tem sido usada na reinterpretação do anonimato. Para alguns folcloristas, a criação de um autor conhecido passa a ser folclórica quanto há aceitação coletiva, quando passa a ser considerada patrimônio comum do grupo e ocorrem adições, variações e reinterpretações. É também a aceitação coletiva que torna possível considerar folclóricos os fatos originários da cultura de elite que tenham sido aceitos e reinterpretados pelo povo.

c) transmissão oral - o aprendizado no folclore ocorreria, exclusivamente, por esta forma de transmissão.
Tomada em termos absolutos, esta característica também exclui o artesanato e as técnicas populares.
Exclui ainda a literatura de cordel e outras manifestações escritas. Renato Almeida considera que a transmissão oral deve ter um sentido simbólico, por ela somente poder-se realizar no que diz respeito à palavra, deixando de lado outros aspectos da cultura, onde o aprendizado se dá de outras formas. Estudos, no âmbito da literatura popular, vêm redimensionando o conceito de oralidade, a partir da constatação da existência de matrizes escritas na produção oral, isto é, o que se presumia que houvesse sido transmitido oralmente, teve uma fase de transmissão através da escrita. Por outro lado, tem sido documentado, também, a escrituração da produção oral e até mesmo o aproveitamento deste material escrito em novas produções orais.

d) antiguidade - ser antigo foi condição do fato folclórico, para folcloristas mais tradicionalistas. A sua significação era entendida ao pé da letra: velho, vetusto, entrado em anos. Como lembra Paulo Carvalho Neto, antiguidade chegou a ser sinônimo de ciência folclórica, negando-se o reconhecimento de novos fatos folclóricos - “folclore nascente”, no dizer daquele estudioso. Aceitar a condição da antiguidade é negar às pessoas do povo a capacidade criativa. Certamente, ninguém duvidará que um escritor erudito crie um conto ou um poema novo. Ao criador popular, se deveria negar tal possibilidade?

e) tradicionalidade e dinamicidade - é talvez a característica básica dos fatos folclóricos, é a linha divisória que se coloca entre o popular urbano, como as canções populares que tocam no rádio, e o folclórico.
O entendimento do tradicional é também sujeito a discussões. Quando se coloca o que é tradicional em oposição ao que é novo, chega-se à negação da dinamicidade. A dinâmica cultural, a evolução constante a que todos os fatos culturais estão sujeitos não permite a admissão do entendimento do folclore meramente como uma sobrevivência do passado. Há fatos novos no folclore, pela criação contemporânea do povo e folclorização de fatos ou manifestações eruditos que estão merecendo a aceitação coletiva. Por outro lado, há fatos tradicionais que não são folclóricos - como certas tradições cívicas, religiosas, etc. A tradicionalidade é entendida hoje como uma continuidade, onde os fatos novos se inserem sem uma ruptura com o passado, mas que se constroem sobre esse passado - são, por exemplo, materiais novos com que se refazem peças de vestuário cuja matéria prima tornou-se escassa ou inacessível; são gírias que se agregam a velhos contos; são lendas reinterpretadas; é o automóvel e o avião substituindo o cavalo e a carruagem em narrativas tradicionais; é a fotografia substituindo a escultura do ex-voto etc.

f) espontaneidade - os fatos e manifestações folclóricos nascem da comunidade, não são institucionalizados, não surgem de decretos e portarias; não se aprende nas escolas através de um exercício sistemático, mas com a convivência, de forma quase inconsciente e progressiva.

g) funcionalidade - os fatos folclóricos integram sistemas culturais, exercendo funções e, portanto, não se constituindo em traços isolados. O fato folclórico deve ser entendido na configuração do social, do econômico, do político etc.

f) regionalidade - a manifestação folclórica é localizada, é própria de uma comunidade, de uma localidade, de uma vila, de um povoado. Às vezes, o mesmo tipo de manifestação pode ser encontrado em localidades diferentes e distanciadas, mas a documentação e análise do fato vai mostrar que se trata de uma variante, isto é, manifestações que tiveram origens comuns, mas que foram sendo recriadas e/ou reinterpretadas em cada lugar e se diferenciaram.
O folclore é universal e tradicional em seus temas e motivos, que devem ser considerados invariantes. É regional e atualizado na ocorrência das variantes, que são o resultado da criatividade do portador do folclore e de sua comunidade, como tem sido demonstrado nos estudos comparativos do romanceiro e do conto popular por Bráulio do Nascimento.

LEITURAS RECOMENDADAS

ALMEIDA, Renato. 1957. A inteligência do Folclore. Rio de Janeiro: Livros de Portugal.
BARRETO, Luiz Antônio. 1994. Um novo entendimento do Folclore e outras abordagens. Aracaju:
Sociedade Editorial de Sergipe.
BENJAMIN, Roberto. 1989. Folguedos e danças de Pernambuco. Recife: Fundação de Cultura Cidade do
Recife.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. 1982. O que é o folclore. São Paulo: Brasiliense (Coleção Primeiros
Passos).
CARNEIRO, Edison. 1950. Dinâmica do Folclore. Rio de Janeiro: s. ed.,
CARVALHO-NETO, Paulo de. 1977. Diccionario de Teoria Folklórica. Guatemala: Universidad San
Carlos.
COMISSÃO NACIONAL DE FOLCLORE. 1995. Carta do Folclore Brasileiro. Salvador: CNF.
NASCIMENTO, Bráulio do. Literatura oral: limites da variação. Anais do IX Encontro da ANPOLL (vol.
Letras). Caxambu-MG: ANPOLL.

Roberto Benjamin

Fonte: www.unicamp.br

Folclore

O QUE É FOLCLORE?

1. QUANDO E ONDE APARECEU A PALAVRA FOLCLORE?

No dia 22 de agosto de 1846, em Londres, foi criada pelo arqueólogo inglês William John Thoms, que a propôs à revista The Atheneum, para designar os registros dos cantos, das narrativas, dos costumes e usos dos tempos antigos.

Thoms escolheu duas velhas raízes saxônicas: Folk, que significa povo, e Lore, sabe, formando, assim, Folk-Lore, sabedoria do povo.

Com o decorrer do tempo, as duas palavras foram grafadas sem o hífen, formando uma só: Folklore, como foi usada no Brasil até que a reforma ortográfica suprimiu a letra K, substituída, no caso, pela letra C, derivando a forma Folclore.

2. O QUE É POVO?

A palavra povo, que usamos a toda hora, precisa ser bem compreendida, pois tem diversos sentidos, de que salientaremos os principais. Povo é a gente que, embora, de várias raças, possui um modo de vida comum e habita um mesmo território. Confunde-se com a idéia de nação. Assim nós falamos do povo brasileiro, do povo francês ou do povo alemão. Assim dizemos que os deputados são os representantes do povo. Povo pode ser também uma aglomeração de gente, quando se diz que havia muito povo numa festa ou numa manifestação. E, por fim, povo é gente que pertence s camadas menos favorecidas, econômica, social e culturalmente, da sociedade, por exemplo, quando se diz que o povo fala errado.

Neste último sentido, é que entendemos povo (em inglês folk) na concepção do folclore, a sabedoria do povo. E a expressão se usa também para indicar os grupos em estado mais simples e natural, de vida rudimentar. Os nossos índios, por exemplo. Também estes nos interessam, pois muitos autores os fazem portadores de folclore.

3. QUAL É A SABEDORIA DO POVO?

É tudo quanto o povo faz, pensa e sente. É a cultura do povo, cultura de folk, variável em suas manifestações conforme herança de conhecimentos transmitida pelas gerações anteriores. É o comportamento, a atitude do homem diante de um fato, de uma pessoa, de um animal. Esse comportamento resulta de um conjunto de crenças e práticas que se ligam às atividades, às técnicas, às normas sociais.

4. QUAL É O CONTEÚDO DA SABEDORIA DO POVO?

O Folclore, sendo a sabedoria do povo, a cultura do povo, abrange todos os campos da vida humana, incluindo seus mitos e lendas, sua estória, parlendas, adivinhas e provérbios, seus contos e encantamentos, suas juras, pregões e xingamentos e gestos, e também suas danças, seus teatros, suas artes, seus instrumentos e cantigas, suas festas tradicionais, suas crenças e crendices, sua magia, seus tabus e superstições, sua medicina, seus rezadores e benzedores, suas trovas, desafios e romances, suas orações, seus brinquedos e seus jogos, suas técnicas populares, suas rendas, bordados, traçados e cestarias, e sua cozinha.

5. ONDE ESTÁ O FOLCLORE?

Está e se desenvolve entre o povo e nas sociedades naturais como entre índios, esquimós, pigmeus, aborígines. Mas, não permanece nesses meios, sobe também à sociedade, influi nas camadas eruditas e ainda se projeta, como inspiração, nas letras e nas artes.

Como influência do Folclore nas camadas eruditas, podemos citar, dentre outras manifestações, as superstições (pessoais ou de classe, como as dos jogadores – de futebol e de carta – motorista, aviadores, etc.), ora praticadas publicamente, ora em reserva. Entre as que não impõe qualquer pejo ao portador, destacamos o horror ao número 13, às sextas-feiras, ao gato preto, à coruja, o bater em madeira quando nomeadas certas pessoas que acredita dêem azar, fazer figa contra mau-olhado, entrar com o pé direito na sala de aula em dia de exame, em avião, etc. Afora as superstições, que são incontáveis, vicejam francamente na sociedade práticas religiosas de cunho fetichista (homenagem à Iemanjá, doces de São Cosme e Damião) e uso intensivo de talismãs e amuletos.

Como fonte inspiradora, tem o Folclore vivificado obras literárias e artísticas. O movimento da revalorização da cultura popular teve início no começo do século passado, com o romantismo, e assim, velhos temas musicais, motivaram sinfonias e concertos, e as estórias, ou usos e costumes, incorporados a romances e ensaios. Além do emprego desses contos e melodias na literatura e na música, os estudiosos pesquisaram as suas raízes, os caminhos e meios de transmissão, chegando, por vezes a marcar como seus antepassados raças muito antigas e já hoje extintas.

No Brasil, o aproveitamento do Folclore começou no speculo passado em obras de José de Alencar e Gonçalves Dias, na música de Alexandre Levy e Alberto Nepomuceno, que brilhantes nomes do século XX iriam continuar. Também as artes plásticas, teatro e cinema se voltam para essa fonte de beleza inesgotável.

6. COMO SABER SE UM FATO É FOLCLÓRICO?

O fato folclórico tem uma série de características próprias:

a) a primeira é o anonimato, isto é, não tem um autor, foi feito por alguém, pela primeira vez, mas o nome desse alguém, desse autor, se perdeu através dos tempos, despersonalizando-se, assim a autoria. A estória de Dona Baratinha que se considerou muito rica ao encontrar um vintém e, por isso, saiu à procura de quem com ela desejasse casar-se, - nos parece, pelos seus elementos, essencialmente brasileiros, pois o noivo é o nosso conhecido João Ratão, que no dia do casório, por gula, morre num caldeirão que continha nossa feijoada. Mas, já havia sido registrada em uma coleção de estórias da Índia, há quase dois mil anos. Quem foi seu autor? Ninguém sabe. E quem inventou os brinquedos de roda com suas cantigas, as danças, as adivinha, as trovas, os ditados? Quem disse, pela primeira vez quem quer vai, quem não quer manda?

b) a segunda característica é a aceitação coletiva, é a aceitação do fato pelo povo e é essa aceitação que despersonaliza o autor. O povo, aceitando o fato, toma-o para si, considerando-o como seu, e o modifica e o transforma, dando origem a inúmeras variantes. Assim, esta estória é contada de várias maneiras, uma cantiga tem trechos diferentes na melodia, os acontecimentos são alterados e o próprio povo diz: “quem conta um conto acrescenta um ponto”. A mesma coisa acontece com as danças, mas suas danças não têm regulamento, não são codificadas, tanto pode o conjunto de dançadores dar 3 voltas completas, como apenas uma, a indumentária tanto pode ser rica e colorida como simples e ingênua. Há, contudo, uma certa estrutura que determina aquela indumentária, aquela cerâmica e as modificações não invalidam o modelo.

c) a terceira característica é a transmissão oral, isto é, a que se faz de boca em boca, pois os antigos não dispunham de outros meios de comunicação. Não havia imprensa, não havia, portanto, nem livros, nem jornais, todos os acontecimentos eram transmitidos oralmente. Essa forma de transmissão, a oral, ainda persiste em meios primitivos e no interior de nosso país, nos povoados distante, nas vilazinhas esquecidas, nos bairros longínquos. Só se aprende, nessas circunstâncias, por ouvir dizer e, no que se refere à técnica, feitura de aparelhos rudimentares, de rendas, de trançados, se aprende também por imitação, dispensando, muitas vezes, o ensinamento oral.

Na transmissão oral vive toda a história daquele grupo, daquele povo, e, em qualquer das modalidades particulares (lendas, contos com preceitos morais e normas de procedimento, narrativas imaginosas sobre a natureza e o sobrenatural, cantos, provérbios, parlendas, adivinhas, brinquedos, poesia, etc), em conexão com o objetivo, facilita a apreensão e a conservação. A aquisição de conhecimento dá a cada qual a possibilidade de difundi-lo, de propagá-lo, cabendo, evidentemente, aos bem dotados, a responsabilidade maior nas cantorias, nas danças e nas técnicas que se fixam pela prática freqüente, comunicação do exemplo e imitação espontânea.

d) a quarta característica é a tradicionalidade, não no sentido de um tradicional acabado, perimido, coisa passada, sem vida, mas de uma força de coesão interna que define o modelo do conglomerado, da região, do povo, e lhe dá uma unidade. Sem se poderem valer de outros expedientes, como professores, escolas, imprensa, as pessoas do povo se valem da tradição, veiculada pela transmissão oral, a fim de resolver suas situações, buscando na lição vinda do passado o que precisam saber no presente, já que suas possibilidades as endereçam mais à sabedoria constituída que à inventiva. A tradição, que é o modo vivo e atual pelo qual se transmitem os conhecimentos, não ensinados na escola, rege todo o saber popular, seja o desenvolvimento de um jogo, de uma dança, de uma técnica, seja uma atitude ante qualquer agente que exija definição de comportamento.

Essa força, que age no sentido de garantir a permanência dos valores de uma cultura, não segue seu destino nem cumpre sua missão sem lutas e empecilhos. Elementos de outras culturas a submetem a pressão, e isto provém de não ser absolutamente fechado o campo da cultura, antes é um campo aberto onde se agitam as influências do próprio meio e as externas. Somente a inércia poderia retardas essas modificações, mas a cultura é viva, é dinâmica, e sofre, evidentemente, impactos em todos os setores.

e) a quinta característica é a funcionalidade. Tudo quanto o povo faz tem uma razão, um destino, uma função. O povo nada realiza sem motivo, sem determinante estritamente ligada a um comportamento, a uma norma psico-religiosa-social, cujas origens talvez se perderam nos tempos. A dança, por exemplo, não é apenas uma repetição de gestos com feição harmoniosa. Inicialmente teria tido um destino, seja decorrente de rito religioso, seja de cerimônia do grupo, e, assim, deve ser vista como parte de um todo, da cultura do povo, e uma expressão a ser analisada como integrante de um contexto.

Por que o povo canta? Canta para rezar, canta para adormecer a criança, canta para trabalhar, canta para festejar as colheitas e os acontecimentos, canta para ajudar a morrer e para enterrar seus mortos. Mas, não dá concertos, recitais, audições com os eruditos; as suas festas têm épocas marcadas, com seus cantos e danças próprios. Assim, o Natal é comemorado com grupos de Pastorinhas, Bailes Pastoris e Folias de Reis; o Bumba-meu-boi aparece em datas distintas, variando conforme a região; Congadas e Moçambiques louvam a Senhora do Rosário e São Benedito, e ainda as Danças de São Gonçalo e de Santa Cruz, com destino certo.

7. DEVEMOS ESTUDAR O FOLCLORE?

Sim, o estudo do Folclore é o estudo da própria alma de um país, é o estudo do modo de ser da gente do povo, das suas maneiras de pensar, de agir e de sentir, é o estudo da feição nacional nas suas bases mais profundas e mais características. É a cultura de folk, é a mentalidade do povo, é a lição que nos vem transmitida através das gerações, como todo saber empírico das gentes humildes que lastreiam a formação da nacionalidade, para a qual, no Brasil, contribuíram portugueses, índios e negros, cada um com seus usos, práticas e costumes.

Essa sabedoria não é uniforme, não é igual em todo o território, variando de um Estado para outro, pois sofre o impacto das heranças étnicas (às quais se juntam as contribuições de outras raças vindas com as correntes imigratórias) e das influências do meio, consideradas as exigências que as condições fisiográficas impõem ao homem, imprimindo normas e práticas indispensáveis à sua sobrevivência. Variam, assim, os modos de ser das gentes da beira-mar, do planalto, da montanha e do sertão, que nos tipos de moradia, de alimentação, de técnica, quer na feição espiritual. Não se viverá ao sul do País com o temor do boto, nem não centro sob o encanto da sereia, nem na praia se cultuará o Rei da Mata. O lavrador se cercará de crendices e superstições para o bom êxito de suas lavouras, outras serão as do pescador, do boiadeiro, do tropeiro, do garimpeiro.

Se não conhecemos a mentalidade do povo, toda reforma ou regulamentação em qualquer setor da vida humana será vazia e sem possibilidade de êxito. No campo de medicina, da religião, da agricultura, da técnica, ou em qualquer outro, a sementeira germinará se anteriormente o terreno foi estudado, conhecido, preparado.

8. NO QUE PODE O FOLCLORE SER UTILIZADO NA ESCOLA?

Muitas ciências, disciplinas e artes estão intensamente ligadas ao Folclore, e, assim, a escola primária dele pode e deve servir-se, como excelente maio de transmissão de conhecimentos, ao mesmo tempo que revelador da cultura do povo.

A sua maior aplicação será no setor de Linguagem oral e escrita, com a amplitude dos contos, nos objetivos éticos, morais e estéticos a serem por meio deles atingidos. A criança é conduzida a um mundo de fantasias, no qual o espírito repousa e se encanta. O conto é um veículo educativo, usado nas mais antigas civilizações e do mesmo modo entre os povos naturais, para realce dos feitos dos seus heróis e das virtudes de seus antepassados. Os provérbios, que representam uma condensação de sabedoria, as adivinhas, que são testes de conhecimentos, as parlendas, os jogos, os brinquedos, recreiam, estimulam as relações sociais e reafirmam a unidade grupal.

Na História do Brasil, na Geografia e nas Ciências, as lendas relativas à escravidão, mineração, bandeiras, heróis, os tipos brasileiros e seus traços culturais, os ambientes em que vivem, as serras e lagoas e mares com seus mitos, animais, vegetais e minerais.

Em Matemática, inúmeras fórmulas e outras contribuições, em parlendas ou poesias e jogos; no Desenho, Trabalhos Manuais, Artes e Artesanatos, o uso do material loca, com revalorização de seus usos e seus motivos típicos ornamentais; Música, as nossas melodias, ritmos e instrumentos; ainda a dança e o teatro, com apresentações da beleza que possuímos nesses campos.

O aproveitamento do Folclore na escola primária é das mais válidas contribuições, pela intenção formativa e pelo caráter de nacionalidade que imprime.

No ensino médio e no secundário, passa o Folclore ao plano informativo, numa prospecção profunda da cultura, que levará à conclusão consciente de que “toda cultura tem uma dignidade e um valor que devem ser respeitados e protegidos; em sua fecunda variedade, em sua diversidade e pela influência recíproca que exercem umas sobre as outras, todas as culturas fazem parte do patrimônio comum da humanidade”.

Na Universidade, o Folclore deve ser estudado como disciplina autônoma, através de suas implicações antropológicas, sociais, psicológicas e estéticas, para o conhecimento, em profundidade, da cultura popular.

No Brasil é antiga a lição do aproveitamento do Folclore no ensino. Já nas primeiras décadas de nossa vida, os jesuítas o aplicaram com extrema sabedoria na catequese, utilizando as danças e os cantos indígenas, e encenando seus autos. Anchieta, nosso primeiro mestre, nos legou esse exemplo, nos campos de Piratininga.

A cultura do povo precisa ser estudada, porque é objetivo de todos os governos dar ao povo melhores condições de vida. Ao comentar a revolução dos nossos tempos, da qual um aspecto é “a luta pelo domínio, tanto quanto possível científico, do destino humano”, Gilberto Freyre considera esse domínio de modo algum absoluto, “pois deve conciliar-se com o daqueles valores de sempre, às vezes superiores à própria ciência e guardados pelos clássicos, pelas igrejas e pelo próprio folclore”.

Curupira o Patrono do Festival do Folclore

Folclore

Figura central nos Festivais de Olímpia desde 1979, quando através de Decreto do Executivo Municipal foi instituído como Patrono do Festival do Folclore, o Curupira - entidade mística - constitui-se hoje em personagem a merecer uma reflexão especial.

Importa destacar em primeiro plano tratar-se o Curupira de um Mito, entre outros que povoam o rico Folclore Brasileiro. Isto significa que o Curupira não tem existência real, objetiva, isto é, não corresponde a qualquer entidade que tenha existido historicamente. Trata-se de uma criação da mente pré-lógica, pré-científica, que não dispondo de instrumentos racionais para operacionalizar as necessárias explicações sobre o universo natural, elabora de modo fantasioso sobre o real, povoando-o de entidades fantásticas.

O Curupira ora é apresentado como um menino de cabelos avermelhados, corpo peludo e dentes verdes, ora como um anão, como um caboclinho, como um curumim, como um duende com orelhas-de-abano, sem cabelos e com o corpo coberto de pêlos verdes, entre outras configurações.

Entretanto, alguns aspectos coincidentes surgem como especialmente relevantes: sempre o Curupira apresenta os pés voltados para trás e atribui-se-lhe a missão de protetor da flora e da fauna utilizando-se, para bem cumprir sua tarefa, dos mais variados artifícios: engana os caçadores, persegue-os e até vinga-se deles quando observa que matam animais pelo simples prazer da caça; bate nos troncos das árvores quando presente a aproximação de tempestade para alertá-las quanto à intempérie que se aproxima.

Este pequeno contexto envolvendo o personagem Curupira revela já um dado significativo: o homem primitivo era consciente dos diferentes planos de vida, respeitava-os e pressentia a necessidade de sua preservação. Assim como elaborou diferentes explicações para a vida e a morte do ser humano, buscou forças sobrenaturais que resguardassem a vida animal e a vida vegetal, essenciais à sua própria sobrevivência. Desta forma, agindo em função de uma crença numa entidade fantástica, protetora de plantas e animais, o homem preservou seu meio ambiente.

Desafiar o Curupira é perigoso, é preciso respeitar o seu domínio: caçar, só por necessidade; as árvores devem ser protegidas.

Este tipo de explicação fantasiosa, envolvendo um personagem imaginário, constitui hoje, para a nossa civilização, apenas mais um mito do Folclore Nacional. É objeto de pura curiosidade e não de crença para o homem culto, conhecedor dos princípios científicos e das leis que regem o universo natural.
Todavia, urge não desdenhar o que de pueril e de pré-lógico se constata no mito ora exposto.

A Ciência contemporânea, embora com inestimável acervo de conquistas em benefício da humanidade oferece, por outro lado, um grande risco de retrocesso: a destruição do meio ambiente, seja a longo prazo através da progressiva poluição, seja a curto prazo através do uso não-pa-cífico da energia nuclear.

Que Curupira inventará o Gênio da Ciência agora para nos proteger a todos nós: homens, animais e plantas da destruição não desejada mas prevista como possível?

Mais uma vez, somente do próprio homem pode nascer a esperança e a solução.

O despertar para os valores essenciais vida e à convivência humana pacífica, pela fé num poder maior e transcendente, a fim de que o homem não destrua o que não criou: a Terra em que vivemos. E necessário que o Curupira renasça simbolicamente como a mensagem de um povo que diz Não à destruição.

Parabéns ao Professor José Sant'anna, incansável batalhador não só na pesquisa do folclore brasileiro como também na realização dos magníficos Festivais do Folclore de Olímpia, pela brilhante iniciativa que levou a transformar o Curupira no Patrono de todos os Festivais (Decreto n.° 1286, de 01/08/79) e à criação do Troféu Curupira (Decreto n.° 1313, de 22/08/79), que visa a distinguir pessoas que vêm colaborando na concretização de tais Festivais.

PALMIRA MARCELINA DEGASPERI RODRIGUES

MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

Desde sempre a humanidade se atormenta com as clássicas indagações pra as quais não houve e ainda não há respostas satisfatórias: de onde, por quê e para quê viemos? Para onde vamos?

Diante dos fenômenos da vida que lhe eram totalmente inexplicáveis, a criativa imaginação do homem primitivo atribuiu a autoria e o comando do universo, bem como sua própria existência nele, a fantásticas criaturas, a entidades sobrenaturais (a que futuramente se chamariam mitos).

Entre nós, é claro que os primitivos habitantes das terras que posteriormente se denominariam brasileiras, quais sejam, os índios, também daquele modo agiram ao se defrontar com o mesmo drama existencial.
Destarte, a exemplo de outros povos, também eles povoaram as matas, os rios, as montanhas, o mundo, com entes sobrenaturais, dando nascimento, assim, aos mitos brasileiros (juntamente com as duas outras culturas que depois formariam a brasileira).

O chamado pensamento mítico representaria, então, o estágio infantil da mentalidade humana na sua sempre ascensional trajetória evolutiva.
Lévi-Strauss, no entanto, em “O Pensamento Selvagem”, delineou uma “analogia formal” entre o pensamento mítico e o pensamento científico, argumentando que aquele seria a “metafórica expressão” deste. A civilização, desse modo, teria sido edificada através dos mitos.

Mesmo na atualidade, a despeito de ter a ciência progredido e elucidado alguma parte dos muitos mistérios da vida que assombram a humanidade, os mitos continuam a surgir e a renascer nas reminiscências populares, haja vista que a mencionada perplexidade que acometia o homem primitivo representava não só a crise existencial da humanidade diante do mundo, mas também a do homem diante de si próprio. Essa, aliás, certamente permanecerá, em maior ou menor grau.

Os segredos da alma humana, os sentimentos, medos, desejos, paixões, raivas, a luta contra selvagens instintos (o lobisomem que habita o homem), enfim, tudo aquilo que se encontra no interior da alma humana, e que a razão não é capaz de explicar, exterioriza-se e reflete-se nos mitos.

MITO – CONCEITO

Tendo em vista o que expusemos no tópico anterior, poderíamos conceituar “mito” como sendo configurações de entes fantásticos e sobrenaturais produzidas pelo imaginário popular em virtude da necessidade de se buscar explicação para a existência do universo e da própria humanidade, bem como para o que se encontra no interior da alma humana sem elucidação racional.
A essa motivação não se pode deixar de acrescentar também o prazer e a necessidade do homem de contar e ouvir histórias, pois o sonho e a fantasia, com efeito, fazem parte de seu espírito.

Ressalte-se, ainda, que mito também pode se referir a objetos, lugares e épocas, tendo ainda o sentido de utopia, segundo o Aurélio.
Exemplifiquemos parte de tal acepção com o chamado “Mito da Idade do Ouro”, “o mito da perfeição do princípio”, presente em quase todas as mitologias, segundo o qual no início dos tempos, quando da criação do homem, este vivia usufruindo uma felicidade plena.

O “Mito da Idade do Ouro” é também “futurizado” de acordo com algumas crenças no “fim dos tempos”. Um novo mundo, com uma nova humanidade, então, surgirá (os mortos também voltarão), para viver uma vida paradisíaca, sem dores, sem sofrimento, sem tristeza, sem morte.

Vejamos mais alguns conceitos de mito:

Consoante o escólio de Leda Tâmega Ribeiro (“Mito e Poesia Popular”), “a palavra mythos, que originariamente significava ‘fábula’, ‘conto’, ‘fala’, ou simplesmente ‘discurso’, passou a ser usada em oposição a logos e história, vindo a denotar, então, ‘aquilo que não pode realmente existir”.
“(...) A palavra grega mythos referia-se fundamentalmente à atividade de contar e não ao conteúdo daquilo que é contado”.

O referido termo, prossegue a autora citando Mircea Eliade, “tornou-se em nossos dias, de certa forma, equívoco, podendo tanto significar ‘ficção’ ou ‘ilusão’, como ‘tradição sagrada’, ‘revelação primordial’ ou ‘modelo exemplar’”
“O mito é narração alegórica, que em geral procura explicar acontecimentos anteriores aos fatos históricos” (Veríssimo de Melo, “Folclore Brasileiro: Rio Grande do Norte”).

“Mito é uma narrativa de um fato que transcende a natureza humana. Seus personagens são entes sobrenaturais (...) Nasceu da necessidade do homem de explicar o mundo em que vivia e de sua própria presença nele (...) narra as façanhas de entes sobrenaturais, graças aos quais passou a existir uma realidade ou parte dela, como, por exemplo, uma ilha, uma espécie animal, vegetal ou mineral, um comportamento humano, uma instituição, etc.” (Antônio Henrique Weitzel, “Folclore Literário e Lingüístico”).

“O mito na história da civilização é um conjunto de lendas (grifamos) e narrações que referem personagens e acontecimentos anteriores aos fatos históricos conhecidos e que, por isso mesmo, se entretecem com episódios maravilhosos e fantásticos” (Luís da Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”).

Vale lembrar que atualmente o termo é também usado para tratar do fenômeno de popularidade criado em torno de astros e estrelas do cinema e da televisão, a que alguns chamam “mitos fabricados”.

MITOS BRASILEIROS

Os mitos que se configuraram no Brasil, a exemplo do que se deu com o próprio povo brasileiro, ostentam também a forte marca da miscigenação, pois são eles provenientes de diversas culturas, sendo três suas fontes primordiais: os portugueses, os índios e os negros.

Para a grande maioria dos autores, foi prevalente a influência do colonizador português, que trouxe consigo mitos de quase todo o acervo europeu.
Raros, então, os mitos que por aqui se conservaram “originais” e nenhum o que se manteve imune à influência lusitana.

Em contrapartida, também os Lobisomens e Mulas-sem-cabeça que os portugueses para cá trouxeram adquiriram nestas terras cores locais e tropicais, “abrasileirando-se”.
Em segundo posto, na ordem de influência apontada pela maior parte dos folcloristas, encontram-se os de origem indígena, os primeiros a serem catalogados pelos portugueses, logo se confundindo os mitos de ambas as origens.

Os negros escravos, naturalmente, também para cá vieram acompanhados de seus mitos, os quais tinham grande força religiosa, requerendo rituais, danças, oferendas, etc. Os relatos sobre seus entes fantásticos que regem as forças da natureza certamente influenciaram na configuração dos nossos mitos.

No entanto, tomando-se a acepção folclórica do termo, i.e., sem implicações religiosas, são poucos os mitos de origem africana. Câmara Cascudo realça que é no ciclo da angústia infantil que mais se faz notar a influência negra na formação da mitologia brasileira:
“Rara será a aparição assombrosa que ainda mais terrível não ficasse através dos lábios africanos (...) O papel das ‘tias’ e dos ‘tios’ portugueses aqui lhes coube (...) A nossa Scheherazade foi a Mãe Preta...” (“Mitos Brasileiros”).
Para Théo Brandão (“Folclore de Alagoas”) “nossos mitos são restos, reelaborações, cruzamentos superposições dos mitos dos povos formadores da etnia brasileira”.

CLASSIFICAÇÃO

Alguns autores estabeleceram uma classificação para os mitos brasileiros.
O insigne folclorólogo Luís da Câmara Cascudo distribuiu-os em “primitivos e gerais” e em “secundários e locais”. Dentre os primeiros estariam o Saci-Pererê, o Jurupari, o Boitatá, o Lobisomem, a Mula-Sem-Cabeça, o Curupira, o Anhangá, Botos e Mães d´Água...
Todos os demais que constam do rol que logo apreciaremos seriam “secundários e locais”.

Cascudo (em “Mitos Brasileiros”) apresenta ainda mais duas subdivisões, a que denominou “Ciclo da angústia infantil” (Cuca, Mão-de-Cabelo, Chibamba, etc.) e “Ciclo dos monstros” (Capelobo, Gorjala, Mapinguari, Bicho-Homem, Labatut, Pé-de-Garrafa, Quibungo, etc.).
Merecem destaque esses “ciclos”.
Nos da angústia infantil, a exemplo do que se pretendia com as narrativas de contos de fadas, percebe-se neles um nítido propósito disciplinar.
Com relação ao ciclo dos monstros, bem a propósito, o célebre folclorólogo fala sobre o “ataque inesperado e predatório de gente de fora” e uma conseqüente reação mental dos índios frente ao inimigo estrangeiro e invasor, cuja imagem é por aqueles deformada, transformada em monstro.

Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”), seguindo Basílio de Magalhães (em “Folclore no Brasil”), ordenou-os em primários e secundários.
Os mitos primários são: saci, mula-sem-cabeça, lobisomem, curupira, caipora.
Os secundários, segundo o mesmo autor, compreendem gerais: boitatá, mãe-do-ouro, minhocão, etc., e regionais: corpo seco, porca de sete leitões, mão-de-cabelo, cavalo branco, etc.

Entendemos que os vocábulos “primitivos” e “primários” foram utilizados pelos referidos autores com a acepção de “principais”, de forma a opor-se a “secundários” (usado por ambos os folcloristas), podendo-se deduzir que seriam os primeiros os mais conhecidos.

Nesta modesta abordagem do assunto, não estabeleceremos nenhum tipo de classificação pois, na atualidade, em vista do recrudescimento dos meios de comunicação, com inclusão da Internet, essa se torna uma tarefa difícil.

LENDA

Proveniente do latim legenda, do verbo legere = “ler” (e, por extensão, “algo digno de ser lido”), era esse o termo usado para designar as histórias sobre santos que eram narradas nos refeitórios dos conventos ou em cultos religiosos com o escopo de se estabelecerem edificantes referenciais com que se deveriam identificar os ouvintes.

Não quer isso dizer, porém que ensejou o advento das lendas; outros povos, primitivos, também tinham seus relatos fantásticos (a que depois se denominou “lenda”) sobre eventos originalmente verdadeiros, ou considerados como tais; sobre heróis que podem ou não terem realmente existido; ou sobre feitos “heroicizados” pela imaginação popular.

A lenda é também considerada como a “imaginação da História” tendo em vista que esta, em sua “infância”, não foi nada além de uma sucessão de lendas oralmente transmitidas de geração a geração, com o sempre presente gosto popular pela fantasia.

Com o passar dos tempos, o sentido do vocábulo se foi ampliando, de maneira a abranger outras formas de narrativa, como veremos.

LENDAS – CLASSIFICAÇÃO E CONCEITO

Costumam classificá-las em pessoais, locais, episódicas e etiológicas.
A primeira espécie, a das “pessoais”, subdivide-se em heróicas (que versam sobre figuras históricas); hagiográficas ou hagiológicas (sobre santos) e anedóticas (sobre pessoas pitorescas).

As heróicas são aquelas que enaltecem com as cores da fantasia os feitos de figuras históricas. São heróicas, por exemplo, nossas muitas lendas sobre os bandeirantes cujas andanças, desbravando sertões, cativando gentios, descobrindo minas, ensejavam e divulgavam muitas lendas.

Merecem destaque as hagiográficas ou hagiológicas. Inúmeros são os exemplos de lendas brasileiras sobre santos que deliberadamente teriam dado origem a muitas cidades e bairros, sendo-lhes os padroeiros. Suas imagens recusavam-se a sair no local que designaram para seus santuários, como dizem ter ocorrido na cidade de Nazaré Paulista.

Hélio Damante (“Folclore Brasileiro – São Paulo”) dá outros exemplos:

“O encontro de imagens, caso do Bom Jesus de Iguape, do Bom Jesus de Pirapora e de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, mesmo se tratando de fatos historicamente comprovados, sempre aguçou a imaginação de devotos e deu origem a um particularizado lendário, enriquecido pela iconografia dos milagres e ex-votos, sonhos e visões”.

As locais tratam de temas ligados a uma determinada localidade, versam sobre rios, montanhas, lagos, cavernas, etc. São também denominadas tópicas e geográficas.

As episódicas dizem respeito a eventos e acontecimentos de interesse de uma localidade.
As etiológicas, que buscam explicar a origem de plantas, de animais, se sobrelevam nas fantasiosas narrativas indígenas sobre a origem da mandioca, do milho, da lua, etc.

Essa classificação, com base na apresentada por Antônio Henrique Weitzel “Folclore Literário e Lingüístico”), fornece elementos para alguns conceitos de “lenda”.

Vejamo-los:

“A lenda é uma narrativa em torno de um fato real, com uma explicação ou interpretação de uma figura, uma realidade, um acontecimento histórico, em torno da qual a fantasia cria uma série de coisas irreais e até mesmo inverossímeis” (Renato Almeida “Inteligência do Folclore”).

“A lenda é a imaginativa sobre a realidade, realidade que pode ser o homem, o vegetal, o animal, os elementos da natureza, os acidentes geográficos, etc. Reveste a vida dos santos, dos heróis e dos bandidos; explica a razão do que vê e não compreende; aponta o que acredita ser a origem das coisas e dos fenômenos” (Maria de Lourdes Borges Ribeiro, “Folclore”).

No entanto, cumpre-nos acrescentar que o termo “lenda” não é usado apenas para significar “narrativa fantasiosa sobre a realidade”. Relatos sobre seres e fatos inverossímeis são também chamados “lendas”. Há fantásticas histórias protagonizadas, por exemplo, por seres imaginários a que consensualmente se denominou mitos, como o Curupira, o Saci, a Mula-Sem-Cabeça. Existem, pois, “lendas” acerca de “mitos”.

São também chamadas de “lendas” histórias sobre tesouros enterrados, sobre fantasmas, almas penadas, e, bem assim – dentre outras – sobre corpos de “espíritos puros” (“corpos santos”) que, sepultados, se mantiveram intactos sob a terra, e que seriam encaminhados em sigilo ao papa pelo vigário, segundo crença popular, informa-nos Saul Martins (“Folclore Brasileiro – Minas Gerais”).

Na seara do folclore, se o vocábulo lenda fosse utilizado apenas para se referir a histórias fantasiosas sobre santos, heróis, bandidos, simples seria distingui-lo de “mito”. No entanto, a amplitude conceitual que se lhe deu, narrativa fantasiosa sobre a realidade, pode ter sido o ponto de partida para a confusão de mito com “lenda” (de que a seguir trataremos), visto que se passou a assim denominar tanto as fantásticas narrativas indígenas sobre a origem de plantas como aquelas que versam sobre a criação do mundo, sobre os fenômenos atmosféricos, etc.

MITO E LENDA – DISTINÇÃO

Considerando-se a polissemia dessas palavras, ou seja, os muitos sentidos que adquiriram, em virtude também das próprias definições que se lhes deram, ambos os vocábulos são freqüentemente confundidos.

1. A Enciclopédia “Mérito” registra que “o mito situa-se nos tempos ante-históricos e representa um ser ou episódios sobrenaturais, enquanto a ação das lendas decorre no mundo, entre os homens, não recuando para além da origem dos povos cristãos”.

Observe-se, porém, que renomados folclorólogos brasileiros, posteriormente, registraram histórias sobre a criação do mundo e da humanidade, cultivadas oralmente pelos índios (predecessores dos cristãos), às quais se denominaram e ainda se denominam “lendas”.

2. Em conformidade com a Enciclopédia Mirador, o que distingue o mito da lenda é a natureza dos relatos, observando que o primeiro “fornece o fundamento de toda a vida social e tem caráter religioso”. (...) “A lenda,’história falsa’, narra feitos de alguns heróis populares, explica particularidades anatômicas de certos animais, etc. ao passo que o mito, ‘história verdadeira’, se reporta à criação do mundo e dos homens, à origem da morte, etc”.

Nesse sentido, Antônio Henrique Weitzel (“Folclore Literário e Lingüístico”), ao falar sobre a ambivalência do mito em Folclore, apontando, de um lado, o fato (crença), e do outro, a narrativa (literatura oral) – que seria a forma explicativa do mito – argumenta que “esse ato de crença é que irá distinguir o mito de outras formas narrativas, como a lenda”.

Com o devido respeito, é possível divergir-se dessa distinção, pois – para exemplificar – as lendas sobre santos ou mártires, chamadas hagiológicas ou hagiográficas pelos estudiosos do assunto, também podem implicar crença nos relatos (e/ou crendice?) por parte dos narradores. A própria origem do vocábulo, como vimos, remonta a histórias sobre santos contadas em convento.

É oportuno lembrar, entrementes, que Théo Brandão (“Folclore de Alagoas II”), quando defendeu, anteriormente, a mesma idéia do citado folclorista, dizendo que “fica implícita a noção de que o mito aquele que o relata nele acredita inteiramente, enquanto assim não o considera aquele que o recolhe como tal”, acabou por deixar à vontade o uso dos controvertidos vocábulos ao expor sua conclusão:

“Daí que a mesma narrativa possa ser catalogada como mito, lenda, conto ou acontecimento real, segundo as convicções do narrador, do coletor ou do divulgador”.
Para o mesmo autor, a melhor definição dos mitos é a de que “são narrações em que se procura explicar a origem dos seres vivos e de certos objetos ou a origem de algum costume”.

Aleixo Leite Filho (“Noções de Folclore”) preleciona algo similar:
“(...) é uma criatividade da imaginação popular que tem como principal preocupação descrever a origem dos seres, dos objetos e dos fatos”.
O problema é que ele í está se referindo a lenda...

3. Vejamos outros pontos de vista considerando-se mais propriamente a acepção folclórica dos termos.
Segundo o Prof. Renato Almeida em “Curso de Folclore” (registra a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues, em “Mito e Lenda, Implicações Filosóficas”, anuário do 29º Festival do Folclore), consiste no fato de que o primeiro é “uma entidade fantástica, de pura imaginação”, enquanto a segunda “é uma narrativa fantasiosa sobre um fato real”.
Essa última distinção, data maxima vênia, também apresenta algumas imprecisões, pois contempla apenas uma das acepções de “mito” e “lenda”. O mito também é “narrativa”, i. e., sua conceituação compreende também essa característica (diversos folclorista, e os dicionários inclusive, a registram), e quanto à lenda, esta, como já dissemos, não significa apenas história fantasiosa sobre a realidade, visto que existem narrativas fantásticas sobre seres e fatos também imaginários, a que chamam “lendas”. Há lendas, por exemplo, sobre o Curupira, o Lobisome, a Iara, o Saci, etc., enfim, há lendas em torno dos mitos.

4. Câmara Cascudo, com o peso de sua autoridade no assunto, pontifica: “Muito confundida com o mito (a lenda) dele se distancia pela função e confronto. O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central, com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço”.
Para o ilustre folclorista Basílio de Magalhães (“O Folclore no Brasil”) “do mito, - transfiguração dos seres e fenômenos naturais em corpos inaturais e forças sobrenaturais, totens e tabus, pelo eu projetivo do homem inculto, - foi que se geraram as lendas, os contos e as fábulas da tradição popular. O que caracteriza a lenda é a apoteose, ligada a proezas heróicas ou a maravilhas supra-sensíveis”.
Tendo em vista o escólio dos dois mestres, do qual se depreende o estabelecimento de uma espécie de hieraquia entre os dois fenômenos, na qual o mito ocuparia o alto posto, há quem o interprete “a contrário senso”, de modo que lendas também podem vir a tornar-se mito.
Um bom exemplo dessa interpretação extrai-se da consagrada telenovela “Roque Santeiro”, que foi recentemente reprisada pela segunda vez, tamanho o seu sucesso.
Numa etapa inicial, pode-se-ia denominar “lendas” as histórias que se contavam na fictícia cidade de Asa Branca sobre o mártir que morrera em defesa desta, lutando contra os bandidos que a saquearam. Paulatinamente, a reiteração e a progressiva expansão dessa lenda pelo Brasil, a que se acresceram milagres atribuídos ao “Roque Santeiro”, consagraram-lhe o status de mito (era apenas esse o termo que usavam na novela para aludir ao herói). O ponto central da trama era o fato de estar vivo o protagonista, o que culminou numa luta entre o Roque Santeiro vivo e o mito, que os poderosos da cidade, por interesses, queriam preservar – assim como a respectiva população, mesmo sem o saber, haja vista que precisa de mitos.

No entanto, ainda nos suscitam dúvidas os elementos distintivos apontados por Cascudo e Basílio de Magalhães, segundo os quais dos mitos derivariam as lendas, devendo-se considerar a maior abrangência dos primeiros em oposição relativa “localidade” das últimas.

Qual seria o critério para quantificar o dimensionamento territorial que a propagação de algum relato fantástico precisaria atingir para ser chamado “lenda” ou “mito secundário local” (espécie mencionada por Câmara Cascudo em “Mitos Brasileiros”)?

O que impediria, por exemplo, qualificar-se como mito a “Moça de Branco” classificada como lenda por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”)? Ou como lenda o “Cavalo Branco” catalogado como mito secundário pelo mesmo autor?
É válido observar também que a primazia que se pretendeu atribuir ao mito não se propagou com muita força, visto que popularmente o termo mais usual é “lenda”.
Como se pode notar, é de fato penoso traçar uma nítida demarcação entre os territórios conceituais do mito e da lenda, tendo em vista que a polissemia desses termos parece poder mobilizar uma faixa fronteiriça definitiva que se lhes tentasse traçar, fazendo com que esta se expandisse, alargando-se ora por um, ora por outro dos respectivos domínios semânticos de cada um dos indigitados vocábulos.

Como diria Amadeu Amaral (ao falar da impossibilidade de traçar linhas exatas entre provérbios e outros conceitos, como adágios, anexins, etc.), “a substância fluida escapa por entre as frinchas das frases que a pretendem conter”.

Um relativo consenso se verifica no uso de “mito” para designar o Curupira, o Saci-Pererê, a Mula-sem-cabeça, o Lobisomem, entre outros mais conhecidos, e de “lenda” para os relatos fantasiosos sobre a origem de seres e objetos, como as plantas (“lenda da mandioca”, “lenda do guaraná”, e outros exemplos que constam da coletânea que logo se verá). Não obstante, existem exceções. O próprio Câmara Cascudo, o grande luminar da Folclorística, em “Mitos Brasileiros – Cadernos de Folclore”, coloca “Mães d´água” entre os mitos primários. Entretanto, em “Dicionário do Folclore Brasileiro”, no verbete “Lenda”, usa a expressão “a lenda da Mãe d´água”... Na mesma clássica obra, e no mesmo tópico, fala da “lenda do Barba-Ruiva”; noutro (“Barba”), informa que “um dos mitos mais populares do Piauí é o Barba Ruiva”.

Na verdade, o que amiúde se vê é o uso de um termo pelo outro, às vezes indistintamente, como se quase sinônimos fossem.
No que refere aos folcloristas que se dedicam ao assunto, referindo-se lateralmente matéria com alguns exemplos ou mesmo apresentando um repertório mais amplo, muitos deles costumam salvar-se empacotando tudo num só volume, no qual pregam o rótulo “Mitos e Lendas”, para identificar coletâneas desse jaez.

MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

No estudo do Folclore, mitos e lendas são parte da chamada “Literatura Oral”, que compreende também contos, fábulas, poesia, parlendas, provérvios, frases-feitas, etc.
Apresentamos, a seguir, uma coletânea de mitos e lendas de diversos pontos do Brasil.

ALAMOA

Belíssima mulher, loura, misteriosa, olhos neons, que podem ser verdes ou azuis, cabelos lisos e compridos, vestida numa túnica muito transparente que chega quase a tocar o chão.

Assim a chamam porque loria é “alamoa” (alemã) para os habitantes de Fernando de Noronha, onde ela reside, nos altos picos dessa ilha.

À noite, surge nas praias, às vezes dança, nua, iluminada pelos raios que coincidem com sua aparição. Deslumbra, fascina, enche de desejo os desavisados que com ela se defrontam – e de medo os pescadores que já a conhecem e dela correm, espavoridos, pois o apaixonado que ao seu namoro não resiste e se põe a segui-la, nunca mais é visto.

Dizem que a Alamoa atrai com seu fascínio os que por ela se apaixonam, guiando-os para os picos da ilha, onde se transforma numa medonha caveira.
(A ela já se referiram como “lenda da Alamoa” e como “mito da Alamoa”, cf. “Alamoa”, Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Casculdo.)

ANA JANSEN

Assombração de uma mulher deformada pelo fogo que aparece de madrugada nas ruas de São Luís do Maranhão, conduzindo velozmente uma carruagem em chamas, puxada por enormes cavalos sem cabeça.

Conta-se que, quando viva, foi uma perversa mulher que sentia prazer ao fazer seviciarem seus escravos. Ela mandava arrancar os dentes e as unhas de crianças, filhos de escravos, que visse apanhando frutas em seus pomares. Ordenava que açoitassem cruelmente os escravos, às vezes por nenhum motivo.

Tendo em vista uma das distinções entre mito e lenda, segundo a qual esta última seria mais localizada – não obstante a dúvida quanto à extensão territorial que um ou outra precisa alcançar para ser classificado como tal ou qual – atrevemo-nos a dizer que se trata de uma lenda a história de Ana Jansen, pois na bibliografia consultada dela não encontramos referência; tomamo-lhe conhecimento por meio de informantes maranhenses por ocasião do Festival do Folclore de Olímpia/SP, realizado anualmente, em Agosto.

ANHANGÁ

Mito geral no Brasil, o Anhangá é criatura assustadora, um grande veado cujos olhos são lança-chamas. Ele representa um grande pesadelo para os caçadores, que, quando com ele se defrontam, ao tentarem baleá-lo, vêem seus tiros serem desviados em direção a entes queridos e pessoas amigas.
Sua fúria contra os caçadores se amplia quando as vítimas são animais lactantes ou filhotes que ainda precisam ser amamentadas.

Conta uma lenda que um índio perseguia implacavelmente uma veada que amamentava seu filhotinho, tendo sido este gravemente ferido por uma certeira flechada, e depois seguro pelo caçador, que a torturava, atrás de uma árvore, para atrair a veada com os gritos do filhote.

Caindo na emboscada, o animal é trespassado por uma mortífera flecha do índio.

No entanto, ao contemplas sua presa, o índio, desesperado, viu-se vítima de uma ilusão engendrada pelo Anhangá. Era o corpo de sua mãe.

ARRANCA-LÍNGUA

Macacão gigante que atacava os gados em Goiás, matando-os a murros e arrancando-lhes somente a língua, com a qual se alimentava.

Câmara Cascudo informa que a imprensa goiana, carioca e mineira registraram esse mito em várias matérias sobre os assombrados depoimentos de fazendeiros.

Regina Lacerda o catalogou como lenda em “Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso”.

BARBA RUIVA

Piauiense dos mais famosos, o Barba Ruiva é um homem encantado, de barba e cabelos ruivos, alto, viril, muito branco, que faz morada na Lagoa do Paranaguá, onde teria sido jogado ao nascer, e salvo por uma mãe d´água, diz a lenda.

À margem da já mencionada lagoa, costuma ser visto a repousar, quando da água se farta, despertando a curiosidade das mulheres que lá vão lavar roupa – a cujas perguntas não responde.

Quando dele se aproximam percebem que, fora da água, sua barba, unhas e peito estão em brasa.

Correm, então, assustadas, enquanto ele as persegue querendo abraçá-las e beijá-las.

À vista disso, nenhuma mulher lava roupa sozinha às margens daquela lagoa.
Algumas gotas de água benta na cabeça do Barba Ruiva poderiam quebrar seu encanto.

Mas, apesar de ser ele inofensivo, ninguém ainda teve coragem.
(Registrado como mito e como lenda)

BICHO-HOMEM

Outro gigantesco antropófago, de um olho só, e que também só tem uma perna, cujo pé tem forma redonda, deixando pegadas que lembram o fundo de uma garrafa.

Pode derrubar até uma montanha com seus possantes murros e é capaz de beber um rio inteiro. Vive oculto nas serranias.

Mito corrente, em variantes, em quase todo o Brasil.
Muito se confunde com o chamado Pé-de-Garrafa. Alguns autores, aliás, registram-nos como sendo manifestações de uma mesma entidade: “o mítico Bicho-Homem é também chamado Pé-de-Garrafa” (Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”).

Entretanto, alguns relatos sobre o Pé-de-Garrafa (df. p. 47), em que se lhe dão outras características, levam-nos a defender que sua existência, na imaginação do povo, se não era, passou a ser independente da do Bicho-Homem.

BOITATÁ

Um dos primeiros mitos registrados no Brasil, segundo nos informa Câmara Cascudo, é uma grande serpente de fogo que habita as margens dos rios, mata animais e lhes devora os olhos, vindo daí o seu intenso brilho.

Do tupi mboi, cobra, e tatá, fogo: cobra de fogo, o fogo em forma de cobra.
Há versões de que o Boitatá destrói com o fogo dos seus olhos, fazendo arder em combustão, aqueles que incendeiam os campos.

A aparição do Boitatá traz cegueira, loucura ou a morte. Para escapar de seu ataque, é preciso atirar-lhe algum objeto de ferro ou, então, ficar quieto, prender a respiração e fechar os olhos.

Dizem que se transformar nesse monstro é o castigo para purificar as almas dos amantes compadres que em vida traíam seus respectivos cônjuges, e daqueles que mantiveram relações incestuosas.

Explica-nos Theobaldo Miranda dos Santos (em “Lendas e Mitos do Brasil”) que “o mito do Boitatá parece ter se originado do fogo-fátuo ou santelmo, pequeno penacho luminoso, que aparece nos mastros dos navios devido à eletricidade, ou, à noite, sobre os pântanos e cemitérios, e que são apenas emanações de fosfatos e hidrogênios, produtos de decomposição de substâncias animais”.

Alguns autores, a exemplo de Crispim Mira (em “Terra Catarinense”), registram uma variante, dentre as inúmeras desse mito geral no Brasil, segundo a qual o Boitatá é um boi ou um touro “com patas como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo”.

Amadeu Amaral (“Tradições Populares”) retrata essa variante como exemplificativa do fenômeno que se convencionou denominar “etimologia popular”, que designa “as alterações dos vocábulos por efeito de uma errôneas e imaginosa compreensão da respectiva origem”.

No caso dessa variante, a palavra “boi” (mboi), segundo o eminente folclorista, representou o elemento transformador do aludido mito.

BOTO SEDUTOR

Costumam dizer que a maior protagonista das lendas sobre a fauna amazonense, famoso em todo o Brasil, “ele, o Boto”, ao chegar a noite, transforma-se num belíssimo rapaz, alto, branco, robusto, bem vestido, mas sempre de chapéu para esconder o orifício que tem na cabeça, através do qual respira.

O Boto, quando toma a forma humana, comparece triunfalmente aos bailes, onde, com as moças ribeirinhas, conversa, bebe, dança, namora.
Conquistador infalível, adivinha os segredos, os pensamentos e desejos de suas “vítimas”.

Antes que amanheça, porém, ele se retira furtivamente, mergulha num rio, e torna-se de novo em boto.

Às vezes é implacavelmente perseguido ou cercado em emboscadas tramadas por homens enciumados, mas ele nunca se deixa apanhar pois tem um faro mais possante que o de cães caçadores e é rápido como um tiro.

Muitas mulheres costumam também a ele atribuir a paternidade de filhos espúrios e naturais, os denominados “filhos do Boto” (muitas vezes injustamente).

Noutras palavras, quando moças solteiras das populações ribeirinhas engravidam, dir-se-á que o filho é do boto.

Para finalizar, dentre algumas superstições acercado boto, lembremos esta: o olho seco de um boto, para os índios é poderoso instrumento de feitiços amorosos, depois de bem preparado, de acordo com os ritos do pajé-a pajelança, a feitiçaria amazônica. “Não há mulher que resista sendo olhada através do olho de um boto”.

(A ele já se referiram classificando-o como lenda e como mito)

CABEÇA-DE-CUIA

Homem magro, alto, que habita o rio Parnaíba, no Piauí. O nome deriva de sua cabeça que lembra o formato de uma cuia. A cada sete anos, devora uma mulher de nome Maria, e também meninos que brincam nas águas daquele rio. As mães, temerosas, proíbem seus filhos de ali nadarem.

Amaldiçoado por sua mãe, a quem muito maltratara, foi condenado a viver no mencionado rio durante 49 anos. Após comer sete Marias, retomaria seu estado natural.

CABOCLO-D´ÁGUA

Homem pequeno, musculoso, sisudo, da cor do cobre, com mãos e pés de pato, ele habita as águas do Rio São Francisco, aparecendo também em outras localidades fluviais. Atormenta os pescadores, vira embarcações, alaga cargas, provoca ondas, atrapalha pescarias, assombra, mata.

Para afugenta-lo é preciso fincar uma faca no fundo da canoa, ou então nela desenhar um signo-de-salomão.

(Vale registrar aqui a figura do CAVALO-DO-RIO, cavalo encantado que também habitaria o Rio São Francisco exercendo efetivamente o mesmo papel do Caboclo-d´água.)

CAIPORA

“É o Curupira tendo os pés normais. De caá, mato, e porá, habitante, morador”, segundo Câmara Cascudo.

Diz-se que é um caboclinho coberto de pêlos que anda sempre montado num porco-do-mato, protetor dos animais e inimigo dos caçadores (descrição mais comum).

As inúmeras versões sobre o Caipora possibilitam que se apresentem ele e o Curupira (sempre associados e confundidos) como manifestações transformadas de uma mesma entidade, ao mesmo tempo que se admite a coexistência de ambos.

Ruth Guimarães, por exemplo, em “Quatro Histórias do Curupira”, acrescente um parêntesis a esse título: “(Ou Caipora ou Caapora, o Pai do Mato)”.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação do gênio das florestas.”.

Pessoalmente, acreditamos que quando não se trata de simples diversidade nominal, alguns mitos – se não tinham – passaram a adquirir identidade própria e personalidades distintas.

No presente caso, embora aparentemente se trate de simples diferença de nome, a figura do Caipora tal como aqui descrita já se criou efetivamente no imaginário popular, desvinculada da do Curupira.

CANHAMBORA

Homem negro, grandalhão, feio, com cabelos compridos até os pés. Às vezes é citado como tendo, ao mesmo tempo, forma humana e animal, metade cavalo e metade homem.
Ele é detentor de poderes capazes de ressuscitar os animais mortos pelos homens brancos, a quem persegue e agride.
Diz o povo que o Canhambora é assombração de escravos mortos a pancadas a mando de seus senhores, aos quais, posteriormente, volta para assombrar.
Mais conhecido em Minas Gerais e em São Paulo.

CAPELOBO

Criatura fantástica, com corpo de homem, cabeça de tamanduá ou de anta, é pés redondos.
Cães e gatos recém-nascidos são seu alimento principal. Mas ele também ataca humanos, “chupando-lhes o miolo”, ou seja, sorvendo-lhe a massa cefálica.
O ponto vulnerável desse monstro é o seu umbigo, através do qual pode ser abatido.
ndios muito velhos transformar-se-iam nesse monstro a que costumam chamar de Lobisomem dos índios.
Popular no Maranhão e na região do Araguaia.

CAVALO BRANCO

É um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto a pastar as relvas marginais do Valo Branco, em Iguape.
As mães sempre advertem suas filhas para não passarem pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco, ao ver uma moça virgem, faz com que ela caia naquelas águas e depois desaparece com ela.
Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra moça para viver com ele no fundo do Valo Branco.

CAVALO DAS ALMAS

Segundo a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues (em “Mito, Folclore e Filosofia”), “é um animal miraculoso, que percorre as estradas à procura dos mortos recentes, que o esperam nos moirões das porteiras. As almas vão engarupadas nesse cavalo”.

CHIBAMBA

De origem africana, e conhecido em São Paulo e Minas Gerais, é um negro velho que se veste com folhas de bananeira, ronca como um porco e está sempre a dançar, em ritmo compassado.

Ele amedronta crianças choronas:
“Olha esse choro, que a Chibamba vem te pegar; ele papa criança”.
Acredita-se que ele foi um velho escravo que morreu no tronco, de tanto chicotada.

Informa-nos Rossini Tavares de Lima que ao Chibamba também se atribuía a fama de suprimir a dor dos escravos açoitados, atraindo-a toda para si quando o invocaram.

CHUPA-CABRAS

É relevante registrarmos esse, haja vista sua atualidade. “Novo ser mitológico”, segundo Hitochi Nomura.

O Chupa-cabras teria aparecido nas áreas rurais de municípios vizinhos à cidade de Campinas, por volta de 1997. Os habitantes da mencionada região atribuíram súbitas e misteriosas mortes de ovelhas e bois a uma estranha criatura notívaga.

O jornalista Paulo San Martin, na edição de 8 de junho de 1997 do jornal A Tribuna, de Campinas, relata na matéria intitulada “Chupa-cabras: agora ele se tornou histeria coletiva” que as marcas deixadas pelo bicho não se confundem com a de nenhum predador conhecido, não encontrando o seu ataque referência na zoologia e na biologia. “Praticamente todo o sangue é drenado e as feridas são inconfundíveis, como se tivessem sido feitas por garras longas e afiadas, semelhantes a navalhas. Em alguns casos são retirados, com precisão cirúrgica, órgãos e glândulas nobres”.

A história foi, na época, muito divulgada pelos meios de comunicação.
Uma babalorixá campinense, que afirma tê-lo visto, o descreve como uma criatura peluda apenas da cintura para cima, com poucos pelos nas pernas, e com focinho semelhante ao de um lobo.

COBRA GRANDE

Réptil repugnante que atemoriza o homem desde sempre, na ficção e na vida real, a cobra não poderia deixar de inspirar no Brasil esse monstro amazônico: A “Cobra Grande”, também chamada ~Boiúna~.

Gigantesca, de olhos que semelham enormes faróis, ela faz naufragar até mesmo grandes embarcações, devorando, após, a tripulação e os passageiros.

Na capital paraense, informa-nos Walcyr Monteiro, existe a crença de que essa cidade foi fundada sobre a casa de uma enorme cobra: “Se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece”. “Se a Cobra Grande sair de seu lugar, Belém vai se afundar”(“Visagens e Assombrações de Belém”).

COBRA-JABUTI

Catalogada como lenda por Domingos Vieira Filho (“Folclore Brasileiro-Maranhão”) é um cágado que depois de tomado como bicho de estimação revela-se um monstro de cujos cascos saem horripilantes cabeças de cobras.

COBRA NORATO

Engravidada pela Cobra Grande, uma índia deu ä luz dois bebês encantados, que não tinham forma humana. Atirou-os no rio, a conselho do pajé.

Eram Cobra Norato (ou Honorato) e Maria Caninana. Esta era má, virara embarcações, matava náufragos e animais. Norato era bondoso e sempre procurava interceptar as maldades da irmã.

Certa feita, num duelo para salvar uma vítima da Maria Caninana, acabou matando esta última.

Assim, graças ä sua bondade, Norato adquiriu o dom de poder desencantar-se durante à noite, tornando-se homem bonito, simpático e elegante.
Nas ocasiões de festa nos povoados ribeirinhos, Norato deixava seu couro de serpente e ia bailar com as moças.

Ao amanhecer, porém, retomava a forma de serpente.
Para quebrar definitivamente o encanto era preciso que se dessem pancadas com ferro virgem na cabeça da cobra, derramando-se-lhe, após, a boca, três gotas de leite materno.

Mas, ao ver a cobra, todos perdiam a coragem, até que um soldado impávido, com quem Norato fizera amizade, conseguiu quebrar esse encanto, libertando o amigo.
(Do norte do Brasil, especialmente do Pará).

CORPO SECO

Criatura perversa que em vida semeou o mal cometendo toda sorte de crueldades, inclusive a de fustigar a própria mãe.

Ao morrer, sua alma foi recusada tanto por Deus como pelo Diabo, e seu corpo nem a terra o quis, ficando este, depois de reunido a sua alma, a putrefazer-se insepulto.

O Corpo Seco é corpo e alma penados – de quem nem os insetos se aproximam – que perambulam, vagabundos, pelos cemitérios e pelas ruas, assombrando os viventes.

CUCA

Mulher velha e feia, espécie de bruxa, tal qual é está descrita nos contos de fadas.

Bicho-papão feminino mencionado para se assustar crianças.
“Velha feia e esfarrapada que vive a intrigar os casais, despertando-lhes o “ciúme”, sempre acompanhada de “sapos, lacraus, cobras e aranhas venenosas”, na descrição da folclorista Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”.

É muito citada em acalantos:
“Dorme, nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar. Bicho-papão, sai de cima do telhado, deixa o nenê dormir sossegado”.

É válido lembrar que a Cuca foi muito popularizada na série de televisão “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada na obra de monteiro lobato, na qual, aliás, se verifica a citação de muitos dos nossos mitos, a exemplo do Saci, do Boitatá, da Mula-sem-cabeça, do Lobisomem, etc. Na aludida série, tal como nas ilustrações de livros do consagrado autor, a Cuca era apresentada como uma jacaroa bípede e falante, feiticeira poderosa, cercada de bichos peçonhentos. Dada a fora da propagação televisiva, quando se fala em Cuca, a imagem que se nos afigura é a da jacaroa da referida série.

CURAGANGA

Tal qual ocorre com o Lobisomem, a Curaganga ou Cumanganga, é no que se torna a sétima filha de um casal. É uma errante cabeça de fogo, em forma de bola.

Nas horas mortas, a cabeça da portadora desse mal separa-se-lhe do corpo e sai em chamas a vagar pelas matas. Apavora os que a encontram. Às vezes ataca a dentadas.
É chamada Curacanga, no Maranhão, e Cumacanga, no Pará.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”) nos informa que para evitar esse horrível fadário “’e tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita.

CURUPIRA

De procedência tupi-guarani (de curu, curruptela de curumim + pira, corpo = corpo de menino), o Curupira tem ligações originárias com o homem primitivo e atributos heróicos na proteção da fauna e da flora.

Ele tem como principal característica a direção contrária dos pés em relação ao próprio corpo, o que constitui um artifício natural para despistar os caçadores, colocando-nos numa perseguição a falsos rastros.

Possui extraordinários poderes e é implacável com os caçadores que matam pelo puro prazer de faze-lo; quando estes não acabam mortos, ficam loucos.
Dizem também que quando os caçadores não acertam seu alvo ou quando se perdem na mata, é certo que foi uma intervenção do Curupira.

É descrito de várias maneiras: como um curumim, um duende, um anão, um caboclinho, dentes verdes, cabelos vermelhos, mas sempre com os pés contrário (calcanhares para a frente).

Existem, no entanto, variantes que divergem dessas idéias, em que o Curupira é um ser medonho e perverso. “O demônio das Florestas”. Mas sobrelevam as lendas que fazem dele o protetor das matas.

FAMALIÁ

Originário da tradição européia de fabricar uma espécie de demônio caseiro, “familiar” (acabou famaliá para os sertanejos) é um pequenino diabinho guardado dentro de uma garrafa. Para cria-lo é preciso chocar na axila esquerda, durante toda a quaresma, um ovo de galo (!), que, segundo o povo, com muita persistência pode ser encontrado (às vezes leva anos). Desse ovo nascerá, ao final da quarentena, um diabinho que atenderá a todos os pedidos de quem o produziu. Não se pode, todavia, dar esmolas aos pobres com dinheiro vindo do Famaliá.

Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá.

Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá não deixa de ser um pacto com o Diabo.

Já registrado como mito e como lenda, essa história muito se popularizou quando da exibição, e da reprise, da telenovela global “Paraíso”, em que um dos protagonistas, - dizia a população da fictícia cidade de Paraíso – tinha um diabinho guardado em uma garrafa, produzindo tal como aqui dissemos.

GORJALA

Negro gigantesco, com um único e grande olho, que habita as serras cearenses.

Implacável perseguidor dos humanos, coloca-os sob o braço, quando os captura, devorando-os a dentadas.

GRALHA AZUL

Para o povo paranaense a gralha azul é a responsável pelo agrupado reflorestamento de pinheiros, tendo-se em vista a estranheza que causava o fato de estes aparecerem em grupos, em pontos afastados, sem que o homem os plantasse.

Diz o povo que essa ave encontrada nos planaltos do Paraná se alimenta de sementes dos pinheiros, e que, precavida, enterra-os, em pontos diversos e em considerável quantidade, para posteriormente saciar sua fome. Como nem todos os pinhões enterrados se consomem, estes germinam e fazem surgir os amplos pinhais agrupados. Assim se explicam as grandes florestas só de pinheiros.

Por isso, as armas dos caçadores negam fogo, ou, pior, os tiros saem pela culatra, se a ave contra a qual miram é a gralha azul.
Lenda paranaense.

IARA

Outra celebridade nacional, a Iara é apresentada como uma esplêndida sereia das águas amazônicas (mulher cujo corpo, da cintura para baixo é uma cauda de peixe) linda, de pele alva, olhos verdes e cabelos cor de ouro. Seu canto, de uma encantadora voz, enfeitiça e atrai índios e pescadores enamorados que, sem a menor possibilidade de lhe resistirem, mergulham nos rios e são por ela arrastados para o fundo das águas. Nem seus corpos são encontrados.
Deve-se fechar os olhos e tapar os ouvidos assim que se notar a presença da Iara nos rios e lagos. Um talismã feito com escama de boto vermelho também pode livrar seu portador da sedução da Iara.

No entanto, nem toda as narrativas sobre a Iara retratam-na dessa forma. Em algumas, há finais felizes, como essa registrada por Theobaldo Miranda dos Santos em “Lendas e Mitos do Brasil”, na qual o índio Jaraguari desaparecera depois de mergulhar num rio encantado pela linda sereia. Foi ele posteriormente visto abraçado com ela a namorar.

“Tia Regina”, em “Histórias e Lendas do Brasil”, conta uma versão semelhante, na qual a Iara vive um forte romance com o índio Jaraguari e acaba por leva-lo para viver com ela em seus palácios subaquáticos. Seus poderes sobrenaturais mantê-lo-iam vivo debaixo d’água.

Outras lendas falam de índios que com a Iara mantinham relacionamentos amorosos, a exemplo de Inaiê:
“Diziam-no manorado da Iara, pois desprezava as belas cunhantãs, que lhe ofereciam seu amor” (Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”).

Luiz Caldas Tibiriçá, em “Contos e Lendas Brasileiras”, narra até um casamento da Mãe D’Água com um índio no conto “O Marido da Mãe D’Água”.
Domingos Vieira Filho, em “Folclore do Maranhão”, ao falar da lenda da Praio do Olho-d’água, cujas nascentes de água teriam se originado das lágrimas de uma índia que perdera o seu amor para a linda sereia, relata:
“Sucede que pelo mesmo índio se apaixonara a mãe-d’água. Um belo dia, a iara traiçoeira empolga o rapaz e o leva para o fundo das águas, deixando o cunhatã alucinada de dor”.

Pescadores, que garantem que ela existe, costumam contar que já houve casos de se fisgarem chumaços de cabelos louros com mais de um metro de comprimento.

Obs: A Iara ou Uiara é também comumente chamada “Mãe d’Água”, mas preferimos a denominação Iara, tendo em vista que quando se fala em “Mãe d’Água”, nas inúmeras lendas, há outros aspectos além da sensualidade e da sedução (as grandes marcas desse mito), enquanto que tais características representam o cerne das descrições narrativas se o nome mencionado for Iara

JOÃO GALAFOICE

Semelhante ao Papa-Figo, é um preto velho. Ele ronda as residências à procura de crianças que se encontram fora de suas casas pra leva-las embora consigo.
Alfredo Brandão (“Os Negros na História de Alagoas” ) informa que a lenda do João Galafuz (veja abaixo), em Alagoas, foi alterada na história de João Galafoice, esse “nego véio”raptor de crianças.

JOÃO GALAFUZ

Duende que habita as águas dos mares e se manifesta como um facho luminoso e colorido que rutila sobre as ondas.
Os pescadores acreditam que é o espírito de um caboclo que morreu sem ser batizado.
De Pernambuco e Sergipe.

LABATUT

Homenzarrão monstruoso, de pés redondos, conhecido nos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Tem pés redondos, longos e revoltos cabelos, só um olho na testa, mãos compridas, corpo cabeludo como o do porco-espinho, dentes como as presas de elefante. Devora crianças.
Conta-se que se transformou nesse monstro um sanguinário general francês que, no Ceará, promoveu uma verdadeira carnificina quando da repressão à insurreição de Joaquim Pinto Madeira.

LOIRA DO BANHEIRO

O horror das crianças nas escolas era uma mulher que, diziam, costumava aparecer nos banheiros.

Era loira, cabelos compridos, com as cores próprias dos defuntos e com algodões em suas narinas: um cadáver ambulante, distinguindo-se o aspecto deste apenas pelo fato de escorrer sangue de seus lábios.

O encontro de pedaços de algodão no chão do banheiro, sujos de sangue, era sinal de que a “Loira” estivera por ali. O medo de encontrá-la era tanto que as crianças não iam ao banheiro desacompanhadas.

Quem conta sobre a “Loira”diz que ela era uma jovem que foi violentada e morta num banheiro de uma escola pública.
(Lenda?)

LOBISOMEM

Meio bicho, meio humano, o Lobisomem é mito universal que protagoniza muitas narrativas populares desde a Antiguidade, trazido às terras brasileiras pelos europeus, que morriam de medo dos lobos.

O lobisomem abrasileirado pode ser o sétimo filho homem de um casal; o que nasceu depois de sete filhas; o que não foi batizado; o filho de comadre e compadre, padrinho e afilhada, ou de união incestuosa.

Enquanto homem é sempre magro, pálido, que nunca adquire aspecto de pessoa saudável.
A transformação acontece nas noites de lua cheia e nas noites de quinta para sexta-feira: seu corpo começa a se cobrir de pêlos espessos; seu semblante toma a forma do de um morcego; suas orelhas crescem; as mãos se tornam garras; corre com os joelhos e cotovelos, que, pela manhã, após a transformação, se vêem feridos e ensangüentados.

Ao metamorfosear-se, sai em busca de sangue. Suas vítimas, se viverem, podem contagiar-se dessa maldição.
O lobisomem é morto através de uma bala de prata.
O encanto do monstro, por sua vez, pode ser desfeito por meio de algum ferimento que lhe arranque sangue, mas o autor do ferimento que evite se sujar com o sangue; senão se contagiará da triste sina.

Segundo Oliveira Martins (em “Sistema dos Mitos”) “os sacerdotes do Sorano Sabino, nos bosques da Itália primitiva, vestiam-se com as peles do lobo, animal do deus; a imagem confunde-se com o objeto da imaginação infantil, o sacerdote com o deus, a profissão com o fado. Por ventura o mito nasceu do rito”.

MÃE-DO-OURO

Senhora das minas, a Mãe-do-Ouro é um mito multiforme: no Paraná, é uma mulher sem cabeça; “no Rio Grande do Sul é informe, agindo com trovões, fogo, vento, dando o rumo da mudança (...) a Mãe-do-Ouro passeia luminosa, pelos ares, mas vive debaixo d’água, num palácio” (Câmara Cascudo, em “Mitos Brasileiros”); formosa mulher, de pele branca como a neve e com uma linda cabeleira cor de fogo, segundo Ruth Guimarães, em “Lendas e Fábulas do Brasil”; “fada formosíssima, filha do sol e irmã da aurora” (Luiz Caldas Tibirçá, “Folclore – Contos e Lendas Brasileiras”); em São Paulo é descrita como uma grande bola de fogo de ouro que atravessa o céu; onde ela cair, há ouro (Alceu Maynard Araújo, em “Folclore Nacional”).

“Mito ígneo, informe, pertence ao número dos fenômenos metereológicos, confundindo com a estrela cadente (...)esconjurada e tida, num só tempo, como capaz de satisfazer votos formulados durante sua trajetória cintilante”(Câmara Cascudo, op. Cit.).

De acordo com o consagrado autor, esse mito também infiltrou-se no ciclo das Mães-d’Água, assimilando-lhe o poder sensual: “os homens deixam a família e amigos, arrastados pela Mãe-do-Ouro”(talqualmente as perigosas sedutoras Iara e Alamoa).

Há muitas lendas sobre a Mãe-do-Ouro, uma das mais conhecidas fala de sua intervenção para ajudar um escravo a encontrar ouro para entregar ao seu senhor, homem mau e ganancioso, a fim de assim evitar duro castigo. A Mãe-do-Ouro, no entanto, lhe impôs a condição de não revelar a ninguém o lugar onde encontrou ouro. O Fazendeiro torturava-o no tronco para lhe arrancar o segredo, até que a Mãe-do-Ouro permitiu ao escravo que o revelasse. O fazendeiro, fascinado diante de tanta riqueza, começou ele próprio a cavar aquela vastidão de ouro. Tanto cavou que morreu soterrado.

MANI (A LENDA DA MANDIOCA)

Numa tribo indígena, uma mulher deu à luz uma menina de pele muito alva. Seu marido, desconfiado e com raiva, queria matar a ambas. O feiticeiro da tribo, no entanto, interveio, e disse ao índio que a mulher era inocente, o que seria muito castigo se tentasse qualquer coisa contra as duas.

A criança, a que deram o nome Mani, cresceu, linda, inteligente, querida por todos na tribo. Mas ela não viveu muito tempo.

Seus pais a sepultaram dentro de sua própria maloca e a regavam todos os dias com suas lágrimas.

No local, nasceu uma planta que, descascada, era branca como a pele de Mani. Os índios julgaram ter sido um milagre de Tupã (deus dos índios), pois a planta revelou-se saboroso e nutritivo alimento, e de suas raízes se vez um vinho delicioso.

Deram-lhe, então, o nome “mandioca” ou “manioca”, que significa “corpo de mani”.

MÃO-DE-CABELO

Fantasma que assombra, em Minas Gerais e em São Paulo, as crianças que uniram na cama. Tem forma humana, envolta num lençol branco. Suas mãos são feixes de cabelos louros, que passa pelo órgão sexual das crianças que urinaram enquanto dormiam, acordando-as, ameaçando mutilá-lo. É comum a advertência de que “se mijar na cama, a Mão-de-cabelo vem te pegar”.

Há uma variante, bem menos conhecida, apesar de registrada por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”, vol. 1): “Quando não se consegue dormir, uma velha magra, alta, vestida de branco, cujos dedos são macios como cabelo, vem passar as mãos no rosto para que se concilie o sono”.

Prevalece, no entanto, o propósito disciplinador, visto que a versão assombrosa é, de longe, a mais conhecida.

Acrescente-se, ainda, que esse mito foi mencionado por Gilberto Freyre no Clássico “Casa Grande e Senzala”.

MÃO-PELADA

É um fantástico animal que espalha o medo nas matas e florestas do Estado de Minas Gerais.

É uma espécie de um lobo avermelhado, com a altura de um bezerro novo, de cujos olhos sai uma luz parecendo um fogo azulado. Uma de suas patas dianteiras é deformada e “pelada”.

MÃOZINHA-PRETA

Assombração corrente no Sudeste Brasileiro, conhecida também por “Mãozinha-de-Justiça”, trata-se de uma mão negra, pequena, solta pelo ar, que efetua os trabalhos domésticos com assombrosa velocidade e perfeição.
Mas, a Mãozinha-Preta também é capaz de bater e castigar, se necessário, concluindo, porém, a tarefa quando lhe dizem “Chega, Mãozinha de Justiça”.
De acordo com o preclaro folclorólogo Câmara Cascudo, “como a mão é negra, não castigava nem atormentava os escravos. Daí sua popularidade entre eles”.

MAPINGUARI

É um macaco grande, muito peludo, com uma bocarra verticalizada, que vai do nariz ao estômago, num medonho rasco que ostenta lábios vermelhecidos de sangue, por onde engole cabeças humanas (só come a cabeça). Ele atrai suas vítimas por meio de seus gritos, que parecem humanos.

Os pés do Mapinguari são como os de burro, e sua pele é semelhante ao casco de jacaré.

Sempre faminto, assombra o Amazonas, o Acre e o Pará. Até os mais valentes guerreiros morrem de medo do Mapinguari.
É também vulnerável em seu umbigo.

MATINTA PERERA

Uma velha feia, assombrosa, toda vestida de negro, cujo rosto é ocultado por uma cabeleira negra e revolta, que anda acompanhada de um pássaro agourento. Existe também a versão da Matinta Perera com asas, capaz de voar, e que se transforma nesse pássaro, chamado “rasga-mortalha”. O assobio estridente dessa ave assusta as crianças e não deixa ninguém dormir.
Mulheres idosas da região amazônica teriam a sina de se tornar essa criatura.
Quando está prestes a morrer, ela pergunta: “Quem quer? Quem quer? Quem quer?
Quem responder, acreditando tratar-se de algo valioso, transformar-se-á em Matinta Perera.
Walcyr Monteiro, em “Visagens e Assombrações de Belém”, explica que para “prender” a Matinta Perera é preciso enterrar uma tesoura virgem, aberta, colocar-lhe no meio uma chave e por cima desta um terço e rezar algumas orações. Assim ela fica presa ao local.

MENINO DOURADO

Menino loiro que em noites enluaradas aparece no Rio São Francisco, emergindo desse rio e mergulhando em suas águas, sucessivamente, montado nas costas de um enorme e mágico peixe dourado, que o teria salvo do afogamento e se encarregado de sua criação.

MOÇA DE BRANCO

Moça vestida de branco que à noite aparecia pedindo carona aos caminhoneiros na antiga estrada Rio-São Paulo.
Os motoristas de caminhão, sempre solícitos com mulheres, estacionavam o veículo e abriam a porta para o ingresso da bela jovem.
A viagem prosseguia. A moça, retraída, estranha, sombria, calada; limitava-se a responder com monossílabos ao que lhe perguntavam.
Entretanto, algum tempo depois, os motoristas se arrepiavam de pavor ao notares que a moça havia simplesmente desaparecido.
Contavam os caminhoneiros que ela fora morta atropelada por um caminhão ao dirigir-se à igreja no dia de seu casamento.
Lenda paulista, segundo Alceu Maynard Araújo (op. Cit.).

MULA-SEM-CABEÇA

É uma enorme mula, acéfala como diz o próprio nome, que solta fogo pelo pescoço.
O estrondoso galopar da Mula-sem-cabeça faz tremer o chão, ouvindo-se de longe seu mórbido e estridente relincho. Seus possantes coices que cortam como navalha ferem mortalmente os homens e animais que cruzam seu caminho. Pela madrugada, volta à forma humana, suja, desgrenhada, toda machucada.

Quem defrontar com a Mula-sem-cabeça deve esconder as unha, pois estas têm para o monstro grande brilho, atraindo-o.
A mais tradicional das versões sobre esse mito nacionalmente conhecido conta que a Mula-sem-cabeça é aquilo em que se transformam, como punição, as amantes de padres católicos, Estes, para evitar que o seu amor sofra essa triste sina devem amaldiçoa-lo sete vezes antes de celebrar a missa. Já o desencantamento da Mula-sem-cabeça, a exemplo do Lobisomem, requer um ferimento que lhe tire sangue. O encanto também pode ser desfeito se lhe for tirado o freio de ferro que traz no pescoço.

Outras há, entretanto, que dizem ter sido o costume de passear de madrugada pelo cemitério. Esse estranho hábito despertou a curiosidade do rei, que numa ocasião a seguiu e a flagrou comendo o cadáver de uma criança que havia morrido na noite anterior. Vendo-se descoberta, transformou-se naquele bicho (Theobaldo Miranda dos Santos, “Lendas e Mitos do Brasil”).
Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”) acrescenta outras causas para a malsinada transformação: as moças namorarem na Sexta-feira santa; moças solteiras terem relação sexual antes do casamento.

O mesmo autor pontifica que a versão mais tradicional, no passado, “era uma forma de proibição, de sanção que se inventou para que as mulheres não ‘tentassem’ os padres”, considerando interessante que “esse castigo é só para a mulher”. O padre “representa o sagrado, ela , a tentação, o demônio”.
Entretanto, é oportuno mencionar que o Prof. José Sant´anna (criador do Festival do Folclore”, a exemplo de Câmara Cascudo (“Dicionário do Folclore Brasileiro”), registra a figura do CAVALO-SEM-CABEÇA (São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais) que representaria a sanção contra o padre, sendo “uma réplica à mula-sem-cabeça”, diferenciando-se desta “pela morfologia do corpo”.
Como se pode constatar, o problema, na realidade, não eram só as mulheres, tanto que foi preciso que criassem outra fantástica figura.

NEGRINHO DO PASTOREIO

Um escravo, ainda menino, sem pais, sem padrinhos, que se dizia afilhado de Nossa Senhora, e a quem chamavam Negrinho, era encarregado de pastorear o rebanho de um cruel estancieiro, seu senhor.
Numa noite em que estava a exercer esse mister, com medo do som das corujas, acabou adormecendo.
O filho do malvado senhor, tão perverso como o pai, fez com que os cavalos escapassem, pondo a culpa no Negrinho.
Depois de ter mandado que seus feitores açoitassem o Negrinho, o senhor ordenou a este que no escuro da noite reunisse os cavalos. Nossa Senhora, então, atendendo ao pedido de ajuda de seu afilhado, iluminou as coxilhas por onde ele cavalgava procura dos animais, fazendo com que estes pudessem ser vistos e finalmente reunidos no potreiro pelo Negrinho.
O filho do estancieiro, não satisfeito, soltou novamente os cavalos.
Dessa vez, a surra foi impiedosa e o Negrinho, depois de atirado num formigueiro, acabou morrendo.
Salvo por Nossa Senhora, e usufruindo da liberdade que lhe trouxe a morte, dizem que ele cavalga até hoje pela terra e pelo céu.
“Quem acender uma vela para o Negrinho do Pastoreio encontrará o que perdeu: amor, felicidade ou objetos”, diz Alceu Maynard Araújo, em “Lendas Brasileiras”.
Do sul do Brasil.

“OS OLHOS DO MENINO”
(A LENDA DO GUARANÁ)

Um casal de índios que não conseguia ter filhos implorou a Tupã que lhes concedesse essa graça.
O pedido foi atendido. Tiveram um lindo, bondoso e inteligente menino, que logo conquistou a amizade de todos da aldeia.
O espírito do mal ficou com inveja e com ódio do menino e acabou matando-o ao tomar a forma de uma cobra.
Ao darem sua falta, toda a tribo saiu à sua procura até encontrá-lo morto, caído ao lado de uma árvore.
Nesse momento, a mãe da criança ouviu Tupã lhe dizer para plantar ali os olhos do menino, que deles nasceria um fruto maravilhoso.
Assim nasceu o guaraná, cujas sementes negras, envoltas numa película branca, realmente se assemelham a um olho humano.

PAI-DO-MATO

Bicho gigantesco, de corpo todo piloso, cabelos até o chão, barbicha, mão de macaco, pé de cabra e orelhas de cavalo.
Seus urros e seu riso macabro reverberam por toda a mata.
Tiros e facadas não o matam, exceto se lhe atingir o umbigo.
É também comedor de gente.

PAPA-FIGO

Um preto velho carregando um saco de estopa nas costas, muito feio, banguela, barbudo, esmolambado, leproso, que para se tratar desse terrível enfermidade mata crianças mentirosas para lhes comer o fígado.
A gente simples do povo acredita que a lepra altera os caracteres do sangue, sendo por isso chamada também de mal de fígado ou mal do sangue. Para se purificar é preciso um novo fígado, cru, de criança sadia e forte.
Esse foi o ponto de partida para o surgimento do temível Papa-figo, o comedor de fígado, que atemoriza as crianças nas narrativas dos pais.
Dizem que ele costuma rondar as escola, jardins e parques, atraindo as crianças, jardins e parques, atraindo as crianças desobedientes e mentirosas com doces e brinquedos, aí as mata arrancando lhes o fígado (“fico para o povo”).
De acordo com uma versão de que o Papa-figo teria sido uma pessoa rica que contraiu a terrível doença, ele costuma deixar dentro da barrida da vítima uma grande quantia em dinheiro para os familiares e para o sepultamento.
Mito conhecido em todo o Brasil.

PISADEIRA

Acredita-se que o pesadelo resulta da ação maléfica de um demônio ou espírito ruim.
A Pisadeira seria, então, para o povo, a personificação do pesadelo numa velha feia, gorda, pesada, que sentaria na boca do estômago de quem está a dormir, oprimindo-lhe o tórax de modo a dificultar a respiração. A ela atribuem a causa de malfadados sonhos. Suas presas mais fáceis, dizem, são as pessoas que dormem de costas ou com o estômago cheio.
É curioso notar que o vocábulo pesadelo deriva de “peso”, “pesado”.

PORCA DOS SETE LEITÕES

É uma porca, que costuma aparecer atrás de igrejas antigas e de cruzeiros de estadas, acompanhada de sete leitões. É branca e solta fogo pelos olhos, pelo focinho e pela boca. Ela teria sido uma rainha que, com seus filhos pequenos, sofreu essa transformação por vingança de um horrível feiticeiro.
De acordo com outra versão, seria a alma de uma mulher que praticara sete abortos.
(Chamada de lenda, mito, e até mesmo de superstição).

A PRINCESA DA CIDADE ENCANTADA

Em Jericoacara, os moradores contam que existe uma cidade encanta, perto da praia, sob o farol, onde só se pode chegar na maré baixa. A entrada, numa caverna, é fechada por uma enorme grade de ferro.
Nessa cidade vive uma linda princesa, que por um feitiço de um bruxo malvado com quem ela não quis se casar teve o seu corpo transformado numa espécie de serpente de escamas douradas. Apenas seu rosto e seus pés se mantiveram a salvo da terrível bruxaria.
Dizem que para quebrar esse encanto, é preciso banhá-la com sangue humano e que o herói que a salvar ficará com ela e com todo o ouro que existe na cidade, a qual também renascerá.
Mas, os que até hoje tentaram, correm aterrorizados ao ouvirem, logo na entrada da cidade, os sons apavorantes de fantasmas, de gemidos e gritos humanos, e de urros de monstros ferozes.
Lenda mais conhecida do Ceará.

QUIBUNGO

Bicho-papão, meio homem, meio maçado, cabeça muito grande e uma enorme boca nas costas – por onde devora as crianças – a qual se abre e fecha à medida que ele movimenta sua cabeça para cima ou para baixo.
Acredita-se que os negros, quando ficam muito velhos, “viram” Quibungo.
Diversamente dos outros que integram o chamado ciclo dos monstros, como o Pai-do-Mato e o Mapinguari, o Qujibungo não é invulnerável às armas do homem, de modo que pode ser ele abatido à faca, tiro ou pauladas.
Mito baiano, de origem africana.

SACI-PERERÊ

De acordo com a configuração mais popular, o Saci-Pererê é representado por um negrinho de uma perna só, com orelhas de morcego e a mão furada, que usa uma carapuça vermelha na cabeça, cujo poder mágico lhe confere a prerrogativa de ficar invisível e de aparecer e desaparecer como fumaça. Se lhe for tirada a carapuça ele perde seus poderes.
Ele se faz anunciar por um assobio estridente e adora fumar, sendo esta uma forte característica do Saci, pois é difícil imagina-lo sem seu cachimbo.
O Saci é daqueles fumantes que nunca trazem consigo palitos de fósforos ou isqueiro e, por isso, sempre assombra os viajantes pedindo-lhes fogo para seu pito.

Matreiro, traquinas, o Saci pratica todo tipo de diabruras: da nó nos rabos dos cavalos, faz queimar a comida, esparrama as brasas do fogão, joga farinha em toda a cozinha, derruba o chapéu dos viajantes (depois de quase matá-lo de susto ao montar na garupa de seus cavalos), faz cócegas e puxa as cobertas de quem está dormindo e outras molecagens ainda piores.
O remédio mais eficaz para espantar o Saci é rezar o Credo.
Amadeu Amaral, (em “Tradições Populares”) pontifica que “o Saci, que é certamente indígena em parte, revelando amálgama de elementos de outros mitos aborígines (Curupira, Caapora, etc), sofreu influência do negro, patente na transformação do personagem num moleque travesso, e ao mesmo tempo incorporou não pouca coisa de procedência européia. De modo que o Saci marca um momento importante, uma encruzilhada da nossa viagem histórica. O Saci é talvez um símbolo...”

UIRAPURU

“O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
que fique a escutar quando outro canta”.

Segundo a lenda, duas índias muito amigas se apaixonaram pelo mesmo homem, o novo cacique da tribo onde viviam. Como eram amicíssimas, deixaram para que o cacique decidisse com qual das duas iria ficar. Ele, porém, gostava de ambas as rivais, e não se decidia.

Para solucionar o impasse, propôs um duelo, uma competição de arco e flecha: a pretendente que acertasse um pássaro, indicado por ele, em pleno vôo, seria sua mulher.
As duas amigas dispararam, então, suas flechas. Uma delas acertou o alvo e se casou com o cacique, A outra, embora se mostrasse conformada, derramava seu prato de dor às ocultas. Suas lágrimas formaram um rio.
Tupã, o deus dos índios, vendo nascer aquele rio que desconhecia, foi saber o que se passava. A índia lhe contou e pediu que a transformasse num pássaro a fim de que dessa forma pudesse matas as saudades de seu amor.
Ao ver que o cacique e sua amiga formavam um casal muito feliz, ficou ainda mais triste. A índia, então, voando de volta para sua tribo, começou a cantar um canto tão lindo que toda a mata parou para ouvi-lo. Tupã, ao surpreender-se com o silêncio da mata, encantado com o canto, deu à índia o nome de Uirapuru (pássaro que não é pássaro), e lhe disse que quando se sentisse triste, que cantasse, que a tristeza passava.

URUTAU (ou Mãe-da-Lua)

“À noite, na mudez da mata escura, solta o Urutau seu grito de saudade.
Pranto ou soluço, pleno de amargura, de quem a nostalgia à noite invade”.
Orlando de Almeida Sales

Pássaro sinistro, estranho, esquivo, que nas sombras e no escuro da noite se refugia, com seu triste canto, tão triste que parece ressoar um plangente e desesperado grito de dor, uma dor que nada cura.
É cercado de mistérios e de lendas (“personalizando fantasmas e visagens pavorosas”, segundo Luís da Câmara Cascudo) dentre as quais ficamos com três, que convergem num ponto: transformaram-se em Urutau enamorados que à dor sucumbiram, por causa de um amor perdido:

a índia Imaeró, preterida pela irmã Denaquê, na disputa pelo coração de Tainá-Can;
a guarani Nheambiu, derrotada pela morte, que levou seu namorado Quimbae (registradas por Câmara Cascudo, em “Dicionário do Folclore Brasileiro”);
um jovem caboclo que na mata se entranhou tentando encontrar, sem jamais conseguir, a linda moça que lhe dissera ser o seu grande amor, antes de desaparecer (registrada por Benedicto Pires de Almeida, em “Folclore de Tietê”).

Folclore

DANÇAS FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS

Entende-se por Danças Folclóricas as expressões populares desenvolvidas em conjunto ou individualmente, frequentemente sem sazonalidade obrigatória. Tudo indica que é na coreografia que reside seu elemento definidor.

Existe grande número delas no Brasil. Para a organização do inventário que se segue, foi necessária uma seleção, aqui definida pelos critérios de abrangência nacional e por algumas particularidades, regionais e/ou locais.

Região Norte

Camaleão (AM) - é dança de pares soltos que desenvolvem coreografia constituída por sete diferentes passos, chamados jornadas. Organizados em duas fileiras, homens e mulheres executam passos laterais de deslize, vênias entre os pares, palmas na mão do parceiro, troca de lugares, sapateados rítmicos, requebrados, palmeados das mulheres e dos homens entre si, terminando com o passo inicial. O conjunto musical é formado por viola, cavaquinho, rabeca e violão. Nessa dança usa-se indumentárias específica inspirada “no tempo do império”: os homens trajam fraque de abas, colete, culotes, meias brancas longas, sapato preto afivelado, gravata pomposa; as mulheres trajam saias longas rodadas, blusas soltas, meias brancas, sapatos afivelados.

Carimbó (PA) - dança de roda formada por homens e mulheres, com solista no centro que baila com requebros, trejeitos, passos miúdos arrastados e ligeiros. O apogeu da apresentação é quando a dançarina, usando amplas saias, consegue cobrir algum dançador, volteando amplamente a veste. Este gesto provoca hilaridade entre todos. Caso jogue a saia e não cubra o parceiro, é imediatamente substituída. O nome da dança deriva de um dos instrumentos acompanhantes, um tambor de origem africana.

Ciranda (AM) - é uma rapsódia composta de várias partes, acompanhada da música “Ciranda, Cirandinha”. Dança-se em círculo, moças e rapazes vestidos à moda antiga. No final é exibido o episódio do carão (pernalta jaburu) que é morto pelo caçador. O carão e o caçador aparecem fantasiados.

Dança do Maçarico (AM) - apresenta música saltitante com coro alegre e animado. Os dançarinos, organizados aos pares, desenvolvem uma coreografia constituída por cinco diferentes movimentos: “Charola”, “Roca-roca”, “Repini-co”, “Maçaricado” e “Geléia de Mocotó”. Os pares, ora enlaçados ora soltos, dão passos corridos para frente e para trás, de deslize laterais, volteios rápidos, rodopios ligeiros, culminando com uma umbigada. A música é executada em sanfona ou acordeão, viola, violão, rabeca, tambores pequenos pifanos.

Dança do Sol - inicialmente se chamou Quaraci Poracê, dançada entre os índios do Município de Carvoeiro, em 1931, e divulgada posteriormente com o nome de “Tipiti” ou “Dança do Pau de Fita”. Possui os seguintes passos: Caracol; Tipiti de um; Tipiti de dois, Tipiti de três; Tipiti de quatro; Trança; Rede; Chochê (desafio).

Desfeiteira (AM, PA) - dança de pares enlaçados que circulam livremente pelo salão. A única obrigatoriedade é passar, cada par por sua vez, diante do conjunto musical que executa partituras alegres e vivas de: valsas, polcas, sambas rurais, chulas amazonenses, mazurcas, xotes etc. Repentinamente, os músicos cessam de tocar e os pares também estacam, onde estiverem. Aquele que coincidir estar na frente da banda passará por uma prova: o músico-chefe escolhe a dama ou o cavalheiro para declamar versos. Quem não conseguir é vaiado por todos e, por esta desfeita, paga uma prenda, ficando assim desfeiteado.

Gambá (toda a região) - dança de terreiro, o Gambá é constituído de brincan-tes, um “marcador”, um grupo de quatro cantores, uma mulher solista e seu parceiro. Os demais formam uma roda ou duas fileiras que envolvem o par so-lista e batem palmas no ritmo executado no “Gambá”, isto é, um tambor feito de tronco de árvore com cerca de um metro de comprimento. A dança se inicia com uma mulher que acena um lenço grande colorido, requebra e mexe o cor-po voluptuosamente de modo a provocar o entusiasmo dos demais. Depois de alguns momentos atira-o aos pés de algum dançador do grupo.
Este recolhe o lenço e sai em perseguição da dama, que simula fugir das investidas do cava-lheiro. O cavalheiro então simula desinteresse e a dama passa a provocá-lo com movimentos lascivos, sempre com auxílio do lenço. A dança termina com a aceitação do cavalheiro que, com a dama, improvisa movimentos sensuais.

Serafina (AM) - é executada por homens e mulheres que se organizam em duas fileiras, por sexo. Nesta posição desenvolvem movimentos chamados “Batição”, que têm denominações próprias: “Puçá”, “Mala”, “Lance alto”; organizam-se depois em círculo e executam outros movimentos: “Arrodeio alto”, “Arrodeio baixo”, “Cacuri” e “Tapagem”, retornam às fileiras e dançam ainda o “Arrastão” e a “Repartição”. Quando nas fileiras, os dois primeiros pares formam grupos de quatro dançadores e desempenham as batições entre si. Os participantes carregam alguns implementos que referenciam o aspecto simbólico desta dança: remo de tamanho natural, arpões, lenços grandes atados à volta do pescoço, fitas coloridas presas cintura, chapéus de palha. Os remos e arpões são colocados no chão e não têm nenhuma utilidade prática; as fitas e os lenços são usados no “Lance alto” e no “Lance baixo” quando a dupla de pares cruza as fitas, e no “Arrodeio alto” e “Arrodeio baixo”, figurações marcadas pelo cruzamento dos lenços de cada dupla de pares. A música é caracteristicamente rural: cavaquinho, reco-reco, violão, tambor gambá, caracaxás e maroca. Este último é um tambor pequeno, recoberto com couro de cobra sobre o qual colocam-se duas linhas paralelas cheias de contas que vibram juntamente com o couro.

Região Nordeste

Cavalo Piancó (PI) - originária do município de Amarante, cavalheiros e damas, formando pares, compõem um círculo e dançam imitando o trote de um cavalo manco. O andamento musical varia entre apressado e moderado e a coreografia às marcações
determinadas pela letra: trote apressado, trote requebrado, batidas de pés, galope saltitante
etc. A letra pode ainda ser improvisada, o que influi na coreografia dos dançadores.

Ciranda (PB, PE) - dança desenvolvida por homens, mulheres e crianças. Os dançarinos formam uma grande roda e dão passos para dentro e para fora do círculo, provocando ainda um deslocamento do mesmo no sentido anti-horário. A música é executada por um grupo denominado “terno”, colocado no centro da roda, tocando instrumentos de percussão - bumbo, tarol, caixa, ganzá - e de sopro - pistons e trombone. As canções, tiradas pelo mestre-cirandeiro e respondidas pelo coro dos demais, têm temáticas que
refletem a experiência de vida.

Coco (toda a região) - difundido por todo o Nordeste, o Coco é dança de roda ou de fileiras mistas, de conjunto, de par ou de solo individual. Há uma linha melódica cantada em solo pelo “tirador” ou “conquista”, com refrão respondido pelos dançadores. Um vigoroso sapateado denominado “tropel” ou “tropé” produz um ritmo que se ajusta àquele executado nos instrumentos musicais. O Coco apresenta variadas modalidades, conforme o texto poético, a coreogra-fia, o local e o instrumento de música. Os “Coco solto”, “Quadras”, “Embola-da”, “Coco de entrega”, “Coco de dez pés” são referidos pela métrica literária; os “Coco de ganzá”, “Coco de zambê”, pela música; os “Coco de praias”, “Coco de usina”, “Coco de sertão”, pelos locais; os “Coco de roda”, “Coco de parelhas ligadas”, “Coco solto”, “Coco de fila”, “De parelhas trocadas”, “De tropel repartido”, “Cavalo manco”, “Travessão”, “Sete e meio”, “Coco de visitas”, pela coreografia. A umbigada é presente em muitas variantes.
No Rio Grande do Norte o Coco é chamado “Zambelô”, “Coco de zambê” e “Bamdelô”. Possui um instrumental mais complexo, constituído por atabaques, pequenos tambores, ganzá e afoxé ou maracá.

Dança de S. Gonçalo (Al, BA, MA, PI, SE) - dança religiosa, organizada em pagamento de promessa devida a São Gonçalo. O promesseiro é quem organi-za a função, administrando todo o processo necessário à realização deste rit-ual. Em Sergipe essa dança é executada somente por homens. A única mulher presente não tem papel ativo.
Este grupo é constituído por: “Patrão”, “Mari-posa”, “Tocadores”, “Dançadores”. Patrão e dançadores usam trajes especiais. O primeiro veste-se de marinheiro, por influência do mito; os demais usam indumentária que revela influência árabe: anáguas e longas saias floridas, blusa de renda branca cavada, xale colorido em diagonal no peito, turbante envolvido em fitas multicores, colares e pulseiras. A coreografia consta de uma série fixa de evoluções que se repete a cada jornada.

Dança do Lelê (MA) - também conhecido pelos nomes de Péla ou Péla-porco, o Lelê é dançado em pares dispostos em filas lideradas pelos “cabeceiras” ou “mandantes”, “de cima” e “de baixo”. Esta dança compreende quatro partes distintas: “Chorado”, “Dança Grande”, “Talavera” e “Cajueiro”. Os instrumentos musicais são a rabeca, o pifano, castanholas artesanais, violão, cavaquinho e pandeiro. Os cantos, improvisados, são inspirados em acontecimentos do cotidiano. O Lelê é dança de salão sem dia nem mês específicos, embora possa ser organizada como dança votiva ou fazer parte da Festa do Divino e de outros santos populares.

Espontão (RN, PB) - o nome deriva da meia-lança usada pelos sargentos de infantaria no século XVIII. É realizada por grupo de homens negros, cada um deles trazendo uma pequena lança com a qual desenvolvem uma coreografia que simula guerra. O chefe, denominado “Capitão da lança”, é o que leva a lança grande. percorrem as ruas ao som de tambores marciais; nas casas que visitam dançam agitando a lança e os espontões, realizando saltos de ataque, recuos de defesa, acenos guerreiros, numa improvisação que revela grande destreza nos movimentos. Não há cânticos mas acompanhamento rítmico produzido nos tambores marciais.

Frevo (PE) - embora esteja praticamente em todo Nordeste, é em Pernambuco que o Frevo adquire expressão mais significativa. Dança individual que não distingue sexo, faixa etária, nível sócio-econômico, o frevo frequenta ruas e salões no carnaval pernambucano, arrastando multidões num delírio contagiante. As composições musicais são a alma da coreografia variada, complexa, acrobática. Dependendo da estruturação musical, os frevos podem ser canção, de bloco ou de rua.

A coreografia recebe denominações específicas:

“Chã-debarriguinha”, “Saca-rolha”, “Parafuso”, “Tesoura”, “Dobradiça”, “Pontilhado”, “Pernada”, “Carossel”, “Coice-de-burro”, “Abanando o fogareiro”, “Caindo nas molas” etc.

Maculelê (BA) - bailado guerreiro desenvolvido por homens, dançadores e cantadores, todos comandados por um mestre, denominado “macota”. Os par-ticipantes usam um bastão de madeira com cerca de 60 centímetros de com-primento. Os bastões são ba-tidos uns nos outros, em ritmo firme e compassado. Essas pancadas presidem toda a dança, funcionando como marcadoras do pulso musical. A banda que anima o grupo é composta por atabaques, pandeiros, às vezes violas de doze cordas. As cantigas são puxadas pelo “macota” e respondidas pelo coro.

Pagode de Amarante (PI) - de origem africana, o Pagode de Amarante é desenvolvido com os dançadores formando duas fileiras de pares que se cruzam sem obedecer a marcações coreográficas estabelecidas. Cada par improvisa movimentos com rodopios, sapateado e ginga.

A música é executada por dois cantadores e ritmada no “gafanhoto”: consta de um pedaço de pau oco medindo cerca de quinze centímetros de comprimento, batido com um pedaço de madeira, tocado por todos os homens que dançam.

Tambor de Crioula (MA, PI) - dança das mais recorrentes no Maranhão, é caracterizada pela presença da umbigada, que recebe o nome de “punga”. Desenvolvida com os dançadores em formação circular, a coreografia é executada de forma individual e consta de sapateios e requebros voluptuosos, com todo o corpo, terminando com a “punga”, batida no abdômen de outro participante da roda. Os cantos são repetitivos, semelhança de estribilho. O ritmo é executado em três tambores feitos de tronco, escavados a fogo. O tambor grande é chamado Socador; o médio, Crivador ou Meão; o pequeno, Pererenga ou Pirerê.

Torém (CE) - dança de terreiro com participantes de ambos os sexos que se colocam em formação circular, com o dançador solista ao centro. Tocando o Aguaim - espécie de maracá - o solista executa movimentos de recuo e avanço, requebros, sapateios, saltos, além daqueles imitativos de serpente e lagarto, reveladores de destreza e plasticidade. Os demais participantes marcam o compasso musical com batidas de pés enquanto vão girando a roda no sentido anti-horário. A música, à capela, é cantada pelo solista e repetida pelo coro de dançadores. O “mocororó” - suco de caju fermentado - é distribuído fartamente durante todo o tempo da dança.

Região Sudeste

Batuque (SP, MG, ES) - dança de terreiro com dançadores de ambos os sexos, organizados em duas fileiras - uma de homens e outra de mulheres. A coreografia apresenta passos com nomes específicos: “visagens” ou “mica-gens”, “peão parado” ou “corrupio”, “garranchê”, “vênia”, “leva-e-traz” ou “cã-cã”. São executados com os pares soltos que, saindo das fileiras, circulam livremente pelo terreiro. O elemento essencial em toda a coreografia é a umbi-gada, chamada “batida”: os dançadores dão passos laterais arrastados, depois levantam os braços e, batendo palmas acima da cabeça, inclinam o tronco para trás e dão vigorosa batida com os ventres. Os instrumentos musicais são todos de percussão: Tambu, Quinjengue, Matraca e Guaiá ou chocalho.

Cana-verde (toda a região) - também chamada Caninha-verde, esta dança apresenta variantes no que se refere à cantoria, coreografia, à poética e à música. No Rio de Janeiro, é uma das “miudezas” da Ciranda e uma dança com bastões. Algumas recebem nomes variados; como Cana-verde de passagem (MG e SP), Cana-verde simples (SP). A disposição dos dançadores varia entre círculo sem solista, fileiras opostas, rodas concêntricas; os movimentos podem ser deslize dos pés, sapateios leves ou pesados, balanceios, gingados, troca de pares. O movimento tido como característico é a “meia-volta”, desenvolvida num círculo que se arma e se desfaz com os dançadores deslizando, ora para dentro ora para fora, ora em desencontro, ora em retorno à posição inicial.

Catira ou Cateretê (MG, SP) - é executada exclusivamente por homens, or-ganizados em duas fileiras opostas. Na extremidade de uma delas fica o vio-leiro que tem à sua frente o seu “segunda”, isto é, outro violeiro ou cantador que o acompanha na cantoria. O início é dado pelo violeiro que toca o “ras-queado”, para os dançadores fazerem a “escova”- bate-pé, bate-mão, pulos. Prossegue com os cantadores iniciando uma moda de viola. Os músicos inter-rompem a cantoria e repetem o rasqueado. Os dançadores reproduzem o bate-pé, o bate-mão e os pulos. Vão alternando a moda e as batidas de pé e mão. Acabada a moda, os catireiros fazem uma roda e giram batendo os pés alter-nados com as mãos: é a figuração da “serra acima”; fazem meia-volta e repe-tem o sapateiro e as palmas para o “serra abaixo”, terminando com os dança-dores nos seus lugares iniciais. O Catira encerra com Recortado: as fileiras trocam de lugar, fazem meio-volta e retornam ao ponto inicial.
Neste momen-to todos cantam o “levante”, que varia de grupo para grupo. No encerramento do Recortado os catireiros repetem as batidas de pés, mãos e pulos.

Caxambu (MG, RJ) - dança de terreiro executada por homens e mulheres postos em roda sem preocupação de formar pares. No centro, fica o solista, “puxando” os cantos e improvisando movimentos constituídos de saltos, volteios, passos miúdos, balanceios. Os instrumentos acompanhantes são dois tambores, feitos de tronco de árvore, cavalos a fogo e recobertos com couro de boi. São denominados Tambu ou Caxambu e Candongueiro.
Às vezes aparece uma grande cuíca, feita de tonel de vinho ou cachaça. É chamada Angoma-puíta. As músicas, denominadas “pontos”, são tiradas pelo dançador-solista e respondidas pelo coro dos participantes. O canto inicia com pedidos de licença aos velhos caxambuzeiros desaparecidos e depois se mesclam de simbolismo e enigmas intrincados.
Atualmente observa-se um sincretismo com a Umbanda, perceptível na indumentária e nos adereços usados pelos participantes.

Ciranda (RJ) - No Rio de Janeiro o termo ciranda pode significar tanto uma dança específica quanto uma série de danças de salão, que obedecem a um esquema: Abertura, Miudezas e Encerramento. Enquanto dança, faz parte das miudezas da Ciranda, baile. A Ciranda-baile, também denominada Chiba, tem na Chiba-cateretê a que faz a abertura da série; as Miudezas são um conjunto de variadas danças com nomes e coreografias diversos; Cana-verde de mão, Cana-verde valsada, Caranguejo, Arara, Flor-do-mar, Canoa, Limão, Chapéu, Choradinha, Mariquita, Ciranda, Namorador, Zombador. O Encerramento é feito com a Tonta, também chamada Barra-do-dia. As músicas são na forma solo-coro, tiradas pelo mestre em quadras tradicionais e circunstanciais, respondidas pelas vozes dos dançadores. O acompanhamento musical é feito por viola, violão, cavaquinho e adufes. Na Chiba-cateretê o conjunto musical é composto ainda do Mancado: um caixote percutido com tamancos de madeira.

Dança de S. Gonçalo (MG, SP) - para sua execução os dançadores se organi-zam em duas fileiras, uma de homens e outra de mulheres, organizados dian-te de um altar do santo. Cada fileira é encabeçada por dois violeiros - mestre e contramestre - que dirigem todo o rito. A dança é dividida em partes chama-das “volta”, cujo número varia entre 5, 7, 9 e 21. As “voltas” são desenvolvidas com os violeiros cantando, a duas vozes, loas a São Gonçalo, enquanto os dançadores, sapateando na fileira em ritmo sincopado, dirigem-se em dupla até o altar, beijam o santo, fazem genuflexão e saem sem dar as costas para o altar, ocupando os últimos lugares de suas fileiras. Cada volta pode demorar de 40 minutos a 2 ou 3 horas, dependendo do número de dançadores. Na última “volta”- em São Paulo chamada “Cajuru”- forma-se uma roda onde o promesseiro dança carregando imagem do santo, retirada do altar. Em Minas Gerais, no Vale do São Francisco, a dança é desenvolvida por dez ou doze pares de moças, todas vestidas de branco. Cada uma delas leva um grande arco de arame recoberto de papel de seda branco franjado, com quais
fazem figurações coreográficas.

Dança do Tamanduá (ES) - organizada em roda de homens e mulheres, um solista ao centro vai executando movimentos determinados pela letra da cantoria: pondo a mão na cabeça ou na cintura, batendo com o pé no chão, pulando para lá e para cá, mexendo com as cadeiras etc. As músicas são na forma solo-coro, o que permite improvisação nas ordens musicais cantadas pelo puxador.

Fandango (SP) - neste Estado há duas modalidades de Fandango: o do interior e o do litoral. O primeiro revela influências do tropeiro paulista. Dançam somente homens, em número par. Vestem-se com roupas comuns, chapéus, lenço ao pescoço, botas com chilenas de duas rosetas, sem os dentes. Estas chilenas, batidas no chão, funcionam como instrumento de percussão no acompanhamento das “marcas”, como Quebra-chifre.

Pega na bota, Vira Corpo, Pula sela, Mandadinho, dentre outras. A música é a moda de viola comum. O palmeado e o castanholar de dedos estão presentes no início e entre as “marcas”. O Fandango do litoral compreende uma série de danças de pares mistos, tais como: Dão-dão, Dão-dãozinho, Graciana, Tiraninha, Rica senhora, Pica-pau, Morro-seco, Chimarrita, Querumana, Enfiado, Manjericão, etc. Cada “marca” apresenta coreografia própria, assim como são também particulares a linha melódica e o texto poético.

Jongo (MG, SP) - dança de negros organizados em roda mista, alternando-se homens e mulheres. No centro um solista, um jongueiro, que canta sua canção, o “ponto”. Os demais respondem em coro, fazendo movimentos laterais e batendo palmas, nos lugares. O solista improvisa passos movimentando todo o corpo. O instrumental é composto por dois tambores - um grande, o Tambu, e um menor, o Candongueiro; uma Puita - cuica, artesanal; um chocalho - o Guaiá, feito de folha-se-flandres. As melodias são construídas com o uso de poucos sons. A dificuldade reside no texto literário dos “pontos”, pois são todos enigmáticos, metafóricos. Quando o solista quer desafiar alguém, canta o “ponto da demanda”; este deverá decifrá-lo, cantando a resposta: diz-se então que “desatou o ponto”. Se não for decifrado, diz-se que “ficou amarrado”. Neste caso, o jongueiro “amarrado” pode passar por várias situações humilhantes e vexatórias, como cair no chão e não conseguir se levantar, não conseguir andar, etc.

Mineiro-pau (MG, RJ) - dança executada por homens, adultos e crianças, cada um levando um ou dois bastões de madeira. Desenvolvida em círculo ou em fileiras que se defrontam, os dançarinos, voltados de frente para o seu par, realizam uma coreografia totalmente marcada pelas batidas dos bastões no chão. Sempre em compasso quaternário, o tempo forte musical é marcado com batida dos bastões no chão. A variedade na forma de bater os restantes três tempos é que dá nomes específicos às partes: “Batida de três”, “Batida de quatro”, “Batida cruzada”, “Batida no alto”, “Batida embaixo” etc. Muitos grupos têm como parte integrante o Boi Pintadinho (RJ) ou o Boi-lé (MG), com seus principais personagens: a Mulinha, o Jaguará, o Boi, os Cabeções.

Quadrilha (todos os Estados) - própria dos festejos juninos, a Quadrilha nasceu como dança aristocrática, oriunda dos salões franceses, depois difundida por toda a Europa. No Brasil foi introduzida como dança de salão que, por sua vez, apropriada e adaptada pelo gosto popular. Para sua ocorrência é importante a presença de um mestre “marcante” ou “marcador”, pois é quem determina as figurações diversas que os dançadores desenvolvem. Observa-se a constância das seguintes marcações: “Tour”, “En avant”, “Chez des dames”, “Chez des Chevaliê”, “Cestinha de flor”, “Balancê”, “Caminho da roça”, “Olha a chuva”, “Garranchê”, “Passeio”, “Coroa de flores”, “Coroa de espinhos” etc. No Rio de Janeiro, em contexto urbano, apresenta transformações: surgem novas figurações, o francês aportuguesado inexiste, o uso de gravações substitui a música ao vivo, além do aspecto de competição, que sustenta os festivais de quadrilha, promovidos
por órgãos de turismo.

Região Centro-Oeste

Caninha-verde (toda a região) - consta de uma roda de homens e mulheres que cantam e dançam permutando de lugares e formando pares. Os textos cantados são tradicionais e circunstanciais, acompanhados por viola, violão e pandeiro.

Catira (GO) - semelhante à existente no sudeste, esta dança é executada por homens que sapateiam, rodopiam e palmeam um ritmo sincopado, intercalando com moda de viola, executada por dois violeiros.

Siriri (MT) - dança de pares soltos que se organizam em duas fileiras, uma de homens e outra de mulheres. No meio delas ficam os músicos. O início é dado com os homens cantando o “baixão”, acompanhados das palmas dos demais participantes. A seguir um cantador “joga” uma quadra que é repetida por todos. Neste momento um cavalheiro sai de sua fileira e se dirige à dama que lhe fica à frente, fazendo-lhe reverência e voltando ao lugar inicial. A dama o acompanha até o meio do caminho, quando então se dirige a outro cavalheiro retorna também ao seu lugar inicial. Este cavalheiro repetirá a movimentação do primeiro, e a dança assim prossegue até que todos os participantes tenham feito este solo. Os passos não têm marcação rígida, isto é são individualizados. O acompanhamento musical pode ser apenas rítmico, executado em tambor e reco-reco; às vezes também apresenta instrumentos melódicos, como a sanfona e a viola de cocho.

Tambor (GO) - executada com um solista no centro de um círculo formado pelos dançadores. O ritmo é marcado por tambores e o canto é coletivo.

A coreografia, desenvolvida pelo solista, distingue partes que recebem denominações específicas: “Jiquitaia”, “Serrador”, “Negro-velho”. A troca de solistas no centro da roda se processa através da umbigada.

Vilão (GO) - dança de conjunto cujos participantes se subdividem pela fun-ção: Batedores, Balizadores, Músicos, Regente e Chefe do grupo. Organizados em semicírculo, os Batedores, trazendo longos bastões de madeira, dão bati-das nos bastões do parceiro, ao ritmo da marcação do apito do Regente e da execução musical da banda. Há uma série de movimentos que compreendem giros de corpo, volteios dos bastões, troca de lugares, encerrando com uma sequência de sete outros gestos rapidíssimos, chamados “Cerradinhos”, que constam de batidas realizadas com os batedores agachados.

Região Sul

Balainha (PR, SC) - conhecida também com o nome de Arcos Floridos ou Jardineira, a balainha é desenvolvida com os pares de dançantes, cada um deles, sustentando um arco florido. No início, os pares em fileiras fazem movimento ondulante passando, ora por cima ora por baixo dos arcos dos demais pares; formam depois grupos de quatro pares que, em círculo, intercruzam seus arcos no alto, armando assim as “Balainhas”. Ao final desmancham as “balainhas” e retornam à posição inicial, com movimentos sincronizados e sequenciais.

Fandango (PR, RS) - o termo Fandango designa uma série de danças populares - chamadas “marcas”. No Paraná, os dançadores, executam as variadas coreografias: Anu, Andorinha, Chimarrita, Tonta, Cana-verde, Caranguejo, Vilão de Lenço, Xarazinho, Xará Grande, Sabiá, Marinheiro, etc. O acompanhamento musical é feito com duas violas, uma rabeca e um pandeiro rústico, chamado adufo. As coreografias das “marcas” paranaenses constam de rodas abertas ou fechadas, uma grande roda ou pequenas rodas fileiras opostas, pares soltos e unidos. Os passos podem ser valsados, arrastados, volteados, etc., entremeados de palmas e castanholar de dedos. O sapateado vigoroso é feito somente pelos homens, enquanto as mulheres arrastam os pés e dão volteios soltos.

No Rio Grande do Sul, o Fandango apresenta um conjunto de vinte e uma danças, com nomes próprios: Rancheiro, Pericom, Maçarico, Pezinho, Balaio, Tirana-do-lenço, Quero-mana, Tatu, etc.
O acompanhamento musical é feito pelo acordeão, chamado “gaita”, e pelo violão. A coreografia recebe nomes também distintos - “Passo de juntar”, “Passo de marcha”, “Passo de recurso”, “Passo de valsa”, “Passo de rancheira”, “Sapateio”, etc.

Pau-de-Fitas (toda a região) - para seu desenvolvimento prepara-se um mastro com cerca de três metros de comprimento, encimado por um conjunto de largas fitas multicores, de maior tamanho. Os dançadores, em número par, seguram na extremidade de cada fita e, ao som das músicas, giram em torno do mastro, revezando os pares de modo a compor trançados no próprio mastro, com variados desenhos. No Rio Grande do Sul os trançamentos recebem os nomes: “Trama”, “Trança”, “Rede de Pescador”. Em Santa Catarina há o “Tramadinho”, “Trenzinho”, “Zigue-Zague”, “Zigue-Zague a dois”, “Feiticeira” e “Rede de Pescador”.

Vilão (SC) - desenvolvida por um grupo com 31 componentes, denominados batedores, balizadores, músicos e Mestre, a dança consta de batidas de longos bastões, com variados movimentos e ritmos. O encerramento é feito com o “serradinho”: são 7 movimentos rapidíssimos, executados com os balizadores agachados

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ed. Melhoramentos, 1976, 4ª
ed.

DANTAS, Beatriz Góes. A Dança de São Gonçalo - Cadernos de Folclore nº 9. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC,
1976.

FERRETTI, Sérgio F. (Coord.). A Dança de Lelê. São Luis: Fund. Cultural do Maranhão, 1977.

FRADE, Cáscia. Folclore Brasileiro - Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte/MEC, 1979.

____________. (Coord.). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença Ed., 1986.

LACERDA, Regina. Folclore Brasileiro - Goiás. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1977.

MARTINS, Saul. Folclore Brasileiro - Minas Gerais. Rio de Janeiro: Funarte/MEC, 1982.

MELLO, Veríssimo de. Folclore Brasileiro - Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1977.

MENDES, Noé. Folclore Brasileiro - Piauí. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1977.

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Livronal. Manaus: Jorge Tufic Ed., sem data.

NEVES, Guilherme Santos. Folflore Brasileiro - Espírito Santo. Rio de Janeiro: Funarte/MEC, 1978.

ROCHA, José Maria Tenório. Folclore Brasileiro - Alagoas.Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1977.

RODERJAN, Rosely V. R. Folclore Brasileiro - Paraná. Rio de Janeiro: Funarte/MEC, 1981.

SERRAINE, Florival. Folclore Brasileiro - Ceará. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1978.

SOARES, Doralécio. Folclore Brasileiro - Santa Catarina. Rio de Janeiro: Funarte/MEC, 1979.

VALENTE, Valdemar. Folclore Brasileiro - Pernambuco. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1979.

VIANNA, Hildegardes. Folclore Brasileiro - Bahia. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1981.

VIEIRA FILHO, Domingos. Folclore Brasileiro - Maranhão. Rio de Janeiro: Funarte/ MEC, 1977.

FOLGUEDOS POPULARES

Também denominados Autos ou Danças Dramáticas, os Folguedos são grupos folclóricos que apresentam personagens com hierarquia, uso de indumentárias específicas, são cíclicos e freqüentemente representam um enredo.
No Brasil, há grande número e variedade deles, em todas as regiões. Como o espaço deste tablóide impõe limites, serão aqui relacionados os mais recorrentes no território nacional e alguns específicos da cada região.

Região Norte

Boi-bumbá - (am, pa) - O enredo se refere ao boi que pertence ao Amo e, sob pretexto fútil, é morto por Pai Francisco. O Amo chama o doutor para ressuscitar o boi, que não consegue, apela para o padre que também não logra fazê-lo. É chamado o pajé, que ressuscita o boi, havendo então uma festa onde o boi é "repartido" entre as pessoas presentes. Apresenta-se no ciclo natalino.

pássaro - (am, pa) - Resume-se na morte e ressurreição de uma coisa estimada, pode ser um pássaro (embalsamado), uma flor ou jóia. O pássaro pertence a uma princesa e uma feiticeira insinua ao caçador matá-lo. A princesa tenta ressuscitar a ave através da medicina. Obtém êxito com a interferência de um pajé. Exibe-se nas festas juninas.

tribo dos andirás - (AM) - O auto se destaca pelas personagens históricas e pelos comparsas. O enredo gira em torno do caçador e o seu secretário que se perdem na selva, por manigância do Mapinguari. Encontrados e levados para a Maloca, a Índia Branca se apaixona por ele, impedindo-o de ser comido pelos índios e casam-se. A Tribo dos Andirás é toda cantada e dialogada em nhengatu amazônico (tupi regional).

Região Nordeste

afoxé - (BA) -Cortejo que sai no carnaval e apresenta aspectos místicos e mágicos, fundamentados em preceitos religiosos ligados ao culto dos orixás.

Bumba-meu-boi - (todo o nordeste). Com variações nominais e diferentes posições no calendário (bumba-meu-boi AL, BA, PB, PE, SE), boi-de-reis (PB) boi calumba (RN), boi surubi (CE), no ciclo natalino; bumba-meu-boi (MA) no ciclo junino), o auto representa a morte e a ressurreição do boi, com posterior partilha. Os personagens humanos, "animais" e fantásticos são em grande número e variam conforme a localidade. No MA, os grupos recebem denominações segundo instrumentos municais acompanhentes: "Boi de matraca" e "Boi de orquestra".

Cavalhada - (AL, SE, PE). Corrida de cavaleiros organizados em duas fileiras, identificadas pelas cores azul e encarnado. Realizam várias "manobras", como a das argolinhas, a das canas, a do abraço, etc. Exibem-se em festas de orago.

Chegança - (todo o nordeste). Apresentando nomes variados (Fandango (AL, RN), Nau Catarinta ou Barca (Pb), totaliza a viagem de navio, com marinheiros e oficiais da marinha.
Cantando e dançando em barcos especialmente construídos, alguns desses autos reproduzem a luta de mouros e cristãos. Apresentam-se no ciclo natalino.

Caboclinhos - (AL, BA, PE, RN). Grupo que se apresenta no carnaval. Exibe personagens usando indumentárias feitas com penas. A coreografia imitando dança indígena é alternada com falas chamadas "manobras". Os tempos musicais são marcados com fortes batidas da flecha no arco.

Congos - (AL, PB, PE, RN). Auto de inspiração africana, tem como elementos de formação a coroação dos reis do Congo, os préstitos e embaixadas, e reminiscências das lutas da Rainha Ginga, de Angola, contra os portugueses. Apresenta personagens reais, embaixada, Ministro, General, Conguinhos, etc. Apresentam-se nas festas de Nossa Senhora do Rosário, S. Benedito e Divino Espírito Santo.

Guerreiro - (AL). Auto genuinamente alagoano, segundo Téo Brandão, é um misto de Reisado e Caboclinhos. Os principais figurantes são Rei, Rainha, índio Peri e seus vassalos, Mestre, Contramestre, Embaixadores, General Mateus, Palhaços. Na indumentária multicor há que se destacar os enormes chapéus imitando catedrais, coroas e mitras, confeccionados com bolas de Aljofar, espelhos e inúmeras fitas. O período de apresentação é o natalino.

Lapinha ou Bailes pastoris (PB, RN) - Auto do ciclo do Natal, constituídos principalmente de loas e danças diante do presépio ou lapinha. Os cordões percorrem as ruas, de 24 de dezembro a 6 de janeiro, e, onde há presépio, pedem licença para entrar e dançar, aí representando pequenos autos. São constituídos por jovens, predominantemente do sexo feminino.

Maracatu - (PE,CE). Cortejo derivado dos festividades da coroação do Rei Congo. Perdida a unção religiosa, deslocou-se para o carnaval. Seus personagens principais são Rei, Rainha, Príncipe, Princesa, Vassalos, Índios, Dama-do-paço. O ritmo contagiante é executado em variados tambores e agogôs.

Pastoril - (todo o nordeste). Auto natalino, também conhecido pelas denomina-ções de drama pastorial, pastoral. Distinguem-se dos bailes pastoris por ser um auto completo, com danças e loas, partes denominadas "jornadas". As pastorinhas exibem-se em tablados ou teatrinhos próprios e frequentemente em seu enredo cantam-se jornadas alheias ao espírito votivo. No Nordeste, Alagoas e Pernambuco, rivalizavam-se os cordões azul e encarnado.
Por vezes são interpretados por adultos e até meretrizes como no Recife.

Reisado (todo o nordeste). Do ciclo natalino, apresenta-se com partes dançadas, declamadas e cantadas. Na parte final representam o Bumba-meu-boi com a morte e ressurreição do "animal".

Taieira (AL, SE). Associada ao reinado do Congo é um grupo de caráter hierático, que se exibe na festa de S. Benedito. Os personagens são Rei, Ministro, Capacete, Patrão, Rainha Perpétua, Lacraia, Guia e as Taieiras. De sentido originalmente católico, hoje se encontra mesclada com elementos das crenças afro-brasileiras.

Terno-de-reis (BA, PI). Apresentando-se no ciclo natalino, é composto por figuras do bumba-meu-boi e por mascarados. A música é executada em violas, rabecas, banjos, violões, sanfona, pandeiros, chocalhos. No Piauí, nos intervalos da apresentação, os "Caretas" (mascarados) dançam o "chicote", cantando modinhas com voz cavernosa e contando anedotas picantes.

Região Sudeste

Boizinho - (toda região). Recebendo denominações variadas (Boi Pintadinho, Boi Janeiro, Boi Sapiroca, Bon de Jacá, etc, etc), em certas localidades o grupo apresenta-se no carnaval, em outras no ciclo natalino. Personagens principais são, além do Boi, a Mulinha, o Jaraguá, Cabeções ou Gigantões (bonecos com 3 m de altura), Gavião, além do Toureiro.

Caiapó - (SP) - Usando roupas de palha e com o rosto pintado de azul, os integrantes dançam guiados pelo cacique e o curumim. O enredo gira em torno do roubo do curumin, sua morte por inimigos brancos e sua ressurreição por ação do pajé. Os instrumentos musicais são exclusivamente de percussão.

Cavalhada - (MG, RS, SP). No Rio de Janeiro é encontrada em forma de torneio, com os cavaleiros organizados nas cores azul e vermelho. Os cavalos são enfeitados nas cores de seus cavaleiros. Há várias partes, denominadas manobras; chegada, visita à igreja, forca, argolinhas, pão, baião, buquê de flores, encontroada, despedida. Apresenta-se em festas de orago. Em MG e SP dramatizam a luta entre mouros e cristãos, com queima do castelo, roubo de princesa, submissão e batismo dos mouros, terminando com o torneio das argolinhas e das cabeças. Apresentam-se nas festas do Espírito Santo.

Congada - (MG, SP). A semelhança dos Congos nordestinos, liga-se à coroação do rei congo e à rememoração de lutas políticas angolanas. Organizaram-se a partir das irmandades do Rosário, criadas e mantidas pelos negros à época da escravidão. São grupos votivos, associados s festas de Nossa Senhora do Rosário e S. Benedito. Parte central do auto é a Embaixada, duelo verbal de clamado. Anuncia-se com um bailado, segue-se o recado do Embaixador, dança e cena de luta do enviado com os guerreiros do monarca visitado. Essas embaixadas seriam procedentes da diplomacia africana, segundo Câmara Cascudo.

Folia-de-reis - (toda a região). Organizados em pagamento de promessa, esses grupos, do ciclo natalino, visitam casas de devotos onde cantam passagens bíblicas. Os personagens são Mestre, Contramestre, Bandeireiro, Músicos e Cantores. Compondo o grupo aparecem os Palhaços, que não cantam, mas declamam versos jocosos, memorizados e/ou improvisados.

No Rio de Janeiro os Palhaços costumam recitar poemas de folhetos de cordel, de autoria própria ou não.

Moçambique - (SP, MG). Grupo votivo em homenagem a S. Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Os personagens representam Reis, Capitão, General, Meirinho, Dançadores.
Percutem Guizos ("paiás"), presos nos tornozelos, nos momentos da dança. Os demais instrumentos musicais são todos de percussão. Em São Paulo, os dançadores trazem bastões e com eles desenvolvem ricas figurações coreográficas.

Pastorinhas - (MH, RJ). Apresentando-se no ciclo natalino, esse auto é constituído por jovens e crianças do sexo feminino que cantam e dançam diante do presépio armado em casa de devotos. Há variados personagens: Mestre, Contramestre, Anjo, Estrela, Borboleta, Malmequer, Cigana, Padeiro, Peixeiro, Baiana, Pastoras. Os papéis de Pastores e Velho são reservados aos meninos.

Ticumbi - (ES). Variantes dos festejos em torno do rei Congo compõe-se do rei Congo, do rei Bamba e seus Secretários e os Guerreiros ("Congos") das duas nações. Estes usam longas batas brancas e rendadas com transpasse de fitas coloridas; na cabeça um vistoso chapéu enfeitado de flores e fitas multicoloridas. Os Secretários usam capas e espada, assim como os reis. Presentes nas festas de S. Benedito, a representação é uma simulação de guerra, que termina com a dança do Ticumbi, que dá nome manifestação.

Região Centro-Oeste

Cavalhada - (toda a região). Com a temática de mouros e cristãos, por lutas de Carlos Magno e dos doze pares de França, este auto está associado às festas do Divino Espírito Santo. Em Goiás destaca-se o grupo da cidade de Pirinópolis, não só pelo requinte das vestes dos cavaleiros e de seus cavalos, quanto à duração do rito: durante três dias há encenações seqüenciais, terminando com os jogos de Florão, Luxuria, Quatro Fios de Lenço, Despedida.

Folia-de-reis - (toda a região). Grupo que se apresenta no ciclo natalino, rememora a viagem dos três reis do oriente a Belém. Visitam casas de amigos e devotos onde cantam passagens religiosas. Autodenominados foliões, os componentes se organizam numa hierarquia composta pelo Mestra, Contramestre, Bandeireiro, Músicos e Cantores. Há ainda os Palhaços, mascarados que representam a parte profana deste ritual religioso.

Pastoril - (GO). Também conhecido com o nome de Pastorinhas, surge no ci-lo natalino, apresentando-se em palco armado nas praças. Os cordões azul e encarnado organizam as participantes, predominantemente do sexo feminino. A Borboleta, a Peixeira, o Malmequer, a Mademoiselle, a Baiana, Pastorinhas distribuem-se pelos cordões, encabeçados pelo Mestre (encarnado) e pelo Contramestre (azul). Os meninos representam velhos e pastores.

Região Sul

Bumba-meu-boi - (toda a região). Com estruturas e denominações variadas, apresenta-se no carnaval. O Boizinho (RS) tem o enredo de morte e ressurreição do animal. Os componentes do grupo são o Doutor, o Boiadeiro, um Cavalo verdadeiro e os músicos. O Boi-de-mamão (PR, SC) enfoca o mesmo enredo, com número maior de integrantes: Cavaleiro, Urubu, Urso, Anão, Maricota, Vaqueiro, Mateus, Médico, Benzedeira, além da Bernúncia e seu marido, o Barão, figuras exclusivas desse grupo.

Cacumbi - (SC). Organizado em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário e S. Benedito, este grupo deriva das festas de coroação do rei Congo. Com os participantes vestidos como marinheiros, representam luta guerreira entre as nações do rei congo e do rei Bamba. O capitão é o chamador da cantoria, da embaixada e das numerosas danças. Quando há aquiescência do pároco, o início da apresentação dá-se no interior das igrejas dos santos devocionais.

Cavalhada - (PR, RS). Torneio agreste rememorando as lutas de Carlos Magno e dos doze pares de França. O rito apresenta várias partes: reconhecimento do campo, embaixadas, prisão do embaixador cristão, fuga do embaixador com roubo da princesa moura, combates, incêndio do castelo mouro, batizado dos mouros. Seguem-se os jogos de argolinhas, das cabeças, alcancilho de flores e outros. Apresentam-se em festas de oragos.

Congada - (PR). Conhecidos pela designação genérica de Congos, os participantes se organizam em dois grupos distintos: Rei do Congo, com sua fidalgueira, e Rainha Ginga, com sua fidalguia e seu exército. A dramatização apresenta 12 cenas: desfile inicial, fala do trono, dança dos fidalgos, chegada da embaixada da Rainha Ginga, entrada do embaixador, declaração de guerra, guerra com prisão do embaixador da Rainha, prisioneiros levados à corte do Congo, perdão real, entrega do embaixador, despedida do embaixador da Rainha, confraternização e louvor a S. Benedito.

Folia-de-Reis - (PR). Composto unicamente por homens, este grupo se apresenta no ciclo natalino, louvando o nascimento do Menino-Deus. Apresentam-se no interior das casas de devotos entoando quadras, acompanhadas por viola, violão sanfona, rabeca, vários tambores, triângulo e chocalho. Após a cantoria, os donos da casa oferecem dinheiro, comidas e bebidas. O encerramento do ciclo (6/1) costuma ser no interior de uma igreja onde haja presépio.

Moçambique - (RS). Organizado em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, o grupo é constituído pelo Rei Congo, Rainha Ginga, pajens, alferes da bandeira, capitães-de-espada, guia de dançantes, dançantes e músicos. Cada dançante usa, abaixo dos joelhos, um par de maçaquaias e guizos. No local da festa, arma-se tronos sob pálio vermelho, destinados aos reis. Iniciam apresentação na igreja, onde cantam e as coroas são abençoadas. Dançam na rua e na praça; na frente do trono desenvolvem variada coreografia, sendo a do "lenço" a mais apreciada. Durante a noite há baile, com a presença dos Reis. Encerram, ao amanhecer do dia seguinte, com a "alvorada" dança ao redor do mastro da Santa, que é então baixado.

Terno-de-reis (RS). Expressivo nas regiões de colonização açoriana, este auto consiste em grupos de cantores e instrumentistas masculinos que percorrem cidades, vilas e fazendas, anunciando o nascimento de Jesus, durante o ciclo natalino. Destacam-se no grupo os três Reis Magos, o Mestre da cantoria, o Contramestre e o "Tipi" (voz em falsete). É costume, ao se depararem na estrada, um grupo dar voz de prisão ao outro, em versos. O que está "preso" não poderá mais cantar naquela noite ou fica obrigado a cantar sob o comando do mestre vencedor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alvarenga, Oneyda - Música Popular Brasileira. Porto Alegre, Ed. Globo, 1960.

Andrade, Mário - Danças Dramáticas Brasileiras. São Paulo, Martins Ed., 1962 - 3 vols.

Araujo, Alceu M. - Folclore Nacional. São Paulo, Ed. Melhoramentos, 1964, 3 vols.

____________. Cultura Popular Brasileira. São Paulo, mec/inl, 1973.

Benjamin, Roberto - Congos da Paraíba. Série Cadernos de Folclore nº 18, Rio, Funarte, 1977.

Brandão, Theo - Autos e Folguedos Populares de Alagoas. Maceió, Ed. do Autor, 1963.

____________. Folguedos Natalinos. Maceió, Ed. do Autor, 1974.

Carneiro, Edison - Folguedos Tradicionais. Rio, Ed. de Conquista, 1979.

Cascudo, Luis da C.- Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio, INL, 1979.

Dantas, Beatriz G. - Taiera. Série Cadernos de Folclore nº 4. Rio, Funarte, 1976.

____________. Chegança. Série Cadernos de Folclore nº 14. Rio, Funarte, 1976.

Fernandes, José L. - Congadas Paranaenses. Série Cadernos de Folclore nº 19, Rio, Funarte, 1977.

Frade, Cáscia - (Coord.) - Guia do Folclore Fluminense. Rio, Presença Ed., 1986.

Guerra Peixe, Cesar - Maracatus do Recife. São Paulo, Irmãos Vitale, 1980.

Laytano, Dante. Folclore do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Martins Livreiro, 1984.

Lima, Rossini T. - Folguedos Populares do Brasil. São Paulo, Ed. Ricordi, s/data.

Martins, Saul - Folclore em Minas Gerais. Belo Horizonte, UFNG, 1991.

Neves, Guilherme S. - Ticumbi. Série Cadernos de Folclore nº 12, Rio, Funarte, 1976.

Pimentel, Altimar - Barca da Paraíba. Série Cadernos de Folclore nº 25, Rio, Funarte, 1978.

Soares, Doralécio - Boi-de-mamão catarinense. Série Cadernos de Folclore nº 27, Rio,
Funarte, 1978.

Fonte: www.unicamp.br

Folclore

 

Folk+Lore=Folklore Sabedoria do Povo

 

Quando e onde apareceu a palavra Folclore?

No dia 22 de agosto de 1846, em Londres, foi criada pelo arqueólogo inglês, William John Thoms que a propôs à revista 'The Atheneum', para designar os registros dos cantos, das narrativas, dos costumes e usos dos tempos antigos.

Thoms escolheu duas velhas raízes saxônicas: 'Folk', que significa povo, e 'Lore', saber formando assim 'Folk-lore', sabedoria do povo.

Com o decorrer do tempo, as duas palavras foram grafadas sem o hífen, formando uma só: Folklore, como foi usada no Brasil, até que a reforma ortográfica suprimiu a letra 'K', substituída, no caso, pela letra 'C', derivando a forma Folclore.

Fonte: ifolk.vilabol.uol.com.br

Folclore

O folclore (o Inglês popular , pessoas, sabedoria , conhecimento) é o conjunto de produções coletivas do povo e transmitida de uma geração para outra por via oral ( contos , histórias , canções , música , danças e crenças ) ou exemplo ( ritos , know-how ).
Este domínio é estudado por folcloristas .

Fonte: fr.wikipedia.org

Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal