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Carl Sagan

SAGAN E O CETICISMO (filosófico)

"Parece-me que é necessário um equilíbrio muito cuidadoso entre duas necessidades conflitantes: o escrutínio mais cético de todas as hipóteses que nos são oferecidas e ao mesmo tempo uma grande abertura a novas idéias. Obviamente que essas duas modalidades do pensamento estão em alguma tensão. Mas se você puder exercitar somente uma delas, qualquer que seja, você tem um problema sério.

Se você for somente cético, então nenhuma idéia nova chega até você. Você nunca aprende nada de novo. Você se transforma em uma velho excêntrico convencido de que o absurdo é que governa o mundo (evidentemente que há muitos dados para lhe dar apoio.). Mas, de quando em quando, talvez uma vez em cem casos, uma nova idéia acaba acertando, válida e maravilhosa. Se você estiver no hábito demasiado forte de ser cético com tudo, você não a perceberá ou se sentirá agredido, e de qualquer maneira estará barrando o caminho da compreensão e do progresso.

Por outro lado, se você estiver aberto a ponto de ser crédulo e não tiver um grama de ceticismo, então você não conseguirá distinguir as idéias úteis das sem valor. Se todas as idéias tiverem validade igual então você está perdido, porque então, me parece, nenhuma idéia tem validade alguma.

Algumas idéias são melhores do que outras. O aparato para distingui-las é uma ferramenta essencial para lidar com o mundo e especialmente com o futuro. E é precisamente a mistura dessas duas modalidades de pensamento que é central ao sucesso da Ciência.

Os cientistas realmente bons fazem ambas as coisas. Quando estão por sua própria conta, falando consigo mesmos, eles criam um monte de idéias novas e as criticam sem piedade. A maior parte das idéias nunca chega ao mundo exterior. Somente as idéias que passam por rigorosos filtros pessoais conseguem sair e são criticadas pelo restante da comunidade científica. Acontece às vezes que as idéias que são aceitas por todos acabam por se mostrar erradas, ou ao menos parcialmente erradas, ou ao menos substituídas por idéias mais gerais. E, se por um lado, naturalmente, existem algumas perdas pessoais -- vínculos emocionais a idéias que voccê mesmo ajudou a criar --, não obstante a ética coletiva é de que toda vez que uma idéia assim cai e é substituída por algo melhor, a Ciência beneficiou-se. Em Ciência, freqüentemente acontece que os cientistas digam, "Sabe, esse é um argumento bom mesmo; minha posição está errada", e então mudam mesmo de idéia e você nunca mais ouve aquela visão antiga. Isso acontece mesmo. Não tão freqüentemente como deveria, porque os cientistas são humanos e a mudança às vezes é dolorosa. Mas acontece todos os dias. Mas ninguém consegue lembrar qual foi a última vez em que algo assim aconteceu na política ou na religião. É muito raro que um senador, por exemplo, diga "esse é um bom argumento. Vou mudar minha afiliação política."

SAGAN E A EDUCAÇÃO

“As vezes fico admirado por ver como há muito mais capacidade e entusiasmo para a Ciência entre os jovens da escola primária que entre os estudantes universitários. Alguma coisa acontece nos anos de escola que lhes desestimula o interesse (e não se trata apenas da puberdade); devemos compreender e evitar esse perigoso desestímulo.”

"Eu acredito que parte do que impulsiona a Ciência é a sede de maravilhamento. É uma emoção muito poderosa. Todas as crianças a sentem. Em uma sala de aula de primeira série, todos a sentem; em uma sala de aula do último ano do ensino médio, quase ninguém a sente, ou sequer a reconhece. Algo acontece entre a primeira e a última séries, e não é só a puberdade. Não somente as escolas e a mídia não ensinam muito ceticismo, mas também há pouco incentivo dessa agitante sensação de maravilhamento. Ciência e pseudociência, ambos despertam esse sentimento. Popularizações pobres da Ciência estabelecem um nicho ecológico para a pseudociência."

SAGAN E A AMEAÇA NUCLEAR

“Estamos numa encruzilhada da história humana. Nunca dantes houve um momento tão perigoso e tão promissor. Somos a primeira espécie a ter a evolução em nossas próprias mãos. Pela primeira vez possuímos os meios de promover nossa própria destruição, inadvertida ou intencional.”

“Entramos irrevogavelmente, creio eu, num caminho que nos levará às estrelas — a não ser que, por monstruosa capitulação ao egoísmo e à estupidez, venhamos a nos destruir antes disso.”

SAGAN E A TENDENCIOSIDADE DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

“Enquanto algumas doutrinas marginais recentes são amplamente promovidas, a discussão cética e a dissecação de suas falhas gritantes não são divulgadas.”

SAGAN E OS DISCOS VOADORES, PASSADOS E PRESENTES

“Examinamos uma série de artefatos, lendas e folclore de muitas culturas, e concluímos que não há um só caso que proporcione alguma evidência convincente de contatos com extraterrestres.”

SAGAN E A COMUNICAÇÃO COM CIVILIZAÇÕES EXTRATERRESTRES

“Através de toda a nossa história, temos meditado sobre as estrela e imaginado se a humanidade é de fato única ou se, em algum outro lugar na escuridão do céu noturno, haverá outros seres comtemplando e imaginando da mesma forma que nós, como colegas pensantes na imensidão do cosmo.”

SAGAN E A CORAGEM INTELECTUAL

“Meu ponto de vista pessoal é que, não importa quão inortodoxo é o raciocínio e quão desagradáveis as conclusões, não há desculpas para tentar eliminar novas idéias — muito menos que os cientistas o façam.”

SAGAN E JORNADA NAS ESTRELAS

Carl Sagan
Carl Sagan

“Tive o mesmo problema com Jornada nas Estrelas, que sei ter tido larga aceitação, e em relação ao qual alguns amigos solícitos me disseram que eu deveria ter uma visão alegórica e não literal. Quando, todavia, astronautas provindos da Terra se instalam num planeta distante e lá encontram seres humanos em meio a um conflito entre duas superpotências nucleares — que se intitulam Yangs [Ianques] Coms [comunistas], ou seus equivalentes fonéticos —, a descrença não pode deixar de vir à tona. Numa sociedade global terrestre, daqui a muitos séculos, os oficiais da nave são embaraçosamente anglo-americanos. Somente duas das 12 ou 15 naves interestelares têm nomes não ingleses, Kongo e Potenkin (Potemkin e não Aurora?). E a idéia de um cruzamento bem-sucedido entre um “vulcaniano” e uma terrestre simplesmente ignora tudo o que hoje sabemos sobre biologia molecular. (Como observei em outro lugar, tal cruzamento tem a mesma probabilidade de sucesso de um acasalamento entre um homem e uma rosa).”

SAGAN E A FICÇÃO CIENTÍFICA

“Acredito que eu tenha hoje a mesma sede de maravilhas dos meus 10 anos de idade. Mas desde então aprendi um pouco a respeito do modo como o mundo realmente se ajusta. Acho que a ficção científica me levou à Ciência. Considero a Ciência mais sutil, mais intrincada e mais impressionante do que grande parte da ficção científica.”

“A interligação entre a Ciência e a ficção científica por vezes produz resultados curiosos. Nem sempre fica claro se é a vida que imita a arte ou vice-versa.”

“Não receio em afirmar que, se sobrevivermos, a ficção científica terá dado uma contribuição vital para a continuidade e a evolução de nossa civilização.”

Carl Sagan
Carl Sagan

SAGAN E A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

“A Ciência real pode tornar a ficção tão excitante como a ciência espúria, e penso que é importante aproveitar toda a oportunidade de divulgar as idéias da Ciência numa civilização que, ao mesmo tempo em que se baseia nela, quase nada faz para torná-la compreendida.”

“É um desafio supremo para o divulgador da Ciência deixar bem clara a história real e tortuosa das grandes descobertas, bem como os equívocos e, por vezes, a recusa obstinada de seus profissionais a tomar outro caminho. Muitos textos escolares, talvez a maioria dos livros didáticos científicos, são levianos nesse ponto. É muitíssimo mais importante apresentar de modo atraente a sabedoria destilada durante séculos de interrogação paciente e coletiva da Natureza do que detalhar o confuso mecanismo de destilação. O método da Ciência, por mais enfadonho e ranzinza que pareça, é muito mais importante do que as descobertas dela”.

SAGAN E A BELEZA DO UNIVERSO

“Se olharmos para qualquer ponto do universo, encontraremos algo de estupendo. Antes de mais nada, encontraremos um universo extremamente belo, construído de maneira sutil e intrincada.”

SAGAN E O AMOR À VIDA

“A espécie humana precisará crescer muito, deixar sua infância para trás. Talvez nossos descendentes nesses tempos remotos olhem para trás, para a longa e errante jornada empreendida pela raça humana a partir de suas obscuras origens no distante planeta Terra , e, relembrando nossas histórias pessoais e coletivas, nosso romance com a Ciência e a religião, tenham uma visão plena de clareza, compreensão e amor.”

SAGAN POR ASTRÔNOMOS BRASILEIROS

“A Terra fica mais vazia com a morte de Sagan e de Mastroianni, mas o céu ganha duas grandes figuras de nosso tempo...”

Ronaldo R. F. Mourão (do Museu de Astronomia e Ciências Afins) na Folha de São Paulo de 21/12/96

“A morte de Sagan desguarnece o planeta de uma figura popular e querida entre todos nós.”

“... Sagan deixa a lição de que é possível fazer pesquisa séria e relevante e ao mesmo tempo difundir e ensinar Astronomia aos não especialistas.”

Walmir Tomazzi Cardoso (da Sociedade Brasileira para o Ensino da Astronomia)

“No final de 1996 o Universo ficou menor. Não porque tenha diminuido de tamanho, mas porque perdeu uma de suas mais brilhantes estrelas, o astrônomo norte-americano Carl Edward Sagan.”

“A Sagan, pelo seu trabalho, pelo seu exemplo, nosso reconhecimento, nosso respeito, nossa saudade. Nosso tributo.”

Romildo Póvoa Faria (da UNICAMP - Planetário de Campinas - Museu Dinâmico de Ciências de Campinas - Presidente da Associação Brasileira de Planetários e Diretor da Organização Ibero-Americana de Planetários)

Fonte: www.asterdomus.com.br

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