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Astecas: uma República confundida com Teocracia

1 – Introdução

Este é o quarto texto que escrevo para Klepsidra, a exemplo de seus predecessores, ele também se remete a familiarizar o leitor – seja ele leigo ou iniciado, mas principalmente os leigos – com um panorama geral de uma civilização, desta vez, a escolhida é talvez a mais brilhante civilização da Mesoamérica: a civilização Asteca.

Durante este trabalho, além de explicar as origens, talvez míticas, deste povo, bem como seus precedentes, seu desenvolvimento, apogeu e finalmente sua queda perante os invasores Espanhóis, pretendo mostrar que a idéia sustentada por muitos de que os Astecas constituíam uma Teocracia, tal qual a dos Incas, está no mínimo equivocada e se relaciona com a idéia preconceituosa que nos é incutida ao longo de nossas vidas de que povos indígenas só podem ser atrasados, sendo assim, um grande país indígena não poderia ter outra forma de governo senão uma que justificasse o poder do governante como sendo uma dádiva dos deuses.

Pictografia Asteca
Pictografia Asteca

Tentarei provar, em minha modesta condição de graduando de História – e apaixonado pela história de povos antigos e medievais, tais como Fenícios, Persas, Gregos, Chineses, Romanos, Árabes, Francos, Vikings, Mongóis e, porque não, Incas, Astecas e Maias – que o verdadeiro sistema de governo dos Astecas era uma espécie de República muito semelhante, inclusive, à República Romana.

2 – Geografia, Clima e Arqueologia

O México atual não corresponde exatamente ao que foi o Império Asteca (mesmo em se tratando de uma República, como explicarei mais adiante, o termo Império não é errado) em suas dimensões máximas, mas diferentemente do que ocorreu em relação ao Tawantinsuyu (Império Inca) e o atual Peru, o México atual é maior do que o Império Asteca jamais foi.

Para começar, os Astecas jamais dominaram a península de Yucatán, nem tão pouco a península da Califórnia. Além disso, no próprio núcleo do México, na época Asteca, existiam certos "clarões" no Império, ou seja, áreas livres do Império incrustadas em seu coração, como era o caso de Tlaxcala.

A região sofria freqüentes abalos sísmicos e erupções vulcânicas, tendo vulcões de mais de cinco mil metros de altura. Ao norte, à medida que se aproxima do deserto do Arizona, o clima se torna quente e seco, ao sul, já na zona tropical, surgem florestas densas e com fauna e flora ricas.

Além de tudo isso, a região ainda é cortada pelas Sierras Madres oriental e ocidental o que faz com que a altitude média do país esteja entre 3000 e 4000 metros acima do nível do mar. Tamanhas altitudes provocam períodos de frio intenso e estiagem no inverno e final do outono, sendo assim, nada mais natural que as principais cidades pré-colombianas tenham se desenvolvido nas margens de lagos ou arroios.

No que se refere a minérios, o México é muito rico em prata, sendo atualmente um dos maiores produtores mundiais do minério, e chumbo, além de ter (especialmente na época referida) boas reservas de ouro, estanho, cobre e pedras preciosas.

Mapa do Império Asteca
Mapa do Império Asteca

Nas florestas Mexicanas, as espécies que mais chamaram a atenção dos conquistadores Espanhóis foram os papagaios e os jaguares, porém também existiam na região outros animais como águias, coiotes, beija-flores, uma espécie de cachorro sem pelos, entre outros animais exóticos.

Alguns achados arqueológicos têm ajudado muito os pesquisadores a aprenderem mais sobre a história da Mesoamérica, é o caso dos crânios de cristal, de estelas encontradas com inscrições hieroglíficas, calendários e tudo o que resistiu a ação do tempo, dos saques Espanhóis e às fogueiras dos missionários Europeus. Acredita-se que na própria Cidade do México, que foi edificada sobre as ruínas de Tenochtitlán, existam diversos "tesouros" soterrados. Uma simples escavação para a realização de uma obra no centro velho da cidade provou que os achados podem ser abundantes, foram encontradas várias peças totalmente desconhecidas, como o calendário religioso Asteca.

México atual
Este mapa mostra o México atual

3 – A Mesoamérica antes dos Astecas

Os Astecas, também ditos Mexicas, só chegaram a região conhecida como Mesoamérica no ano de 1325 d.C., porém, antes disso a região já era habitada há muito tempo por povos muito avançados, aos quais os Astecas deveram muito de sua cultura e que talvez, como veremos, tenham sido seus "progenitores".

3.1 – O que é a Mesoamérica

Achei melhor escrever este item para esclarecer um termo que pode causar dúvidas. A expressão Mesoamérica é empregada com freqüência não com conotação geográfica, mas sim histórica e antropológica, sendo que designa uma região das atuais América Central e do Norte, onde se desenvolveram culturas indígenas avançadíssimas, só igualadas pelas culturas indígenas Andinas, na América do Sul.

A Mesoamérica engloba o México, a Guatemala, Honduras e El Salvador, além de talvez algumas partes de outros países da América Central.

3.2 – O advento Olmeca

É comum se falar em presença humana na América desde 35000 a.C., no entanto, na Mesoamérica, os primeiros testemunhos de ocupação datam de cerca de 20000 a.C.. Já os fósseis humanos mais antigos encontrados, não são de antes do que 9000 a.C..

É provável que por essa época o homem Mesoamericano estivesse começando a se sedentarizar, processo que só se efetivaria por volta de 5000 a.C., com a descoberta da agricultura (plantio do milho, feijão, abóbora e pimenta malagueta). Porém, para um povo se desenvolver e se tornar uma civilização é preciso um pouco mais do que apenas a agricultura. É preciso pelo menos a existência de uma cerâmica, o que só foi aparecer por volta de 2300 a.C.

Cabeça colossal Olmeca
Cabeça colossal Olmeca esculpida em pedra

Mais ou menos em 1300 a.C., numa região conhecida como Olman (Terra da Borracha), próxima ao golfo do México, ao sul de Veracruz, uma civilização que se tornaria um marco na História pré-colombiana: os Olmecas.

Este povo se disseminou por várias "cidades" (o termo não é muito correto, uma vez que elas eram apenas centros cerimoniais construídos para serem residências de sacerdotes e nobres, além de acolherem os cultos ao deus-jaguar) construindo grandes edifícios em pedras, tais como templos e túmulos, além de trabalhar o barro com maestria. Os Olmecas se tornaram gênios da escultura, criando máscaras, sarcófagos, estelas, as famosas cabeças de basalto da Mesoamérica, além de estatuetas de jade, argila, quartzo, obsidiana, serpentina e cristal de rocha.

Os Olmecas desenvolveram intensa atividade religiosa e mercantil, sendo assim, suas caravanas de comércio serviram para disseminar por várias regiões não só seus produtos e conhecimentos, tais como o cultivo do algodão para a confecção de roupas, mas também sua religião, que lançou bases para o culto futuro do deus da água.

Por volta de 600 a.C., a influência Olmeca já era sentida nas proximidades do que viria a ser Tenochtitlán. Porém, à medida que outros povos se desenvolviam, os Olmecas começaram a entrar em decadência e no século II ou III já não mais eram conhecidos, talvez tenham sido destruídos em batalha, talvez tenham migrado para outras regiões, o fato é que desapareceram do contexto da Mesoamérica, mas deixaram seu legado para as civilizações clássicas da região.

Divindade Olmeca
Divindade Olmeca

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