Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Eurico Presbitero - Página 6  Voltar

Eurico, O Presbítero

Alexandre Herculano

Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se achavam os esculcas sobre o que sucedia no arraial, a rapidez com que se passara esta cena e, sobretudo, a audácia e o tom impe­rativo com que o desconhecido falara não haviam dado lugar à reflexão e às suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:

- Tens razão, bucelário - atalhou o capitão da decania. - Fazei-os parar.

Os três, que já iam a meia encosta, ouviram multas vozes clamar: "Esperai! "

- Somos perseguidos! - disse em voz baixa aquele que ficara junto da donzela enquanto o outro falava com os vigias.

- Está salva! - respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado todos os seus cuidados num pensamento único, a fuga de Hermengarda.

Duas frechas lhes sibilaram então por cima das cabeças.

- Covadonga e Pelágio! - gritou o que proferira as últimas palavras. Eram chegados à raiz do monte, junto ao qual uma planície inculta e coberta de urzes se estendia até ir topar com os bos­ques que povoavam os primeiros cabeços das serranias setentrionais.

A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo do sarçal, surgiram de repente uns reflexos metálicos, que se agitavam trêmulos, seme­lhantes à fosforescência de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito de - Covadonga e Pelágio - foi repetido daquele lado da gandra, como respondendo ao que soltara o cavaleiro.

- São os nossos valentes irmãos - disse ao companheiro o que falara com os decanos das tiufadias transfretanas. - São nossos irmãos que nos esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio deles a nobre irmã do duque de Cantábria. Entretanto eu reterei aqui os miserá­veis renegados, que já descem do outeiro a perseguir-nos: retê-los-ei enquanto alcançais a entrada do bosque e vos embrenhais na ser­rania, seguindo ao norte. A agrura das montanhas e a profundeza dos vales das Astúrias demorarão os inimigos, quando eu haja de perecer e não puder embargar-lhes os passos. Ide-vos.

- Não perecerás sem mim, cavaleiro negro - replicou o fero Sancion. - Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cega­mente enquanto não salvássemos a irmã de Pelágio. Mas, apenas alcançar a orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros, voltarei com todos os que me quiserem seguir. Para guiar a filha de Favila bastam dois guerreiros: o resto não bastará, talvez a reter durante o tempo necessário para a fuga a turba dos infiéis que se aproxima.

E, sem esperar a resposta do cavaleiro negro, Sancion adiantou­-se, dizendo à donzela, que apenas pudera perceber algumas pala­vras truncadas da conversação dos dois:

- Partamos!

E a galope, acompanhado de Hermengarda, brevemente se alon­gou pela vereda torcida, que se distinguia no meio das moitas, como beta alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.

A atenção do cavaleiro negro, que os seguira com os olhos, foi, porém, distraída para o outro lado pelo tropear, já pouco distante, dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam dele. Era chegada a ocasião de mostrar o extremo do seu esforço.

XV

Ao Luar

Das brenhas através afugentando-os

Co'a rápida carreira à ponte impele-os.

Ofício Moçárabe: Hino de S. Torquato.

Os socorros dados imediatamente a Abdulaziz tinham-lhe resti­tuído o sentimento da vida. O clarão da sua tenda, que ainda ardia a poucos passos do lugar para onde o haviam transportado, foi a primeira coisa que lhe feriu a vista ao descerrar os olhos do letargo em que estivera submerso. Esse facho desmesurado, cujo foco vermelho lhe aparecia coberto de vasta cúpula de fumo negro, o crepitar do incêndio, o rumor e alarida do arraial e a inquietação que se lia nos gestos dos que o rodeavam retraçaram-lhe subitamente no espírito a cena que se passara, pouco antes, naquele pavilhão incendiado. Era um quadro complexo e terrível: e o primeiro sinal de vida que o amir deu foi um grito de horror e desesperação. Alçando violentamente o corpo, ficou assentado sobre o almadraque em que estava deitado. Com o rosto lívido e tinto do sangue que lhe corria da fronte e o olhar espantado e feroz, hesitar-se-ia, ao vê-lo, em resolver se esse vulto era o de homem vivo, se o de morto que, afastando o sudário, se fosse a erguer da cova para revelar alguns dos temerosos mistérios que encerra a aparente quietação do sepulcro. Parecia que o aspecto do amir convertera em estátuas todos os circunstantes: a imobilidade era completa, e o silêncio profundo.

Mas uma e outra coisa duraram apenas rápido instante. Com a voz rouca e afogada, o árabe rugia:

- Segui-o! segui o infiel!... As suas armas são negras e semelhantes às dos guerreiros de Açudane... A melhor cidade do Garbe e a mais bela das minhas escravas a quem mo trouxer vivo aqui. Todos!... Ide, trazei-mo vivo! Prestes, xeques, vális, alcaides, cava­leiros do profeta! Prestes! correi após o meu assassino!

As palavras de Abdulaziz revelavam o delírio da sua alma; xe­ques, vális e alcaides olharam tristemente uns para os outros e não fizeram um único movimento.

- Quê - Não me obedeceis? Não obedeceis ao filho de Muça - exclamou o amir - porque a sua voz não soa no meio das trom­betas e tambores; porque ele não cinge a espada, nem cavalga o seu corcel de batalha? Sem mim, aterram-vos as solidões das mon­tanhas? Xeques do Saara e de Barca, vális de Andaluz, alcaides e almocadéns do exército dos crentes... sois covardes e desleais. Quando corre este sangue, vós não sabeis vingá-lo!

- Não somos desleais nem covardes, Abdulaziz: - interrompeu o mancebo Abdalá, o único dos chefes árabes que ousava replicar ao amir nos seus violentos acessos de furor. - Mas como queres que te obedeçamos, se não sabemos de quem te havemos de vingar? De um indivíduo ou de milhares deles; dos adoradores de Deus ou dos infiéis nazarenos; de nossos irmãos ou de nossos inimigos, não nos importa. Terás a vingança que pedes, inteira quanto mãos de homens a podem dar. A torrente dos teus cavaleiros espera, apenas, que profiras um nome e apontes um lugar, para correr destruidora e irresistível. Não deves antes disso condenar-nos.

- Quereis um nome e um lugar? - interrompeu o amir. - Ainda, pois, não os adivinhastes? Pelágio e as montanhas do norte. Lá, lá!... Era ele ou um demônio o que me feriu... Por quê?... Quando?... Oh, agora me lembra. Ia possuí-Ia, e roubaram-na! Por alto preço pagarão os nazarenos de Aljufe tanta audácia. A cavalo, almogaures do deserto... Persegui-o até o encontrardes. Mas vivo... quero-o vivo em minhas mãos! Ai daquele que o matar.

Alguns dos xeques iam já a sair da tenda para executar as ordens do amir. Um brado súbito deste os fez parar.

- Não!... Não partireis sem mim! Quero acompanhar-vos; hei de acompanhar-vos pelas brenhas e desvios; quero assistir à carnificina desses mal-aventurados que ainda resistem aos decretos de Deus. É preciso que em breve estejam nas minhas mãos Pelágio e sua irmã. Ambos!... Que me tragam ambos!

Daí a pouco, umas andas forradas de telas preciosas recebiam Abdulaziz, conduzido para ali sobre o mesmo almadraque ensangüentado em que os médicos judeus lhe haviam ligado as feridas. Rodea­vam as andas os cavaleiros negros de Açudane. Duzentos berberes, filhos das serranias do Atlas, estavam, também, em volta delas: estes deviam transportá-las a giros pelos alcantis das Astúrias. As renques de tendas alvejantes, pontiagudas, formando uma como vasta cidade, e que, ao subir da lua, davam ao arraial o aspecto de um cemitério do oriente, sem os ciprestes fúnebres e esguios; toda essa multidão de pavilhões brancos, semelhantes a um mar de pirâmides, havia desaparecido, e apenas o luar, batendo nos ferros das lanças dos esquadrões cerrados e na geada que cala sobre os turbantes dos cavaleiros, refrangia trêmulo um clarão prateado.

E o sussurro que se ouvia entre tantos milhares de homens era, apenas, o murmúrio das respirações opressas pelo frio noturno e o resfolegar dos ginetes, aspirando o nevoeiro úmido que se alevantava da terra.

Mas lá, na vanguarda, para o lado das atalaias do norte, donde se descortinavam os topos recortados das montanhas sobre o chão claro do céu, como fileiras de gigantes petrificados durante uma dança de embriaguez, tão fantásticos eram os seus contornos, ouvia­-se o ruído alto e indistinto do cruzar de muitas vozes, do tropear de muitos cavalos; viam-se lampejar as armas nos visos dos dois últimos outeiros que por aquela parte rodeavam o campo, e agita­rem-se ondas de vultos humanos e sumirem-se, onda após onda, como se os devorasse voragem aberta de súbito debaixo de seus pés: eram os cavaleiros que transpunham a eminência. O exército detrás daqueles dois outeiros, que formavam como um ponto único, vinha sucessivamente engrossando até o lugar em que estava Abdulaziz. Parecia um desmesurado triângulo de ferro, a ponto de ir bater na muralha da serrania, que, vestida com a sua armadura de selvas, esperava o embate daquele disforme vaivém, que já começava a oscilar ante ela.

Uma cena horrenda se passava entretanto, além das atalaias, no extenso sarçal que se estendia até o sopé das primeiras montanhas. Os soldados transfretanos tinham-se lançado pela encosta abaixo atrás dos fugitivos. Ao chegarem à planície, um dos três desconhe­cidos estava diante deles, esperando-os quedo no meio da estreita trilha aberta por entre as urzes. A acha de armas goda e a cadeia que lha prendia ao braço reluziam unicamente naquele vulto, cujo saio e cavalo negros e cujo silêncio profundo faziam lembrar um desses espectros errantes alta noite pelos lugares desertos.

Os outros dois vultos galopavam a alguma distância, encaminhando-se para a orla do bosque, onde continuavam a reverberar reflexos de armas polidas.

- Quem és tu? - disse um dos capitães das decanias, dirigindo o cavalo para o vulto negro. - Quem és tu, que ousaste enganar os atalaias do campo de Abdulaziz, os guerreiros do conde de Septum?

- Sou um homem que ainda não renegou nem da cruz, nem da Espanha; um homem que não aceitou o ouro dos bárbaros para ser o assassino covarde de seus irmãos.

- Miserável, que ajuntas ao engano a insolência! - rugiu o decano, alçando a espada. - As derradeiras palavras de orgulho e rebeldia acabam de sair-te dos lábios.

Últimas palavras foram, porém, as do decano: a borda girou sibilando no ar, e o guerreiro transfretano caiu para o lado morto, como se o fulminara o raio.

Com um grito de horror e de cólera, os que o seguiam precipi­taram-se para o desconhecido.

Rodeado de quase vinte homens, o cavaleiro negro repetia apenas uma parte das gentilezas que praticara na fatal jornada do Críssus. A cada golpe da borda respondia um gemido de moribundo; depois, uma injúria ameaçadora dos que ficavam; depois, um rir de des­prezo do cavaleiro, e daí a pouco, um novo gemido de alma que se despedia da terra. O tropel dos pelejadores rareava de instante a instante.

Mas os que expiraram não ficarão sem vingança. Os cabos das decanias, antes de seguirem os fugitivos, tinham enviado um buce­lário que relatasse a Juliano o que sucedera na atalaia e como eles iam no alcance daqueles a quem irrefletidamente haviam dado pas­sagem. O bucelário fora encontrar o conde junto de Abdulaziz. A sua narração e o que se passara na tenda do amir eram dois fatos que mutuamente se explicavam. Os esquadrões mais bem encavalga­dos foram despedidos logo em seguimento dos fugitivos. Na idéia de que só Pelágio podia ter audácia bastante para vir acometer o filho de Muça na sua própria tenda, os capitães do exército muçulmano não duvidaram um momento de que fosse ele o desconhecido. Colhendo-o às mãos antes de se unir aos seus montanheses, o extermí­nio destes seria fácil empresa. Assim, os melhores almogaures deviam persegui-lo sem descanso nem tréguas até o cativarem. Sendo assaz numerosos para resistirem a qualquer recontro inesperado dos godos das Astúrias, bastaria que o grosso do exército os seguisse de perto para fazer que a vitória fosse indubitável e completa.

Uns após outros, os esquadrões dos almogaures desciam já dos outeiros: o ruído do combate e o brilho das armas serviam-lhes de guia. Pareciam rolar pela encosta e, cegos na carreira, atufavam-se no mato, que estalava debaixo dos leves pés dos ginetes árabes. O cavaleiro viu-os e pensou. Esperar a pé firme milhares de homens não era esforço, era loucura. Além disso, os seus companheiros deviam ter-se já embrenhado nas selvas com a irmã de Pelágio. Até aí não fizera mais do que defender-se dos soldados transfretanos que o cercavam; mudando, porém, da defensão para o cometimento, arrojou-se contra os seus adversários, e em poucos instantes os que não caíram ante a acha de armas foram constrangidos a fugir, bus­cando amparar-se no meio dos esquadrões que se aproximavam.

Então o cavaleiro deu volta. A senda alvacenta que se estirava por entre o mato até a floresta começou a embeber-se-lhe debaixo dos pés do ginete. À vista, assemelhava-se a um rolo de fita, esten­dido e retesado por momentos, que solto, busca, volvendo-se de novo, a sua curvatura anterior. A rapidez da corrida era quem o podia salvar: a dianteira dos almogaures árabes hesitara vendo recuar tantos homens diante de um homem só; porém, ao retroceder do cavaleiro, lançavam-se despeadamente após ele para o alcançarem antes que chegasse ao bosque.

Mas a distância que os separava era grande, e os árabes, lançan­do-se às cegas por entre as sarças e estevas e enredando-se nelas, retardavam-se a si próprios e aumentavam essa distância. A sua alarida, que ia retumbar ao longe nas anfractuosidades da serra, ajudava o esporear do guerreiro com o espanto que produzia no ágil e robusto ginete.

Já bem perto do extremo da selva, o cavaleiro pôde distinguir uns vultos que pareciam esperá-lo. Ao seu bradar - Covadonga e Pelágio! - respondeu o mesmo brado, proferido por uma voz,retumbante. Conheceu-a: era a de Sancion. O fero gardingo cumprira a sua promessa. A despedida dos cristãos do campo de Abdulaziz devia ficar escrita com letras de sangue na história dos triunfos do Islam.

Chegando à orla do bosque, as primeiras palavras que o cava­leiro negro soltou foram dirigidas a Sancion:

- Por que voltastes sem vo-lo eu ordenar, vós os que tinheis jurado obedecer-me em tudo? Onde está a irmã de Pelágio?

- Segue os desvios da serra - respondeu Sancion. - Astrimiro e Gudesteu a acompanham: Hermengarda está salva. Só até este ponto nos ligava o juramento que demos. Foste nosso capitão: agora cessaste de o ser. Homens livres numa terra serva, queremos com­bater onde tu combates, morrer se tu morreres. Ao menos - acres­centou em tom amargo - não poderás dizer de novo que foste o último no pelejar enquanto os valentes fugiam.

- Louco! - exclamou o cavaleiro negro. - Junto do Críssus a Espanha pedia aos seus filhos que morressem sem recuar: aqui é também a pátria que exige dos seus últimos defensores que se não votem a morte inútil. Fujamos! vos digo eu; porque a fuga não pode desonrar aqueles que mil vezes têm provado quanto desprezam a vida. Vede... Não são apenas alguns corredores que nos perseguem: são esquadrões e esquadrões de agarenos que transpõem após nós a assomada.

Mas eles não o escutavam: Sancion, seguido dos seus nove com­panheiros, investia com os árabes, que tinham entretanto chegado.

Semelhante à segure, entrando no âmago do carvalho, sob os golpes do robusto lenhador, aquele punhado de homens, a cuja frente se achava Sancion, penetrou no maciço da cavalaria árabe. O ferir das espadas nos saios e elmos retiniu num som estridente, e a alarida dos sarracenos foi cortada por momentâneo silêncio: depois, ouviram­-se alguns gemidos abafados, a que sucederam novos gritos de amea­ça e furor e o bater e o reluzir trêmulo do ferro, cruzando-se com o ferro, e o tropear confuso dos ginetes em recontro bem travado. Os árabes haviam parado diante de tanta ousadia. Mas, logo que o primeiro espanto passou, os dez guerreiros cristãos, acometidos por todos os lados, começaram a recuar. O cavaleiro negro, que ficara quedo, disse-lhes então:

- Quisestes tentar o Senhor com uma façanha inútil, e o Senhor vos abandona. Salvai as vidas! Exige-o o desagravo da cruz e a liberdade da Espanha!

E pondo-se ao lado de Sancion, fez girar a sua borda destruidora no meio dos infiéis. Naquele ímpeto os inimigos também recuaram, e o cavaleiro, aproveitando este rápido instante, prosseguiu:

- Aos que se envergonham de poupar a vida, para a perder com glória quando o dia do sacrifício chegar, darei eu o exemplo! Podeis dizer aos nossos irmãos que o primeiro em fugir foi aquele que nunca fugiu; foi o cavaleiro negro!

E, voltando as costas aos agarenos, internou-se na espessura.

Habituados a considerar o desconhecido como um ente misterioso e extraordinário, os guerreiros de Sancion deram volta, e o orgulhoso gardingo viu-se obrigado a imitá-los.

Ei-los vão! Endireitando a carreira para o lado do norte, dirigem-se após Hermengarda, enquanto os almogaures árabes, guiados pelo ruído dos ginetes, os cerram de perto. Os esquadrões, pene­trando na selva, assemelhavam-se a uma serpe disforme, que se de­senrolava, coleando e estirando-se por entre o arvoredo, e que de momento a momento ameaçava tragar os fugitivos, os quais mal podiam conservar uma pequena distância entre si e os seus implacáveís perseguidores.

A lua passava então nas alturas do céu. O ar, posto que frio, estava manso e diáfano: Era uma formosa noite de inverno; mais formosa que as sossegadas noites do estio. As árvores, na maior par­te desfolhadas, deixavam o luar, por entre os ramos despidos e tor­tuosos, desenhar no chão figuras estranhas que vacilavam indeci­sas: os robles nodosos e calvos, misturados com os rochedos pirami­dais, que se alevantavam irregulares e fantásticos nas arestas das encostas íngremes, nas lombadas penhascosas das serras, pareciam fileiras de demônios caminhando de roldão a despenharem-se nos vales ou dançando nos visos das alturas. Os cavaleiros, correndo à rédea solta, sentiam coar-lhes nas veias involuntário terror, aumen­tado pelo estrupido soturno da cavalaria sarracena, que soava e ia morrer a grande distância num quase imperceptível sussurro.

A fúria da carreira crescia ao passo que os fugitivos se embre­nhavam na maior espessura da floresta. Durante algum tempo, eles tinham podido descortinar os píncaros das montanhas e, lá muito ao longe, os mais altos cabeços do Vínio, que refletiam o luar no seu manto prateado de neve.

Mas a selva já começa a rarear, e os ginetes a resfolegarem com mais violência: de instante a instante os cavaleiros cristãos, esprei­tando as estrelas do horizonte, que lhes servem de guias, vêem fugir aquela teia enredada, que as franças das árvores lhes afiguram como lançada sobre o chão claro do firmamento. Menos freqüentes, as bastas e perenes folhagens dos medronheiros passam como globos negros, que, elevando-se a pouca altura da terra, voam despedidos, por um e por outro lado, para trás deles. É que os onze guerreiros principiam a galgar as alturas que são como a base irregular das montanhas, como o pedestal comum daqueles obeliscos da criação. O galope dos corcéis dá um som áspero de ferro batendo em pedra, e o alvejar desta revela que as torrentes passaram por lá e arrasta­ram a relva e os musgos que a umidade fizera nascer no outono sobre o pó, acumulado nos barrocais pelas ventanias do estio. Na­quele solo pedregoso e revolto torna-se mais dificultosa a fuga, e o ímpeto da carreira afrouxa visivelmente. Os árabes começam a sair de entre os arvoredos e a aproximar-se dos cristãos. Enquanto estes tenteiam a medo o chão mal gradado, que lhes rola debaixo dos pés dos cavalos, porque para eles o tropeçar, o vacilar é a morte, os seus numerosos perseguidores, atentos só a alcançá-los, galgam por cima do desgraçado almogaure que, derribado pelos próprios companheiros, expira sem combate, sem glória e sem que a perse­guição dos fugitivos deixe por isso de ser, como até aí, incessante, implacável, vertiginosa.

Depois de subirem a encosta, o cavaleiro negro e os que o se­guiam viram alongar-se diante deles uma chapada plana, em cujo topo a serra se alteava de novo, com os seus mil acidentes de cordi­lheiras cortadas, de algares profundos, de gargantas selvosas, ao lado das quais os picos agudos se atiravam para o ar ou pendiam sobre os abismos e torrentes. A natureza, mais rude naquelas para­gens, tinha um aspecto soturno, vista assim, ao perto e à luz da lua: era como um oceano tempestuoso, onde todas as gradações da mor­te-cor se confundiam e misturavam, desde a brancura desbotada e pálida do rochedo até a pretidão fechada dos pinheiros retintos nas sombras da noite.

E por aquela dilatada chã os onze esforçados largam rédeas aos ginetes e ensangüentam-lhes o ventre com o esporear incessante: o ruído do próprio correr já não o sentem; confundem-se no estrupido do esquadrão de árabes que de mais perto os segue. A vingança vai-lhes no encalce; e, se algum volve atrás os olhos, aquele turbilhão enovelado que rola após eles, negro, rápido, tortuoso, composto de centenares de vultos, cujos olhos afogueados reluzem nas trevas, cujos dentes alvejam como os do javali irritado, assemelha-se-lhes a uma legião de demônios, e a um rir infernal o tinir das espadas, o resfolegar dos cavalos, e o murmurar dos cavaleiros, que parece entoarem-lhes já o hino da morte.

Na extensa chapada, tanto a fuga como a perseguição eram um frenesi, um delírio. Cristãos e muçulmanos desapareciam por entre as sarças cobertas de orvalho, e o ar, dividido violentamente, zumbia­-lhes em roda, como um gemido contínuo. Cristãos e muçulmanos punham o extremo da diligência nesta última tentativa. Além da planura, os alcantis e as selvas gigantes eram a esperança de uns, o desalento de outros. Ali, os precipícios cortavam subitamente os caminhos abertos pelas feras nas balças, e ao cabo de vale fundo os rochedos fechavam imprevistamente a saída: aqui, a senda tortuosa ia morrer na torrente; lá, a torrente em catadupa. Os godos afeitos àqueles desvios alpestres, sabiam-no; os árabes adivinhavam-no ao descortinarem o espetáculo que tinham ante si, essa espécie de caos nascido das grandes convulsões do globo na sua vida de muitos séculos, que a baça claridade da noite tornava ainda mais fantástico.

Enfim, os cristãos atravessam a gandra e começam a embrenhar­-se nas solidões das mais agras montanhas. Os agarenos redobram então de energia; mas debalde. Poucos passos medeiam entre uns e outros, e os fugitivos sentem já o resfolegar dos cavalos e o respirar alto dos inimigos; mas esse espaço não se encurta. Aí, parece estar de permeio o braço da providência, que quer salvar os defensores da cruz. Furiosos, esquecidos da vontade de Abdulaziz, que exige para pastos dos tormentos aquelas poucas vidas, os guerreiros do amir despedem de longe as lanças, que vão pela maior parte cravar­-se nos troncos dos robles. Duas, porém, silvam por entre os fugi­tivos; ao mesmo tempo, dois ginetes param, vacilam e caem. São os de Viterico e Liuba, os mais moços dos onze guerreiros. Sem transição, sem esperança, o espectro da morte se lhes ergue diante dos olhos fatal, incontrastável - Oh minha mãe, vem receber teu filho! - foram as únicas palavras que proferiu Viterico. Era às recordações maternas e à saudade que esse último grito de um moribundo cheio de vida se dirigia. Liuba também murmurou um nome; mas só Deus e ele o ouviram. Era o da sua amante, violada e morta na tomada de Emérita. No transe final, aquela alma pura não revelara aos homens o mistério do amor, da desesperação e do sepulcro. Órfão no mundo, separado daquela em quem empregara o afeto de um coração virgem e que tão tristemente perdera, Liuba, solitário sobre as ruínas da Espanha e sobre as ruínas da própria existência, era o primeiro em se arrojar aos perigos; e nessa noite, enfim, chegava para o desgraçado a hora apetecida do repousar eterno.

Debalde os almogaures dianteiros tentaram suster a corrida, para colher às mãos os dois godos derribados. Impelidos pelos que os seguiam e arrastados pela própria fúria, galgaram por cima deles; e quando, aos gritos dos almocadéns, ao sofrear dos cavalos, ao baralharem-se os esquadrões em mó apinhada e ao abrirem aos lados, puderam erguê-los do chão onde jaziam, as suas almas tinham subido ao céu, e os seus cadáveres, esmagados, sanguinolentos, des­conjuntados, - eram duas coisas informes, em que apenas se divisavam vestígios de vultos humanos.

Logo que Viterico e Liuba caíram, um movimento incerto de hesitação afrouxara um pouco a fuga dos seus companheiros; mas a voz de - avante! - proferida pelo cavaleiro negro, lhes troou nos ouvidos, e essa voz foi seguida de algumas palavras travadas de lágrimas, de que davam visível sinal o trêmulo e cortado com que eram proferidas:

- As almas de dois mártires sobem neste momento ao céu: eles orarão ao Senhor para que salve a liberdade e a vida de seus irmãos, que só querem uma e outra para combaterem pelos altares de Cristo.

Ditas estas palavras, o cavaleiro negro cravou as esporas no ventre do ginete, e repetiu: - avante!

E os outros godos seguiram-no sem hesitar mais: a carreira tinha-se convertido numa espécie de fúria louca e desesperada.

Os almogaures, desordenados já, retidos pelas diligências que faziam para alçar os dois cadáveres, e embaraçando-se uns aos outros, viram desaparecer os godos numa garganta estreita, entre rochedos e balças, enquanto os almocadéns lhes bradavam também - avante!

E os primeiros que puderam obedecer-lhes atiraram-se por aque­la espécie de fojo cavado pelas torrentes de muitos séculos; mas as sinuosidades da penedia encobriam-lhes os godos, e, obrigados a parar freqüentemente para conhecerem a que parte eles se encami­nhavam, cada vez sentiam mais remoto e tênue o tropear dos ginetes.

Dir-se-ia que as palavras do cavaleiro negro haviam sido proféticas: o sangue dos dois mártires fora, talvez, o preço da redenção dos fugitivos.

XVI

O Castro Romano

A desconforme profundeza do alto precipício aí está patente: ele gera terror no homem que o contempla de cima.

Valério Bergidense: Explanações.

A hora de amanhecer aproximava-se: o crespúsculo matutino alu­miava frouxamente as margens de rio mal-assombrado, que corria turvo e caudal com as torrentes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e escarpadas, sentia-se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços, destorcendo-se em milhões de fios, despenhava-se das catadupas em fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões, atirava-se maciço e atropelando-se a si mesmo, pelo seu leito de rochas, até de novo ruir e despedaçar-se no próximo despenhadeiro. Era o Sália, que de queda em queda, rompia de entre as montanhas e se encaminhava para o mar cantábrico. Perto ainda das suas fontes, o estio via-o passar pobre e límpido, murmurando à sombra dos choupos e dos salgueiros, ora por meio das balças e silvados, que se debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias calvas ou córregos estéreis, onde em vão tentava, estrepitando, recordar-se do seu bramido do inverno. Mas quando as águas do céu começavam nos fins do outono a fustigar as faces pálidas dos cabeços, a ossada nua das serras, e a unir-se em torrente pelas gargantas e vales, ou quando o sol vivo e o ar tépido de um dia formoso derretiam as orlas da neve que pousava eterna nos picos inacessíveis das montanhas mais elevadas, o Sália precipitava-se co­mo uma besta-fera raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, aluía as raizes das árvores seculares, carreava as terras e rebramia com som medonho, até chegar às planícies, onde o solo o não comprimia e o deixava espraiar-se pelos pauis e juncais, correndo ao mar, onde, enfim, repousava, como um homem completa­mente ébrio que adormece, depois de bracejar e lidar da embriaguez.

Na margem direita do rio, que então passava grosso de cabedais por um dos vales que retalham as montanhas das Astúrias no seu pendor ocidental, viam-se ainda no princípio do oitavo século as ruínas de antigo castro ou arraial romano. Jaziam estas em uma espécie de promontório de rochas, pendurado sobre a veia de água e talhado quase a pique por todos os lados. Na borda do espaçoso lajedo, que formava como uma eira irregular, avultavam fragmentos de grossos panos de valos de pedra, e no alto de uma ladeira íngreme que conduzia à entrada daquele circuito achavam-se os vestígios de uma porta de campo, provavelmente a pretória: a decúmana, fronteira a ela, fazia, fora do valo, um limitado terreirinho, em cujo topo, e a bastante profundidade, passava o rio negro e veloz com mugido contínuo. Ainda na borda do rochedo aprumado sobre a água se enxergavam alguns orifícios profundos, que mostravam te­rem servido para embeber as traves de ponte lançada para a outra margem, também elevada e penhascosa. A situação daquelas ruínas, a forma quase circular dos valos e a sua disposição interior eviden­temente indicavam um desses hibernáculos ou arraiais de inverno alevantados pelas legiões de Roma nas suas tentativas repetidas e quase sempre inúteis para subjugar os celtiberos das cordilheiras da Cantábria e das Astúrias.

A ponte romana, porém, se outrora aí existira, haviam-na con­sumido as injúrias das estações. Em lugar dela, os habitantes daque­les desvios tinham tombado através do Sália um roble gigante, um dos filhos primogénitos da terra, que nos seus dias seculares fora enredando as raízes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A árvore monstruosa, derribada por cima da corrente, caíra sobre o alcantil fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar através do cepo, arrancado quase inteiramente do solo. Calva e musgosa, apenas alguma vergôntea, que lhe rompia da enrugada epiderme na primavera para morrer no estio, dava sinal de que o rei dos bosques ainda não era inteiramente cadáver. Mas essa pouca vida bastava para que a obra rude dos bárbaros montanheses durasse por mais anos que a edificação regular e sólida dos antigos metatores ou engenheiros das legiões romanas. Para aqueles, todavia, que não estivessem afeitos a perseguir a zebra pelas encostas escarpadas, a galgar os precipícios após a cabra mon­tês e a combater com os ursos e javalis nas bordas dos fojos, sem se lhes turbar a vista; para esses tais a ponte vegetal dos astúrios seria um sítio arriscado. No meio do passo estreito, irregular e ci­líndrico, sentindo e vendo mugir e desaparecer debaixo dos pés a corrente inchada e turva, quase impossível lhes fora não vacilar: mas ao vacilar seguir-se-ia o despenhar-se, e ao despenhar-se, a morte. À altura da queda e ao ímpeto das águas ajuntava-se o agudo dos rochedos, entre os quais o rio, escumando, se estorcia e despedaçava.

Ao partir de Covadonga e ao dirigir-se para o campo de Abdu­laziz, os cavaleiros cristãos tinham rodeado o Vínio, seguindo mais ao oriente; mas, habituados, nas suas contínuas correrias, a discorrerem pelos atalhos e carris das montanhas, de antemão previam que, no caso de levarem a cabo a temerária empresa que cometiam, a agrura da serra seria a sua melhor defesa contra a perseguição dos árabes. Assim delinearam o caminho que deviam seguir na fuga, vindo atravessar o Sália, já perto do seu esconderijo, naquela espé­cie de passo fortificado, conhecido ainda entre os godos pelo nome de Castrum Paganorum ou arraial dos pagãos.

Foi justamente ao tingir-se o céu da faixa avermelhada que precede o surgir do sol, que dois cavaleiros galgaram ao galope a ladeira que dava acesso para as ruínas do castro romano. No meio deles, cavalgando também um alazão ágil e ao mesmo tempo robusto, uma dama vestida de branco parecia mal poder já manter-se na sela, segurando-se umas vezes ao arção, outras às crinas flutuantes do valente animal. Eram Hermengarda e os seus dois guardadores que chegavam, finalmente, às margens do Sália. Pouco devia tardar o instante em que a formosa irmã de Pelágio achasse, depois de tantos perigos e terrores, abrigo e paz nos rudes paços de seu esforçado irmão.

Mas a corrida violenta e incessante por sendas montuosas e ásperas tinham exaurido as forças da filha de Favila, como os su­cessos por que passara desde que partira de Tárraco lhe tinham quase aniquilado as do espírito. Ao chegar ao meio daqueles restos do acampamento romano sentia-se desfalecer de cansaço, ao passo que a febre e a sede lhe devoravam as entranhas. Os dois cavaleiros, olhando para ela, viram-lhe, com a luz da alvorada, as faces tintas de palidez mortal. Às vezes, durante o caminho e, sobretudo, nos sítios mais altos, quando as lufadas do norte aclamavam momenta­neamente, percebiam ao longe um débil ruído soturno e continuo, que se assemelhava ao tropear de cavalos; mas havia horas em que apenas sentiam o estrupido do galopar dos próprios ginetes, bem que o vento houvesse caldo de todo na antemanhã. Inquietos, tam­bém, pela sorte dos companheiros que tinham deixado atrás de si, resolveram parar no meio daquelas ruínas. Salteados de improviso pelos árabes, fácil lhes seria transpor a ponte natural que tinham diante, e as poucas raizes que prendiam o moribundo carvalho à margem oposta cederiam bem depressa aos gumes afiados dos seus franquisques. Então o tronco da velha árvore se despenharia no abismo, e o leito profundo e escarpado do Sália ficaria como uma barreira entre eles e os inimigos.

Descavalgados, os dois guerreiros tomaram nos braços a irmã de Pelágio e foram recliná-la sobre um montículo coberto de relva e musgos, que, pela sua situação no lugar onde, provavelmente, ficava a divisão entre o pretório e a parte inferior do campo, dava indícios de ser o assento das aras dos deuses, que os romanos usavam colocar no meio dos arraiais. Regelada exteriormente, ao passo que o ardor febril lhe queimava o sangue, Hermengarda, apenas tocou em terra, só pôde pronunciar a palavra "sede", caindo amortecida sobre a relva orvalhada. O único sinal que nela revelava a vida era o tremor convulso que violentamente a agitava.

Enquanto Astrimiro subia ao valo, de cujo topo se descortinava melhor, posto que a breve distância, o caminho que haviam seguido, Gudesteu trabalhava em ajuntar alguns troncos de árvores e as fo­lhas secas amontoadas pelos ventos do estio que as chuvas outonais ainda não tinham arrastado. Brevemente o ar tépido de uma fo­gueira fez volver a si a donzela: o cavaleiro ofereceu-lhe um pequeno frasco de sícera que desprendera do arção e que lhe restituiu algum vigor aos membros entorpecidos. Depois, Gudesteu chamou o seu companheiro e disse-lhe:

"Os ginetes não podem passar além. Ide e lançai-os para o lado oriental da montanha: eles buscarão o trilho acima das fontes do Sália e descerão a Covadonga."

E Astrimiro, guiando os três ginetes pela ladeira abaixo, afagou­-os um a um, e segurando-lhes as rédeas à efípia, deu um silvo com soldo particular. Os ginetes fitaram as orelhas, aspiraram ruidosamente o ar e partiram ao galope, por meio da selva, para o lado que Gudesteu indicara.

Este, apenas os viu desaparecer, dirigiu-se para Hermengarda. - É necessário, senhora - disse ele - uma derradeira prova de esforço: é necessário partir já. Os nossos ginetes, ensinados a voltarem sós ao campo cristão do deserto quando os ardis ou os perigos da guerra nos obrigam a abandoná-los, não causariam nem estranheza nem receio ao aparecerem aí sem seus donos, se não fossem as circunstâncias extraordinárias da nossa correria. Mas quem poderá dizer ao duque de Cantábria qual sorte nos coube na temerária empresa que cometemos? Quem, senão vós mesma, res­tituída aos seus braços, lhe dará a certeza de que estais salva das mãos dos infiéis? Para nós, habituados a descer precipícios e a salvar torrentes, aquela ponte estreita e selvática é fácil de transpor, galgando-a rapidamente e sem volver os olhos para o abismo. In­vocai toda a energia da vossa alma, todas as vossas forças, para vencer este último obstáculo, e, dentro de poucas horas, veremos os cabeços que rodeiam a caverna de Covadonga. Em leito de ramos tomar-vos-emos sobre nossos ombros na margem fronteira; homens livres e gardingos, faremos mister de servos; porque sois uma dama e porque sois a irmã do nobre e valente Pelágio... Astrimiro, mos­trai que o risco só existe quando existe o temor.

Então Astrimiro, olhando fito ante si, atravessou com passos firmes e ligeiros por cima do tronco arredondado e nodoso, e, num relancear de olhos, achou-se do outro lado.

Hermengarda compreendera bem a necessidade de coligir toda a robustez da sua alma naquele momento; mas, ao erguer-se, conheceu que os membros doridos e exaustos quase recusavam obedecer-lhe. Firmando-se, todavia, no braço de Gudesteu, encaminhou-se para o terreirinho exterior que se abria além dos valos sobre a torrente. Aí, antes de chegar ao temeroso trânsito, ajoelhou e, alevantando as mãos e os olhos ao céu, nem sequer se lhe viam mover os lábios, embebida em oração fervorosa e íntima. Com os seus trajos brancos e em completa imobilidade, dir-se-ia que era um destes anjos curva­dos sobre os lódãos de capitel gótico, que, no frontispício de catedral, parecem ser o símbolo da morada das preces, se os primeiros raios do sol, cujo orbe mal despontava detrás das colinas, não revelassem nela a vida, cintilando-lhe nos cabelos dourados e no véu de duas lágrimas que lhe ofuscava os olhos e começava a deslizar-se-lhe em dois fios brilhantes ao longo das faces, onde o rubor da febre rom­pia por entre a palidez, como as papoulas rompem no meio da seara madura.

Depois de alguns instantes, alevantou-se de novo e encaminhou­-se para o roble, cujo topo monstruoso se assemelhava à cabeça calva de um gigante que, inteiriçado, fincasse os pés na outra riba. Gudesteu seguia-a de perto, estendendo os braços involuntariamente, como querendo sustê-la, enquanto Astrimiro, também por movimento maquinal, em pé sobre as raízes torcidas da árvore e curvando-se para diante, lhe oferecia a mão robusta, como se a distância lhe permitisse alcançá-la.

No momento em que já punha o pé sobre o tronco, o reflexo alvacento da escuma, que fervia lá embaixo, no meio do crepúsculo frouxo do córrego profundo, e o estrépito da torrente, espadanando por entre os musgos e limos estampados nos panos irregulares do despenhadeiro, fizeram abaixar os olhos a Hermengarda para o abismo, como fascinação irresistível, como conjuro diabólico. Cravados naquele horrendo espetáculo, fitos, espantados, ela não podia despregá-los desse caos infernal das águas, que, redemoinhando ou jorrando contra os rochedos, ora negrejavam, precipitando-se compactas para diante, ora, repelidas, despedaçadas em ondas de escuma, repuxando cruzadas no ar ou espalmando-se nas faces da penedia, misturavam no seu confuso soído um murmurar e rugir como de dor, de cólera, de desesperação, de agonia, que vozes humanas não sabe­riam ajuntar e que só pode ser semelhante ao concerto de blasfêmias dos condenados, entoando o hino atroz das eternas maldições contra Deus.

E Hermengarda sentia uma ânsia vertiginosa de se atirar àquela voragem; uma como atração magnética, voluptuária, indizível, a favor da qual lutava um sentimento misterioso e vago, mas que nem por isso era menos ardente, ao mesmo tempo que alma e corpo a repeliam pelo instinto e pelo amor da vida. Com as mãos contraídas, a fronte pendida e o olhar incerto de um moribundo, a donzela parecia haver sido petrificada no momento em que dera a primeira passada para transpor essa meta, além da qual, unicamente, existia a esperança.

Observando o gesto da irmã de Pelágio, Gudesteu viu que um instante bastaria para aniquilar o fruto dos perigos até aí corridos. Mais de uma vez, antes que se habituasse à sua vida de foragido, passando pelas bordas dos fojos, pelas quinas dos precipícios, ele próprio sentira essa fascinação do terror, esse magnetismo da morte que costuma subjugar-nos e atrair-nos quando pelas primeiras vezes nos achamos sobranceiros a algum abismo; sentimento de voluptuo­sidade dolorosa, que, paralisando-nos os movimentos, porque dobra em nós o terror, nos salva, talvez, do suicídio, ao mesmo tempo que para ele nos convida com atrativo inexplicável.

O cavaleiro, segurando violentamente o braço da donzela, desfez aquela espécie de encanto fatal, obrigando-a a recuar alguns passos. Então Hermengarda, como se acordasse de um sonho murmurou: - "Não posso!" - E soluçava e as lágrimas rolavam-lhe abundantes pelas faces macilentas. Em tremor convulso, os joelhos vergavam­-lhe, e teria caído por terra, se Gudesteu não a houvera retido.

Astrimiro, que vira o movimento do seu companheiro, atraves­sou de novo a arriscada passagem. Um pensamento horrível passou a ambos pelo espírito: era que os árabes podiam chegar! Encararam­-se mutuamente, e cada um deles notou que o outro tinha o gesto demudado. Gudesteu, volvendo a cabeça, lançou os olhos para a selva de que haviam saído, porque lhe parecera ouvir um rumor abafado. Astrimiro, que crera ouvir o mesmo, correu de novo ao valo.

E o ruído soava, de feito. Os dois cavaleiros nem respiravam. Era um tropear de cavalos à rédea solta: não havia que duvidar. Para eles em alguns instantes se resumiu, então, um século de tran­ses mortais.

São nove: nove os que saem da espessura, correndo desordena­dos, e que se precipitam para as ruínas. São godos! Os largos ferros dos franquisques lá reluzem batendo-lhes sobre as coxas no rápido galope: o lodo dos brejos enodoa-lhes as armas escuras e polidas. Ondeiam eriçadas as crinas dos corcéis, cujos peitos mosqueia a escuma, cujos freios tinge o sangue. O misterioso cavaleiro negro vem à frente deles. Ei-los - brada Astrimiro, com uma espécie de alegria frenética. Estão salvos!

- Salvos?! - interrompeu tristemente Gudesteu, e, sem se mover, olhou para Astrimiro, e, depois, para Hermengarda, que sustinha nos braços.

- Perdidos! perdidos conosco e como nós - replicou em tom lúgubre Astrimiro, para quem a interrupção e o olhar de Gudesteu tinham sido raio de luz medonha. O Sália era linha traçada pela feiticeira com a verbena mágica, além da qual não passará jamais aquele ante cujos pés ela a riscou. O juramento que tinham dado e, mais do que isso, a lealdade de guerreiros godos não lhes consen­tiam abandonarem a irmã do seu capitão; não lho consentiria o fero cavaleiro negro, esse homem ou esse fantasma, cuja vida era um segredo, cuja vontade era de ferro, cuja voz era um terror para inimigos e, para os seus, um decreto de cima.

E os nove num relance transpuseram o valo, galgaram a ladeira e atiraram-se de tropel ao meio das ruínas do arraial romano. O cavaleiro negro foi o primeiro em desmontar; os outros oito imi­taram-no.

- Rápido, rápido - disse ele. Lançai os cavalos para as brenhas, e atravessemos o Sália! Não há um momento que perder, se queremos salvar-nos.

E ouviu-se um silvo acorde, único, estridente de todos os recém­-vindos. Os ginetes soltos desceram de novo a ladeira, respirando com violência e seguiram a pista dos três que pouco antes, ao sibilar de Astrimiro, se haviam embrenhado na floresta, seguindo ao oriente as margens do Sália.

O cavaleiro negro, porém, ao volver-se, recuou com um grito de espanto, que não pôde conter: fora naquele momento que vira Gudesteu e Hermengarda quase desfalecida, que este amparava.

- Vós aqui?! Ainda aqui?! - exclamou ele, com gesto de espanto misturado de aflição e perdendo a compostura solene e altiva que soubera até então conservar nas mais arriscadas situações, nos transes mais dolorosos. - Prestes, passai o rio. Os infiéis seguem­-nos de perto, e os seus esquadrões não tardarão a transpor aquelas colinas. O Sália é a única barreira que pode tolher os passos a esses corredores africanos, iguais em robustez e ligeireza aos nossos cor­céis das montanhas. Irmã de Pelágio! - acrescentou, dirigindo-se à donzela, que parecia alheia ao que passava junto dela, volvendo de instante a instante para a borda do despenhadeiro um olhar de terror. - Irmã de Pelágio, por Deus, que cobreis ânimo! Dois dos mais valentes guerreiros da cruz lá os deixamos despedaçados sob os pés da cavalaria árabe: estes que vedes breve acabarão nos gumes dos ferros inimigos, se não puderem salvar-vos. Juraram-no: hão de cumpri-lo. Não vo-lo imploro por mim: não quero; não posso querer de vós recompensa; mas os meus rogos são pelos irmãos de armas do duque de Cantábria, pelos que têm misturado com as dele as lágri­mas do desterro, com ele tragado o pão negro do proscrito. Diante do Senhor não vos pediriam conta do seu sangue; não valera a pena: mas, quem sabe se não vo-la pedirá o Cristo pela sua religião, a Espanha pela sua liberdade?

Hermengarda não tinha ouvido ainda ao cavaleiro negro senão os sons quase inarticulados do seu grito de guerra: agora, porém, estas palavras proferidas em tom enérgico, mas com voz trêmula, troaram-lhe nos ouvidos, semelhantes à voz de alguém que na vida conhecera e que o sepulcro provavelmente tragara. O terror que lhe tolhia os membros redobrou com esta voz: por um ímpeto con­vulso e desesperação encaminhou-se, todavia, com passos incertos para a ponte fatal; mas, ao chegar a ela, recuou. Tinha abaixado de novo os olhos para a torrente, e de novo a torrente, como um sortilégio diabólico, a havia fascinado.

- Por tudo quanto haveis amado, cavaleiros da cruz - exclamou ela desvairada: - em nome do céu, abandonai-me! O desalento e o susto me abrigarão no seio da morte da violência dos infiéis. Não posso!... Não posso vencer esse terrível abismo, que há de tragar-me!

Os guerreiros de Pelágio, escolhendo aquela senda para a fuga, não haviam calculado com um coração feminino, mistura de esforço e timidez, de energia e de fraqueza, que será sempre para a filosofia um mistério.

- Os árabes! - Esta palavra, cem mil vezes repetida na Espanha, como o dobrar por finado em país assolado da peste, soou atrás dos cavaleiros apinhados junto aos vestígios da porta decúmana. Saíra da boca de Astrimiro, que, sem deixar o valo, tinha a vista cravada nos visos dos montes fronteiros até cujas gargantas se dila­tava a seiva.

Os guerreiros abriram subitamente aos lados, e olharam para as cumeadas da cordilheira coroadas de muçulmanos: os ferros polidos dos franquisques, que tinham pendentes dos pulsos por uma cadeia de ferro, cintilavam levemente trêmulos.

Só Hermengarda abaixou os olhos, e ajoelhou com as mãos er­guidas no meio deles, murmurando:

- Não posso! Abandona!-me!

Então o cavaleiro negro, tomando-a pela mão, correu a vista pelas duas alas: no seu gesto havia a mesma expressão imperiosa e sinistra de que se revestira quando em Covadonga embargara a saída de Pelágio.

- Qual de vós ousa tomar nos braços a irmã do duque de Can­tábria e conduzi-la por cima do abismo para a outra margem? Qual de vós ousa jurar sobre a cruz da sua espada que sem vacilar o fará?

Houve um momento de silêncio: todos os rostos empalideceram; todos os lábios calaram.

voltar 12345678avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal