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Batalha da Borracha

 

A história da grande batalha da borracha na 2ª Guerra Mundial

Batalha da Borracha

A segunda grande Guerra Mundial, em fins de 1941, estava tomando rumos muito perigosos.

Além de não conseguir conter a ofensiva alemã, os paises aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias primas estratégicas. E nenhuma situação era mais preocupante do que a da borracha, cujas reservas estavam tão baixas que o governo americano se viu obrigado a tomar uma série de duras medidas internas. Toda a borracha disponível deveria ser utilizada somente pela máquina de guerra.

A entrada do Japão no conflito, a partir do ataque de Pearl Harbour, impôs o bloqueio definitivo dos produtores de borracha. Já no principio de 1942 o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras asiáticas, tornando crítica a disponibilidade da borracha para a indústria bélica dos aliados.

Por estranho que possa parecer foi essa seqüência de acontecimentos, ocorridos em sua maioria no hemisfério Norte ou do outro lado do Oceano Pacífico, que deu origem no Brasil à quase desconhecida Batalha da Borracha.

Uma história de imensos sacrifícios para milhares de brasileiros mandados para os seringais amazônicos em nome da grande guerra que conflagrava o mundo civilizado. Um capítulo obscuro e sem glórias de nossa história que só permanece vivo na memória e no abandono dos últimos soldados da borracha.

Acordos de Washington

Batalha da Borracha

Quando a extensão da guerra ao Pacífico e ao Indico, interrompeu o fornecimento da borracha asiática as autoridades norte-americanas entraram em pânico. O presidente Roosevelt nomeou uma comissão para estudar a situação dos estoques de matérias-primas essenciais para a guerra.

E os resultados obtidos por essa comissão foram alarmantes: “De todos os materiais críticos e estratégicos, a borracha é aquele que apresenta a maior ameaça à segurança de nossa nação e ao êxito da causa aliada (...) Consideramos a situação presente tão perigosa que, se não se tomarem medidas corretivas imediatas, este país entrará em colapso civil e militar. A crueza dos fatos é advertência que não pode ser ignorada” (Comissão Baruch).

As atenções do governo americano se voltaram então para a Amazônia, grande reservatório natural de borracha, com cerca de 300.000.000 de seringueiras prontas para a produção de 800.000 toneladas de borracha anuais, mais que o dobro das necessidades americanas.

Entretanto, nessa época, só havia na região cerca de 35.000 seringueiros em atividade com uma produção de 16.000-17.000 toneladas na safra de 1940-41. Seriam necessários, pelo menos, mais 100.000 trabalhadores para reativar a produção amazônica e eleva-la ao nível de 70.000 toneladas anuais no menor espaço de tempo possível.

Para alcançar esse objetivo ocorreram intensas negociações entre autoridades brasileiras e norte-americanas que culminaram com a assinatura dos Acordos de Washington. Ficou acertado então que o governo americano passaria a investir fortemente no financiamento da produção de borracha amazônica, enquanto ao governo brasileiro caberia o encaminhamento de milhares de trabalhadores para os seringais, no que passou a ser tratado como um heróico esforço de guerra. Tudo ótimo enquanto as coisas estavam no papel, mas muito complicadas quando chegou a hora de pô-las em prática.

Fome com vontade de comer

Batalha da Borracha

Para o governo brasileiro era juntar a fome com a vontade de comer, literalmente. Somente em Fortaleza cerca de 30.000 flagelados da seca de 41-42 estavam disponíveis para serem enviados imediatamente para os seringais. Mesmo que de forma pouco organizada o DNI (Departamento Nacional de Imigração) ainda conseguiu enviar para a Amazônia, durante o ano de 1942, quase 15.000 pessoas, sendo a metade de homens aptos ao trabalho.

Eram os primeiros soldados da borracha. Simples retirantes que se amontoavam com suas famílias por todo o nordeste fugindo de uma seca que teimava em não se acabar. O que era, evidentemente, muito pouco diante das pretensões norte-americanas.

O problema era a baixa capacidade de transporte das empresas de navegação dos rios amazônicos e a pouca disponibilidade de alojamento para os trabalhadores em transito. Mesmo com o fornecimento de passagens do Loyd, com a abertura de créditos especiais pelo governo brasileiro e com a promessa do governo americano de pagar U$ 100 por cada novo trabalhador instalado no seringal as dificuldades eram imensas e pareciam intransponíveis.

Isso só começou a ser solucionado em 1943 através do investimento maciço que os americanos fizeram na SNAPP (Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará) e da construção de alojamentos espalhados ao longo do trajeto a ser percorrido pelos soldados da borracha.

Para acelerar ainda mais a transferência de trabalhadores para a Amazônia e aumentar significativamente sua produção de borracha os governos norte-americano e brasileiro encarregaram diversos órgãos da realização da “Batalha da Borracha”. Pelo lado americano estavam envolvidas a RDC (Rubber Development Corporation), a Board of Economic Warfare, a RRC (Rubber Reserve Company), a Reconstruccion Finance Corporation e a Defense Supllies Corporation. Enquanto que pelo lado brasileiro foram criados o SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), depois substituída pela CAETA (Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia), a SAVA (Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico) e o BCB (Banco de Crédito da Borracha), entre outros.

Esses novos órgãos, em muitos casos, se sobrepunham a outros já existentes como o DNI e não precisamos de muito esforço para imaginar o tamanho da confusão oficial que se tornou essa tal Batalha da Borracha.

Ilusão do paraíso

Batalha da Borracha

Em todas as regiões do Brasil aliciadores tratavam de convencer trabalhadores a se alistar como soldados da borracha para auxiliar na vitória aliada. Alistamento, recrutamento, voluntários, soldados, esforço de guerra, se tornaram termos comuns no cotidiano popular. A mobilização de trabalhadores para a Amazônia realizada pelo Estado Novo foi revestida por toda a força simbólica e coercitiva que os tempos de guerra possibilitavam.

No Nordeste, de onde deveria sair o maior numero de soldados, o SEMTA convocou padres, médicos e professores para o recrutamento de todos os homens aptos ao esforço de guerra que tinha que ser empreendido nas florestas amazônicas. O artista suíço Chabloz foi contratado para produzir material de divulgação acerca da “realidade” que os esperava.

Nos cartazes coloridos os seringueiros apareciam recolhendo baldes de látex que escorria como água de grossas seringueiras. Todo o caminho que levava do sertão nordestino, seco e amarelo, ao paraíso verde e úmido da Amazônia estava retratado naqueles cartazes repletos de palavras fortes e otimistas. O bordão “Borracha para a Vitória” tornou-se o emblema da mobilização realizada por todo o nordeste.

Histórias de enriquecimento fácil circulavam de boca em boca. “Na Amazônia se junta dinheiro com rodo”. Os velhos mitos do Eldorado amazônico voltavam a ganhar força no imaginário popular. O paraíso perdido, a terra da fartura e da promissão, onde a floresta era sempre verde e a seca desconhecida.

Os cartazes mostravam caminhões carregando toneladas de borracha colhidas com fartura pelos trabalhadores. Imagens coletadas por Chabloz nas plantações da Firestone na Malásia, sem nenhuma conexão com a realidade que esperava os trabalhadores nos seringais amazônicos. Mas, perder o que? Afinal de contas — espalhadas pelas esquinas, nas paredes das casas e nos bares — a colorida propaganda oficial garantia que todos os trabalhadores teriam passagem grátis e seriam protegidos pelo SEMTA.

Quando nem todas as promessas e quimeras funcionavam, sempre restava o bom e velho recrutamento forçado de jovens.

A muitas famílias do sertão nordestino foram dadas somente duas opções: ou seus filhos partiam para os seringais como soldados da borracha ou então deveriam seguir para o front lutar contra os italianos e alemães. Muitos preferiram a Amazônia.

Caminhos da guerra

Batalha da Borracha

Ao chegar aos alojamentos organizados pelo SEMTA o trabalhador recebia um chapéu, um par de alparcatas, uma blusa de morim branco, uma calça de mescla azul, uma caneca, um talher, um prato, uma rede, cigarros, um salário de meio dólar por dia e a expectativa de logo embarcar para a Amazônia.

Os navios do Loyd saiam dos portos nordestinos abarrotados de homens, mulheres e crianças de todas as partes do Brasil. Primeiro rumo ao Maranhão e depois para Belém, Manaus, Rio Branco e outras cidades menores onde as turmas de trabalhadores seriam entregues aos “patrões” (seringalistas) que deveriam conduzi-los até os seringais onde, finalmente, poderiam cumprir seu dever para com a Pátria.

Aparentemente tudo muito organizado. Pelo menos frente aos olhos dos americanos que estavam nos fornecendo centenas de embarcações e caminhões, toneladas de suprimentos e muito, muito, dinheiro. Tanto dinheiro que dava pra desperdiçar em mais propaganda, em erros administrativos que faziam uma pequena cidade do sertão nordestino ser inundada por um enorme carregamento de café solicitado não se sabe por quem, ou no sumiço de mais de 1.500 mulas entre São Paulo e o Acre.

Na verdade, o caminho até o eldorado amazônico era muito mais longo e difícil do que poderiam imaginar tanto americanos quanto soldados da borracha. A começar pelo medo do ataque dos submarinos alemães que se espalhava entre as famílias amontoadas a bordo dos navios do Loyd comboiados por caça-minas e aviões de guerra. Memórias marcadas por aqueles momentos em que era proibido acender fósforos ou mesmo falar. Tempos de medo que estavam só começando.

A partir do Maranhão não havia um fluxo organizado de encaminhamento de trabalhadores para os seringais. Freqüentemente era preciso esperar muito antes que as turmas tivessem oportunidade para seguir viagem. A maioria dos alojamentos que recebiam os imigrantes em transito eram verdadeiros campos de concentração onde as péssimas condições de alimentação e higiene acabavam com a saúde dos trabalhadores antes mesmo que fizessem o primeiro corte nas seringueiras.

Não que não houvesse comida. Havia, e muita. Mas era tão ruim, tão mal feita, que era comum ver as lixeiras dos alojamentos cheias enquanto as pessoas adoeciam com fome. Muitos alojamentos foram construídos em lugares infestados pela malária, febre amarela e icterícia. Surtos epidêmicos matavam dezenas de soldados da borracha e seus familiares nos pousos de Belém, Manaus e outros portos amazônicos. O atendimento médico inexistia longe das propagandas oficiais e os conflitos se espalhavam entre os soldados já quase derrotados.

A desordem era tanta que muitos abandonaram os alojamentos e passaram a perambular pelas ruas de Manaus e outras cidades buscando um modo de retornar a sua terra de origem, ou de pelo menos sobreviver. Outras tantas revoltas paralisaram os gaiolas em meio de viagem diante das alarmantes notícias sobre a vida nos seringais. Pequenos motins rapidamente abafados pelos funcionários da SNAPP ou da SAVA. Esse parecia ser então um caminho sem volta.

Soldados da floresta

Batalha da Borracha

Os que conseguiam efetivamente chegar aos seringais depois de três ou mais meses de viagem já sabiam que suas dificuldades estavam apenas começando. Os recém chegados eram tratados como “brabos”. Aqueles que ainda não sabem cortar seringa e cuja produção no primeiro ano é sempre muito pequena. Só a partir do segundo ano de trabalho o seringueiro era considerado “manso”. Mesmo assim, desde o momento em que era escolhido e embarcado para o seringal, o brabo já começava a acumular uma divida com o patrão.

Uma divida que crescia rapidamente porque tudo que recebia era cobrado. Mantimentos, ferramentas, tigelas, roupas, armas, munição, remédios, tudo enfim era anotado na sua conta corrente. Só no fim da safra a produção da borracha de cada seringueiro era abatida do valor de sua dívida. Mas o valor de sua produção era, quase sempre, inferior a quantia devida ao patrão.

E não adiantava argumentar que o valor cobrado pelas mercadorias no barracão do seringalista era cinco ou mais vezes maior do que aquele praticado nas cidades, os seringueiros eram proibidos de vender ou comprar de outro lugar. Cedo os soldados da borracha descobriam que no seringal a palavra do patrão era a lei e a lógica daquela guerra.

Os financiadores americanos insistiam que não se deveriam repetir os abusos do sistema de aviamento que caracterizaram o primeiro ciclo da borracha. Na pratica, entretanto, o contrato de trabalho assinado entre seringalista e soldado da borracha quase nunca foi respeitado. A não ser para assegurar os direitos dos seringalistas. Como no caso da clausula que impedia o seringueiro de abandonar o seringal enquanto não saldasse sua divida com o patrão, o que tornava a maioria dos seringueiros verdadeiros prisioneiros de suas colocações de seringa.

Todas as tentativas de implantação de um novo regime de trabalho, como o fornecimento de suprimentos direto aos seringueiros, fracassaram diante da pressão e poderio das casas aviadoras e dos seringalistas que dominavam secularmente o processo da produção da borracha na Amazônia.

Guerra que não terminou

Mesmo com todos os problemas enfrentados (ou provocados) pelos órgãos encarregados da Batalha da Borracha cerca de 60.000 pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos entre 1942 e 1945. Desse total quase a metade acabou morrendo em razão das péssimas condições de transporte, alojamento e alimentação durante a viagem. Como também pela absoluta falta de assistência médica, ou mesmo em função dos inúmeros problemas ou conflitos enfrentados nos seringais.

Ainda assim o crescimento da produção de borracha na Amazônia nesse período foi infinitamente menor do que o esperado. O que levou o governo norte-americano, já a partir de 1944, a transferir muitas de suas atribuições para órgãos brasileiros. E tão logo a Guerra Mundial chegou ao fim, no ano seguinte, os Estados Unidos se apressaram em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. Afinal de contas, o acesso às regiões produtoras do sudeste asiático estava novamente aberto e o mercado internacional logo se normalizaria.

Era o fim da Batalha da Borracha, mas não da guerra travada pelos soldados dela. Muitos, imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, sequer foram avisados que a guerra tinha terminado, só vindo a descobrir isso anos depois. Alguns voltaram para suas regiões de origem como haviam partido, sem um tostão no bolso, ou pior, alquebrados e sem saúde. Outros conseguiram criar raízes na floresta e ali construir suas vidas. Poucos, muito poucos, conseguiram tirar algum proveito econômico dessa batalha incompreensível, aparentemente sem armas, sem tiros, mas com tantas vítimas.

Pelo menos uma coisa todos os soldados da borracha, sem exceção, receberam. O descaso do governo brasileiro, que os abandonou a própria sorte, apesar de todos os acordos e promessas feitos antes e durante a Batalha da Borracha. Só a partir da Constituição de 1988, mais de quarenta anos depois do fim da Guerra Mundial, os soldados da borracha passaram a receber uma pensão como reconhecimento pelo serviço prestado ao país. Uma pensão irrisória, dez vezes menor que a pensão recebida por aqueles que foram lutar na Itália. Por isso, ainda hoje, em diversas cidades brasileiras, no dia 1º de maio os soldados da borracha se reúnem para continuar a luta pelo reconhecimento de seus direitos.

Nem poderia ser diferente já que dos 20.000 brasileiros que lutaram na Itália morreram somente 454 combatentes. Enquanto que entre os quase 60.000 soldados da borracha cerca da metade morreu durante a guerra. Apesar disso, com a mesma intensidade com que os pracinhas foram recebidos triunfalmente pela sociedade brasileira, após o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, os soldados da borracha foram incompreensivelmente abandonados e esquecidos, afinal de contas eram todos igualmente soldados.

Marcos Vinicius Neves

Fonte: www.kaxi.com.br

Batalha da Borracha

A “Batalha da Borracha” na Segunda Guerra Mundial

A “Batalha da Borracha na Segunda Guerra Mundial”, do saudoso Pedro Martinello, pode ser considerada uma obra clássica da historiografia acreana, na medida em que até o presente inexiste outro trabalho que, com rigor teórico e pesquisa documental consistente, tenha apresentado contributos relevantes para a construção de uma história econômica do Acre.

O referido estudo constitui um marco divisor em relação aos estudos históricos acerca do Acre. Pedro Martinello, partindo de uma problemática geral, a Segunda Guerra Mundial, buscou mostrar as conexões desta com a Amazônia Sul Ocidental (o Acre), ao demonstrar que neste período a região foi, mais uma vez, inserida pelo grande capital à economia mundial com um grande produtor e exportador de borracha para os países aliados que, capitaneados pelos E.U.A., se confrontava com o nazi-fascismo em expansão na Europa.

Mas, o mérito deste estudo foi ir além de uma história estritamente econômica, ao revelar as entranhas da rede de interesses políticos e sociais tecida pelo capital internacional consorciado com o governo brasileiro para viabilizar a “batalhar da borracha” em detrimento da vida de milhares de nordestinos que foram “deslocados” do Nordeste para Amazônia na condição de soldados-seringueiros.

Esses “soldados seringueiros”, cuja via sacra se manifestava na viagem do Nordeste do Acre, foram inseridos em condições de trabalho e vida que exauriram as suas forças físicas, na medida em que construíram legiões de homens mergulhados no interior da floresta a produzir incessantemente borracha para atender o esforço de guerra.

Ao término da Segunda Guerra, a saga do nordestino no Acre foi constituir a “legião dos esquecidos”, tanto do grande capital quanto do governo brasileiro, e só muitos anos depois é que foram “reconhecidos” como “soldados da borracha”, tendo direito a um soldo irrisório frente a contribuição que deram ao Brasil e ao mundo. Sem a borracha do Acre, considerada, na época, uma das melhores, teria sido bem mais difícil vencermos a barbárie instruída pelo nazi-fascismo.

Construindo uma história sem determinações e sem compartimentações, Pedro Martinello legou à academia um texto bem escrito e apaixonado acerca de um dos acontecimentos da historia acreana.

Pedro Martinello

Fonte: www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br

Batalha da Borracha

A heróica e desprezada batalha da borracha

Sem ter sido um episódio propriamente militar, a tentativa de ampliar dramaticamente a produção brasileira de borracha foi um projeto governamental que recebeu apoio técnico e financeiro dos norte-americanos em guerra contra o eixo Roma, Berlim e Tóquio.

Os nordestinos recrutados para trabalhar nos seringais foram chamados de "soldados da borracha", mas jamais receberam soldo nem medalhas

Jovens recrutados fazem ginática nos alojamentos, preparando-se para o trabalho nos seringais, Fortaleza, Ceará

Batalha da Borracha

De repente, em plena Segunda Guerra, os japoneses cortaram o fornecimento de borracha para os Estados Unidos. Como resultado, milhares de brasileiros do Nordeste foram enviados para os seringais amazônicos, em nome da luta contra o nazismo.

Essa foi a Batalha da Borracha, um capítulo obscuro e sem glória do nosso passado, ainda vivo na memória dos últimos e ainda abandonados sobreviventes.

No final de 1941, os países aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias-primas estratégicas. E nenhum caso era mais alarmante do que o da borracha. A entrada do Japão no conflito determinou o bloqueio definitivo dos produtores asiáticos de borracha. Já no princípio de 1942, o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras do Pacífico, tornando crítica a disponibilidade do produto para a indústria bélica dos aliados.

A conjunção desses acontecimentos deu origem no Brasil à quase desconhecida Batalha da Borracha. Uma história de imensos sacrifícios para milhares de trabalhadores que foram para a Amazônia e que, em função do estado de guerra, receberam inicialmente um tratamento semelhante ao dos soldados.

Mas, ao final, o saldo foi muito diferente: dos 20 mil combatentes na Itália, morreram apenas 454. Entre os quase 60 mil soldados da borracha, porém, cerca da metade desapareceu na selva amazônica.

Os Acordos de Washington

Quando a extensão da guerra ao Pacífico e ao Índico interrompeu o fornecimento da borracha asiática, as autoridades americanas entraram em pânico. O presidente Roosevelt nomeou uma comissão para estudar a situação dos estoques de matérias-primas essenciais para a guerra.

E os resultados obtidos por essa comissão foram assustadores:

"De todos os materiais críticos e estratégicos, a borracha é aquele cuja falta representa a maior ameaça à segurança de nossa nação e ao êxito da causa aliada (...) Consideramos a situação presente tão perigosa que, se não se tomarem medidas corretivas imediatas, este país entrará em colapso civil e militar. A crueza dos fatos é advertência que não pode ser ignorada." (Comissão Baruch)

As atenções do governo americano se voltaram então para a Amazônia, grande reservatório natural de borracha, com cerca de 300 milhões de seringueiras prontas para a produção de 800 mil toneladas de borracha anuais, mais que o dobro das necessidades americanas. Entretanto, naquela época, só havia na região cerca de 35 mil seringueiros em atividade com uma produção de 16 mil a 17 mil toneladas na safra de 1940-1941. Seriam necessários, pelo menos, mais 100 mil trabalhadores para reativar a produção amazônica e elevá-la ao nível de 70 mil toneladas anuais no menor espaço de tempo possível.

Para alcançar esse objetivo, iniciaram-se intensas negociações entre as autoridades brasileiras e americanas, que culminaram com a assinatura dos Acordos de Washington. Como resultado, ficou estabelecido que o governo americano passaria a investir maciçamente no financiamento da produção de borracha amazônica.

Em contrapartida, caberia ao governo brasileiro o encaminhamento de grandes contingentes de trabalhadores para os seringais - decisão que passou a ser tratada como um heróico esforço de guerra. No papel, o esquema parece simples, mas a realidade mostrou-se muito mais complicada quando chegou o momento de colocá-lo em prática.

A Batalha da Borracha

Para o governo brasileiro era uma oportunidade para mitigar alguns dos mais graves problemas sociais brasileiros. Somente em Fortaleza, cerca de 30 mil flagelados da seca de 1941-1942 estavam disponíveis para ser enviados imediatamente para os seringais. Mesmo que de forma pouco organizada, o DNI (Departamento Nacional de Imigração) ainda conseguiu enviar quase 15 mil pessoas para a Amazônia, durante o ano de 1942, metade das quais homens aptos ao trabalho nos seringais.

Aqueles eram os primeiros soldados da borracha. Simples retirantes que se amontoavam com suas famílias por todo o nordeste, fugindo de uma seca que teimava em não acabar e os reduzia à miséria. Mas aquele primeiro grupo era, evidentemente, muito pequeno diante das pretensões americanas.

O problema era a baixa capacidade de transporte das empresas de navegação dos rios amazônicos e a pouca disponibilidade de alojamento para os trabalhadores em trânsito. Mesmo com o fornecimento de passagens do Lloyd, com a abertura de créditos especiais pelo governo brasileiro e com a promessa do governo americano de pagar US$ 100 por um novo trabalhador instalado no seringal, as dificuldades eram imensas e pareciam intransponíveis. Isso só começou a ser solucionado em 1943 por meio do investimento maciço que os americanos realizaram no Snapp (Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará) e da construção de alojamentos espalhados ao longo do trajeto percorrido pelos soldados da borracha.

Para acelerar ainda mais a transferência de trabalhadores para a Amazônia e aumentar significativamente sua produção de borracha os governos americano e brasileiro encarregaram diversos órgãos do gerenciamento do programa. Pelo lado americano estavam envolvidas a RDC (Rubber Development Corporation), a Board of Economic Warfare, a RRC (Rubber Reserve Company), a Reconstrucction Finance Corporation e a Defense Supllies Corporation. Pelo lado brasileiro, foram criados o Semta (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), depois substituído pela Caeta (Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia), a Sava (Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico) e o BCB (Banco de Crédito da Borracha), entre outros.

Esses novos órgãos, em muitos casos, se sobrepunham a outros já existentes, como o DNI, e não é preciso muito esforço para imaginar o tamanho da confusão oficial que se tornou o empreendimento.

A ilusão do paraíso

Em todas as regiões do Brasil, aliciadores tratavam de convencer trabalhadores a se alistar como soldados da borracha e, assim, auxiliar a causa aliada.

Alistamento, recrutamento, voluntários, esforço de guerra tornaram-se termos comuns no cotidiano popular. A mobilização de trabalhadores para a Amazônia coordenada pelo Estado Novo foi revestida por toda a força simbólica e coercitiva que os tempos de guerra possibilitavam.

No nordeste, de onde deveria sair o maior numero de soldados, o Semta convocou padres, médicos e professores para o recrutamento de todos os homens aptos ao grande projeto que precisava ser empreendido nas florestas amazônicas. O artista suíço Chabloz foi contratado para produzir material de divulgação acerca da "realidade" que os esperava.

Nos cartazes coloridos os seringueiros apareciam recolhendo baldes de látex que escorria como água de grossas seringueiras. Todo o caminho que levava do sertão nordestino, seco e amarelo, ao paraíso verde e úmido da Amazônia estava retratado naqueles cartazes repletos de palavras fortes e otimistas. O slogan "Borracha para a Vitória" tornou-se o emblema da mobilização realizada por todo o nordeste.

Espalhadas pelas esquinas, nas paredes das casas e nos bares, a colorida propaganda oficial garantia que todos os trabalhadores teriam passagem grátis e seriam protegidos pelo Semta. Histórias de enriquecimento fácil circulavam de boca em boca. "Na Amazônia se junta dinheiro com rodo." Os velhos mitos do Eldorado amazônico voltavam a ganhar força no imaginário popular.

O paraíso perdido, a terra da fartura e da promissão, onde a floresta era sempre verde e a seca desconhecida. Os cartazes mostravam caminhões carregando toneladas de borracha colhidas com fartura pelos trabalhadores. Eram imagens coletadas por Chabloz nas plantações da Firestone na Malásia, sem nenhuma conexão com a realidade que esperava os trabalhadores nos seringais amazônicos. Afinal de contas, o que os flagelados teriam a perder?

Quando nenhuma das promessas e quimeras funcionavam, restava o milenar recurso do recrutamento forçado de jovens.

A muitas famílias do sertão nordestino foram oferecidas somente duas opções: ou seus filhos partiam para os seringais como soldados da borracha ou então deveriam seguir para o front na Europa, para lutar contra os fascistas italianos e alemães. É fácil entender que muitos daqueles jovens preferiram a Amazônia.

Os caminhos da guerra

Ao chegar aos alojamentos organizados pelo Semta, o trabalhador recebia um chapéu, um par de alpargatas, uma blusa de morim branco, uma calça de mescla azul, uma caneca, um talher, um prato, uma rede, cigarros, um salário de meio dólar por dia e a expectativa de logo embarcar para a Amazônia.

Os navios do Loyd saíam dos portos nordestinos abarrotados de homens, mulheres e crianças de todas as partes do Brasil. Primeiro rumo ao Maranhão e depois para Belém, Manaus, Rio Branco e outras cidades menores nas quais as turmas de trabalhadores seriam entregues aos "patrões" (seringalistas) que deveriam conduzi-los até os seringais onde, finalmente, poderiam cumprir seu dever para com a pátria.

Aparentemente, tudo muito organizado. Pelo menos diante dos olhos dos americanos, que estavam nos fornecendo centenas de embarcações e caminhões, toneladas de suprimentos e muito, muito dinheiro. Tanto dinheiro que sobrava para desperdiçar ainda em mais propaganda.

E esbanjar em erros administrativos que faziam, por exemplo, uma pequena cidade do sertão nordestino ser inundada por um enorme carregamento de café solicitado não se sabe por quem. Ou possibilitar o sumiço de mais de 1.500 mulas entre São Paulo e o Acre.

Na verdade, o caminho até o eldorado amazônico era muito mais longo e difícil do que poderiam imaginar tanto os americanos quanto os soldados da borracha. A começar pelo medo do ataque de submarinos alemães que se espalhava entre as famílias amontoadas a bordo dos navios do Loyd, sempre comboiados por caça-minas e aviões de guerra.

A memória de quem viveu aquela experiência ficou marcada por aqueles momentos em que era proibido até acender fósforos ou mesmo falar. Tempos de medo que estavam só começando.

A partir do Maranhão, não havia um fluxo organizado de encaminhamento de trabalhadores para os seringais. Freqüentemente era preciso esperar muito, antes que as turmas tivessem oportunidade de seguir viagem. A maioria dos alojamentos que recebiam os imigrantes em trânsito eram verdadeiros campos de concentração, em que as péssimas condições de alimentação e hi­giene destruíam a saúde dos trabalhadores, antes mesmo que tentassem o primeiro corte nas seringueiras.

Não que faltasse alimento. Havia comida, e muita. Mas era intragável, tão ruim e mal preparada que era comum ver as lixeiras dos alojamentos cheias enquanto as pessoas adoeciam de fome. Muitos alojamentos foram construídos em lugares infestados pela malária, febre amarela e icterícia.

Surtos epidêmicos matavam dezenas de soldados da borracha e seus familiares nos pousos de Belém, Manaus e outros portos amazônicos. Ao contrário do que afirmava a propaganda oficial, o atendimento médico inexistia, e conflitos e toda sorte se espalhavam entre os soldados já quase derrotados.

A desordem era tanta que muitos abandonaram os alojamentos e passaram a perambular pelas ruas de Manaus e outras cidades, buscando um modo de retornar a sua terra de origem ou de pelo menos sobreviver. Outras tantas revoltas paralisaram alguns "gaiolas" (navios fluviais) em plena viagem, diante das notícias alarmantes sobre a insuportável vida nos seringais. Eram pequenos motins rapidamente abafados pelos funcionários da Snapp ou da Sava. As viagens apareciam, então, como caminhos sem volta.

Uma nova forma de escravidão

Os que conseguiam efetivamente chegar aos seringais, depois de três ou mais meses de viagem, já sabiam que suas dificuldades estavam apenas iniciando. Os recém-chegados eram tratados como "brabos" - aqueles que ainda não sa­biam cortar seringa e cuja produção no primeiro ano era sempre muito pequena. Só a partir do segundo ano de trabalho o seringueiro era considerado "manso".

Mesmo assim, desde o momento em que era escolhido e embarcado para o seringal, o brabo já começava a acumular uma dívida com o patrão. O mecanismo de prender o trabalhador por meio de uma dívida interminável foi chamado de "sistema de aviamento".

Essa dívida crescia rapidamente, porque tudo que se recebia no seringal era cobrado. Mantimentos, ferramentas, tigelas, roupas, armas, munição, remédios, tudo enfim era anotado na sua conta corrente. Só no fim da safra, a produção de borracha de cada seringueiro era abatida do valor de sua dívida. Mas o valor de sua produção era, quase sempre, inferior à quantia devida ao patrão.

E não adiantava argumentar que o valor cobrado pelas mercadorias no barracão do seringalista era cinco ou mais vezes maior do que aquele praticado nas cidades: os seringueiros eram proibidos de vender ou comprar em qualquer outro lugar. Os soldados da borracha descobriam que, no seringal, a palavra do patrão era lei.

Os financiadores americanos insistiam em não repetir os abusos do sistema de aviamento que caracterizara o primeiro ciclo da borracha. Na prática, entretanto, o contrato de trabalho assinado entre seringalista e soldado da borracha quase nunca era respeitado. A não ser para assegurar os direitos dos seringalistas. Como no caso da cláusula que impedia o seringueiro de abandonar o seringal enquanto não saldasse sua dívida com o patrão, o que tornava a maioria dos seringueiros verdadeiros escravos, prisioneiros das "colocações de seringa" (unidades de produção de látex em que estavam instalados).

Todas as tentativas de implantação de um novo regime de trabalho, bem como o fornecimento de suprimentos diretamente aos seringueiros, fracassaram diante da pressão e do poderio das "casas avia­doras" (fornecedores de suprimentos) e dos seringalistas que dominavam secularmente o processo da produção da borracha na Amazônia. (Leia sobre o Museu do Seringal na pág. 18)

Uma guerra que não terminou

Mesmo com todos os problemas enfrentados (ou provocados) pelos órgãos encarregados da Batalha da Borracha, cerca de 60 mil pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos entre 1942 e 1945. Desse total, quase a metade acabou morrendo em razão das péssimas condições de transporte, alojamento e alimentação durante a viagem. Como também pela absoluta falta de assistência médica, ou mesmo em função dos inúmeros problemas ou conflitos enfrentados nos seringais.

Ainda assim o crescimento da produção de borracha na Amazônia nesse período foi infinitamente menor do que o esperado. O que levou o governo americano, já a partir de 1944, a transferir muitas de suas atribuições para órgãos brasileiros.

E tão logo a Guerra Mundial chegou ao fim, no ano seguinte, os EUA se apressaram em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. O acesso às regiões produtoras do Sudeste Asiático se achava novamente aberto e o mercado internacional logo se normalizaria.

Terminava a Batalha da Borracha, mas não a guerra travada pelos seus soldados. Imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, muitos deles nem sequer foram avisados de que a guerra tinha terminado, e só viriam a descobrir isso anos depois.

Alguns voltaram para suas regiões de origem exatamente como haviam partido, sem um tostão no bolso, ou pior, alquebrados e sem saúde. Outros aproveitaram a oportunidade de criar raízes na floresta e ali construir suas vidas. Poucos, muito poucos, conseguiram tirar algum proveito econômico daquela batalha incompreensível, aparentemente sem armas, sem tiros e que produziu tantas vítimas.

Pelo menos uma coisa todos os soldados da borracha, sem exceção, receberam. O descaso do governo brasileiro, que os abandonou à própria sorte, apesar de todos os acordos e das promessas repetidas antes e durante a Batalha da Borracha.

Só a partir da Constituição de 1988, mais de 40 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os soldados da borracha ainda vivos passaram a receber uma pensão como reconhecimento pelo serviço prestado ao país. Uma pensão irrisória, dez vezes menor que a pensão recebida por aqueles que foram lutar na Itália. Por isso, ainda hoje, em diversas cidades brasileiras, no dia 1º de maio os soldados da borracha se reúnem para continuar a luta pelo reconhecimento de seus direitos.

A comparação é dramática: dos 20 mil brasileiros que lutaram na Itália, morreram somente 454 combatentes. Entre os quase 60 mil soldados da borracha, porém, cerca da metade morreu durante a guerra.

Marcus Vinicius Neces

Fonte: www2.uol.com.br

Batalha da Borracha

Entre a seca e o front, 55 mil nordestinos cederam ao apelo de Getúlio e foram para a Amazônia em 1942. Lá foram deixados.

O assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em 1988, deu expressão internacional à pequena cidade de Xapuri, no Acre, e voltou o olhar do mundo para milhares de cidadãos que fazem da extração do látex seu sustento e das 'colocações' do Vale Amazônico sua morada.

O que poucos sabem é que esse foi apenas mais um capítulo da saga da borracha. Durante a Segunda Guerra Mundial, um exército de retirantes foi mobilizado com pulso firme, propaganda forte e promessas delirantes para deslocar-se rumo à Amazônia e cumprir uma agenda do Estado Novo.

Ao fim do conflito, em 1945, os migrantes que sobreviveram às durezas da selva foram esquecidos no Eldorado. 'É como se tivessem passado uma borracha na História', diz o cineasta cearense Wolney Oliveira, que está filmando o documentário Borracha para a Vitória, sobre o assunto. Passadas décadas, os soldados da borracha hoje lutam para receber pensão equivalente à dos ex-pracinhas.

De olho em empréstimos para implantar seu parque siderúrgico e comprar material bélico, o governo brasileiro firmou com o americano, em 1942, os chamados Acordos de Washington. Sua parte no trato era permitir a instalação de uma base americana em Natal e garantir o fornecimento de produtos como alumínio, cobre, café e borracha (os seringais da Malásia, controlados pelos ingleses, estavam bloqueados pelo Japão).

O então presidente Getúlio Vargas só tinha um motivo para perder o sono: com o fim do primeiro ciclo da borracha, na década de 10, os seringais estavam abandonados e não havia neles mais que 35 mil trabalhadores. Para fazer a produção anual de látex saltar de 18 mil para 45 mil toneladas, como previa o acordo, eram necessários 100 mil homens.

A solução foi melhor que a encomenda.

Em vez de um problema, Getúlio resolveu três: a produção de borracha, o povoamento da Amazônia e a crise do campesinato provocada por uma seca devastadora no Nordeste. 'A Batalha da Borracha combina o alinhamento do Brasil com os interesses americanos e o projeto de nação do governo Vargas, que previa a constituição da soberania pela ocupação dos vazios territoriais', explica Lúcia Arrais Morales, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, autora do livro Vai e Vem, Vira e Volta - As Rotas dos Soldados da Borracha (editora Annablume).

Estima-se que 31 mil homens tenham morrido na Batalha da Borracha - de malária, febre amarela, hepatite e onça.

O Ceará foi o centro de uma operação de guerra que incluía o recrutamento e o transporte para os seringais de 57 mil nordestinos - exército equivalente ao número de americanos mortos no Vietnã. Cerca de 30 mil eram cearenses. 'Havia uma política racial no governo Vargas', diz Lúcia. 'Diferentemente da Bahia e de Pernambuco, o Ceará não recebeu muitos negros. Isso garantia a manutenção de certo perfil étnico na Amazônia', explica.

A Rubber Development Corporation (RDC), com dinheiro dos industriais americanos, financiava o deslocamento dos 'brabos', como eram conhecidos os migrantes. O governo dos Estados Unidos pagava ao brasileiro US$ 100 por trabalhador entregue na Amazônia. Vargas criou o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), que recrutava os homens.

'Estava no roçado com papai e chegou um soldado que me mandou subir no caminhão para ir para a guerra', conta Lupércio Freire Maia, de 83 anos, nascido em Morada Nova, no Ceará. 'Eu queria só pedir a bênção à mãe, mas o soldado disse que não tinha esse negócio, não.

O caminhão estava apinhado de homem.' Maia tinha 18 anos. Nunca mais viu a mãe, a mulher grávida e o filho pequeno. Só recebeu algum tipo de explicação sobre o 'recrutamento' e a batalha alguns meses depois, às vésperas de embarcar para o Acre.

Além do arrastão de jovens em idade militar, que tinham de escolher entre ir para o front, na Itália, ou 'cortar seringa' na Amazônia, o Semta fazia propaganda pesada - e enganosa. Contratou o artista plástico suíço Pierre Chabloz para criar cartazes que eram espalhados por todos os cantos, alardeando a possibilidade de uma vida nova na Amazônia, 'a terra da fartura'. Padres, médicos e outros líderes comunitários ajudavam a fazer correr, boca a boca, as notícias sobre um lugar onde se 'juntava dinheiro a rodo'. O Semta oferecia um contrato que previa um pequeno salário para o trabalhador durante a viagem até a Amazônia e, lá chegando, remuneração correspondente a 60% do que fosse obtido com a borracha.

''Embora tenham sido iludidos, os migrantes tinham sua própria agenda. Queriam uma vida melhor''
LÚCIA ARRAIS MORALES, da Universidade Federal do Ceará

Da boca do presidente Vargas, em discurso inflamado, os nordestinos ouviram que eram tão importantes no esforço de guerra quanto os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que iam para Monte Castello. Ouviram também que o seringueiro mais produtivo do ano seria premiado com a bolada de 35 mil cruzeiros. Iludidos, jovens e até mesmo famílias inteiras se alistavam. 'O pai não estava interessado no dinheiro', conta Vicência Bezerra da Costa, de 74 anos, nascida em Alto Santo, no Ceará, e agora dona de um restaurante caseiro em Xapuri. 'Ele queria que a gente fosse para um lugar que tivesse água, onde a plantação vingasse.' Ela com 13 anos, mais o pai, a mãe e sete irmãos começaram um êxodo que durou 11 meses.

Da caatinga, os 'recrutas' seguiam de trem e navio até os pousos construídos nos arredores de Fortaleza, Manaus e Belém.

Nessas hospedarias, conhecidas como campos de concentração, recebiam um presente de Getúlio Vargas: o enxoval de soldado da borracha, composto de calça de mescla azul, blusa branca de morim, chapéu de palha, um par de alpercatas, caneca de folha-de-flandres, um prato fundo, um talher, uma rede e um maço de cigarros Colomy.

Um exame físico e a assinatura do contrato com o Semta transformavam o agricultor em empregado, ganhando salário de meio dólar por dia até o embarque para Boca do Acre, onde os seringalistas vinham escolher seus trabalhadores - quase como num mercado de escravos.

Na viagem de navio, além da superlotação e do tédio, os migrantes enfrentavam o medo do ataque dos submarinos alemães. 'Um dia mandaram nos chamar no porão, onde ficavam nossos beliches, e ir para o convés, com aqueles coletes apertados.

A gente não podia dar nem um pio nem acender fogo. Os caça-minas acompanhavam a gente. Minha mãe tirou as medalhas do pescoço e rezou sem parar. Minha irmãzinha de 4 anos não parava de chorar', recorda Vicência. No bolso do colete, água e biscoitos (caso o navio afundasse) e uma cápsula de cianureto (se o inimigo os capturasse).

''A guerra foi ganha com a nossa borracha. Merecemos indenização dos EUA''
AGUINALDO DA SILVA, 77 anos, de Rio Branco

O soldado da borracha já chegava endividado ao seringal.

O seringalista anotava cada centavo que gastava com o trabalhador: comida, roupa, arma, material de trabalho e remédio. Opreço das mercadorias no barracão do patrão era pelo menos o dobro do praticado nas cidades. Opagamento era feito com a produção de borracha - que, essa sim, tinha a cotação lá embaixo. Além da matemática que não fechava, o soldado enfrentava doenças tropicais, animais selvagens e a dificuldade de se orientar na selva, até mesmo de reconhecer uma 'seringa'.

A realidade era muito diferente do que pintavam os cartazes de Chabloz: nada de seringueiras geometricamente enfileiradas, esperando para ser cortadas. 'Quando chegamos na colocação, papai ficou uns dois meses cuidando de construir a casa', conta Raimundo Alves da Silva, de 73 anos, do Rio Grande do Norte. Seu Flausino, como é conhecido, foi companheiro de Vicência na viagem de barco para o Acre e agora é seu vizinho em Xapuri. 'Eu é que ensinei papai a cortar seringa; ele fez tudo errado no primeiro dia.'

A guerra acabou, os seringais da Malásia foram liberados e os soldados da borracha abandonados no front. Na época, os 25 mil sobreviventes do inferno verde não receberam nada do prometido - nem a passagem de volta para casa. Muitos estavam tão endividados com os patrões que tiveram de seguir cortando borracha.

Outros, como seu Lupércio, prosperaram e fizeram da Amazônia sua casa. 'Quando vou ao Ceará visitar meus parentes, sonho com estas matas daqui', diz. 'Tudo o que tenho foi à custa da seringa, não do governo. Porque o americano pagou, mas Juscelino construiu a nova Brasília e a ''trança amazônica'' com nosso dinheiro', acredita. Na década de 80, ele foi à Malásia ensinar o corte amazônico aos produtores. 'Se a mulher topasse, eu estava lá.'

Uma última batalha ainda está sendo travada, com igual desconhecimento da população. Desde 1988 os soldados da borracha têm direito a pensão vitalícia de dois salários mínimos por mês. Eles são 12 mil e pedem a equiparação de direitos com os pracinhas, que recebem dez salários por mês mais 13o.

Se aprovada pelo Congresso, a medida representará um aumento de R$ 23 milhões mensais nas despesas do governo. 'Esse negócio está demorando tanto que quando sair não vai mais servir; vamos estar mortos', lamenta Vicência. Mais radical é o acreano Aguinaldo Moreno da Silva, de 77 anos, que não foi soldado da borracha, mas trabalhava nos seringais.

'Temos de ser indenizados pelos Estados Unidos, porque eles ganharam a guerra com a nossa borracha', inflama-se. 'Os jovens de lá tiveram um Plano Marshall, um incentivo de reconstrução. E aqui, o que nós tivemos?'

PAULA MAGESTE

Fonte: revistaepoca.globo.com

Batalha da Borracha

A operação montada por Getúlio Vargas para garantir aos EUA a matéria-prima estratégica na Segunda Guerra Mundial levou à morte 30 mil nordestinos, heróis que foram esquecidos na floresta amazônica.

Um exército abandonado no inferno verde – a floresta amazônica – durante a Segunda Guerra Mundial espera, há 50 anos, os direitos e a homenagem prometidos pelo governo federal. Em 1942, o presidente Getúlio Vargas recrutou a tropa para uma operação de emergência que coletaria látex para os americanos.

Eram 55 mil nordestinos, 30 mil só do Ceará, que fugiam da seca em busca de riqueza e honra naquela que ficou conhecida como a Batalha da Borracha. Eles não enfrentaram alemães nem japoneses. Lutaram contra os males tropicais, a fome, a escravidão e o abandono. Uma reportagem publicada na época, pelo jornal New Chronicle, de Londres, já denunciava que 31 mil migrantes morreram nesse esforço para conquistar matéria-prima para o arsenal do Tio Sam.

Só seis mil conseguiram voltar para casa. Os demais sobreviventes, hoje com mais de 60 anos, são reféns da miséria e moram no Acre, região que recebeu a maior parte dos alistados. Aos precursores do segundo ciclo da borracha, na época batizados de arigós, só restou uma festa. Para eles o dia do trabalho é também o dia do soldado da borracha, data em que relembram as tradições da terra natal.

Durante um dia inteiro, um galpão em Rio Branco se transforma em pista de forró. Eles dançam e contam as histórias do front. Além de reclamar a recompensa que nunca veio e a aposentadoria não reconhecida, esses heróis desconhecidos gostariam de desfilar no 7 de setembro ao lado dos combatentes da FEB.

Os nordestinos arregimentados não tinham a menor idéia do que era o trabalho nos seringais. Adoeciam e morriam com facilidade. Demoravam a se acostumar à solidão e à lei da mata. O alfaiate João Rodrigues Amaro, 72 anos, se arrependeu antes de chegar. Mas já era tarde demais. Aos 17 anos ele deixou Sobral só com a passagem de ida. A Campanha da Borracha uniu o útil ao útil. Em um ano de seca, encontrou no Nordeste um exército de flagelados pronto para partir, ou melhor, fugir. Nos postos de arregimentação, um exame físico e uma ficha selavam o compromisso. Para abrigar tanta gente – às vezes mil em um único dia –, o jeito foi construir alojamentos, como a hospedaria modelo, de nome Getúlio Vargas, em Fortaleza. Lá, eles passavam a viver até o dia da viagem, sob um forte regime militar.

A missão do exército de Getúlio Vargas não era segredo para ninguém: salvar os aliados da derrota para os países do Eixo.

A propaganda oficial era um chamado: a vitória dependia da reserva de látex brasileira e da força de voluntários, chamados pela imprensa e governo de soldados da borracha. Para uma operação de guerra, foi montada uma parafernália de organizações que, aliás, não se entendiam. Os americanos tinham a Board of Economic Warfare, a Reconstruction Finance Corporation, a Rubber Reserve Company, a Defense Suplies Corporation.

Os brasileiros criaram o Serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta), a Superintendência para o Abastecimento do Vale da Amazônia (Sava), o Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp), o Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração do Porto do Pará (Snapp). Cada um desses órgãos tinha um pedaço da responsabilidade de fazer ser um sucesso a Batalha da Borracha. O artista plástico suíço Pierre Chabloz, contratado pela Semta, era responsável pelos cartazes que incentivavam a produção de látex.

Criou também mapas dos biotipos nordestinos para ajudar na seleção dos candidatos. Foram classificados em normolíneo – tipo normal com pêlos e pescoço longo; mixotipo – tronco longo e pouco volumoso, mais próximo do normal; brevilíneo – ventre avantajado e ausência de pêlos que desvalorizava o tipo; e o disgenopata – com joelhos arcados e inferioridade psíquica. Chabloz o retratou como "um débil mental".

Fama e fortuna

A propaganda dirigida e veiculada nos meios de comunicação trazia promessas mirabolantes e era chamariz para os desavisados. No discurso, os voluntários para a extração da seringa eram tão importantes quantos os aviadores e marinheiros que lutavam no litoral contra a pirataria submarina ou ainda os soldados das Nações Unidas.

Nas esquinas do País, retratos de seringueiros tirando ouro branco das árvores com um simples corte. "Tudo pela Vitória", "Terra da Fortuna", eram as palavras de ordem. Mas foi Getúlio Vargas, em discursos pelo rádio, que convenceu mais."Brasileiros! A solidariedade de vossos sentimentos me dá a certeza prévia da vitória.’’ Para garantir a adesão, se prometia um prêmio para o seringueiro campeão. O maior fabricante de borracha em um ano levaria 35 mil cruzeiros.

Os voluntários ganhavam um enxoval improvisado – uma calça de mescla azul, uma blusa de morim branco, um chapéu de palha, um par de alparcatas de rabicho, uma caneca de flandre, um prato fundo, um talher, uma rede, uma carteira de cigarros Colomy e um saco de estopa no lugar da mala.

O cearense Pedro Coelho Diniz, 72 anos, acreditou que ia ficar rico na Amazônia. Levou um chapéu de couro e a medalha de São Francisco das Chagas, mas não adiantou a fé nem a coragem de vaqueiro. O dinheiro que conseguiu deu só para voltar ao Ceará uma única vez, para rever a família.

Iam em carrocerias de caminhões, em vagões de trem de carga, na terceira classe de um navio até o Amazonas. A viagem do exército da borracha podia demorar mais de três meses, incluindo aí paradas à espera de transporte. Pior que o desconforto, só o perigo de ir a pique no meio do mar. Afinal, aqueles eram dias possíveis de ataque de submarino alemão. Para prevenir, além da companhia de caça-minas e aviões torpeadores, os nordestinos recebiam colete salva-vidas. Em caso de naufrágio, havia nos bolsos internos uma pequena provisão de bolachas e água. Em caso de captura, uma pílula de cianureto para escapar da vergonha de uma prisão inimiga.

Males tropicais Um arigó que se preze traz cicatriz de briga com onça, flecha de índio, bala de patrão ruim e histórias de malária, febre amarela, beriberi, icterícia e ferimentos da árdua atividade na selva. Cearenses, paraibanos, pernambucanos, baianos e maranhenses aprenderam, no susto, a escapar dos perigos insuspeitáveis da floresta amazônica. Mutucas, meroins, piuns, borrachudos e carapanãs fizeram banquete dos novatos. Dos portos de desembarque, a tropa foi entregue aos patrões seringalistas. Na partilha dos grupos, novas e velhas amizades se separaram.

Nada valia do que foi prometido por Getúlio Vargas: cuidados de pai e fortuna fácil. A lei era da bala, surras, ameaças, mortes. O patrão controlava a comida, a roupa, o transporte, o remédio. "Tudo ladrão, do calibre de Lampião’’, diz Armédio Said Dene, 81 anos, que foi dono de cinco seringais no Acre e teve muitos arigós sob seu comando. Para ele, os soldados da borracha não mereciam confiança. Ele exercia seu comando usando a velha carabina. "Era nós ou eles.’’

De um modo geral, era esta a maneira de o patrão tratar o seringueiro. O preconceito se fortaleceu por causa das brigas e confusões em que a tropa se envolvia. Hoje Armédio Said não tem mais produção de seringa. "Tudo perdido. Em tempos bons, comprei até apartamento no Rio de Janeiro.’’ Quando o último ciclo da borracha acabou, levou ao chão também os planos da família Said de voltar à Síria.

O exército cativo era enviado para os seringais para extrair o máximo que pudesse de borracha. Só no ano de 1945, os arigós aumentaram o estoque de borracha natural dos aliados de 93.650 para 118.715 toneladas. Castigo para desertor era a morte. Alegria só nos fins de semana, nas festas de barracões, quando, na falta de mulher, dançava homem com homem.

Lembrança para se resolver nas festas de 1° de maio. Afinal, hoje são muitas as viúvas, irmãs e filhas do exército enganado. Maria Rosa Lajes, 71 anos, chora de revolta. Ela luta pela aposentadoria de uma prima que veio com o marido numa leva de 600 pessoas do Ceará.

No Acre, pelo menos 11 mil seringueiros já conseguiram o direito a dois salários mínimos, mas a falta de documentação e os anos de espera quebraram a esperança dos que sobreviveram à Batalha da Borracha.

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada para apurar a situação dos trabalhadores enviados à Amazônia no período de 1942 a 1945. A CPI da Borracha foi dissolvida sem conclusão. O que a CPI não disse em seu relatório é que, com o fim da guerra e a fabricação da borracha sintética, a extração desvairada de látex era dispensável e os aliados não precisavam mais do Brasil, muito menos dos arigós.

No Vale da Amazônia, ainda hoje há denúncias de que integrantes da nova geração de seringueiros vivem como escravos, uma herança do modelo da década de 40. Às margens do rio Paraná do Ouro, em Feijó, a 366 quilômetros deRio Branco, mais de 300 famílias não têm roupa para vestir, utensílios para fazer fogo e são proibidos de vender a produção da borracha para outros comerciantes. A comunidade é uma das muitas que ficaram perdidas na mata quando a guerra acabou.

São um pedaço do exército recrutado por Getúlio Vargas, esperando um resgate que não veio nunca. Às margens do rio Juruá, no Acre, um seringal ainda tem o nome de Fortaleza. Outras dezenas de vilarejos têm os nomes de localidades no Nordeste. Uma maneira de os soldados da borracha se sentirem em casa.

José Pereira da Silva, 64 anos, pode dizer, por exemplo, que mora em Fortaleza, a capital onde nasceu o pai dele. Hoje ele não corta mais seringa nem conseguiu a aposentadoria como soldado da borracha. Mas os vestígios da vida de soldado estão em toda parte. Em um dos quartos da palafita em que mora, às margens do rio, ele guarda as peles de onça-pintada que matou com sua espingarda nas madrugadas de retirada de látex. "Foram mais de 20. Nunca tive medo delas.

A carne eu trazia para a mulher fazer a comida pros meninos." Até hoje ninguém sabe quantas pessoas e quantos são os seringais do Vale da Amazônia. A Universidade Federal do Acre (Ufac) só conseguiu mapear uma colocação (sítio dentro dos seringais). É a reserva de extrativismo Chico Mendes.

ARIADNE ARAÚJO

Fonte: www.primeiraversao.unir.br

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