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Dama d’estranho primor (1595)

Redondilhas de Luís Vaz de Camões

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a üa Dama

Dama d’estranho primor,

se vos for

pesada minha firmeza,

olhai não me deis tristeza,

porque a converto em amor.

Se cuidais de

me matar quando usais

de esquivança,

irei tomar por vingança

amar-vos cada vez mais.

Porém vosso pensamento,

como isento,

seguirá sua tenção

crendo que em tanta afeição

não haja acrescentamento.

Não creiais

que destarte vos façais

invencível;

que Amor sobre o impossível

amostra que pode mais.

Mas já da tenção que sigo

me desdigo;

que, se há tanto poder nele

também vós podeis mais qu’ele

neste mal que usais comigo.

Mas se for

o vosso poder maior

entre nós,

quem poderá mais que vós

se vós podeis mais que Amor?

Despois que, Dama, vos vi,

entendi

que perdera Amor seu preço;

pois o favor que lhe eu peço

vos pede ele para si.

Nem duvido

que não pode, de sentido,

resistir;

pois, em vez de vos ferir,

ficou, de vos ver,

ferido.

Mas, pois vossa vista e tal

em meu mal,

que posso de vós querer?

Que mal poderei valer

onde o mesmo Amor não val?

Se atentar,

nenhum bem posso esperar;

e oxalá

Que vos

alembrasse já,

sequer para me matar.

Mas nem com isto creiais

que façais

meus serviços mais pequenos;

porqu’eu, quando espero menos,

sabei que então quero mais.

Nada espero,

mas de mim crede este fero

que, em ser vosso,

vos quero tudo o que posso

e não posso quanto quero.

Só por esta fantasia

merecia

de meus males algum fruito;

que ainda não quero muito

para o muito que queria.

De maneira

que não é, na derradeira,

grande espanto,

que quem, Dama, vos quer tanto

que outro tanto de vós queira.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

 

 

 

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