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Chico Mendes

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O líder sindical e seringueiro Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre, vítima de um tiro de espingarda calibre 20. O crime foi atribuído a Darly Alves da Silva e seu filho Darci Alves Pereira.

O seringueiro é considerado um símbolo da luta pela preservação do meio ambiente no Acre e dos interesses dos povos da floresta, que sobreviviam do que ela gerava: do látex. Denunciava a intensidade e o ritmo com que a floresta estava sendo desmatada.

Um das demonstrações de sua luta foi em março de 1987, quando Chico fez um discurso cheio de denúncias na reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Miami (EUA). Pediu a suspensão do financiamento do organismo para o prosseguimento da construção da BR-364, que cortava o estado de Rondônia e se estenderia até o Acre.

O objetivo do governo, na época, era criar uma saída para o Pacífico, a fim de escoar a produção gerada nos estados amazônicos e no Centro-Oeste pelos portos do Peru. Chico sabia que a estrada tinha provocado danos significativos para os seringueiros de Rondônia, em razão do desmatamento e das queimadas provocadas pelos fazendeiros. Com o apelo, o BID suspendeu o financiamento para a expansão da BR-364 e passou a exigir do governo brasileiro estudos de impacto ambiental na Amazônia.

Além do BID, o Senado dos Estados Unidos, onde o seringueiro também foi convidado a falar, fez recomendações a diversos bancos que patrocinavam projetos desenvolvimentistas na região. Alertou-os de abusos ao meio ambiente como os ocorridos em Rondônia.

Outro episódio fez crescer a ira dos fazendeiros acreanos contra Mendes: o reconhecimento ao seu trabalho, pela Organização das Nações Unidas.

Em 1987, a ONU conferiu a ele o Prêmio Global 500, de preservação ambiental. Chico Mendes foi o único brasileiro, até hoje, a conquistar este título.

Francisco Alves Mendes, o Chico Mendes, tem seu nome no Livro dos Heróis da Pátria. O decreto foi assinado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e publicado no Diário Oficial da União.

O livro encontra-se no Panteão da Pátria, localizado na Praça dos Três Poderes, está em exposição permanente para o público. Nele estão gravados os nomes de grandes personalidades da história brasileira, Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Marechal Deodoro da Fonseca e D. Pedro.

Fonte: portalamazonia.globo.com

Chico Mendes

O HOMEM DA FLORESTA

Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, tinha completado 44 anos no dia 15 de dezembro de 1988, uma semana antes de ter sido assassinado. Acreano, nascido no seringal Porto Rico, em Xapurí, se tornou seringueiro ainda criança, acompanhando seu pai.

Sua vida de líder sindical inicia com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975, quando é escolhido para ser secretário geral. Em 1976, participa ativamente das lutas dos seringueiros para impedir desmatamentos através dos "empates". Organiza também várias ações em defesa da posse da terra. Em 1977, participa da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, além de ter sido eleito vereador pelo MDB à Câmara Municipal local. Neste mesmo ano, Chico Mendes sofre as primeiras ameaças de morte por parte dos fazendeiros, ao mesmo tempo que começa a enfrentar vários problemas cem seu próprio partido, o MDB, que não era solidário às suas lutas.

Em 1979, Chico Mendes transforma a Câmara Municipal num grande foro de debates entre lideranças sindicais, populares e religiosas, sendo por isso acusado de subversão e submetido a duros interrogatórios. Em dezembro, do mesmo ano Chico é torturado secretamente. Sem ter apoio, não tem condições de denunciar o fato.

Com o surgimento do Partido dos Trabalhadores, Chico transforma-se num de seus fundadores e dirigentes no Acre, participando de comícios na região juntamente com Lula. Ainda em 1980, Chico Mendes é enquadrado na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros da região que procuravam envolvê-lo com o assassinato de um capataz de fazenda que poderia estar envolvido no assassinato de Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia.

No ano seguinte, Chico Mendes assume a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até o momento de sua morte. Nesse mesmo ano, Chico é acusado de incitar posseiros à violência. Sendo julgado no Tribunal Militar de Manaus, consegue livrar-se da prisão
preventiva.

Nas eleições de novembro de 1982, Chico Mendes candidata-se a deputado estadual pelo PT não conseguindo eleger-se. Dois anos mais tarde é levado novamente a julgamento, sendo absolvido por falta de provas.

Em outubro de 1985, lidera o 1o Encontro Nacional dos Seringueiros, quando é criado o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), do qual torna-se a principal referência. A partir de então, a luta dos seringueiros, sob a liderança de Chico Mendes, começa a ganhar repercussão nacional e internacional, principalmente com o surgimento da proposta de "União dos Povos da Floresta", que busca unir os interesses de índios e seringueiros em defesa da floresta amazônica propondo ainda a criação de reservas extrativistas que preservam as áreas indígenas, a própria floresta, ao mesmo tempo em que garantem a reforma agrária desejada pelos seringueiros. A partir do 2o Encontro Nacional dos Seringueiros, marcado para março de 1989, Chico deveria assumir a presidência do CNS.

Em 1987, Chico Mendes recebe a visita de alguns membros da ONU, em Xapuri, onde puderam ver de perto a devastação da floresta e a expulsão dos seringueiros causadas por projetos financiados por bancos internacionais. Dois meses depois, Chico Mendes levava estas denúncias ao Senado norte-americano e à reunião de um banco financiador, o BID. Trinta dias depois, os financiamentos aos projetos devastadores são suspensos e Chico é acusado por fazendeiros e políticos de prejudicar o "progresso" do Estado do Acre. Meses depois, Chico Mendes começa a receber vários prêmios e reconhecimentos, nacionais e internacionais, como uma das pessoas que mais se destacaram naquele ano em defesa da ecologia, como por exemplo o prêmio "Global 500", oferecido pela própria ONU.

Durante o ano de 1988, Chico Mendes, cada vez mais ameaçado e perseguido, principalmente por ações organizadas após a instalação da UDR no Acre, continua sua luta percorrendo várias regiões do Brasil, participando de seminários, palestras e congressos, com o objetivo de denunciar a ação predatória contra a floresta e as ações violentas dos fazendeiros da região contra os trabalhadores de Xapuri. Por outro lado, Chico participa da realização de um grande sonho: a implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre, além de conseguir a desapropriação do Seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, em Xapuri.

A partir daí, agravam-se as ameaças de morte, como o próprio Chico chegou a denunciar várias vezes, ao mesmo tempo em que deixava claro para as autoridades policiais e governamentais que corria risco de vida e que necessitava de garantias, chegando inclusive a apontar os nomes de seus prováveis assassinos.

No 3o Congresso Nacional da CUT, Chico Mendes volta a denunciar esta situação, juntamente com a de vários outros trabalhadores rurais de todas a partes do país. A situação é a mesma, a violência criminosa tem a mão da UDR de norte a sul do Brasil. No mesmo Concut, Chico Mendes defende a tese apresentada pelo Sindicato de Xapuri, "Em Defesa dos Povos da Floresta", aprovada por aclamação por cerca de 6 mil delegados presentes. Ao final do Congresso, ele é eleito suplente da direção nacional da CUT.

Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes é assassinado na porta de sua casa. Chico era casado com lIzamar Mendes e deixa dois filhos, Sandino, de 2 anos, e Elenira, 4.

*Publicado na Revista "Chico Mendes" pelo STR de Xapuri, CNS e CUT em janeiro de 1989 ,

LEMBRANÇAS DO CHICO

Iniciamos filmando nossa série-documentário para televisão “A Década da Destruição” em Janeiro 1980 e continuamos filmando a década inteira até 1990. Mas a história do Chico Mendes iniciou, para nós, no segundo ano quando Robert Lamb, um assessor do Mustafa Tolba – o então Diretor da UNEP, o Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas – avisou-me que eles estavam muito preocupados com o desmatamento da floresta Amazônica. Perguntou se eles deveriam comprar áreas da floresta para preservá-la. “Nem pensar,” respondi. “Os militares vão pirar.” Ainda era a época do governo militar, e de vez em quando surgia um escândalo sobre a internacionalização da Amazônia.” “Então - Robert perguntou muito razoavelmente - que devemos fazer?” Respondi que não sabia, mas se encontrássemos alguma coisa, avisá-lo-ia.

Em 1985, ouvimos falar do primeiro encontro nacional dos seringueiros, organizado pela Mary Allegretti, e nosso equipe viajou de jipe dois dias e duas noites – das cabeceiras da BR 429 em construção em Rondônia – até Brasília. Quando chegamos, os seringueiros do Acre e de Rondônia já estavam falando das reservas extrativistas, então não sei com quem a idéia se originou. Mas entre os vários grupos, Chico pareceu, para nós, a liderança com mais projeção. Pedimos sua permissão para filmar seu trabalho por 2 anos, e logo quando nosso primeiro filme com Chico estava pronto, avisei a UNEP sobre sua ‘alternativa para Amazônia’ e completei o formulário indicando-o para o Prêmio Global 500 do UNEP, e, mais tarde, também para o prêmio da Better World Society (Sociedade Para um Mundo Melhor).

A proposta das reservas extrativistas, felizmente, era muito fácil promover fora de Brasil, e especificamente junto ao UNEP. Primeiro, porque era uma idéia, não somente nacional, mas que tinha sua origem com o povo da floresta mesmo. Segundo, porque a criação das reservas era baseada na defesa de pessoas muito carentes cujos direito de posse estava garantido pela Constituição do Brasil. Mas, sobretudo, porque a proposta resolveu um problema que afligia todos os parques e reservas biológicas da Amazônia. Numa época de muita pressão migratória, uma reserva tinha o efeito de um vácuo a chamar invasores de todos os lados. A grande vantagem da reserva extrativista era justamente seu povo que podia defender suas fronteiras, e que formou uma força social que podia atuar na política local. Do mesmo jeito como aquele tipo de árvore amazônica que alimenta colônias de formigas para se defender contra outras formigas, os seringueiros e índios são defensores natos e naturais da floresta Amazônica.

Como um estrangeiro, não tratarei das qualidades do Chico como um líder do seu povo que ajudou a criar a primeira reserva extrativista. Mas tentarei descrever como ele se deu tão bem com tantos estrangeiros e ambientalistas que acabaram ajudando-o.

Para mim, é um desentendimento do caráter do Chico descrevê-lo como uma pessoa “carismática”. Quando Vicente Rios, o cinegrafista e co-produtor que trabalhou conosco na série, leu uma revista dizendo que Chico era carismático, ele caiu na gargalhada. Depois de 5 minutos do Chico entrando nosso jipe, Vicente falou, “você ouviu o primeiro ronco?” De fato, um dos problemas da nossa filmagem era exatamente que Chico fez campanha (assessorado pelo Gomercindo Rodrigues) para Deputado Estadual junto com Marina Silva que falou de forma muito carismática. Este enfatizou, infelizmente, que Chico não tinha esta facilidade. Pelo contrário, Chico era naturalmente pacífico, com todas as características de um conciliador, de um sindicalista de natureza. Era esta facilidade de um negociador - de ver o ponto de vista dos dois lados - que claramente ajudou-o com os estrangeiros.

Também o que me fascinava era Chico o pensador original - o homem que tinha a habilidade de adaptar tudo para sua causa. Quando encontramos Chico, primeiro, ele utilizou bastante terminologia do Trotskysmo e nada de ambientalismo. Mas, próximo ao fim da sua vida, Chico estava utilizando todas as idéias do ambientalismo exatamente como as do sindicalismo e Totskysmo. Muitas vezes, quando estávamos viajando pelo exterior, observei Chico pensando profundamente, tentando entender uma idéia nova com uma simplicidade que ajudou-o a perceber com nitidez as necessidades do seu povo e as adaptações necessárias para chegar a uma solução. Inovação, ou criatividade, muitas vezes vem da junção de duas áreas completamente estranhas, resolvendo problemas de uma área com idéias provenientes da outra. E era notável com quanta rapidez Chico – um homem que nasceu na floresta - aprendeu a falar com senadores estrangeiros e com banqueiros, por exemplo, do BID e BIRD. Ele tinha uma cesta de qualidades ideais para a fase do lançamento das reservas extrativistas, e todos nós daquela época ainda sentimos a grande falta da sua amizade, de seu calor humano e da sua capacidade como um dos sindicalistas mais inovadores de seu tempo.

O vereador seringueiro*

"Por achar que a tribuna da câmara não dá solução para os trabalhadores e por achar que o político que se compromete com a luta dos trabalhadores deve estar ao lado deles, decidi, então, ir quebrar castanha para estar ao lado dos seringueiros".

Na boca de qualquer político acreano, esta frase sairia atravessada e dificilmente convenceria. Dita, entretanto, pelo vereador Francisco Mendes, ou Chiquinho Mendes, ela soa natural, espontânea e convence. Chiquinho Mendes, no dizer de um dirigente da Contag, é o único político acreano que se pode confiar. Originariamente foi seringueiro, ajudou a fundar os sindicatos dos trabalhadores rurais de Brasiléia e Xapuri, elegeu-se vereador pelo MDB de Xapuri e atualmente, voltou ao seringal Porvir onde está trabalhando, durante o recesso parlamentar, na coleta de castanha. Foi a maneira que encontrou para passar suas férias.
Sua história de vida é simples e comum como à da grande maioria dos trabalhadores acreanos. Nasceu no seringal Porto Rico, município de Xapuri, e, aos dez anos, já trabalhava como seringueiro para sustentar a família, porque o pai ficou aleijado. Com a morte deste, mudou-se com a mãe para a sede do município. Mas quando a Contag chegou no Acre e começou a campanha de sindicalização por Brasiléia, Chiquinho Mendes foi dos primeiros a se engajar na luta porque, como diz, "antes mesmo que a Contag chegasse, eu já sentia o problema dos seringueiros explorados pelos patroes seringalistas e acochados pela polícia quando vendiam a borracha para terceiros e todas aquelas barbaridades dos seringais do Acre". EM 1975, começa também a investida dos fazendeiros "paulistas". Em Brasiléia, quase todos os Seringais foram vendidos para grupos sulistas.

VARADOURO - Como foi o início do Sindicato? Fácil ou difícil, hein Chico ?

CHICO MENDES - Não foi muito difícil porque todo mundo estava vivendo o problema e a gente já tinha certa orientação para defender a terra. Mas houve, sim, algumas incompreensões de alguns companheiros e principalmente pressões dos patrões seringalistas e dos fazendeiros. Diziam que éramos "um bando de subversivos" e procuravam amedrontar o pessoal.

Em 1976, eleições para vereadores. Em Xapuri, o MDB não conseguiu completar a lista de candidatos. Então, o hoje deputado estadual e presidente da Assembléia Legislativa, Félix Pereira, convidou Chiquinho Mendes para se candidatar. Os dirigentes da Contag não concordaram porque o julgavam mais necessário junto ao Sindicato, mas no final ficou combinado assim: "eu me afastaria temporariamente do Sindicato e caso não fosse eleito, voltaria". Mas fui eleito com os votos e apoio financeiro dos seringueiros do Porvir que fizeram uma coleta para custear as mínimas despesas da campanha eleitoral. Nas vésperas das eleições, os adversários tentaram agredi-lo e até proibiram que Chiquinho distribuísse suas cédulas.

VARADOURO - E, agora, você volta a ser seringueiro. O que houve ?

CHICO MENDES - Eu senti o problema da luta sindical em Xapuri, a pressão dos patrões, dos fazendeiros,' dos próprios políticos da oposição, pelos quais já fui acusado até de "agitador".

VARADOURO - Então, você se desiludiu com a política ?

CHICO MENDES - Não é bem isso. O problema é que, como político, estava sentindo certa dificuldade de entrar em contato com os trabalhadores, com o Sindicato. Além disso, o estatuto do Sindicato não permite que eu, como político, seja sócio. Pensei, então, que, voltando a ser trabalhador, teria toda a liberdade de agir. Por achar que a tribuna da Câmara não dá a solução para o trabalhador e por achar que o político que realmente se compromete com a luta do trabalhador deve estar ao seu lado, decidi, então, ir quebrar castanha para estar ao lado dos seringueiros".

VARADOURO - E não estranhou o "pesado" depois desses anos todos ?

CHICO MENDES - Chiquinho diz que não porque desde pequeno foi acostumado a pegar no pesado, como os seringueiros não estranharam sua decisão porque "estou lá no meio deles como um trabalhador qualquer".

VARADOURO - E não é difícil conciliar ser político com ser seringueiro?

CHICO MENDES - É, não é fácil, porque como seringueiro, a gente fica isolado, mais preso ao trabalho e não pode se movimentar para acompanhar o trabalho em outros seringais. Por isso, inclusive, estou pensando em adquirir uma colônia, que permitira maior movimentação.

VARADOURO - Mas vai continuar trabalhando ?

CHICO MENDES - Vou sim. Trabalhando, a gente fica perto do povo e no momento em que houver qualquer problema, a gente também se apresenta como um trabalhador, com as mãos calejadas.

Problemas, conflitos pela posse da terra não vão faltar em Xapuri, onde se concentram grandes fazendas, inclusive a da multinacional Bordon. No início de abril, com o fim do período das chuvas, chega a época dos grandes desmatamentos e, segundo Chiquinho Mendes, "o povo vai reagir porque sabe que não pode perder suas posses. Na Bolívia, os acreanos estão sendo acochados; o Governo boliviano, pelo que consta, estaria jogando impostos altos sobre seringueiros acreanos para pressioná-los a voltar para o Brasil".

VARADOURO - Quer dizer que houve mudança na consciência dos seringueiros?

CHICO MENDES - Sim, a gente sente uma grande transformação. A grande maioria já está consciente de que a luta deverá ser outra. Estão decididos a defender seus direitos, compreenderam que unidos têm força para segurar a terra e que podem lutar contra o latifúndio. Antes, não sabiam o que fazer diante do problema, mas com o correr dos tempos, os mais experientes foram conscientizando os outros, dizendo que a terra é nossa, que foram nossos antepassados que lutaram para, conquistar esta terra e que hoje é possível fazer uma nova reconquista, se for preciso".

*Entrevista concedida por Chico Mendes ao jornal "VARADOURO" nº18, em março de 1980

Vamos a Luta em Defesa da Vida *

Nos dias 9,10 e 11 de agosto estive em Ariquemes-Ro, participando da reunião da Direção Nacional do Conselho Nacional de Seringueiros, cuja reunião foi realizada com o objetivo de se discutir a continuidade da luta do CNS pela criação das reservas extrativistas e a defesa dos povos da floresta, índios e seringueiros.

Naquela oportunidade, fiz uma reunião com alguns ainda existentes naquela região e que estão ali a mais de 50 anos. E para surpresa eles me informaram que após a implantação do POLO-NOROESTE - naquela região, projeto este financiado pelo Banco Mundial, os treze maiores seringais daquela região foram destruídos pelos fazendeiros, e alguns projetos de colonização.

Segundo eles, entre aqueles 13 seringais, tinham duas mil e oitenta colocações de seringueiros, totalizando seis mil duzentos e quarenta estradas de seringas com 811.200 árvores de seringueiras destruídas.

Nestas áreas tinham segundo eles grandes castanhais que também foram destruídas. Um dos únicos seringais, o Primavera, no Rio Preto, que não foi desmatado mas lá ninguém entra porque se entrar os jagunços matam, cujo seringal pertence ao Sr, Delfim Néto.

Ao voltar de Ariquemes, tivemos que ficar por mais de duas horas no Aereoporto de Porto Velho, por causa da fumaça que cobria aquela região. Ontem dia 17 o avião da Vasp, trecho Manaus-Rio Branco atrasou uma hora, por causa do fumaçeiro em Rio Branco.

Estes são exemplos tristes e cabe a sociedade ao todo se envolver nesta luta. Se agora a fumaça gerada das queimadas já começa a complicar, o que poderá acontecer no mês de setembro que é época das maiores queimadas em nossa região?

Preocupados com esta situação que é gravissima, o Conselho Nacional de Seringueiros, e o Instituto de Estados Amazônicos, pretendem iniciar uma campanha no sentido de se mobilizar a opinião pública, para os problemas que virão no futuro e que já começam a acontecer em nossa região. Vamos lembrar o exemplo do ano passado quando o Acre foi quase que tomado por uma forte nuvem de fumaça durante todo mês de setembro. Talvez as únicas pessoas que ainda não perceberam isso foi os dirigentes do IBDF, porque talvez sejam os únicos a possuírem aparelhos respiratórios anti-fumaça, pois até o momento o IBDF não demostrou esta preocupação. A prova é um fumaceiro que já começa a perturbar as companhias de aviação e as pessoas que viajam.

Convidamos todos os ecologistas, o PV, a imprensa, e todos seguimentos da sociedade acrena a se engajarem nesta luta em defesa da vida.
Rio Branco 18 de agosto de 1988

Chico Mendes

Membro do Conselho Nacional de Seringueiros

*Texto de acordo com o original assinado por Chico Mendes

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