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REPÚBLICA POPULAR DA CHINA

(1842-1949) A Revolução chinesa: da agressão Ocidental ao Maoísmo

O sol vermelho ilumina a velha China (1959)
O sol vermelho ilumina a velha China (1959)

A peculiaridade da Revolução chinesa: a Revolução Chinesa não resultou de uma abrupta e intempestiva insurreição de massas - como ocorreu na tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789 na França Absolutista, nem num surpreendente golpe de estado como o dado pelos bolcheviques, quando a guarda vermelha e os marinheiros assaltaram em 25 de outubro de 1917 o Palácio de Inverno em São Petersburgo na Rússia Czarista -, mas sim foi o resultado final da mais longa guerra civil do nosso século: a Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas.

Iniciado o conflito em algumas cidades do sul da China em 1927, culminou numa guerra generalizada no qual milhões de homens participaram, durando no seu total vinte e dois anos.

Os períodos da guerra civil na China: esta guerra civil pode ser classificada em três grandes períodos: o primeiro deles vai de 1927 a 1930, quando a estratégia do PC chinês orientava-se para o assalto e a ocupação de grandes cidades, como Shangai, Cantão(Gengzhou) e Changsha, onde seus seguidores foram derrotados e expulsos, tendo seus quadros urbanos praticamente exterminados pelo exército nacionalista. O segundo período da guerra civil deu-se entre os anos de 1930 a 1937, quando a liderança do PC chinês concentrou-se em Mao Tse-tung, ocorrendo com isso uma radical inflexão na estratégia do PC chinês que tratou de formar e consolidar os chamados "sovietes rurais" tendo por apoio os camponesa do interior da China. Com isso abandonou do seu horizonte próximo a possibilidade de liderar uma revolução urbana que lhe proporcionasse uma rápida ascensão ao poder na China. Mao Tse-tung, apelando para uma das celebradas virtudes chinesas - a paciência - estabeleceu como estratégia do partido uma luta de longa duração, por meio do aperfeiçoamento da guerra de guerrilhas como seu principal instrumento de luta. Após terem sido obrigados a abandonar seu primeiro soviete nas montanhas de Ching-Kangshan, das quais os comunistas retiraram-se pressionados pela chamada "5ª campanha de extermínio" ordenada pelo General Chiang Kai-shek, que os chamava de "bandidos vermelhos", ocorreu o grande épico da história revolucionária da China Moderna, a Longa Marcha (1934/35). Percorrendo um caminho de mais de quase 10 mil quilômetros pelo interior da China, entre 1934-5, os comunistas sobreviventes conseguiram abrigar-se no soviete de Yenan na província de Shensi.Por ser uma região árida e inóspita, ela os protegeu tanto dos ataques dos nacionalistas como da invasão japonesa que começou em julho de 1937.

Finalmente, o terceiro período ocorreu ao término da Segunda Guerra Mundial, quando os guerrilheiros maoístas, depois de uma curta guerra civil, desbarataram definitivamente as divisões do General Chiang Kai-shek, expulsando-o do país e fundando a República Popular da China em 1º outubro de 1949.

O caráter nacional e camponês da Revolução Chinesa: a revolução chinesa de 1949 distinguiu-se da Francesa de 1789 e da Russa de 1917 também na medida em que as questões nacionais assumiram uma dimensão muito maior que o espírito cosmopolita imanente ao jacobinismo e ao bolchevismo (onde o nacionalismo encontrava-se subordinado a uma estratégia ideológica ecumênica). Os comunistas chineses, ou maoístas, sinicizaram o marxismo, adaptando-o s circunstâncias de uma nação de camponeses humilhada pelas potências coloniais.

Outra relevante questão foi a de que a vanguarda revolucionária chinesa possuía estreitas raízes com o campo e interpretavam as aspirações mais profundas não das populações citadinas mas sim daquele imenso continente de camponeses que formava e ainda forma a China dos nosso dias. Quantitativamente tratou-se da maior revolução social de todos os tempos, qualitativamente porém seu âmbito foi bem mais restrito do que as duas outras citadas, circunscrita às fronteiras da China (se bem que com reflexos sobre a Coréia e o Vietnã). Se os jacobinos e bolcheviques pretendiam ter descoberto a álgebra da revolução válida para sua época, o maoísmo foi mais modesto, acreditando-se como uma solução revolucionária a ser seguida preferencialmente pelos países colonizados ou semicolonizados do Terceiro Mundo.

Maoístas e bolcheviques: particularmente em relação Revolução Russa, podemos apontar algumas vantagens substanciais que favoreceram a implantação do regime socialista na China. Em primeiro lugar, a base social dos maoístas foi muito mais ampla do que a dos bolcheviques. Atrás das forças do Exército de Libertação Nacional comandado por Mao Tse-tung encontravam-se milhões de camponeses, de operário, de estudantes e de intelectuais que viam no maoísmo o grande elemento integrador de uma China internamente esfacelada e constantemente saqueada pelas forças estrangeiras.

Os bolcheviques, como é sabido, apoiavam-se na escassa classe proletária urbana russa que não perfazia mais de 3% da população global do país e praticamente não tinham nenhuma ligação expressiva com os kristiani, os camponeses pobres, nem com os kulaks, os camponeses remediados. Contaram igualmente com pouco apoio da intelligentsia russa, mais simpática aos mencheviques, aos sociais-revolucionários ou aos liberais, porque os bolcheviques pareceram aos intelectuais russos tirânicos e autoritários. Os maoístas ainda tiveram a seu favor o fato de não terem que padecer de uma guerra civil acompanhada de intervenções estrangeiras após a tomada do poder, como aconteceu com os bolcheviques nos anos de 1918 a 1920 na Rússia, quando além de terem enfrentado os exércitos contra-revolcuionários dos brancos (ex-czaristas). Viram partes da Rússia ser ocupada por tropas inglesas, americanas, francesas e japonesas, entre 1919-21.

O estado-maior revolucionário chinês bem antes de chegar ao poder em 1949 já formava um grupo de calejados militantes que estavam acostumado a trabalhar juntos pelo menos desde a década de 1930. Eles possuíam experiência administrativa, política e militar obtida na gerência dos sovietes de Kiangsi e Shensi, bem ao contrário dos bolcheviques que praticamente emergiram do exílio, das prisões e da clandestinidade, para o exercício direto do poder.

Finalmente, dois outros aspectos fundamentais tornaram menos árdua a estrada dos maoístas na implantação da revolução: em primeiro lugar contou a seu favor a existência da União Soviética com potencial nuclear - o que desestimulou tentativas mais vigorosas e agressivas por parte das forças contra-revolucionárias internas e externas de tentarem impedir ou protelar as reformas econômicas e sociais. A conseqüência disso para os maoístas foi a existência de um mundo menos hostil para sua política do que aquele que os bolcheviques tiveram que amargar nos anos 20 e 30 quando padeceram de um quase total isolamento.

Os maoístas sabiam pois de antemão o que deviam evitar a partir da simples observação do que ocorrera com a experiência soviética.Desta maneira a China não conheceu nenhuma coletivização forçada da terra, decretada de cima para baixo, podendo avançar com mais cautela na implantação do seu sistema industrial como na aplicação de uma economia planificada de um modo geral. Quer dizer, a existência de uma experiência socialista na vizinha União Soviética poupou os chineses dos enormes sofrimentos e traumas por que os russos tiveram que passar, pelo menos até os trágicos acontecimentos da Revolução Cultural de 1965-76.

A maior barreira que os maoístas enfrentaram para trnasformar a China e fazê-la avançar era o imenso atraso do um país cujo desenvolvimento tecnológico, científico e educacional (no sentido moderno) era praticamente inexistente .

Antecedentes históricos da China

"...de que país a China é colônia? É colônia de cada país com quem firmou um tratado, e todos os países que têm um tratado com a China são seus donos. Assim, a China não é somente escrava de uma nação e sim escrava e colônia de todas as nações." - Sun Yat-sen

Escultura em bronze de tamanho natural, 1200 a.C.
Escultura em bronze de tamanho natural, 1200 a.C.

O despotismo oriental: até meados do século XIX a China era o modelo clássico do "despotismo oriental". A monarquia manchu sediada na Cidade Proibida em Pequim, exercia um domínio autoritário sobre um território de 10 milhões de km2 administrado pelos mandarins a serviço do governo central. A massa da população, uns 400 milhões em 1850, concentrava-se nos campos, labutando de sol a sol em torno das aldeias, maioria delas nas proximidades dos vales dos rios Yang-tse e Amarelo, praticando uma agricultura rudimentar, cuja produção básica era o arroz. As enchentes e as estiagens eram célebres na China porque reduziam de um momento para o outro milhões de camponeses em hordas de famintos que invadiam as cidades, desesperados, em busca de sobrevivênvia. O número de mendigos então ascendia a escalas inimagináveis para um país europeu.

Nas principais cidades do país, Pequim, Nanquim, Shangai, Cantão e Hong-Kong, encontramos artesãos e comerciantes organizados em corporações de ofício similares às que existiam na Europa medieval, que conviviam com as conhecidas e célebres sociedades secretas que congregavam o lumpesinato urbano. No plano ético-religioso o país se abeberava no confucionismo, que ideologicamente sedimentava o imobilismo das relações econômicas e sociais. Apesar do imobilismo econômico, os chineses eram herdeiros de uma sofisticada cultura que se estendia por mais de cinco milênios e que havia produzido uma intensa literatura político-religiosa, bem com sofisticados artigos manufaturados extremamente apreciados nos mercados europeus (seda, porcelana, papel, etc.). Vivendo à margem do mundo, os chineses por séculos a fio consideravam-se o centro do unvierso - eram o Império do Meio - revelando um profundo desprezo pelo estrangeiro e por sua tecnologia.

As corporações (hang hui, colocadas sob proteção celestial de inspiração taoísta, dividiam-se classicamente entre mestres (yeh-chu), operários (Ku-Kung), e a aprendizagem (hauet-t'u); as guildas (pang-kou) agrupavam os trabalhadores das grandes cidades segundo sua origem provincial e buscavam proteção junto a funcionários influentes da mesma origem; as sociedades secretas (mi-mi, chieh-hui) agrupavam elementos atrasados ou duvidosos, lideradas por criminosos profissionais, sendo que alguns trabalhadores nelas ingressavam coagidos ou em busca de proteção.

A agressão ocidental

"A primeira condição de preservação da Velha China era seu total isolamento. Uma vez que a Inglaterra deu fim brutal a esse isolamento, a decomposição sobrevirá com a mesma inexorabilidade de uma múmia retirada do hermético sarcófago em que estava preservada e exposta ao ar livre". - Karl Marx (Revolution in China and in Europa, 1853)

O portão de Shouzou, visão idílica da China em 1734
O portão de Shouzou, visão idílica da China em 1734

O litoral da China começou a ser assediado pelos brancos no século 16, quando navios portugueses (chegaram a Macau em 1513), e em seguida espanhóis e holandeses, tentaram obter concessões comerciais junto às autoridades do Reino Celestial. Os imperadores chineses porém foram sempre muito parcimoniosos e cuidadosos em ofecer vantagens econômicas ou facilitações outras aos europeus. Confinaram o comércio com "os bárbaros", como eles os chamavam, a alguns portos do sul da China, especialmente no porto de Cantão (Guangzhou) às margens do Rio das Pérolas. Mas essa posição de fechamento ao mercado externo ficou insustentável com a progressiva presença do homem branco no Mar da China nos séculos 17, 18 e 19. Após a conquista definitiva da Índia pela Companhia Inglesa das Índias Orientais ocorrida no século XVIII, os agentes e os mercadores britânicos, cientes da sua superioridade militar e técnica, lançaram-se sobre o litoral da China. O principal produto que ofereciam aos chineses era o ópio que traziam contrabandeado das suas plantações da Índia. Caixas numerosas do entorpecente eram transportadas clandestinamente para o porto de Cantão em troca de prata e das apreciadas mercadorias chinesas, como a seda, a porcelana e o chá.

As guerras do ópio: devido aos deletérios efeitos da droga sobre o seu povo, o imperador Daoguang designou o mandarim Lin Zexu, um alto funcionário governamental, para que executasse, a partir de Cantão, uma política de confisco sistemático do produto mortífero. As apreensões das caixas de ópio contrabandeado, seguida de prisões e expulsão dos principais traficantes, serviu de pretexto para a Inglaterra declarar guerra à China, na chamada Primeira Guerra do Ópio (1839-42). Exibindo uma invencível superioridade tecnológica, representada pelo navio de ferro "Fenix", a esquadra inglesa atacou e afundou boa parte dos inoperantes juncos de guerra chineses. Em seguida bloqueou os principais escoadouros mercantis chineses, forçando o imperador rendição. Inferiorizados tecnicamente, os governantes manchus aceitaram assinar o humilhante Tratado de Nanquim em 1842.

Os tratados infames: obrigou-se a China, depois de derrotada, a abrir cinco dos seus portos em caráter permanente, assim como ceder Hong-Kong aos comerciantes ingleses. O sucesso militar-diplomático da Inglaterra serviu de estímulo para que as demais nações colonialistas assaltassem às costas chinesas. Depois da 2ª e 3ª Guerras do Ópio, travadas em 1856 e 1858, mais onze portos foram abertos aos ocidentais. O impacto das mercadorias européias sobre a produção artesanal chinesa foi socialmente terrível. O desemprego e a fome passaram a ser uma constante, tanto nas populações urbanas como das rurais. Para poder pagar pelas mercadorias importadas, os manchus e a aristocracia rural passaram a oprimir os camponeses de forma mais intensa. As regalias que os mercadores estrangeiros usufruem no país são vexatórias. Desde 1861 as alfândegas chinesas são controladas por funcionários europeus e o privilégio da extraterritorialidade permite que eles escapem s leis chinesas. Seus cônsules têm poderes que extrapolam as simples funções diplomáticas. As "concessões" são de fato anexações disfarçadas que permitem inclusive a liberdade de circulação das marinhas de guerra estrangeiras pelos rios chineses, onde dobram aos seus interesses algum mandarim recalcitrante.

Essa prepotência dos estrangeiros chegou a tal ponto que eram bem visíveis nas entradas de alguns parques públicos das grandes cidades chinesas, como em Pequim e em Shangai, de uma placa com os dizeres: "proibida a entrada de cães e de chineses!"

O Movimento Taiping: a impotência da elite tradicional e a inoperância da dinastia manchu em enfrentar as sucessivas degradações impostas pelos ocidentais contribuiu para criar um clima favorável à rebelião da massas. Durante treze anos (1851-1864) o movimento social-religioso dos Taiping, liderado por Hong Xiuquan, que proclamou-se Rei Celestial da Grande Paz elegendo Nanquin como sua capital, tentou formar um governo alternativo ao poder imperial, o Reino Taiping. Os taipings surgiram de um duplo protesto, contra a presença estrangeira e contra o governo imperial manchu. Esta luta fraticida enfraqueceu ainda mais a autoridade central, pois o imperador para manter-se viu-se contrangido a apelar para os "notáveis rurais" que, em troca, reforçaram ainda mais sua autoridade regional e local, esgaçando ainda mais o poder central.

A modernização da China pelo alto: ao mesmo tempo que os taipings são sufocados, emerge uma tentativa de modernizar a China "pelo alto"; é o Movimento Iang-wu (conduzir os negócios a moda ocidental) que se estende por vinte anos (1860-1880), seus integrantes vinha da elite palacina sofisticada, eram mandarins e acadêmicos, que pensavam em adotar técnicas militares e administrativas ocidentais ao mesmo tempo em que mantinham intactas as estruturas sociais e políticas da China(2). Concordavam na necessidade de modernizar a estrutura constitucional da monarquia chinesa, pois consideravam a prática do despotismo como algo anacrôncio e ultrapassado. Imaginavam que uma reestruturação juridica que aproximasse as instituições da China manchu do império constitucional inglês já sería um grande passo em direção a "reforma vinda de cima". A renovação das agressões externas (Guerra contra a França em 1884/5 e o Japão em 1894/5) sepultaram porém as tentativas "modernizantes" proclamadas pela elite imperial. "O saber ocidental só tem valor prático; o saber chinês constitui a base da sociedade".

Os efeitos do capital externo: a presença do capitalismo estrangeiro acabou por realizar um importante papel em acelerar a degradação do regime econômico-social da Velha China. A penetração das mercadorias ocidentais abalou profundamente a sua milenar economia rural ao mesmo tempo em que arruinou o artesanato urbano e rural. Formou por outro lado alguns modernos bolsões industriais e mercantis nas zonas portuárias situadas no Mar da China. Shangai foi o maior exemplo. Nos finais do século XIX vamos encontrar o florescimento de uma burguesia nacional que emergiu dos antigos estratos comerciais, rurais e burocráticos chineses e que começa a realizar investimentos no setor industrial. Esta burguesia sente-se manietada no seu crescimento por um conjunto de forças internas e externas (pelos latifundiários e pela burguesia "compradora", que tem como aliados externos as nações coloniais), fazendo com que mais tarde elaborasse um projeto político de autonomia nacional materializado na fundação do Kuomintang (Partido Nacional do Povo).

A divisão de classes tradicional da China, composta por letrados, camponeses, artesãos e comerciantes, que começa a se descompor, vê agora o surgimento de uma intelligentsia moderna de origem burguesa (que busca especializar-se no exterior) e um proletariado industrial que se forma graças aos investimentos estrangeiros em parques fabris. Como não podia deixar de ser, a ação dissolvente do capitalismo afetou a crença na ordenação social de inspiração divina e no "Mandato Celeste". A monarquia manchu caiu no descrédito, fazendo com que um movimento republicano que visava derrubar a Dinastia Ching ganhasse força.

O desprestígio imperial aumenta ainda mais na medida em que a China perde sua histórica hegemonia sobre as regiões tributárias (como a Indochina e a Birmânia) e dependentes (como o Turquestão, o Tibete e a Coréia), que são ocupadas pelas potências colonialistas (Inglaterra, França, Rússia e o Japão).

A divisão da propriedade agrária: no campo, as relações ainda permanecem estáticas por séculos a fio. Os grandes proprietários detêm o controle sobre 50% das terras aráveis, cabendo aos camponeses prósperos outros 35% delas, enquanto mais de quatrocentos milhões de camponeses pobres são obrigados a se contentar com os 15% restantes. Este imenso "continente de camponeses", é formado por trabalhadores dóceis, laboriosos, pacientes, geralmente analfabetos, que cultivam ancestrais e imutáveis costumes, ao mesmo tempo que são obrigados, pela miséria endêmica em que estavam condenados, a dar ou matar suas filhas ou preservar, em suas pobres choupanas, os ratos como um falso símbolo de abundância.

A penetração do capitalismo na China
(1873-1937)

Anos Imp. Milhares Exp. de yuans Carvão (T.) Minério de Ferro (T.) Fusos de Algodão Ferrovias
1873 103.487 108.449 - - - -
1892-93 235.823 181.713 - - 45.000 364
1903 509.059 333.961 - - 501.138 -
1910-12 721.299 593.337 9.067.862 723.430 736.332 9.618
1920 1.187.585 843.860 21.318.825 1.838.435 1.450.840 -
1930 2.040.599 1.394.167 26.036.564 2.252.486 4.102.078 14.238
1937 941.545 705.742 37.230.946 3.819.691 5.102.796 21.036
N.B. Os números acima se referem ao conjunto do setor moderno (empresas estrangeiras na China e chinesas)

O movimento republicano

Doutor Su Yat-sen, patriarca da China Moderna
Doutor Su Yat-sen, patriarca da China Moderna

A formação do Kuomintang: a insatisfação com a presença estrangeira e a inépcia governamental em resolver o problema do estatuto semicolonial em que a China vivia, gera o protesto crescente da intelligentsia chinesa. O inconformismo tem seu maior intérprete na figura venerável de Sun Yat-sen, nascido em 1866 e considerado o patriarca da China Moderna, que fundou em 1894 a União pelo Renascimento da China, cujo programa tinha por base o nacionalismo e a modernização do país explicitados em seis pontos: 1º) derrubar o governo manchu, 2º) estabelecer uma república, 3º) salvaguardar a paz mundial, 4º) favorecer a nacionalização da terra, 5º) favorecer a cooperação sino-japonesa, 6º) rogar às outras potências para agirem favoravelmente em relação ao movimento republicano- revolucionários chinês. O programa de Sun Yal-sen, que o obrigou a um longo exílio no exterior entre 1895 a 1911, resultou do florescimento da burguesia urbana chinesa ocidentalizada. Não fazia referência à trágica situação dos camponeses submetidos ao despotismo de administradores locais (o ya-men), corroídos pela usura e pelas prestações de serviço idênticas s corvéias feudais. Antes da proclamação da República em 1911, a China ainda vai conhecer a última tentativa de expulsão dos estrangeiros: a rebelião os Boxers (1900).

Chao Fu-tien, um dos líderes dos boxers
Chao Fu-tien, um dos líderes dos boxers

O levante dos boxers: a revolta nacionalista de 1900 - chamada de Movimento Yijetuan - que eclodiu nos arredores de Pequim, em reação a uma série de abusos cometidos pelos estrangeiros, foi reconhecido pelas autoridades imperiais como uma isurgência legítima. Um dos cartazes espalhados por Pequim dizia "Odiamos profundamente os tratados que prejudicam o país e trazem calamidades ao povo. Os altos funcionários traem a nação; os baixos os seguem no jogo. O povo é injuriado mas não faltarão desagravos". Os yijetuans conseguiram inclusive cercar por 56 dias as legações estrangeiras que possuiam bairro a parte na capital. Outros dos seus versos afixados nos templos chineses dizia: "quando os demônios de fora/ forem expulsos até o fim/ o grande Ching [a dinastia manchu reinante], unido, junto à nossa terra trará a paz enfim".

Para sufocar a rebelião, organizou-se uma internacional colonialista, uma tropa composta por 20 mil soldados (japoneses, russo, ingleses, americanos, franceses e depois por alemães) foi enviada para ocupar a sede imperial, onde penetrou em 14 de agosto de 1900. Os boxers, abandonados pela imperatriz viúva Tsisi, foram cruelmente sufocados e suas lideranças decapitadas. "Arrasem Pequim!" - que seguissem o exemplo de Átila! essa foi a recomendação do imperador Guilherme II da Alemanha aos oficiais que partiam para a China. Depois dessa aberta e brutal intervenção militar, o outrora orgulhoso Império Celestial definitivamente tornara-se a "colônia de todas as metrópoles". Para infamar ainda mais as autoridades do império, os colonialistas obrigaram a que fossem chineses os carrascos que executaram as sentenças de morte dos principais líderes da rebelião de 1900.

A república chinesa de 1911: o colapso do regime manchu chega a seu fim com a deposição da dinastia Ching (uma dinastia que reinava na China desde o século 17). O seu último representante o imperador-menino Puyi foi afastado por um golpe incruento. Tudo parecia indicar que a China entrara ainda que lentamente no rol das nações modernas com a adesão ao regime republicano. O presidente provisório Sun Yat-sen porém não conseguiu manter-se efetivamente no poder, renunciando em 15 de fevereiro de 1911. Para decepção geral, assume a presidencia o despótico general Yaun Shin-kai, que acaba por fazer maiores concessões aos estrangeiros devido ao escasso apoio interno e a desorganização geral do país. O desalento da intelectualidade com o movimento republicano de 1911 esta espelhado no conto de Lu Sun "Verdadeira história de Ah Q", onde ele o descreve como um contecimento confuso, promovido por charlatães onde somente gente ignorante e crédula termina perdendo a vida. O desaparecimento do poder central acelerou a proliferação pela China afora das trágicas e deletérias figuras dos senhores da guerra (tukiuns), déspotas locais que possuem exércitos privados, que ao mesmo tempo em que espoliam os camponeses, lutam entre si, numa revivência das guerras feudais européias. Desde a morte de Yuan, o impopular general-presidente, até o surgimento do novo "homem forte", o general Chiang Kai-shek (a partir de 1926), o país se encontrará dilacerado pelos conflitos internos. Aproveitando-se dessa situação e da guerra que eclode na Europa em 1914, o Japão obriga a China e aceitar as "21 petições" que é mais um gole na taças da infindável amargura nacional.

Como resultado da evolução da União pelo Renascimento da China. Fundou-se em 1912 o Kuomintang (Partido Nacional do Povo), que tem seu cérebro teórico em Sun Yat-sen e seu braço armado no jovem general Chiang Kai-shek. Rapidamente os nacionalistas ganham prestígio na China meridional, enquanto o norte do país se vê convulsionado pelas quadrilhas dos senhores de guerra que lutam pelo controle de Pequim, umas apoiadas pelos japoneses, outras pelos ocidentais. O projeto do Kuomintang prevê a unificação nacional sob uma liderança caudilhesca baseada numa organização autoritária sem participação popular, similar ao movimento dos "jovens turcos" de Kemal Atatürk que ocidentalizou o antigo império otomano nos anos 20.

A ascensão dos Nacionalistas ganhará novo impulso com a eclosão da Revolução bolchevique de 1917 e com o término da Primeira Guerra Mundial, da qual a China participou ao lado das Potências Ocidentais, esperando desse modo anular os "tratados iníquos" aos quais os japoneses a submeteram, bem como retomar o controle dos territórios "arrendados" à Alemanha.

O impacto da Revolução Russa e
a I Guerra Mundial

O impacto da Revolução Russa de 1917: a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, em 1917, teve enorme repercussão sobre os povos coloniais. A partir de 1918 registra-se internacionalmente uma radical mudança na postura em relação às regiões dominadas pelas potências européias. Tanto o Presidente Wilson dos Estados Unidos, como Lenin chefe do Comitê Central do PC da URSS, esboçam estratégias alternativas à situação colonial, que ambos ao seu modo consideram historicamente superadas. Já nos "14 Pontos" do Presidente Wilson foi feita referência explícita a que os países colonizadores deviam governar doravante "no interesse dos povos por eles submetidos". Lenin tinha uma proposta mais radical, recomendou aos asiáticos e aos africanos que lutassem contra o colonialismo, que desse fim à dominação imperialista. A atenção dos bolcheviques pelos assuntos asiáticos aumentou na medida em que a Revolução socialista ficou circunscrita à Rússia, não se expandindo pelo resto da Europa industrializada como esperavam. No 11º Congresso da Internacional Comunista vamos encontrar a elaboração das táticas a serem adotadas sobre a questão colonial, recomendando-se que:

"...todos os partidos socialistas devem ajudar ao movimento democrático-burguês de libertação de seus países" ao mesmo tempo em que devem "apoiar especialmente os movimentos camponeses nos países atrasados contra os latifundiários, contra todas as sobrevivências do feudalismo e esforçar-se por adotar o movimento camponês de um caráter mais revolucionário, estabelecendo uma aliança, a mais estreita possível, entre o proletariado socialista da Europa Ocidental e movimento revolucionário dos camponeses do Oriente..." (3).

Até então, as idéias socialistas eram apanágio de uma escasso grupo de intelectuais ocidentalizados que se concentravam em Pequim. Os principais textos marxistas, como o "Manifesto Comunista", haviam sido publicados em 1906 e de forma completa em 1919/20. Somente em 1923 começaram a serem editadas as traduções sistemáticas de Marx, Engels e Lenin. (3) Lenin, V.I. El despertar de Asia, 1920

O nacionalismo chinês encontra-se com o marxismo: entre esses admiradores da revolução russa encontrava-se Li Ta-chao, o bibliotecário-chefe da Universidade de Pequim, um intelectual prestigiado e reconhecido editor de revistas, que era também um nacionalista que sofria em ver a China ser tantas vezes humilhada. A Revolução Russa pareceu-lhe a redenção dos chineses. Num famoso artigo ele enalteceu o governo de Lenin dizendo que "a vitória do bolchevismo dá o sinal revolução mundial do século 20", depositando suas esperança de que a teoria leninista pudesse também emancipar os asiáticos. Viu no erguimento da URSS uma nova civilização, diferente da Ocidental e da Asiática e capz, por sua posição geográfica, de intermediar no futuro as relações entre o Oriente e o Ocidente. No pequeno círculo de estudos que ele organizou em 1918 - Sociedade de Pesquisas Marxistas - para estudar a experiência russa, acolheu um jovem hunanês que também trabalhava na biblioteca como ajudante: Mao Tse-tung. Como o papel do proletariado na China era de pouca significação, visto o país ser habitado por "mar de camponeses", Li Ta-chao cunhou a expressão "nação proletária" para integrar a China inteira na doutrina marxista, porque ela estava à mercê da exploração de todos os paises industriais. A teoria da "nação proletária" enfrentando um mundo hostil, dominado por grnades potências, irá ressurgir nos anos 60 quando Lin Piao, então o braço direito de Mao Tse-tung, a fez reviver para explicar a posição da China Popular frente à URSS e aos E.U.A. simultâneamente.

O Partido Comunista Chinês, por sua vez, foi fundado discretamente por um letrado chamado Chen Tu-hsiu, na cidade de Shangai em 1921 (por incrível que pareça numa das salas de um colégio católico para moças), estando presentes 57 membros-fundadores, entre os quais Mao Tse-tung.

O Pacto Yoffe - Sun Yat-sen: a URSS seguindo a estratégia de apoiar movimentos nacionalistas anticolonialistas, procurou aproximar-se diplomaticamente do Koumintang. Para sedimentar a aliança entre os comunistas russos e os nacionalistas chineses assinaram o "Pacto Yoffe - Sun Yat-sen" em 1923, segundo o qual os soviéticos passariam a dar assistência administrativa e militar para reforçar politicamente os nacionalistas chineses, ao mesmo tempo em que ordenavam ao esquálido PC chinês a dar seu apoio integral ao Kuomintang.

O Movimento Quatro de Maio de 1919: outro fator de grande importância no desenvolvimento da história revolucionária da China foi a Primeira Guerra Mundial. Em 14 de agosto de 1917, os chineses declaram guerra Alemanha na esperança de contar com a colaboração das potências colônias no período pós-guerra. Solicitavam que a) as grandes potências renunciassem às suas esferas de influências na China, b) que as tropas estrangeiras fossem retiradas, c) que lhes fossem abolidas a jurisdição consular e os correios postas estrangeiros e, por último d) que lhes fossem devolvidas as concessões e territórios arrendados, bem como a restituição das alfândegas. No grande tratado de Paris de 1919, acertado entre vencedores e derrotados da Iª Guerra Mundial, as demandas chinesas para por fim ao estatuto semicolonial em que a China se encontrava não foram aceitas, pois a Inglaterra, a França e o Japão negaram-se a acatá-las, apesar delas terem o apoio do Presidente Wilson.

O fracasso dos diplomatas chineses na conferência de paz de Paris provocou enormes manifestações estudantis em Pequim, voltadas não só contra a dominação estrangeira como contra a impotência do governo. A explosão social que teve início em 4 de maio de 1919 estendeu-se por diversas regiões do país congregando estudantes, jornaleiros, artesãos e trabalhadores. Os ministros filo-nipônicos foram obrigados a renunciar e a China não assinou o Tratado de Paz. O que não alterou em nada a situação em que se encontrava. Para os historiadores da China Contemporânea porém, o Movimento Quatro de Maio é o marco da grande marcha rumo à libertação nacional. A rebelião estudantil e operária acendeu a chama do radicalismo político como exerceu enorme influência cultural com sua crítica acerbada ao confucionismo e ao imobilismo social da China. Os antigos valores entravam definitivamente em declínio. Para a nova geração de chineses urgia dotar o país de condições teóricas e culturais que superassem a mediocridade e a paralisia em que se encontrava, além da vexaminosa subordinação às potências colonialistas.

A insatisfação contra o Tratado de Versalhes tem reações distintas na Alemanha e na Itália, onde nazistas e fascistas vão capitalizar a frustração nacional gerada pela iniqüidade do Tratado e igualmente denunciar a fraqueza dos seus governantes perante as potências vencedoras.

Lu Sun, símbolo dos letrados engajados (1930)
Lu Sun, símbolo dos letrados engajados (1930)

Lu Sun e a rebeldia dos letrados: o mais representativo nome da rebelião dos letras estimulada pelo Movimento Quatro de Maio foi o escritor e tradutor Lu Sun (ou Zhou Shuren). Ele, como tantos outros jovens participou do êxodo de estudantes chineses para o Japão que deu-se no final do século 19. Quando porém em 1905 deparou-se com um diapositivo que mostrava os japoneses executando um chinês perante uma multidão apática de outros chineses, ele percebeu que de nada iria lhe servir o curso de medicina. Constatou que o mal da China não era físico, mas sim cultural e espiritual. Decidiu-se então pela literatura. Ao mesmo tempo dedicou-se tradução de obras européias ou russas, para que os estudantes chineses se atualizassem nas discusões que corriam o mundo naquela época.

Imbui-se em transformar sua literatura numa arma de denúncia, ou como diziam na época "revirar a terra com a sua pena". Lu Sun abominando o confucionismo, atacou o atraso cultural e a covardia moral dos seus conterrâneos. Tornou-se o maior contista da China moderna, num estilo que lembra muito o despojamento do russo Gorki e um clima narrativo inspirado no universo sombrio de Dostoievski. Sentia-se, como ele escreveu a um amigo, como um homem ao lado de uma caixa de ferro que vê as pessoas presas lá dentro e que começa a gritar do lado de fora para que pelo menos alguns deles acordem e se dêem conta da situação miserável em que se encontram. Os jovens estudantes captaram esse sentido dizendo que iriam "lutar contra as forças da escuridão com os nossos punhos desarmados". Em 1930 Lu Sun ingressou na Liga dos Escritores de Esquerda que, dominada pelo ambiente stalinista, lhe pareceu "asfixiante", parecendo a ele que tivessem lhe pregado uma corrente de ferro nos pés.

Nacionalistas e Comunistas: da colaboração à ruptura (1923-27)

A aproximação no plano externo do Kuomintang com a URSS, e com o Kungchantang (PC chinês) no plano interno, foi uma decorrência lógica da postura política dos nacionalistas chineses nos seus primeiros anos de afirmação. Hostilizados pelos ocidentais que os viam com natural desconfiança, era plausível que os nacionalistas chineses procurassem a aliança com os soviéticos devido a política anticolonialista qu eles adotaram (a URSS anunciou publicamente em julho de 1919 a revogação de todos os privilégios que o império czarista anteriormente gozava na China, rejeitando os tratados expoliativos e indenizações que a Rússia forçara o império chinês a assinar). Ao representar as tendências da burguesia urbana, o Kuomintang guardava distância dos latifundiários rurais e dos senhores da guerra (que geralmente eram aliados de um ou outro poder colonialista), encontrando um denominador comum com os comunistas. Por outro lado a aproximação com o governo bolchevique concretizava a doutrina das "Três Políticas" fixadas por Sun-Yat-sem: "colaboração com a URSS, colaboração com o PC chinês e apoio aos operários e camponeses".

Taça de marfim incrustada com turqueza, encontrada no túmulo do rei Fu Hao, da dinastia Shang, 1200 a.C.
Taça de marfim incrustada com turqueza, encontrada no túmulo do rei Fu Hao, da dinastia Shang, 1200 a.C.

Rapidamente os soviéticos, pondo em prática o Tratado Yoffe-Sun Yat-sen, trataram de enviar assessores para instruir militarmente os chineses. Em 1925, fundou-se a Academia de Whampoa dirigida por Chiang Kai-shek, um oficial nascido em 1887, que servira inicialmente ao Japão e que depois convertera-se ao movimento nacionalista, tendo como seu adjunto o dirigente comunista Chou En-lai. O objetivo dessa escola militar era adestrar jovens oficiais chineses para formarem um novo exército nacional necessário reunificação do país, dilacerado pelos conflitos entre os senhores da guerra e pela aviltante presença estrangeira. Os comunistas encarregaram-se de fornecer os quadros políticos e administrativos, mas numericamente são pouco significativos (5). Mesmo assim, os setores direitistas do Koumintang manifestam sua desconfiança para com eles e cerceiam suas atividades. O número de militantes do PC chinês é de 57 membros em 1921, 123 em 1922, 342 em 1923 e 955 em 1925. Em 1927, ano da ruptura com Kuomintang, possuía 57.963 membros.

Enquanto isto o estilhaçamento da China tinha sua continuidade; como Lucion Bianco apontou: "os efeitos mais evidentes das lutas destes senhores da guerra são a regionalização cada vez mais acentuada da vida política, o debilitamento do Estado, a secessão da China meridional e, por fim, a opressão do povo, sobretudo das massas camponesas, aniquiladas pela passagem dos exércitos com sua seqüela de saques e extorsões, as abusivas tributações dos senhores provinciais, o recrudecimento da queda da produção e do consumo, seguido do abandono e deteriorização dos trabalhos de irrigação e prevenção de inundações. Afora a política espoliativa praticada pelas nações ocidentais".

Dotado de um exército razoavelmente disciplinado e lutando por uma causa - a causa da unidade nacional -, Chiang Kai-shek deu os primeiros passos em 1926 na "campanha do Norte" contra os senhores da guerra. No entanto a aproximação dos exércitos nacionalistas dos grandes centros urbanos, como Shangai e Cantão, fizeram com que as lideranças operárias, corporativas e sindicais, fortemente motivadas pelos comunistas, se lançassem em rebelião. Queriam tomar o poder naquelas cidades antes que o exército nacionalistas puzesse os pés nelas. Chiang Kai-shek ficou entre as duas alternativas: ou apoiava as comunas vermelhas recém instauradas ou as sufocava. Optou pela última alternativa. Ao ocuparem Shangai, Cantão e Wuhan, suas tropas lançaram-se num desapiedado massacre de sindicalistas e dos quadros comunistas. Liquidou 37.985 mil ativistas, sendo que mais 13 mil foram executados posteriormente. O resultado prático da ação repressiva dos nacionalistas foi o rompimento com a URSS e a quase total liquidação dos quadros urbanos do PC chinês. Desde então abriu-se uma trincheira de sangue entre nacionalistas e comunistas que nunca mais voltou a fechar.

Em junho de 1930, seguindo a determinação do Potiburô liderado por Li Li-san, os comunistas fizeram sua última e infrutífera tentativa de atacar as cidades, acreditando ainda no mito do marxismo clássico da revolução operária, sendo porém escorraçados. Aparentemente derrotados, os vermelhos refugiaram-se em pequenas fortificações no interior do país para evitarem um massacre final. Com a repentina direitização do Koumintang, que levou-o por um tempo até a aproximar-se da Alemanha Nazista, o que de fato se iniciou a partir dos massacres de 1927 era a mais longa guerra civil dos tempos modernos, uma guerra civil que só iria terminar vinte e dois anos depois com a vitória de Mao Tse-tung em 1949.

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