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Astronomia

Podemos constatar que os gregos tinham noção de que as "Ursas" eram circumpolares a partir de uma das novelas mitológicas por eles criadas acerca destas constelações. A Ursa Maior tem um grande número de variantes mitológicas, havendo um mínimo de quatro, apenas na mitologia greco-romana.

Dizia-se que Zeus (o Deus dos Deuses) era um grande namoradeiro, e que se apaixonava por humanas com grande facilidade. Devido à sua habilidade em tomar o aspecto que entendesse, rapidamente as encantava e cativava. Assim, aconteceu que Zeus foi pai de Hércules, entre outras "escapadelas".

A Deusa Hera, esposa de Zeus, que era infelicíssima com estas traições constantes, conseguiu que Zeus lhe prometesse que não voltava a enganar. Mas, passado algum tempo, Zeus conheceu uma humana lindíssima chamada Calisto, filha do Rei Licaone de Arcádia, tendo-se perdido de amores por ela. Da sua paixão resultou uma filha.

Ao descobrir esta nova infidelidade, Hera ficou perfeitamente possessa e, dado que não podia castigar Zeus, transformou as duas humanas, mãe e filha, em ursas.

Passado algum tempo, Zeus descobriu o que Hera tinha feito. Infeliz pelo que havia provocado e dado não poderem os deuses anular os castigos de outros deuses, colocou as duas ursas transformadas em estrelas no céu, num local que passasse no zénite ao longo do ano.

Quando Hera se deu conta desta ocorrência, ficou furiosa e aplicou um novo castigo nas duas ursas, dizendo: "Ficam no céu, mas hão-de ficar sujas para toda a eternidade, pois jamais tomarão banho", e colocou-as no local onde hoje se encontram.

De facto, à nossa latitude, se estivermos olhando para o mar, as "Ursas" parecem girar em torno da Estrela Polar, sem nunca entrarem dentro de água, tal como diziam os gregos.

Esta lenda de grande rigor observacional é válida às latitudes da Grécia e de Roma. Como veremos adiante, a Estrela Polar vai ficando mais baixa à medida que nos aproximamos do equador, deixando de haver estrelas circumpolares a essa latitude. Mas os gregos nunca foram a latitudes tão baixas, pelo que era difícil terem conhecimento desse facto.

A primeira visão do mundo terá obviamente assumido uma realidade local, isto é, que a Terra seria plana.

Os primeiros cosmólogos gregos que são conhecidos a partir de documentos escritos são da próspera ilha grega de Jónia. Anaximenes sugeria que o Sol não se punha, mas apenas era tapado por zonas mais elevadas que existiam a Norte (Figura 8). Claro que isto não explicava porque existia a noite cerrada.

Figura 8 - O mundo de Anaximenes
Figura 8 - O mundo de Anaximenes

Thales de Mileto (c.625-c.547 A.C.)

Pensava que existia uma unidade material entre os fenómenos transientes a que os nossos olhos assistem; alegadamente essa unidade material seria garantida pela água e a Natureza seria muito mais inteligível que o que seria de esperar da aparente variedade interminável de materiais que nos rodeia.

Anaximandro (c.610-c.545 A.C.)

Também de Mileto, tentou explicar a forma dos corpos celestes como sendo continuamente transportados de e para o infinito sucessivamente mantendo-se a Terra (que era um cilindro onde, numa das faces, vivia o Homem) permanentemente na mesma posição relativamente ao Universo. O Universo para além da Terra era constituído por Fogo que chegava à Terra através de orifícios na esfera celeste, constituindo as estrelas e o Sol. A esfera celeste rodava de forma constante a cada 24 horas.

Embora o seu modelo cosmológico tivesse já limitações óbvias, representava um salto relativamente aos modelos mitológicos desenvolvidos anteriormente, pois substituía os mitos por uma lei natural impessoal.

Figura 9 - As estrelas e o Sol são massas de fogo aprisionadas que apenas chegam até nós através de
Figura 9 - As estrelas e o Sol são massas de fogo aprisionadas que apenas chegam até nós através de "respiradouros" na abóbada celeste.

Empédocles viria a explicar os dias e as noites através do modelo da dupla esfera. Uma esfera interior era luminosa numa metade e transparente na outra metade e dava uma volta a cada 24 horas. A outra esfera continha o firmamento visível à noite e que rodava uma vez a cada 365 dias.

Os Pitagóricos, por seu turno, tentaram criar relações geométricas, aritméticas e mesmo harmónicas que explicassem os fenómenos. Estabeleceram relações entre números abstractos e os fenómenos naturais, tendo generalizado o conceito de que o número seria a base de todas as coisas. Estes mesmos Pitagóricos conseguiram um feito notável na história do reconhecimento da Natureza, que foi o assumir de uma Terra esférica. Os argumentos que utilizaram não são conhecidos, mas a prova dada mais tarde por Aristóteles (que a sombra da Terra na Lua durante os eclipses é sempre circular) é convincente.

Os Pitagóricos introduziram ainda a ideia de Cosmos, como conjunto ordenado de sobretons e harmonias, que regiam todos os corpos celestes. Esta intuição de que o Universo devia ser harmonioso viria a ser uma grande força motriz da Astronomia do Renascimento.

Platão e Aristóteles foram o segundo e terceiro grandes filósofos de uma escola iniciada por Sócrates em Atenas. Sócrates, embora não tenha deixado nada escrito, ficou imortalizado nos Diálogos de Platão. Aristóteles, pelo contrário, escrevia imenso e uma grande quantidade dos seus escritos resistiu até aos dias de hoje.

Figura 10 - O sistema da dupla esfera de Empédocles
Figura 10 - O sistema da dupla esfera de Empédocles

Embora, quer Platão, quer Aristóteles, concordassem com a existência de um cosmos ordenado, Platão acreditava, contrariamente a Aristóteles, que as respostas que explicariam essa ordem apenas poderiam vir de um raciocínio matemático.

Até Aristóteles, os filósofos haviam encontrado dois pares contrastantes na natureza: frio versus calor e seco versus húmido.

Figura 11 - Visão Aristotélica da Terra
Figura 11 - Visão Aristotélica da Terra

De acordo com Aristóteles, corpos que eram frios e secos eram na sua maioria constituídos por Terra, os que eram frios e húmidos eram na sua maioria constituidos por água, aqueles que eram quentes e húmidos formados por ar e os que eram quentes e secos formados por fogo. A Terra era na sua maioria formada por terra com uma camada mais exterior de água (os mares), sobre as quais havia uma fina camada de ar (a atmosfera). Sobre a atmosfera havia uma camada de fogo que acaba imediatamente antes da Lua.

Dentro desta região - que constituía o mundo terrestre ou sublunar - existia vida, morte e mutabilidade. Qualquer corpo tinha um lugar natural - altura natural ou distância ao centro da Terra - que estava associado à proporção em que os quatro elementos entravam na sua composição. Se não fosse impedido, qualquer corpo seguiria em linha recta, definida a partir do centro da Terra, para o seu lugar natural.

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