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Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Debaixo de semblante severo, mas sereno, Pelágio sabia esconder a amargura que lhe trasbordava de coração. No viço da juventude, o espírito lhe encanecera em meio dos dolorosos sucessos da sua ainda tão curta vida. A todas as mágoas comuns se lhe acrescen­tavam outras particulares, porventura mais pungentes. A maior par­te dos seus companheiros haviam trazido para as Astúrias os pais decrépitos, os filhos e as esposas, todos aqueles por quem repartiam os afetos do seu coração. Ele, porém, não pudera salvar uma irmã que adorava e que Favila, expirando, entregara em seus braços para que fosse o defensor e o abrigo da que ficava órfã no mundo. Ao sair de Tárraco, para se ir ajuntar à hoste de Roderico, o mancebo deixara Hermengarda nos paços paternos, encomendada à guarda de alguns velhos bucelários de seu pai. Quando, depois da batalha junto do Críssus, se acolhera às montanhas, onde só podia conservar a liberdade, Pelágio avisara sua irmã do lugar em que existia e lhe comunicara todos os meios de penetrar naquela quase inacessível guarida. A resposta de Hermengarda foi digna de uma neta dos godos: dizia-lhe que brevemente seria com ele; porque preferia um covil de feras habitado por Pelágio às delícias de Tárraco, sobre a qual não tardaria, talvez, a pesar o férreo jugo dos muçulmanos. Com os bucelários que lhe deixara, ela ia atravessar a Espanha, encaminhando-se a Légío, onde devia chegar dentro de poucos dias.

Essa carta de Hermengarda produzira cruéis receios no ânimo do mancebo. Sabia que os árabes derramados já pela Galécia, não tardariam a envolver na torrente das suas assolações a antiga cidade romana: ele, que experimentara qual era a fúria dos guerreiros do oriente, compadecia-se das vãs esperanças de resistência que os habi­tantes de Légio alimentavam ainda. De feito, um dia em que enviara alguns cavaleiros pelos diversos caminhos que Hermengarda poderia seguir na sua arriscada e longa peregrinação, estes voltaram sobre a tarde com uma bem triste nova. Os árabes, capitaneados por Abdula­ziz, haviam chegado junto aos muros daquela forte povoação, e poucas horas lhes tinham bastado para hastearem nas suas torres o estan­darte de Maomé e para passarem à espada os seus defensores. Deixando aí uma das tribos berberes, o exército dos conquistadores guiara rapidamente para a Tarraconense, e os esculcas godos haviam esca­pado a custo aos almogaures árabes, desaparecendo entre os desvios das serras e espreitando das apertadas portelas o caminho que seguia a multidão dos infiéis, os quais lhes pareceu dirigirem-se para o lado do célebre mosteiro da Virgem Dolorosa. Quanto à irmã de Pelágio, nenhuns vestígios haviam encontrado da sua passagem: nenhuma esperança traziam.

Tais foram as novas que os cavaleiros enviados aos vales além de Légio deram ao moço guerreiro, que já os esperava impaciente em uma das gargantas do Vínio. Cheio de tristeza, Pelágio voltou então para a sua morada selvática, para o esconderijo pelo qual havia tanto tempo trocara os paços paternos da esplêndida Tárraco. Du­rante muitas horas, no meio do denso nevoeiro acamado sobre as encostas, pelas sendas tortuosas das montanhas, os cavalpiros que seguiam o duque de Cantábria não ousaram quebrar-lhe o doloroso silêncio. Apenas, pela calada da noite negra e fria, soava lá ao longe o ruído do Sália, de cujas margens por vezes se aproximavam. O sussurrar, porém, da corrente, amortecido de quando em quando pela distância confundia-se com o ramalhar nas sarças do lobo que fugia e com o brando rugir dos pinhais, balouçados pela bafagem do vento. Estes sons vagos e confusos respondiam ao tropear dos ginetes, gal­gando as serras ou descendo lentamente e enfileirados à borda dos precipícios. O nevoeiro, mergulhando-se nestes branqueava-lhes os seios e revelava a sua existência, deixando entre uns e outros como uma fita tortuosa e escura que ia morrer mui perto no breve horizonte, encurtado pela cerração e pelas trevas.

Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleou sem brilho adiante dos cavaleiros, que haviam rodeado as montanhas, fazendo um largo semicírculo. Naquele momento transpunham uma garganta medonha. Pelo contrário de outros lugares que tinham atravessado, aqui as serras erguiam-se quase a prumo de uma e de outra parte da estreita passagem. Por meio dela sentia-se o ruído de torrente caudal, que parecia vir da banda da luz que se via em distância, e o nevoeiro, cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos guerreiros e nos cabelos que lhes on­deavam pelos ombros, saindo de sob os elmos.

Seguindo o curso do ribeiro, a cavalgada chegou, por fim, a um vale mais amplo, mas também rodeado de serras, ruja sombra gigante seria fácil perceber, apesar da cerração, a quem olhasse atentamente em roda. A luz que parecia guiar os cavaleiros, a princípio duvidosa, tênue, sumindo-se a espaços, crescia rapidamente e era já um grande clarão, que refletia pelos penhascos, visíveis para um e outro lado, e cintilava no dorso da corrente. Um grito de esculca veio quebrar o silêncio dos caminhantes, que durante tantas horas não tinham proferido uma única sílaba.

As palavras - Covadonga e Pelágio! - repetidas pelos cavaleiros da frente responderam à voz do esculca, que em pé e quedo sobre um outerinho, os deixou passar avante. Em breve chegaram ao termo da sua viagem. O vale findava em extensa penedia cortada a pique. À direita uma subida íngreme, talhada na pedra viva, conduzia a um arco irregular aberto nas rochas. Era a claridade do fogo aceso de­baixo dele a que se derramava no vale e que ainda ia alumiar frouxa­mente o passo estreito que os cavaleiros haviam atravessado. Encos­tadas aos rochedos e dispersas junto à raiz daquela muralha altíssima, estavam derramadas muitas choupanas, grosseiramente construídas de mal acepilhados troncos e cobertas de ramos e colmo. Em frente de várias delas ainda fumegava o brasido das fogueiras noturnas daquela espécie de arraial, onde ciciava o respirar compassado dos que dormiam. Ao pé da primeira e mais extensa choupana, Pelágio descavalgou; os mais seguiram o seu exemplo.

- Gutislo! - bradou um dos cavaleiros, cujo elmo se distinguia dos demais, porque era o único em cuja superfície negra e baça não reverberava o clarão avermelhado dos carvões acesos que ainda res­tavam de uma grande fogueira, junto da subida íngreme que guiava à caverna.

Um homem agigantado e de fera catadura saiu da choupana murmurando sons mal articulados e que pareciam de agastamento. Dos recém-vindos os principais começaram a subir vagarosamente a senda fragosa que tinham ante si enquanto Gutislo recolhia os gine­tes, que mal se podiam menear de cansados, e os simples bucelários se derramavam pelas tendas erguidas junto dos penhascos.

Os cavaleiros chegaram ao topo da subida. A caverna de Cova­donga, o palácio do duque de Cantábria, estava patente. Da esquerda, em vasta lareira, ardia um grosso cepo de sobreiro, que conservava tépida e enxuta a atmosfera, naturalmente fria e úmida: da direita, pelas quebras angulosas das rochas, viam-se deitados capacetes, saios de malha e muitas armas ofensivas. Escabelos grosseiros, mesas de carvalho e alguns leitos de peles de animais silvestres, amontoadas sobre a cortiça que servia de pavimento, completavam o adereço daquele rude aposento. Todavia, as armas polidas, ordenadas em feixes, e as estalactites seculares, penduradas do teto, reverberando o clarão da fogueira, davam ao topo da lapa um aspecto esplêndido que de algum modo assemelhava esta habitação de feras a uma sala de armas de paços afortalezados.

É alta noite: os cavaleiros que haviam acompanhado Pelágio dormem profundamente, estirados nos pobres leitos da gruta. Quem ouvisse os nomes desses rudes soldados saberia quais eram os restos da mais ilustre nobreza goda: eram muitos daqueles que, havia poucos meses, nos paços magníficos de Toletum passavam as noites em festas, os dias em banquetes e que, depois de existência deleitosa, esperavam ir dormir, sob as arcarias das criptas das catedrais, nos túmulos soberbos de seus avós. E todavia, a conquista reduziu-os à vida de bár­baros e fê-los retroceder aos costumes duros e ferozes dos companhei­ros de Teodorico e de Ataúlfo, aos hábitos de rudeza dos primitivos visígodos.

O moço duque de Cantábria vela, porém. Assentado em um esca­belo junto do lar aceso, com a face encostada ao punho, deixa balouçar a sua alma em tempestade de dolorosos pensamentos, lembrando-se de Hermengarda. Por mais de uma hora, Pelágio se conservara nesta situação, quando, ao voltar a cabeça, viu que mais alguém velava, como ele. O cavaleiro que ao chegarem chamara por Gutislo, em pé por detrás do escabelo, com os braços cruzados e os olhos fitos na chama, parecia meditar profundamente. No seu aspecto havia o que quer que fosse tenebroso e sinistro.

- Como assim! - exclamou o mancebo - ainda não buscastes o repouso? Depois de tão larga correria, não imaginava achar-vos ao pé de mim, que velo porque a amargura não consente que o sono me cerre as pálpebras. Tendes, acaso, uma irmã querida, uma esposa que muito ameis, por quem devais tremer, e que, talvez, neste momento seja vítima das paixões desenfreadas dos infiéis?

- Não tenho ninguém no mundo - respondeu o cavaleiro, cujo aspecto se carregou ainda mais ao ouvir estas últimas palavras: - mas não pode aquele cujo coração é ermo desses afetos ser também infeliz?

- Infelizes são todos os moradores de Covadonga - acudiu Pe­lágio: - mas o que à desventura comum ajunta receios bem fundados pela honra ou, ao menos, pela vida daqueles que muito amou é mil vezes mais desventurado.

- Duque de Cantábria, quando tiverdes medida por onde aferir ao certo o meu e o vosso coração podereis falar assim.

- Tê-la-ia, talvez, se conhecesse a história da vossa vida: mas vós a cobris de impenetrável mistério.

- Porque é o segredo mais santo da minha alma - interrompeu com veemência o cavaleiro; - segredo que esta boca nunca revelará na terra.

- Nem eu o exijo: longe de mim tal intento. A carta que me trouxestes de Teodomíro me assegura que sois um nobre gardingo: tanto bastou para que vos recebesse entre aqueles com quem reparto a minha caverna de foragido. Nunca vos perguntei, sequer, por que abandonastes um homem que de suas palavras vejo vos amava como irmão.

- Oh! quanto a isso, dir-vo-lo-ei - atalhou de novo o guerreiro, pondo a mão sobre o punho da espada. - Foi porque eu o cria um anjo de virtude e esforço, e ele era apenas um homem! Foi porque a paz que pactuou com os muçulmanos, honrosa aos olhos do vulgo, era, a meus olhos, infâmia. Paz com o infiel? Ao cristão só cabe fazê-la quando dormir ao lado dele sono perpétuo no campo de batalha; quando, ao lado um do outro, esperarem ambos que as aves do céu venham banquetear-se em seus cadáveres. Antes disso não a compreendo. Disse-lho, sem cólera, sem injúrias, ao abandoná-lo para sempre. Nesse momento algumas lágrimas correram destes olhos; porque a alma de Teodomiro era a última em que morava um afeto que respondesse aos meus: era o último templo em que me sorria a esperança!

E as lágrimas que ele dizia haver derramado nessa triste sepa­ração corriam, de novo, quatro a quatro pelas faces do guerreiro.

Apenas o gardingo proferira estas derradeiras palavras, o clarão avermelhado da lareira bateu subitamente no vulto agigantado de Gutislo, que surgira à boca da gruta e parecia hesitar se devia ou não interromper o diálogo dos dois guerreiros.

- Velho lobo do Hermínio, aproxima-te - disse Pelágio em tom de gracejo, como que tentando afastar as tristes idéias que lhe oprimiam o espírito. - Que buscas a tais desoras? Tiveste, acaso, em sonhos saudades das barrocas das tuas serras nevadas, e creste que Covadonga era o antro de teu irmão, o javali?

- O caçador das montanhas - replicou o lusitano, na sua linguagem pinturesca de bárbaro - não estaria aqui, se a saudade dos lugares em que nasceu lhe morasse no coração. Os homens de além do mar mataram-lhe ou cativaram-lhe mulher e filhos quando estes, por seu mal, num dia em que ele perseguia nos cimos da serra os lobos ferozes, ousaram descer com o rebanho aos vales do Munda. Por isso te segui eu, ó godo: tu derramas o sangue dos homens de além do mar, e eu quero derramá-lo também.

- A que vens, pois aqui? - replicou Pelágio, a quem as palavras do celta traziam de novo ao espírito a lembrança de que também ele era, talvez, órfão de irmã querida.

- A dizer-te que um desconhecido chegou ao vale. Repete não sei que nome godo, como o teu; de Hermengarda, me parece. Pede para te falar.

- Onde está ele? - exclamou Pelágio, em cujos olhos brilhara a esperança misturada de temor. - Que venha! oh, que venha breve!

E, alevantando-se, encaminhou-se ligeiro para a entrada da gru­ta, de onde Gutislo outra vez desaparecera. Antes, porém, que aí chegasse, um velho, cujos trajos desordenados, rotos e cobertos de lodo davam indícios de ter atravessado largo espaço das serranias, entrou na caverna e, arrojando-se aos pés do duque de Cantábria, rompeu em soluços, sem poder proferir palavra.

Num relance Pelágio o conhecera.

- Aldefonso! onde está Hermengarda? Bucelário! onde está a filha do teu patrono?

O velho tentou responder; porém não pôde, e continuou a soluçar.

- Entendo-te: é morta! Nunca mais te verei, minha pobre irmã! - murmurou o mancebo, escondendo o rosto entre as mãos.

Ao gardingo, que durante esta cena se conservara imóvel, fugiu um gemido abafado. Depois, levou o punho cerrado à fronte, como se quisesse conter aí uma idéia dolorosa que tentava resfolegar.

Houve largo espaço de temeroso silêncio. O velho quebrou-o por fim:

- Não; não é morta! Mas, porventura, ainda o seu fado é mais horrível. Jaz cativa em poder dos infiéis. Não me foi dado salvá-la, e não quis morrer sem vos dar esta nova cruel. Agora...

Um brado de Pelágio atalhou as palavras do bucelário sufocadas pelo choro.

- As minhas armas e o meu cavalo! Que me dêem o meu franquisque! Velho vilíssimo, já que não soubeste deixar-te despe­daçar junto dela, dize, ao menos, onde poderei encontrar os pagãos que cativaram Hermengarda.

Lavado em lágrimas, o ancião narrou-lhe em breves palavras os sucessos que se haviam passado no mosteiro da Virgem Dolorosa. Ele tinha feito tudo para a resolver a tentar a fuga. "Ainda na cripta fatal - concluiu Aldefonso - através das grades que me embargavam os passos, por vós, pelas cinzas de vosso pai, lhe supli­quei de joelhos que me acompanhasse. Os velhos bucelários de Favila, no meio do tumulto, a teriam, talvez, posto em salvo! Sorriu, porém, das minhas esperanças e conservou-se firme no seu propósito. Mas Deus tinha ordenado que, em vez de obter o martírio, caísse nas mãos dos agarenos. De todos os que vínhamos em sua guarda, só eu, acaso, pude escapar, misturado com os soldados da Transfretana. Assim, segui por algum tempo os árabes, que se encaminham para o lado de Segisamon. Ao anoitecer, embrenhei-me nas montanhas. Um pastor que encontrei me serviu de guia, até que cheguei aos pés de meu senhor para lhe pedir a morte e para lhe jurar que estou inocente."

- De pé, cavaleiros! Aos infiéis, em nome de Cristo! - gritou o duque de Cantábria, com uma voz que retumbou nas profundezas da caverna.

Habituados às súbitas arrancadas noturnas contra os árabes, quando vagueavam em correrias longínquas, os companheiros de Pelágio ergueram-se de salto, ainda mal despertos, e por uma espécie de instinto lançaram mão das armas penduradas por cima das suas cabeças. Era solene e tremendo o espetáculo que apresentava a gruta naquele alçar repentino de tantos homens, no brilho das armas que relampagueavam à luz da fogueira e tiniam umas nas outras. Entre­tanto Pelágio ordenava a Gutislo que despertasse os homens de ar­mas espalhados pelas choupanas do vale e fizesse dar o sinal de encavalgar. Era necessário partir.

No meio, porém, da revolta, havia alguém que se conservava quedo e que parecia tranqüilo. Era o gardingo desconhecido. En­costado à parede anfractuosa da gruta e demudado o gesto, con­templava aquela cena com o vago olhar de quem alongara o pen­samento para mui longe dali. Enquanto todos os demais cavaleiros rodeavam Pelágio, indagando inquietos a causa daquele súbito ape­lidar para uma correria noturna, ele só ficara imóvel e como indi­ferente ao tumulto que as vozes do duque de Cantábria tinham excitado entre os guerreiros.

- Qual de vós outros, cavaleiros - dizia Pelágio aos que o rodeavam - duvidará um momento de que, se um mensageiro chegasse e lhe dissesse: "vossa esposa, vossa filha, vossa irmã caiu em poder de infiéis" eu hesitasse em ir ajudá-lo a arrancar essa vítima querida à bruteza cruel dos pagãos? Nenhum; porque mais de uma vez tenho arriscado a vida para curar saudades e amarguras dos dester­rados como eu. Deu-me o céu uma irmã; deu-me o último suspiro de meu pai uma filha; deu-me a ternura por essa virgem, cuja ima­gem vive eterna neste coração virgem como ela, uma esposa. Quando a triste inocente vinha abrigar-se à sombra do escudo de seu irmão, os infiéis roubaram-na. Viúvo e órfão, apelo para os últimos corações generosos da Espanha. Por Deus, que me ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda. Como tua filha Brunilde, ela é formosa, Gu­desteu! Como tua esposa Elvira, ela é boa e carinhosa, Algemiro! Como tua irmã, Múnio, ela é inocente e pura. Godos, por tudo quanto amais, salvai-a, salvai-a a mesquinha!

O nobre esforço do mancebo desaparecera ante a idéia dolorosa da sorte que a Providência reservara à desventurada filha de Favila. Ele estendia as mãos unidas para os cavaleiros, como uma criança tímida que implora compaixão.

- Partamos! - exclamaram ao mesmo tempo os nobres foragidos. - Tua irmã será salva ou nenhum de nós voltará mais à gruta de Covadonga!

Uma voz trêmula, mas retumbante, trovejou por detrás deles:

- Não partireis daqui!

Voltaram-se. Era o gardingo.

- Quem o ordena? - bradou Pelágio, com toda a energia que esta inesperada resistência despertara subitamente nele.

- Um homem - replicou o desconhecido, atravessando o círculo dos guerreiros que rodeavam o duque de Cantábria e lançando em volta olhos altivos; - um homem cujo coração é há longo tempo morto, porque as paixões o queimaram; mas cuja inteligência por isso mesmo é mais fria. Quantos sois vós? Quantos bucelários dormem pelas tendas desse vale? Apenas alguns centenares de lanças poderiam, ao todo, transpor convosco os passos das serras. Os infiéis e os renegados que os servem quantos são? Se podeis contar as estrelas que ora recamam o céu, podereis dizer-me o número deles. Tu, Pelágio, braço de ferro, coração de bronze, quem és tu? O guardador das últimas esperanças da cruz e da pátria. Quem te deu, pois, o direito de correres a morte certa? Quem te deu o direito de apagar no sangue dos últimos godos o único facho que alumia as trevas do futuro da escravizada Espanha?

- E a ti - interrompeu furioso e arrancando meia espada o violento Sancion - quem te incumbe de nos dizeres: não saireis daqui? Quem és tu, que, vindo não sei de onde, pretendes dominar como senhor aqueles que só obedecem a Deus?

O desconhecido olhou para o movimento ameaçador de Sancion, e pelo rosto passou-lhe um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços e respondeu com voz lenta e solene:

- Por minha boca falaram milhares de godos que gemem no cativeiro e que voltam de contínuo os olhos para os cerros das Astú­rias, onde apenas fulgura tênue o santo fogo da liberdade: falaram por minha boca as aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos, as imagens de Cristo derribadas no lodo, os muros enegrecidos das cida­des incendiadas. É isto tudo que voz diz: - não saireis daqui! - Perguntas quem sou? Dir-to-ei. O último homem que, junto do Críssus, viu, combatendo, a face dos árabes vencedores, enquanto os valentes fugiam; o homem que tentou morrer com a pátria, e que a mão de Deus salvou para neste momento vos dizer: não saireis daqui! Queres saber quem eu sou? Lê, Pelágio, o que escreveu aí Teodomiro. Dize-lhe depois qual é o meu nome.

E, tirando da escarcela uma tira de pergaminho dobrada, abriu-a e entregou-a a Pelágio,

O duque de Cantábria correu-a pelos olhos e, deixando-a cair em terra, murmurou: - "Meu Deus, o cavaleiro negro!"

Os godos apinhados em roda recuaram alguns passos e houve um momento de ansioso silêncio.

- Anjo, ou demônio, que nos explicas um mistério por outro mistério - exclamou, enfim, Pelágio visivelmente perturbado: - cristãos e árabes lembram-se ainda das tuas incríveis façanhas nas margens do Críssus. Mil vezes eu próprio tenho dito: dez como ele haveriam salvado o império de Teodorico! Devemos obedecer-te, se és um homem, como dizes, porque vales mais que nós. Se és o anjo que preside aos fados da Espanha, mais submisso ainda será o nosso obedecer. Mas, que mal te fez minha desgraçada irmã?...

- Que mal me fez tua irmã? - atalhou com veemência o gardingo. - Nenhum! ... E quem te disse que não quero, que não posso salvá-la, eu, que não sou anjo, que sou, como tu, um homem? Quais de entre vós - prosseguiu, voltando-se para os cavaleiros que o rodeavam - sois neste mundo sós e não tendes quem na morte regue com lágrimas a terra que vos cobrir? Quais de vós sois, como-eu, desterrados no meio do gênero humano? Que os órfãos de coração ergam a destra para o céu, onde só há um seio que lhes receba os gemidos de amargura, o seio imenso de Deus!

Doze guerreiros, e entre eles o fero Sancion, alevantaram a destra para o ar à voz imperiosa do gardingo.

- A cavalo! - gritou este, apertando o largo cinto da espada e enfiando no braço a férrea cadeia do franquisque. - Pelágio! se dentro de oito dias não houvermos voltado, ora a Deus por nós, que teremos dormido o nosso último sono, e chora por tua irmã, cujo cativeiro já ninguém, provavelmente, quebrará, senão o anjo da morte. Partamos!

Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou rapidamente a caverna e desapareceu nas trevas exteriores: os doze guerreiros escolhidos seguiram-no maquinalmente, porque os seus meneios e gestos os tinham fascinado, ao lembrarem-se de que este homem era o cavaleiro negro. O duque de Cantábria, subjugado também pela espécie de mistério solene que cercava todas as ações deste ente extraordinário, nem ousou perguntar-lhe por que meio intentava salvar Hermengarda. Todavia uma vez íntima e irresistivel lhe dizia: "resigna-te e confia". Confiado e resignado esperou, portanto, o cumprimento das promessas do incógnito gardingo.

XIV

A Noite do Amir

Arrebatada no palor das trevas.

Breviário Gótico: Hino de S. Gerôncio.

Era ao cair do dia. O nordeste seco e regelado corria as campinas do espaço, onde, através da atmosfera puríssima, cintila­vam as estrelas. O clarão de Segisamon incendiada refletia de longe nas brancas tendas dos árabes, acampados a bastante distância dos muros da povoação destruída. Em volta do arraial, pelas coroas dos outeiros, acendiam-se as almenaras, a cuja luz, tênue, compa­rada com a do incêndio de Segisamon, se viam passar os atalaias noturnos. Abdulaziz, semelhante a cometa caudato, seguia a sua órbi­ta de extermínio, deixando após si vestígios de fogo. O exército devia ao romper da alva internar-se nos vales da Tarraconense.

Segisamon tinha na véspera oferecido um espetáculo semelhante ao de muitas outras cidades da Espanha levadas à escala pelos mu­çulmanos. Não só a cobiça e o desenfreamento da soldadesca multiplicavam aí as cenas de rapina, de violência e de sangue, mas tam­bém a política dos capitães árabes procurava aumentar a terribilidade desses dramas repetidos para quebrar os ânimos dos godos e persua­di-los à submissão. O dia precedente a esta noite que começava tinha sido consagrado pelos vencedores ao repouso, depois de um duro lavor de morte e ruínas. Os jogos, os banquetes, as dissoluções de todo o gênero haviam recompensado brutalmente o esforço brutal dos destruidores de Segisamon.

Às coortes do renegado Juliano tocava nesta noite a vigia do arraial: eram godos os que guardavam o campo, onde as virgens da Espanha tinham sido violadas; onde a cruz cativa fora mais de uma vez ludibriada; onde os velhos sacerdotes haviam sofrido con­tentes o martírio no meio das afrontas. Aqueles homens perdidos, rodeando esse montão de abominações, ainda não fartos dos deleites infernais em que tinham tido parte com os infiéis, embriagavam-se, bebendo pelos vasos sagrados, e escarneciam blasfemos a crença da sua infância no meio de hedionda ebriedade.

O murmúrio imenso do arraial foi amortecendo gradualmente com o fechar da noite. Em breve, não se ouvia nas tendas do Islam senão o respirar lento de tantos de milhares de homens adormecidos nos braços do gozo. Junto, porém, das almenaras as risadas dos soldados do conde de Septum, os cantos obscenos inspirados pela embriaguez, as disputas ardentes do jogo, em que o ouro corria de mão em mão, soavam ainda em volta do silêncio do campo. Pouco e pouco, este mesmo ruído foi afrouxando, ao passo que os fachos acesos nas chapadas dos outeiros esmoreciam. A escuridão e o silên­cio reinaram, enfim, até nas atalaias. Os soldados godos, cansados de dissoluções, haviam também repousado. E para que prestaria velar? O terror que inspiravam os árabes era o melhor guardador do arraial. Como ousariam os cristãos, medrosos atrás dos muros dos seus casteos, saltear o campo de Abdulaziz? As vigias e alme­naras eram apenas uma velha fórmula militar, cuja significação a série não interrompida dos triunfos até então alcançados tornara ininteligível.

Pela calada, porém, da alta noite e no meio das trevas que co­brem, como amplo manto, aquele turbilhão de homens de guerra, descansando então para ao romper do sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda, através das telas mal unidas de uma tenda mais vasta, reverberar vivo clarão, e ouve-se o rir alegre, o altercar, o tinir ar­gentino das taças; todos indícios, enfim, de que a orgia se prolongou aí até mais tarde. Ao redor da tenda jazem por terra, com os alfan­jes nus junto a si, alguns soldados da guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros mais temidos do exército, os negros do remoto país de Açudane. Nos ouvidos deles restruge debalde o alto ruído que soa do interior do pavilhão. Dormem, também, profundamente, e apenas à porta da tenda um deles vela imóvel encostado à acha de armas.

A tenda era, de feito, a do esforçado filho de Muça. A mesa do banquete ainda vergava com os restos das iguarias: os brandões já gastos e os candeeiros mortiços derramavam uma claridade suave pelo aposento. Reclinado sobre um almadraque coberto de preciosa alcatifa do oriente, o amir escutava o mais moço dos xeques que estavam junto dele, o qual, ora cantava os versos voluptuosos de Zohéir que acendiam a imaginação do jovem guerreiro, ora lhe re­petia os antigos poemas licenciosos e satíricos de Ibn-Hagiar que ele aplaudia com estrondosas risadas.

O conde de Septum e os mais capitães godos aliados dos agarenos conservavam-se ainda nos lugares que haviam ocupado durante o banquete. Para aquela extremidade da vasta mesa viam-se algumas ânforas tombadas e outras ainda cheias dos vinhos mais preciosos da Espanha; as taças que giravam ao redor eram as que produziam o tinir que soava fora, no meio do ruído das falas, dos gritos e dos cantos monótonos do xeque Abdalá.

Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada lhe cala como frocos de neve sobre os anéis dourados do saio de malha, estava assentado à direita de Juliano. A brancura dos seus cabelos era o único sinal que se lhe enxergava de uma larga peregrinação na terra; porque o rosado da tez, a viveza dos olhos azuis, o garbo nos meneios e a robustez dos membros agigantados mostravam nele mais que muito a compleição vigorosa de homem de boa idade. Era Opas, o bispo Opas, que se esquecera do sacerdócio, como se havia esquecido da pátria, e que, habituado à vida solta dos arraiais, excedia já na violência de paixões ignóbeis os mais desenfreados e bárbaros chefes das tribos semi-selvagens da África. Muitos outros tiufados e qüingentários, assentados ao longo da mesa, davam mostras de infernal alegria, despejando as taças de prata, que os libertos lhes enchiam de novo para de novo rapidamente se esgotarem.

"Vede os nazarenos malditos - dizia Abdulaziz em voz baixa ao xeque Abdalá, olhando de través para os godos. - O amor da em­briaguez nunca os deixará ver a luz que mana das páginas do divino Alcorão. Para eles o fruto da vide será sempre a ponte estreita, da qual, ao passarem na morte, se despenharão no inferno."

- E que nos importam as suas almas tisnadas - replicou Abda­lá - se eles nos ajudam a sujeitar à lei do santo profeta o império de Andaluz? Sem Deus e sem pátria, deixai-lhes ao menos a sua bruteza.

O Bispo de Híspalis percebeu que falavam dele e dos outros godos, porque os xeques haviam volvido para lá os olhos. Erguendo­-se então com a taça em punho, exclamou em arábico:

- Ao invencível Abdulaziz; a um dos mais nobres vingadores de Vítiza!

- Alfaqui dos romanos - respondeu o amir - a lei do profeta não consente que eu aceite a saudação que atravessou por lábios tintos no licor amaldiçoado por ele.

- E que montam as maldições do teu profeta? - replicou Opas em tom de gracejo. - Devemos nós por isso deixar de saudar o ilustre filho de Muça com o abençoado e generoso vinho dos férteis outeiros da Espanha?...

- Infiel!... - interrompeu o amir em cujos olhos cintilara o despeito. Depois, reportando-se, prosseguiu em tom brando, mas firme, como quem queria ser prontamente obedecido: - Nobres cavaleiros do Garbe, valentes xeques do Négede, de Barria, e de Almogrebe, a noite vai alta, e ao romper da manhã é necessário partir. Que o sono vos desça sobre as pálpebras nas vossas tendas de guerra!

A estas palavras, godos e árabes, alevantando-se, foram saindo da tenda vagarosamente e em silêncio. Só o bispo de Híspalis, aper­tando a mão de Juliano, murmurou: "Oh, quanto fel se mistura com o prazer da vingança! Mas cumpra-se o nosso fado".

Ao atravessarem o arraial, os dois filhos renegados da Espanha notaram que nos cabeços das almenaras a escuridão era tão profunda como no resto do campo. Tudo, porém, estava tranqüilo. Apenas, a pouca distância, lhes pareceu verem passar como sombra um cava­leiro que se encaminhava para o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente, algum soldado de açudane, que, tresnoitado, se retraía para o seu alojamento junto da tenda do amir.

Entretanto este, apenas só, começou a caminhar agitado e a passos largos de uma até outra extremidade do aposento, que ricos panos da Síria dividiam dos que ocupavam os servos. No seu gesto, turbado por afetos encontrados, passavam sucessivamente os vestí­gios destes: ora a indignação lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; ora lhe sorria nos olhos um pensamento voluptuoso; ora a compaixão parecia suavizar-lhe esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz, como vencido pela tempestade da sua alma, assentou-se no alma­draque, e cobriu o rosto com ambas as mãos. Conservou-se assim por largo tempo, em silêncio e quedo, até que, afinal, as suas paixões triunfaram e rebentaram com violência.

Batendo as palmas, o amir bradou: - "Alfehri!"

Um dos panos que dividiam a tenda em várias quadras alevan­tou-se de um lado, e um vulto negro e disforme, que parecia arras­tar-se com dificuldade, encaminhou-se para o amir. Era como um tronco de gigante pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão do ventre e pela desmesurada grossura da cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados. O monstro, apenas deu alguns passos, parou, cruzando sobre o peito os braços grossos e curtos semelhantes a dois madeiros informes.

- Eunuco - disse Abdulaziz com voz agitada - conduz aqui a última das minhas cativas que especialmente confiei de ti.

O vulto recuou e, franzindo a espécie de reposteiro que lhe dera passagem, desapareceu. Passados alguns momentos, tornou. Uma figura de mulher, cujas formas mal se podiam adivinhar através de um raro cendal que a cobria até os pés, acompanhava-o. Com passo firme, ela se encaminhou para Abdulaziz, e o eunuco desapareceu de novo.

- Filha dos cristãos - disse em língua romana o amir - os dois dias que me pediste para chorares o teu cativeiro passaram. Resolveste, finalmente, a ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz; ser a invejada das donzelas do oriente e quase a rainha das províncias de Andaluz, porque acima de Abdulaziz só dois homens existem na terra, o amir de Almogrebe, aquele que me gerou, e o descendente do profeta, o que rege todo o império dos crentes?

- A minha resolução é morrer, quando te aprouver - replicou a cativa com serenidade; - porque essa resolução há muito que eu a tomei. Enganei-te, pagão, quando te pedi dois dias para chorar! Escarneci de ti, porque te abomino. Esperava que um braço de guer­reiro que vale mais do que o teu viesse arrancar-me do cativeiro. Ai de ti, se ele soubesse qual tinha sido o meu fado! Folga, pagão, de que a sentença fulminada por Deus contra os filhos da Espanha me abrangesse também. Nesta hora não fora eu; foras tu quem de­veria perecer. Mas ele não pôde salvar-me: só me resta dizer-te: infiel, tu és maldito de Deus: príncipe dos árabes, tu és servo dos demônios: homem que me pedes amor, sabe que eu te detesto.

- Dize tudo - interrompeu o amir, apertando com força o braço da cativa e fitando nela os olhos onde lutavam amor profundo e cólera violenta: - exala em injúrias a tua dor orgulhosa: sê, até, blasfema; mas não digas que detestas Abdulaziz; não digas que amas um godo e que ele fora capaz de te vir roubar da minha tenda. Desgraçado do nazareno que se lembrasse de amar-te depois que Abdulaziz te chamou sua. Onde se iria esconder esse mal-aventu­rado filho de uma raça vil e covarde, que pudesse escapar a este braço, o qual ao estender-se arranca pelos fundamentos os vossos castelos e reduz a pó os templos do vosso Deus e os muros das vossas cidades?

- Aquele que eu cria viesse em meu socorro - tornou com voz firme a cativa - não se esconderá de ti no dia em que estiverem em volta dele todos os seus irmãos em esforço e amor da terra natal: porque nesse dia das grandes vinganças vê-lo-ás face a face. Muitas vezes os teus guerreiros têm fugido diante dele; muitas vezes o in­cêndio dos arraiais pagãos tem ajudado o incêndio das nossas cidades a alumiar as trevas da noite, e a sua mão foi a que lançou o facho sobre a tenda do agareno. Esse, ao menos, se ainda se esconde, não é por temor de ti, nem dos teus cavaleiros, que, tantos por tantos e ainda em dobro, muitas vezes tem visto fugir.

- Entendo-te, altiva filha dos godos - replicou Abdulaziz. - Falas do que vós outros chamais Pelágio, e que só de noite ousa sair das solidões das suas montanhas para acometer as tribos de Almogrebe que fizeram assento no conquistado Garbe ou para assassinar os cavaleiros do deserto transviados. Apenas Saracusta e Tarracuna vissem flutuar sobre as suas muralhas os estandartes do Islam, eu iria arrancá-lo dos seus esconderijos para o punir. Mas tu abreviaste os dias do foragido nazareno. Dentro de pouco o seu cadáver ser­virá de pasto às aves do céu porque amou aquela que eu escolhi.

- Deus defenderá meu irmão - disse titubeando a donzela, cuja firmeza começava a abandoná-la, receando ver cumprida a ameaça do amir.

- Irmã de Pelágio?! Oh, repete-o, mil vezes! São as prisões do sangue que te unem ao cruel inimigo dos crentes?

- Por que finges ignorá-lo? Os velhos cavaleiros que me acom­panhavam e que comigo foram cativos no mosteiro que profanaste já o terão revelado.

- Nem as promessas, nem os tormentos puderam tirar de suas bocas o teu nome e a tua jerarquia. Mas jura-me que és a irmã de Pelágio, e ele poderá esquivar, se quiseres, o seu tremendo destino.

- Fora inútil negar o que eu própria confessei. O meu nome é Hermengarda: o duque de Cantábria, Favila, foi meu pai, e Pelágio é o filho e sucessor de Favila.

O amir ficou alguns momentos calado com o braço de Hermen­garda preso na mão robusta que ela sentia trêmula com o tumultuar dos afetos que agitavam o coração do árabe. Este, por fim, exclamou:

- Pelo precursor do santo profeta: por Iça, Hermengarda, que, se amas teu irmão, me digas: eu serei tua. Estas palavras o farão senhor da mais rica província do Andaluz, daquela que ele escolher para reinar como amir: os guerreiros que o seguem serão os vális das suas cidades, os alcaides dos seus castelos: dos meus tesouros metade será dele. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival; senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho querido do invencível Muça. Profere só essas palavras, e a sorte de Pelágio será invejada pelos nossos mais ilus­tres guerreiros!...

No gesto do agareno todos os vestígios da cólera tinham desa­parecido: só nele se lia a ansiedade de um amor imenso que precisa, mais que do gozo brutal, de um sentimento acorde com os próprios sentimentos.

Mas Hermengarda só vira afronta e opróbrio nas palavras do amir, e o ódio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo. Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacilara, respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:

- Nem sempre os valentes conquistadores da Espanha podem achar traidores que vendem por ouro e honras infames os sepulcros de seus pais e os altares do Senhor. Não! Pelágio não aceitará nunca um lugar entre os filhos de Vítiza e o conde de Septum; por­que Deus o guarda para vingador de seus traídos irmãos. Infiel, grande era o preço que davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares melhor: para comprares as livres e nobres donzelas do teu país. Tudo o que me ofereces é vil; porque vem de ti, maldito. Só uma oferta te aceito, há muito que ta pedi: a morte... a morte, e que seja breve. Abomino-te, destruidor da Espanha... Não! Enganei-me. Desprezo-te, salteador do deserto.

Com os lábios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras de Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao passar do furacão. Tremendo silêncio reinou por alguns momentos na tenda. Com um rir abafado e diabólico, o amir o rompeu por fim:

- A morte? - Não terás a morte: juro-to pelo sepulcro do profeta. Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o inseto? Tu serás minha, mulher orgulhosa, porque o meu amor é, como o meu ódio, inexorável e fatal. Depois quando o incêndio que me devora estiver extinto; quando o tédio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas dos berberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Pode ser que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te... Guarda para então as soberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer à voz do teu senhor.

Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a destra o braço de Her­mengarda, apertou-o com tanta violência que a desgraçada deu um grito de agonia e caiu de joelhos aos pés do árabe. O amir ergueu-a e, impelindo-a com força, ao tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que lhe velava o rosto, a fez cair pálida e trêmula sobre o almadraque. Os lábios da donzela quiseram ainda proferir algumas palavras - porventura uma súplica; mas apenas murmu­raram sons inarticulados, e feneceram em arquejar doloroso.

No seu furor, o filho de Muça, não sentira um rugido de cólera que respondera ao grito de Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido, que, segundo era íntimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o aposento do lugar de onde pouco antes saíra o eunuco e que ficavam fronteiras à entrada principal da tenda uma figura humana se estampou negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente os olhos, a viu. Crescia rápida. Es­cutou. Passos ligeiros soavam no vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir no ar um ferro: vira um vulto coberto de armas semelhantes às dos cavaleiros de Açudane: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido e que, batendo-lhe ainda no crânio, lhe retumbava no cérebro. Deu um grito, fechou os olhos e caiu aos pés de Hermengarda, manando-lhe o sangue da fronte. O monstro humano que conduzira ali a irmã de Pelágio assomou então do topo interior da tenda: o brado do amir o atraíra. Vendo seu senhor derribado e junto dele o que o ferira, o eunuco fez uma horrível visagem, como pretendendo falar: mas somente soltou um rugido acompanhado de um gesto de ameaça. Segundo o atroz costume do oriente, Alfehri, destinado desde a infância ao serviço misterioso do harém, fora condenado em tenros anos a nunca imitar a voz humana. Privado da língua, as suas expressões eram acenos ou aflitos e inarticulados rugidos.

O cavaleiro observava-o. Fê-lo sorrir o ademã feroz e ameaçador do eunuco. Tinha previsto todas as dificuldades daquela arriscada em­presa e contava com o seu esforço e frieza de ânimo para as vencer. Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam junto da mesa do banquete e chegou-a às ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chama enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espirais, enegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as labaredas abraçadas com feixes de lanças, com os panos custosos, que ondeavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se espalmadas sob o teto, romperam em línguas ardentes aprumadas para o céu. O incêndio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade, erguia-se como um tocheiro disforme aceso no meio do arraial e despertava assim do sono profundo os soldados de Açudane lançados em volta do pavilhão do amir.

Mas já a este tempo o cavaleiro se afastava do lugar daquela cena medonha. As palavras - "liberdade e Pelágio!" - proferidas por ele, tinham calado como um bálsamo de vida no coração de Hermengarda. O desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado do arraial onde estanceavam os godos. Outro cavaleiro lhe tinha de rédea dois ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança haviam restituído toda a natural energia, não hesitou em acompanhar o seu audaz e misterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e incertos que as tendas do imenso arraial formavam e guiando-se pela lua, que principiava a sair detrás dos outeiros, os três fugitivos encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao longe, refletiam já o luar das cumeadas cobertas de neve.

Entretanto Alfehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e o cavaleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incêndio mais prestes em acordá-los que o eunuco. À entrada da tenda, o vigia que devera despertá-los ao primeiro sinal de Abdulaziz havia adormecido de sono mais profundo que o deles. Um punhal enterrado na garganta até o punho lhe selara para sempre os lábios. Os gestos de desesperação de Alfeliri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir. Por entre as chamas, ferido e semimorto, a custo puderam salvá-lo. Pouco a pouco, o tumulto alongou-se pelo arraial: os xeques árabes e os capitães de Juliano corriam para o lugar onde brilhava o incêndio, e, dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar dos tambores, o tropear dos cavalos naquela vasta planície fariam crer a quem olhasse para ali dos montes vizinhos que no arraial se pelejava uma batalha noturna.

No meio da confusão que produzira por toda a parte este acon­tecimento inesperado e cujo motivo e circunstância inteiramente se ignoravam, ninguém reparou nos dois cavaleiros e na donzela, que, atravessando rapidamente por entre as tendas dos árabes e dos godos, se dirigiam para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos aguardavam os três fugitivos.

A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobressaltados pelo clarão que refulgia do lugar do incêndio e pelo rumor que soava dessa parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os outros outeiros, que sucessivamente se iluminavam. No largo giro que tal bradar fizera, aquela cadeia de sons uniformes fora subitamente quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozear dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um dos postos vizinhos, uma decania de corre­dores transfretanos desceu, então, aos vales e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram todos topar na coroa do outeiro. A claridade da lua, cujos raios inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços de armas, e, estirados ao pé delas, estavam os corpos de seus donos envoltos nos saios de malha. Rápido e vio­lento devia ter sido o cometimento, numerosos os cavaleiros inimigos; porque nem um dos atalaias pudera escapar. Nem um, que todos aí jaziam! Braço robusto tinham por certo aqueles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas profundas assinadas nos cadáveres davam disso testemunho. Não havia que duvidar: Pelágio salteara o arraial. O incêndio que reverberava ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da vin­gança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos defensores da Espanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o lugar dos banquetes, tinto ainda de vinho e imundo de prostituição.

Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espírito dos guerreiros, que olhavam como petrificados para a cena de morte que tinham ante si, a qual, de um lado, era alumiada pela luz débil da lua nascente e, do outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incêndio ao longe. Um correr de cavalos que subiam ligei­ros a encosta da banda do arraial lhes divertiu a atenção. Volveram para lá os olhos. Três vultos montados se dirigiam para ali. Dois, cobertos de armas escuras, ladeavam o terceiro, cujas roupas alve­javam ao luar. Os corredores transfretanos adiantaram-se para eles. Ao aproximarem-se, viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e elmos e traziam achas de armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros de Açudane que compunham a guarda do amir.

Um dos dois cavaleiros afastou-se da donzela e, dirigindo-se aos capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhe em roma­no, com voz que simulava profunda cólera:

- Os inimigos entraram no campo e acometeram a própria tenda de Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem: porque a eles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os traidores?

- Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome - replicou um dos decanos ou capitães dos esculcas. - Foi aqui onde deram o passo aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadáveres. Julgai-os.

E as duas decanias afastaram-se para os lados. Vinte cadáveres estavam lançados por terra.

- Sobre eles não caiu o opróbrio na sua última hora - disse o guerreiro depois de contemplar um momento aquele espetáculo. - Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas do campo. Não tardam os cavaleiros zenetas que vêm ajuntar-se nas atalaias convosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, en­quanto nós vamos conduzir para lugar seguro, fora do arraial re­volto, a escrava querida do amir. Vinde! - prosseguiu ele, voltando­-se para o companheiro.

Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzela e os seus libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.

Já os três fugitivos iam a alguma distância, quando, como tomado de uma idéia súbita, um dos esculcas exclamou:

- Aquele homem é godo! - Nenhum árabe fala assim a língua romana: muito menos os broncos guerreiros de Açudane. Por minha fé, que são inimigos!

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