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Revolução Cubana

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Revolução Cubana
Fidel Castro

A revolução Cubana rompeu com os laços que fizeram da ilha quase que uma extensão dos EUA ao longo do século XX.

Inteiramente subordinado aos interesses norte-americanos, o estado Cubano comportou-se de forma subserviente durante todo o período pré-revolucionário aceitando imposições humilhantes e revelando com freqüência a fragilidade de sua soberania.

A vitória de Fidel e seus camaradas no final dos anos 50 e a juventude dos líderes guerrilheiros exerceram rapidamente enorme influência no imaginário de todos aqueles que no mundo lutavam contra a opressão e o imperialismo capitalista. E não poderia ser de outra forma, afinal o encerramento da ditadura pró-EUA significou uma brusca ruptura na longa e trágica história de submissão do continente aos interesses geopolíticos elaborados nos elegantes salões da casa branca.

A ocupação da ilha pelos espanhóis ocorreu no final do século XV e imediatamente seu território foi alvo de intensa exploração econômica imposta pelo estado metropolitano revelando sua extraordinária vocação para a agricultura de exportação. A inserção em massa de trabalhadores negros escravos de origem africana faz parte desse cenário em que o objetivo maior era transferir para a Europa as riquezas aqui produzidas.

No século XIX, as terras de Cuba encontravam-se dominadas pelo plantio da cana-de-açúcar, formando um imenso tapete verde sob o qual se escondia tanta miséria. Mesmo sendo uma colônia espanhola, o principal comprador do açúcar produzido na ilha eram os EUA e cresciam os interesses de empresas norte-americanas preocupadas em ampliar seus negócios com os Cubanos.

Nesse momento, quase toda a América já havia conquistado sua independência em relação às metrópoles européias, exceção feita a Cuba que apesar de ter sido uma das áreas pioneiras na presença espanhola na América, estava condenada a ser uma dos últimos redutos do colonialismo ibérico. Somente no final do século XIX, encontramos a gênese do Estado Cubano emancipado onde se destacou a figura de Jose Martí.

O movimento separatista declarou guerra à Espanha contando apenas com um improvisado exército constituído predominantemente por negros e sofreu duro golpe, no início dos combates, com a morte de Martí. Mesmo sem contar com seu principal líder, os cubanos obtiveram significativas vitórias e a guerra caminhava para seu final quando ocorre a intervenção dos EUA no conflito. Acusando os espanhóis de afundarem um navio americano, o “Maine”, as autoridades norte-americanas declararam seu apoio aos colonos e enviaram soldados para a guerra contra a Espanha.

O fato é que Cuba representava muito para a engenhosa política externa dos EUA. A localização geográfica da ilha coloca-a na zona de absoluta segurança estratégica dentro dos planos norte-americanos, ou seja, sua área incorpora-se aos limites estabelecidos como vitais para a integridade dos EUA. Não bastando isso, os interesses comerciais eram imensos, pois empresas americanas eram as maiores compradoras do açúcar cubano e inúmeros executivos olhavam para a ilha com expectativa de desenvolver novos projetos.

Vencida, a Espanha foi obrigada a ceder o controle dos territórios de Porto Rico e das Filipinas para os EUA e militares americanos assumiram o governo de Cuba assim que os espanhóis reconheceram a derrota. Em janeiro de 1898, selava-se o triste episódio de transferência da dominação espanhola para a dominação norte-americana. A emenda Platt, texto imposto e anexado a constituição cubana em 1901, tornava legítima qualquer intervenção militar dos EUA no interior da ilha e revelava o alto grau de condescendência das autoridades Cubanas. Além disso, o governo de Cuba foi obrigado a entregar uma faixa de seu litoral para que os norte-americanos montassem uma base militar na baía de Guantánamo.

Nas décadas seguintes, ampliou-se de forma considerável a participação do capital americano nos negócios da ilha atuando livremente, sem restrições, na área do transporte, comércio exterior, mineração, turismo e, sobretudo, àqueles vinculados a produção e comercialização do açúcar.

No plano político, a primeira metade do século XX foi caracterizada pela sucessão de governos despóticos que, com suas ações, consolidaram a posição de Cuba de “quintal dos EUA”. As pessoas ligadas aos setores políticos contrários a esse modelo foram duramente perseguidos, presos, torturados, e várias lideranças de oposição acabaram assassinadas. Em Havana, capital do país, a corrupção impregnava-se em todas as esferas do poder público e em suas ruas os cassinos, o gangsterismo e a prostituição propagavam-se em escala geométrica.

No início dos anos 50, os dirigentes da oposição perderam definitivamente a esperança em relação à possibilidade de chegar ao poder pelas vias democráticas. O caminho defendido por esses grupos descontentes com o quadro sócio-político na ilha passa a ser a luta armada. Deve-se ressaltar que o bloco oposicionista ainda não tem, nesse momento, um perfil ideológico definido, apresentando propostas vagas que condenavam a ditadura cubana e procuravam resgatar os princípios patrióticos sugeridos por Jose Martí no final do século XIX.

Em 1953, ocorre a primeira ação armada organizada pela oposição quando um pequeno grupo de homens tentou assumir o controle sobre o Quartel de Moncada, um dos principais regimentos militares do país, a poucos quilômetros da cidade de Santiago de Cuba. A insurreição acabou resultando num enorme fracasso e as forças da repressão não tiveram dificuldades em prender inúmeros envolvidos, entre os quais encontrava-se o jovem advogado Fidel Castro.

Fidel na Assembléia Nacional

Ao sair da prisão, depois de quase dois anos de cárcere, Fidel e seus companheiros continuavam a defender que somente uma nova ação armada poderia dar aos Cubanos a democracia e a soberania. A corrupção eleitoral e a violência da ditadura de Fulgêncio Batista demonstravam claramente para seu grupo a necessidade de preparar, agora com maior cuidado, um grande movimento revolucionário que contasse com o apoio de camponeses e operários.

No exílio em terras mexicanas Fidel Castro, em companhia de Camilo Cienfuegos Ernesto Che Guevara e de seu irmão Raul, organiza o movimento guerrilheiro 26 de julho, referência à data da ação que tentou tomar o quartel de Moncada. Em 1956, o grupo guerrilheiro, com apenas 82 homens, parte em direção a Cuba, onde desembarca na região de Sierra Maestra. Em janeiro de 1959, após três anos de duros combates, os revolucionários assumem o poder na capital encerrando o longo período da ditadura de Batista.

As primeiras decisões do governo de Fidel, no plano interno, demonstravam uma brusca mudança de rumo. Terras foram confiscadas, empresas estrangeiras nacionalizadas, a tarifa de energia elétrica reduzida, enfim, medidas que acabaram gerando imensa euforia popular. No plano externo, o governo de Fidel procurou restabelecer as relações comerciais e diplomáticas com a URSS, apesar de publicamente demonstrar uma posição de eqüidistância em relação ao conflito EUA-URSS.

Essa neutralidade Cubana em pleno cenário da guerra fria foi vista pela Casa Branca com grande desconfiança. Se, por um lado, o perfil do governo revolucionário se apresentava divorciado dos interesses americanos, por outro lado resistia a um imediato alinhamento com a URSS. Essa nova postura de Cuba não impediu a agressiva reação dos EUA inicialmente através do boicote econômico e depois com a tentativa de invasão da baía dos porcos.

Em abril de 1961, grupos contra-revolucionários formados principalmente por mercenários e refugiados cubanos no exílio invadiram a ilha através da Baía dos Porcos. A ação foi longamente planejada pela Central de Inteligência Americana (CIA), teve a aprovação do jovem presidente John Kennedy e pretendia, em última instância, derrubar o governo Castrista. A habilidade das autoridades cubanas, que contaram com o imediato apoio das camadas populares, rechaçou a ação dos invasores e depois de três dias de combates Fidel comemorava uma nova vitória.

A insegurança representada pela ameaça constante de tão poderoso vizinho serviu como elemento catalizador para que o governo cubano fizesse enfim sua aliança econômica e militar com a URSS. Agora a guerra fria ganhava contornos dramáticos com a inserção de um país americano, geograficamente muito próximo dos EUA, no chamado bloco socialista.

As tensões atingiram seu ápice em 1962 com o episódio da “crise dos mísseis”. Em desvantagem na corrida armamentista e sem tecnologia suficiente para atingir o território dos EUA com suas bombas, a URSS e o governo cubano pretendiam instalar na ilha parte do arsenal soviético. A reação contrária da Casa Branca foi imediata e levou o mundo a temer um conflito direto entre as duas superpotências. Durante esse período de enorme tensão, Nikita Kruschev, líder soviético, e John Kennedy, presidente dos EUA, acertaram os detalhes do pacto que levou a retirada dos mísseis da região do caribe e, em troca, os EUA comprometeram-se a respeitar a soberania da ilha.

A radicalização dos EUA com o bloqueio aéreo e naval e a expulsão de Cuba da OEA – Organização dos Estados Americanos – explicam a posição mais agressiva da política externa cubana que nos anos 60 e 70 participou ativamente da luta armada ao lado de grupos socialistas que tentavam tomar o poder em países da América e da África.

Enquanto isso governo Castro apresentava ao mundo inegáveis ganhos na área social com a eliminação do analfabetismo e uma das menores taxas de mortalidade infantil do continente americano. Programas nos setores educacional, saúde e habitação tornavam-se viáveis com recursos originados de relações comerciais com os países do bloco socialista. Com a URSS os cubanos desenvolviam transações altamente vantajosas vendendo açúcar com preços acima dos estabelecidos pelo mercado internacional e comprando petróleo com valores abaixo dos fixados pelo comércio exterior. Estima-se que os subsídios soviéticos somavam, extra-oficialmente, a cifra de cinco bilhões de dólares por ano.

A lua de mel com a URSS e com outros países socialistas começou a apresentar sinais de desgaste em meados dos anos 80 para se transformar em divórcio no final dessa mesma década. A ascensão de Mikahil Gorbatchev ao poder na URSS em 1985 e sua proposta de abertura econômica e política, Perestróika e Glasnost, respectivamente, revelaram ao mundo a fragilidade da economia soviética e a necessidade urgente de reformas. A agonizante situação interna levou a direção do partido comunista em Moscou a rever a ajuda financeira que era vital para o governo cubano.

A crise irradiada a partir da URSS rapidamente propagou-se pelo bloco socialista numa velocidade inimaginável para todos os analistas em política internacional.

A queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, causou perplexidade pela forma pacífica como ocorreu, mas também por revelar o estágio de putrefação dos regimes comunistas que dominavam a Europa do leste. Imediatamente todos esses países começam a viver um lento processo de reformas econômicas e políticas que avançam na direção da democracia e da privatização dos meios de produção. Para Cuba a conseqüência maior foi a perda de seus tradicionais aliados e, conseqüentemente, o agravamento de sua crise econômica.

Após 40 anos no poder o governo de Fidel dá evidentes sinais de esgotamento. A idade avançada do comandante, no entanto, não o impede de continuar seu discurso denunciando os EUA por suas ações que visam asfixiar a economia cubana. Mas a revolução perdeu grande parte de seu charme com as crescentes notícias de violações aos direitos humanos, da propagação da prostituição nas ruas de havana, da lentidão das reformas que timidamente respondem ao boicote comercial americano e, sobretudo, da ausência de perspectiva de democracia no país.

Para alguns, ainda agarrados à velha utopia comunista, o inevitável fracasso da globalização, a ampliação do grau de miséria e de desemprego nas áreas periféricas do mundo, são evidências de que o velho comandante Fidel Castro está no caminho correto. Para outros, no entanto, se o estágio atual do capitalismo internacional não é nada promissor, a solução também não está no anacrônico modelo estatizante, burocratizado e repressor do qual o governo cubano é um dos últimos exemplares.

Lembro, para finalizar, de um encontro com Mariela Castro, filha de Raul Castro, irmão de Fidel e considerado seu herdeiro natural. Era uma manhã fria, em Quito, capital do Equador, na casa de Osvaldo Guayasamim que morreu esse ano e é considerado um dos maiores pintores da América Latina. A emoção do encontro estava vinculada aos meus ideais da época e na ingênua e gostosa sensação de que a humanidade iria encontrar seu caminho na construção de uma sociedade mais digna.

Ficaram desse momento da minha vida fotografias recolhidas em algum álbum, a agradável conversa em minha memória, uma gravura autografada na parede da sala e a imagem da cordilheira dos Andes quase que a me dizer: “menino, a vida não é constituída só por planície”.

Lafayette da Costa Tourinho Neto

Fonte: br.geocities.com

Revolução Cubana

Entender a sociedade cubana objetivamente é incrivelmente difícil, dados os 45 anos de incessante propaganda contra Fidel Castro, o governo cubano e a sociedade cubana.

Mesmo para aqueles indivíduos críticos dos mídia de referência dos EU, ouvir constantemente o governo cubano ser classificado como uma ditadura que fracassou perante o seu povo, influencia as nossas percepções. O mesmo acontece com entrevistas ou discussões com cubanos que imigraram para os Estados Unidos, a maioria dos quais são bastante críticos do sistema cubano. Insto o leitor a estar aberto ao seguinte artigo, que apresenta um ponto de vista que está em desacordo com a dos mídia de referência acerca de Cuba. Esta positiva, mas não acrítica análise de Cuba é baseada num estudo aprofundado de Cuba por mais de 35 anos, em duas visitas a Cuba no início dos anos 90, em ter vivido lá por quatro meses em 2001, e na recente viagem que fiz com 23 alunos em Abril e Maio de 2004.

Para entender a sociedade cubana, temos de situar a economia política da Cuba atual, os seus sucessos e problemas reais, no contexto do seguinte:

1. 400 anos de colonialismo espanhol

Este começou com ataques genocidas contra o povo indígena de Cuba, seguidos por uma economia organizada em torno das plantações de açúcar, onde a maior parte da força de trabalho era constituída por africanos escravizados e super-explorados. A escravatura terminou em 1886, mas o racismo extremo e a segregação económica de negros continuou até 1959.

2. A dominação e agressão dos EU

Durante a guerra cubana de independência de 1895­-1898, os EU intervieram militarmente, alegando apoiar a independência de Cuba, mas depois dominando Cuba economicamente e politicamente até 1959. Como uma condição para os EU terminarem a sua ocupação militar de Cuba, Cuba teve de assinar a Emenda Platt, que foi a base para o estabelecimento da base dos EU em Guantánamo, Cuba. Hoje em Guantánamo, prisioneiros de todo o mundo são mantidos indefinidamente sem direitos e sujeitos a tratamento brutal pelos militares dos EU. Além disso, as elites estadounidenses e cubanas dominaram Cuba de 1902 a 1959, com os EU enviando tropas e apoiando governos cubanos que eram favoráveis aos investidores dos EU e minando aqueles que o não eram.

3. As alianças de Cuba com a União Soviética e o Bloco de Leste

Em 1961, dois anos após a vitória da revolução cubana, o presidente cubano Fidel Castro declarou o país socialista e orientou progressivamente a sua política e economia em direção à União Soviética. A União Soviética e os seus aliados pagavam um bom preço pelo açúcar e vendiam a Cuba petróleo a preços reduzidos. Também prolongaram muitos empréstimos a Cuba. A economia cubana, incluindo a sua tecnologia e maquinaria, consumo de bens, importações e exportações e métodos de planeamento económico tornou­-se progressivamente integrada com a da União Soviética e seus aliados. Isto frequentemente significou utilizar tecnologia e usar produtos que estavam abaixo da qualidade disponível no Ocidente. Cuba diversificou a sua economia lentamente, continuando a depender das exportações de açúcar como a sua principal fonte de divisas estrangeiras.

O sistema soviético desabou em 1989 e, desde então, Cuba teve muita dificuldade em manter os princípios socialistas enquanto desenvolvia um modelo económico diverso do inspirado no soviético. A transição para novas tecnologias foi difícil e custosa. Cuba tentou, mas não foi bem sucedida em desenvolver uma economia que fosse tanto igualitária como também capaz de providenciar um crescente nível de vida para o seu povo. O governo cubano chamou ao período desde 1989, o Período Especial.

4. Capitalismo Global

Cuba é parte de um sistema económico global que está a aumentar a desigualdade dentro e entre países. Por exemplo, o preço do principal bem de exportação cubano, o açúcar, vende­-se a preços cada vez mais baixos relativamente aos preços das importações de Cuba no mercado mundial, por exemplo, máquinas, e bens de consumo duráveis como frigoríficos.

5. O Bloqueio dos Estados Unidos

Durante o período da aliança de Cuba com a URSS, os EU alegaram que a hostilidade em relação a Cuba era porque Cuba era uma extensão da URSS nas Américas. Contudo, reparem que a intervenção dos EU se tornou ainda mais agressiva desde o colapso da URSS, o que nos deveria conduzir a questionar os motivos dos EU no passado assim como no presente. O embargo dos EU, que os cubanos chamam de bloqueio, porque limita o comércio cubano com outros países para além dos EU, significa que Cuba tem tido de pagar preços mais elevados por bens que importa no mercado mundial, como medicamentos e alimentos, e tem tido que manter um orçamento militar mais elevado do que manteria noutras circunstâncias. O bloqueio também reduziu de forma significativa a capacidade de Cuba exportar, o que por sua vez significa que a sua capacidade para importar também foi reduzida.

Este é o contexto para entender Cuba atualmente. Assim, quando os dirigentes e académicos estadounidenses dizem que Cuba é uma experiência fracassada, economicamente e politicamente, ignoram este contexto. Para mim, os cinco pontos que tracei são os pontos de partida para entender Cuba, mas não são os pontos de chegada. A minha posição é de um apoio crítico que examina o modelo cubano e as suas decisões e política. Há alguns aspectos com os quais estou em desacordo.

O PERÍODO DOURADO DA REVOLUÇÃO CUBANA

Dos anos 60 ao fim dos anos 80, Cuba foi um dos países do mundo mais igualitários economicamente. Quase toda a produção era possuída e organizada pelo estado. Havia cuidados de saúde gratuitos, acesso igualitário a educação gratuita, e pleno emprego. Centenas de milhares de apartamentos foram construídos em cidades cubanas – frequentemente na forma de enormes complexos de apartamentos como Alamar em Havana. No campo, a eletrificação, a canalização em casa, a água potável e habitação básica foram providenciadas a todos os cubanos. A fome e a pobreza absoluta foram superadas.

Cuba não era uma utopia durante este período. Havia limitados e insuficientes bens de consumo, crescimento económico lento com um aumento muito lento do nível de vida; e um sistema paternalista onde o governo ouvia as pessoas e a administração ouvia as queixas dos trabalhadores, mas as decisões eram feitas no topo. Houve importantes e grandes ganhos para as mulheres no acesso à educação superior e na entrada e avanço em números significativos em muitas profissões, mas pouco mudou na divisão sexual do trabalho no lar, pois as mulheres ainda faziam a maior parte do trabalho em casa.

Houve impressionantes mudanças no sentido de alcançar a igualdade racial, pois a discriminação foi declarada ilegal e a proporção de cubanos negros na educação secundária e superior e em empregos de alto escalão começou a aproximar­-se do seu número na população, embora a liderança de topo na sociedade cubana ainda fosse desproporcionadamente branca e masculina. Os ganhos para as famílias que eram pobres antes da revolução cubana de 1959, particularmente nas áreas rurais, foram verdadeiramente impressionantes – em educação, rendimento, saúde, habitação, e em serem tratados com respeito e dignidade. Cuba tinha­-se verdadeiramente tornado numa sociedade que tinha sido bem sucedida em mudar para melhor as vidas daqueles que historicamente tinham estado no fundo. Isto é uma realização cujo significado não pode ser exagerado. No princípio dos anos 80, num artigo no Wall Street Journal, o autor admitiu com relutância que o nível de vida dos trabalhadores em Cuba era o mais alto da América Latina, com a possível excepção de Porto Rico.

Cuba chamou­-se a si mesma socialista, querendo dizer que a maioria da produção foi nacionalizada e estatizada, e que a produção não estava organizada para o lucro, mas antes planeada centralmente para corresponder às necessidades económicas da população. Contudo, a população tinha um poder limitado na tomada das principais decisões económicas e políticas, por exemplo, sobre se desenvolver energia nuclear ou não.

A participação da população então e agora dá-se principalmente através das organizações de massas, tais como os Comités de Defesa da Revolução (CDR) com base nas comunidades, a Federação das Mulheres Cubanas (FMC), e a Confederação dos Trabalhadores Cubanos (CTC). É através destas organizações de massas, bem como através do Partido Comunista, cujo número atual de membros atinge cerca de um milhão, e cujos membros são na maior parte dos casos respeitados pelo povo cubano e estão intimamente ligados às populações, que as pessoas podem expressar as suas necessidades. Em outras palavras, olhar para este sistema como totalmente de cima para baixo onde Fidel ordena e o povo obedece deturpa a realidade de um governo bastante conectado com os sentimentos populares. Por outro lado, um ponto de vista que assegura que o povo cubano e os seus representantes eleitos têm o poder é também inexato.

O período Especial

Com o colapso da União Soviética e de vários acordos económicos e de comércio que Cuba tinha com o bloco soviético, a produção cubana caiu em mais de um terço de 1989 a 1993 e as importações e exportações cubanas foram reduzidas em mais de dois terços. No princípio dos anos 90, havia a disseminação de cegueira e outros problemas de saúde por causa de uma dieta insuficiente e de falta de vitaminas. A sobrevivência da revolução cubana estava em jogo. Cuba sobreviveu com um lento, mas significativo crescimento económico e um crescente consumo de artigos de primeira necessidade durante os últimos 10 anos. No entanto, a maioria da população tem um nível de vida mais baixo – cerca de 25% mais baixo do que tinham a meio dos anos 80. Muitos cubanos, a não ser que tenham alguma maneira de ganhar ou receber dólares, vivem na pobreza, se bem que não passem fome ou estejam sem abrigo.

Muitos países no terceiro mundo ou no sul globalizado tiveram de ajustar estruturalmente as suas economias desde o início dos anos 80 por causa de problemas nas suas balanças de pagamentos, o que quer dizer que importavam mais do que exportavam, e assim tiveram de fazer acordos com credores estrangeiros como o Fundo Monetário Internacional em ordem a obter os empréstimos para pagar a dívida externa que estavam a acumular. Os planos de ajustamento estrutural resultantes aumentaram a desigualdade económica e reduziram os gastos sociais à medida que os países foram forçados a reduzir os gastos governamentais e o emprego público e a abrir o seu país a investidores estrangeiros.

O ajustamento estrutural de Cuba desde 1989 foi diferente, embora também eles tivessem uma grande dívida externa e lutassem para reduzir o desequilíbrio entre importações altas e exportações baixas. Para seu crédito, o estado cubano manteve os serviços sociais básicos – cuidados médicos e dentários gratuitos e disponíveis, educação gratuita até e incluindo o nível universitário, e rações alimentares para a população a preços baixos e acessíveis, se bem que não na quantidade e variedade que os cubanos precisam e desejam. A habitação e as contas dos serviços são acessíveis, embora a habitação seja frequentemente muito lotada e muitas pessoas não tenham telefone. A mortalidade infantil continuou a descer a esperança de vida continuou a aumentar. A mortalidade infantil, a esperança de vida e a saúde da população são as melhores da América Latina e estão próximas das dos Estados Unidos.

Com a excepção da agricultura, a maioria da produção é ainda organizada pelo estado cubano. Embora já não exista pleno emprego, os empregos são mais fáceis de obter e de manter em comparação com outros países nas Américas. A maioria dos jovens consegue encontrar empregos, se bem que os salários para a maioria dos empregos sejam muito baixos. Os desempregados, bem como os pais das crianças com menos de um ano recebem 60 a 70% dos rendimentos do seu último emprego, e aos pais é garantido o retorno ao seu emprego quando voltam ao trabalho. A assistência infantil está disponível e é acessível.

MUDANÇAS NA ECONOMIA CUBANA

As principais mudanças que Cuba realizou desde 1989 conduziram a algumas melhorias no nível de vida, mas criaram um novo conjunto de problemas sociais.

As principais mudanças são as seguintes:

1. A legalização e generalização do uso do dólar dentro de Cuba

Desde 1993, tanto o dólar como o peso cubano são usados como moeda. Muitos bens em Cuba, sobretudo produtos de luxo e importados estão apreçados em dólares ou, se em pesos, os seus preços são muito altos para os cubanos porque são convertidos de dólares para pesos à taxa de 25 pesos por dólar. Por exemplo, a galinha vende­-se a cerca de US$1 ou 25 pesos. Por causa dos preços altos destes bens e serviços em relação com os salários, isto torna estes produtos inacessíveis aos cubanos que não recebem dólares. O salário médio em Cuba é 250 pesos por mês. Isto vale muito mais do que dez dólares em termos de poder de compra, que é para o que podem ser convertidos 250 pesos à taxa de conversão de cerca de 25 pesos por dólar. Ao calcular o poder de compra dos salários cubanos, devemos ter em consideração que a saúde e a educação são gratuitas; e que os preços são baixos, mesmo em pesos, para alimentos comprados com o cartão de racionamento. Para outros bens e serviços, um peso é grosso modo equivalente em valor a um dólar, por exemplo, cinema ou transporte de autocarro. Por outro lado, para muitas importações, por exemplo, um par de jeans, o preço é $20 ou 500 pesos., o dobro do salário médio mensal; e o preço de óleo de cozinha é $2 ou 50 pesos por um litro. Dada a falta de produtos disponíveis a preços acessíveis, a vida é muito difícil para um salário em pesos.

Tanto a economia cubana como as famílias cubanas estão dependentes de remessas, que é dinheiro enviado por parentes às suas famílias em Cuba. Isto fornece divisas estrangeiras ao governo cubano, pois muito deste dinheiro é gasto em bens e serviços cubanos, e o estado cubano e as empresas cubanas usam depois estes dólares que recebem para comprar bens importados necessários. Também fornece poder de compra às 40 a 50% das famílias cubanas que recebem direta ou indiretamente estas remessas. George W. Bush, num crescente esforço para destruir a economia cubana em ordem a causar uma revolta, anunciou em 6 de Maio de 2004 restrições adicionais ao envio de remessas e presentes aos parentes cubanos.

Ademais, alguns cubanos em empresas do governo ganham dólares. Desde 1993, alguns trabalhos altamente especializados considerados essenciais pagam um incentivo em dólares além do salário em pesos. Um amigo nosso que é engenheiro obtém $11 por mês além do seu salário mensal de 350 pesos.

2. Turismo

Cerca de dois milhões de turistas visitam agora Cuba anualmente, principalmente da Europa ocidental, do Canadá e do México. O governo dos EU não só está a levantar restrições adicionais ao turismo dos EU como está a tentar limitar o turismo para Cuba de outros países. O turismo é a principal fonte de divisas estrangeiras e Cuba está a produzir cada vez mais do que os turistas consomem. Dois terços de cada dólar do turismo são agora gastos em bens e serviços produzidos em Cuba e assim criam divisas estrangeiras que podem ser usadas em bens importados para o povo cubano.

O turismo é uma benção mista. Cria divisas estrangeiras, mas também aumenta o desejo da população cubana por um nível de vida do primeiro mundo. Reforça o sexismo, pois jovens mulheres cubanas frequentemente se prostituem para estrangeiros. O turismo também promove a desigualdade racial, pois os cubanos negros estão insuficientemente representados no setor do turismo, tanto em empresas de posse cubana como em empresas mistas, querendo isto dizer posse mista cubana e estrangeira. O governo e os sindicatos reconheceram este problema, mas ele continua.

Muito do rendimento gerado do turismo beneficia de fato a população em geral, pois acaba por chegar ao governo e a bancos do governo. É então usado para comprar bens importados necessários – medicamentos, autocarros, petróleo, máquinas, mesmo produtos agrícolas dos Estados Unidos. Por outro lado, muitos cubanos que trabalham no setor do turismo obtêm muito do seu rendimento em dólares, principalmente de gorjetas, o que distorce grandemente os incentivos em Cuba. Médicos altamente especializados, engenheiros e especialistas em línguas estrangeiras frequentemente não usam a sua educação e especialização, mas em vez disso trabalham como empregadas de mesa, condutores de taxi, porteiros de hotel, e trabalhadores da limpeza porque podem ganhar muito mais no setor do turismo.

A indústria do turismo e as supracitadas remessas também contribuem para uma crescente desigualdade de rendimentos em Cuba entre aqueles que obtêm dólares e aqueles que os não obtêm. Cuba, ao mesmo tempo que é de longe mais igualitária do que o resto das Américas, incluindo os Estados Unidos, é muito menos igualitária do que era há 20 anos e isto é uma fonte de descontentamento. Muito do turismo é do tipo “praia e sol”.

Outras formas de turismo são menos destrutivas dos valores socialistas e estão a ser promovidas: turismo ecológico; turismo cultural (turistas que vão para aprender sobre a história, a cultura e a revolução de Cuba); turismo médico (visitantes que vêm a Cuba para cuidados médicos); e turismo educativo, como o dos milhares de estudantes venezuelanos que estudam em Cuba e nós mesmos.

3. Investimento Estrangeiro

Cuba permite e encoraja a posse de 50% por companhias estrangeiras em várias indústrias, por exemplo, hotéis, exploração mineira de níquel e biotecnologia.

Esta é uma tentativa para trazer capital estrangeiro e tornar­-se mais integrada na economia global e obter tecnologia atualizada para substituir a obsoleta tecnologia soviética. A esperança é que isto possa ser feito sem ser dominada por e tornar­-se totalmente dependente de corporações multinacionais. Muitos contratos incluem partilha de tecnologia e ensino de técnicas. Talvez muito importante seja a exploração petrolífera ao largo [offshore] que está em curso. Cuba importa presentemente metade do seu petróleo e todo o petróleo necessário para necessidades de transporte. Encontrar petróleo cubano de baixo enxofre fortaleceria substancialmente a economia cubana; tornaria mais fácil para Cuba importar outros bens e reduzir o seu contínuo desequilíbrio no comércio externo.

4. Agricultura

Na agricultura, Cuba afastou­-se das propriedades estatais e do planeamento central da produção agrícola. Tem havido um constante crescimento da posse privada das propriedades, e da posse cooperativa da terra. Técnicas de agricultura orgânica são cada vez mais usadas, e tem havido um grande crescimento em jardins urbanos. Mercados de agricultores de gestão privada desempenham um importante papel no abastecimento de alimentos. Neles, os agricultores vendem produtos agrícolas, acima do que são obrigados a vender ao estado, a preços de mercado. Estas reformas aumentaram significativamente a produção agrícola durante os últimos 12 anos, particularmente a produção orgânica de frutos e vegetais. O consumo de alimentos aumentou significativamente, embora a carne, com a excepção do porco, seja ainda escassa e cara. Contudo, estas reformas também criaram um grupo de cubanos com alto rendimento que vendem produtos agrícolas nos mercados de agricultores a preços que são altos para aqueles cubanos que não têm acesso aos dólares.

5. Novas indústrias

Cuba tem uma força de trabalho educada e especializada. Há investigação significativa e recursos de desenvolvimento investidos em indústrias estatais, tais como instrumentos médicos, e o desenvolvimento e a produção de medicamentos para a SIDA, para curar o cancro, a hepatite, a malária e outras doenças. Isto é parte do que os cubanos chamam biotecnologia. Cuba espera vender estes produtos globalmente, embora as exportações neste setor estejam a crescer muito mais devagar do que os planejadores cubanos projetaram. A esperança continuada é que esta indústria possa ser globalmente competitiva, pagar um salário tolerável e trazer divisas estrangeiras substanciais. Não é surpreendente que os EU estejam a tentar evitar estas vendas pressionando outras nações a não comprar bens cubanos, mas há interesse em desenvolver e comercializar estes produtos, mesmo de firmas dos EU.

Avaliação global

A sobrevivência de Cuba face à tentativa dos EU de destruir a revolução cubana é um grande feito, assim como o é Cuba continuar a satisfazer as necessidades básicas da sua população. Por exemplo, cada pessoa em Cuba tem cuidados dentários e oftalmológicos gratuitos. Cada pessoa em Cuba com SIDA obtém medicamentos retrovirais de alta qualidade gratuitos.

A nossa responsabilidade como habitantes dos EU é parar o criminoso embargo/bloqueio contra Cuba que está a ser empreendido pelo governo dos EU em nosso nome. Durante 45 anos, as pessoas no poder nos Estados Unidos não quiseram aceitar uma Cuba soberana e independente. Essa é a principal razão por detrás das ações ilegais e imorais dos EU contra Cuba no passado e no presente; temos a responsabilidade de mudar a política dos EU. Durante as nossas seis semanas em Cuba, todos ficámos impressionados com o bem que fomos tratados e recebidos pelo povo e pelo governo cubanos que consideram as pessoas dos EU, mas não o governo dos EU como seus amigos. Cabe­-nos a nós tornar a diferença entre as pessoas dos EU e o nosso governo maior, para tornar a agressão do nosso governo contra Cuba tão impopular nos Estados Unidos que seja forçado a aceitar a soberania de Cuba.

Se as pessoas nos Estados Unidos forem bem sucedidas em levar o nosso governo a pôr fim ao bloqueio, o turismo dos EU para Cuba crescerá exponencialmente. Isto causará novos problemas em Cuba, como por exemplo um crescente desejo por um nível de vida do primeiro mundo, mas cabe aos cubanos que unânimemente querem o fim do bloqueio lidar com isso.

Entretanto, enquanto trabalhamos para pôr fim ao bloqueio, temos o direito de humildemente criticar o sistema cubano, embora o governo dos EU não tenha tal direito dadas as suas políticas passadas e presentes. Cuba é como qualquer país do mundo; merece apoio crítico das pessoas dos EU, mas há problemas reais.

Cuba não desenvolveu uma estratégia viável para simultaneamente atingir a igualdade económica e social, o poder popular e uma qualidade de vida progressiva.

Os principais esforços do governo cubano têm sido sobreviver, manter os serviços básicos e aumentar a produção económica. Alcançaram os dois primeiros destes objetivos, mas não desenvolveram até agora uma estratégia para um desenvolvimento económico sustentável. O crescimento económico é necessário; caso contrário, aumentos em serviços necessários tais como transportes públicos chegam à custa de outros bens e serviços necessários. Possivelmente, aumentar a participação e o poder dos trabalhadores nos locais de trabalho poderia levar a uma maior produtividade e produção.

A desigualdade de rendimentos está a piorar ainda mais. A desigualdade de rendimentos poderia melhorar ao aumentar os tipos e quantidades de bens disponíveis a preços subsidiados nos cartões de racionamento, e/ou passando a uma única moeda e a um único sistema de preços e aumentando substancialmente os salários daqueles que são pagos em pesos. Contudo, a não ser que a produção seja aumentada substancialmente e os altos rendimentos sejam taxados mais pesadamente do que agora, estas reformas causarão enormes pressões inflaccionárias à medida que aumente a procura; e crescentes problemas na balança de pagamentos à medida que as importações aumentem.

A sociedade cubana não é a ditadura que ouvimos cá falar nos mídia; as pessoas falam abertamente e criticam de fato, e não há tortura ou desaparecimento de dissidentes. Há alguma supressão da oposição organizada. Esta repressão é por causa do medo e da realidade do empenhamento dos EU em derrubar a revolução cubana e fazer voltar Cuba a um estatuto neocolonial. Precisamos de entender o contexto do comportamento do governo cubano sem necessariamente o apoiarmos. O governo dos EU apoia de fato muita da oposição em Cuba, por exemplo, os 75 dissidentes cubanos que foram detidos e encarcerados em 2003. Se Cuba abertamente financiasse a oposição ao capitalismo nos EU, ou interviesse nas eleições dos EU, pensem em como as pessoas nos EU recebendo dinheiro do governo cubano seriam tratadas. Além disso, os EU são uma clara ameaça para Cuba; Cuba não o é para os Estados Unidos, o que significa que os temores e ações cubanos são mais justificáveis do que as ações dos Estados Unidos seriam.

Seja como for, há apenas um papel limitado para o controlo dos trabalhadores nas empresas cubanas, e os mídia de propriedade estatal são limitados nas suas críticas ao governo. Porque a vida diária é difícil e consumidora de tempo em Cuba, a participação e o ativismo na vida pública declinaram. O cinismo e a insatisfação aumentaram, particularmente entre os jovens. O Período Especial foi particularmente duro para as mulheres, pois uma das consequências foi que a manutenção da família e das responsabilidades familiares levam mais tempo, por exemplo por causa do declínio dos transportes públicos, e há menos rendimento disponível. O fardo deste aperto de tempo e dinheiro caiu principalmente sobre as mulheres, por isso têm menos tempo que antes para a participação no local de trabalho, na comunidade e na federação das mulheres.

Contudo, a revolução cubana, o conceito de socialismo e Fidel Castro e o Partido Comunista são vistos como legítimos pela maioria da população, e a esmagadora maioria lutaria em apoio da revolução se os EU invadissem. Durante a nossa viagem, ouvimos de muitos cubanos diferentes que eles e a revolução perseverarão, mesmo com o mais recente aumento de restrições do bloqueio em Maio de 2004. Isto inclui a redução de possibilidades de viagem dos EU para Cuba com propósitos educacionais, bem como de cubano­-americanos, o aumento do financiamento pelo governo dos EU de grupos que estão a tentar ativamente derrubar o governo cubano e de propaganda anti­-cubana, e outras medidas destinadas a isolar Cuba e a causar dano à economia cubana ao reduzir o seu acesso a divisas estrangeiras.

O futuro de Cuba

O governo cubano e muitas pessoas cubanas temem uma invasão dos EU. Penso que é possível, apesar de não ser provável. Haverá, no entanto, crescente pressão e agressão contra Cuba se Bush for reeleito.

As provocações dos EU, tais como o voo de aviões militares com transmissores de rádio e de TV, que Bush anunciou em 6 de Maio de 2004, poderiam conduzir a violações do espaço aéreo cubano e a ataques militares a Cuba se Cuba se defender contra estas violações. A posição de John Kerry sobre Cuba não é tão má como a da atual administração, mas ele não aceita a auto­determinação e a soberania como as bases para a política estrangeira dos EU. Kerry afirmou que, se for eleito presidente, porá fim à interdição de viajar, mas não porá fim ao embargo/bloqueio ou estabelecerá relações diplomáticas normais com Cuba. Se estamos preocupados com os direitos humanos e com o direito de todas as nações a escolher o seu próprio sistema, deveríamos fazer o que pudermos para impedir os EU de fazer a guerra contra Cuba, quer seja uma invasão quer seja o continuado bloqueio.

Em conclusão, a sobrevivência e a manutenção da revolução cubana é incrivelmente importante para o povo cubano e globalmente. É uma alternativa ao neoliberalismo e um farol de esperança para as pessoas oprimidas em todo o mundo. Perguntam­-me frequentemente o que acontecerá após Fidel Castro se retirar ou morrer. Penso que não haverá grandes mudanças imediatamente em Cuba, nem a hostilidade dos EU terminará, pois é dirigida ao sistema cubano e não apenas a Castro. A minha esperança para o futuro de Cuba é que à medida que trabalhamos para reduzir a agressão dos EU, e à medida que Cuba ganha mais aliados económicos e políticos no mundo, como a Venezuela, que Cuba experimentará com mais poder democrático para as pessoas e construirá um socialismo que seja participativo, igualitário, e que vá crescentemente ao encontro das necessidades do seu povo.

Fonte: infoalternativa.fateback.com

Revolução Cubana

Após a II Grande Guerra, a prosperidade e a democracia estadounidenses contrastam com a pobreza da população da ilha e com o regime ditatorial patrocinado pelos EUA. 75% das terras, 90% dos serviços e 40% da produção de açúcar pertencem a empresas estadounidenses.

Em 26 de julho de 1953 um grupo formado pelo advogado Fidel Castro tenta iniciar uma insurreição com o apoio de setores do Exército cubano.

Fracassa no assalto ao quartel Moncada, em Santiago. Fidel é julgado e anistiado, indo exilar-se no México em 1954, onde funda o Movimento 26 de Julho e organiza um destacamento guerrilheiro que desembarca na província de Oriente em dezembro de 1956. Seu objetivo é alcançar Sierra Maestra e instalar uma base guerrilheira de onde possa expandir a luta para todo o país.

Revolução

Iniciada em 1956, a partir da base em Sierra Maestra, conquista apoio nas cidades e em outras regiões rurais. Seus objetivos declarados são o fim do regime ditatorial e a justiça social. Os guerrilheiros de Fidel Castro tomam Havana em 1º de janeiro de 1959 e instauram um governo revolucionário. O novo governo decreta a reforma agrária, nacionaliza as empresas americanas e promove o julgamento público de colaboradores do antigo regime ditatorial. Os condenados como criminosos políticos são fuzilados.

Os EUA reagem com hostilidade diante da nacionalização de empresas americanas, da reforma agrária e do fuzilamento de antigos colaboradores. Em 1960, reduzem a quota de importação cubano e, em 1961, decretam o bloqueio comercial, rompem relações com Havana e patrocinam o desembarque de rebeldes anticastristas na baía dos Porcos. Em 1962, com a descoberta da instalação de mísseis soviéticos em Cuba, os EUA ameaçam com um ataque nuclear e abordam navios soviéticos no Caribe para inspeção. A URSS recua e decide retirar os mísseis.

O alinhamento com o Kremlin começa com a unificação do Movimento 26 de Julho com o Partido Popular Progressista (comunista), em 1960. A União Soviética e outros países da Europa Oriental ocupam o lugar dos Estados Unidos como principais parceiros comerciais. O bloqueio econômico e as pressões americanas pela realização de eleições estimulam o regime cubano a estatizar a economia, organizar Comitês de Defesa da Revolução e adotar oficialmente o comunismo. A partir de 1966, Cuba transforma-se em centro de apoio a revolucionários na América Latina e outras áreas do Terceiro Mundo. Che Guevara, um dos principais dirigentes da Revolução Cubana, comanda guerrilheiros no Congo e na Bolívia, onde é morto em 1967.

Fonte: lupiglauco.vilabol.uol.com.br

Revolução Cubana

O movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro, iniciado em 1956, tomou o poder em Cuba em janeiro de 1959, com a derrubada do governo ditatorial do general Fulgêncio Batista e a nomeação de Castro como primeiro-ministro.

Apesar de uma acolhida inicialmente favorável dos EUA, as relações entre o governo revolucionário cubano e Washington se deterioraram ao longo dos anos de 1959 e 1960, primeiramente devido às reformas de caráter econômico e social adotadas pelo novo governo, que afetavam diretamente os interesses econômicos norte-americanos na ilha.

Além disso, Cuba iniciou um processo de aproximação econômica e política com a URSS – o vice-presidente soviético Anastas Mikoyan visitou Havana no início de 1960 e assinou uma série de acordos de comércio e ajuda econômica entre os dois países – que se constituiu num desafio gravíssimo à manutenção da América Latina como zona de influência dos EUA.

O desafio se torna ainda mais grave quando se considera a estratégica localização da pequena ilha caribenha, tão próxima da costa da Flórida.

O conflito entre EUA e Cuba teria uma evolução dramática nos anos 60, com repercussões não apenas regionais mas também internacionais.

Os pontos culminantes foram a tentativa fracassada de invasão da ilha, por parte de exilados cubanos apoiados pela CIA, através do desembarque na Baía dos Porcos; o bloqueio econômico de Cuba decretado pela OEA em 1962; e, finalmente, a Crise dos Mísseis, em outubro de 1962, que quase levou a um confronto militar direto entre EUA e URSS.

Fonte: www.cpdoc.fgv.br

Revolução Cubana

Cuba, cuja luta pela independência foi liderada pelo poeta José Martí, foi o último país latino-americano a conseguir libertar-se da Espanha, em 1898. Os EUA, então sob a política do Big Stick de Roosevelt, conseguiram incluir na Constituição cubana de 1901 a Emenda Platt, que admitia a possibilidade de uma invasão norte-americana, além de receber dos cubanos uma área 117 Km2 – a baía de Guantanamo, ainda hoje base norte-americana em Cuba. A partir da independência, a tutela político-econômica dos EUA foi garantida por governos locais ditatoriais, como o de Fulgêncio Batista de 1934 a 1958.

Na década de 50, a oposição à ditadura cresceu consideravelmente, surgindo movimentos guerrilheiros , sob a liderança de Fidel Castro, Camilo Cienfuengos e Ernesto “Che” Guevara, que a partir de 1956 obtiveram sucessivas vitóriias e ocuparam cidades e povoados. Em 31 de dezembro de 1958, Fulgêncio Batista, derrotado, fugiu para a Republica Dominicana.

O novo governo revolucionário, apartir de 1959, definiu uma política de mudanças que se chocava frontalmente com os tradicionais interesses dos EUA no país.

A realização de reforma agrária e nacionalização das refinarias de açúcar, usinas e indústrias – maioria norte-americanas – levaram os EUA a suspender a importação do açúcar cubano. Sendo a venda do açúcar vital à economia cubana, um novo mercado precisaria surgir, e o país voltou-se para os soviéticos.

Num mundo bipolarizado, apesar da fase de coexistência pacífica, a ligação cubana aos soviéticos, bastou para o presidente John Kennedy tomar medidas radicais. Em janeiro de 1961, os EUA romperam relações diplomáticas com Cuba e, em abril, um grupo de soldados formado por exilados cubanos e mercenários norte-americanos desembarcou na Baía dos Porcos, recebendo apoia da força aérea numa tentativa de derrubar Fidel Castro.

A invasão norte-americana foi um completo fracasso, o que aumentou o prestígio de Fidel, que num discurso após a vitória, anunciou ao mundo que Cuba era socialista. Ao entrar para os socialistas, Cuba se tornaria um importante ponto estratégico para a União Soviética, que promoveu a tentativa de instalar mísseis na ilha. Esse fato desencadeou uma crise entre Kennedy e Kruschev, pondo em risco a paz mundial. Após rigoroso cerco e ameaça de desembarque, os soviéticos desistiram da idéia.

Ainda em 1962, Cuba foi expulsa da OEA sob a acusação de que disseminava a subversão pelo continente, embora contasse com aliados de peso na América.

Simultaneamente, Kennedy lançou para a América a Aliança para o Progresso, um programa de ajuda econômica que veiculava ideais norte-americanos, numa tentativa de combater as influências da Revolução Cubana sobre outras regiões do continente.

Aos poucos, estabeleceu-se um isolacionismo forçado sobre Cuba, levando o governo de Havana a apoiar os movimentos guerrilheiros que ocorriam em diversos pontos do continente, buscando subverter os poderes estabelecidos aliados aso EUA. Nesse processo, foi fundada, em 1967, a Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas), em Havana, em apoio às lutas armadas da América Latina, como na Bolívia, Colômbia e países centro-americanos onde atuava pessoalmente o líder da revolução cubana Che Guevara, que foi morto no mesmo ano na Bolívia. À atitude ofensiva cubana, os EUA responderam com uma política de apoio aos golpes militares do continente, implantando governos ditatoriais para afastar o comunismo.

No fim dos anos 60 e mais decididamente nos anos 70 e 80, governos progressistas (como Chile e Peru), decididos a escapar do alinhamento automático aos EUA, restabeleceram relações com Cuba. Reflexo das relações internacionais mais amenas, durante os governos de Jimmy Cartér e Gerald Ford, estabeleceram-se escritórios de representação de ambos os países em suas capitais. Todavia, diante da política internacional pendular, com o governo Reagan retornam-se as pressões e atritos. Os EUA militarizaram Honduras e El Salvador, como medida de pressão aos sandinistas da Nicarágua, apoiados pelos cubanos.

A nova política de enfrentamento transformou a América Central em uma região de guerra civil e crise nos anos 80. Em 1990, o apaziguamento internacional elaborado por George Bush e Mikhail Gorbatchev motivou uma pequena reversão desse quadro na região.

A Revolução cubana, na América Latina, foi uma via específica da solução aos problemas de miséria e ditadura produzidos pelo subdesenvolvimento, cujas soluções apontavam para o não-alinhamento com os EUA durante a Guerra Fria. Assim, após 25 anos de Revolução, o governo cubano pode proclamar que conseguira o fim do desemprego, da miséria e do analfabetismo.

No início dos anos 90, com as mudanças no Leste europeu e o fim da URSS, reforçram-se as pressões por reformas que eliminassem o monolitismo, obstáculo a uma abertura sintonizada com as transformações dos ex-socialistas e exigidas pelos países capitalistas.

Ao mesmo tempo em que as relações entre os ex-socialistas europeus enfraqueciam, os EUA intensificaram o bloqueio econômico iniciado em 1961, multiplicando as dificuldades de Cuba e do socialismo. Os efeitos têm sido tão negativos, que muitas conquistas sociais, econômicas e culurais até os anos 80, ou foram anuladas ou estão sob ameaça de reversão.

O colapso dos socialistas do Leste europeu e da URSS provocou uma retração econômica, próxima a 50% entre 1990 e 94.

Apesar disso, os dirigentes comunistas cubanos reafirmaram o lema revolucionário castrista “socialismo ou morte”, passando, em meados da década de 90, a buscar um reformismo econômico e a aproximação com a comunidade internacional discordante do bloqueio norte-americano. Outro mecanismo adotado pelo governo cubano foi o incremento do turismo, sendo que 750 mil visitantes entraram no país em 1994, trazendo capital que ajudou a enfrentar o bloqueio econômico.

Inúmeras pressões têm sido feitas em busca do fim do bloqueio norte-americano a Cuba, posição contrária aos que defendem que as conseqüências do mesmo culminará na queda de Fidel. Esta política é defendida pela população cubana estabelecida na Flórida, que possui peso nas eleições locais, e que influenciam na política externa dos EUA.

Já não são poucos os defensores de que as mudanças virão em seu ritmo e que o contato com o resto do mundo mudará a estrutura socialista cuban. A todo este quadro soma-se a questão da liderança e sucessão de Castro, com 70 anos de idade.

No início de 1996, devido à derrubada, pela Força Aérea cubana, de dois pequenos aviões norte-americanos pilotados por exilados cubanos anti-castro, a proposta Helms-Burton foi transformada em lei, determinando sanções às empresas e indivíduos de qualquer país que mantivesse relações com Cuba. A medida foi criticada por vários países, até por alguns parceiros comerciais dos EUA e tribunais internacionais, levantando as possibilidades de uma “guerra comercial” em época do crescimento do livre comércio no mundo.

Mesmo assim, enquanto os norte-americanos mantiam o bloqueio, o governo cubano anunciava o aumento da produção açucareira em mais de 30% em 1996, graças aos financiamentos externos, especialmente europeus.

Pádua Andrade

Fonte: www.conhecimentosgerais.com.br

Revolução Cubana

Cuba, a maior das Antilhas, na América Central, tornou-se o primeiro país a manter de forma estável um governo socialista no continente americano.

Essa opção desencadeou uma reação comandada pelos Estados Unidos, que resultou no bloqueio econômico.

Em 1818 terminava o Pacto Colonial em Cuba e o país começava a vender açúcar aos EUA, o que acabava despertando o interesse norte-americano pela região.

Em 1968 começava a primeira guerra de independência, que acabou fracassando porque idéias democráticas e, principalmente, a decisão de acabar com a escravidão cortaram o apoio da elite. Paralelamente, aumenta o interesse americano na região.

A segunda guerra de independência teve como principais causas os altos impostos, a má safra do açúcar e, conseqüentemente, o desemprego. A radicalização da luta atemorizava os EUA, que procuravam um pretexto para decretar a intervenção no país; o pretexto viria com a explosão do Couraçado Maine.

Em 1901, o senado americano aprovou a Emenda Platt que estabelecia:

1 – os EUA possuem o direito de intervir para preservar a independência de Cuba;
2 – todos os decretos dos EUA, em Cuba, durante sua ocupação militar, devem ser ratificados e validados;
3 – o governo cubano deverá vender ou alugar terras aos EUA necessárias para a extração do carvão ou para a implantação de linhas férreas.

A Emenda foi adotada em Cuba e começamos a perceber que todos os governos cubanos deveriam governar favoravelmente aos interesses norte-americanos e essa característica predominou até a revolução.

Em 1952, Fulgêncio Batista assumiu o poder e marcou o seu governo pela violência e repressão. Influenciado pelos EUA, acabou liberando o país para a ação da máfia, do tráfico de drogas e da prostituição. Nesse período, um jovem advogado, chamado Fidel Castro, abriu um processo contra o presidente Batista,a legando que o golpe de estado havia ferido o Código de Defesa Social, mas como a justiça era corrupta, Fidel perdeu e começou a perceber que para Cuba viver um processo democrático deveria passar por uma revolução.

Fidel ataca o quartel Moncada e o presídio político de Santiago, mas acaba sendo preso e condenado a 19 anos de trabalho forçado. Em 1955, ele foi anistiado e mandado para o México onde encontrou vários companheiros revolucionários cubanos e o jovem Ernesto Guevara, anti-imperialista convicto e socialista, que muito interessado em lutar por qualquer país da América contra os Estados Unidos aliasse ao movimento revolucionário de Fidel, o qual diferente de “Che”, como ficou conhecido devido ao seu sotaque, não possuía ainda rumos socialistas.

Em 1956, 82 revolucionários desembarcavam do superlotado iate Granma no litoral sudeste de Cuba, depois de uma viagem difícil e cheia de problemas acabam numa emboscada e somente 12 revolucionários prosseguem na luta.

Refugiam-se, então, nas selvas de Sierra Maestra e de lá passaram a pregar a luta contra o regime, divulgando suas idéias através de um pequeno posto emissor de rádio. Aos poucos constituíram um exército guerrilheiro que marchou em direção ao centro do país. Ocuparam cidades e aldeias e promoveram expropriações de terras distribuindo-as aos camponeses.

Auxiliados pela completa impopularidade de Fulgêncio Batista, na metade de 1958 os guerrilheiros já controlavam todas as províncias orientais da ilha e no final do mesmo ano levantes em Havana forçaram a fuga de Batista. Em 1º de janeiro de 1959 colunas guerrilheiras lideradas por Ernesto “Che” Guevara e Camilo Cienfuegos entraram em Havana apoiadas pela população.

Nos dois primeiros anos de revolução, Fidel Castro promoveu a reforma agrária e a expropriação de várias empresas norte-americanas. Em 1961, como represália, os Estados Unidos organizaram uma invasão de cubanos anti-revolucionários com o apoio aéreo norte-americano.

A invasão da baia dos Porcos, como ficou conhecida, foi rechaçada pelas forças adeptas de Fidel Castro. A partir de então o governo cubano procurou estreitar suas relações com a União Soviética em busca de auxílio material e proteção militar.

Em 1962, a Organização dos Estados Americanos expulsa Cuba de suas fileiras e os Estados Unidos obrigam a União Soviética a retirar os mísseis que havia instalado na ilha. A partir de 1964 os Estados Unidos lideram um bloqueio econômico a Cuba, praticamente impedindo qualquer relação comercial entre os países capitalistas e a ilha socialista.

O primeiro Congresso do Partido Comunista de Cuba só foi realizado em 1975; no ano seguinte, realizou-se um plebiscito em que se aprovou a nova constituição com 97,7% de votos favoráveis, 1% contra e 1,3% de abstenções.

O país conseguiu grandes avanços sociais após a Revolução de 1959. Conforme dados de 1981, Cuba conta com um médico para cada 626 habitantes e um leito hospitalar para cada 204. A fome foi eliminada, cada habitante consome 2717 calorias diárias e o país possui 8,9% de analfabetos. O produto bruto per capita é de 1500 dólares. A economia cresceu 9,7% em 1981. A dívida externa nesse mesmo ano era de 3 bilhões e 980 dólares.

Tal como a China, Cuba adotou uma postura contrária à onda reformista que atingiu a Europa oriental no final da década de 1980. Os problemas econômicos do país aumentaram rapidamente em função da decisão do governo soviético de intervir menos o possível nos destinos socioeconômicos e políticos dos demais países socialistas e reduzir drasticamente seus gastos com ajuda econômica a essas nações. A economia cubana, isolada desde 1964, quando os Estados Unidos decretaram o bloqueio econômico à ilha, e totalmente dependente da cooperação financeira soviética, viu-se muito afetada com as medidas de reconstrução econômica adotadas pelo governo Gorbatchev e posteriormente o desmembramento da União Soviética.

Fonte: www.ivanvalente.com.br

Revolução Cubana

Após ter persuadido a África do Sul a utilizar suas forças armadas para invadir Angola, com a finalidade de derrotar a revolução o imperialismo americano reagiu histericamente quando tropas cubanas interviram para apoiar o MPLA.

Este fato provavelmente inclinou a balança da guerra a favor do MPLA, resultando na eliminação do poder dos latifundiários e capitalistas em Angola.

Ao mesmo tempo, Cuba tornou-se um pólo de atração para aqueles países do Caribe, como Jamaica e Guiana, que sofreram as consequências devastadoras da recessão mundial de 1974/75. Além disso, para as massas da América Latina, prisioneiras nas garras de ditaduras militares e atormentadas pela fome e pela miséria – como na Argentina e no Chile – Cuba aparece como uma ilha de progresso e tranqüilidade.

Também nos países do mundo desenvolvido, as personalidades carismáticas da revolução cubana, como Fidel Castro e o mártir Che Guevara, contrastam favoravelmente, aos olhos de determinados setores da juventude em busca de uma saída para o impasse do capitalismo, com as figuras cinzentas de Brejnev e Kosigin.

Cuba pode servir como guia e modelo para os operários e camponeses do terceiro mundo ou para o movimento operário dos países industrializados? Qual é a natureza do regime cubano? Estas perguntas só podem ser respondidas com base numa análise cuidadosa das causas e do desenvolvimento posterior da revolução cubana.

Antes da revolução, Cuba era um paraíso para os ricos – um centro de diversão em particular para os turistas americanos – mas um pesadelo para trabalhadores e camponeses. Em 1950/54, a renda per capita de Delaware, o estado mais próspero dos Estados Unidos, era de 2279 dólares, enquanto que em Cuba, chegava apenas a 312, quer dizer, 6 dólares por semana.

Inclusive no Mississipi, o estado mais pobre dos Estados Unidos, a renda per capita situava-se em 829 dólares. 54% da população rural de Cuba não tinha nenhum tipo de instalação sanitárias em suas moradias, e doenças como a malária, a tuberculose e a sífilis eram endêmicas.

A taxa de analfabetismo era de 25%, similar à taxa de desemprego – um para quatro. Havia menos crianças nas escolas, proporcionalmente nos anos 50 do que nos anos 20. No entanto, Havana em 1954 possuía mais cadilacs que qualquer outra cidade do mundo !

Ao mesmo tempo, a terra encontrava-se concentrada em poucas mãos, em grande latifúndios: 114 latifúndios, menos de 0,1% das propriedades, ocupavam 20,1% do território. 8% do total das propriedades ocupavam 71,1% enquanto que, por outro lado, 39% das unidades agrícolas constituíam-se de pequenas explorações dos camponeses com menos de meio hectare, ocupando apenas 3,3% da terra.

Dominação imperialistaa

A economia cubana, além disso, estava sob o domínio dos grandes monopólios norte-americanos. As empresas americanas controlavam 90% das indústrias elétricas e telefônicas; perto de 50% dos serviços públicos e 40% do açúcar. Atada com laços de ferro à economia norte-americana, Cuba se viu obrigada a concentrar-se no cultivo de um só produto, o açúcar, para o mercado americano. A maior parte do açúcar cubana era exportado para os Estados Unidos, com preço e quota anual fixos.

No ápice de todo o sistema estava a ditadura do gângster Batista. Calcula-se que entre sua segunda tomada do poder em 1953 e sua derrota em 1959, mais de 20 mil pessoas morreram nas mãos de soldados e torturadores.

Cuba, na década de 50, não havia sido capaz de levar a cabo as tarefas da revolução democrático-burguesa, ou seja, reforma agrária para entregar a terra dos camponeses; libertação do domínio asfixiante do imperalismo sobre a vida política e econômica do país e desenvolvimento da indústria em linhas modernas.

A experiência da revolução russa, brilhantemente prevista pela teoria da revolução permanente de Leon Trotsky – demonstrou que, em um país atrasado, só a classe operária é capaz de dirigir a nação até o cumprimento destas tarefas. Uma vez instalada no poder e depois de ter realizado a revolução democrático-burguesa, a classe operária russa passou diretamente as tarefas socialistas – a estatização dos pontos-chave da economia – e também deu um enorme impulso ao início da revolução socialista internacional.

“Burguesia progressista?”

Contrariamente a essa experiência e aos métodos de Lênin e dos bolcheviques, o Partido Comunista Cubano – na linha da maioria dos atuais partidos comunistas da América Latina – defendia uma aliança com a chamada “burguesia nacional progressista” como a maneira de completar a “revolução anti-imperialista, patriótica e democrática”. Mas os capitalistas cubanos tinham investimentos em terras, e os proprietários dos grandes latifúndios investiam na indústria. Uma reforma agrária, com o apoio da burguesia, era impensável.

Tampouco eram capazes de dirigir uma luta contra o imperialismo americano, do qual dependiam para defender-se contra as massas cubanas. A busca da mitológica “burguesia nacional progressista” conduziu o PC cubano a uma posição de apoio aberto a Batista quando este tomou o poder em 1933.

Num primeiro momento, o dirigente do partido Blas Roca acusou Batista de “esse nacional traidor a soldo dos imperialistas”. Mas em 1938, nas discussões do comitê central do PC afirmava-se que Batista havia “deixado de ser o dirigente do campo reacionário”. Essa transformação mágica foi provocada pelo fato de Batista ter recebido suas “credenciais democráticas” do presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt. Por outro lado, a humilde procedência social do “sargento Batista” significava que podia receber a benção dos dirigentes do PC. Batista retribuiu legalizando o PC em 1938, e quatro anos mais tarde incluiu dois ministros do PC em seu gabinete.

Blas Roca – que mais tarde obteria um cargo ministerial no governo castrista – apareceu no palanque ao lado de Batista em 1943 para receber a ovação das massas. No entanto, apesar de seu apoio, Batista perde o poder em 1944.

Em contrapartida, Fidel castro foi denunciado pelo PC, em 1947, como um “gângster”. Inclusive, mais tarde, quando o PC se viu obrigado a mudar de atitude perante Castro, continuavam duvidando que Batista pudesse ser derrotado por guerrilheiros e, em novembro de 1958, propunham a formação de “um governo democrático de coalizão”.

O segundo golpe de Batista em 1952 provocou uma ampla resistência em Cuba, principalmente entre estudantes e intelectuais como Fidel Castro e seu irmão Raul. Com 120 seguidores, lançaram-se a um ataque contra o quartel de Moncada, a 26 de julho de 1953. O ataque fracassou e Castro foi encarcerado. Ao sair da prisão, viajou ao México para organizar uma força guerrilheira que entrou em Cuba em 1956.

Numa luta heróica de três anos de duração lançaram uma guerra de guerrilhas que, com o apoio do campesinato faminto, conseguiu derrotar as forças de Batista, apesar da notória superioridade destas. Alguns dos soldados de Batista, inclusive alguns oficiais, foram ganhos pelos guerrilheiros para sua luta contra o ditador.

Base Camponesa

Em 1961, enfrentando uma luta de vida ou morte contra o imperialismo norte-americano, Castro afirmaria que “sempre havia sido marxista; um marxista-leninista em seu coração”.

Ao mesmo tempo, como observa ironicamente KS Karol em seu livro “Guerrilheiros no Poder” : “…Alguns de seus companheiros que inclusive tinham menos razões para serem chamados desta maneira, afirmaram que eles sempre haviam sido marxistas sem saber, enquanto que outros nunca foram anti-comunistas e, portanto, estavam abertos à conversão…”

A verdade é que Castro, até esse momento, não havia sido mais do que um democrata radical pequeno burguês cujo ideal era a democracia burguesa dos Estados Unidos.

Assim, em uma entrevista durante a luta contra Batista, declarou ao jornalista norte-americano Herbert Mattews: “Você pode ter certeza de que não temos nenhuma animosidade contra os Estados Unidos e o povo norte-americano…Estamos lutando por uma Cuba democrática e para acabar com a ditadura” ( NY Times, 24.02.57).

Além disso, em um documento do movimento castrista – O Movimento 26 de julho – em 1956 se afirma claramente a adesão a uma “filosofia jeffersoniana”, bem como subscrevia a “fórmula Lincoln”, e proclamava o desejo de “alcançar o estágio de solidariedade entre o capital e o trabalho assalariado, com a finalidade de aumentar a produtividade”.

Mesmo depois de ter derrotado Batista, Castro declarou à Associação de Banqueiros, a 06 de março de 1959, que desejava a colaboração deles. Também afirmou, segundo o “News and World Report”, que não tinha “nenhuma intenção de nacionalizar qualquer indústria”. Quem sabe não se tratava de uma manobra astuta para enganar aos latifundiários e capitalistas? Pelo contrário, toda a evidência demonstra que Castro e seus partidários jamais enfrentaram a luta munidos com um programa socialista definido e perspectivas claras, como fizeram Lênin e os bolcheviques na Rússia.

Lênin se baseava na classe operária. Antecipava que os operários dirigiriam os camponeses pobres em seu combate contra o czarismo. Castro e Guevara apoiavam-se no campesinato e na população rural. A classe operária somente entrou na luta mediante uma greve geral em Havana, quando os guerrilheiros já haviam triunfado e Batista fugira para salvar sua vida. O papel dominante da classe operária russa, com a gestão consciente e o controle do estado e da indústria exercidos por meio dos conselhos de operários e camponeses – as instituições mais democráticas já vistas em toda a história – conduziu a um ascenso poderoso da classe operária em todo o mundo. Unidos a causa de seus irmãos russos, trabalhadores em diversos países tentaram seguir o exemplo da revolução russa.

Impasse

O fato de Castro ter chegado ao poder mediante um movimento predominantemente rural determinou todo o caráter do processo revolucionário cubano. Foi somente uma combinação peculiar de circunstâncias que forçou Castro – que de início nunca previu a possibilidade de ultrapassar os limites de uma democracia burguesa – a se colocar à testa de um movimento que expropriou os latifundiários e os capitalistas.

Por um lado, isto era consequência da total bancarrota do capitalismo cubano e sua incapacidade de achar o caminho para sair do impasse. Por outro, resultava das enormes pressões de um campesinato e de um proletariado recém-despertados para a luta. Com a derrota de Batista, os camponeses se mobilizaram para ocupar a terra e a classe operária exigiu aumentos salariais e a readmissão dos demitidos pelo velho regime.

Na primavera de 1959, 6 mil operários da Companhia Elétrica de Cuba cruzaram os braços com a finalidade de obterem um aumento de 20% nos salários, e 600 operários demitidos em 1957-58 iniciaram uma manifestação diante do palácio presidencial. As massas estavam armadas e organizadas em milícias. Enquanto isso, o representante do imperialismo norte-americano, Eisenhower, em pânico diante da radicalização das massas em Cuba, tentou pressionar e chantagear o governo cubano para conseguir-lhe a submissão.

Resistência

A crise explodiu com a questão do petróleo russo que iria entrar em Cuba, cumprindo um acordo comercial entre os dois países, firmado em janeiro de 1960.

Em junho, as quatro grandes petrolíferas ( Jersey, Standard, Texaco e Shell) pressionadas pelo governo dos Estados Unidos, se negaram a refinar o petróleo russo.

No entanto, o governo cubano “interveio” para assegurar o refino do petróleo. Em represália, as empresas se negaram a enviar petróleo da Venezuela. Cuba então fez um acordo com a Rússia, para comprar desta todo o petróleo que necessitasse.

A administração Eisenhower contra-atacou em julho com a redução da quota de 700 mil toneladas de açúcar que deveriam ser vendidas nos Estados Unidos, com base no acordo comercial citado anteriormente. Este passo foi calculado com o propósito de por de joelhos o regime castrista. Mas a Rússia interveio imediatamente e se encarregou de comprar as 700 mil toneladas. Ao mesmo tempo, no dia 06 de agosto, a Companhia Telefônica Cubana, a Companhia Elétrica e a refinaria de petróleo, junto com as usinas de açúcar – que até esse momento apenas “sob intervenção” – foram todas estatizadas. Durante os quatro meses seguintes, numa rápida sucessão de golpes e contra-golpes, levou-se até o fim a expropriação de todas as grandes empresas de capital cubano e norte-americano.

Em setembro, as subsidiárias cubanas das empresas norte-americanas foram expropriadas. O mesmo aconteceu com as empresas cubanas em outubro, e até o final de 1960 o capitalismo em Cuba havia sido praticamente eliminado. O imperialismo norte-americano reagiu declarando um boicote total ao comércio com Cuba e preparando uma intervenção militar para destruir a revolução cubana.

A pressão das massas, a debilidade do capitalismo cubano e os cálculos totalmente errados do imperialismo norte-americano, combinaram-se para empurrar o regime castrista até a expropriação dos capitalista e latifundiários. Desta maneira, percebemos em Cuba a concretização da teoria da revolução permanente de Trotsky de uma forma “sui-generis”.

A revolução democrática-burguesa somente pôde ser realizada contra a resistência dos capitalistas em Cuba e a nível internacional. Isto, por sua vez, obrigou Castro a apoiar-se nas massas para estatizar as empresas dos grandes capitalista e estabelecer uma economia planificada. Não havia nenhuma previsão consciente nem perspectiva elaborada, ao contrário do programa de Lênin e Trotsky na revolução russa. De fato, se Castro tivesse podido adivinhar, antes da revolução, um mínimo de sua evolução posterior, provavelmente teria se considerado louco.

A existência dos soviets – os conselhos operários com o controle e a gestão democrática do estado – e o fato de que as massas tinham consciência de que o destino da revolução encontrava-se intimamente ligado com a vitória da revolução mundial, foram fatores decisivos para impulsionar o movimento revolucionário da classe operária da Europa e a nível mundial depois de outubro de 1917. Os operários europeus e de todo o mundo viam que sua própria classe estava no poder na Rússia e portanto – apesar das monstruosas calúnias da classe dominante – correram em sua ajuda e tentaram imitar seus irmãos nos acontecimentos tempestuosos de 1918/19.

Invasão imperialista

A eliminação do poder dos latifundiários e capitalistas em Cuba, em 1960, provocou um terremoto em toda a América. Empenhado em liquidar a revolução na primeira oportunidade, o imperialismo financiou e armou a força invasora que desembarcou em Cuba na Praia Girón ( Baía dos Porcos), em abril de 1961.

O fato de que 1500 homens da força invasora haviam sido os proprietários de 405 mil hectares de terras, 10 mil casas, 70 fábricas, 5 minas, 2 bancos e 10 usinas de açúcar era, é claro, mera coincidência..

Mas a base de massas da revolução assegurou a derrota desta e de outras tentativas contra-revolucionárias dos imigrantes apoiados pela CIA. Sem dúvida, o regime castrista gozava de enorme apoio popular.

As massas estavam armadas e organizadas na milícia operária e camponesa que contava com 20 mil membros.

O historiador conservador da revolução cubana, Hugh Thomas, repetiu o comentário de um jovem estudante, armado, de 15 anos, em 1961: “…nós, os cubanos, somos o povo armado…” (Cuba, or pursuit of freedom, pg 1321).

Indubitavelmente, havia um elemento de controle operário nas fábricas durante o primeiro período da revolução, e cada bairro e rua possuía seu “Comitê para a defesa da revolução”.

Um indício do apoio generalizado ao regime eram os comícios em Havana a que compareciam multidões para escutar os discursos de Castro. Em um deles no qual Castro fez o discurso conhecido como “A segunda declaração de Havana”, l milhão de pessoas – de um total de 6 milhões – reuniram-se na Praça da Revolução no dia 4 de fevereiro de 1962.

Porém, ao mesmo tempo, as massas não tinham controle e nenhuma possibilidade de gestão do aparato estatal. KS Karol, em seu livro “Guerrilheiros no Poder” – que é no geral favorável a Castro e à revolução cubana – comenta a respeito de sua visita a Cuba em 1961: “…essa gente tão entusiasmada (os operários e camponeses pobres) precisariam falar de seus soviets ou de sua planificação socialista para que a revolução pudesse ser comparável com a revolução russa ou com a guerra civil espanhola. Procurei em vão, tanto nas províncias com em Havana, descobrir entre a base, indícios de entusiasmo por uma das duas coisas.

Havia um grau impressionante de apoio à revolução, mas ausência de iniciativa política, inclusive nas fileiras da milícia. E o nível um tanto primitivo do socialismo era um pouco surpreendente…”( pg 39 e 40).

O caráter plebiscitário do estado – que é uma das características de um regime bonapartista – tornava-se evidente nos comícios maciços para ouvir os discursos de Fidel Castro. Apelava-se para que os trabalhadores dissessem “sim ou não”, mas sem um verdadeiro debate para que pudessem realmente decidir as questões.

Revolução Húngara

Sem o controle e a gestão consciente das massas, o desenvolvimento de uma nova elite é inevitável. Inclusive na Rússia, com líderes brilhantes como Lênin e Trotsky, e a participação consciente da classe operária na administração da sociedade, a degeneração burocrática era inevitável enquanto a revolução permanecesse ilhada em um país atrasado.

Os bolcheviques previam que a revolução russa provocaria a revolução na Europa, e esta, por conseguinte, apoiaria a Rússia com ajuda econômica, técnica, etc… O começo do socialismo, e com ele a dissolução do aparato estatal, só é possível sobre as bases de um nível de produção superior ao maior nível de produção alcançado pelo capitalismo, quer dizer, mais elevado que o capitalismo dos Estados Unidos.

A formação dos Estados Unidos Socialistas da Europa, culminando em uma Federação Socialista Mundial, indubitavelmente levaria a esse objetivo. No entanto, o isolamento da revolução em um só país – e ainda por cima um país atrasado – conduziu à degenerescência burocrática da Rússia, personificada pela ascensão de Stálin. As massas foram afastadas a cotoveladas da sua participação na gestão do país pela elite burocrática.

Mas, em Cuba, desde o início, a gestão e o controle político estiveram nas mãos de Castro e seus seguidores, na burocracia da máquina estatal, no partido , no governo e no exército, etc…

O caráter do regime tornou-se evidente com a atitude radicalmente diferente que teve a burocracia russa em relação à revolução cubana por um lado, e à revolução húngara por outro. A existência de soviets na Hungria em 1956, com o poder nas mãos das massas, era uma ameaça mortal para a camarilha dos burocratas sem escrúpulos. Permitir o triunfo da revolução húngara significaria enfrentar sublevações similares – revoluções políticas – estendendo-se rapidamente por toda a Europa do Leste e pela própria Rússia. A burocracia não podia aceitar a revolução húngara. O “liberal” Krushev afogou a revolução em sangue.

No entanto, a burocracia russa ofereceu a sua amizade ao regime de Castro. De fato, sem a maciça ajuda russa – mais de l milhão de dólares por dia – a revolução cubana teria fracassado. 40% do comércio exterior de Cuba é com a Rússia. 95% de seu petróleo vem da mesma fonte e, segundo o acordo comercial firmado entre Rússia e Cuba para o período de 1975/80, a burocracia russa pagava 60 cêntimos o quilo de açúcar cubano, em comparação com 28 cêntimos por quilo, que era o preço anterior. Além disso, a enorme dívida com a Rússia, calculada entre 3000 e 4300 milhões de dólares, foi equacionada sob o mesmo esquema.

“Quem paga o músico escolhe a melodia”. Parece que durante uma disputa com o regime cubano, um funcionário da embaixada russa declarou de forma arrogante: “…só precisamos dizer que há um atraso de três semanas na produção de petrolífera de Bakur, e acabou-se a festa…!”

Sem dúvida, tem havido discrepâncias entre Castro e a burocracia russa – envolvendo também seus acólitos dos “partidos comunistas” da América Latina – mas a revolução cubana não apresentou nenhuma ameaça real para a elite privilegiada na Rússia. Ao contrário, o estabelecimento de um regime basicamente semelhante na ante sala do imperialismo norte-americano serviu para fortalecer o poder e o prestígio da burocracia russa.

Economia planificada

A enorme ajuda prestada pela Rússia, ao lado das vantagens que surgem de uma economia planificada, provocaram um desenvolvimento gigantesco da sociedade cubana – sobretudo quando se compara com o desemprego, a fome e a miséria que assolam o continente latino americano. Em 1975, por exemplo, a taxa de mortalidade infantil – 27,4 por mil – era uma das mais baixas em toda a América Latina.

A expectativa de vida em Cuba é atualmente de 69,2 anos, comparada com 45,3 anos na Bolívia, 58,5 na Colômbia, 59,7 no Brasil e 60,6 no Chile. Antes de 1959, a metade das crianças em idade escolar não recebia nenhuma instrução. Hoje, todos recebem educação e agora há quase 2 milhões de alunos nas escolas primárias, em comparação com os 720 mil de antes de 1959, e 79 mil professores nas escolas primárias, comparados com os 17 mil do período anterior.

As creches estão abertas a todas as crianças com mais de 45 dias de idade.

O historiador Hugh Thomas confessor: “…poucos morrem por subnutrição, e no campo, principalmente na província do oriente, os camponeses mais pobres devem estar melhor alimentados que antes da revolução… O desemprego, sem dúvida, tem diminuído, apesar da recente participação na economia de muitas mulheres que antes limitavam-se às atividades domésticas…” ( Cuba, o la búsqueda de la libertad, pg 1425).

Por exemplo, o contraste é nítido com a Argentina, onde calcula-se que o nível de vida reduziu-se em 50% aproximadamente, desde que o exército tomou o poder.

Até de uma fonte tendenciosa, uma declaração de Mr. Pat Molt, Secretário do Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano, feita em junho de 1974, obtemos uma confirmação do notável desenvolvimento de cuba desde a revolução: “…a ilha em 1973 possuía a rende per capita mais alta da América Latina (1578 dólares), com exceção da Venezuela…” . E a Venezuela encontra-se na frente de Cuba apenas devido a seus imensos recursos petrolíferos. Por outro lado, Cuba continua sendo um país predominantemente agrícola, sendo o açúcar o principal produto. Em 1974, 85% das divisas de exportação provinham da venda do açúcar.

No entanto, ao mesmo tempo, tem ocorrido um desenvolvimento da indústria. Entre 1959 e 1965, a produção industrial expandiu-se em 50%. Em 1975, a economia cresceu aproximadamente 9%. O níquel atualmente já superou o tabaco como o segundo produto de exportação mais valioso do país, depois do açúcar. Planeja-se um aumento da produção de aço no próximo período para atingir-se 1 milhão de toneladas. No entanto, por mais formidáveis que sejam esses sucessos, não são nada em comparação com o que teria sido possível com base numa democracia operária.

Uma gestão claudicante, o tremendo desperdício e os zig-zagues na política econômica são inevitáveis na ausência de planificação, vigilância, controle e iniciativa que somente são possíveis com a democracia proletária. Isto é tão necessário para uma economia planificada como o oxigênio para o corpo humano. Sem isto o corpo humano agoniza e morre.

Esta é a situação na Rússia e na Europa do Leste, onde a casta burocrática representa um freio absoluto para o futuro desenvolvimento da sociedade. Mas num país subdesenvolvido como Cuba, a burocracia pode jogar um papel relativamente progressista no desenvolvimento industrial – mediante a importação de tecnologia dos países avançados com a intenção de colocar-se ao mesmo nível que eles – , mas a um preço colossal. A péssima gestão e o desperdício têm sido evidentes desde os primeiros dias da revolução cubana.

Assim, em 1963, num arroubo de entusiasmo, Castro aceitou de Krushev a oferta de 1000 tratores para mecanizar a colheita de cana de açúcar. Mal chegaram a Cuba e se descobriu que não eram próprios para cortar a cana, que requer máquinas especiais. Ao mesmo tempo, Che Guevara – num discurso secreto destinado ao “uso privado de dirigentes políticos e econômicos” ( veja-se o livro “Guerrilheiros no poder” ) – censurou os diretores de empresas pela má qualidade de seus produtos.

Assinalou que:

“…existe neste momento uma escassez de pasta de dente(…) somente quando as reservas começam a desaparecer e as matérias-primas não entram, estes responsáveis se põem em ação (…), sem vacilar, os camaradas lograram produzir uma pasta de dente com bom sabor e que é tão limpa e branca como qualquer outra, mas que endurece em pouco tempo (…), dentro de poucos meses as pessoas vão protestar porque estamos lhes vendendo pedras em tubos…”

De cima para baixo

Guevara e castro queixavam-se dos sintomas, mas não eram capazes nem de diagnosticar a enfermidade nem prever a cura. As decisões arbitrárias e a baixa qualidade dos bens de consumo que as acompanham são inevitáveis num regime onde “os que tomam decisões” não estão sujeitos às críticas, eleição e revogabilidade por parte das massas. Também inevitáveis mostram-se as crises e os zig-zagues na política econômica que tem caracterizado o regime castrista desde o princípio.

Em 1961, Guevara previu que Cuba seria um país industrializado em 12 meses. Dada a debilidade da economia cubana, semelhante perspectiva era totalmente utópica – ainda que com a enorme ajuda da burocracia russa. Pouco depois, a política econômica voltou a concentrar-se na agricultura e principalmente no açúcar. Mas as metas de produção de açúcar eram decididas pelas cúpulas e entregues às massas.

As autênticas possibilidades de uma economia planificada somente podem ser concretizadas com base numa discussão profunda entre as massas, única forma de fazer as correções necessárias, os acréscimos, etc…. Sem esta discussão e a iniciativa das massas para implementar os projetos; erros e falhas são inevitáveis.

Este tem sido o caso de Cuba em relação à indústria do açúcar. Castro declarou que Cuba produziria 10 milhões de toneladas de açúcar antes de 1970. Contudo, mesmo levando-se em consideração a instabilidade do clima, ficou demonstrado que semelhante objetivo seria possível apenas com base na mecanização e no desenvolvimento industrial. Somente isto permitiria o desenvolvimento harmônico da agricultura conjuntamente com a indústria.

Leon Trotsky demonstrou em sua crítica aos erros de Stálin em relação à agricultura, que uma correlação adequada entre indústria e agricultura é impossível sob um regime de absolutismo burocrático.

Sem chegar ao extremo dos crimes de Stálin, Castro tentou substituir a falta de recursos industriais e tecnológicos pelo uso maciço de trabalho voluntário e às vezes forçado. Desta forma, na campanha pelos 10 milhões de toneladas de açúcar, mais de 400 mil cubanos foram mobilizados na colheita de 1970. Operários, donas de casa e jovens foram mobilizados para esse trabalho, provocando uma enorme paralisação na indústria.

Ainda assim, produziram-se somente 8,5 milhões de toneladas de açúcar, e inclusive em 1980 a meta era de 8.700.000 toneladas, uma clara demonstração da total impossibilidade de realizar os objetivos anteriores sob o atual regime.

Mais tarde, o regime lançou a “grande ofensiva revolucionária” – uma versão cubana da “revolução cultural”. As denúncias de excesso de “burocracia”, e a semi-militarização do trabalho, foram combinados com proclamações sobre a “transição para o comunismo” e uma campanha para eliminar os pequenos negócios. Em 1968 foram estatizados perto de 58 mil pequenos negócios, inclusive barracas, quiosques e 9179 artesãos autônomos!

Em seguida o governo afirmou que Cuba era a partir de então “o país socialista com o maior setor estatizado”. Mas a eliminação de cada pequeno negócio, sem ter criado previamente as condições para que as empresas estatizadas estivessem preparadas para garantir a produção dos bens – principalmente os bens de consumo – e dos serviços procedentes desses pequenos negócios, agudizou gravemente a situação de escassez generalizada de determinados produtos, o que por sua vez aumentou o descontentamento.

O objetivo da campanha era a redução dos privilégios da burocracia para acumular os recursos necessários para a industrialização e a mecanização da agricultura, e em marcha forçada alcançar os objetivos decididos de uma forma arbitrária pelo governo.

Castro fez o mesmo alarde com relação ao nível de vida. Em 1960, por exemplo, afirmou que Cuba gozaria de um nível de vida comparável ao da Suécia antes de 1965. No ano seguinte, o racionamento drástico de comida e de roupas já havia sido introduzido no país, esse racionamento continuou até os anos 70 e só terminou ou foi reduzido para alguns bens de consumo nos últimos anos.

Falta de democracia

Confrontado com este impasse, Castro viu-se obrigado a mudar de rumo. Em novembro de 1973, no “congresso sindical”, admitiu que Cuba “não estava preparada para o comunismo e devia retroceder em certos aspectos devido à inexperiência revolucionária de muitos cubanos e ao baixo nível de produção em alguns setores da economia”.

A 14 de janeiro de 1974 confessou também que agora “eram necessários mais operários para realizar os mesmos trabalhos executados quando os norte-americanos eram os proprietários”.

Em 1966, somente 4 horas de trabalho produtivo diárias eram a média nacional de Cuba. O absenteísmo havia alcançado 16% na indústria leve e 31% na indústria alimentícia.

Castro declarou em 1975: “…o povo pode substituir a qualquer um – também a mim, se quiserem…”. E fez um chamamento a favor de maior participação no processo decisório.

Na prática, não havia nenhum canal democrático para que as massas pudessem substituir os dirigentes.

Neste sentido, K.S.Karol, falando do partido comunista, comenta: “…todos os seus órgãos, desde o comitê central até o cargo mais humilde, são nomeados por Fidel Castro e seus colaboradores mais íntimos…”( Guerrilheiros no Poder, pg 458)”.

O PC cubano castrista estabeleceu-se em 1965, no entanto, seu primeiro congresso reuniu-se apenas em 1975 ! Na Rússia, mesmo durante a guerra civil, sob a direção de Lênin e Trotsky, o partido bolchevique celebrou seu congresso anualmente.

O Dro Jorge Risquet, ministro do trabalho de Castro, explicou as verdadeiras causas deste “mal estar” . Em julho de 1975, atribuiu “os problemas econômicos do país principalmente à generalizada resistência passiva dos trabalhadores”. Também admitiu que “não existia a devida colaboração entre os operários, por um lado e a administração estatal, os funcionários do partido comunista e os sindicatos por outro”.

Para funcionar como uma válvula de escape para o descontentamento acumulado contra a burocracia, em 1975 publicou-se o ante projeto de uma Constituição, segundo a qual ficava estabelecido “o poder popular”. No mesmo ano realizaram-se eleições experimentais para “assembléias municipais” na província de Matanzas. De modo geral apresentaram-se dois candidatos, mas às vezes chegaram a participar até quinze.

Partido Único

Mas havia um “pequeno problema”. Todos os candidatos precisavam ser membros do partido comunista ou de organizações constituintes deste partido, como a Liga de Juventudes Comunistas. Em outras palavras, as eleições eram uma farsa. Pode-se imaginar a indignação dos trabalhadores num país capitalista democrático se fossem informados que poderiam votar nos candidatos de apenas um partido nas eleições para as comissões de fábrica ou em congressos sindicais!

Os apologistas do regime castrista – alguns deles auto denominados “trotskystas” – contra-argumentam que Castro não vacilou em denunciar a burocracia em geral, e a burocracia russa em particular, caracterizando-as como “pseudo-revolucionárias” em outros tempos. Ademais, dizem Castro pretendeu estender a revolução por toda a América Latina, e por isso mesmo entrou em conflito com os dirigentes dos partidos comunistas da região.

Stálin, Mao Tsé Tung e Tito, todos a seu tempo denunciaram a “burocracia”. Mas atacavam os excessos de seu próprio sistema, procurando bodes expiatórios nos casos mais declarados de má administração burocrática e corrupção, com o propósito de defender de modo mais eficaz os privilégios da casta que representavam em seu conjunto. Castro enfrentou a burocracia russa quando os interesses do estado cubano encontravam-se ameaçados. Por isso, em 1962, e mais tarde em 1968, denunciou a Anibal Escalante como um arquiburocrata.

No entanto, por trás do conflito com Escalante – um líder do PC cubano antes que este se fundisse com os castristas – era um joguete da burocracia russa, fazendo eco às críticas dirigidas a Castro nos bastidores, críticas estas que denunciavam sua “ingratidão” diante dos benfeitores russos e seu “aventureirismo” na América Latina. No entanto, a maneira de acertar contas com Escalante foi uma crítica tanto aos métodos de Castro como aos do outro.

Guerra de Guerrilhas

Escalante foi acusado de ter organizado uma “microfração”, um crime que sequer existia nas leis de Cuba! É necessário comparar a atitude de Castro com a de Lênin no período da guerra civil na Rússia. Este último aceitava o direito de Bukarin, Radek e outros publicarem um jornal que argumentava apaixonadamente contra as opiniões de Lênin sobre a paz de Brest-Litovsky e outras questões relacionadas ao mesmo tema.

Por certo, no período inicial, quando a lava da revolução ainda não esfriava, vimos a publicação da segunda declaração de Havana, com sua brilhante denúncia da miséria na América latina e sua chamada à revolução. Che Guevara foi assassinado em uma aventura guerrilheira heróica mas inútil na Bolívia. No entanto, as denúncias lançadas por Castro contra os partidos comunistas oportunistas na América Latina – sobretudo na Venezuela – não se deviam ao abandono por parte destes da perspectiva revolucionária, e sim a sua negativa em aceitar a estratégia de guerrilha propugnada por Castro.

Em nenhum momento Castro buscava o motor principal da transformação socialista da América Latina na poderosa classe operária deste continente. Numa tentativa artificial de transplantar a experiência da guerrilha cubana para o resto do continente, depositava toda sua esperança no campesinato.

É necessário buscar a razão principal desta tentativa de estender a experiência da revolução cubana à América Latina, no brutal boicote comercial imposto contra Cuba pelo imperialismo norte-americano e seus satélites no continente.

Mas a política exterior é sempre uma continuação da política interna. A consolidação da burocracia cubana, junto com o relaxamento do boicote inevitavelmente trouxe como consequência uma mudança na política exterior do regime, concretizada na intenção de buscar uma acomodação com o imperialismo norte-americano e seus cúmplices na América Latina, em detrimento inclusive do apoio verbal para a revolução nesse continente.

Desta maneira, quando a ditadura militar disfarçada no México massacrou mais de 300 estudantes em outubro de 1968, não se ouviu uma só palavra de protesto por parte do governo ou do partido comunista de Cuba. Os estudantes tinham proclamado seu apoio ao regime cubano, mas o México era um dos poucos governos capitalistas que haviam mantido relações diplomáticas com Cuba. Os interesses nacionais do estado cubano eram mais importantes que a “solidariedade internacional”.

Da mesma forma houve um silêncio absoluto em Havana quando 10 milhões de operários franceses ocuparam as fábricas, provocando um terremoto no seio do capitalismo europeu e em todo o mundo. Nem mesmo uma mensagem de solidariedade foi enviada em nome do movimento estudantil, a UJC-FEU, controlada pelo estado, aos estudantes franceses!

Esta tendência se verá inevitavelmente fortalecida quando o imperialismo norte-americano enfim suspender o boicote e estabelecer relações diplomáticas em Cuba. A administração Carter está disposta a reconhecer o regime cubano no momento em que este abdicar de sua intervenção no continente americano. Com uma satisfação mal dissimulada, o imperialismo americano reconhece que o regime castrista abandonou suas antigas “aventuras” na América Latina.

Privilégios

O desencanto com Castro também começou a estender-se entre seus fervorosos seguidores guerrilheiros na América Latina. Em 1967, Castro denunciou o partido comunista venezuelano e apoiou a luta guerrilheiros de Douglas Bravo. Mas já em 1970, “segundo Bravo, os castristas deixaram de ajudar à revolução latino-americana no momento em que decidiram concentrar-se em seus próprios problemas econômicos e aproximar-se da União Soviética ” (Guerrilheiros no Poder, pg 536)

Castro mostrou claramente a natureza do seu regime com seu apoio à intervenção da burocracia russa na Tchecoslováquia em 1968.

Pouco tempo depois, um de seus ministros, Llanura, disse aos estudantes em 1968: “nós não vamos ter aqui uma Tchecoslováquia”. Estes acontecimentos não são em absoluto alguma espécie de aberração. As idéias não caem do céu. Pela boca dos líderes políticos expressam-se os interesses materiais de classes ou grupos sociais.

A burocracia cubana teme tanto a revolução socialista no Ocidente como a revolução política contra a burocracia do Leste. Qualquer das duas significaria a eliminação dos privilégios desta elite burocrática e sua substituição por uma democracia de operários e camponeses. Castro é o representante e o árbitro supremo da burocracia cubana. Tanto em relação aos grandiosos acontecimentos da França como da Tchecoslováquia, sua atitude era um indício do pavor que estes eventos provocaram no seio da crescente elite cubana.

Os elementos de controle operário, a milícia operária, etc… que existiam no primeiro período da revolução foram ou enfraquecidos ou eliminados por completo.

Assim, K.S. Karol escreve: “…os cubanos já não alardeiam sobre sua milícia operária ou seus Comitês para a defesa da revolução. Estes últimos têm agora uma função puramente repressiva…”

Os privilégios desta camada existiram desde o começo da revolução cubana. Mas com uma base econômica e cultura frágil, as diferenças entre operários e camponeses, por um lado e a burocracia por outro, não podiam ser tão grandes como na Rússia ou na Europa do Leste. Não obstante, K.S. Karol afirmou ter se encontrado em uma fábrica com um engenheiro que ganhava 17 vezes o salário de operário.

Além disso, cita outra série de vantagens e privilégios desfrutados pela burocracia, como os restaurantes de “alta categoria”, a exemplo dos ” Monseños”, o “Torre”, o “1830”, o “Floridita” e outros que cobram preços astronômicos por suas comidas. No congresso do PC cubano em 1975, foi decidido permitir aos cubanos a compra de automóveis, o que até então havia sido monopólio dos funcionários do partido e do estado.

Com o desenvolvimento da economia cubana essas diferenças, longe de desaparecer, cresceram rapidamente. Mas com a diferenciação da sociedade cubana também crescerá a oposição à atmosfera repressiva criada pelo estrato dominante de funcionários privilegiados.

Depois de uma atmosfera relativamente liberal no primeiro período, a supressão de todas as tendências dissidentes se converteu em norma. Assim, em 1962, as obras de Leon Trotsky estavam à venda em Havana e havia um florescimento da cultura e da arte. Agora, a mão morta da burocracia se faz presente por toda parte. Escritores, poetas e artistas pouco ortodoxos, como Padilla, são proibidos pelo regime. Da mesma forma que na Rússia, China e Europa do Leste, a tolerância à liberdade artística poderia provocar um movimento correspondente das massas para conseguir os mesmos direitos. A revolução húngara começou com a oposição dos escritores organizados em torno do Círculo Petofi.

A revolução cubana colocou em evidência as gigantescas possibilidades da nacionalização e planificação da produção. Ficaram mais do que demonstradas nas estatísticas os avanços conseguidos no campo da saúde, do ensino, da previdência social e do desenvolvimento econômicos. Também foi dado um grande impulso a revolução no Caribe e na América Latina.

Mas em decorrência do fato de que a revolução teve lugar num país atrasado, com uma direção que se baseava num movimento predominantemente agrário e com limitações nacionais, a degeneração burocrática era inevitável. Sem dúvida, o regime de Castro possui mais base popular que os regimes estalinistas da Rússia e Europa do leste. Mas o desenvolvimento industrial também significará o crescimento da classe operária e com elas as exigências de democracia operária.

Além disso, a revolução política na Europa do Leste e a revolução social na Europa capitalista, nos Estados Unidos ou Japão acabarão repercutindo em Cuba.

A vitória da revolução socialista na Argentina ou no Brasil, por exemplo, teria um efeito dramático em Cuba. nestes países, o peso social da classe trabalhadora é tão decisivo que a revolução socialista se desdobraria nas mesmas linhas da revolução russa. Uma vitória da classe operária em qualquer destes países seria o detonador da revolução socialista em todo o continente e conduziria a uma nova revolução em Cuba – desta vez uma revolução política – e ao estabelecimento de uma democracia operária.

Do mesmo modo que o ferro é atraído por um imã, os países da América Central e do Sul, inclusive do Norte, junto com o Caribe, ver-se-iam envolvidos na formação de uma grande Federação Socialista do Continente Americano. A revolução cubana demonstrou as tremendas possibilidades implícitas numa economia planificada. No entanto, estes recursos empalidecerão frente às enormes chances que se abririam com base numa democracia operária e uma Federação Socialista. A revolução cubana demonstra que apenas a revolução socialista e a democracia operária oferecem aos operários e camponeses da América Latina e do Caribe a possibilidade de escapar ao pesadelo do monopólio da terra pelos latifúndios e do capitalismo.

Fonte: www.sr-cio.org

Revolução Cubana

O governo de Washington, preocupado pelos freqüentes transtornos políticos de sua neocolonia, havia desenhado uma política de verdadeira tutela, chamada diplomacia preventiva, que alcançou seu ponto culminante com a designação do general Enoch Crowder para supervisionar e fiscalizar ao governo de Alfredo Zayas (1921-1925), quarto presidente cubano, cuja administração sería cenário de transcendentais movimentos políticos;

O repudio generalizado à ingerência norte-americana e a corrupção governamental deram lugar a diversas correntes de expressão das reivindicações nacionalistas e democráticas. O movimento estudantil manifestava um forte radicalismo que, estruturado no propósito de uma reforma universitária, extravasaria rapidamente o marco em que havia surgido para assumir francas projeções revolucionárias sobre a direção de Julio Antonio Mella

O movimento operário, cujas raízes se remontavam às décadas finais do século XIX, havia seguido também um curso ascendente – marcado pela greve dos aprendizes em 1902 e a da moeda em 1907 entre as mais importantes -,que mais tarde chegaram a constituir uma verdadeira investida devido a inflação gerada pela I Guerra Mundial.

O avanço ideológico e organizativo do proletariado, na qual se deixavam sentir os ecos da Revolução de Outubro na Rússia, cristalizaria na constituição de uma central operária nacional em 1925.

Coincidentemente, e como expressão da conjunção das correntes políticas mais radicais do movimento, personificadas em Mella e Carlos Baliño, se constituiria em Havana o primeiro Partido Comunista.

Os mal-estares político e social tinham causas muito profundas. A economia cubana havia crescido muito rapidamente durante as primeiras décadas do século, estimulada pela reciprocidade comercial com os Estados Unidos e a favorável conjuntura criada pela recente guerra mundial. Não obstante esse crescimento era extremamente unilateral, baseado de modo quase exclusivo no açúcar e nas relações mercantis com os Estados Unidos. Por outro lado, os capitais norte-americanos que haviam afluído à Ilha com ritmo ascendente eram os principais beneficiários do crescimento, tendo em vista que controlavam 70% da produção açucareira além de sua infra-estrutura e os negócios paralelos.

O bem-estar econômico derivado deste processo – do qual dão testemunho as luxuosas casas de El Vedado -, além de muito desigualmente distribuído, revelaria uma extraordinária fragilidade. Ele se pôs em manifesto em 1920, quando uma brusca queda no preço do açúcar provocou um crack bancário que despejou com as instituições financeiras cubanas. Pouco depois, quando a produção açucareira do país alcançava os 5 milhões de toneladas, ficou evidente a saturação dos mercados, claro indício de que a economia cubana não podia continuar crescendo sobre a base exclusiva do açúcar. A opção era o estancamento ou a diversificação produtiva, mas essa última alternativa não era possível, pois não era permitido pela monopolização latifundiária da terra e a dependência comercial dos Estados Unidos.

A ascensão de Geraldo Machado à presidência em 1925 representa a alternativa da oligarquia frente à crise latente.

O novo regime, intenta conciliar em seu programa econômico os interesses dos distintos setores da burguesia e o capital norte-americano, oferece garantias de estabilidade às classes médias e novos empregos às classes populares, todo ele combinado com uma seletiva mas feroz repressão contra adversários políticos e movimentos opositores.

Sob uma auréola de eficiência administrativa, o governo conseguiu impor limites ás lutas dos partidos tradicionais, assegurando-lhes o desfrute do pressuposto estatal mediante a fórmula do cooperativismo. Com o consenso que obteve, Machado dicidiu reformar a constituição para perpetuar-se no poder.

Não obstante os êxitos parciais alcançados durante os primeiros anos de mandato, a ditadura machadista não conseguiu silenciar a dissidência dos políticos excluídos e muito menos conter o movimento popular.

Acusados pelos excessos cometidos pelo regime e a rápida deteorização da situação econômica sob os efeitos da crise mundial de 1929 (Grande Depressão), essas forças mostraram crescente beligerância.

Com os estudantes e o proletariado como suportes fundamentais, a oposição a Machado desencadeou uma interminável sucessão de greves, intenções inssurecionais, atentados e sabotagens.

A ditadura respondeu com um aumento da repressão, que chegou a níveis intoleráveis. Em 1933, o cambaleante regime de Machado estava a ponto de dar espaço a uma revolução. Alarmada pela situação cubana, a recém estreada administração de Franklin D. Roosevelt designou B. Summer Welles embaixador em Havana, com a missão de encontrar uma saída para a crise, dentro dos mecanismos tradicionais de dominação neocolonial.

Mas a mediação de Welles se viu ultrapassada pelos acontecimentos: Em 12 de agosto, Machado fugia do país, derrotado por uma greve geral..

O governo provisório que criaram os setores direitistas da oposição, sob os auspícios do embaixador norte-americano sobreviveria apenas um mês. Um levantamento das classes e soldados do exército, junto ao Diretório Estudantil Universitário e outros grupos insurrecionais levou ao poder um governo revolucionário presidido por Ramon Grau San Martín.

Este governo, principalmente pela iniciativa de Antonio Guiteras, secretário de Governo, aprovou e pôs em prática diversas medidas de benefício popular, mas, hostilizado pelos Estados Unidos e pela oposição e vítima em grande medida de suas próprias contradições internas, só pode sustentar-se alguns meses no poder. Fator fundamental na queda desse governo sería o ex sargento Fulgencio Batista – promovido obscuramente do dia para a noite, coronel chefe do exército -, quem exerceu sua influência negativa no processo político.

Os partidos oligárquicos restaurados ao poder, a pesar do irrestrito apoio norte-americano expressado na abolição da Emenda Platt, e as medidas de estabilização econômica – principalmente o sistema de cotas açucareiras e um novo tratado de reciprocidade comercial-, mostraram uma franca inaptidão no exercício do governo.

Por esta razão, os destinos do Estado seriam efetivamente regidos por Batista e seus militares. Mas esta forma autoritária se revelou incapaz de oferecer uma saída estável à situação cubana. O que conduziu a uma transação com as forças revolucionárias e democráticas – debilitadas por divisões internas – que seriam plasmadas na Constituição de 1940. Com essa nova Carta Magna, que recolhia importantes reivindicações populares, se abriu um novo período de legalidade institucional.

O primeiro governo desta etapa esteve presidido por Fulgencio Batista, cuja candidatura havia sido respaldada por uma coalizão de forças que participavam os comunistas. Esta aliança, todavia reprimiu importantes conquistas ao movimento operário, não foi compreendida por outros setores populares, e se converteu em fator histórico de divisão entre as forças revolucionárias.

Durante o governo de Batista, a situação econômica experimentou uma melhoria propiciada pela estourada da II Guerra Mundial, conjuntura que beneficiaría ainda mais seu sucessor, Ramón Grau San Martín, que foi eleito em 1944 graças ao amplo respaldo popular que lhe adiquiriam as medidas nacionalistas e democráticas ditadas durante o governo anterior. Nem Grau, nem Carlos Prío Socarrás (1948-1952) – ambos líderes do Partido Revolucionário Cubano (autêntico) – foram capazes de aproveitar as favoráveis condições econômicas de seus respectivos mandatos.

As tímidas e escassas medidas reformistas apenas afetaram as estruturas de propriedade agrária e de dependência comercial que bloqueavam o desenvolvimento do país.Aproveitaram-se, em troca, da bonanza econômica que reportava a recuperação açucareira para saquear os fundos públicos em magnitudes sem precedentes.

A corrupção administrativa se complementava com o auspicio de numerosas quadrilhas gângsteres, que os autênticos utilizaram para expulsar os comunistas da direção dos sindicatos em meio a propícia atmosfera da guerra fria. O repúdio à vergonhosa situação imperante foi canalizado pelo movimento cívico político da ortodoxia, cujo carismático líder, Eduardo Chibás, se suicidaria em 1951 em meio de uma fervente polêmica com personagens governamentais.

Todavia todos prognosticavam o triunfo ortodoxo nas eleições de 1952, as esperanças foram frustradas por um golpe militar. O descrédito em que a experiência autêntica havia sumido nas fórmulas reformistas e as instituições republicanas, assim como a favorável disposição fazia um governo de “mão dura” por parte dos interesses norte-americanos e alguns setores da burguesia mestiça, favoreceram as ambições de Fulgencio Batista, quem assomado à uma frente militar, roubou o poder em 10 de março de 1952.

Movimento revolucionário 1953-1958

A inércia e incapacidade dos partidos políticos burgueses para enfrentar o regime batistista – ao qual aderiram alguns destes partidos – contrastou com a beligerância dos setores populares, em especial da jovem geração que recém nascia para a vida política.

Nasce um movimento

De suas fileiras nasceu um movimento de novo tipo, encabeçado por Fidel Castro Ruz (Birán, 1926), um jovem advogado cujas primeiras atividades políticas haviam se desenvolvido no meio universitário e às filas da ortodoxia.

Preconizando uma nova estratégia de luta armada contra a ditadura, Fidel Castro se pôs à silenciosa e tenaz preparação dessa batalha.

Ataques à Moncada

As ações se desencadeariam em 26 de julho de 1953, com os ataques simultâneos aos quartéis de Moncada, em Santiago de Cuba e Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamo, concebidos como estopim de uma vasta insurreição popular. Ao fracassar a operação, dezenas de combatentes que foram feitos prisioneiros terminaram assassinados. Outros sobreviventes, entre os quais se encontrava o querido comandante Fidel Castro, foram julgados e condenados a severas penas de prisão.

“Lá História me absolverá”

No julgamento que se seguiu, o jovem líder revolucionário pronunciou uma brilhante alegação de auto-defesa – conhecido como “La História me absolverᔠ-, no qual fundamentava o direito do povo à rebelião contra a tirania e explicava as causas, vias e objetivos da luta empreendida. Essa alegação se converteu no programa da revolução.

Cuba durante a ditadura de Fulgencio Batista

Entretanto, a ditadura enfrentava crítica conjuntura criada pela queda dos preços do açúcar com a fórmula (escrita em entrelinhas) de restrição produtiva. Para combater seus efeitos depressivos, o governo inicia uma mobilização compulsiva de recursos financeiros que, em proporção apreciável, terminariam nos bolsos dos personagens do regime. Não obstante o fomento de novos renglones produtivos nas décadas precedentes, a economia cubana, ungida ao açúcar, não alcançava um crescimento satisfatório.

Evidência máxima disto era a massa de desempregados e sub-empregados que já, a meados da década de 50, chegaria a constituir a terceira parte da força trabalhista do país. Na miséria vivia a maioria dos trabalhadores rurais cubanos durante a república neocolonial, vitimas das expulsões, a falta de trabalho e a enorme exportação por latifundiários e colonos estrangeiros e da platéia com o respaldo dos governos burgueses dependentes.

Eleições ilegítimas de 1954

O desejo da tirania por legalizar seu status mediante ilegítimas eleições em 1954, serviria ao menos para aplacar sua vontade repressiva. A circunstancia foi aproveitada pelo movimento de massas que em 1955 ascendeu de maneira significativa e logrou a anistia dos presos políticos – entre eles, os combatentes de Moncada – e representaram greves operárias de grande importância, sobre tudo no setor açucareiro.

Nasce o Movimento Revolucionário 26 de Julho

No mesmo ano, foi fundado o Movimento Revolucionário 26 de Julho, constituído por Fidel Castro e seus companheiros, e um ano mais tarde se cria o Diretório Revolucionário, que agrupa os elementos mais combativos dos estudantes universitários.

Conspiração no exército

A desacertada política de ascensões, o estímulo a exaltar o nepotismo, o favoritismo, a bajulação e a falta de preparação técnica e profissional de alguns dos principais chefes e oficiais do exército, constituíram elementos que influíram na decisão de um grupo de oficiais com preparação acadêmica conspirar por melhorar a profissionalidade da instituição. Esses oficiais chamados “Puros” podiam ser localizados principalmente no Acampamento Militar de Columbia, a Fortaleza da Cabana e nas escolas militares.

Entre eles se destacavam: José Ramón Fernández, José Orihuela, Enrique Borbonet, Ramón Barquín, Manuel Varela Castro, entre outros. Uma denúncia provocou a detenção de todos os conspirados e o aborto do plano revoltoso.

Ataque ao quartel de Domingo Goicuría

Outro feito que preocupou ao regime batistiano foi o ataque ao quartel “Domingo Goicuría” em 29 de abril de 1956. Uns 50 homens por volta das 12:00 atacaram e tentaram ocupar o quartel “Goicuría”. A imensa maioria dos combatentes eram militantes da organização autêntica (AO) e estavam sob comando de Reinold García.

A ação resultou em fracasso porque eram esperados, a prova esta no saldo da ação: 17 combatentes mortos sem nenhum ferido, enquanto o exército não teve baixas. O ataque a esse quartel, sede do Regimento nº 4 da Guarda Rural, em Matanzas, constituiu um elemento que estimulou os órgãos de inteligência e repressão atuar com mais energia e, em particular, a desarticular, neutralizar e não subestimar aos grupos conspiradores pertencentes aos autênticos.

Expedição libertadora

Após demonstrar a impossibilidade de toda a luta legal contra a tirania, Fidel Castro marcha até o México com o propósito de organizar uma expedição libertadora e iniciar a guerra revolucionária. Por sua vez, os partidos burgueses da oposição, ensaiam uma nova manobra conciliadora com Batista em busca de uma saída “política” para a situação. O fracasso terminaria por afundá-los no desprestígio.

Fonte: www.geocities.com

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