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Nunca em prazeres passados (1668)

Redondilhas de Luís Vaz de Camões

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Glosa
a este moto:
Foi-se gastando a esperança,
fui entendendo os enganos;
do mal ficaram meus danos e do bem só a lembrança.

Nunca em prazeres passados

tive firmeza segura,

antes tão arrebatados

que inda não eram chegados

quando mos levou ventura.

E como quem desconfia

ter em tal sorte mudança,

no meio desta porfia,

de quanto bem pretendia

foi-se gastando a esperança.

Não tive por desatino

a ocasião de perdê-la;

mas foi culpa do destino,

que a ninguém, como mais dino,

Amor pudera sustê-la.

Dei-lhe tudo o que era seu,

não receando tais danos

deste, a quem alma lhe deu;

quando já não era meu,

foi entendendo os enganos.

Fiquei, deste mal sobejo

a quem a causa compete,

dizer-lhe tudo o que vejo,

que Amor aceita o desejo,

mas mente no que promete.

Que, se a mim se me obrigou

a dar-me bens soberanos,

foi engano que ordenou,

que do bem tudo levou,

do mal ficaram meus danos.

E se de dor tão desigual

sofro em mim com padecê-los,

quero de novo sofrê-los;

que, por a causa ser tal,

não determino ofendê-los.

Dobre-se o mal, falte a vida,

creça a fé, falte a esperança,

pois foi mal agradecida;

fique a dor n’alma imprimida,

e do bem só a lembrança.

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

 

 

 

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