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Nunca o prazer se conhece (1595)

Redondilhas de Luís Vaz de Camões

Glosa

a este mato alheio:
Trabalhos descansariam
se para vós trabalhasse;
tempos tristes passariam
se algüa hora vos lembrasse.

GLOSA

Nunca o prazer se conhece

senão despois da tormenta;

tão pouco o bem permanece

que, se o descanso florece,

logo o trabalho arrebenta.

Sempre os bens se lograriam,

mas os males tudo atalham;

porém, já que assi porfiam,

onde descansos trabalham,

trabalhos descansariam.

Qualquer trabalho me fora

por vós grão contentamento;

nada sentira, Senhora,

se vira disto algüa hora

em vós um conhecimento.

Por mal que o mal me tratasse

tudo por bem tomaria;

posto que o corpo cansasse,

a alma descansaria,

se para vós trabalhasse.

Quem vossas cruezas já

sofreu, a tudo se pôs;

costumado ficará;

e muito milhor será,

se trabalhar para vós.

Tristezas esqueceriam,

posto que mal me trataram;

anos não me lembrariam,

que, como estoutros passaram,

tempos tristes passariam.

Se fosse galardoado

este trabalho tão duro,

não vivera magoado;

mas não o foi o passado,

como o será o futuro?

De cansar não cansaria,

se quiséreis que cansasse;

cansar, morrer, fá-lo-ia,

tudo, enfim, me esqueceria,

se algüa hora vos lembrasse

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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