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Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

 

18 de Julho

A MULTIPLICIDADE DE MEMÓRIAS E “LUGARES DE MEMÓRIA”: O BRASIL NA GUERRA:

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial tem sido, na maioria das vezes, estigmatizada por debates e opiniões que menosprezam a multiplicidade dos grupos envolvidos nesse episódio da história mundial. Encontramos essas questões Desde de documentários produzidos Detendo-se ao grupo de pouco mais de vinte e cinco mil brasileiros que constituíram a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e ignorando os outros tantos milhares que permaneceram na costa litorânea do Brasil, esses debates se reduzem a simples classificação do grupo como heróico ou ridículo.

Uma das obras mais críticas e rigorosas a esse respeito é o “Depoimento de Oficiais da Reserva”. Lançado pouco depois da guerra este livro enfrentou problemas inclusive com a censura getulista por conter duras críticas ao governo, Exército e, sobretudo a atuação dos comandantes da Força Expedicionária. Todos os depoentes que contribuíram para construção da referida obra se empenham a todo o momento em apontar problemas dos mais variados tipos e proporções, algumas ate descabidas, obra traz acusações ao comando que variam da negligência ao racismo existente desde a organização até a apresentação das tropas na Itália. Dessa forma, ainda que elaborada por militares brasileiros que estiveram na Guerra, essa obra assume uma postura crítica raramente encontrada nas memórias dos ex-combatentes e contradiz em vários aspectos o discurso oficial a respeito da FEB.

Do mesmo modo, William Waack quando correspondente do jornal do Brasil na Alemanha, agora já na década de 80, realizou uma pesquisa sobre o desempenho brasileiro na guerra a partir dos arquivos públicos locais. Essa pesquisa originou um livro que ainda hoje é execrado por grande parte dos veteranos e sua obra sequer consta no acervo da biblioteca da Associação Nacional dos Veteranos da FEB onde seu nome é pronunciado com indignação. Em “As duas faces da glória” Waack se refere a FEB sempre de forma grotesca, ridicularizando em vários aspectos a tropa brasileira e considerando-a como uma demonstração das limitações brasileiras, destacando uma atuação cômica e, muitas vezes, incompetente. Procurando sempre apontar que ela chegou à linha de frente italiana somente ao final do conflito, tendo enfrentado um inimigo já desgastado e que ocupava posições secundárias, ele utiliza relatórios do Exército dos EUA sobre o desempenho da FEB para alinhavar a sua obra de forma bem incisiva.

Por outro lado, a quase totalidade do material publicado sobre a o Brasil na Itália consiste em relatos feitos pelos próprios combatentes os quais, mormente são carregados de ufanismos e desprovidos de elementos críticos. Essa visão, que tende a homogeneizar sob uma perspectiva heróica os ex-combatentes é representada, sobretudo, por alguns livros de memória como o do próprio comandante da FEB que juntamente com alguns oficias de sua confiança elaboraram um extenso, descritivo e enaltecedor livro a respeito da FEB. Nessa perspectiva os militares aparecem revestidos de coragem, sabedoria, honra e amor à pátria, ou seja, apresentam, em alguns momentos, o grupo de forma mitificada e com poderes quase metafísicos. Nessas obras possíveis equívocos cometidos durante a formação, treinamento, ou atuação da Força como um todo durante ou no pós-guerra são silenciados, constando apenas os “grandes Feitos” do corpo expedicionário do Brasil.

Todavia, mesmo díspares os discursos existentes entre os opositores e os apoiadores da FEB, eles se tangem no momento em que ambos atribuem uma homogeneidade às memórias dos ex-combatentes e reduzem a participação brasileira na guerra a esses indivíduos.

Contudo, a história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial não possui uma memória homogênea ou consolidada entre civis e/ou militares. Buscando analisar os vários significados e implicações dessa participação, esperávamos alcançar uma memória nacional sobre este tema. Todavia, quando nos voltamos às fontes, o que encontramos são fragmentações e variações nas diversas esferas que estas memórias possuem: formação, reelaboração, disputas e manutenção. Na medida em que ampliamos nossas pesquisas, encontramos muitas distinções, outrora desconhecidas, entre grupos e interesses envolvidos na formação, manutenção e divulgação das varias memórias existentes aqui no Brasil sobre a Segunda Guerra mundial.

Nesse sentido, nos deparamos com uma forte distinção entre a memória dos ex-combatentes, dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, dos militares da ativa e dos civis, o que torna inviável o entendimento da existência de uma memória nacional unificada sobre este evento histórico. A inexistência de uma unicidade não significa que essas memórias não se imbriquem em alguns momentos, porém, notamos em muitos outros as batalhas sutis que são travadas entre elas na disputa por sua aceitação.

Em “O Brasil na Mira de Hitler” Roberto Sander intenciona ressaltar o mal estar que se instalara na população ao perceber o agravamento e intensidade dos ataques aos navios com bandeiras brasileiras ainda em águas nacionais (Sander, 2007). Além disso, população e governo tinham nas rotas navais seu principal meio de locomoção e escoamento de produção para grandes distâncias litorâneas ou viagens internacionais. Nesse sentido, uma das dificuldades de nosso tema é delimitar o que será considerado memórias de guerra, uma vez que já a partir do posicionamento do Brasil a favor dos Aliados, o país congrega grupos que sofreram diretamente as consequências do conflito, como as vítimas que sobreviveram aos ataques as embarcações brasileiros. Todavia, esta é uma memória ainda pouco estudada, de militares e civis que tiveram suas vidas diretamente atingidas por uma guerra que acontecia além mar. Destarte, não é exagero falarmos da existência de uma memória desses torpedeamentos a navios e embarcações civis aqui no litoral nesse período

Deste modo, ao perceber a multiplicidade de memórias construídas a respeito da participação do Brasil na guerra, compreendemos a emergência de diversas memórias “quantos grupos existem”(Nora, 1998). Assim, nessa dissertação será privilegiado o estudo das memórias de indivíduos que atuaram de alguma forma na zona de guerra brasileira que se estendia do litoral até o Teatro de Operações do Mediterrânico. Optamos ainda por analisar as disputas existentes entre aquelas memórias que possuem mais popularidade em comparação a outras menos lembradas ou esquecidas.

DISTINÇÕES DAS MEMÓRIAS

Grande parte do material existente sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial se reduz a FEB. Documentários, fotos, imagens da época ou livros de memórias com diferentes abordagens, sempre acabam por reduzir seus comentários à boa ou má atuação desse grupo, a formação que tiveram ou a atitudes displicentes dos governos brasileiro e americano durante sua criação aqui no Brasil e atuação no “Teatro de Operações Italiano”.

Porém, seria um equívoco reduzir a entrada do Brasil na guerra ao simples envio de uma Divisão Expedicionária. Para além disso, o Brasil na guerra não se refere apenas aos 25.334 brasileiros que compuseram a FEB e sim a um incontável número de brasileiros que participaram de formas distintas das operações de guerra dentro e fora do território brasileiro. Diz respeito ainda a um crescimento, modernização e mudança considerável das Forças Armadas, uma maior comunicação entre as mais distantes regiões do país, bem como uma maior valorização da região nordeste pelo governo federal como ponto estratégico para segurança nacional.

Mesmo possuindo diferentes concepções, experiências e visões sobre o que é estar numa guerra, os brasileiros expedicionários foram legalmente igualados àqueles outros, militares e civis, que de alguma forma participaram das “operações de guerra”. Após 1945, acompanhamos no Brasil o desenvolvimento de uma legislação criada para atender a determinadas pressões que surgiram com o retorno e desmobilização da FEB que concede direitos praticamente iguais tanto aos que lutaram contra os alemães na Europa quanto aos que combateram apenas a idéia do inimigo e o medo da invasão de nosso território.

Não é precipitado afirmar que houve uma demora em legislar para atender às necessidades dos combatentes, sobretudo daqueles que regressavam da Itália na figura do ex-militar, ex-expedicionário e ex-combatente. Quando regressaram ao Brasil, não havia leis que os amparassem e, este grupo, que voluntariamente ou não, deixou no Brasil família, amigos, emprego e um estado emocional que jamais seria recuperado ficou abandonado à própria sorte. Assim, acompanhar a trajetória dessas leis e decretos é fundamental para que compreendamos algumas posturas posteriormente assumidas por grande parte dos expedicionários.

PRATICAS DE DISTINÇÃO: VETERANOS versus EX-COMBATENTES

A heterogeneidade do grupo “ex-combatente” transcende a formalidade das denominações e abarca uma disputa interna de poder, em que cada grupo assume práticas próprias a fim de enaltecer sua importância e garantir a sobrevivência de suas memórias. Essa disputa se materializou de várias formas ao longo dos anos, no entanto, as mais perceptíveis se referem à formação de diferentes associações e à prática de variadosmétodos de distinção que o grupo, sobretudo dos veteranos, adota para com os excombatentes praieiros e a sociedade.

Especificamente no caso de Pernambuco, encontramos algumas práticas bastante peculiares de reafirmação da identidade e garantia de um espaço na memória coletiva. Durante a Segunda Guerra, Pernambuco desenvolveu importante papel tanto por ser um estado litorâneo, com um dos portos mais importantes do país, quanto por contribuir com grande efetivo para o patrulhamento e vigilância do litoral.

Nesse sentido, observamos na cidade de Recife a existência de duas associações: Associação de Ex-Combatentes e Associação Nacional de Veteranos da FEB. A coexistência dessas instituições num mesmo espaço urbano nos possibilita acompanhar, sobretudo em datas comemorativas, como o dia Sete de Setembro, uma intensa materialização dessa disputa

Devido à idade já avançada desses militares e ex-militares e civis excombatentes, eles desfilam em caminhões do Exército disponibilizados especialmente para este fim. No momento de assumirem seus lugares para o desfile, a separação é visível no heterogêneo grupo dos outrora combatentes. Assim, durante o desfile, eles se utilizam de dois caminhões distintos onde se lê “Veterano da FEB” em um e “Ex-Combatentes” no outro. No primeiro caminhão, que não possui mais do que 12 indivíduos, todos os senhores vão sentados se levantando vez por outra para acenar à população civil que presencia o desfile e os aplaude, indistintamente, sem compreender que não se trata de um mesmo grupo. No segundo, incomparavelmente mais cheio, os senhores já idosos se amontoam de pé por não haver assento disponível para todos.

Analisando este quadro percebemos uma recusa dos expedicionários que foram à Itália em desfilar junto com os chamados “praieiros”, mesmo que silenciosa, pois não presenciamos nenhum tipo de cobrança dos veteranos. Por outro lado, notamos uma acomodação destes outros em não contestar a situação apresentada, seja por não se perceberem meritoriamente iguais, seja por não se sentirem parte do grupo.

Além disso, o toque de presença foi obrigatoriamente instituído em janeiro de 2005 e, a partir de então, todas as formaturas militares dos dias 21 de fevereiro (Monte Castelo), 5 de março (Castelnuovo), 14 de abril (Montese), 28 de abril (Fornovo) e 8 de maio (Dia da Vitória) deveriam ser precedidas do anúncio da presença dos ex-combatentes, caso houvesse algum presente. Com o a finalidade exclusiva de assinalar a presença de excombatentes em solenidades comemorativas das datas significativas da FEB o toque não faz distinção direta entre veteranos e “praieiros”, todavia, as datas comemorativas são sempre referentes à Força Expedicionária Brasileira. Há ainda dois outros aspectos que não podemos ignorar no tocante ao papel direto do Exército em consolidar a memória da FEB e de seus representantes.

O primeiro deles se relaciona ao número de museus mantidos dentro de algumas Organizações Militares (O.M.), ou ainda, mantido por elas, para exaltar a memória da FEB através da exibição de força e poder. São João Del-Rei, Caçapava, Rio de janeiro, Olinda, estas são algumas cidade brasileiras onde os quartéis possuem um museu que resguarda, concomitantemente, a história da O.M. e a memória da FEB. Medalhas, canhões, metralhadoras e incontáveis fotografias dos combatentes da FEB na Itália enfeitam as paredes desses museus. Dificilmente encontramos nesses espaços alguma referência ao patrulhamento do litoral, treinamento ou expectativa dos militares que ficaram no Brasil.

O segundo motivo se relaciona a inexistência de obras publicadas por excombatentes pela Biblioteca do Exército Editora em contrapartida ao grande número de publicações de memórias e autobiografias de veteranos de guerra. A história da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial conta com um grande número de obras não acadêmicas a seu respeito. Se por um lado, somente com muita dificuldade, conseguimos encontrar alguns trabalhos desenvolvidos por historiadores sobre este tema, por outro, percebemos muitas publicações de militares e ex-militares, geralmente autobiográficas, que abordam a experiência brasileira na guerra. Grande parte dessas obras foi produzida por ex-combatentes e editadas, em sua grande maioria, pela Bibliex, demonstrando um maior empenho dessa força e seus respectivos segmentos, em zelarem pela sobrevivência, construção e até mesmo unificação de uma memória a respeito deste evento histórico.

Contudo, o Exército não parece ter tido muito sucesso nesse intento, uma vez que pouco ou nenhum conhecimento sobre este assunto pode ser percebido, entre os próprios militares, mas, sobretudo entre civis. Apesar da contribuição da Marinha e da Aeronáutica no conflito, nos referimos ao Exército, pois a identidade entre essa instituição militar e os ex-combatentes foi tão intensa e pública, que se tornou comum referir-se aos “pracinhas” e ao Exército como se fosse uma coisa só. De qualquer modo, o desconhecimento das pessoas sobre o assunto sobeja os aspectos técnicos e envolve desde o número de brasileiros que compuseram a FEB -pois grande parte das pessoas se surpreende com o número superior a vinte e cinco mil indivíduos- até o desamparo a que foram submetidos muitos desses ex-combatentes, uma vez passada a efusividade do retorno.

LUGARES DE MEMORIA VETERANA AS ASSOCIAÇÕES

Entendemos as associações como as principais “guardiãs da memória” da Força Expedicionária Brasileira e algumas sessões regionais da ANVFEB, como a de Pernambuco, localizada na cidade de Olinda, ainda promovem encontros semanais e mensais com seus associados e “simpatizantes”.

Nessa associação, com o objetivo principal de se divertir, alguns integrantes se encontram na Sede da Associação onde se juntam em torno de uma mesa de dominó e, apenas pouco antes do horário de fechamento da associação, cuidam da parte burocrática que a administração da entidade exige. Esse ritual se repete comumente nas tardes de segunda, quarta e sexta. Assim, ao mesmo tempo em que desfrutam da presença dos companheiros de outrora, abordam diversos assuntos como os problemas estruturais e financeiros da própria associação. Passam a tarde fazendo pilhérias uns com os outros sobre suas vidas pessoais e histórias da guerra que são constantemente reelaboradas. Halbachws afirmara que só há lembrança quando algo ou alguém nos remete a ela. Nesse sentido, compreendemos que, no momento em que aqueles senhores desfrutam da companhia um do outro, partilham idéias e conversam sobre suas memórias, eles estão constantemente reafirmando e reelaborando sua identidade veterana.

Especificamente nas reuniões mensais da ANVFEB da cidade de Olinda, o clima é de absoluta confraternização e rememoração de certas práticas comuns aos militares e ex-militares expedicionários, como cantar a canção dos expedicionários. Os associados geralmente levam suas esposas, netos, amigos e convidados ás sessões que ocorrem no primeiro sábado de todo mês. Ao chegar na Sede, os convidados optam em se dirigir à sala de reuniões, onde ficam os veteranos e militares convidados ou ao salão de festas, onde geralmente ficam as mulheres e familiares trocando experiências diversas. Na sala de reuniões, o número de pessoas geralmente é bem menor, pois poucos convidados comparecem e o número de veteranos raramente ultrapassa quinze, uma vez que grande parte deles faleceu ou se encontram adoentados e impossibilitados de comparecer às sessões.

A reunião se inicia com a leitura da ata da reunião anterior, que vai a votação entre os associados, que a aprovam ou não. Em seguida, são lidos os convites feitos aos veteranos para formaturas comemorativas de diversas Organizações Militares(O.M.) e o presidente lhes conta detalhadamente como foi recepcionado pelos comandantes em cada formatura militar que pôde comparecer lhes representando. Lêem-se ainda os aniversariantes e óbitos do mês e, vez por outra, são entregues medalhas a indivíduos que fizeram algo representativo para a associação. Os agraciados geralmente são militares do Exército, os quais se orgulham de ostentar quaisquer das medalha que podem ser concedidas pelas associações, como a medalha Aspirante Mega, soldado José Vieria, Sargento Max Wolf e outras. A concessão dessas medalhas pode ocorrer tanto na própria Sede da Associação, durante essa sessão mensal, quanto em uma solenidade especial na Organização Militar original do agraciado. Em seguida, o uso da palavra é disponibilizado aos veteranos que, mormente, fazem uso dela com a finalidade de rememorar fatos passados na Itália, abordar o descaso do governo com as Forças Armadas ou reclamar da falta de valorização da memória da FEB. Essas reuniões têm duração média de uma hora e meia e terminam com a Canção dos Expedicionários proferida por todos ali presentes de pé e em posição de sentido, quando muitos deles se emocionam e não mais reprimem suas lágrimas.

OS EX-COMBATENTES - Lembranças da Praia

Canhões, militares, treinamentos pesados, toque de recolher, patrulha, medo, privação. Ao contrário do que nos ocorre quando tentamos pensar em nossas lembranças da praia, as que abordaremos aqui nem sempre são doces e divertidas como o título pode sugerir. As memórias dos ex-combatentes incumbidos de proteger o litoral brasileiro no caso de um possível ataque nazista geralmente se enfocam no cotidiano inebriado de responsabilidade, tensão e medo.

Há uma grande dificuldade em encontrarmos relatos ou autobiografias escritos e publicados por estes ex-combatentes, o que dificulta nossa compreensão sobre as funções desempenhadas e as experiências vividas por este grupo. Tal escassez nos permite inferir um possível indício de desvalorização dessas memórias por parte do próprio Exército, uma vez que, na Biblioteca do Exército, principal publicadora dos livros sobre a experiência brasileira na Segunda Guerra Mundial, não constam obras escritas por este segmento dos ex-combatentes. Além disso, podemos entender essa lacuna como a existência de um sentimento de ilegitimidade desse grupo que os embaraçou a ponto de impedir-lhes de compartilhar com o leitor a sua representação da guerra através da escrita de suas memórias. Refletimos sobre isso, principalmente, pelo fato de existirem entre os veteranos muitas publicações custeadas por eles mesmos, tamanha vontade de memória que possuem. No entanto, entre os praieiros temos dois exemplos pernambucanos que, devido às suas singularidades, merecem nossa análise mais detida: Sr Odemir e Sr Nascimento.

O primeiro deles, mesmo não possuindo o diploma “Medalha de Campanha”, atributo único pra pertencer a ANVFEB, se associou a esta e foi além: exerceu o cargo da vice-presidência na regional de Pernambuco. Apesar de ser uma associação apenas de veteranos da FEB, o ex-combatente Odemir está sempre presente nas reuniões mensais e nos entretenimentos semanais. Porém, desde nosso primeiro contato, quando havíamos ido pedir autorização dos pracinhas para frequentar todas as suas reuniões para conhecer o cotidiano daquela associação e seus membros, ele logo pediu a palavra para formalizar sua posição. Seguiu-se então um longo esclarecimento por parte dele sobre sua condição de ser “apenas um ex-combatente”, que contribuíra para o patrulhamento do litoral mas que não tinha tido o prazer de representar seu país em solo italiano. Sua explicação era observada e interrompida pelos seus companheiros que faziam as mais diversas brincadeiras sobre ele ter ficado na praia tomando água de coco.

O segundo deles, Sr. Nascimento, é o exemplo maior de um ex-combatente que valoriza e faz questão de ver valorizada a sua posição, sua historia e suas experiências. Incomumente, tivemos acesso a um relato de memória escrito pelo soldado Manoel do Nascimento Silvano encontrado na biblioteca do 7º- Grupo de Artilharia de Campanha por ter sido enviado pelo próprio autor ao atual comandante. Construído de forma rudimentar o relato apresenta erros de português graves e frases muitas vezes incoerentes, mas que demonstram um forte desejo desse senhor em continuar vinculado à instituição e a memória militar, além de ostentar orgulhosamente uma identidade castrense.

Assim, se por um lado temos os ex-combatentes exaltando sua importância devido à vivência de um tenso cotidiano no litoral durante a guerra, por outro lado temos os veteranos descrevendo os aspectos diversos de sua experiência de guerra, as tristezas, alegrias e responsabilidades ultra mar. É importante ressaltar que mesmo dentro de cada segmento, seja dos ex-combatentes, seja dos veteranos, o que existe é uma homogeneidade relativa, pois se constituem de pessoas com experiências próximas, mas que foram sentidas e vivenciadas de forma única.

Perceber as estratégias de construção e manutenção de uma memória sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial implica estar em contato frequente com a heterogeneidade de fontes, de percepções e métodos de pesquisa. Significa tanto trabalhar com grande variedade de fontes históricas já existentes, como lançar mão de novos métodos de construção das mesmas.

A definição ou entendimento do que deve ser considerado fonte de pesquisa varia de acordo com nossas crenças teórico-metodológicas, uma vez que historiadores com posturas teóricas diferentes certamente tecerão divergentes comentários sobre a legitimidade ou não, por exemplo, de um relato oral como fonte histórica. Assim, acreditamos que o historiador acolhe como fontes aquilo que ele entende que contribuirá para a construção do conhecimento histórico do assunto o qual ele se propõe a investigar, ainda que este acolhimento seja relativo, tanto às suas convicções teóricas, quanto ao seu objetivo de pesquisa.

Deste modo, quando escolhemos trabalhar um objeto, nos dispomos a observálo pelos mais diversos ângulos possíveis, sem, no entanto, pretender abarcar qualquer tipo de totalidade de um dado acontecimento, abordando assim, as mais diversas representações existentes sobre ele, de acordo com as pertinências próprias ao oficio do historiador.

Destarte, acreditamos que a variedade das fontes se faz essencial para nossa pesquisa, posto que ela demonstra a complexidade do nosso objeto de estudo e nos convida ao desafio de novas abordagens, como observação de vídeos, aplicação de questionários, coleta e análise de entrevistas. Assim, tudo aquilo que nos oferece informações sobre este período, independente da ótica, da origem do documento ou das informações, sejam elas visuais, auditivas ou escritas, vem sendo percebido como fonte legítima para nossa pesquisa.

BIBLIOGRAFIA

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CABRAL, Francisco. Um Batalhão no Monte Castelo. São Paulo: Universidade de São Paulo, Tese de Doutorado, 1982.

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; Lisboa: Difel, 1990.

FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da força expedicionária brasileira, 1945-2000. FFLCH, História/ Universidade de São Paulo, tese de doutorado, 2003.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: vértice, editora Revista dos Tribunais. 1990. p. 25

LINS, Maria de Lourdes Ferreira. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo: Universidade de São Paulo, Dissertação de Mestrado, 1972 (publicada em 1975 pela editora Unidas, de São Paulo);

MAXIMINIANO, César Campiani. Onde Estão Nossos Heróis – Uma breve história dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edição do Autor, 1995.

MEIRA MATTOS, Carlos de. O Marechal Mascarenhas de Moraes e sua época. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1983, 2 vols.

MORAES, J.B. Mascarenhas de. Memórias / Marechal J.B. Mascarenhas de Moraes; 2aed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1984 p.130)

NEVES, Luis F.da Silva. A FEB – Força Expedicionária Brasileira: uma perspectiva histórica. 1992. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992.

NORRA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto história: revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História e do Departamento de História da Pontifica Universidade Católica de São Paulo n. 17. São Paulo: EDUC, 1998.

PALHARES, ten. Gentil. DE SÃO JOÃO Del-REI AO VALE DO PÓ: documentário histórico das ações do 11o-, 6o- e 1o- RI. São João Del-Rei: Gráfica Diário do Comércio. 1951.

SANDER, Roberto. O Brasil na Mira de Hitler: a história do afundamento de navios brasileiros pelos nazistas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um Soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2001

Fonte: www.abed-defesa.org

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

18 de Julho

Alguns veteranos carregam sinais visíveis do que foi seu serviço: membros amputados, cicatrizes e um certo olhar diferente. Outros podem carregar as evidências dentro de si mesmos...uma alma tocada pela tragédia da guerra jamais esquece as adversidades por que passou.

Exceto nos desfiles, os homens e mulheres que defenderam bravamente seus países não vestem emblemas ou fardas. Não conseguimos identificar um veterano de guerra logo que o vemos.

Quem é o veterano de guerra?

É aquele que passou seis meses na Arábia Saudita carregando galões de combustível nas costas, para garantir que seus companheiros dos tanques não ficassem sem combustível.

É a enfermeira - ou enfermeiro - que lutou contra a futilidade da vida e decidiu ser abnegado, refutando suas horas de sono em prol dos feridos.

É aquele que foi embora sendo uma pessoa e voltou outra, totalmente diferente - ou às vezes nem conseguiu voltar.

É o instrutor tático que nunca viu uma batalha sequer, mas salvou muitas vidas ensinando os soldados a cuidarem de si mesmos e de seus companheiros.

É aquele senhor idoso que está agora segurando uma sacola de supermercado, lento e pensativo, que ajudou a libertar inúmeras pessoas de campos de concentração nazistas, enquanto rezava o dia inteiro para poder voltar e abraçar sua família...e receber um afago da esposa quando viessem os pesadelos.

É aquele herói anônimo, que morreu nos campos de batalha ou nas profundezas do oceano, e não pôde ter seu valor reconhecido.

É uma pessoa comum, mas ainda assim um ser humano extraordinário, uma pessoa que ofereceu os mais importantes anos de sua vida a serviço de seu país, que sacrificou suas ambições para que outros não tivessem que sacrificar as deles.

A cada vez que víssemos algum veterano de guerra devíamos simplesmente lembrar de agradecê-los. É o melhor reconhecimento que a maior parte das pessoas precisa e, na maioria dos casos, significa mais do que quaisquer medalhas que eles possam ter ganho!

Fonte: Korean War Veterans Association

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

18 de Julho

Dos 30 ex-pracinhas homenageados, 24 vieram do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Eles chegaram à Base Aérea de Brasília a bordo de uma aeronave C-99 da Força Aérea Brasileira (FAB). Os veteranos de guerra seguiram, então, para o Congresso Nacional em uma carreata com diversos carros utilizados no conflito, entre eles uma Viatura Blindada de Combate M8 pertencente ao 16º Batalhão Logístico de Brasília. O comboio foi escoltado por 10 batedores do Batalhão de Polícia do Exército de Brasília.

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

A sessão solene foi coordenada pela Frente Parlamentar Mista de Revalorização Histórica da Força Expedicionária Brasileira, cujos objetivos são homenagear a memória daqueles que tombaram em combate durante a II Guerra Mundial e lutar pela valorização do soldado brasileiro e das Forças Armadas.

“A data é muito importante para nós, pois do efetivo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) convocada para ir à Itália, 80% não tinha nem o curso primário. Foram as pessoas mais modestas deste país que participaram efetivamente do conflito. E em termos de guerra, o resultado mais positivo alcançado proporcionalmente foi o dos brasileiros”, afirma o Capitão Divaldo Medrado, representante dos pracinhas na sessão.

Para o músico João Barone, baterista do grupo Paralamas do Sucesso, cujo pai pertenceu à FEB, a homenagem é uma forma de preservar a trajetória da participação dos pracinhas no conflito. “É muito bom manter essa história viva no momento em que a gente se preocupa em como ela vem sendo esquecida. Não podemos deixá-la que se apague de jeito nenhum”, ressalta Barone, que prestigiou a homenagem no Congresso.

A solenidade foi encerrada com a execução da Canção do Expedicionário.

Histórias

O encontro dos ex-pracinhas foi também um momento de relembrar as diversas histórias vivenciadas no front, como a do veterano Vinicius Vênus Gomes da Silva, 85 anos. Na época com 19 anos, o ex-pracinha servia na então Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, no Rio de janeiro. “Eu estava fazendo o curso para Cabo naquela ocasião e quando perguntaram quem gostaria de ir para o conflito defender o Brasil eu logo me coloquei à disposição. Depois dos exames médicos, segui para servir na equipe de saúde no primeiro grupo de caça”, recorda-se o ex-pracinha.

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

Uma das lembranças que não se apagam da memória do veterano de guerra é a de um companheiro atingido por uma granada.“Em determinada ocasião fui visitar um outro hospital perto do nosso no qual se atendia ex-combatentes. Havia vários feridos de guerra e encontrei um companheiro alvejado por uma granada. Os estilhaços deceparam seus membros inferiores e superiores. Além disso ele ficou cego. Esse foi o fato que mais chocou na minha vida de combatente. Lembro-me daquela situação em que a todo momento ele pedia que lhe tirassem a vida”, explica.

O próprio Capitão Medrado é personagem de uma história surpreendente. “Estávamos em monte Castelo quando o inimigo atacou da janela de umas casas. Tomei 13 tiros, mas ele também não teve um bom resultado, pois demos uma “bazucada” que não sobrou nada dele nem da metralhadora que estava portando”, ressalta o capitão.

“Minha mulher brinca comigo dizendo que o inimigo era muito ruim de tiro.”

Fonte: www.aer.mil.br

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

18 de Julho

As Guerras Mundiais e seus veteranos: uma abordagem comparativa

Resumo

As Guerras Mundiais deixaram para a posteridade dezenas de milhões de excombatentes, que retornaram aos lares transformados física e psicologicamente. Em seu retorno, enfrentaram problemas de toda sorte para a reintegração social. Neste artigo são abordados os processos de reintegração social dos excombatentes norte-americanos, franceses e ingleses, nas duas guerras mundiais. A principal conclusão é que, mais que a existência ou não de uma estrutura de apoio e programas de retorno dos combatentes à sociedade, a variável decisiva para definição do sucesso ou não da reintegração social foi a relação que a sociedade não-combatente travou com a guerra lutada e com seus combatentes. Em outras palavras, a aceitação ou não, entre a população civil, da participação de seus jovens nos conflitos, bem como a memória social dessas guerras, repercutiram profundamente na forma como esses milhões de jovens retornaram às suas vidas sociais e profissionais. Palavras-chave: veteranos de guerra; Primeira Guerra Mundial; Segunda Guerra Mundial.

Este artigo visa compreender, comparativamente, os processos de reintegração social de milhões de veteranos de guerra que, sobreviventes dos dois maiores conflitos da história da humanidade, marcaram profundamente as sociedades a que pertenciam. A ênfase, aqui, será dada a um tipo especial de combatente, maioria absoluta nessas duas guerras “totais”: o jovem conscrito, recrutado na vida civil e que, em seu retorno, teve de conviver com suas experiências e traumas, físicos e emocionais. Embora a abordagem não tenha a intenção de ser excludente, os ex-combatentes militares regulares têm aqui menor destaque, porque seu pertencimento à instituição militar produz outras experiências e respostas, que merecem análise mais específica do que a aqui apresentada. Outra escolha foi a da nacionalidade dos combatentes estudados. Neste artigo, a pesquisa concentrou-se nos ex-combatentes dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França, nações com mercado de trabalho concorrencial e vencedoras nas duas guerras mundiais. Por sua complexidade social e cultural, a experiência dos veteranos alemães requer uma discussão que as dimensões deste artigo não poderiam comportar.

A importância da conscrição universal

Os veteranos de guerra constituíram-se em problema social de vulto, desde a instauração, em várias nações do mundo, do recrutamento masculino universal, a partir da Revolução Francesa. Com efeito, ao ampliar a base de recrutamento das tropas, estendendo-a aos cidadãos, os Estados Nacionais ou órgãos centralizados de combate (no caso de guerras civis, como a de Secessão Americana) ganhavam reforços em quantidade e qualidade de mobilização, mas contraíam responsabilidades e compromissos que deveriam ser cumpridos, quando a guerra e a mobilização acabassem.

A conscrição produziu pelo menos duas transformações radicais nas nações que a adotaram. A primeira, de ordem política, foi a de cristalizar o culto à pátria, o sacrifício patriótico. Do ponto de vista militar, o exército de conscritos constituiu também uma verdadeira revolução. Significou exércitos reforçados na guerra e cidadãos educados “no civismo e amor à pátria” nos tempos de paz. Foi, sem dúvida, impulso decisivo para a profissionalização dos exércitos a partir do século XIX. A ampliação da base combatente correspondeu à necessidade de ampliar a estrutura orgânica das forças armadas. O oficialato deixou de ser apanágio exclusivo dos ramos aristocráticos e, com isso, a carreira militar abriu-se como fonte de oportunidades para jovens talentosos e ambiciosos. Ao invés de sobrenomes ilustres, podiam mostrar liderança e eficiência em combate. Além do mais, o desenvolvimento da arte da guerra nos séculos XIX e XX demandava estruturas complexas de treinamento, suprimento, comunicações, reforços etc., exigindo mobilização cada vez maior de combatentes e não-combatentes. Em suma, já na primeira metade do século XX, a guerra envolvia, direta ou indiretamente, toda a sociedade, antes, durante e depois do primeiro tiro.

Todas essas transformações produziam mudanças radicais nas formas pelas quais os combatentes se relacionavam com o Estado ou órgão centralizado que os recrutava. Embora com variações, a estrutura de recrutamento e serviço ativo pode ser assim resumida: em certa idade, jovens de todas as regiões deviam alistar-se, registrar-se junto às autoridades militares. Eram então selecionados aqueles considerados saudáveis e capazes de lutar em um eventual conflito. Nos estabelecimentos militares, em períodos que variavam de poucos meses a alguns anos, os assim selecionados aprendiam os fundamentos de combate com instrutores, geralmente praças e oficiais profissionais das forças regulares. Aprendiam também as virtudes cívicas, bem como reforçavam sua identidade nacional e grupal (pertencimento a unidades militares, como os regimentos, por exemplo). Findo o serviço militar, ficavam registrados para eventual convocação. Esta poderia acontecer quando as autoridades entendessem conveniente mobilizar os contingentes da reserva, em geral, na eventualidade de um conflito de proporções maiores do que aqueles aos quais as forças regulares pudessem responder ou atuar com eficiência.

Às vezes, durante o serviço militar, uma guerra eclodia, e eram então encaminhados para a retaguarda das linhas combatentes, para completar o treinamento e, posteriormente, entrar em ação. Enquanto estivessem em serviço ativo, seja em treinamento, seja mesmo em guerra, o Estado ou órgão centralizado responsabilizava-se por eles, pagando soldo, alojando-os, alimentando- os, equipando-os para combate, cuidando de sua saúde (se feridos ou doentes em combate) ou, em caso de morte ou desaparecimento, amparando suas famílias, na forma de pensão pecuniária. O Estado, assim, cobrava do cidadão seu dever militar. Em contrapartida, ao retirá-lo de seus afazeres, de seu emprego, de seus familiares, deveria responsabilizar-se por ele e, ao fim da guerra, restituir-lhe o máximo possível de sua vida anterior. Se o soldado tombasse em combate, o Estado teria o compromisso de indenizar sua viúva e/ou familiares por esse tributo de sangue. Se tivesse ficado ferido ou doente, deveria ser-lhe providenciado atendimento médico e amparo, no caso de incapacidade permanente. Mesmo quando sobrevivente e/ou curado, cabia ao Estado promover sua reintegração social e material à Nação pela qual colocou sua vida em risco.

A compreensão de que, em relação à conscrição, Estados Nacionais e cidadãos possuíam deveres recíprocos, demorou muitas décadas para consolidar- se. Somente quando o recrutamento para a guerra envolveu parcelas expressivas da população civil é que o problema tornou-se relevante o suficiente para não poder ser mais desprezado. Foi o caso da Guerra Civil Americana. Quando o conflito eclodiu, em 1861, sua abrangência, letalidade e espectro de destruição tornaram evidente que os problemas do pós-guerra seriam multiplicados, entre eles, o da reintegração social e econômica dos mutilados, incapacitados e neuróticos de guerra, bem como as pensões para os familiares dos combatentes mortos. Durante a guerra e nos anos seguintes, as pensões e benefícios concedidos foram crescendo em modalidades (variações de acordo com o tipo de incapacidade, graduação militar, número de filhos etc.), valor pecuniário e, principalmente, em número de beneficiados atendidos. Assim como os benefícios e beneficiários, cresceu também o aparato burocrático para administrar e fiscalizar sua concessão.

A razão para tamanha ampliação foi, segundo Theda Skocpol, política. Como o contingente de cidadãos combatentes perfazia 5% da população total do país, e cerca de 37% da população masculina economicamente ativa e votante dos estados da União, conceder benefícios às custas do Tesouro era um dos meios mais eficientes de conquistar seus votos. Contudo, com o passar dos anos, a força política dos veteranos de guerra decrescia à medida que sua proporção entre os eleitores diminuía e, simultaneamente, aumentava o rombo das contas públicas, o que implicava sacrifícios e mais impostos de outros grupos sociais. Para algumas lideranças políticas, havia sido criada uma casta de cidadãos privilegiados, o que seria avesso aos princípios norteadores da República americana.

Assim, três décadas depois da Guerra Civil, novas gerações votavam e se opunham aos benefícios aos veteranos, ou eram indiferentes a eles. Essa reação influenciou consideravelmente a política norte-americana de pensões e benefícios dos veteranos da Primeira Guerra Mundial, que diferentemente daquela da Guerra Civil, foi muito mais restritiva e parcimoniosa. Nesse caso, apenas acompanhou uma tendência geral de despreparo e mesmo indiferença das autoridades européias para com os problemas dos veteranos e incapacitados da Primeira Guerra Mundial.

O divisor de águas

A Primeira Guerra Mundial deixou como herança, além de destruição e morte, milhões de combatentes que sobreviveram, mas que jamais seriam os mesmos. Por quatro anos, homens que marchavam alegres para o front — quando de seu recrutamento — vivenciaram uma das experiências mais terríveis da história humana. A morte dessensibilizada, o sacrifício inútil de uma geração, a convivência física e psíquica com o horror de uma guerra cada vez mais sem sentido transformaram os combatentes em pessoas diferenciadas, marcadas pelo conflito.

Por sua vez, durante o conflito, nem as autoridades, tampouco a população civil das nações beligerantes se prepararam para o fato de que, terminada a tempestade da guerra, esta traria para sua vida a convivência com as massas de homens que nela lutaram, e que nela deixaram sua inocência, seus membros, seus sonhos, sua sanidade mental. Eram milhões de homens brutalizados, aleijados, deformados, psicologicamente arruinados ou traumatizados, procurando voltar à vida civil, retomar seus empregos, reativar seus laços sociais. Logo se perceberia que a mera concessão de pensões pecuniárias seria insuficiente, quantitativa e qualitativamente. Urgiam programas mais abrangentes para a resolução de problemas que deixaram de ser restritos aos combatentes, para afetar toda a sociedade. Dos governos à iniciativa privada, todos deveriam preocupar-se com a reintegração física, psíquica, social e econômica dos veteranos de guerra e sua contrapartida, a preparação dos que ficaram nos campos e cidades para a convivência com a face mais visível da guerra e de sua memória dolorosa e incômoda: o veterano. Sem saber o que fazer com as imensas massas de combatentes desmobilizados, tampouco com as consequências demográficas das baixas da guerra — famílias ceifadas, viúvas, órfãos etc. —, a população civil também jamais seria a mesma de antes da guerra.

Tal despreparo já era flagrante durante a guerra. Por volta de 1915-1916, à medida que os feridos considerados incapazes de voltar ao front retornavam à vida civil, encontravam toda sorte de dificuldades. Em alguns países como a França, a legislação relativa aos incapacitados de guerra ainda era a do século anterior, totalmente imprópria para as condições da época. Outro problema era obter a pensão de incapacidade, pois seria preciso provar que a incapacidade fora causada pela guerra. Na confusão dos combates, muitos ficavam sem os registros em ordem e tinham dificuldade em comprovar sua deficiência para uma incompetente e desdenhosa burocracia, mesmo quando isso parecia óbvio — a perda de braço ou perna, por exemplo.3 Outro óbice, que perduraria até muitos anos depois da guerra, era a desinformação dos próprios combatentes sobre seus direitos.

Perto do final da guerra, essas sociedades, que saudaram os jovens quando eles se encaminhavam para o front, viraram-lhes as costas ou demonstraram dificuldade em lidar com problemas de tal monta. Mutilados e deformados na França, por exemplo, somente tiveram reconhecidos seus direitos de reparação em 1925. Até então, os incapacitados franceses ficavam à sua própria sorte, mesmo com extremas dificuldades de encontrar emprego. Quando conseguiam, sofriam discriminações pela mutilação ou pelo fato de receberem uma pequena pensão, o que justificava, para os patrões, a redução de seus salários. Tão dramática quanto essa era a situação dos que padeciam de problemas psiquiátricos causados pela guerra: quando não eram abandonados nos asilos e manicômios, sofriam uma espécie sutil de “morte social” diante de seus parentes e amigos próximos. Além disso, os traumas psiquiátricos de guerra ainda eram tratados com desconfiança pela classe médica, ou mesmo com má vontade oficial, como no caso das autoridades inglesas, que geralmente rotulavam as manifestações de neurose de guerra como “fraude contra o Ministério das Pensões”.

Todos esses problemas se agravaram quando a guerra acabou, e milhões de soldados desmobilizados retornaram para suas casas. Esses homens, que passaram anos compartilhando o cotidiano brutal da guerra, que eram alimentados e amparados pelas autoridades militares, foram repentinamente desmobilizados e devolvidos às comunidades de origem, tão transformadas quanto eles. Frequentemente, os ex-combatentes encontravam dificuldades em voltar à vida familiar, depois de tanto tempo no exército. Por sua vez, as famílias também tinham dificuldades em compreender aqueles jovens e suas transformações durante a guerra. As notícias e correspondências de guerra censuradas não ajudaram a entender a natureza e o efeito dessas experiências. Heróis ou assassinos sanguinários, tais imagens não correspondiam à vivência dos combatentes. Em alguns países, constatou-se que uma parcela significativa dos casamentos anteriores à guerra fracassou depois do retorno dos soldados. Os índices de violência e maus tratos a familiares também cresceram.

Somado ao quadro de desajuste físico e social, havia o econômico: o desemprego foi, sem dúvida, o maior problema encontrado pelo ex-combatente. Embora houvesse legislação e incentivos de proteção (geralmente subsídios pagos pelos governos) e preferência de emprego ao veterano de guerra, os resultados foram decepcionantes. Os patrões empregavam os ex-combatentes, seja pelos compromissos do tempo de guerra, seja pelos subsídios, mas logo os substituíam pelos ocupantes anteriores. Como vários ex-combatentes apresentavam problemas físicos e comportamentais, era fácil encontrar “justificativa” para as dispensas. A recessão econômica dos anos pós-guerra piorou ainda mais a situação dos ex-combatentes, principalmente daqueles com alguma mutilação ou problema de saúde originado pela guerra.

Mesmo nos países em que a estrutura econômica e a manutenção de seu aparato produtivo intacto permitiam melhor absorção de mão-de-obra, como na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, os ex-combatentes vivenciaram dificuldades. Na Grã-Bretanha, em 1919, 80% dos homens que serviram no exército britânico haviam sido desmobilizados e, surpreendentemente, a quantidade de requerimentos de seguro-desemprego foi pequena. Poucos distúrbios e revoltas sociais foram registrados nesse período, o que sugere uma absorção inicial desse contingente de soldados que voltaram em busca de empregos. Todavia, nos anos seguintes, a euforia logo passou e os sinais de depressão econômica contraíram a capacidade de absorção de mão-de-obra e o desemprego voltou a ser uma ameaça. O problema agravou-se porque no campo, entre 1918 e 1921, houve uma considerável transferência de renda, provocada pelo surto de venda de terras em razão da morte de seus donos, ou de seus herdeiros, na guerra, ou mesmo da idade reduzida destes, que os impedia de assumir os negócios da produção familiar. Assim, no campo e na cidade, os veteranos de guerra e suas famílias enfrentavam muitas dificuldades, contra inimigos invisíveis como as leis do mercado, a indiferença ou mesmo a hostilidade da população não-combatente. As opções políticas não aceitavam meio termo: muitos desses ex-combatentes aderiam ao Partido Trabalhista ou ao fascismo inglês liderado por Oswald Mosley.

A consequência foi a fermentação social. A revolta por não encontrar o emprego que deixara, quando do alistamento, apesar das promessas oficiais, combinou-se explosivamente com a onda revolucionária na Europa, o que deixou as autoridades de prontidão, até mesmo em países sem tradição de partidos comunistas fortes, como Estados Unidos e Grã-Bretanha.8 É digno de nota que grupos cada vez maiores de ex-combatentes começaram a militar no movimento sindical, usando até mesmo táticas aprendidas na guerra para enfrentar a polícia. Em compensação, alguns empresários e autoridades governamentais esforçaram-se por cooptar veteranos para organizações conservadoras e de direita, que usavam os mesmos dispositivos táticos para combater greves e manifestações públicas. Essa situação conflituosa desnudava a iniquidade das políticas públicas para os veteranos, apesar do véu otimista das propagandas oficiais. Além disso, mostrava a todos o crescente impacto social dessas dezenas ou centenas de milhares de ex-combatentes que começavam a se organizar em associações e ligas, para a defesa de seus direitos, reivindicação de seus benefícios e, tão importante quanto o amparo oficial, para sua expressão social e política. A guerra em que participaram era, ao mesmo tempo, o vínculo comum e seu elemento diferenciador. Para muitos deles, era o inferno a ser evitado a todo custo. Mas para outros, era seu símbolo distintivo, enobrecedor. No confronto dessas duas tendências está uma das raízes mais profundas das políticas nacionais que conduziram a Europa, e depois o mundo, à maior de todas as guerras.

As associações de ex-combatentes

A imagem de grupos de homens desajustados perambulando por ruas e bares, sem emprego nem perspectiva, com rancores nacionalistas à flor da pele e indisfarçada nostalgia da camaradagem militarista dos tempos da guerra, povoa até hoje a concepção que muitos possuem sobre as organizações de veteranos da Primeira Guerra Mundial. É claro que a história daqueles que fundaram na Alemanha o Partido Nacional-Socialista, alguns deles combatentes da Primeira Guerra Mundial, contribuiu sobremaneira para reforçar essa imagem negativa. Militaristas, sectários ou mesmo fascistas: assim muitos contemporâneos os viram, assim alguns ainda os concebem, apesar de as pesquisas históricas nunca terem endossado tal versão.9 Muito pelo contrário, estas têm demonstrado que as respostas de ex-combatentes de cada nação estiveram bem longe da unanimidade. Parece evidente que o “Mito da Experiência da Guerra” — termo cunhado pelo historiador George Mosse para designar o processo de formação de uma crença comum de que o conflito criara grupos de homens especiais, forjados nas dificuldades e sacrifícios da guerra, distinguidos pela inquebrantável camaradagem e lealdade ao país — produziu um apelo de maior aceitação em nações cujos ex-combatentes combinavam a frustração da derrota (Alemanha, Áustria) ou da vitória perdida (Itália) com as inseguranças da Grande Depressão e com a violenta polarização entre esquerda e direita na política interna. Entretanto, mesmo nessas condições, os veteranos caracterizados por tal mentalidade, que radicalizaram suas ações concretas para os movimentos de cunho fascista, eram inicialmente minoria entre seus pares, e o sucesso popular de tal política não pode ser explicado apenas pela sua existência. Na realidade, por muitas outras razões, o terreno estava fértil para esse tipo de movimento

Diferentemente da crença comum de que essas associações foram criadas para perpetuar a irmandade das trincheiras, o fato é que possuíram e possuem muitos outros fins, além, é claro, de valorizar a fraternidade da luta em comum. Durante e, principalmente, depois da guerra, os veteranos agrupavamse para homenagear e relembrar os companheiros que morreram, relembrar os (poucos) bons momentos, ajudar mutuamente com as recordações mais amargas e difíceis, reunir forças para garantir o amparo dos companheiros mais necessitados e, principalmente, pressionar a opinião pública e as autoridades para o estabelecimento de leis e benefícios para aqueles que deram sua vida e sua saúde física e mental para a Nação à qual pertenciam. Paralelamente a essas reivindicações, nos países aqui abordados lembravam aos que ficaram em casa e às autoridades que era dever da Nação concorrer para que tal massacre nunca mais se repetisse. Em contraste, em países vencidos ou sem os supostos benefícios dos vencedores, como a Alemanha e a Itália, as associações reproduziam os rancores nacionais e insatisfações de seus membros. A história dos países beligerantes, no período entre guerras, não pode ser entendida sem prestar-se atenção a essas agremiações.

Em todos os países envolvidos na Primeira Guerra Mundial, surgiram e cresceram as associações de ex-combatentes. Inicialmente pulverizadas nas várias categorias de veteranos — associações de mutilados, de deformados, de neuróticos, de feridos, de retornados, de familiares dos mortos etc. — e mesmo em circunscrições regionais, seguiram a tendência posterior de unificação em grandes associações, de caráter nacional. Obviamente, o senso patriótico estava presente nessas agremiações, conquanto seja digno de nota que o pacifismo e o antimilitarismo também apareciam nos discursos e manifestações de associações, numa complexa combinação, como mostra o caso das associações francesas no período entre-guerras, que chegaram a somar mais de três milhões de franceses. Seu crescimento expressava uma tendência mundial:

Nem o fenômeno, nem sua amplitude, são restritos à França ... Todos os países empenhados na Primeira Guerra Mundial viram a constituição de poderosas associações de combatentes. Na Alemanha, ao lado do poderoso Stahlhelm, que passava de um milhão de aderentes, o Reichsbund conta com 400 mil membros e o Reichsverband com 120 mil. Com algumas outras associações, o efetivo dos combatentes alemães pode ser estimado em dois milhões. Na Áustria, a Zentralverband reivindicava 130 mil membros, enquanto na Itália, a Associazione Nazionale fra Mutilati contava com 450 mil, aos quais convém acrescentar os membros, bem mais importantes, da Associazione Nazionale Combatttenti. A American Legion, aberta a todos os mobilizados e não só aos membros do corpo expedicionário, ultrapassa um milhão de membros em 1931, diminuindo um pouco nos anos seguintes. No final das contas, foi a Inglaterra que conheceu o movimento combatente mais fraco, pois os efetivos da British Legion oscilaram entre 300 e 400 mil membros apenas, entre 1929 e 1939. A importância numérica dessas associações não é, portanto, um fato particular à França, mas um fenômeno universal. Por toda parte, os efetivos dessas associações correspondem à guerra que os fez nascer.

Os resultados desses esforços e lutas variaram de país para país. Originalmente apartidárias, logo as organizações de veteranos atraíram os interesses de partidos e grupos políticos. Por sua vez, para verem sancionadas as medidas de reintegração social, amparo e benefício de seus membros, as lideranças das organizações tinham, de uma maneira ou outra, de se envolver no debate político-partidário. Como grupo que realmente “fez” a guerra, opinava abertamente sobre as políticas de paz, de defesa nacional, de recrutamento militar, de relações exteriores etc., o que ampliava sua participação nas discussões políticas nacionais. Em alguns casos, tal envolvimento significava o perigo de cisão no movimento dos veteranos, em outros, a hegemonia política de um (ou mais) grupo(s) de ex-combatentes sobre outro(s).

As respostas das autoridades às reivindicações dos ex-combatentes variaram de país para país. Em comum, essas providências oficiais demoraram anos para serem oficializadas, demandaram acalorados debates nos parlamentos e ministérios e tiveram sua aplicação prejudicada pelos tortuosos labirintos burocráticos. Para as associações, as pensões e benefícios deveriam abranger os incapacitados, os familiares dos mortos em combate e os ex-combatentes em geral. Garantias de emprego para os ex-combatentes também eram reivindicadas, além de programas consequentes de integração social, como treinamento e ensino profissionais. Na realidade, contudo, os benefícios sancionados foram bem menores do que esperavam os veteranos e suas famílias. Os governos e parlamentares alegavam, geralmente, que, apesar de reconhecer que tais sacrifícios pela pátria deveriam ser recompensados, os Estados nacionais não disporiam de recursos para atendê-los. Outra justificativa para negar os benefícios seria a de que a percepção de uma pensão por parte de alguém, por ter sido combatente no passado, poderia criar “cidadãos diferenciados”, o que feriria os princípios de igualdade de todos perante o Estado.

Assim, as políticas de amparo e reintegração do ex-combatente se restringiram, em vários países, a alguma indenização para os incapacitados e familiares dos que morreram em combate, paga em uma única prestação ou mensalmente, quantia bastante reduzida e sem reajuste, apesar das espirais inflacionárias.

Espetáculos constrangedores de veteranos da Primeira Guerra Mundial perambulando pelas ruas na mendicância tornaram-se comuns em vários países. Nos Estados Unidos, a American Legion — a principal associação americana de veteranos, fundada logo depois da Primeira Guerra — e algumas redes de imprensa, como a de William Randolph Hearst, tentaram capitalizar a indignação geral para pressionar a aprovação de leis de amparo ao ex-combatente, em meio à Segunda Guerra Mundial. O problema era muito mais dramático que a simples concessão de alguns benefícios. Após a volta dos contingentes mobilizados aos Estados Unidos, uma onda de violência envolveu o país, com greves e conflitos com a polícia nas principais cidades, atentados, “caça às bruxas” de agentes federais contra supostos comunistas e anarquistas, e até o crescimento acelerado de organizações de extrema direita, como a Ku Klux Klan. Esse período, conhecido como o “Medo Vermelho”, ainda era agravado pelos conflitos entre os americanos “nativos” e os milhões de imigrantes, alguns dos quais lutaram pelos Estados Unidos na guerra e exigiam a igualdade e cidadania conquistada nas trincheiras.

Somente em 1924, após grande pressão de vários setores da sociedade americana e vetos dos presidentes Harding e Coolidge, o Congresso aprovou o que chamou de “Lei das Compensações Ajustadas”. Esta previa uma espécie de “bônus”, resgatável pelos veteranos apenas em 1945, na razão de 1,25 dólar por dia de serviço na guerra (Bennett, 2000, p.57-58).

A Grande Depressão ressaltou os problemas do desemprego e da dificuldade de reintegração social dos veteranos de guerra. A American Legion voltou a organizar movimentos sociais dos veteranos por todo o país. Marchas e manifestações eram organizadas em vários estados americanos, até o episódio dramático da violenta repressão de tropas federais à “Marcha para Washington”, em que aproximadamente 12 a 14 mil veteranos, “The Bonus Army”, acompanhados de suas famílias, além de outros manifestantes, peregrinaram até a capital do país, para pressionar o Congresso e o governo a aprovar o pagamento imediato do “bônus” para os ex-combatentes, em 1932. Como a aprovação não saía, os manifestantes acamparam precariamente nos arredores de Washington, e prometiam não sair de lá até conseguirem o adiantamento do bônus. O presidente Hoover mandou tropas para expulsá-los do local, o que foi feito com grande violência. Entre os comandantes da repressão estavam os generais Douglas MacArthur e George Patton, oficiais que tinham, durante a Grande Guerra, comandado homens como aqueles que estavam acampados. O saldo do conflito entre os manifestantes e as tropas do governo foi de vários mortos, entre eles crianças. Para alguns analistas da época, esse foi o canto de cisne do presidente Hoover, que pleiteava a reeleição. Entretanto, seu adversário e sucessor, o democrata Franklin Delano Roosevelt, manteve a política restritiva à ampliação dos benefícios, mas não conteve o movimento pelos bônus, cujo pagamento o Congresso finalmente aprovou em 1934.14 A lição, porém, foi aprendida.

A “Marcha para Washington” foi o ponto de inflexão das reivindicações dos veteranos americanos e das atitudes governamentais em face destes. O desdém foi logo substituído pela preocupação repressiva, e depois, pela compreensão generalizada de que o problema não seria resolvido com uma pensão pecuniária ou a permanente repressão aos manifestantes. Anos depois, tais tensões sociais seriam lembradas como motivo relevante para a criação de políticas de efetiva reintegração social dos veteranos depois da Segunda Guerra Mundial. Evitar tais tensões seria, portanto, um dos objetivos subjacentes das legislações de ex-combatentes da guerra seguinte. O outro objetivo seria transformar o veterano de mero pensionista, dependente do Estado, em combatente que o retorno ao lar transformou em cidadão produtivo (Dickson; Allen, 2004, p.266-277; cf. Bennett, 2000, p.121).

Esse espírito, que seria uma das bases do Welfare State do período posterior à Segunda Guerra Mundial, norteou, de maneira geral, as políticas de desmobilização e reinserção social dos ex-combatentes nas nações aliadas. Nenhum governo, aliado ou não, queria repetir os erros e descasos em assuntos que envolvessem veteranos de guerra. E ainda que o perigo de transformação de grupos de ex-combatentes em milícias paramilitares fascistas tenha praticamente desaparecido, tampouco se queria correr os riscos de uma revolução social depois da “guerra total”.

Segunda Guerra Mundial: melhor acompanhamento e legislação mais objetiva e eficaz

Quando a Segunda Guerra Mundial caminhava para o fim, aqueles que combatiam, bem como suas classes dirigentes, manifestavam preocupação com o futuro. O que aconteceria quando todos os contingentes humanos mobilizados voltassem, e as economias direcionadas para o esforço de guerra tivessem de reestruturar-se para a desejada paz?

À parte das considerações das políticas diplomáticas de vencedores e vencidos, o destino dos ex-combatentes teria agora uma atenção mais específica. Em alguns países, antes mesmo de se configurar a vitória, já havia comissões de estudo, designadas pelos governos nacionais, para definir políticas substantivas de reintegração física, social e econômica dos desmobilizados, feridos e incapacitados de guerra. O temor de repetir os equívocos do pósguerra anterior era grande, mas as sociedades, a guerra e os seus veteranos já não eram mais os mesmos. O melhor acompanhamento dos problemas físicos, materiais, psicológicos e sociais dos ex-combatentes, leis mais efetivas, a natureza distinta da Segunda Guerra e a maneira diferente de como a guerra seria lembrada pelos combatentes, pelos que ficaram no front doméstico e pelas gerações posteriores, contribuíram para desenvolver uma nova configuração política e social dos veteranos de guerra.

França: L’étrange Défaite, L’étrange Victoire

A “estranha derrota” para a Alemanha, como definiu o historiador Marc Bloch, marcou profundamente a forma como os franceses vivenciaram e recordaram a Segunda Guerra Mundial. Já não havia mais o poilu 15 mítico, símbolo da vitória e da união nacional. As divisões políticas internas, que geraram os colaboracionistas, os membros da Resistência e aqueles que ora simpatizavam com um lado, ora com o outro, acabariam por contribuir muito para definir o status social dos veteranos franceses dessa guerra. Eram, na maioria, veteranos vencidos de uma guerra ganha.

Quando a França se rendeu formalmente, em 22 de junho de 1940, 1 milhão e 600 mil homens foram desmobilizados. Outros 1 milhão e 200 mil se tornaram prisioneiros de guerra, em campos de prisioneiros e de trabalho alemães. Para os que ficaram na França, havia pouca escolha além de tentar retornar ao emprego original, conseguir outro, ou recrutar-se nos impopulares “Serviços de Trabalho Obrigatório” (STO). Nesse programa, criado sob Vichy, aproximadamente 700 mil franceses trabalharam em indústrias alemãs, muitos deles forçados pelo desemprego ou iludidos por uma hipotética troca de trabalhadores por prisioneiros de guerra franceses confinados na Alemanha, o que acabou nunca acontecendo.

O exército francês, porém, não desapareceu completamente. Os ocupantes vingaram-se das restrições de Versalhes e autorizaram aos franceses os mesmos cem mil homens de contingente máximo que haviam sido “permitidos” às forças armadas alemãs depois da Primeira Guerra Mundial. Para substituir o serviço militar e ocupar os jovens desmobilizados “sãos” e “unidos”, o regime criou as “oficinas da juventude” (Chantiers de Jeunesse), a partir de junho de 1941. Muitos de seus instrutores foram recrutados dentre os ex-combatentes, pertencentes à Légion Française des Combattants. Essa instituição, difusora dos novos valores sob o regime de Vichy, havia reagrupado as associações de ex-combatentes. Sua existência dividia as opiniões. Para alguns, estimulava uma resistência futura ao alemão. Para outros, apenas executava a doutrinação de valores de direita e de colaboração com o inimigo invasor.

Os veteranos envolvidos nessas atividades eram minoria entre seus pares. A maioria amargava quieta a Ocupação e a falta de união nacional, que a seu ver, havia sido a causa da derrota. Restava, ainda, a Resistência. Esta reunira, em sua heterogeneidade, contingentes diversos de franceses e francesas, alguns dos quais veteranos da guerra anterior e grupos de desmobilizados de 1940. A exigência cada vez maior de “profissionalismo” e conhecimentos militares nas atividades clandestinas contava a favor desses combatentes que sonhavam com sua revanche. Constituíam, porém, minoria entre os resistentes.

Os resistentes eram, por sua vez, minoria pouco expressiva numericamente na sociedade francesa. Sua ação, contudo, figura até hoje no plano mais elevado da história e da memória da guerra na França, seja em sua versão gaullista, seja em sua versão comunista. São os únicos “combatentes” franceses efetivamente comemorados. Sua existência mítica fixou-se no tempo, principalmente depois da libertação da França, pelas tropas anglo-americanas, em 1944.

O governo provisório de De Gaulle iniciou o retorno dos deportados e prisioneiros de guerra, inicialmente na França e, com a rendição da Alemanha em maio de 1945, em toda a Europa. A população francesa esperou, angustiada a volta dos dois milhões de “ausentes”, como eram chamados os franceses aprisionados na Alemanha, ou forçados a trabalhar em fábricas alemãs vestindo seus uniformes.

O recém-criado Ministério de Prisioneiros, Deportados e Refugiados propôs leis e benefícios aos repatriados: bônus de mil francos a cada um, cartões de racionamento de valor dobrado para alimentos, mudas de roupas novas, cupom para aquisição de sapatos, cupons de cigarro nos postos da fronteira, duas consultas médicas gratuitas e um feriado pago ao beneficiado e sua esposa, quando do seu retorno à França. Além desses benefícios, o Ministério estimulava e apoiava coletas de fundos nas cidades, para rateio entre os retornados locais. Muitas dessas coletas eram organizadas pelas antigas associações de ex-combatentes, que retomaram seu funcionamento.

À medida que os deportados e prisioneiros de guerra retornavam, chegavam também as notícias e imagens dos campos de concentração e extermínio. Isso revoltou a população, principalmente contra os colaboracionistas notórios. Insinuava-se novamente a cisão, justamente quando os franceses se reencontravam com os seus:

Homens e mulheres festejaram o retorno dos seus próximos. Eles não se recolheram em vergonha. O problema ... não foi que os deportados causaram embaraço, desconforto, mas que eles colocaram uma contradição insolúvel para o mito fundador da França do pós-guerra ... Os deportados subverteram o princípio mítico de que todos foram, igualmente, vítimas, porque sua presença física deixava claro que alguns franceses sofreram extraordinariamente pela Libertação da França, enquanto outros tiraram proveito da sua ocupação ... Daí, por uma necessidade política, o “Retorno” foi esquecido. (Koreman, 1997, p.21)

Destarte, o veterano francês da Segunda Guerra Mundial carregava consigo, com algum constrangimento, a derrota e a vitória. Seu lugar não era, como na guerra precedente, autoconcebido como apartado da sociedade francesa, com sua experiência única de camaradagem, bravura e união nacional. Não foram somente eles e seus companheiros que sofreram os horrores da guerra, pois a população civil, desarmada, também sofrera perdas terríveis. Não precisou ir às ruas protestar contra a indiferença das autoridades às reivindicações de benefícios e emprego. Suas associações não foram pródigas em construir monumentos “à vitória”, “aos mortos” ou mesmo “à paz entre as nações”. Tampouco foram suas associações “escolas de civismo, patriotismo e cidadania”. A “pátria em armas”, o “espelho da nação”, a massa de ex-combatentes refletia suas divisões e constrangimentos. As consequências apareceram anos depois, quando 2 milhões e 700 mil soldados partiram para lutar na Argélia, mobilização a que a população francesa deu de ombros.

Ao final da década de 1990, as autoridades francesas aboliram o serviço militar obrigatório. A era da conscrição deu lugar aos soldados profissionais. A “nação em armas” cedeu, lentamente, seu lugar para as “armas da nação”.

Grã-Bretanha: a desmobilização bem sucedida

O governo inglês começou seus estudos sobre as providências a serem tomadas no pós-guerra no final de 1941, embora apenas no final de 1943 tenha sido decidida e anunciada a política a ser adotada. A proposta — que estipulava uma pequena contribuição mensal, o selo-seguro — granjeou rápida popularidade. Não era para menos: os benefícios seriam estendidos dos contribuintes para suas famílias, viúvas, órfãos e crianças em geral. Mas essa era apenas a parte visível do iceberg. Na realidade, as autoridades inglesas visavam integrar a futura desmobilização, de milhões de homens, com a progressiva recolocação dos ex-combatentes na força de trabalho civil, com o esforço de reconstrução das edificações bombardeadas e construção de novas, e, por fim, com a remoção dos controles da economia de guerra. Destarte, os três objetivos da desmobilização foram assim definidos: a) continuidade das atividades militares essenciais; b) provimento da força de trabalho de acordo com a reconstrução econômica; c) satisfação das expectativas populares.

A desmobilização de 1945 foi desencadeada em um ritmo muito mais lento e suave que a de 1919. Apenas em dezembro de 1946 é que o trabalho de desmobilização cessou: 4 milhões e 250 mil combatentes haviam voltado para casa. Não se pode esquecer que o governo inglês ainda manteve muitos homens nas colônias e protetorados de ultramar (Índia, Pérsia, Egito, Palestina etc.), bem como em regiões ocupadas durante a guerra (Alemanha, Grécia etc.), o que também aliviou as pressões por emprego. Os atrasos no repatriamento dos soldados criaram, contudo, muitas tensões, especialmente em relação aos postos de trabalho. Assim como havia conseguido ao fim da Primeira Guerra Mundial, o governo britânico inicialmente logrou direcionar a economia sem taxas de desemprego alarmantes. Mas, de maneira análoga à do período posterior à Grande Guerra, a fase de euforia foi seguida de uma depressão econômica. Dessa maneira, pode-se concluir que, como exercício de um processo administrativo, a desmobilização inglesa foi um sucesso. Mas como contribuição para a planejada reconstrução econômica, seus resultados foram mais modestos. O planejamento era subordinado, na ordem, à política e às forças do mercado. Felizmente, para as autoridades inglesas, quando a crise chegou, havia o Plano Marshall.

Os veteranos ingleses da Segunda Guerra Mundial, assim como os da Primeira, “não se tornaram um grupo político separado e violento, como aconteceu em outros países”. Reunidos na Royal British Legion, organizavam-se de maneira mais ou menos democrática e exerciam pressão, quando necessário, sobre parlamentares para discussão e aprovação de leis de seu interesse. Mas suas atividades mais usuais continuaram sendo as beneficentes e sociais. A “Batalha da Inglaterra” integrou as lutas dos combatentes das forças expedicionárias e dos que vivenciaram o terror dos bombardeios no front doméstico.

Estados Unidos: O G. I. Bill e o aperfeiçoamento da cidadania

Na história norte-americana, a Segunda Guerra Mundial ficou conhecida como “a boa guerra”. Com efeito, comparada às outras guerras e conflitos em que tropas americanas tiveram participação, como a Primeira Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e, principalmente, a Guerra do Vietnã, o relevo da Segunda Guerra Mundial é marcante. Além do consenso geral de que os Estados Unidos lutaram por uma “boa causa”, a Segunda Guerra Mundial evoca boas lembranças nesse país por ter sido a alavanca da consolidação de sua hegemonia no mundo capitalista. Mas um fato permanece, com frequência, esquecido: para a maioria dos soldados americanos que voltaram daquela guerra, as oportunidades de aperfeiçoamento pessoal e material foram ampliadas, ao invés de serem restringidas pela natural retração das economias do pós-guerra.

O que propiciou tamanha crença foi um conjunto de leis simples, mas eficientes: o G. I. Bill of Rights, sancionado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt em 21 de junho de 1944, ou seja, quase um ano antes de a guerra encerrar-se na Europa e mais de um ano antes de seu fim no Teatro de Operações do Pacífico.

Muitos projetos de lei para reintegração social e material do ex-combatente foram discutidos no Congresso americano e na Casa Branca. A maioria, porém, prescrevia apenas indenizações, bônus e seguros-desemprego. A idéia de integrar o combatente retornado à sociedade através de um estímulo ao seu aperfeiçoamento educacional e profissional não surgiu das escrivaninhas do governo, mas de pressões de deputados, educadores, jornalistas e membros da American Legion (Bennett, 2000, p.185 ss).

O G. I. Bill, como ficou conhecido, oferecia aos veteranos americanos qualificados — que estiveram em serviço ativo nas forças combatentes por pelo menos 90 dias sem punição ou falta grave — quatro maneiras de aprimorar suas condições socioeconômicas quando retornassem para a América. O primeiro benefício criou o United States Employment Service, que ajudaria os veteranos a encontrar empregos que pudessem ser adequados, o quanto possível, às suas habilidades profissionais. O segundo benefício concedia ao veterano desempregado a percepção de um ano de indenização por desemprego, na razão de 20 dólares por semana. O terceiro benefício estabelecia que a Veterans Administration garantisse empréstimos aos veteranos para a aquisição ou construção de casa, fazenda ou pequeno negócio de veteranos, como uma espécie de fiadora, livrando os ex-combatentes do fantasma da hipoteca. O quarto benefício garantiria o pagamento dos estudos superiores e/ou profissionalizantes dos veteranos por quatro anos, em qualquer estabelecimento de ensino do país, fosse ele a prestigiada universidade de Yale, ou o menor Poddunk College.

As consequências dessa lei logo se fizeram sentir. Dois anos antes da guerra, aproximadamente 160 mil cidadãos eram graduados por ano no ensino superior americano. Em 1950, esta cifra já era de 500 mil graduados por ano. Como a lei previa aperfeiçoamento educacional em vários níveis, no ensino secundário e no profissionalizante, o número de contemplados elevou-se a milhões de cidadãos. Da população de 15 milhões e 400 mil veteranos americanos da Segunda Guerra Mundial, aproximadamente 7 milhões e 800 mil (50,5%) receberam educação ou treinamento pela lei, 2 milhões e 200 mil deles em universidades.

O G. I. Bill sempre foi considerado o modelo por excelência do melhor tratamento do problema do retorno de um grande contingente de combatentes. É um verdadeiro mito. Políticos e scholars consideram-no um retumbante sucesso.23 Entretanto, pesquisa recente mostrou que, se o sucesso realmente ocorreu, este não foi para todos. Os negros do Deep South (Georgia, Alabama, Mississippi, Louisiana) não desfrutaram tão eficientemente desses benefícios evocados. Na realidade, os preconceitos e segregações raciais do Sul norteamericano falaram mais alto que os direitos estabelecidos no G. I. Bill. Os veteranos negros encontraram dificuldades para conseguir emprego, e quando o obtinham, era em posições e funções subalternas, ainda que tivessem especializações. Da mesma forma, o recebimento do auxílio-desemprego era dificultado ao máximo, assim como a criação do próprio negócio a partir de empréstimos afiançados pelo próprio governo. O que fizeram os veteranos negros? Alguns organizaram-se em grupos de pressão por seus direitos e conseguiram avanços. Nessa luta reside um dos embriões das lutas pelos direitos civis das décadas de 1950 e 1960.

O balanço global do G. I. Bill foi considerado favorável pelas autoridades civis e militares do país. Tal lei foi base de outras, em favor dos veteranos das guerras em que os Estados Unidos se envolveram, como a da Coréia e a do Vietnã, embora sem a mesma abrangência e impacto social. Isso pode ser explicado não pela legislação em si, mas pelo próprio clima de recepção favorável da “boa guerra” nos Estados Unidos. Quando a participação de conscritos americanos deixou de ter o apelo de uma causa justa, as dificuldades dos veteranos voltaram. Foi o caso dos veteranos da Guerra do Vietnã (Severo; Milford, 1989, p.317-381).

As consequências do G. I. Bill são debatidas até a atualidade, pois desde o final da Segunda Guerra Mundial se concebe a reintegração dos veteranos não apenas como problema de assistência, mas também como indutor de práticas sociais saudáveis em regimes democráticos. E embora exista um conjunto de leis posteriores — há pelo menos um G. I. Bill para veteranos de cada guerra travada pelos Estados Unidos —, é notável que a geração de veteranos da Segunda Guerra Mundial seja caracterizada como aquela na qual o engajamento cívico e a participação política tenham obtido os melhores resultados. Assim como nos outros países aqui examinados, a política de recepção e reintegração social dos ex-combatentes produziu somente resultados satisfatórios quando houve a combinação de uma política governamental adequada e a aceitação social do sacrifício de sangue do ex-combatente.

Considerações finais

Ao final deste artigo, algumas conclusões podem ser expostas. A primeira é a afirmação da importância do estudo relacionado aos ex-combatentes, suas associações, sua expressão política e a maneira como contribuem para moldar o impacto da guerra nas sociedades pelas quais lutaram. Sua expressão numérica e política não pode ser desprezada. Em segundo lugar, foi possível compreender as diferenças entre as expressões políticas e sociais dos veteranos após cada conflito. Depois da Primeira Guerra Mundial, desenvolveu-se o “espírito de 1914”, uma crença generalizada entre os ex-combatentes de que pertenciam a um grupo especial, moldado a ferro e fogo nas trincheiras, e que reunia em si os predicados de lealdade, camaradagem, patriotismo e honra. Essa crença variou de nação para nação e mostrou que foi a integração complexa entre as contingências políticas, sociais e culturais de cada país que determinaram as respostas à política dos veteranos. Assim, na França, tal mito serviu para a pregação de pacifismo e apelos à cidadania. Na Alemanha, ao contrário, foi entendido como um apelo à revanche e ao nacionalismo excludente. Em outros países, como Grã-Bretanha e Estados Unidos, serviu mais para as finalidades pragmáticas de concessão de benefícios e pensões.

Esse mito, porém, não vicejou ao final da Segunda Guerra Mundial. As razões principais foram a natureza diferenciada da própria guerra e o impacto brutal da barbárie nazista e de sua glorificação da guerra, na memória das sociedades beligerantes. A expressão “sociedade beligerante” cabe aqui perfeitamente. Na Segunda Guerra Mundial, toda a sociedade se envolveu e, ao seu modo, participou da luta. A linha entre a frente de batalha e a frente doméstica nunca antes fora tão delgada e tão facilmente atravessada. Dessa forma, nenhum grupo combatente poderia arrogar a si as honras e os fardos da guerra. Ao invés de diferenciar, essa guerra tornou todos um pouco vítimas e um pouco algozes na barbárie.

Em terceiro lugar, observou-se certa evolução na forma pela qual as autoridades públicas trataram o problema da desmobilização e da reintegração social e econômica dos veteranos de guerra. Despreparados ao final da Primeira Guerra, os governos elaboraram planejamentos sociais de médio e longo prazo para o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Os resultados, apesar dos problemas ocasionais, foram satisfatórios, conquanto não tenham sido o ideal, em todos os países.

Por fim, percebeu-se uma clara relação entre o tipo de guerra combatida, a aceitação ou não da população civil na participação de seus jovens no conflito e a memória coletiva dessas guerras. Essa relação, que pode ser aplicada até mesmo em conflitos posteriores, como o caso das guerras da Argélia e do Vietnã, mostra as transformações pelas quais passou o ideal de recrutamento universal, sua expressão política e seu futuro, na guerra contemporânea. Nos últimos conflitos que envolveram nações, como um todo, representadas por seus exércitos regulares, a memória de guerra está cada vez mais restrita a grupos menores e profissionalizados de soldados, e não mais ao cidadão-soldado, expressão máxima da Nação.

Portanto, mais que a existência ou não de uma estrutura de apoio e de programas de retorno dos combatentes à sociedade, a variável decisiva para definição do sucesso ou não da reintegração social foi a relação que a sociedade não-combatente travou com a guerra lutada e com seus combatentes. Em outras palavras, a aceitação ou não, pela população civil, da participação de seus jovens nos conflitos, bem como a memória social dessas guerras, repercutiram profundamente na forma como esses milhões de jovens retornaram às suas vidas sociais e profissionais.

Fonte: www.scielo.br

Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

A Segunda Guerra Mundial, na qual o Brasil teve grande participação na Itália, sendo o único regimento a render uma divisão alemã inteira, a 148º. Dentre os prisioneiros 2 generais, 800 oficiais e 14.700 soldados. Mas os grandes heróis que renderam a divisão não foram lembrados. Aos 25.000 pracinhas que participaram da guerra, a todos os pracinhas que caíram na guerra e depois dela faço esta pequena homenagem.

RESISTIR. NÃO ESQUECER

Sobreviver a uma guerra não é tarefa fácil. Sobreviver a uma guerra mundial então... Para os cerca de 450 brasileiros que morreram na Europa entre 1943 e 1945, lutando contra alemães e italianos restam as lágrimas e a certeza: morreram como heróis. Para os outros 25 mil brasileiros que voltaram, restaram a luta contra a falta de apoio, o esquecimento, o descaso e, muitas vezes, o preconceito de um País que confundiu o amor e respeito a seus veteranos de guerra com o desprezo pela ditadura militar. Mas nunca é tarde para reconhecer aqueles que resistiram duas vezes: à guerra e ao esquecimento. São todos heróis.

Montanhas de livros e filmes foram e continuam sendo produzidos nos Estados Unidos e na Europa sobre seus principais heróis da Segunda Guerra Mundial. Pode ser o atirador de tocaia russo que conseguiu combater e sobreviver a Stalingrado; ou o piloto de bombardeiro britânico que participa de um ataque ousado contra represas alemãs; ou o submarinista americano que corre o altos riscos para afundar um navio japonês. Ou mesmo um alemão que se arrisca a salvar judeus dos campos de extermínio nazistas.

Já no Brasil, o que existe basicamente é um grande silêncio sobre nossa participação nessa guerra, cortandoesporadicamente por um livro, um docymentário, uma rara menção em filme ou série de televisão. Onde eatão nossos heróis? Porque não são celebrados? Os historiadores Cesar Campani Maximiano que escreveu o livro Onde Estão nosso Herois - Uma breve história dos Brasileiros na 2ª Guerra.

Alguns trechos de livros e idéias de historiadores irei citar

"A experiência de guerra não ecoou na sociedade brasileira, como ocorreu na sociedade brasileira, como ocorreu nos EUA ou na Europa. Os americanos mobilizaram 16 milhões de combatentes, a Europa foi diretamente afetada"

"São poucos os veteranos em nosso meio considerando-se a população total do país. Então diferentemente de outros países, onde você eventualmente tem como um vizinho, e não é difícil tê-lo sob o mesmo teto, aqui são poucos os que encontramos, e acredito que seja um fator a mais para a nossa falta de atenção sobre o assunto."

Veteranos como Gerson Machado Pires, que comandou um pelotão de infantaria e viu amigos morrerem ao seu lado. Ele foi voluntário para a guerra, mas confessava que tinha receio de como se comportaria em açao. Quando viu que conseguiria dar conta do recado, teve um grande alívio. Era de uma honestidade marcante.

Outro veterano impressionante era Alberto Martins Torres, que não só participaria do afundamento de um submarino alemão, o U-199, ao Largo do Rio de Janeiro, como foi para a Itália no 1º Grupo de Caça. Pilotou seu P-47 em 99 missões. Era um grande prazer ouvir-lo falar não apenas de suas façanhas - veteranos são heróis de verdade não ficam se vangloriando de seus feito - , mas das pequenas coisas da guerra.

Gerson Machado Pires e Alberto Martins Torres já morreram, assim como muitos outros.

Não é só a quantidade pequena de ex-combatentes que afeta o modo do país vê seus heróis de guerra. A questão envolve o relacionamento em geral entre civis e militares ao longo da história - especialmente aquela mais recente, durante e depois do regime militar.

Fonte: www.erepublik.com

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