O modelo chegou a participar inclusive do famoso Paris-Dakar. A fim de atender a exigências da FIA, algumas unidades foram posteriormente adaptadas para uso comum.
Fonte: www.automoveis.pt
Porsche 959
Previsão do futuro não é uma ciência. Basta observar que as profecias de Nostradamus só são compreendidas -- ou interpretadas -- após o evento "previsto" acontecer. Apesar disto, por incrível que pareça, a indústria automobilística precisa prever o futuro diariamente.
Explica-se: todo automóvel requer pelo menos três anos desde o conceito básico até o pátio das concessionárias. E é no primeiro ano que se define o veículo, imaginando um mercado, uma economia e compradores que existem apenas no futuro. Esse é um dos motivos da procura incessante da indústria por ciclos de produto mais curtos.
Sabendo de tudo isso, o que dizer de uma empresa que, 20 anos atrás, conseguiu imaginar (e lançar) um produto muito similar a seu equivalente atual?
O 959 foi exatamente isso: o futuro da Porsche, visto a partir do longínquo ano de 1982.
Os Porsches de Weissach Em 1974, a Porsche era uma empresa diferente daquela que havia lançado o 911 onze anos antes. Um gigantesco centro tecnológico havia sido criado perto do vilarejo de Weissach, cerca de 25 quilômetros a oeste da sede de Zuffenhausen, este um bairro de Stuttgart. Ali passariam a ser desenvolvidos todos os novos Porsches, utilizando instalações e tecnologia de ponta em todas as áreas de pesquisa, desenvolvimento, estilo, projeto e testes.
A grande novidade daquele ano foi o lançamento do mítico 911 Turbo, o Porsche de rua mais veloz e potente até então. Esse carro nasceu da experiência adquirida nas pistas, onde os 911 e 917 turbo (as primeiras "crias" de Weissach) haviam aniquilado oponentes em anos passados.
Mas, para a Porsche da época, ele não era o mais importante. Estava a todo vapor, dentro dos portões de Weissach, um projeto que -- acreditava-se então -- garantiria o futuro da empresa: o cupê que hoje conhecemos como 928, com motor V8 dianteiro arrefecido a água, que seria lançado em 1977 e deveria substituir o 911 até 1980.
O Turbo, considerado então o último desenvolvimento possível da velha plataforma 911, seria produzido apenas enquanto houvesse demanda. Mais uma prova de que o futuro é impossível de prever: hoje o 928 está quase esquecido, mas você ainda pode comprar um 911 Turbo zero-quilômetro.
O 928 e seu irmão menor 924 (na verdade um carro projetado e produzido pela Audi, mas "adotado" como seu pela Porsche) nunca atingiram o sucesso esperado. O mercado ainda pedia o 911, e assim a Porsche o manteve em produção, com pequenas modificações. Pequenas mesmo: em 1986, onze anos após lançado, o Turbo ainda tinha câmbio de quatro marchas apenas.
Mas um membro da família Porsche mudaria isso, ainda que indiretamente. Ferdinand Piëch, neto do Professor Porsche e pai do 917, trabalhava àquela época na engenharia da Audi (iniciando uma segunda carreira de sucesso que culminaria na direção de todo grupo Volkswagen) e lá patrocinou a criação do primeiro Audi Quattro, com tração integral permanente, lançado em 1980.
Porsche 959
O sistema 4x4 abria novas possibilidades para o 911, pois seu principal problema era o comportamento muito sobresterçante em curvas (saía de traseira), devido ao motor localizado atrás do eixo posterior. O carro era também perfeito para a instalação do sistema: bastava colocar uma árvore de transmissão (cardã) saindo do câmbio até a dianteira, enquanto os 928 e 924, com motor dianteiro e transmissão traseira, tornariam praticamente inviável tal adaptação.
Com o 911 escolhido como base, as idéias começaram a fluir em Weissach: por que não aproveitar esse "911 4x4" para explorar os limites da plataforma 911, visto que o mercado não desistia dele? E, já que se ia gastar dinheiro nisso, por que não criar um carro que testasse todas as novas idéias da Porsche? Seria ótimo para manter os engenheiros, sem um grande projeto desde o 928, atualizados nas novas tecnologias.
Por coincidência, por volta desta época, a Federação Internacional do Automóvel (FIA) publicava as regras do futuro Grupo B de rali, para veículos de rua produzidos em uma série de no mínimo 200 unidades. Tudo conspirava para que fosse criado um novo topo-de-linha para a Porsche, um carro que levaria ao extremo um conceito veicular inaugurado pelo criador da empresa na década de 30 e lentamente desenvolvido até então: motor boxer refrigerado a ar, pendurado atrás do eixo traseiro.
Porsche 959
Basicamente, o carro seria o "Fusca" mais rápido e avançado que o mundo já vira... Uma vitrine tecnológica, um experimento que culminaria na mudança do curso futuro da Porsche -- e que faria do 911 um carro quase imortal.