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Cristovão Colombo

À quem se deve realmente a descoberta das Américas, à Cristovão Colombo, à Américo Vespúcio ou aos próprios índios nativos da região? Essa pergunta intrigante tem provocado muita controvérsia nas últimas décadas. Alguns historiadores creditam aos nativos que chegaram do estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, à 40.000 anos o verdadeiro descobrimento das Américas. Outros pesquisadores atribuem aos escandinavos por volta do ano 1.000 quando chegaram ao Canadá e retornaram sem desembarcarem devido aos imensos blocos de gelo, enquanto que outros estudiosos acreditam que fragmentos de cerâmicas encontrados no Equador em 1956, apresentam semelhanças marcantes com cerâmicas produzidas no Japão há mais de 5.000 anos. Alguns admitem que uma viagem do monge budista até o lado do “grande mar”, ou oceâno pacífico, teria chegado até o México no século V, conforme comprovam o uso de dragões alados como motivo de cerimônias mágicas encontrados em cerâmicas mexicanas, uma vez que este símbolo especificamente representava a dinastia do monge chinês. Daí a mera semelhança dos latinos, incluindo os índios brasileiros, com traços dos povos orientais.

Enfim, muitas são as teorias que tentam explicar os verdadeiros descobridores das Américas. Até pouco tempo, Cristovão Colombo era tido como um homem de larga visão e caráter obstinado, o sábio defensor da certeza de que a Terra era redonda, o homem que fez um ovo parar em pé e abriu as portas do Oceâno Atlântico, e de repente não é mais nada disso. O escritor e historiador americano Kirkpatrick Sale, em seu livro “The Conquest of Paradise” relata um homem vulgar, apreciador da ganância do ouro, obcecado pelos títulos de nobreza e extremamente confuso em suas observações de navegação. Apesar de realizar quatro viagens às Américas, nunca soube descrever fielmente onde realmente esteve. Além de demonstrar uma ferocidade bestial com os nativos, trazendo consigo e sua tripulação formada na maioria por ladrões e desocupados, doenças como a febre, tuberculose e a varíola, que dissiparam milhares de nativos logo nos primeiros contatos em terra. Sobre Colombo, dos seus primeiros vinte anos pouco se sabe. Há razões para acreditar que nasceu em Gênova no ano de 1451, mas muitos historiadores não estão de acordo. Há quem atribua o seu nascimento nas regiões da Córsega, Maiorca, Aragão, Galícia e até em Portugal. Sabe-se pelo menos que seu idioma favorito era o Castelhano, pois servia-se dele para suas correspondências. Em 1472, tem-se notícia que esteve no mar como corsário, que serviu de trampolim para ingressar na frota do grande corsário francês Coullon, o Velho. Numa investida frustante, viu-se náufrago na costa portuguesa, por onde viveu escondido por oito anos, dos 25 aos 33.

As primeiras rotas das grandes navegações

Era o tempo da Escola de Sagres, das grandes navegações pela Costa da África. Em 1488, o explorador português Bartolomeu Dias, (1455-1500), ultrapassou o cabo da Boa Esperança. Cogitava-se o verdadeiro caminho para as Índias. Colombo então, desenvolvia um plano inovador para chegar as Índias navegando para oeste, cruzando o Oceâno Atlântico. Baseando-se em dados do grande cosmógrafo e navegador árabe Alfraganus, (daí a origem dos termos latinos fragata e naufragar) demarcou as bases para suas viagens utilizando os cálculos em milhas árabes, que correspondem a 1.975,5 metros, diferente da milha italiana, 1.477,5 metros. Sem dúvida um erro marcante. Colombo, concluiu então que saindo das Ilhas Canárias e navegando 2.760 milhas (árabes) para o oeste, chegaria às ilhas japonesas. Um duplo erro, pois se revelasse a distância verdadeira, cerca de quatro vezes maior, nunca teria encontrado alguém que lhe financiasse a tentativa. Estava certo de que poderia alcançar o Oriente pelo Ocidente. Embora a teoria da Terra redonda já circulasse nos meios mais cultos, havia um certo ar confuso nos seus cálculos. Colombo não conseguiu fazer interessar o Rei de Portugal, Dom João II, nos seus projetos. Da sua estada em Portugal, sabe-se de seu casamento com Fillipa Moniz Perestrello, de família nobre, com quem teve um filho chamado Diego, futuro companheiro de viagens. Depois do falecimento de sua esposa, Colombo muda-se para a região de Andaluzia, na Espanha, onde cultivou amizades com os Medina-Celli e os Medina-Sidonia. Graças ao Duque de Medina-Celli, foi apresentado formalmente à rainha Isabel de Castella, e pouco depois apresentou seus planos à uma comissão de cientistas e navegadores espanhóis liderada pelo escriba de Talavera, braço direito da rainha.

Primeiro mapa das Américas

Em face da conclusão inteiramente negativa, a comissão recusou o projeto, considerando-o impossível frente aos cálculos apresentados. Colombo não desistiu. Tentou penetrar nas cortes da França e da Inglaterra em distintas situações frustantes. Volta então à Espanha e certas intervenções históricas acabaram ajudando-o. Em 1492, os espanhóis conseguiram readquirir suas terras após domínio dos mouros árabes por mais de setecentos anos, na rendição de Granada. Vem dessa época a grande influência árabe na cultura portuguesa e espanhola, desde o vocabulário, passando pela culinária, música e costumes. Ultrapassado a fase de reintegração de posse, os espanhóis começaram a se interessar por novos horizontes além-mar. A rainha Isabel de Castella nunca penhorou as jóias para financiar as expedições de Colombo, ao contrário do que se pregava nas escolas antigamente. Das três embarcações, Pinta e Nina eram caravelas e foram providenciadas pela cidade de Palos, a terceira, Santa Maria, era uma nau e foi financiada por um banqueiro independente que não entendia nada de navegação, mas era bastante ganancioso. Todas as embarcações levavam não mais que noventa homens, geralmente ladrões e devedores da corte espanhola e muita gente doente. No dia 06 de setembro de 1492 as embarcações saíram de Palos em direção às Ilhas Canárias e de lá em direção ao tão sonhado Oriente. Em 25 de setembro o comandante da nau capitânia Santa Maria, Martin Alonso Pizón, confundia uma porção quilométrica de algas boiando com um monte de terra e declarou “terra à vista”, o que provocou certo ar de descontentamento entre a tripulação, gerando até indícios de motim à bordo entre os mais revoltosos. Foi só então na manhã de 12 de outubro que a primeira ilha das Bahamas apareceu aos olhos do marinheiro-mor da caravela Pinta. Segundo o Calendário Juliano em vigor no século XV, era realmente 12 de outubro, porém pelo calendário Gregoriano, seria 21 de outubro. O calendário Gregoriano entrou em vigor alguns anos mais tarde corrigindo o período anual correto em função do Equinócio, marco muito utilizado por navegadores que representa o período em que o dia tem a mesma duração que a noite. O local exato onde Colombo aportou é outro ponto de controvérsias. Nada menos do que doze locais são declarados como sendo o primeiro, devido às suas anotações errôneas e ao fato de querer guardar segredo para não ser seguido caso encontrasse ouro ou especiarias. Teve seu mérito ao descobrir as Ilhas do Haiti e República Dominicana, aí fundou Isabella, em homenagem a rainha da Espanha e na expectativa de futuros financiamentos. Como os comandantes a serviço de Colombo acreditavam terem chegado às Índias, denominaram os nativos de “índios”, cujo continente estava à milhares de quilômetros de distância.

De volta à Espanha, Colombo foi recebido como herói, recebeu inúmeras honrarias e dezenas de banquetes, jamais compreendidos pelos grandes cientistas e navegadores da época que acreditavam impossível ter chegado às Índias com cálculos tão absurdos. Colombo retornou por três vezes às ilhas recém descobertas que ainda não se chamavam América, pois à luz da verdade, ele mesmo sabia que seus cálculos estavam equivocados. Isso gerou-lhe uma tremenda confusão interior. De lá saiu para a conquista de Guadalupe, Porto Rico, Jamaica e Cuba, cuja ilha imaginou ser o final do continente asiático. Só na terceira viagem, em 1498, Colombo realmente chegou ao continente americano atracando pelo norte da Venezuela. Na quarta e última viagem, em 1502, já atormentado pela crises de temperamento e alucinações constantes, não consegue descobrir mais nehuma ilha nova e então escreveu entre delírios, as obras “O livro dos privilégios” e “O livro das profecias”, nos quais se auto intitula “Dom Cristovão Colombo, Vice-Rei e Governador de todas as ilhas e terras firmes do Ocidente”. O que mais o prejudicou não foram suas teorias desatinadas, mas a prática do seu dia-a-dia como Governador das terras descobertas. Neste ponto, relata Sale em seu livro, “…Colombo foi simplesmente desastroso. Faltavam aos moradores das novas terras, comida, bebida, roupa e moradias decentes….” Os reis de Espanha perderam a paciência e mandaram o interventor Francisco de Bobadilla prender Colombo e enviá-lo de volta à Europa. Faleceu em 1506, ainda dono de uma fortuna considerável, porém, totalmente atormentado. Quem deixou bem anotadas todas as crueldades e façanhas de Colombo, foi o frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, cuja obra publicada integralmente no século XIX, serve até hoje como fonte para os historiadores e revisionistas. Quem realmente descobriu as Índias, o continente no Oriente em 1497, foi o navegador português Vasco da Gama, (1460-1524), seguindo o caminho escolhido por Bartolomeu Dias, e conseguiu contornar o Cabo da Boa Esperança, navegando às margens do continente Africano e o Oceano Índico até chegar à Malabar.

O grande escritor francês Victor Hugo, (1802-1885), deixou registrado que “…Há homens sem sorte, e que Colombo não conseguira associar seu nome à descoberta da América…” e que “…a história do ovo em pé de Colombo não passa de uma lenda italiana, na qual Colombo querendo impressionar seus comandados, fez parar em pé um ovo cozido e levemente amassado na base, que logo em seguida ele mesmo amassa para não descobrirem sua façanha…”. É muito intrigante realmente, a América não se chamar Columbia. Américo Vespúcio, (1451-1512), nascido em Florença e navegador familiarizado com o mar, desenvolveu sistemas de cálculos de longitude imbatíveis para a época, “emprestou” seu nome para as novas terras, parecia ser melhor cotado nos meios pertinentes, pois ao contrário de Colombo descrevia e muito bem sobre suas viagens às novas terras. Afirmava ter chegado ao continente sul, próximo do Rio da Prata em 1497, antes de Pedro Alvares Cabral (1467-1520) ter descoberto o Brasil em 1500. Amigo fiel dos Medici, o “Magnífico”, Américo Vespúcio conseguia se infiltrar facilmente entre patronos e banqueiros da época. A Vila de Saint-Dié, na França, era o berço de reliogiosos cartográficos e o ilustrador Monsenhor Martin Waldseemüller ao preparar o mapa do Novo Mundo, seguindo cálculos de Vespúcio sugeriu o nome das novas terras de “Amerige”. Nasce assim o continente América. O autor Sale, da obra “The Conquest of Paradise” traça um quadro interessante da civilização no século XV, tanto na Espanha sob os olhares de novas descobertas e sob o terror da Inquisição, quanto no resto da Europa dilacerada pelas guerras constantes, assolada pela fome e pela peste. Porém, ressalta simultaneamente com brilhantismo uma época recheada de ilustres figuras como, Leonardo Da Vinci, (1452-1519), Maquiavel,(1469-1527), Michelângelo, (1475-1564), Nicolau Copérnico, (1473-1543), Lutero, (1483-1546) e Rafael, (1483-1520). As grandes navegações foram consequência natural de uma efervescência cultural da época do Renascimento, que estremeceram o conteúdo do conceito humano.

Fonte: www.cdcc.sc.usp.br

Cristovão Colombo

DESCOBRIDOR - 1451-1506

Cristovão Colombo
Cristovão Colombo

1451: Nasce em Génova

1476: Representando comerciantes genoveses, naufraga nas costas portuguesas. Ficará no Reino cerca de dez anos, a maior parte dos quais no arquipélago da Madeira.

1480: Casa com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, o primeiro donatário de Porto Santo.

1484 (?): D. João II recusa o projecto de Colombo de alcançar a Ásia rumando para ocidente.

1492: Obtém o apoio de Isabel I de Castela para a viagem que D. João II recusara. Comandando três naves pequenas (Santa Maria, Pinta e Niña), a 12 de Outubro descobre o continente que virá a ser chamado de América. Pensa ter alcançado o extremo ocidental da Ásia, convicção que jamais o abandonará, apesar de sucessivas provas em contrário. Explora as ilhas que virão a ser chamadas de Bahamas, Haiti e Cuba. Regressa a Castela em 1493.

1493/96: Segunda viagem à América, comandando frota de dezassete navios. Explora as Antilhas e Porto Rico. - 1498/1500: Terceira viagem à América; toca a Venezuela; regressa a Castela sob prisão.

1502/04: Quarta viagem à América.

1506: A 20 de Maio, morre em Valhodolid, esquecido e abandonado.

ESPECIARIAS

De Oriente para Ocidente, a evolução do preço das especiarias. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Esgotos não existem. Os despejos são feitos directamente para as ruas. Cidades infectas, as da Europa medieval. E insalubres: volta e meia, as pestes dizimam as populações. Alimentação ? Os legumes são raros, a beterraba é desconhecida, ignorados o café e o cacau. Portanto, peixe seco ou carne salgada. E durante o ano inteiro, monotonia do paladar. Apenas alguns senhores dos mais favorecidos é que se dão ao luxo de ter nas suas mesas ânforas de vinho e açucareiros.

Eis quando começam a chegar à Europa as especiarias do Oriente. Pimenta e cravo-da-índia para transformar o gosto da carne. Canela, noz-moscada, gengibre, benjoim e aloés para enriquecer o sabor dos reduzidos acepipes. Sândalo, resinas aromáticas para opor à pestilência das ruas. Navios começam a cabotar os portos do Mediterrâneo: ida e volta de Veneza e Génova para Constantinopla e Alexandria. Do Oriente para Ocidente, singra o comércio de especiarias.

Entretanto, hordas de Gengis Kã afugentam as tribos turcas para a Pérsia. Estas conquistam e fixam-se no território. Alastram por todo o Próximo Oriente. Observam as caravanas de mercadores que atravessam os seus domínios. Invocam o Profeta Maomet que morrera seis séculos antes e desencadeiam guerra santa contra os cristãos, os infiéis. Consequências: tampão turco entre o Oriente e o Ocidente, rarefacção de especiarias na Europa.

No século XVI será feita a seguinte avaliação: um quintal de cravo-da-índia custa 2 ducados nas Molucas, 14 ducados em Malacia, 50 ducados em Calecut e 213 ducados em Londres. Com este progressivo aumento de preços, conforme se vai marchando de leste para oeste, poderia haver melhor negócio do que abrir caminho alternativo para o comércio das especiarias ?

Melhor se entende agora a obsessão de reis, infantes e príncipes da dinastia de Avis: rumar, rumar para o sul, contornar a África, subir ao longo da contracosta, descobrir o caminho marítimo para a Índia, isolar e combater pela retaguarda o Turco anti-cristão! As garras do interesse, as luvas da cruzada...

Primeiro são os portugueses a perseguir a miragem. Logo a seguir os vizinhos da Península, mas rumos alternativos serão os seus... E eis que surge Messer Cristóvão Colombo a pedir audiência a Isabel I de Castela. Mas antes...

NAUFRÁGIO NA COSTA PORTUGUESA

1476. Uma frota mercante genovesa cruza o Mediterrâneo. Cristóvão Colombo numa das naves. Tem 25 anos e é natural de Génova. Por conta de dois abastados mercadores, Di Negro e Spinola, navega rumo a Lisboa onde o aguarda o seu irmão Bartolomeu, cartógrafo ao serviço da Coroa lusitana. Mareado, Cristóvão recolhe ao seu beliche. Começa a reler O Livro das Maravilhas do Mundo, de Marco Polo. A leitura volta a apaixoná-lo. Raramente sobe ao convés. Quando a frota passa ao largo da Córsega, estão Marco Polo e Colombo indignados com a fuga dos dois frades que deveriam evangelizar os povos de Catai (China). Quando a Maiorca surge no horizonte, estão Marco Polo e Colombo a subir e a descer as montanhas do Pamir. Quando ultrapassa as colunas de Hércules (Gibraltar) estão Marco Polo e Colombo a serem recebidos e muito honrados pelo grande Kubilai Kã. Quando o gajeiro da nau-capitã avista o cabo de S. Vicente, está Marco Polo a descrever a Colombo as maravilhas de uma ilha fabulosa, Cipângu (Japão). Sedas, ouro, pérolas, rubis, diamantes, esmeraldas e de repente um estrondo, gritos, mas desta vez no Atlântico, a caminho de Lisboa. O navio a meter água e novo tiro de bombarda. São piratas luso-franceses ao ataque. Colombo galga ao convés. Fragor, um mastro a despenhar-se e a arrastar todo o cordame atrás de si. A nave adorna, já vai a pique, escaleres salva-vidas já vão longe. Descalça as botas, despe o gibão, atira-se ao mar. Não tem o que temer por sua vida, um Anjo assopra-lhe que Deus o reserva para grandes feitos, salvador da Fé Sagrada, defensor da Cristandade. E nada. Durante horas nada e esbraceja contra ondas e correntes. Por fim consegue arribar à praia, exaustão. Uma família de pescadores algarvios dá-lhe abrigo num casebre.

EM LISBOA

Lisboa, o Tejo, estuário imenso. Na primavera, vindas de África, naus e caravelas demandam a barra. Tornam carregadas de presas de elefante, malagueta e escravos negros. Chegado o Outono, outra vez irão rumar para o sul. Levarão carga apreciada de barretes encarnados, berloques, espelhos e contas de vidro. Muita gente desvairada pelas ruas de Lisboa. Marinheiros ainda a gingar de bombordo a estibordo. Morenos e vermelhos, franzinos e gigantes, cabelos pretos e de palha, línguas muitas. Também papagaios a palrar nas varandas, um deles até canta em castelhano. Há paredes cobertas de azulejos. Um coche e os cavalos a galopar, arreda, arreda! Chafarizes e africanos a fazer fila, esperam vez. Percutem nas vasilhas por encher, é batuque na Europa, todos cantam, todos dançam, riem muito. Peixeiras lançam pregões. Mulheres assomam-se à janela, ó freguesa, é do alto, é fresquinha. Um perna de pau exibe as habilidades do macaquito que apanhara na Guiné. Na Ribeira das Naus dois camponeses tentam alistar-se como grumetes. As Índias, as Índias, um dia chegarão às Índias, a fortuna para todos! No Terreiro do Paço, à beira-rio, Bartolomeu Colombo, o genovês, aperta contra o peito o seu irmão Cristóvão, quase afogado nos mares do Algarve. Irá iniciá-lo nos segredos da cartografia.

Meses depois, Cristóvão continua a achar insensata a empresa dos portugueses: por que insistem eles em tentar contornar a África, se a Ásia está do outro lado do Mar Atlântico, a poucos dias de viagem ? Mais fácil será cabotar depois ao longo da costa asiática, reconhecer a ilha Cipângu, levar ao Grande Kã de Catai os frades evangelizadores que ele pedira a Nicolo Polo e finalmente atacar pela retaguarda o Turco infiel que ameaça apoderar-se do Santo Sepulcro. Bartolomeu sorri. Contesta a geografia do seu irmão, inspirada em Toscanelli. A circunferência da Terra será bem maior do que dizem os seus cálculos. Cristóvão não se deixa convencer, um Anjo assopra que está certo. Mas encerra a discussão. Tem mais que fazer, tem que cuidar da sua vida. A pedido de Messer Di Negro embarca para Porto Santo em busca de açúcar para vender na Itália.

O PRÍNCIPE PERFEITO

Cristovão Colombo

Colombo embevecido com a leitura de Marco Polo. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Porto Santo, depois Madeira. Em 1480 casa com D. Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, o 1º capitão-donatário da ilha de Porto Santo. Amor ? Talvez amor, talvez degrau para o projecto que o Anjo não se cansa de assoprar. Enviuva quatro anos depois. Do casamento tivera um filho, ao qual dera o nome de Diogo. Portanto Messer Colombo continua ligado a uma das mais nobres famílias lusitanas. Portanto Messer Colombo continua a ter acesso ao Paço Real.

Acamarada com os mais importantes navegadores que fundeiam e fazem aguada na Madeira. Alguns garantem-lhe ter avistado ilhas a Ocidente e outra vez o Anjo assopra que o extremo oriental da Ásia ficará a poucos dias de viagem para Oeste. Colombo quer apresentar o seu projecto a D. João II. Mas antes terá que fazer prova de lealdade. Embarca numa expedição à Guiné.

Em 1484 pede audiência real e o Príncipe Perfeito recebe-o. Cristóvão Colombo diz de suas razões, por sua boca fala o Anjo: a geografia de Toscanelli, Marco Polo, Kubilai Kã, a Ásia a poucos dias de viagem para oeste, o Santo Sepulcro ameaçado pelos infiéis. Pede que Sua Alteza lhe entregue o comando de uma frota que possa demandar, por Ocidente, a ilha de Cipângu, que ficará na mesma latitude das Canárias. D. João II não se deixa convencer. Acha delirante o projecto do genovês. Mas tocam-no as palavras de profeta iluminado. Adia a decisão, faz seguir o plano para o Conselho científico de navegação. Que o rejeita: ignorâncias, miragens.

OS REIS CATÓLICOS

Colombo pretende alcançar a Ásia por ocidente. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Tocado por um Anjo, Colombo persegue apenas um plano e já deixou de cuidar da própria vida. Credores não arredam da sua porta. Solução ? Marchar para a fronteira, quase uma fuga.

Do outro lado, a Espanha é já um Estado unificado, Fernando de Aragão casado com Isabel de Castela. Em nome de Cristo, os Reis Católicos já tinham expulso os judeus do Reino. Colombo aprovara a expulsão. Em nome de Cristo, os Reis Católicos querem agora expulsar os mouros do emirado de Granada. Colombo aprova, Colombo exulta, cruzada contra Mafoma.

Consegue ser recebido pela rainha. Outra vez o Anjo fala pela boca de Colombo. Isabel fascinada com o plano, fervor, veemência, o que é preciso é derrotar os infiéis. E se, ao mesmo tempo, puder lançar mão das riquezas asiáticas, tanto melhor... Contudo, por um resto de prudência, Isabel resolve submeter o projecto ao seu conselho de navegação. E também este o rejeita: incoerências, falsidades, magreza de justificações teóricas.

Colombo outra vez se volta para D. João II. E outra vez falham as suas diligências: Bartolomeu Dias dobrara o Cabo da Boa Esperança, por fim aberto o caminho marítimo para a Índia.

Retorna a Espanha. Consegue segunda audiência com Isabel, obstinação. A soberana pede-lhe para aguardar o término da conquista de Granada. Torna o Anjo ao seu discurso:

- Nobre e poderosa princesa cristã, rainha de Espanha e das Ilhas do Mar: existe nas Índias um príncipe a que dão o nome de Grande Cã. Tanto ele, como os seus ancestrais, já referidos por Messer Marco Polo, enviaram embaixada a Roma, procurando mestres da nossa Santa Fé, capazes de doutrinarem o seu povo no respeito a Cristo e à Santíssima Trindade. Poderei eu alcançar por oeste o reino do Grande Cã e induzi-lo, como primeiro acto de fé, a subsidiar uma cruzada pela libertação do Santo Sepulcro. Considerai, nobre princesa cristã, o que este vosso súbdito e modesto navegador vos propõe.

Isabel promete reconsiderar a decisão logo depois da vitória sobre os mouros de Granada.

Rende-se a capital mourisca. Rapina, festejos, aclamações e fanfarras, o projecto de Colombo arquivado no olvido.

1492. Desesperanças, sorvedouros, remoinhos. Escarranchado em mula pachorrenta, aí vai Messer Cristóvão Colombo a caminho de França. Talvez Carlos VIII patrocine o seu projecto, assim o queira Deus e louvado seja o Santo Nome.

Entretanto, em Córdova, D. Luís de Santangel, banqueiro poderoso e amigo do genovês, argumenta com os reis de Espanha:

- Bartolomeu Dias dobrou os confins da África. Em breve os portugueses alcançarão as Índias. Creio ser este o momento em que deveis arriscar o pouco que Colombo vos pede, pelo muito que ele vos promete.

Os Reis Católicos arriscam. Mandam emissário atrás de Colombo. O genovês é alcançado em Piños-Puente, a dez milhas de Granada. Colombo escuta a mensagem real. Desce da mula. Ajoelha-se na terra seca. Benze-se. Levanta a cabeça, fita o firmamento. Abre os braços. Seis anos de provações. Porém um Anjo a guardar o seu destino, comoção.

SANTA MARIA, PINTA E NIÑA

Colombo corrige o rumo da sua frota. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Três navios de pequeno calado: Santa Maria, a nau-capitã, cem tonéis (1) e quarenta tripulantes; Pinta, cinquenta e cinco tonéis e vinte e seis tripulantes; Niña, sessenta tonéis e vinte e quatro tripulantes. Colombo comanda a frota e um Anjo comando Colombo. Largam de Palos (Sevilha) a 12 de Maio de 1492. Arribam às Canárias. Os navios são aí calafetados, pintados e abastecidos.

Intervalo e D. Cristóvão envolve-se com D. Beatriz de Peraza, viúva do Governador da ilha de Gomera. D. Beatriz, a desterrada no meio do mar por ordem de D. Isabel, já que tentara enfeitiçar el-Rei Fernando. E agora o enfeitiçado é D. Cristóvão Colombo, Almirante dos Reis de Espanha no Mar Oceano e antecipado Vice-Rei das terras que descobrir. Cavalgam os amantes pelos montes e pelas ruas de Gomera. Murmuram os marinheiros que a expedição chegara ao fim. Mas a 8 de Setembro o Anjo assopra ao ouvido de D. Cristóvão. E a 9 de Setembro, Santa Maria, Pinta e Niña fazem-se ao largo.

Rumo oeste ! assopra o Anjo. E D. Cristóvão manda rumar para oeste. Está certo o Anjo. Só no fim do Verão começa a ventar do quadrante de nordeste.

O Almirante leva cartas assinadas pelos Reis Católicos e dirigidas ao Grande Kã e a todos os príncipes orientais. É navegante seguro. Os instrumentos é que não são de confiança e sabe disso: ampulhetas de areia para medir o tempo e comparar a hora local com a de Espanha; um quarto de círculo de madeira para medir a altura das estrelas, e os graus oscilam conforme a oscilação de bombordo a estibordo. Em contrapartida, um Anjo é quem dirige D. Cristóvão pelos mares.

A 16 de Setembro três quilhas fundas começam a rasgar o esverdeado e viscoso Mar de Sargaços. Logo o medo e o pavor dos tripulantes: que o mar acaba em lama e nela ficarão atolados para sempre; que o fim do mar é o fim do mundo, homens com focinho de lobo, um demónio negro com duas cabeças, uma bruxa que da própria pata imensa faz guarda-sol enquanto dorme; que não há vento de retorno para a pátria, Santa Maria, Mãe de Deus, ora pro nobis...

A 20 de Setembro estão as três naves imobilizadas na mais profunda calmaria e os demónios sobem a bordo, alguém os viu, todos a temer as próprias sombras. A 25 de Setembro, no fim do dia, um gajeiro grita: terra ! Na manhã seguinte terra não há, fora encanto do Diabo e todos já predispostos ao motim.

De 2 a 6 de Outubro recomeça a ventar a e as velas já correm pandas. Oficiais pedem a D. Cristóvão que regresse a Espanha, pois o mar não tem fim. D. Cristóvão recusa. Já ultrapassaram, certamente, a ilha de Cipângu. Agora rumam para Catai e ele não tornará a Pallos sem novas da Índia.

A 7 de Outubro um outro gajeiro volta a gritar: terra ! Mas terra não há, novo encanto do Diabo. Ao cair da noite, apontando a sudoeste, aves migratórias começam a sobrevoar as três naves, é bando que parece não ter fim. D. Cristóvão lembra-se: foi assim que os portugueses descobriram os Açores. Manda rumar para sudoeste. Mas a 10 de Outubro, os navios açoitados por tempestade, outra vez assopra o Anjo ao ouvido de D. Cristóvão. E o Almirante manda corrigir o rumo para oeste. Bem sabe o Anjo o que assopra. Não houvesse súbita mudança de rumo e a frota iria naufragar contra os escolhos de uma ilha (2).

Para prevenir um motim D. Cristóvão convoca os seus oficiais e promete que, passados três dias, não achando terra, voltarão a Espanha. Ordena ainda que, apesar da tempestade, desfraldem todas as velas. É loucura, é corrida contra o tempo, desvario do genovês.

Ao cair a noite de 11 de Outubro D. Cristóvão pensa ter visto ao longe uma luzinha. Mas cala, ajoelha-se e reza. Amanhã será o fim do prazo prometido. Possa ele ser amparado pelo que seu Anjo da Guarda... Às duas da madrugada de 12 de Outubro, mas a lua a cintilar sobre as ondas, do alto da Pinta um gajeiro grita:

- Terra, aleluia, agora é terra, é mesmo terra !

Realmente a palidez de um areal. Mais ao longe colinas e montes, sombreado. Trinta e três dias de viagem. Chega a alvorada e desembarcam. Ajoelham-se na praia. Benzem-se, oram, contrição. Um povo desnudo e pacífico contempla-os. Os corpos cor do cobre, os olhos rasgados. Não será Cipângu. Não será Catai ainda. Mas certamente a Ásia, certamente a Índia. D. Cristóvão aponta, define:

- Índios ! São índios !

O Anjo assopra-lhe que tem razão.

AMÉRICA (3)

Primeira ilha da Ásia recém descoberta por Ocidente ! Como se chama ? O Anjo assopra e D. Cristóvão dá-lhe o nome de S. Salvador. Está perto do continente (3), sabe disso. Irá pisá-lo mais tarde, numa próxima viagem.

Em S. Salvador D. Cristóvão não alcança notícias do Grande Cã. Nem encontra ouro de qualidade, nem pérolas, nem esmeraldas, nem sedas, nem palácios. De especiarias, acha apenas uma espécie de pimenta e uma folha amarga a que os naturais chamam tabac e cujo fumo aspiram. Também um tubérculo açucarado que na Europa será chamado de batata-doce.

Sempre em busca de riquezas, navega para ilhas próximas que virão a ser conhecidas como Bahamas, Cuba e Haiti. A esta, D. Cristóvão dá o nome de Hispaniola. Por descuido do grumete de guarda, é justamente em Hispaniola que vem a naufragar a Santa Maria, a nau-capitã. Com os seus destroços D. Cristóvão manda levantar um fortim e ali se quedam 39 homens enquanto ele, e os outros, regressam a Espanha. Pinta e Niña a navegar, torna-viagem.

Referindo-se aos índios, dirá o Almirante aos Reis Católicos:

- Estes gentios ignoram completamente a prática das armas. Com cinquenta homens será fácil subjugá-los e fazermos deles o que quisermos.

Nem os Reis Católicos, nem D. Cristóvão, nem sequer o Anjo têm qualquer reserva contra a escravatura. Se riquezas não há, antes isso do que nada.

CALA-SE O ANJO

Em 1493, na 2ª. viagem às suas Índias Ocidentais, comandando uma frota de dezassete naves, D. Cristóvão reconhece as ilhas que virão a ser conhecidas como Antilhas e Porto Rico. Riquezas ? Quase nada.

Em 1499, durante a 3ª. viagem, pela primeira vez D. Cristóvão Colombo pisa o Continente, na região onde será mais tarde a Venezuela. Um índio conta-lhe então que a oeste de terra firme existe um outro oceano (4) tão grande quanto o de leste. D. Cristóvão não acredita, não pode acreditar em tal notícia. Açoita o índio e o Anjo cala-se. Nunca mais assoprará.

OS DESASTRES DO GRANDE ALMIRANTE

Ainda durante a 3ª. viagem regressa a Espanha sob prisão. Será depois ilibado das acusações. Faz ainda uma 4ª. viagem em 1502. Escreve aos Reis Católicos, lamenta-se:

«Era jovem quando ofereci os meus serviços a Vossas Majestades. Agora os meus cabelos são brancos e o meu corpo é débil. Tudo o que meus irmãos e eu mesmo possuímos, foi-nos tomado e vendido, inclusive o meu manto, o que grandemente ofendeu a minha honra. Não creio ter sido o acontecimento ordem de Vossas Majestades. A restauração da minha honra e a restauração das minhas perdas, assim como o castigo dos que provocaram tais injustiças, somente poderão engrandecer, mais uma vez, Vossas Majestades. (...) Debruçado sobre a minha dor, ferido e aguardando quotidianamente a morte, cercado por um milhão de selvagens hostis e cruéis, privado dos Sacramentos da Santa Igreja, como ficará abandonada a minha alma assim que ela deixar o meu corpo ! (...) Suplico humildemente a Vossas Majestades que se dignem ajudar-me, se Deus permitir que abandone estas paragens, e me desloque a Roma, e inicie outras peregrinações. Queira a Santíssima Trindade proteger vossas vidas e vossos bens.

Escrita nas Índias, na ilha da Jamaica, a sete de Julho de mil quinhentos e três.»

Afinal sempre fora encontrado ouro nas Índias Ocidentais. Dando o dito por não dito, El-rei D. Fernando dividira o vice-reinado por tantos responsáveis quantos os mais capacitados para aumentarem em tempo mínimo o tesouro da Casa Real, rapinagem. E para isso Messer Colombo não serve, visionários são empecilho...

Regressa a Espanha em 1504. Tenta reaver o vice-reinado que lhe fora prometido. Não consegue. Morre em Valhodolid a 20 de Maio de 1506. Pobre. Esquecido e abandonado por todos. Inclusive pelo Anjo.

Fonte: www.vidaslusofonas.pt

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