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Dia da Língua Nacional

 

21 de Maio

História

O período pré-românico

Os linguistas têm hoje boas razões para sustentar que um grande número de línguas da Europa e da Ásia provêm de uma mesma língua de origem, designada pelo termo indo-europeu. Com exceção do basco, todas as línguas oficiais dos países da europa ocidental pertencem a quatro ramos da família indo-européia: o helênico (grego), o românico (português, italiano, francês, castelhano, etc.), o germânico (inglês, alemão) e o céltico (irlandês, gaélico). Um quinto ramo, o eslavo, engloba diversas línguas atuais da Europa Oriental.

Por volta do II milênio a.C., o grande movimento migratório de leste para oeste dos povos que falavam línguas da família indo-européia terminou. Eles atingiram seu habitat quase definitivo, passando a ter contato permanente com povos de origens diversas, que falavam línguas não indo-européias. Um grupo importante, os celtas, instalou-se na Europa Central, na região correspondente às atuais Boêmia (República Tcheca) e Baviera (Alemanha).

lgumas línguas da Europa no II milênio a.C.

Povos de línguas indo-européias: germanos, eslavos, celtas, úmbrios, latinos, oscos, dórios.

Povos de origens diversas: íberos, aquitanos, lígures, etruscos, sículos.

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Os celtas estavam situados de início no centro da Europa, mas entre o II e o I milênios a.C. foram ocupando várias outras regiões, até ocupar, no século III a.C., mais da metade do continente europeu. Os celtas são conhecidos, segundo as zonas que ocuparam, por diferentes denominações: celtíberos na Península Ibérica, gauleses na França, bretões na Grã-Bretanha, gálatas no centro da Turquia, etc.

O período de expansão celta veio entretanto a sofrer uma reviravolta e, devido à pressão exterior, principalmente romana, o espaço ocupado por este povo encolheu. As línguas célticas, empurradas ao longo dos séculos até as extremidades ocidentais da Europa, subsistem ainda em regiões da Irlanda (o irlandês é inclusive uma das línguas oficiais do país), da Grã-Bretanha e da Bretanha francesa. Surpreendentemente, nenhuma língua céltica subsistiu na Península Ibérica, onde a implantação dos celtas ocorreu em tempos muito remotos (I milênio a.C.) e cuja língua se manteve na Galiza (região ao norte de Portugal, atualmente parte da Espanha) até o século VII d.C.

O período românico

Embora a Península Ibérica fosse habitada desde muito antes da ocupação romana, pouquíssimos traços das línguas faladas por estes povos persistem no português moderno.

A língua portuguesa, que tem como origem a modalidade falada do latim, desenvolveu-se na costa oeste da Península Ibérica (atuais Portugal e região da Galiza, ou Galícia) incluída na província romana da Lusitânia. A partir de 218 a.C., com a invasão romana da península, e até o século IX, a língua falada na região é o romance, uma variante do latim que constitui um estágio intermediário entre o latim vulgar e as línguas latinas modernas (português, castelhano, francês, etc.).

Durante o período de 409 d.C. a 711, povos de origem germânica instalam-se na Península Ibérica. O efeito dessas migrações na língua falada pela população não é uniforme, iniciando um processo de diferenciação regional. O rompimento definitivo da uniformidade linguística da península irá ocorrer mais tarde, levando à formação de línguas bem diferenciadas. Algumas influências dessa época persistem no vocabulário do português moderno em termos como roubar, guerrear e branco

A partir de 711, com a invasão moura da Península Ibérica, o árabe é adotado como língua oficial nas regiões conquistadas, mas a população continua a falar o romance. Algumas contribuições dessa época ao vocabulário português atual são arroz, alface, alicate e refém.

No período que vai do século IX (surgimento dos primeiros documentos latino-portugueses) ao XI, considerado uma época de transição, alguns termos portugueses aparecem nos textos em latim, mas o português (ou mais precisamente o seu antecessor, o galego-português) é essencialmente apenas falado na Lusitânia.

O galego-português

No século XI, à medida que os antigos domínios foram sendo recuperados pelos cristãos, os árabes são expulsos para o sul da península, onde surgem os dialetos moçárabes, a partir do contato do árabe com o latim.

Mapa da reconquista cristã do território de Portugal

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Com a Reconquista, os grupos populacionais do norte foram-se instalando mais a sul, dando assim origem ao território português, da mesma forma que, mais a leste na Península Ibérica, os leoneses e os castelhanos também foram progredindo para o sul e ocupando as terras que, muito mais tarde, viriam a se tornar no território do Estado espanhol.

Com o início da reconquista cristã da Península Ibérica, o galego-português consolida-se como língua falada e escrita da Lusitânia. Em galego-português são escritos os primeiros documentos oficiais e textos literários não latinos da região, como os cancioneiros (coletâneas de poemas medievais):

Cancioneiro da Ajuda

Copiado (na época ainda não havia imprensa) em Portugal em fins do século XIII ou princípios do século XIV. Encontra-se na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa. Das suas 310 cantigas, quase todas são de amor.

Cancioneiro da Vaticana

Trata-se do códice 4.803 da biblioteca Vaticana, copiado na Itália em fins do século XV ou princípios do século XVI. Entre as suas 1.205 cantigas, há composições de todos os gêneros.

Cancioneiro Colocci-Brancutti

Copiado na Itália em fins do século XV ou princípios do século XVI. Descoberto em 1878 na biblioteca do conde Paulo Brancutti do Cagli, em Ancona, foi adquirido pela Biblioteca Nacional de Lisboa, onde se encontra desde 1924. Entre as suas 1.664 cantigas, há composições de todos os gêneros.

O português arcaico

À medida em que os cristãos avançam para o sul, os dialetos do norte interagem com os dialetos moçárabes do sul, começando o processo de diferenciação do português em relação ao galego-português. A separação entre o galego e o português se iniciará com a independência de Portugal (1185) e se consolidará com a expulsão dos mouros em 1249 e com a derrota em 1385 dos castelhanos que tentaram anexar o país. No século XIV surge a prosa literária em português, com a Crónica Geral de Espanha (1344) e o Livro de Linhagens, de dom Pedro, conde de Barcelos.

Entre os séculos XIV e XVI, com a construção do império português de ultramar, a língua portuguesa faz-se presente em várias regiões da Ásia, África e América, sofrendo influências locais (presentes na língua atual em termos como jangada, de origem malaia, e chá, de origem chinesa). Com o Renascimento, aumenta o número de italianismos e palavras eruditas de derivação grega, tornando o português mais complexo e maleável. O fim desse período de consolidação da língua (ou de utilização do português arcaico) é marcado pela publicação do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em 1516.

O português moderno

No século XVI, com o aparecimento das primeiras gramáticas que definem a morfologia e a sintaxe, a língua entra na sua fase moderna: em Os Lusíadas, de Luis de Camões (1572), o português já é, tanto na estrutura da frase quanto na morfologia, muito próximo do atual. A partir daí, a língua terá mudanças menores: na fase em que Portugal foi governado pelo trono espanhol (1580-1640), o português incorpora palavras castelhanas (como bobo e granizo); e a influência francesa no século XVIII (sentida principalmente em Portugal) faz o português da metrópole afastar-se do falado nas colônias.

Nos séculos XIX e XX o vocabulário português recebe novas contribuições: surgem termos de origem grecolatina para designar os avanços tecnológicos da época (como automóvel e televisão) e termos técnicos em inglês em ramos como as ciências médicas e a informática (por exemplo, check-up e software). O volume de novos termos estimula a criação de uma comissão composta por representantes dos países de língua portuguesa, em 1990, para uniformizar o vocabulário técnico e evitar o agravamento do fenômeno de introdução de termos diferentes para os mesmos objetos.

O português no mundo

O mundo lusófono (que fala português) é avaliado hoje entre 190 e 230 milhões de pessoas. O português é a oitava língua mais falada do planeta, terceira entre as línguas ocidentais, após o inglês e o castelhano.

O português é a língua oficial em oito países de quatro continentes

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Europa

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Ásia

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América do Sul

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África

O português é uma das línguas oficiais da União Europeia (ex-CEE) desde 1986, quando da admissão de Portugal na instituição. Em razão dos acordos do Mercosul (Mercado Comum do Sul), do qual o Brasil faz parte, o português é ensinado como língua estrangeira nos demais países que dele participam.

Em 1996, foi criada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que reune os países de língua oficial portuguesa com o propósito de aumentar a cooperação e o intercâmbio cultural entre os países membros e uniformizar e difundir a língua portuguesa.

O mundo lusófono

Na área vasta e descontínua em que é falado, o português apresenta-se, como qualquer língua viva, internamente diferenciado em variedades que divergem de maneira mais ou menos acentuada quanto à pronúncia, a gramática e ao vocabulário.

Tal diferenciação, entretanto, não compromete a unidade do idioma: apesar da acidentada história da sua expansão na Europa e, principalmente, fora dela, a língua portuguesa conseguiu manter até hoje apreciável coesão entre as suas variedades.

As formas características que uma língua assume regionalmente denominam-se dialetos. Alguns linguistas, porém, distinguem o falar do dialeto:

Dialeto seria um sistema de sinais originados de uma língua comum, viva ou desaparecida; normalmente, com uma concreta delimitação geográfica, mas sem uma forte diferenciação diante dos outros dialetos da mesma origem. De modo secundário, poder-se-iam também chamar dialetos as estruturas linguísticas, simultâneas de outra, que não alcançam a categoria de língua.

Falar seria a peculiaridade expressiva própria de uma região e que não apresenta o grau de coerência alcançado pelo dialeto. Caracterizar-se-ia por ser um dialeto empobrecido, que, tendo abandonado a língua escrita, convive apenas com manifestações orais.

No entanto, à vista da dificuldade de caracterizar na prática as duas modalidades, empregamos neste texto o termo dialeto no sentido de variedade regional da língua, não importando o seu maior ou menor distanciamento com referência à língua padrão.

No estudo das formas que veio a assumir a língua portuguesa, especialmente na África, na Ásia e na Oceania, é necessário fazer a distinção entre os dialetos e os crioulas de origem portuguesa. As variedades crioulas resultam do contato que o sistema linguístico português estabeleceu, a partir do século XV, com sistemas linguísticos indígenas. 0 grau de afastamento em relação à língua mãe é hoje de tal ordem que, mais do que como dialetos, os crioulos devem ser considerados como línguas derivadas do português.

O português na Europa

Na faixa ocidental da Península Ibérica, onde o galego-português era falado, atualmente utiliza-se o galego e o português. Esta região apresenta um conjunto de falares que, de acordo com certas características fonéticas (principalmente a pronúncia das sibilantes: utilização ou não do mesmo fonema em roSa e em paSSo, diferenciação fonética ou não entre Cinco e Seis, etc.), podem ser classificados em três grandes grupos:

1. Dialetos galegos;

G - Galego ocidental
F - Galego oriental

2. Dialetos portugueses setentrionais; e

E - Dialetos transmontanos e alto-minhotos
C - Dialetos baixo-minhotos, durienses e beirões

3. Dialetos portugueses centro-meridionais.

D - Dialetos do centro-litoral
B - Dialetos do centro-interior e do sul

4. A - Limite de região subdialectal com características peculiares bem diferenciadas

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Portugal

A fronteira entre os dialetos portugueses setentrionais e centro-meridionais atravessa Portugal de noroeste a sudeste. Merecem atenção especial algumas regiões do país que apresentam características fonéticas peculiares: a região setentrional que abrange parte do Minho e do Douro Litoral, uma extensa área da Beira-Baixa e do Alto-Alentejo, principalmente centro-meridional, e o ocidente do Algarve, também centro-meridional.

Os dialetos falados nos arquipélagos dos Açores e da Madeira representam um prolongamento dos dialetos portugueses continentais, podendo ser incluídos no grupo centro-meridional. Constituem casos excepcionais a ilha de São Miguel e da Madeira: independentemente uma da outra, ambas se afastam do que se pode chamar a norma centro-meridional por acrescentar-lhe um certo número de traços muito peculiares (alguns dos quais igualmente encontrados em dialetos continentais).

O galego

A maioria dos linguistas e intelectuais defende a unidade linguística do galego-português até a atualidade. Segundo esse ponto de vista, o galego e o português modernos seriam parte de um mesmo sistema linguístico, com diferentes normas escritas (situação similar à existente entre o Brasil e Portugal, ou entre os Estados Unidos e a Inglaterra, onde algumas palavras têm ortografias distintas). A posição oficial na Galiza, entretanto, é considerar o português e o galego como línguas autônomas, embora compartilhando algumas características.

História da língua no Brasil

No início da colonização portuguesa no Brasil (a partir da descoberta, em 1500), o tupi (mais precisamente, o tupinambá, uma língua do litoral brasileiro da família tupi-guarani) foi usado como língua geral na colônia, ao lado do português, principalmente graças aos padres jesuítas que haviam estudado e difundido a língua. Em 1757, a utilização do tupi foi proibida por uma Provisão Real. Tal medida foi possível porque, a essa altura, o tupi já estava sendo suplantado pelo português, em virtude da chegada de muitos imigrantes da metrópole. Com a expulsão dos jesuítas em 1759, o português fixou-se definitivamente como o idioma do Brasil. Das línguas indígenas, o português herdou palavras ligadas à flora e à fauna (abacaxi, mandioca, caju, tatu, piranha), bem como nomes próprios e geográficos.

Com o fluxo de escravos trazidos da África, a língua falada na colônia recebeu novas contribuições. A influência africana no português do Brasil, que em alguns casos chegou também à Europa, veio principalmente do iorubá, falado pelos negros vindos da Nigéria (vocabulário ligado à religião e à cozinha afrobrasileiras), e do quimbundo angolano (palavras como caçula, moleque e samba).

Um novo afastamento entre o português brasileiro e o europeu aconteceu quando a língua falada no Brasil colonial não acompanhou as mudanças ocorridas no falar português (principalmente por influência francesa) durante o século XVIII, mantendo-se fiel, basicamente, à maneira de pronunciar da época da descoberta. Uma reaproximação ocorreu entre 1808 e 1821, quando a família real portuguesa, em razão da invasão do país pelas tropas de Napoleão Bonaparte, transferiu-se para o Brasil com toda sua corte, ocasionando um reaportuguesamento intenso da língua falada nas grandes cidades.

Após a independência (1822), o português falado no Brasil sofreu influências de imigrantes europeus que se instalaram no centro e sul do país. Isso explica certas modalidades de pronúncia e algumas mudanças superficiais de léxico que existem entre as regiões do Brasil, que variam de acordo com o fluxo migratório que cada uma recebeu.

No século XX, a distância entre as variantes portuguesa e brasileira do português aumentou em razão dos avanços tecnológicos do período: não existindo um procedimento unificado para a incorporação de novos termos à língua, certas palavras passaram a ter formas diferentes nos dois países (comboio e trem, autocarro e ônibus, pedágio e portagem). Além disso, o individualismo e nacionalismo que caracterizam o movimento romântico do início do século intensificaram o projeto de criação de uma literatura nacional expressa na variedade brasileira da língua portuguesa, argumento retomado pelos modernistas que defendiam, em 1922, a necessidade de romper com os modelos tradicionais portugueses e privilegiar as peculiaridades do falar brasileiro. A abertura conquistada pelos modernistas consagrou literariamente a norma brasileira.

Zonas dialectais brasileiras

A fala popular brasileira apresenta uma relativa unidade, maior ainda do que a da portuguesa, o que surpreende em se tratando de um pais tão vasto. A comparação das variedades dialetais brasileiras com as portuguesas leva à conclusão de que aquelas representam em conjunto um sincretismo destas, já que quase todos os traços regionais ou do português padrão europeu que não aparecem na língua culta brasileira são encontrados em algum dialeto do Brasil.

A insuficiência de informações rigorosamente científicas e completas sobre as diferenças que separam as variedades regionais existentes no Brasil não permite classificá-las em bases semelhantes às que foram adotadas na classificacão dos dialetos do português europeu. Existe, em caráter provisório, uma proposta de classificação de conjunto que se baseia - como no caso do português europeu - em diferenças de pronúncia (basicamente no grau de abertura na pronúncia das vogais, como em pEgar, onde o "e" pode ser aberto ou fechado, e na cadência da fala). Segundo essa proposta, é possível distinguir dois grupos de dialetos brasileiros: o do Norte e o do Sul. Pode-se distinguir no Norte duas variedades: amazônica e nordestina. E, no Sul, quatro: baiana, fluminense, mineira e sulina.

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Esta proposta, embora tenha o mérito de ser a primeira tentativa de classificação global dos dialetos portugueses no Brasil, é claramente simplificadora. Alguns dos casos mais evidentes de variações dialectais não representadas nessa classificação seriam:

A diferença de pronúncia entre o litoral e o interior do Nordeste; o dialeto da região de Recife, em Pernambuco (PE) é particularmente distinto;

A forma de falar da cidade do Rio de Janeiro (RJ);

O dialeto do interior do estado de São Paulo (SP); e

As características próprias aos três estados da região sul (PR, SC e RS), em particular o(s) dialeto(s) utilizado(s) no estado do Rio Grande do Sul (RS)

O português na África

Em Angola e Moçambique, onde o português se implantou mais fortemente como língua falada, ao lado de numerosas línguas indígenas, fala-se um português bastante puro, embora com alguns traços próprios, em geral arcaísmos ou dialetalismos lusitanos semelhantes aos encontrados no Brasil. A influência das línguas negras sobre o português de Angola e Moçambique foi muito leve, podendo dizer-se que abrange somente o léxico local.

Nos demais países africanos de língua oficial portuguesa, o português é utilizado na administração, no ensino, na imprensa e nas relações internacionais. Nas situações da vida cotidiana são utilizadas também línguas nacionais ou crioulos de origem portuguesa. Em alguns países verificou-se o surgimento de mais de um crioulo, sendo eles entretanto compreensíveis entre si.

Essa convivência com línguas locais vem causando um distanciamento entre o português regional desses países e a língua portuguesa falada na Europa, aproximando-se em muitos casos do português falado no Brasil.

Angola

O português é a língua oficial de Angola. Em 1983, 60% dos moradores declararam que o português é sua língua materna, embora estimativas indiquem que 70% da população fale uma das línguas nativas como primeira ou segunda língua.

Além do português, Angola abriga cerca de onze grupos lingüísticos principais, que podem ser subdivididos em diversos dialetos (cerca de noventa). As línguas principais são: o umbundu, falado pelo grupo ovimbundu (parte central do país); o kikongo, falado pelos bakongo, ao norte, e o chokwe-lunda e o kioko-lunda, ambos ao nordeste. Há ainda o kimbundu, falado pelos mbundos, mbakas, ndongos e mbondos, grupos aparentados que ocupam parte do litoral, incluindo a capital Luanda.

Talvez em razão dessa variedade lingüística original, o português acabou por se tornar uma espécie de língua franca, que facilitava a comunicação entre os diversos grupos. Em contato com as línguas nativas, o português também sofreu modificações, dando origem a falares crioulos, conhecidos como pequeno português, ou popularmente, como pretoguês.

Cabo Verde

O português é a língua oficial de Cabo Verde, utilizada em toda a documentação oficial e administrativa. É também a língua das rádios e televisões e, principalmente, a língua de escolarização.

Paralelamente, nas restantes situações de comunicação (incluindo a fala quotidiana), utiliza-se o cabo-verdiano, um crioulo que mescla o português arcaico a línguas africanas. O crioulo divide-se em dois dialetos com algumas variantes em pronúncias e vocabulários: os das ilhas de Barlavento, ao norte, e os das ilhas de Sotavento, ao sul.

Guiné-Bissau

Em 1983, 44% da população falava crioulos de base portuguesa, 11% falava o português e o restante, inúmeras línguas africanas. O crioulo da Guiné-Bissau possui dois dialetos, o de Bissau e o de Cacheu, no norte do país.

A presença do português em Guiné-Bissau não está consolidada, pois apenas uma pequena percentagem da população guineense tem o português como a língua materna e menos de 15% tem um domínio aceitável da Língua Portuguesa. A zona lusófona corresponde ao espaço geográfico conhecido como "a praça", que corresponde à zona central e comercial da capital (Bissau).

A situação se agrava devido ao fato da Guiné-Bissau ser um país encravado entre países francófonos e com uma comunidade imigrante expressiva vinda do Senegal e da Guiné (também conhecida como Guiné-Conakri). Por causa da abertura à integração sub-regional e da grande participação dos imigrantes francófonos no comércio, existe presentemente uma grande tendência de as pessoas utilizarem e aprenderem mais o francês do que o português. Há aqueles que defendem que, atualmente, o francês já é a segunda língua mais falada na Guiné, depois do crioulo.

Moçambique

Moçambique está entre os países onde o português tem o estatuto de língua oficial, sendo falada, essencialmente como segunda língua, por uma parte da sua população.

De acordo com dados do Censo de 1980, o português era falado por cerca de 25% da população e constituía a língua materna de pouco mais de 1% dos moçambicanos. Os dados do Censo de 1997 indicam que a percentagem atual de falantes de Português já é de 39,6%, que 8,8% usam o português para falar em casa e que 6,5% consideram o português como sua língua materna. A vasta maioria das pessoas que têm a língua portuguesa como materna reside nas áreas urbanas do país, e são os cidadãos urbanos, principalmente, que adotam o português como língua de uso em casa. No país como um todo, a maioria da população fala línguas do grupo bantu. A língua materna mais frequente é o emakhuwa (26.3%); em segundo lugar está o xichangana (11.4%) e em terceiro, o elomwe (7.9%).

São Tomé e Príncipe

Em São Tomé fala-se o forro, o angolar, o tonga e o monco (línguas locais), além do português. O forro (ou são-tomense) é um crioulo de origem portuguesa, que se originou da antiga língua falada pela população mestiça e livre das cidades. No século XVI, naufragou perto da ilha um barco de escravos angolanos, muitos dos quais conseguiram nadar até a ilha e formar um grupo étnico a parte. Este grupo fala o angolar, um outro crioulo de base portuguesa mas com mais termos de origem bantu. Há cerca de 78% de semelhanças entre o forro e o angolar. O tonga é um crioulo com base no português e em outras línguas africanas. É falado pela comunidade descendente dos "serviçais", trabalhadores trazidos sob contrato de outros países africanos, principalmente Angola, Moçambique e Cabo-Verde.

A ilha do Príncipe fala principalmente o monco (ou principense), um outro crioulo de base portuguesa e com possíveis acréscimos de outras línguas indo-européias. Outra língua muito falada em Príncipe (e também em São Tomé) é o crioulo cabo-verdiano, trazido pelos milhares de cabo-verdianos que emigraram para o país no século XX para trabalharem na agricultura.

O português corrente de São Tomé e Príncipe guarda muitos traços do português arcaico na pronúncia, no léxico e até na construção sintática. Era a língua falada pela população culta, pela classe média e pelos donos de propriedades. Atualmente, é o português falado pela população em geral, enquanto que a classe política e a alta sociedade utilizam o português europeu padrão, muitas vezes aprendido durante os estudos feitos em Portugal.

Outras regiões da África

A influência portuguesa na África deu-se também em algumas outras regiões isoladas, muitas vezes levando à aparição de crioulos de base portuguesa:

Ano Bom, na Guiné Equatorial.

Em Ano Bom, uma ilha a 400 km ao sul de São Tomé, fala-se o ano-bonense, bastante similar ao são-tomense. Tal fato explica-se por haver sido a ilha povoada por escravos vindos de São Tomé.

Casamança, no Senegal.

O crioulo de Casamança só se fala na capital, Ziguinchor, uma cidade fundada por portugueses (seu nome deriva da expressão portuguesa cheguei e chorei). Está na órbita lexical do crioulo de Cacheu, na Guiné-Bissau.

O português na Ásia

Embora nos séculos XVI e XVII o português tenha sido largamente utilizado nos portos da Índia e sudeste da Ásia, atualmente ele só sobrevive na sua forma padrão em alguns pontos isolados:

No Timor leste, território sob administração portuguesa até 1975, quando foi invadido e anexado ilegalmente pela Indonésia. A língua local é o tetum, mas uma parcela da população domina o português.

Em Macau, território chinês que esteve sob administração portuguesa até 1999. O português é uma das línguas oficiais, ao lado do chinês, mas só é utilizado pela administração e falado por uma parte minoritária da população;

No estado indiano de Goa, possessão portuguesa até 1961, onde vem sendo substituído pelo konkani (língua oficial) e pelo inglês.

Dos crioulos da Ásia e Oceania, outrora bastante numerosos, subsistem apenas os de Damão, Jaipur e Diu, na Índia; de Málaca, na Malásia; do Timor; de Macau; do Sri-Lanka; e de Java, na Indonésia (em algumas dessas cidades ou regiões há também grupos que utilizam o português).

Bibliografia

1. Walter, Henriette (1994), A Aventura das Línguas do Ocidente - A sua Origem, a sua História, a sua Geografia (tradução de Manuel Ramos). Terramar, Lisboa, Portugal.

2. Azevedo Filho, Leodegário A. (1983), História da Literatura Portuguesa - Volume I: A Poesia dos Trovadores Galego-Portugueses. Edições Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, Brasil.

3. Mattos e Silva, Rosa V. (1994), O Português Arcaico - Morfologia e Sintaxe. Editora Contexto, São Paulo, Brasil.

4. Ferreira, Carlota e outros (1994), Diversidade do Português do Brasil: Estudos de Dialectologia Rural e Outros, 2a edição (revista). Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil.

5. Cunha, Celso e Cintra, Luis F. Lindley (1985), Nova Gramática do Português Contemporâneo, cap. 2, pp. 9-14. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, Brasil.

6. Cuesta, Pilar V. e Mendes da Luz, Maria A. (1971), Gramática da Língua Portuguesa, pp. 119-154. Coleção Lexis, Edições 70, Lisboa, Portugal.

7. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2a edição (revista e ampliada, 1986). Editora Nova Fronteira, São Paulo, Brasil.

8. Almanaque Abril, 20a (1994) e 21a (1995) edições. Editora Abril, São Paulo, Brasil.

9. Culbert, Sidney S. (1987), The principal languages of the World, em The World Almanac and Book of Facts - 1987, p. 216. Pharos Books, New York, EUA.

Fonte: www.linguaportuguesa.ufrn.br

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21 de Maio

Curiosidades sobre a Língua Portuguesa

Se é que Cabral gritou alguma coisa quando avistou os contornos do Monte Pascoal, certamente não foi "terra ã vishta", assim com o "a" abafado e o "s" chiado que associamos ao sotaque português. No século XVI, nossos primos lusos não engoliam vogais nem chiavam nas consoantes - essas modas surgiram depois do século XVII, na Península Ibérica. Cabral teria berrado um "a" bem pronunciado e dito "vista" com o "s" sibilante igual ao dos paulistas de hoje. O hábito de engolir vogais, da maneira como o fazem os portugueses de hoje, consolidou-se na língua aos poucos, naturalmente. Na verdade, nós, brasileiros, mantivemos os sons que viraram arcaísmos empoeirados para os portugueses.

............Só que, ao mesmo tempo, acrescentamos à língua mãe nossas próprias inovações. Demos a ela um ritmo roubado dos índios, introduzimos subversões à gramática herdadas dos escravos negros e temperamos com os sotaques de milhões de imigrantes europeus e asiáticos. Deu algo esquisito: um arcaísmo moderno.

............O português brasileiro levou meio milênio se desenvolvendo longe de Portugal até ficar nitidamente diferente. Mas ainda é quase desconhecido. Até os anos 90, os lingüistas pouco sabiam sobre a história da língua, sobre nosso jeito de falar e as diferenças regionais dentro do Brasil. Agora, três projetos de pesquisa estão mudando isso:

............1) Gramática do português falado: será publicada em 2001, depois de ocupar 32 lingüistas de doze universidades durante dez anos. " Ao contrário do que se acredita, as pessoas falam com muito mais riqueza do que escrevem", diz à SUPER o professor Ataliba de Castilho, do departamento de Letras da Universidade de São Paulo, que coordena o projeto.

............2) A origem de cada estrutura gramatical: Ao estudar as particularidades da língua falada, os pesquisadores reuniram informações sobre a origem de cada estrutura gramatical. A partir desses dados, estão começando a primeira pesquisa completa sobre a história do português no Brasil. A intenção é identificar todas as influências que a língua sofreu deste lado do Atlântico. Só que essas influências são diferentes em cada parte do país. Daí a importância do terceiro projeto:

............3) O Atlas Lingüístico. "Até 2005, vamos mapear todos os dialetos da nação", prevê Suzana Cardoso, lingüista da Universidade Federal da Bahia e coordenadora da pesquisa, que abrangerá 250 localidades entre o Rio Grande do Sul e a Amazônia.

............Os três projetos somados constituem, sem dúvida, o maior avanço para a compreensão da nossa língua desde que Cabral aportou por aqui.

Caldeirão de povos

............Mas, se há semelhanças entre a língua do Brasil de hoje e o português arcaico, há também muito mais diferenças. Boa parte delas é devida ao tráfico de escravos, que trouxe ao Brasil um número imenso de negros, que não falavam português. " Já no século XVI, a maioria da população da Bahia era africana", diz Rosa Virgínia Matos e Silva, lingüista da Universidade Federal da Bahia. "Toda essa gente aprendeu a língua de ouvido, sem escola", conta. Na ausência de educação formal, a mistura de idiomas torna-se comum e traços de um impregnam o outro. "Assim, os negros deixaram marcas definitivas", ressalta ela.

............Também no século XVI, começaram a surgir diferenças regionais no português do Brasil. Num pólo estavam as áreas costeiras, onde os índios foram dizimados e os escravos africanos abundavam. No outro, o interior, onde havia sociedades indígenas. À mistura dessas influências vieram se somar as imigrações, que foram gerando diferentes sotaques. "Com certeza, o Brasil hoje comporta diversos dialetos, desde os regionais até os sociais, já que os ricos não falam como os pobres"" afirma Gilvan Müller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina.

............Mas o grande momento de constituição de uma língua "brasileira" foi o século XVIII, quando se explorou ouro em Minas Gerais. "Lá surgiu a primeira célula do português brasileiro", diz Marlos de Barros Pessoa, da Universidade Federal de Pernambuco. "A riqueza atraiu gente de toda parte - portugueses, bandeirantes paulistas, escravos que saíam de moinhos de cana e nordestinos." Ali, a língua começou a se uniformizar e a exportar traços comuns para o Brasil inteiro pelas rotas comerciais que a exploração do ouro criou.

Falas brasileiro ?

............ A lei da evolução, de Darwin, estabelece que duas populações de uma espécie, se isoladas geograficamente, separam-se em duas espécies. A regra vale para a Lingüística. "Está em gestação uma nova língua: o brasileiro", afirma Ataliba de Castilho.

............As diferenças entre o português e o brasileiro são maiores do que as existentes entre o hindi, um idioma indiano, e o hurdu, falado no Paquistão, duas línguas aceitas como distintas", diz Kanavillil Rajagopalan, especialista em Política Lingüística da Unicamp.

............Algo mais: o português é falado em vários países da África, incluindo Angola e Moçambique, em Macau, na China, em Goa, na Índia e no Timor Leste, recém-independente da Indonésia. O número de falantes beira os 200 milhões, 160 dos quais aqui no Brasil. É o sexto idioma mais falado do mundo.

Fonte: www.ufv.br

Dia da Língua Nacional

21 de Maio

ORIGEM E FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Homem e a Índole Comunicativa e Social

A Linguagem Verbal

A linguagem é uma das características maiores do homem. Desde a pré-história, a necessidade de comunicação se fazia presente. Antes da língua oral, o homem desenvolveu outras linguagens como gestos, sinais e símbolos pictóricos, amuletos, tudo isto profundamente relacionado com o mítico (deus).

Essa necessidade de se comunicar encontra fundamento na própria essência humana, já que se nota a propensão à partilha e à organização social.

Acredita-se que as primeiras articulações de sons produzidos pelo nosso aparelho fonador com significados distintos para cada ruído, convencionados em código, foram celebradas na Língua Indo-européia, numa região incerta da Europa oriental, a 3000 a.C. A partir de então, o Indo-europeu foi levado a diversas regiões, desde o Oriente Próximo até a Grã-Bretanha. Justamente pela grande propagação dessa língua em territórios tão distantes, O Indo-europeu evolui na forma de diversas novas línguas, como o grego, o eslavo e o itálico.

LÍNGUAS PROVENIENTES DO INDO-EUROPEU

Hitita

Na Ásia Menor (Síria Antiga, 1900 a.C.);

Germânico

Noroeste da Europa (Germânia e Alemanha);

Celta

Continental (Gaulês) e Insular (Gaélico e Britânico);

Itálico

Osco, Sabélico, Úmbrio, Latim;

Albanês;

Grego

Junção dos Dialetos do Mar Egeu;

Báltico

Prussiano, Letão e Lituano;

Eslavo

Ocidental (Polonês e Tcheco) , Meridionais (Búlgaro, Servo, Esloveno) e Orientais (Russo e Ucraniano);

Armênio

No Cáucaso e na Mesopotâmia (com escrita desde IX a.C.);

Indo-iraniano

Iraniano (Persa, Avéstico, Medo, Cita) e Indo (Sânscrito, Prácritos);

Tocário

Turquestão chinês (manuscritos desde 10 d.C.)

Do Indo-europeu, passando pelo Itálico, até o Latim

O latim é uma terceira fisionomia, determinada por fatores locais (cultura, principalmente) , daquela primeira língua, o Indo-europeu, falada pelo homem ainda na pré-história.

A Língua Latina surgiu na região do Lácio (da Itália ao sul do Rio Tibre) , por volta do século VII a.C., dois milênios depois do Indo-europeu. A capital do Lácio era Roma, a mesma do futuro Império Romano. Olavo Bilac, nosso Príncipe dos Poetas, tem um excelente poema em homenagem à nossa Língua Portuguesa, evocando suas origens nessa região:

SONETO DE OLAVO BILAC

Lingua Portugueza

Ultima flor do Lacio, inculta e bella,

És, a um só tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lyra singela,

Que tens o trom e o silvo da procella,

E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,

E em que Camões chorou, no exilio amargo,

O genio sem ventura e o amor sem brilho!

O Latim e o Império Romano

Apropriando-se da língua utilizada pelos povos itálicos (fundadores de Roma) que ainda sofriam invasões bárbaras, os romanos tornaram o Latim a língua oficial do Império. Só atente para um pequeno detalhe: olhe o tamanho do Império!

DOMÍNIO DO LATIM

Dia da Língua Nacional

Esta era a área dominada pelo Império Romano em 116 d.C., bem no seu auge. É claro que, como aconteceu ao Indo-europeu, o Latim, não podendo permanecer o mesmo em tão diferentes lugares e tão longínquas regiões, foi sofrendo alterações, devido, sobretudo, a fatores locais (cultura, folclore, invasões) , até se fragmentar.

Latim Vulgar, um uso “clandestino”
(VII a.C. – IX d.C)

Ainda no Império Romano, as pessoas eram obrigadas a falar Latim, mesmo não sendo sua língua local. Os romanos conquistaram a Península Ibérica em 218 a.C. A partir de então, o Latim falado na Galícia e na Lusitânia (províncias ibéricas) adquiriu traços peculiares próprios da Península. Essa época é chamada pré-histórica porque não há documentos escritos: lembrem-se, o Latim Vulgar era apenas falado, mas oficialmente (nos documentos e registros escritos) só se podia usar o Latim Canônico.

O povo queria usar a língua de uma maneira mais próxima de suas tradições culturais, na pronúncia e na escolha das palavras, na organização e na sintaxe da frase. Por isso, em todas as situações domésticas, não se usava outra variante senão a do Latim Vulgar, e Vulgar porque era do povo.

“Primeiras Letras” do Latim Vulgar
(IX d.C. – XII d.C.)

No século IX, começa a escritura dos primeiros documentos em Latim “bárbaro”, ou seja, com traços de uma nova língua que se anunciava entre o povo. Dessa forma, trata-se de registros de pequena importância na hierarquia de poder (testamentos, contratos, documentos jurídicos de pequena monta).

Note-se que esses documentos de cartórios, se não atendiam aos interesses dos governantes, faziam parte da vida privada do povão, que dava a mão-de-obra para as instituições de baixo escalão.

ESCRITURA DE DOAÇÃO EM LATIM BÁRBARO
(874 D.C.)

Fofino, Gaton, Astrilli, Arguiru, Vestremiru, Guinilli et Aragunti placitum facimus inter nos, unus ad alios, per scripturam firmitatis, notum die quod erit IIIº nonas Apritis era DCCCCª XIIª, super ipsa eclesia et super nostras hereditates, quantas habuerimus et ganare potuerimus usque ad obitum nostrum, que non habeamus licentiam super illas nec uindere, nec donare, nec testare in parte extranea, nisi unus ad allios aut ad ipsa eclesia uocabulo Sancti Andree Apostoli. Et qui minima fecerit, et istum placitum excesserit, pariet parte de que isto placito obseruauerit X boues de XIIIm XIIIm modios, et iudicato. Nos pernominatos in hoc placito manus nostras ro +++++++ uoramus.

O Latim já está tão Vulgar que já não é mais latim: é o Galego-português (últimas décadas do século XII ao XIV)

A partir do final do século XII (1150-1200) , na Península Ibérica não se fala mais o Latim, nem mesmo em sua forma Vulgar. As características do Latim que não se identificavam com a vida e o pensamento da grande populaça se perderam. Portanto, já completamente descaracterizado, o latim torna-se, aos poucos, língua morta, e cada vez mais vigora o Galego-português, uma evolução do Latim totalmente de acordo com o que o povo queria, pois, lembrem-se, o Latim foi uma língua imposta pelos romanos as povos ibéricos.

No mundo nom me sei parelha,

Mentre me vai

Ca moiro por vós, e ai

Mia senhor branca e vermelha.

Queredes que vos retraia

Quando vos vi em saia?

Mau dia me levantei

Que vos enton non vi feia.

E, ma senhor, dês aquel’ dia, ai,

Me foi a mi mui mal.

E vós, filha de Dom Pai

Muniz, bem vos semelha

D’aver eu por vós g (u) arvaia

Pois eu, mia senhor, dalfaia

Nunca de vós houve nem hei

valia d’huma correia.

No mundo não sei de coisa igual

Se continuar do jeito que vai

Porque morro por vós, e ai

Minha senhora, de branco e vermelho

Quereis que vos envergonhe

Quando vos vir de pijama?

Maldito dia me levantei

Para então não mais te ver feia.

E, minha senhora, desde aquele dia, ai,

Me tem sido a mim muito ruim.

E vós, filha de Dom Paio

Muniz, vos parece correto

De eu ter por vós sentimento

Pois eu, minha senhora, em troca

Nunca de vós tive, nem tenho,

Valor sequer de uma correia.

A primeira poesia escrita em Galego-português, “Ca moiro por vós”, de Paio Soares de Taveirós, conhecida como “Canção da Ribeirinha”, concorre como primeiro texto escrito nessa moderna língua galego-portuguesa, por ser do final do século XII (1189?)

CANÇÃO DA RIBEIRINHA

O Galego-português (das últimas décadas de XII até XIV)

Nesse período, a língua de Portugal e da Galícia era a mesma. Somente no século XIV a separação dos idiomas português e galego se consuma. Na passagem do século XIII ao XIV, o principal poeta foi D. Dinis, rei de Portugal. Ele escreveu muitos versos trovadorescos que marcaram a história do Trovadorismo Português, sob forma de cantiga d’amor (de voz masculina dirigida à amada) ou d’amigo (de voz feminina dirigida a uma confidente). Confira esta cantiga d’amor:

POEMA DE D. DINIS (1261-1325)

Preguntar-vos quero por Deus,

Senhor fremosa, que vos fez

mesurada e de bom grado e de bom prez,

que pecados foron os meus

que nunca tevestes por ben

De nunca mi fazerdes ben.

Pero sempre vos soub’amar,

des aquel dia que vos vi,

mays que os meus olhos em mi,

e assy o que quis Deus guisar,

que nunca tevestes por ben

De nunca mi fazerdes ben.

Des que vos vi, sempr’ o mayor

bem que vos podia querer

vos quigi, a todo meu poder,

e pero quis Nstro Senhor

que nunca tevestes por ben

De nunca mi fazerdes ben.

Mays, senhor, ainda com ben

Se cobraria bem por bem.

Quero vos perguntar, por Deus,

Senhora formosa, o que vos fez

talhada e de boa índole,

que pecados foram os meus

para nunca terdes por bem

De nunca me fazerdes bem.

Mas sempre vos soube amar,

desde aquele dia que vos vi,

mais que os meus olhos em mim,

e assim Deus quis fadar,

para nunca terdes por bem

De nunca me fazerdes bem.

Desde que vos vi, sempre o amior

bem que eu podia de vós querer

eu vos quis, com todas as minhas forças

mas porém quis Nosso Senhor

para nunca terdes por bem

De nunca me fazerdes bem.

Ainda mais, senhor, com bem

Se cobraria bem por bem.

A Língua Portuguesa no século XV

A partir do século XIV, como visto, o Galego-português cada vez mais é substituído pelos dialetos regionais da Lusitânia e da Galícia, até que o Português se dissocia do Galego. Observe como este fragmento de uma crônica de Fernão Lopes (1380?-1460?) marca bem esse período em que os traços do galego-português se escasseiam para dar lugar à feição estilística do Português.

CRÔNICA DE FERNÃO LOPES

Razoões desvairadas, que alguuns fallavam sobre o casamento delRei Dom Fernamdo Quamdo foi sabudo pello reino, como elRei reçebera de praça Dona Lionor por sua molher, e lhe beijarom a maão todos por Rainha, foi o poboo de tal feito mui maravilhado, muito mais que da primeira; por que ante desto nom enbargando que o alguuns sospeitassem, por o gramde e honrroso geito que viiam a elRei teer com ella, nom eram porem çertos se era sua molher ou nom; e muitos duvidamdo, cuidavom que se emfa daria elRei della, e que depois casaria segundo perteemçia a seu real estado: e huuns e outros todos fallavam desvairadas razõoes sobresto, maravilhamdose muito delRei nom emtemder quamto desfazia em si, por se comtemtar de tal casamento.

Razões desvairadas, aquelas que alguns falavam sobre o casamento de El-rei Dom Fernando. Quando foi sabido por todo o reino como El-rei recebera depressa Dona Leonor por sua mulher, e todos lhe beijaram a mão como Rainha, foi o povo de tal feito muito maravilhado, muito mais do que da primeira; porque, antes disto, não embargando que alguns suspeitassem, pelo grande e honroso jeito que viam El-rei ter com ela, não eram, porém, certos se era sua mulher ou não; e muitos duvidando, cuidavam que se enfadaria El-rei dela, e que depois casaria segundo pertencesse a seu real estado; e uns e outros falavam desvairadas razões de sobre, maravilhando-se muito de El-rei não entender quanto se desfazia de si, por se contentar com tal casamento.

A Língua Portuguesa no século XVI

A Língua já está muito perto do uso que dela fazemos hoje. O Português começa a dar seus primeiros passos. Ainda há resquícios do galego-português, principalmente na ortografia, que é sempre cambiante. Entretanto, o predomínio das características do Português é evidente. Leia-se esse trecho de um roteiro de Gil Vicente, que representa bem esse período de consolidação entre o Galego-português e a Língua Portuguesa, a fim de se observar a proximidade do Português do século XVI com o Português de nossos dias:

TEATRO DE GIL VICENTE (1465-1537)

FIDALGO.

A estoutra barca me vou.

— Hou da barca! Para onde is?

Ah, barqueiros! Não me ouvis?

Respondê-me! Houlá! Hou!

Par Deus, aviado* estou!

Quant’a isto é já pior.

Que girinconcis, salvanor!

Cuidam que são eu grou**?

ANJO.

Que queres?

FIDALGO.

Que me digais,

pois parti tão sem aviso,

se a barca do paraíso

é esta em que navegais.

ANJO.

Esta é; que me demandais?

FIDALGO.

Que me leixês*** embarcar;

sô fidalgo de solar

é bem que me recolhais.

ANJO.

Não se embarca tirania

neste batel divinal.

FIDALGO.

Não sei por que haveis por mal

que entr’a minha senhoria.

*aviado: em vias de, preparado

**cuidam que são eu grou: cuidam que sou eu gralha?

*** leixês: deixeis

A Língua Portuguesa
no século XVII até a atualidade.

1600 é o século da glória de Camões, em que o Português finalmente atinge sua fase moderna. A diferença maior para a língua usada em nossos dias se restringe a pormenores como grafia, vingando as semelhanças. Camões, após sua morte, será o poeta do idioma nacional, autônomo e independente. Os Lusíadas (1572) tornam-se o grande épico de Portugal e referência cultural a partir do século XVII. Já na fase moderna da Língua Portuguesa, a escolha vocabular e a sintaxe seguem padrões idênticos aos atuais.

Leia-se o soneto camoniano musicado por Renato Russo:

Amor é um fogo que arde sem se ver,

É ferida que doe e não se sente,

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,

É um andar solitário entre a gente,

É nunca contentar-se de contente,

É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade,

É servir a quem vence o vencedor,

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

As palavras em Português vieram todas do Latim?

A maior parte do vocabulário da Língua Portuguesa tem sua origem no Latim: pater (pai); mater (mãe); filius (filho); manus (mão); aqua (água); bonus (bom); fortis (forte); viridis (verde); dicere (dizer); cadere (cair); amare (amar); avis (ave).

Não obstante, a estas palavras se somam outras provenientes do Latim Vulgar (termos populares): bellus (belo); caballus (cavalo); cattus (gato); casa (casa); grandis (grande)

Também há de se considerar a sobrevivência de várias palavras oriundas da língua local, antes da invasão romana: barro, manteiga, veiga, sapo, esquerdo

Algumas palavras germânicas foram incorporadas a muitas línguas românicas, inclusive o Português. Na maioria dos casos, foram introduzidas por ocasião das invasões bárbaras, das quais estas são provenientes: guerra; guardar; trégua; ganso; lua; roubar; espiar; fato (roupa); ataviar; estaca; espeto; marta; agasalhar; gana; branco; brotar

A última observação recai na longa permanência dos mouros na Península, fato que refletiu na Língua. Até hoje, a presença dos árabes na Ibéria pode ser notada pela região de Andaluzia, onde existe uma grande quantidade de ciganos e outros povos bárbaros ou nômades. Dentre as palavras de uso corrente na Língua Portuguesa, citem-se: arroz; azeite; azeitona; bolota; açucena; javali; azulejo; açúcar; refém, arrabalde; mesquinho; baldio; até

Dentre elas, pode-se destacar o grupo de palavras que se iniciam por AL, que é o artigo da língua árabe: alface; alfarrábio; alfinete; albarda; alicerce; almofada; alfaiate; almocreve; almoxarife; alfândega; aldeia

Quais são as diferenças então entre o Português e o Latim?

Listemos algumas características que explicam a passagem do Latim à Língua Portuguesa

a) Queda do acento de quantidade

Encerra-se a distinção entre sílabas longas e breves. As vogais longas conservaram sua identidade: a, e, i, o, u em Português se tornaram a, ê, i, ô, u, de tonicidade fechada, a que se pode somar a vogal a breve em par com sua longa. A contraposição das vogais breves e e o frente as respectivas longas foi marcada pelo acento aberto do Português. Entretanto, as vogais breves i e u somaram-se às vogais fechadas ê e ô do Português. Desse modo: a (a, a) , é (e) , ê (e, i) , i (i) , ó (o) , ô (o, u) , u (u).

b) Queda das 5 declinações do Latim

O Latim possuía um sistema de declinações que agrupava as palavras de acordo com suas terminações. Desse modo, as palavras da primeira declinação como femina, -ae, comportava grande número de palavras de gênero feminino. Já a segunda declinação continha muitas palavras de gênero masculino, como é o caso de uir, -i. Assim como a primeira declinação apresentava desinência “-ae” e a segunda, desinência “-i”, a terceira declinação era marcada pela desinência “-is”, como dolor, -is, enquanto a quarta conjugação possuía terminação “-us”, a exemplo de spiritus, -us. Finalmente, existia ainda uma quinta declinação de poucas palavras, como dies, -ei.

Com as transformações históricas em direção ao Português, as declinações foram extintas dando lugar à noção de gênero. Desse modo, a primeira e a quinta declinações se alinharam por serem constituídas quase totalmente de gênero feminino, em confronto com a segunda e a quarta declinações, predominantemente do gênero masculino. A terceira declinação, por abrigar os gêneros masculino, feminino e neutro sem predominância de nenhum deles, foi distribuída ora no grupo das palavras de gênero feminino, ora nas de gênero masculino. O gênero neutro caiu, quase sempre em favor do masculino.

O mais importante é entender que nesse processo a organização em declinações foi recusada em favor da organização pela distinção dos gêneros masculino e feminino.

c) Extinção dos casos de marcação sintática (nominativo, acusativo, ablativo, dativo, etc.)

A utilização dos casos na distinção das funções sintáticas se reduziu ao caso mais genérico e habitual, ou seja, de uso mais corrente. Na Ibéria, a preferência se deu pelo caso acusativo, desde que se entenda a apócope da terminação “m” característica. Outra forma de compreender o fenômeno da extinção dos casos é perceber a fusão entre o nominativo e um segundo caso, formado a partir da fusão entre acusativo e ablativo. Exemplo: (erectus, nom. > erecto, abl. > ereto, port.); (vita, nom > vitas, ac. > vidas, port.). São extintos, assim, os morfemas de marcação sintática.

d) A dissolução do gênero neutro em masculino ou feminino

Das palavras de gênero neutro, em geral, foram incorporadas ao gênero masculino as que eram usadas freqüentemente no singular, como no caso de (templum, neutro > templo, masc.); (patrimonium > patrimônio). Já as habitualmente empregadas no plural foram somadas ao gênero feminino, como é o caso de (olivum > oliva); (diarium > diária).

Quanto aos gêneros, portanto, a Língua Portuguesa opera sistematicamente, salvo raras exceções (ex. lápis, simples) , com uma forma única para o singular (masculino ou feminino) contraposta à outra forma para o plural, além de algumas flexões pela desinência “-a”.

d) Redução das 4 conjugações verbais do Latim a partir da convergência entre 2ª e 3ª

No Latim, havia quatro conjugações. Porém, a 2ª e a 3ª não conseguiram permanecer diferenciadas, pois a tonicidade entre longo e breve era a única distinção (debere, 2ª ? vendere, 3ª). Com a fusão, fixaram-se três conjugações: (amare > amar); (debere/vendere) > (dever/vender); (punire > punir).

e) Alteração dos quadros modo-temporais dos verbos

São tempos que permaneceram do Latim clássico ao Português

presente e imperfeito do indicativo: (amo > amo); (debeo > devo); (vendo > vendo); (punio > puno).

pretérito perfeito do indicativo: (amavi > amai > amei); (debui > debei > devi); (vendedi > vendei > vendi); (punivi > punii > puni).

pretérito mais-que-perfeito: (amaveram > amaram > amara).

presente do subjuntivo: (amem > ame); (debeam > devam > deva)

imperativo presente: (ama > ama); (debe > deve); (venda > vende); (puni > pune)

São tempos substituídos por nova construção perifrástica:

futuro imperfeito (amabo, debebo, vendam, puniam) foi substituído por uma perífrase de infinitivo + habere no presente (amare habeo) , (debere habeo) , (vendere habeo) , (punire habeo). Através de elisões (metaplasmo por queda) , a perífrase transformou-se no futuro do presente (amarei, deverei, venderei, punirei).

futuro perfeito (perfectum) foi substituído por uma perífrase de infinitivo + habere no imperfeito do indicativo, que expressava o futuro do pretérito: (amare habebam > amaria).

São tempos que se fundiram com outro semelhante:

imperfeito do subjuntivo caiu em favor do mais-que-perfeito do subjuntivo (no Português, o “imperfeito do subjuntivo” derivou do mais-que-perfeito do subjuntivo).

futuro perfeito do indicativo confundiu-se com o perfeito do subjuntivo, resultando no futuro do subjuntivo: (amavero > amaro > amar); (debuero > debero > dever); (vendidero > vendero > vender); (punivero > puniro > punir)

particípio presente tornou-se adjetivo (amantis > amante) enquanto o gerúndio o substituiu: amando

imperfeito do subjuntivo foi substituído pelo mais-que-perfeito do subjuntivo, dando origem ao imperfeito do subjuntivo e ao infinitivo flexionado simultaneamente.

São tempos que caíram

infinitivo perfeito (perfectum)

imperativo futuro (infectum)

particípio do futuro ativo (algumas formas permaneceram, mas em caráter nominal: “nascedouro”, “vindouro”, “bebedouro”).

gerundivo (algumas formas permaneceram, mas em caráter nominal: merenda, oferenda, graduando)

supino

A voz passiva sintética possuía formas verbais próprias terminadas em “-r”: amor, amabar, amabor (presente, imperfeito e futuro do indicativo); amer, amarer (presente e imperfeito do subjuntivo). No imperativo (amare, amamini) , no infinitivo (amari) , no gerúndio (amandus, -a, -um) e no particípio passado (amatus, -a, -um) , as formas não se restringem à terminação em “-r”. Todas estas formas caíram em desuso — exceto o particípio passado (amatus > amado) — e foram substituídas por perífrases (amor > amatus sum); (amabar > amatus eram); (amabor > amatus ero); (amer > amatus sim); (amatus essem > amarer). Mais tarde, ocorreram algumas modificações (amatus sum > amatus fui); (amatus eram > amatus fueram).

f) Palatalização dos encontros consonantais “pl”, “cl”, “fl” para “ch” [š]

Exemplos: (pluva > chuva); (clave > chave); (flamma > chama).

Palavras mais eruditas cambiaram para “pr”, “cr”, “fr”: (placere > prazer) , (clavu > cravo) , flaccu > fraco); ao que se soma “bl” para “br”: (blandu > brando)

g) Síncopes intervocálicas

L Exemplos: (salire > sair); (dolore > door > dor); (voluntade > vountade > vontade)

N Exemplos: (manu > mão); (luna > lua); (lana > lãa > lã); (bonu > bõo)

h) Dêiticos

Do quadro de pronomes que já vigorava no Galego-português, deve-se ressaltar a oposição entre adjetivo (este/aqueste, esse/aquel) e advérbio (aqui/ali, acá/alá, acó, aló). Somente as formas “aqueste” e acó” caíram em desuso completamente, enquanto “aló” ainda sobrevive como saudação ou chamamento.

i) Artigo

O artigo da Língua Portuguesa é uma evolução do pronome demonstrativo “ille”, que, após aférese, sofreu alteração fonética de “le” (conservado no Francês) para “lo” (conservado no Castelhano ao lado de “el”). Por último, a partícula ainda perdeu a consoante líquida, logrando a forma atual “o”.

BIBLIOGRAFIA

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BERARDINELLI, Cleonice [Serôa da Motta] (org.). Corpus dos sonetos camonianos. Rio de Janeiro: Casa Rui Barbosa, 1980.

CÂMARA Jr., J[oaquim] Mattoso. Dicionário de filologia e gramática (referente à língua portuguesa). Rio de Janeiro: J. OZON, 1968.

CARDOSO, Wilton & CUNHA, Celso. Estilística e gramática histórica: português através dos textos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.

COUTINHO, Ismael de Lima. Gramática histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976.

HAUY, Amini Boainain. História da Língua Portuguesa: séculos XII, XIII, XIV. São Paulo: Ática, 1994.

HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d.

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SPINA, Segismundo. A lírica trovadoresca. Rio de Janeiro: Grifo/São Paulo: Edusp, 1972.

TARALLO, Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1990.

VASCONCELOS, José Leite de. Lições de filologia portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1959.

VICENTE, Gil. Três autos. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Folha, 1997.

Fonte: www.filologia.org.br

Dia da Língua Nacional

21 de Maio

A nossa magna lingua portugueza
e nobres sons é um thesouro.
seccou o poente, murcha a luz represa.
Já o horizonte não é oiro: é ouro.
Negrou? Mas das altas syllabas os mastros
Contra o ceu vistos nossa voz affoite.
O claustro negro ceu alva azul de astros,
Já não é noute: é noite."

Fernando Pessoa, 1930

"O meu país não é a minha língua,
mas levá-la-ei para aquele que
encontrar".

Maria Gabriela Llansol , 1985

língua falada por um país corresponde ao cerne de sua identidade. Desde as primeiras conquistas, como os povos egípcios, gregos e romanos, era comum que as nações colonizadoras tratassem logo de impor seu idioma como forma de dominação. O mesmo valia para a religião, pois já se sabia que, quando tiramos de um povo seu idioma e sua religião, tiramos também um grande pedaço de sua alma.

COMO SURGIU A LÍNGUA PORTUGUESA?

A Língua Portuguesa é um idioma neolatino, ou seja, é derivada do latim. Sua história começa antes da Era Cristã, quando os romanos dominaram a Península Ibérica (que hoje são Portugal e Espanha) e impuseram seus padrões de vida e sua língua.

As várias etnias que lá existiam acabaram por se misturar ao latim falado pelos soldados romanos: o linguajar do povo, que não possuía forma escrita, um latim vulgar - ao contrário do latim erudito, mais rígido. Por não estar preso à forma escrita, o latim vulgar era mais variado e por isto não foi difícil surgirem os novos dialetos, frutos das diferentes combinações em cada região.

Além da dominação pelo Império Romano, a Península Ibérica também sofreu invasões de povos germânicos (os vândalos, suevos e visigodos), no século V da Era Cristã. Daí herdamos alguns vocábulos, a maioria ligada à área militar, tais como guerra, marechal, general. As invasões dos árabes no século VIII também contribuíram para a incorporação de novas palavras. Você sabia que geralmente as palavras começadas em 'al' têm origem árabe? São exemplos: alface, alfinete, álgebra, alfândega. Das que não começam em 'al': garrafa, quintal, xarope.

As influências germânica e árabe não foram tão intensas quanto a dos romanos e por isto as raízes latinas foram as que continuaram sustentando a cultura da península. A região que hoje ocupa Portugal se destacou do restante da península no ano de 1143, quando foi declarada a independência da Nação Portuguesa, com o idioma galego-português. No sul, predominava o português, e, no norte, o galego. Esta parte foi anexada pelo povo castelhano alguns anos depois e, em 1290, o idioma português foi declarado oficial na Nação Portuguesa.

VARIAÇÕES DA LÍNGUA PORTUGUESA

A língua oficial do nosso país é a Língua Portuguesa, imposta pelos colonizadores portugueses quando chegaram à costa brasileira. Aqui já se falavam vários dialetos indígenas, porém a maioria foi extinta para dar lugar ao idioma português. Se você leu com atenção sobre o Dia do Índio, vai lembrar que, dos 1.300 dialetos falados pelas diversas tribos indígenas em 1500, só persistem hoje cerca de 180.

Mesmo tendo adotado o idioma de seu colonizador, o Brasil possui modos de escrever e de falar que foram surgindo e caracterizando nosso povo com o passar do tempo. A Língua Portuguesa aqui é bem diferente da que encontramos em Portugal, além das variações que encontramos de região para região dentro do nosso país. Isso tudo porque um idioma não é algo estático, parado no tempo. Se fosse, ainda estaríamos falando como em Portugal no século XVI, como tempos "d'antes"... Reparou como o poema de Fernando Pessoa mostra esta transformação?

Nossa língua muda de acordo com a época e com os costumes. Mesmo em curtos espaços de tempo - pense numa propaganda, por exemplo, e perceba como certos slogans acrescentaram novas palavras e expressões. E os neologismos? Até o ministro Rogério Magri, da época do governo Collor, ninguém usava o termo imexível (por saberem que tal palavra não existia ou porque não gostavam de inovar?). Muita coisa mudou e, acredite, cada um de nós contribuiu para que assim fosse!

Viu como temos várias línguas em torno da Língua Portuguesa? Tem o português de Portugal, o português do Brasil e suas inúmeras variações regionais. E ainda o português das outras colônias portuguesas (mas isto é outra história...). Não é tão complicado, porque, no final das contas, todas estão sujeitas às regras e formalidades do idioma, representadas pela Gramática da Língua Portuguesa.

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Dia da Língua Nacional

21 de Maio

História da Língua Portuguesa

O SURGIMENTO

O surgimento da Língua Portuguesa está profunda e inseparavelmente ligado ao processo de constituição da Nação Portuguesa.

Na região central da atual Itália, o Lácio, vivia um povo que falava latim. Nessa região, posteriormente foi fundada a cidade de Roma. Esse povo foi crescendo e anexando novas terras a seu domínio. Os romanos chegaram a possuir um grande império, o Império Romano. A cada conquista, impunham aos vencidos seus hábitos, suas instituições, os padrões de vida e a língua.

Existiam duas modalidades do latim: o latim vulgar (sermo vulgaris, rusticus, plebeius) e o latim clássico ( sermo litterarius, eruditus, urbanus). O latim vulgar era somente falado. Era a língua do cotidiano usada pelo povo analfabeto da região central da atual Itália e das províncias: soldados, marinheiros, artífices, agricultores, barbeiros, escravos, etc. Era a língua coloquial, viva, sujeita a alterações freqüentes. Apresentava diversas variações. O latim clássico era a língua falada e escrita, apurada, artificial, rígida, era o instrumento literário usado pelos grandes poetas, prosadores, filósofos, retóricos... A modalidade do latim imposta aos povos vencidos era a vulgar. Os povos vencidos eram diversos e falavam línguas diferenciadas, por isso em cada região o latim vulgar sofreu alterações distintas o que resultou no surgimento dos diferentes romanços e posteriormente nas diferentes línguas neolatinas.

No século III a.C., os romanos invadiram a região da península ibérica, iniciou-se assim o longo processo de romanização da península. A dominação não era apenas territorial, mas também cultural. No decorrer dos séculos, os romanos abriram estradas ligando a colônia à metrópole, fundaram escolas, organizaram o comércio, levaram o cristianismo aos nativos. . . A ligação com a metrópole sustentava a unidade da língua evitando a expansão das tendências dialetais. Ao latim foram anexadas palavras e expressões das línguas dos nativos.

No século V da era cristã, a península sofreu invasão de povos bárbaros germânicos ( vândalos, suevos e visigodos). Como possuíam cultura pouco desenvolvida, os novos conquistadores aceitaram a cultura e língua peninsular. Influenciaram a língua local acrescentando a ela novos vocábulos e favorecendo sua dialetação já que cada povo bárbaro falava o latim de uma forma diferente.

Com a queda do Império Romano, as escolas foram fechadas e a nobreza desbancada, não havia mais os elementos unificadores da língua. O latim ficou livre para modificar-se.

As invasões não pararam por aí, no século VIII a península foi tomada pelos árabes. O domínio mouro foi mais intenso no sul da península. Formou-se então a cultura moçárabe, que serviu por longo tempo de intermediária entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. Apesar de possuírem uma cultura muito desenvolvida, esta era muito diferente da cultura local o que gerou resistência por parte do povo. Sua religião, língua e hábitos eram completamente diferentes. O árabe foi falado ao mesmo tempo que o latim (romanço). As influências lingüísticas árabes se limitam ao léxico no qual os empréstimos são geralmente reconhecíveis pela sílaba inicial al- correspondente ao artigo árabe: alface, álcool, Alcorão, álgebra, alfândega... Outros: bairro, berinjela, café, califa, garrafa, quintal, xarope...

Embora bárbaros e árabes tenham permanecido muito tempo na península, a influência que exerceram na língua foi pequena, ficou restrita ao léxico, pois o processo de romanização foi muito intenso.

Os cristãos, principalmente do norte, nunca aceitaram o domínio muçulmano. Organizaram um movimento de expulsão dos árabes (a Reconquista). A guerra travada foi chamada de "santa" ou "cruzada". Isso ocorreu por volta do século XI. No século XV os árabes estavam completamente expulsos da península.

Durante a Guerra Santa, vários nobres lutaram para ajudar D. Afonso VI, rei de Leão e Castela. Um deles, D. Henrique, conde de Borgonha, destacou-se pelos serviços prestados à coroa e por recompensa recebeu a mão de D. Tareja, filha do rei. Como dote recebeu o Condado Portucalense. Continuou lutando contra os árabes e anexando novos territórios ao seu condado que foii tomando o contorno do que hoje é Portugal.

D. Afonso Henriques, filho do casal, funda a Nação Portuguesa que fica independente em 1143. A língua falada nessa parte ocidental da Península era o galego-português que com o tempo foi diferenciando-se: no sul, português, e no norte, galego, que foi sofrendo mais influência do castelhano pelo qual foi anexado. Em 1290, o rei D. Diniz funda a Escola de Direitos Gerais e obriga em decreto o uso oficial da Língua Portuguesa.

Fonte: www.portugues.com.br

Dia da Língua Nacional

21 de Maio

A realidade, que se busca atingir, no contexto brasileiro, é de um tipo que, desde a antigüidade, se intuiu. Efetivamente é lícito ressaltar que, apesar de Platão (República) e Aristóteles (Poética) se terem distinguido, respecitvamente, na análise do significado da poesia, por atribuir ao poeta a função de inflamar as paixões humanas ou, ao contrário, de satisfazê-las e regulá-las, tem ambos pontos comuns: poesia como mimesis, emoção em quem se debruça sobre a realidade, justificação da poesia pelo serviço prestado ao Estado, exercício pelo poeta de grande poder sobre os outros homens.

Dando ao termo poesia o sentido mais largo, para abranger toda a produção literária, vemo-nos diante do fato de que é naquilo que separa fundamentalmente os dois filósofos que se situa o problema das relações entre o evoluir da literatura de uma dada sociedade e o desenvolvimento de sua expressão lingüística. Sendo indivíduo e sociedade entidades que interagem continuamente a partir de moviemntos do primeiro (paixões, no contexto aristotélico-platoniano) é dentro de uma abordagem psicossocial da realidade expressional que o lingüista deve buscar o verdadeiro confronto entre os dois desenvolvimentos, o literário e o lingüístico. Isso porque a evolução da realidade lingüística é também evolução do sentimento da mesma.

O obrar lingüístico é da essência da natureza humana e não exterior a ela e a literatura, como forma de expressão humana, é um dos indicadores, à disposição do analista, do sentido real da evolução lingüística em seu conjunto. A função atribuída por Aristóteles ao poeta, de satisfazer e regular os movimentos humanos, está presente em todo falante, ao imitar este a realidade dentro de um contexto de liberdade em relação a regras expressionais prévias, pois esta sua ação acaba sendo, basicamente uma interpretação. Assim como a arte do poeta - escritor, no sentido mais amplo - é uma virtude intelectual essencialmente prática, cujo papel primordial é a imitação do real, da natureza física ou do mundo moral, sem ser pura cópia mas síntese dos caracteres das coisas, o usuário da língua, em um contexto de livre interação com a realidade de seu interesse, procede igualmente por imitação, sendo menos eficiente na manutenção das estruturas gramaticais de sua realidade, preexistente que são com respeito a essa livre interação.

A função imitativa, presente no obrar lingüístico de tal falante, é também progressiva, levando à sedimentação, caso influa ele no meio social e seja prolongada sua experiência, de um novo conjunto de regras. a imitação começa com propósitos de exatidão, passa a ser, na segunda fase, seletiva e, persistindo as condições da livre interação, transforma-se em produção. Este fato é abonado por Aires de Casal que, citando Muratori, afirma que os índios do Uruguai sabiam ler com desembaraço os livros espanhóis, mas não os entendiam.

A situação, assim indicada por Aires de Casal, era comum a todos os territórios em que os jesuítas eram protagonistas da cena de atração dos indígenas e inserção dos mesmos em sua esfera de interesses, que não eram os da coroa portuguesa. Esse quadro fundamental explica o processo imitativo do desempenho lingüístico indígena e a conseqüente formação de uma realidade expressional progressivamente diversa, sem nenhum retorno ao estado de 1500 a não ser, e na língua escrita, após a destruição do esquema cultural dos padres da Companhia de Jesus.

O que diremos, a seguir, visa a demonstrar que, no Brasil, até o advento da era pombalina, viveu-se uma experiência lingüística de todo dissociada da que contemporaneamente se realizava em Portugal, interagindo, em nosso meio, os falantes de todas as procedências sob a égide da imitação progressiva daquilo que progressivamente resultava do bilingüísmo, realizado com o português vivo europeu e o tupinambá. Até cerca de 1750 não era dessas línguas, nesse processo, mais prestigiosa que a outra. A decisão política de Pombal, de alçar a língua portuguesa ao status de língua única, fez com que aflorasse, dentro da sociedade brasileira, uma realidade lingüística que não correspondia, pelos duzentos e cinqüenta anos decorridos, à denominação que recebia.

A história posterior deste instrumento lingüístico, assim oficializado, é a história da contradição entre política da língua, tardiamente imposta pelo lusismo político dominante, e realidade, com o natural apoderamento dos meios de disseminação da língua escrita para o fim de deter a continuada diferenciação da língua falada. Para realizar nosso intento, acompanharemos o conceito de língua, no contexto da expansão política das nações européias, desde o tempo das Cruzadas até o fim da era pombalina, passando pelas vicissitudes políticas do Estado português em suas relações com a Companhia de Jesus.

Após a era pombalina, seguiremos o espírito romântico a contrastar com o tenaz esforço, quase sempre bem sucedido, dos lusóficos no sentido de preservação de uma unidade expressional de caráter escrito, sob a ilusão de poder este anular o livre, espontâneo e historicamente coerente desempenho do usuário brasileiro no plano da língua viva. No desenvolvimento do trabalho, a preocupação maior será com as fontes, dando-se ênfase, na bibliografia da questão da língua, aos trabalhos que representem principalmente renovação doutrinária.

Evitar-se-á, tanto quanto possível, a citação de contemporâneos para não se produzir polêmica. Os poucos que receberem referência o serão por corresponderem a algum aspecto particularmente relevante do estado atual do problema. O trabalho enquadra-se no setor da lingüística referente à classificação das línguas e corresponde ao aspecto da justificação do ato político de se dar nome a um idioma com base no levantamento rigoroso dos fatores históricos e sócio-culturais presentes em sua formação.

Fonte: www.brasilcultura.com.br

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