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Idioma do Brasil

 

Português, a língua oficial do Brasil

O idioma português chegou ao território brasileiro a bordo das naus portuguesas, no Século XVI, para se juntar à família lingüística tupi-guarani, em especial o Tupinambá, um dos dialetos Tupi.

Os índios, subjugados ou aculturados, ensinaram o dialeto aos europeus que, mais tarde, passaram a se comunicar nessa “língua geral” - o Tupinambá.

Em 1694, a língua geral reinava na então colônia portuguesa, com características de língua literária, pois os missionários traduziam peças sacras, orações e hinos, na catequese.

Com a chegada do idioma iorubá (Nigéria) e do quimbundo (Angola), por meio dos escravos trazidos da África, e com novos colonizadores, a Corte Portuguesa quis garantir uma maior presença política. Uma das primeiras medidas que adotou, então, foi obrigar o ensino da Língua Portuguesa aos índios.

Lei do diretório

Em seguida, o Marques de Pombal promulgou a Lei do Diretório (1757) que abrangia a área compreendida pelos estados do Pará e do Maranhão, um terço do território brasileiro de então. Esta lei considerava a língua geral uma “invenção verdadeiramente abominável e diabólica” e proibia às crianças, filhos de portugueses, e aos indígenas aprenderem outro idioma que não o português.

Em 1759, um alvará ampliou a Lei do Diretório: tornou obrigatório o uso da língua portuguesa como idioma oficial em todo o território nacional.

Portanto, ao longo de dois séculos, o Brasil possuiu dois idiomas: a língua geral ou tupinambá e o português.

Português no mundo

Hoje, o mundo que fala português (lusófono) soma cerca de 200 milhões de pessoas. É o oitavo idioma mais falado no planeta e a terceira entre as línguas ocidentais, após o inglês e o castelhano.

É, ainda, o idioma oficial de sete países, todos eles ex-colônias portuguesas: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Com a admissão de Portugal na União Européia, o português passou a ser uma de suas línguas oficiais.

Fonte: www.brasil.gov.br

Idioma do Brasil

No Brasil dos paradoxos, acontecem coisas que a mais fértil imaginação não teria condição de acreditar.

O retrato da identidade nacional é composto por um branco, um índio e um negro e, obviamente, falamos um idioma formado por palavras oriundas destas três fontes lingüísticas. No entanto, temos a coragem de dizer que "no Brasil, fala-se o português". Ledo engano.

No Brasil fala-se um idioma que só se fala no Brasil e em nenhum lugar mais. Aliás, somos a única ex-colônia portuguesa que não fala com sotaque português. E isto deve-se à influência da língua tupi ou seja, o nheengatú - ou, como quer o presidente, ao "nhen,nhen,nhen". Esta espinha dorsal lingüística brasileira está um tanto desbotada diante de tantas "lavagens culturais" à que foi submetida ultimamente pelos estrangeirismos que empesteiam o nosso idioma.

A língua portuguesa original trazida para o Brasil continha 140 mil verbetes ou palavras. O português, esta "língua de marinheiro", contém hoje 260 mil verbetes, fato que o torna a mais rica língua em sinonímica do mundo.

Os 120 mil verbetes excedentes em nosso idioma falado, ficam por conta das culturas africanas e tupi-guarani. Portanto, a tão alardeada "unificação ortográfica e gramatical" torna-se impossível a partir da própria conseqüência lingüística que este idioma adquiriu no Brasil. Isto porque, o significado de milhares de palavras oriundas da língua tupi e falados diariamente, são completamente desconhecidos por todos indistintamente. Isto sem mencionarmos obviamente, a contribuição lingüística africana.

As três línguas que formam o idioma brasílico têm um sentido e uma objetividade declaradamente importante: O africano nos deu verbetes com os quais nos expressamos na forma espiritual, culinária, lazer, gíria e glotologias – Ex: Bunda, Xodó, Bizú, Gogó, Tijolo, Zureta, Muvuca, Mumunha, Maluco, Garfo e por aí vai aos milhares também. O Tupi nos deu verbetes que nos permitem ir e vir no real sentido locativo e toponímico. O Português nos deu verbetes que nos fornecem condições jurídicas, políticas e didáticas. Tornar-se-ia impossível a um brasileiro fazer tudo que faz diariamente usando apenas o recurso da língua portuguesa. Daí que....

É IMPOSSÍVEL UMA UNIFICAÇÃO ORTOGRÁFICA COM OS DEMAIS PAÍSES DE "LÍNGUA PORTUGUESA"!

Corrigir a injustiça histórica secular para com a cultura ameríndia brasílica, origem da formação nacional e espírito latente de insubmissão à dominação estrangeira, deve ser o objetivo de todos aqueles que lidam com a Educação e Cultura deste país e que tenham um pouco de amor ao verde e amarelo. Devemos propiciar aos milhões de brasileiros que diariamente expressam-se na língua tupi, a oportunidade de saberem o significado dessas palavras e, sabendo-o, terem condições de conhecer a história da grande nação Tupi, fato que gerará o inevitável espírito nacionalista e a responsabilidade em sua preservação. A conseqüência imediata desta providência será a expansão para além das nossas fronteiras da verdadeira epopéia da estruturação brasileira, permitindo ainda que as demais nações, por intermédio dos milhares de turistas que pisam o território nacional, saibam, em seu próprio idioma, o significado dos nomes e palavras tão comuns nos logradouros públicos, locais e cidades mundialmente famosas, e, cujos nomes em língua Tupi, até a presente data, não têm tradução literal e significação, uma vez que os próprios brasileiros não o sabem.

E apenas para informação, longe de ser alguma língua morta e sem origem, o tupi ou nhengatú possui uma gramática expositiva dividida em quatro partes exatamente como a língua portuguesa: Fonologia – Morfologia – Taxinomia e Sintaxe.

Estamos diante, portanto, de uma prova que os milhares de nomes toponímicos que descrevem e definem lugares, cidades, praças, ruas, produtos, objetos ou fenômenos da terra, não foram jogados ao vento "por um caboclo brejeiro qualquer" como quer a explicação até hoje passada nas escolas do país, mas sim, fazem parte do aspecto topográfico local, traduzido pelo idioma brasílico, genuíno irmão lingüístico do português.

Se observarmos apenas algumas das palavras que falamos diariamente, já teremos uma pequena idéia da nossa ignorância e a conseqüente responsabilidade para com o futuro: Jacarepaguá, é Lago do Jacaré – Andaraí, é Água do morcego – Aracaju, é Tempo de Caju – Tijuca, é barro mola - Pará, é mar – Paraná, é rio afluente – Paraguai, é rio do papagaio – Paraíba, é rio ruivo ou encachoeirado - Pirapora, é peixe que salta – Pindorama, é país das palmeiras – Sergipe, é rio dos siris – Goiás, é gente da mesma raça – Piratininga, é seca peixe – Curitiba, é barro branco – Mogi-Mirim, é riacho das cobras – Carioca, é casa de branco – Anhangabaú, é buraco do diabo e Ipanema, é água suja.

Estas são apenas algumas das milhares de palavras do idioma tupi faladas e escritas diariamente e que, identificando locais e cidades nacional e internacionalmente conhecidas, fazem parte do nosso vocabulário diário, porém as suas traduções ou significados são desconhecidos por todos. Os padres jesuítas José de Anchieta e Nóbrega dedicaram suas vidas aos estudos e codificação da língua tupi-guarani, seus usos, costumes, história e origem antropológica desta grande nação cujo sangue corre em nossas veias, direta ou indiretamente. Centenas de outros jesuítas sucederam aos pioneiros na continuidade deste trabalho, legando-nos verdadeiros tratados acerca de tal assunto, vez que, já àquela época, previam a necessidade das futuras gerações acerca do conhecimento da língua brasílica que faria parte da nossa existência como nação. Mas a leviandade, o preconceito e o racismo de alguns "intelectualóides de beira de jardim" que se revezaram durante anos no controle da educação e cultura, desprezaria por completo o trabalho destes jesuítas, preferindo dar cunho oficial aos anglicanismos, galicismos e estrangeirismos que corroem o nosso idioma e alteram o nosso comportamento.

De tal maneira desafiaram o conceito de nação que hoje, nas faculdades, ninguém sabe gramática portuguesa e muito menos gramática tupi-guarani.

E só para exemplificar aí vai um texto que prova a importância da cultura indígena na nossa vida:

"Aí, o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu do palácio às margens do Lago do Paranoá, observou uma Siriema que ciscava no palácio do Jaburu, chegou ao seu gabinete sendo recebido pelo mordomo Peri, lembrou a um assessor sobre as comemorações da Batalha do Humaitá, convocou o ministro do Itamaraty e o governador do Goiás, que visitava seu colega no palácio do Buriti, e, uma vez juntos, tomaram um suco de Maracujá, comentaram sobre as reformas do estádio do Maracanã e as recentes obras no vale do Anhangabaú, riram de um antigo comentário do Barão de Itararé sobre obras públicas, e, abrindo uma agenda de pele de Jacaré, passaram, a decidir sobre o carvão de Criciúma, os suínos de Chapecó e a safra de arroz de Unaí." – Viram, falaram, beberam e escreveram em tupi e não se aperceberam disto. O embaraço maior, seria se tivessem que traduzir todas estas palavras para o chanceler francês que visitava o Brasil.

E já que é assim, por que não inserir em todas as placas de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias, monumentos e locais cujos nomes sejam originalmente em língua tupi, o significado em português, o qual, via de regra, poderá ser traduzido para qualquer idioma estrangeiro ? - E por que não explicar nas escolas primárias e secundárias esta fusão da língua portuguesa com a língua tupi-guarani e seus fenômenos toponímicos e gramaticais usados no cotidiano desde a tenra idade ? – Achamos esta saída ideal para um problema que tem gerado situações embaraçosas para brasileiros no exterior, quando alguém pergunta o significado da palavra Ipanema ou, dentro do seu próprio país, quando um filho ou uma filha pergunta: "...papai, o que quer dizer Carioca ?" – Diante do desconhecimento total por parte dos brasileiros acerca desta cultura e herança, corremos os risco de permitir que as gerações futuras pensem que tais palavras, hábitos e costumes, fazem parte da cultura e língua portuguesa, porém, sem significado e explicação. É o máximo !

E, caso algum especialista em educação e cultura ache que é possível viver sem esta influência lingüística, poderá começar por retirar todas as palavras da língua tupi do nosso vocabulário. Inicialmente, terá que trocar o nome de dez estados e sete capitais brasileiras, cujos nomes são em tupi. Depois trocar os nomes de centenas de municípios, milhões de ruas, praças, avenidas, estradas, rodovias e localidades topográficas cujos nomes também são originários da língua tupi. E finalmente, terá que mudar milhares de nomes próprios e palavras comuns do nosso dia-a-dia, as quais são verbetes da língua tupi. Aí verá que a comunicação e a locomoção tornar-se-ão impossíveis.

E já que esta terra era propriedade de uma raça tão importante que mesmo dizimada nos legou um tratado lingüístico e antropológico de beleza impar, nada melhor do que repetir a célebre frase de Aimberê, o cacique-comandante da Confederação dos Tamoios no Rio de Janeiro: "Nhandê Coive Ore Retama!" – Esta terra, é nossa ! - E é, por esta razão que me considero um legítimo Tupinambá...porque no Brasil, TODO DIA, É DIA DE ÍNDIO !

Fonte: www.brazzilbrief.com

Idioma do Brasil

O tupi, primeiro idioma encontrado pelos portugueses no Brasil de 1500, ainda resiste no nosso vocabulário. Agora tem gente querendo vê-lo até nas escolas. Em pleno século XXI.

No auge de sua loucura, o ultranacionalista personagem de Triste Fim de Policarpo Quaresma, livro clássico de Lima Barreto (1881-1922), conclamava seus contemporâneos a abandonar a língua portuguesa em favor do tupi. Hoje, 83 anos depois da publicação da obra, o sonho da ficção surge na realidade.

O novo Policarpo é um respeitado professor e pesquisador de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Navarro. Há dois meses, ele fundou a Tupi Aqui, uma organização não-governamental (ONG) que tem por objetivo lutar pela inclusão do idioma como matéria optativa no currículo das escolas paulistas. “Queremos montar vinte cursos de tupi em São Paulo no ano que vem”, disse à SUPER.

O primeiro passo já está dado: em maio, Navarro lançou o seu Método Moderno de Tupi Antigo e, em setembro, colocou nas livrarias Poemas — Lírica Portuguesa e Tupi de José de Anchieta (ambos pela Editora Vozes), edição bilíngüe de obras do primeiro escritor em língua tupi.

À primeira vista o projeto parece birutice. Só que há precedentes. Em 1994, o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro aprovou uma recomendação para que o tupi fosse ensinado no segundo grau. A decisão nunca chegou a ser posta em prática por pura falta de professores. Hoje, só uma universidade brasileira, a USP, ensina a língua, considerada morta, mas ainda não completamente enterrada.

Em sua forma original, o tupi, que até meados do século XVII foi o idioma mais usado no território brasileiro, não existe mais. Mas há uma variante moderna, o nheengatu (fala boa, em tupi), que continua na boca de cerca de 30 000 índios e caboclos no Amazonas. Sem falar da grande influência que teve no desenvolvimento do português e da cultura do Brasil. “Ele vive subterraneamente na fala dos nossos caboclos e no imaginário de autores fundamentais das nossas letras, como Mário de Andrade e José de Alencar”, disse à SUPER Alfredo Bosi, um dos maiores estudiosos da Literatura do país. “É o nosso inconsciente selvagem e primitivo.”

Todo dia, sem perceber; você fala algumas das 10 000 palavras que o tupi nos legou. Do nome de animais, como jacaré e jaguar; a termos cotidianos como cutucão, mingau e pipoca. É o que sobrou da língua do Brasil.

Do Ceará a São Paulo, mudavam só os dialetos

Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite. Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e, no interior; no XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40.

Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela História do Brasil. Ninguém sabe quantos o falavam durante o período colonial. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. “Aos poucos estamos conhecendo sua real extensão”, disse à SUPER Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, o maior pesquisador de línguas indígenas do país. Os principais documentos, como as gramáticas e dicionários dos jesuítas, só começaram a ser recuperados a partir de 1930. A própria origem do tupi ainda é um mistério. Calcula-se que tenha nascido há cerca de 2500 anos, na Amazônia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. “Mas isso ainda é uma hipótese”, avisa o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.

Três letras fatais

Quando Cabral desembarcou na Bahia, a língua se estendia por cerca de 4 000 quilômetros de costa, do norte do Ceará a Iguape, ao sul de São Paulo. Só variavam os dialetos. O que predominava era o tupinambá, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos tupis (tupinambás, tupiniquins, caetés, potiguaras e tamoios). Daí ter sido usado como sinônimo de tupi. As brechas nesse imenso território idiomático eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos lingüísticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devorá-los em rituais antropofágicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos indígenas com os vizinhos, até com os da mesma unidade lingüística.

Um dos viajantes que escreveram sobre o Brasil, Pero Magalhães Gândavo, atribuiu, delirantemente, a belicosidade dos tupinambás à língua. “Não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justiça e desordenadamente”, escreveu em 1570.

Para os portugueses, portanto, era preciso converter os selvagens à fé católica, o que só aconteceu quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, em 1553.

Esses missionários se esmeraram no estudo do tupi e a eles se deve quase tudo o que hoje é conhecido sobre o idioma.

Também, não havia outro jeito. Quando Portugal começou a produzir açúcar em larga escala em São Vicente (SP), em 1532, a língua brasílica, como era chamada, já tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com índias e por seus filhos. “No século XVII, os mestiços de São Paulo só aprendiam o português na escola, com os jesuítas”, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma época, no entanto, os faladores de tupi do resto do país estavam sendo dizimados por doenças e guerras. No começo daquele mesmo século, a língua já tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador; as cidades mais importantes da costa. Hoje, os únicos remanescentes dos tupis são 1 500 tupiniquins do Espírito Santo e 4 000 potiguaras da Paraíba. Todos desconhecem a própria língua. Só falam português.

O primeiro gramático

Joseph de Anxieta, mais tarde José de Anchieta (1534—1595), sempre foi poliglota. Nascido nas Ilhas Canárias, era filho de pai basco e aprendeu, ao mesmo tempo, o castelhano e o complicado idioma paterno. Adolescente, mudou-se para Portugal, onde estudou o português, o latim e o grego.

Por tudo isso, não é de espantar que Anchieta tenha aprendido o tupi tão depressa. Seus companheiros diziam que ele tinha facilidade porque a língua era igualzinha ao basco que assimilara quando pequeno. Bobagem. Tão logo pôs os pés no Brasil, em 1553, aos 19 anos, começou a desenvolver a primeira gramática da língua da terra. Em 1560, sua Arte de Grammatica da Lingoa Mais Vsada na Costa do Brasil já era um best-seller entre os jesuítas. O livro, que só seria impresso em 1595, virou leitura de cabeceira dos jovens padres encarregados da catequese. Com ele, nascia o tupi escrito, que Anchieta usou para compor mais de oitenta poemas sacros e peças de teatro, inaugurando a literatura brasileira.

Haja parente!

O tupi e outras línguas de sua família

É comum ver políticos do hemisfério norte confundindo o Brasil com a Argentina e o espanhol com o português. Pois a mesma confusão é feita, aqui no Brasil, com as línguas dos índios. Poucos sabem, mas é errado dizer que os índios falavam tupi-guarani. “Tupi-guarani é uma família lingüística, não um idioma”, explica o lingüista Aryon Rodrigues. Ele a compara à família neolatina, á qual pertencem o português, o espanhol e o francês. Os três têm uma origem comum, o latim, mas diferem uns dos outros. O extinto tupi antigo, o ainda usadíssimo guarani moderno — falado por quase 5 milhões de pessoas no Paraguai e 30 000 no Brasil — e outros 28 idiomas derivam de uma mesma fala, o proto-tupi. Os guaranis e os tupis até que se entendiam. Mas, dentro da família, eles são apenas parentes próximos, não irmãos. Para perguntar “qual é o seu nome”, um guarani diria Mba’eicha nde r’era?, e um tupiniquim, Mamõ-pe nde rera?. Não dá para confundir, dá?

O começo do fim

Ascensão e queda de um idioma

Século XVI: O tupi, principalmente o dialeto tupinambá, que ficou conhecido como tupi antigo, é falado da foz do Amazonas até Iguape, em São Paulo.

Em vermelho, você vê os grupos tapuias, como os goitacás do Rio de Janeiro, os aimorés da Bahia e os tremembés do Ceará, que viviam em guerra com os tupis.

De Cananéia à Lagoa dos Patos fala-se o guarani.

Séculos XVII/XVIII: O extermínio dos tupinambás, a partir de 1550, a imigração portuguesa maciça e a introdução de escravos africanos praticamente varre o tupi da costa entre Pernambuco e Rio de Janeiro. Em São Paulo e no Pará, no entanto, ele permanece como língua geral e se espalha pelo interior, levado por bandeirantes e jesuítas.

Século XX: O português se consolida a partir da metade do século XVIII. O tupi antigo desaparece completamente, junto com outras línguas indígenas (das 340 faladas em 1500, sobrevivem, hoje, apenas 170). A língua geral da Amazônia, o nheengatu, continua sendo falada no alto Rio Negro e na Venezuela por cerca de 30 000 pessoas.

Fonte: www.nautilus.com.br

Idioma do Brasil

O que significa, no século XIX, ser autor de uma Gramática? E como esta história continua no século XX?

Vamos procurar, nessa reflexão, entender o jogo enunciativo que representa, na realidade, um acontecimento discursivo (1) importante em nossa história. Esse acontecimento é caracterizado pela passagem discursiva dita na diferença desses dois enunciados “Língua Portuguesa do Brasil// Língua Portuguesa no Brasil”.

Para compreendemos essa passagem, temos de analisar o que significa, no século XIX, ser autor de gramática no Brasil e qual é o destino dessa autoria no século XX.

Ser autor de gramática no século XIX no Brasil é assumir a posição de um saber lingüístico que não reflete meramente o saber gramatical português. Nesse momento, o da irrupção da República, não basta que o brasileiro saiba sua língua, é preciso que, do ponto de vista institucional, ele saiba que sabe (E. Orlandi, 1996).

A gramática, dessa perspectiva, é o lugar em que se institui a visibilidade desse saber legítimo para a sociedade. Ao deslocar para o território brasileiro a autoria da gramática – a gramática continua, na maior parte das vezes, a se chamar Gramática Portugueza (cf. Júlio Ribeiro, 1881) ou Gramática da Língua Portugueza (cf. Pacheco Silva e Lameira de Andrade, 1887) – o que os gramáticos brasileiros estão deslocando é a autoridade de se dizer como é essa língua.

Ser autor de uma gramática é ter um lugar de responsabilidade como intelectual e ter uma posição de autoridade em relação à singularidade do português no Brasil.

Esse saber pode e deve estar relacionado à produção internacional. Nesse sentido, não há, pelo que consideramos, apenas “influência”, reprodução de idéias estrangeiras no Brasil. Se pensarmos em termos discursivos, temos relações de sentidos que se estabelecem entre o português do Brasil e o de Portugal e veremos nessas “influências”, nessas filiações teóricas um processo de re-significação tanto da língua quanto do saber sobre ela.

A unidade do Estado se materializa em varias instâncias institucionais. Entre essas, a construção da unidade da língua, de um saber sobre ela e os meios de seu ensino (a criação das escolas e seus programas) ocupa uma posição primordial. A gramática, enquanto um objeto histórico disponível para a sociedade brasileira, é assim lugar de construção e representação dessa unidade e dessa identidade (Língua/Nação/Estado).

Ao trazerem o gesto da autoria para si, os primeiros gramáticos brasileiros como Júlio Ribeiro, João Ribeiro, Maximino Maciel, Lameira de Andrade e Pacheco Silva etc estão participando da construção do Estado brasileiro. A história da língua, da produção de objetos que representam para a sociedade o conhecimento sobre ela, assim como a dos que a praticam (os cidadãos) estão inextricavelmente ligados. O processo de gramatização brasileira do português constitui assim um saber sobre a língua e as suas singularidades, e processa a historicização da língua no território nacional.

Desse modo, a identidade lingüística, a identidade nacional, a identidade do cidadão na sociedade brasileira traz entre os componentes de sua formação a constituição (autoria) de gramáticas brasileiras no século XIX. E a porção-sujeito autor de gramática é parte essencial dessa história.

Inaugura-se pois uma posição-sujeito gramático brasileiro. Um lugar de produção legítima de conhecimento sobre a língua que corresponde a um gesto de apropriação (autoria) dessa língua.

O sujeito que fala o português brasileiro é distinto do sujeito que fala o português de Portugal e isso é elaborado pela autoria do gramático brasileiro do século XIX, dadas as condições de produção dessa autoria e do sentido da gramatização nesse momento.

Além disso, essa autoria legitima, ao mesmo tempo, a relação do brasileiro com a escrita. Temos uma língua, temos uma gramática, e temos sujeitos brasileiros da (nossa) escrita (2).

Desde o início, no século XVI, certamente pelo fato de que a língua falada no Brasil era re-significada em relação ao que se falava em Portugal, produziram-se aqui novos sentidos por novos sujeitos (ainda não bem discerníveis entre os portugueses, os índios e os mestiços) que iam constituindo a sociedade brasileira.

Mas a legitimidade dessa sociedade com suas instituições próprias, com sua língua, seu saber e seu poder político (a Independência e depois a República) é elaboração particular ao século XIX.

O gesto do gramático, que é um gesto de interpretação em relação à língua que falamos, tem como projeção o sujeito e a língua nacional, referidos ao Estado.

A gramatização do português brasileiro, mais do que um processo de construção de um saber sobre a língua nacional, tem como conseqüência algo mais substancial e definidor: a constituição de um sujeito nacional, um cidadão brasileiro com sua língua própria, visível na gramática.

São processos de individualização que são desencadeados: individualiza-se o país, individualiza-se o seu saber, individualiza-se seu sujeito político e social.

Com a autoria dos gramáticos (e os literatos, os historiadores, os políticos brasileiro etc) o século XIX é, entre outras coisas, um momento intelectual muito forte na direção de se pensar a língua, suas instituições e seus sujeitos, assim como a escrita (“Escrever-se como se fala no Brasil e não como se escreve em Portugal”, diz Macedo Soares).

O movimento de que faz parte a autoria brasileira das gramáticas é um grande movimento de tomada em mãos da nossa história, da configuração da nossa sociedade. Ao assinar a gramática, nossos autores nos transferem seu saber sobre a língua, o torna acessível a nossa sociedade (não toda pois, como sabemos, as divisões sociais são uma realidade institucional inequívoca do sistema republicano).

A República é uma prática política que vai favorecer o desenvolvimento das Instituições: Escolas (elaboração consciente de um saber sobre a língua, sobre as coisas do Brasil, etc), projetos de ensino, Dicionários, Gramáticas, Antologias.

Com a Independência em 1822, o Estado brasileiro se estabelece e a questão da língua se evidencia. Um exemplo disso é o fato de que, em 1826, já se coloca a discussão, a partir de um projeto proposto no Parlamento, portanto a nível do poder constituído, de que os diplomas dos médicos devem ser redigidos em “linguagem brasileira”.

Nos anos que se seguem e com a vinda da Republica tanto o Estado como a questão da língua brasileira se configura mais decididamente e o período de que acabamos de falar, o da emergência das gramáticas no século XIX, atesta o vigor dessa época e dessa relação: língua e Estado se conjugam em sua fundação.

Após essa fase, já no início de 1900, esse cenário se modifica. O Estado brasileiro já se configura com clareza e é ele próprio a garantia da nossa diferença em relação a Portugal. Surge a Academia Brasileira de Letras, firmam-se acordos ortográficos, criam-se Faculdades, já que a instituição Escola adquire maturidade. Então as gramáticas já não têm a função de dar forma aos difíceis limites da identidade brasileira, só o de mantê-los.

Surgem então as inúmeras gramáticas, cujas diferenças já não referem a autorias de gramáticos em suas filiações mas dizem respeito às diferenças descritivas e analíticas: filigrana de diferenças na análise da oração e de complementos, adjuntos x e y etc.

Passa a haver uma profusão de gramáticas o que leva inclusive M. Câmara a afirmar em defesa da NGB: “Da minha parte tenho a dizer de início que considero a nova Nomenclatura Gramatical um excelente passo para combater o arbítrio e a fantasia individual em matéria de nomenclatura. No século XIX, dizia-se que todo professor de filosofia alemão se achava obrigado a criar um sistema filosófico seu. A Alemanha é a terra da Filosofia; no Brasil, que é a terra da Gramática, todo professor de português se acha obrigado a criar uma nomenclatura gramatical sua” (p. 56, Dispersos, 1972). Há aí muita coisa a se comentar.

Fica aqui apenas a referência a essa “multiplicidade quase estonteante” (M. Câmara idem).

A questão que nos interessa é que nessa profusão de autorias começa o apagamento da materialidade da autoria praticada no século XIX, aquela que garantia a construção conjunta de uma língua nossa e um Estado nosso. Tendo já a garantia de um nosso Estado, o exercício da produção de gramáticas tem outra forma e sentido no século XIX. Com a NGB (1959) este estado de coisas muda sensivelmente, quando é uma comissão que, a partir de um decreto, estabelece a homogeneidade de uma terminologia que des-autoriza as varias posições (gramática geral, gramática histórica, gramática analítica, gramática descritiva etc) dos gramáticos do século XIX que traziam para si a responsabilidade de um saber sobre a língua.

Depois desse deslocamento, a autoria do saber sobre a língua deixa de ser uma posição do gramático e será patrocinado pela lingüística. Saber como a língua funciona dá autoridade ao lingüista para dizer como uma língua é (português no Brasil/português europeu). A autoria da gramática passa a necessitar de caução do lingüista, já que este tem o conhecimento científico da língua. Há uma transferência do conhecimento do gramático para o lingüista.

Duas coisas devem ser observadas nesse processo:

A. Nessa primeira fase, a que se inicia com a autoria dos gramáticos (séc.XIX) é que faz sentido o enunciado “A língua Portuguesa do Brasil” pois é a própria pertinência ao Brasil que está em disputa.

A partir daí, com as garantias já dadas pela existência de nosso Estado com a nossa língua, a especificação é só a localização de uma história particular: “Língua Portuguesa no Brasil”.

B. O trajeto que podemos observar mostra também o deslizamento cada vez mais forte de uma posição política e intelectual para uma posição marcadamente científica da questão posta pela implementação da cientificidade. Na medida em que o Estado se define e nossa sociedade tem sua forma, a cientificidade é um argumento para a afirmação dessa identidade. E isto afeta a questão da língua e do saber sobre ela.

O que se reflete evidentemente sobre a questão do ensino, da Escola: com a lingüística o tratamento da língua se coloca no âmbito da ciência e a relação com a Escola é a da aplicação do conhecimento gramatical no ensino/aprendizagem da língua (materna). O que vai tornar menos “próxima”, e com a história da colonização. Já estão longe, em nossa memória, os atos de intervenção de Pombal, exigindo que se falasse e escrevesse o português e não a língua geral. Não restam senão os seus efeitos.

O lugar da imposição de um poder e da resistência desloca-se para o campo científico: o modo e a filiação a teorias que apagam ou não a historicidade da língua, que mostram ou não os compromissos políticos das teorias gramaticais (universais ou particulares). A relação entre unidades e diversidade, que é a relação nuclear, tanto para o Estado como para a língua, não perde sua validade e vai assim construindo sua história, fazendo seus percursos, significando seu jogo. Garantida a unidade de nossa língua, como ter e quem tem acesso ao seu conhecimento científico e aos seus usos mais valorizados. A relação não é mais entre portugueses e brasileiros, é entre teorias científicas sobre a linguagem. Diríamos, assim, que em um momento temos o Estado se constituindo e, no outro, ele já formalmente constituído. Isso nos dá a peculiaridade da relação do Estado com a ciência, se pensarmos que houve uma explicitação progressiva da figura do Estado que de acompanha da caracterização da língua como uma questão científica. Para finalizar, pensamos que se deva refletir sobre os sentidos da gramática.

No percurso que mostramos, a gramática deixa de ser um “monumento” à língua, para se apresentar como um “artefato” de ciência. E isto se constrói em certas condições, das quais delineamos algumas, e tem suas conseqüências, que resta explorar.

Notas

(1) A noção de acontecimento discursivo é a que permite compreender os grandes deslocamentos feitos na história e que produzem um dizer, abrem um espaço do enunciável, ou melhor, que produzem uma forma particular de enunciação, enquanto acontecimentos na história.

(2) Sem dúvida a prática da literatura nesse momento é decisiva nessa relação. Não estamos pois excluindo o literato, estamos apenas fazendo ver que o gramático tem uma relevância às vezes esquecida nessa história. Gostaríamos, ainda, de lembrar, que a autoria nessa época é complexa, sendo o autor, muitas vezes, ao mesmo tempo gramático, historiador, literato, professor, político etc.

OS SENTIDOS DO IDIOMA NACIONAL

Na nossa tese de doutoramento (Dias, 1996) procuramos empreender uma análise semântica de enunciados de discursos parlamentares, produzidos no processo de tramitação de três projetos legislativos no Brasil, nas décadas de 30 e 40, que objetivavam a denominação do idioma falado no Brasil, de língua portuguesa para língua brasileira.

Mostramos que o debate em torno da denominação do idioma deixava transparecer uma questão que esteve presente em outros momentos da nossa história: a identidade da língua falada no Brasil.

As medidas destinadas a oficializar o ensino da língua portuguesa no Brasil, já no século XVII, após quase dois séculos de ausência de qualquer tipo de política cultural e educacional por parte da metrópole, apareceram em meio a um quadro social marcado pelas seguintes características: a pequena faixa da população alfabetizada contrastava com a maioria absoluta da população, que não dominava a escrita, sendo que parte dessa população falava a língua geral ou nheengatu.

Essa distinção cruzava com uma outra, qual seja, a do bom português em contraste com o mal português (entenda-se aí o português mal falado ou mal escrito).

Aquilo a que chamamos de questão da língua no Brasil tem, portanto, raízes na linha de demarcação entre os que conhecem e os que não conhecem o português escrito.

Essa questão aparece fortemente nas décadas de 30 e 40 no Brasil na época em que as discussões sobre a identidade nacional ganhavam terreno entre os políticos e os intelectuais. Na nossa tese, buscamos compreender como se configurava uma identidade de língua nacional na ótica dos políticos.

Especificamente, nosso trabalho consiste em mostrar as bases em que se formulavam argumentos contrários e a favor do projeto que propunha a mudança do nome do idioma. A questão não estava, como se poderia esperar à primeira vista, centrada tão somente na diferença “lingüística” entre o português do Brasil e o português de Portugal, mas no sentido que adquiria essa mudança em relação a um quadro interno ao próprio País. Nesse momento, estava em jogo um conceito de cidadania; isto é, a questão da nacionalidade da língua estava em função de uma imagem discursiva do falante enquanto membro de uma nação. Isso se torna mais claro quando verificamos que as expressões língua nacional e língua pátria não levantavam polêmica. A expressão língua nacional aparecia em textos oficiais e a expressão língua pátria figurava tanto como nome de disciplina nas escolas secundárias quanto como nome de livros didáticos de ensino da língua materna.

Mas a expressão língua brasileira adquiria sentidos relativamente a um espaço no qual a nacionalidade cruzava com a cidadania. Tendo em vista que a expressão língua brasileira tem como correlato semântico “língua falada pelos brasileiros” colocava-se a questão do estatuto da nacionalidade a partir do estatuto do homem que constitui a nação. E quem seria esse homem? Essa é a pergunta-chave, que está subjacente às discussões nas casas legislativas.

As discussões se desenvolviam em torno de duas posições. Parte dos parlamentares via na expressão língua brasileira a legitimação de um domínio de língua caracterizado como “patuá do povo ignaro”, “meia-língua do poviléu”, “língua da tia Josefa, a cozinheira”, “dialeto regionalista”, etc. Portanto, era necessário, no entender desse grupo, lutar contra o projeto de mudança do idioma, uma vez que designar a língua de brasileira significaria configurar uma identidade para a nação a partir de um domínio de língua relativamente a “povo ignaro”, “poviléu”, “cozinheira”, “caipira”, etc. a língua não poderia ser chamada de brasileira, para o grupo de parlamentares dessa posição, uma vez que “essa língua” não adquirira um estatuto capaz de legitimar discursos, de modo a torná-los visíveis às malhas sociais da elite brasileira letrada. O nome “língua portuguesa” deveria continuar como nome oficial da língua na ótica desses parlamentares, porque se adequaria a toda uma tradição de escrita cultivada pelos grandes nomes da literatura brasileira.

O outro lado da polêmica, a saber, os que defendiam a mudança da denominação do idioma, via no nome língua brasileira a expressão da própria natureza do País. A língua brasileira é o “cultivado fruto policrômico e saboroso, de feição tão linda que é o idioma brasileiro”; é a língua que “aqui se desenvolveu, floriu, amalgamou-se, coloriu-se”; é a “língua tão cheia de suavidade, que falam as brasileiras, (...) tão cheia de heroísmos que falam os brasileiros”; é a língua que “se distendeu em ramos frondosos, acobertada por essa natureza exuberante, que é a brasileira, parecendo pedir, desde então, vida própria, genuinamente nacional, e naturalização”. Para esse grupo, portanto, a língua que falamos deveria ter o nome de língua brasileira, uma vez que ela se molda pela imagem da natureza que identifica o espaço geográfico brasileiro.

Procuramos, dessa forma, mostrar como a questão do nome de idioma estava sendo determinada pela questão da identidade do cidadão brasileiro e da própria nação que ia se constituindo naquele período.

Mostramos que a relação entre a concepção de idioma e a concepção de nacionalidade era permeada pelo espaço em que o sujeito encontra a sua identidade.

Especificamente, o grupo que combatia a mudança do idioma e o grupo que a defendia configuravam esse espaço diferentemente. O primeiro grupo concebia a língua a partir da tradição escrita, em relação à qual ele se identifica enquanto membro da classe que tem na escrita uma forma de inserção nos aparelhos institucionais; a mudança do idioma parecia, na ótica desse grupo, produzir uma verdadeira mudança de eixo, pois ela “apagaria” essa tradição de escrita, e poderia elevar ao status de língua nacional uma modalidade de língua falada por quem não tem o suporte da escrita, capaz de tornar a língua visível para os aparelhos institucionais.

O segundo grupo, por outro lado, configurava aquele espaço a partir de uma imagem peculiar, romântica, daquilo que seria a “natureza” brasileira. O espaço que proporciona uma natureza sui generis é o espaço de uma língua que não é mais aquela dos portugueses, mas a do homem da terra, um homem que se confunde com a própria natureza do País.

Na primeira perspectiva, o brasileiro só é percebido como cidadão tendo como referência o percurso de escrita. Esse fato aponta para uma exclusão daqueles que não dominavam a escrita da categoria do cidadão. Na segunda perspectiva, a identidade do brasileiro é desviada para um domínio de visão deslocado do espaço social; a imagem do brasileiro é construída a partir de uma imagem romântica do País.

É em relação a esses espaços, então, que se configurava a cidadania nas décadas de 30 e 40 no Brasil: sob a ótica do exclusivismo, de um lado, e sob a ótica do ornamental, de outro.

LUIS FRANCISCO DIAS - UFPB

Fonte: www.unicamp.br

Idioma do Brasil

A Formação da Língua Portuguesa no Brasil

A língua é um organismo vivo que se modifica ao longo do tempo. Palavras novas surgem para expressar conceitos igualmente novos; outras deixam de ser utilizadas, sendo substituídas.

Na época das grandes navegações, Portugal conquistou inúmeras colônias e o idioma português foi influenciado pelas línguas faladas nesses lugares, incorporando termos diferentes como "jangada", de origem malaia, e "chá", de origem chinesa. O período renascentista também provocou uma série de modificações na língua, que recebeu termos eruditos, especialmente aqueles relacionados à arte.

Os colonizadores portugueses, principalmente os padres jesuítas, difundiram o idioma no Brasil. No entanto, diversas palavras indígenas foram incorporadas ao português e, posteriormente, expressões utilizadas pelos escravos africanos e imigrantes também foram adotadas. Assim, o idioma português foi se juntando à família linguística tupi-guarani, em especial o Tupinambá, um dos dialetos Tupi. Os índios, subjugados ou aculturados, ensinaram o dialeto aos europeus que, mais tarde, passaram a se comunicar nessa "língua geral", o Tupinambá. Em 1694, a língua geral reinava na então colônia portuguesa, com características de língua literária, pois os missionários traduziam peças sacras, orações e hinos, na catequese.

Com a chegada do idioma iorubá (Nigéria) e do quimbundo (Angola), por meio dos escravos trazidos da África, e com novos colonizadores, a Corte Portuguesa quis garantir uma maior presença política. Uma das primeiras medidas que adotou, então, foi obrigar o ensino da Língua Portuguesa aos índios.

Desde o século XVI, época da formação do Português moderno, o português falado em Portugal manteve-se mais impermeável às contribuições linguísticas externas. Já o Brasil, em decorrência do processo de formação de sua nacionalidade, esteve mais aberto às contribuições linguísticas de outros povos.

Ainda hoje o português é constantemente influenciado por outras línguas. É comum surgirem novos termos para denominar as novas tecnologias do mundo moderno, além de palavras técnicas em inglês e em outros idiomas que se aplicam às descobertas da medicina e da ciência. Assim, o contato com línguas estrangeiras faz com que se incorporem ao idioma outros vocábulos, em sua forma original ou aportuguesados.

Atualmente, existem muitas diferenças entre o português que falamos no Brasil e o que se fala em Portugal. Tais diferenças não se limitam apenas à pronúncia das palavras, facilmente notabilizada na linguagem oral. Existem também diferenças de vocabulário (só para citar um exemplo, no Brasil dizemos "trem", em Portugal se diz "comboio") e de construção gramatical (enquanto no Brasil se utiliza uma construção como "estou estudando", em Portugal prefere-se a forma "estou a estudar").

Brasil Portugal
Banheiro Quarto de banho
Açougue / Açogueiro Talho / Talhante
Fila Bicha
Ônibus Autocarro
Trem Combóio
Toca-fitas Leitor de cassetes
 Tela (de TV) Écran
Um "acontecimento" no Brasil... ....é um "facto" em Portugal
Terno Fato
Menino / garoto "puto"
Meias masculinas Peúgas
Cueca Boxer
Multa Coima
"meia" 6 (seis)
Galera Turma
Embarcação Galera
Usuário Utilizador
Xerox Fotocópia
Caça comprida Pantalona

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990

O Acordo Ortográfico de 1990 foi proposto para criar uma norma ortográfica única, de que participaram na altura todos os países de língua oficial portuguesa, com a adesão da delegação de observadores da Galiza. Os signatários que ratificaram o acordo original foram Portugal (1991), Brasil (1996), Cabo Verde (2006) e S. Tomé e Príncipe (2006). Timor-Leste, não sendo um subscritor do acordo original, ratificou-o em 2004.

Em julho de 2004 foi aprovado, em São Tomé e Príncipe, o Segundo Protocolo Modificativo, durante a Cúpula dos Chefes de Estado e de governo da CPLP.

O Segundo Protocolo permitiu que o Acordo passasse a vigorar com a ratificação de apenas três países, sem a necessidade de aguardar que todos os demais membros da CPLP adotassem o mesmo procedimento. Assim, tendo em vista que o Segundo Protocolo Modificativo foi ratificado pelo Brasil (2004), Cabo Verde (2006) e S. Tomé e Príncipe (Dez. 2006), e que o Acordo passaria automaticamente a vigorar um mês após a terceira ratificação necessária, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa está em vigor, na ordem jurídica internacional e nos ordenamentos jurídicos dos três Estados acima indicados, desde 1º de Janeiro de 2007. Cf. Nota da CPLP

Fonte: www.colegiosantarosa.com

Idioma do Brasil

OS CINCO SÉCULOS DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL

Brasil - Colônia

O idioma português, já dotado de rica literatura e de disciplina gramatical, não encontrou, na Terra de Santa Cruz, ambiente propício à sua imediata implantação por serem predominantes o elemento indígena e o africano (os primeiros escravos negros datam do século XVI). O próprio elemento branco domiciliado na colônia também foi responsável por essa dificuldade de se impor a língua portuguesa.

Os cruzamentos eram quase todos de mulheres índias com portugueses, que, dedicados integralmente aos seus afazeres agrícolas ou comerciais, não dispunham de tempo para ensinar aos filhos o idioma pátrio, ensejando, assim, às mulheres iniciarem-nos no uso da língua nativa. Houve até, nessa época, certa predileção pelo tupi, pois os portugueses, por necessidade de comunicação com os selvagens, tiveram também de aprender esse falar indígena da costa colonial, o qual era mais ou menos uniforme.

Os jesuítas, com destaque para Anchieta, igualmente contribuíram para o crescente predomínio do tupi. Visando à catequese dos selvagens, estudavam-lhes a língua, organizando a sua gramática e o dicionário para melhor resultado do apostolado. Por outro lado, nos colégios que fundaram, ensinavam aos filhos dos colonos não só o português mas também o tupi.

Outro fator para o crescente uso e expansão do tupi foram as entradas e as bandeiras. Nas expedições ao sertão a dentro, ligando o litoral ao interior, os bandeirantes, que tinham ordinariamente guias índios, faziam do abanheém (nome da língua geral do Brasil, vulgarmente dita tupi-guarani) o instrumento de suas comunicações diárias, o que explica os inúmeros topônimos indígenas em regiões que não eram ocupadas pelos tupis.

A influência da língua geral foi grande, porquanto era necessária aos mercadores nas suas viagens, aos aventureiros em suas investidas pelo interior, aos habitantes da colônia em seu contato com o gentio. O seu domínio se prolongou por dois séculos e meio de colonização portuguesa, sendo interessante o depoimento de Francisco Xavier Mendonça Furtado, que chamava à língua geral " invenção diabólica", acerca de dois fatos que muito o irritaram e o obrigaram a adotar medidas mais efetivas na repressão ao uso dessa língua: “O primeiro foi virem à minha casa umas crianças filhos de umas pessoas Principais desta terra, e falando eu com elas, que entendendo pouco Português, compreendiam e se explicavam bastantemente na língua tapuia, ou chamada geral. O segundo foi ver debaixo de minha janela dois negros dos que proximamente se estão introduzindo da Costa da África, falando desembaraçadamente a sobredita língua e não compreendendo nada da portuguesa.”

Por outro lado, a necessidade de comunicação entre os senhores e escravos negros fez surgir um falar de emergência que tinha por base a língua portuguesa. Alterada e simplificada na boca dos escravos, formaram-se, conseqüentemente, os dialetos crioulos do Brasil.

Até a metade do século XVIII, nas regiões periféricas das vilas e cidades, na zona rural ou nos lugares onde não havia ocorrido a transculturação, falou-se tupi, nagô ou quimbundo, e principalmente a língua de circunstância, a qual, sendo meio-português, ia servindo de instrumento de comunicação para quem não tinha conhecimento de qualquer idioma africano ou indígena.

O governo metropolitano, porém, preocupava-se em difundir a língua portuguesa, sobretudo a partir da primeira metade do século XVIII, recomendando aos missionários que ensinassem aos índios o português. Em 1757, com a expulsão dos jesuítas, proibiu-se o uso da língua geral e, concomitantemente, tornava-se obrigatório o emprego da língua portuguesa, pois a classe dominante não descartaria o prestígio advindo da sua condição de senhores da terra, substituindo a sua própria língua.

Outros fatores contribuíram para a consagração da língua portuguesa: exprimia a melhor forma de civilização; era a língua da administração; exigia-se seu conhecimento nos concursos públicos; nela eram redigidos os livros de ficção ou de ciência, os contratos, testamentos, registros, transmissões e todos os documentos jurídicos; era a língua da escola; sendo apenas falado, o tupi carecia da categoria de língua escrita literária; esmoreceu-se o uso da língua geral por não contar mais com o amparo dos jesuítas, expulsos e perseguidos por Marquês de Pombal; sem os jesuítas, houve o conseqüente retorno dos índios à primitiva selvageria, indo eles para as zonas mais distantes do Oeste; o Brasil se comunicava em português com o resto do mundo - o progresso da civilização favorece o uso de uma língua literária em detrimento de um falar exclusivamente local; a proliferação do mestiço, cuja ascensão social se tornara imperativa da melhor condição paterna, sendo, para tal, indispensável o conhecimento da língua culta ou padrão, fazia aumentar o número de usuários da língua portuguesa; as sucessivas imigrações de famílias portuguesas (800.000 portugueses segundo Gladstone Chaves de Melo atraídas pelo progresso da colônia, aqui se estabeleceram, irradiando lusitanidade e ensinando espontaneamente a língua na sua feição continental.

A chegada de D.João VI em 1807 veio favorecer a expansão e a consolidação do emprego da língua portuguesa. A passagem do Brasil à condição de Vice-Reino e mais tarde a transformação do Rio de Janeiro na capital da nação portuguesa fizeram da escola importante agente para o definitivo aportuguesamento da linguagem brasileira. O surgimento da Impressão Régia, proporcionando a edição de livros e jornais no Brasil, aumentou o número de leitores nacionais.

Antes da chegada do Príncipe Regente, o português já sobressaía como língua de cultura; o tupi e os dialetos crioulos eram utilizados apenas como língua de circunstância ou geral, facilitando os contatos entre gente analfabeta e inculta.

A língua geral foi paulatinamente deixando de ser usada, firmando-se a língua portuguesa, a partir da segunda metade do século XVIII, como língua própria e única do país, com a qual todos se comunicavam e expressavam por escrito seus pensamentos e sentimentos e na qual eram expedidos todos os documentos oficiais. “Do ponto de vista lingüístico a conseqüência será o triunfo da língua de maior potência cultural, ou seja, o Português, tal como as elites procuravam praticá-lo. Toda essa massa ondulante e sequiosa de ascensão social buscava integrar-se no estilo de vida das classes superiores e encontrava no polimento da linguagem um dos instrumentos mais eficientes para consegui-lo. A escola representou, então, um papel decisivo no definitivo aportuguesamento da linguagem brasileira padrão.”

Brasil - Independente

Até as margens plácidas do Ipiranga ouvirem o brado retumbante de um povo heróico, os modelos lingüísticos e literários eram importados da Corte de Lisboa e da Universidade de Coimbra. Condenava-se tudo aquilo que não se coadunava com o figurino ditado pela metrópole. Os puristas e os gramáticos não aceitavam as alterações que aqui se processavam naturalmente, exigindo total submissão aos padrões literários e lingüísticos.

Contudo, certas manifestações de sentimento de brasilidade na literatura colonial já começavam aflorar sobretudo nas obras do Grupo Mineiro ou Plêiade Mineira, célebre por conter as principais figuras da Inconfidência. Esse grupo de poetas reunia épicos e líricos impregnados do sentimento nativista, cantando em seus poemas a terra virgem da pátria nas suas cores, nos seus frutos, na sua exuberância tropical.

O influxo do movimento literário proveniente da França – o Romantismo– veio satisfazer plenamente as nossas aspirações de liberdade ao coincidir com os primeiros anos de independência e transformou-se num poderoso veículo de emancipação literária. Das características românticas, a que mais se acentuou no Brasil foi a do patriotismo. A fobia lusitana fazia que os escritores repudiassem a imitação dos clássicos portugueses e buscassem novas fontes de inspiração genuinamente brasileiras.

Os temas nacionais ganhavam a sua preferência: transformavam o índio em supimpa matéria literária, surgindo daí o indianismo, cujos arautos foram Gonçalves Dias no verso e José de Alencar na prosa; insurgem-se contra tudo que é luso, pretendendo mesmo criar uma língua nacional, cujo movimento foi encabeçado pelos mesmos Gonçalves Dias e José de Alencar; iam abeberar-se no folclore brasileiro para as suas criações literárias; usavam a literatura como arma política e social, servindo à causa da Abolição e da República.

O Romantismo quebrou a fidelidade da produção literária aos padrões clássicos portugueses, não podendo ser mais, como antes, simples ramo da literatura lusa.

Introduziu na nossa literatura a maneira brasileira de sentir e encarar o mundo, de traduzir os sentimentos e as reações. Data de então a existência de uma literatura brasileira pelo conteúdo e pela forma. No entanto, nada há que afete a estrutura lingüística comum aos dois povos; a língua é a mesma, apenas os estilos nacionais são diferentes.

Em 13 de fevereiro de 1922, com a Semana da Arte Moderna, outro surto da literatura brasileira – o Modernismo – levanta novamente o problema do nacionalismo lingüístico. Com Mário de Andrade, o uso da língua popular na língua literária foi muito além do Romantismo. Em Macunaíma, obra de Mário de Andrade, o aproveitamento excessivo da língua falada em busca da criação de uma língua literária essencialmente brasileira em seus modismos léxicos e sintáticos, sem preocupação alguma com os moldes clássicos e tradicionais da língua padrão, chega a prejudicar o entendimento da mensagem do autor.

Surge, então, o movimento da “língua brasileira”, resultante do confronto entre as falas regionais ou populares do Brasil e as de Portugal. Esse movimento identifica diferenças na pronúncia, no vocabulário e na sintaxe, ignorando que, acima das variantes regionais e dos estratos sociais, existe a forma língüística padrão que as pessoas cultas de qualquer região do mesmo país procuram praticar.

É incontestável que a língua culta é a mesma nos dois países, bem como nos demais da comunidade lusófona; “constituímos uma estrutura lingüística comum e que, em conseqüência, fazemos parte do mesmo domínio lingüístico, aliás ainda mais vasto, pois engloba territórios de África e de Ásia."

As diferenças sintáticas apontadas pelos “brasileiristas” se devem aos recursos expressionais que a língua portuguesa oferece, escolhendo o brasileiro um, e o português outro.

Na conjugação perifrástica, o português usa o verbo no infinitivo: estou a escrever; o brasileiro prefere o gerúndio ao infinitivo, conservando a forma usual no português arcaico: estou escrevendo. A nossa pronúncia reflete o sistema fonético do século XVI. “ É abusiva e incompreensível tolice sustentar que a diferença de uma língua, ou dialeto, para outra, consiste apenas na prosódia. A pronuncia é sinal ou sintoma de outras diferenciações, excêntricas ou concêntricas, que caracterizam qualquer tipo de linguagem. O sotaque tem diferenciações infinitesimais e cada pessoa pode ser conhecida pela voz. Às diferenças de timbre correspondem outras diferenças fundamentais. ” O vocabulário foi enriquecido de palavras e expressões indígenas e africanas e o continua sendo com os empréstimos tomados de outras línguas. Ocorre muitas vezes no Brasil uso de palavras de material essencialmente português, justificando-se a preferência pelo modo de ser e sentir do brasileiro, pela sua cultura lingüística, pela influência do meio físico e social, que o sensibiliza para as comparações e criações de imagens e metáforas; assim espátula, aeromoça, fila, refrigerador cochilar correspondem em Portugal, respectivamente, a corta-papel ou faca de cortar papel, hospedeira, bicha, frigorífico, dormitar ou toscanejar. Neste caso, pode-se dizer que tal emprego é português do Brasil, uma vez que a diferença é uma questão de escolha das opções. Só se devem denominar de brasileirismos as palavras e expressões de uso exclusivamente regional.

A língua portuguesa, escreve Serafim da Silva Neto, pertence a todos que a falam...Por isso os brasileiros são tão proprietários quanto os portugueses dessa língua que nos é comum.

Em 15 de outubro de 1940, a comissão encarregada de opinar sobre a denominação do idioma nacional, dirime essa controvérsia, concluindo pela unidade lingüística entre Portugal e o Brasil, conforme a seguir fragmento do seu parecer, cujo relator foi o Professor Sousa da Silveira

“ Os estudos lingüísticos, sérios e imparciais, aplicados ao Brasil, fazem-nos concluir que a nossa língua nacional é a língua portuguesa, com pronúncia nossa, algumas leves divergências sintáticas em relação ao idioma atual de além-mar, e o vocabulário enriquecido por elementos indígenas e africanos e pelas criações e adoções realizadas em nosso meio.

As palavras brasileiras são iguais às portuguesas na sua composição fonética, apenas diferindo na pronúncia; os nomes de números são os mesmos em Portugal e no Brasil; as conjugações são as mesmas, num e noutro país; as mesmas são também as palavras gramaticais: os pronomes (pessoais, possessivos, demonstrativos, relativos, interrogativos, indefinidos), os artigos, os advérbios (de tempo, modo, quantidade, lugar, afirmação, negação) as preposições e as conjunções. Em geral é o mesmo gênero gramatical cá e lá; são as mesmas regras de formação do plural, o mesmo sistema de graus de substantivos e adjetivos; os mesmos preceitos de concordância nominal e verbal; quase na totalidade dos casos é a mesma regência dos complementos dos nomes e dos verbos; o mesmo emprego de modos e tempos, e a mesma estrutura geral do período quanto à sucessão das orações e à ligação de umas com outras.

Lemos e compreendemos tão bem uma página de Eça de Queirós quanto uma de Machado de Assis; e quando, em escrito de autor brasileiro ou português, desconhecemos o significado de qualquer palavra, recorremos, salvo tratando-se de algum termo muito restritamente regionalista, a um dicionário da LÍNGUA PORTUGUESA; nunca o brasileiro para ler, compreendendo um jornal ou livro português, precisou de aprender previamente a língua de Portugal como se aprende uma língua estrangeira; não há dicionário Português-Brasileiro, nem Brasileiro-Português, como há, por exemplo, dicionário Português-Espanhol e Espanhol-Português; a gramática da língua nacional do Brasil é a mesma gramática portuguesa.

Afirmações idênticas a essas que acabamos de fazer não teriam lugar se comparássemos o Português com o Espanhol, não obstante serem línguas românicas parecidíssimas uma com a outra: é que Espanhol e Português são línguas diversas, ao passo que é a mesma língua a que se fala e escreve no Brasil e a que se fala e escreve em Portugal.

Quando os lingüistas tratam de Geografia das línguas românicas, incluem a língua do Brasil no domínio do Português; e nas estatísticas relativas ao número de pessoas que falam as grandes línguas do globo, o povo brasileiro figura entre os de língua portuguesa.

Conclusão

À vista do que fica exposto, a Comissão reconhece e proclama esta verdade: o idioma nacional do Brasil é a LÍNGUA PORTUGUESA.

E, em conseqüência, opina que a denominação nacional do Brasil continue a ser Língua Portuguesa.

Essa denominação, além de corresponder à verdade dos fatos, tem a vantagem de lembrar, em duas palavras – LÍNGUA PORTUGUESA –, a história da nossa origem e a base fundamental da nossa formação de povo civilizado.”

Decorridos 48 anos desse parecer conclusivo emitido por brilhantes lingüistas, a Constituição Brasileira, promulgada em 1988, estabelece, no Capítulo III, que trata da nacionalidade, no artigo 13, o uso da língua portuguesa como o idioma oficial da República Federativa do Brasil, garantindo, assim, a comunicação em única língua entre todos os seus habitantes, nacionais e alienígenas, para que, falando a mesma língua, se consolide o lema da sua bandeira: Ordem e Progresso.

A língua portuguesa vem, como relatamos, colaborando desde os tempos coloniais para o progresso cultural e a unidade política. Contudo, é preciso que o governo imponha às comunidades de imigrantes o uso da língua portuguesa, a fim de evitar que, imbuídas fortemente de sentimentos patrióticos, venham a reivindicar a sua independência. Getúlio Vargas teve de obrigar os imigrantes alemães que se instalaram no Sul do Brasil a mandarem seus filhos às escolas brasileiras para aprenderem a língua portuguesa, pois vislumbrou ameaça da integridade do território nacional. Ainda existem em alguns estados do Brasil comunidades de imigrantes que não sabem, assim como os descendentes aqui nascidos, falar a língua portuguesa. A integração desses imigrantes à nação brasileira se fará naturalmente se o governo for capaz de induzi-los ao aprendizado e ao uso da língua portuguesa.

Fato curioso é haver brasileiros que falam e escrevem corretamente o inglês, mas cometem erros crassos quando usam o idioma nacional, por ter sido deficiente o seu aprendizado da língua materna.

Outros compatriotas, por pedantismo ou por exibicionismo, entremeiam a sua comunicação em português com palavras estrangeiras, sobretudo anglo-americanas, truncando, em conseqüência, o entendimento de sua mensagem para os que desconhecem esse vocabulário alienígena.

A propósito, a transcrição de um trecho do discurso do Senador Ronaldo Cunha Lima (PMDB – PB), proferido no dia 12 de novembro de 1998 perante o Senado, o qual, além de ser pitoresco, dá a medida do emprego excessivo de estrangeirismos:

A invasão de termos estrangeiros tem sido tão intensa que ninguém estranharia se eu fizesse aqui o seguinte relato do meu cotidiano: Fui ao freezer, abri uma coca diet; e saí cantarolando um jingle, enquanto ligava meu disc player para ouvir uma música new age.
Precisava de um relax. Meu check up indicava stress. Dei um time e fui ver um bestseller no living do meu flat. Desci ao playground; depois fui fazer o meu cooper. Na rua, vi novos outdoors e revi velhos amigos no footing. Um deles comunicou-me a aquisição de uma nova maison com quatro suítes e até convidou-me para o open house. Marcamos, inclusive um happy hour. Tomaríamos um drink, um scotch de preferência on the rocks. O barman, muito chic parecia um lord inglês. Perguntou-me se eu conhecia o novo point society da cidade: o Times Square, ali na Gilberto Salomão, que fica perto do Gaf, o La Basque e o Baby Beef, com o serviço a la carte e self service. (...) Voltei para casa, ou, aliás, para o flat, pensando no day after. O que fazer ? Dei boa noite ao meu chofer que, com muito fair play, respondeu-me: Good night. ”

Inadmissível é o uso dos estrangeirismos na mídia, cuja linguagem deve ser acessível a todos os leitores indistintamente, para que a mensagem seja captada plenamente. Os profissionais liberais, por exemplo, quando escreverem em jornais e revistas devem ter a preocupação de expressar as suas informações e comentários de forma simples, clara, precisa, correta e vernácula, para que qualquer leitor não tenha dificuldade de entendimento. Desses profissionais, os economistas são os que mais empregam expressões importadas, por vezes desnecessárias. Quando forem indispensáveis, convém darem o seu significado, a fim de que a mensagem não fique truncada para a maioria dos leitores. O economista Claudio de Moura Castro, articulista da revista VEJA, cometeu esse pecado na sua coluna Ponto de Vista de 04 de outubro de 2000 sobre ”O médico da filha do médico”, no trecho “Mas esse erro é primário, esses grupos não podem mandar soberanamente, sem os “ checks and balances” de outras forças vivas da sociedade – como os consumidores, pessoas mais neutras, de outras áreas ou representando interesses opostos.” Foram consultadas dez pessoas com instrução de nível superior sobre a tradução da expressão inglesa em negrito. Oito a desconheciam e duas não a interpretaram convenientemente. Por outro lado, a expressão não está empregada no exato sentido do inglês. Se as pessoas com formação universitária não tiveram competência para entendê-la, que se pode esperar das que têm grau de ensino inferior?! O articulista teria sido compreendido se usasse a expressão portuguesa sistema de controle. Os empréstimos são válidos quando a língua não dispõe de palavra apropriada que defina com precisão a coisa ou o fato que se quer dizer ou informar. É até um processo de enriquecimento do léxico de qualquer língua. E a sua forma deve, o quanto antes, adaptar-se ao sistema gráfico do idioma nacional a fim de que o novo verbete, devidamente registrado pelos dicionaristas, possa ficar à disposição dos consulentes, como já ocorreu com inúmeros empréstimos: abajur, nocaute, futebol, voleibol ou volibol, recorde, esputinique etc.

A jornalista Léa Cristina, em seu artigo Deixem a língua alheia em paz, comenta com justeza sobre o ataque da língua inglesa à estrutura da língua portuguesa:

“A gente adotou e transformou milhares de palavras de outros idiomas – na maioria dos casos, sem maiores traumas. Afinal, a língua é viva e está aberta a diferentes tipos de influência. Mas desde que isso represente novidade ou simplificação. E não produza aberrações.
Não é o que acontece com a construção verbal que começou a ser usada agora em terras tupiniquins, aparentemente numa tradução literal – e completamente inadequada – do inglês. “Vou mandar amanhã” perdeu a vez para “vou estar mandando amanhã”; “vamos depositar” virou “vamos estar depositando”; entre outros exemplos que é melhor nem citar para o leitor não se acostumar a esse delírio lingüístico.”

Outra observação digna de nota é a do Professor Arnaldo Niskier na coluna Sem Censura da Folha Dirigida, feita no seu artigo “Estrangeirismos? Depois da peneira”:

“Que há exageros, não resta dúvida. Pode-se afirmar até que se trata de abuso, com o que ocorre em determinadas localidades. A Barra da Tijuca, no Rio, por exemplo, representa um festival de estrangeirismos desnecessários. Quase todos os seus lançamentos utilizam palavras e expressões em língua inglesa, como se isso fosse fundamental para ativação das vendas. (...)
Há um discurso na praça sobre a liberdade de expressão. Ouvimos vozes que se insurgem contra qualquer tipo de limitação que abranja os veículos de comunicação de massa. É assunto para uma reflexão mais cuidadosa, concordo. Mas a agressão visual e lingüística a que somos obrigados a assistir, diariamente, justificaria uma atitude de contenção, como a que pretende o deputado Aldo Rebello.”

As considerações do Professor Arnaldo Niskier sobre os lançamentos em língua inglesa dos serviços e do comércio estabelecidos em certos bairros levam a supor que expressões como personal banking (serviços bancários personalizados), on sale (mercadorias em liquidação) contenham subjacente discriminação de classe social, excluindo do atendimento, pelo desconhecimento da língua estrangeira, as pessoas humildes ou pertencentes à classe média baixa.

Por outro lado, os produtos importados são vendidos no Brasil, sem a observância da Lei n° 8.078, de 11 de setembro de 1990, que dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências, prescrevendo no artigo 31: “A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa (o grifo é nosso) sobre suas características, qualidades, quantidades, composição, preço, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança do consumidor.” Aliás, a mídia cumpre esse dispositivo legal? Deve ser enquadrada nessa lei? Acaso o leitor, o ouvinte e o telespectador não são prejudicados pelo ruído na comunicação provocado pela inclusão de estrangeirismos?

O projeto de defesa e proteção da língua portuguesa de autoria do deputado federal Aldo Rebelo é plausível e merece o apoio de todos que desejam a preservação do símbolo mais representativo da nacionalidade. E não somos os únicos a defender o idioma pátrio dos abusos e dos excessos na utilização de estrangeirismos desnecessários por intermédio de lei e sanções. Países do primeiro mundo, como Estados Unidos, Espanha, Itália, França e Alemanha, têm a mesma preocupação. A revista VEJA de 18 de maio de 1994, na coluna Cultura, informava que “o governo francês está empenhado em levantar um muro para proteger o idioma nacional de estrangeirismos e que a Câmara e o Senado já aprovaram, em sessões separadas, um projeto de lei que veta o uso de línguas estrangeiras em comunicados governamentais, placas e letreiros em locais públicos, ofertas e contratos de trabalho, publicidade e nas transmissões de rádio e TV.”

Também os especialistas tentaram ridicularizar o esforço oficial francês para a pureza da língua, sob a alegação de ser inócuo, por estarem as línguas vivas em permanente evolução. Outro argumento dos especialistas é inexistir o risco de uma língua com firme lastro cultural e histórico de ser sufocada ou preterida pelo excesso de estrangeirismos. Mas, para delir essa ameaça, bastam os mecanismos de autodefesa do idioma? Para os especialistas sim, pois “a reação de repúdio virá de combatentes naturais do idioma – escritores, professores, alunos, a vanguarda do povo que fala e escreve diariamente o português brasileiro. E acrescentam: Pode-se ter certeza de que não haverá necessidade de intervenção do Legislativo.

Não concordamos, porém, que essa seja a única e eficiente arma da língua contra o que a ela não convém, pois a imprensa, os cartazes, as lojas comerciais e até mesmo órgãos governamentais estão aí para abonar a nossa discordância. Às vezes instituições do governo chegam a excluir o nosso idioma em seus eventos internacionais como o pretendia fazer a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de Belo Horizonte, na I Conferência Eletrônica do Centro Virtual de Estudos Políticos (Cevep) por ela promovida em novembro.

Questionado o organizador desse evento, que pertence ao Departamento de Ciência Política da UFMG, pelo Senhor Amilcar Brunazo Filho, um dos coordenadores do Movimento Nacional em Defesa da Língua Portuguesa (MNDLP), a sua resposta mexe com os nossos brios de brasileiros: “...A exclusão do português da referida lista não reflete nenhum desprezo pela língua nacional, mas sim o reconhecimento de que em debates internacionais, falantes do português podem perfeitamente comunicar-se em espanhol, enquanto o inverso nem sempre é verdadeiro.” Graças à carta aberta enviada via correio eletrônico pelo MNDLP ao Ministro da Educação, ao Governador de Minas Gerais e ao Reitor da Universidade de Minas Gerais, na qual é feito um apelo a essas autoridades no sentido de impedirem “que tal atentado contra nosso idioma pátrio venha a ser desferido por uma entidade cultural pública brasileira, IMPONDO A ACEITAÇÃO DE TRABALHOS EM PORTUGUÊS BEM COMO A VERSÃO PARA O PORTUGUÊS de todo o texto apresentado em outro idioma na conferência citada”, a UFMG reviu a posição de excluir o português como um dos idiomas a serem usados na referida conferência, decidindo receber trabalhos também em língua portuguesa.

A aprovação, portanto, do projeto de lei do deputado Aldo Rebelo se faz imprescindível para coibir esse tipo de procedimento, que é danoso ao patrimônio cultural, e evitar o desprestígio do idioma português, que figura entre os mais falados no Mundo (200 milhões, 5° lugar, bem como a frustração dos que não têm o privilégio de conhecer os listados geralmente para uso nos eventos internacionais. Outrossim, a lei será importante na contenção do crescente ingresso dos estrangeirismos na língua pátria que a GLOBALIZAÇÃO vem ensejando.

A língua portuguesa manteve, em sua trajetória histórica no Brasil, a unidade com que é praticada em todo o território brasileiro e foi, e continua sendo, fator de integração nacional.

O prosseguimento do destino glorioso da última flor do Lácio como expressão superior da nossa cultura e nacionalidade depende exclusivamente de nós: poderá ser abastardada pelo nosso descaso e incúria; poderá ser enriquecida e aprimorada se continuarmos a cultivá-la com o mesmo engenho e arte de Machado de Assis e de Carlos Drummond de Andrade.

David Gonçalves Lavrado

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