Em 25 de junho, o "emendão" foi aprovado pelo Congresso, estabelecendo as seguintes medidas: o colégio eleitoral seria constituído de todos os integrantes do Congresso, mais seis deputados de cada Assembléia Legislativa indicados pelo partido majoritário; a aprovação das emendas constitucionais passaria a depender do apoio de 2/3 da Câmara e 2/3 do Senado; o sistema distrital misto seria aplicado nas eleições de 1986 para a Câmara e assembléias legislativas; os prazos para desincompatibilização seriam reduzidos para quatro e seis meses; os prefeitos e vereadores eleitos em novembro de 1982 teriam mandato de seis anos; as câmaras dos municípios com mais de um milhão de habitantes passariam a ser compostas de 33 vereadores, em vez de 21; a eleição do próximo presidente da República seria em 15 de janeiro de 1985; os partidos não precisariam atingir nas eleições de 1982 o índice de 5% do eleitorado nacional e 3% em pelo menos nove estados. Além disso, algumas das prerrogativas do Legislativo foram restauradas. Por 2/3 dos votos dos senadores e deputados, o Congresso poderia assumir a iniciativa de autoconvocar-se; apenas os delitos contra a honra poderiam ameaçar a inviolabilidade do mandato parlamentar, aplicando-se a Lei de Segurança Nacional somente para os crimes cometidos fora da tribuna; o número de deputados federais aumentaria de 420 para 479, estabelecendo-se que nenhum estado poderia ter mais de 55 representantes e elevando-se as bancadas dos territórios de dois para quatro parlamentares. O decurso de prazo foi igualmente aliviado. O projeto de interesse do Executivo que não fosse apreciado em 45 dias ingressaria em pauta preferencial nas cinco sessões seguintes, ao fim das quais seria aprovado por decurso de prazo.
O "emendão" determinou ainda que o número de sessões da Câmara e do Senado não seria limitado, todo pedido de informação formulado por parlamentares seria imediatamente respondido pelo Executivo, as comissões parlamentares de inquérito poderiam estender suas investigações a todo o país e os parlamentares federais que viajassem para o exterior em missão diplomática ou cultural não dependeriam mais de autorização prévia do presidente da República.
Em agosto, ocorreram novas mudanças no governo. O general Danilo Venturini saiu da chefia do Gabinete Militar para assumir o Ministério Extraordinário para Assuntos Fundiários. Para seu lugar foi designado o general Rubem Ludwig, substituído na Educação e Cultura pela professora paulista Ester Figueiredo Ferraz, a primeira mulher no Brasil a ocupar o cargo de ministro.
Ainda em agosto, Figueiredo adicionou outras inovações ao processo eleitoral. Suprimiu da cédula de votação a legenda partidária e os nomes dos candidatos majoritários, suscitando novos protestos das lideranças oposicionistas. Outubro e novembro foram destinados pelo presidente da República a percorrer o país em propaganda eleitoral dos candidatos do PDS aos governos estaduais. Em fins de outubro, durante um comício em Volta Redonda (RJ), o chefe do governo, na presença do senador Amaral Peixoto e do candidato pedessista Moreira Franco, prestou homenagem pública a Alzira Vargas do Amaral Peixoto, simbolizando o desfecho de uma animosidade de 52 anos, uma vez que o pai do presidente fora adversário ferrenho de Getúlio Vargas, pai de Alzira, durante muitos anos. Com as eleições de 15 de novembro de 1982, o projeto de distensão deu um importante passo à frente. A oposição conquistou maioria na Câmara, mas o PDS manteve seu controle sobre o Senado, obteve 12 dos 22 governos estaduais e garantiu maioria governista no Colégio Eleitoral encarregado de escolher o sucessor de Figueiredo.
Após a vitória de Leonel Brizola para o governo do estado do Rio de Janeiro nesse pleito, o general Euclides Figueiredo, então comandante militar da Amazônia, assim reagiu ao resultado das urnas: "Brizola é um sapo que a gente engole, digere e expele na hora certa." O governador preferiu ignorar, diplomaticamente, a grosseria do irmão do presidente. Ao contrário do exilado da década de 1960, o Brizola pós-exílio revelava uma face conciliadora que chegou a surpreender e constranger seus companheiros de partido. Empossado, propôs a prorrogação por dois anos do mandato de Figueiredo. Segundo sua proposição, o sucessor seria eleito então pelo voto direto. A proposta foi criticada por outros líderes oposicionistas - se aprovada, beneficiaria Brizola e os demais governadores, cujos mandatos terminariam em 1987, no mesmo ano do fim da gestão alongada de Figueiredo.
Em 14 de julho de 1983 Figueiredo licenciou-se para se submeter a uma cirurgia para colocação de pontes de safena numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos, permanecendo 44 dias fora. Segundo a imprensa, Figueiredo teria ficado magoado com algumas atitudes do vice-presidente Aureliano Chaves - como, segundo ele, buscar vender uma falsa imagem de austeridade e contropô-la a hábitos dispendiosos do presidente licenciado - e sobretudo com os elogios dos ministros militares à eficiência e disposição para o trabalho de seu substituto.
A partir desse período se iniciariam os debates em torno da sucessão.
A política trabalhista e social
A política de distensão conduzida pelos governos Geisel e Figueiredo não modificou a estrutura sindical e a legislação trabalhista, que colocavam as entidades e os movimentos reivindicativos dos trabalhadores sob tutela e vigilância do governo. Mesmo assim, a abertura influenciou no sentido de uma retomada das atividades sindicais duramente reprimidas depois de 1964. Os sindicatos dos metalúrgicos do ABC - especialmente o de São Bernardo e Diadema - se destacaram no contexto nacional, organizando, a partir de 1978, sucessivas greves que paralisaram a indústria de ponta. Na época da posse, Figueiredo enfrentou uma greve de 160 mil metalúrgicos paulistas que resultou na intervenção do Ministério do Trabalho nos sindicatos envolvidos. Mesmo assim, trabalhadores, patrões e governo conseguiram chegar a um acordo que incluiu a volta das direções cassadas.
Em maio, Figueiredo atendeu uma antiga reivindicação dos inquilinos, sancionando a lei que terminou com a chamada "denúncia vazia", por meio da qual os proprietários de imóveis podiam despejar seus ocupantes sem alegar motivo relevante. Em outubro, pressionado pelo crescimento da taxa de inflação e dos movimentos trabalhistas, o governo promulgou uma nova lei salarial, introduzindo o reajuste semestral, maiores índices para os trabalhadores de menores rendimentos e a incorporação de uma taxa de incremento de produtividade no cálculo do salário. Considerada uma vitória do movimento sindical, essa lei vigoraria até janeiro de 1983, quando as vicissitudes da crise econômica e as exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI) levariam o governo a reformulá-la.
Em abril de 1980, nova greve paralisou as indústrias metalúrgicas do ABC durante mais de um mês, provocando uma escalada repressiva que levou à ocupação militar de São Bernardo, à interdição dos sindicatos e à prisão de Luís Inácio da Silva, o Lula, e mais 29 líderes sindicais, enquadrados posteriormente na Lei de Segurança Nacional. Libertados em 16 de maio, foram condenados em primeira instância a penas entre três e quatro anos de prisão, mas aguardaram em liberdade o recurso ao STM, que anulou a sentença anterior por considerar a Justiça Militar incompetente para julgar a greve.
Em 10 de dezembro de 1981, Figueiredo sancionou a lei que estendia o direito ao usucapião para quem ocupasse, com fins produtivos e por mais de cinco anos, glebas abandonadas. Cinco dias depois, três mil agricultores estabelecidos em Rondônia receberam do governo títulos de propriedade. Entretanto, o agravamento dos conflitos de terra nas regiões Norte e Nordeste levou o presidente a criar, em 18 de agosto de 1982, o Ministério Extraordinário para Assuntos Fundiários, que passou a ser conhecido como Ministério da Terra. O novo organismo passou a coordenar a ação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), do Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT) e do Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas (Gebam), no sentido de solucionar conflitos entre posseiros e supostos proprietários nas áreas de maior tensão social.
Com o agravamento da crise econômica a partir de 1983, o governo passou a sofrer pressão dos trabalhadores, que, por meio de greves, como a dos petroleiros das refinarias de Paulínia (SP) e Mataripe (BA) e dos 70 mil metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, protestavam contra a manipulação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), base dos reajustes salariais, e das seguidas mudanças da política salarial. Ao lado das reivindicações econômicas, apareceram as manifestações políticas, como a dos grevistas que pediam imediato rompimento com o FMI e a moratória internacional. As greves se alastraram pela Grande São Paulo e o governo interveio e afastou dirigentes. Na greve geral de julho de 1983, só na Grande São Paulo houve mais de 800 prisões e violência policial e o governo interveio em mais dois sindicatos, o dos bancários e o dos metroviários.
Em agosto, parte do movimento sindical se reuniu em São Bernardo do Campo, no I Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), decidindo pela criação e organização da Central Única dos Trabalhadores (CUT), oficialmente fundada nessa ocasião. A CUT reuniu, em sua fundação, cerca de quinhentas entidades sindicais, e experimentaria um considerável processo de expansão nos anos seguintes, tendo dirigido as principais campanhas instauradas pelo movimento sindical desde então.
Relações com a Igreja Católica
Os conflitos entre a Igreja Católica e o regime instituído pelo movimento de março de 1964 agravaram-se no governo Figueiredo a partir de agosto de 1980, quando se deu a aprovação do Estatuto dos Estrangeiros, que definia medidas rígidas de repressão às atividades políticas dos estrangeiros e atingia, particularmente, o chamado clero progressista, pois 5.044 dos 12.664 padres em atividade no Brasil eram originários de outros países, especialmente da Itália.
O primeiro conflito entre o governo Figueiredo e a Igreja ocorreu em Ribeirão (PE). O padre Vito Miracapillo recusou-se a celebrar missa comemorativa da data de 7 de setembro e foi expulso do país por decreto presidencial em outubro de 1980. A medida foi temporariamente sustada por uma liminar concedida pelo ministro Djaci Falcão, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas em 30 de novembro o próprio STF, por 11 votos a zero, assegurou a validade legal do processo de expulsão, de modo que o padre Vito não teve outra opção senão deixar o país.
Em julho de 1981 o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, manteve entendimentos com o presidente e o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ivo Lorscheiter e dom Luciano Mendes de Almeida, ficando decidido que os padres e ministros leigos estrangeiros teriam registro provisório, renovável, com direito a permanência. Todavia, em fins de agosto, novo choque se verificou com a prisão dos padres franceses Aristides Camio e François Gouriou pela Polícia Federal em São Geraldo do Araguaia (PA). Ambos trabalhavam na Comissão Pastoral da Terra, com 13 posseiros que, em defesa das propriedades de que desfrutavam, haviam se envolvido em conflito armado. Foram todos enquadrados na Lei de Segurança Nacional e, em 22 de junho de 1982, o Conselho Permanente de Justiça da 8ª Circunscrição Judiciária Militar, sediada em Belém, condenou Camio a 15 anos de prisão e Gouriou a dez anos. O advogado Heleno Fragoso recorreu da sentença e, em 3 de dezembro, o Superior Tribunal Militar reduziu as penas de Camio e Gouriou para dez e oito anos.
Política econômica
O montante da dívida externa, o déficit do balanço de pagamentos, a tendência à queda na taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o retorno da inflação a níveis inéditos desde 1964 foram os principais problemas enfrentados pelo novo governo, forçado a atuar em meio a uma grave crise internacional. Em julho de 1979, Figueiredo advertiu a nação sobre a necessidade de adotar "uma nova economia de guerra" e anunciou o congelamento das importações de petróleo e a criação do Conselho Nacional de Energia, presidido por Aureliano Chaves e composto por oito ministros, os presidentes do Conselho Nacional de Petróleo, da Petrobras e da Eletrobrás e "três cidadãos de reputação ilibada e notório saber no campo da energia". A partir daí, o governo intensificou os programas de pesquisa e investimento em fontes energéticas alternativas - especialmente o Proálcool - e adotou uma agressiva política de prospecção de petróleo na plataforma submarina, conseguindo dobrar a produção de óleo cru de 160 mil para 320 mil barris diários entre 1979 e 1982.
Ainda em julho de 1979, foi anunciado um plano de privatização de empresas do governo não ligadas a áreas de interesse para a segurança nacional e capazes de passar à administração do empresariado brasileiro, procurando assim combater o gigantismo estatal freqüentemente denunciado pela imprensa.
O governo conseguiu obter altas taxas de crescimento do PIB em 1979 e 1980 (6,4% e 7,9%), mas perdeu o controle sobre a inflação, que saltou de 77% para o elevado índice de 110% nesse período, e assistiu a uma grave deterioração na relação entre o valor das exportações e o montante da dívida externa, de 54 bilhões de dólares. O quadro se agravou durante o ano de 1981, quando a alta taxa de inflação (95%) e o aumento da dívida para 61 bilhões de dólares se combinaram com um crescimento negativo do PIB (-1,9%), que inaugurava no Brasil a "estagflação", tão temida pelos economistas de todas as partes do mundo. No segundo semestre desse ano, a opinião pública, já assustada com a recessão, tomou conhecimento de um enorme déficit no sistema de previdência, que resultou, em dezembro, no aumento das contribuições compulsórias de empregadores e empregados através do chamado "pacote da Previdência", duramente criticado pela oposição e o movimento sindical.
A necessidade de captar recursos para o desenvolvimento de programas governamentais nas áreas de produção agrícola, educação, saúde e habitação levou à criação, em 25 de maio de 1982, do Finsocial, constituído a partir de 0,5% da renda bruta das empresas públicas e privadas, incluindo instituições financeiras e seguradoras. O BNDE foi encarregado de gerir a aplicação desse fundo, passando a denominar-se Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Para enfrentar o crescente endividamento externo, o governo acelerou nesse período projetos de exportação de matérias-primas e produtos primários, investindo maciçamente, com apoio de empresas multinacionais, na exploração das enormes reservas de ferro, manganês e bauxita na serra de Carajás, no sul do Pará. O projeto previa ainda o aproveitamento dos recursos florestais e hidrelétricos da região e a expansão da produção agrícola local, mas a forma e a intensidade da participação de capitais estrangeiros foram motivo de intensas críticas no Congresso, na imprensa e em outras áreas da sociedade. Em agosto de 1982, o governo interveio para salvar um outro empreendimento de exploração e exportação dos recursos naturais da Amazônia, patrocinando a compra, por 23 empresas brasileiras, do Projeto Jari, que há vários anos estava sendo implantado em extensa área entre o Pará e o Amapá pelo empresário americano Daniel Ludwig. Pouco depois, em 1º de setembro, os contratos de risco com empresas estrangeiras para a prospecção de petróleo foram estendidos a todo o território nacional, inclusive a plataforma submarina, exceto onde a Petrobras já desenvolvia suas atividades. Ainda no terreno energético, foi completado em novembro de 1982 o enchimento do reservatório de Itaipu, maior hidrelétrica do mundo, na fronteira entre Brasil e Paraguai, e orçada em 13 bilhões de dólares, parcialmente financiados com recursos externos. A usina entraria em operação em 1983, apesar da queda da demanda de energia elétrica nos dois anos anteriores, devido à recessão econômica.
Em fins de novembro, o ministro da Fazenda, Ernâni Galveias, confirmou que o governo estava negociando sigilosamente com o FMI desde setembro um empréstimo de 4,8 bilhões de dólares para pagar os juros da dívida externa, avaliada em 88 bilhões de dólares. Em 20 de dezembro, Galveias, Delfim Neto e Carlos Geraldo Langoni (presidente do Banco Central) se reuniram em Nova Iorque com representantes de 132 bancos estrangeiros credores para comunicar oficialmente a impossibilidade de pagar a amortização da dívida em 1983.
Essa situação levou a uma série de modificações na política econômica e à assinatura de uma carta de intenções com o FMI, prevendo uma drástica redução dos investimentos públicos, maiores facilidades para a remessa de lucros para o exterior, corte de subsídios a mercadorias e serviços essenciais e diminuição nos índices de reajustes salariais dos trabalhadores. O Conselho Monetário Nacional elaborou em seguida a "Programação do setor externo para 1983", subordinando explicitamente os rumos da política econômica ao gerenciamento da dívida externa. Pretendendo reduzir as importações de 20 bilhões de dólares para 17 bilhões de dólares, o governo determinou cortes de 29% nas compras externas do setor público e de 22% do setor privado, mesmo à custa de afetar ainda mais a produção. Em seguida, afirmando necessitar conter o desemprego, modificou a forma de cálculo dos reajustes salariais, punindo a classe média e os assalariados de rendas mais baixas. Também o programa nuclear foi afetado pelas medidas de contenção econômica. O orçamento da Nuclebrás foi reduzido em valores reais, a construção das usinas de Angra-II e Angra-III, retardada, e o projeto das demais centrais nucleares, adiado. O ano de 1982 fechou com uma inflação de 100%, um crescimento do PIB de -1% e reclamações generalizadas contra as taxas de juros - as mais altas do mundo - que continuavam sendo cobradas pelos bancos.
Em 1983 a situação econômica deteriorou-se bastante. O ministro do Planejamento, Delfim Neto, passou a personalizar a crise econômica. Sua passagem por essa pasta foi marcada por um descontentamento generalizado de diferentes segmentos da sociedade, que buscavam o seu afastamento. "Estamos a fim da cabeça do Delfim" foi um dos versos mais proclamados em todas as manifestações políticas nesse período. A política econômica do governo Figueiredo teve como resultados mais visíveis os quatro anos consecutivos de uma inflação de aproximadamente 100%, a grande recessão e o agravamento do quadro de miséria, além da maior visibilidade assumida pelo peso da dívida externa. Política econômica sem credibilidade, governo sem credibilidade. Ainda assim, Delfim manteve-se no cargo até o fim do mandato presidencial, recebendo total apoio de Figueiredo e de outros setores militares, como o grupo ligado ao ex-presidente Médici. As críticas à sua atuação partiam de adversários históricos, como os sindicatos e partidos de oposição, mas também surgiam de aliados tradicionais, como os empresários e os parlamentares governistas. Em maio de 1983, Delfim foi convocado pelo próprio PDS para esclarecer ao Congresso por que o Brasil acumulara uma dívida de 88 bilhões de dólares nos anos anteriores.
Além das críticas à condução da política econômica, Delfim também foi envolvido em denúncias, tais como a da desastrosa administração da dívida polonesa com o Brasil, conhecida como o Caso Polonetas, acompanhada pela quebra do Montepio Capemi e do conglomerado financeiro Coroa-Brastel. Em setembro de 1983, Delfim também foi acusado de ter recebido comissões para facilitar negócios de empresas francesas (10% nas negociações feitas na França) quando era embaixador do Brasil em Paris.
Naquele momento, duas grandes questões agitavam os debates em torno da política econômica: as dívidas externa (90 bilhões de dólares) e interna (21 trilhões de cruzeiros) e a política salarial. Os dois pontos eram evocados das mais distintas formas quando o assunto era o principal problema econômico da época, a inflação. Com o objetivo de pôr em ordem o balanço, o governo conseguiu negociar novo empréstimo do FMI, ainda em 1983, num financiamento conhecido como "empréstimo Jumbo". Na tentativa de conter o estouro do défict público, a metade dos 6,5 bilhões de dólares prometidos pelo FMI foi diretamente comprometida com dívidas bancárias e comerciais no exterior.
O empréstimo só foi negociado porque o Congresso, ao aprovar o Decreto nº 2.065, desenhou uma nova política salarial, precisamente um dos itens impostos pelo FMI para o programa de reajuste. Tratava-se da quarta tentativa do governo de aprovar uma nova política salarial, limitando os reajustes de salários a 80% do INPC, conforme haviam recomendado os técnicos do FMI. A tramitação da proposta de política salarial do governo, durante o segundo semestre de 1983, foi o principal cavalo de batalha da oposição naquela conjuntura. Na discussão da nova política salarial,- em setembro de 1983, pela primeira vez em 18 anos o Congresso derrubou o Decreto-Lei nº 2.024 - baixado pelo Executivo em maio de 1983, em substituição ao Decreto nº 2.012, de janeiro -, obrigando o presidente a repensar toda a estratégia de sustentação política de seu plano econômico. Nos dois casos, a idéia era reverter a política salarial em vigor desde 1979, que estabelecia reajustes salariais semestrais de 10% acima do INPC para os que ganhavam entre um e três salários mínimos e de 100% do INPC para os que recebessem entre três e dez salários mínimos. Os decretos de 1983 limitavam os reajustes ao INPC e apenas as faixas salariais mais baixas recebiam reajustes equivalentes ao aumento dos preços. Porém, quando o Congresso rejeitou o Decreto nº 2.024, esse já não mais vigorava, já que fora substituído por regra ainda mais austera, prevista no Decreto-Lei nº 2.045, baixado em junho, que limitava o reajuste de todas as faixas salariais a 80% do INPC. Segundo a imprensa, a oposição matou o 2.024 não pelo que ele estabelecia, e sim pelo que ele era: um decreto.
Após a derrota na votação do decreto anterior, o governo procurou cercar-se de garantias extraordinárias para aprovar o Decreto nº 2.045. No Congresso, à base do entendimento, procurou negociar alterações na política salarial para as faixas de remuneração mais baixas, mas o acordo construído pelas lideranças governistas foi sepultado por Delfim. Diante da pressão popular em Brasília contra o decreto, Figueiredo recorreu, pela primeira vez após a suspensão do AI-5, em 1979, à suspensão parcial das liberdades públicas, colocando Brasília em estado de emergência e encarregando o comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, de aplicar as medidas coercitivas. O acordo no Congresso não foi vitorioso e o Decreto nº 2.045 não foi aprovado.
Derrubado o Decreto nº 2.045, o governo baixou nova regra (Decreto-Lei nº 2.064) condenada a ter vida curta, pois preservava reajustes integrais para a faixa de até três mínimos, mas instituía reajustes progressivamente menores para os salários mais altos, o que foi recebido como uma punição mais violenta da classe média. Após uma semana de atritos entre Delfim e os líderes governistas no Congresso, adotou-se uma fórmula média, de aumento de 87% do INPC para toda a massa salarial, que gerou a edição do Decreto-Lei nº 2.065.
Por trás das medidas autoritárias e dos atritos entre governo e oposição e entre aliados do próprio governo na discussão da política salarial estava o crescimento da pressão popular, em especial por intermédio das demonstrações de força do movimento sindical, como a greve geral em julho daquele ano, contra a política salarial, e a criação da CUT no mês seguinte.
Em 1984 a economia se recuperou um pouco e o PIB cresceu 5,4% reais.
A política externa
A partir do governo Garrastazu Médici (1969-1974), com a investidura do ministro Mário Gibson Barbosa no Itamarati, o Brasil começou a desvincular-se de seu tradicional alinhamento automático com os Estados Unidos para assumir uma posição que passou a ser conhecida como "pragmática", defensora de uma aproximação com os países que oferecessem vantagens que pudessem interessar às aspirações nacionais de desenvolvimento econômico.
Em seu discurso de posse, Figueiredo deixou claro que se fixaria nessa orientação, buscando intercâmbio, inclusive, com nações que haviam adotado "sistemas diferentes do nosso". As inúmeras viagens que realizou ao exterior, acrescidas de outras tantas visitas de chefes de Estado que o Brasil recebeu - da Europa ocidental, das Américas, do Pacífico e da África -, tinham como fundamento, assinalados em notas conjuntas, o fortalecimento do diálogo Norte-Sul, o revigoramento do princípio de não-intervenção, a proscrição do colonialismo, a condenação à discriminação racial e o combate ao protecionismo, entendido como forma de asfixiar as economias dos países emergentes.
Sete dias depois de empossado, Figueiredo recebeu a visita do vice-presidente Walter Mondale, dos Estados Unidos, na qualidade de enviado especial do presidente Jimmy Carter, propondo a intensificação de relações bilaterais. Em agosto, hospedou o primeiro-ministro espanhol, Adolfo Suárez, com quem debateu o crescimento do intercâmbio comercial e as afinidades no processo de redemocratização em curso nos dois países. Em outubro, recebeu a visita do presidente do Peru, general Francisco Morales Bermúdez. A declaração conjunta firmada pelos dois chefes de Estado ressaltava que o Peru venderia mais petróleo ao Brasil, a Petrobras passaria a fazer prospecções em território peruano e o Banco do Brasil abriria uma linha de crédito para a construção de uma hidrelétrica no Peru, a cargo de consórcios brasileiros. No mês seguinte, Figueiredo visitou o presidente Luis Herrera Campins, da Venezuela. Na agenda, foram tratados assuntos referentes à eliminação de todas as formas de colonialismo e racismo na América, à consolidação do regime representativo, ao reinício do diálogo Norte-Sul, ao revigoramento da Organização dos Estados Americanos (OEA), ao fortalecimento dos pactos Andino e Amazônico e à maior participação do Brasil na compra de petróleo venezuelano.
Em janeiro de 1980, Carter enviou o general Andrew Jackson Goodpaster para obter a solidariedade do governo às represálias econômicas que os Estados Unidos vinham aplicando contra a União Soviética em virtude da invasão do Afeganistão. Carter queria a garantia de que o Brasil não venderia aos soviéticos as mercadorias embargadas pelos americanos. Figueiredo afirmou que não endossava a decisão americana, mas que não tomaria iniciativa para substituir com produtos brasileiros aqueles que os Estados Unidos haviam bloqueado.
No mês seguinte, saudando em Brasília Sekou Touré, presidente da Guiné-Conacri, Figueiredo centralizou seu discurso em torno das reivindicações autonomistas da Namíbia e do Zimbábue. Em abril, visitou o Paraguai e abriu uma linha de crédito de 11,5 milhões de dólares para construção de uma siderúrgica no país, a ser efetuada por firmas brasileiras.
As relações com a Argentina continuavam desestabilizadas desde o governo Médici, quando se iniciou a construção da usina hidrelétrica binacional de Itaipu, mas ambos os governos tinham interesse em que elas fossem reabilitadas. Em maio de 1980, Figueiredo seguiu para Buenos Aires, onde manteve longas conversações com o presidente argentino, general Jorge Rafael Videla. Foi criada uma comissão bilateral destinada a examinar os problemas ligados à integração econômica dos dois países. Na declaração conjunta, o governo brasileiro renovou sua solidariedade à Argentina em torno da disputa das ilhas Malvinas com a Inglaterra, ficando ainda acertado que os dois países dariam maior utilização às fontes hídricas do rio Uruguai, com a construção de quatro unidades geradoras de energia.
A condenação do racismo na África do Sul e a defesa da autodeterminação da Namíbia constituíram a ênfase do pronunciamento de Figueiredo em 16 de junho de 1980, quando saudou em Brasília o presidente Luís Cabral, da Guiné-Bissau. No dia 30, o papa João Paulo II chegou ao Brasil, sendo saudado por Figueiredo, que afirmou: "Acompanhamos e estimulamos os esforços da Santa Sé em prol do desarmamento e em favor da redução das distâncias que perigosamente separam os países pobres dos ricos." A passagem do papa pelas grandes cidades provocou grandes concentrações populares, reunindo centenas de milhares de pessoas.
Com o presidente José Lopez Portillo, do México, que chegou ao Brasil em 30 de julho, o chefe do governo brasileiro abordou longamente a crise energética mundial e revelou o desejo de aumentar as compras de petróleo naquele país. Em agosto, Jorge Videla, da Argentina, retribuiu a visita de Figueiredo. Na ocasião foi firmado um acordo prevendo a compra pelo Brasil de 240 toneladas de concentrado de urânio e de três bilhões de metros cúbicos de gás por ano. Em troca, a Argentina receberia o vaso do reator da usina nuclear de Atucha II, fabricado pela Nuclebrás.
Em outubro, Figueiredo foi ao Chile, sendo bastante aplaudido pelo povo nas ruas de Santiago. Em seu discurso, deu ênfase à não-intervenção de um país em negócios internos do outro, manifestando-se compreensivelmente prudente em suas declarações à imprensa sobre a abertura política desencadeada no Brasil. De volta ao país, discursou em Belém na cerimônia de encerramento da I Reunião dos Ministros das Relações Exteriores dos Países Signatários do Tratado de Cooperação da Amazônia. Na ocasião, esses países - Brasil, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia, Guiana e Suriname - assinaram a Declaração de Belém, afirmando que "o uso e aproveitamento dos recursos naturais em cada um dos territórios amazônicos nacionais constituem um direito soberano e exclusivo de cada Estado signatário do Tratado de Cooperação da Amazônia".
O primeiro estadista estrangeiro a visitar o Brasil em 1981 foi o primeiro-ministro do Canadá, Pierre Trudeau, que chegou em 14 de janeiro, tratando com Figueiredo da intensificação do diálogo Norte-Sul. Em fins de janeiro, o presidente brasileiro chegou a Paris, onde inicialmente assinou acordo de 310 milhões de dólares para montagem, no Brasil, de uma usina termoelétrica acionada a carvão. O presidente francês, Valéry Giscard d'Estaing, interessou-se pelo projeto do Proálcool. No fim da visita de Figueiredo, os financiamentos acertados com os franceses já haviam alcançado 1,5 bilhão de dólares, incluindo transportes ferroviários e urbanos, transportes marítimos, Projeto Carajás, complexo industrial e portuário de Suape (PE) e desenvolvimento econômico de várzeas irrigáveis e cerrados. De Paris, Figueiredo foi a Lisboa, onde chegou a 1º de fevereiro. Na nota conjunta que assinou com o presidente Ramalho Eanes, o racismo foi mais uma vez condenado e a libertação da Namíbia, posta em destaque. Os dois presidentes solidarizaram-se com a independência de Timor Leste, criticaram a invasão soviética do Afeganistão e exaltaram a autonomia do Zimbábue.
Em março, Figueiredo embarcou para Bogotá. Dos entendimentos com o presidente Julio Cesar Turbay Ayala ficou decidido o aumento da compra de carvão mineral pelo Brasil a empresas privadas colombianas.
A viagem do chefe de Estado brasileiro à República Federal da Alemanha ocorreu em maio. Em Bonn, foram assinados protocolos de intenção prevendo investimentos no Brasil de 970 milhões de dólares nos setores de alumínio, indústrias químicas e transportes urbanos. Num dos encontros com o primeiro-ministro Helmut Schmidt, ficou assegurada a continuidade do acordo nuclear firmado no governo Geisel. Foi assinado um contrato de empréstimo de 62,2 milhões de dólares, repassados pelo Banco Alemão de Reconstrução em favor da Nuclebrás.