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Cabanagem

 

Na década de 1830, a província do Grão-Pará, que compreendia os estados do Pará e do Amazonas, tinha um pouco mais de 80 mil habitantes (sem incluir a população indígena não-aldeada). De cada cem pessoas, quarenta eram escravos indígenas, negros, mestiços ou tapuios, isto é, indígenas que moravam nas vilas.

Belém, nessa época, não passava de uma pequena cidade com 24 mil habitantes, apesar de importante centro comercial por onde era exportado cravo, salsa, fumo, cacau e algodão.

A independência do Brasil despertou grande expectativa no povo da região. Os indígenas e tapuios esperavam ter seus direitos reconhecidos e não serem mais obrigados a trabalhar como escravos nas roças e manufaturas dos aldeamentos; os escravos negros queriam a abolição da escravatura; profissionais liberais nacionalistas e parte do clero lutavam por uma independência mais efetiva que afastasse os portugueses e ingleses do controle político e econômico. O resto da população - constituída de mestiços e homens livres -, entusiasmada com as idéias libertárias, participou do movimento, imprimindo-lhe um conteúdo mais amplo e mais radical.

A grande rebelião popular, que aconteceu em 1833, teve origem num movimento de contestação, ocorrido dez anos antes e que havia sido sufocado com muita violência, conhecido como "rebelião do navio Palhaço".

O descontentamento que dominava não só Belém, mas igualmente o interior do Pará, aumentou com a nomeação do novo presidente da província, Lobo de Souza. O cônego João Batista Campos, importante líder das revoltas ocorridas em 1823 e duramente reprimidas, tornou-se novamente porta-voz dos descontentes, principalmente da igreja e dos profissionais liberais.

A Guarda Municipal, pró-brasileira, era conscientizada por um de seus membros, Eduardo Angelim, que denunciava sobretudo os agentes infiltrados em toda parte.

A partir de 1834, as manifestações de rua se multiplicaram e o governo reagiu prendendo as lideranças. Batista Campos, Angelim e outros líderes refugiaram-se na fazenda de Félix Clemente Malcher, onde já se encontravam os irmãos Vinagre. Ali foi planejada a resistência armada.

Iniciava-se a Cabanagem, a mais importante revolta popular da Regência. Esse nome indicava a origem social de seus integrantes, os cabanos, moradores de casas de palha. Foi "o mais notável movimento popular do Brasil, o único em que as camadas pobres da população conseguiram ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade", segundo o historiador Caio Prado Júnior.

As forças militares foram extremamente violentas, incendiando a fazenda de Malcher e prendendo-o juntamente com outros líderes. Revoltado, o povo de Belém acompanhava os acontecimentos. O destacamento militar de Abaeté se rebelou em protesto contra a perseguição feita a Eduardo Angelim. Após a morte de Batista Campos, o grupo se rearticulou em quatro frentes e atacou Belém. Com a adesão de guarnições da cidade, a vitória foi total. O presidente da província, Lobo de Souza, e o comandante das tropas portuguesas foram mortos, e os revoltosos, soltos. Malcher foi aclamado presidente da província.

Iniciava-se o primeiro governo cabano. Sem muitas lideranças, o povo escolheu Clemente Malcher, por ser um homem respeitado por todos. Porém, ele continuava com "cabeça" de fazendeiro e começou a tomar atitudes que os cabanos consideraram traição.

Os desentendimentos levaram à primeira importante ruptura das lideranças: de um lado, Malcher e as elites dominantes, e, de outro, os Vinagre e Angelim, juntamente com os cabanos e boa parte da tropa. Malcher foi preso, mas, a caminho da cadeia onde ficaria por algum tempo, foi morto por um popular.

Fonte: br.geocities.com

Cabanagem

O isolamento da província do Pará levava-a a ignorar, na prática, as determinações do governo regencial. No final de 1833, o governo nomeou o político Bernardo Lobo de Souza presidente do Pará.

Lobo de Souza valeu-se da repressão para impor sua autoridade na província, o que fez crescer contra si a oposição local.

Líderes como o padre João Batista Gonçalves Santos, o fazendeiro Félix Antônio Clemente Malcher e os irmãos Vinagre -- Francisco Pedro, Manuel e Antônio -- armaram uma conspiração contra o governador. Em janeiro de 1835, o governador foi assassinado. Os rebeldes ocuparam a cidade de Belém e formaram um governo revolucionário presidido por Malcher, que defendia a criação, no Pará, uma república separatista.

Entretanto, o novo governador mantinha estreita relações com outros proprietários locais e decidiu permanecer fiel ao Império.

Por isso, o movimento radicalizou-se. Líderes populares, como Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, refugiaram-se no interior da província, em busca do apoio das populações indígenas e mestiças. Foram então as pessoas pobres, que moravam em cabanas, que assumiram a luta pela independência do Pará.

Em agosto de 1835, os cabanos voltaram a ocupar Belém e criaram um governo republicano, desligado do restante do Brasil.

Mas o isolamento da província e uma epidemia de bexiga enfraqueceram os revoltosos, que não tiveram condições de resistir à esquadra imperial que, em pouco tempo, dominou o porto de Belém. Enquanto a cidade era saqueada e incendiada, tropas do governo, auxiliadas pelos grandes proprietários locais, percorriam os vilarejos do interior à cata de rebeldes.

Ao cabo de cinco anos de guerrilhas, mais de 30% da população paraense -- estimada na época de cem mil habitantes -- foi dizimada.

A Cabanagem foi o mais importante movimento popular do Brasil. Foi o único em que representantes das camadas humildes ocuparam o poder em toda uma província.

A decadente economia da província do Grão-Pará, que englobava os atuais Estados do Pará, parte do Amazonas, Amapá e Roraima, se baseava na pesca, na produção de cacau, na extração de madeiras e na exploração das drogas do sertão. Utilizava-se a mão-de-obra escrava negra e a de índios que viviam em aldeias ou já estavam destribalizados e submetidos a um regime de semi-escravidão.

Os negros, índios e mestiços compunham a maioria da população inferiorizada do Grão-Pará e viviam agrupados nas pequenas ilhas e na beira dos rios em cabanas miseráveis (daí o nome cabanos, como eram conhecidos).

Liderados a princípio por grupos da elite que disputavam o poder, os cabanos, insatisfeitos, resolveram assumir sua própria luta contra a miséria, o latifúndio, a escravidão e os abusos das autoridades. Invadiram Belém, a capital da província, depuseram o governo que havia sido imposto pelos regentes e assumiram o poder. Formou-se então o único governo do país composto por índios e camponeses.

Entretanto, a radicalização e a violência da massa cabana, a dificuldade em organizar um governo capaz de controlar as divergências entre os próprios cabanos e a traição de alguns chefes, que chegaram a ajudar as tropas e os navios enviados pelo governo central, causaram o fracasso do movimento.

Vencidos na capital pelas forças do governo, os cabanos reorganizaram as massas rurais e continuaram lutando até 1840, quando a província, pela força da opressão e da violência, foi obrigada a aceitar a pacificação.

A Cabanagem deixou um saldo de 40 mil mortos. Era mais um claro exemplo que a classe dominante não admitia a ascensão do povo ao poder nem as manifestações populares que colocassem em risco o domínio político da aristocracia.

Fonte: www.dhnet.org.br

Cabanagem

A Cabanagem (1835-40), também denominada como Guerra dos Cabanos, foi uma revolta de cunho social ocorrida na então Província do Grão-Pará, no Brasil.

Entre as causas dessa revolta citam-se a extrema miséria do povo paraense e a irrelevância política à qual a província foi relegada após a independência do Brasil.

A denominação Cabanagem remete ao tipo de habitação da população ribeirinha mais pobre, formada principalmente por mestiços, escravos libertos e índios. A elite fazendeira do Grão-Pará, embora morasse muito melhor, ressentia-se da falta de participação nas decisões do governo central, dominado pelas províncias do Sudeste e do Nordeste.

Entre os anos de 1835 e 1840 o município esteve no centro da Guerra da Cabanagem, considerada a de participação mais autenticamente popular da história do país, única em que a população efetivamente derrubou o governo local.

Posteriormente receberia o título de Imperial Município, conferido por D. Pedro II (1840-1889). Entre as causas dessa revolta citam-se a extrema miséria do povo paraense e a irrelevância política à qual a província foi relegada após a independência do Brasil.

A denominação Cabanagem remete ao tipo de habitação da população ribeirinha mais pobre, formada principalmente por mestiços, escravos libertos e índios.

A elite fazendeira do Grão-Pará, embora morasse muito melhor, ressentia-se da falta de participação nas decisões do governo central, dominado pelas províncias do Sudeste e do Nordeste. A guerra durou cerca de cinco anos e provocou a morte de mais de 40.000 mil pessoas, cerca de 30% da população do Grão-Pará foi dizimada, tribos inteiras foram completamente exterminadas, visto como exemplo a tribo Mura.

Antecedentes

Durante a Independência, o Grão-Pará se mobilizou para expulsar as forças reacionárias que pretendiam reintegrar o Brasil a Portugal. Nessa luta, que se arrastou por vários anos, destacaram-se as figuras do cônego e jornalista João Batista Gonçalves Campos, dos irmãos Vinagre e do fazendeiro Félix Clemente Malcher. Formaram-se diversos mocambos de escravos foragidos e eram frequentes as rebeliões militares. Terminada a luta pela independência e instalado o governo provincial, os líderes locais foram marginalizados do poder.

Em julho de 1831 estourou uma rebelião na guarnição militar de Belém do Pará, tendo Batista Campos sido preso como uma das lideranças implicadas. A indignação do povo cresceu, e em 1833 já se falava em criar uma federação. O presidente da Provincia, Bernardo Lobo de Souza, desencadeou uma política repressora, na tentativa de conter os inconformados. O clímax foi atingido em 1834, quando Batista Campos publicou uma carta do bispo do Pará, Romualdo de Sousa Coelho, criticando alguns políticos da província. Por não ter sido autorizada pelo governo da Província, o cônego foi perseguido, refugiando-se na fazenda de seu amigo Clemente Malcher. Reunindo-se aos irmãos Vinagre (Manuel, Francisco Pedro e Antônio) e ao seringueiro e jornalista Eduardo Angelim reuniram um contingente de rebeldes na fazenda de Malcher. Antes de serem atacados por tropas governistas, abandonaram a fazenda. Contudo, no dia 3 de novembro, as tropas conseguiram matar Manuel Vinagre e prender Malcher e outros rebeldes. Batista Campos morreu no último dia do ano, ao que tudo indica de uma infecção causada por um corte que sofreu ao fazer a barba.

Populares enfrentaram oficiais

Na noite de 6 de Janeiro de 1835 os rebeldes atacaram e conquistaram a cidade de Belém, assassinando o presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, e apoderando-se de uma grande quantidade de material bélico. No dia 7, Clemente Malcher foi libertado e escolhido como presidente da Província e Francisco Vinagre para Comandante das Armas. O governo cabano não durou por muito tempo, pois enquanto Malcher, com o apoio das classes dominantes pretendia manter a província unida ao Império do Brasil. Francisco Vinagre, Eduardo Angelim e os cabanos pretendiam se separar. O rompimento aconteceu quando Malcher mandou prender Angelim. As tropas dos dois lados entraram em conflito, saindo vitoriosas as de Francisco Vinagre. Clemente Malcher, assassinado, teve o seu cadáver arrastado pelas ruas de Belém.

Agora na presidência e no Comando das Armas da Província, Francisco Vinagre não se manteve fiel aos cabanos. Se não fosse a intervenção de seu irmão Antônio, teria entregue o governo ao poder imperial, na pessoa do marechal Manuel Jorge Rodrigues (julho de 1835). Devido à sua fraqueza e ao reforço de uma esquadra comandada pelo almirante inglês Taylor, os cabanos foram derrotados e se retiraram para o interior. Reorganizando suas forças, os cabanos atacaram Belém, em 14 de agosto. Após nove dias de batalha, mesmo com a morte de Antônio Vinagre, os cabanos retomaram a capital.

Eduardo Angelim assumiu a presidência. Durante 10 meses, a elite se viu atemorizada pelo controle cabano sobre a Província do Grão-Pará. A falta de um projeto com medidas concretas para a consolidação do governo rebelde, provocaram seu enfraquecimento. Em março de 1836, o brigadeiro José de Sousa Soares Andréia foi nomeado para presidente da Província. A sua primeira providência foi a de atacar novamente a capital (abril de 1836), em função do que os cabanos resolveram abandonar a capital para resistir no interior.

As forças navais sob o comando de John Pascoe Grenfell bloquearam Belém e, no dia 10 de maio, Angelim deixou a Capital, sendo detido logo em seguida. Entretanto, ao contrário do que Soares Andréia imaginou, a resistência não terminou com a detenção de Eduardo Angelim. Durante três anos, os cabanos resistiram no interior da província, mas aos poucos, foram sendo derrotados. Ela só cederia com a decretação de anistia aos revoltosos (1839). Em 1840 o último foco rebelde, sob liderança de Gonçalo Jorge de Magalhães, se rendeu.

Calcula-se que de 30 a 40% de uma população estimada de 100 mil habitantes morreu.

Em homenagem ao movimento Cabano um monumento foi erguido na entrada da cidade de Belém: o Memorial da Cabanagem, projetado por Oscar Niemayer, aliás o único no norte do Brasil.

Fonte: www.sampaio.to.gov.br/www.dicionarioinformal.com.br

Cabanagem

Uma das mais importantes revoltas nativistas do período da Regência, ocorreu entre 1835 e 1840 e destacou-se pelo seu caráter eminentemente popular, onde os cabanos (moradores de cabanas nos vilarejos ribeirinhos e que deram o nome ao movimento), índios, negros e mestiços foram os personagens principais.

A Cabanagem representa um prosseguimento das manifestações que se desenrolaram na Província do Grão-Pará desde a independência do Brasil. A presença portuguesa na região era marcante, tendo os paraenses lutado contra o domínio lusitano; desde 1833 a província foi marcada pelas sangrentas disputas dos partidos Caramuru (formado por portugueses) e Filantrópico (formado por brasileiros).

A luta originou-se do combate à penúria e às péssimas condições sociais em que vivia a população paraense, liderado pelo Cônego Batista Campos, que se destacou em várias disputas contra a metrópole até o nascimento do movimento revolucionário mais articulado.

O primeiro êxito revolucionário ocorreu em Belém, em janeiro de 1835, a partir do assassinato do presidente da Província do Grão-Pará e dos comandantes das Armas e da Força Naval, quando os revoltosos tomaram o poder. Com o envio de novos chefes militares pelo Governo Imperial e ante a invasão da Capital pelos revoltosos, liderados por Pedro Vinagre e Eduardo Angelin, o Brig. Francisco José bloqueou e ocupou a Capital em maio de 1840, tendo capturado os líderes e os enviado ao Rio de Janeiro, onde foram condenados à prisão.

O império concedeu aos revoltosos anistia irrestrita. Estava assim terminada revolta, que representou o único movimento popular em que as camadas inferiores da população conseguiram, com certa estabilidade, ocupar o poder de toda uma província.

Fonte: www.senado.gov.br

Cabanagem

No período da Regência (1831-1841), ocasião em que o Império do Brasil ficou sem um monarca de fato, explodiram rebeliões por todos os lados.

Do extremo Sul, como foi o caso da Revolução Farroupilha (1835-1845), ao extremo Norte, quando da Revolta dos Cabanos (1835-1840), eclodiram movimentos insurgentes mostrando o descontentamento das provinciais brasileiras com a concentração do poder no eixo Rio-São Paulo. A diferença entre elas, entre os farrapos e os cabanos, deu-se em que enquanto na primeira foi a estância quem entrou em guerra, na segunda, na cabanagem, foi o povo da selva quem pegou em armas contra o poder da oligarquia.

A tragédia do bridge "palhaço"

"A insurreição foi geral. Por toda a parte aonde houve um homem branco ou rico a quem matar e alguma coisa a que roubar aparecia logo quem se quisesse encarregar desse serviço, e deste modo ainda hoje estão em rebeldia todo o Alto e Baixo Amazonas." Brigadeiro Soares Andréia em relatório ao Ministro da Guerra, Belém do Pará, 1836

Quase uns trezentos homens sufocavam no porão do brigue "Palhaço" ancorado nas aforas do porto de Belém do Pará quando a gritaria começou. Berravam por água e por ar. Asfixiavam-se. Eram do 2º Regimento de Artilharia de Belém que se insurgira contra a junta governativa em agosto de 1823. Quem os prendeu e os removeu para a masmorra flutuante foi o comandante Greenfell, um daqueles ingleses oficiais de marinha a soldo de D. Pedro I, que lá estava para assegurar a integração do Grão-Pará ao Brasil recém independente.

Assustados com a barulheira dos encarcerados, meio endoidecidos pelo calor e pela sede, a tripulação da improvisada galé os acalmou a tiros e à noite espargiu sobre eles, ainda empilhados lá embaixo, uma nuvem de cal. Na contagem matinal do dia seguinte, no dia 22, só deram com 4 vivos. Dias depois restou só um, João Tapuia. Morreram 252 milicianos e praças, sufocados e asfixiados. Um pavor acometeu o Pará. O interior ferveu. Gente comum morrera como bicho.

Quanto a responsabilidade pela tragédia, como sempre ocorre, ninguém a assumiu. Para milhares de tapuias e de caboclos paraenses, genericamente chamados de "cabanos", devido as choças que habitavam, a independência até então não dissera a que veio. Agregou-se a isso o fato dos poderosos locais, quase todos portugueses, donos do comércio grosso e de vastas terras, ainda reservavam para si o controle das instituições, e que, como ativista do partido dos "Caramurús", almejavam reatar com Lisboa na primeira oportunidade que houvesse.

A hora da vingança popular soou dez anos depois do massacre dos amotinados, sufocados no bridge "Palhaço". Em 1833, num momento de desentendimento da Regência com a oligarquia de Belém (dividida entre o partido filolusitano dos Caramurus e os nacionalistas chamados de Filantrópicos), abriu-se uma brecha para que o furor nativo emergisse. Em janeiro de 1835, capitaneados pelos irmãos Vinagre e por Eduardo Argelim, um ex-seringueiro, a Selva marchou contra a Cidade.

Os cabanos eram milhares, tapuias de todas as tribos e caboclos do todas as misturas. Assassinaram o presidente da província, e os chefes militares, do exército e da marinha. O que restou do governo de Belém, apavorado com a insurgência, escafedeu-se para a ilha Tatuoca, montando ali uma precária resistência enquanto esperavam rezando um socorro qualquer da Regência.

O porto de Belém no século 19

Na capital abandonada, enquanto isso, assumiam os revolucionários. Ao contrário de tantas outras rebeliões daquela época, comandadas por robespierres do engenho e dantons da estância, a cabanagem foi inteiramente popular, liderada por gente do povo mesmo, pelo Bararoá, pelo Borba e pelo lendário Maparajuba do Tapajós. A massa porém, egressa do mato e dos igarapés, não sabia bem o que fazer com o que conquistara, não conseguiu fazer com que a vitória inicial se transformasse em algo seguro, num estado revolucionário como os jacobinos fizeram na França em 1793. Tudo deu para desandar.

Enquanto isso, Belém padecia. O mato crescia por tudo e o lixo se empilhava. Não havia serviço público algum. O rebelde, o apigáua paraense saído da palhoça da beira de rio, descuidava-se da cidade. Os prédios públicos, obra do desenho do italiano Antônio Landi, eram tomados por bichos e, disseram que, até a boiuna de prata, a malvada cobra-grande, andou habitando neles. Oito meses e 19 dias depois, com a chegada das tropas da Regência em maio de 1836, os cabanos foram obrigados a se retirarem, refugiando-se nos matos.

Um viajante, o reverendo norte-americano Daniel Kidder (*), que lá esteve logo depois da retomada de Belém em ruínas, encontrou a maioria das fachadas dos prédios e das casas furadas à bala ou lambidas pelo fogo. Seguiu-se então, sob comando das tropas imperiais, o terror branco, ao mata-cabano, momento em que a floresta encheu-se de sangue. Estimaram as vítimas da repressão do governo em mais de 30 mil mortos. A cabanagem traumatizou por muitos anos o Pará.

Se o poeta Manuel Bandeira muito mais tarde, encantado, admirando as mangueiras que dão as boas sombras das ruas de Belém, a "cidade pomar" (obra do intendente Lemos, no auge da extração da borracha), disse que nela "o céu esta encoberto de verde", provavelmente hoje, olhando para o mesmo céu (corridos mais de cento e oitenta anos dos gazeamentos do brigue "Palhaço" e das chacinas governamentais nas florestas do Pará), veria-o ainda enrubescido de vergonha pela impunidade que por lá ainda continua soberana..

Fonte: educaterra.terra.com.br

Cabanagem

A Cabanagem foi uma grande revolta popular que explodiu na província do Pará, em 1835. Dela participou uma multidão de pessoas muito pobres, submetidas à exploração dos poderosos da região. Eram negros, índios e mestiços que trabalhavam na exploração de produtos de floresta e moravam em cabanas à beira dos rios. Por isso, eram chamados de cabanos e a rebelião ficou conhecida como Cabanagem.

Os cabanos queriam sair da situação de miséria em que viviam. Para isso, tinham que lutar contra os responsáveis pela exploração social e pelas injustiças. A princípio, os cabanos foram apoiados por fazendeiros do Pará descontentes com a política do governo imperial e com a falta de autonomia da província. Os fazendeiros queriam mandar livremente no Pará e exportar sem barreiras os produtos da regiã (cacau, madeira, ervas aromáticas, peles etc.).

Não demorou muito para que os fazendeiros se afastassem da Cabanagem, pois ficaram com medo das idéias que existiam no movimento. Os cabanos queriam acabar com a escravidão, distribuir terras para o povo e matar os exploradores.

Um dos chefes da Cabanagem foi o padre Batista Campos que, no sertão paraense, costumava benzer os pedaços de pau utilizados como armas pelos pobres.

A cabanagem teve muitos outros líderes populares, conhecidos por apelidos curiosos como o João do Mato, Domingos Onça, Mãe da Chuva, Gigante do Fumo.

Em janeiro de 1835, tropas de cabanos conquistaram a cidade de Belém (capital da província) e mataram várias autoridades do governo, entre elas o presidente da província.

Os cabanos tomaram o poder, mas tiveram grande dificuldade em governar. Por quê? Faltava-lhe organização, havia muita briga entre os líderes do movimento e a rebelião foi traída várias vezes. Tudo isso facilitou a repressão violenta comandada pelas tropas enviadas pelo governo do império. A liquidação completa dos cabanos só ocorreu em 1840, depois de muito sangue derramado. Calcula-se que foram mortos mais de 30 mil cabanos. Os que sobreviveram às perseguições foram presos e escravizados.

Fonte: www.geocities.com

Cabanagem

Foi uma revolta popular com ponto focal em Belém que envolveu a grande área ocupada pelo Pará, Amazonas, Roraima e Amapá onde ,no último ,ela quase põe em jogo a Integridade Nacional ao ser apoiada por franceses no Amapá.

O nome Cabanagem tem origem na população amazônica pobre que morava em cabanas humildes nas margens dos rios e que se constituíram na tropa dos líderes cabanos.

A região era povoada por brasileiros mamelucos e índios .Os brancos e os negros eram minorias.

O branco português bem sucedido em suas empresas econômicas e desfrutando de privilégios, menosprezava o mameluco e o índio , se constituía no espoliador , na visão dos nacionais

Por esta razão eram irreconciliáveis os interesses do grupo nacional com o português .O nacional possuía forte sentimento nativista e o português o espírito de colonizador .Assim ,a notícia da Abdicação causou grande alegria no grupo nacional que alimentou esperanças de os portugueses serem afastados do poder local .

Os portugueses com grandes interesses na área passaram a resistir aos governos de nacionais e vice e versa.

E este seria o ingrediente ou combustível da Cabanagem ,de certa forma uma continuação das agitações ali contra a Independência do Brasil ,marcada por desordens e motins e imortalizada pelo trágico e lamentável episódio da morte de cerca de 200 revolucionários contra a Independência, que morreram asfixiados no porão do navio Palhaço, onde haviam sido confinados, na repressão à reação à Independência.

Os imensos vazios e a rarefeita população da região norte iriam dificultar sobremodo a pacificação desta revolta que ocorreu em concomitância com outras, como no Rio de Janeiro e Maranhão 1838-1840 onde , em ambas, o futuro Duque de Caxias atuou expressivamente ,quer combatendo ,quer prevenindo revoltas, como foi o caso no Rio no comando dos Guardas Permanentes (PMRJ atual) .

Tinha curso mais as dos Cabanos de Alagoas e Pernambuco 1832-1835 , a Sabinada na Bahia 1837-1838 e a Farroupilha em 1835-1840,todas na Regência, além de outras citadas de menor intensidade .Fatos que se constituíram num grande desafio ao Poder Central como que consagrando a idéia de que na época a presença de um trono era fator de Unidade Nacional e de que a adoção prematura da República poderia ter sido um desastre político e fator de desintegração e desunião nacional.

Desenvolvimento da Cabanagem

O início da Cabanagem tem lugar com o pedido de afastamento do Comando das Armas do Pará do mal Francisco Soares Andréa ,por considerado ligado aos interesses de portugueses, mas que, por ironia ,será a autoridade que efetivamente devolverá a paz a região afetada pelos cabanos.

Personagem cuja vida e obra foi abordada em :

ANDRÉA, José.O Marechal Andréa nos relevos da História. Rio:BIBLEx,1977.(Coleção Taunay).

Obra que merece ser lida para que se faça justiça a este chefe ,vítima de manipulação da História e que vinha predominando na literatura sobre sua atuação. História e verdade e justiça !

Outras obras úteis:

CRUZ,Ernesto.Nos bastidores da Cabanagem.
Belém,1942
REIS,Arthur Cézar.Síntese de história do Pará.Belém.1942.

Em 2 jun 1831 o 24 o Batalhão de Caçadores do Exército se revoltou estimulado por nativistas locais. Revolta contra seus chefes e Governo do Pará. Indisciplina reflexo de medidas preconceituosas e radicais tomadas pelo Parlamento contra o Exército ,o que se refletiu por todo o Brasil.

As alterações continuaram, sendo necessário a criação de um Corpo de Guardas sugerido por português prestigioso. Prosseguindo os desencontros entre nacionais nativistas e conservadores que incluíam portugueses ,expressivamente ,em jul 1831 foram enviados pela Regência um Presidente e um Comandante das Armas brasileiros natos.E continuaram as desconfianças e desencontros entre os grupos disputantes do poder.O presidente com a conivência de seu Comandante de Armas foi obrigado a renunciar e vários nacionalistas foram exilados ,inclusive o líder cônego Campos .Este conseguiu fugir e proclamou um governo autônomo sob sua presidência ,se constituindo no " 1 o presidente cabano."

A Regência enviou para pacificar a Província do Pará o general Machado de Oliveira que promoveu o retorno dos nativistas exilados.E continuaram as agitações e desencontros.

No final de 1832 novos Presidente e Comandante das Armas foram enviados e considerados ligados aos interesses de portugueses. As tropas da guarnição do Exército envolveram-se na questão a favor dos nativistas ,ou a favor da permanência do general Machado de Oliveira.

A situação política se apresenta inconciliável. Os "caramurus" ou conservadores com influência de interesses portugueses ameaçam os liberais nativistas.

A Província do Pará era guarnecida por 1 Batalhão de Caçadores,1 Batalhão de Artilharia de Posição que guarnecia os fortes e ,por 1 Batalhão da Guarda Nacional com 4 companhias em Belém e 4 no interior.

Em 16 abr 1832, líderes caramurús entraram em choque com o Governo e tem lugar intenso tiroteio .O presidente Machado de Oliveira conseguiu intervir e dominar a revolta.

Em 5 set 1833, mais uma vez a Regência substituiu o Presidente e o Comandante das Armas .Esta administração promoveu anistia geral a todos os envolvidos em revoltas e levou a efeito uma administração competente.

Mas a conspiração continuava em Belém e no interior.Este terra de ninguém e domínio de lideranças locais que podiam levar existência independente do Governo, pois a natureza era pródiga em frutos de sobrevivência..

E aí atuou com resultados o cônego Campos ,aliciando os cabanos e compondo-se com o prestigioso e rico fazendeiro coronel Malcher da Guarda Nacional, no vale do rio Acará.

E decidiram depor o governo da Província.

Reuniram armas e munições, mobilizaram caboclos cabanos para a revolução , em cuja frente se colocariam ,entre outros mobilizados, os irmãos Vinagre: Francisco Pedro, Antônio, Raimundo ,Manoel e José e ,mais o Eduardo Angelim .

O Governo da Província enviou contra eles ao Acará uma expedição. Ela foi surpreendida em 22 out 1833 por Francisco Vinagre e Eduardo Angelim ,líderes cabanos ,do que resultou a morte do comandante legal major José Nabuco de Araujo e mais 3 homens de sua tropa. Outra expedição foi enviada sob a chefia do comandante da Guarda Nacional, cel José Marinho Falcão que também foi morto pelos cabanos.O comandante naval De Ingles substituiu o chefe morto e conseguiu prender os líderes cabanos cel Malcher e Raimundo Vinagre e matar Manoel Vinagre.

A Regência reforçou militarmente o Pará e recolheu o armamento que fora distribuído ao povo.

Em 7 jan 1835 .os cabanos investiram e conquistaram Belém sob a liderança de Antonio Vinagre e Souza Aranha. Dominaram fácil a guarnição do Exército e o Palácio do Governo.E comunicaram sua conquista à Regência em 16 mar 1835, firmando-se solidamente no poder por diversas medidas de controle militar acertadas.

A guarnição da Marinha resistiu e não se rendeu

Do Maranhão foi enviada expedição naval ao comando de Pedro Cunha. Ela foi calorosamente recebida em Belém. E tentou Pedro Cunha insistentemente, junto ao "2 o presidente cabano "Antônio Vinagre,mas sem resultados,pacificar o Pará e reimplantar ali o império da ordem e da lei.

Tentou um desembarque naval em Belém ,mas foi repelido com grandes perdas em pessoal e sérias avarias em sua força naval.

A fraqueza e a falta de visão da Regência e as ambições irreconciliávies dos partidos locais ameaçavam Belém de caos.

E o domínio cabano cada vez mais encontrava apoio no interior.

Em 1 o abr 1835, foi nomeado Presidente e Comandante das Armas o mal Manoel Jorge Rodrigues ,estudado pelo cel Claudio Moreira Bento na História da 3 a Região Militar,v.1,

Ele aportou em Belém em 10 jun 1835,apoiado em forte esquema militar. Foi calorosamente recebido ,inclusive por cabanos.

Antônio Vinagre premido pela realidade da força ,manifestou o desejo de transmitir o governo ao marechal, sob o argumento: "De que ocupava o cargo a contragosto."

E em 25 jun 1835 passou o governo do Pará que exercera por meio ano ao mal Manoel Jorge. Este substitui as forças cabanas pelas suas. Os cabanos simbolicamente devolveram suas armas e munições.Em realidade as melhores, em número estimado de cerca de 3.000, incluindo canhões ,eles as contrabandearam para o interior, para suas bases.

Pouco adiante os cabanos promoveram um massacre em Vila do Vigia. E foram tomadas medidas repressivas contra eles. E por isto Antônio Vinagre, Eduardo Nogueira Angelim e Gavião e outros líderes cabanos decidiram mais uma vez investir e dominar Belém.

Em 14 ago 1835,menos de 2 meses da posse do mal Manoel Jorge, os cabanos atacaram Belém. Em 22 ago pela desproporção de efetivos tornou-se insustentável a situação do mal Manoel Jorge ,por sitiado por terra.

Na madrugada de 23 ago o mal Manuel Jorge evacuou Belém e estabeleceu o Governo e seu Quartel General na ilha Tatuoca e bloqueou o porto de Belém.

Em 26 ago 1835 ,Eduardo Angelim foi aclamado o "3 o presidente cabano" e passou a ter grande dificuldade para dominar a situação, por não conhecer os manejos da administração ,estar sob bloqueio naval e mesmo por desentendimentos entre as lideranças cabanas que o sustentavam no poder.

A partir de sua base naval o mal Manuel Jorge fez bem sucedidas incursões em Chapéu Virado, Colares, Vigia, Curaça e Vieira Vale.

Em 9 abr 1836 ,o mal Andréa reassumiu a Presidência e o Comando das Armas.Em operações conjuntas foram retomando varias posições cabanas .

Os cabanos em Belém sentindo dificuldades incontornáveis pediram anistia que não foi concedida nas condições propostas.

E em 13 abr 1836, depois de cerca de 7 meses sob domínio cabano ,Belém retornou em definitivo ao controle da Regência.

Os cabanos deixaram Belém em pequenos barcos e foram em grande número capturados nesta situação pela Marinha. Andréa tratou de reorganizar Belém.

No interior da província a fraqueza demonstrada pelo governo em se fazer presente ,os espaços vazios deixados foram ocupados por lideranças cabanas que conquistaram o apoio popular expontâneo ou por coação. Pois ali imperava a impunidade e a lei do mais forte.

O mal Andréa procurou identificar concentrações cabanas e batê-las por partes,sem no entanto conseguir capturar Eduardo Angelim e outros líderes escondidos no labirinto aquático da Amazônia.

Em 20 out 1836, no rio Pequeno ,próximo do lago do Porto Real ,as forças legais em operação conjunta conseguiram capturar Eduardo Angelim e outros líderes cabanos.

Em dezembro, o marechal Andréa conseguiu retomar Santarém dos cabanos.

Nesta altura se apresentou a um perigo potencial a Integridade Nacional do Brasil, traduzido pelo apoio aos cabanos ,no Amapá ,de parte dos franceses que ali litigavam com Portugal e depois com o Brasil em torno de limites.

Mas o esforço para desintegrar a resistência cabana atomizada na imensidão da Amazônia, prosseguiu durante os anos de 1837 e 1838 quando a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina atingiam o seu apogeu e para onde seguiria breve o mal Andréa depois de passar o governo do Pará ao dr João Antônio de Miranda que realizou exelente administração que terminou por reintegrar os cabanos .Trabalho de reintegração e pacificação que foi consolidado em 1840 ,com a maioridade de D,Pedro II.

Viveu pois o Pará durante a Regência agitação permanente que ameaçou a Unidade Nacional e a Integridade com a possibilidade de apoio francês aos cabanos no Amapá.

Enquanto tinha lugar a Cabanagem ,a Regência enfrentou distúrbios e motins na sua sede no Rio, a revolta da Balaiada 1838-1840 no vizinho Maranhão,a revolta dos cabanos de Pernambuco e Alagoas 1832-1835,a Sabinada na Bahia 1837-1838 e a Revolução Farroupilha 1835-1839 no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Tudo nos parece evidenciar e demonstrar que o trono no Brasil foi fator de Unidade Nacional e que a adoção prematura da República constitucional poderia ter transformado o Brasil numa colcha de republicas fracas e hostis entre si.

Eis um assunto para reflexão por simulação !

A impunidade cabana estimulada pela ausência do estado na imensa área amazônica estimulou esta guerra quase sem fim que teria sido vitoriosa se mais capacidade intelectual e política tivessem tido as lideranças cabanas.

"Para alimentar o cérebro de um Exército na paz para melhor prepará-lo para a eventualidade indesejável de uma guerra não existe livro mais fecundo em lições e meditações do que o da História Militar" segundo o mal Foch .

.E este tema Cabanagem, no momento em que a Amazônia se torna prioridade na Defesa Nacional é rico em meditações e lições e esta a exigir um aprofundamento interdiciplinar.

Não se dispõe até hoje de uma História Militar da Amazônia integrando todos os conflitos internos e externos que a envolveram. Sendo a História Militar um Laboratório da Tática e da Estratégia, conforme nos ensina o brasilianista Mac Cann, impõe-se urgente um estudo integrado de todos os eventos bélicos ali ocorridos ,bem como de todos os planos militares históricos desenvolvidos desde a sua incorporação a Portugal para preservá-la . Pois o Brasil necessitará seguramente dos mesmos no limiar do 3 o Milênio .Gostariamos de conhecer proposta documentada contrária a esta necessidade aqui levantada nesta História do Duque de Caxias .

Esta foi uma revolta com causas sociais e não político -republicanas .Foi feita por massas despossuídas ,ao contrário da Revolução Farroupilha que será liderada por elites políticas e econômicas do Rio Grande do Sul contra lideranças do mesmo teor, dominantes do Sudeste e por via de conseqüência do Brasil.

Fonte: www.resenet.com.br

Cabanagem

CABANAGEM: Motivos e Objetivos

A Cabanagem (1833-1836), também denominada Guerra dos Cabanos, foi uma revolta de caráter social ocorrida na Província do Grão Pará, no Brasil.

A denominação Cabanagem remete às cabanas, tipo de habitação da população ribeirinha mais pobre, formada principalmente por mestiços, escravos libertos e índios, exploradores das “drogas do sertão”, que já possuía um histórico de revoltas contra os responsáveis por sua miséria. No período da consolidação de sua independência, em 1823, enfrentou os comerciantes portugueses dominantes do Pará, e já no período regencial, voltou-se contra as autoridades enviadas pela Regência, que não atendiam aos interesses populares, além da irrelevância política à qual a província foi submetida após a independência do Brasil.

Assim, na rebelião, somava-se aos paraenses miseráveis, a elite fazendeira do Grão-Pará, que embora morasse muito melhor, ressentia-se da falta de participação nas decisões do governo central, dominado pelas províncias do Sudeste e do Nordeste.

Os cabanos buscavam, através da criação de uma república própria, separando-se do Império brasileiro, maior estabilidade e autonomia política, além de melhores condições. Tentaram isso na figura de líderes com diversas origens sociais, mas foram traídos por aqueles a quem haviam confiado a liderança. Assim, sua luta por igualdade social e democracia acabou sendo massacrada pelas autoridades imperiais que contaram com auxílio das próprias lideranças cabanas.

CONTEXTO: Grão-Pará e a cidade de Belém na década de 1830

Na década de 1830, a província do Grão-Pará, que compreendia os estados do Pará e Amazonas, tinha um pouco mais de 80 mil habitantes (sem incluir a população indígena não-aldeada). De cada cem pessoas, quarenta eram escravos indígenas, negros, mestiços ou tapuios, isto é, indígenas que moravam nas vilas.

Cabanagem

Belém, nessa época, não passava de uma pequena cidade com 24 mil habitantes, apesar de ser um importante centro comercial por onde era exportado cravo, salsa, fumo, cacau e algodão.

A província do Pará além de ser a mais distante da capital era também a mais ligada a Lisboa. A emancipação política do Brasil em relação a Portugal não operara uma significativa mudança na estrutura social, assegurando, pelo contrário, a permanência do poder político na classe proprietária lusitana.

A morte de D. João VI em 1826 e o conseqüente regresso forçado de D. Pedro como herdeiro ao trono português faziam temer a perda dos direitos adquiridos e, conseqüentemente, o regresso do Brasil a colônia portuguesa. Por esta razão, este foi um momento de geral insegurança provocado pelo ardor das correntes políticas que então se combatiam em quase todo o império, acirrando ao máximo a disputa entre as elites portuguesas e os dirigentes nacionais.

CABANAGEM: A história

Origem

Seringueiros, índios, mestiços e negros, homens pobres e explorados, membros do clero e liberais nacionalistas esperavam diversos resultados da independência brasileira, mas poucos foram efetivamente alcançados.

A Cabanagem (1833 – 1836), uma rebelião regencial ocorrida nos estados Pará e Amazônia, foi o primeiro movimento popular que chegou ao poder no Brasil, apesar de ter sido mal conduzido e rapidamente derrotado pela regência.

Os indígenas e tapuios queriam o reconhecimento de seus direitos e parar de trabalhar como escravos nas manufaturas e roças. Os negros desejavam a abolição da escravatura. Entre os proprietários, profissionais liberais e clérigos, as reivindicações eram pelo afastamento de portugueses e ingleses do poder político e econômico. Sobretudo, o que unia todos era o clamor pela liberdade e independência, inicialmente paraense, e posteriormente difundido ao longo do Rio Negro.

Classe dominante atrasa a emancipação do país

A classe dominante da época, composta em sua maioria por comerciantes portugueses, resistia à independência do Brasil. Contavam com o apoio de tropas militares do Rio de Janeiro, que acabaram com movimentos populares a favor da emancipação do país e terminaram por atrasá-la em quase um ano.

Os cabanos

Mesmo após a conquista da Independência, os cabanos (massa miserável que habitava choupanas a beira de rios) estavam insatisfeitos, pois seus líderes não puderam participar do governo provisório. O povo, que exigiu ao governo geral a inclusão desses líderes, foi violentamente reprimido.

Reconstrução de um cenário instável

Com a abdicação e a falta de firmeza da regência, o cenário de instabilidade, agitações e revoltas populares se reconstituiu.

As autoridades provinciais (nomeadas pela regência) foram contestadas pelos cabanos e Batista Campos, em 1832, se destacou em meio as agitações.

Conseguiu impor sua política ao presidente da província, Machado de Oliveira, além de fazer com que Rio Negro (Amazonas) também aderisse ao movimento.

Segunda repressão e presidência de Lobo de Souza

Afim de acabar com as agitações, a regência enviou para a província um novo presidente (Bernardo Lobo de Souza), que, logo de início, explicitou sua política repressora. Essa política acabava por estimular, e não conter, as rebeliões. Nesse momento, começou a cabanagem. Surgiram intensas movimentações populares tanto na capítal (Belém), como nas zonas rurais.

O Levante dos Cabanos

Em 6 de janeiro de 1834, houve o levante dos cabanos, que dominaram a capital, executaram o governador Lobo de Souza e as demais autoridades. Formou-se, então, o primeiro governo cabano do Pará, com Malcher (um dos líderes da cabanagem) no poder. Este, por sua vez, deixou explícita a sua fidelidade ao Imperador português e traição aos colegas, reprimindo a própria rebelião que liderara e o colocara no poder.

Simultaneamente à traição de Malcher, Francisco Pedro Vinagre (outro líder da rebelião) ganhava prestígio entre os colegas. Malcher tentou armar contra Vinagre, mas foi deposto, executado e substituído por ele.

O governo de Francisco Vinagre (segunda traição aos cabanos)

Francisco Vinagre foi outro grande traidor dos cabanos. Seguiu os passos de seu antecessor, declarando-se fiel ao imperador e se dispondo a ceder seu posto a quem fosse por ele indicado. Antônio Vinagre, irmão do presidente, colocou-se à frente dos cabanos e impediu que seu irmão negociasse diretamente com o governo imperial.

Diante dos recentes acontecimentos e temendo suas conseqüências, a regência envia tropas militares ao Pará comandadas por Manuel Jorge Rodrigues. Este assume o poder em Belém com a ajuda do próprio Francisco Vinagre.

Proclamação da república e derrota dos cabanos

Jorge Rodrigues assumiu o poder da capital, mas não pôde evitar que os cabanos, no interior, se reagrupassem com o objetivo de destituir-lhe o cargo de presidente. Unidos novamente, os cabanos retomaram a cidade de Belém. Os rebeldes proclamaram a república e cortaram suas ligações com o império.

Em 1835, organizou-se um novo governo cabano, com Angelim como presidente. Mas, no ano seguinte, foi enviado pela regência um novo presidente, o brigadeiro Francisco José de Souza Soares de Andréia. Este estava acompanhado por uma esquadra repressiva de força militar muito superior a dos cabanos, que acabaram derrotados.

FEIJÓ E A CABANAGEM

Durante toda a Regência (de 1831 a 1840), o governo central brasileiro sofreu um enfraquecimento, enfrentando diversas rebeliões de caráter separatista.Diogo Antônio Feijó foi o primeiro regente único e governou o país de 12 de outubro de 1835 a 19 de setembro de 1837.A trajetória política de Feijó, que era deputado eleito pela província de São Paulo no período da proclamação da independência, teve seu primeiro ponto alto quando assumiu o cargo de ministro da justiça em 1831, e como líder moderado, agiu contra a crise de Julho de 31, reprimindo os oficiais militares revoltados.

O sucesso da contra-revolta gerou grande estima para Feijó, que tornou-se o “homem forte” da regência. Após conflito com restauradores e uma tentativa de golpe por parte dos moderados, Feijó acabou se demitindo, uma vez que sua medida de afastar José Bonifácio da tutoria do imperador D. Pedro II não foi aprovada pelo Senado.

Após um período de isolamento, Feijó pode voltar às disputas políticas em 1835, quando foi eleito para a Regência Uma, representando a vitória dos progressistas. Porém, na época da posse de Feijó, a Cabanagem já havia eclodido, e somada à rebelião Farroupilha e levante dos Malês, estas graves agitações colocaram o regente Feijó numa situação delicada.

Ao afirmar que “O vulcão da anarquia ameaça devorar o império”, e que era preciso “[aplicar] a tempo o remédio”, Feijó abriu espaço para um ataque da oposição regressista, que visava a interpretação do Ato Adicional, no sentido de restringir a autonomia provincial e diminuir as liberdades democráticas que acabaram gerando tais rebeliões.

Cartas descobertas na Inglaterra em 1999 – entre o embaixador da Grã-Bretanha no Brasil, e o ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha à época – revelam que em 1835, o regente Feijó reuniu-se secretamente com os embaixadores da França e da Grã Bretanha, pedindo o envio de quase 800 militares destes países para o Pará, com o intuito de acabar de uma vez por todas com a rebelião.

O descobrimento destas cartas comprova o argumento de alguns historiadores de que Feijó “não sabia o que fazer com o abacaxi que era a situação no norte do país”, como apontou o diretor do Arquivo Público do Pará, Geraldo Mártires Coelho, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo em 13 de Outubro de 1999.

O ato desesperado de Feijó em solicitar intervenção internacional na luta contra a Cabanagem e o fato de esconder este pedido de maior parte das autoridades brasileiras “mostra a forma pouco ortodoxa de Feijó atuar” e como “o pedido de Feijó é mais uma comprovação da fragilidade da nação brasileira pós-Independência”.

De qualquer forma, durante a Cabanagem, tanto França quanto Grã-Bretanha mantiveram embarcações na costa do Pará como alternativa de refúgio para os comerciantes das duas nações. Entretando, nenhum dos dois países chegou a intervir diretamente no conflito.

Conhecido como Batista Campos, foi um dos grandes líderes da Cabanagem, além de já acumular histórico na luta contra os portugueses antes mesmo da dita rebelião. Nasceu em 1782 em Barcarena (município do Pará) e acabou falecendo em 1834, por conta de uma infecção causada por um leve ferimento enquanto fazia a barba. Além de revolucionário, era cônego, jornalista e advogado. Talvez por conta de sua vocação religiosa, Batista Campos costumava benzer os pedaços de pau utilizados como armas pelos combatentes paraenses. Dentro da Cabanagem, foi um importante intelectual que coordenou a resistência ao governador da província do Pará Bernardo Lobo de Souza, e por conseguinte teve de se refugiar no interior da província. Além disso, criou os jornais “O Paraense” e “O Publicador Amazoniense”.

Anteriormente à Cabanagem, Batista Campos já traçara para si uma história de prestigio entre os cabanos e realizara manobras políticas que utilizaram essa influência como fonte de poder. Após a luta contra os portugueses pela consolidação da independência do Pará em 1823, e a estabilização provisória, foi preso e isolado pelo mercenário inglês Lorde Almirante John Pascoe Grenfell.

Em 1832, Batista Campos, após a abdicação de D. Pedro I, ganhou novamente o apoio na região do Rio Negro, e destacou-se nas agitações contra as autoridades provinciais apontadas pela regência. Chegou até a impor sua política a Machado de Oliveira, presidente da província.

Com o envio de novas autoridades repressoras, Batista Campos foi reconhecido pelos cabanos como um dos líderes do levante armado que originou a Cabanagem.

Félix Antonio Clemente Malcher

Foi um dos líderes da cabanagem. Durante o período da Cabanagem, Malcher 'traiu' seus companheiros de causa. Devido a isso foi preso. Foi morto por um dos cabanos quando seria remanejado para outra prisão em Belém. Teve como filho João Diogo Clemente Malcher que foi vereador de Belém e serve seu nome a uma das ruas do centro desta cidade. Malcher tinha fazenda na cidade de Acará, a qual escondeu membros da revolução da Cabanagem. Pelas ruínas, tem-se uma amostra do que foi o movimento no lugar. Trata-se de um ótimo sítio para pesquisas históricas e arqueológicas sobre o movimento da Cabanagem. Foi o primeiro presidente do governo cabano. Entretanto, declarou-se fiel ao imperador D. Pedro II e prometeu manter-se no poder até sua maioridade. Foi traidor da rebelião que o colocara no poder, prendendo e deportando outros líderes cabanos como o seringueiro Eduardo Nogueira Angelim e o jornalista maranhense Vicente Ferreira Lavor. Após tentar um golpe contra Francisco Vinagre, que vinha ganhando prestígio até então em seu cargo de comandante das armas, acabou sendo deposto, executado e substituído pelo próprio Francisco Vinagre.

Francisco Pedro Vinagre

Foi um dos líderes iniciais da Cabanagem, e apesar de ter sido nomeado presidente como contraponto à política anti-rebelde de Malcher, revelou-se ainda mais intenso do que o anterior ao declarar-se fiel ao governo imperial e prometer entregar o poder provincial a quem a regência indicasse.

Após ser impedido de negociar com o governo diretamente por seu irmão, Antônio Vinagre, que colocara-se à frente dos cabanos, conseguiu resistir no poder, dando início a uma nova traição: ajudou um forte grupo militar comandado por Manuel Jorge Rodriques a reprimir os cabanos e assumir o poder em Belém.

Eduardo Nogueira Angelim

Angelim, já com 19 anos, participava ativamente da política da Província. Revolucionário, partidário da Cabanagem, sendo inclusive o terceiro presidente cabano.

Resistiu até o término da Cabanagem, sendo posteriormente capturado e levado à capital do Império brasileiro. Lá foi julgado, exilado, e enterrado na capela do Engenho de Madre de Deus, na Ilha de Trambioca, em Barcarena.

Foi um importante divulgador dos ideais cabanos e falou diretamente ao povo através de proclamações que enalteciam as vitórias da rebelião. Em um de seus discursos, diz “Meus amados patrícios! Eu vos afiancei que o infame e opressor jugo estrangeiro havia de cair por terra e que seríamos os vencedores.

Realizaram-se os meus bons desejos e gratas esperanças. Vós sois dignos do nome paraense! Vós todos, soldados da liberdade, estais coberto de glória pelo vosso patriotismo, valor e constância!”

PERSONAGENS: Presidentes nomeados pela Regência

Bernardo Lobo de Souza

Em 1833 Bernardo Lobo de Sousa foi nomeado governador do Pará, pela regência trina permanente e atuou de forma opressiva e autoritária. O auge da revolta foi a convocação do Exército e Armada imperial, como uma estratégia política para eliminar aqueles que "eram conhecidos por suas doutrinas subversivas, que pregavam e inoculavam no seio da população e que ameaçavam a ordem pública pela influência perigosa que exerciam entre as massas." (Antonio Raiol).Suas atitudes descontentaram a população. Em janeiro de 1835 Belém foi tomada e Bernardo Lobo de Sousa foi executado.

Manuel Jorge Rodrigues

Foi um militar e político brasileiro, além de 1° barão de Taquari . Deveria ter seguido seu pai na carreira comercial, porém preferiu entrar para o exército português em 18 de setembro de 1794. Participou com distinção de toda Guerra Peninsular, sob as ordens do marechal William Carr Beresford.Veio para o Brasil, no posto de tenente-coronel agregado à Divisão de Voluntários Reais do Rei, chegando no Rio de Janeiro em 30 de março de 1816. Participou da Guerra contra Artigas, sendo nomeado marechal em 1826. Foi comandante das armas e presidente da província do Pará, de 10 de abril a novembro de 1835.

Em 1840 foi nomeado governador das armas da corte, onde permaneceu quatro anos. Após os cabanos ragruparem suas forças e marcharem sobre Belém, retomaram a cidade e expulsaram o presidente Jorge Rodrigues, que refugiou-se na Ilha de Tatuoca (litoral de Pernambuco).

Francisco José de Souza Soares de Andréia

Foi o primeiro e único Barão de Caçapava, além de militar e político luso-brasileiro. Veio para o Brasil com a família real em 1808. Comandou a brigada de engenheiros no Pará em 1817. Permaneceu no Brasil depois da independência, tendo tomado parte da Guerra Cisplatina, incluindo a batalha de Ituzaingó em 1827.

Foi Presidente das províncias: Pará, de 9 de abril de 1836 a 7 de abril de 1839, onde combateu a cabanagem; Santa Catarina em 1840; Rio Grande do Sul, em 1840, tendo derrotado nos combates de Laguna os farroupilhas liderados por Giuseppe Garibaldi; Minas Gerais, em 1843, permanecendo no cargo até 1844; Bahia, de 1844 a 1846; Rio Grande do Sul, de 1848 até 1850. Após a saída do imperador D. Pedro I do Brasil, era um importante membro da Sociedade Militar (que pregava a restauração de D. Pedro I ao poder), foi por isso perseguido, preso e teve que responder ao conselho militar.

No cargo de Marechal, foi também responsável pela comissão de demarcação dos limites fronteiriços entre o Império do Brasil e a República Oriental do Uruguai em 1854. Nesta época fundou a localidade de Santa Vitória do Palmar, no sul do Rio Grande do Sul.

MEMORIAL DA CABANAGEM

O Memorial da Cabanagem é um monumento de 15 metros de altura por 20 de comprimento, todo em concreto, erguido no complexo do entroncamento, Belém/Pa. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer a pedido do então governador do Pará Jader Barbalho, o monumento foi construído para compor as comemorações do sesquicentenário da Cabanagem, que aconteceu em 7 de janeiro de 1985. Esteticamente a obra pode ser definida como uma rampa elevada em direção ao céu com uma inclinação acentuada apontando para um ponto sem fim, tendo no meio uma "fratura", um pedaço do monumento que jaz no chão.

Segundo a concepção de Nyemeyer, representa a luta heróica do povo cabano, que foi um dos movimentos mais importantes de todo o Brasil. A rampa elevada em direção ao céu representa a grandiosidade da revolta popular que chegou muito perto de atingir seus objetivos e a "fratura" faz alusão à ruptura do processo revolucionário. Mas embora tenha sido sufocada, a Cabanagem permanece viva na memória do povo, por isso, o bloco continua subindo para o infinito, simbolizando que a essência, os ideais e a luta cabana continuam latentes na história do país.

Fonte: cabanagem1833-1836.com

Cabanagem

A Cabanagem, movimento que ocorreu na província do Grão-Pará, entre os anos de 1835 e 1840, pode ser vista como um prosseguimento da Guerra da Independência na região.

Desde a emancipação política, em 1822, a Província do Grão-Pará, vivia um clima agitado. Isolada do resto do país, era a parte mais ligada a Portugal.

Declarada a Independência, a Província só foi reconhecê-la em agosto de 1823. A adesão ao governo de D. Pedro I foi penosa e violentamente imposta.

Administrada por Juntas governativas que se apoiavam nas Cortes de Lisboa, os habitantes da Província já estavam acostumados a ver todos os cargos públicos e recursos econômicos nas mãos dos portugueses.

A Independência não provocara mudanças na estrutura econômica nem modificara as péssimas condições em que vivia a maior parte da população da região, formada por índios destribalizados, chamados de tapuios, índios aldeados, negros forros e escravos e mestiços. Dispersos pelo interior e nos arredores de Belém, viviam marginalizados em condições miseráveis, amontoados em cabanas à beira dos rios e igarapés e nas inúmeras ilhas do estuário do rio Amazonas. Essa população conhecida como "cabanos", era usada como mão-de-obra, em regime de semi-escravidão, pela economia da Província, baseada na exploração das "drogas do sertão"( cravo, pimenta, plantas medicinais, baunilha), na extração de madeiras, e na pesca.

Desde a Guerra da Independência, quando mercenários, comandados pelo Lord Almirante Grenfell, destituíram a Junta que governava a Província, o povo exigia a formação de um governo popular chefiado pelo cônego João Batista Gonçalves Campos. No entanto, Grenfell, que recebera ordens para entregar o Governo a homens da confiança do Imperador, desencadeou violenta repressão, fuzilando e prendendo muitas pessoas. O episódio ocorrido a bordo do brigue Palhaço, quando cerca de 300 prisioneiros foram sufocados com cal, não conseguiu implantar a normalidade. Ao contrário os ânimos ficaram ainda mais exaltados.

A própria Junta que assumiu o governo da Província, em agosto de 1823 confessava: "Sentimos não poder afirmar que a tranqüilidade está inteiramente restabelecida porque ainda temos a temer, principalmente a gente de cor, pois que muitos negros e mulatos foram vistos no saque de envolta com os soldados, e os infelizes que se mataram a bordo do navio, entre outras vozes sediciosas deram vivas ao Rei Congo, o que faz supor alguma combinação de soldados e negros".

A situação da Província do Grão-Pará era, portanto, favorável ao surgimento de movimentos que expressavam a luta de uma maioria de índios, mestiços e escravos, contra uma minoria branca formada, principalmente, por comerciantes portugueses. Essa minoria concentrava-se em Belém, cidade que na época abrigava cerca de 12 mil moradores dos quase 100 mil que habitaram o Grão-Pará. Entre 1822 e 1835 a Província passou por momentos de intranqüilidade. No interior e na capital ocorreu uma série de levantes populares, que contaram com a adesão dos soldados da tropa, descontentes com o baixo soldo, com o poder central e com as autoridades locais.

A REVOLTA DOS CABANOS

A abdicação de D. Pedro I teve reflexos violentos no Grão - Pará. Sob a liderança do cônego Batista Campos, os cabanos depuseram uma série de governantes nomeados pelo Rio de Janeiro para a Província. Além disso, exigiam melhores condições materiais e a expulsão dos portugueses, vistos como os responsáveis pela miséria em que viviam. Em dezembro de 1833, o Governo da Regência Trina Permanente conseguiu retomar o controle da situação, e Bernardo Lobo de Sousa assumiu o governo da Província.

Segundo o historiador Caio Prado Júnior, "é neste governo que propriamente se inicia a revolta dos cabanos." Logo após ser empossado, Lobo de Sousa iniciou uma violenta política repressiva. Perseguiu, efetuou prisões arbitrárias e deportações em massa. No entanto, foi o recrutamento para o Exército e a Armada imperiais, medida extremamente impopular, que precipitou uma rebelião generalizada. O recrutamento permitiu que fossem afastados os elementos considerados "incômodos" ao governo da Província. Para Domingos Antonio Raiol, contemporâneo dos acontecimentos, a política de Lobo de Sousa conseguiu eliminar aqueles que "eram conhecidos por suas doutrinas subversivas, que pregavam e inoculavam no seio da população e que ameaçavam a ordem pública pela influência perigosa que exerciam entre as massas."

As atitudes de Lobo de Sousa aumentaram a agitação e o descontentamento da população. A revolta se alastrou pelo interior da Província. Os cabanos receberam o apoio dos irmãos Antônio e Francisco Vinagre, lavradores do rio Itapicuru do seringueiro Eduardo Nogueira Angelim, e do jornalista do Maranhão Vicente Ferreira Lavor, que, através do periódico A Sentinela, propagava as idéias revolucionárias.

À medida que o movimento avançava, os revoltosos se dividiam: a ameaça de radicalização fez com que muitos se retirassem temendo a violência das massas populares, enquanto outros, como o cônego Batista Campos, esperavam obter as reformas que defendiam na recém-criada Assembléia Legislativa Provincial. A partir daí a elite que liderara a revolta recuou e os cabanos assumiram o controle.

Em janeiro de 1835, dominaram Belém, executando o governador Lobo de Sousa e outras autoridades. O primeiro governo cabano foi entregue ao fazendeiro Félix Antonio Malcher, que, com medo da violência das camadas mais pobres da população, entrou em choque com os outros líderes perseguindo os elementos mais radicais. Chegou a mandar prender e deportar Angelim e Francisco Vinagre. Além disso, manifestou a intenção de manter a Província ligada ao Império, ao jurar fidelidade ao Imperador, afirmando que só ficaria no poder até à maioridade.

Esse juramento ia de encontro ao único ponto que unia os revoltosos: a rejeição à política centralizadora do Rio de Janeiro, vista como preservadora dos privilégios dos portugueses. Malcher acabou sendo deposto e executado.

Francisco Vinagre foi escolhido para o segundo governo cabano. No entanto não foi capaz de resolver as divergências entre os revoltosos, e foi acusado de traição por ter feito um acordo com as tropas legalistas enviadas pelo Rio de Janeiro.

Vinagre ajudou as tropas e navios sob o comando do Almirante inglês Taylor, e prometeu entregar a presidência da Província a quem fosse indicado pelo Governo Regencial. As forças regenciais retomaram Belém.

Os cabanos, vencidos na capital, retiraram-se para o interior. Aos poucos foram tomando conta da Província. Profundos conhecedores da terra e dos rios, infiltraram-se nas vilas e povoados, conseguindo a adesão das camadas mais humildes da população. Liderados por Vinagre e Angelim, reforçaram suas tropas e retomaram Belém, após nove dias de lutas violentas. Com a morte de Antônio, Eduardo Angelim foi escolhido para o terceiro governo cabano que durou dez meses. Angelim era um cearense de apenas 21 anos que migrara para o Grão- Pará após uma grande seca ocorrida no Ceará, em 1827.

No entanto, os cabanos, durante todo o longo período de lutas, não souberam organizar-se com eficiência. Abalados por dissidências internas, pela indefinição de um programa de governo, sofreram ainda uma epidemia de varíola, que assolou por longo tempo a capital.

A REPRESSÃO DA REGÊNCIA

O regente Feijó decidiu restabelecer a ordem na Província. Em abril de 1836 mandou ao Grão-Pará uma poderosa esquadra comandada pelo brigadeiro Francisco José Soares de Andréia, que conseguiu retomar a capital. Havia na cidade quase unicamente mulheres. No dizer de Raiol, "a cidade despovoada apresentava por toda parte um aspecto sombrio e contristador".

Os cabanos abandonaram outra vez Belém e retiraram-se para o interior, onde resistiram por mais três anos. A situação da Província só foi controlada pelas tropas do Governo Central em 1840. A repressão foi violenta e brutal. Incapazes de oferecer resistência, os rebeldes foram esmagados. Ao findar o movimento, dos quase 100 mil habitantes do Grão-Pará, cerca de 30mil, 30% da população, haviam morrido em incidentes criminosos e promovidos por mercenários e pelas tropas governamentais.

Chegava ao fim a Cabanagem que, segundo o historiador Caio Prado Júnior, "foi o mais notável movimento popular do Brasil... o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. Apesar de sua desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza, fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva de poder."

Mas a Cabanagem não foi um fato isolado. Vários outros movimentos ocorreram durante o Período Regencial, levando Feijó a chamá-los de "o vulcão da anarquia".

Fonte: www.multirio.rj.gov.br

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