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Governos de Saul Davi e Salomão

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Até meados da década de 70 do século XX, raras vozes no mundo acadêmico ousariam contestar a versão abaixo para descrever a origem e as características da monarquia israelita.

3.1. Ascensão e Queda de Saul

Os filisteus, um dos “povos do mar” rechaçados pelo Egito, haviam ocupado uma fértil faixa costeira no sudoeste da Palestina. Isto aconteceu por volta de 1150 a.C. Os filisteus formaram uma confederação de cinco cidades: Gaza, Ascalon, Ashdod, Gat e Ekron.

Ou porque viam em Israel uma ameaça às suas rotas comerciais ou por algum outro motivo, os filisteus avançaram com um exército organizado contra os agricultores israelitas. Usavam armas de ferro, metal que sabiam trabalhar bem e perigosos carros de combate, além de possuírem uma longa tradição militar.

Aí por volta de 1050 a.C. os filisteus atacam e vencem os israelitas perto de Afeq, na região norte. De acordo com 1Sm 4, a Arca da Aliança, levada pelos sacerdotes de Silo para o campo de batalha, como última esperança, foi capturada, os israelitas derrotados. Silo, destruído.

Os filisteus não ocuparam todo o país, mas posicionaram-se em postos estratégicos, cortando as comunicações entre os vários grupos israelitas. Além do mais, proibiram o trabalho em metal em todo o território israelita – o que equivalia a um desarmamento geral do povo e à sua dependência dos filisteus até mesmo para os trabalhos mais elementares da agricultura – e saquearam os produtos de boa parte do país.

Samuel tentou por todos os meios levantar e organizar o povo para uma luta de libertação. Em vão.

A saída, então, foi a escolha de um chefe único, colocado acima de todos os grupos israelitas autônomos. Nem que fosse alguém com poder despótico, superior às tribos todas em poder, com perigoso precedente de utilização deste poder contra parte da população, como acontecia nos reinos vizinhos e como demonstra o apólogo de Joatão em Jz 9,8-15, em um dos mais brilhantes panfletos anti-monárquicos que se conhece na história.

Eis o texto:

“Um dia as árvores se puseram a caminho

para ungir um rei que reinasse sobre elas.

Disseram à oliveira: ‘Reina sobre nós!’

A oliveira lhes respondeu:

‘Renunciaria eu ao meu azeite,

que tanto honra aos deuses como aos homens,

a fim de balançar-me por sobre as árvores?’

Então as árvores disseram à figueira:

‘Vem tu, e reina sobre nós!’

A figueira lhes respondeu:

‘Iria eu abandonar minha doçura

e o meu saboroso fruto,

a fim de balançar-me por sobre as árvores?’

As árvores disseram então à videira:

‘Vem tu, e reina sobre nós!’

A videira lhes respondeu:

‘Iria eu abandonar meu vinho novo,

que alegra os deuses e os homens,

a fim de balançar-me por sobre as árvores?’

Então todas as árvores disseram ao espinheiro:

‘Vem tu, e reina sobre nós!’

E o espinheiro respondeu às árvores:

‘Se é de boa fé que me ungis para reinar sobre vós,

vinde e abrigai-vos à minha sombra.

Se não, sairá fogo dos espinheiros

e devorará os cedros do Líbano!'”.

Sobre a ascensão de Saul, um impetuoso benjaminita, a líder do povo, há duas versões opostas que refletem duas tendências: uma que aclama e defende a idéia (1Sm 9,1-10.16), outra que se opõe e alerta contra o perigo do empreendimento (1Sm 8).

“Este é o direito do rei que reinará sobre vós: Ele convocará os vossos filhos e os encarregará dos seus carros de guerra e dos seus cavalos e os fará correr à frente do seu carro; e os nomeará chefes de mil e chefes de cinqüenta, e os fará lavrar a terra dele e ceifar a sua seara, fabricar as suas armas de guerra e as peças de seus carros. Ele tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará os vossos campos, as vossas vinhas, os vossos melhores olivais, e os dará aos seus oficiais. Das vos­sas culturas e e das vossas vinhas ele cobrará dízimo, que destinará aos seus eunucos e aos seus oficiais. Os melhores dentre os vossos servos e as vossas servas, os vossos bois e os vossos jumentos, ele os tomará para o seu serviço. Exigirá o dízimo dos vossos rebanhos, e vós mesmos vos tornareis seus escravos. Então, naquele dia, reclamareis contra o rei que vós mesmos tiverdes escolhido, mas Iahweh não vos responderá, naquele dia!” (1Sm 8,11-18).

Este discurso, colocado na boca de Samuel, é, na verdade, um texto deuteronomista, avaliando, após a sua falência, o que de fato a monarquia representou em Israel, Mas, alguns acham que se pode considerá-lo como herdeiro de uma tradição antimonárquica que se manifesta já na época de Saul.

De qualquer maneira, numa atuação carismática e espontânea, Saul conseguiu uma vitória sobre os amonitas que entusiasmou o povo e o convenceu de suas capacidades guerreiras (1Sm 11). Depois disso ele foi, segundo o Deuteronomista, aclamado rei em Guilgal (1Sm 11,14-15).

Mas, podemos dizer que Saul não foi propriamente um rei. Continuou a viver em sua terra, Gibea, e não tocou na estrutura interna da organização tribal. Era um chefe militar: mantinha um pequeno exército permanente e regular e seu governo oferecia alguns cargos: seu primo Abner era general de seu exército, Davi, seu escudeiro. Se houve mais, pouco foi.

Saul e seu filho Jônatas conseguiram uma boa vitória sobre os filisteus reunidos em Gibea e Micmas (1Sm 13-14), o que deu a Israel um alívio temporário.

Entretanto, a queda de Saul devia acontecer em breve. As causas poderiam ser identificadas na ambigüidade de sua posição (rei ou chefe tribal?), na independência tribal, na sempre constante ameaça dos filisteus e principalmente no desentendimento entre a antiga ordem tribal e as exigências da nova ordem.

Segundo as fontes bíblicas de que dispomos, Saul teria usurpado funções sacerdotais (1 Sm 13) e violado antigas leis da guerra santa que não favoreciam sua estratégia militar (1Sm 15).

Samuel, significativo representante da antiga ordem, acabou rompendo com Saul. As coisas se agravaram, porém, quando o jovem pastor de Belém, Davi, amigo de Jônatas e marido de Mical, filhos de Saul, tornou-se seu rival. Saul assassinou a família sacerdotal de Silo, agora estabelecida em Nob, porque esta defendera Davi (1Sm 22) e a partir daí perseguiu Davi implacavelmente.

Davi refugiou-se no deserto e formou um bando de guerreiros que fugiam de Saul e atacavam os filisteus. Não se agüentando, porém, nesta posição, Davi e sua tropa oferecem seus serviços ao rei filisteu de Gat. Este o acolhe e lhe dá como feudo a cidade de Siclaq, no Negueb.

A queda de Saul acontece quando os filisteus partiram mais uma vez de Afeq e, escolhendo posição favorável, entraram em choque com o exército de Saul a noroeste do monte Gelboé. A batalha estava perdida antes mesmo de começar, mas Saul não voltou atrás. Resultado: seus três filhos morreram em combate e ele mesmo, muito ferido, “se lançou sobre a sua espada” e seu exército foi totalmente desfeito (1Sm 31).

Os filisteus cortaram-lhe a cabeça e fixaram seu corpo e os de seus filhos nos muros de Bet-Shan, como exemplo para os israelitas. Então, ocuparam toda a terra. Saul liderou os israelitas de 1030 a 1010 a.C.

Fonte: www.airtonjo.com

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