À Sombra do Passado

À SOMBRA DO PASSADO

Índios guaranis lutam para recuperar terra e cultura nas missões

Pôr do sol nas ruínas de São Miguel
Pôr do Sol nas ruínas de São Miguel

No início de 1994, um grupo de guaranis foi enxotado de uma cidade gaúcha, pois os donos do lugar não queriam índios zanzando na região. Colocaram a carga indesejada em uma kombi e a depositaram no município de São Miguel das Missões que, de acordo com a prefeitura descontente, dona da kombi e do direito de ir e vir, lá sim era terra de índio.

Recebidos pela população, os guaranis montaram uma aldeia, onde vivem até hoje. Nos finais de semana e dias de grande movimento, como nas festas de final de ano, famílias inteiras deixam silenciosamente suas casas de lona cobertas com palha - que mais se assemelham a barracos de um acampamento sem-terra - e caminham alguns quilômetros até atingir as ruínas da velha igreja. Não falam com estranhos, talvez por também se sentirem estrangeiros nessa terra.

Chegando, estendem pelo chão onças, corujas, tamanduás, arcos e flechas, cruzes e outros artesanatos feitos de madeira queimada e bambu, contas e outros penduricalhos. O parco português da maioria é suficiente apenas para dizer os preços aos turistas: a partir de R$ 4,00, dependendo do trabalho gasto na confecção da peça. Ao mesmo tempo em que os pais negociam, as crianças brincam pelo gramado do sítio arqueológico. Correm e jogam futebol, fazendo de traves dois restos de colunas com mais de 300 anos de idade. A bola vai rolando, ignorando a presença de quem quer que seja, enquanto a outra desce vagarosamente em direção ao horizonte pintando o céu de dourado. Provavelmente um presente de Pedro a Miguel, pois é véspera de Natal. Outras crianças, ficam à espera de turistas no estacionamento, correndo em sua direção. “Troquinho, troquinho!.” Esmolas nessa noite são mais difíceis de serem negadas.

Índia expõe artesanato a turistas na véspera de natal
Índia expõe artesanato a turistas na véspera de Natal

A concentração de visitantes vai aumentando: afinal de contas todos querem assistir a missa nas ruínas do povoado jesuíta de São Miguel Arcanjo, tornado Monumento Nacional desde 1938 e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1983. São Miguel era a antiga capital dos Sete Povos das Missões, cidades guaranis que por conta do trabalho dos padres da Companhia de Jesus, chegaram a juntar milhares de almas pagãs convertidas à fé católica.

Um turista se aproxima, pede licença e abraça uma velha índia enquanto outro tira a foto. Sai contente, quase se esquecendo de agradecer: “essa vai ficar para história!”. Depois se aproxima de uma parede da igreja e bate outro retrato com o mesmo sorriso no rosto.

Quando a noite cai e a missa começa, já não há mais nenhum guarani nas ruínas. Apenas o refletor iluminando um altar improvisado, cercado pela multidão. Na fala do bispo, convidado da vizinha Santo Ângelo para a cerimônia, graças aos céus por 500 anos de cristianização e três séculos da ação da Companhia de Jesus.

Os índios retornam à aldeia levando de volta suas réplicas de cruz jesuítica que, apesar de fazerem sucesso entre os turistas, não foram totalmente vendidas desta vez. O povo construtor daquela cidade, hoje em ruínas, que já foi senhor de todas as terras ao redor, sobrevive de réplicas de seu passado vendidas a turistas brancos.

Uma fina ironia que, para ser compreendida melhor, necessita de alguns séculos de explicação.

Conquista Espiritual

O crescimento das religiões protestantes por toda a Europa levou a um movimento de contra-reforma pelas mãos da Santa Sé com o objetivo de reduzir as baixas e diminuir os prejuízos. Por um lado, houve algumas mudanças necessárias como o fim da venda e comercialização de indulgências. Porém, quase todas as outras medidas tornavam ainda mais severa a intransigência religiosa.

Onde a argumentação não funcionou foram utilizadas técnicas de intimidação. A Inquisição percorreu boa parte do velho continente buscando hereges e infiéis, porém foi na Península Ibérica e na Itália que alcançou o auge do terror, conseguindo, por fim, apagar desses lugares os vestígios de protestantismo.

Escultura em madeira policromada feita por guaranis entre os séculos XVII e XVIII
Escultura em madeira policromada feita por guaranis entre os séculos XVII e XVIII

Em 27 de setembro de 1540, o papa Paulo III deu estatuto religioso à Companhia de Jesus, liderada pelo ex-guerreiro espanhol Inácio de Loyola. Os jesuítas - como conhecidos os seus integrantes - eram, antes de mais nada, soldados que utilizavam como armas a persuasão e o conhecimento das doutrinas da igreja. Assim, partiram aos mais distantes cantos do mundo para difundir o catolicismo.

Nessa época, Portugal e Espanha lançavam-se às suas conquistas de além mar, invadindo as terras do Novo Mundo e escravizando ou eliminando seus antigos moradores. E um dos locais escolhidos pelos jesuítas foi exatamente o Novo Mundo e suas legiões de pagãos que adoravam a natureza e precisavam ter suas almas salvas.

Os jesuítas permaneceram no Brasil até 1760, data de sua expulsão, cumprindo-se decreto do Marquês de Pombal de um ano antes. Pouco tempo depois, por influência de Pombal, também foram enxotados das terras da Espanha e da França e por fim, extintos pelo papa Clemente XIX em 1773. Iriam ressurgir em 1783 por ordem de Pio VI, mas já sem a força de antes.

Com o objetivo de levar a fé católica aos mais distantes lugares acabaram sendo responsáveis por parte de nosso desenvolvimento urbano, fundando vilas e povoações, entre elas a de São Paulo, em 1554. Mas foi o governo espanhol que viu neles a viabilização para suas nascentes colônias na região da bacia do rio da Prata.

Civilizar para catequizar, organizando politicamente e estruturando o território. E em 1607, começou a ser criada a Província Jesuítica do Paraguai nas terras pertencentes à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas e hoje divididas entre o Paraguai, a Argentina e o Brasil. Os índios, através da ação dos padres, foram convencidos a deixar as aldeias nas matas e montanhas e a morar em povoados, por eles mesmos erguidos. Ao todo, as missões foram compostas por 30 reduções jesuíticas, agrupando dezenas de milhares de índios.

A produção agrícola, destaque para produção de erva mate, e pecuária conseqüente dessa organização social foi muito proveitosa para a coroa espanhola. Além disso, as missões jesuíticas foram responsáveis pela implantação de algumas das primeiras manufaturas da continente americano, do trabalho com o couro à metalurgia.

Esculturas do Museu das Missões, dentro do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo
Esculturas do Museu das Missões, dentro do sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo

A missão de São Miguel Arcanjo foi fundada em 1632, no centro do atual Estado do Rio Grande do Sul. Simultaneamente às ações da Companhia de Jesus, os bandeirantes partiam país adentro em busca de ouro, pedras preciosas e força de trabalho. A captura e a comercialização de escravos índios foi um dos negócios mais lucrativos dos paulistas e o desenvolvimento desses povoados rapidamente atraiu a atenção sua atenção. Apesar das missões estarem sob a proteção de Madri, os bandeirantes ignoraram Tordesilhas e avançaram sob o consentimento de Lisboa.

Por isso, não muito tempo depois, jesuítas e guaranis foram forçados a abandonar esse povoado e empurrados para o outro lado do rio Uruguai com destino ao atual território da Argentina. Retornaram em 1687, reconstruindo São Miguel Arcanjo, agora em sua localização definitiva.

Sete Povos das Missões

Em território brasileiro, foram criadas sete cidades, sete reduções missioneiras que ficaram conhecidas como os Sete Povos das Missões: São Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço Mártir, São Nicolau, São João Batista, Santo Angelo Custódio e São Miguel Arcanjo.

Os jesuítas não foram santos. Eram soldados e agiam como tal em busca do objetivo. Com o uso da retórica e outros artifícios, forçaram guaranis a mudar o seu secular estilo de vida e a aceitar a religião católica como única forma de salvação. Porém, as reduções serviram também como forma de organizar os índios contra ataques de fazedores de escravos e de garantir um diálogo entre os antigos e os novos donos daquela terra. E se eles nunca tivessem vindo, teria sido melhor ou pior? Discussão que não levaria a lugar nenhum uma vez que, na história, não existe o condicional “se”.

Não os absolvendo, mas levando isso em conta, é impossível não reconhecer a produção cultural no apogeu dos Sete Povos entre os séculos XVII e XVIII. Muitos jesuítas eram mestres escultores, pintores, músicos, arquitetos, escritores. Esses europeus ensinaram aos guaranis técnicas artísticas, tentando reproduzir o que consideravam o padrão de civilização. Construíram-se instrumentos musicais tocados por orquestras indígenas. Produziram-se tecidos para vestimentas. Nasceram estátuas de santos e anjos em madeira policromada que adornavam o interior das igrejas e catedrais. Esculturas em arenito, telas pintadas a óleo, criando um estilo novo de arte, o barroco missioneiro.

Os povoados eram projetados e seguiram padrões. O edifício mais imponente era o da igreja, que ficava de frente para a praça, centro de toda a vida social. Em volta dela, ficavam as casas dos índios e o cabildo, ou conselho dos caciques. De um lado da igreja, o colégio, a residência dos padres e oficinas. Do outro, o cemitério e o cotiguaçú, uma casa que recebia os órfãos e as viúvas. Atrás, o pomar e hortas dos jesuítas. Nas redondezas, fontes de água, olarias, cortumes, açudes e plantações.

Maquete do povoado de São Miguel Arcanjo
Maquete do povoado de São Miguel Arcanjo que se encontra no sítio arqueológico.
O maior edifício é a catedral. E as dezenas de construções iguais, as casas dos índios

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