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Anita Garibaldi

Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, onde morreu há exatos 150 anos, a humilde jovem lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Aninha do Bentão, uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se assim Anita Garibaldi, a "Heroína dos Dois Mundos"

Celso Martins

Aninha vai bem e manda um abraço a todos, 150 anos após a sua morte. Ela está apreensiva, mas de consciência tranqüila, e não guarda rancores pelo que foi dito sobre ela ao longo de todos esses anos. Acompanhando os acontecimentos lá de cima, aguarda o momento de finalmente descansar em paz. Apesar de não ter aprendido a ler ou escrever, seguramente sabe contar, havendo contabilizado um saldo positivo a seu favor ao operar o balanço. Mas nem sempre o fiel ascendeu. Em alguns momentos ele foi lá embaixo, permanecendo algumas ocasiões sob o tapete.

Por volta de 1918 aconteceu uma. "José Boiteux, que foi um dos grandes historiadores nacionais, um dia se deu a procurar, para os lados do Rincão, a casa em que habitara. Bateu palma e, atendido por uma velha, teve aquela decepção que o povo sabe. Aquilo era um bordel e quem o atendera, uma exploradora de mulheres, lhe fez ver a Anita bem diferente da outra, que agora residia ali: a 'Anita das sete virgindades'." O fato ocorreu em Laguna e foi relembrado pelo jornal "Correio do Sul", no dia 10 de julho de 1949, pouco antes das comemorações dos cem anos da sua morte.

Quando se discutiu na Constituinte de 1934 a implantação do voto feminino no Brasil, alguém no plenário lembrou os feitos de Anita Garibaldi como heroína, usando o argumento em favor da proposta. Em aparte, o deputado de Santa Catarina, Arão Rebelo, fez umas "referências apressadas e de nenhuma consistência histórica sobre Anita Garibaldi, recusando-lhe certas condições à intangibilidade física da Heroína dos Dois Mundos, catarinense de nascimento", relata o advogado Renato Barbosa.

O "Diário da Tarde" de 29 de julho de 1939 lembrou que "um arrebatado orador, deputado à Constituinte, teve essa exclamação pesada, forte, insultuosa: 'Anita Garibaldi foi uma vagabunda'". Segundo o mesmo jornal, o parlamentar foi "imediatamente aparteado, pedindo a bancada paulista, pela voz de seu líder, que ele repetisse o que dissera. O deputado em questão desculpou-se todo, e deu todas as satisfações que lhe foram exigidas". Acusações desse tipo foram freqüentes ao longo de décadas. O radialista Evaldo Bento, descendente da heroína, recordou certa vez que "minha avó, ao ouvir o nome dela, ia logo dizendo que 'essa Anita que eles falam aí é a Aninha, aquela vagabunda'".

Aninha deve suspirar fundo e dar de ombros ao repassar tudo isso mentalmente. Consola-se com o brilho dos que saíram em sua defesa, como o citado "Diário da Tarde" de 29 de julho de 1939, ao assinalar: "Queiram ou não os moralistas severos da História - foi uma heroína cuja memória não será esquecida. Se a gente vasculhar a vida particular de muitos heróis emedalhados, possivelmente encontraremos nele muita roupa suja". Wolfgang Rau, por exemplo, insurgiu-se "contra os que, há mais de cem anos", lançaram "as sementes de umas tantas restrições, irreverências e contraversões à personalidade de Anita e não dissimulam sequer sua intenção maldosa e inglória de sombrear-lhe o nome e os feitos".

Citando Dante de Mello em seu "A Verdade sobre 'Os Sertões'", Rau ataca os "falastrões banais de esquina", de "parolagem fácil e inconseqüente, fazendo estendal da própria sandice contraditória - como os brutos que pateiam no próprio estrume -, contra a papagaiação que pretende suprir o exato conhecimento dos fatos e, também, contra os hipócritas que nos contradizem, com ênfase, entre um cigarro e uma informação futebolística".

Na introdução ao precioso "Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira", de Wolfgang Rau, Oswaldo Rodrigues Cabral critica os "historiadores ufanistas", que procuram encontrar uma "justificativa para o ato de Ana de Jesus abandonar o marido e atirar-se nos braços de Garibaldi". Acha que não faz sentido pensar "que para ser uma heroína, para se ter ingresso na imortalidade, para se figurar no Panteão da História, é imprescindível atestado de boa conduta, folha corrida, carta e antecedentes ideológicos, atestado de vacina, CPF e outros documentos que nos situam no tempo e no espaço, a nós simples mortais, que figuramos do lado de cá da aurora boreal da glória".

Estes, segundo Cabral, "imaginam que o esplendor da imortalidade fica embaciado por falta do cumprimento de certas regras que marcam, na planície, o nosso comportamento de cada dia. Nada disto! É preciso que se diga que há muita santa venerada nos altares cujo pecado se não foi o de Anita, talvez tivesse sido muito pior... E que, para ser santa, não se lhe exigiu mais do que a coragem da fé, a bravura do martírio ou a penitência do arrependimento... Anita deixou o marido, abandonou-o porque se apaixonou pelo aventureiro de bela estampa, audaz, que lhe prometia (e lhe deu...) uma vida fora da obscuridade da Carniça ou do Passo da Barra. E está acabado o assunto".

Uma grande paixão arrastou Aninha de Laguna. Ela seguiu Garibaldi, a quem conheceu em 1839, vivendo um romance que durou até a sua morte, dez anos depois, em 4 de agosto de 1849, em Mandriole, Itália. Aninha começou a virar Anita quando Garibaldi a conduziu triunfalmente por meia Itália para o túmulo em Nice. Foi quando se recordou sobretudo sua bravura militar nas batalhas de Imbituba e da Barra, a fuga espetacular na serra catarinense e na pequena São Simão gaúcha, a dedicação como mãe e sobretudo o profundo amor pelo marido, fatores que a transformaram em mito. Anita foi símbolo da Unificação Italiana. Seu nome foi "glorificado" para servir aos interesses do posivitivismo após a proclamação da República no Brasil.

A lagunense continua atenta. Nas décadas de 30 e 40 o mito serviu aos interesses no fascismo na Itália, no Brasil tinha a imagem usada pelo integralismo direitista, enquanto muitos núcleos do Partido Comunista se denominavam Anita Garibaldi, nome que foi dado à primeira filha do lendário Luís Carlos Prestes. Tudo isso simultaneamente. Tanto ecletismo talvez a incomode. Mas isso não desvia a sua atenção para o alarido sobre onde deverá, afinal, descansar em paz - se na ilha de Caprera, junto a Garibaldi, em Laguna, para onde falam em levá-la, ou onde está, no Gianícolo, em Roma.

Municípios disputam cidadã ilustre

Diferentes estudos indicam que Anita Garibaldi pode ter nascido em Laguna, Tubarão ou Lages. Certeza, entretanto, ninguém tem, mas a primeira versão é a mais difundida.

Celso Martins

As polêmicas sobre o local e data de nascimento de Anita Garibaldi começaram há quase um século, alimentando o mito ao longo das décadas e mantendo o nome da heroína no noticiário. Até o final do século passado havia um consenso entre os historiadores - destacando-se Henrique Boiteux e mesmo Virgílio Várzea, em seus primeiros escritos sobre o tema - de que ela havia nascido na localidade de Mirim, hoje pertencente a Imbituba, na época sob jurisdição de Laguna.

Quando escreveu "Garibaldi na América", em 1902, Várzea pediu a ajuda de "um amigo de Tubarão, que pediu a outro amigo para ajudar, e este localizou um senhor com mais de 90 anos de idade, Anacleto Bittencourt. Este senhor Anacleto disse haver conhecido Anita ainda pequena, em Morrinhos de Tubarão, onde ela também teria nascido", explica o pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega. Essa possibilidade ganhou um reforço importante por volta de 1911, com o depoimento de Maria Fortunata da Conceição, a dona Licota, que teria vivido até os 120 anos.

A versão foi colhida por José Luís Martins Colaço, filho do coronel João Luís Collaço, "prestigioso chefe político tubaronense", segundo Walter Zumblick, sendo publicada inicialmente no jornal "Folha do Comércio" (agosto de 1911) e transcrito na revista "Poliantéa" (7 de maio de 1936), comemorativa ao centenário de Tubarão. Segundo Licota, Anita teria nascido em Morrinhos de Tubarão, nas margens do rio Seco, um braço do rio Tubarão. Esse foi "o local onde a família de Bento Ribeiro da Silva sempre residiu", diz Zumblick, após ter vindo de Lages, onde se casara e residira algum tempo.

O aparecimento de Licota estabeleceu um divisor de águas, dando origem às polêmicas que periodicamente ressurgem entre Laguna (Mirim) e Tubarão (Morrinhos). Com base em documentos sabe-se que Bento Ribeiro da Silva, pai de Anita, era tropeiro, natural de São José dos Pinhais, filho de Manoel Colaço e Ângela Maria, tendo se casado em 13 de junho de 1815, em Lages, com Maria Antônia de Jesus, nascida em 12 de junho de 1788, filha de Salvador Antunes (natural de Sorocaba) e Quitéria Maria Soiza (lagunense). Ao todo o casal teve nove filhos.

Quando o escritor Wolfgang Rau publicou os primeiros resultados das suas pesquisas, surgiram revelações que alimentaram mais polêmicas. A localização pelo pesquisador dos registros de batismo de quase todos os irmãos de Anita encorajou o pesquisador lageano Licurgo Costa a publicar uma terceira versão do local de nascimento da heroína. Além de citar depoimentos ouvidos na infância, apegou-se a um detalhe importante: a irmã mais velha de Anita foi registrada em Laguna em 1º de novembro de 1816, não havendo registros das seguintes, Manoela e Anita. Os dois irmãos posteriores, Manoel e Sissília, foram registrados em Lages (1822 e 1824) e os demais em Laguna. Ana Maria nasceu em 1821.

Socorro

Essas revelações reforçaram o que contava Francisco Correia, na casa de quem Anita pernoitou em janeiro de 1840, quando fugiu da prisão em Curitibanos e estava à procura de Garibaldi. Segundo ele, Anita afirmou na ocasião "ser filha de mãe lageana, que o pai era fazendeiro, no Tributo, e que nascera numa fazenda chamada Socorro, para as bandas da serra Geral. Diante deste testemunho, no tempo em que ainda não se discutia qual era o lugar de nascimento de Anita, parece-nos esclarecido um assunto que tem dado margem a tanta celeuma", diz Licurgo Costa. Correia narrou esses fatos à avó de Licurgo diversas vezes.

Outro depoimento citado pelo mesmo escritor é o de Ezírio Rodrigues Nunes, nascido em 1822 e falecido aos 94 anos, em 1916. Sua neta, Maria Palma de Haro, esposa de Martinho de Haro, dizia que Ezírio "muitas vezes contou que uma de suas companheiras de brinquedos e travessuras, na fazenda de Nossa Senhora do Socorro, onde ambos nasceram, foi Anita Garibaldi, que então era conhecida como Aninha do Bentão". Acrescentava que "ele, Ezírio, nascera no ano da independência do Brasil - 1822 - e que Anita era um ano mais velha que ele, tendo, pois, nascido em 1821".

Licurgo reforça sua tese revelando que Dom Joaquim Domingues de Oliveira, "alguns anos antes de falecer, se comprometera a fazer uma conferência sobre Anita. E, como tinha gosto pelos assuntos históricos, meteu mãos à obra e começou a pesquisar os arquivos de sua diocese e outras fontes. Um dia, com o trabalho já quase pronto, comentou para seu secretário que não poderia fazer a conferência: uma revelação que obtivera poderia 'causar atritos muito desagradáveis em Santa Catarina'. E cancelou a conferência". O escritor lageano, contudo, reconhece que foi em Laguna que Anita "se destacou para o mundo".

Parentes ainda moram em Imbituba

Saul Ulysséa e Ruben Ulysséa, assim como o pesquisador Salum Nacif, lagunenses, sustentam argumentos em favor da tese do nascimento de Anita em Mirim, onde também existe uma localidade chamada Morrinho. Bento Ribeiro da Silva teria procurado esse local para morar - vindo de Lages - por causa da presença de parentes seus, os Machado de Sousa. "Todos os velhos moradores em Mirim que conheci em 1876 não tinham a menor dúvida de que Anita ali nascera", destaca Saul em "Coisas Velhas", lançado em 1946.

João Fraga, morador de Laguna e sobrinho de Anita, "afirmava com energia que tanto sua mãe como sua tia Anita haviam nascido em Morrinho do Mirim", destaca Saul Ulysséa. Um "velho muito estimado em Laguna", Joaquim Maria da Silva, morador de Mirim, afirmava ter conhecido a casa onde Anita nasceu. Clemente José da Silva Pacheco, negociante em Mirim e chefe do Partido Liberal - "de muito prestígio e que dispunha ali da maioria do eleitorado" - também é citado por Saul como testemunha da sua tese. Um filho de Clemente, Júlio Pacheco, "conta que conheceu muitos velhos em Mirim que conheceram Anita muito pequena, antes de sua família se mudar para Morrinhos de Tubarão".

Ruben Ulysséa repete em 1949 os argumentos de Saul, acrescentando que Bentão viera de Lages se estabelecer com "lavoura e criação" em Mirim. Cerca de seis anos depois teria nascido Anita, "na casinha onde moravam seus pais". Os depoimentos colhidos pelos Ulysséa e Salum Nacif da tradição oral ainda são repetidos em Mirim. "O pai de Anita tinha parentes aqui. Desde pequeno ouço dos mais velhos que ela nasceu aqui", conta o comerciante mais antigo do lugar, Jairo Cardoso, 75 anos de idade. "Como os negócios dele não iam bem, acabou se mudando para Morrinhos de Tubarão", destaca.

Ele afirma ter ouvido de Joaquim Ezequiel Pacheco que a mãe deste foi madrinha de batizado de Anita, o que teria ocorrido na igreja de Vila Nova, próximo de Mirim e também no município de Imbituba. "O Álvaro, filho do Clemente Pacheco citado por Saul Ulysséa, costumava nos contar, quando eu ainda era criança, que Anita nasceu no Morrinhos daqui", acrescenta Jairo Cardoso, fazendo questão de mostrar o local onde, "diziam os mais velhos", teria existido a casa onde Anita nasceu. O sítio indicado fica junto à antiga estrada estadual que ligava Laguna à Capital, coberto por um denso e descuidado bananal.

Próximo dali reside a família Machado. "Uma neta da Anita que esteve aqui em 1970 queria colocar uma placa aí na frente, indicando o local de nascimento, mas o meu marido não quis, pois ia haver muito ajuntamento", afirma Dona Renê Dautd Machado, 83 anos. Sua sobrinha, Isabel Terezinha Machado, 31, afirma que "o nosso parentesco com ela é muito comentado na família", destaca. Nas proximidades existe uma fonte usada para a lavação de roupa, "onde Anita foi procurar a sua madrinha antes de viajar com Garibaldi", acrescenta Isabel.

Naturalidade

Neto de João e filho de Pedro, Vilmar Pedro Machado, um pedreiro com 35 anos de idade, recorda as palavras do avô, repetidas pelo pai. "Eles diziam que Anita nasceu aqui por perto e que éramos parentes dela. Falavam isso com muita naturalidade. Era uma coisa normal", assinala. O comerciante Jairo Cardoso acha que o silêncio dos descendentes de Anita, durante décadas seguidas, deve-se ao fato de serem pessoas simples. "Os Machado, por exemplo, são lavradores, desconfiados, ressabiados e temerosos de que estejam querendo tomar as terras deles", interpreta.

A descoberta recente de um documento no Museu Anita Garibaldi, em Laguna, reforçou a tese do nascimento da heroína em Mirim. A descoberta foi feita pelo pesquisador Amadio Vetoretti, do Arquivo Histórico de Tubarão, que, ao folhear o livro de "Querelas" de 1815 a 1830 de Laguna, encontrou e registro de um auto que dá João da Costa Coimbra contra Bento Ribeiro da Silva. O querelante acusa o pai de Anita de atacá-lo com uma faca, em 1822, na região de Morrinhos de Tubarão, na época pertencente a Laguna. Como Anita nasceu em 1821, a presença de Bentão no local no ano seguinte serviria como confirmação da versão de que ela também nascera ali.

O pesquisador lagunense Antônio Carlos Marega, que abrira as portas do museu a Vetoretti, ficou intrigado e resolveu investigar melhor a descoberta. Constatou, depois de muito trabalho, que o documento não era de 1821, mas de 1826, o que veio reforçar a tese do nascimento em Mirim, onde Anita teria residido até 4 ou 5 anos de idade, quando a família se mudou para Morrinhos de Tubarão. Ainda menina Anita teria feito amizade com Licota, levando essa última a acreditar, dezenas de anos mais tarde, que a heroína também teria nascido ali. Tudo isso se encaixaria perfeitamente, não fossem a versão e os argumentos levantados por Licurgo Costa de que Anita nasceu em Lages.

Itália adotou primeiro versão sobre Tubarão

A versão do nascimento de Anita Garibaldi em Morrinhos de Tubarão foi a que prevaleceu junto ao governo da Itália, sob o regime de Benito Mussolini, ao ser escolhido em 1932 o local para a colocação de um monumento, constituído de um morro de granito e uma placa, fundida em Turim, com um canhão que teria pertencido ao Seival, na base. Em 23 de junho de 1937 o Batalhão Escola de Tubarão colocou outra placa junto à primeira, reforçando em Tubarão a intenção de vincular o nome de Anita ao da cidade. Em 1985 o artista plástico Willy Zumblick construiu um mural com a imagem de Anita e Giuseppe Garibaldi numa fonte, dando maior destaque ao monumento.

Quem mais se preocupa com ele é dona Elza da Silva, natural de São Martinho, viúva há 22 anos e desde a década de 1960 residindo no local. Conforme a administração municipal o monumento recebe maior ou menor carinho. Quando não existem cuidados, "o mato acaba tomando conta e eu é quem tenho que cortar", explica dona Elza. Na enchente de 1974 em Tubarão, o marco de Anita foi o único ponto, num raio de muitos quilômetros quadrados, a permanecer fora da água. "Depois que a cheia terminou tive que tirar todo o barro", complementa a viúva.

Ela guarda com carinho um livro do escritor Wofgang Rau, não mostrando-o a ninguém. A senhora sabe quem foi Anita? "Se eu sei? Foi uma guerrilheira", responde, acostumada a receber turistas, curiosos e pesquisadores. "Não é todo dia que aparece gente, mas sempre tem alguém visitando, principalmente gente de fora", observa.

Homenagens

Na região onde a heroína pode haver nascido, ou pelo menos passado a infância, existem várias referências a ela, como a denominação de Anita Garibaldi dada ao bairro em 1906. No futebol é lembrada com um time e na parte social através do clube Garibaldino. A cooperativa de eletrificação que leva seu nome existe desde 1966. Em outros pontos de Tubarão também existem homenagens, como o aeroporto inaugurado em 1951 pelo então governador Aderbal Ramos da Silva. Na ocasião foi instalada no aeroporto uma herma da heroína, em bronze, do artista italiano Amleto Sammarco, doada pela empresa Irmãos Amin. Com a desativação do aeroporto a imagem foi transferida para a praça Osvaldo Pinto da Veiga, onde permaneceu por muito tempo até desaparecer há três anos, sendo reencontrada em 1998.

Vínculo

Dois importantes personagens contribuíram para consolidar o vínculo entre Anita Garibaldi e a cidade de Tubarão: os irmãos Walter e Willy Zumblick. Enquanto o primeiro pesquisou, escreveu artigos e lançou em 1980 o livro "Aninha do Bentão" (obra que está sendo reeditada), o segundo tratou de visualizar em telas os principais momentos da vida e das lutas de Anita. Hoje existe um projeto de desapropriação de toda a área do sítio onde Anita teria nascido em Morrinhos (Tubarão), num total de 52.240 metros quadrados, com "lagos, trapiche, bosques, churrasqueiras, jardins, palco, estacionamento, área coberta de 400 metros quadrados, museu, lanchonete e sanitários, enfim, um grande parque temático", explica o atual secretário de Indústria e Turismo, Roberto Tournier. O custo previsto do projeto é de R$ 322 mil.

Nesse espaço, o visitante poderá conferir uma galeria de telas do pintor Willy Zumblick, visualizando os principais momentos da vida de Anita. Também vão existir mapas, livros, quadro genealógico da heroína e seus parentes, fôlderes e outros materiais, além da construção de uma casa de pau-a-pique, coberta de palha e piso de chão batido. Ela será decorada com mobília rudimentar - cama, catre, baú, mesa tosca e bancos, cozinha com fogão e trempe, algumas panelas e colheres. Existirá também um poço, um forno de tijolos e privada externa. Na frente do lote, Zumblick vai erguer um monumento. Está sendo pensada a execução de um réplica do monumento a Anita existente no Gianícolo, em Roma.

Matrimônio com sapateiro não rende frutos

União com o desterrense Manoel Duarte de Aguiar, em agosto de 1835, não trouxe filhos nem alegrias para Aninha. Infeliz, não hesitou em acompanhar sua grande paixão

Celso Martins

No dia 30 de agosto de 1835, Aninha vestiu uma saia de filó azul-claro com pregas e muito rodada, cheia de tiras escuras, estreitas e estampadas de espaço em espaço. Entre as tiras havia uns pontinhos bordados e retrós preto mercerisado. O corpete da mesma fazenda era guarnecido de barbatanas formando um bico na frente, mangas compridas com um grande fofo nos ombros. Calçou os sapatos de camurça branca, simples, lisos, cada um com um tufozinho de seda branca na frente e salto não muito alto e redondo.

Depois de estar vestida, Aninha dirigiu-se à Igreja Matriz de Laguna, onde se casou com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou Ingleses, em Desterro, hoje Florianópolis. O registro encontra-se no Livro de Casamentos de 1832 a 1844 da mesma igreja, assinado pelo padre Manuel Francisco Ferreira Cruz, atualmente sob os cuidados do Arquivo Episcopal de Tubarão.

As razões para o fracasso do casamento, apontadas pelos que escreveram sobre Anita, são diversas e muitas delas destinadas a justificar o fato de haver deixado Manoel Duarte para ficar com Giuseppe Garibaldi. A conclusão mais razoável é a de Wolfgang Rau. Primeiro, ela foi "gravemente negligenciada e mesmo abandonada por seu primeiro marido". Segundo, porque Manoel, "após o casamento, continuou com seu trabalho, limitado a bater solas, gostar de cachorros e de pescarias noturnas. Dificilmente se lhe via um sorriso; acanhado com as pessoas estranhas, provia, metódico e organizado, o difícil pão de cada dia".

Com o passar do tempo, ainda segundo Rau, o marido de Aninha passou a "demonstrar em casa o seu caráter conservador e ciumento. Avesso às mudanças de situação, era reacionário a todas as novidades. Viu-se, pois, Aninha trancada entre paredes, levando vida apagada e monótona, sem ao menos ter com quem expandir suas idéias ou a quem relatar seus sonhos, originados de exaltada imaginação, em procura permanente de horizontes mais dilatados. Em breve, compreendeu não estar realizada ao lado do pacato marido, o qual não lhe confirmou, sequer, fecundidade".

Introvertido, "era de todo e por tudo inadequado para esposo de Anita; passado o primeiro momento de vida em comum, revelou-se aos dois o erro desse matrimônio omisso de maturidade. Sem filhos e sem alegrias partilhadas, veio a ficar-lhes apenas o arrependimento de terem casado". Em resumo, um casamento "falho de prazer e de fruto", complementa Rau.

Detalhe

Autores como Henrique Boiteux e Leite de Castro, os primeiros a escrever sobre Anita no início do século, omitiram o detalhe do primeiro casamento. Outros, como Valentim Valente e Wolfgang Rau, foram bem mais adiante. "Garibaldi sempre foi reticente com referência ao estado civil de Aninha ao conhecê-la, e isso induziu Alexandre Dumas e autores brasileiros e italianos a perfilharem a versão errônea de que era solteira (e o pai, 'ferrenho imperialista', teria tentado impedir o namoro)", assinala Valente.

Rau acrescenta que "Garibaldi, e mais tarde os seus próprios filhos, ocultaram obstinadamente o fato de ter sido Anita casada em primeiras núpcias com Manoel Duarte". Em 1970, quando Rau conheceu pessoalmente uma neta de Anita, Giuseppina Garibaldi Ziluca, filha do general Ricciotti, citou o primeiro casamento, tendo ouvido um "mas não pode ser, meu pai nunca nos falou nisso!"

Versões

O destino de Manoel Duarte, depois que Aninha e Garibaldi se conheceram, não foi esclarecido até hoje, existindo diversas versões. Uns, como Rau, dizem que foi convocado para a Guarda Nacional, tendo se retirado da vila com as tropas legalistas, diante da vitória das forças rebeldes em Laguna. O mesmo autor ouviu de uma parente de Anita pelo lado materno (Leopoldina Antunes Dalsasso) que tanto o marido Manoel Duarte quando seu pai, Bentão, estariam "entrevados e de cama" na ocasião da chegada dos revolucionários farroupilhas. Também existe a versão de que Duarte morreu doente num hospital em Laguna.

De todas elas, a versão mais intrigante é a que foi localizada pelo arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, escrita por Taciano Barreto do Nascimento, bisneto do tio do primeiro marido, antigo inspetor escolar. Num documento datado de 6 de junho de 1935, analisado por Rau e por Licurgo Costa, são feitas algumas revelações supreendentes. "Segundo informações que tive de dona Lucinda Duarte, viúva de José Duarte, tio do meu pai, Manoel Duarte, marido de Anita, era sobrinho e filho de criação de João Duarte, avô de meu pai'."

O mesmo Taciano informa que Anita, "ao casar-se com seu distante parente Manoel Duarte, fora morar na casa do seu bisavô, o referido João Duarte, no morro da Barra, em frente ao ancoradouro dos navios farroupilhas". Lá, "Garibaldi logo travou relações com João Duarte, sendo freqüentador da casa onde morava também Anita e seu marido", que teria sido "preso pelos soldados de Garibaldi e este apossou-se de Anita, com quem já andava de amores na própria casa de João Duarte, o qual ao saber do desaparecimento do sobrinho pediu a Garibaldi que o mandasse soltar".

Vingança

O italiano teria prometido soltá-lo mas, segundo depoimento de dona Lucinda a Taciano, mas "parecia" que os soldados farroupilhas "o haviam matado". Mas, também se dizia que Manoel Duarte fora efetivamente solto e, por vingança - "esta será a versão mais aceitável", segundo Licurgo - se alistara nas tropas imperiais. "Garibaldi então levou Anita para uma moradia no lugar denominado Rincão, bairro de Laguna, onde passaram a viver juntos", segundo o descendente de Manoel Duarte. O pesquisador Wolfgang Rau também considera essa hipótese a mais aceitável.

Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, o fato de Aninha haver rompido o primeiro casamento "não causou escândalo extraordinário na Laguna. Ana era moça humilde, que não freqüentava a sociedade local mais classificada", assinala. "Evidentemente", completa, "provocou comentários, pois era mais uma das provas do comportamento reprovável dos revolucionários, cuja soldadesca não só submetia a população a maus tratos e vexames, como seus próprios chefes seduziam e furtavam dos lares mulheres inexperientes e crédulas."

Caráter era "independente e resoluto"

Mesmo os historiadores que defendem a tese do nascimento da heroína Anita Garibaldi em Morrinhos de Mirim (hoje Imbituba) concordam que ela viveu quase toda a infância e pré-adolescência em Morrinhos de Tubarão, onde teria chegado com 4 ou 5 anos de idade, por volta de 1825 ou 1826. Pouco tempo depois seu pai, Bentão, morreu em circunstâncias não esclarecidas, não tendo sido ainda localizado o atestado de óbito.

"Desde cedo ela revelou caráter independente e resoluto e uma singular firmeza de atitudes. Além disso muito amor-próprio e a coragem e a energia que certamente herdara do pai. Não tolerava certas liberalidades, naqueles tempos de rígidos costumes. O seu temperamento levava-a, por vezes, a atitudes que causavam sérios desgostos à atribulada mãe", conta Ruben Ulysséa.

Uma rixa "causada pela menina" fez com que a viúva se mudasse para o lugar denominado Carniça, hoje Campos Verdes, nas proximidades do Farol de Santa Marta. Em 1935 já estava em Laguna, morando na antiga rua do Rincão, hoje Fernando Machado, numa casa ainda existente e há até pouco tempo com o número 25, hoje sem a plaquinha e abrigando uma loja de R$ 1,99. Segundo Saul Ulysséa, existia no local "uma série de pequenas casas baixas". Na terceira "morou Ana de Jesus Ribeiro (Anita Garibaldi) com sua mãe".

Esta informação, de acordo com Saul Ulysséa, "é segura e prestada por dona Ana Torres Guimarães, senhora respeitável, esposa do comendador e tenente-coronel João José de Sousa Guimarães", moradora da antiga rua da Igreja, hoje Jerônimo Coelho. "O quintal de sua residência tinha um portão para a rua do Rincão, fronteiro à casa onde morava Anita com sua mãe. Ouvi dona Ana contar que seguidamente conversava com Anita", assinala. Eram "muito pobres", complementa Ulysséa.

"Virgem criatura, tu serás minha!"

Segundo versão do próprio Giuseppe Garibaldi, essa teria sido sua exclamação ao vislumbrar a então casada - e infeliz - Aninha, na Barra de Laguna

Celso Martins

O primeiro encontro entre Aninha e Giuseppe pode ter acontecido de várias formas, segundo as diferentes versões. Garibaldi diz nas "Memórias", que estava a bordo de uma embarcação, na Barra de Laguna, desanimado, solitário, pensando nos amigos que perdera no naufrágio em Campo Bom, carecendo de "uma presença feminina". Foi quando dirigiu o "olhar à ribeira", onde no morro da Barra pôde ver "as belas jovens ocupadas nos seus diversos afazeres domésticos. Uma delas atraía-me mais especialmente que as outras..."

Garibaldi desembarcou e caminhou na direção da casa "sobre a qual havia já algum tempo fixara-se toda a minha atenção". O coração "disparava", encerrando "uma dessas resoluções que jamais esmorecem. Um homem (eu já o avistara) convidou-me a entrar". Deparou-se então com Aninha e pronunciou a famosa frase: "Virgem criatura, tu serás minha!" O próprio Alexandre Dumas, a quem Giuseppe ditou anos mais tarde as "Memórias", anotou que "esta passagem é intencionalmente coberta pelo véu de um enigma".

Virgílio Várzea, em texto de 1919, diz que do tombadilho do navio, na Barra, "chamou-lhe vivamente a atenção uma moça alta que, à porta de uma choupana, parecia aflita e a chorar. Preocupado com o que teria sucedido à pobre criatura, mandou guarnecer um escaler e largou para a praia. Aí chegando dirigiu-se à moça, perguntou-lhe o que tinha. Ela explicou-lhe, por entre lágrimas, que estava com o marido de cama e muito mal das febres", assinala.

Por causa disso, Garibaldi "propôs-lhe levar o esposo a tratar-se no hospital de sangue que os republicanos tinham estabelecido na Laguna. Aceitou, mas sob condição de acompanhar ela ao doente, o que foi deferido", sendo Manoel transportado. "No hospital transformou-se a moça na melhor das enfermeiras, não só ocupando-se carinhosamente do marido como dos numerosos feridos dos últimos combates que aí se achavam em tratamento. Enquanto dias depois o esposo falecia. Embora esmagada por esse golpe, ela continuou a desvelar-se pelos demais enfermos com admiração e alegria geral de todos."

Nas manhãs seguintes, alegando visita a "seus marinheiros feridos", Garibaldi demorava-se "longo tempo a conversar com a enfermeira, a quem, sem saber como nem porque, se sentia preso de grande simpatia desde o primeiro momento em que a viu. Ela, a seu turno, experimentava o mesmo sentimento por ele. Era o começo de uma grande e mútua paixão".

A terceira possibilidade é levantada por Saul Ulysséa. "Conta a tradição que Garibaldi com ela se encontrara no lugar Figueirinha", onde funcionou durante muitos anos o Fórum de Laguna, próximo do Hospital de Caridade. "Existia naquele local muitas fontes de lavagem de roupa, não sendo de duvidar que Anita ali estivesse para a lavagem de sua roupa e de sua mãe." Todas essas versões, com derivações e mesmo fusões entre elas, alimentam permanentemente o mito, fornecendo matéria-prima a projetos de ficção (artes) e de resgate histórico da personagem.

Lua-de-mel foi em combate

Anita tinha apenas 18 anos quando participou do primeiro combate. Ela e Garibaldi deixaram Laguna no dia 20 de setembro de 1839, numa viagem que seria a de sua lua-de-mel. Com uma frota de três embarcações, seguiram até a altura de Santos (SP), onde investiram contra uma corveta imperial, passando na seqüência a ser perseguidos por uma esquadra. De volta ao Sul, buscaram abrigo nas enseadas que recortam o litoral catarinense, onde encontram duas sumacas carregadas de arroz, que foram capturadas.

Na altura da Ilha de Santa Catarina travam combate com os ocupantes do navio imperial Andorinha. Uma forte ventania causa a perda de uma das embarcações rebeldes, a Caçapava, restando o Seival e o Rio Pardo, com os quais penetram na enseada de Imbituba, onde Giuseppe organiza a defesa. O Seival é deixado na praia e seu canhão colocado sobre uma elevação, sob os cuidados do artilheiro Manuel Rodrigues. Na ocasião, Garibaldi tenta convencer Anita a desembarcar, mas ela resiste e não aceita. Quer ficar ao lado dele, não importa o que aconteça.

A batalha começou no amanhecer do dia 4 de novembro de 1839. "O inimigo, favorecido em sua manobra pelo vento", avança "em bordejos e torpedeando-nos com ferocidade", recorda Giuseppe, a bordo do Rio Pardo. "De nossa parte, combatíamos com a mais obstinada determinação, atacando de uma distância suficientemente curta para que pudéssemos nos valer das carabinas. O fogo, de ambas as partes, era dos mais assoladores", complementa.

Começaram a se acumular "cadáveres e corpos mutilados", cobrindo a ponte da escuna crivada de balas e com a mastreação avariada. "Estávamos determinados a resistir, sem rendição, até que o último de nós tombasse", amparados "pela imagem da amazona brasileira que tínhamos a bordo", armada com uma carabina, engajada no combate. Seguiram-se cinco horas de muita tensão, gritos desesperados, disparos e estrondos de canhões, até que os imperiais bateram em retirada, com um comandante baleado.

Henrique Boiteux não economiza adjetivos ao descrever Anita, "de carabina em punho, impávida ao fogo, desprezando a morte, batendo-se como o mais valente, emprestando valor àqueles que desfaleciam, animada com as faces rubras, olhar em chamas e cabelos soltos ao vento, percorrendo a bateria em uma atividade febril, excitando a todos na defesa do estandarte, símbolo do ideal pelo qual se batiam". A cena foi cantada em verso e prosa, servindo de inspiração para os artistas do lápis e do pincel, reproduzida nas capas de vários livros e publicações. Foi o batismo de fogo de Anita.

Nas "Memórias" que ditou a Alexandre Dumas, Garibaldi destacou o episódio. Enquanto "da ponte da escuna e com o sabre em punho, Anita encorajava os nossos homens, um petardo de canhão a derrubou, juntamente com dois dos nossos combatentes. Saltei sobre o seu posto, tomado pelo temor de nada mais encontrar além de um cadáver. Ela, porém, reergueu-se sã e salva. Os dois homens estavam mortos. Roguei-lhe então que descesse até o porão. 'Sim, irei mesmo até lá - disse-me ela -, mas para tirar de lá os poltrões que nele se esconderam.' Ela desceu e logo voltou, empurrando à sua frente dois ou três marujos, pejados por terem-se mostrado menos valentes que uma mulher".

Bravura impressiona até o companheiro

Anita viveu três momentos distintos no combate ocorrido na Barra de Laguna, iniciado por volta do meio-dia de 15 de novembro de 1839, quando foi derrotada a experiência da República Catarinense. O comando da defesa ficou sob responsabilidade de Garibaldi, que posicionou seus navios num semi-círculo, dispondo uma linha de 300 atiradores em terra e seis canhões no Fortim do Atalaia, pelo lado Sul e na época bem próximo do canal. Ainda não havia o molhe de pedras, construído nas primeiras décadas deste século, nem o aterro. Cerca de 1,2 mil homens da infantaria rebelde estabeleceram-se nas margens do canal, aguardando o ataque legal.

A bordo do Itaparica, Anita pôde observar a chegada das forças adversárias, sob o comando do capitão-de-mar-de-guerra Frederico Mariath, compostas por 13 navios, com 300 praças de guarnição, 600 de abordagem e 33 bocas de fogo. Enquanto Garibaldi observava de uma colina o movimento da esquadra legal, Anita apontou o canhão e disparou o primeiro tiro, seguindo-se uma terrível batalha.

O segundo momento de Anita começa quando Garibaldi ordena que ela vá pedir reforços ao general Canabarro, estacionado nas imediações do Farol de Santa Marta. Anita cumpre a missão e retorna com ordens do comandante rebelde para retirar-se do combate e salvar armamentos e munições. Contrariado, já que pretendia incendiar a esquadra imperial, Garibaldi inicia a retirada, encarregando Anita de transportar os primeiros pertences, pretendendo com isso que ela ficasse a salvo no outro lado.

Mas ela voltou para o centro dos combates, dando continuidade a seu terceiro momento. Ela carregou o bote com armas e munições e o conduziu para o campo da Barra, gesto que repetiu cerca de 20 vezes seguidas, dando origem a diversas narrativas. Enquanto executava a missão, cruzava "sob o fogo inimigo dentro de uma pequena barca com dois remadores, dois pobres-diabos que se curvavam o quanto podiam para evitar balas e bombas. Ela, porém, de pé sobre a popa, no encruzamento dos tiros, surgia, ereta, calma e altaneira como uma estátua de Palas, recoberta pela sombra da mão que Deus naquelas horas pousava sobre mim", escreveu Garibaldi. Palas, ou Minerva, foi a deusa mitológica das artes e da sabedoria.

Turbilhão

As forças estavam "separadas na distância máxima de quatro braças", ou quase oito metros, segundo Boiteux, ocasionando "uma tempestade de balas, de fuzilaria e de metralha, enchendo os navios de ambos os partidos de ruína e de sangue". Boiteux refere-se a um "turbilhão de fumo e fogo". A "medonha e homérica luta só se atendia à precisão dos tiros, pois o crepitar da fuzilaria e ribombar dos canhões na sua afanosa missão destruidora abafava os gritos de dor dos mutilados, as imprecações raivosas dos atingidos, as vozes de manobras dos comandantes e oficiais pelejando estes mesmos com carabinas e pistolas", assinala o historiador catarinense.

O depoimento do capitão-de-fragata J. E. Garcez Palha resume bem o cenário vivido por Anita. "Foi mais do que um combate, foi um turbilhão. Os navios avançaram com velocidade regular através de uma tempestade de balas, de fuzilaria e de metralha. Ao estampido incessante das armas misturavam-se os gritos dilaceradores dos feridos e moribundos, o sibilar do vento através do aparelho dos navios, o quebrar violento das vagas de encontro ao costado, e a voz dos comandantes e oficiais que animavam os marinheiros, pelejando eles mesmos com carabinas e pistolas."

Na ordem do dia onde narrou a batalha, Mariath informou a existência de 17 mortos e 38 feridos legalistas. Em 1860, em artigo assinado no jornal "Correio Mercantil", o militar corrigiu os números anteriores, falando em 51 mortos e 12 feridos. Não existe nenhuma estimativa do número de farroupilhas mortos no Combate da Barra.

Prisão e separaçãoem Curitibanos

Ponto a menos para Garibaldi: após batalha perdida para os legalistas, Anita é levada prisioneira e o companheiro segue para Lages, sem ao menos tentar resgatá-la

Celso Martins

Quem conta uma história do ponto de vista de Anita Garibaldi e dos fatos com os quais ela se envolveu diretamente acaba recriminando o comportamento de Garibaldi nos acontecimentos que se seguiram ao Combate de Marombas, no município de Curitibanos, na serra catarinense. Logo após a derrota republicana em 15 de novembro de 1839 em Laguna, Garibaldi, Anita e os demais farroupilhas - Canabarro, Teixeira Nunes - permaneceram acampados na Barra do Camacho durante cerca de uma semana.

Depois eles seguiram pela extensa praia sem nenhum costão até Torres, na fronteira com o Rio Grande do Sul, para onde seguiu Canabarro. Os demais homens, sob o comando de Teixeira Nunes, seguiram pelo atual município de Praia Grande em direção a Lages, refazendo o traçado do antigo Caminho dos Conventos. No dia 14 de dezembro de 1839 os revolucionários chegaram a Santa Vitória, junto ao rio Pelotas, onde se travou um combate com as forças do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, que acaba morrendo afogado.

Nessa vitória dos rebeldes Anita não pegou em armas, limitando-se a atuar como enfermeira, atendendo e consolando os feridos. Quatro dias depois eles chegam a Lages (ver texto à esquerda), onde mais tarde ficam sabendo da presença de forças legalistas em Campos Novos e Curitibanos. Tendo organizado uma tropa para enfrentar os homens do coronel Melo Albuquerque, Teixeira Nunes cavalga durante três dias, chegando a 1º de janeiro de 1840 nas proximidades do rio Marombas, lugar denominado campos da Forquilha, ou Capão da Mortandade.

Emboscada

Na verdade Teixeira Nunes estava sendo atraído para uma emboscada. "Submetendo-se a contragosto ao papel de simples espectadora", conta Garibaldi, "e temendo que viessem a faltar cartuchos aos soldados", Anita "provia o abastecimento das nossas munições. O fogo que éramos obrigados a fazer permitia de fato supor que, se estas não fossem repostas, em pouco tempo achariam-se esgotadas". Diversas vezes ela se aproximou do local principal da fuzilaria. A certa altura foi surpreendida por quase 20 cavaleiros inimigos.

"Excelente amazona e montada num admirável ginete, Anita poderia ter disparado e escapado àqueles cavalarianos; porém, o seu peito de mulher encerrava um coração de heroína. Em lugar de fugir, ela tratou de exortar os nossos soldados a defenderem-se, achando-se de súbito rodeada pelos imperiais. Um homem rendeu-se. Ela cravou as esporas no ventre do seu cavalo e, arrojando-se vigorosamente, avançou por entre os inimigos, não recebendo senão uma única bala, que traspassou o seu chapéu, alteando-lhe os cabelos, mas sem roçar-lhe o crânio. Anita teria podido evadir-se se o seu animal não houvesse sido atingido por um segundo tiro", descreve Garibaldi. Ela teve então que se render.

Nesse momento cada um foi para seu lado. Anita acabou conduzida perante o coronel Melo Albuquerque, enquanto Garibaldi se embrenhou na floresta e foi parar em Lages. "Há no episódio", assinala Licurgo Costa, "um aspecto desfavorável a Garibaldi: acompanhar as tropas retirantes sem fazer pelo menos uma tentativa de descobrir se Anita estava viva, onde estava e se era possível ir resgatá-la". O ex-embaixador acrescenta haver tirado "de todos os documentos estudados uma impressão desfavorável do 'condottieri'".

Antes de haver seguido para Laguna, enquanto estava envolvido com os serviços no estaleiro rebelde, Garibaldi iniciara um romance com Manuela, sobrinha de Bento Gonçalves. Alguns autores levantam a possibilidade do italiano haver aproveitado o sumiço de Anita para poder rever a antiga namorada. Manuela esperou por ele. Tanto é que morreu, solteira, na cidade gaúcha de Pelotas, com idade bem avançada, sendo conhecida como "a noiva de Garibaldi".

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