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Queda de Constantinopla

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A queda de Constantinopla – 1453

Maomé II, um enérgico soberano dos turcos otomanos no século XV, estava destinado a completar a extinção do império do Oriente. Pouco restava dele além de uma delgada fatia de território na margem européia do Bósforo, principalmente os subúrbios de Constantinopla; mesmo essa cidade diminuía tanto, em tamanho e espírito público, que Franza, camarista da corte e secretário do último imperador, Constantino Paleólogo, só conseguiu, por meio de um censo diligente, quatro mil, novecentos e setenta cidadãos dispostos e aptos a pegar em armas pela defesa da cidade. Contando as tropas auxiliares estrangeiras, uma guarnição de talvez sete ou oito mil soldados defendia os muros de Constantinopla em seu último cerco por aproximadamente duzentos e cinqüenta mil muçulmanos. A descrição desse cerco é uma das passagens mais memoráveis de Edward Gibbon.

Do triângulo formado por Constantinopla, os dois lados ao longo do mar se tornaram inacessíveis ao inimigo — o mar de Mármara por natureza e a baía por astúcia. Entre as duas águas, a base do triângulo, a terra, estava protegida por uma dupla muralha e um fosso de quase cem metros de profundidade. Contra essa linha de fortificação, que se prolongava por dez quilômetros, os otomanos dirigiram seu principal ataque; e o imperador, após distribuir a guarnição e o comando dos postos mais perigosos, empreendeu a defesa da muralha externa. Nos primeiros dias do cerco, os soldados gregos desceram para o fosso oi fizeram investidas em campo aberto; não tardaram, porém a descobrir que, proporcionalmente ao seu número, um cristão tinha mais valor do que vinte turcos; depois dessas preliminares audazes, contentaram-se prudentemente manter a defesa com suas armas mísseis. A nação era de fato sem fibra, mas o último Constantino merece o título de herói; seu nobre grupo de voluntários estava inspirado de valor romano e as tropas auxiliares estrangeiras amparavam a honra da cavalaria ocidental. As incessantes rajadas de lanças e flechas eram acompanhadas da fumaça, do ruído e do fogo de seus mosquetes e canhões. Suas armas de fogo portáteis descarregavam ao mesmo tempo de cinco a dez balas de chumbo do tamanho de uma noz, e segundo a proximidade das fileiras e a força da pólvora, várias couraças e corpos eram trespassados pelo mesmo tiro.

Mas as trincheiras dos turcos eram destruídas ou se cobriam de escombros. A cada dia aumentava a tática dos cristãos, mas seu suprimento inadequado de pólvora se consumia nas operações cotidianas. O material bélico de que dispunham não era numeroso nem potente, e se possuíam alguns canhões pesados, temiam assentá-los na muralha cuja frágil estrutura poderia ser abalada pela explosão e desabar. O mesmo segredo destrutivo fora revelado aos muçulmanos, que o empregavam com a superior potência da garra, do despotismo. O grande canhão de Maomé chamara a atenção por si só, peça importante e visível na história da época, todavia, esse engenho enorme era flanqueado por dois companheiros de quase igual tamanho. A longa linha da artilharia turca estava apontada contra as muralhas; quatorze baterias estrondavam ao mesmo tempo nos lugares mais acessíveis; e de uma delas diz-se ambiguamente que se compunha de cento e trinta canhões ou que descarregava cento e trinta balas. Entretanto, no poderio e na atividade do sultão podemos enxergar o começo de uma nova ciência. Sob o comando de um oficial que contava os instantes; o grande canhão podia ser carregado e disparado não mais do que sete vezes por dia. O metal aquecido infelizmente estourou; vários artífices morreram na explosão, e suscitou admiração a perícia de um deles que teve a idéia de evitar o perigo e o acidente derramando óleo, depois de cada tiro, dentro da boca do canhão.

Os primeiros disparos ao acaso fizeram mais barulho do que efeito; e foi por recomendação de um cristão que os técnicos aprenderam a visar os dois lados opostos dos ângulos salientes de um bastão. Ainda que imperfeito, a intensidade e a repetição do fogo de artilharia causou certa impressão nas muralhas, e os turcos, levando suas barricadas até a beira do fosso, tentaram franquear a enorme brecha e abrir caminho para o assalto. Empilhavam inúmeros galhos, barris e troncos de árvores, e foi tal a impetuosidade da turba que os mais fracos e os da frente tombaram de ponta-cabeça fosso abaixo, sepultados imediatamente sob a massa amontoada. Encher o fosso era o empenho dos sitiantes, retirar o entulho, a segurança dos sitiados, ao fim de uma longa e sanguinária batalha, a teia tecida de dia se desenredou à noite. O recurso seguinte de que lançou mão Maomé foram as galerias subterrâneas; mas o solo era rochoso e cada tentativa era interrompida e solapada pelos técnicos cristãos; ainda não tinha sido inventada a arte de encher tais passagens de pólvora para lançar pelos ares torres e cidades inteiras.

Uma circunstância que distingue o sítio de Constantinopla é a reunião da artilharia antiga com a moderna. O canhão se misturava a engenhos mecânicos que lançavam pedras e dardos; tanto a bala quanto o aríete se voltava contra as mesmas muralhas; tampouco havia a descoberta da pólvora eliminado o uso do fogo líquido e inextinguível. Um torreão de madeira de tamanho considerável avançava sobre rolos; esse depósito portátil de munição e barricadas tinha a protegê-lo uma tríplice couraça de couro de boi; incessantes rajadas eram disparadas com segurança das suas flecheiras; na parte fronteira, três portas possibilitavam entrada e retirada alternadas de soldados e artífices. Eles subiam por uma escada até a plataforma superior, a cuja altura outra escada de assalto podia ser içada com polias a fim de formar uma ponte que se agarrava ao muro inimigo.

Por meio desses estratagemas incomodativos, alguns tão novos quão perigosos para os gregos, a torre de São Romano foi por fim derrubada; após luta acirrada, os sitiados repeliram os turcos e a noite veio interrompê-los; confiavam eles porém que, à luz do dia, pudessem renovar o ataque com maior vigor e sucesso decisivo. Cada momento nessa pausa na ação, desse intervalo de esperança, foi aproveitado pela atividade do imperador e de Justiniano os quais passaram a noite no local aproveitando, os trabalhos de que dependia a segurança da igreja e da cidade. Ao raiar do dia, o sultão impaciente percebeu com surpresa e pesar que seu torreão de madeira havia sido reduzido a cinzas, o fosso fora limpo e restaurado, e a torre de São Romano estava novamente inteira e firme. Deplorou ele o malogro do seu intento e soltou uma exclamação profana, de que a palavra dos trinta e sete mil profetas não o teriam convencido a acreditar que, com tão pouco tempo, uma obra que tal pudesse ter sido levada a cabo pelos infiéis.

A generosidade dos princípios cristãos era pouca e tardia; entretanto, aos primeiros receios de um cerco, Constantinopla havia adquirido, nas ilhas do Arquipélago, na Moréia e na Sicília, os suprimentos mais necessários. Já no começo de abril cinco grandes barcos equipados para o comércio e a guerra teriam partido da baía de Quios se o vento não soprasse obstinadamente do norte. Um desses barcos trazia a bandeira imperial; os outros quatro pertenciam a genoveses e estavam carregados de trigo e cevada, de vinho, óleo e legumes e, acima de tudo, de soldados e marinheiros para o serviço militar da capital. Após uma tediosa espera, uma brisa suave, e no segundo dia, um vento norte vindo do sul os levou através do Helesponto e da Propôntida; contudo, a cidade já fora assediada por mar e por terra, e a frota turca, na entrada do Bósforo, se alinhava de praia a praia em forma de crescente a fim de interceptar, ou pelo menos repelir, essas audazes tropas auxiliares.

O leitor que tenha presente no espírito a situação geográfica de Constantinopla poderá conceber e admirar a grandeza do espetáculo.

Os cinco barcos cristãos continuavam a avançar com gritos alegres, e todo ímpeto de velas e remos contra a frota inimiga de trezentas naves: o reparo, o acampamento, as costas da Europa e da Ásia estavam repletos de espectadores que aguardavam com ansiedade o desfecho desse momentoso socorro. À primeira vista, parecia não haver dúvida a respeito; a superioridade dos muçulmanos ultrapassava toda medida ou cálculo, e numa situação de calma seu maior número e sua bravura teriam inevitavelmente prevalecido.

Entretanto, apressada e imperfeita, sua marinha fora criada não pelo gênio do povo, mas pela vontade do sultão: no auge de sua prosperidade, os turcos reconheceram que, se Deus lhes tinha dado a terra, deixara o mar aos infiéis; uma série de derrotas, um rápido progresso do declínio comprovou a verdade dessa confissão de modéstia. À exceção de dezoito galés de algum poder, o restante da frota turca consistia em barcos abertos, toscamente construídos e desajeitadamente manejados, repletos de tropas e destituídos de canhões; e como a coragem advém, numa grande medida, da consciência da força, o mais bravo dos janízaros só podia tremer sobre um novo elemento.

Na esquadra cristã, quatro robustos e altaneiros barcos eram governados por pilotos competentes e sua equipagem se compunha de veteranos da Itália e da Grécia, longamente adestrados nas artes e perigos do mar. Esses barcos pesados podiam afundar ou dispersar os débeis obstáculos que lhes impedissem a passagem; sua artilharia varria as águas; seu fogo líquido se derramava sobre a cabeça dos adversários que, com a pretensão de abordá-los, se atrevessem a aproximar-se; outrossim, os ventos e as vagas estão sempre a favor dos navegantes mais hábeis. Nesse conflito, a nave imperial, que quase fora subjugada, foi socorrida pela genovesa; os turcos, porém, num ataque a distância e noutro de perto, sofreram perdas consideráveis ao serem duas vezes repelidos. O próprio Maomé, montado a cavalo, encorajava da praia, com sua voz e presença, a bravura de seus comandados com a promessa de recompensas e com um temor mais poderoso que o temor do inimigo. As paixões de sua alma e mesmo os gestos do seu corpo pareciam imitar as ações dos combatentes; como se fora o senhor da natureza, esporeou o cavalo num destemido e impotente esforço de entrar mar adentro. Suas censuras ruidosas e os clamores do acampamento incitaram os otomanos a um terceiro ataque, mais fatal e sangrento que os dois anteriores; e cumpre-me repetir, embora não lhe possa dar crédito, o testemunho de Franza, que afirma terem eles perdido mais de doze mil homens na matança daquele dia. Fugiram em desordem para as praias da Europa e da Ásia, enquanto o esquadrão dos cristãos, triunfante e ileso, rumou ao longo do Bósforo para ancorar com segurança na baía.

Na ousadia da vitória, jactaram-se eles de que todo o poderio turco tivera de ceder às suas armas; todavia, o almirante, ou capitão-paxá, consolou-se em parte de um doloroso ferimento no olho apresentando tal acidente como a causa de sua derrota. Balta Ogli era um regenerado da raça dos príncipes búlgaros; maculava-lhe o renome militar o vício malquisto da avareza; e sob o despotismo do príncipe e do povo, o infortúnio é prova suficiente de culpa. Seu posto e serviços foram abolidos pelo desagravo de Maomé. Na presença real, o capitão-paxá foi estendido no chão por quatro escravos e recebeu uma centena de golpes dados com uma vara de ouro; sua morte havia sido decretada, e ele implorou a clemência do sultão, que se satisfaz com a punição mias branda da confiscação e do exílio.

A chegada desse suprimento reascendeu as esperanças dos gregos e pôs à mostra a indiferença de seus aliados ocidentais. Em meio aos desertos da Anatólia e às rochas da Palestina, os milhões de cruzados haviam sepultado a si próprios num voluntário e inevitável túmulo; a situação da cidade imperial, todavia, era tão inacessível aos seus inimigos quanto acessível aos amigos, e o armamento moderno e racional dos Estados marítimos poderia ter salvado os remanescentes do nome romano e mantido uma fortaleza cristã no coração do império otomano. No entanto, esse foi o único e débil esforço em prol da libertação de Constantinopla; as potências mais distantes eram insensíveis ao perigo dela; e o embaixador da Hungria, ou pelo menos dos huníadas, residia no acampamento turco para desfazer os temores e dirigir as operações do sultão.

Era difícil para os gregos penetrar o segredo do divã; estavam não obstante convencidos de que uma resistência tão obstinada e surpreendente havia fatigado a perseverança de Maomé. Este começou a pensar numa retirada; o cerco teria sido prontamente erguido se a ambição e o ciúme de Kahlil Paxá, que ainda mantinha uma correspondência secreta com a corte bizantina. A conquista da cidade parecia irrealizável a menos a baía era inacessível; uma impenetrável cadeia tinha então a defendê-la oito barcos grandes, mais de vinte de menor tamanho, e diversas galés e corvetas; em vez de forçar essa barreira, os turcos poderiam conceber uma surtida naval e um segundo encontro em mar aberto.

Nessa hora de perplexidade, o gênio de Maomé ideou e executou um plano audaz e admirável, de transportar por terra seus barcos mais leves e seus suprimentos militares, do Bósforo até a parte mais elevada da baía. A distância é de cerca de quinze quilômetros, o terreno, desigual estava coberto de mato cerrado, e como a estrada tinha de ser aberta além do subúrbio da Gálata, a livre passagem ou a total destruição dos turcos iria depender da opção dos genoveses. Mas esses mercadores interesseiros ambicionavam o privilégio de serem os últimos devorados, e a deficiência de arte foi suprimida pela força de miríades obedientes. Cobriu-se uma estrada plana com uma larga plataforma de tábuas fortes e sólidas, untadas de sebo de carneiro e boi para ficarem macias e escorregadias. Oitenta galés leves e patachos de cinqüenta e trinta remos foram desembarcados no litoral do Bósforo, colocados um por um sobre roletes e arrastados pela força de homens e polés. Dois guias ou pilotos postavam-se ao leme e na proa de cada barco, as velas foram desferradas ao vento, e o trabalho, saudado por cantos e aclamações. No decorrer de uma única noite, essa armada turca galgou penosamente a colina, seguiu pelo platino, e foi pelo declive nas águas rasas da baía, muito acima da perseguição das naves dos gregos, de maior calado.

A verdadeira importância dessa operação aumentaram-na a consternação e confiança que inspirou; contudo, o fato notório, inquestionável, ficou à vista e foi registrado pelas penas das suas nações. Um estratagema semelhante havia sido praticado repetidas vezes pelos antigos; as galés otomanas (é importante repetir) deviam ser consideradas antes como botes grandes; e se compararmos a magnitude e a distância, os obstáculos e os meios, o gabado milagre talvez tenha sido igualado pela indústria de nossa própria época. Tão logo Maomé ocupara a baía superior com uma frota e um exército, construiu ele, na parte mais estreita, uma ponte, ou melhor, um molhe, de cinqüenta cúbitos de largura e cem de comprimento; era formada de cascos e barris ligados por caibros, presos por ferros, e coberta com um soalho firme. Nesse molhe flutuante assentou um dos seus maiores canhões, do mesmo passo em que oitenta galés, com tropas e escadas de assalto, se aproximaram do lado mais acessível, o qual havia sido outrora escalado pelos conquistadores latinos.

A indolência dos cristãos tem sido responsabilizada por não destruir essas obras inacabadas; seu fogo de artilharia, porém foi dominado e silenciado por um poder superior; tampouco deixaram eles de, numa sortida noturna, tentar queimar os navios e a ponte do sultão. A vigilância deste evitou-lhes o avizinhamento; as suas galeotas de frente foram afundadas ou apresadas; por ordem do sultão, chacinaram-se desumanamente quarenta jovens, os mais bravos da Itália e da Grécia; o desgosto do sultão tampouco poderia ter sido minorado pela justa, conquanto tão cruel retaliação de expor, penduradas às muralhas, as cabeças de duzentos e cinqüenta cativos muçulmanos.

Após um cerco de quarenta dias, a sina de Constantinopla não pôde ser mais evitada. A diminuta guarnição estava exaurida por um duplo ataque; as fortificações, que haviam agüentado por tanto tempo a violência hostil, foram desmanteladas de todos os lados pelo canhão otomano; abriram-se muitas brechas, e perto da porta de São Romano quatro torres foram arrasadas. Para pagamento de suas debilitadas e amotinadas tropas, Constantino se viu obrigado a esbulhar as igrejas com a promessa de uma quadruplicada devolução, e o seu sacrilégio propiciou um novo motivo de censura aos inimigos da união. Um espírito de discórdia debilitou o que restava do vigor cristão; as tropas auxiliares genovesas e venezianas sustentaram a primazia dos seus respectivos serviços; e Justiniano e o grão-duque, cuja ambição não se extinguira ante o perigo comum, acusaram-se mutuamente de traição e covardia.

Durante o cerco de Constantinopla, as palavras “paz” e “capitulação” haviam sido por vezes pronunciadas, e várias embaixadas transitaram entre o acampamento e a cidade. O imperador grego fora humilhado pela adversidade e teria cedido a quaisquer termos compatíveis com a religião e a realeza. O sultão turco estava desejoso de poupar o sangue de seus soldados, e ainda mais de resguardar para seu próprio uso os tesouros bizantinos; e cumpriu um dever sagrado ao apresentar aos gabours a escolha entre circuncisão, tributo ou morte. A avareza de Maomé poderia ter sido satisfeita com uma soma anual de cem mil ducados, mas sua ambição se apossou da capital do Oriente; ao príncipe ofereceu um rico equivalente, ao povo uma livre tolerância ou uma partida segura; todavia, após algumas negociações infrutíferas, ele anunciou sua decisão de encontrar ou um trono ou um túmulo sob as muralhas de Constantinopla. O senso de honra e o temor da censura universal impediram Paleólogo de entregar a cidade às mãos dos otomanos, pelo que decidiu arrostar os últimos extremos da guerra.

Vários dias foram gastos pelo sultão nos preparativos do assalto; deu-lhe uma pausa sua ciência favorita, a astrologia, que fixava o 29 de maio como dia fatal do afortunado. Na tarde de 27, ele deu suas ordens finais, reuniu em sua presença os chefes militares e enviou seus arautos pelo acampamento para proclamarem o dever e os motivos da perigosa empresa. O temor é o primeiro princípio de um governo despótico; as ameaças do sultão foram expressas no estilo oriental, advertindo os fugitivos e desertores de que, ainda que tivessem asas de pássaro, jamais conseguiriam escapar-lhe da justiça. A maior parte de seus paxás e janízaros era constituída de filhos de pais cristãos, mas as glórias do nome turco se perpetuaram por adoção consecutiva; na mudança gradual de indivíduos, o espírito de uma legião, de um regimento ou uma horda se mantém vivo pela disciplina. Nessa guerra santa, os muçulmanos eram exortados a purificar a mente com preces, o corpo com sete abluções, se abster de alimento até o fim do dia seguinte. Uma turba de dervixes visitava as tendas com o fito de instilar o desejo de martírio e a confiança de desfrutar uma perene juventude entre os rios e jardins do paraíso, nos braços de virgens de olhos negros. No entanto, Maomé confiava principalmente na eficácia de recompensas visíveis e materiais. Duplo soldo era prometido às tropas vitoriosas. “A cidade e os edifícios”, disse Maomé, “são meus; mais renuncio, em favor de vossa bravura, os cativos e o espólio, os tesouros de ouro e de beleza; sede ricos e felizes. São muitas as províncias do meu império; o primeiro soldado que galgar as muralhas de Constantinopla será recompensado com o governo da mais bela e mais rica; e minha gratidão o cumulará de honras e riquezas acima da medida de suas próprias esperanças”. Esses diversos e poderosos incitamentos difundiram entre os turcos generalizado ardor, descuidoso da vida e ávido de ação; o acampamento ressoava aos gritos muçulmanos de “Deus é Deus; só existe um Deus, e Maomé é seu apóstolo”, e o mar e a terra, de Gálata até as sete torres, se iluminava com o clarão de suas fogueiras noturnas.

Bem diversa era a situação dos cristãos, os quais, com brados de impotência, deploravam a culpa ou a punição de seus pecados. A imagem celeste da Virgem fora exposta em posição solene, mas a divina protetora deles estava surda às súplicas. Eles exprobravam a obstinação do imperador em recusar uma rendição a tempo, anteviam os horrores de sua sina, e suspiravam pela tranqüilidade e segurança da servidão turca. Os gregos mais nobres e os aliados mais bravos foram chamados ao palácio para se prepararem, na tarde do vigésimo oitavo dia, para os encargos e perigos do assalto geral. A derradeira fala de Paleólogo se constitui na oração fúnebre do império romano; prometeu, exortou e tentou em vão infundir a esperança que já se lhe extinguira no espírito. Neste mundo, era tudo desconsolo e desalento, e nem o Evangelho nem a Igreja propunham qualquer recompensa de vulto aos heróis tombados no serviço de sua pátria. Mas o exemplo do soberano e o confinamento de um cerco tinham armado aqueles guerreiros da coragem do desespero; a cena patética é descrita com emoção pelo historiador Franza, que estava presente à lutuosa assembléia. Eles choraram, abraçaram-se sem pensar nas suas famílias ou nas suas fortunas, dispuseram-se a oferecer a própria vida; e cada comandante, rumando para o seu setor, passou a noite toda em ansiosa vigília na muralha. O imperador, acompanhado de alguns leais companheiros, entrou na Catedral de Santa Sofia, que em poucas horas se iria converter numa mesquita, e recebeu devotamente, entre lágrimas e preces, os sacramentos da comunhão. Repousou por alguns momentos no palácio, onde ecoavam os gritos e as lamentações; rogou o perdão a todos quantos pudesse ter ofendido; e partiu a cavalo para visitar os guardas e acompanhar a movimentação do inimigo. A aflição e a queda do último Constantino se revestem de mais glória do que a longa prosperidade dos Césares bizantinos.

Na confusão das trevas, um assaltante pode às vezes ter êxito; mas naquele grande ataque geral, o discernimento militar e a informação astrológica de Maomé o aconselharam a esperar o amanhecer do memorável dia 29 de maio, no milésimo quadricentésimo qüinquagésimo terceiro ano da era cristã. A noite anterior havia sido de afanosa atividade; as tropas, o canhão e as faxinas avançaram até a beira do fosso, que em muitas partes oferecia livre e lisa passagem até a brecha; oitenta galés quase tocavam, com suas proas e suas escadas de assalto, os muros menos defensíveis da baía. Sob pena de morte, exigiu-se silêncio, mas as leis físicas do movimento e do som não obedecem nem à disciplina nem ao temor; cada indivíduo pode abafar sua voz e medir seus passos, mas a marcha e a atividade de milhares deve inevitavelmente produzir uma estranha confusão de clamores dissonantes, que chegavam aos ouvidos dos vigias nas torres.

Ao romper do dia, sem o costumeiro sinal do canhão matinal, os turcos assaltaram a cidade por mar e por terra; o símile de um fio torcido ou retorcido tem sido usado para figurar a compacidade e continuidade de sua linha de ataque.

As fileiras de vanguarda consistiam refugo de exército, uma turba de voluntários que combatiam sem ordem nem comando: velhos ou crianças sem força, campônios e vagabundos, e todos quantos se haviam incorporado ao acampamento na cega esperança da pilhagem e do martírio. O impulso comum os impeliu até a muralha; os mais audaciosos no escalá-la foram imediatamente derrubados; os cristãos não gastaram em vão nenhum dardo, nenhuma bala na turba amontoada. Mas o vigor e munição deles se exauriram nessa laboriosa defesa; o fosso encheu-se de cadáveres que serviram de degrau aos companheiros; dessa devotada vanguarda, a morte se demonstrou mais prestável que a vida. Sob o comando de seus respectivos paxás e sanjacos, as tropas da Anatólia e da România foram sucessivamente à carga; seu avanço foi variado e duvidoso, mas após um conflito de duas horas os gregos ainda mantinham e aumentavam sua vantagem; ouviu-se a voz do imperador encorajando os soldados a buscarem, num último esforço, a libertação de seu país.

Nesse momento fatal, os janízaros surgiram, frescos vigorosos e invencíveis. O próprio sultão, a cavalo, com uma maça de ferro na mão, era o espectador e juiz da bravura deles; estava cercado por dez mil soldados de suas tropas nacionais, que reservara para a hora decisiva; sua voz e seus olhos orientavam e impeliam a vaga da batalha. Seus numerosos ministros de justiça postavam-se atrás das linhas para incitar, conter e punir; se o perigo estava na frente de batalha, a vergonha e a morte inevitável aguardavam, na retaguarda, os fugitivos. Os brados de medo e de dor eram afogados pela música marcial dos tambores, trombetas e timbales; a experiência demonstrara que a ação mecânica dos sons, com acelerar a circulação do sangue e dos espíritos, age sobre a máquina humana mais vigorosamente do que a eloqüência da razão e da honra. Das linhas, das galeras e da ponte, a artilharia otomana estrondava por toda parte; e o acampamento e a cidade, e os gregos e turcos, se envolviam numa nuvem de fumaça que só poderia ser dispersada pela libertação ou destruição final do império romano. Os combates singulares dos heróis da Antiguidade ou da fábula entretêm nossa fantasia e aliciam nossos sentimentos; as hábeis manobras de guerra podem esclarecer a mente e aperfeiçoar uma ciência necessária, conquanto perniciosa. Mas os quadros invariáveis e odiosos de um assalto geral são só sangue e horror e confusão; não diligenciarei, a uma distância de três séculos e de um milhar de quilômetros, delinear uma cena para a qual não pode haver espectadores e da qual os próprios atores eram incapazes de formar qualquer idéia justa ou adequada.

A perda imediata da Constantinopla pode ser atribuída à bala ou seta que perfurou a manopla de João Justiniano. A visão do próprio sangue e a dor intensa abateram a coragem do chefe cujas armas e conselhos eram a mais firme muralha da cidade. Quando ele se retirou do seu posto em busca de um cirurgião, sua fuga foi percebida e interrompida pelo infatigável imperador. “Teu ferimento”, exclama Paleólogo, “é leve, o perigo premente e tua presença necessária, para onde queres retirar-te?” “Pela mesma estrada”, respondeu o trêmulo genovês, “que Deus abriu aos turcos”; e com tais palavras apressou-se em transpor uma das brechas da muralha interna. Por semelhante ato de pusilanimidade, inquinou-se ele a reputação de uma vida militar; os poucos dias que conseguiu sobreviver em Gálata, ou na ilha de Quios, foram amargurados pelas suas próprias censuras e pelas censuras públicas. A maior parte das tropas auxiliares lhe imitou o exemplo, e a defesa começou a afrouxar quando o ataque redobrou de vigor. O número de otomanos era cinqüenta, quiçá cem vezes superior ao de cristãos; as duplas muralhas foram reduzidas pelo canhão a um monte de escombros; num circuito de várias milhas, alguns lugares devem por força apresentar-se menos bem guardados ou de mais fácil acesso; e se os sitiantes pudessem penetrar por um só ponto, a cidade toda estaria irremediavelmente perdida.

O primeiro a merecer a recompensa do sultão foi Hassan, o Janízaro, de estatura e força gigantesca. Com a cimitarra numa das mãos e o escudo na outra, ele galgou a fortificação externa; dos trinta janízaros que lhes emularam a bravura, dezoito pereceram na audaciosa aventura. Hassan e seus doze companheiros tinham alcançado o topo; o gigante foi precipitado muralha abaixo; ergue-se sobre um joelho e foi novamente atacado com uma rajada de dardos e pedras.

Mas seu êxito provou que a façanha era possível; as muralhas e torres se cobriam imediatamente de um enxame de turcos; e os gregos, expulsos então da posição vantajosa, foram sobrepujados por turbas cada vez maiores. Entre elas, o imperador, que cumpria todos os deveres de um general e de um soldado, pôde ser visto por longo tempo, até que finalmente sumiu. Os nobres que pelejavam à sua volta defenderam até o último alento os nomes honrosos de Paleólogo e Cantacuzeno; fez-se ouvir a dolorida exclamação de Constantino, “Não haverá um cristão que me corte a cabeça?”, e seu último receio foi o de cair vivo nas mãos dos infiéis. O discreto desespero do imperador repeliu a púrpura; em meio ao tumulto, ele caiu vitimado por mão desconhecida, e seu corpo ficou sepultado sob uma montanha de outros cadáveres.

Após sua morte, a resistência e a ordem deixaram de existir: os gregos fugiram de volta à cidade, e muitos ficaram comprimidos e sufocaram na estreita passagem da Porta de São Romano. Os turcos vitoriosos irromperam pelas brechas da muralha interna, e à medida que iam avançando pelas ruas vinham engrossar-lhes as fileiras compatriotas seus que haviam forçado a Porta do Fanar, do lado da baía. No ardor da perseguição de dois mil cristãos foram passados pela espada; mas a avareza não tardou a prevalecer sobre a crueldade, e os vencedores reconheceram que teriam imediatamente dado quartel se a bravura do imperador e de seus grupos de elite não os houvesse preparado para uma oposição semelhante nas várias partes da capital. Foi assim que, ao cabo de um cerco de cinqüenta e três dias, Constantinopla, que desafiara o poderio de Cosroés, do Chagan e dos califas, foi irreparavelmente dominada pelas armas de Maomé II. Seu império só havia sido subvertido pelos latinos; sua religião foi calcada aos pés pelos conquistadores muçulmanos.

As novas de infortúnio viajam com asas rápidas; tamanha era, no entanto, a extensão de Constantinopla que os bairros mais distantes puderam prolongar por mais alguns momentos a feliz ignorância de sua ruína. Mas na generalizada consternação, nos sentimentos de ansiedade egoísta ou gregária, no tumulto e estrondo do assalto, uma noite e manhã insones devem ter decorrido; não posso crê, tampouco, que muitas damas gregas houvessem sido despertadas pelos janízaros de um sono profundo e tranqüilo. A certeza da calamidade pública fez com que as casas e os conventos imediatamente se esvaziassem; os trêmulos habitantes se apinharam nas ruas, feito um bando de animais assustadiços, como se a fraqueza acumulada pudesse gerar força, ou na vã esperança de que, no meio da multidão, cada indivíduo pudesse tornar-se seguro e invisível.

Vindos de todas as partes da capital, eles afluíram para a Catedral de Santa Sofia; no espaço de uma hora, o santuário, o coro, a nave, as galerias superior e inferior se encheram de multidões de pais e maridos, de mulheres e crianças, de padres, monges e virgens religiosas; as portas foram trancadas por dentro e todos buscaram a proteção do domo sagrado que tão recentemente haviam execrado como um edifício profano e poluído. A confiança deles se alicerçava na profecia de um entusiasta ou impostor de que os turcos entrariam em Constantinopla e perseguiriam os romanos até a coluna de Constantino, na praça fronteira a Santa Sofia; esse seria, porém, o termo de suas calamidades, pois um anjo desceria do céu com uma espada na mão e entregaria o império, com essa arma celeste, a um pobre homem sentado ao pé da coluna. “Toma essa espada”, diria, “e vinga o povo do Senhor.” A essas palavras animadoras, os turcos fugiriam instantaneamente e os romanos vitoriosos os expulsariam do Ocidente e de toda a Anatólia, até as fronteiras da Pérsia. É nessa ocasião que Ducas, com alguma dose de imaginação e muita de verdade, censura a discórdia e obstinação dos gregos. “Tivesse tal anjo aparecido”, exclama o historiador, “tivesse ele se oferecido para exterminar vossos inimigos se consentísseis na unificação da Igreja, mesmo então, nesse momento fatal, haveríeis de rejeitar vossa segurança ou enganar vosso Deus.”

Enquanto aguardavam a descida desse anjo moroso, as portas foram arrebentadas a machado, e como os turcos não encontraram resistência, suas mãos sem sangue se ocuparam em selecionar e atar a multidão de seus prisioneiros. Juventude, beleza e aparência de riqueza lhes guiavam a escolha, e o direito de prosperidade se decidia entre eles pela primazia de apresamento, pela força pessoal e pela autoridade de comando. No espaço de uma hora, os cativos homens foram atados com cordas, as mulheres com véus e cintos. Encadearam-se os senadores a seus escravos, os paralelos aos porteiros da igreja, e os jovens de classe plebéia a nobres donzelas cujo rosto era até então invisível ao sol e aos seus parentes mais próximos. No cativeiro comum, confundiam-se as classes sociais, os vínculos da natureza foram rompidos, a ao soldado inexoravelmente pouco importavam os gemidos do pai, as lágrimas da mãe e os lamentos dos filhos. Os gemidos mais altos vinham das freiras, que foram arrancadas do altar com peitos à mostra, mãos estendidas e cabelos desgrenhados; cumpre-nos piedosamente acreditar que poucas delas estariam tentadas a preferir as vigílias do harém às do mosteiro. Longas fieiras desses gregos infortunados, desses animais domésticos, foram rudemente arrastadas pelas ruas; como os conquistadores ansiavam por voltar em busca de mais presas, os passos incertos dos cativos eram apressados com ameaças e golpes.

Na mesma hora, rapina semelhante ocorria em todas as igrejas e mosteiros, em todos os palácios e habitações da capital; não havia lugar, por mais sagrado ou apartado que fosse, capaz de proteger as pessoas ou as propriedades dos gregos. Mais de sessenta mil cidadãos desse povo dedicado foram levados da cidade para o campo e para a marinha, trocados ou vendidos conforme o capricho ou interesse de seus donos, e distribuídos, em remota servidão, pelas províncias do império otomano. Entre eles, podemos assinalar algumas personalidades notáveis. O historiador Franza, primeiro camarista da corte e seu principal secretário, viu-se envolvido, com sua família, nisso tudo. Após padecer durante quatro meses as provações da escravidão, recuperou a liberdade; no inverno seguinte, arriscou-se a ir até Adrianópolis para resgatar sua mulher ao mir bashi ou dono da casa; seus dois filhos, porém, na flor da juventude e da beleza, tinham sido apresados para o uso do próprio Maomé. A filha de Franza morreu no serralho, talvez virgem; seu filho aos quinze anos de idade, preferiu a morte à infâmia e foi apunhalado pela mão de seu real amante. Ato assim desumano não poderá certamente ser expiado pelo discernimento e liberalidade com que ele libertou uma matrona grega e suas duas filhas ao receber uma ode latina de Filedelfo, que escolhera esposa naquela nobre família. O orgulho ou crueldade de Maomé teria sido sumamente obsequiado com a captura de um anúncio romano, mas a destreza do cardeal Isidoro evitou a busca, e o núncio fugiu de Gálata em trajes de plebeu.

A ponte pênsil e a entrada da baía externa ainda estavam ocupadas por navios italianos, mercantes e de guerra. Haviam-se destacado, durante o cerco, por sua bravura; aproveitaram para a retirada a ocasião em que marinheiros turcos estavam entregues à pilhagem da cidade. Quando içavam vela, a praia se cobria de uma multidão suplicante e deplorável; todavia, os meios de transporte eram escassos; os venezianos e genoveses escolheram seus compatriota, e não obstante as tranqüilizadoras promessas do sultão, os habitantes de Gálata evacuaram suas casas e embarcaram com seus pertences de maior valor.

Na queda e saque de grandes cidades, o historiador está condenado a repetir o relato de invariável calamidade; os mesmos efeitos têm de ser produzidos pelas mesmas paixões; e quando tais paixões podem ser alimentadas sem freio, pequena, ai de nós! É a diferença entre o homem civilizado e o selvagem. Inquinados, por vagas exclamações, de fanatismo e rancor, os turcos não são acusados de um brutal e imoderado derramamento de sangue cristão; entretanto, de acordo com suas máximas (as máximas da Antigüidade), a vida dos vencidos foi confiscada, e a recompensa legítima do conquistador adveio do serviço, venda ou resgate de seus cativos de ambos os sexos. A riqueza de Constantinopla fora concedida pelo sultão às suas tropas vitoriosas, e a rapina de uma hora rende mais do que a labuta de anos. Mas como não se intentou uma divisão regular do espólio, os respectivos quinhões não foram determinados pelo mérito; e as recompensas do valor surrupiaram-nas os sequazes do acampamento, que declinaram a lida e o perigo da batalha. A narrativa de suas depredações não iria propiciar nem entretenimento nem instrução; a soma total, dada a pobreza final do império foi avaliada em quatro milhões de ducados; e dessa soma uma pequena parte era propriedade dos venezianos, dos genoveses e dos mercadores de Ancona. O cabedal desses estrangeiros aumentara por via da célebre e constante circulação, mas as riquezas dos gregos se ostentavam na ociosa dissipação de palácios e guarda-roupas ou estavam escondidas em tesouros de lingotes e moedas antigas, de modo que lhes fossem tiradas das mãos para defesa do país.

A profanação e a pilhagem dos mosteiros e igrejas suscitaram as queixas mais trágicas. O domo da própria Santa Sofia, o céu terreno, o segundo firmamento, o veículo do querubim, o trono da glória de Deus, foi esbulhado das oblações de séculos; e o ouro e a prata, as pérolas e jóias, os vasos e ornamentos sacerdotais foram perversamente postos a serviço do homem. Depois de as imagens divinas terem sido despojadas de tudo quanto pudesse ser valioso a um olho profano, a tela ou a madeira foi rasgada, ou quebrada, ou queimada, ou espezinhada, ou utilizada nos estábulos e nas cozinhas pra os fins mais vis. O exemplo de sacrilégio fora imitado, contudo, dos conquistadores latinos de Constantinopla, e o tratamento que o Cristo, a Virgem e os santos tiveram de suportar do católico culposo bem podia ter sido infligido pelo muçulmano fanático aos monumentos da idolatria.

Talvez, em vez de juntar-se ao clamor púbico, um filósofo observe que, no declínio das artes, a artesiana não pode ser mais valiosa do que a própria obra, e que um novo suprimento de visões e de milagres seria prontamente fornecido pela perícia dos monges e pela credulidade do povo. Deploraria ele com mais razão, portanto, a perda das bibliotecas bizantinas, que foram destruídas ou se dispensaram na confusão geral; consta que cento e vinte mil manuscritos desapareceram então; dez volumes podiam ser comprados por um único ducado, e o mesmo preço ignominioso, talvez excessivo demais para uma estante de teologia, incluía as obras completas de Aristóteles e de Homero, as mais nobres produções da ciência e da literatura da antiga Grécia. É com prazer que meditamos na circunstância de ter sido uma inestimável porção de nossos tesouros clássicos guardada em segurança na Itália, e de os artífices de uma cidade alemã terem inventado uma arte que zomba das devastações do tempo e da barbárie.

Desde a primeira hora do memorável 29 de maio, a desordem e a rapina reinaram em Constantinopla até as oito horas do mesmo dia, quando o próprio sultão atravessou em triunfo a Porta de São Romano. Fazia-se acompanhar de seus vizires , paxás e guardas, cada um dos quais (diz um historiador bizantino) era robusto como Hércules, destro como Apolo, e igualava em batalha dez mortais comuns, quaisquer que fossem. O conquistador observou com satisfação e espanto a estranha, conquanto esplêndida, vista de domos e palácios de estilo tão diferente da arquitetura oriental. No Hipódromo, ou atmeidan, seu olhar foi traído pela coluna retorcida de três serpentes; e para pôr à prova sua força, ele arrebentou com a maça de ferro ou a acha de guerra a mandíbula inferior de um desses monstros que, aos olhos dos turcos, eram os ídolos ou talismãs da cidade. Na porta principal de Santa Sofia, o sultão apeou o cavalo e adentrou o domo; era tal a sua ciumenta preocupação com esse monumento de sua glória que, ao observar um muçulmano fanático a pique quebrar o pavimento de mármore, advertiu-o com sua cimitarra que o espólio e os cativos tinham sido concedidos aos soldados, mas que os edifícios públicos e privados estavam reservados para o príncipe.

Por sua ordem, a metrópole da igreja oriental se transformou numa mesquita; os ricos instrumentos portáteis da superstição foram removidos dali; derrubou-se a cruz, e as paredes cobertas de imagens e mosaicos, depois de limpas e purificadas, voltaram ao estado de nua simplicidade. No mesmo dia, ou na sexta-feira seguinte, o muezim ou arauto subiu à torre mais elevada e fez o ezan, ou chamamento público, em nome do seu profeta; o iman pregou; e Maomé II entoou o namaz de prece e ação de graças no grande altar onde os mistérios cristãos tão pouco tempo antes tinham sido celebrados perante o último dos Césares. De Santa Sofia ele se dirigiu até a augusta e desolada mansão de uma centena de sucessores do grande Constantino, que em poucas horas fora despida da pompa da realeza.

Uma reflexão melancólica acerca das vicissitudes da grandeza humana se insinuou em sua mente, e ele repetiu um elegante dístico da poesia persa: “A aranha teceu a sua teia no palácio imperial, e o mocho cantou sua canção de vigia nas torres de Afrasiab.”

Fonte: www.starnews2001.com.br

Queda de Constantinopla

A queda de Constantinopla – 1453

A queda de Constantinopla ocorreu em 29 de maio de 1453, após um cerco que teve início em 6 de abril. A batalha foi parte dos bizantinos-Otomano (1265-1453).

O cerco de Constantinopla, capital do Império Bizantino e uma das cidades mais fortificadas no mundo, teve lugar em 1453. sultão Mehmed II, soberano dos turcos otomanos, liderou o ataque. A cidade foi defendida por, no máximo, 10 mil homens. Os turcos tinham entre 100.000 e 150.000 homens do seu lado. O cerco durou 50 dias. Os turcos empregada várias táticas de guerra importante na tomada sobre a cidade. Eles usaram enorme canhão para destruir as paredes, os navios de guerra foram utilizados para o corte defesa marítima da cidade. Eles também usaram uma extensa infantaria para engolir a cidade.

Depois de usar sua artilharia pesada para formar uma brecha no muro, o ataque punho foi lançada sobre Constantinopla em uma manhã de Maio, às 01:00.

O grito dos homens poderia ser ouvido a quilômetros de distância. Este ataque foi liderada pelos Bashi-bazouks. Eles tentaram atacar o ponto mais fraco nas paredes. Eles sabiam que estavam em desvantagem e fora habilidoso, mas eles ainda lutou com paixão. Depois de lutar durante duas horas, eles foram chamados a recuar.

O segundo ataque foi trazida pelos turcos da Anatólia do exército de Ishak. Este exército poderia ser facilmente reconhecida por seus uniformes especializados.

Este exército também foi mais organizado do que o primeiro. Eles usaram seus canhões para acabar com os muros da cidade. Usando trompetes e outros ruídos que eles foram capazes de quebrar a concentração de seus oponentes. Eles foram os primeiros exército para entrar na cidade. Os cristãos estavam prontos para eles como eles entraram. Eles foram capazes de massacre grande parte do exército contra este ataque. Este ataque foi cancelado na madrugada.

Antes de o exército foi capaz de ganhar força e ordem, outro ataque sentir sobre elas. Conjunto favorito de Mehmet de tropas chamou os janízaros começou a atacar. Eles lançaram flechas, mísseis, balas, pedras e dardos contra o inimigo. Eles mantiveram a unidade perfeita neste ataque, ao contrário das outras tentativas.

Esta batalha, na paliçada, foi uma batalha longa e cansativa para as tropas. Os soldados lutaram no combate corpo-a-corpo. Alguém tinha que dar. Foram os cristãos. Os turcos se lembrou de um porto chamado Kerkoporta. Eles notaram que acidentalmente havia sido deixada aberta pelos cristãos. O exército cristão freqüentemente usado aquele portão para tentar penetrar no flanco do exército turco. Eles invadiram o portão, mas os cristãos foram capazes de detê-los antes de entrar completamente a cidade.

Enquanto as batalhas foram sendo travada em terra, os turcos também estavam tentando assumir o controle do mar. Muitos navios foram colocados no Corno de Ouro e fora da costa Marmora para ajudar cerco da cidade. Muitos dos soldados veio destes navios para auxiliar o exército em terra. Uma vez que o sinal foi enviado, as tropas inundado fora destes navios para derrubar as paredes do porto e começar a saquear a cidade.

A cidade agora estava completamente tomado pelos turcos. Mehmed rebatizou a cidade de Istambul. Para glorificar ainda mais a cidade que ele construiu mesquitas, palácios, monumentos e um sistema de aquedutos. A cidade foi agora oficialmente reivindicada para o Islã. Novas regras e regulamentos surgiu para o conquistado. Os gregos foram para formar comunidades dentro do império chamado milets. Os cristãos ainda foram autorizados a praticar a sua religião, mas teve que se vestir com traje distintivo e não poderiam portar armas. Então, veio o fim para a grande cidade de Constantinopla.

Bibliografia

Harris, William H & Levey, Judith S. The New Columbia Encyclopedia. (New York; Columbia University Press, 1975).
Runciman, Steven. A queda de Constantinopla. (Londres, Cambridge University Press, 1965)

Fonte: www.thenagain.info

Queda de Constantinopla

Queda de Constantinopla
Queda de Constantinopla, em 1453 ( Istambul Museu de Arqueologia)

Constantinopla era uma das cidades mais importantes do mundo, ela funcionava como uma parte para as rotas comerciais que ligavam a Ásia a Europa por terra.

Além de ser o principal porto nas rotas que vinham e iam entre o Mar mediterrâneo e o Mar Negro. O cisma entre as Igrejas Ortodoxa e Católica manteve Constantinopla distante das nações ocidentais. A ameaça turca fez com que o Imperador João VIII Paleólogo, promovesse um concílio em Ferrara, na Itália, onde as diferenças entre as duas igrejas foram resolvidas rapidamente.

Constantino XI e Maomé II

Com a morte de seu pai João VIII, Constantino assume o trono no ano seguinte. Ele era uma pessoa popular, tendo lutado na resistência bizantina no Peloponeso frente ao exercito otomano, no entanto ele seguia a linha de pensamentos de seu pai na conciliação das duas igrejas, o que gerava desconfiança não só ao Sultão Mura II (que via tal acordo como uma ameaça de intervenção das potencias ocidentais na resistência à expansão na Europa), mas como também ao clero bizantino.

Já no ano de 1451, Murad II morre, e seu jovem filho maomé II faz sua sucessão, já a princípio ele faz a promessa de não violar o território bizantino. O que fez aumentar ainda mais a confiança de Constantino, ele se sente tão seguro que no mesmo ano decidiu exigir o pagamento de uma anuidade para a manutenção de um prícipe otomano, que era mantido como refém,, em Constantinopla. Ultrajado com a exigência, Maomé II ordenou os preparativos para fazer um cerco total à capital binzantina.

Ataque turco

No dia 6 de abril de 1453 começa oficialmente o cerco a cidade bizantina, assim quando o grande canhão disparou o primeiro tiro em direção ao vale do Rio Lico. Até então a muralha era imbatível, em menos de uma semana começou a ceder, tendo em vista que ela não foi construída para suportat ataques com canhões. O ataque otomano restrigiu-se apenas um frente, o que colaborou prara com que o tempo e a mão-de-obra dos bizantinos fossem suficientes para suportarem o cerco.

Eles evitaram o atque pela costas, tendo em vista que deste lado as muralhas eram reforçadas por torres com canhões e artilheiros, o que poderia acabar sua frota. Nas primícias do assédio, os bizantinos obtiveram duas vitórias animadoras. No dia 20 de abril os bizantinos avistaram os navios enviados pelo Papa, juntamente com outro navio de grego com grãos da Sicília, as embarcações chegaram com êxito ao Corno de Ouro.

Já no dia 22 de abril, o Sultão aplicou um golpe ardiloso nas defesas bizantinas. Impedidos de cruzar a corrente que fechava o Corno de Ouro, o Sultão mandou que contruissem uma estrada de rolagem ao norte de Pera, por onde os seus navios podessem ser puxados por terra, contornando a barreira.

Com os navios colocados em uma nova frente, os bizantinos logo não teriam soluções para reparar suas muralhas. Sem opção, os bizantinos se viram coagidos a contra-atacar, então no dia 28 de abril arriscaram um ataque surpresa aos turcos no Corno de Ouro, no entanto foram descobertos por espiões e executados.

O último ataque

No dia 28 de maio as tropas foram ordenada por Maomé II a descansarem para realizarem o ataque final no dia seguinte. Após dois meses de intenso combate, pela primeira vez não se ouviu o barulho dos canhões e das tropas em movimento.

Para tentar levantar o moral para o momento decisivo, todas as igrejas de Constantinopla tocaram seus sinos durante o dia todo. Na madrugada do dia 29 de maio de 1453, Momé II concentrou um ataque concentrado no vale do Lico.

Por aproximadamente duas horas os soldados bizantinos sob o comando de Giustiniani conseguiram resistir ao ataque, mas as tropas já estavam cansadas, e teriam ainda que enfrentar o exército regular de 80 mil turcos.

Um grande canhão conseguiu abrir uma brecha na muralha, pela qual os turcos concentraram o ataque. Tendo chegado a esse ponto, Constantino em pessoa coordenou uma cadeia humana que mantive os turcos ocupados enquanto a muralha era consertada.

Após uma hora de combate intenso, os janízaros (escalavam a muralha com escadas) ainda não haviam conseguido entrar na cidade. Preocupados com os ataques no Lico, os bizantinos cometeram o erro de deixar o portão da muralha noroeste semi-aberto.

Com isso um destacamento otomano conseguiu por ali invadir o espaço entre as muralhas interna e externa. Com o comandante Giustiniani ferido e sido levado para o navio, os soldados gregos ficaram sem liderança, lutavam desordenadamente contra os turcos que eram disciplinados nesta questão. Tem-se como momento final quando o Imperador Constantino XI levantou sua espada e partiu para o combate, onde nunca mais foi visto, o que finaliza com a queda de Constantinopla.

Fonte: www.historiadomundo.com.br

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