João Belchior Marques Goulart nasceu em São Borja (RS), no dia 1º. de março de 1919, filho de Vicente Rodrigues Goulart e de Vicentina Marques Goulart. Desde criança recebeu o apelido de Jango, comum no sul do país.
Seu pai, estancieiro em São Borja, criava gado bovino e ovino em duas grandes propriedades, a fazenda do Meio e a fazenda Nossa Senhora, além de exercer atividades comerciais e industriais. Era um dos proprietários da firma Vargas, Goulart, Gomes e Cia Ltda, em sociedade com Protásio Dornelles Vargas, irmão de Getúlio Vargas, e do Saladeiro Itaqui, ambos especializadas em charque. Embora nunca tivesse ocupado cargos políticos, Vicente Goulart era partidário de Antônio Augusto Borges de Medeiros e várias vezes pegou em armas por questões políticas. Por ocasião da Revolução Gaúcha de 1923, que opôs os republicanos liderados por Borges aos federalistas encabeçados por Joaquim Francisco de Assis Brasil, teve suas fazendas invadidas e saqueadas. Participou também da Revolução de 1930, comandando tropas no Rio Grande do Sul em favor de seu vizinho e amigo Getúlio Vargas, que passou a chefiar o Governo Provisório depois da vitória do movimento.
Uma irmã de João Goulart, Neusa, casou-se com Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul de 1959 a 1963, deputado federal pelo estado da Guanabara de 1963 a 1964 na legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e governador do Rio de Janeiro a partir de 1983, eleito pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).
Terceiro filho de uma família de oito irmãos, Jango passou sua infância na fazenda, onde realizou seus estudos primários e desenvolveu o gosto pela vida do campo, especialmente as atividades pecuárias. Em 1928, foi interno no Ginásio Santana, dos irmãos maristas,. localizado em Uruguaiana (RS). Reprovado na quarta série, foi castigado por seu pai com a transferência para o Colégio Anchieta, em Porto Alegre, onde tornou-se zagueiro da equipe juvenil de futebol do Internacional, campeã gaúcha em 1932. No ano seguinte pediu a seu pai para regressar ao Ginásio Santana a fim de cursar o último ano.
Concluído o ginásio, Jango seguiu mais uma vez a orientação do pai, regressando a Porto Alegre no início de 1934 para realizar um curso preparatório que permitisse seu ingresso na faculdade. Terminou este curso com 16 anos, idade insuficiente para ser aceito no nível superior, mas teve seu registro de nascimento alterado por seu pai, que antecipou de um ano a data real, permitindo sua matrícula, em 1935, na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Porto Alegre. A partir daí, 1918 passou a ser o ano oficial do nascimento de Jango.
Como acadêmico, não se dedicou a atividades políticas, mantendo-se alheio ao processo de radicalização que nessa época colocava em antagonismo aberto as forças de direita e de esquerda através do confronto entre a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Também não demonstrou grande interesse pelo curso de direito, preferindo auxiliar o pai na administração dos negócios familiares, especialmente as fazendas. Em suas freqüentes viagens ao interior, participava da vida local, estreitando suas relações com diversos segmentos da sociedade de São Borja. Data dessa época sua estreita amizade com Manuel Antônio (Maneco) Vargas, filho de Getúlio, presidente da República.
Formado em direito em 1939, Jango não quis exercer a advocacia, regressando logo a São Borja para se dedicar efetivamente às atividades agropecuárias. Vicente Goulart, acometido de câncer, foi obrigado a se afastar paulatinamente da direção dos negócios e Jango, filho homem mais velho, passou a assumir a administração das fazendas.
Em 1943, com a morte do pai, Jango herdou 14 mil hectares de terras e 30 mil cabeças de gado, e assumiu definitivamente a responsabilidade de gerir os negócios da família, promovendo uma recuperação da fortuna dos Goulart que, no momento, enfrentavam algumas dificuldades financeiras.
Com o fim do Estado Novo em outubro de 1945, Getúlio Vargas, chefe do governo deposto, retornou a São Borja, sua cidade natal, e passou a viver em sua estância de Itu, onde fortaleceu os laços de amizade com Jango, seu assíduo visitante. Esse contato freqüente marcou, por outro lado, o início do aprendizado político de Goulart, que se engajou na campanha eleitoral em curso para o pleito de 2 de dezembro e acompanhou de perto as gestões realizadas por diversos líderes para obter o apoio de Vargas à candidatura presidencial do general Eurico Dutra, lançada pelo Partido Social Democrático (PSD). Animado com as perspectivas de expansão do PTB no Rio Grande do Sul, Jango manifestou-se contra essa possibilidade, defendendo, sem êxito, o lançamento de um candidato trabalhista. Vargas optou pela aliança com o PSD e, apesar da divergência, transformou Jango em portador de sua mensagem de apoio a Dutra, divulgada em 25 de novembro e considerada um importante reforço para a vitória pessedista no início do mês seguinte.
Passadas as eleições, Getúlio começou a introduzir Jango nos negócios da política, percebendo claramente seu potencial de liderança, expresso pela grande popularidade de que desfrutava no município e por sua facilidade de relacionamento com as pessoas humildes. Além disso, possuía idéias avançadas para a época, como a distribuição de terras e a diminuição das desigualdades sociais. Assim, quando Protásio Vargas convidou Jango para ingressar no PSD, Vargas interveio e pediu sua ajuda para a consolidação do PTB. Admirador do ex-presidente e simpatizante das teses trabalhistas, Jango aceitou o convite, tornando-se membro do diretório municipal de Porto Alegre. Em seguida, associou-se a Manuel Vargas na compra do jornal Uruguai, editado em São Borja e logo colocado a serviço da organização do PTB.
Jango intensificou sua militância política em 1946, ao ser lançado por Getúlio candidato a deputado estadual para as eleições de janeiro do ano seguinte. Durante a campanha, criou novos diretórios do PTB no interior, inclusive o de São Borja, cuja presidência passou a exercer. Eleito por essa cidade, não desempenhou papel de destaque na assembléia estadual, discursando, segundo Antônio Pinheiro Machado Neto, apenas uma vez no plenário, em defesa dos interesses dos pequenos criadores de São Borja. Sua justificativa para esse fato baseava-se na dificuldade que encontrava para fazer contatos políticos devido à intensa campanha movida na época contra Vargas e seus colaboradores mais íntimos. Essa situação levou Jango a continuar se dedicando à campanha em favor da criação de novos diretórios petebistas no interior, além do aprofundamento de suas relações com Vargas.
Em 1947, depois de freqüentar sem assiduidade a Assembléia Nacional Constituinte para a qual tinha sido eleito senador, Vargas regressou a São Borja, iniciando um longo retiro, do qual só sairia para candidatar-se a presidente em 1950. Naquele final de 1947 e nos dois anos seguintes, Getúlio transformou a estância São Vicente, de propriedade de João Goulart, em centro político. Era lá que recebia todos que o procuravam, informando-se dos acontecimentos, recomendando e aconselhando. Em todas essas ocasiões Jango estava sempre por perto, solícito, diligente e amigo, funcionando não apenas como anfitrião, mas como confidente e interlocutor atento. Assim, acompanhou de perto todos os lances das discussões relativas ao problema sucessório que se apresentava com a proximidade das eleições presidenciais de outubro de 1950. No início deste ano, começaram a se definir de forma mais nítida as negociações em torno das candidaturas à presidência, sendo concretizado em março o acordo secreto que garantiu o apoio de Ademar de Barros, governador de São Paulo, a Getúlio Vargas. Durante este complicado processo de negociações, Jango deu grandes passos em sua carreira política, adquirindo experiência e contatos com destacadas lideranças do país. Sua atuação dentro do PTB também se ampliou neste período, sendo eleito em março, por ocasião da convenção regional do PTB gaúcho, presidente do diretório e da comissão executiva estaduais para o biênio 1950-1952.
No início de abril de 1950, durante um comício no Rio Grande do Sul, Goulart lançou o nome de Vargas como candidato petebista e, no dia 19 desse mesmo mês, durante as comemorações do aniversário do ex-presidente, realizadas por Goulart em sua estância, Getúlio comunicou oficialmente haver aceito sua indicação para as eleições de 3 de outubro seguinte.
A partir daí, Jango se comprometeu a acompanhar Vargas em seus deslocamentos pelo país, passando a desempenhar, junto com Joaquim Pedro Salgado Filho, o papel de coordenador da campanha, iniciada em agosto. Tornou-se, por isto, alvo de constantes ataques por parte da imprensa antigetulista, que o acusava de manter ligações com o presidente argentino Juan Domingo Perón e induzir aquele país a intervir na política brasileira a favor de Vargas, através das críticas da imprensa argentina à política pró-Estados Unidos, desenvolvida pelo presidente Dutra. Paralelamente à sua atuação como um dos articuladores da candidatura Vargas, Goulart candidatou-se a deputado federal pelo Rio Grande do Sul na legenda do PTB.
Vargas derrotou em outubro seu principal opositor, o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional (UDN), ao mesmo tempo que Goulart conquistava uma cadeira na Câmara Federal, com 39.832 votos. Empossado em fevereiro de 1951, Jango licenciou-se logo da Câmara para assumir a Secretaria do Interior e Justiça do novo governo gaúcho, chefiado por Ernesto Dornelles, primo do presidente. Dedicou-se então, especialmente, à reestruturação do sistema penitenciário estadual, pretendendo melhorar as condições de vida dos presidiários, e, no terreno partidário, continuou seu trabalho de fortalecimento do PTB, estabelecendo contatos sistemáticos nos meios sindicais. Ampliou assim seu prestígio dentro do partido, tornando-se conhecido, inclusive em outros estados, como hábil conciliador e recrutador de quadros.
Jango teve destacada atuação na campanha para as eleições municipais gaúchas de novembro de 1951, quando o PTB conquistou a maioria das prefeituras e, segundo seu próprio relato enviado por escrito a Vargas, adquiriu uma consistência partidária que o transformou na maior força política do Rio Grande do Sul. Em março de 1952, foi reeleito presidente da comissão executiva estadual do PTB para o biênio 1952-1954 e, dois meses depois, assumiu a presidência do diretório nacional do partido. Recebeu então um chamado de Vargas para viajar ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal, a fim de solucionar uma crise que se desenvolvia há meses dentro da comissão executiva nacional em virtude das divergências entre Danton Coelho e Dinarte Dornelles. Coelho chegara a se afastar do cargo de ministro do Trabalho e fora substituído, em maio de 1951, por José de Segadas Viana, mas a alteração não solucionara a crise.
Atendendo ao chamado, Goulart deixou seu cargo no governo gaúcho e transferiu-se para o Rio em maio de 1952 com a missão de restabelecer a unidade na cúpula petebista e, utilizando sua experiência no Rio Grande do Sul, abrir novos contatos nos meios sindicais cariocas e fortalecer as bases locais do PTB. No Rio, reassumiu sua cadeira na Câmara dos Deputados. Assim, tornou-se figura de destaque e árbitro de conflitos entre os trabalhistas, ao mesmo tempo que, em estreita ligação com Vargas, passava a controlar os principais cargos de chefia dos institutos de previdência social, responsáveis pela distribuição de empregos entre as bases. No exercício destas funções, preparou um novo esquema político que concedia aos sindicatos maior importância na vida nacional, de forma a constituir uma força que pudesse dar respaldo ao presidente, atingido, no segundo ano do seu governo, pelos efeitos da crise política latente desde o período eleitoral.
A UDN não só se recusava a qualquer aliança com o governo, como endurecia sua oposição, chegando alguns setores do partido a se encaminhar para a preparação de um golpe de Estado, sob o argumento de que Vargas estimulava a luta de classes e preparava a implantação de uma ditadura. Por outro lado, nas forças armadas, se aprofundava a crise em torno das questões do petróleo e da participação brasileira na Guerra da Coréia. Nesse quadro, a política de conciliação com a qual Vargas iniciara seu governo já apresentava fortes sintomas de fracasso.
Tendo desempenhado a contento as tarefas a ele atribuídas nesse primeiro estágio político, Jango cresceu em prestígio, ampliando cada vez mais suas bases sindicais. Porém, a auréola de grande líder de massas só o envolveria a partir de junho de 1953, com sua nomeação para o Ministério do Trabalho.
Apesar de obter algum êxito em sua atuação pelo PTB junto aos principais sindicatos, Goulart não foi capaz de impedir que o agravamento da situação econômica nacional se traduzisse num aumento da pressão dos trabalhadores sobre o governo. No início de 1953, a inflação e o desequilíbrio do balanço de pagamentos cresciam, ao mesmo tempo que apareciam os primeiros sinais do declínio da produção industrial e ampliavam-se os protestos do setor agroexportador, atingido pela política de confisco cambial dotada pelo governo.
A despeito dos apelos de Vargas no sentido de obter a cooperação dos trabalhadores para um projeto de reconstrução econômica que beneficiasse todas as classes, o movimento sindical começou a recuperar agressividade. Com o objetivo de atenuar os efeitos da crise, a classe operária começou a lutar pela obtenção de vantagens econômicas já que o aumento salarial concedido pelo governo em dezembro de 1951 e estimado em 14% sobre o salário mínimo estabelecido em 1943 foi considerado irrisório pelos trabalhadores, uma vez que o custo de vida entre 1943 e 1951 tinha subido 100%, segundo Timothy Harding.
Nesse quadro, eclodiu em São Paulo em março de 1953 a chamada Greve dos 300 mil, que reuniu diversas categorias de trabalhadores, visando a obtenção de melhorias salariais e culminou com a criação de um órgão de comando intersindical que originaria mais tarde o Pacto de Unidade Intersindical (PUI). Com a deflagração desse movimento, ficou evidenciado o descontentamento da classe trabalhadora com a política salarial de Vargas e sua possibilidade de escapar ao controle da estrutura sindical oficial.
Pressionado por todos os lados, Vargas procurava transformar as relações difusas que mantinha com a massa operária em relações mais organizadas e estáveis, tarefa para a qual se achava despreparado, já que mantinha sobre o assunto sérias divergências com seu ministro do Trabalho, José Segadas Viana. Com isso, o prestígio político do presidente no meio sindical deteriorava-se rapidamente.
Essa situação atingiu seu ponto máximo com a deflagração da greve dos marítimos no Rio de Janeiro, Santos e Belém em junho de 1953, quando novamente eclodiram as divergências de Vargas com seu ministro. Segadas Viana, contrariando a orientação do presidente, denunciava a manifesta insuficiência da estrutura sindical oficial para exercer o controle sobre a classe operária e reivindicava a necessidade de uma reforma da Justiça do Trabalho. Enquanto isso não era concretizado, desejava reprimir a greve através da utilização de um decreto que, embora promulgado durante a Segunda Guerra Mundial, não tinha um dispositivo que determinasse seu prazo de vigência, e estabelecia que a Marinha mercante poderia ser convocada como reserva da Marinha de guerra. A aplicação desse decreto permitia a convocação dos marítimos sob o regimento militar, o que significava que o não comparecimento ao trabalho seria considerado como deserção. A aplicação dessa medida provocaria uma grave ruptura entre o governo e as massas operárias.
Diante dessa situação, Goulart, presidente do PTB e detentor de alguma influência nos meios sindicais, entrou em polêmica aberta com o ministro do Trabalho, discordando de sua orientação e procurando criar canais para uma aproximação maior de Vargas com a classe operária. Realizou assim sua primeira intervenção nas relações entre o governo e o movimento operário, num momento em que ficava clara a necessidade de uma reformulação na orientação política oficial em relação às classes trabalhadoras. Neste contexto, ocorreu a reforma ministerial de junho de 1953 e a indicação do nome de João Goulart para ocupar a pasta do Trabalho.
Segundo Maria Celina Soares d'Araújo, esta escolha significava uma tentativa de reaproximação de Vargas com os trabalhadores, "com o objetivo de recuperar a confiança daquele setor cuja oposição poderia patentear seu fracasso total". Representava ainda, segundo Harding, uma tentativa de estar à frente do radicalismo operário lançado desde a Greve dos 300 mil. Ao invés de tentar reprimir os trabalhadores, Vargas esperava desarmar a nova militância operária, com a ajuda de Goulart, que tinha reputação de negociar com os comunistas e outros líderes operários independentes, abrindo a possibilidade de ganhar a confiança desses setores para o governo.
A indicação de Goulart, entretanto, foi duramente criticada pelos grupos conservadores, inclusive os principais jornais, que atacavam seus laços com o operariado e o acusavam de simpatias pelo peronismo argentino e de pretender implantar no Brasil uma república sindicalista. Tentando pacificar seus críticos, ao assumir o cargo em 17 de junho de 1953 Goulart se comprometeu a guiar-se pelos postulados democráticos e não promover um programa de agitação.
A frente do ministério, a primeira tarefa de Goulart foi estabelecer um canal de negociação entre o governo e os grevistas. Assim, apenas três dias depois de sua posse, o comando geral da greve se reuniu sob a coordenação de um representante do ministério e com a assistência de uma comissão oficial de técnicos para discutir uma proposta conjunta dos empregados e do governo. Depois desta reunião, os representantes dos empregadores e dos trabalhadores se reuniram com o próprio Goulart na sede do ministério, para chegar a uma solução definitiva para o conflito.
Pondo toda a capacidade de pressão de que dispunha em favor do objetivo de conciliar as partes em conflito, Goulart deixou muito claro para todos o sentido político de sua posição. Era chegada "a hora de acabar com as intransigências". A greve terminou dois dias depois com o atendimento da maior parte das reivindicações dos marítimos, inclusive a renúncia, sob pressão de Jango, da diretoria da federação à qual eram vinculados.
Esse resultado gerou logo um conflito com o ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha, que tentava implantar uma política de contenção de gastos do Estado, principal empregador dos marítimos. Ainda assim, Goulart foi considerado vitorioso nessa primeira tarefa, passando a desenvolver uma política de liberalização das relações entre os sindicatos e o ministério. Essa proposta se concretizou com a extinção do pedido prévio e obrigatório para realizar qualquer assembléia sindical, o fim do envio de um fiscal do ministério para assistir e anotar o que ocorria nas assembléias e a suspensão dos adiantamentos feitos pela Comissão Técnica de Orientação Sindical, órgão de controle do ministério, de forma a evitar a completa dependência financeira dos sindicatos. Ao lado desses procedimentos, Goulart criou uma rede de lideranças sindicais que dependia dele, desalojando as antigas lideranças, muitas das quais tinham obtido seu poder no governo Dutra.
A aproximação de Goulart com as massas e com as lideranças sindicais de esquerda exigiu um reforço na política previdenciária. Com esse objetivo, em agosto de 1953 realizou-se no Rio de Janeiro, sob a égide do Ministério do Trabalho, o I Congresso Brasileiro de Previdência Social, através do qual, segundo Amélia Cohn, Jango pretendia estabelecer as principais diretrizes para uma melhor utilização da previdência como um mecanismo de revigoramento do populismo. Entretanto, as reivindicações dos congressistas extravasaram os limites da pauta prevista, tratando de sua participação nos níveis decisórios das instituições previdenciárias e questionando a política salarial vigente. Por outro lado, as forças conservadoras - civis e militares - protestavam contra a realização de um "congresso peronista, preparativo para a desordem social", onde, segundo elas, se acumpliciavam comunistas e representantes do Ministério do Trabalho, inclusive o próprio Jango.
Esse tipo de acusação foi feito constantemente a Goulart, considerado responsável por insuflar greves e pregar a luta de classes. Um importante periódico da época, citado por Caio Navarro Toledo, chegou a dizer que Jango, ao invés de ser um ministro do Trabalho, transformara-se num autêntico "ministro dos trabalhadores". Em resposta, Jango, novamente citado por aquele autor, chegou a afirmar: "Essa confiança do proletariado na secretaria de Estado que dirijo deveria constituir-se num motivo de tranqüilidade (para os patrões) e nunca de alarme. Pretender-se-ia, talvez, que o operariado brasileiro, já tão desencantado, não acreditasse nos poderes constitucionais?" Continuando, disse ainda: "Não passa de torpe intriga o boato de que sou contra o capitalismo. A frente do Ministério do Trabalho, estou pronto a estimular e aplaudir os capitalistas que fazem de sua força econômica um meio legítimo de produzir riquezas, dando sempre às suas iniciativas um sentido social, humano e patriótico." Essa posição foi confirmada pelo seu desempenho pessoal em diversos momentos que antecederam a segunda greve dos marítimos, deflagrada em outubro de 1953.
Depois de ter negociado com o comando geral da greve por ocasião de seu ingresso no ministério e ter procurado desarmar as lideranças mais radicais dessa categoria, Jango viu-se diante de nova ameaça de paralisação para reivindicar o cumprimento integral do acordo de cessação de greve, que havia sido aprovado em 26 de junho. Na iminência da deflagração de novo movimento, segundo Denis Barsted em seu trabalho Medição de força, Goulart partiu em viagem para o Norte do país, ficando Hugo de Faria, chefe do Departamento Nacional do Trabalho, encarregado de adotar as medidas necessárias para a repressão e desmobilização do movimento grevista.
A intervenção do Ministério do Trabalho nesse episódio demonstrou que Jango, contrariando as acusações de agitador comunista que lhe imputavam, agia em defesa do sistema nos momentos em que as reivindicações sociais ameaçavam ultrapassar os limites possíveis, ainda que isso custasse a repressão aos movimentos operários. Segundo Hugo de Faria, a intervenção mais radical era necessária porque "a conjuntura política não comportava uma segunda greve, e se ela tivesse havido, o dr. Getúlio teria deixado de ser presidente naquele momento".
Na maioria das vezes, entretanto, Goulart procurava evitar tais procedimentos repressivos, usando a negociação como principal arma. Com essa perspectiva aprofundou seus contatos com líderes sindicais comunistas, utilizando sua colaboração como uma forma de controlar as reivindicações dos principais sindicatos através de sua intervenção pessoal em lutas salariais, evitando assim várias greves e obrigando os empregadores a concessões.
Em janeiro de 1954, enquanto os bancários estavam lutando por aumento salarial, Goulart propôs publicamente um salário mais alto do que os banqueiros iam oferecer, recebendo por isto duras críticas da entidade patronal, que o acusou de quebrar os procedimentos regulares de arbitragem.
A despeito de todo empenho de Goulart e de suas incessantes negociações com as diversas categorias profissionais de forma a manter as reivindicações trabalhistas sob controle, a questão salarial ainda suscitava grandes preocupações no início de 1954, devido ao aumento constante do custo de vida. Numa conjuntura em que as dificuldades econômicas aumentavam e as forças oposicionistas ganhavam cada vez mais espaço com o desenvolvimento da campanha golpista dirigida pelo jornalista Carlos Lacerda, tornava-se fundamental garantir o apoio da classe trabalhadora como suporte político do governo. Com essa perspectiva, em janeiro de 1954 Goulart começou a preparar os estudos necessários para a apresentação no Congresso de um projeto de duplicação do salário mínimo, que passaria de 1.200 para 2.400 cruzeiros por mês, quantia equivalente ao saldo de um segundo-tenente do Exército. Já prevendo a oposição que o projeto sofreria, Goulart avisou a Vargas que colocaria seu cargo à disposição, de modo a evitar-lhe maiores problemas.
As suposições de Jango logo se confirmaram. Além da oposição de Osvaldo Aranha, preocupado com a contenção das despesas governamentais, a UDN considerou o projeto como um instrumento voltado para estimular a luta de classes no país. Uma de suas facções, conhecida como "Banda de Música", transformou-se na principal porta-voz das denúncias contra a ação de Goulart, atribuindo-lhe um papel de subversão e manipulação da classe operária. As pressões contra o projeto atingiram seu auge no início de fevereiro de 1954, quando 82 coronéis e tenentes-coronéis assinaram um memorial afirmando que possíveis aumentos de salários de algumas profissões (alusão direta ao projeto de Goulart) provocariam a elevação do custo de vida, agravando a situação dos baixos vencimentos nos quadros do Exército, que veria dificultado o recrutamento de oficiais. Além de tratar dos níveis salariais, o manifesto afirmava existir uma situação de descontentamento militar devido à falta de aparelhamento e à precariedade das instalações. Entregue ao ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, o documento só chegou às mãos do presidente no dia 22 de fevereiro, dez dias depois de sua assinatura. Neste ínterim, Goulart tinha oficializado a proposta do aumento de 100% do salário mínimo. Assim, no mesmo dia 22, de modo a evitar o agravamento da situação, Vargas exonerou Goulart e Espírito Santo Cardoso, substituindo-os respectivamente por Hugo de Faria e Zenóbio da Costa.
Com esta modificação, o presidente cedeu, segundo Harding, às pressões dos grupos conservadores e afastou-se temporariamente do operariado, procurando exercer maior controle sobre os sindicatos.
À frente do ministério, Jango tomara ainda outras medidas. Expedira instruções que regulavam os empréstimos do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB) às cooperativas e seus segurados, instituíra a semana de prevenção de acidentes de trabalho; contribuíra para a lei que alterou o limite máximo do valor do imóvel para o financiamento da moradia dos associados dos institutos e caixas de aposentadorias e pensões; assinara decretos dispondo sobre a situação dos representantes dos empregados no conselho fiscal do IAP dos industriários (IAPI) autorizando a previdência social a colaborar através de financiamentos e assistência técnica com as entidades sob jurisdição dos estados e municípios para a construção e financiamento de casas populares.
Jango reassumiu sua cadeira na Câmara dos Deputados, mas, apesar de afastado do ministério, não perdeu sua influência sobre este órgão, uma vez que Vargas não nomeou novo titular para a pasta. Hugo de Faria permaneceu como interino no cargo, possibilitando a manutenção do poder de fato do ex-ministro, sem comprometê-lo diretamente. Segundo as próprias palavras de Hugo de Faria, "nunca dr. João Goulart foi tão ministro do Trabalho como quando eu era ministro interino e ele (oficialmente) não ocupava mais cargo nenhum".
No final de março de 1954, o ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha, foi instruído por Getúlio para preparar uma nova taxa de aumento salarial, de acordo com a orientação econômica do governo. A seguir, Aranha recomendou um aumento de 50% sendo criticado publicamente por Goulart que, através de um artigo publicado no Correio da Manhã, reiterou a necessidade do aumento de 100%. Em conseqüência, foi mais uma vez acusado de incitar os operários contra o plano governamental. Ainda assim, Jango continuava ligado ao governo, atendendo a grande quantidade de pedidos e chamados do palácio presidencial do Catete e indo com Vargas, todas as quartas-feiras, visitar o ministro do Trabalho Hugo de Faria.
Finalmente, no dia 1º. de maio de 1954, em seu discurso aos trabalhadores, Vargas anunciou a concessão do aumento de 100% do salário mínimo, aceitando a recomendação de João Goulart e apontando-o como "um infatigável amigo e defensor dos trabalhadores brasileiros". Esse gesto rendeu a Vargas alguns frutos, mas também gerou inúmeros problemas adicionais. Embora reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a legalidade do decreto, muitos empregadores alegavam não poder arcar com os custos, o que ocasionou o desencadeamento de uma série de greves.
Por outro lado, essa medida provocou um considerável estreitamente nas bases de apoio do governo. Enquanto os setores que se sentiam prejudicados pelo aumento (empresários, setores médios, militares) engajavam-se definitivamente na oposição, os trabalhadores, beneficiados pela medida, não estavam suficientemente organizados para servir de suporte à manutenção de Vargas, pois seus métodos de controle do operariado haviam deixado as organizações sindicais frágeis e incapacitadas de fornecerem um apoio efetivo.
A decretação do monopólio estatal do petróleo em outubro de 1953 também contribuiu para engrossar a oposição a Vargas com setores políticos, empresariais e militares.
Assim, em agosto de 1954 Getúlio estava efetivamente isolado. A situação tornou-se crítica depois do atentado da rua Toneleros, no Rio, realizado no dia 5 daquele mês com o objetivo de eliminar Carlos Lacerda, figura que capitaneava a oposição. Em seu lugar, morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, seu acompanhante na ocasião.
Desde então, e tendo sido demonstrada a ligação entre os criminosos e a guarda pessoal do presidente, intensificaram-se as pressões sobre o governo e as soluções apontadas nos meios políticos para contornar a crise giravam em torno de uma licença presidencial ou da renúncia. Durante toda essa fase, Jango continuou próximo a Vargas, que mandou chamá-lo no dia 23 de agosto, quando a crise atingia seu ponto máximo, para lhe entregar um envelope lacrado e lhe pedir que partisse para Porto Alegre com o objetivo de informar a Ernesto Dornelles da gravidade da situação. Acrescentou ainda que aquele documento deveria ser divulgado nos jornais do Rio Grande do Sul, ou ainda, na eventualidade de isso tornar-se impossível, na Argentina, caso lhe acontecesse alguma coisa. Jango, porém, não partiu imediatamente, e não tomou conhecimento do conteúdo do documento. Na manhã de 24 de agosto, foi surpreendido pela notícia do suicídio de Vargas. O envelope que recebera continha uma cópia da Carta-Testamento, cuja publicação Getúlio temia que fosse proibida nos jornais do Rio de Janeiro.
A morte de Vargas atingiu Jango profundamente, levando-o a afastar-se da vida política e a retirar-se para suas propriedades em São Borja, enquanto se iniciava o governo do vice-presidente João Café Filho. Jango permaneceu em São Borja até se aproximarem as eleições legislativas de outubro de 1954. Segundo seu depoimento, o diretório nacional do PTB, a despeito de conhecer sua resolução de afastar-se da política, convocou-o então para participar do pleito, de forma a dar respaldo através de seu prestígio político à candidatura ao Senado, pelo Rio Grande do Sul, de Rui Ramos, que sofria inúmeras restrições por ser protestante. Diante disso, Jango decidiu candidatar-se à segunda vaga de senador pelo PTB do Rio Grande do Sul, mas foi derrotado no pleito de 3 de outubro por Armando Pereira Câmara, candidato eleito pela Frente Democrática, coligação formada pelo PSD, a UDN e o Partido Libertador (PL). Goulart obteve 346.196 contra 402.438 votos de seu opositor. No governo do estado, o PTB também foi derrotado pelo candidato da Frente Democrática, Ildo Meneghetti.
Ainda que derrotado nas eleições de 1954, Jango era considerado como o legítimo herdeiro político de Vargas, líder em cuja direção se orientavam as principais forças do trabalhismo. Segundo Francisco Weffort, a morte inesperada de Vargas deixara um vácuo no poder, não havendo qualquer força política que estivesse preparada para sucedê-lo nas condições críticas criadas por seu suicídio. Caberia a Goulart "rearticular o que restava do velho esquema da política varguista" e "garantir a possibilidade de uma sobrevida do regime populista no Brasil", que, apesar de gravemente afetado com a perda de seu chefe, tinha sobrevivido à crise de 1954.
O primeiro passo de Goulart nessa nova conjuntura foi a articulação do PTB para as eleições presidenciais que seriam realizadas em outubro de 1955. A aproximação do pleito agravava as dificuldades políticas do país, pois os setores antigetulistas defendiam a tese de que a luta eleitoral entre duas candidaturas polarizadas tenderia a agravar a crise. Apesar disto, em outubro de 1954, porém, já se tornara público que Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais, pretendia concorrer no ano seguinte ao pleito presidencial.
Nessa ocasião, estando o PTB inclinado a estabelecer novamente aliança com o PSD, iniciaram-se conversações entre Goulart e Juscelino com o objetivo de articular a candidatura do líder petebista para a vice-presidência da República. Em 7 de novembro foi publicada uma entrevista do pessedista Etelvino Lins afirmando a necessidade de uma candidatura à presidência a partir de uma ampla frente partidária sem a exclusão do PTB, e sem distinção entre civis e militares.
Essa proposta não ganhou força no seio do PSD e nesse mesmo mês de novembro, na convenção nacional do partido, a candidatura de Juscelino foi aprovada. Mas o clima não era propício para a realização de eleições. Em 31 de dezembro, Juarez Távora, chefe do Gabinete Militar da Presidência, entregou a Café Filho um documento em que altas autoridades militares, pronunciando-se sobre a situação nacional, apelavam por uma colaboração interpartidária e declaravam que uma candidatura militar não encontraria respaldo nas forças armadas, que consideravam conveniente o lançamento de um candidato único e civil. Café Filho mostrou-se solidário ao manifesto dos militares, considerado por Juscelino como uma demonstração clara da oposição militar à sua candidatura. João Goulart e os líderes do PSD e do Partido Social Progressista (PSP) também reagiram ao documento, declarando que competia exclusivamente aos partidos apresentarem os candidatos aos cargos eletivos. Juscelino teve sua candidatura homologada pela convenção nacional do PSD, no dia 10 de fevereiro de 1955. No dia 11 de abril, foi realizada uma reunião na casa de Osvaldo Aranha entre os petebistas João Goulart e Abilon de Sousa Naves (vice-presidente do diretório nacional do PTB), e os líderes pessedistas Ernâni Amaral Peixoto e Juscelino Kubitschek, contando também com a presença do próprio Aranha. Nesse encontro foram acertadas as bases para aliança PTB-PSD, ficando definido que, em caso de vitória, o primeiro partido indicaria os nomes dos ministros do Trabalho e da Agricultura do novo governo. Ainda no dia 16 desse mês, foi oficializado o acordo entre os dois partidos, estabelecendo que Goulart seria o nome que comporia a chapa como vice-presidente, ao lado de Juscelino.
Dois dias depois, o diretório nacional do PSD aceitou a indicação do nome de Goulart e, ainda nesse mesmo dia, a chapa foi homologada na convenção nacional do PTB. Nesta ocasião, foi lida uma carta de Luís Carlos Prestes na qual o líder do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), propunha uma ação comum entre petebistas e comunistas, fato que aumentou a desconfiança em relação ao nome de Goulart.
Após o lançamento oficial da chapa Juscelino Kubitschek-João Goulart, a movimentação contra as eleições e a favor da intervenção dos militares tornou-se mais evidente. As restrições à candidatura pessedista cresceram assustadoramente com a incorporação do nome de Jango. Se, por um lado, o lançamento de Goulart aumentou as possibilidades eleitorais da chapa devido à penetração do líder petebista junto aos meios sindicais e às massas populares, por outro provocou imediata reação nos círculos antigetulistas que, considerando o ex-ministro do Trabalho como herdeiro de Vargas, alegavam que a formação da aliança PSD-PTB colocava o país sob a ameaça de retornar ao varguismo e, portanto, de voltar a mergulhar no "mar de lama".
No final de abril, essa situação foi agravada com a entrevista de Dutra ao jornal O Globo, manifestando sua oposição ao nome de Goulart. Essas restrições ao líder petebista abriram uma crise no interior do PSD em virtude da negativa dos diretórios dissidentes de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em aceitar a chapa indicada pelo partido. No dia 10 de junho, os pessedistas, reunidos na sua convenção nacional, ratificaram finalmente o nome de Goulart para concorrer às eleições ao lado de Juscelino, solidificando assim a aliança PTB-PSD. Isso, contudo, não dissolveu os problemas que envolviam a crise sucessória.
A UDN, depois de apoiar por certo tempo a frustrada candidatura de Etelvino Lins, acabou se unindo ao PDC no apoio à chapa Juarez Távora-Milton Campos. Os outros candidatos foram Ademar de Barros-Danton Coelho, pelo PSP, e Plínio Salgado, pelo Partido de Representação Popular (PRP).
No mês de agosto, dois novos fatos contribuíram para agravar a situação. O primeiro consistiu no discurso pronunciado pelo general Canrobert Pereira da Costa no Clube Militar, no dia 5, ocasião do primeiro aniversário da morte do major Rubens Vaz. Referindo-se ao regime de "falsidade democrática" e de "pseudolegalidade" em que vivia o país, Canrobert lamentou o insucesso da fórmula de "união nacional". O segundo foi o manifesto eleitoral do PCB, publicado no dia 11 no jornal comunista Imprensa Popular. O documento expressava a posição oficial do partido, de apoio à chapa Juscelino Kubitschek-João Goulart, devido ao compromisso de ambos os candidatos de lutarem contra o golpe, em defesa da Constituição e das liberdades democráticas e pela melhoria das condições de vida do povo. O documento provocou grande reação nos meios militares e o ministro da Guerra general Henrique Teixeira Lott declarou-se publicamente preocupado com o fato de Juscelino e João Goulart aceitarem o apoio dos comunistas.
Em meados de setembro, um novo episódio veio tumultuar o cenário político. No dia 17, Lacerda publicou na Tribuna da Imprensa, uma carta datada de 5 de agosto de 1953 e dirigida a Goulart, naquela época ministro do Trabalho. O documento, cujo suposto autor era o deputado argentino Antônio Jesús Brandi, ficou conhecido como Carta Brandi e relatava os entendimentos secretos que Goulart teria mantido com Juan Domingo Perón, então presidente da Argentina, no sentido da implantação no Brasil de uma república sindicalista, bem como a existência de contrabando de armas argentinas para o país. Face à gravidade destas denúncias, o general Lott, atendendo à solicitação de parlamentares petebistas, ordenou a abertura de um inquérito policial-militar (IPM), que foi chefiado pelo general Emílio Maurel Filho. Os primeiros resultados da sindicância efetuada em Buenos Aires, embora admitissem a autenticidade da denúncia, não chegaram a pesar em termos eleitorais, por terem sido divulgados no dia exato do pleito. Essa questão, porém, só seria devidamente esclarecida quando, ao final da sindicância, foi comprovado que a carta havia sido forjada.
As eleições de 3 de outubro foram realizadas com a garantia das tropas do Exército. Concluídas as apurações em meados do mês, Juscelino obteve cerca de três milhões de votos contra 2.600.000 de Juarez Távora, enquanto Jango, com 3.600.000 sufrágios, suplantou em mais de duzentos mil votos o segundo colocado no pleito para a vice-presidência, Mílton Campos. O outro candidato ao cargo, Danton Coelho, recebeu apenas 1. 140. 000 votos.
Logo após a divulgação dos resultados, a UDN e seus aliados deram início a uma batalha judiciaria com o objetivo de anular as eleições e impedir a proclamação dos candidatos eleitos, alegando os seguintes fatos: a ilegitimidade dos votos dados pelos comunistas, ocorrência de corrupção eleitoral e a inexistência de maioria absoluta, tese já defendida, sem êxito, por ocasião da eleição de Vargas em 1950. Ao mesmo tempo, liderados por Lacerda, alguns setores udenistas passaram a pregar abertamente a deflagração de um golpe militar.
As teses udenistas encontravam apoio por parte de altas patentes militares, notadamente os ministros Edmundo Jordão Amorim do Vale (Marinha) e Eduardo Gomes (Aeronáutica). Essa situação seria agravada em 1º. de novembro de 1955, quando o coronel Jurandir de Bizarria Mamede, em nome do Clube Militar, pronunciou um discurso por ocasião do sepultamento do general Canrobert, incitando os chefes militares a impedir a posse de Juscelino e Goulart. O general Lott, entendendo que o coronel havia infringido os regulamentos militares que proibiam qualquer manifestação política por parte dos oficiais, decidiu aplicar-lhe a devida punição. Entretanto, Mamede se encontrava vinculado aos quadros da Escola Superior de Guerra (ESG), órgão subordinado à Presidência da República, tornando necessário seu retorno à esfera do Ministério da Guerra para que Lott pudesse puni-lo.
Na manhã do dia 3 de novembro, o presidente Café Filho adoeceu repentinamente, transmitindo cinco dias depois o governo a seu sucessor legal, o presidente da Câmara, Carlos Luz, que, embora deputado pelo PSD, defendia posições próximas à UDN. Encontrando resistência por parte de Café Filho e Carlos Luz para punir o coronel Mamede, Lott pediu demissão da pasta da Guerra no dia 10, sendo substituído pelo general Álvaro Fiúza de Castro, partidário das posições udenistas. Entretanto, na madrugada de 11 de novembro, Lott, com o decisivo apoio do general Odílio Denis, comandante do I Exército, liderou um movimento militar para afastar Carlos Luz da presidência da República, alegando que este mantinha ligações com a corrente golpista liderada por Lacerda.