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Pensamento Cartesiano

O que é o pensamento cartesiano?

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Falando em pensamento cartesiano, nos últimos três anos em La Flèche – colégio jesuíta – após conhecimentos de latim, grego e textos clássicos, Descartes teve contato profícuo com o aristotelismo cristianizado, de orientação tomista, influência base para a elaboração de seu pensamento posterior quer sobre a distinção corpo e alma, quer sobre as regras de clareza e evidência que estão, de algum modo, inter-relacionadas em seu empreendimento arquitetônico-filosófico, não à toa considerado o Pai da Filosofia Moderna.

Descartes, adverso a Platão objetiva construir um conhecimento verdadeiro, no qual só encontre lugar o que for indubitável. Ao buscar tal conhecimento, o filósofo nota que ao contrário da posição padrão “é mais fácil conhecer a alma do que o corpo”. Assim, a estratégia fundacional de Descarte estabelece que qualquer iniciativa cognitiva deva levar em conta a dúvida cética. Pois, os sentidos podem nos enganar.

Desse modo, Descartes consigna: “tudo o que admiti até agora como o que há de mais verdadeiro, eu os recebi dos sentidos ou pelos sentidos. Ora, notei que os sentidos às vezes nos enganam e é prudente nunca confiar completamente nos que, seja uma vez, nos enganaram“. Para fundamentar essa posição, Descartes elabora, no § 12 da Primeira Meditação, em Meditações Metafísicas, a hipótese do “gênio maligno”, cujo seria capaz de ludibriar seus sentidos a ponto de enganar lhe eternamente atribuindo existência e veracidade a todos os corpos e proposições sem prévio rastreio, ciladas postas pelo gênio maligno à credulidade do filósofo.

René Descartes
René Descartes – Pensamento Cartesiano

Chega um momento, Descartes se depara com algo do qual não se pode duvidar: a existência do Eu-pensante, isto é, a substância inteligente, que “com certeza, uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer”. Entretanto, depois de ter provado, no § 20 Sexta Meditação, existir corpos no mundo – ainda que não tais quais compreendidos pelos seus sentidos, Descartes, segundo Vere Chappell, sente-se como um ser composto de corpo e mente, designado pelo filósofo de “meu eu total”.

Essa conclusão obriga Descartes a reformular a sua recusa das sensações provindas da natureza antes expostas no §16, sob os seguintes termos:  “Mas nada esta natureza me ensina mais expressamente, nem de modo mais sensível, senão que tenho um corpo, que passa mal quando sinto dor, necessita de comida ou de bebida quando padeço fome ou sede, e coisas semelhantes. E, por conseguinte, não devo duvidar de que há nisso algo verdadeiro“.

No §16 Segunda Meditação, Descartes descreve o resultado vertiginoso da mente estar a serviço do corpo. Ela exaria opiniões pré-concebidas, não claras e evidentes, a exemplo das expostas pela Escolástica, pelo aristotelismo cujas imaturidades foram ferozmente atacadas por Descartes. Um de seus clássicos exemplos é o das percepções errôneas provindas da observação de um pedaço de cera.

Nesse famoso argumento do pedaço de cera o filósofo francês trata da “essência das coisas materiais”, compreendida enquanto a extensão dotada de espacialidade capaz de ser percebida pelos cinco órgãos dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato), inviabilizando, para o senso comum, a sua negação existencial haja vista ela possuir atributos quase irrefragáveis ao reconhecimento de sua corporeidade substancial. Entretanto, do fragmento induz-se que os sentidos podem nos enganar na percepção visual, palatável, auditiva, sensitiva, pois quando posta junto ao fogo, os sentidos que antes percebiam a cera clara e distintamente mudam suas formas de percepção sem que o pedaço de cera assuma outra identidade corporal, mudando apenas seus sentidos e determinando que não são as características percebidas pelos sentidos que fornecem a apreensão distinta do objeto.

René Descartes – que trata o pensamento cartesiano – exara a possibilidade de se pôr praticamente qualquer coisa em dúvida, ainda que esse algo seja a existência material de seu corpo e suas materialidades circundantes. Isso se efetiva, pois o filósofo francês acreditava na viabilidade do denominado argumento do sonho segundo o qual “O que me ocorre em vigília também pode ocorrer em sonho”. Possibilitando-lhe estar absorto em um sonho dogmático-enganador capaz de alterar-lhe os sentidos de modo a torná-lo incapaz de exarar certezas sobre qualquer realidade corpórea ou incorpórea.

Destarte, graças à virulência de sua argumentação dubitativa, o filósofo inaugura uma problemática cética própria, que se articula essencialmente em torno da questão da existência do mundo exterior, e justifica plenamente o uso da expressão “ceticismo moderno-cartesiano” em contraposição ao “ceticismo antigo”.

Entretanto, percorridas as quatro regras do método, a saber: evidência, análise, síntese e revisão; bem como as duas regras da intuição: clareza e distinção, Descartes percebe que a única coisa impassível de duvidabilidade seria a existência de sua mente, uma vez que a própria ação de duvidar requereria, como condição preexistente, o seu existir enquanto atividade mental.

Assim posto, Descartes, na Segunda Meditação bem como a Quarta Parte do Discurso do Método, alcança a certeza da existência do eu enquanto ser pensante (alma), ainda que seja possível pensar que nada de corpóreo exista realmente, nem o mundo, nem os corpos, inclusive a sua corporeidade imanente, possibilitando-lhe, através do dualismo substancial metafísico, arquitetar a destruição do projeto aristotélico-tomista sem contudo, a ver de Michael Della Rocca, instaurar o rompimento da causalidade entre o mental e o físico.

Fábio Guimarães de Castro

Referências Bibliográficas

DESCARTES, René. Meditações sobre filosofia primeira. Trad. de Fausto Castilho. Campinas: Unicamp.

DESCARTES, René. Meditações, Discurso do Método … (1979). Trad.: B. Prado Jr. E notas de Gérard Lebrun. São Paulo, Abril Cultural. (Os Pensadores).

GAUKROGER, Stephen. Vida e obra. In: John Carriero & Janet Broughton (Org.). Descartes: Coleção explorando grandes autores. 2011. Cap. 1, p. 20-32.

ROCCA, Michael Della. Causa sem inteligibilidade e causa sem Deus em Descartes. In: John Carriero & Janet Broughton (Org.). Descartes: Coleção explorando grandes autores. 2011. Cap. 14, p. 235-248.

SILVA, Franklin Leopoldo e. Descartes: a metafísica da modernidade. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2005.

 

 

 

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