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Integralismo Brasileiro

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Movimento político e ideológico de inspiração fascista ocorrido no Brasil na década de 30.

Busca um Estado autoritário e nacionalista; uma sociedade baseada em hierarquia, ordem e disciplina social; e o reconhecimento da suprema autoridade política e jurídica do chefe da nação sobre indivíduos, classes e instituições.

Alguns de seus ideólogos, como Gustavo Barroso, dão ao integralismo um fundo racista, defendendo a superioridade da população branca brasileira sobre negros, mestiços e, especialmente, judeus.

Integralismo Brasileiro
Da esquerda para a direita, em pé: Ruy Ulrich, Hipólito Raposo, Luís de Almeida Braga e José Pequito Rebelo. Sentados, da esquerda para a direita: António Sardinha, Vasco de Carvalho, Luís de Freitas Branco, Xavier Cordeiro e Alberto Monsaraz.

Já nos anos 20 o pensamento nacionalista brasileiro desenvolvia uma vertente conservadora.

Entre seus entusiastas estão intelectuais de variadas formações e tendências, como o sociólogo Oliveira Viana, o jornalista, professor e político Plínio Salgado e o pensador católico Jackson de Figueiredo. Mesmo sem atuar como grupo, eles têm em comum posições políticas nacionalistas, antiimperialistas e anticomunistas, criticam a democracia liberal e defendem os regimes fascistas, que começam a despontar na Europa.

Ação Integralista Brasileira

Em 1932, Plínio Salgado e Gustavo Barroso fundam em São Paulo a Ação Integralista Brasileira (AIB), de inspiração nazi-fascista. Seu programa mistura idéias nacionalistas e a defesa da autoridade do Estado diante da “anarquia liberal” com o lema “Deus, pátria e família”.

Os militantes vestem camisas verdes e saúdam-se com gritos de Anauê! – interjeição que em tupi quer dizer “ave” ou “salve”.

A AIB recebe a simpatia imediata de importantes setores conservadores empresariais, militares, religiosos e até sindicais e logo se transforma em partido político.

Em menos de quatro anos, a organização reúne mais de 300 mil adeptos, expande a militância por todo o país e entra em choques freqüentes com grupos democráticos. Em 1935 aprova a repressão à Intentona Comunista. Plínio Salgado lança-se candidato à Presidência da República nas eleições previstas para 1938. Elas, porém, não se realizam.

Com o golpe que instala o Estado Novo, os partidos são extintos e o espaço político do integralismo é reduzido. Desiludidos com Getúlio Vargas, os integralistas promovem o assalto ao palácio presidencial no Rio de Janeiro e pensam contar com a proteção do Exército para tomar o poder. Mas o presidente obtém o apoio da cúpula militar, e o golpe fracassa. Os integralistas são perseguidos e seus líderes, presos. Plínio Salgado é exilado em Portugal, e o movimento desarticula-se.

Fonte: EncBrasil

Integralismo Brasileiro

“No fundo da alma de qualquer povo dormem, ignoradas, forças infinitas. Quem as souber despertar, moverá montanhas.” Gustavo Barroso

O Integralismo não é um partido político, nem de modo algum deve ser confundido com qualquer partido político. Os partidos políticos representam interesses parciais de um grupo de eleitores organizados à sombra de um programa destinado à duração dos mandatos daqueles que elege. O Integralismo põe o interesse da NAÇÃO acima de todos os interesses parciais ou partidários e se guia por uma doutrina, não por um programa.

O Programa é um projeto ou resolução daquilo que se pretende fazer em um tempo determinado. Doutrina é um conjunto de princípios filosóficos, morais e científicos na qual se baseia um sistema político por tempo indeterminado. A diferença é essencial. Uma doutrina dá origem a um incalculável número de programas. Um programa não produz nenhuma doutrina.

Se não é partido, então o que é o Integralismo? – Perguntarão todos quantos se viciaram em compreender a política como simples jogo e manejo de partidos.

O Integralismo é uma Ação Social, um Movimento de Renovação Nacional em todos os pontos e em todos os sentidos. Prega uma doutrina de renovação política, econômica, financeira, cultural e moral. Prega essa doutrina, completa-a e a amplifica constantemente com seus estudos, e prepara os homens capazes de executar as medidas dela decorrentes. Abrange, nos seus postulados, indagações e finalidades, todas as atividades nacionais. Bate-se, não por um programa partidário regional ou local, – autonomista, evolucionista, constitucionalista, partido republicano mineiro, partido republicano paulista, partido democrático, etc.; mas pela construção do Mundo e do Homem até ás dos fatores econômicos.

Isto é uma Política, da qual decorre uma administração. Os partidos somente são capazes de chegar até um programa de administração. O Integralismo constrói uma Doutrina Política, em conseqüência da qual poderá formular inúmeros programas de administração.

Por isso, o Integralismo não compreende e não quer o Brasil partido, dividido: de um lado o povo, alistado em dezenas e mesmo centenas de partidos, votando em milhares de legendas que subpartem os partidos, sempre contrário ao governo, como se este fosse seu pior inimigo; de um lado, o povo iludido pelo politiqueiros, contrapondo-se ao Estado que o esfola com os impostos; do outro, esse Estado manobrado pelo partido que dele se apoderou por meio do voto, oscilando ao sabor das forças paralelas a ele – corrilhos eleitorais ou financeiros, etc., tornado meio de satisfazer apetites, quando deve ser um fim para satisfazer o bem público; mas compreende e quer o Brasil – Unido, isto é, o Brasil – Integral, com o Estado e a Nação confundidos num todo indissolúvel.

O Estado não deve ser somente o governo, a administração de um país. A Nação não deve ser somente a comunidade dos indivíduos unidos pela origem, pela raça, pela língua ou pela religião sob o mesmo regime político. A Nação e o Estado devem integrar-se num corpo só, na mesma associação de interesses e de sentimentos, confundindo-se na mesma identidade e para os mesmo fins.

Na Doutrina Integralista, a Pátria Brasileira deve ser uma síntese do Estado e da Nação, organizada sobre a base corporativa. A sociedade humana não vale somente pelo que apresenta aos nossos olhos, vale muito mais ainda pelo que nela existe e não conseguimos ver, isto é, as forças ocultas do seu Passado e do seu Espírito. Os homens prende-se ao Passado através de seus ascendentes, cujos características essenciais herdam, cujas conquistas morais, intelectuais, técnicas e materiais lhes são transmitidas como um verdadeiro patrimônio. Essa herança é a civilização e nela as gerações que se sucedem são solidárias.

Compostas de homens, as Nações ligam-se ao passado pelas suas tradições de toda a espécie. Enraizada nelas é que a Pátria Brasileira deve florescer no Presente para frutificar no Futuro.

O regime corporativo une os sindicatos de trabalhadores, de técnicos e de patrões, coordena seus esforços e transforma-os de organismos políticos, sociais, econômicos, morais, educativos, de equilíbrio e de cooperação.

Afim de realizar o que pretende, o Integralismo não apela, como os extremistas, para a brusca subversão da ordem social e conseqüente inversão de todos os seus valores, para os atos de banditismo, vandalismo ou terrorismo, para bombas de dinamite e atentados pessoais, para sabotagens e greves que ainda mais precária tornam a situação do pobre operário; mas para o valor do próprio homem, sua dignidade de ser pensante, suas virtudes patrióticas, suas reservas morais, sua tradição religiosa e familiar, seu amor pelo Brasil, sua crença em Deus!

Querendo a grandeza da Pátria Brasileira, o Integralismo por ela se bate em todos os sentidos. Essa grandeza somente pode alicerçar-se na alma das massas trabalhadoras de todo o país, libertas ao mesmo tempo da exploração econômica do capitalismo sem pátria e da exploração política dos caçadores de votos ou dos extremistas fingidos, que falam em nome de operários e camponeses sem serem nem operários, nem camponeses.

Pelo Integralismo, a grandeza da Pátria Brasileira se fará pela renúncia dos interesses pessoais em favor dos interesses nacionais, a pureza dos costumes públicos e privados, a simplicidade da vida, a modéstia do proceder, a integralidade da família, o respeito a tradição, a garantia do trabalho, o direito de propriedade com seus deveres correlatos, o governo com autoridade moral e mental, a unidade intangível da Nação e as supremas aspirações do espírito humano.

Integralismo quer dizer soma, reunião, integralização de esforços, de sentimentos, de pensamentos, ao mesmo tempo de interesses e de ideais. Não pode ser um simples partido. É coisa muito mais elevada. É um movimento, uma ação, uma atitude, um despertar de consciência, um sentido novo da vida, a marcha de um povo que desperta.

Batendo-se pela felicidade do Brasil dentro das linhas de seus grandes destinos, condicionadas pelas suas realidades de toda a origem, o Integralismo quer que o pensamento dos brasileiros não se divida e enfraqueça na confusão de doutrinas ou programas; quer que se una e some ao influxo de uma mesma doutrina político-social. Porque essa base doutrinária é imprescindível para a construção do ESTADO INTEGRAL BRASILEIRO, ESTADO HERÓICO pela sua capacidade de reação e de sacrifício, ESTADO FORTE pela sua coesão, sem fermentos desagregadores dentro de si, no qual, como fator indispensável de independência, se tenha processado a emancipação econômica e, como condição principal da unidade da Nação, tenham desaparecido as fronteiras interestaduais.

Para a realização de tão grande obra política, econômica e social, o Integralismo tem de combater sem tréguas e sem piedade toda a repelente imoralidade do atual regime de fraudes, engano, corrupção e promessas vãs, bem como todo o materialismo dissolvente da barbárie comunista que alguns loucos apontam como salvação para nosso país. O atual regime pseudo-liberal e pseudo-democrático é um espelho da decadência a que chegou o liberalismo, que procurou dividir a nação com regionalismos e separatismos estreitos, implantando ódios entre irmãos, atirados às trincheiras da guerra civil; com partidos políticos transitórios que sobrepõem as ambições pessoais aos mais altos interesses da Pátria e pescam votos, favorecendo os eleitores com um imediatismo inconsciente, em que tudo concedem ou vendem, contanto que atinjam as posições.

Esse regime fraco e vergonhoso escravizou o nosso Brasil, o pouco capital dos brasileiros e o trabalho das nossas populações abandonadas ao banqueiro judeu internacional por um criminoso sistema de pesados, aladroados e sucessivos empréstimos externos, cuja funesta e primeira conseqüência é o esfolamento pelos impostos.

O comunismo que agitadores estrangeiros, aliados a brasileiros vendidos ou inconscientes, inimigos da Pátria, nos prometem, quer a destruição das pátrias, da propriedade e da família, a proletarização das massas e a materialização do homem em todos os sentidos. Tirando ao indivíduo suas crenças e tradições, sua vida espiritual e sua esperança em Deus, sua família – que é sua projeção no Tempo, e sua propriedade – que é sua projeção no Espaço, arranca-lhe as forças de reação, todos os seus sentimentos, deixa somente a fera humana e prepara-o, assim, para definitiva escravização ao capitalismo internacional disfarçado em capitalismo de Estado.

O Povo Brasileiro debate-se em verdadeira angústia econômica e anseia por novo padrão de vida; debate-se numa completa desorganização de sua existência pública e almeja nova forma de justiça social; debate-se em formidável anarquia de valores e na incultura geral, e precisa formar sem detença homens escolhidos que possam resolver os grandes e graves problemas da Nação.

Urge a transferência completa do Brasil para salvá-lo, novo conceito de vida, novo regime, novo quadro de valores. Essa transformação completa, integral da Sociedade Brasileira fatalmente terá de ser o resultado de uma transformação completa, integral da Alma Brasileira no sentido do rigoroso cumprimento de todos os deveres para com a Família, para com a Pátria e para com Deus.

A lição de Jacques Maritain manda a Razão submeter-se a Deus, que é Espírito, e a Ordem Espiritual por Ele instituída.

Só uma Revolução Moral pode produzir uma grande, digna e benéfica Revolução Social. Porque esta é projeção daquela. Por isso, a Doutrina Integralista afirma que a primeira revolução do Integralismo é a Revolução Interior.

Uma das maiores motivações do Integralismo Histórico foi o combate às cisões regionalistas através da instrumentação de uma força política unionista, que colocasse os interesses do País acima de interesses de grupos ou indivíduos. Por isso, o combate histórico da Ação Integralista Brasileira jamais deve ser entendido como anti-democrático, quando muito pelo contrário, visava dar uma feição social e institucional a agremiações que não se identificavam com as necessidades do Brasil como um todo.

Diferentemente do Fascismo, o Integralismo preconizava a substituição dos partidos políticos estaduais (existentes à época) por estruturas corporativas nacionais, de ordem econômica ou não, organizadas através de eleições, à partir das bases municipais (corporativismo democrático). Vale dizer que, no contexto atual não é possível organizar o Estado daquela maneira originalmente proposta pelo Integralismo, devido à atual complexidade econômica do País e dos próprios meios de produção. Como esclareceu o Dr. Miguel Reale, já desobrigado de sua antiga posição Integralista, há ainda de se aproveitar do corporativismo, a transferência da sua função para a conveniência de órgãos consultivos de caráter sindical ou associativo, afim de serem tomadas decisões fundamentais para o País, no plano técnico, cultural ou econômico, após o pronunciamento de entidades profissionais ou científicas.

Visto como uma questão de unidade nacional e não de regionalismos.

Não esquecer que, historicamente, o Integralismo surgiu também como uma reação ao regionalismo que culminou com a Revolução Constitucionalista.

O próprio Dr. Miguel Reale, em artigo publicado no Jornal Estado de S. Paulo, 28 de agosto de 2004, esclareceu que a posição Integralista se referia apenas aos aspectos econômicos do controle judaico nas instituições financeiras internacionais, mas nunca à questão racial.

DOZE PRINCÍPIOS DA DOUTRINA INTEGRALISTA

Existem muitos brasileiros que combatem o Integralismo sem conhecê-lo. Alguns de má-fé, outros por ignorância. Para estes, aqui vão algumas teses defendidas pelo Integralismo. Estamos certos de que a leitura do que abaixo vai escrito levará muitos patrícios bem intencionados aos documentos fundamentais da doutrina criada por Plínio Salgado, transformando-os, dentro em pouco, em novos defensores da trilogia Deus, Pátria e Família.

Ei-los, portanto:

O Integralismo exige que a mocidade não se entregue aos prazeres materiais, mas dignifique a sua Pátria no trabalho, no estudo, no aperfeiçoamento moral, intelectual e físico

O Integralismo não concede o direito de se denominarem “revolucionários” aqueles que revelarem incultura e simples temperamento de aventureiros ou de insubordinados

O Integralismo declara verdadeiros heróis da Pátria: os chefes de família, zelosos e honestos; os mestres; os humildes de todos os labores, das fábricas e dos campos, que realizam pelo espírito, pelo cérebro, pelo coração e pelos braços a prosperidade e grandeza do Brasil

O Integralismo considera inimigos da Pátria todos os que amarem mais os sofismas, as sutilezas filosóficas e jurídicas do que o Brasil, ao ponto de sobrepô-los aos interesses nacionais; os que forem comodistas; preguiçosos mentais; vaidosos; alardeadores de luxo e de opulência; opressores de humildes, indiferentes para com os cidadãos de valor moral ou mental; os que não amarem as suas famílias; os que pregarem doutrinas enfraquecedoras da vitalidade nacional; os “blasés”; os céticos; os irônicos, míseros palhaços desfibrados

O Integralismo quer a Nação unida, forte, próspera, feliz, exprimindo-se no lineamento do Estado, com superior finalidade humana

O Integralismo não pretende erigir o Estado em fetiche, como o socialismo; nem tampouco reduzi-lo a um fantoche, como o liberalismo. Ao contrário de um e de outro, quer o Estado vivo, identificado com os interesses da Nação que ele representa

O Integralismo não admite que nenhum Estado se superponha à Nação ou pretenda dominar politicamente os outros. Não admite que o regionalismo exagerado e dissociativo se desenvolva em qualquer ponto do território da Pátria

O Integralismo, pela constante ação doutrinária e apostolar, não permite que os demagogos incultos ou de má-fé explorem a ingenuidade das turbas, muito menos que a imprensa subordine a sua diretriz a interesses de argentários ou poderosos em detrimento da Nação

O Integralismo dará um altíssimo relevo aos pensadores, filósofos, cientistas, artistas, técnicos, proclamando-os supremos guias da Nação

O Integralismo quer a valorização das corporações de classe, como se fazia na Idade Média, onde os grupos de indivíduos eram valorizados

O Integralismo quer acabar, de uma vez para sempre, com as guerras civis, as masorcas, as conspirações, os ódios, os despeitos, unindo todos os brasileiros no alto propósito de realizarem uma Nação capaz de impor-se ao respeito no Exterior

O Integralismo não é um partido; é um Movimento. É uma atitude nacional. É um despertar de consciências

SIGMA

Integralismo Brasileiro
Sigma

O Sigma é o sinal simbólico do Movimento Integralista.

É uma letra grega escolhida por Leibniz para indicar a indicar a soma dos infinitamente pequenos.

É também a letra com a qual os primeiros cristãos da Grécia indicavam Deus e servia de sinal de reconhecimento, pois a palavra SOTEROS, o Salvador, começa e termina com Sigma.

É, enfim, a letra que designa a estrela Polar do hemisfério Sul, onde fica situado o nosso País.

Assim, o Sigma, símbolo da nossa idéia Integral, está na ciência, está na tradição religiosa de nossa Civilização Cristã e está nas próprias estrelas do nosso firmamento.

ESTADO TOTALITÁRIO E ESTADO INTEGRAL

Os integralistas querem o Estado Totalitário?

Não; os integralistas querem o Estado Integral.

O Estado Totalitário não é a mesma coisa que o Estado Integral?

Não.

O Estado Totalitário tem uma finalidade em si próprio; absorve todas as expressões nacionais e sociais, econômicas, culturais e religiosas; subordina a “pessoa humana” e os grupos naturais ao seu império.

O Estado Integral, ao contrário, não tem uma finalidade em si próprio; não absorve as expressões nacionais e sociais, econômicas, culturais religiosas; não subordina a “pessoa humana “e os grupos naturais ao seu império; o que ele objectiva,é a harmonia entre todas essas expressões, a intangibilidade da “pessoa humana”.

Por que motivo os integralistas não querem o Estado Totalitário?

Os integralistas não querem o Estado Totalitário, porque os integralistas adotam uma filosofia totalista, isto é, tem do mundo uma concepção totalitária .

Não há uma contradição nisso? Se os integralistas concebem o universo de um ponto de vista totalitário, como é que não concebem o Estado da mesma maneira?

Os integralistas são lógicos, tendo uma concepção totalitária do mundo e uma concepção não totalitária do Estado. É evidente que, sendo o Estado uma das expressões do mundo, se este é considerado em seu conjunto, o Estado tem de ser considerado como uma “parte” do conjunto. Se adotarmos o Estado Totalitário, então‚ que ficamos em contradição, fazendo uma “parte” absorver as outras partes.

Mas um jornalista escreveu, que os integralistas ensinam uma doutrina confusa, porquanto o Estado Forte, o Estado Leviathan de Hobbes compreende a absorção de todos os elementos sociais pela autoridade estatal… Como respondem os integralistas?

O jornalista ouviu falar em Hobbes, sem ter a menor noção do assunto. Basta dizer que Hobbes é um materialista, um naturalista, ao passo que nós somos espiritualistas. A conclusão a que Hobbes chegava, era a de que o homem não presta, inclinado aos vícios e à maldade e, por conseguinte, a sociedade tinha de ser governada com pulso de ferro, por um Estado absorvente de todas as liberdades, impondo a disciplina pela força. Esse‚ o Estado “Leviathan” hipertrofiado e gigantesco. Ao contrário de Hobbes, um outro filósofo chamado Locke, também materialista, também naturalista, pensava que o homem é bom, que as leis, o arbítrio do Estado‚ que o tornam mau. Baseado no mesmo materialismo experimental de Hobbes, chegava Locke à conclusão de que cumpria dar a máxima liberdade aos indivíduos, competindo ao Estado assegurar essa máxima liberdade. Bastava isso para que tudo corresse no melhor dos mundos.

Também J. J. Rousseau foi da mesma opinião de Locke. O “homem natural”de Rousseau exprime todo o seu pensamento político. O curioso nisto tudo ‚ que, partindo de um mesmo princípio (o naturalismo) Hobbes separa-se de Locke, porem ambos vão encontrar-se nas últimas conseqüências do Estado Liberal, isto é, no comunismo bolchevista, no estado socialista, que destrói toda a personalidade humana, os grupos naturais, a liberdade. Tanto Hobbes como Locke e Rousseau, são “unilaterais”. O primeiro considera o Estado e pretende fortalecê-lo contra o indivíduo. O segundo considera o indivíduo e pretende armá-lo contra o Estado. Nós, integralistas, consideramos a autoridade do Estado como uma força mantenedora do equilíbrio, de harmonia, dentro das quais gravitarão inter-independentes e sem choques, os grupos naturais e a personalidade humana. A “autoridade do Estado”, para nós, integralistas, não é “Superior” nem “Inferior” aos outros “valores” sociais e nacionais (“Família”, “Corporação” e “Município”; “Cultura”, “Economia” e “Religião”). Trata-se de um “valor” diferente, de um elemento de natureza diversa que entra na composição das harmonias sociais e humanas.

Mantendo íntegras cada uma dessas expressões humanas, o Estado integral também a si próprio se mantém íntegro; não entrará nos domínios próprios de cada uma dessas expressões humanas (“Família”, “Corporação” e “Município”; “Cultura”, “Economia” ou “Religião”).

A missão do Estado Integral ‚ manter equilíbrios, sustentar as harmonias sociais. Com esse objetivo, reivindica para si todas as prerrogativas que‚ lhe foram arrancadas e lhe são inerentes mas nem por isso fere os legítimos direitos de cada um dos fatores humanos constitutivos do conjunto nacional

Um Estado Forte não é um Estado Totalitário?

Não. Um Estado forte ‚ aquele cuja autoridade moral se fortalece pelo respeito que esse mesmo Estado vota à intangibilidade da “pessoa humana” e de todas as suas expressões grupais ou sociais. O Estado Totalitário seria o Estado Arbitrário. O Estado Integral ‚ o Estado de Direito, o Estado Mediador, o Estado Ético, conforme um princípio espiritualista cristão.

O Estado Integral é um Estado Forte?

É o único Estado Forte, justamente porque não é arbitrário, nem absorvente, nem anulador de legítimas liberdades.

Como consegue o Estado Integral ser forte?

Criando a consciência das “diferenciações” dos grupos humanos e das expressões sociais que passam a gravitar harmoniosamente no sentido do bem comum, cada qual com sua própria natureza, sua própria função, seus próprios objetivos. O Estado, por sua vez, penetra-se dessa consciência da sua natureza, da sua função e dos seus objetivos. Princípios imutáveis fixam os limites de ação de cada pessoa e de cada grupo, assim como de cada expressão humana (Cultura, Economia, Religião). O Estado fortalece-se guardando os seus próprios limites e defendendo e sustentando as suas prerrogativas.

Como se entendem as prerrogativas do Estado?

Entendem-se não como direitos, porém como deveres.O mesmo jornalista acusou o Integralismo de não agir violentamente, para atingir o Poder; outros apontam o Integralismo como doutrina filiada ao fascismo e procuram demonstrar ser este um adepto de Sorel, tanto quanto o comunismo.

Que respondem a essas coisas os integralistas?

O Integralismo não tem agido pela violência justamente porque nada tem que ver com Sorel. O autor das “Reflexões sobre a Violência” é materialista, evolucionista, darwiniano. Toda a sua doutrina ‚ baseada no “struggle for life”, a tal ponto que preconiza, como etapa indispensável da luta de classe, o fortalecimento da burguesia. Como Marx, que ‚ naturalista e continuador dos economistas liberais, Sorel aceita, integralmente, os mesmos princípios que já estavam em Hobbes, em Locke, em Rousseau. Só o fato de nós sermos espiritualistas evidencia que não somos soreleanos, que não adotamos a teoria da violência, pois seria a negação da nossa doutrina.

A nossa doutrina, a respeito do emprego da força é clara e não admite dúvida. Em princípio, condenamos toda e qualquer sedição; todas as conspirações, todos os golpes de mão; respeitamos a autoridade constituída; esse respeito irá até ao dia em que a referida autoridade já não puder manter o próprio princípio da sua autoridade e já não tiver meios de fazer a Lei, a Constituição serem cumpridas. Se isso acontecer, se praticamente não existir mais autoridade, então será em obediência ao próprio princípio da autoridade que os integralistas terão o dever de usar da força, caso disponham dela, para evitar desgraças maiores, como a implantação do comunismo ou uma situação de anarquia.

Essa doutrina‚ a própria doutrina da Ordem no que ela tem de mais profundo. Ora, dentro desses princípios, respeitando as leis e as autoridades do país, não somos incoerentes e, sim, afirmamos a nossa coerência e a nossa dignidade de pensamento.

O Integralismo brasileiro não é, então, anti-democrático?

Não; o Estado Integral quer restaurar a democracia que já não existe no Brasil. Não é um destruidor do regime, mas o criador de novos órgãos capazes de revitalizar um regime morto.

Fonte: www.integralismo.com.br

Integralismo Brasileiro

INTRODUÇÃO

No início do século passado os países capitalistas defrontavam-se com duas questões cruciais cujas tentativas de solução acabariam por levar o mundo a um período de radicalismo e violência.

A primeira refere-se à inclusão política e controle social: uma crescente massa urbana de trabalhadores (operários, todas as classes médias, etc) conseguia ampliar cada vez mais seu direito de voto e participação política, ao mesmo tempo em que aprendia a organizar-se para defender seus interesses no campo econômico.

Tais mudanças, ocorridas principalmente na Europa, traziam um questionamento da democracia liberal: as formas de controle social e decisão política desse sistema seriam suficientes para manter o status quo. Seria uma forma de organização política eficiente nesse novo contexto? A classe trabalhadora que começava a se organizar também se perguntava se a democracia seria de fato o melhor caminho para alterar suas condições.

A segunda questão refere-se à gestão do capital, em um ambiente em que a economia se expandia além das fronteiras nacionais, as companhias tornavam-se cada vez maiores e o capital financeiro preponderante. A participação do Estado neste processo, seu maior ou menor poder de intervenção nos mercados e seus deveres sociais seriam mais seriamente discutidos a partir dos anos dez e vinte, quando tornou-se mais claro que “a mão invisível do mercado” não era tão inteligente assim.

A crise não se restringiu aos países de capitalismo mais avançado, e ficou claro que a economia e a política formavam uma rede complexa que englobava vários países. Movimentos e propostas políticas surgiram em vários lugares, inclusive no Brasil. Tentavam responder essas e outras questões, específicas de seus países.

Um destes movimentos foi o integralismo, que durante a primeira metade dos anos 30 mobilizou milhares de pessoas que tinham por objetivo “salvar o Brasil”.

O integralismo foi em parte um movimento de negação: anticomunista, antiliberal, antiimperialista. Assim como as ideologias fascistas na Europa, ele teve um caráter de oposição a uma série de elementos que na época dominavam a cena política e cultural, em muitos casos elementos que estavam desacreditados (os ideais burgueses, o pacifismo, a própria democracia). Mas não devemos exagerar esse componente “anti”, nem na Europa, nem no Brasil – por motivos diferentes.

Além de se contrapor às instituições liberais que desde o século XIX governavam o Brasil e ao incipiente movimento comunista, o integralismo foi uma proposta – talvez a primeira – de construção do Brasil como Nação do século XX. Contando com uma participação popular até então inédita, o movimento penetrou nas cidades e no campo, organizando-se de uma forma que não havia sido feita antes em termos nacionais. Na época, os partidos políticos – e esta inclusive era uma das críticas mais contundentes à democracia, especialmente no Brasil – não eram organizações permanentes na vida popular, não contavam com estruturas nacionais e muito menos com participação ativa de quem não estava diretamente envolvido no processo eleitoral. O movimento integralista foi, portanto, o primeiro movimento de massas organizado ocorrido no Brasil.

Os integralistas partiam de uma narração histórica de como o país constituiu-se ao longo dos séculos para mostrar que o resultado final, o momento que vivia, não satisfazia os ideais de pátria, nação, soberania: tinha antes desembocado em um estado fraco, em instituições políticas inadequadas para o Brasil e em um povo dividido, sem noção de unidade nacional.

As concepções integralistas de Estado, história, nação, etc, sofreram grande influência de intelectuais brasileiros como Oliveira Vianna, Alberto Torres, e também de leituras de teóricos europeus, como Sorel e Manölesco, muitos deles ligados ao corporativismo e ao fascismo. Não foi um movimento tão homogêneo quanto se pensa, em termos de idéias e propostas, pois dirigentes como Gustavo Barroso pregavam abertamente o anti-semitismo, enquanto o próprio Plínio Salgado – chefe maior do movimento – defendia a mistura de raças e etnias tão caro ao nacionalismo brasileiro; no início do movimento, monarquistas alinhavam-se com os integralistas; em algumas áreas rurais mais atrasadas, os integralistas alinhavam-se com o trabalhador rural, e nas mais desenvolvidas, acabavam em aliança com as oligarquias.

As razões para tais diferenças são muitas e não é o objetivo desse trabalho analisá-las.

Minha proposta é outra:

I. Tentar compreender o apelo do integralismo;
II.
Contrapor duas figuras fundamentais para o movimento e tentar expor algumas das diferenças que existiam entre eles: o grande chefe e fundador do movimento Plínio Salgado, e o Secretário de doutrina Miguel Reale.

Um breve resumo do momento político pelo qual o Brasil e o mundo passavam faz-se necessário para que possamos compreender estes dois personagens e o apelo do movimento que defendiam.

A IDEOLOGIA FASCISTA

Os movimentos de extrema-direita que se espalharam pela Europa na primeira metade do século passado tinham alguns pontos fundamentais em comum, embora Portugal de Salazar e a Alemanha de Hitler apresentassem diferenças cruciais. No entanto, tais movimentos têm em comum a defesa de um estado mais que autoritário, o nacionalismo exacerbado e o anti-liberalismo, em sua concepção mais ampla.

As bases das teorias fascistas são muito complexas, tendo sido antes uma convergência de várias teorias que encontraram um solo fértil em um momento histórico muito específico do que uma doutrina muito coerente, homogênea, com propostas claras. O nacionalismo tribal, desligado da política e vinculado a uma identidade orgânica entre indivíduos do mesmo grupo, e a exaltação da força e da guerra como expressões deste nacionalismo já não eram novidade na Europa central no século XX. Embora o racismo, elemento muito ligado a esse tipo de nacionalismo corrompido, não fosse necessariamente componente de todos os fascismos, despertar nas massas um sentimento de identidade “nacional” acima de interesses de classe ou partidários seria fundamental para catalisar sua força e dar-lhes um objetivo comum.

A reação ao racionalismo iluminista e aos ideais da Revolução Francesa (tidos como abstrações inúteis e expressões meramente burguesas) também fertilizaram o solo onde o fascismo viria a germinar. Intelectuais franceses já questionavam os “ideais burgueses” e o mundo que havia resultado depois de décadas de liberalismo europeu. Seu questionamento, entretanto não era do tipo marxista, pois na verdade não criticavam a propriedade privada dos meios de produção ou o sistema que sobre ela se assentava, mas sim, o materialismo burguês e a mecanização/mercantilização de todos os aspectos da vida. Mas alguns revisionistas marxistas entraram nesta linha ao criticar tanto o materialismo que o marxismo compartilhava com o liberalismo quanto à adesão de correntes do marxismo ao jogo eleitoral, à disputa parlamentar, à democracia enfim. Segundo Zeev Sternhell, a ideologia fascista, suas teorias, expressavam uma síntese de um nacionalismo tribal orgânico com a revisão do marxismo como foi proposta por Sorel na virada daquele século.

Os movimentos europeus valorizavam a exaltação e a participação popular, não no sentido democrático: o povo e suas expressões tinham valor na medida em que refletiam a espontaneidade irracional na qual tais movimentos tentavam se apoiar.

O fracasso de outros movimentos que se dispunham a mobilizar a massa para uma revolução, baseados em pressupostos racionais, científicos, levou à busca de outros catalisadores, outros fatores de mobilização: estes não seriam mais “racionais”, no sentido iluminista, não estariam mais ligados ao materialismo histórico marxista e ao “acirramento da luta de classes que levaria à revolução”.

Mas estaria em um apelo emocional às massas, à nação: a paixão, a guerra, os mitos enfim despertariam a fúria revolucionária.

Tendências corporativistas também viriam a ser parte da ideologia fascista, e já em 1910 o nacional-socialismo italiano considerava a democracia parlamentar como mera expressão do domínio burguês que favoreceria a fragmentação da sociedade e o conflito de interesses particulares em detrimento do todo.

Em seu lugar eles propunham um regime baseado em hierarquias “naturais” que construiria interesses comuns entre as classes: um regime de produtores que visasse o bem da nação, a participação na esfera política ligada à produção.

Alguns destes componentes estariam fortemente presentes no integralismo (como o corporativismo e a força dos mitos sociais) e outros estariam ausentes (como a influência do revisionismo marxista); mas ele partilhava dos princípios básicos destas ideologias. O apelo aos brasileiros que dele se tornaram adeptos tinha muitas semelhanças com o apelo às massas européias.

A DÉCADA DE 1930

O mundo estava em crise em 1930: crise política e econômica.

Talvez encruzilhada fosse um termo melhor: os mercados mostravam-se desorganizados e a gestão do capital tornou-se uma questão premente. A democracia liberal estava encurralada pela revolução russa e pelo seu antagonista, os movimentos fascistas.

No Brasil a situação não era muito diferente.

A velha política que dominara desde a proclamação da república já não tinha a ressonância suficiente para continuar inalterada: o país crescia, urbanizava-se, e embora as oligarquias rurais continuassem a ser a força política e base econômica do país, novos grupos – elites urbanas, intelectuais e profissionais, trabalhadores e operários que aumentavam em número nas grandes cidades – começavam a questionar a velha política oligárquica baseada na força dos estados, na verdade de alguns estados mais poderosos economicamente (Minas e São Paulo).

O antigo sistema já não dava conta da nova realidade brasileira, e na verdade a sufocava: a crise do final dos anos vinte viria a ser apenas a gota d’água, deixando bem claro que o mundo encontrava-se em fase de intensas transformações das quais o Brasil não poderia ficar à parte.

Durante e depois da Primeira Grande Guerra o país começa a passar por um período de industrialização mais sistemática, por pressão mesmo de grupos que haviam se beneficiado do boom de produção causado pela necessidade de substituir importações durante a guerra. Embora tal fenômeno seja de importância fundamental para compreendermos as mudanças políticas, sociais e culturais da época, não devemos superestimar tal industrialização, pois o país continuou a ser exportador de produtos agrários e esta era sua base econômica.

Nos anos 20, algumas camadas urbanas – classes médias e trabalhadores – começam a se expressar com mais força e o sistema político dominado pelo setor agrário-exportador começa a perder legitimidade. Mesmo porque, ele já não dava conta dos anseios de uma parcela expressiva de uma oligarquia paulista que começava a se modernizar, além de deixar à margem as elites agrárias de outros estados da federação. Esta expressão das classes urbanas se daria em vários campos (surgimento de sindicalismo, vanguardas artísticas, movimentos políticos como o tenentismo), e também entre intelectuais.

Nas primeiras décadas do século, a produção acadêmica e literária voltada para reflexões sobre o Brasil foi bastante intensa: Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Manoel Bomfim, Alberto Torres, Francisco Campos, Oliveira Vianna, para citar alguns dos mais significativos.

A crise que começa no início dos anos 20 e explode definitiva e violentamente em 1929 põe o modelo agrário-exportador em xeque e coloca em evidência o mercado interno e a economia urbana como pólo dinâmico da economia. A industrialização ocorrida desde o princípio do século e a imigração estrangeira ocorrida para impulsionar esta industrialização compuseram um operariado que começava a se organizar e dar sinais iniciais de uma consciência proletária em formação.

A crise que se abateu sobre o país e o mundo, a urbanização crescente, o aumento do número de trabalhadores, e o crescimento (em número e em atividade) de grupos intelectuais urbanos tornariam o terreno fértil para contestações políticas e novas propostas de organização. Pela primeira vez o Brasil enfrenta a questão social, marca de sociedades capitalistas e urbanas, e tem que lidar com problemas de organização do sistema produtivo, que começava a deixar de ser exclusivamente agrário-exportador para voltar-se também para a produção interna.

OS BRASILEIROS

A chamada República Velha, que vai da proclamação em 1889 ao golpe de 1930, foi o período em que a esfera política esteve dominada exclusivamente pelas oligarquias rurais estaduais, com ocasionais insurreições de alguns grupos ligados às forças armadas. A estrutura política brasileira funcionava em torno de partidos estaduais e disputas locais, e as divergências entre as oligarquias, em diversos níveis, eram fator de conflito e disputas em torno das eleições presidenciais, que em geral deveria equilibrar os interesses das diversas oligarquias estaduais.

Nos anos depois da primeira guerra houve dissidências e cisões nesta situação, com alguns partidos “democráticos” surgindo, denunciando a existência de setores liberais burgueses dentro da própria classe latifundiária (São Paulo e Rio Grande do Sul).

Também foi no pós-guerra que as classes médias urbanas começaram a tomar maior consciência política e a tentar “definir seu papel”. Pensar o Brasil, em termos de propostas para o novo século e para a nova sociedade que se anunciava ganhou importância e daria origem a grupos políticos à esquerda e à direita; analisá-lo de forma sistemática, tentando fugir do diletantismo esnobe que marcara o século XIX expressava a tentativa de criar um pensamento autônomo para solucionar nossos problemas. Inquietações e revoltas militares (tenentismo), embora não possam ser enquadrados em movimentos políticos inovadores da classe média, sendo mais uma apelo às mudanças no próprio sistema antes que este viesse e ser desafiado pelo povo, também refletiam insatisfações com o regime dominante e acabariam por fornecer elementos para outros movimentos, como a Coluna Costa-Prestes e o próprio movimento integralista.

O início do século XX foi um período em que novas interpretações do país se faziam necessárias, por conta de transformações na sociedade brasileira (fim do escravismo e do Império, mudanças no contexto internacional que atingiam o Brasil) que tornavam os antigos discursos algo anacrônicos.

Os Sertões de Euclides da Cunha buscava mais do que descrever: buscava compreender e aceitar a realidade brasileira. O brasileiro urbano, boa vida e europeizado tem que encarar de frente que, queira ou não, vive em um Brasil muito distante da tão idolatrada França; que a realidade e o povo brasileiros têm especificidades marcantes.

Ao mesmo tempo em que intelectuais expunham com crueza a realidade nacional – Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Alberto Torres – obrigando um povo a se encarar, engendravam uma admiração por essa realidade, pelo povo que nela vivia, tão cheio de potencial e tão abandonado por um governo que só atentava para os interesses das elites rurais e do capital financeiro internacional.

O nacionalismo viria a ganhar força com a primeira guerra mundial, em um impulso que continuaria no período de paz, colocando para o país questões relativas à segurança e independência em um cenário internacional conturbado. O sentimento de inferioridade que tradicionalmente fazia com que as elites intelectuais desprezassem abertamente o povo e se vissem “obrigadas a conformar-se com o atraso” deu lugar ao orgulho e ao sentimento de que afinal, o Brasil era uma terra jovem onde tudo estava por ser feito, e poderia de fato ser feito sob o comando certo.

Nos anos 20 o nacionalismo ganhou mais força – em harmonia também com as tendências mundiais – e amplitude: tinha dimensões cívicas mas também econômicas, e os movimentos artísticos da década de 20 acrescentariam a preocupação artística e quase antropológica com uma identidade nacional, e uma exaltação às origens e à originalidade do povo brasileiro.

As vanguardas envolvidas com estas iniciativas e com a criação deste novo nacionalismo iriam muitas vezes envolver-se politicamente (embora nem sempre diretamente), mas muitas vezes em lados diferentes do mesmo lado. Muitos artistas tornaram-se comunistas, outros integralistas. Por exemplo, o líder da Coluna Costa-Prestes (Carlos Prestes) acabaria no Partido Comunista, e alguns tenentes iriam aderir ao integralismo.

O sistema político das velhas oligarquias começa a ser questionado na sua base. Se o liberalismo e o sistema representativo estavam em xeque em seu próprio berço, a Europa, que dizer do Brasil, onde – segundo os críticos – tal sistema jamais funcionara devidamente?

Massas urbanas cresciam e andavam em busca de expressão: a poucos parecia que eleições, da forma como ocorriam e já tão desmoralizadas por fraudes e cabrestos, poderiam ser canal eficiente para participação e para criar uma unidade nacional que muitos percebiam faltar no país.

O APELO INTEGRALISTA

Por que o integralismo teve tanto apelo?

Os movimentos fascistas europeus em geral deram-se em ambientes de classe operária constituída, muitas vezes com movimentos comunistas e socialistas relevantes e organização sindical forte. Eram sociedades já industrializadas em que a própria burguesia sentia-se acuada pela desorganização dos mercados e pela organização do proletariado.

Um dos antagonistas do fascismo na Europa era a democracia liberal; no Brasil, como no resto da América Latina, os governos democráticos quase inexistiam, tinham pouca tradição, ou funcionavam em fachada – caso do Brasil. Por quê então aqui, ambiente que, aliás, era tão pouco propício a qualquer ideologia dissonante com a oficial, o fascismo teve influência suficiente para inspirar um movimento de tal amplitude? Mais: se o outro grande inimigo – comunismo – estava pouco presente, a ideologia fascista não teria um contraponto consistente que impulsionasse a sua formação; por que, no entanto, ele conseguiu formar uma identidade própria?

Na verdade esta questão é uma falácia; se a democracia liberal só existia no Brasil como fachada, mais um motivo para que pessoas em busca de uma alternativa abraçassem ideologias do tipo fascista. Não devemos esquecer que o fascismo foi um componente importado do integralismo – que possuía muitos outros componentes -, e foi adaptado e absorvido pelo movimento nacional.

O autoritarismo sempre esteve presente na política brasileira, assim como o elitismo: nada mais confortável, portanto, que adotar uma doutrina que, embora exaltasse a participação popular – participação como força, como paixão, e não como decisão ou comando – baseava-se na autoridade e na hierarquia estritas.

O movimento comunista – outro grande inimigo do fascismo -, embora tenha adquirido força surpreendente principalmente no movimento sindical dos anos 20 e 30, não tinha raízes no Brasil – e como vimos, o fascismo estava também ligado à negação do comunismo, tanto por opor-se à solução criada pela Revolução Russa para as crises do capitalismo (acabando com o próprio) como por ter sido influenciado pelo revisionismo marxista da virada do século. A Rússia estava muito longe do Brasil, e aqui também não havia tradição nenhuma de discussão do marxismo.

Entretanto, talvez aí resida a outra explicação para a popularidade do integralismo, pelo menos nas classes médias e entre intelectuais: entre estes grupos, estava difundida a noção de que o liberalismo e o sistema representativo no Brasil não estavam dando certo.

Se o sistema liberal democrático tinha telhados de vidro em todo o mundo, no Brasil a casa inteira era de vidro e estava à espera que lhe jogassem pedras: escritores, artistas, burocratas, jovens políticos, profissionais liberais, a classe média urbana enfim, fez uso da pedra mais conveniente e familiar que estava à mão. Mesmo porque, a outra alternativa para o regime liberal seria o comunismo, ou o socialismo – ambos, herdeiros da tradição marxista. Ora, tais correntes não tinham nenhuma tradição aqui, e, portanto, jamais encontrariam ressonância em grupos de classe média que, bem intencionados que fossem, não compreenderiam uma ideologia que tanta importância dava ao proletariado. Não devemos esquecer que o proletariado brasileiro era novo, não tinha a força do proletariado europeu; e não nos esqueçamos também que a tradição brasileira sempre considerou o povo como grupo inferior. O fato de ter surgido uma nova visão a respeito do homem brasileiro, cheio de potencialidades, mas abandonado pelo governo, não quer dizer que tal visão admitia que este povo soubesse se governar, soubesse o que fazia. Era um povo que precisava ser conhecido, admirado e guiado, e chamado a participar apenas como “massa entusiasmada”.

Se o Brasil apenas começava a urbanizar-se, era por outro lado um processo rápido: nos anos 20 e 30, havia já uma massa urbana sedenta não só de participação política formal; para estas massas, ou pelo menos para algumas camadas delas, era fundamental constituir um novo projeto, uma nova idéia de nação. O nacionalismo fascista seria muito bem vindo em um contexto de crise política e cultural, em que um novo país – o país em que as cidades começavam a ser importantes – nascia e ganhava força com uma rapidez surpreendente. Classes médias moralistas e conservadoras também acolheriam com prazer uma doutrina que lhes desse uma opção e uma defesa frente à massa de trabalhadores – e subtrabalhadores, sempre presentes neste país – que crescia com a indústria e com as cidades, algumas vezes tentando se organizar, às vezes com a participação de militantes comunistas, outras vezes, sob maior influência dos anarquistas.

Embora o integralismo tivesse de fato maior adesão junto às classes médias urbanas, tendo sido inclusive fundado por um grupo predominantemente formado por intelectuais, entre os cerca de 500.000 mil filiados certamente encontraremos também trabalhadores, rurais e urbanos.

Nas áreas rurais empobrecidas, algumas vezes os integralistas se alinharam com os trabalhadores rurais e contra grandes proprietários: áreas em que as oligarquias e seus partidos regionais, tão criticados pelos integralistas, dominavam o povo como arma eleitoral, impedindo a constituição de um país, uma nação unificada.

O movimento integralista talvez tenha sido o primeiro a perceber como se faz política em uma sociedade de massas: a noção de serem as idéias válidas não pela sua verdade, mas pela sua força e eficiência é a chave para entendermos o uso que os integralistas faziam das “idéias-mito”. A bandeira, os hinos, uniformes, saudações, livros de doutrina, tudo isso construiu o sucesso de um movimento que compreendeu que o sentido de sua existência estaria na adesão integral dos seus militantes, e fundamentalmente, de muitos militantes.

PLÍNIO SALGADO E MIGUEL REALE

Plínio Salgado e Miguel Real nasceram na mesma cidade: São Bento do Sapucaí, interior de São Paulo. O primeiro nasceu no fim do século XIX, o segundo no início do século passado. Plínio foi fundador e grande chefe da Ação Integralista Brasileira (AIB), e Miguel Reale, Secretário de Doutrina. Embora ambos estivessem do mesmo lado e partilhassem a mesma doutrina, algumas diferenças podem ser apontadas na forma com que se dirigem ao público, na ênfase que davam a certos aspectos da doutrina e na sua argumentação.

Plínio Salgado pertencia a uma família bastante tradicional, e estava ligado à política da Velha República por conta desta tradição. Seu pai, chefe político local, era filiado ao Partido Republicano Paulista. Ele próprio acabaria por passar a juventude filiada a este partido, atuando na política local. Esta conexão com a velha política que posteriormente viria tanto a criticar perduraria até mesmo depois de seu engajamento ideológico modernista. Rompeu com o partido somente em 1930.

Desde o início dos seus estudos políticos Plínio mostrou a ambigüidade do seu caráter que também iria refletir-se em sua atuação política posterior. Ao mesmo tempo em que se interessa pelo materialismo histórico, não deixa de ser católico. Viria depois a aproximar-se do espiritualismo, que o acompanharia por toda a vida e seria um dos responsáveis pelo seu apelo mais moralista e subjetivo.

Sua participação na política local e o período inicial de reflexões sobre a problemática brasileira levaram-no a defender as comunidades locais, questionando o desequilíbrio que havia entre o poder central, os Estados e os municípios. Nesta época também Plínio já demonstrava o ardor nacionalista que marcaria sua atuação na AIB.

Como resultado de conflitos políticos na cidade onde morava, ele é obrigado a ir para São Paulo, onde apesar de ainda ligado ao Partido Republicano Paulista, começou a se envolver com intelectuais que defendiam uma renovação política, liam Spencer, Sorel, Le Bon, e aí inicia também a sua carreira artística.

O artista e o político; o espiritual e o material; o líder e o ideólogo.

Plínio passou a vida entre estas ambigüidades, que explicam muito da sua trajetória: a relutância em aceitar o papel de chefe, sentindo-se mais à vontade na de ideólogo; o esforço em unir o catolicismo ao integralismo; o passado ou o futuro do Brasil como sendo pólo de inspiração para o nosso nacionalismo.

A experiência no tradicional partido paulistano acabaria por dar-lhe base sólida para as críticas que viria a fazer. Em dado momento, ele percebeu que o partido – como todos os outros partidos regionais que eram a base da república brasileira na época – não passava de uma máquina eleitoral de fazer senadores e deputados, que vendia seus candidatos ao público como se estivesse vendendo um produto qualquer; afirmava que toda discussão de projetos para o país, todo projeto de formação ideológica, questões doutrinárias e principalmente, as grandes questões nacionais haviam sido colocadas de lado em nome de interesses particulares e regionais.

Em 1930 ocorreu o rompimento com o partido; viajou para a Europa e ali suas reflexões, sob influência dos acontecimentos na Europa, ganharam o contorno do integralismo. Mesmo assim, ao voltar para o Brasil depois do golpe não considerou oportuno o momento para iniciar um movimento deste tipo. A AIB só viria a ser fundada em 1932, inicialmente como “agremiação cultural e intelectual”, e não como partido político para disputar eleições, de acordo com as seus princípios anti-liberais. Desde o início Plínio foi o chefe do movimento, a figura carismática necessária ao integralismo, o grande líder a guiar incontestavelmente os militantes da AIB.

Miguel Reale tem uma formação jurídica que o diferencia de imediato de Plínio, o artista. Ele entra para a AIB pouco depois da sua fundação, embora desde antes estivesse em contato com o grupo que viria a fundar o movimento, o SEP. Viria a ocupar a Secretaria de Doutrina da AIB, e é em seus escritos que encontramos com mais clareza a proposta de um Estado integralista.

A secretaria ocupada por Reale era de importância estratégica para a AIB, pois este era um movimento que acreditava na “educação das massas”, no sentido de envolvimento e engajamento do povo com a vida pública, em oposição ao sistema liberal, onde o homem passa todo o tempo alienado da política, só tomando conhecimento desta no momento de votar. O discurso de Reale é mais explicativo, talvez mais técnico do que o de Plínio. Talvez por Plínio ter sido o homem que falava diretamente às massas, sentia-se mais à vontade para convencer e apaixonar do que para explicar e sistematizar.

Plínio enfatizava muito o homem e sua transformação espiritual, (“Assim, repito, em relação ao Homem, que ele deva ser tomado na verdade mais profunda de sua essência. E não foi por outra cousa que tracei, antes de tudo, o quadro das finalidades humanas, antes de entrar no estudo do político”); seus apelos eram dramáticos; finalidades morais (“O Integralismo quer a nação unida, forte, próspera, feliz, integrada no Estado, com superior finalidade humana”) e espirituais, Deus, a família eram conceitos centrais para fundamentar o Estado. Embora tais preocupações não estivessem ausentes em Miguel Reale, ele não partia destes princípios nem os enfatizava a todo o momento para legitimar suas idéias. Suas análises centravam-se na história, nas estruturas e instituições. Seu apelo era intelectual, ao passo que o apelo de Plínio era emocional (“Ponha cada um a mão na consciência, medite um pouco, examinando os seus mais íntimos anseios”).

Enquanto Plínio refere-se ao novo Estado e à nova sociedade que viriam com o integralismo em termos genéricos, hiperbólicos e apaixonados, Reale usa da precisão para descrever o Estado sindical-corporativista que seria a expressão mesma da nação (“As corporações, portanto, não serão no Brasil, subordinadas a um poder político de origem não-corporativista: as próprias corporações são o Estado”). Preocupa-se em definir seus conceitos, e não apenas em fazer uso retórico deles. Se a base do Estado são os produtores em Reale, em Plínio é a família, que antecede mesmo o Estado.

Diferenças de análise histórica também estão presentes: enquanto Plínio vê na Idade Média um período de espiritualidade, Reale vê o momento do nascimento do capitalismo, com suas corporações divisionistas (“a Corporação moderna não é, porém, fechada e exclusivista como eram as corporações na Idade Média que só olhavam para o interesse interno da classe”) e o surgimento do mercantilismo. Citar a tradição do povo brasileiro, seus valores e sua história é mais recorrente em Plínio, já que Reale tenta enfatizar a construção do novo Brasil em termos de analisar o que está errado e alterar o que for preciso – uma visão técnica, que não se fundamenta em tradições (“Que querem esses homens todos de nomes ressoantes, paulistas, gaúchos e mineiros há centenas de anos?

Qual deles saberia responder? E será que nada deseja o povo brasileiro? …Se a nossa pátria tem muito ainda que construir, por qual motivo são cegos e mudos os seus representantes?”).

Também na crítica ao próprio capitalismo o discurso difere: Reale analisa o sistema e suas contradições, as crises por ele provocadas; já Plínio preocupa-se com a moral (ou falta de: “Si vamos para o communismo e a anarchia, terá de submeter-se a uma ordem moral que não é a tua”), com a corrupção, com a perda de valores tradicionais (“Espicaçou-se a cólera do proletariado contra os requintes de uma civilização de plutocratas sem alma. Estimulou-se nestes o instinto conservador de crueldades e deshumanidades”) e da fé em Deus. Reale afasta-se de algumas tradições cristãs, embora jamais rompa com elas: não é preocupação sua, como é a de Plínio, integrar o catolicismo e o integralismo (“Quero que leias com atenção estas páginas e venhas, em seguida, labutar neste serviço de deus e da Nação”.).

Se pensarmos que a organização e a propaganda eram as peças chave do integralismo, a atuação de Plínio como orador inflamado poderia ser encarada como o lado “propaganda” da Ação; e o papel de Reale como esmiuçador e sistematizador pode ser visto como o lado “organização” do movimento.

Mudar o homem, seu espírito, é preocupação muito cara a Plínio; a Reale, mais cara é a preocupação com as instituições que possibilitarão a expressão da nação em um Estado. O primeiro centra-se na decadência do espírito (“…tendo como resultado a diminuição do sentimento de moralidade e o abaixamento do índice espiritual das multidões”), o segundo nas contradições de um sistema.

RESSALVAS

As diferenças que aqui tentei mostrar referem-se especialmente aos textos “ABC do Integralismo”, de Miguel Reale, e “O que é o integralismo” de Plínio Salgado. Gostaria de salientar que não existem grandes contradições entre os autores, mas, como foi colocado, uma variação no discurso, ênfases e apelos. Os trechos citados foram extraídos destes livros, e quis expô-los neste trabalho para ilustrar um pouco a linguagem de cada um.

Acredito que as diferenças entre as duas grandes figuras da AIB devam-se à formação e ao papel de cada um dentro da organização. Plínio era o orador, o líder, o catalisador das paixões do público, público este que era conservador – mesmo crítico em relação ao sistema vigente -, católico e moralista. Embora Miguel Reale também se dirija ao público – ambos abrem seus trabalhos com uma menção ao povo, para quem escrevem – ele não era o catalisador, o aliciador, aquele que deveria incendiar os militantes e convencer os não militantes a se engajarem no movimento. Ele era o explicador, o que tinha idéias mais precisas a respeito do que e como fazer. Ele não deixa de ser, de forma alguma, cristão ou moralista, mas desloca o foco das explicações e conceituações para um campo mais lógico e concreto.

CONCLUSÃO

O integralismo foi talvez o primeiro movimento político organizado do Brasil urbano. Polêmicas à parte, o que percebemos ao ler os textos de Plínio Salgado e Miguel Reale é um interesse em fazer do povo uma nação, projeto que com certeza não era exclusivo dos integralistas, mas que não se pode nem ter certeza, mesmo hoje em dia, se chegou a se concretizar.

A relevância de estudos que busquem compreender os movimentos políticos brasileiros e suas propostas não diz respeito apenas à história: está ligada à formação do fazer política, a compreensão da cultura política e até à constituição do espaço público no Brasil.

Este trabalho teve a intenção apenas de propor algumas questões sobre a popularidade do integralismo e contrapor duas figuras emblemáticas do movimento, apenas apontando possíveis caminhos para futuras reflexões.

Viviane Gouvêa

BIBLIOGRAFIA

REALE, Miguel. “ABC do Integralismo”, in Obras Políticas (1931/1937), Brasília: Editora Universidade de Brasilia, 1983.
SALGADO, Plínio. O que é o Integralismo. Rio de Janeiro: Schmidt Editora, 1933.
STERNHELL, Zeev _ The birth of fascist ideology, Princeton University Press, West Sussex, UK; 1994.
TAVARES, José Nilo. “Conciliação e radicalização política no Brasil”. Petrópolis: Editora Vozes, 1982.
TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Editora Difel, 1979.

Fonte: www.achegas.net

Integralismo Brasileiro

A AÇÃO INTEGRALISTA BRASILEIRA. A INTOLERÂNCIA COMO PRINCÍPIO

A Ação Integralista Brasileira (AIB) foi um dos fenômenos mais significativos da extrema-direita no Brasil, pois conseguiu formar o primeiro partido de massas brasileiro, sendo o resultado do fortalecimento dos ideais autoritários nos anos 30. A sua importância ultrapassa o cenário brasileiro, visto que a sua relação com o nazi-fascismo europeu demonstra que a AIB fez parte de um espectro político marcado pelo nacionalismo exacerbado, o autoritarismo, a intolerância e o racismo no mundo do entre-guerras.

O nazismo e o integralismo compartilhavam os principais inimigos: a democracia liberal, os comunistas e o judaísmo internacional. Por isso estabeleceram uma estreita rede de colaboração revelada em folhetos, artigos, reuniões e troca de correspondências. Além de trocarem material de propaganda e doutrinação com o objetivo de divulgar tanto o nazismo no Brasil, como o integralismo na Alemanha, havia a participação de elementos integralistas na imprensa de influência alemã.

Diversas associações integralistas serviam de local de encontro entre adeptos do nazismo e do integralismo. A presença de agentes da Polícia Secreta do Governo Federal em várias dessas reuniões permitiu que manifestações claramente favoráveis ao nazismo fossem percebidas. O integralismo recebia ajuda financeira do regime nazista e do fascismo italiano, integralistas participavam ativamente de organizações nazistas e vários integralistas trabalhavam em firmas alemãs.

Tal colaboração, no entanto, se resumiu a uma aproximação ideológica e até mesmo estratégica, porque o integralismo não foi apenas um apêndice do nazi-fascismo, e sim um movimento autônomo, surgido das circunstâncias históricas, sociais e políticas da sociedade brasileira da época. A grande fonte de conflitos entre as duas ideologias era a questão racial, já que tinham formas completamente distintas de operacionalizar o racismo em suas doutrinas, o que resultava também em diferenças na forma de relacionar o racismo à construção da identidade nacional.

O movimento integralista compartilhava da tese defendida pelos principais teóricos racistas brasileiros do período, que viam a miscigenação racial como uma solução para o futuro da nação. Dessa forma, as lideranças integralistas defendiam a proposta de branqueamento da população, mas apresentavam um discurso específico, retirando a discussão sobre a questão racial do campo das ciências e da razão, e a transportando para o campo da moral e dos valores, dando-lhe um aspecto humanista. Essa operação ideológica possibilitou ao movimento combinar a defesa de princípios racistas e excludentes com a negação do racismo enquanto parte integrante de seu ideário.

O projeto integralista de nação tinha como objetivo a construção e formação de uma homogeneidade racial e étnica da população, através do caldeamento racial e cultural, resultando no almejado predomínio da raça e cultura brancas. Este projeto é justificado por sua pretensa autenticidade, supondo-se que a miscigenação está ligada às tradições históricas, culturais e religiosas da nação, ou seja, está atrelada à “alma” e à “subjetividade” nacionais, moldadas desde o processo histórico da colonização.

Assim, enquanto o racismo nazista defendia o princípio da raça pura, rejeitando a mistura com as “raças inferiores” – o que abriu caminho para políticas de segregação e extermínio físico dos grupos raciais considerados “inferiores” -, o integralismo defendia a miscigenação, como forma de “eliminar” os “defeitos” das raças “inferiores”, associando-se à teoria racista do branqueamento. Além disso, o nazismo legitimava o seu racismo na idéia de “leis naturais”, portando, havia uma certa racionalidade em seu discurso. Já a idéia integralista de branqueamento aparece como uma proposta de comunhão cristã, adquirindo um caráter moral e ético.

A questão cultural sobressaiu a racial no que se refere às relações entre germanistas e integralistas: foi o fato de defenderem a cultura germânica que os tornou um dos alvos do sigma, pois ameaçavam o projeto de construção de uma cultura genuinamente nacional que homogeneizasse todos os cidadãos brasileiros. O antigermanismo integralista se assemelhava ao “novo racismo”, que dá ênfase ao sentimento de incompatibilidade entre grupos distintos, sendo que o eixo central que norteia esta incompatibilidade seria a diversidade cultural, passando ao largo da idéia de superioridade/inferioridade entre raças e culturas e enfatizando a defesa dos modos de vida, tradições e costumes de um grupo contra outros, não porque sejam inferiores, mas porque são culturalmente diferentes.

Para o integralismo, os teuto-brasileiros, por serem cidadãos brasileiros, deveriam se assimilar culturalmente, não aceitando a idéia da convivência com culturas distintas que ameaçassem o projeto de padronização racial e cultural do povo.

As lideranças do movimento davam ênfase diferenciada ao problema judaico, bem como aos aspectos relacionados aos judeus, resumidos em duas questões primordiais: o problema da não-assimilação dos judeus à cultura nacional, enfatizando o “perigo” judaico para a identidade nacional; e a teoria da conspiração mundial judaica. Assim como muitas elites do período, líderes integralistas acusavam os judeus de não se integrarem à cultura nacional, a mesma acusação que faziam às comunidades alemãs do sul do Brasil.

Mas havia uma diferença fundamental entre o anti-semitismo e o antigermanismo na doutrina integralista. Apesar de ambos terem como pano de fundo a tentativa de branquear a população e a intolerância para com qualquer tipo de grupo social que se opusesse à homogeneização étnica e racial do povo, os alemães deveriam se misturar à cultura nacional para inserir “sangue bom” na raça brasileira, enquanto os judeus deveriam participar do caldeamento para que o seu “sangue ruim” fosse “lavado” pelo sangue branco europeu.

Enquanto muitas lideranças do movimento adotam uma postura racista implícita em seus discursos, Gustavo Barroso tinha uma postura abertamente racista, apesar de compartilhar com os demais líderes integralistas a negação do racismo, em prol dos valores cristãos.

Não chegava, porém, a romper com a idéia de integração racial, porque em seu pensamento, a “exclusão” dos judeus se dá como conseqüência da defesa da integração racial: se eles não se integram, devem ser eliminados. Barroso parte da fábula das três raças, do pressuposto da harmonia racial, para tentar “legitimar” a sua proposta de exclusão dos judeus. Ele não os exclui da proposta de integração étnico-racial, mas sim via na persistência dos judeus em manterem sua identidade uma espécie de “auto-exclusão” e uma ameaça ao processo branqueador da população brasileira. Seu anti-semitismo foi, portanto, bastante peculiar dentro do integralismo, por ter realizado uma síntese entre as idéias de extermínio nazista e os valores cristãos, resultando em uma proposta de resolução do problema judaico bastante próxima da propugnada pelo nazismo.

No arcabouço doutrinário integralista é possível apreender algumas categorias dicotômicas: nacionalismo x internacionalismo; autodeterminação dos povos x imperialismo cultural/racial; nativismo x cosmopolitismo; nacionalização/integração/homogeneização x preservação de identidades étnico-raciais.

Estas categorias perpassam o discurso integralista, quando os líderes analisam o contexto nacional e o internacional e são englobadas em duas categorias mais amplas e também dicotômicas: liberdade positiva x liberdade negativa.

A análise dessas categorias trouxe à tona as contradições do discurso integralista, que residem na defesa de dois princípios irreconciliáveis: o humanismo/espiritualismo e a intolerância. O integralismo entra em contradição com o princípio da inviolabilidade da pessoa humana – princípio este defendido pelos adeptos do sigma -, pois os indivíduos ligados às tradições culturais não-nacionais estariam submetidos a um processo de desintegração de suas personalidades, forjadas na identidade criada pela cultura que herdaram, mas que não poderiam assumir. Como os grupos de imigrantes no Brasil não se definiam somente pela cidadania, mas também pela raça e pela cultura, o integralismo estaria, na verdade, defendendo a destruição de suas identidades e seu desaparecimento enquanto grupo no seio de uma coletividade maior, revelando uma tendência totalitária da doutrina integralista.

No contexto nacional, as categorias de liberdade positiva e liberdade negativa adquirem significados diferentes e opostos aos apresentados no contexto internacional. Por um lado, liberdade positiva passa a ser o corolário do princípio da intolerância, pois a preservação da harmonia e do equilíbrio passa a depender da eliminação das diversas entidades raciais e étnicas dentro da nação. Por outro, liberdade negativa, ligada no contexto internacional à supremacia de um povo ou de uma nação sobre outra, é associada com a manutenção dos “exclusivismos” raciais no interior da nação, identificados com os grupos que não aceitam se assimilar à cultura nacional e participar da “comunhão crist㔠das culturas.

O mundo é ordenado a partir de critérios duais, desconsiderando a complexidade da realidade e reduzindo-a a um simples conjunto de pares antitéticos, contribuindo para distorcê-la e conferindo uma suposta “legitimidade” à doutrina e à visão de mundo e de sociedade defendidas pelo integralismo. Esta operação discursiva permite que o movimento do sigma se apresente perante a opinião pública como aquilo que não é, ou seja, um movimento “democrático” e condizente com a “natureza autêntica” do povo brasileiro.

Durante todo o presente trabalho, pudemos perceber que o integralismo realiza um movimento simultâneo de aproximação e distanciamento do nazismo, do racismo e da intolerância; utiliza os valores cristãos como forma de se distanciar do “totalitarismo” nazi-fascista e do racismo, mas ao mesmo tempo advoga princípios excludentes, negando as diferenças raciais e culturais. A sua forma de operar na sociedade da época é baseada na adesão aos valores autoritários e intolerantes do período em questão, mas adaptando-os à realidade brasileira da miscigenação racial e da cultura ibérica cristã. Isto faz do integralismo um movimento perfeitamente inserido na visão de mundo fascista, mas também portador de uma especificidade que lhe confere características próprias.

Os ideais integralistas não podem ser vistos simplesmente como “coisa do passado”. Existem atualmente vários adeptos da doutrina do sigma, que tentam reorganizar o movimento; são os neo-integralistas. De uma forma geral, os membros deste movimento tentam reativar as idéias, concepções de mundo e de organização da sociedade do antigo movimento integralista, enfatizando a hierarquia, a desigualdade, os preconceitos raciais e sociais, amparados nos valores morais e cristãos.

O movimento vem atuando em diversas frentes. Uma delas é a utilização da internet como um dos veículos de comunicação dos ideais neo-integralistas. O conteúdo dos sites é constituído de textos de integralistas ilustres – como Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso – e de novos integralistas, abordando assuntos atuais do Brasil e do mundo, apresentando as propostas e a doutrina neo-integralista.

Os pontos que aparecem nos textos são: críticas ao neoliberalismo e à globalização; críticas ao capitalismo liberal e à internacionalização da economia brasileira; rejeição dos movimentos de cunho esquerdista – como, por exemplo, o MST -, resvalando para o anticomunismo; defesa do nacionalismo, da pátria, da família e da moral cristã.

Embora os neo-integralistas não possuam uma organização centralizada e não se constituam em um movimento efetivo, vêm fazendo uso de um dos mais poderosos meios de comunicação do mundo moderno: a internet, que pode propiciar à doutrina do sigma um alcance imprevisível junto à opinião pública. Vários de seus integrantes são descendentes de velhos integralistas e muitos outros são jovens adeptos, que vêem a doutrina e as propostas políticas integralistas como uma solução para a falta de perspectiva causada pelo modelo de desenvolvimento excludente em vigor no nosso país.

O neo-integralismo é marcado por uma estrutura organizacional dispersa, representada por associações em diversas partes do país, mas sem uma instância política que concentre os militantes e as lideranças do movimento. O neo-integralismo, no entanto, resgata a doutrina do movimento, organizando o discurso de suas lutas políticas em função do contexto histórico atual. O movimento continua editando e distribuindo jornais e boletins como forma de divulgar o ideal neo-integralista.

A mídia neo-integralista é formada pelos seguintes jornais e boletins: Ação Nacional, A Pátria, Idade Nova e Avante!

O fenômeno da globalização, a ênfase no liberalismo e no individualismo enquanto modelo político e social de organização da sociedade, o processo cada vez mais intenso de internacionalização da economia, a desorganização social – marcada pela violência – e a crise econômica que afeta vários países, fazem com que o discurso neo-integralista apareça, aos olhos de seus adeptos, como “redentor” da sociedade brasileira e “revolucionário”, ou seja, ajudam a reforçar não só o discurso neo-integralista como também o ideal de todos os atuais movimentos de extrema-direita, que fazem parte do cenário político e social do mundo globalizado.

Natalia dos Reis Cruz

Fonte: www.rj.anpuh.org

Integralismo Brasileiro

Integralismo

Movimento ocorrido no Brasil após a Revolução de 30, condensando as forças de direita no país sob inspiração da ideologia fascista então vigente em países como a Itália de Benito Mussolini. Ao movimento do Integralismo, além de alguns setores da oligarquia brasileira uniram-se também membros da classe média, da Igreja e ainda militares. O Integralismo passou a possuir organização formal no Brasil a partir da fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada pelos escritores Plínio Salgado e Gustavo Barroso.

O Integralismo possuía como idéias básicas em sua ideologia a afirmação do privilégio do Estado autoritário e nacionalista na ação política, tendo o governante do Estado como líder supremo sobre todas as instituições e classes sociais. O movimento integralista condenava a ação comunista e todas as posições ideológicas liberais, rotulando-as “anarquia liberal”.

A fundação da Ação Integralista Brasileira passa a tomar parte fundamental na articulação dos setores da direita radical no Brasil. A AIB possuía uma organização interna também inspirada nos moldes fascistas e ainda nazistas, caracterizados por aspectos como a hierarquização militar interna à organização, além de vestimentas similares às militares, ostentando o símbolo do sigma (a letra grega: (S), em analogia ao uso da cruz suástica pelos nazistas. Ainda a organização de direita procurava sustentar lemas como “Deus, pátria e família” e seu grito de saudação, “Anauê” (ou “ave”, “salve”), era a versão tupiniquim da saudação do povo da Alemanha nazista aos seus líderes.

A história da AIB (Ação Integralista Brasileira)conta com vários conflitos entre os integralistas e os movimentos democráticos que ocorriam no Brasil. Na época da Intentona Comunista, ocorrida no ano de 1935, a Ação Integralista apóia oficialmente o governo na repressão do movimento que pretendia instalar o regime comunista no Brasil. No entanto, a organização começou a desarticular-se a partir do golpe que instalaria o Estado Novo no Brasil, sob o comando de Getúlio Vargas. Plínio Salgado havia se candidatado à presidência da República, porém o movimento partidário integralista é dissolvido com o advento do Estado Novo, assim como todos os demais partidos são suprimidos do cenário político brasileiro. A Ação Integralista tenta reagir contra sua aniquilação, empreendendo um tentativa de golpe de estado, contando com a participação de membros do setor militar. No entanto, a elite da classe militar estava de acordo com Vargas, não apoiando o golpe e lutando contra ele até seu desvanecimento. Não tardam as perseguições aos integralistas da AIB, que se exilam em países da Europa, se dispersando assim o movimento integralista.

Fonte: www.fe.unicamp.br

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