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Governo Tancredo Neves

Tancredo de Almeida Neves nasceu em São João del Rei (MG) no dia 4 de março de 1910, quinto dos 12 filhos de Francisco de Paula Neves e de Antonina de Almeida Neves. Descendia, por parte de pai, do comendador português José Antônio das Neves, que se estabelecera na cidade antes da independência do Brasil. A família Neves teve ativa participação na vida política do município, destacando-se o comerciante José Juvêncio das Neves, avô de Tancredo, ativista fervoroso da causa republicana.

Tancredo freqüentou o grupo escolar João dos Santos entre 1917 e 1920 e ingressou em seguida no Colégio Santo Antônio, dirigido por frades franciscanos, concluindo o curso de humanidades em 1927. No ano seguinte, transferiu-se para Belo Horizonte e matriculou-se na Faculdade de Direito, onde teve seu primeiro contato com a luta política ao participar da campanha da Aliança Liberal, coligação oposicionista articulada por Minas Gerais e Rio Grande do Sul que lançou a chapa Getú-lio Vargas-João Pessoa para a presidência da República nas eleições de março de 1930. A vitória, considerada fraudulenta, do situacionista Júlio Prestes, levou à deflagração em outubro de um movimento armado que, vitorioso, resultou na formação do Governo Provisório chefiado por Vargas.

Diplomado em 1932, Tancredo retornou a São João del Rei, onde montou um escritório de advocacia. No mesmo ano, foi nomeado promotor da comarca local, mas afastou-se do cargo em 1933 para voltar à banca de advogado, passando a atuar também em áreas próximas de seu município natal.

Em janeiro de 1933, Olegário Maciel, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Venceslau Brás fundaram em Belo Horizonte o Partido Progressista (PP), destinado a organizar as correntes políticas dominantes no estado com vistas às eleições para a Assembléia Nacional Constituinte e a apoiar o Governo Provisório. O representante de São João del Rei na comissão executiva do novo partido foi Augusto Viegas, chefe político de maior expressão local e admirador do "talento sem par" de Tancredo, que também se filiou ao PP. Viegas indicou o nome de Tancredo para concorrer a deputado estadual, mas a norma partidária exigia que as indicações desse tipo fossem endossadas por um determinado número de diretórios municipais. Devido à grande quantidade de candidatos na região, Tancredo não conseguiu cumprir essa exigência, ficando fora da chapa do PP que concorreu às eleições para a Assembléia Constituinte estadual em outubro de 1934. Em junho de 1935, depois da promulgação da Constituição mineira, foi eleito vereador em São João del Rei com a maior votação entre todos os concorrentes, tornando-se assim presidente do Legislativo municipal.

Em agosto de 1936, a sobrevivência do PP deixou de interessar ao governador mineiro Benedito Valadares, que rompera relações com Antônio Carlos e pretendia criar uma agremia-ção capaz de atrair os dissidentes do Partido Republicano Mineiro (PRM). Para testar a fidelidade das bases do interior, o governador promoveu uma grande reunião em Belo Horizonte no dia 4 de outubro. Tancredo, então com 26 anos de idade, foi o orador oficial da solenidade, falando em nome de todas as representações municipais presentes. Pouco depois, o PP foi extinto. Em 1937, Valadares fundou uma nova agremiação situacionista, o Partido Nacionalista Mineiro (PNM), para conduzir no estado a candidatura de José Américo de Almeida às eleições presidenciais previstas para janeiro de 1938. Filiado à nova agremiação, Tancredo passou a liderar a campanha eleitoral em São João del Rei até sua interrupção em novembro de 1937 devido à implantação do Estado Novo pelo presidente Vargas, que cancelou as eleições e decretou o fechamento dos órgãos legislativos do país. Tancredo perdeu então seu mandato de verea-dor, voltando a se dedicar à advocacia. Paralelamente, arriscou-se como empresário, tornando-se diretor-proprietário da Fiação e Tecelagem Matozinhos S.A., em atividade entre 1936 e 1950, e da Tecelagem São João Ltda., que fundara no final dos anos 1930 em sociedade com os irmãos João e Acíbio Hallack-, de vida breve.

A política mineira pós-1945

No início de 1945, diante do enfraquecimento do Estado Novo e o aumento das pressões pela redemocratização do país, Vargas começou a aplicar um projeto de reformas políticas que incluía a reorganização dos partidos e a convocação de eleições para a formação de uma assembléia nacional constituinte e a escolha do seu sucessor na chefia do governo. Coube ao interventor federal Benedito Valadares aglutinar as forças situacionistas em Minas Gerais em torno de uma nova agremiação, lançada oficialmente em 8 de abril de 1945 com o nome de Partido Social Democrático (PSD). Tancredo aderiu então ao PSD, começando a participar da campanha do general Eurico Dutra para a presidência da República.

Apesar das reformas, o Estado Novo foi derrubado por um golpe militar em 29 de outubro de 1945. As eleições foram mantidas para a data prevista, 2 de dezembro, resultan-do na vitória de Dutra sobre o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da União Democrática Nacional (UDN). O PSD venceu também por larga margem em Minas, elegendo 20 deputados à Assembléia Nacional Constituinte. Com a entrada em vigor da nova Constituição em 18 de setembro de 1946, a atenção dos meios políticos se voltou para a normalização das instituições estaduais, pois a nova Carta determinava a realização de eleições em 19 de janeiro de 1947 para os governos dos estados, as assembléias legislativas (dotadas de poderes constituintes a nível estadual) e a complementação das bancadas no Senado e na Câmara dos Deputados.

O PSD mineiro não marchou unido para as eleições estaduais. A maioria da comissão executiva propunha o nome de José Francisco Bias Fortes para o governo, mas um grupo liderado pelos senadores Levindo Eduardo Coelho e Fernando Melo Viana apoiava Carlos Luz, ministro da Justiça e condutor da política de coalizão preconizada pelo presidente Dutra. Posteriormente, as duas alas conflitantes chegaram a um acordo em torno da indicação do ex-presidente Venceslau Brás, que seria apoiado também pela UDN e o Partido Republicano (PR). No entanto, os adeptos de Bias Fortes romperam o acordo e indicaram-no como candidato na convenção pessedista realizada em Belo Horizonte no dia 13 de dezembro de 1946, derrotando Venceslau Brás por 167 votos de diferença. Com esse resultado, a ala chefiada pelo senador Melo Viana formou uma dissidência e decidiu, junto com o PR e o Partido Trabalhista Nacional (PTN), dar apoio ao udenista Mílton Campos. A grande maioria do partido, que permaneceu ao lado de Bias Fortes, passou então a ser conhecida como PSD ortodoxo, em contraposição ao PSD dissidente, ou independente, liderado por Melo Viana.

Tancredo Neves, prestigiado por Benedito Valadares em seu município natal, permaneceu ligado ao PSD ortodoxo e foi eleito deputado estadual com 5.266 votos em 19 de janeiro de 1947. Nesse mesmo dia, Mílton Campos derrotou Bias Fortes na disputa pelo governo estadual, tomando posse dois meses depois. A Constituinte mineira iniciou seus trabalhos em 20 de março sob a presidência de Feliciano Pena, do PR, sendo Tancredo designado relator da comissão especial composta em plenário para elaborar o texto constitucional, promulgado em 14 de julho seguinte.

Na fase final dos trabalhos constituintes, Tancredo participou ativamente das articulações que resultaram na eleição de José Ribeiro Pena, indicado pela coligação do PSD ortodoxo com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), para vice-governador do estado, causando um sério revés nas pretensões udenistas de lançar o nome de Mílton Campos para a presidência da República no pleito de 3 de outubro de 1950. A vitória de Ribeiro Pena só foi possível com a adesão dos deputados Jason Albergaria, do Partido Democrata Cristão (PDC), e Armando Ziller, do Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil (PCB), pois a coligação oposicionista PSD ortodoxo-PTB contava com 35 dos 72 deputados constituintes.

Com o início da legislatura ordinária, Tancredo Neves tornou-se vice-líder e, em seguida, líder da oposição. Nesse período, Mílton Campos estava preocupado em ampliar sua maioria na Assembléia para evitar surpresas semelhantes à eleição do vice-governador. Pedro Aleixo, secretário do Interior, começou a exercer pressões sobre os deputados do PSD ortodoxo que haviam sido prefeitos durante o Estado Novo, ameaçando com a abertura de inquéritos administrativos, enquanto o deputado federal Luís Martins Soares, ex-chefe de Polícia no governo de Valadares e tio de Mílton Campos, também usava sua influência para que a Assembléia não criasse dificuldades ao governador. Da fusão desses dois fatores -surgiu uma "ala liberal" do PSD mineiro, comandada por Martins Soares e composta por antigos prefeitos da época do Estado Novo, reduzindo a bancada liderada por Tancredo Neves. O compromisso dessa nova corrente não era propriamente fundir-se na maioria governamental, mas apoiar o governador nas questões relevantes para sua administração. Com esse desfalque, a liderança de Tancredo perdeu parte de sua força.

Apesar disso, o PSD saiu fortalecido das eleições municipais de 23 de novembro de 1947 e passou a trabalhar para conquistar o governo do estado em outubro de 1950, marcando sua política pela preocupação de não hostilizar os dissidentes ou os liberais e explorar o descontentamento do PR com o governo de Mílton Campos. Tancredo Neves não apareceu com evidência no curso das negociações conduzidas pela comissão executiva do PSD no estado visando à recomposição das alas ortodoxa, independente e liberal em torno da questão sucessória a fim de fortalecer a perspectiva de vitória do partido. Bias Fortes pleiteava nova indicação para concorrer ao governo estadual, mas a candidatura de Juscelino Kubitschek obteve o apoio do presidente Dutra e saiu vitoriosa por 13 votos contra dez na comissão executiva do PSD mineiro.

Em 3 de outubro de 1950, Juscelino foi eleito governador com 714.664 votos contra 544.068 dados ao udenista Gabriel Passos, ao mesmo tempo que Tancredo Neves (com 11.515 votos), Crispim Jacques, Bias Fortes, Guilhermino de Oliveira, Jaeder Albergaria e Uriel de Resende Alvim conquistaram seus primeiros mandatos de deputado federal. No mesmo pleito, Getúlio Vargas foi eleito presidente da República.

Entre 1º de fevereiro de 1951, quando tomou posse na Câmara, e 25 de junho de 1953, quando se licenciou para assumir a chefia do Ministério da Justiça, Tancredo foi membro da Comissão de Transportes, Comunicações e Obras Públicas e ocupou a liderança da bancada mineira do PSD na Câmara Federal. Nesse período, sua atividade política começou a obter ressonância fora de Minas, fazendo com que no meio do seu primeiro mandato federal ele fosse escolhido para substituir o ministro Francisco Negrão de Lima, possuidor de grande experiência parlamentar e diplomática.

No Ministério da Justiça

Tancredo assumiu o novo cargo por ocasião de uma reforma parcial do ministério de Vargas, cujo governo enfrentava cerrada oposição da UDN, da maioria dos grandes jornais do país e de importantes setores das forças armadas e do empresariado. Logo no início de sua gestão, o novo ministro se defrontou com duas questões relacionadas com a agressiva campanha opo-sicionista em curso: a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada para apurar as transações do vespertino carioca Última Hora com o Banco do Brasil e o chamado "esquema Etelvino", sugerido pelo governador de Pernambuco, Etelvino Lins, para encontrar uma solução político-militar de conteúdo centrista para o problema da sucessão presidencial.

O inquérito parlamentar havia sido requerido pelo deputado baiano Aliomar Baleeiro, da UDN, com base em denúncias formuladas pelo jornalista Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa, segundo as quais Samuel Wainer fora favorecido pelo Banco do Brasil com empréstimos irregulares para fundar a Última Hora, órgão situacionista, e utilizava sua influência junto ao governo para pleitear apoio financeiro do grupo Matarazzo e da Confederação Nacional da Indústria, então sob a presidência do deputado federal Euvaldo Lodi, do PSD mineiro. O "esquema Etelvino" também se ligava ao mesmo esforço de desgaste do governo, pois deslocava a condução do debate sucessório para o entendimento entre partidos de centro com o aval das forças armadas. O governador pernambucano já possuía inclusive uma chapa "de união nacional" para oferecer aos partidos que considerava confiáveis, formada pelo general Juarez Távora para a presidência e Juscelino Kubitschek para a vice-presidência. A UDN aceitava plenamente essa fórmula, pois a eleição de Juarez significaria sua presença no -poder, mas o PSD preferia inverter a chapa, lançando Juscelino para presidente. As contradições eram, portanto, significativas e exigiam um trabalho paciente de Tancredo para desativar o "esquema Etelvino".

Além dessa atuação no terreno político, o ministro cuidava também das atribuições administrativas de sua pasta. Suas principais medidas nesse período foram a supressão de diversos cargos considerados excedentes nos quadros do ministério, a desapropriação dos bens da Companhia Indústria e Viação de Pirapora e da Empresa Fluvial Limitada para permitir a criação de uma empresa de economia mista encarregada do transporte de cargas e passageiros no baixo e médio São Francisco, e a ampliação e modernização dos estabelecimentos que integravam a rede do Serviço de Assistência ao Menor (SAM).

Não obstante, a crise político-militar continuava em andamento, resultando no progressivo enfraquecimento do governo federal junto às suas bases populares. A eleição de Jânio Quadros para prefeito de São Paulo, representando a aliança do PDC e do Partido Socialista Brasileiro (PSB), e a derrota do candidato petebista Leonel Brizola à prefeitura de Porto Alegre mostravam o declínio da força eleitoral das correntes políticas ligadas ao governo. Em fevereiro de 1954, a divulgação do Manifesto dos coronéis provocou a queda do ministro do Trabalho, João Goulart, acusado de incitar os sindicatos contra o empresariado, e a substituição do general Ciro do Espírito Santo Cardoso por seu colega Euclides Zenóbio da Costa no Ministério da Guerra. Na Câmara Federal, a oposição comandada por Afonso Arinos de Melo Franco, Olavo Bilac Pinto e Aliomar Baleeiro elevava o grau de agressividade contra o governo e procurava a adesão dos militares para um golpe de Estado.

Com a recomposição parcial do ministério e a posterior nomeação do general Newton Estillac Leal para o comando da guarnição sediada em São Paulo, a crise parecia serenada. Entretanto, na madrugada de 5 de agosto de 1954 o jornalista Carlos Lacerda foi baleado na rua Tonelero, no bairro carioca de Copacabana, em um atentado que provocou a morte do major-aviador Rubens Florentina Vaz, que dava segurança ao diretor da Tribuna da Imprensa em suas palestras e comícios.

O atentado da Toneleros, como ficou conhecido, convulsionou a Aeronáutica e os meios políticos do país, abrindo a fase final do confronto entre a oposição e o governo, logo apontado como responsável pelo crime. O brigadeiro Eduardo Gomes, que exercia forte liderança sobre a maioria dos oficiais de sua arma, pronunciou-se publicamente pela punição dos culpados, enquanto Lacerda denuncia-va o envolvimento de "elementos da alta esfera governamental" no atentado.

Tancredo Neves soube do episódio ainda pela madrugada, informado por um oficial da Polícia Militar do Distrito Federal. Transmitiu então ao presidente Vargas a gravidade da situação e emitiu em seguida um comunicado aos jornais afirmando a disposição do governo de elucidar o crime a qualquer custo. Sua primeira providência foi ordenar a instauração de um inquérito policial chefiado pelo delegado Jorge Luís Pastor de Oliveira, titular do distrito onde ocorrera o crime, e acompanhado por um representante do Ministério Público, promotor João Batista Cordeiro Guerra, e um do Ministério da Aeronáutica, coronel-aviador João Adil de Oliveira.

Os resultados das primeiras investigações não tardaram a aparecer. No próprio dia 5, o motorista profissional Nélson Raimundo dos Santos apresentou-se ao delegado Pastor afirmando que, na noite anterior, conduzira à rua Tonelero dois membros da guarda pessoal do presidente Vargas, Climério Euribes de Almeida e Alcino João do Nascimento. Seu depoimento incriminou ambos e abriu a pista fundamental para solucionar o crime. Ao tomar conhecimento desse fato, Tancredo procurou evitar o agravamento da crise político-militar em curso. Transmitiu a informação ao general Aguinaldo Caiado de Castro, chefe do Ga-binete Militar de Vargas, e rumou para o quartel-general da Polícia Militar, na rua Evaristo da Veiga, onde estavam o motorista, os integrantes da comissão de inquérito e o chefe de Polícia do Distrito Federal, general Armando de Morais Âncora. Em seguida, acompanhado pelo ministro da Aeronáutica, Nero Moura, e os membros da comissão de inquérito, dirigiu-se ao palácio do Catete. Nessa ocasião, o general Cajado de Castro já havia interrogado o chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato, exigindo a presença de Climério - que estava foragido - no palácio.

Com o objetivo de provar a inocência do governo no atentado, Tancredo propôs a Vargas a dissolução da guarda, medida rapidamente posta em prática pelo presidente depois de ouvir as opiniões favoráveis do general Caiado de Castro e do ministro das Relações Exteriores, Osvaldo Aranha. Ao lado disso, o ministro da Justiça considerava necessário reforçar o dispositivo de defesa do governo, pois a oposição não pretendia apenas elucidar um crime, mas também fortalecer uma conspiração articulada nos meios civis e militares para depor Vargas pela força. O primeiro passo nesse sentido foi a substituição, em 10 de agosto, do general Âncora pelo coronel Paulo Francisco Torres na chefia de Polícia do Distrito Federal, ocasião em que Tancredo Neves e Euclides Zenóbio da Costa fizeram pronunciamento em defesa da ordem e da legalidade, sustentando que o mandato do presidente seria preservado de qualquer maneira.

A firmeza das declarações dos dois ministros, principais responsáveis pela manutenção da ordem pública, não deteve as investidas dos adversários do governo. No dia 11, com o apoio da grande maioria dos oficiais da Aeronáutica, o coronel João Adil solicitou ao ministro Nero Moura a instauração de um inqué-rito policial-militar (IPM) sobre o atentado da Toneleros, justificando esse pedido com o fato de que a arma utilizada era de uso privativo das forças armadas e a vítima havia sido um militar. Além disso, o Código de Processo Penal Militar permitia a prisão preventiva dos suspeitos por 30 dias, prorrogáveis depois por mais 20, concedendo portanto muito mais tempo do que o código comum para os interrogatórios e a obtenção de confissões. Nero Moura cedeu à solicitação e, em 12 de agosto, baixou portaria instituindo o IPM a ser conduzido pelo próprio coronel Adil. Daí por dian-te, as investigações se transferiram para o âmbito da Aeronáutica e as diligências passaram a ser dirigidas da Base Aérea do Galeão, que ficou conhecida como República do Galeão devido à independência de atuação dos encarregados do IPM.

No mesmo dia 12, Vargas estava em Belo Horizonte junto com Tancredo Neves para participar da inauguração dos novos fornos da Siderúrgica Mannesmann. Depois de proferir um discurso enérgico em defesa da legalidade, que considerava ameaçada, retornou ao Rio, onde tomou conhecimento de que seu filho, o deputado federal Lutero Vargas, estava sob suspeita de ter financiado a fuga de ex-membros da guarda. Tancredo aconselhou o presidente a convencer Lutero a renunciar às imunidades parlamentares e colocar-se à disposição do IPM para qualquer tipo de esclarecimento. Lutero aceitou a recomendação e anunciou em discurso transmitido pelo rádio seu propósito de apresentar-se no Galeão ao responsável pelo inquérito. Ao mesmo tempo, Vargas franqueou as dependências do palácio do Catete para as investigações militares.

Apesar dessas medidas, a intensidade da crise não diminuiu. Os jornais de oposição passaram a divulgar depoimentos dos presos do Galeão, que incriminavam Lutero Vargas, o deputado Euvaldo Lodi e o general Ângelo Mendes de Morais, prefeito do Distrito Federal durante o governo do presidente Dutra. Em 21 de agosto, o vice-presidente João Café Filho discursou no Senado propondo a Vargas a renúncia simultânea de ambos para permitir a superação da crise através da posse de Nereu Ramos, presidente da Câmara dos Deputados, e a convocação de eleições indiretas 30 dias depois para completar os mandatos do presidente e do vice-presidente.

Vargas convocou Tancredo para debater com ele o discurso de Café Filho. O ministro da Justiça afirmou então que considerava o vice-presidente comprometido com a conspiração em curso e que seu pronunciamento apenas transmitia uma exigência dos chefes militares sublevados. A negativa subseqüente de Vargas em relação a essa proposta reacendeu a crise. Na noite de 22 de agosto os brigadeiros se reuniram no Clube de Aeronáutica sob a presidência de Eduardo Gomes e ouviram a leitura dos depoimentos dos implicados no atentado da Toneleros, todos presos no Galeão. Aprovaram em seguida uma nota dirigida a Vargas e entregue ao chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, marechal João Batista Mascarenhas de Morais, exigindo a renúncia do presidente.

Ao tomar conhecimento desse documento, Tancredo propôs a prisão de todos os signatários e o envio de mensagem ao Congresso pedindo a decretação do estado de sítio, mas sua sugestão foi rejeitada pelos três ministros militares - Zenóbio da Costa (da Guerra), Renato Guillobel (da Marinha) e Epaminondas dos Santos (que substituíra Nero Moura na pasta da Aeronáutica) - sob o argumento de que ela precipitaria o desenlace da crise. Nessa mesma noite, Tancredo divulgou comunicado pedindo ao povo que se acautelasse contra boatos espalhados pela cidade com o intuito de causar a "perturbação da ordem pública" e acrescentando que o governo dispunha de meios para controlar a situação. Não obstante, correu o boato de que o governo estaria preparando a decretação do estado de sítio e a conseqüente suspensão das garantias constitucionais.

No dia seguinte, 23 de agosto, o general Zenóbio da Costa declarou que o Exército não permitiria agitações, ficando implícito que sua advertência se dirigia às manifestações de rua encabeçadas pela UDN e outros grupos políticos para exigir a renúncia de Vargas. À noite, os almirantes se reuniram no Clube Naval e endossaram o manifesto dos brigadeiros. Avisado da posição da Marinha, Tancredo se dirigiu ao -pa-lá-cio do Catete, onde encontrou os ministros Epa-minondas dos Santos, Renato Guillobel e Osvaldo Aranha. Zenóbio da Costa chegou a seguir, acompanhado do marechal Mascarenhas de Morais e do general Odílio De-nis (comandante da Zona Militar Leste, atual I Exército), e comunicou que 37 dos 80 generais lo-tados no Distrito Federal estavam declaradamente solidários com os brigadeiros e almirantes.

Diante dessa notícia, Vargas convocou uma reunião ministerial de urgência. Tancredo defendia até então que o Congresso e os governadores fossem ouvidos, mas a nova e inesperada situação militar levou-o a propor, junto com Osvaldo Aranha, a alternativa da resistência a qualquer ataque ao palácio do Catete. Nesse ponto, as discussões se -generalizaram com a participação de Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente, Danton Coelho, ex-ministro do Trabalho, e outras pessoas presentes no salão em que o ministério se reunia. Vargas reiterou seu propósito de não renunciar, concordando entretanto em licenciar-se até a completa apuração dos fatos relacionados com o atentado e pedindo aos ministros militares que garantissem a manutenção da ordem pública e o respeito à Constituição. Por volta das cinco horas da manhã de 24 de agosto, Tancredo redigiu uma nota comunicando a decisão presidencial, enquanto Café Filho organizava seu ministério junto com líderes oposicionistas civis e militares. Pouco depois, chegou ao palácio do Catete a notícia de que um grupo de generais reunido com Zenóbio da Costa na sede do Ministério da Guerra recomendara o afastamento definitivo do presidente, e não apenas temporário, como afirmava a nota redigida por Tancredo. Portanto, Getúlio Vargas estava virtualmente deposto. No início da manhã, seu irmão Benjamim Vargas chegou ao palácio do Catete comunicando que fora intimado a depor no Galeão.

Nesse contexto, o presidente, recolhido em seus aposentos, suicidou-se. Tancredo não retornou mais ao Ministério da Justiça, entregando a pasta a um oficial-de-gabinete. Junto com Osvaldo Aranha e João Goulart, acompanhou o corpo de Vargas até São Borja (RS), onde presenciou o sepultamento e pronunciou violento discurso contra o novo governo chefiado por Café Filho.

Na assessoria de Juscelino

Tancredo Neves reassumiu em 30 de agosto sua cadeira na Câmara dos Deputados, dedicando-se à articulação da candidatura do governador mineiro Juscelino Kubitschek à presidência da República como forma de se contrapor às forças políticas que haviam desestabilizado o governo anterior. Como não se desincompatibilizara a tempo, não pôde concorrer às eleições de outubro de 1954, deixando a Câmara ao final de seu mandato, em janeiro de 1955. Em fevereiro, a convenção nacional do PSD homologou a candidatura de Juscelino, que passou a chefia do governo estadual em 3 de abril seguinte para seu substituto legal, Clóvis Salgado, do Partido Republicano (PR). No fim desse mês, o novo governador nomeou Tancredo diretor do Banco de Crédito Real de Minas Gerais. Juscelino venceu o pleito presidencial realizado em outubro, conquistando a maioria absoluta de votos em seu estado, mas apenas 36% dos votos nacionais.

Esse resultado abriu um período de crises sucessivas que culminaram no movimento militar de 11 de novembro de 1955, chefiado pelo general Henrique Lott e voltado, segundo seus promotores, para barrar uma conspiração em curso no governo Café Filho e garantir a posse de Juscelino, que veio a ocorrer em 31 de janeiro de 1956. Sem cargo parlamentar, Tancredo Neves tornou-se um conselheiro político solicitado pelo novo presidente nos momentos de decisões relevantes. Em 17 de março, ainda na condição de diretor do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, participou de uma reunião convocada por Juscelino para debater a conveniência da adoção da reforma cambial que havia sido sugerida pelo ministro da Fazenda do governo de Café Filho, José Maria Whitaker. Ela implicava a supressão dos subsídios governamentais a vários- produtos importados, como o petróleo, o trigo e o papel, que teriam seus preços sensivelmente alimentados porque os recursos aplicados até então pelo governo seria-m inevitavelmente repassados ao consumidor. Tancredo e outros auxiliares do presidente foram contra a adoção dessa medida, e seu ponto de vista prevaleceu na decisão oficial.

Em 26 de abril de 1956 Tancredo deixou seu cargo no Banco de Crédito Real de Minas Gerais para assumir a direção da Carteira de Redescontos do Banco do Brasil, que seria, mais tarde, um dos principais pontos de apoio para a formação do Banco Central.

Em novembro de 1956 a agitação militar voltou a intranqüilizar o governo. De um lado, a Frente de Novembro, fundada pelo coronel Nemo Canabarro Lucas e defendida na Câmara Federal pelo deputado Humberto Molinaro, vinha promovendo intenso trabalho de proselitismo nos quartéis a pretexto de reforçar a posição do general Lott no Ministério da Guerra. Do lado oposto, o Clube da Lanterna, criado em 1953 pelos adeptos de Carlos Lacerda e presidido pelo jornalista Fidélis Amaral Neto, diretor da revista Maquis, centralizava a violência dos seus ataques nos chefes militares que haviam desencadeado o movimento de 11 de novembro de 1955 para garantir a posse de Juscelino. Os generais mais atingidos eram Lott e Odílio Denis, comandante do recém-criado I Exército. Esses conflitos entre os dois lados estavam criando intranqüilidade nos quartéis e ameaçavam afetar a estabilidade do regime. Juscelino reuniu então os ministros Nereu Ramos (da Justiça), José Maria Alkmin (da Fazenda) e Lúcio Meira (da Viação), além de Felisberto Batista Teixeira (chefe de Polícia do Distrito Federal) e Tancredo Neves, para debater o assunto em todas as suas implicações. Ao final, decidiu-se adotar a proposta de Tancredo, decretando o imediato fechamento das duas organizações.

Tancredo deixou a diretoria do Banco do Brasil em julho de 1958 para assumir, no dia 17 desse mês, a Secretaria de Finanças do governo de Minas Gerais na gestão de Bias Fortes. Essa indicação, que provocou seu afastamento da disputa direta das eleições legislativas de 1958, visava reaproximar Bias Fortes de Juscelino, uma vez que as relações entre ambos estavam estremecidas em virtude de o governo federal não ter atendido a uma série de reivindicações de Minas Gerais. Além disso, Tancredo era o candidato natural do PSD à sucessão de Bias Fortes e seu ingresso no secretariado mineiro permitiria uma atuação mais próxima de suas bases eleitorais.

As eleições de 1958 não foram favoráveis ao PSD. Em Minas, onde o mandato era de cinco anos, não houve eleições para governador, mas o partido situacionista perdeu prefeituras importantes, especialmente na Zona da Mata, além de uma vaga no Senado, conquistada pelo udenista Mílton Campos. Esse resultado agravou o descontentamento dos principais líderes pessedistas mineiros com Juscelino, considerado omisso na campanha eleitoral e devedor de maior dedicação aos interesses do PSD. Diante dessas divergências,- Tancredo viajou para o Rio para tentar restabelecer a unidade partidária, reforçando ao mesmo tempo sua solidariedade ao presidente da República e ao governo.

Em julho de 1960, Tancredo deixou a Secretaria de Finanças para candidatar-se ao governo do estado, enfrentando uma série de dificuldades para consolidar sua campanha. O deputado estadual José Ribeiro Pena também pleiteava a indicação do PSD para esse cargo e, derrotado na convenção estadual, liderou uma dissidência com o apoio dos deputados federais José Maria Alkmin e Paulo Pinheiro Chagas. Os dissidentes registraram a chapa Ribeiro Pena-Alkmin na legenda do PDC e, com o apoio dos partidos Social Progressista (PSP) e Social Trabalhista (PST), iniciaram a campanha. Assim, a chapa Tancredo Neves-Clóvis Salgado (republicano de Leopoldina e ministro da Educação do governo de Juscelino) não conservou a unidade pessedista, apesar de apoiada pelo PTB e o PR.

Minas Gerais passava nessa época por uma fase de grandes dificuldades financeiras. Para enfrentar essa situação, Tancredo criara em sua gestão na Secretaria de Finanças uma frota de veículos que percorria as principais regiões- produtoras do estado para efetuar a cobrança de contribuintes faltosos, multando os atrasados e punindo os infratores. Durante a campanha eleitoral, as caravanas eleitorais do candidato udenista José de Magalhães Pinto passavam depois dos cobradores da Receita Estadual e, em cada discurso, Magalhães intercalava a frase de efeito que ficou famosa: "Em vez dos jipes de fiscalização eu vos enviarei os caminhões da produção."

Outra dificuldade da campanha de Tancredo foi a escolha dos candidatos a vice-governador. O PTB, em permanente desavença com o PR, lançou o nome do deputado federal Francisco Clementino de San Tiago Dantas, mas Nélson Thibau, também petebista, candidatou-se ao mesmo cargo pelo Partido Rural Trabalhista (PRT), partido integrante da coligação que apoiava Magalhães Pinto. Este não apresentou nenhum nome udenista para a vice-governança, preferindo beneficiar-se das divisões existentes no campo da aliança PSD-PTB.

A campanha eleitoral foi polarizada também pela divisão, em nível nacional, entre as candidaturas do general Lott, apoiado pela maior parte da coligação PSD-PTB, e de Jânio Quadros, candidato da UDN. A disputa se desenvolveu em meio a grande tensão e agressividade dos dois lados, controladas várias vezes pela imparcialidade de Juscelino, asperamente censurada pelos partidários de Lott. O petebista João Goulart, candidato à reeleição para a vice-presidência, também adotou uma posição moderada por não desejar chocar-se diretamente com Jânio Quadros. Com isso, os governadores do PSD e do PTB, assim como seus candidatos às sucessões, mantiveram muitas vezes atitudes evasivas em relação à candidatura do ex-ministro da Guerra. Tancredo Neves foi uma exceção, situando-se durante a campanha francamente a favor de Lott. Realizado o pleito em 3 de outubro de 1960, os resultados em Minas favoreceram a UDN. Jânio obteve 692.044 votos contra 679.951 dados a Lott; para a vice-presidência, Mílton Campos alcançou 667.573 votos e seu principal competidor, João Goulart, ficou com 660.337. Para o governo estadual, a diferença foi maior: 760.427 votos para Magalhães Pinto e 680.538 para Tancredo Neves. Entretanto, a aliança PSD-PR conseguiu eleger Clóvis Salgado vice-governador com 580.830 votos contra 304.395 dados a San Tiago Dantas, segundo colocado.

Antes de concluir seu mandato, Juscelino pretendeu assegurar posições em várias empresas públicas federais. Em 19 de novembro de 1960, nomeou Tancredo para a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). Jânio Quadros reagiu à pretensão de Kubitschek, dando a entender em entrevista que não aceitaria em sua administração interferências de pessoas que não detivessem sua inteira confiança. Depois da posse do novo governo federal, em 31 de janeiro de 1961, o nome de Tancredo foi cogitado para chefiar a embaixada brasileira na Bolívia, mas as incompatibilidades crescentes entre o presidente e o PSD interromperam as negociações. Contudo, permaneceu à frente do BNDE até março daquele ano.

Atuação como primeiro-ministro

A ação política de Tancredo em nível nacio-nal voltou a ganhar destaque durante a crise político-militar resultante da renúncia de Jânio Quadros à presidência da República em 25 de agosto de 1961. Seu substituto legal, o vice-presidente João Goulart, encontrava-se em visita oficial à China, fazendo com que a sessão conjunta do Congresso Nacional empossasse interinamente na chefia do governo o deputado Pascoal Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara. Goulart iniciou então sua viagem de volta ao Brasil, mas os três ministros militares - general Odílio Denis, almirante Sílvio Heck e brigadeiro Gabriel Grün Moss - decidiram vetar sua posse, alegando que o vice-presidente tinha ligações com os comunistas e desenvolvia atividades subversivas junto ao movimento sindical.

Avisado por Denis sobre o veto militar à sucessão prevista na Constituição, Ranieri Mazzilli resolveu levar o assunto ao conhecimento das principais lideranças políticas do país. Reuniu-se então com Ernâni Amaral Pei-xoto (presidente nacional do PSD), Ulisses Guimarães, Nélson Carneiro, José Maria Alkmin, José Martins Rodrigues e Tancredo Neves. Depois de várias horas de debates, Mazzilli pediu a presença dos ministros militares, que, através de Denis, reiteraram sua decisão anterior e se retiraram enquanto os políticos prosseguiam buscando uma fórmula para evitar a quebra da ordem constitucional.

Com a aproximação de Goulart - que vinha fazendo escalas sucessivas em vários aeroportos em direção a Montevidéu - e a adesão das tropas do III Exército ao movimento pela legalidade liderado pelo governador gaúcho Leonel Brizola, a crise se agravou. Contingentes do II Exército, sediado em São Paulo, chegaram a deslocar-se para o Sul com o objetivo de bloquear um possível avanço das tropas legalistas.

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