No começo do século XX houve um violento conflito de terra que envolveu posseiros pobres, negros, mestiços e indígenas, numa área de 25 mil quilômetros quadrados, região disputada pelas províncias do Paraná e Santa Catarina.
Uma companhia norte-americana, a Brazil Railway, que construiu a estrada de ferro São Paulo - Rio Grande, recebeu do governo, como parte do pagamento, terras em uma faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. Essa empresa deveria colonizar a área com imigrantes, mas o seu principal interesse era a exploração da floresta nativa, rica em pinheiros e imbuias.
A população que morava nessas terras como posseiros foi expulsa, e essa gente veio a se unir aos quase 8 mil trabalhadores da estrada de ferro que haviam sido recrutados nas grandes cidades e que, após o término da construção, se viram completamente abandonados. Também foram arruinados os pequenos madeireiros, pois não podiam competir com uma grande empresa estadunidense instalada na região do Contestado, a mais moderna serraria da América Latina, e que exportava a madeira para os Estados Unidos.
Há tempos aquela região era freqüentada por beatos, que se ocupavam da vida religiosa do povo. Há registros de um João Maria, a partir de 1840, que se seguiu a outro monge com o mesmo nome. O mais famoso foi um terceiro José Maria, que se dizia irmão do anterior e liderou, em 1912,a primeira revolta. O povo se uniu para lutar pela posse da terra, por uma sociedade mais justa, orientada por princípios religiosos.
Em 1914 houve um novo confronto em Taquaruçu que resultou em uma verdadeira carnificina. Os sobreviventes se reuniram em novo arraial, Caraguatá. Ali o movimento começou a receber novas adesões e a revolta ganhou um caráter mais organizado. Os rebeldes conseguiram manter o controle sobre a vasta região com inúmeras vilas onde viviam os seguidores do monge e alguns redutos estratégicos. O movimento foi liquidado em fins de 1915, após quase um ano de intensa luta. Pela primeira vez o governo brasileiro utilizou aviões de bombardeio e de reconhecimento. Os remanescentes refugiaram-se no vale do rio Santa Maria, onde foram esmagados por 6 mil soldados do Exército e da Polícia dos dois estados, além de mais mil homens fornecidos pelos coronéis da região.
A violência e crueldade foram marca da ação das forças governamentais. Casas incendiadas, mais de 6 mil pessoas mortas, inclusive mulheres e crianças.
Nesse movimento participaram também indígenas Kaingang e Xokleng, sendo que até hoje os Kaingang de Santa Catarina realizam o batismo de São João Maria. Os remanescentes do Contestado, chamados de cafusos, ainda vivem em Santa Catarina, mantendo uma organização comunitária, sendo seus líderes chamados de cacique e vice-cacique.
Fonte: geocities.yahoo.com.br
A história da Guerra do Contestado, que se desenrolou no Planalto catarinense entre os anos de 1912 e 1915, ainda não foi totalmente eluciada.
Há muito a ser descoberto e muito a ser admitido.
Afinal, num episódio onde devotos religiosos viram guerrilheiros e militares são transformados em jagunços sedentos por vingança, a verdade tende a ser escamoteada para favorecer a um ou a outro lado.
Mas o fato é que a memória está lá, viva e mais inquietante do que nunca, inspirando até os dias de hoje os moradores da região que um dia foi tão violentamente disputada entre os estados de Santa Catarina e do Paraná.
1910
A Brazil Railway conclui o trecho da Estrada de Ferro São Paulo Rio Grande do Sul, chegando ao Rio Urugaui. Cerca de 8 mil trabalhadores são dispensados e ficam perambulando pela região.
1911
É criada a Southern Brazil Lumber and Colonization company. É iniciada as expulsões de famílias de agricultores das margens da ferrovia e das terras próximas que eram ricas em pinheiros.
1912
Aparece em Campos Novos o monge José Maria.
Agosto, 6
Festa do Senhor bom Jesus na localidade de Taquaruçú, no município de Curitibanos. Convidados pelos festeiro no lugar, o monge José Maria comparece. A festa reúne uitos desempregados e famílias expulsas de suas terras pela Lumber and Colonization. Após a festa muitas famílias permanecem no local e passam a construir um núcleo de fiéis do monge. José Maria lê a História de Carlos Magnos e dos Doze Pares de França e ali constitui 24 homens como seus Doze Pares.
Outubro
Ameaçado pelo "coronel" Albuquerque, de Curitibanos, José Maria retira-se para o Irani (a oeste) seguido por 40 cavaleiros armados.
Outubro, 22
Batalha do Irani. Tropas do Regimento de segurança do Paraná atacam o monge e seus seguidores. No combate morre o coronel João Gualberto, comandante das tropas paranaenses, e o místico José Maria.
1913 Dezembro, 1º
início do reduto de Taquaruçu, sob a iderança de Euzébio dos Santos e Chico Ventura. Um filho de Euzébio, Manoel, é tido como vidente.
Dezembro, 29
Primeiro ataque a Taquaruçú, por tropas do Exército e da Polícia Militar Catarinense. Os atacantes são repelidos.
1914 Janeiro
Início do reduto de Caraguatá.
Fevereiro, 8
Segundo ataque a Taquaruçú. O reduto é bombardeado e arrasado. Os sobreviventes vão juntar-se ao reduto de caraguatá. ali, está no comando a viregem Maria Rosa.
Março, 9
Ataque de forças do Exército a Caraguatá. Grande vitória da Irmandade. Segue-se uma epidemia de tifo e o reduto é transferido para Bom sossego (vale do Timbozinho).
Abril
Assume o comando da repressão ao movimento o general Carlos de Mesquita. em sua ofensiva encontra o reduto de caraguatá já abandonado, limitando-se a queimar os ranchos que ainda encontrou. Dá sua missão por cumprida e deixa na região apenas uma tropa comandada pelo capitão Matos Costa, sediada em Vila Nova do timbó.
Junho
Lideranças populares da região de Canoinhas aderem à irmandade. Entre essas, Aleixo Gonçalnves de Lima, bonifácio Papudo e Antônio Tavares Jr. Também numeroso grupo da oposição de Curitibanos, liderado por Paulino Pereira. Formam-se diversos novos reduto menores.
Julho, 15
- Ataque da Irmandade a Canoinhas.
Agosto
Mudança do reduto principal para Caçador.
Setembro, 5
Destruição da Estação Calmon e da Serraria da Limber naquela localidade por um piquete da Irmandade comandado por Francisco Alonso.
Setembro, 6
Destruição da Estação São João. Emboscada ao trem militar comandado por Matos Costa, quando este perde a vida.
Setembro, 11
Chega à região o general Fernando Setembrino de Carvalho, para dirigir a guerra contra a Irmandade.
Setembro, 26
Piquete da irmandade ocupa Curitibanos. Na mesma época , outros piquetes ocupam, ao norte, Salseiro, Iracema, Moema, Papanduva.
Outubro, 26
Tropas do Exército ocupam Salseiro.
1915, Janeiro 8
Reduto Tavares, o mais oriental, é tomado.
Janeiro, 19
Operação de reconhecimento aéreo pelos aviadores capitão Kirk e Darioli.
Fevereiro
Operação "limpeza" do capitão Tertuliano Potyguara (com 200 soldados e 500 vaqueanos) no vale do Timbozinho. Destrói os redutos de São Sebastião e Pinheiros. Mais grupos vão reunir-se ao reduto principal de Santa Maria.
Fevereiro, 8
Primeiro ataque ao reduto Santa Maria, por tropas sob o comando do tte. Cel. Estillac Leal. A guarda do reduto repele ao ataque.
Março, 1º
Cai o aeroplano Morane-Saulnier do capitão Kirk, quando realizaa vôo de reconhecimento indo unir0se às tropas que atacariam o Santa Maria no dia seguinte. O piloto morre no acidente e a aviação não participou mais da guerra.
Março, 2
Novo ataque contra Santa Maria pela coluna Sul (Estillac Leal). Lançam-se obuses. Não tem êxito.
Março, fim do mês
Destacamento especial sob comando do capitão Potyguara avança pelo norte, tomando uma a uma as Guardas e os redutos anexados ao reduto principal. Entra finalmente em Santa Maria, mas fica cercado pela tática de defesa da Irmandade. Consegue socorro dos 2 mil homens de Estillac Leal. Santa Maria é totalmente incendiado.
Abril/Maio
Sob o comando de Adeodato muitos sobreviventes reagrupam-se em novos redutos (São Miguel depois São Pedro e Pedras Brancas) e, após a retirada do grosso das tropas, reiniciam a guerra. Muitos dos que tentaram se apresentar às tropas militares foram sumariamente fuzilados no mato.
Outubro, 17
O reduto de Pedras Brancas é tomado.
Dezembro, 17
O último reduto, São Pedro, é destruído por uma força de vaqueanos.
1916, Agosto
Adeodato Manoel de Ramos, último comandante "Jagunço" é preso e enviado para a cadeia em Florianópolis. 7 anos depois tenta fugir e é morto por um oficial... (Nos anos que se seguiram, os sobreviventes sertanejos continuaram sendo caçados e fuzilados, ou degolados, por policiais e piquetes de vaqueanos, a mando dos coronéis).
Outubro, 20
É assinado o Tratado dos Limites, entre o Paraná e Santa Catarina, pondo fim ao mais sangrento conflito camponês dos tempos modernos.
Fonte: www.transrodace.com.br