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8 de Dezembro
O cronista faz uso de citações de personalidades e fatos históricos. Inserido em um contexto que possibilita o uso do recurso “ficção”, busca soluções criativas na sua imaginação, sem comunicar agressividade.
Usa de uma densidade característica, pois é essa densidade a linha tênue entre crônica e conto. No conto o autor mergulha no universo do personagem, do tempo, do espaço e da atmosfera que darão força ao fato exemplar , o cronista age de maneira mais solta, dando a impressão de que pretende apenas ficar na superfície de seus próprios comentários […] (SÁ, 2002, p. 9).
É importante que o cronista não ultrapasse a fronteira existente entre crônica e conto, sendo a poesia uma das mediadoras dessa passagem: Não estranha, por isso, que a poesia seja uma de suas fronteiras, limite do espaço em que se movimenta livremente; e o conto, a fronteira de um território que não lhe pertence (MOISÉS, 1982, p. 255).
Ludicamente o cronista percorre a cidade. Ouve conversas, recolhe frases interessantes, observa as pessoas, registra situações […] através do olhar de quem brinca e, pelo jogo da brincadeira, reúne forças para superar a realidade sufocante. É nesse contexto que o fato em si ganha mais importância do que os personagens (SÁ, 2002, p. 45).
Ainda sobre a percepção do cronista, Moisés (1982, p. 255) trata da impessoalidade destinada à crônica:
A impessoalidade é não só desconhecida como rejeitada pelos cronistas: é a sua visão das coisas que lhes importa e ao leitor; a veracidade positiva dos acontecimentos cede lugar à veracidade emotiva com que os cronistas divisam o mundo.
Além das características linguísticas, impessoalidade é fundamental para a construção da crônica, exatamente para mostrar a opinião do escritor para que o texto seja formado. Tostão nos serve como exemplo para que tratemos de impessoalidade. As concepções táticas e suas evoluções, seleção brasileira, jogadores e conceitos técnicos das posições têm em suas crônicas as experiências pessoais como filtro para a produção do texto.
Exatamente este “filtro” suas experiências pessoais direciona a escrita do cronista e o estilo do seu texto, demonstrando claramente a força opinativa da crônica.
Essa “veracidade emotiva” deve ser avaliada pelo cronista para que não tenha como produto final um conto, e a presença de sua opinião no que escreve o diferencia de um escritor de colunas. Somadas às temáticas já citadas, formação de talento e as “escolas” de futebol no Brasil constituem aproximadamente 32% dos assuntos tratados por ele, de 1997 a 2005. A opinião presente nos textos é clara e consistente: trata dos assuntos com a sua experiência de maior jogador mineiro da década de 1960 e com a passagem na seleção brasileira, conquistando o tricampeonato mundial em 1970; após abandonar precocemente o futebol se tornou médico, professor universitário e se afastou do futebol para retornar a esse esporte na condição de cronista esportivo.
O “filtro” que move a sua escrita ainda se constitui de 20 anos afastado do futebol, o esporte que o projetou para o mundo, as críticas por essa postura e sua estréia no mundo jornalístico. Sua escrita técnica, direta e, sobretudo, honesta, é resultado da sua vasta experiência pessoal e profissional que o aproxima da crônica jornalística e o afasta da crônica poética.
Dentro do grupo dos cronistas poéticos, estão, além de Armando Nogueira, o carioca Mario Filho e seu irmão Nelson Rodrigues. O futebol, para esses cronistas, é motivo de poesia, por essa razão eles muitas vezes deslizam seus comentários do campo técnico e tático do futebol para pensar a natureza humana a partir daí.
A crônica possibilita ao autor abordar diversos assuntos num mesmo texto que lhe permitam, ao final, amarrar as matérias que escolheu. Bender e Laurito (1993, p. 50) relacionam essa gênese da crônica jornalismo e literatura como uma dificuldade de definir o gênero: Até onde vai o jornalista e termina o escritor? , perguntam.
Por todas as características que permitem uma crônica ser uma crônica, emendam: Logo não vamos esperar que a Academia Brasileira de Letras decida conceituar nossa crônica. É crônica e só. Todos sabem do que estamos falando (p. 44). Esse apelo expressa, entre outras fatos, a simplicidade da crônica e o sentimento de posse do gênero. A fala de discordância por uma definição da crônica demonstra um gênero popular lutando contra uma possível dominação de instâncias superiores.
A liberdade de escrita na construção da crônica é tão grande que também a falta de assunto pode levar à transformação do autor em personagem, atitude chamada de persona literária (POLETTO, 2003). Assim, experiências pessoais se transformam em mote para que uma crônica tenha início: “[…] há a importância dos estereótipos ou esquemas culturais na estruturação e na interpretação do mundo” (BURKE, 2003, p. 26).
O Cronista Esportivo
Dia do Cronista Esportivo
A vida de cronista esportivo é difícil e uma das suas funções é preservar a memória do esporte brasileiro. Está destinado a expor sua opinião ao julgamento dos leitores ou ouvintes, para glória ou desgraça de sua reputação presente e futura, por isso foi criado do Dia 8 de Dezembro que homenageia as contribuições, a integridade e o trabalho árduo dos profissionais da mídia esportiva.
A crônica é um dos maiores charmes do jornalismo esportivo. Vive em transformar a arte do esporte criando uma linguagem diferente para analisar o que acontece dentro e fora dos espaços esportivos. Com raras exceções, em entrevistas, nas análises e nos comentários, notamos que o cronista esportivo usa termos impróprios e inadequados. Nos matutinos, não temos uma linguagem amena e divertida na seção esportiva, mas sim de guerrilha.
No final de 1992, cento e onze presos foram mortos na Casa de Detenção, em São Paulo, e os jornais qualificaram o episódio de massacre. Na mesma semana, um time amador de futebol ganhava de 15 a 0 do adversário. No título de chamada dos jornais a mesma palavra: “time massacra adversário”.
A lista de termos de guerra, usado pelos cronistas esportivos é muito longa: ao invés de goleador, artilheiro; a trave ou o gol é o alvo; o chute é bomba, tiro ou petardo. Enquanto o campeonato, jogo ou torneio, é guerra, contenda e ainda a quadra esportiva ou o campo de futebol é chamado de arena.
O jogador não é inseguro, é covarde; ele não é ágil ou arisco, mas matador. Agora, o pior de tudo é que esses atributos são usados como positivos. Vamos então ao exemplo clássico de mais de meio século atrás. Trata-se do final da Copa do Mundo, onde o Uruguai venceu o Brasil, no Maracanã; até hoje, quando voltam a jogar o nome da partida é a vingança, usado em todas as crônicas esportivas. Até João Saldanha, numa de suas crônicas diz que um time fez “picadinho” de outro.
O esporte é um espetáculo, uma arte; é diversão e lazer. E hoje, um meio de integração, confraternização, e paz. As Federações dos Jogos Olímpicos Mundiais possuem mais membros do que a própria ONU. Todas estão envolvidas nesse movimento universal do uso do esporte como meio de promover a paz entre os povos.
Portanto, a participação do cronista esportivo é, e sempre será, essencial para que isso aconteça. Isso porque ele ingressa na profissão jovem com cerca de vinte anos onde fica até os oitenta anos ou mais. Ele não joga, mas viaja, hospeda-se nos mesmos hotéis e convive com os atletas profissionais ou amadores.
Por isso, terá toda a oportunidade e tempo para reverter essa situação como formador de opinião que é, auxiliando a resgatar os velhos valores para as crianças, jovens e para a sociedade em geral.
CRÔNICA ESPORTIVA BRASILEIRA
História
A crônica há muito tempo tem sido utilizada nos meios de comunicação, sobretudo no jornalístico. Na área esportiva brasileira, a crônica aborda as diferentes modalidades, principalmente o futebol, que servirá como referência para a discussão do nascimento da crônica na França, da sua construção como gênero literário, da chegada no Brasil e seu desenvolvimento como gênero nacional e do papel do cronista na sua transformação.
Faz uma revisão de literatura para construir o histórico da crônica no Brasil, associando o futebol à”nacionalização” e difusão desse gênero narrativo.
A crônica hoje se enquadra como gênero literário de assunto livre, de registro de pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte e variados temas. Por se tratar de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar “[…] as pequenas coisas que as grandes vistas não percebem” (LUCENA, 2003, p. 162).
A crônica conhecida nos dias de hoje no Brasil, nasceu nos folhetins franceses (século XIX), nos rodapés dos jornais, para entreter os leitores, aparecendo em 1799, no Journal Dibats, em Paris, com Julien-Louis Geoffrou […] fazendo crítica diária da atividade dramática (MOISÉS, 1982, p. 245).
Nos espaços de rodapé, começaram a aparecer textos de ficção, nascendo, assim, o folhetim romance e o folhetim variedades. O folhetim romance era desenvolvido em capítulos, o que permitia que o leitor acompanhasse a história dia a dia pelos jornais. Já o folhetim que deu origem ao gênero crônica foi o folhetim variedades. Lucena (2003, p. 164) descreve as transformações operadas nesse gênero de jornalismo: […] de onde ela emerge, a crônica vai instaurar rupturas tanto do ponto de vista lingüístico quanto, e principalmente, do ponto de vista temático .
O argumento central é que a crônica pode ser não ficcional, na medida em que deriva de fatos do cotidiano, ao mesmo tempo em que pode possuir uma dimensão ficcional, quando possibilita ao autor construir diálogos e acrescentar personagens, além das características poéticas também pertinentes à crônica. Mas esse sentimento […] não pode ser a simples expressão de uma dor de cotovelo, mas acima de tudo um repensar constante pelas vias da emoção aliada à razão […] papel [que] se resume no que chamamos de lirismo reflexivo (SÁ, 2002, p. 13).
Dessa forma, o presente artigo objetiva estabelecer a relação entre a crônica esportiva e o futebol no Brasil: a crônica como objeto que busca seu espaço nos meios de comunicação e o futebol se desenvolvendo como esporte popular.
O jornal se apresenta para nós como um veículo de […] manutenção e ‘construção’ de um passado que assume significados no presente da notícia […] no caso do futebol, as narrativas jornalísticas apresentam sua memória resgatando fatos, imagens, ídolos, êxitos e fracassos anteriores, no sentido de construir uma tradição, como um elo entre as gerações dos aficionados pelo esporte (SALVADOR et al., 2005).
A crônica esportiva no Brasil
Crônica: definição, origem e marca brasileira
Podemos hoje enquadrar a crônica como um gênero jornalístico-literário de assunto livre, que registra pequenos fatos do cotidiano sobre política, arte, esporte, entre vários outros temas. Por tratar de assuntos considerados menos importantes e por ser um texto limitado espacialmente nas edições dos jornais nas colunas ou em artigos opinativos, a crônica é tida como um gênero menor, o que, talvez, seja essa característica que permita ao cronista analisar as pequenas coisas que as grandes vistas não percebem (LUCENA, 2003, p. 162).
A crônica tal como a conhecemos hoje no Brasil, nasceu nos rodapés dos jornais franceses do século XIX com o objetivo de entreter os leitores. Nestes espaços, começaram a aparecer textos que diferiam do caráter jornalístico do contéudo editorial. Eram os chamados folhetim-romance e folhetim-variedades. O folhetim romance eram textos ficcionais desenvolvidos em capítulos, o que permitia que o leitor acompanhasse a história dia a dia pelos jornais. Já o folhetim variedades comentava fatos do cotidiano, dando liberdade ao autor de construir diálogos, acrescentar personagens, além de se exprimir em uma linguagem mais livre que o restante da edição. Foi o este último que deu origem a crônica.
No Brasil, sobretudo a partir do final do século XIX, o gênero foi ganhando uma nova roupagem, a ponto do professor e crítico literário Moisés Massaud afirmar que criamos uma outra forma textual.
Para ele: […] a crônica assumiu entre nós caráter sui generis. Em outros termos, estamos criando uma nova forma de crônica (ou dando erradamente esse rótulo a um gênero novo) que nunca medrou na França. Crônica é para nós hoje, na maioria dos casos, prosa poemática, humor lírico, fantasia, etc. […] (MOISÉS, 1982, p. 246).
Ao longo de todo século XX, a crônica brasileira se firmou e se afirmou como gênero, estabelecendo uma tradição de bons autores, muitos deles pertencentes ao cânone literário nacional como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rêgo, Clarice Lispector, entre outros.
Mário Filho, o inventor do futebol brasileiro
O futebol é visto como um dos principais símbolos da chamada identidade brasileira . No entanto, tal construção identitária é relativamente recente na história cultural do Brasil. Seu marco cronológico inicial ocorre na década de 1930, momento em que o esporte se torna profissional no país, graças à popularização promovida de forma determinante pelo jornalismo, através da mediação das transmissões dos jogos pelo rádio e do aumento de espaço nas editorias dos jornais impressos.
Nesse movimento de crescimento da presença do futebol na imprensa brasileira, um nome contribuiu de maneira crucial: Mário Rodrigues Filho. Sua atuação na promoção de competições, eventos, notícias e fatos, em suma, do próprio espetáculo futebolístico, foi de fundamental importância para tornar o esporte popular entre nós.
Nascido no Recife em 1908, Mário Filho se transferiu para o Rio de Janeiro ainda durante a infância. Em 1926, na adolescência, iniciou a carreira jornalística ao lado do pai, Mário Rodrigues, então proprietário do jornal A Manhã, como repórter esportivo, um ramo do jornalismo ainda inexplorado. Como era um entusiasta do futebol, já neste primeiro trabalho Mário Filho dedicou páginas inteiras à cobertura das partidas dos times cariocas. No Crítica, segundo jornal de propriedade de seu pai, Mário revolucionou o modo como a imprensa mostrava os jogadores e descrevia as partidas, adotando uma abordagem mais direta e livre de rebuscamentos, inspirado no linguajar dos torcedores.
Foi desta época a popularização da expressão “Fla-Flu”, que muitos consideram ter sido criada pelo próprio Mário. Após a morte de seu pai e o fim do Crítica (que dirigiu por poucos meses) em 1931, Mário fundou aquele que é considerado o primeiro jornal inteiramente dedicado ao esporte em todo o mundo, O Mundo Sportivo, de curta existência. No mesmo ano passou a trabalhar no jornal O Globo, ao lado de Roberto Marinho, seu companheiro em partidas de sinuca. Neste novo emprego, levou a mesma forma de escrever inaugurada no Crítica, um estilo que foi fundamental para tornar o futebol – então uma atividade da elite – um esporte de massas.
Em 1936, Mário comprou de Roberto Marinho o Jornal dos Sports, publicação em que criou os Jogos da Primavera em 1947, os Jogos Infantis em 1951, o Torneio de Pelada no Aterro do Flamengo e o Torneio Rio-São Paulo. No final dos anos 40, o jornalista lutou pela imprensa contra o então vereador Carlos Lacerda, que desejava a construção de um estádio municipal em Jacarepaguá, para a realização da Copa do Mundo de 1950. Mário conseguiu convencer a opinião pública carioca de que o melhor lugar para o novo estádio seria no terreno do antigo Derby Clube, no bairro do Maracanã, e que o estádio deveria ser o maior do mundo, com capacidade para mais de 150 mil torcedores.
Considerado o maior jornalista esportivo brasileiro de todos os tempos, Mário faleceu de um ataque cardíaco, aos 58 anos. Em sua homenagem, o antigo Estádio Municipal do Maracanã ganhou o seu nome. Em paralelo a popularização do futebol, o trabalho de Mário Filho promoveu a valorização do métier do analista e do repórter esportivo. Para o também cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, seu irmão, foi Mário quem inventou a crônica esportiva brasileira, dando-lhe uma linguagem própria que aproximou, através da palavra, o futebol do povo.
Sobre isto, ele colocou: Mario Filho inventou uma nova distância entre o futebol e o público. Graças a ele, o leitor tornou-se tão próximo, tão íntimo do fato. E, nas reportagens seguintes, iria enriquecer o vocabulário da crônica de uma gíria irresistível. E, então, o futebol invadiu o recinto sagrado da primeira página […]. Tudo mudou, tudo: títulos, subtítulos, legendas, clichês […]. O cronista esportivo começou a mudar até ûsicamente. Por outro lado, seus ternos, gravatas e sapatos acompanharam a fulminante ascensão social e econômica. Sim, fomos proûssionalizados por Mario Filho (RODRIGUES apud MARON FILHO; FERREIRA (orgs.), 1987, p. 137-138 ).
O futebol entre a paixão e a razão
A partir da década de 1950, quando finalmente a polêmica sobre se o futebol seria ou não parte constitutiva da cultura nacional foi apaziguada no meio intelectual, a crônica esportiva ganhou prestígio no país, sobretudo por intermédio dos textos de autores como o próprio Mário Filho, o citado Nelson Rodrigues e José Lins do Rego.
No entanto, neste mesmo período, uma cisão de caráter estilístico veio à tona em relação ao gênero, uma querela entre os racionalistas, que preferiam escrever sobre a parte técnico/tática da modalidade, e os apaixonados, mais preocupados com os aspectos sociais ligados ao esporte do que com a partida propriamente dita. Podemos afirmar que um dos grandes motivos, senão o maior, desta cisão foi de ordem tecnológica. Foi na década de 50 que a televisão foi introduzida no Brasil, não tardando em utilizar o recurso do videoteipe.
Até então, a crônica esportiva brasileira, como nos casos dos textos dos cronistas citados, era, conforme a tipologia descrita acima, apaixonada. Livres do registro da imagem, os autores usavam a imaginação e estimulavam as dos leitores, discorrendo sobre fatos curiosos (e muitas vezes líricos) que ocorriam nas partidas e, sobretudo, nos seus entornos (vida social, torcida, arredores dos estádios etc.). A própria falta de uma estrutura profissional mais sólida na imprensa esportiva do país permitia ao cronista a liberdade de criar textos mais fantasiosos, inventando, em algumas ocasiões, situações ficcionais, sem que pudesse ser desmentido por gravações televisivas.
O advento da televisão trouxe uma maior profissionalização do jornalismo esportivo. Com ela, o público passou a ter acesso as transmissões de jogos, programas esportivos, mesas-redondas com participações de especialistas, uso do videoteipe, entre outros recursos. Tudo isso terminou por influenciar a crônica futebolística que foi perdendo seus enredos imaginativos, cedendo espaço para análises mais técnicas dos jogos.
Mais novo que Mário Filho e José Lins do Rêgo, Nelson Rodrigues foi o cronista que mais intensamente viveu esta mudança estilística da crônica esportiva nacional, sendo o mais emblemático naquele momento. Isto porque, com o estabelecimento da televisão, Nelson, com seu estilo passional e de pendor dramático, teve em várias ocasiões suas crônicas questionadas por outros cronistas que divergiam dos seus posicionamentos pautados nas imagens para esses criou a expressão idiotas da objetividade , que terminou sendo recorrente em seus textos.
Para o autor, as transformações trazidas pelos novos meios tecnológicos tolhiam a imaginação. Foi por acreditar nisso que cunhou a frase: O viedeoteipe é burro , também bastante repetida em suas declarações. Cabe aqui ressaltar, no entanto, que esta tipologia entre cronistas apaixonados e racionalistas não se deu de forma tão categórica, tendo em vista que vários autores não permaneceram no rígido limite imposto por ela. Neste sentido, André Mendes Capraro, na sua tese Identidades imaginadas: futebol e nação nas crônicas esportivas brasileiras do século XX, faz a seguinte colocação: (…) mesmo que permaneçam dentro dos limites de um tipo de crônica, muitos podem alterar sua forma de abordagem textual exatamente para escapar do convencional, buscando a adesão do público leitor que, no decorrer de décadas, ganhou um repertório cada vez maior de crônicas e escritores nos periódicos brasileiros (…) (CAPRARO, 2007, pág. 47).
Porém, mesmo concordando com Capraro, ao longo de toda segunda metade do século XX e até o momento atual, esse conflito se faz presente, caracterizando a escrita dos cronistas esportivos nacionais. Mesmo flertantando entre um estilo e outro, não é difícil para nós percebermos as tendências dos escritores perante a categorização da tipologia descrita acima. Apenas a título de ilustração, entre os autores que escrevem hoje na imprensa brasileira, podemos considerar mais racionalistas os textos de Tostão, Fernando Calazans e Lédio Carmona, por exemplo; com viés mais apaixonado, temos as crônicas de Armando Nogueira, Luís Fernando Veríssimo, José Geraldo Couto, Xico Sá, entre outros autores.
Fonte: www.trabalhonota10.com.br/ www.proteoria.org/www.cencib.org
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