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Pedro Álvares Cabral

 

Pedro Álvares Cabral, navegador português, nascido em Belmonte, por 1467-68, e a quem D. Manuel I confiou o comando da segunda armada que mandou à Índia.

Partiu Cabral de Lisboa em 9 de Março de 1500, e, como se tivesse desviado a sua rota para descobrir novas terras, não tardou a encontrar o Brasil, a 3 de Maio de 1500, no dia de Santa Cruz. Daí seguiu para a Índia.

No seu regresso, D. Manuel concedeu-lhe muitas honras, mas nunca mais utilizou os seus serviços.

Pedro Álvares Cabral morreu esquecido em Santarém, uns dizem em 1520, outros em 1526. Foi-lhe erigido um monumento no Rio de Janeiro e outro em Lisboa, na Avenida que tem o seu nome.

Dados biográficos

Acredita-se nascido em Belmonte, na Beira Baixa, Portugal. Foi o terceiro filho de Fernão Cabral, governador da Beira e alcaide-mor de Belmonte, e de Isabel de Gouveia de Queirós. Assim, seu nome original teria sido Pedro Álvares Gouveia, pois geralmente apenas o primogênito herdava o sobrenome paterno.

Posteriormente, com a morte do irmão mais velho, teria passado a ser Pedro Álvares Cabral. A 15 de fevereiro de 1500 - quando recebeu de D. Manuel I (1495-1521) a carta de nomeação para capitão-mor da armada que partiria para a Índia - já usava o sobrenome paterno.

Páginas portuguesas dizem de sua nobreza, que remontaria a um terceiro avô, Álvaro Gil Cabral, alcaide-mor do Castelo da Guarda sob os reis D. Fernando (1367-1383) e D. João I (1385-1433), da dinastia de Avis. Teria recebido por mercê as alcaidarias dos castelos da Guarda e Belmonte, com transmissão à descendência. Eram terras fronteiras da Espanha, de pastorícia, origem dos símbolos das cabras passantes do escudo de armas da família Cabral.

Aos 11 anos de idade mudou-se para o Seixal (onde ainda hoje existe a Quinta do Cabral), estudando em Lisboa: literatura, história, ciência como, por exemplo, cosmografia, aptidões marinheiras, além de artes militares. Na corte de D. João II (1481-1495), onde entrou como moço fidalgo, aperfeiçoou-se em cosmografia e marinharia.

Com a subida ao trono de D. Manuel I (1495-1521) foi agraciado com o foro de fidalgo do Conselho do Rei, o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo e uma tença, pensão em dinheiro anual. Casou-se com D. Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque, aumentando sua fortuna - pois a de seu pai devia dividir com os dez irmãos.

A viagem de 1500

Em 1499, D. Manuel o nomeou capitão-mor da primeira armada que se dirigiria à Índia após o retorno de Vasco da Gama. Teria então cerca de 33 anos. Foi a mais bem equipada do século XV, integrada por dez naus e três caravelas, transportando de 1.200 a 1.500 homens, entre funcionários, soldados e religiosos.

Deveria desempenhar funções diplomáticas e comerciais junto ao Samorim, reerguendo a imagem de Portugal, instalando um entreposto comercial ou feitoria e retornar com grande quantidade de mercadorias.

Integrada por navegadores experientes, como Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho, a armada partiu de Lisboa a 9 de março de 1500. A 22 de abril, após 43 dias de viagem e tendo-se afastado da costa africana, avistou o Monte Pascoal no litoral sul da Bahia. No dia seguinte, houve o contato inicial com os nativos. A 24 de abril, seguiu ao longo do litoral para o norte em busca de abrigo, fundeando na atual baía de Santa Cruz Cabrália, nos arredores de Porto Seguro, onde permaneceu até 2 de maio, a chamada "Semana de Cabrália".

Cabral tomou posse, em nome da Coroa portuguesa, da nova terra, a qual denominou de Terra de Vera Cruz, e enviou uma das embarcações menores com as notícias, inclusive a famosa carta de Caminha, de volta ao reino. Retomou então a rota de Vasco da Gama rumo às Índias. Ao cruzar o cabo da Boa Esperança, quatro de seus navios se perderam, entre os quais, ironicamente, o de Bartolomeu Dias, navegador que o descobrira em 1488.

Chegaram a Calicute a 13 de setembro, depois de escalas no litoral africano. Cabral assinou o primeiro acordo comercial entre Portugal e um potentado na Índia.

A feitoria foi instalada mas durou pouco: atacada pelos muçulmanos em 16 de dezembro, nela pereceram cerca de 30 portugueses, entre os quais o escrivão Pero Vaz de Caminha. Depois de bombardear Calicute e apresar barcos árabes, Cabral seguiu para Cochim e Cananor, onde carregou as naus com especiarias e produtos locais e retornou à Europa. Chegou em Lisboa a 23 de junho de 1501. Foi aclamado como herói, não obstante o facto de, das 13 embarcações, terem regressado apenas seis.

O fim da vida

Convidado para comandar nova expedição ao Oriente, desentendeu-se com o monarca acerca do comando da expedição e recusou a missão, vindo a ser substituído por Vasco da Gama. Não recebeu mais nenhuma outra missão oficial até ao fim da vida. Faleceu esquecido e foi sepultado na Igreja da Graça cidade de Santarém, segundo alguns em 1520, e outros, em 1526.

Casou-se em 1503 com D. Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque, deixando descendência. Em 1518, era cavaleiro do Conselho Real. Foi senhor de Belmonte e alcaide-mor de Azurara.

Cabral, lembrado pelos brasileiros como aquele que "descobriu" o Brasil, não recebeu do rei as mesmas honrarias outorgadas a Vasco da Gama. No Brasil, é o grande homenageado a cada dia 22 de abril.

Foram-lhe erguidos um monumento na cidade do Rio de Janeiro e outro em Lisboa, na avenida que tem o seu nome; de igual modo, sua terra natal o homenageou com uma estátua, bem como a cidade onde está sepultado, Santarém.

OCIDENTE

Com duas mãos- o Acto e o Destino-
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o facho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Occidente o véu rasgou,
Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

Fernando Pessoa, Mensagem

Fonte: www.geocities.com

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte, norte de Portugal, entre 1467 e 1468.

Seu trisavô era Álvaro Gil Cabral, que não apenas teve importante participação na batalha de Aljubarrota, em 1385, como foi o heróico defensor do castelo de Belmonte – do qual se tornou alcaide-mor (ou governador), cargo vitalício e hereditário.

A família obteve também o direito de ter um brasão, no qual Álvaro Gil decidiu colocar a imagem de três cabras – animal "valente e leal" tão comum naquela "rude terra centeeira, nas abas da serra da Estrela". Pelos 200 anos seguintes, Belmonte seria um feudo da família Cabral.

O filho de Álvaro Gil e bisavô de Pedro Álvares era Luís Álvares Cabral, que lutou com o pai em Aljubarrota, foi escudeiro-fidalgo do rei D. João I e vedor (ou fiscal de finanças) da casa do Infante D. Henrique, ao lado do qual participou da tomada de Ceuta, em 1415. Também combatendo em Marrocos esteve Fernão Álvares, filho de Luís Álvares e avô do Cabral que descobriu o Brasil. Apesar de Ter adoecido de peste na galé de D. Henrique, Fernão Álvares recuperou-se a tempo e se tornou o primeiro europeu a "matar um mouro a cavalo nas terras de Ceuta".

Fernão Álvares teve dois filhos: Diogo e Fernão. Fernão Cabral, tido por "galanteador e troveiro, metedor d’alvoroços entre as moças", era um homem alto, de mais de 1,90m, apelidado de "Gigante da Beira". Fernão casou-se com D. Isabel Gouveia, mulher riquíssima. Com ela, teve sete filhos, o segundo dos quais chamou-se Pedro Álvares.

Por não ser filho primogênito, Pedro Álvares, embora criado na corte de D. João II, não tinha direito à herança de seu pai.

Mas acabou não precisando dela: ao casar-se com D. Isabel de Castro – que era neta do reis D. Fernando de Portugal e D. Henrique de Castela e sobrinha de Afonso de Albuquerque, o maior dos conquistadores lusos do século XVI -, Cabral tornou-se mais rico que o pai, o avô e o bisavô jamais haviam sido.

Em 15 de fevereiro de 1500, o rei D. Manoel o nomeou capitão-mor da armada que em breve entraria nas amplitudes do Atlântico. Não são poucos os analistas que acham que tal honraria se deveu ao "casamento bom". É muito provável que Cabral, que era membro da Ordem de Cristo, jamais houvesse navegado.

Ao longo desses anos, o próprio Pedro Álvares caíra desgraça na corte, jamais voltando navegar ou a manter qualquer vínculo não só com o Brasil, mas com o próprio com império ultramarino que ajudara a criar.

Pouco mais de um mês após retornar a Lisboa, Cabral recebera do rei uma "tença" (ou pensão) anual de 30 mil reais, quase 14 vezes menos do que os 400 mil reais dados em 1498 a Vasco da Gama, a pensão também foi um prêmio por ter sido ele o primeiro a chegar à Índia por via marítima.

Logo em seguida à chegada de Cabral, D. Manoel começou a armar a chamada "Esquadra da Vingança", que seria enviada para desferir novo e violento ataque contra Calicute. O descobridor do Brasil foi escalado para fazer parte dela. Não se sabe exatamente o que houve, mas o fato é que, ao recusar-se a aceitar o cargo de subcomandante, Cabral se indispôs com o rei.

Os motivos podem Ter sido dois. O primeiro é que da esquadra faria parte uma frota comandada por um certo Vicente Sodré – e, como ela teria autonomia de movimentos do Índico, Cabral se indignou com o que julgou ser uma diminuição de seus poderes. O segundo motivo, mais provável, é que, baseado nos poderes conferidos por uma carta régia assinada em 2 de outubro de 1501, Vasco da Gama – nomeado Almirante das Índias – teria exigido que o comando da armada fosse exclusivamente seu.

O fato é que quando a "Esquadra da Vingança" deixou Lisboa na primavera de 1502, seu único chefe era Vasco da Gama. Ao mesmo tempo, Cabral partia para o aumento-exílio em Santarém. Embora documentos provem que o rei continuou lhe pagando a pensão anual, Cabral jamais foi perdoado. Seu nome desaparece por completo das crônicas oficiais e nada se sabe sobre as duas últimas décadas de sua vida, exceto que ele estava doente das febres que adquirira na Índia.

Pedro Álvares Cabral morreu na obscuridade, por volta de 1520, sem nunca ter retornado à corte – e virtualmente sem saber que revelara ao mundo um território que era quase um continente. Em 1521 morria também o rei D. Manoel I, o monarca que jamais se interessou pela terra descoberta por Cabral.

Fonte: www.coladaweb.com

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral, nasceu em Belmonte, em 1467 ou 1468, filho do alcaide-mor daquela localidade.

Com cerca de 10 anos foi para a corte. Veio a casar com uma sobrinha de Afonso de Albuquerque. Sabe-se que D. João II lhe concedeu uma tença, embora se ignorem os motivos.

Depois do regresso de Vasco da Gama da Índia, em 1499, Pedro Álvares Cabral é nomeado comandante de uma frota de treze navios que partem em Março de 1500 com destino à Índia.

Filho de Fernão Cabral e Isabel Gouveia, Pedro Álvares Cabral nasceu no castelo de Belmonte e pouco se sabe de sua vida até o final do século, além de que foi educado na Corte de D. João II. Em 1499, D. Manuel o nomeou capitão-mor da armada que faria a primeira expedição à Índia após o retorno de Vasco da Gama.

Com treze navios e cerca de 1.200 homens, a maior frota até então organizada em Portugal, Cabral partiu de Lisboa em 9 de março de 1500, com a missão de fundar uma feitoria na Índia. Dela participavam navegadores experientes, como Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho.

Em 22 de abril, após 43 dias de viagem e tendo-se afastado da costa africana, a esquadra avistou o monte Pascoal no litoral sul da Bahia. No dia seguinte houve o contato inicial com os indígenas.

Em 24 de abril, a frota seguiu ao longo do litoral para o norte em busca de abrigo, fundeando na atual baía Cabrália, em Porto Seguro, onde permaneceu até 2 de maio. Em seguida, um dos navios retornou a Lisboa com as notícias da descoberta, enquanto o resto da frota seguia para Calicute, lá chegando em 13 de setembro, depois de escalas no litoral africano.

A feitoria ali instalada durou pouco: saqueada em 16 de dezembro, nela morreram 30 portugueses, entre os quais o escrivão Pero Vaz de Caminha. Depois de bombardear Calicute e apresar barcos árabes, Cabral seguiu para Cochim e Cananor, onde carregou as naus com especiarias e produtos locais e retornou à Europa. Chegou a Lisboa em 23 de junho de 1501.

Convidado para comandar nova expedição ao Oriente, desentendeu-se com o monarca e recusou a missão. Casou-se em 1503 com D. Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque, deixando descendência. Em 1518, era cavaleiro do Conselho Real. Foi senhor de Belmonte e alcaide-mor de Azurara.

Descoberta ou Achamento do Brasil

Segue a rota indicada por Vasco da Gama, mas ao passar por Cabo Verde sofre um desvio maior para sudoeste, atingindo, a 22 de Abril de 1500, a costa brasileira. Manda um navio a Portugal com a nova da descoberta e segue para a Índia, chegando a Calecut em 13 de Setembro de 1500.

Vários barcos se perderam, entre eles o de Bartolomeu Dias, que naufragou perto do Cabo da Boa Esperança, que ele próprio dobrara anos antes pela primeira vez. Depois de cumprir a sua missão no Oriente, Pedro Álvares Cabral regressa em 1501 e vai fixar-se nos seus domínios, na zona de Santarém, onde vem a falecer em 1520.

Cronologia de Pedro Álvares Cabral

1467(?): Nasce, talvez em Belmonte. Filho segundo do fidalgo Fernão Cabral. Datas incertas: Por serviços vários de natureza militar é agraciado com tença por D. João II. Casa com D. Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque.
1500: Segunda expedição portuguesa à Índia: armada de 13 navios, com 1500 homens. D. Manuel I entrega o comando a Pedro Álvares Cabral. Este larga de Lisboa a 9 de Março. Descobre as Terras de Vera Cruz (Brasil) em 22 de Abril. Naufrágios de quatro naus mas chega a Calecute a 13 de Setembro. Não consegue a submissão do Samorim
1501: Regressa ao Reino apenas com 5 navios, embora transportando avultada carga de especiarias.
1502: Recusa comandar outra expedição à Índia.
1509: Afastado do Paço, vive nas suas propriedades de Santarém.
1515: Finalmente é-lhe atribuída tença como prémio pela sua descoberta do Brasil que começa a ser colonizado.
1518: Nova tença, pelo mesmo motivo.
1520 (?): Morre em Santarém.

Fonte: www.netsaber.com.br

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil

Pedro Álvares Cabral nasceu em Belmonte, à volta do ano 1467/68. Filho de Isabel de Gouveia (filha de João de Gouveia, alcaide-mor do Castelo Rodrigo) e de Fernão Cabral (alcaide-mor dos castelos de Belmonte e da Guarda).

Teve berço abastado numa casa, onde lhe incendiaram decerto, não só o orgulho de fidalgo, mas tanto ou mais que isso: a contemplação dos feitos de seu pai e a lembrança dos seus antepassados.

Um grande exemplo de bravura e coragem fora, sem dúvida, o seu bisavô Luís Álvares Cabral que fora, segundo se crê, o primeiro membro da família investido na alcaidaria-mor de Belmonte. E que, em 1415, tivera uma activa participação na primeira campanha marroquina, a da conquista de Ceuta, como um dos combatentes incorporados no grupo chefiado pelo Infante D. Henrique.

Outro, fora o seu avô, Fernão Álvares Cabral que se contava que tendo também participado na expedição da Conquista de Ceuta, não pudera por doença combater, mas tendo permanecido nessa cidade marroquina nos seguintes anos, ajudara a defendê-la, quando dos cercos a ela postos pelos mouros em 1418.

Mais tarde, em 1437, na fracassada tentativa de conquista de Tânger, perdera a vida em combate.

E finalmente o seu pai, Fernão Álvares, cuja participação nas conquistas marroquinas se apresentavam para o pequeno Pedro como romances de aventuras.

Devido também ao rigor com que exercia as suas funções militares e judiciais de alcaide-mor de Belmonte e corregedor da comarca da Beira, foi cognominado de O Gigante da Beira.

Como era costume da época, à volta de 1478, Pedro Álvares Cabral foi mandado para a corte com a finalidade de receber uma educação própria da elevada classe social. Esta consistia em alguma instrução literária e científica de ordem geral, bem como no uso de armas e sociabilidade cortesã. Já ali o precedera o seu irmão mais velho, João Fernandes Cabral.

Segundo Damião Peres, da vida de Pedro Álvares Cabral, desde a sua chegada à corte até ao fim do século, nada de concreto se sabe além de que, jovem ainda, desposou D. Isabel de Castro, prima do Marquês de Vila Real e sobrinha daquele que viria a ser o maior governador de Índia, Afonso de Albuquerque.

Dos navios da frota de Vasco de Gama regressados a Portugal, o primeiro foi a nau Bérrio, que ancorou no Tejo a 10 de Julho de 1499. Logo se conheceu o sucesso da empresa descobridora do caminho marítimo para a Índia. Esta ideia foi confirmada algumas semanas depois, à vista das especiarias trazidas, embora em pouca quantidade, por outra nau da mesma frota, S. Gabriel, o que causou grande entusiasmo entre a população lisboeta.

Quando no limiar do Outono, Vasco da Gama regressou a Portugal (após ter passado pelos Açores para sepultar o seu irmão Paulo da Gama), contou ao rei as suas dificuldades em comerciar com os povos orientais, visto que, aos olhos duma civilização tão avançada, os nossos presentes de homenagem pareciam-lhes insignificantes.Assim, o rei concluiu que convinha aparecer nos mares da Índia com maior aparato de força e melhor brilho de ostentação humana. Pois, pensava ele, os moradores daquelas partes pensariam que o reino de Portugal era muito poderoso para prosseguir com aquela empresa e que, vendo gente luzida e com riqueza, quereriam a sua amizade.

Com esta intenção, e sob o estímulo do interesse e do entusiasmo geral, começou-se sem demora a organizar uma nova armada, esta agora, bem mais "poderosa em armas e em gente luzida", isto é, capaz de obter, por persuasão ou pela força, os resultados que, Vasco da Gama, com a escassez dos seus meios militares-navais, não conseguira alcançar. No comando supremo desta armada, composta por treze navios, foi investido Pedro Álvares Cabral através da carta Régia de 15 de Fevereiro de1500.

Sobre o que levou o monarca a fazer esta escolha (segundo Damião Peres) não há certezas, só hipóteses. Por um lado, o prestígio da sua ascendência e a influência de alguns parentes por afinidade, tais como, Afonso de Albuquerque e principalmente o Marquês de Vila Real. Finalmente, aqueles seus desconhecidos "feitos e merecimentos" a que aludira a carta régia de 1497 e a sua categoria de fidalgo da casa real.

Assim, um dos propósitos do rei estava concluído. Pois, Pedro Álvares Cabral, que com o comando geral acumulava a capitania do navio-chefe, juntamente com os demais capitães - Nicolau Coelho, Bartolomeu Dias, Diogo Dias, Sancho de Tovar, Simão de Miranda de Azevedo, Aires Gomes da Silva, Pedro de Ataíde, Vasco de Ataíde, Simão de Pina, Nuno Leitão da Cunha, Gaspar de Lemos e Luís Pires - de igualmente portentosa ascendência, constituíam um bom núcleo daquela "gente luzida" com que o monarca pretendia mostrar ao Oriente os melhores brilhos de Portugal.

Porém, a par deste aspecto, o outro, o de a armada ser "poderosa em armas", fora igualmente tratado, pois além de abundantemente provida de artilharia e demais armamento - tudo do melhor que se conseguiu arranjar -, a armada transportava 1500 homens, dos quais 1000 eram combatentes. Estes são bem esclarecedores quando comparados com os da frota de Vasco da Gama, cujos tripulantes, incluindo mareantes e combatentes, rondavam os 150 homens.

Outro aspecto importante era o de converter ao cristianismo "os mouros e as gentes idólatras daquelas partes" - como dizia o próprio rei. Para isso, este embarcou alguns sacerdotes para os serviços religiosos da armada e eventual fixação de um pequeno grupo de Franciscanos no Oriente.

Finalmente, os meios de navegação e a rota a seguir foram também cuidadosamente assentes, recorrendo-se, quanto a esta, a instruções régias cujas normas foram sugeridas por Vasco da Gama. Em cada navio ia um piloto e, pelo menos nos maiores, um sota-piloto. O único piloto conhecido actualmente é Pedro Escobar, a quem também chamavam Pero Escolar. O facto de Pero Escolar ter pilotado, entre outras, uma caravela de Diogo Cão, outra de Gonçalo de Sousa e também a Bérrio, da armada de Vasco da Gama , juntamente com alguns pormenores sobre a sua competência profissional, faziam dele um piloto exemplar.

Assim, esta grandiosa armada, parecia estar disposta a cumprir a todo o custo, a sua missão no Oriente.

Concluídos todos os preparativos, o rei fixou a data da partida: 8 de Março de 1500, devendo pomposamente realizar-se o embarque na praia do Restelo que, nesse tempo, ficava perto da Ermida de Nossa Senhora de Belém.

Desde a madrugada que devem ter convergido para os extensos areais de Belém, com as suas famílias, os soldados e marinheiros que iam embarcar. Aqui e além, brotavam algumas lágrimas, talvez de medo da separação ou de terror dos mares desconhecidos. Era um Domingo, dia de preceitual assistência à missa, celebrada, nesse dia, na Ermida do Restelo. Acabada a cerimonia religiosa, e depois de beijar a mão ao monarca D. Manuel I, Pedro Álvares Cabral, com a bandeira portuguesa na mão, entrou com os demais capitães, para os batéis onde já os aguardavam os demais tripulantes. O cenário era fantástico. Todo o povo de Lisboa tumultuava perante um tão grandioso espectáculo, no Tejo vogavam os batéis repletos de gente e toda a esplendorosa armada.

Animando tudo isto, ouvíam-se, em terra e no Tejo, os sons melodiosos de vários instrumentos musicais, tais como: trombetas, tambores, flautas e pandejos.

Porém, o único a faltar, foi o vento, levando a armada a um inesperado adiamento da largada. Mas não foi grande a enervante espera, pois logo no dia seguinte um vento favorável de norte ou nordeste, tornou possível a partida. Erguidas as velas, a armada rumou à barra iniciando-se uma viagem de sucessos inesperados.Por fim, ao anoitecer do dia 9 de Março de 1500, a grandiosa armada transpunha a barra do Tejo e cortava finalmente a águas do Atlântico.

A bordo da nau-capitânia viajava o famosa escrivão, antigo mestre da Balança da Casa da Moeda do Porto, Pero Vaz da Caminha que começava a escrever os primeiros incidentes da viagem e que, mais tarde, enviaria numa carta ao rei D. Manuel. Essa carta. Enviada do Brasil, é o documento principal que permite aos historiadores actuais saber o que se passou na primeira parte da viagem. As instruções náuticas, inspiradas, como já disse, por Vasco da Gama, diziam que a armada se devia dirigir à ilha de S. Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, em vez de se dirigir à ilha de Santiago pois esta contraía-se uma epidemia que era preciso evitar. Mas, se tivesse água necessária para quatro meses, não precisaria de aí fazer escala. Deveria então remar a sul, sem perda de tempo, enquanto o vento fosse favorável. A seguir deveria fazer a volta do largo a fim de atingir a latitude necessária para dobrar o cabo da Boa Esperança.

Iniciando essa marcha, a frota lançou-se " por este mar de longo", como escreveu Pêro Vaz de Caminha, aí permanecendo, virado a sudoeste, por quase um mês.

Desfalcada pela perda da nau de Vasco de Ataíde que, tresmalhada, nunca mais fora vista, no mar ou em terra, tendo sido "engolida pelo mar", como dizia a tripulação.

Durante esses dias, nada de aliciante se passou, que despertasse a curiosidade de Pêro Vaz de Caminha, que se limitou a descrever as tarefas banais de bordo, abrindo uma excepção no dia 19 de Abril, visto que se tratava das celebrações da Páscoa. Porém, dois dias depois (dia 21 de Abril), começou a haver alvoroço entre a tripulação. Embora sabendo que viajavam longe da costa Africana, os marinheiros começaram a ver umas algas boiantes, que, segundo os mais experientes, indicavam que havia terra por perto. Nas primeiras horas do dia seguinte, dia 22 de Abril, o aparecimento de aves, veio confirmar as suspeitas. E finalmente, ao entardecer desse dia, começaram-se a distinguir, embora muito mal devido à névoa, os contornos de montanhas. E, à medida que a frota ia avançando foram-se distinguindo, segundo escreveu Caminha, " um grande monte, mui alto e redondo, e outras serras mais baixas, e terra chã, com muitos arvoredos; ao qual monte o capitão deu o nome de Monte Pascoal e à terra, Terra de Vera Cruz". Era a primeira visão daquilo que actualmente se chama Brasil.

Ao crepúsculo desse dia, embora ainda a umas seis léguas da costa, a frota ancorou. O entusiasmo duma descoberta tão inesperada , não permitia adiamentos. A falta de fontes históricas comprovadoras, não nos permite saber se este facto foi casual ou intencional. Conhece-se, é verdade, um regulamento minucioso sobre o que Pedro Álvares Cabral iria fazer durante o percurso, assim como as instruções de Vasco da Gama. Infelizmente, esses arquivos estavam tão incompletos quando chegaram aos nossos dias, que as informações àcerca deste problema, não vieram acrescentar muito ao que já se sabia. Até ao séc. XIX, pensava-se que a descoberta tinha sido meramente casual e, a certa altura, já era tal a fantasia que se diziam coisas, completamente contraditórias aos relatos de Pero Vaz de Caminha. Como por exemplo, nos livros estava escrito que a frota, ao passar pelas ilhas de Cabo Verde presenciara uma terrível tempestade que fizera desaparecer a nau de Vasco de Ataíde. Enquanto Pero Vaz de Caminha diz : " E Domingo, 22 do dito mês (Março), (...) houvemos vista das ilhas de Cabo Verde (...). Na noite seguinte, segunda-feira, se perdeu a nau de Vasco de Ataíde sem haver motivo vento forte ou contrário, para que tal acontecesse."

Porém, formada a lenda da tempestade e da casualidade do descobrimento, deveu-se a um brasileiro, em 1854, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a primeira hipótese da sua intencionalidade. De facto, não era necessário fazer um tão grande desvio para sudoeste se se queria apenas dobrar o Cabo da Boa Esperança. Desde então, esta tese tem tido tantos defensores como contraditores.

Intencional ou não, este descobrimento foi o ponto de partida para três séculos de desenvolvimento das terras sul-americanas sob aspectos de fusão nacional, aproximação humana, valorização econômica e criação espiritual, que iria formar, a grande e independente nação: o Brasil dos nossos dias. Na manhã seguinte, dia 23, Nicolau Coelho foi a terra e, embora deslumbrado com a originalidade das populações, estabeleceu os primeiros contactos com os povos indígenas daquelas terras.

No dia seguinte, toda a tripulação, desembarcou, umas 10 léguas a norte. Ficaram completamente deslumbrados com o clima, a paisagem, as plantas, os animais e sobretudo, as gentes " pardos e todos nus", como disse Pero Vaz de Caminha na carta que escreveu ao rei, a contar a descoberta.

Após uma semana no Brasil, a nau de Gaspar de Lemos, regressou a Lisboa, com a carta de Pero Vaz de Caminha. As outras, seguiram o seu destino para a Índia. Porém, a segunda parte da viagem, foi terrível. À passagem do Cabo da Boa Esperança, houve uma tão violenta tempestade que dissipou a armada afundando várias naus com as suas tripulações, incluindo, o grande descobridor daquele cabo, Bartolomeu Dias, o seu irmão, Diogo Dias (que foi ter a uma grande ilha, a actual Madagáscar) e muitos outros.

As restantes chegaram à Índia e estabeleceram contactos com vários reinos locais: Cochim, Cananor e Coulão. Regressaram a Lisboa a 23 de Julho de 1501 carregadas de riquezas.

Fonte: web.educom.pt

Pedro Álvares Cabral

O Homem   

Pedro Álvares Cabral viveu em Santarém depois de ter recusado a capitania da armada que, em 1502, partiu para a Índia. Depois disso, não voltou a prestar qualquer serviço a D. Manuel. Nem a carta de Afonso de Albuquerque, de 1514, levou o rei a conceder-lhe nenhuma missão, apesar de se conhecer o seu valor e de continuar a ser paga a ele a elevada tença de 200.000 reais por ano.

O descobridor do Brasil viveu de forma discreta os seus últimos anos de vida com a sua esposa D. Isabel de Castro na sua casa situada junto da igreja da Graça, na qual terá falecido em 1520. Este é o ano mais provável de sua morte, baseando-se em duas cartas de D. Manuel, datadas de 3 de novembro de 1520. Nelas, declarava que, em atenção aos muitos serviços prestados pelo falecido Pedro Álvares Cabral, a partir "do primeiro dia de janeiro da era de quinhentos e vinte e um em diante" deveriam ser pagas tenças anuais à sua viúva D. Isabel de Castro, no montante de 30.000 reais, e ao seu filho mais novo António Cabral, no montante de 20.000 reais. O fato de tais tenças, que serviam de pensão, serem pagas apenas a partir de 1521, revela que o falecimento ocorreu em 1520.

Além do mencionado António Cabral, que morreu sem ter deixado descendência, o descobridor do Brasil deixou mais cinco descendentes, tendo sido o filho primogênito Fernão de Álvares Cabral, que foi um fidalgo da confiança de D. João III. A sua última ação importante de Fernão foi o comando da armada que foi para a Índia em 1553. Em 1554, na viagem de regresso a Portugal, a nau de que era capitão, a São Bento, naufragou na África do Sul, tendo ele vindo a morrer em 2 de junho desse mesmo ano, em Moçambique.

Pedro Álvares Cabral teve ainda quatro filhas. A mais velha foi D. Constança de Castro, que casou com Nuno Furtado de Mendonça, do qual não teve filhos. As outras três filhas chamaram-se D. Guiomar de Castro, D. Isabel e D. Leonor, tendo todas elas sido freiras.

O filho mais velho, Fernão de Álvares Cabral, casou com D. Margarida da Silva, de quem teve os seguintes filhos: Pedro Álvares Cabral, João Gomes Cabral, Rui Dias Cabral e D. Beatriz de Noronha.

Terra Natal

Pelmonte orgulha-se de ser a terra natal do descobridor do maior país de colonização portuguesa.

A pequena e aconchegante vila de Belmonte, situada na Serra da Estrela, mantém viva a história dos Cabrais através de seus monumentos e lendas. O Castelo onde nasceu Cabral, o Panteão da família, a Igreja de São Tiago, a estátua do descobridor, são marcas que permitem a volta ao tempo e a reconstrução de uma história.

Também a arca tumular com as cinzas de Pedro Álvares Cabral, que foi uma oferta da cidade de Santarém a Belmonte, como terra natal do grande capitão e descobridor.

Na placa colocada no tumulo, lê-se:

"ENCERRA ESTE TÚMULO DUPLA URNA DE CHUMBO E MADEIRA CONTENDO TERRAS E RESÍDUOS MORTUÁRIOS DE PEDRO ÁLVARES CABRAL RETIRADOS DO TÚMULO DA IGREJA DA GRAÇA EM SANTARÉM, EM 14-03-1903, NA SEGUNDA ABERTURA DO MESMO TÚMULO E TRAZIDOS PARA BELMONTE EM 1961, POR DEFERÊNCIA DA SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA E O INTERESSE DA CÂMARA MUNICIPAL DE BELMONTE. BELMONTE, 24 DE SETEMBRO DE 1996"

Exito ou fracasso?

Há razões de sobra para que se faça tal pergunta a respeito de Pedro Álvares Cabral. Comandante da maior esquadra até então composta para a conquista dos mares, encarregado de ampla e esperançosa missão de diplomacia e negócios, viu perder-se grande parte da sua frota, debateu-se com problemas de relações negociais com o principal centro de comércio conhecido na Índia, cometeu equívocos, regressou a Lisboa desencontrado do que restava dos seus comandados, não teve festas apesar de ter-lhe sido assegurada recompensa econômica, retirou-se a um exílio voluntário e no ostracismo morreu sem que se lembrassem dele.

Aparentemente, fracasso.

Entretanto, ao longo da sua derrota colheu triunfos inexcedíveis. Apesar de todos os percalços no Índico, regressou a Portugal abarrotado de mercadorias e com a garantia de acordos comerciais novos e significativos. Tornou-se o primeiro navegador a tocar os quatro continentes numa só viagem marítima.

E mais do que tudo: alcançou a terra nova, para achá-la por primeira vez ou simplesmente confirmar sua existência, e nela plantou o marco da fundação e do descobrimento, dando-lhe até mesmo o nome de batismo. E ainda que tão cedo não lhe fosse reconhecido o mérito dessa grandeza, plantou as sementes daquela que se viria a tornar num dos mais encantadores e promissores países que a humanidade tem conhecido. Não poderia haver êxito maior.

É o mesmo que se pergunta sobre esta revista on line, quando se publica a sua última edição: terá alcançado seus objetivos? Ou, mesmo ao falhar, terá conseguido ultrapassar algumas metas sonhadas e assegurar-se um êxito estrondoso?

A resposta afirmativa à segunda questão enche-nos de orgulho. Este site na Internet foi criado como apoio e sustentação de um amplo projeto, ao longo do qual sonhávamos poder reunir, por esforço geral e contribuição espontânea, algumas informações novas e inéditas sobre Pedro Álvares Cabral.

Entretanto, o alto nível de leitura e a farta correspondência que temos recebido demonstram que esta revista funcionou - plenamente e muito além do imaginado - como um instrumento de divulgação de conhecimentos mal divulgados e sobretudo como catalisador de interesses novos por um assunto que, além das festas dos 500 anos de Brasil, merecerá sempre ser objeto de investigação, discussão e cultivo. Não temos, por isso, nenhum problema em afirmar que alcançamos pleno êxito. A Revista Online Cabral, Viajante do Rei chega a sua última edição, mas permanecerá no ar, durante todo o ano de comemoração dos 500 anos do Brasil.

Assim, o leitor poderá ter acesso a todas as edições e coletar um grande material de pesquisa reunido nestes últimos dois anos. Temos a certeza de que, na esteira da sua rota, gente nova terá descoberto os encantos da investigação histórica e a ela se dedicará, em diferentes níveis. E o Brasil, imenso país de maravilhas e de problemas, poderá ser assim permanentemente estudado e discutido, em seriedade, de forma a que cresça e se desenvolva sempre, amparado tanto pela paixão quanto pelo embasamento científico de tudo aquilo que sobre ele se pense, se diga e se descubra.

A Viagem

Depois do momento de fascínio que constitui o descobrimento do Brasil entre 22 de abril e 2 de maio de 1500; dos contatos realizados com a África Oriental entre julho e início de agosto de 1500 e das relações estabelecidas com diferentes resultados nas cidades de Calecut, Cochim e Cananor, Pedro Álvares Cabral inicia sua volta em 16 de janeiro de 1501.

Os seis navios carregados de especiarias chegaram à costa africana perto de Melinde na noite de 12 de fevereiro de 1501, tendo então naufragado a nau El-rei, de Sancho de Tovar. Os cinco navios restantes fizeram de seguida uma escala na ilha de Moçambique, de onde Cabral enviou a Sofala a caravela São Pedro, sob o comando de Sancho de Tovar.

Os quatro navios restantes retomaram a sua viagem sofrendo os efeitos de uma tempestade próxima do cabo das Correntes (Moçambique), que fez com que um dos navios se afastasse dos outros três.

No dia 4 de abril de 1501, os três navios que iam com Pedro Álvares Cabral passaram o cabo da Boa Esperança e foram ancorar na baia do Beseguiche, junto do cabo Verde (no Senegal), onde foram reparados e reabastecidos. Foi aí que se depararam com três navios portugueses, dos quais o capitão-mor seria Gonçalo Coelho, os quais fizeram também ali uma escala antes de partirem para a realização do reconhecimento da costa do Brasil. Esse encontro foi assinalado pelo autor anônimo da relação da viagem e na carta de Américo Vespúcio datada de 4 de junho de 1501. Nesta é expressamente mencionado o encontro com dois dos navios da frota de Pedro Álvares Cabral, um dos quais era o do capitão-mor, que encontrou com Gaspar da Gama que lhe forneceu informações sobre o Oriente. Um terceiro navio que havia ido com Cabral já então teria partido para Lisboa.

Os navios da frota de Pedro Álvares Cabral que sobreviveram à longa viagem até a Índia foram chegando a Lisboa em datas diferentes e até hoje imprecisas.

O primeiro a aportar no rio Tejo foi o Nossa Senhora da Anunciada, na noite do dia 23 de junho de 1501.

Pedro Álvares Cabral chegou num dos últimos dias de julho, pouco antes do navio que se havia afastado da armada no cabo das Correntes e da caravela que havia ido a Sofala. Posteriormente chegou a nau comandada por Diogo Dias, que havia se perdido do resto da frota em 24 de maio de 1500 e percorrido toda a costa da África Oriental até à entrada do mar Vermelho.

A perda de seis dos treze navios que haviam partido de Lisboa foi muita pesada, mas ainda assim o carregamento de especiarias e outros produtos valiosos trazidos por aqueles que haviam sobrevivido foi tão valiosa que não apenas compensou as perdas sofridas mas permitiu ainda obter lucro.

A partir da viagem de Pedro Álvares Cabral, quer os muçulmanos, quer os venezianos, compreenderam que os portugueses não iriam desistir de um processo político e econômico que lhes iria garantir um lugar proeminente na economia mundial.

Casa de Cabral

Pedro Álvares Cabral
Casa de Cabral

Santarém surge como o lugar onde os sonhos de Pedro Álvares Cabral ficam em suspenso a meio caminho entre a Belmonte da infância e a Lisboa da realização política e pessoal plena. Depois da viagem ao Brasil e à Índia, Cabral fixa-se em Santarém à espera de um sinal do rei para uma nova tarefa ao serviço da coroa.

Aos poucos aprende a caminhar e a passear a cavalo na Ribeira de Santarém, a ir à missa na Igreja da Graça ou a conversar com os aldeões. Lentamente deixava de ser um visitante.

Santarém era a segunda cidade do reino, Cabral já a conhecia bem e ia ficando, entrando e saindo pela Porta dos Becos, Porta de Santiago ou caminhando diante do convento de Santa Clara, indo a Marvila, ou até ao Jardim de Cima. Ele se encanta com a cidade que possuía tanta tradição, embora para muita gente ainda estivesse marcada com o luto real pelo episódio da perda do jovem Príncipe Afonso. A decisão de ali ficar, à espera de um chamado de Lisboa, ao mesmo tempo em que procurava construir outra parcela importante em sua vida, faz de Pedro Álvares Cabral um homem sensível e maduro para qualquer mudança.

A casa onde Cabral morou a partir de 1503, até o ano de sua morte, 1520, foi inaugurada pelos presidentes do Brasil e de Portugal - Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio - , no dia 09 de março de 2000, após um grande processo de restauração.

A Casa do Brasil/ Casa de Cabral, uma iniciativa da Fundação Banco do Brasil e da Odebrecht, responsáveis pelo Projeto Memória, junto com a Câmara Municipal de Santarém, é agora um amplo centro cultural que possui um auditório, biblioteca, sala de estudos e documentação.

Depois da cerimônia de abertura oficial da Casa do Brasil/Casa de Cabral, Sampaio e Fernando Henrique foram em direção à Igreja da Graça, onde os esperavam cerca de 130 figurantes caracterizados, dirigidos por quatro encenadores brasileiros de São Vicente, SP, que encenaram a chegada dos portugueses ao Brasil.

No interior da Igreja da Graça, onde se encontram os restos mortais de Cabral, os presidentes inauguraram a exposição "Cabral, o Viajante do Rei - As Origens do Brasil", simultaneamente foram inauguradas 30 exposições iguais, em todas as capitais brasileiras, exatamente às 12:00h, hora local, e às 09:00h, hora de Brasília. Transmitida ao vivo para o Brasil e Portugal, a exposição uniu os dois países em torno do início das comemorações pelos 500 anos do descobrimento do Brasil.

Novo Mundo

A fundação da feitoria permitiu o início do sistema regular de trocas entre ameríndios e portugueses, denominado escambo. Os indígenas abatiam as árvores, desbastavam-nas, descascavam-nas e transportavam as toras até a feitoria.

Em troca de pau-brasil e de papagaios, recebiam instrumentos metálicos (machados, facas, tesouras) e outros objetos (pentes, espelhos, manilhas etc). Não tardou a aparecer a concorrência normanda, iniciada após a viagem de Paulmier de Gonneville (1503-1505) que, com dois pilotos portugueses, tentou a alcançar o Oriente, mas, por erro de navegação, aterrou no sul do Brasil. Dali foi para o nordeste, onde carregou pau-brasil, retornando à França. A partir de então, a costa brasileira foi alvo dos interesses comerciais de armadores normandos e bretões.

O Livro da Nau Bretoa, documento referente ao navio que esteve fundeado ao largo da feitoria do Cabo Frio entre o início de junho e o final de julho de 1511, constitui excelente fonte para a compreensão das peculiaridades do escambo, especialmente do ritmo de carregamento de pau-brasil (5.008 toras) e de escravos (em número de 35), bem como de papagaios, sagüis (pequenos macacos) e gatos maracajás.

A intensificação da presença francesa no Brasil e a chegada dos espanhóis ao rio da Prata levaram D. Mauel a tomar, em 1516, diversas medidas, entre elas a de transferir a feitoria para Igaraçu ("canoa grande"), na costa pernambucana, e criar a armada de guarda-costas, cujo comando confiou a Cristóvão Jacques, com a finalidade de patrulhar o litoral. No mesmo ano, foi atacada a feitoria do Cabo Frio por caravela da flotilha Castelhana de João de Solis, que regressava do Prata.

Era uma Vez...

O REGRESSO À CASA

No regresso, os homens da armada de Cabral tiveram uma agradável surpresa: encontraram a caravela comandada por Diogo Dias, que todos julgavam afundada no Cabo da Boa Esperança. Afinal estava intacta, havia treze sobreviventes de mil aventuras no Índico e tinham descoberto outra terra que ainda não figurava nos mapas, uma ilha batizada com o nome de São Lourenço e que mais tarde se chamou Madagascar.

Felizes por se reencontrarem, zarparam para Lisboa mas o vento, teimoso como sempre, dispersou os navios, impedindo que chegassem juntos conforme desejavam.

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral entrou na barra do rio Tejo a 23 de julho de 1501. Tinha passado um ano e quatro meses em viagem, resistira a pavorosas tempestades, a investidas traiçoeiras, a doenças tropicais, a batalhas navais. Trazia os porões carregados de especiarias, sedas e outras preciosidades do Oriente.

Trazia também informações animadoras sobre o futuro dos portugueses no Índico e os nomes de novos e poderosos aliados. Podia assim apresentar-se diante do rei D. Manuel I com a serenidade de quem cumpriu a sua missão. No entanto, ao passar a vista pelas margens verdejantes de onde lhe acenavam homens e mulheres ansiosos por notícias dos familiares embarcados, uma sombra de tristeza deve ter pesado sobre seu coração. Tantos companheiros desaparecidos... E tal como muitos outros antes dele e muitos outros depois dele, certamente se interrogou: "Valeu a pena?"

Provavelmente não encontrou logo as palavras certas para uma boa resposta. Em todo caso, certamente pensou que descobrir, conhecer, comunicar, tem o seu preço.

E depois, por entre as muitas imagens que lhe cruzaram o espírito, fixou-se numa só: a imagem do mundo novo descoberto a ocidente, suave paragem a caminho da Índia, lugar semelhante às mais belas descrições do paraíso terrestre.

Se não fosse por mais nada, pela terra de Vera Cruz já teria valido a pena!

Depois de cumprir a missão que o rei lhe confiara, Pedro Álvares Cabral não quis voltar a embarcar. Refletindo um pouco, logo se conclui que procedeu bem pois um êxito estrondoso dificilmente se repete. Ora, Cabral foi o primeiro navegador da História da Humanidade a ligar quatro continentes numa única viagem.

Enfrentou os ânimos mais suaves e mais agressivos dos dois oceanos conhecidos na época. Fortaleceu laços de amizade e fez pactos de comércio com reis e rainhas do Oriente. E descobriu o Brasil. Tudo somado, chega e sobra para encher uma vida.

Este bem sucedido viajante do rei casou com Dona Isabel de Castro, senhora ilustre que descendia da família real portuguesa e da família real castelhana. O casal teve seis filhos, dois rapazes e quatro meninas, batizados com os nomes de Fernando, Antônio, Constança, Guiomar, Isabel e Leonor.

Instalado em Santarém, Pedro Álvares Cabral foi sempre recebendo notícias da linda terra que descobrira, afinal bem maior e mais rica do que se pensava. E recompensas do rei D. Manuel I, à medida que ele compreendia a verdadeira importância daquela descoberta.

O navegador repousa ao lado da mulher numa sepultura na Igreja de Nossa Senhora da Graça, em Santarém. A sua face encontra-se esculpida em pedra na parede do mais belo monumento português, o Mosteiro dos Jerônimos. Aí se encontram também outros navegadores, mas olham em direções diferentes. Vasco da Gama e os companheiros Paulo da Gama e Nicolau Coelho estão virados para Oriente em memória da chegada à Índia. Pedro Álvares Cabral, de sorriso discreto e elegante barbicha, olha para o lado oposto, para Ocidente, para o Brasil.

Quinhentos anos após a sua viagem, continua a ser recordado com amor entre dez milhões de portugueses e cento e sessenta milhões de brasileiros.

Fonte: www.projetomemoria.art.br

Pedro Álvares Cabral

Os dizeres gravados na lápide de Pedro Álvares Cabral não permite, suspeitar que naquele túmulo repousa um homem de muitas glórias, muito pelo contrário.

A inscrição é totalmente dedicada a sua mulher, Dona Isabel de Castro, camareira-mor da infanta Dona Maria. Sobre a descoberta do Brasil, proeza que garantiria ao navegador português um lugar na História, não há uma só palavra.

Pedro Álvares Cabral
Pedro Álvares Cabral
Navegador português (1467?-1520?).
Comandante da frota que descobre o Brasil

A lápide representou o ponto culminante do obscurecimento a que Cabral foi submetido em vida. E, o principal responsável por este acontecimento foi ele mesmo.

Orgulhosos, irascível e brigão, o descobridor do Brasil desentendeu-se com todo mundo que importava na Lisboa do seu tempo e abanou banido da corte. Foi um fim melancólico para alguém que, por seus próprios meios, tornara-se um dos homens mais poderosos do reino.

Cabral nasceu por volta de 1468, batizado como Pedro Álvares de Gouveia. Só foi receber o sobrenome paterno perto dos 35 anos, quando o irmão mais velho morreu. Na época, apenas o primogênito tinha esse privilégio e Pedro era o segundo filho.

Ele herdou da família, porém, uma tradição de heroísmo na expansão lusitana: seus antepassados haviam lutado em Aljubarrota, Ceuta, Tânger e Alcácer. Cabral iria muito mais longe. Mas seria também a tampa sobre o esquife do clã.

Criado na corte de Afonso V, ele era um homem culto e habilidoso no manejo das armas. Com 17 anos, teria lutado no Marrocos, onde contraiu malária. As febres crônicas são apontadas como a causa das suas famosas crises de mau humor.

Foi esse jovem de 33 anos e 1m90cm que o rei Dom Manuel decidiu colocar em 1500 no comando da maior armada já construída em Portugal: 13 embarcações tripuladas com 1,5 mil homens. O objetivo era seguir o caminho para as Índias, recém-descoberto por Vasco da Gama e voltar com os navios abarrotados de especiarias. O triunfal regresso deste navegador, motivou a coroa portuguesa a organizar uma grande expedição, para assentar-se permanentemente nas Índias.

Dada a importância que se revestia este empreendimento, ricos mercadores florentinos contribuíram com seus capitais e financiamento do mesmo, enquanto o próprio Vasco da Gama proporcionou as instruções sobre o curso a seguir durante a viagem. Também coube ao almirante Cabral difundir o cristianismo entre os povos do oriente. Para tal feito, embarcaram um grupo de frades da Ordem Franciscana. Finalmente, em 9 de março de 1500, a frota zarpou de Lisboa em direção ao Arquipélago de Cabo Verde.

Ao abandonar as ilhas de Cabo Verde, a expedição de Álvares Cabral afastou-se mais do que o usual, supunha-se hoje, que de modo intencional, o navegador acabou avistando o litoral brasileiro em 22 de abril de 1500. Uns dias depois, as caravelas singravam os mares da atual baía de Porto Seguro e a tripulação desembarcou para contemplar de perto as incomparáveis belezas da terra recém-descoberta.

Neste descortinar do Novo Mundo, viveram dias idílicos: participaram de rituais, danças, brincadeiras e troca de presentes com os indígenas.

Acreditando Cabral, tratar-se de uma grande ilha, batizou-a de "Ilha de Santa Cruz" e tomou posse erigindo uma cruz e celebrando uma missa a cargo do franciscano Pe. Henrique, posteriormente, nomeado o bispo de Ceuta. Dias depois, precisamente em 1 de maio, a frota levantou âncoras e pôs-se novamente ao mar, para continuar sua rota até as Índias. Em setembro, bombardeavam Calicute, grande empório de mercadorias do Oriente. No ano seguinte, com apenas seis embarcações, era recebido com festa em Lisboa.

ROTA DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

Pedro Álvares Cabral
Rota de Pedro Álvares Cabral

O prestígio de Cabral estava em alta. Na sua ausência, uma nova armada vinha sendo preparada e o teria como almirante novamente. O responsável por organizá-la, porém era o seu adversário Vasco da Gama e ele acabou colocando o tio, Vicente Sodré, no comando de cinco dos 14 navios.

O descobridor do Brasil entendeu a divisão de chefia como um rebaixamento e não a aceitou. A rebeldia irritou o rei e Cabral caiu em desgraça. Desiludido, exilou-se em Santarém. Tentou reaproximações com a corte, mas Dom Manuel jamais o perdoou.

O homem que descobriu o Brasil morre em 1520, esquecido e triste, sem jamais voltar ao mar, que tanto amava.

A MARAVILHA DA ENGENHARIA NÁUTICA.....

É sem dúvida, a caravela a maravilha da engenharia náutica portuguesa, foi uma espécie de nave revolucionária de oceanos que permitiu aos portugueses, desbravar o vastíssimo cosmo de água salgada do planeta.

Barco ágil, com uns 30 metros de cumprimento, pouca gente a bordo (de 25 a 30 marinheiros), uma proa afiada, casco de pinho ou de carvalho protegido com breu e alcatrão, um leme seguro e velas latinas, fazia com que ela pudesse navegar com qualquer vento, até mesmo no contra-vento, tirando lucro até em brisas suaves um pouco superior a calmaria. Com ela, bem antes de Vasco da Gama, Nuno Tristão margeava a costa africana, passando do Cabo Bojador até o Senegal; Diogo Cão, por sua vez chegara à Angola, onde tivera um encontro com o rei do Congo e Bartolomeu Dias, o "capitão do fim", encontrara o Cabo da Boa Esperança e as águas quentes e cheias de promessas do Índico.

Nosso ilustre Fernando Pessoa, em um poema que publicou, intitulado "Mensagem", faz uma "viagem", imaginando a Europa como uma ninfa "posta nos cotovelos", o primeiro deles e posicionado à esquerda, situa-se a Itália, o outro, à direita, seria a Inglaterra, ambos apoiam a face, "o rosto com que fita é Portugal". Sendo assim, pode-se supor que seus lábios se localizavam exatamente na embocadura do Tejo. Pois é exatamente neste local que iniciou-se o maior feito naval, as 13 naus de Pedro Álvares Cabral, que foram finalizadas sob olhar esperançoso de Dom Manoel. Erigindo a bandeira da Ordem de Cristo e um barrete abençoado pelo papa, zarparam e com seus lábios úmidos e aventureiros, vieram tocar e beijar as terras do nosso Brasil.

Rosane Volpatto

Bibliografia consultada

A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descob. do Brasil - Jaime Cortesão.
Viagem à Terra do Brasil - Jean Léry
O Descobrimento do Brasil -T. O. Marcondes de Souza

Fonte: www.rosanevolpatto.trd.br

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral (1467?-1520?) nasce na região de Belmonte.

Muda-se aos 11 anos para Lisboa, onde estuda literatura, história, ciências, cosmografia e artes militares.

No reinado de dom Manuel passa a integrar o Conselho do Rei e é admitido na Ordem dos Cavaleiros de Cristo, distinção concedida apenas a alguns nobres.

Em 1500, aos 33 anos, é escolhido para comandar a frota mais bem equipada do século XV, com treze embarcações (três caravelas e dez naus) e 1,5 mil homens, na segunda expedição portuguesa às Índias.

Desvia-se do caminho original – de propósito, segundo a maioria dos historiadores – e acaba por descobrir o Brasil, aportando na Bahia.

Toma posse da nova terra em nome da Coroa portuguesa e envia um de seus navios de volta ao reino para levar as novas.

Então, retoma a rota de Vasco da Gama em direção às Índias.

Ao cruzar o cabo da Boa Esperança, quatro de seus navios se perdem.

Bartolomeu Dias, navegador português que descobrira o cabo em 1488, é um dos que perecem no acidente.

Cabral chega a seu destino em setembro de 1500 e assina o primeiro acordo comercial entre Portugal e Índia.

Ao voltar para Lisboa, em 1501, é aclamado como herói, mas a glória dura pouco: desentende-se com o rei sobre o comando da expedição às Índias programada para 1502 e é substituído por Vasco da Gama.

Não recebe nenhuma outra missão oficial até o fim da vida.

Está enterrado na cidade de Santarém.

Referências bibliográficas

Almanaque Abril. Quem é quem na história do Brasil.São Paulo, Abril Multimídia, 2000.

Fonte: www.meusestudos.com

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral
Pedro Álvares Cabral

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1467: Nasce, talvez em Belmonte. Filho segundo do fidalgo Fernão Cabral. Datas incertas: Por serviços vários de natureza militar é agraciado com tença por D. João II. Casa com D. Isabel de Castro, sobrinha de Afonso de Albuquerque.
1500:
Segunda expedição portuguesa à Índia: armada de 13 navios, com 1500 homens. D. Manuel I entrega o comando a Pedro Álvares Cabral. Este larga de Lisboa a 9 de Março. Descobre as Terras de Vera Cruz (Brasil) em 22 de Abril. Naufrágios de quatro naus mas chega a Calecute a 13 de Setembro. Não consegue a submissão do Samorim
1501:
Regressa ao Reino apenas com 5 navios, embora transportando avultada carga de especiarias.
1502:
Recusa comandar outra expedição à Índia.
1509:
Afastado do Paço, vive nas suas propriedades de Santarém.
1515:
Finalmente é-lhe atribuída tença como prémio pela sua descoberta do Brasil que começa a ser colonizado.
1518:
Nova tença, pelo mesmo motivo.
1520 (?):
Morre em Santarém.

SEGUNDA EXPEDIÇÃO À ÍNDIA

Pedro Álvares Cabral
"Desembarque no Porto Seguro", óleo do pintor brasileiro Óscar Pereira da Silva

Guerreiro. Nobre, porém filho segundo. Honrarias? Só as alcançadas por valor e esforço próprios, que não por nascimento. D. João II já lhe dera tença por bons serviços militares prestados à Coroa. Agora D. Manuel I confia-lhe o comando da segunda expedição à Índia, 13 naves, 1500 homens. Terá que submeter o Samorim de Calecute, o qual tanto afrontara Vasco da Gama. Terá que lançar a primeira pedra do império lusitano do Oriente.

Bem sabe que o mundo é guerra e perfídia. Mas coisas que o ódio nega, o temor as concede. Também sabe que há sinas e maldições a perseguir os fortes. Pedro Álvares Cabral tudo enfrenta, é homem de um só desígnio, antes quebrar que torcer.

Honras e pompas em Sta. Maria de Belém e a 9 de Março de 1500 fazem-se ao largo. Antes, El-rei D. Manuel falara-lhe de terra que, frente à África, existirá a ocidente do Mar Oceano. Que a descobrisse, se pudesse. Talvez por ela D. João II tenha insistido em transferir o meridiano divisor do Tratado de Tordesilhas de 100 para 370 léguas a oeste de Cabo Verde.

Na armada, entre outros seguem Pero Vaz de Caminha, cronista d'El-rei. E ainda Bartolomeu Dias, o primeiro a dobrar o Cabo da Boa Esperança. Também o seu irmão Diogo Dias e Nicolau Coelho, que foi um dos comandantes da expedição de Vasco da Gama.

Primeira maldição: nas águas de Cabo Verde desaparece uma das naus. Ninguém saberá dela, nunca mais. Das 13 ficam 12.

Frente à Guiné tomam barlavento. Américo Vespúcio não entende a manobra, resmunga que os portugueses nada sabem de navegação... Deixá-lo resmungar, o italiano é bom marinheiro, tem direito a um resmungo... Tocadas por sueste, as naus são empurradas para ocidente. Girará depois o vento para sudoeste e tornará a armada à costa d'África, porém em latitudes bem mais ao sul. Abaixo do Equador descreverá assim um amplo arco de círculo no Mar Oceano.

Mas grandes surpresas esperam Cabral, homem que, em nome d'El-rei de Portugal, navega disposto a enfrentar tudo e todos.

VERA CRUZ

21 de Abril, 3ª feira. A Páscoa foi no domingo passado. Nas ondas surgem ervas compridas. Próxima já ficará a terra aventada por El-rei.

22 de Abril. De manhã surgem bandos de pássaros a voar para ocidente. Vasco da Gama também dera conta deles. A meio da tarde, muito ao longe, avistam terra: um monte redondo e alto, muito arvoredo na terra chã. Ao monte, o Capitão-mor chama Pascoal e à terra dá o nome de Vera Cruz. Anoitece e resolve ancorar a seis léguas da costa.

23 de Abril. Avançam até meia légua da terra, direitos à boca de um rio. Sete ou oito homens pela praia. Cabral manda Nicolau Coelho a terra. Quando vara o seu batel, já correm para ele cerca de vinte homens pardos. Todos nus, sem nada que cubra as suas vergonhas. Setas armadas, cordas tensas, chegam dispostos ao combate. Mas Nicolau Coelho, por gestos, faz sinal que pousem os arcos em terra e eles os pousam.

E o Capitão-mor pergunta-se: que gente é esta que, até por gestos, aceita a mansidão? Ingenuidade ou malícia? Ingenuidade será excessiva. Será malícia, certamente. É preciso ficar em guarda.

O quebra-mar é forte. Mal se podem entender marinheiros e nativos. Mas Nicolau dá-lhes ainda um barrete vermelho e um sombreiro preto e, por troca, recebe um colar de conchinhas e um sombreiro de penas de ave, com plumas vermelhas, talvez de papagaio. E com isto se torna à nau, porque é tarde e a maré está a puxar muito.

Ao anoitecer começa a ventar de sueste com muitos chuviscos e Cabral resolve mandar levantar ferro e rumar para norte, em busca de enseada onde se possam abrigar e então repara que na praia já correm e gesticulam cerca de sessenta a setenta homens. O que estarão eles a conspirar?

24 de Abril. Acham uma angra e antes do sol-posto lançam ferro e àquele lugar o Capitão-mor dá o nome de Porto Seguro. Depois faz muitas recomendações a Afonso Lopes, que nunca baixe a guarda, que não se deixe apanhar desprevenido e manda-o a terra num esquife. E o piloto, que é homem destro, com muita amizade e gentileza consegue recolher dois daqueles mancebos que em terra corriam e, com muito prazer e festa, a bordo são recolhidos.

Espantado continua o Capitão-mor. O mundo é guerra e perfídia. Como podem ser tão confiantes aqueles nativos? Alguma traição andam eles a tramar, a astúcia como escudo, a crueza como lança...

A feição deles é serem pardos, à maneira de avermelhados, de bons rostos e narizes bem feitos. Andam nus sem nenhuma cobertura e estão acerca disso em tanta inocência como estão em mostrar o rosto. Trazem ambos os beiços furados e metidos por eles uns ossos brancos da grossura de um fuso de algodão. Os cabelos são corredios e andam tosquiados de tosquia alta. E um traz, de fonte a fonte, por detrás, uma cabeleira de penas de aves, que lhe cobre o toutiço e as orelhas. Sobem à nau e não fazem menção de cortesia nem sequer ao Capitão-mor. Mas um deles põe olho no colar de ouro que do pescoço traz pendurado ao peito e começa a acenar com a mão para terra e depois para o colar, como que a dizer que há ouro naquela terra. Mas isso o tomam os portugueses por assim o desejarem, mas se o nativo quer dizer que deseja levar o colar para terra, isso não o querem eles entender... Cabral mostra um papagaio que trouxe de África. Os nativos logo o tomam e apontam para a costa, como que a dizer que aquela será terra de papagaios. Os navegantes mostram depois um carneiro. Os nativos não fazem dele menção. Mostram-lhes uma galinha, ficam receosos e temem meter-lhe mão. A seguir, dão-lhes de comer pão, peixe cozido, mel, figos passados e vinho por uma taça. Não querem comer ou beber daquilo quase nada e alguma coisa, se a provam, logo a lançam fora. Dão-lhes água por uma botelha. Tomam dela o seu bocado, mas somente lavam as bocas e logo lançam fora. No convés, estiram-se então de costas, sem terem nenhuma maneira de cobrir suas vergonhas, as quais não são fanadas. O Capitão-mor manda deitar-lhes um manto por cima e eles consentem e descansam e adormecem.

Será possível que possa haver mundo diverso daquele que o Capitão-mor viveu e sabe? Sem guerras, nem perfídia, nem traições? Será possível a fraternidade entre os homens e a comunhão dos seus interesses? Existe ainda na Terra o Paraíso que Adão e Eva perderam por malícia da Serpente?

O PARAÍSO

Ao sábado pela manhã o Capitão-mor manda Nicolau Coelho, Pero Vaz de Caminha e Bartolomeu Dias levar a terra os dois mancebos. E muitos homens os cercam e falam e gritam mas tudo sempre em jeito de amizade. Também algumas moças muito moças e gentis, com cabelos muito pretos e compridos a tombar pelas espáduas e suas vergonhas tão altas e cerradinhas que delas vergonha não pode haver.

No domingo de Pascoela determina o Capitão-mor que Frei Henrique cante missa num ilhéu que há na entrada daquele porto, a qual é ouvida com devoção, Cabral empunhando a bandeira de Cristo que trouxera de Belém. E durante a missa muitos nativos se aproximam em suas canoas feitas de troncos escavados.

Alguns juntam-se aos navegantes tocando trombetas e buzinas. Os restantes saltam e dançam o seu bocado.

Metem-se depois os navegantes terra adentro e junto a uma ribeira que é de muita água, encontram palmas não muito altas. Colhem e comem bons palmitos.

Então Diogo Dias, que é homem gracioso e de prazer, leva consigo um gaiteiro e mete-se a dançar com todo aquele povo, homens e mulheres, tomando-os pelas mãos, com o que eles folgam e riem muito ao som da gaita.

Não há vestígio nem de guerra, nem de traição, nem de perfídia, nem sequer de receio. Já vacila o Capitão-mor na sua desconfiança.

Na 6ª. feira opina irem à cruz que chantaram encostada a uma árvore junto ao rio. Manda que todos se ajoelhem e beijem a cruz. Assim o fazem e, para uns doze nativos que mirando estão, acenam que assim façam. Eles ajoelham-se e assim o fazem.

Ao Capitão-mor já lhe parece aquela gente de tal inocência que, se fosse possível entendê-los e fazer-se entender, logo seriam cristãos. Não têm crença alguma, ao que parece. Os degredados que hão-de ali ficar, hão-de aprender a sua fala e não duvida o Capitão-mor que bem conversados logo sejam cristãos, porque esta gente é boa e muito simples. E Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, ao trazer cristãos àquela terra, Cabral crê que não foi sem causa.

Ainda nesta mesma 6ª. feira, dia primeiro de Maio, indo os navegantes pelo rio abaixo, os sacerdotes à frente, cantando em jeito de procissão, setenta ou oitenta daqueles nativos metem-se a ajudá-los a transportar e a chantar a cruz junto à embocadura. E quando, já na praia, Frei Henrique canta a missa, todos eles se ajoelham como os portugueses. E quando vem a pregação do Evangelho, levantam-se os portugueses e com eles levantam-se os nativos. E os cristãos erguem as mãos e os nativos erguem as suas. E quando Frei Henrique levanta a Deus, outra vez se ajoelham os navegantes e com eles os nativos. Já acha o Capitão-mor que a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior.

Esta terra será imensa, dela não se vê o fim. De ponta a ponta é toda praia chã, muito formosa. E os arvoredos, com muitas aves coloridas, correm para dentro a perder de vista. Alguns dos paus são de madeira avermelhada, cor de brasa. Os ares são muito bons e temperados. As fontes são infindas. Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Mas o melhor fruto, a principal semente, pensa Cabral, será a de salvar o seu povo que tão gentilmente ali vive em estado natural.

Manda Pero Vaz de Caminha escrever novas do achamento. Depois manda Gaspar de Lemos levar a carta a El-rei e ele parte, com a sua nau, rumo a Lisboa. Das 13 agora restam 11. Abalam de Vera Cruz a 2 de Maio. Em terra ficam dois degredados para aprender a fala do povo. Mais dois grumetes que, por vontade própria, faltaram ao embarque. Os rapazes são cativos das nativas, seus cabelos muito pretos e compridos a tombar pelas espáduas, suas vergonhas tão altas e cerradinhas que delas vergonha não pode haver...

Abalando do Paraíso, corroído de inocência, lá vai o Capitão-mor. Será maleita perigosa a diluir-lhe o ímpeto guerreiro, pois tem agora que enfrentar as guerras e perfídias do Inferno.

O INFERNO

Cabral, no Mar Índico, é bem recebido em Melinde. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Para castigar o Samorim, Cabral bombardeia Calecute. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Tocados por sudoeste, perto do Cabo da Boa Esperança súbita tempestade afunda quatro naus. Entre elas, a de Bartolomeu Dias, o descobridor do Cabo deveras Tormentoso. É a segunda maldição. Chegando estão eles à porta do Inferno. Das 13 sobram 7.

Porto de Sofala, 16 de Julho. Agora, das 13 sobram apenas 6. Falta mais uma. Falta a nave de Diogo Dias, o irmão de Bartolomeu. Terceira maldição.

As naus desconjuntadas, os companheiros mortos, o desalento. O Capitão-mor trata de animar a todos. Ninguém arreia, ninguém desiste, ninguém recua, ninguém arreda pé, antes quebrar que torcer, há missão para cumprir. Consertam as naus e outra vez fazem-se ao mar.

Sobem a costa oriental da África. Avistam dois navios. Um foge e vara em terra. Outro é abordado e tomado. Fica então Cabral a saber que Foteima, o comandante, é tio do rei de Melinde. Por isso devolve-lhe a nave e presta-lhe honras, o que muito espanta o mouro. Serão depois bem recebidos em Moçambique. Talvez por temor das gentes, talvez por influência de Foteima que até ali os acompanha. Fazem aguada, reparam as naus, outra vez partem.

Recomendara El-rei D. Manuel que estabelecessem feitoria em Quiloa, reino que tem parte activa no comércio do ouro de Sofala. Mas o rei negoceia entendimentos. Quisera o Capitão-mor dar-lhe batalha, mas poucos já são eles para enfrentar os muitos homens do Samorim de Calecute. Largam sem nada assentar.

Outra vez são os portugueses bem recebidos em Melinde. O rei cede-lhes dois pilotos que os levam à Índia. Fazem-se ao mar a 7 de Agosto.

Para abastecimento, a 23 de Agosto escalam a ilha de Angediva. A população recebe-os com amizade. Mas preocupado já anda o Capitão-mor com o que virá depois.

A 13 de Setembro chegam por fim a Calecute. Negociações difíceis, desconfianças. Encontra-se Cabral com o Samorim num estrado de madeira lavrada, levantado à beira-mar. Mas antes recolhe a bordo, como reféns, seis notáveis do reino. Nenhuma conclusão se alcança e os reféns, assustados, atiram-se ao mar.

Três conseguem fugir mas os outros são recapturados. São eles a garantia dos homens e fazenda que os portugueses em terra têm. E assim se vai convertendo a paz em guerra. Cabral reúne concelho com os seus capitães. Opinam colocar a armada em posição de fogo. E o Capitão-mor, enquanto ameaça mouros e Samorim, saudades sente da inocência daquele povo de Vera Cruz... Faz progressos a maleita, corroído anda ele.

Dobra-se o Samorim. É ele quem manda recado para novo encontro. E encontram-se. E ele cede aos portugueses umas casas à beira-mar onde instalarão a feitoria. Aires Correia ocupa-as como feitor de El-rei D.Manuel I. Com ele Frei Henrique que tentará evangelizar aqueles infiéis. Cerca de 60 homens, no total.

Singrará o comércio português em Calecute? Oxalá, mas tem dúvidas, o Capitão-mor. Verifica que aparece muita gente para ver a fazenda, mas ninguém para trocar, ou comprar, ou vender. Malhas dos mouros que dominam o comércio da cidade...

Junto do Samorim há feiticeiros a encantar serpentes com umas flautas, mas será ele o próprio encantador da Serpente, traições e logros. Aires Correia é um dos enganados e com ele o Capitão-mor. Um e outro andam pasmados de inocência, maleita de Vera Cruz. Que vinha aí uma nau carregada com um elefante e especiarias de Ceilão. Pertença de mercadores de Meca mas rivais do Samorim. Que os portugueses a tomem e ofereçam o elefante ao Samorim. E eles a tomam. Mas especiarias não há, apenas sete elefantes e pertence a nau a mercadores não de Meca, mas de Cochim, cujo rei é amigo dos portugueses e ao qual terão que indemnizar e pedir desculpas muitas.

E logo voltam a cair noutra armadilha, inocência por demais deslocada às portas do Inferno... Tardam as naus portuguesas a serem carregadas com especiarias.

É-lhes dito que o mesmo acontece com as naus de Meca fundeadas no porto. Mas suspeitam que uma delas, ancorada perto deles, é abastecida, às escondidas, durante a noite. Reclamam junto do Samorim. E ele diz que tomem então a carga dessa nau. E eles a tomam, abordagem. Mas afinal, a bordo, só há carga de mantimentos. É quanto basta para o povo de Calecute se levantar contra os portugueses, os mouros à cabeça da multidão. Chacinados são marinheiros pelas ruas, também a guarnição da feitoria. Entre os quarenta assassinados estão Aires Correia e Pero Vaz de Caminha. Frei Henrique, muito ferido, consegue alcançar uma das naus. Será o Samorim a própria Serpente encantadora mas desta vez desfaz-se o encanto e os portugueses afundam quinze naves de Meca surtas no porto e durante dois dias não param de bombardear a cidade. E o Capitão-mor, enquanto vai ordenando fogo e medindo os estragos em Calecute, saudades sente da inocência daquele povo de Vera Cruz...

AMIGOS POR INTERESSE

Levantam ferro, abandonam Calecute, rumam para Cochim. Recebe-os o rei, mas receoso, por causa do incidente da nau dos elefantes. O Capitão-mor dá-lhe as devidas explicações, recompensas e desculpas. Consegue ganhar a sua confiança. Aliás, o reizinho deseja emancipar-se de Calecute. Aliar-se aos inimigos do Samorim vai ao encontro do seu desejo. Por sua influência, e pelos mesmos motivos, os portugueses estabelecem ainda relações amigáveis com os reinos de Coulão e Cananor. Em Cochim e Craganor, em vinte dias carregam as naus com pimenta e outra drogas. Rumam depois para Cananor a completar a carga com gengibre. Levando a bordo embaixadores desses reinos que amigos se dizem de Portugal, abalam da Índia a 16 de Janeiro de 1501.

Ao sul de Melinde mais um desastre: afunda-se outra nau. E o Capitão-mor, enquanto medita em todas estas maldições; enquanto esconjura todo este Inferno, saudades sente da inocência daquele povo de Vera Cruz...

TENÇA TARDIA

Ao receber tença tardia, Cabral teme pelos índios do Brasil. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Campos de Santarém, à beira-Tejo. Dos lados da ribeira dois cavaleiros avançam sobre Pedro Álvares Cabral. Um deles é seu vassalo, reconhece-o. O outro, pelo trajar, será escudeiro d'El-rei D. Manuel I. Apeiam-se, saúdam. Cabral responde com gentileza. El-rei manda-lhe recado, que vá ao Paço. É homem esquecido há muito pela Corte. Qual o motivo de tal convite?

Assopra o escudeiro que El-rei pretenderá atribuir-lhe tença anual.

Tença? Agora, em 1515, quando os seus feitos datam de 1500? Passados quinze anos, por que se lembra hoje El-rei de si?

Mais vale tarde do que nunca, diz-lhe o escudeiro. Será prémio pela sua descoberta da Terra de Vera Cruz. Martim Afonso de Sousa, da capitania de S. Vicente, escreveu carta a El-rei louvando a muita riqueza que nela parece haver.

Pedro Álvares Cabral despede-os, vão-se. Prefere ficar sozinho a remoer.

A muita riqueza que nela parece haver... Cobiça, é só cobiça... E quando dessa terra houverem novas, cobiçosas hão-de ser outras nações. Mas nem a portuguesa, nem as outras, irão atentar na sua riqueza-mor, qual seja a inocência do povo que ali vive em estado natural. De inocência deslumbrado, como poderia ele desenlear-se depois das malícias do Samorim?

Perdeu 6 das 13 naves. El-rei não gostou. Mas quando, dos seus navios, muita especiaria despejou para os armazéns da Ribeira, logo El-rei olvidou o desastre de Cabral. Ganância, é só ganância...

Em 1502 El-rei organizou terceira expedição à Índia. Chegou mesmo a convidá-lo mas exigiu que outrem consigo partilhasse o comando da armada. Era ofuscar a sua estrela, foi grande afronta. Recusou, retirou-se, foi esquecido. E agora outra vez El-rei se lembra de si. E agora outra vez se lembra ele de tudo quanto passou, a viagem ao Paraíso, a viagem ao Inferno.

Tença real? Seja então! Mas já teme que Martim Afonso de Sousa, ou outros por ele, tentem levar ao cativeiro o povo de cuja inocência é ele cativo.

REQUIEM

Em 1518 Pedro Álvares Cabral recebe segunda tença pela sua descoberta da Terra de Vera Cruz que muito proveito está dando à Coroa. Morrerá talvez em 1520. Será sepultado em Santarém, dentro da Igreja da Graça. Campa rasa.

Fernando Correia da Silva

Referências Bibliográficas

(1) Vd. vida de Vasco da Gama.
(2) Américo Vespúcio mais tarde divulgará as múltiplas aventuras que viveu no novo Continente ocidental, o qual ficará sendo conhecido por Terra de Américo ou, simplesmente, América.
(3) O autor segue de perto a carta de Pero Vaz de Caminha a El-rei D. Manuel I.
(4) Donde o futuro nome de Brasil para a Terra de Vera Cruz.
(5) Perdido o encontro com a armada, Diogo Dias fará sozinho a aventura do Oriente, descobrirá Madagascar, conseguindo regressar depois ao Portugal.

Fonte: www.vidaslusofonas.pt

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